Você está na página 1de 15

1

Liceu Literário Português


TEXTO
Curso de Especialização em Língua Portuguesa
Disciplina: Sintaxe do Português 3
Professora: Rita Mérida

Classes e funções: relações morfossintáticas1

1. Morfossintaxe: inter-relacionamento da morfologia e da sintaxe

Em texto anterior (Texto 1: “Gramática e sintaxe: alguns comentários”), comentou-se


que, na organização das sentenças empregadas na prática discursiva, o falante tem
liberdade na seleção das palavras, entretanto precisa obedecer a certas diretrizes que
regem a sua elaboração, como os princípios gramaticais de concordância, de regência e de
colocação, além de um adequado relacionamento entre as classes de palavras e as funções
que desempenham na estrutura oracional. Daí é importante destacar o inter-
relacionamento de duas áreas de análise linguística – morfologia e sintaxe – para uma
plena e efetiva avaliação das unidades lexicais participantes dos diversos discursos quanto
à sua classe e função.
A morfossintaxe corresponde ao
nível de análise linguística relacionada às
áreas da morfologia e da sintaxe, isto é, O inter-relacionamento dessas duas perspectivas
de análise – a morfológica e a sintática –
analisa as palavras quanto à estrutura, à
possibilita o reconhecimento das classes
formação e à classe gramatical a que gramaticais segundo suas características
pertencem como também em relação às sintáticas.
funções que desempenham nas orações
de que participam.
Assim, o substantivo e o pronome substantivo, por exemplo, são termos nucleares
do sujeito e dos complementos, enquanto os artigos e os advérbios assumem a função de
adjuntos; já os adjetivos podem desempenhar a função de adjuntos e de predicativos. A
forma mais adequada, portanto, de determinar a classe gramatical de uma palavra é
analisar a função sintática que desempenha no segmento oracional de que faz parte.

2. As classes gramaticais e as suas funções na sentença

Evidentemente, a afirmação de que as unidades da língua devem ser analisadas em


relação ao seu papel no contexto da oração não significa desconsiderar as características
estruturais que justificam a sua presença numa determinada classe gramatical. A
observação da função que desempenham na oração garante, porém, uma melhor
identificação da classe gramatical a que pertencem.

1
Os recursos de destaque constantes no presente texto – uso de itálico, caixa alta, sublinhado, etc. – são
recursos de organização que não obrigatoriamente correspondem aos mesmos empregados nas obras
consultadas, inclusive nas citações, cujos textos, entretanto, são fidedignos.
2

2.1 Substantivo

É a palavra variável em gênero, número e grau que nomeia todas as espécies de


seres, quais sejam entidades reais ou imaginárias (homem, casa, livro, Deus, fada, bruxa) e
demais substâncias, estados, qualidades, ações, sensações e processos (ar, fogo, saúde,
bondade, brancura, compra, distância, facada).

2.1.1 Funções sintáticas do substantivo

Na oração, o substantivo ocupa posição nuclear das seguintes funções:

a) sujeito:
As vendas aumentam no final do ano.
As consequências desse novo vírus ainda são desconhecidas.
A lua branca e as muitas estrelas do céu deixam menor a escuridão da noite.

b) predicativo do sujeito:
Este livro parece um tijolo.
Aqui todos nós somos sempre alunos.
Ele tornou-se um bom professor.

c) predicativo do objeto:
A população elegeu-o presidente.
A torcida considera aquele jogador um herói.
O prefeito nomeou seu filho secretário da Casa Civil.

d) objeto direto:
Professores da rede pública sugerem um novo currículo nacional.
Voluntários escreveram cartas.
Todos lamentaram a morte do ator.

e) objeto indireto:
Toda criança gosta de brincadeiras ao ar livre.
Voluntários escreveram cartas aos muitos imigrantes.
Inocentemente, ainda acreditamos nas promessas dos políticos.

f) complemento nominal:
Este livro é impróprio para crianças.
Votou favoravelmente à greve.
A descoberta da vacina revolucionou a ciência moderna.
3

g) agente da passiva:
Os filhos são amados pelos pais.

