Você está na página 1de 183

«FILOSOFIA IL RELIGIÃO».

R i U o t'c.
t'c. for L E O N A R D O COIM BRA 

RÉGIS JOLI
JOLI V E T
DI’.tANO
. tANO DA FAC. DE FILO SOF IA DA UN IV. CATÓLICA DE LIÃO

 As
 Asmwmm
mwmms
s
MISTMMLISmS Prefácio de DELFIM SANTOS

 A S O R / G E N S DO E X I S T E N C I A L I S M O
I. SÕRE
SÕ REN
N KIERKEGAA
KIER KEGAARDRD
11.
11. FREDERIC
FRED ERICO
O NIETZSCHE
NIET ZSCHE

 A S D O U T R I N A S E X I S T E N C I A L I S T A S 
I. MARTINI
MARTINI 10 HEIDEGGER
I I. J0 Â 0-P A U L 0 SART
SARTRE
RE
III.
III. CARLOS
CARLOS JASPERS
JAS PERS
IV. GABRIEL MARCEL
«FILOSOFIA E RELIGIÃO»
Biblioteca fundada jior L E O N A R D O C O IM B R A
"V ^
1 -4 «S/ÍO
«S/ÍO T O M A
M A Z D E A Q U I N O » — I n i c i a ç ã o a o E ê t u d o d a S u a
F i g u r a e d a S u a O b r a — por  João A meal,
meal, da Academia Portu
guesa da História, 3.“ edição .........................
.....................................
.............. ................... ... .. 60

2  « o  M U N D O I N V I S Í V E L » — A
 «o Teologia Católica Perante o >
E s p ir
ir it
it is
is m o C o n t e m p o r â n e o — pelo Cardeal Alexis Lépicier,  *
o. s. m.,  traduzido do inglês pelo professor Eduardo Pinheiro.
3." edição, br....................................................................., ................................ 40

3— « P A R A A L Ê M D A C I Ê N C I A . . . » , por Louls de Broglie (Prémio * 1


Nobel),  A . D . S crti
crt i lange
lang es, O . P ., membros do Instituto de França, * 
e Daniel-Rops, Raymond Chãrmet, Pierre Dsvaux, André Thérive, - #
traduz
traduzid
idoo do francês pelo
pelo profassor Eduardo
Edu ardo Pinheiro, 2 .“ edição, br. , 30,

4— « O R T O D O X I A » ,   por Gilbert Keith Chesterton,  traduzido


do inglês
pelo professor Eduardo Pinheiro e prefaciado por  Jo
 J o ã o A m ea l,
2.* edição, br.............................
br........................................
.......................
.......................
.......................
.......................
.......................
...................
....... 30

5 — « F R E U D » — E s t u d o C r í ti
t i c o d a P s i c a n á l i s e — por Rudolph
 A V er s,   professor de Psicologia na Universidade Cató<i«a de
Washington, traduzido do inglês pelo professor Eduardo Pinheiro,
2 .a edição, br.............................
br........................................
.......................
.......................
.......................
.......................
.......................
...................
....... 30

6 — « B E R G S O N » — A I n t u i ç ã o C om í s i c a — por
om o M é t o d o n,a M e t a f ís ,,
Diamantino Martins, S. da F ac ul da de de Fi lo so fia , b r..... r............................... 30

7 — «O DESESPERO HUMANO», por  Sór


 S óreen K i er k eg aard,
aar d, traduzido
por Adolfo Casais Monteiro, 3.“ edição, br ................................................ 35

8 — « À S D O U T R I N A S E X I S T E N C I A L I S T A S » — D e K i e r k eg eg a a r d
a S a r t r e - p o r Régis )olivet,   da Universidade Cató'ica de Lião,
traduzido por Antóáio Vasconcelos e Lencastre. Prefácio,do Prof.
D r. De lfim S a n t o s .......
...........
........
.......
.......
.......
......
......
......
......
......
.......
.......
......
......
......
......
.......
........
.......
.......
.......
......
......
......
......
.......
.... . . 60

9 — « N 1 E T S C H E , F I L Ó S O F O D A C U L T U R A » , por David Copples -


ton, S. J„ traduzido pelo professor Eduardo Pinheiro ..................... 40

E m prepar
preparaçação
ão • ' '
« D E U S . O H O M E M , O U N I V E R S O » ,  sob a direcção de  Jacque
 Jacquess
Bivort de la Saudée, com a colaboração de /. Huby, H. de Lübac,
 Jacque
 Jacquess L eclerc, A . A mou,
mou , G . V andebr
andebroe oekk ,  etc.
«FILOSOFIA E RELIGIÃO»
Biblioteca fundada jior L E O N A R D O C O IM B R A
"V ^
1 -4 «S/ÍO
«S/ÍO T O M A
M A Z D E A Q U I N O » — I n i c i a ç ã o a o E ê t u d o d a S u a
F i g u r a e d a S u a O b r a — por  João A meal,
meal, da Academia Portu
guesa da História, 3.“ edição .........................
.....................................
.............. ................... ... .. 60

2  « o  M U N D O I N V I S Í V E L » — A
 «o Teologia Católica Perante o >
E s p ir
ir it
it is
is m o C o n t e m p o r â n e o — pelo Cardeal Alexis Lépicier,  *
o. s. m.,  traduzido do inglês pelo professor Eduardo Pinheiro.
3." edição, br....................................................................., ................................ 40

3— « P A R A A L Ê M D A C I Ê N C I A . . . » , por Louls de Broglie (Prémio * 1


Nobel),  A . D . S crti
crt i lange
lang es, O . P ., membros do Instituto de França, * 
e Daniel-Rops, Raymond Chãrmet, Pierre Dsvaux, André Thérive, - #
traduz
traduzid
idoo do francês pelo
pelo profassor Eduardo
Edu ardo Pinheiro, 2 .“ edição, br. , 30,

4— « O R T O D O X I A » ,   por Gilbert Keith Chesterton,  traduzido


do inglês
pelo professor Eduardo Pinheiro e prefaciado por  Jo
 J o ã o A m ea l,
2.* edição, br.............................
br........................................
.......................
.......................
.......................
.......................
.......................
...................
....... 30

5 — « F R E U D » — E s t u d o C r í ti
t i c o d a P s i c a n á l i s e — por Rudolph
 A V er s,   professor de Psicologia na Universidade Cató<i«a de
Washington, traduzido do inglês pelo professor Eduardo Pinheiro,
2 .a edição, br.............................
br........................................
.......................
.......................
.......................
.......................
.......................
...................
....... 30

6 — « B E R G S O N » — A I n t u i ç ã o C om í s i c a — por
om o M é t o d o n,a M e t a f ís ,,
Diamantino Martins, S. da F ac ul da de de Fi lo so fia , b r..... r............................... 30

7 — «O DESESPERO HUMANO», por  Sór


 S óreen K i er k eg aard,
aar d, traduzido
por Adolfo Casais Monteiro, 3.“ edição, br ................................................ 35

8 — « À S D O U T R I N A S E X I S T E N C I A L I S T A S » — D e K i e r k eg eg a a r d
a S a r t r e - p o r Régis )olivet,   da Universidade Cató'ica de Lião,
traduzido por Antóáio Vasconcelos e Lencastre. Prefácio,do Prof.
D r. De lfim S a n t o s .......
...........
........
.......
.......
.......
......
......
......
......
......
.......
.......
......
......
......
......
.......
........
.......
.......
.......
......
......
......
......
.......
.... . . 60

9 — « N 1 E T S C H E , F I L Ó S O F O D A C U L T U R A » , por David Copples -


ton, S. J„ traduzido pelo professor Eduardo Pinheiro ..................... 40

E m prepar
preparaçação
ão • ' '
« D E U S . O H O M E M , O U N I V E R S O » ,  sob a direcção de  Jacque
 Jacquess
Bivort de la Saudée, com a colaboração de /. Huby, H. de Lübac,
 Jacque
 Jacquess L eclerc, A . A mou,
mou , G . V andebr
andebroe oekk ,  etc.
«FILOSOFIA E RELIGIÃO»
NOVA SÉR IE 8.° VOL.

 AS
 A S DOUTRINAS 
EXISTENCIALISTAS
DE KIERKEGAARD A SARTRE
DO MESMO AUTOR
LIVRARIA EMMANUEL VITTE
Essai sur le Bergsonisme,  1931.
Études sur le Problème de Dieu dans la Philosophie contemporaine,   1932.
LÉglise du Christ,  par J. Lippert (tradução), 1933.
Cours de Philosophie,  4.* edição, 1947.
Traité de Philosophie
Tom os I — Logique et Cosmologie.
Tomos
II — Psychologie.
III — M étaphysi
taphys i que
que.
IV — M orale
or ale..
Vocabulaire de la Philosophie.  1946.
UVRARIA DESCLÉE DE BROUWER:

Le Thomisme et la Critique de la Connaissance,   1933.


D i eu, solei
solei l des
des espri
spri ts,  1934.
Les Sources de l'idéalisme,   1936.
 Saint
 Sai nt A ugusti n. C ontra A cadê cadêmicos.
mi cos. D e beata
beata vita.
vi ta. D e O r dine.
di ne.  Texto,
tradução, introdução e notas, 1939.

LIVRARIA GABRIEL BEAUCHESNE :

La notion de Substance.   Essai historique et critique sur développement des


doctri
doctrine
nes,
s, d’Aristote à nos jours, 1929. (Premiado
(Prem iado pela
pela Académie des
des
Sciences morales et politiques).
 A la r echer
cher che de Di
D i eu,  1930.
L’Intuition intellectuelle et le problème de la Métaphysique,   1935.
Le problème du mal d’après Saint Augustin,   1936.
LIVRARIA J. VRIN:

Essais sur les rapports entre la pensée grecque et la pensée chrétienne,


1931.

UVRARIA DENOËL :

 Saint
 Sai nt A ugusti
ugust i n et le N éo-platonisme
o-platoni sme chré
chr éti en,   1932. (Premiado pela Aca
démie Française).

EDIÇÕES DE FONTENNE
FONTENNELLE
LLE :

Introduction à Kierkegaard,  1946.


RÉGIS JOLIVET
Decano da Fac. de Filosofia da Unio. Católica de Li&o

 ÄS
 Ä S BOUTRINAS 
 MS
 MSTMCIALI
DE
ALISTAS
KIER KEGAARD A SARTRE

Prefácio de
P r o f .  D r . D e l f i m S a n t o s

1 95 3
LIVRARIA TAVARES
TAVARE S M ARTINS— PORT
PO RTO
O
O original desta obra Intitula-se
LES DOCTRINES EXISTENTIALISTES

T r a d u ç ã o p o r t u g u t s a de
 ANT
 ANTÓN
ÓNIO
IO DE QUEIR
QUEIRÓS
ÓS VASC
VASCON
ONCE
CELO
LOSS li LENCASTRE

Direitos exclusivos da
LI V R A R I A T A V A R E S M A R T I N S
para Portugal e Brasil
PREFACIO

 A  po
 p o s içã
iç ã o exist
ex isten
enci
cial
al na filo
fi loss o fia
fi a con
co n tem
te m porâ
po rânn ea é conco n se-
se -
quência das situações limites do idealismo e do realismo,
demarcantes, durante séculos, do pensamento filosófico oci
dental. Tanto uma como outra destas tendências extremas, e
suas posições intermédias, formularam metodologicamente
esquemas de abstracção e de generalização que deixavam o
mistério da existência humana «entre parênteses», isto é, como
algo que deveria ser tratado posteriormente em função dos
resultados gerais das concepções idealistas ou realistas acerca
do mundo e das coisas. O primado da objectividade c a pas
sagem por subrepção do metodológico a ontológico, com a
desvalorização do « real» no idealismo e a desvalorização do
«ideal» no realismo, levaram inevitàvelmente a «existência» a
ser considerada atributo entre atributos, e o homem, demitido
da sua unicidade, a identificar-se como coisa entre coisas e a
aplicar a si um método de conhecimento que só às coisas
dizia respeito.
 Já
 J á K a n t m ostr
os trar
araa q u e a exis
ex istê
tênn cia
ci a n ã o é p r edic
ed icaa d o . ou
determinação de qualquer coisa , e que as relações de todos
VIII PREFÁCIO

05  predicados ao sujeito não designam por si algo existente,


 porque o sujeito deve, como existente, ser previamente admi
tido, embora insusceptível de demonstração, dada a incomen-
surabilidade entre a razão, que é função neutralizadora da
existência e redutora desta à essência, e a existência, que é 
acto absoluto e irredutível a qualquer conceptualização ou
artifício racional. Nunca os predicados por si determinam se
 pertencem a um sujeito existente ou simplesm ente possível.
Nesta indeterminação radica a impossibilidade de a existên
cia ser considerada predicado ou atributa, ou equiparada
nocionalmente à essência, problema que surge actualmente na
questão da precedência da existência relativamente à essência,
especialmente tratado no capítulo referente a Sartre.
De facto, a essência não garante a existência, nem a
existência garante a essência, como ocorre na dialéctica nocio-
nal da escolástica. Tema problematizado em novos termos na
 filosofia actual, embora os novos termos recordem certas
 posições na história da filosofia, e mormente da filosofia de
S. Tomás, que, relativamente a este problema, tem posição
original e distinta. A existência não é acidente a atribuir à
essência, mas a essência acidente a atribuir ao existente. As
noções de existência e de essência, e a consequente neutra
lização da existência pela essência, pendor irresistível do
 pensamento filosófico da idade moderna ,  pressupõem o mesmo
níoel a duas noções originàriamente diferenciadas e cuja
ordenação é oposta à tradicionalmente admitida. O verbo
latino  «esse» tem nisso grave responsabilidade. «Esse», que
significa existir, segundo Gilson, não provém de ressentia»,
mas é «essentia» que provém ou deriva de   «esse». O mesmo
PREFÁCIO IX

é dizer que a possibilidade não é anterior ao existente ,  pois


 possibilidade pressupõe o existente e tem no existente a sua
origem.
Os esquemas gerais estruturados em íntima coerência
 pela filosofia não serviam a hermenêutica do existente , isto è,
a interpretação do homem na sua situação concreta do «estar-
-no-mundo», situação que, por incómoda, era também deixada
«entre parênteses» nos grandes sistemas. Esta situação con
creta, inapreensível pelos ramos divergentes da dicotomia
abstractiva, e irredutível ao plano nacional em que radica a
dicotomia classificatória, era inevitavelmente subsumida e con
siderada como «contingência», sempre de menos valor, por
tanto, em relação às verdades necessárias pela abstracção
 fàcilm ente fornecidas. A correcção desta pretensa anomalia
conseguia-se, pior ou melhor, com a análise progressiva do
complexo humano, análise que permitia úteis e convenientes
dissociações, que pretensamente garantiam o valor supremo
da necessidade lógica. A lógica, porém, é apenas jogo nocio-
nal, e tanto mais significativo quanto mais abstracta .  A exis
tência humana é tanto mais significativa quanto mais concreta
e irredutível a identificações. Sartre afirma: «nenhum ser 
necessário pode explicar a existência; a contingência não é 
aparência enganadora que se possa dissipar: é o absoluto e,
 por consequência, a gratuidade perfeita».
 Ante o perigo de subordinação do objectivo ao subjectivo
e o perigo de subordinação do subjectivo ao objectivo, a filo
sofia preferiu, a partir do século passado, a aventura do
segundo, — porqu e não lhe parecia aventura, — apostando na.
segurança e na comodidade aparente da positiva objectividade.
PREFÁCIO

