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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM


CEFIEL
Centro de Formação Continuada de Professores
Alfabetização e Linguagem
Rede Nacional de Formação Continuada de
Professores de Educação Básica

Leitura e leitores

Fonte: Folha de S. Paulo, 31/01/02.

A tirinha acima ilustra um aspecto muito importante das atividades verbais: aquele
que diz respeito ao conhecimento (lingüístico, enciclopédico) necessário para a
interpretação dos enunciados. O personagem erra ao supor que seus ouvintes têm
familiaridade com aquilo que está dizendo, como saber quem é John Coltrane ou o que
é um estilo de longas frases tocadas em legato. Esse “erro de cálculo” pode
comprometer o ‘sucesso’ da interação: no caso da tirinha, o personagem corre o sério
risco de ser ignorado, de não chamar a atenção de seus ouvintes.
Para produzir e interpretar enunciados não basta conhecer a gramática e as palavras
de uma língua. Também é preciso mobilizar outros saberes, perceber a adequação ou
não de determinadas enunciações a diferentes contextos, fazer hipóteses e antecipações.
Como os sentidos são construídos na interação e não dados a priori, o produtor de um
texto deve antecipar que saberes o leitor deve dispor para interpretá-lo. Feitas as
hipóteses, e a partir delas, aparece todo um trabalho de constituição, de escolhas, muitas
vezes não-consciente. O conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mundo diz
respeito àquilo que é preciso saber sobre o assunto tratado para que o texto possa ser
lido sem maiores dificuldades. Trata-se de um conhecimento que engloba também as
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práticas, as características do meio social em que vivem os participantes das interações.


A falta desse conhecimento explica, por exemplo, a não-compreensão de textos que
exploram ou tematizam traços particulares de uma dada cultura/sociedade. Observe o
texto abaixo. Trata-se de um arquivo que circulou na Internet com o título Robinho no
real.

Para entender do que se trata a brincadeira com a nota de real é preciso dispor de
algumas informações, como a de que a figura que nela aparece, o craque Robinho,
encontra(va)-se na época da circulação do texto em um processo complicado de quebra
de contrato com seu clube, o Santos FC, por conta de uma proposta milionária do Real
Madri. Torcedores santistas mais fanáticos sentiram-se traídos e o ‘amor’ ao craque deu
lugar a críticas (até mesmo agressivas) como a brincadeira Robinho no real.
Assim, pode-se dizer que todo texto delineia, mostra um leitor, aquele que a
‘decifração’ do texto implica. Também a composição, como o texto se organiza,
depende de como o autor imagina (avalia) seu leitor (ou ouvinte). Vejamos os textos
abaixo:
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Texto 1:

Sem barra

Enquanto a formiga
carrega comida
para o formigueiro,
a cigarra canta,
canta o dia inteiro.

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.

Mas sem a cantiga


da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga!

( Paes, José Paulo. Olha o bicho. ed. Ática, 1994)

Texto 2:

Perdeu-se um gatinho

O meu gatinho sumiu!


O que é que eu faço agora?
Onde será que ele está?
Por que é que ele foi embora?

Sinto muita falta dele


Do ronronzinho gostoso
Da lambidinha na mão,
Do seu pelinho sedoso (...)

(Bandeira, Pedro. Mais respeito, eu sou criança! Ed. Moderna, 1995)

Observe que os textos, embora dirigidos ao mesmo público-alvo, não delineiam o


mesmo leitor. O texto 1 constrói-se sobre um outro texto, certamente conhecido da criança:
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a fábula da cigarra e da formiga. A voz que fala no poema recupera essa história, e os
sentidos a ela atribuídos, isto é, um tipo de saber cristalizado, aceito como a verdade (só
aqueles que trabalham duro merecem ser recompensados). Esse ponto de vista começa a ser
problematizado na segunda estrofe (A formiga é só trabalho/A cigarra é só cantiga.), em
que o só aponta tanto para a exclusividade das ações relatadas, trabalhar e cantar, como
para o estado no qual se encontram as duas personagens: separadas e sozinhas.Na última
estrofe, surge um outro ponto de vista, oposto e ‘mais importante’ que o anterior (aparece
introduzido pelo mas): o um precisa do outro.
Observe a diferença entre o tom da voz que fala no primeiro poema e no segundo: é
completamente diferente. Neste último parece tratar-se de um “coitadinho” (a imagem de
criança que emerge do texto).
Sendo assim, o primeiro texto aposta mais no seu leitor, acredita que ele pode refletir
sobre verdades estanques; estabelece com ele uma relação simétrica, de igual para igual:
não se dirige a um “pobrezinho”, mas a uma criança.
Nas atividades de leitura e produção, o professor deve discutir com os alunos como os
textos se organizam tendo em vista diferentes públicos, que leitores supõem, que recursos
podem ser mobilizados para aproximá-los de diferentes leitores. As atividades que
aparecem em seguida procuram exemplificar como esse trabalho poderia ser encaminhado.

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