As cartas foram escritas por muitos voluntários.

O evento será patrocinado por empresas privadas.


h) adjunto adverbial:
Falou-se muito sobre política.

Na saída da boate, um assaltante levou o meu carro.

Ele chegou à cidade ao amanhecer.

i) adjunto adnominal:
Ela retornou à casa dos pais.

A resposta do candidato nos incomodou.

O clima da montanha é favorável à saúde.

j) aposto:
João e Ana, pais do menino, viajaram.

Tiradentes, herói da Inconfidência, é patrono da polícia militar.

Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, usava uma imponente barba.

k) vocativo:
Candidatos, entreguem as provas.

Saiam já daí, crianças!

“Pai, afasta de mim esse cálice


De vinho tinto de sangue.”
(Cálice – Chico Buarque2)

2.2 Adjetivo

Palavra variável em gênero, número e grau empregada para indicar atributos ou


propriedades dos seres, ou seja, caracteriza as possibilidades designativas do substantivo.
Exemplos: vasto oceano, dentes fortes, viagem marítima, festas natalinas.

→ Locução adjetiva: combinação de preposição e substantivo (ou equivalente) com


função de adjetivo. Algumas locuções apresentam adjetivo equivalente, como em homem
de coragem (= corajoso), águas de chuva (= pluviais), energia do sol (= solar), entretanto
nem sempre é possível encontrar um adjetivo de significado idêntico ao da locução
adjetiva: mesa de madeira, piano de cauda, caixa de papelão.

2
Disponível em: <https://www.culturagenial.com/musica-calice-de-chico-buarque/>. Acesso em: 5/2/2020.
4

2.2.1 Funções sintáticas do adjetivo/ locução adjetiva

O adjetivo ou a locução adjetiva podem assumir as seguintes funções sintáticas:

a) adjunto adnominal:
Coisas assustadoras acontecem naquela casa.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos.”
(Podres poderes – Caetano Veloso3)
Ela serviu a bebida num copo de plástico.

b) predicativo do sujeito:
O dia está ensolarado.
Os candidatos ficaram satisfeitos com os resultados das pesquisas.

c) predicativo do objeto:
Os candidatos acharam os resultados das pesquisas satisfatórios.
O professor considera excelente aquela turma.
O policial encontrou-o morto.

2.3 Artigo

É a palavra que precede o substantivo de forma a determinar seu número (singular


ou plural) e seu gênero (feminino ou masculino). Exemplos: a alface, a cal, o formicida, o
mármore.

2.3.1 Funções sintáticas do artigo

Por se referir ao substantivo, o artigo exerce sempre a função de adjunto adnominal


do substantivo a que se relaciona:

“Tire um sono na rede


Deixa a porta encostada
Que o vento da madrugada
Já me leva pra você...”
(Espere por mim, morena – Luis Gonzaga Jr.4)

3
Disponível em: <https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44764/>. Acesso em: 5/2/2020.
4
Disponível em: <http://www.beakauffmann.com/mpb_e/espere-por-mim-morena.html>. Acesso em:
5/2/2020.
5

2.4 Numeral

Palavra que indica os seres em termos numéricos, isto é, atribui quantidade ou os


situa em determinada sequência. Exemplos: dois, décimo segundo, duplo, dois terços.

2.4.1 Funções sintáticas do numeral

Na oração, o numeral pode desempenhar funções sintáticas do substantivo ou do


adjetivo, caso apareça como constituinte nuclear ou acessório de um determinado termo:

Um é pouco, dois é bom, três é demais.


 sujeito  sujeito  sujeito
Ela já digitou as cem páginas.
 adjunto adnominal

2.5 Pronome

É a palavra variável em gênero, número e pessoa que representa (pronome


substantivo) ou acompanha (pronome adjetivo) o substantivo, indicando-o como pessoa
do discurso:
“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa.”
(Bom conselho – Chico Buarque5)
Essa violência terá solução?