 M as fá cil ê notar que o primado do objectivo, como exigência


do senso comum laivado de ciência e garantido demonstrativa-
mente pela lógica, é expediente alienante e deturpante do
 próprio subjectivo, sempre sujeito da opção, e, como sujeito
livre, sem medida comum com o universo construído pela
conceptualização apropriada ao sólido e maciço. É simples
mente um produto de «má-fé», de duplicidade «nojenta» que
tittbordina, na terminologia de Sartre, o «por-sh ao «em-si»,
a liberdade à necessidade apodítica, sua construção. O mate
rialismo, uma das consequências, é dedução inevitável quando
o  ponto de partida é a objectividade, e esta se empresta ao
que é apenas ideia, e mesmo ideia geral abstracta, como1é o
caso da noção de matéria, noção arbitrária, sem conteúdo nem
 possibilidade de apreensão ou sensível verificação, embora
tenha servido para estruturar ideologicamente uma pseudo
objectividade aparentemente anti-idealista mas falsamente
realista.
 A recusa à redução do homem ao plano conceptual das
coisas e à subsumpção idealista ou realista, que, neste caso, se
equivalem como agentes de deturpação da existência humana,
é característica da filosofia existencial desde Kierkegaard e
das perspectivas diversas que, a partir do pensador dina
marquês, se estruturam em Heidegger e Sartre, Jaspers e
 Mareei, enquanto reivindicação dos direitos d a subjectivid ade,
sempre ponto de partida absoluto do existente em sua radical
temporalidade, quer esta existência seja ou não admitida como
 participação divina. E mesmo quando esta particip ação divina
é negada, como explicitamente em Sartre, isso acontece
 por exigência de coerência interna do ponto d e partida
PREFÁCIO XI

existencial impeditivo de qualquer extrapolação fácil; a partir 


da existência, Sartre admite que o projecto fundamental do
homem é ser Deus. E chamamos a atenção do leitor interes
sado para as páginas em que se trava vivo diálogo entre o
católico Jolivet e o ateu Sartre, páginas de grande interesse,
 pois a negatividade age logicamente sobre conceitos e não
sobre a «existência», que está para além da «paixão inútih da
afirmação ou negação. Aliás, afirmar é negar a negação Èo
que se afirma, como negar é afirmar a afirmação do que se
nega. E afirmar ou negar a «ideia» de Deus, pois afirmação
e negação só às ideias se referem, tem recíproca equivalência.
Deus, como existente, não pode ser subsumido pela «ideia»
sempre imperfeita da sua apreensão, como a filosofia exis
tencial o afirma para a existência humana.
 A dualização abstractiva, momento permanente em recor
rência na história da filosofia, com as artificiais oposições
do mundo e do homem, do corpo e da alma, da matéria e do
espírito, do ideal e do real, da essência e da existência, da
 potência e do acto, etc., e a neutralização inevitável do
segundo pelo primeiro termo destas oposições, isto é, pela
valorização do que é susceptível de ser tratado por métodos
de planificação lógica, por métodos laboratoriais em exer
cício de dessorado experimentalismo, ou reduzido a quanti
 ficação estatística enganosa e falsificante, teve as consequên
cias que, neste momento, não é preciso inventariar, mas que
o leitor descobrirá. Contrariando-as surgiu a filosofia exis
tencial que, no insuspeito testemunho do autor deste livro,
 podemos considerar como «dialéctica da existência que obsti
nadamente concentrada sobre o mais concreto existir procura
PREFÁCIO

desvendar, neste próprio existir, o sentido mais profundo da


vida humana », e que, para isso, deslocando os eixos de refe
rência tradicionais do idealismo <e do realismo, parte d o único
absoluto que ultrapassa estas posições e é delas origem.
Decerto, o existencialismo não é uma filosofia do tipo
«coerente» dos sistemas tradicionais, e nunca o poderá ser,
 porque é no domínio do alógico, em funda cifra de mistério,
mediante a angústia, o desespero, a preocupação, a morte, a
náusea, a liberdade, o fracasso, o absurdo, a esperança, que
 pretende descobrir o fundamento da autenticidade.
Se assim não fosse, o existencialismo seria apenas mais
um sistema a juntar a outros, e a «má-fé» do construtivismo
lógico continuaria a fornecer a máscara de definitivo e aca -
bado ao que não tem fim nem cabo. Um sistema é conclusão,
é elaboração de resultados a partir dé um ponto de chegada
a que se chama ponto de partida. A filosofia existencial
refere-se ao ponto de partida e opõe-se decididamente ao
sentido tradicional da progressão extrapolativa. O seu siste
mático, quando exigido na comunicação com outrem, é 
regressivo como acontece nos seus melhores representantes
e eloquentemente no silêncio de Heidegger. Os equívocos a
que tem dado origem a interpretação do « existencialismo »
resultam, em parte, da designação em «ismo», atribuída a
titulo de classificação, como é característico da intenção
avassalante e universalizante do sistematismo habitual. Na
verdade, a designação de «existencialismo», como englobante
das tendências da filosofia existencial, é imprópria e con
ducente a equívocos que levam à suposição, por vezes
insinuosa e intencional, de identidade com outras formas de
PREFÁCIO XIII

 pensamento filosófico já estruturado em sistema final e


refutado ou sem qualquer valor especulativo.
 A designação preferível seria «filosofia existencial» com
determinativos especificantes do ponto de partida que dá sen
tido à análise ou hermenêutica da existência humana, do
mistério do existir, diferente do acto de viver, e com referên
cia ao nível ontológico, ou à destruição da ontologia, ou à
admissão de uma ontologia fenomenológica, considerada esta
 possível. O que perturba os mantenedores da tradição filosó
 fica sob a form a d e professores, não professos em autentici
dade, é a necessidade urgente e a cómoda conveniência, não
admissível, de reduzir o novo a esquema já elaborado e, deste
modo, com mal contido ressentimento e agressiva calúnia,
substituir ao ponto de partida de aprofundamento do ainda não
compendiado certo número de considerações em forma de con
clusão ou resultado, que nem são uma\ nem outra coisa, para
evitar o trabalho, não fácil, de compreender o que representa,
na filosofia contemporânea, o esforço mais vigoroso e pro
 fu ndo de investigação invalidante do muito que as histórias
da filosofia facilmente fornecem. Muitas vezes, o mesmo se
tem verificado a propósito do que, alterante do estabelecido,
se classifica de «moda». Mas esta atribuição e recusa chama-se
em psicanálise existencial «má-fé» e processo «nojento» de se
atacar o que se chama moda com a moda de outro tempo que
se tornou comum e vulgar... De qualquer forma, e como pre
ventivo contra fácil diatribe, o livro agora em tradução ofe
recido ao leitor facilita a tomada de contacto com o que
inautentícamente se tem tornado tema de discussão, embora
nem sempre alicerçada na compreensão da transcendência do
xrv PREFÁCIO

acto de «existir» e suas implicações de ordem metafísica. E se


há divino no mundo, afirma Gilson, é no acto de existir, e não
na actualização do pensamento conceptual, que ele misteriosa
mente se encontra.

*
* *

 A tradução de uma obra expositiva das quatro mais rele


vantes- tendências da filosofia existencial pode ter para a nossa
cultura consequências de grande importância. A primeira delas
consiste em mostrar que o chamado existencialismo merece
o respeito e o estudo cuidadoso de personalidades categori
zadas como o ilustre Decano da Faculdade de Filosofia da
Universidade Católica de Lião. A segunda, que muito nos
agrada acentuar, consiste na lição de imparcialidade e valori
zação de atitudes filosóficas que não podem ter a adesão do
autor, tomista e dos mais ilustres da hora presente. Razão
suficiente para colhermos, para além do que o livro ensina
aos seus leitores, o proveito de uma lição valiosa e rara entre
nós, entre nós que até nos chamados meios cultos — «meios»
em sentido ambbencial e não quantitativo apenas se pretende
compreender o que partidàriamente se admite, e, de tudo o
mais, para poupar o esforço de compreensão, se trata depre
ciativa e polèmicamente, quando não insultuosamente. O Rev.
Régis Jotívet, ante as diferentes tendências do que chamou
doutrinas existencialistas, em atitude quanto possível imparcial,
sem attaque nem apologia, pretendeu a avaliação da estrutura
intrínseca das doutrinas expostas e a verificação da sua coe-

? '
PREFÁCIO XV

rência interna. Ainda quando se tenha de reconhecer que em


certos momentos expositivos tal critério pode parecer insu
 ficiente, o certo é que o autor apresenta copiosamente o pen
samento do filósofo estudado, com lealdade e sempre aberto
h interpretação crítica do leitor. Decerto que não abdicou da
sua própria posição, nem isso é nunca possível; mas, quando
toma atitude crítica ante o contraditório com as suas próprias
convicções ,  fá-lo com elegância, sem intolerância dogmática
e respeitoso das concepções que não pode admitir. Como bom
discípulo de S. Tomás, o Rev. Jolivet é filósofo do seu tempo,
e do seu tempo pretende compreender o que outros mais
 facilm ente combatem e refutam sem o trabalho que as páginas
deste livro suficientemente testemunham. E depois destas
 poucas palavras de simpatia, que resumem muitas, e   são
expressão de admiração pela obra em vasta bibliografia do
autor deste livro, e pela sua personalidade atraente, que em
inesquecível convívio conhecemos em Coimbra, durante a
comemoração centenária de Francisco Suarez, apenas nos
resta desejar que os temas da filosofia existencial sejam medi
tados e tratados em Portugal com o interesse que lhes é devido,
temas que podem contribuir fecundamente para novo surto e
enriquecimento da nossa pobre, estiolada e insignificativa.
cultura filosófica.

D e l f im S a n t o s,
INTRODUÇÃO

O existencialismo pode significar ou a corrente filosófica,


dentro da qual múltiplas doutrinas se têm desenvol
vido, ou o fenómeno sociológico, assinalado pela voga
extraordinária que, nos últimos anos, alcançou a palavra
«existencialismo». Duas coisas distintas, mantendo embora,
entre si, numerosos pontos de contacto.
Nesta obra, propomo-nos focar apenas o aspecto doutri-
nail do existencialismo, procurando mostrar as suas origens
mais próximas e descrever as suas formas mais característi
cas. O nosso objectivo é, portanto, de ordem histórica. Não
poderemos, entretanto, abstrair por completo de tudo aquilo
que criteriosamente se tem afirmado sobre essas doutrinas,
que envolvem os mais graves problemas da filosofia e nos
apresentam o homem sob uma concepção que, em muitos
aspectos, se nos afigura altamente contestável.
Queremos, todavia, concretizar, desde já, a forma que
revestiu a nossa crítica e os limites que a demarcaram. Pode
ríamos ter apresentado uma doutrina que se opusesse ás filo
sofias existencialistas em estudo. Preferimos não o fazer.
É certo que da própria crítica, tal como a conduzimos, será
sempre possível extrair a doutrina que nela se encontra implí
cita. Mas não é a partir de um tal critério, por mais justifi
cado que ele se nos pudesse afigurar, que iremos discutir as
2 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

teses essenciais de Heidegger, de Sartrc e de Jaspers. Por


vezes, teremos de acusar estes autores de ignoratio elenchi
(ou de laborarem em erro quanto ao sentido e alcance das
questões), mas, sempre que o fizermos, será devidamente
fundamentado. Não queremos que, contra nós, se possa
tambénfc voltar essa mesma acusação! De uma maneira geral,
a nossa preocupação foi encarar sempre essas doutrinas atra
vés da sua estrutura intrínseca, apreciando-as, por um lado,
em função dos princípios que invocam ou implicam e do seu
grau de coerência interna e, por outro lado, em função dos
argumentos que pretendem justificar esses mesmos princípios
e postulados.
A critica, assim concebida, não passa, portanto, de uma
forma de diálogo que o autor vai mantendo consigo mesmo.
Deste modo, ninguém poderá acusar o autor de fazer crítica
a priori  ou de estar preso a preconceitos. A opiniões de
outros recorreremos, no entanto, sempre que venham a con
tribuir para maior clareza da discussão.
A preocupação de objectividade levou-nos a separar da
exposição doutrinária os comentários críticos que nos foram
ocorrendo. A exposição não deve ser interrompida com amiu
dadas considerações, pois, com isso, correm perigo a sua cla
reza e o raciocínio das suas deduções. Este perigo torna-se
particularmente grave quando a exposição versa assuntos de
especulação existencialista que, não sendo, na verdade, con
fusos, se revestem, contudo, de um modo geral, de certa
dificuldade, não só pela novidade do seu vocabulário mas
também porque os seus temas colidem brutalmente com as
formas clássicas da filosofia. Por este motivo, procurámos
dar à exposição a maior objectividade possível, seguindo
muito de perto as obras dos autores existencialistas e fur-
tando-nos a interromper os seus pensamentos com as nossas
próprias opiniões, que serão anotadas, à parte, nos fins de
página.
INTRODUÇÃO 3

Entretanto, apresenta-se-nos, como questão prévia, defi


nir o que se entende por «existencialismo». A questão não é
fácil de resolver: por um lado, há várias formas de existen
cialismo que, à primeira vista, parecem contradizer-se, e, por
outro, a própria ideia de existencialismo reveste, por sua vez,
múltiplas significações, em que o essencial e o acidental
andam de tal maneira misturados que são aparentemente
indiscerníveis. Procuraremos, todavia, desfazer essa confusão
e descobrir o verdadeiro sentido do existencialismo e a sua
expressão unitária.
Para isso, o que poderá parecer mais indicado será
ouvir os próprios pensadores que são tidos como «existen
cialistas». Este inquérito, todavia, não tardará a trazer certa
decepção. Seria, efectivamente, de supor que a ideia de uma
 filo sofia da existência  se tivesse imposto a todos no mesmo
sentido e com o mesmo valor. Aqui, todavia, começam já as
divergências capitais que separam em três grupos distintos
os principais existencialistas. Alguns, como jaspers, seguindo
a concepção kierkegaardiana, afirmam que a noção de exis
tência implica a negação da filosofia como sistema, uma vez
que, para eles, a «filosofia da existência» apenas corresponde
à análise da existência, no que ela tem de mais individual e
mais concreto; tudo o mais, a começar pela especulação meta
física, não passa de uma «cifra», cujo valor existencial não
tem relação, senão simbólica ou indicativa, com o sentido
objectivo que reveste.
Outros, como 'Heidegger, recusam-se categoricamente a
admitir que o existencialismo se deva limitar à análise  exis
tencial, a que Jaspers o circunscreve, e intentam constituir,
a partir dessa análise, uma  filosofia do Ser,  ou seja, uma
ontologia. Aos olhos de Jaspers e de Berdiaeff, porém, tal
4 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

ontologia nunca poderá passar de uma filosofia sobre  a exis


tência, análoga a outras especulações abstractas de que a
história dos sistemas nos fornece tantos exemplos 'artificiosos
e vãos. Compreende-se, por isso, que Heidegger, neste sen
tido.  se recuse a enfileirar no número dos existencialistas.
Em relação a Jaspers, devê-lo-íamos considerar antes como
antiexistencialista. Sartre, por seu lado, não esconde a preo
cupação de construir uma «ontologia fenomenológica», e,
nisto, aproxima-se de Heidegger. Quanto a Gabriel Mareei,
parece hesitar bastante entre a direcção seguida por Jaspers
e o sistema de orientação preconizado por Heidegger. Esta
mos convencidos de que. tendo-se limitado, de facto, até aqui,
à análise existencial, Mareei admite agora a possibilidade de
constituir uma filosofia concreta, que não será rigorosamente
uma ontologia, mas antes uma sistematização das exigências
essenciais do homem, a partir da necessidade do Absoluto,
que é a sua característica mais vincada e persistente.
Conviria, finalmente, estabelecer um terceiro grupo com
as doutrinas daqueles pensadores que também são conside
rados existencialistas, como Camus e Bataille, embora, por
um lado, eles repilam energicamente essa designação e, por
outro, não apresentem, de facto, nada de comum com os filó
sofos precedentes excepção feita a G. Mareei ■—•a não
ser a crença na absurdidade fundamental da existência e do
mundo. Precisamente por se encontrar nesta afirmação do
absurdo uma das características mais gerais que parece ter
servido para definir o existencialismo, é que o hábito, que
o público tomou de agrupar estes dois filósofos, mesmo con
tra a sua vontade, entre os existencialistas, tem a sua justi
ficação (*). Falta dizer que ambos rejeitam, quer a «filosofia