2.5.1 Funções sintáticas do pronome

2.5.1.1 Pronome pessoal do caso reto:

a) sujeito:
Nós estudamos bastante.

b) predicativo do sujeito:
Eu não sou ele.

c) vocativo:
Tu, pássaro-mulher de leite!
[...]
Tédio escuro, mal da vida-fonte!”
(Invocação à mulher única – Vinícius de Moraes6)

5
Disponível em:<http://www.chicobuarque.com.br/letras/bomcons_72.htm>. Acesso em: 5/2/2020.
6
Disponível em: <http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia-avulsas/invocação-mulher-única>.
Acesso em: 5/2/2020.
6

2.5.1.2 Pronome pessoal do caso oblíquo7:

a) objeto direto:
Os convidados nos esperavam.
Os vizinhos a estimavam muito.
Abraçou-me carinhosamente.

b) sujeito de infinitivo:
Mandaram-me sair da sala.
Deixou-nos ouvir a palestra.

c) objeto indireto:
Entreguei-lhes o dinheiro.
Contaram-me outra história.

d) adjunto adnominal:

“O pardalzinho nasceu livre.


Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água ,comida e carinhos.”
(O pardalzinho – Manuel Bandeira8)

e) complemento nominal:
Tu me és fiel?
Tenho-lhe muito respeito.

2. 5.1.3 Pronome de tratamento:

Pode desempenhar as funções sintáticas do substantivo (sujeito, objeto direto,


objeto indireto, etc.):
Ele sempre foi leal a você.
 complemento nominal
Sua Excelência, o governador, não recebeu os grevistas.
 sujeito

7
Explicações mais detalhadas sobre o pronome oblíquo átono como sujeito de infinitivo e como adjunto
adnominal (de sentido possessivo) serão apresentadas em texto futuro, que abordará os termos da oração.
8
Disponível em:<https://www.recantodasletras.com.br/gramatica/3888118>. Acesso em: 5/2/2020.
7

2.5.1.4 Pronome possessivo:

a) adjunto adnominal:
“Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.”
(Canção do Exílio – Gonçalves Dias9)
Observação:
Substituindo um substantivo, o pronome possessivo desempenha as funções
sintáticas típicas dessa classe (sujeito, objeto direto, objeto indireto, etc.). Nesse caso,
normalmente haverá uma estrutura paralela: uma com a citação do substantivo; a outra,
com o pronome possessivo adjetivo. Exemplo:
Este é o meu trabalho. O seu, o professor já corrigiu.
 objeto direto

2.5.1.5 Pronome demonstrativo:

Os pronomes demonstrativos variáveis podem desempenhar as funções sintáticas


do substantivo (sujeito, objeto direto, objeto indireto, etc.) ou do adjetivo (adjunto
adnominal e predicativo):
Este livro é de geografia; aquele é de matemática.
 adjunto adnominal  sujeito

Os pronomes demonstrativos invariáveis desempenham as funções sintáticas do


substantivo (sujeito, objeto direto, objeto indireto, etc.):
Aquilo nos impressionou.
 sujeito

Não escutei isso!


 objeto direto

2.5.1.6 Pronome relativo:

a) sujeito:
“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim
que amava Lili que não amava ninguém.”
(Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade10)

9
Disponível em: <https://www.infoescola.com/livros/cancao-do-exilio/>. Acesso em: 6/2/2020.

10
Disponível em: <http://carlosdrummonddandrade.blogspot.com/2016/01/quadrilha-analise.html>. Acesso
em: 6/2/2020.
8

b) objeto direto:
Chegaram as pessoas que convidei para o evento.

“Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer...”
(Brasil – Cazuza11)

c) objeto indireto:
Esta é a família de cuja generosidade dependem aquelas pobres crianças.

Os verdadeiros amigos, nos quais confiamos plenamente, são raros.

d) complemento nominal:
Reprisaram o programa a que fizemos alusão.

O governo cancelou o benefício do qual a população tinha necessidade.

e) predicativo do sujeito:
Admiro o grande homem que você é.

f) agente da passiva:
A polícia capturou os rapazes pelos quais os passageiros foram agredidos.
Este é o jornal por que fui homenageado.

g) adjunto adverbial:
As casas em que viviam os pescadores foram demolidas.
A maneira firme com que defendeu o rapaz causou admiração.

h) adjunto adnominal:
O proprietário cuja casa aluguei me ofereceu um bom desconto.

2.5.1.7 Pronome indefinido:

Conforme apareça na oração acompanhando (pronome adjetivo) ou substituindo


(pronome substantivo) um substantivo, poderá desempenhar as funções sintáticas típicas
dessas classes de palavras:
Nenhuma testemunha compareceu.
 adjunto adnominal
Ninguém comentou o acidente.
 sujeito

11
Disponível em: <https://www.vagalume.com.br/cazuza/brasil.html>. Acesso em: 6/2/2020.
9

2.5.1.8 Pronome interrogativo:

● QUEM: sempre empregado como substantivo, desempenhando, portanto, funções


sintáticas substantivas:
Quem denunciou o assaltante?
 sujeito
A mulher avistou quem daquela distância?
 objeto direto

● QUAL: geralmente empregado como adjetivo, exercendo a função de adjunto


adnominal:
Qual caneta é a minha?
 adjunto adnominal

2.6 Verbo

Palavra variável que indica um fato situado num determinado tempo, exprimindo
ação, estado, fenômeno ou mudança de estado:
Todos fugiram da seca.
O jogador está nervoso.
O atleta ficará curado.
Nevou naquela cidade do sul.

O verbo é a classe de palavras que apresenta o maior número de flexões: tempo,


modo, número, pessoa e voz.

2. 6.1 Funções sintáticas do verbo

Há verbos significativos (nocionais ou de ação), que expressam uma determinada


informação a respeito do sujeito a que se referem; e outros relacionais (ou de ligação/
copulativos/ predicativos/ de cópula), que atuam como ligação entre o sujeito e um
atributo que lhe caracteriza (o predicativo do sujeito).
Os verbos de conteúdo significativo ocupam posição nuclear no predicado verbal e
no predicado verbo-nominal:
Os noivos receberam os presentes.

Os noivos receberam felizes os presentes.

Os noivos acharam os presentes muito bons.

Os verbos de função relacional não funcionam como núcleos do predicado. Dessa


forma, nos predicados nominais em que aparecem, o núcleo será sempre o predicativo do
sujeito:
Os noivos estavam felizes.
 núcleo do predicado nominal
10

Observação:
No predicado verbo-nominal, o verbo significativo é um dos núcleos; o outro
constituinte nuclear é o predicativo (do sujeito ou do objeto):

Os noivos receberam felizes os presentes.


 receberam: 1º núcleo do predicado verbo-nominal (verbo significativo)
 felizes: 2º núcleo do predicado verbo-nominal (predicativo do sujeito)

Os noivos acharam os presentes muito bons.


 receberam: 1º núcleo do predicado verbo-nominal (verbo significativo)
 muito bons: 2º núcleo do predicado verbo-nominal (predicativo do objeto)

2.7 Advérbio

É a palavra invariável que se refere ao verbo, ao adjetivo, a outro advérbio ou a uma


declaração inteira, expressando diferentes circunstâncias: cá, ali, aqui (lugar); bem, mal,
depressa (modo); agora, amanhã, sempre (tempo); muito, bastante (intensidade); etc.