(’) Justificação, na verdade, um tanto precária, porque, como jus


tamente observa M. L. T h o o r e n s (à la cencontre cTAÍbert Camus, La
 Si xaine,  1947), e para não falarmos senão de Camus, o absurdo deste
INTRODUÇÃO 5
da existência» de Jaspers, que se lhes afigura uma construção
tão abstracta como qualquer outra, quer a ontologia exis
tencialista de Heidegger e de Sartre, que supõem destinada,
apesar das aparências, a conservar certo optimismo e a ser
vir de fundamento a um racionalismo, que eles terminante
mente se recusam a aceitar.
Estaremos nós, portanto, num beco sem saída, devendo
renunciar a uma definição do existencialismo, que seja apli
cável a todas as obras que se costumam agrupar ordinària-
mente sob este nome? Não encontrando resposta nos próprios
existencialistas, voltemo-nos para os críticos e historiadores.
Para uns, o existencialismo caracteriza-se pelo facto de
todos os seus adeptos partirem da análise da experiência
concreta e vivida (2), debruçando-se, directamente,   sobre o.
homem em vez de o tomarem apenas como meta a atingir e
como algo que não se pode alcançar senão por meio de uma
pesquisa, feita de um modo abstracto a partir de Deus e do
Ser, do mundo e da sociedade, das leis da natureza e da
vida (3). Para outros, o existencialismo consistirá essencial-

não coincide de forma alguma com o absurdo de Sartre. Para este último,
o Ser é fundamentalmente absurdo (não é agora a altura de saber se esta
questão tem sentido), enquanto que, para Camus, o absurdo, tal como ò
define o  M ythe de Si syphe,  resulta do conflito entre o homem e o mundo,
das exigências racionais do 'homem lutando constantemente (e espe
cialmente em presença da morte) contra a irracionalidade do mundo.
A ideia do absurdo tem, portanto, aqui, um carácter sobretudo ético — ao
 passo que, em  Sartre, reveste um sentido ontológico.
(2) Cf. J. B e a u f r e t  ,  A ptopos de 1'existentialisme em Confluences,
n.° 2, Março de 1945, pág. 192. P. D e s c o q s , UAthèisme de J. P. Sartre,
em R evue de Philosophie,  1946, págs. 39-40.
(’) Cf. S i m o n e d e B e a u v o i r  , Littérature et Métaphysique em
Temps Modernes,  1.° de Abril de 1946, págs. 1159-1160. Há duas manei»’
ras de compreender e explicar a realidade metafísica. A primeira é pro*
curar «esclarecer o seu sentido universal em linguagem abstracta». A teo
ria toma forma objectiva e intemporal; o sistema exclui a íiipôtese d*
6 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

mente na afirmação de que a existência é  posição pura,  e não


perfeição da essência, ou, por outras palavras, na afirmação
de que a existência precede a essência (4).  Ambos estes pontos
de vista devem ser examinados cuidadosamente.
A resolução de partir do homem, directamente, será sufi
ciente para caracterizar o existencialismo? Parece-nos evi
dente que semelhante fórmula é demasiado genérica e iria
alargar desmedidamente o   campo da filosofia existencial.
Movidos por esta ideia é que certos críticos pretenderam
anexar a este género de filosofia pensadores que, de facto,
não só lhe são alheios, mas até se lhe opõem em muitos aspec
tos. Neste momento, pensamos sobretudo em Santo Agosti
nho e Pascal. Platão também, por vezes, foi julgado digno
da mesma honra. Ê   certo que Kierkegaard havia estabelecido
a precedência fazendo de Sócrates — que era o tipo do filó
sofo teórico e descarnado, para Nietzsche — o pensador exis
tencialista por excelência da antiguidade grega. Mas Platão
não é Sócrates. O «conhece-te a ti mesmo» do mestre tomou,
para ele, sentido mais amplo, servindo-lhe de incentivo para

uma outra forma poder ser igualmente real; não são tomadas em conta a
subjectividade e a historicidade. A verdade, censitàriamente, coincide com
a expressão que o sistema lhe fornece. «Mas pode-se também incorporar
na doutrina o aspecto dramático, concreto e singular, da experiência e,
por consequência, admitir uma espécie de verdade temporal,  que não é a
verdade em si e abstracta, mas a minha  verdade, tal como a tenho vivido.
É esta a via existencialista — e por ela se explica que o existencialismo
tenha, muitas vezes, preferido exprimir-se por meio da ficção, tanto no
romance como no teatro (G. Mareei, Sartre, Camus). Trata-se, por isso,
de apreender o sentido da existência em plena existência, no próprio acto
pelo qual ela  se  realiza».
(*) Cf. R. T r o i s f o n t a i n e s , Le Choix de /. P. Sartre,  Aubier, 1945,
pág. 39 sg.. R. C a m pb e l l  ,  /. P. Sartre ou une Littérature philosophique,
Ed. P.  Ardent, 1945, pâgs. 207-222. M . M e r l e a u - P o n t y , Phénoméno-
bg i e de la Perception,  págs. ix-xii, pág. 496 sg.. P . F o u l q u e , Lexisten-
tialisme.  Presses líniversitaires, 1946, pág. 7   sg..
INTRODUÇÃO 7
o conhecimento do mundo e, mais rigorosamente, do mundo
das Ideias, que é o verdadeiro real, do qual o homem em
si apenas encontra sombra ou reflexo. É por isso que
 Jaspers não admite que se possa ver nos diálogos platónicos
uma forma primitiva, ou mesmo um esboço, do método exis
tencial, porque esses diálogos encaminham o pensamento
para um além da existência e não correspondem a uma ver
dadeira «comunicação existencial»; são trocas de ideias ou
de pontos de vista abstractos que não referem experiências
vividas.
Quanto a Santo Agostinho e a Pascal, ambos partem
da mais concreta experiência humana; mas, foi, sobretudo, o
patético das «Confissões» e dos «Pensamentos» que levou
a incluí-los entre os   iniciadores do existencialismo. Todavia,
o patético é um critério muito ambíguo e conduz-nos fàcil-
mente àqueles processos oratórios que, segundo Kierkegaard,
são precisamente a antítese do verdadeiro existencialismo. Se
o patético definisse o existencialismo, então, Itambém Bossueí
deveria ser tomado como existencialista. É certo que os escri
tos de Nietzsche, de Heidegger e de Jaspers revestem um
carácter dramático e envolvem-se numa atmosfera de angús
tia. Entretanto, o pensamento francês, mesmo existencialista,
 já não mostra a mesma tendência e a atitude de um Voltaire
perante a obra pascaliana, bem como as reservas de um
Valéry, são iniludível indício de uma repulsa pelo patético
que, de certo modo, parecia congénito ao temperamento fran
cês (5). De facto, a náusea de Sartre está muito longe da

(5) Cf., a propósito do patético de Pascal, no Dialogue avec 


 A ndré G ide,  de Ch. d u Bos (Paris, Corréa, 1947, pág. 284), as reflexões
de Gide que o autor refere e a forma como as comenta. Gide declara:
«Hoje, para mim, o valor supremo de Pascal está no patético e só no
patético; oh! eu bem sei que não posso reler certas das suas frases sem
deixar de soltar um suspiro! mas, ai! quanto mais avanço na leitura e
menos prazer sinto, maior é a minha indignação ao ver que são as minhas
8 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

angústia heideggeriana («Quando surge o trágico, declara


um dos personagens de L'Âge de raison,  é por que se pro
curou o sério») <— e o desespero de   Camus tem um carácter
intelectual que o distingue nitidamente do patético dos exis
tencialistas alemães. Sòmente Bataille parece ter tendência
para a vociferação. Mas isso mesmo é tão estranho num escri
tor francês que até há quem chegue, aliás injustamente, a
pôr em dúvida a sua sinceridade.
Torna-se, portanto, necessário encarar o problema mais
de perto. De facto, para ser existencialista, não basta tomar
directamente o homem como objecto de estudo e encontrar
nesse estudo a possibilidade de um patético mais ou menos
emocionante. É preciso ainda, como dizem os críticos que
estamos a seguir, que essa forma de considerar o homem
constitua, não uma ciência, mas uma experiência   ou, se pre
ferirmos, consista no esforço, que deverá coincidir com a
mesma experiência, «para desfazer esse enigma que o homem
é sempre para si próprio» (8) —' no esforço para arrancar à
obscuridade da sua condição humana, e tendo presente o

entranhas que estão a ser atingidas. Dá-me vontade de dizer: não me toquem
abaixo da cinta — isso não c do jogo; a ferir, que seja só da cinta para
cima». (Estas reflexões encontram-se também em C h . d u Bos,  Journal,
22 de Outubro de 1923, Corrêa, 1946, pág. 342). No Dialogue avec 
 A ndré Gide,  Ch. du Bos acrescenta; «Temos de concordar com Valéry que
tanto o patético de Pascal como o do Hamlet   de Shakespeare ultrapassam
por vezes a meta, desde que os encaremos sob o ponto de vista, não menos
austero, da estética e do gosto francês». Esta opinião de Ch. du Bos é
muito significativa. Cremos, entretanto, que ela dificilmente se poderá
aplicar a Pascal: a que propósito, efectivamente, é aqui chamado o
aspecto da estética e do gosto, com que Pascal evidentemente nunca se
preocupou ao lançar, só para si, sobre o papel, as reflexões que, na obra
que preparava, teriam de revestir indubitavelmente uma forma completa
mente diferente?
(*) H u b e r t J u in  ,  ]. P. Sartre ou La condition humaine,   ed. La
Boétie, Bruxelas, 1946, pág. 36.
INTRODUÇÃO 9
aspecto vivo do seu «existir», «uma verdade que interprete
a nossa nostalgia fundamental» (7). Tudo isto, de facto, nos
aproxima muito da posição de Heidegger — mas não da de
Kierkegaard e de Jaspers e, menos ainda, da de Santo Agos
tinho e de Pascal.
Pascal e Santo Agostinho nunca admitiram que a aná
lise do homem ou da consciência, como realidade singular e
concreta, pudesse ser suficiente para nos revelar   o enigma
do nosso destino e para esclarecer a obscuridade da nossa
condição. Ambos pensam e dizem precisamente o contrário:
a análise da condição humana não pode, de forgia alguma,
levar à imanência. «Peço perdão, escreve Pascal em Entre -
tien avec M. de Saci sur Epictète et Montaigne,  de me trans
portar assim para a teologia, em vez de me manter, perante
vós, dentro do campo da filosofia, mas, ao tratar-se de qual
quer verdade, é difícil abstrair da teologia, porque ela é o
centro de todas as verdades». É certo que Santo Agostinho
e Pascal exigem que a filosofia do homem comece pela inves
tigação da realidade humana. Mas tantos outros sustentaram
a mesma ideia, sem que até hoje alguém sonhasse fazer deles
existencialistas: poder-se-iam citar aqui,.de um modo geral,
todos os pensadores cristãos — e todos os .escritores que se
propuseram interrogar a si próprios sobre eles mesmos, Epic-
teto e Séneca, Montaigne e La Rochefoucauld, Vauvenar-
gues e Rousseau, Jouber,t e Amiel, ■— ainda que «o estúpido
projecto de se pintar a si próprio», de Pascal (8), os venha
a abranger com todo o seu desdém!
O facto é que parece haver duas correntes existencia
listas que não seguem exactamente no mesmo sentido. Kier
kegaard e Jaspers, que representam a primeira, não admitem
que a análise existencial possa conduzir a uma verdade uni-

O J. Bea loc. cit., pág. 192.


u f r e t  ,
(’) Pensées,   n.° 62.
10 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

versai. Para eles tudo se reduz a uma pura experiência, que


não é comunicável (directamente, pelo menos), nem univer-
salizável, e que é um contacto inteiramente pessoal com o
absoluto do ser, consciência vivente do «instante eterno».
Por graça deste instante, o homem separa-se do labirinto das
suas próprias contradições e atinge uma «verdade» que não
é de modo algum formulável. Realiza, num lance, a signi
ficação do seu existir — que, rigorosamente, não é outra
coisa senão o mesmo existir. O paradoxo desta atitude está
em que ela levaria a suprimir não somente a filosofia, mas
ainda qualquer expressão da existência. O existencialista coe
rente, como Kierkegaard bem o notou, teria de limitar-se a
existir: tudo o resto é demais e o discurso é o sinal de um
existir mais oratório e poético do que real. O autêntico exis-
tenite é silêncio — mesmo para si. Olhada sob este ponto
de vista, a filosofia existencial èxaute-se na sua própria e
radical negação. — Heidegger e Sartre não admitem esta
forma de existencialismo. Ambos são, profundamente, onto-
logistas: propõem-se constituir uma «ciência do ser» (9). Se
esta intenção é particularmente vincada em Heidegger, Sartre
também dela comparticipa e UÊtre et le Néant   apresenta-se
formalmente como uma ontologia. Que estas duas ontologias
sejam fenomenológicas, isso nada altera a sua natureza de
ciência universal, isto é, de ciência que se firma sobre a uni
versalidade do ser, valendo, ao mesmo tempo, para a univer
salidade dos homens.
Falta dizer, por fim, que, tanto para uns como para
outros, a filosofia tem sempre como  princípio   a análise con-

(®) Heidegger insistiu, muitas vezes, neste ponto e ainda recente


mente. De facto, a primeira parte de  Sein und Zeit,   definida pelo próprio
Heidegger como «análise fundamental preparatória da realidade humana»,
é sobretudo uma análise existencial, destinada a servir de introdução à
Ontologia.
INTRODUÇÃO U
creta, nas suas formas mais singulares, para que, através
dessa análise, se chegue à descoberta quer de uma verdade,
inefável e estritamente pessoal, quer de uma noção universal
do homem, e do mundo, no seio do qual se desenrola o des
tino humano. G. Mareei também perfilha este último ponto
de vista, mas não admite o aspecto imanentista que caracte
riza o existencialismo de Heidegger e de Sartre; neste parti
cular, G. Mareei está muito mais perto de Kierkegaard que
todos os outros existencialistas — e também de Pascal e de
Santo Agostinho, por consequência. Admitiremos, portanto,
que a «análise existencial» é uma das características mais vin
cadas do existencialismo, embora não baste para o definir.
Na afirmação de que «a existência precede a essência»
se encontra a outra característica que também foi escolhida
para definir o existencialismo —■afirmação sobre a qual tanto
se tem insistido, sobretudo depois que J. P. Sartre, de forma
bastante agressiva, acentuou a sua importância. Esta afir
mação afigurou-se mesmo a certos críticos tão caracteristi
camente existencialista que, para satisfazerem as exigências
da simetria, até se sentiram na obrigação de inventar o que
eles, por oposição ao existencialismo, apelidam de essencia~
lismo.  O termo, todavia, parece-nos pouco feliz e susceptível
de tornar confusa a discussão.
Procuremos primeiramente concretizar o sentido em que,
para os existencialistas, a existência precede a essência. Uma
primeira certeza se impõe desde já: é que, neste ponto, eles
não se encontram inteiramente de acordo. Enquanto G. Mar
eei hesita na posição a tomar   (10), Heidegger, Jaspers e

(10) Cf. Etre et Avoit,   pág. 24: «Sempre me preocupou o pro


blema da prioridade da essência em relação à existência. Suponho, entre»
tanto, que, no fundo, nele apenas existe pura ilusão, uma vez que estamos
á opor aquilo que não está senão concebido (e que nos permitimos trataf
como não-existente) àquilo que é realidade». G. Mareei frisa (pág. 25 ),
12 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Berdiaeff, embora admitam, como Sartre, que o Dasein, ou


o existente como tal, é pura existência, divergem de Sartre,
quanto ao significado que deverá ser dado a tal afirmação,
Ver-se-á que, para Heidegger, a existência em bruto designa
um estado, aliás impensável, em que o existente é sem ser
ou essência, absolutamente aquém de toda a inteligibilidade,
Há, portanto, para ele um «ser da existência», que, de qual
quer modo que se considere, terá de ser essência. Mas esta
essência não é uma potência que o acto de existir venha a
actualizar. Pelo contrário, o existente é que, existindo, cons
trói a sua essência, de tal maneira que a essência ou o ser
não é nele senão a própria existência, na sua realidade con
creta. Poder-se-ia dizer também que a existência não tem
essência distinta dela mesma ou, melhor ainda, que ela é
simultâneamente existência e essência, isto é, existência afir
mada no plano do ser ou da inteligibilidade. É este o
sentido em que Heidegger afirma que a existência precede
a essência. Como sc há-d/e ver, Heidegger prefere falar de
uma prioridade ou de um primado da existência em relação
à essência. «A essência do Dasein,  escreve, reside na sua

numa nota datada de 1934, que agora já não subscreveria, sem hesitação,
afirmação tão categórica. É possível, entretanto, que este comentário se
não refira directamente ao texto acabado de citar. Em todo o caso, afirma
mais adiante gue a sua hesitação em aceitar o princípio da «prioridade da
essência» provinha do esforço que então (12 de Junho de 1929) dispendia
«para romper com todo o idealismo, qualquer que ele fosse — e, por con
sequência, que ela se referia, sobretudo, ao sentido idealista  dessa fórmula.
Em R. I., pág. 152, G. Mareei volta ao assunto a propósito da filosofia
da pessoa e marca a mesma hesitação: «Para mostrar, no fundo, o meu
pensamento, direi, por um lado, que a pessoa não é, nem pode ser, uma
e&sência, e, por outro lado, que uma metafísica, que se edificasse de fcerto
modo afastada ou ao abrigo das essências, se arriscaria a desfazer-se como
um castelo de carias. É isto unicamente o que posso dizer, embora, na
realidade, o  assunto represente para mim uma espécie de escândalo e até
de decepção».
INTRODUÇÃO 13
existência». Sartre, em princípio pelo menos, coloca-se numa
posição mais radical. Para ele, a existência precede absoluta
mente a essência, não só porque o termo existência só tem
aplicação perfeita na realidade humana (o resto sendo   pura
mente e simplesmente, mas não existindo), mas ainda porque a
existência, no homem, não é senão o nome dado ao nada   que
é o «por-si» ou a consciência.
Há, entretanto, quem considere estas diferenças apenas
como acidentais e que elas não excluem uma maneira de ver
comum. De forma unânime, os existencialistas recusam-se,
de facto, a considerar a existência como coisa da qual se
possa abstrair, como coisa susceptível de ser conhecida de
fora, a título de dado objectivo. A subjectividade é o carácter
essencial da existência e, por isso, ela está para além do saber,
é irredutível a uma noção, refractária a qualquer tentativa
de conceitualização (ia). Ê sob este ultimo aspeoto que o
existencialismo de Kierkegaard e de Jaspers encara a exis
tência. Supomos, entretanto, que Heidegger e Sartre já não
perfilham, pelo menos de um modo absoluto, esse ponto de
vista, que, de resto, porque é tão pouco característico do exis
tencialismo, se vai encontrar também expendido, com outra
clareza e até, porventura, com outra evidência, em doutrinas
de inspiração muito diferente. -
 Jaspers e Berdiaeff insurgem-se contra o método e as
ambições de Heidegger, invectivando a sua ideia de cons
truir uma filosofia sobre   a existência, tornando, assim, a exis
tência objecto de pensamento. O próprio Heidegger não se
furta ià acusação e é o primeiro a declarar, còmó já vimos,
que a sua finalidade fé constituir uma ontologia, que, tendo
como fundamento a análise existencial, a ela não se poderá
limitar uma vez que a si se define como ciência do ser.