→ Locução adverbial: expressão geralmente constituída de preposição e substantivo com


valor e emprego de advérbio. Exemplos: em breve, às vezes (tempo); em silêncio, às cegas
(modo); ao lado, à direita, à esquerda (lugar); etc.

2.7.1 Funções sintáticas do advérbio

O advérbio ou a locução adverbial exercem a função sintática de adjunto adverbial:

“Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o número da casa


da cabocla...”
(Esaú e Jacó, p. 2 – Machado de Assis12)

2.8 Preposição

É a unidade linguística desprovida de independência – não pode aparecer sozinha


no discurso –, que se junta a substantivos, adjetivos, verbos e advérbios para marcar as
relações gramaticais que desempenham no discurso. A preposição subordina um termo a
outro na oração:

O chefe da nação sentiu-se ameaçado.


Crianças gostam de doces.

12
MACHADO DE ASSIS. Esaú e Jacó. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000030.pdf>. Acesso em: 6/2/2020.
11

→ Locução prepositiva: grupo de duas ou mais palavras com valor ou função de uma
preposição, que sempre é a última palavra da expressão: acerca de, além de, ao invés de, a
respeito de, de acordo com, junto a, etc.

As preposições não desempenham função sintática e podem relacionar:

a) um verbo a seu complemento: Acredito em Deus.


b) um nome a seu complemento: A crença em Deus tranquiliza o homem.
c) uma oração principal a uma oração subordinada reduzida: Ninguém aprende sem
estudar.
d) um verbo auxiliar ao principal em uma locução verbal: Estava a caminhar na beira da
praia.

Observação:
A preposição é considerada um transpositor pelo fato de poder habilitar uma
determinada unidade linguística a desempenhar papel gramatical diferente do que
normalmente exerce. Em homem de coragem, a preposição de permite que o substantivo
coragem exerça o papel de adjunto adnominal do substantivo homem – função
geralmente desempenhada pelo adjetivo.

2.9 Conjunção

As conjunções têm a função de reunir orações num mesmo enunciado e não


exercem função sintática. Classificam-se em coordenativas e subordinativas.
As conjunções coordenativas são elementos conectores; reúnem orações
independentes que podem aparecer em enunciados separados, como no exemplo:
Pedro fez concurso para medicina e Maria se prepara para a mesma profissão.

O segmento poderia ser estruturado em dois enunciados independentes:

Pedro fez concurso para medicina.


Maria se prepara para a mesma profissão.

Observação:
Além de reunir orações num único enunciado, a conjunção coordenativa também
pode conectar termos de mesma função sintática, como em:

Pedro e Maria fizeram concurso para medicina.


 conecta os dois substantivos: núcleos do sujeito

Por sua vez, as conjunções subordinativas são elementos transpositores de


enunciados verbais que cumprem uma determinada função sintática nominal (de
substantivos, de adjetivos ou de advérbios) em relação a outro segmento constituinte do
período.
Em Vimos que os alunos chegaram, a segunda parte do segmento poderia figurar
sozinha: Os alunos chegaram. No entanto, ao participar do enunciado complexo (Vimos
12

que os alunos chegaram), essa parte perde a característica de enunciado independente: de


oração passa a palavra, pois exerce a função de objeto direto do verbo (Vimos).
Daí, a conjunção subordinativa ser um transpositor de um enunciado verbal que
passa à função de palavra: a oração subordinada que introduz exerce uma das funções
sintáticas próprias do substantivo, do adjetivo e do advérbio.

2.9.1 Conjunções coordenativas:

a) aditivas (ideia de soma, adição): e, nem, não só... mas também, não apenas... mas ainda.
Exemplo: Saio feliz e volto cansada.
b) adversativas (ideia de oposição, contraste): mas, porém, contudo, todavia, no entanto,
entretanto. Exemplo: Assisti ao filme, mas não o compreendi bem.
c) alternativas (ideia de alternância, ações excludentes): ou, ou... ou, ora... ora, quer... quer.
Exemplo: Compro ou alugo um imóvel?
d) conclusivas (ideia de conclusão de um pensamento): logo, portanto, por isso, pois
(após o verbo). Exemplo: “Penso, logo existo”13 (René Descartes).
e) explicativas (ideia de explicação, razão, motivo): que, porque, porquanto, pois (antes do
verbo). Exemplo: Não brinque com fogo, porque é perigoso.

2.9.2 Conjunções subordinativas:

a) integrantes (fazem parte da regência de um verbo ou nome; introduzem uma oração


substantiva): que, se. Exemplos:
Afirmamos que ele viria hoje.
Não tenho ideia de que curso farei.
b) causais (exprimem causa, razão): como (= porque), que, porque, pois, visto que, já que,
uma vez que e desde que (com verbos no indicativo). Exemplo:
Ela escorregou, porque pisou numa casca de banana.
c) comparativas (introduzem o segundo elemento de uma comparação): que/ do que
(após mais, menos, maior, menor, melhor, pior), qual/ como (após tal), como/ quanto (após
tanto, tão), como (= igual a), assim como. Exemplo:
“O medo é a arma dos fracos, como a bravura a dos fortes.”14
(Marquês de Maricá)
d) concessivas (exprimem obstáculo real ou suposto incapaz de anular a declaração
contida na oração principal): ainda que, embora, posto que, se bem que, mesmo que,
apesar de que, conquanto. Exemplo:
“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.”
(Livro dos Salmos- 23:4)

13
Disponível em: <https://super.abril.com.br/cultura/penso-logo-existo/>. Acesso em: 6/2/2020.
14
Disponível em: <https://www.pensador.com/frase/OTY2Ng/>. Acesso em: 6/2/2020.
13

e) condicionais (introduzem ideia de condição ou hipótese para a realização da


informação constante na oração principal): se, caso, sem que, dado que, contanto que,
desde que e uma vez que (com verbos no subjuntivo). Exemplo:
“Se os homens não tivessem alguma coisa de loucos, seriam incapazes de
heroísmo.”15
(Marquês de Maricá)

f) conformativas (exprimem ideia de conformidade com o fato expresso na oração


principal): como, conforme, segundo, consoante. Exemplo:
Fez os exercícios conforme o professor mandou.

g) consecutivas (introduzem oração que exprime consequência ou efeito do fato expresso


anteriormente): que (após tal, tanto, tão, tamanho). Exemplo:
Ela comeu tanto que passou mal.

h) temporais (indicam o tempo da realização do fato expresso na oração principal): antes


que, assim que, quando, mal, logo que, sempre que. Exemplo:
Quando disse isso, ninguém acreditou.

i) finais (iniciam oração que expressa o objetivo, a finalidade da declaração constante na


oração principal): a fim de que, para que, que (= para que). Exemplo:
Caminhou a passos largos para que chegasse rapidamente a casa.

j) proporcionais (introduzem oração que expressa um fato que ocorre, aumenta ou


diminui na mesma proporção do que se declara na oração principal): à proporção que, à
medida que, ao passo que, (tanto mais)... quanto mais, (tanto mais)... quanto menos, etc.
Exemplo:
À proporção que estudava, falava com mais segurança.

2.10 Interjeição

Palavra invariável dotada de existência autônoma que exprime emoções, sensações,


estados de espírito: ai!, ah!, hum!, oba!, olá!, tomara!. A rigor, por si só constitui verdadeira
frase e não desempenha função sintática no segmento de que participa.
Pode acontecer de uma mesma interjeição apresentar diferentes sentidos em
função do contexto de sua enunciação, como Psiu!, que pode ser um chamamento ou um
pedido de silêncio)

→ Locução interjetiva: grupo de palavras com valor de interjeição, admitindo as mesmas


características de invariabilidade e a mesma função de exprimir as mais diversas sensações.
Exemplos: ai de mim!, cruz credo!, quem me dera!, puxa vida!, meu Deus do céu!.