(“) Cf. A. F o r e s t  , Uessence et l’existence, em Tèmoigtitigtx,


Maio de 1947, págs. 216-217.
M AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Perante esta doutrina seria admissível pensar que nos encon


tramos simplesmente a caminho de uma metafísica clássica,
de tipo atistotélico, embora Heidegger, tendo certamente as
suas razões, contra isso se insurja. De facto, por singular
paradoxo, Aristóteles e S. Tomás é que deveriam ser cha
mados (se a designação lhes pudesse ser atribuída) verdadei
ros existencialistas, mas num sentido completamente diferente
do de Heidegger, precisamente naquele sentido que pode
salvar a noção de existência que, no método heidegge-
riano, corre risco de se perder por volatilização. Desde que,
com efeito, para Aristóteles e S. Tomás, o saber filosófico
tem por matéria as essências, tais como as elabora o pensa
mento conceituai, a existência nunca poderá ser conceituada
e deduzida. Por mais diversas que sejam as razões que,
depois, venham a ser invocadas, nada poderá destruir a afir
mação fundamental de que não há nem pode haver ciência
da existência como tal, isto é, do acto de existir.   Neste
aspecto, a existência é extra genus notitiae   (12). Não poderá
ser apreendida senão por meio de uma intuição irredutível a
conceito ou posta como condição absoluta   de inteligibilidade.
Se, portanto, o existir está e deve estar, como tal, necessà-
riamente excluído do saber filosófico, tendo a ciência do ser,
enquanto ser, unicamente como objecto um ser indiferente
à existência — serão estes os limites a admitir para a filoso
fia, cujas asserções e construções ficam, assim, basilarmente
afectadas de um carácter de relatividade e de inacabamento.
As essências, de facto, não se podem conceber e fazer valer
senão em relação ao acto de exisitir, o qual nunca pode ser
reduzido a conceito; será, pois, sempre e necessariamente em
função da existência que deverão ser postos e resolvidos todos
os problemas da filosofia, uma vez que as essências, que a

(“) S. T o m á s, D e Veri tafe, q. 3, art 3, ad. 8 m..


INTRODUÇÃO 15
análise descobre e que o saber abstracto organiza e sistema
tiza, são apenas meios  de resolver as questões, que a existên
cia formula, por via de uma objectivação destinada a tornar
inteligível a matéria ou o conteúdo —imas, tendo sempre em
mente que o próprio existir, por mais numerosos e subtis que
sejam os conceitos que exprimem a sua natureza ou proprie
dades, jamais perderá a sua irredutível singularidade (13).
Sob este aspecto, nenhuma doutrina encontra explicação
para a subjectividade estrutural do existir, nem para o mis
tério que esse existir opõe a qualquer tentativa de objectiva
ção. Daqui se segue que a ciência do ser fica sempre em
aberto e inacabada, pois o existir não cessa de levantar inde
finidamente novos problemas, e, em primeiro lugar, o do pró
prio acto que ele é e que nada permite racionalizar (14).
Esta concepção implica evidentemente a distinção entre
essência e existência, cuja razão de ser é justamente salvar
a realidade absoluta do existir. Sem esta distinção, a meta-

(u ) «Os universais, diz S. Tomás (I  Sent., d. 36, q. 1, art. 1), de .


qualquer maneira que se combinem, nunca poderão fazer um existente»
(Universalia, quocumque modo aggregentur, nunquam ex eis fiet singu-
lare ). — E G. Mareei compreendeu isso bem. Cf. Etre et Avoir:  «Em suma,
o pensamento não se firma senão nas essências» (pág. 41). Mas, por
outro lado, «o pensamento não pode sair da existência: não pode abstrair
dela a não ser dentro de certa medida e o que importa principalmente é
que deste acto de abstracção ela não saia prejudicada. A passagem à
existência é qualquer coisa de radicalmente impensável, qualquer coisa
que não tem mesmo sentido algum» (pág. 34).
(“ )' Cf. as observações de E. G i l s o n , Limites de la philosophie,
em UExistence, Gallimard, 1945, págs. 81-87. ~ G. Mareei definiu muito
bem este ponto de vista em Etre et Avoir   (pág. 11): «O existente pen
sado como obstáculo ou ponto de referência — como qualquer coisa contra
a qual me oponho em certas circunstâncias — permanece imperaneávd.
Sem dúvida que esta impermeabilidade é pensada, mas pensada como não
Sendo absolutamente pensável». «É pensada, mas nunca reduzida. A
cidade do mundo é, em certo sentido, irredutível».
16 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

física deixaria dc ter objecto e esgotar-se-ia em intuição


pura, inefável e intransmissívél. A esta lógica consequência
deveria chegar Heidegger, para o qual a essência consiste
na própria existência, não podendo de forma alguma distin
guir-se dela. É certo que ele, ao contrário de Jaspers, não se
resigna a deter-se na existência e pretende constituir uma
ontologia. Mas essa ontologia não poderá ser, por definição,
senão uma «ciência da existência», tão irreal como o círculo
quadrado, porque, assemelhando-se, em virtude do seu carác
ter abstracto e universal, com as ontologias clássicas, terá
de assumir a desgraça, que não as tocou a elas, de concei
tuar a própria existência, isto é, de a fazer desaparecer, como
frisava Kierkegaard. O existencialismo, compreendido desta
maneira, conduz à negação da existência.
Não é, poríanto, este o caminho que devemos seguir
para justificar com clareza a distinção entre existencialismo
e «essencialismo». É certo que há uma corrente filosófica,
platónico-idealista, que se propõe chegar ã apreensão das
essências, definindo primeiramente o ser através do universal
e do necessário. Conhecer e saber, à luz desta doutrina, é
antes de tudo, apreender, no ser, o absoluto de que ele
participa, a ideia que ele realiza por forma mais ou menos
perfeita. Segundo a fórmula de Platão, o saber filosófico
consiste numa dialéctica que, «sem utilizar nada que seja
sensível, não se serve senão de ideias para ir, através de
ideias, a outras ideias e terminar em ideias» (15). Esta fór
mula corresponde, como facilmente se vê, ao tema cons
tante do idealismo, e L, Brunschvig não dizia outra coisa
quando afirmava que «o pensamento é o antípoda do real».
Em oposição ao existencialismo, afirma-se aqui que há uma
verdade metafísica, anterior à existência como dado concreto,

(“ ) République, 511b,
INTRODUÇÃO 17
como devir ou temporalidade, e que a existência só é inteli
gível em função dessa verdade intemporal que a funda
menta (16). O que determina esta maneira de filosofar é a
ambição de descobrir o meio de tornar a existência anal'tti~
camente  inteligível, sob forma total, isto 'é, de modo que o
pensamento racional a penetre inteiramente sem que nela
permaneça qualquer resíduo opaco. Os nomes de Spinoza,
Leibnitz, Fichte, Hegel poderiam servir para demonstrar essa
desmedida ambição. E também para provar o fracasso dessa
mesma ambição, porque uns e outros acabam sempre por
esbarrar com o obstáculo que pretendiam eliminar. Para pode
rem ser integralmente racionais, estas doutrinas terão de
aceitar o facto e o dado, e admitir, ainda que de mã vontade,
uma contingência que renitentemente se mantém rebelde à
análise.
O termo essencialismo  parece, portanto, designar, antes
de mais nada, uma tendência, e,  tomado com este significado,
-o seu emprego não traria quaisquer inconvenientes e seria alté
plausível. Fora desta significação, porém, pode dar origem
a um equívoco e levar-nos a falsear o sentido das doutrinas
que,   considerando a ciência do ser como necessariamente
abstracta e geral — podendo, sob este aspecto, passar por
«essencialistas» (17) —' sustentam também que o verdadeiro

(16) Cf. Lachelier, Psychologie et Mêtaphysique, Oeuvres, t. I,


pág. 207: «É necessário, portanto, que a consciência intelectual tire de
si mesma a luz —- que nunca poderá emanar da consciência sensível; é
necessário que haja em nós, antes de qualquer experiência, uma ideia
daquilo que deve ser, um esse ideal, como pretendia Platão, que seja para
nós o tipo e a medida do esse real. É esta ideia que é e ünicamente pode
ser o sujeito do conhecimento, visto que ela não é uma coisa, mas a verdade
a priori  de todas as coisas; e o conhecimento não é senão a consciência
que essa verdade ideal toma de si mesma, reconhecendo-se nas coisas que
a realizam».
(” ) Cf. P. F o u l q u i e , Vexistentiallsme, págs. 11-36.
18 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

e único real é a existência e que é dela que é necessário par-


tir e é a ela que é preciso voltar. É escusado, entretanto, dizer
que, pelo facto de não aceitarmos a noção de essencialismo„
em virtude das confusões que o termo é susceptível de pro
duzir, não queremos negar a originalidade própria do exis
tencialismo. Nada disso. O que pretendemos é determinar
com exactidão essa originalidade e, por consequência, conhe
cer as razões por que o existencialismo se opõe a todas as
antigas formas da filosofia.
Ora, sob este ponto de vista, não há motivo para pôr em
dúvida que o sina! de contradição é o princípio que estabelece
a prioridade da existência sobre a essência. Mas, claro está,
desde que esse principio seja interpretado no sentido exis
tencialista, Ê  que há também um sentido segundo o qual o
menos existencial dos filósofos viria a estar de acordo com
Heidegger. Já tivemos ocasião de observar (1S) que uma filo
sofia, como a de S. Tomás, para a qual a existência não é
senão a actualidade da essência, não poderia supor uma
essência anterior à existência. A essência não tem senão uma
forma possível de ser (no sentido próprio da palavra), que
é existir. A  existência tem, assim, sobre a essência a priori
dade de uma condição absoluta. É certo que se pode dizer
que as essências «preexistem» no Pensamento Divino. Mas
isso não passa de uma forma de expressão muito pouco exacta,
porque o qoe preexiste não são as essências, mas sim a
Essência Divina, isto é, Deus como fundamento de todas
as essências e de todas as existências possíveis. Rigorosa
mente, as essências não podem existir realmente senão atra
vés da existência que as faz existir, isito é, elas só existem
como singulares e concretas. Só o indivíduo existe. Escla
recida, assim, a questão, houve até quem quisesse fazer de
S. Tomás um «existencialista». Mas, que S. Tomás deva oa

(“) G i l s o n , loc. cit., pág. 83.


INTRODUÇÃO 19

não ser considerado «existencialista», isso é outra ques


tão (10).
Prioridade da existência sobre a essência, tal como
Heidegger e Sartre a entendem, significa precisamente que
a existência não tem essência distinta dela mesma ou, se qui
sermos, que a essência é a própria obra da existência (20).
As consequências desta doutrina, segundo a qual a existência
é sem natureza ou estrutura, isto é, posição pura e absoluta
{quaisquer que sejam aqui os sentidos ou modalidades que
esta fórmula possa revestir), deduzem-nas imediatamente os
existencialistas. Poderemos sintetizá-las nesta asserção fun
damental: a realidade própria da existência, não podendo
ser referida a nada que seja distinto dela mesma, é contin
 gência total e  finitude irremediável.   A existência é «arre
messada», em tal abandono que não repousa senão em si e
não pode contar senão consigo. Isto equivale ,a dizer que ela
é essencialmente «liberdade», precisamente porque depende

(10) Cf. G. M a r c e l , Existentialisme et pensée chrétienne,  pág. 158:


«Não convém dar ao termo «existencialismo» um sentido muito amplo,
nem demasiadamente vago. Pascal pode, indubitavelmente, ser conside
rado como um precursor do existencialismo. De Descartes já não se
poderá dizer bem o mesmo. S. Tomás, então, é que de forma alguma
poderá ser incluido, bem como qualquer filósofo da antiguidade, entre os
existencialistas, a não ser que o termo perca por completo a sua signi
ficação».
(2Ü) Em Platons Lehie von der Wahrheit. Mit einem Brieí über 
den «Humanismus », Heidegger diz que «a tese fundamental de Sartre
da prioridade da existência  sobre  a essência justifica o nome de existen
cialismo  que foi dado à sua filosofia mas que a tese do existencialismo
não tem nada que ver com o princípio [da prioridade da existência sobre
a essência] do seu  Sein und Zeit —  sem tomar mesmo em linha de conta
que  Sein und Zeit   não podia versar a questão da relação entre essência
e existência, até porque isso implicaria uma explanação prévia do assunto».
É possível, mas a prioridade da existência sobre a essência é admi
tida, em princípio, no  Sein und Zeit.
20 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

exclusivamente de si. Liberdade significa, portanto, contin


gência absoluta e por ela se define apropriadamente o ser
da existência (21).
Daqui se conclui que a existência jamais poderã ser
apreendida, a não ser sob a forma de uma história, como
Kierkegaard constantemente repetia, ou, segundo a expres
são de Heidegger, como temporalidade. De facto, só a essên
cia, enquanto distinta da existência, é que poderia dar ao ser
uma espécie de base intemporal, ou a título de possível eterno
preexistindo no seio da Essência e do Pensamento Divino
—■ou, ao menos (como em Aristóteles), a título de potência
que permanece no acto de existir. Mas nada disto tem sen
tido no contexto existencialista. A existência não comporta
potencialidade alguma: aquilo que ela pode ser é-o sempre
em acto e os seus possíveis não são senão uma expressão do
que ela é em acto. Por conseguinte, a realidade da existência
não poderá consistir senão na sua temporalização. A existên
cia identifica-se com a sua história e com o borbotar original
pelo qual a liberdade, que ela é, a constitui e, ao mesmo
tempo, a limita e enclausura, pois, a cada momento do seu
devir, ela é tudo o que pode ser e não é realmente mais
nada (22). É isto o que explica, como havemos de ver, a

(M) A. F o r e s t (Io c . cit., págs. 217-218) mostra muito bem como


esta concepção toma foros de tema kantiano.
(s ) Sartre, todavia, (Action,   27 de Dezembro de 1944,  M i se au
 point)   declara que «o existencialismo deverá estabelecer para o homem
uma definição que não seja fechada em si mesma mas sempre aberta».
A definição do homem terá de ser «aberta» porque o homem, segundo
Sartre, é fundamentalmente liberdade absoluta, liberdade sem fundamento,
liberdade não predeterminada na sua essência. Mas, noutro sentido, tam
bém se poderia dizer que a definição do homem terá de ser «fechada em
si mesma», porque, desde que a liberdade se acaba necessariamente nela
mesma, não pode admitir nada para além de si, nem valer estritamente
senão por si.
INTRODUÇÃO 21
ausência de dimensão em profundidade da liberdade existen
cialista. Não há mais nada para lá dela mesma: a existência
não tem espessura, porque em nada se apoia senão em si
própria. Sartre vincou bem este carácter ao insistir na con
tingência absoluta e na absurdidade da liberdade — embora
venha a admitir, um tanto contraditoriamente, sob a desi
gnação de «desejo de ser fundamental», um equivalente de
essência, anterior, pelo menos logicamente, à existência
pura (23). Todavia o princípio mantém-se absoluto, mesmo
que não seja inteiramente respeitado: para além da liberdade
não há nada, e a própria liberdade, isto é, a existência da

(” ) Teremos de voltar a este ponto no capitulo consagrado a


 J. P. Sartre. No entanto, observaremos desde já que Sartre não consegue
desligar-se da noção de natureza humana, ou seja, de uma essência que
especifica a existência e, por isso, (logicamente) a precede. É assim que
ele se pronuncia em Réflexions sur la question juive  (P. M o r ih i e n , 1947,
pág. 76): «Estar em situação, significa escolher para si   uma situação e
os homens diferem uns dos outros como as suas situações e também
segundo a escolha que fazem da sua própria pessoa. O que há de
comum em todos eles não é uma natureza, mas uma condição, isto é, um
conjunto de limites e de constrangimentos: a necessidade de morrer, a
necessidade de trabalhar para viver, a necessidade de existir num mundo
habitado por outros homens. E esta condição, no fundo, é que é a situa
ção humana fundamental, ou, melhor, o conjunto dos caracteres abstractos
comuns a todas as situações ». (É nosso o sublinhado destas últimas pala
vras). E que será a essência ou natureza, senão isto mesmo? A essên
cia não é evidentemente uma coisa:   só tem realidade através da existência,
que é seu acto. Distinta da existência, somente é e apenas pode ser um
conjunto de «caracteres abstractos», ou, como Sartre diz mais adiante,
um conjunto de «dados gerais», comuns a todas as situações existenciais.
Mas, a tal título,  a essênda precede a existência, pois define-lhe a natu
reza ao conferir-lhe determinada natureza específica, uma existência
humana, por exemplo. Sòmente, esta precedência é puramente lógica;
antes de existir, a essência não é nada, senão uma possibilidade abstracta*
um conjunto de «caracteres abstractos» ou de «condições gerais», isto í,
uma ideia.
22 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

realidade humana é esse nada   pelo qual ela escapa ao maciço


e ao determinismo do «em si», construindo a sua própria
essência. Esta é a razão por que a existência, como tal e
como história, não comporta, dentro de si, nem tensão, nem
impulso, nem apelo, nem ímpeto, nem potencialidade, nem
virtualidade. Na realidade, ela não tem «dentro»; o seu den
tro é o seu fora; o seu possível é o seu acto. Ela é acto puro,
oú seja, aqui, dado puro e finitude absoluta.
Tal é, no nosso entender, a verdadeira característica do
existencialismo. Poderemos, portanto, defini-lo como o con
 junto de doutrinas segundo as quais a filosofia tem como
objectivo a análise e a descrição da existência concreta, con
siderada como acto de uma liberdade que se constitui afir
mando-se e que tem unicamente como génese ou fundamento
esta afirmação de si (24). É certo que se pode objectar que eslta