15
Disponível em: <https://www.mundodasmensagens.com/frase/503ggoj32/>. Acesso em: 6/2/2020.
14

3. Referências bibliográficas:

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, 2. ed., São Paulo:
Publifolha, 2008.

______. Fundamentos de gramática do português. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

______. Iniciação à sintaxe do português. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

BANDEIRA, Manuel. O pardalzinho. Disponível


em:<https://www.recantodasletras.com.br/gramatica/3888118>. Acesso em: 5/2/2020.

BARBOSA, Francisco de Assis (Org.). Melhores poemas de Manuel Bandeira. 15. ed. São
Paulo: Global, 2003.

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.

______. Lições de Português pela análise sintática. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2014.

BERLINCK, R. de A.; AUGUSTO, M. R. A.; SCHER, A. P. Sintaxe. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A.
C. (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. v. 1. São Paulo: Cortez, 2001.

BÍBLIA SAGRADA. 201. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2013.

BORBA, Francisco da Silva. Introdução aos estudos linguísticos. 11. ed. Campinas: Pontes,
1991.

______. Teoria Sintática. São Paulo: EDUSP, 1979.

CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe. 8. ed. São Paulo, Editora Ática, 1999.

CASTILHO, Ataliba T. A língua falada no ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 2. ed. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

DUARTE, Paulo M.T.; LIMA, M. C. Classes e categorias em português. 2. ed. Fortaleza: UFC,
2003.

GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. 26. ed. Rio de Janeiro: FGV,
2006.

HENRIQUES, Claudio Cezar. Sintaxe: estudos descritivos da frase para o texto. Rio de
Janeiro; Elsevier, 2010.

IGNÁCIO, S. E. Análise sintática em três dimensões. 2. ed. Franca: Ribeirão Gráfica Editora,
2003.
15

INFANTE, U. Do Texto ao Texto: curso prático de leitura e redação. São Paulo: Scipione,
1991.

KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. São Paulo: Cortez, 1984.

LUFT, C. P. Moderna Gramática Brasileira. 2. ed. São Paulo, Globo, 2002.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. Disponível em:


<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000030.pdf>. Acesso em:
6/2/2020.

MATEUS, Maria Helena Mira et alii. Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial
Caminho, 2003.

NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática na escola. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1994.

RIBEIRO, Manoel Pinto. Gramática Aplicada da Língua Portuguesa. 13. ed. Rio de Janeiro:
Metáfora, 2003.

VILELA, Mário. Estudos de Lexicologia do Português. Coimbra: Almedina, 1994.

Sites consultados:

<https://www.recantodasletras.com.br/gramatica/1590637>. Acesso em 10/01/2018.

<https://www.culturagenial.com/musica-calice-de-chico-buarque/>. Acesso em: 5/2/2020.

<https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44764/>. Acesso em: 5/2/2020.

<http://www.beakauffmann.com/mpb_e/espere-por-mim-morena.html>. Acesso em:


5/2/2020.

<http://www.chicobuarque.com.br/letras/bomcons_72.htm>. Acesso em: 5/2/2020.

<https://super.abril.com.br/cultura/penso-logo-existo/>. Acesso em: 6/2/2020.

<https://www.pensador.com/frase/OTY2Ng/>. Acesso em: 6/2/2020.

https://www.mundodasmensagens.com/frase/503ggoj32/

<http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia-avulsas/invocação-mulher-única>.
Acesso em: 5/2/2020.

<https://www.infoescola.com/livros/cancao-do-exilio/>. Acesso em: 6/2/2020.

<http://carlosdrummonddandrade.blogspot.com/2016/01/quadrilha-analise.html>. Acesso
em: 6/2/2020.

<https://www.vagalume.com.br/cazuza/brasil.html>. Acesso em: 6/2/2020.