(!<) Cf. J. P. S a r t r e , L ’exi stentialisme est un humanisme.   Ed. Nagel,


Paris, 1946, pág. 3 8: «O homem, sem qualquer apoio e sem ajuda alguma,
está condenado em cada instante a inventar o homem». — L. L a v e l l e
(Introduction à l’ontologie.  Paris, Presses Universitaires, 1947, pág. 7),
contrapõe da maneira seguinte a «filosofia do ser» da «ontologia tradi
cional» à filosofia existencialista: «O emprego da palavra ser caracteriza
todas as doutrinas que consideram a participação na sua origem, ou seja,
nessa omnipresença em que ela se embebe e que continuamente divide:
em si, a palavra ser compreende simultâneamente a existência e a essên
cia. A ontologia tradicional deve ser considerada como filosofia do ser.
— A palavra existência retém da participação o acto pelo qual ela se
realiza; implica, por si, não »ma inferioridade em relação à essência, mas
a impossibilidade de ser outra coisa que não seja o acto pelo qual um
indivíduo a assume. Esta filosofia, cuja inspiração não é nova, adquiriu,
em nossos dias, sob o nome de existencialismo, um desenvolvimento notá/-
vel». — Mais adiante (pág. 36), L. Lavelle fixa, no mesmo sentido que
nós, a posição existencialista: «cada um de nós (é) um ser  solitariamente
lançado ao mundo com as  suas própri as possibili dades,  competindo-nos
sômente descobri-las e actualizá-las. Desta forma, não se sabe o que per
turbará mais o ser: se sentir-se confinado por uma separação ontológica,
INTRODUÇÃO 23
•definição não se concilia bem com a doutrina de G. Marceíl
que, pelo contrário, vê na existência uma exigência de mais-
-além, um impulso para o Absoluto impulso e exigência que,
para ele, constituem a mais perfeita definição da existência
humana. Mas, o que resta saber é que valor poderá logica
mente ser atribuído a estas conclusões dentro do contexto
existencialista e à luz da tese que afirma que a existência é
posição absoluta (25) — e, depois, também não deverá ser
posta de lado a hipótese de G. Mareei ter de vir a ser excluído
do grupo existencialista, dada a sua hesitação em aceitar o
princípio da precedência da existência sobre a essência.
Neste caso, o existencialismo cristão não seria uma espécie
de existencialismo, mas sim um género de existencialismo
completamente â parte, sem qualquer noção unívoca comum.

■que é incapaz de superar, se dispor de certas possibilidades misteriosas


de origem desconhecida, se determinar o seu destino pelo uso que dele
fizer e cujas consequências, portanto, ignora». A angústia que comprime
e restringe o exercício da liberdade existencial «resulta não da simples
ambiguidade que essa liberdade encerra mas, sim, por um lado, da impos
sibilidade em que nds encontramos de nos libertar dessa mesma liberdade
e, por outro lado, da inclinação que sentimos para aquelas soluções nega
tivas, nas quais julgamos perder o contacto com a existência, uma vez 
que se descobre à existência uma saída que, em vez do nada, atinge o   ser».
 Sob o ponto de vista históri co, o  existencialismo pode-se explicar
•como uma reacção anti-hegeliana. Assim o considera G. Mareei em Exis -
tentialisme et pensée chrétienne,  loc. cit., pág. 158: «No meu entender,
e comigo está J. Wah l, (o existencialismo) deverá ser definido, sob o
ponto de vista histórico, como reacção, ocorrida no século xix, contra o
sistema de Hegel: em função das ideias hegelianas é que o existencialismo
se afirma com todo o seu sentido e valor».
(26) Tanto Sartre como Heidegger (e, como mais forte razão ainda,
 Jaspers) aceitam  fenomenològi camente  a realidade dessa exigência e desse
impulso. Camus insiste mesmo nessa realidade (em Le Mythe de Sisypht),
Mas tanto Camus como Sartre e Heidegger supõem-na sem fundamento
e  unicamente capaz de conduzir a úm fracasso.
24 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Parece, aliás, que esta ê a opinião do próprio Gabriel


Mareei (2").

* ★

As considerações expendidas bastarão para dar conta


do plano e do contexto desta obra. Reunimos aqui as quatro
doutrinas que supomos mais significativas do existencialismo
contemporâneo, dividindo-as em dois grupos distintos, que
correspondem às duas principais correntes do existencialismo:
no primeiro grupo juntamos Heidegger e Sartre, no segundo,
 Jaspers e Mareei (27). Como, em qualquer dos grupos, cada

(“) Cf. Bxistentialisme et pensée chtêtienne,  pág. 162:   «Propo


nho-me demonstrar aqui o mais claramente possível como as pesquisas
filosóficas sobre a existência, e sobre a própria natureza do existir, se
articularam, no meu caso, com um conjunto de preocupações que remata
ram na minha conversão ao catolicismo e como pôde constituir-se, assim,
o que, com certa relutância, aliás, me resigno a ver designar por exis
tencialismo cristão».
(í7) Desta forma, ficam desde já justificadas íertas lacunas que
noutro trabalho de carácter estritamente histórico seriam inadmissíveis.
Não se compreenderia, de facto, que, num trabalho histórico, se passasse
em claro sobre os nomes de Chestov, Berdiaeff, Merleau-Ponty, Camus,
Bataille (ainda que estes dois últimos se excluam a si próprios do grupo
existencialista) e também Maurice Blondel, cuja filosofia da Acção apre
senta muitos pontos de contacto com o existencialismo. M. Blondel chega
mesmo a ver na sua doutrina a verdadeira filosofia existencial. Pelo
menos, é o que se depreende da sua comunicação ao Congresso Inter
nacional de Filosofia de Roma (Novembro de 1946), que foi lida por
M J. Paliard. Devemos, declara Blondel, exprobrar enèrgicamente o exis
tencialismo de J. P. Sartre, que estabelece o primado da existência sobre
a essência. «Como, para Sartre, Deus não existe, o homem não podia
ser criado segundo um tipo ou uma essência definida e normativa; o
homem faz-se a si mesmo pela sua acção e pela sua liberdade. Ora, acres
centa M. Blondel, semelhante conceito exclui qualquer norma, seja de
INTRODUÇÃO 25
uma das doutrinas tem o seu carácter próprio, resolvemos
fazer separadamente a exposição de cada uma delas: preferi
mos, assim, correr o risco de possíveis repetições a enveredar
pelos caminhos da síntese, nem sempre claros e conducentes.

ordem metafísica, moral, social ou religiosa; nele nada mais se encontra


do que puro verbalismo irracional e um imoralismo absoluto. Assim, do
existencialismo, unicamente o método é de aproveitar, porque, incidindo
sobre o estudo da acção humana, que é uma via para o absoluto, nos
revela o que ela contém de inteligível». (Segundo o resumo dado pelo
Giornale di Metafísica, 15 de Março de 1947, págs. 200-201). — Quanto
a L. Lavelle, para o qual se pretendeu criar a fórmula curiosa de «exis
tencialismo essencialista», podemos considerá-lo existencialista, mas num
sentido completamente diferente daquele que define as doutrinas de Hei-
degger, de Jaspers e de Sartre (por mais estranhas que sejam entre si
sob o ponto de vista da «participação») e também bastante diferente do
que caracteriza a doutrina de G. Mareei. É t> que, muito pertinentemente,
defende M. Delfgaauw no seu trabalho Het spiritualistisch Existentia-
lisme vati Louis Lavelle  (Amsterdam, 1947). Recordando que, para
Lavelle, e segundo as palavras de D e 1’A cte  (pág. 95), «o único sentido
que para nós tem a existência é o de nos permitir realizar, não uma essên
cia preestabelecida, mas a sua determinação, por meio da nossa escolha, e
a nossa coincidência com ela»; em lugar de dizermos que a essência «é a
possibilidade da existência, diremos antes que a existência é que é a pos
sibilidade da essência», — ou ainda {A de rèflexil et Acte créateur, em
Bulletin de la Société  /r. de philosophie,  1936, pág. 153), que «eu sou
um ser que se ultrapassa sempre, que produz continuamente, sem nunca
acabar de a produzir, a sua verdadeira essência». — M. Delfgaauw
observa (págs. 130-131) que Lavelle vai ao encontro daquela tradição
metafísica  que define, de modo idêntico, as relações entre a existência e a
essência. Trata-se, efectivamente, como refere Lavelle na carta citada por
M. Delfgaauw (pág. 125), de afirmar que «a existência nos é dada com.
o fim de nos permitir adquirir, precisamente, uma essência», ou seja, a
nossa «existência individual». Lavelle diz ainda que não rejeita a noção
de uma «essência ideal», mas que a considera como termo intermédio
«entre o puro Ser e a existência individual». Tudo isto, evidentemente,
afasta Lavelle de Sartre e de Heidegger e, por isso, o existencialismo de
Lavelle terá de ser entendido segundo a acepção da maior parte dos 616*
eofos e, de uma forma especial, dos pensadores cristãos.
26 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

por vezes, a aproximações muito discutíveis. Por último, para


explicar a génese do existencialismo, pareceu-nos conveniente
ir buscar à sua própria origem, isto é, a Kierkegaard e a
Nietzsche, os temas que mais o caracterizam.
Se quiséssemos ultrapassar o ponto de vista racional e
filosófico e definir sob forma mais genérica o clima existen
cialista da nossa época, teríamos de considerar ainda outras
influências, de ordem afectiva, que reforçaram poderosamente
os temas fundamentais destas doutrinas, provocando a explo
são existencialista que tem assinalado estes últimos anos.
Devemos observar — sem sair do ponto de vista geral e,
portanto, um tanto sumário, em que nos queremos manter
que os trágicos acontecimentos dos derradeiros anos contri
buíram prodigiosamente para acentuar o regresso à subjec
tividade, que é uma das características do existencialismo.
O pavoroso cataclismo da guerra mundial, com os inominá
veis horrores a que deu origem, o clima de insegurança terri
torial em que a humanidade viveu, o desmoronamento de
todos os valores até então respeitados, a angústia que cons
trangeu os corações durante alguns dos mais sombrios anos
que o mundo conheceu, tudo isto contribuiu grandemente
para afastar o homem das especulações abstractas que nos
tempos felizes tanto o deleitavam, reconduzindo-o a si, preo
cupado em descobrir uma doutrina mais próxima dai vida e
<jue condissesse melhor com a real e dramática existência
quotidiana. O caso de Heidegger é significativo: a tremenda
miséria e o incessante risco das trincheiras, em 1914, reve
laram-lhe o abandono que caracteriza a situação hominal.
Outro caso também muito significativo é o de Gabriel Mar
eei: inclinado, de início, para a dialéctica abstracta, "a sua
.actuação, durante a guerra de 1914, nos inquéritos da Cruz
Vermelha, levando-o a contactar com as piores misérias,
obrigou-o, de certo modo, a concentrar-se em angustiada
INTRODUÇÃO 27
reflexão sobre o mistério da vida e da existência (28). É a
história de cada um de nós, no decurso destes últimos anos.
Fomos violentamente reconduzidos a nós mesmos, como que
sacudidos por um tremor de terra, bruscamente despojados,
pelo ímpeto do furacão, de todos os artifícios conceituais de
que estávamos revestidos e que nos manietavam. O que
tínhamos à nossa frente, era o drama de uma humanidade
que, no temor e no tremor, procurava o sentido da vida, como
se o problema houvesse tomado um rumo novo, absoluta
mente inédito, reclamando imperiosamente soluções igual
mente novas.
Pela mesma forma e ao mesmo tempo se explica o
sucesso das filosofias do absurdo e do desespero. O mundo
parecia entregue à loucura, o universo desprovido de sentido,
a vida fundamentalmente absurda, apoiada sobre o nada, o
universo vazio de Deus. A influência, que não era de mini
mizar, do pensamento níetzschíano conjugava-se com a imensa
desesperança dos anos sombrios para enegrecer ainda mais
a noite em que a humanidade, enlouquecida, se debatia. Um
passado de negações — negação da aptidão do espírito para

(2S) #G. M a r c e l refere o caso no ensaio que, sob o titulo Regatd 


en arcière,  escreveu para o volume que as edições Plon consagraram
à sua obra, L ’existerdialisme chrétien, G. Marcel,   Paris, Plon, 1947, e
que vem publicado nas últimas páginas deste livro. Cf. pág. 312: Colo
cado à frente de um serviço de informações da Cruz Vermelha «senti-me
obrigado, pela força das circunstâncias, a concentrar a minha atenção
sobre os desaparecidos e, assim, a ter sempre presente no espírito um dos
aspectos mais horríveis, mais injuriosos para a razão e para o coração,
de uma hecatombe, perante a qual senti o odioso de nada mais poder ser
do que simples espectador... Mas houve ainda outra coisa que em mim
influiu grandemente. As investigações a que ia procedendo levaram-me a
reflectir sobre o condicionalismo que envolve qualquer inquérito ou ques
tionário, e também, por forma indirecta, a concluir que nfio é  possível
transcender a ordem quando a actividade do espírito se limita ao registo-
de perguntas e respostas». >
28 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

encontrar a verdade, negação dos valores espirituais e morais


da tradição cristã, negação da transcendência do homem em
relação ao resto do mundo ■—- tudo favorecia essa espécie de
queda vertical nos abismos do desespero. A desordem inau
dita em que estivemos engolfados, com a apologia da impos
tura e das atitudes ambíguas, da carnificina e da pilhagem,
a profunda desmoralização provocada pelo mercado negro,
tudo contribuía para generalizar um cepticismo diante do
qual nenhum valor moral mantinha prestígio.
Perante tal estado de coisas, não custa a compreender
que tenham sido tão bem acolhidas as filosofias do absurdo,
isto é, as filosofias que se fundam no postulado do absurdo
universal, como outras, recentemente, se fundam no postu
lado da identidade entre o real e o racional. O Nada tomava
na transcendência o lugar deixado vago pela Razão e por
Deus. As doutrinas de Camus e de Bataille, o existencialismo
de Heidegger e de Sartre têm grande parte da sua origem
nessa corrente de absurdismo. Entretanto, todas estas dou
trinas se apoiam também na angústia e no desespero, osten
tando, assim, a marca de uma época atormentada e a
virtude de chamar o homem à subjectividade. Esta corrente
de pensamento não tardou em cristalizar as tendêngias con
fusas do nosso tempo, fornecendo-lhes uma expressão e uma
moldura. A sua eclosão, e sobretudo o seu prodigioso sucesso,
não se poderiam conceber, por exemplo, nos primeiros anos
deste século. Era necessária uma profunda transformação,
um cataclismo, tal como o previa ■— e desejava ■— o génio
profético de Nietzsche, para que a afirmação do absurdo se
impusesse com uma força tão percuciente.
PRIMEIRA PARTE

 AS ORI GENS


DO EXISTENCIALISMO
C a pít u l o P r i m e ir o

KIERKEGAARD

I—< a l a r do existencialismo de Kierkegaard não é hoje


*• tarefa fácil, de tal maneira os temas fundamentais do
pensamento kierkegaardiano têm sido desenvolvidos e, por
vezes, contraditados por parte das novas formas existen
cialistas. O fracasso dos sistemas, o paradoxo e o absurdo,
o desespero e a angústia, o abandono do homo naturalis e o
compromisso do homo cheistianus,  o sentido do risco e o
drama do indivíduo, o valor, exclusivo da subjectividade
e a incerteza absoluta do «objectivo»; —' eis os temas fun
damentais de Kierkegaard que, depois, ao lado de certos
princípios estabelecidos por outros filósofos, como Nietzsche
e Husserl, viriam a ter ressonâncias imprevistas no contexto
das novas doutrinas existenciais. Deste modo, as teses de
Kierkegaard passaram a explanar-se num clima que já não
é o clima kierkegaardiano e que, pelo menos em parte, chegbu
até a merecer a veemente repulsa do filósofo dinamarquês.
Por outro lado, também não poderemos deixar de dizer
que foram essas formas novas de existencialismo que mais
contribuíram para revelar o pensamento de Kierkegaard,
mesmo quando elas o contradizem em pontos essenciais»
Kierkegaard está incontestavelmente na origem do movi-
32 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

mento existencialista contemporâneo — mas ele é também, de


certa maneira, o efeito ou a consequência desse movimento.
Há aqui um jogo de causalidade recíproca — vulgar na his
tória das doutrinas. Descartes revela-se e completa-se em
Malebranche e em Leibniz, e também em Hume e em
La Mettrie. A sua verdade é mais futura do que passada.
O mesmo deveremos dizer de Kierkegaard: os seus temas
principais só encontram significação completa nas obras dos
seus sucessores. Sem K. Barth, sem Heidegger e Jaspers, o
pensamento de Kierkegaard teria ficado parcialmente implí
cito ou virtual; os próprios desvios que sofreu, ao ser
submetido às congcminações dos existencialistas de hoje,
permitem-nos apreender melhor a sua significação original.
Corre-se, portanto, involuntàriamente o perigo de apre
sentar o existencialismo de Kierkegaard, não só sob uma
tonalidade ou aspecto menos exacto, mas até sob uma forma
que poderá trair a sua originalidade. Entretanto, esse perigo,
que talvez não seja possível afastar por completo, de tal
forma a nossa sensibilidade filosófica se encontra afectada
pelo novo clima — só vem sublinhar a actualidade de Kier
kegaard, a perene intensidade da sua influência e o carácter
sempre vivo do seu pensamento. Todavia, para bem com
preendermos Kierkegaard, deveremos esforçar-nos por, apro
veitando muito embora toda a luz que o existencialismo
contemporâneo nos possa fornecer, fazer por abstrair dessas
novas correntes filosóficas <e procurar perscrutar o seu
pensamento na pureza e forma originais e através daquele
aspecto de novidade que deveria revestir para leitores que
se tivessem mantido alheios aos entusiasmos existencialistas
da   nossa época.
Para isso, consideraremos primeiramente as origens do
existencialismo kierkegaardiano, procurando, depois, definir-
-Ihe a natureza e estabelecer o seu condicionalismo — para
KIERKEGAARD 33
o que seguiremos o mais de perto possível os escritos de
Kierkegaard através das suas Obras e do seu Diário (*).

As origens do existencialismo kierkegaardiano

1. Falar das origens do existencialismo kierkegaar


diano é abordar um plural discutível. Porque, no fundo, o
existencialismo kierkegaardiano só tem uma origem, que é
a realidade existencial de Sõren Aabye Kierkegaard , a sua
personalidade concreta, o indivíduo que já era antes de se
decidir a ser únicamente «Indivíduo» — esse indivíduo que

(*)
Nas citações utilizaremos as siglas seguintes:
 JH : K i e r k e g a a r d , Die Tagebücher   (Diário), atrsgewählt und über
setzt von Th. H a e c k e r  , 1923, T. n.
 Jpg: K j e r k e g a a r d ,  Journal  (Extractos), 1832-1846, tradução F e r -
l o v e G a t e a u ,  Gallimard, 1941.
A2: L'Alternative,  2.“ parte, trad. P.-H. T i s s e a u , Bazoges-en-Pareds,
Vendée, 1940.
CT: Crainte et Tremblement,  trad. P.-H. T i s s e a u , ed. Montaigne,
Paris, 1935.
CA: Le Concert d'angoisse,  trad, P.-H. T i s s e a u , Alcan, 1935.
P S : Post-scriptum aux Miettes philosophiques,  trad. P . P e t it  ,
Gallimard, 1941.
TD: Traité du désespoir,  trad. F e r l o v e G a t e a u , Gallimard, 1932.
(P.-H. Tisseau publicou, em 1946, uma nova tradução deste
Tratado com o título de La Maladie à la mort,  Bazoges-en-
Pareds, Vendée). Existe desta obra uma tradução portuguesa
de A. Casais Monteiro com o título O desespero humano,
Livraria Tavares Martins.
PV: Point de vue explicatif de mon oeuvre,  trad. P.-H. T is s e a u ,
Bazoges-en-Pareds, Vendé^, 1940.
EC: L'Ecole du Christianisme,  trad. P.-H. T i s s e a u , Bazogea-ea-
Pareds, Vendée, 1936.
3
34 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

tomou o «Indivíduo» como tema central da sua doutrina.


É certo que, no pensamento de Kierkegaard, devem ter
actuado muitas influências exteriores e acidentais, que have
mos de procurar definir. Mas é também certo que essas
influências revestiram apenas carácter episódico e ocasional.
Estas considerações poderão parecer supérfluas, visto
que, no fim de contas, todas as doutrinas exprimem sempre,
qualquer que seja o seu ponto de vista filosófico, uma dada
situação na qual o temperamento do pensador conta como
factor mais importante. Mas em Kierkegaard o caso é dife
rente, porque o seu pensamento formou-se, não tanto por
assimilação de elementos estranhos, mas sobretudo através
de um profundo e persistente exame da sua própria persona
lidade, através de uma luta de consciência, cada vez mais
intensa e cada vez mais exigente, perante as condições, não
 já da existência em geral, mas do seu próprio existir. Nele,
como em muitos outros, deu-se uma reacção do séu próprio
temperamento, da sua individualidade concreta, como produto
das influências que actuaram no seu pensamento — mas a sua
filosofia é precisamente ele próprio, e ele próprio não for
tuitamente e como que de certo modo contrariado (o que de
resto é vulgar, ainda que muitos pensadores de tal se exi
mam), mas é e/e  próprio voluntariamente e sistematicamente,
a tal ponto que o «existir como Indivíduo» e a consciência
reflectida desse existir chegam a ser para ele condição abso
luta da filosofia e até a sua única razão de ser.
Sobre este ponto, insistirá Kierkegaard durante toda a
sua vida de filósofo. Logo a partir do 1.° de Abril de 1835,
ele afirma no seu Diário  (2) que a grande questão é «encon
trar uma verdade, mas uma verdade  para mim,  encontrar a
ideia para a qual quero viver e morrer». É certo, acrescenta,
que se terá de admitir a realidade de um imperativo moral.

(2) JFg> pág. 31.


KIERKEGAARD 35

Mas este imperativo, é necessário que cada um de nós o


absorva vivendo e que, em suma, cada um de nós constitua
com ele um todo uno para que ele seja apenas uma expressão
da própria existência de cada um de nós. Desde então,
Kierkegaard não mais pôde conceber uma verdade que de
qualquer forma lhe fosse exterior, que pudesse ser apenas
visão do espírito.
 A verdade é a própria vida que a exprime: é a vida
em acto.  Aqui se pode encontrar a explicação da luta que 4
Kierkegaard manteve consigo mesmo, luta que só acabou com
a sua vida e que provinha da inquietação que sentia por não
viver plenamente a verdade, por deixar subsistir um intervalo
entre ela e ele, em lugar de se ajustar absolutamente a ela.
Nisto se resume a questão da existência poética, continua
mente posta ante a consciência de Kierkegaard e nunca cabal
mente resolvida. Fazer um todo uno com a verdade; vivê-la
em lugar de a pensar. Para este ideal é que deve tender um
existencialismo coerente.
Para corroborar mais este ponto de vista, poderíamos
ainda recorrer aos numerosos textos em que Kierkegaard
declara que toda a sua obra não é senão uma expressão da sua
 própria vida. Tomamo-lo como autor quando ele não é mais do
que um ouvinte, como um escritor religioso quando é apenas
«pregador para ele mesmo» (3). «Eu sou completamente ao
contrário dos outros pregadores, escreve, eles falam para os
outros, eu falo para mim mesmo». «Toda a minha obra, observa _ 
ainda no Post-scriptum (4) , gira sobre mim mesmo, única
e exclusivamente sobre mim mesmo», e no Diário   (5) insiste:
«Tudo o que tenho produzido é unicamente fruto da minha
educação». Os seus escritos fixam as diversas fases dessa

(■) JH, pág. 68.


(4) PS, págs. 419-420.
(•) JH, pág. 70.
36 A.S DOUTRINAS FÍXISTF.NCIAÍ ISTA S

educação, ou seja, desse esforço prosseguido sem desfaleci


mento para se apropriar reflexivamente da sua própria ver
dade e para se assimilar com essa verdade assim conquistada,
suprimindo qualquer distância de si para consigo.
Colocados neste ponto de vista, iteremos de admitir que
o escrito, como Kierkegaard observou muitas vezes, é um
sinal de fracasso, ou, pelo menos, o indício de uma empresa
não acabada. A situação do orador ou do poeta é uma situa-
ção ambígua: o discurso é sinal de um desvio. Desde que se
encontre realizada a perfeita coincidência do pensamento com
a vida, já não há motivo para falar, escrever ou raciocinar.
(«Eu penso, portanto não existo», diz Kierkegaard, por oposi
ção ao racionalismo cartesiano). Não há mais nada senão
existir: a verdade é a própria existência,   na sua realidade
singular e incomunicável (pelo menos directamente). Ou,
mais exactamente, é a consciência da existência coincidindo
com essa mesma existência.
As origens do pensamento de Kierkegaard constituem
portanto, e finalmente, um problema de psicologia, num sen
tido muito mais radical do que o vulgarmente admitido. Ora,
para tratar deste assunto, é necessário em primeiro lugar pôr
em evidência a profunda tendência de Kierkegaard, verda
deiramente constitucional, para a reflexão e para a análise.
Os génios, a quem uma necessidade irresistível prende cons
tantemente ao estudo da sua vida interior (um Epicteto, um
Agostinho, um Montaigne, um Pascal, um Biran, um Amiel)
são, por natureza, se assim se pode dizer, existencialistas:
a filosofia foi sempre para eles, segundo a expressão de Kier
kegaard, como que uma «reduplicação» da sua personalidade
concreta. O esforço que outros despendem em se esquecerem
de si. empregam-no eles a conhecerem-se, esperando que desse
conhecimento próprio, aumentado sempre em profundidade,
virá o conhecimento do restante ■— do homem, do mundo e
de Deus. Esta espécie de «autoscopia» toma, em Kierkegaard,
4

KIERKEGAARD 37
proporções surpreendentes. Ele próprio chegou a declarar
que era «reflexão do princípio ao fim» e que a sua perma
nente ocupação era escutar o murmúrio dos seus pensamentos,
fazer-se coincidir com o ritmo da sua vida interior. Logo no
inicio da sua vida de pensador ("), em carta (talvez fictícia1)
a Peter Lind, chama a atenção para a vantagem de se sentir
um tanto abandonado por parte dos seus amigos. O silêncio
deles, diz, é-me nitidamente proveitoso porque me obriga a
fixar a vista no meu eu; porque rae estimula a apreender^
esse eu que é o meu; porque me obriga a manter-me fixo na
infinita instabilidade da vida e a voltar para mim o espelho
côncavo com que dantes procurava abarcar a vida fora de
mim mesmo. «Esse silêncio agrada-me porque me sinto capaz
desse esforço e com coragem para segurar o espelho, mos
tre-me ele o que mostrar, o meu ideal ou a minha caricatura».
Homem-problema para si mesmo, Kierkegaard nunca deixou
de se interrogar e de se analisar a si próprio. Para ele, a
filosofia resumia-se em tomar consciência, por forma cada
vez mais penetrante, através de um profundo conhecimento
da sua própria existência, das exigências absolutas de uma
existência autêntica,  A subjectividade tornava-se, assim,  para
empregar a sua própria expressão, o critério e a verdade da
objectividade.  Portanto, o existencialismo, para Kierkegaard,
é, antes de mais nada, a forma de uma necessidade, a expres
são de uma tendência tão acentuada que poderia servir para
* definir a sua própria personalidade.

2. Deste modo se explica facilmente que Kierkegaard


tão depressa tenha sentido e compreendido que o racionalismo
hegeliano   era precisamente o antípoda do seu próprio pen
samento. Durante os anos que frequentou a Universidade»

(*) JFfl. pág. 30.


38 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

insurgiu-se muitas vezes contra Hegel, que, então, sobretudo


nos países escandinavos, pontificava por completo nos domí
nios da especulação. A influência hegeliana estendia-se a
todos os sectores intelectuais e a própria teologia de um
Martensen se ressente fortemente dessa influência. E Kier-
kegaard depressa viria também a deixar-se seduzir pelo jogo
subtil da dialéctica hegeliana: a lógica, para ele, tomou
sempre foros de «apaixonante voluptuosidade». Entretanto,
* depressa também se começou a sentir impressionado pela
forma como o sistema se arrogava o direito de ignorar a
existência ou, o que vem a dar o mesmo, de a engendrar
racionalmente a seu bel-talante, como se se tratasse de qual
quer vulgar conceito. Mas a existência não é susceptível
de se deixar meter na forma! Kierkegaard, ao referir-se a
este escândalo dos seus tempos de estudante, sublinha a fei
ção cómica que reveste a atitude do «pensador objectivo e
abstracto», isto é, do idealista tipo hegeliano, para quem a
existência, na medida em que se permite considerá-la, se trans
forma num objecto como outro qualquer (7). Esse pensador

(') O Hegel ao qual se opõe Kierkegaard não é o da Fenomeno-


logia do espírito  (1807), (Cf. Jean H y po u t e , G enèse et Structure de la
Phénoménologie de l'esprit de H egel,   Paris, Aubier, 1946), mas o Hegel
idealista de 1827, para quem a história não é mais do que o desenvolvi
mento e a manifestação de uma lógica, visto que, entre as coisas finitas e
o seu principio absoluto, a relação é essencialmente idêntica à que existe,
numa dedução racional, entre o princípio absolutamente primeiro e as
suas consequências necessárias. Explicar o mundo será, portanto, deduzi-lo
a partir da Ideia (ou do Espírito Infinito), isto é, admitir que, estabelecido
o Espírito Infinito, o mundo dele resulta necessariamente, com todos os
caracteres que a experiência apresenta e toda a sucessiva variedade dos
seres e da história. O sistema racional, sendo rigoroso, terá de exprimir
a evolução imanente do absoluto indeterminado <— evolução que traduz
objectivamente, através do jogo das limitações internas (ou dos seres fini
tos), o que o Absoluto é subjectivamente e nos dá consciência dele nessas
próprias limitações pelas quais explicita sucessivamente as suas virtuali-
KIERKEGAARD 39

idealista, ou racionalista, transforma-se portanto em objecto


para si mesmo, isto é, deixa de existir! Para ele, tratar da
existência, é precisamente aboli-la e negá-la, porquanto «ser
sujeito» e «existir» são sinónimos. Para vincar o carácter sur
preendente da operação racionalista basta dizer que é   a sua
própria objectividade que suprime o objecto. Porque o exis
tente laz parte d o problema:   é um dos seus elementos.  Abstrair 
do existente é, portanto, mutilar a realidade e renegar a objec
tividade.  O objecto é um sujeito, ou, pelo menos, implica
sempre o sujeito. O conhecimento do mundo >é primeiramente,
ou antes, é, do princípio ao fim, conhecimento de si. Eis
por que, diz Kierkegaard, se é muito fácil ser-se idealista em
imaginação, já não é tão fácil ter que existir como idealista!
Aí está «um encargo para toda a vida e um encargo extre
mamente penoso, porque, em tal caso, é justamente na
existência que encontramos o obstáculo». Exprimir, existindo,
o que se compreendeu de si mesmo nada tem de cómico; mas
compreender tudo, exceptuando-se a si mesmo, isso é intei
ramente cómico (8). Para Kierkegaard, o que importa é
compreender-se a si mesmo e compreender-se existindo
e, se assim se proceder, ficar-se-á a compreender tudo. Para
quê construir palácios magníficos, cheios de lógica e de cla
ridade, se em seguida tivermos de dormir ao lado, no alpendre
vizinho!
Portanto, a posição existencialista de Kierkegaard expli
ca-se bem, sob o ponto de vista lógico, como negação do
racionalismo hegeliano. Sob o ponto de vista histórico e

dades infinitas. A coisa em si é, portanto, o Pensamento ou a Ideia,


havendo identidade perfeita entre o real e o racional. Segundo a dialéctica
das Ideias, o entendimento reproduzirá a própria ordem e a necessária
sequência das coisas. Dialéctica e História são dois aspectos da mesma
realidade.
Ó PS, pág. 237.
40 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

dentro de uma feição mais concreta, poderemos dizer também


que ele se origina nas próprias delimitações do sistema hege-
liano, como fruto da desilusão causada por esse mesmo sis
tema. E assim, o existencialismo kierkegaardiano, apesar de
todo o seu anti-racionalismo, terá, sob este ponto de vista, de
ser considerado racionalista. De resto, foi pela mão do racio-
nalismo que Kierkegaard se iniciou na especulação e é esse
mesmo racionalismo que, a titulo de exigência insatisfeita,
ainda subsiste no próprio existencialismo (9). De facto, nada
está mais conforme com a doutrina de Kierkegaard que
essa tensão dialéctica no seio do pensamento. «O ponto de
vista contrário ao que defendo, ‘diz ele, encontra sempre em
mim o seu mais acalorado defensor» (lü). A filosofia do
Indivíduo e do Único aparece assim como «a 'decepção de
um hegeliano fascinado pela ideia do Saber absoluto, que
traz no coração a nostalgia do Sistema, mas que, descobrindo
o existente e vendo que ele é irredutível, mantém a lucidez
bastante para compreender que esse contingente é soberana
mente interessante e importante» i 11).
Deslumbrado com esta descoberta, Kierkegaard leva o
radicalismo da sua oposição a rejeitar, não somente o racio
nalismo hegeliano, mas ainda qualquer sistema, seja ele qual
for. Um sistema, escreve, promete tudo, sem poder dar
absolutamente nada (12). Tem de recorrer a postulados ou a
intuições que escapam à demonstração e, no entanto, apre
senta-se como integralmente racional, propondo-se substituir
o facto ou a hipótese pelo absoluto do direito e pelo rigor

{’) Cf. a nossa I ntroduction ò K i erk egaar dpágs.   55-70, e  pág.


231 sg.
(") JH, pág. 95.
(u) R. V e r n e a u x , De 1’A bsurde, em R evue de Philosophie.   1946,
pág. 167.
(“) PS, pág. 8.
KIERKEGAARD 41
da prova. O sistema desenvolve-se, portanto, na ficção e
constrói-se de certo modo ao invés, a partir do tecto. O esforço
para atingir a perfeição lógica elimina o sentido do real:
tende sempre a lançar para a sombra e para o esquecimento
o sentido do problema e até o próprio problema que suscitou
o sistema. A moldura devora o painel; a dialéctica suprime
o mistério, É assim que pensa Kierkegaard quando afirma
que o sistemático se opõe à vida como o que está fechado se
opõe ao que está aberto   (13).
Quanto à filosofia, Kierkegaard só a aceita desde que
ela se afirme unicamente como expressão da existência. Ora,
a filosòfia, por definição, procura o abstracto e, por isso,
sempre que depara com a existência, vê-se obrigada a pen
sá-la como abolida e como não-existente. «Há, diz Kierke
gaard, uma luta de morte entre a existência e o pensamento».
E essa luta dá-se porque » realidade  pensada   (e, portanto,
abstracta) nunca passa de um  possível.   Por este motivo é que
as construções racionais são susceptíveis de ser comparadas
com as obras de arte: quer sob o ponto de vista estético quer
sob o ponto de vista intelectual, «uma realidade só é com
preendida e pensada quando o seu esse   se encontra dissolvido
no seu  posse».   No domínio da vida, consoante, por exemplo,
admite a ética, dá-se o contrário: a possibilidade só se pode
compreender quando cada  posse é   na realidade um esse (14).
Assim se compreende que, da mesma forma que sistema e
existência, também filosofia e existência se não possam pensar
conjuntamente. A existência estabelece o mundo da contin
gência radical; dá origem ao intervalo que mantém as coisas
separadas; é princípio de pluralidade e não de multiplicidade
quantitativa, não podendo, portanto, ser somada nem redu
zida a um número; esfrangalha todos os sistemas. Ao mesmo

H PS, págs. 78-79.


(“ ) PS, pág. 217.
42 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

tempo, leva a-filosofia a convencer-se da sua impotência:


qualquer doutrina racional só poderá constituir-se como
uma espécie de mágica num universo de possíveis, dentro
do qual o movimento, a vida, a exisitência e até o próprio
filósofo não passam de conceitos como outros quaisquer.
Diremos, portanto, mais uma vez, que não há pensamento
real sem ser existencial e vivido.  Por outras palavras, o saber
terá de formar, conjuntamente com o ser, apenas uma única
e mesma coisa,

3. Convém referir agora a influência que mais profun


damente actuou no pensamento de Kierkegaard, que mais
fortemente modelou a sua sensibilidade, contribuindo, de
uma maneira decisiva, para a génese do seu existencia
lismo, Referimo-nos à influência do cristianismo,  mas dum
cristianismo impregnado de luteranismo. O cristianismo
luterano adaptou-se tão bem à íntima psicologia de Kier
kegaard que com ela quase se confunde, ficando nós sem
saber se é Kierkegaard que é cristão se é o cristianismo que
é kierkegaardiano. Aqui se encerra todo o drama da melan
colia de Kierkegaard. O cristianismo duro e sombrio, angus
tiante e terrífico, considera-o Kierkegaard como tipo do
cristianismo vivido (ainda que, em páginas admiráveis, tenha
também exaltado o seu carácter pacificador e estimulante).
Terá esse cristianismo actuado como causa ou como efeito
desse complexo melancólico que, durante toda a vida, pairou
sobre a existência de Kierkegaard? Supomos poder afirmar
quç actuou de ambas as formas. Como negar, com efeito, ~-
se é o próprio Kierkegaard que a invoca constantemente —
a influência que a religião paterna nele exerceu durante os
anos da juventude? Por outro lado, também não poderemos
deixar de ter em atenção a monstruosa melancolia que de
cada vez mais assediava a sua alma, incutindo-lhe, por vezes,
ideias de suicídio e reflectindo-se tanto na sua concepção do
KIERKEGAARD 43
cristianismo autêntico que, em certas ocasiões, ele chega
mesmo a ver nesse cristianismo autêntico a própria expressão
da «mais desumana crueldade» (10). Na mente de Kierke-
gaard manteve-se sempre a ideia de que «se retirássemos o
pavor ao cristianismo, nos encontraríamos perante um cris
tianismo de fantasia» (in). «Deus, diz ele ainda, é o teu mor
tal inimigo».
Devemos observar aqui que nada reforça tanto o
sentimento da existência como a inquietação e a angústia.
O homem, vivente e existente, prova-se muiito mais no sofri
mento do que na alegria. Esta é sobretudo expansão e euforia
e provoca uma espécie de dispersão cósmica. A alma angus
tiada de Kierkegaard conciliava-se, portanto, sob este novo
ponto de vista, com o cristianismo, que é princípio de exis
tência vivida no temor e no tremor — e sentia-se, por outro
lado, naturalmente inclinada a admitir, como regra (ou equa
ção), que o cristianismo ou, mais exactamente, o «devir 
cristão» é o verdadeiro existencialismo.   A filosofia, para
Kierkegaard, consistia, no fim de contas, numa propedêutica
da vida cristã ou, melhor, numa vivida consciência de todas
as exigências do cristianismo , isto é, num permanente, pro
gressivo e consciente esforço de acabamento de si mesmo à
luz do ideal cristão, ou, então, na busca de um saber que terá
de constituir um todo uno com o existir como cristão.
Logo no início da sua carreira de filósofo, Kierkegaard
estabeleceu acerca deste ponto um princípio que não mais
haveria de renegar ou mesmo corrigir: «A Filosofia e o Cris
tianismo, escrevia (17), nunca podem estar unidos. Porque,
se tenho de defender aquilo que, por pouco que seja, há de
essencial no cristianismo, isto fé, a redenção, terei também

(“ ) PV , pág. 61.
(M) PS, pág. 401.
(" ) TD , págs. 231-233.
44 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

de admitir que, desde que ela é real, terá naturalmente de


polarizar toda a vida do homem. É certo que seria possível con
ceber uma filosofia de acordo com o cristianismo ou tomando
em conta o homem cristão. Mas isso seria uma filosofia
cristã».  A filosofia não se pode completar senão renegando-se
a si própria,   pois só se poderia completar pelo reconhecimento
daquilo que ela não pode produzir, nem mesmo descobrir e
compreender, ou seja, o existir cristão, fundado em categorias
que nenhuma razão saberia deduzir. Portanto, desde que,
como dissemos, temos de admitir que só a atitude religiosa,
e mais precisamente a atitude cristã, com tudo o que implica
de angústia e de dilaceração, é que, na realidade, se adapta
à vida real do homem, também teremos de admitir que só um
existencialismo cristão,  ou antes, para fugir à fórmula abs
tracta, só uma existência inteiramente apoiada no devir cris
tão, é que poderá corresponder a um existencialismo coerente,
 fiel a todas as exigências de um existir autêntico.

II

As condições da existência

Depois de termos visto como e em que bases se originou


o existencialismo kierkegaardiano, podemos agora concretizar
as condições que o regem, encarando-as através daquele sen
tido que o próprio Kierkegaard lhes conferiu. Para isso, não
precisamos de entrar pelo domínio da abstracção. O existen
cialismo nunca poderá ser uma teoria como outra qualquer,
porque a existência não é, em si, susceptível de teoria. O exis
tencialismo, para Kierkegaard, é apenas a expressão da sua
própria vida e a única coisa de geral ou de universal que
contém é a exortação que a todos nos dirige para que nos
tomemos cristãos. A natureza deste existencialismo só poderá,
KIERKEGAARD 45

portanto, ser definida em função das condições que são


requeridas por um existir autêntico■— existir que se deverá
iniciar, e intensificar seguidamente, por meio de uma reflexão
capaz de fazer, de uma existência vivida, uma existência
desejada e pensada, de um pensamento em acto, um acto
pensado. Essas condições podem reduzir-se a três: a neces
sidade do compromisso e do risco, o primado da subjectivi
dade e a prova da angústia e do desespero.

A. O compromisso e o risco.
1. Para podermos compreender cabalmente o que é o
compromisso e o risco, teremos de partir da noção kierke-
gaardiana de verdade.  Haecker (18) exagera-lhe a feição
subjectivista, como se Kierkegaard alguma vez tivesse afir
mado que qualquer asserção se pode ou não considerar
verdadeira consoante a paixão com que é   enunciada. Kier
kegaard parece estar muito longe de dar foros de consagração
a esta lógica passional — ainda que certos aspectos da sua
doutrina corram, por vezes, o risco de nos levar a supor isso
mesmo. É certo que ele admite um «imperativo do conheci
mento», isto é, uma regra objectiva de pensamento, pelo
mesmo motivo que há um imperativo moral (19). Mas esse
imperativo, como também esclarece logo, deverá coincidir de
certo modo comigo próprio. Pela vida, eu devo transfor-
mar-me na regra do meu comportamento, graças à esponta
neidade da razão e do coração, que são conalturais da verdade
e do bem. Cinicamente pox isto é que a verdade se tornará &
minha verdade, porque não há verdade para o indivíduo senão

(18) Haecker,La notion de la vérité chez S. Kierkegaard, em


Essais sur Kierkegaard, Pétrarque et Goethe  (Colecção L e R oseau dw ) ,
Pion, 1934, pág. 9 sg.. *
(” ) JFg . pág. 31.
46 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

quando ele próprio, agindo, a produz.   Kierkegaard insistiu


sempre neste ponto: o ser da verdade nunca poderá consistir
no enunciado de um tema do pensamento ou no enunciado
de um juízo teórico. Isto só seria possível se a verdade, como
há quem pareça supor, fosse um objecto que se pudesse adqui
rir (como se adquirem coisas no mercado) e possuir como
uma coisa. Ora isso é inteiramente contrário à essência da
verdade, que é possuidora e não possuída. Dizemos que a
meditamos e que a contemplamos, mas, na realidade, ela é
que nos contempla e nos acena. Ninguém se apodera dela;
ela é que toma posse de nós e só existe quando nós nos dis
pomos a ser a verdade. Ela exige absolutamente ser vivida.
Vida e verdade coincidem (su).
Pelo que acabamos de expor se compreende o motivo
que levou Kierkegaard a ligar sempre o  pathos   (a paixão) à
verdade e à existência. Quando afirma que qualquer verdade
é apaixonada, quer dizer que,  para   ele, não há verdade que
não seja vívida, que não há verdade que, como tal, não ponha
em jogo tudo o que eu sou e tudo o que faço.  A paixão é o
que há de mais elevado na subjectividade e por consequência
a mais perfeita expressão da existência  (21). Da'qui a afirma
ção em Crainte et Tremblement  (22) de que «ias  conclusões
da paixão são as únicas dignas de fé, ais únícais que provam».
A verdade não pode, portanto, procurar-se senão na paixão.
Isto explica por que a verdade existencial teim necessària-
menfce um carácter dramático. Podeir-se-ia dizelr também,
usando um termo familiar a1 Kierkegaard, que ela1 é essen
cialmente dialéctica:  implica o diálogo comigo mesmo, ou seja,
o acto pelo qual eu elaboro a minha própria verdade, quando
a assumo, e me crio a mim mesmo na acção, e implica ainda

(") E C.   pág. 250.


H PS, pág. 132.
(“) CT, pág. 165.
KIERKEGAARD 47
o estado de tensão que em mim provoca o risco que qualquer
compromisso sério envolve sempre.
Verdade, compromisso e risco estão, de facto, necessa
riamente ligados. Não pode haver verdade para mim desde
que eu não me disponha a tomar um compromisso e a arris
car tudo. Recusar o risco é recusar a verdade.   Os homens
fazem grande alarde da's suas verdades. Quereis saber se eles
crêem nessas verdades que anunciam e proclamam? — Vede
como eles vivem; repairai se elles vivem a verdade levando-a
até às suias última® consequências, sem qualquer evasiva ou
subterfúgio, de onde, à última hora, passa vir a surgir um
novo beijo de Judas (23).
Estes pontos de vista levam Kierkegaard a fazer da fé,
com o risco que ela comporta, o verdadeiro tipo da adesão
sincera e do autêntico compromisso. A fé é para ele a ver
dade por excelência, não só porque é verdade de Deus e não
do homem mas também porque exige o mais alto grau de
subjectividade. A incerteza objectiva — porque a fé é
«o absurdo» — só me permite professar essa fé na paixão e
no sentimento de que toda a minha existência no mundo, e
até na eternidade, nela está interessada. «A subjectividade,
escreve Kierkegaard, culmina na paixão; o cristianismo é o
paradoxo; paradoxo e paixão podem-se juntar porque se con
ciliam tão perfeitamente, como o paradoxo se concilia com o
que existe em mais elevado grau» (24).
B. O  primado da subjectividade.
2. De acordo com o que ficou expctóto, devemos con
siderar a incerteza objectiva como sendo a condição da
verdade existencial e, deste modo, tomar a fé como definição
da verdade.   Servindo-se de uma fórmula um tanto arrojada

D CA, págs. 200-201.


H PS, pág. 152.
48 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

(que parece justificar a interpretação de Haecker), Kierke-


gaard escreve: «Uma incerteza objectiva, intensamente vivida
na mais fervorosa interioridade — eis o que é a verdade, a
mais elevada verdade para um sujeito existente»  (2B).
Se colocarmos, entretanto, ‘este texto no sieu meio pró
prio, encontraremos nele um sentido menos saibjectívfeta do
que à primeira vista se poderia supor. Temos, efectivamente,
a convicção de que, nessa afirmação, Kierkegaard queria
dizer que a razão última,  que me leva a aderir à verdade, a
assumi-la sob forma de certeza vivida, nunca pode ser o seu
valor objectivo. Só assim se explica que os homens estejam
tão divididos entre si e que não consigam convencer-se uns
aos outros. Kierkegaard faz notar que quanto mais a verdade
objectiva, isto é, a massa das provas, aumenta, tanto mais
a certeza diminui. «Basta ver Os extraordinários esfoirços
metafísicos e lógicos que se têm despendido nos nossos dias
para sê   conseguir apresentar sobre a imortalidade da alma
uma prova nova, integral, absolutamente exacta e entrando
em linha de conta com as anteriormente apresentadas: e, no
entanto, estabelecida que seja essa prova, a certeza 'diminui.
O pensamento da imortalidade está dotado de tal poder, tem,
nas suas consequências tal energia e na sua aceitação tal res
ponsabilidade que é capaz de refazer a vida mas num sentido
que também é de recear. Qualquer indivíduo, que saiba apre
sentar a prova da imortalidade da alma mas que não esteja
convencido dela, sentirá sempre angústia diante de qualquer
fenómeno que o impressione e que o obrigue a penetrar o
sentido da imortalidade para o homem» (26).

3. A certeza termina, portanto, na impotência .de


demonstnvr. Não quer feto dizier que se idescure ou despreze

(“ ) PS, págs. 134-135.


(*) CA,  pàg.  201.
‘ KIERKEGAARD 49
a objectividade. Mas ela não basta e até, em certo sentido,
nunca nos determina. O que me determina é a concordância
da verdade com as mais profundas exigências da pessoa, com
essa verdade moral que é em mim o Indivíduo queteu sou
e quero ser.  Sob este ponto de vista, o tipo da verdade é
efectivamente a fé, pois o que aqui me leva à adesão nem é
a evidência, que é impossível, nem a verosimilhança, pois se
trata do «absurdo», mas a minha decisão de escolher o que
há em mim de eterno ou de infinito. Guardadas as proporções,
pode dizer-se que qualquer verdade é deste género. Segundo
Kierkegaard, a verdade e a certeza não andam a par. Histo
ricamente, parece mesmo que estão em razão inversa uma da
outra. De cada vez se generaliza mais o sistema de  provar 
pela abstracção lógica ou pela demonstração metafísica: é que
a certeza vai sempre decrescendo à medida que as provas se
acumulam. A verdade não nos pode ser imposta do exterior!
A certeza só pode derivar da prova da vida e da acção, por
que não é a razão pura mas o próprio existente, e  justamente
enquanto existente, que crê e assume a verdade.
A mesma observação se iimpõe quando consideramos
a opção como sendo aquilo que distingue a existência.   Para
o racionalismo, a opção faz-se por si, sem qualquer difi
culdade: quando, de facto, ste joga alpetnas com conceitos,
todo se mostra claro e não há motivo paira acidentes impre
vistos. Todavia, quando a vontade intervém, com tudo o que
em si comporta de irracionail, as coisas já não se aipresemtaim
tão simples: a paixão entra no debate; a opção, de problema
abstracto torna-se dialéctica viva, na qtuad eu mesmo me
encontro em causa. Eis por que nenhuma opção (quando há
realmente opção) se pode fazer sem angústia. A opção è o
sinal distintivo da existência. Existir é opção.
Dever-se-ia dizer, mais exactamente ■ainda, que existir 
e escolher-se,   porque, de facto, a opção recai unicamente
sobre nós mesmos. Qualquer opção «externa» é função de
50 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

uma opção interior, de uma1 opção pela qual me realizo a


mim mesmo. O eu que me foi dado nunca é um eu completa
mente feito, uma essência que se deverá actualizar, mas sim
uma simples possibilidade.  A existência precede a essência:
eu sou, de certo modo, o artífice da minha própria essência e
existo na medida em que completo essa essência. Ora isto não
se faz sem risco , como vimos, e por consequência realiza-se
 pela opção , se bem que o acto de escolher e de escolher a
escolha, isto é, de se escolher livremente a si mesmo, possa,
por sua vez, servir para definir a existência.
Kierkegaard esclarece que não se trata, aqui, de uma
opção arbitrária. Liberdade não significa acaso ou (lança
mento de dados. A característica própria do homem está em
sentir-se obrigado a formular uma opção livre.  A escolha
é simultaneamente necessária e livre . Eu devo escolher aquito
que escolho e nunca o escolho 'tão livremente senão quando
vdjo que não posso deixar -de o escolher (por exemplo, no
momento da morte, em que a opção recai sobre o único
necessário) (zr). Com estas fórmulas abruptas e paradoxais,
devemos entender apenas que a opção ê, de facto, necessá
ria) e livre, mas com senltidos diferentes: necessária, no
semtido de obrigatória, e livre como não sendo constrangida.
Ora, qual será. então, a necessidade, ou a obrigação abso
luta, que determina a opção que temos de fàzex? Responde
Kierkegaard: o eu deve absolutamente escolher e escolher-se
conforme o que nele há de infinito e de eterno.

4. TaJ é o motivo por que devemos dizer que só é exis


tência autêntica a que se identifica com um estar «.diante de
Deus» (28), isto é. a que está ligada ao transcendente   e ao
absoluto.   Efectivamente, a subjectividade, à medida que se

(») JH, págs. 139441.


(“) TD, pág. 165 sg.
KIERKEGAARD 51
torna mais profunda, aparece-nos oomo função de um outro
absoluto. En cher-me do stentido do meu eu pessoal, isto é,
do sentido de existir, é necessariamente ultrapassar e cotmo
que superar o en pessoal, porque é passar para além do espaço
e do tempo e, em virtude da mesíma intensidade do instante
vivido, instalair-se de certo modo no eterno. Kierkegaard
retoma aqui, sob modalidade nova, o tema fundamental dfe
Santo Agostinho: Deus, interior intimo meo et superior summo
meo. Redi in te. ibi habitat Veritas.   As coásas do mundo,
quando muito, chamam a atenção. O seu papel é levarem-me
à descoberta ’die mim mesmo, por meio de provações, da
angústia e do desespero que a sua variedade e caducidade
fazem nascer em mim, e, obrigamdo-me a debruçar sobre mim,
revelarem ao meu íntimo esse Absoluto sem o qual eu não
seria para mim senão sucessão reprimida e descontínua, mens
momentanea.
Pairece que estamos a ouvir Spinoza'. Sentimus et expe~
timur nos aeternos esse.   A comparação terá, porém, de ser
afastada porque, para Kierkegaard, a experiência do Absoluto
nunca se pode consumar na imanência do panteísmo. Ela é,
com efeito, paradoxo e mistério, ao passo que o eterno, ao
qual nos leva a subjectividade, torna-se por si histórico e
temporal.  A transcendência, à qual me sinto ligado e contra
a qual, simultaneamente, vou chocar existindo, é sempre a do
Paradoxo absoluto, que é o Homem-Deus — Cristo. Ê na
minha relação com ele, que delvie ser contemporaneidade vivida,
que eu me complelto no que há em mim die etletmo e alcanço
a felicidade. O mistério a que nois etsiüamos reífericndo (e que
enicerra o que há de mais íntilmo no siofrimieintio religioso),
é justamente o de uma Transcendência absoluta que, como
tal, não tem necessàriaanente nelação com mais naida senão
consigo, e que, não obsitawte, não exisitie para mmn senão
na relação que eu tenho com el'a. Graças à consciência desta
relação paradoxal, eu realizo .. com a intensidade da paixão.
52 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

a  plenitude da interioridade.  Entre a subjectividade e a objecti


vidade dá-se uma confluência perfeito: o contacto com o
transcendente (contacto vivido e não pensaido, parque ele é
essencialmente não-saber) faz-me atingir e viver a'o mesmo
tempo o meu próprio absoluto. Tal é o mistério do «perante-
-Deus», ou, mais exactamente, como sie exprime Kferkegaaird,
o mistério do «perante-Cristo» (20).
Daqui se segue que as «ciências do homem» (no sentido
em que Pascal tomava esta expressão: filosofia, moral, polí
tica) só se podem constituir desidíe que sejam tomadas em
conta todas as condições históricas do destino humano:
pecado original, Incarnação e Redenção — e que a existência
autêntica não se pode compreender senão em relação com o
cristianismo   ou, miais exactamente, com o facto «de existir 
nele » (30).
Gomo toda a existência, que é tensão e  pathos,   o existir
cristão deve juntar os contraditórios. A existência cristã >
estende-se à eternidade, mais completa,-sie no instante: ela é
expectação e opção, êxtase e reflexão, risco e ganho, vida
e morte, futuro que reaparece como passado, passado que se
projecta no futuro, contacto e conflito; tensão constante entre
o finito e o infinito. O existente encontra-se, portanto, colo
cado num estado em que os extremos opostos se apresentam
sempre juntos,   na sua própriiai opostíção. É assim que eJe
conhece simultâneiamente a inquietação e a paz, sietodo a sua
paz feita justamente da sua inguMação, como a inquietação
é o fruto da paz. Este o motivo por que escolher é sempre
para e!e saltar para além de tadais ais veroisdimilhanças racio
nais, transpor os abismos da razão abstracta, arriscar tudo
incluindo a sua própria pessoa, afirmar, numa opção solene
(que terá de ser constantemente renovada), a verdade do

H TD, pág. 224.


H PS, pág. 255.
KIERKEGAARD 53
eterno, afirmar-se a si mesmo, e no próprio instante, como
eterno.
Eslfca é, pois, 'a verdadeira filosofia e a vendaideira sabe-
doria. Acostumámo-nos a considerar uma e outra através de
uma especulação sàbiammte ordenada, por meio de conceitos
bem deduzidos e entrelaçados, segundo os diversos cânones
do método racionalista. Mas quem não vê que procedendo
assim nos encontramos fora da vida? Não basta que a espe
culação se ordene à acção: é necessário ainda que ela seja
prática e eficaz. Ora a praticai, aquela que defime a acção
do Indivíduo com todas as circunstâncias reais que comporta,
essa  prática não atende a conceitos:   é feita ide akernativtas,
de crises e -de saí tos; inclui o pró e o oonibra; faz intervir
opções que desconcertam a lógica abstracta. Quanto à efi
cácia, nunca a podeireimos encontraír num discurso que sie
dirige apenas ao espírito, porquanto o que está em causa não
é a simples existência, mas a minha  existência, aio que ela
pctô»ui de singular e 'de único. Portanto, se a filosofia deve
ser, no sentido socrático, busca da sabedoria (e para nós não
pode ser senão busca da sabedoria criisitã) — é necessário que
ela nos ensine a airte de ser, não u'm «pensador», maisi alguém,
um Indivíduo.

5. Kierkegaard alonga-se em considerações sobre os


meios de podermos vir a ser este Indivíduo, que é   para ele
sinónimo de existente. Tornar-se um  indivíduo, observa ele,
não é muito difícil: compreende-se bem que o homem, ao con
trário do animal, não queira encontrar o seu fim na espé
cie (S1). Isto, porém, não é senão o começo. Na verdade, o
que interessa é tornar-se, de facto, «o Indivíduo», e para isso
é preciso que cada um seja, ao mesmo tempo e no mesmo sen-

n JH, pág. 426.


54  AS D OU TRIN A S E X IST E N C IA LIST A S

tido, o Único entre todos (o extraordinário e o excepcional)


e, por outro lado, que seja toda a gente. Singular e universal:
tal é o verdadeiro existente   e tal é a dialéctica do indivíduo
na ambiguidade do seu duplo movimento.
Daqui se segue imediatamente que qualquer relação entre
existentes será sempre uma relação entre sujeitos.   Entre
objectos só pode haver contactos mecânicos e nurnca «rela
ções». O eu só é um sujeito através da reflexão que lhe
permite tomar posse de si e, simultaneamente, conquistar e
alfirmar a sua liberdade. Qual o meio de que ele se servirá
paira exercer influência sobre outrio sujeito, colocado diainte
dele como existente e, por consequência, considerado também
coimo uma capacidade de reflexão e de liberdade? Tem
apenas um meio que é formular a escolha, isto é, estar diante
de outrem como uma opção viva — e espera'r doesse outrem
qtue um idêntico redobr-annento e uma idêntica -liberdaide con
dicionem uma escolha que o  faça, par   sua vez, um sujeito.
Quailquer relação de influência é, portanto, necesisíàriaimiente,
do tipo «tu e eu» (52). Diálogo e interrogação mútua, num
frente a frente próprio da amizade. Comunicar com outro é 
 fazê-lo existir. Mas fazê-lo existir é também fazer-se existir 
a si próprio.   Magnífica emulação em que caída um tanto mais
ganha quanto mais dá! Cada qual  fica o   meslmo quando sfc
opõe ao outro, que não é ele; em todo o -oaiso, senti'r-sc-á máis
cheio da sua própria personalidade à -medida que acolhe a
de outrem e que corresponde ao   seu chamamento. Aqui, a
distância é aproximação, o intervalo é contacto, &  dualidalde
é unidade e a unidade é distinção.
Para   diar todo o valor a eisCe existencialismo, que se com
pleta dentro da ideia crisitã, Kierkegajaird esclarece que o
objecto, para o crente, não tiem a -mesma significação que

O EC, pág. 286.


KIERKEGAARD 55
reveste para o síimpks Indivíduo socrático. Essie objecto,
perante o qual o crente se cüloca (a fé implica sempre, como
vimos, um «perante Deus»), despoja-se, de certo modo,
da sua objectividade, uma vez quie é Paxaidoxo e Absuscido.
(Dá-se o mesmo que em relação ao sentido da vista: aquilo
que esitá totalmente privado da luz não é objecto). Deus não
é para mim nem objecto, nem conceito, nem coisa, mas uma
Pessoa e um Sujeito, Alguém, o « Tu » em frente de mim,
e é isto mesmo que nos permite compreender que se «a exis
tência produz a paixão, a existência pairaidoxaâ produz o
paroxismo 'da paixão» (8S). Esitie Suijeito infinito tem de ser,
seguramente, o Transcendente. Mas o abismo pode ser trans
 posto pelo amor (3i).

C. O desespero e a angústia.
6. O desespero e. a angústia caracterizam, finalmente e
por forma de certo modo infalível, o existente.
A filosofia de Hegel e o radonafcmo em geral esbarram
sempre com esta realidade existencial; a culpa, a angústia
e o desespero não encontram assimilação nessas doutrinas.
É certo que elas tentam explicar a sua realidade empírica,
mas ao racionalizá-los truncam-lhes a cada passo o sentido.
São as filosofias da felicidade, segundo as quais a infelici
dade da consciência encontra a sua própria consolação no
facto de descobrir o seu lugar necessário e a sua função
no todo.
Existir é sofrer necessàri&mente o desespero e a angústia,
ligados uma e outro à realidade e à possibilidade da cuipa.
De resto, pelo simples facto die o Indivíduo se sientii na

H PS, pág. 238.


H JH, págs. 392-393.

fr*
56 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

obrigação de escolher, e de se arriscatr quando escolhe (e o


risco, tratando-se do Pairadoxo, recai sobre o todo), deve
desesperar. São muitas as vias quie levam ao desespero e nem
todo o desespero é fatalmente condição de salvação. O deses
pero que salva é o que é a negação absoluta e definitiva do
 finito . Como tal é a  porta   da grandeza, porque quem escolhe
o desespero escolhe-se a si meSmo no seu vaiar eterno (85),
isto é, arrisca tudo o que é finito nessia jogada paradoxal.
Ê impossível escapar ao desespero. A   ausência de deses
pero equivaleria, rigorosamente, ao nada. Quem diz desespero,
diz consciência, espírito e reflexão, visto que a escolha se
impõe necessariamente e, para escolher o eterno, temos que
desesperar daquilo que somos e ido que temos na ordem do
finito. O homem, de qualquer maneira qu'e a si se enoare.
esbairra sempre com os seus próprios limiltes; verifica e sente
que o mundo inteiro não o pode completar e que também
não pode completar-se a si mesmo.  A sua existência ou con
siste na sua relação com o transcendente, relação absoluta com
o absoluto, ou então não é nada. A   angústia é a forma que
toma  essa consciência e o desespero é o tetrmo a que ela
conduz. Como tal, o desespero desarraiga o homem de si
mesmo, corno ser finito, e entrega-o a si mesmo naquilo que
tem de eterno.  É certo que o homem polcLe itambém fechar-se
dentro de si mesmo, entrincheirar-se no segredo da sua
miséria e.. desesperado, escolher-se. Neste casio, o desespero
torna-se um «contra Deus»: desespero demoníaco   que ora é
desafio, ora se apresenta como ausência1ide desespero. Mas
há também um desespero saudável e salvador, distintivo de
uma humanidade que simultaneamente se reconhece finita e
infinita. É a porta que se abre para a transcendência do '
Absoluto; faz-nos penetrar no eterno. Pnotvoca o despretndi-

(“ ) A2, pág. 187.

0
KIERKEGAARD 57
mento e o salto, graçais aios quais o homem ultrapassa, como
vimos, os seus .limites, enche-se da siua verdade e existe
verdadeiramente e plenamente. Desita forma, o desespero
cresce eim profundidade com a consciência', oomo também a
consciência' aumenta em intensidade com o desespero.
O desespero é portanto ambíguo e dialéctico, como todas
as coisas do homem. Gonduz a V i as divergentes. Tudo depende
da maneira como cada um desespera . Se o desespero se
malogna ao produzir um rompimento no íntiimo da alma,
levando ao endurecimento, estamos perdidos; é a morte, mas
uma morte em que não se acaba de morrer. Se, pelo contrário,
o desespero força & alma a concitar ois seus últimos recusrsos,
a «'desesperar em vardiade», isto é, absolutamente, então
desperta nela a consciência db seu vailotr eterno. Importa,
pois, desesperar em verdade: é Isto que caracteiriza aquele
existente que atingiu o ponto culminainte do  pathos   exis
tencial.

7. A angústia é coisa muito diferente. Conquanto o


desespero esteja ligado ao fracasso e déle resulte, a angústia
 precede o pecado e está ligada à possibilidade e à liberdade.
Caracteriza também a existência1e serve até paira revelar ao
existente o 'seu ser.‘ Desde que, ide facto, o que é dado não
é o eu, mais somente ai possibilidade do eu (86), caída um de
' nó® sentir-se-á colocado diamte do nada e como que debruçado
sobre o vácuo. Vertigem diante do que não é, mas poderá
ser pelo uso de uma liberdade que não se experimentou e que
não se conhece, a angústia do espirito assiemelha-se à ver
tigem física, naquilo que ela sim-ultâneamente encerra de
‘ temor e de atracção, ide simples vislumbre da possibilidade
e também de fórrível encanto (S7). Espécie de antipatia sãn-

n   JFg, pág. 125.


(” ) JH, pág. 52.
58 AS DOUTRíNAS EXISTENCIALISTAS

 pética   ou de simpatia antipática,  a angústia é desiejo do que


se teme, temor do que se deseja1. É nesita' mistura de coisais
opostas, cheia de mágica fascinação (o emoaintaimento 'da
serpente do Gênese) que tem lugar o primeiro petcado e é
por isso, observa Kierkegaard, que ele se afigura falto de
responsabilidade ■— e essa falta é preciisamemite o que lhe dá
sedução (a8).
Nenhuma vida humana se pode eximilr à angústia que,
assim, passa a ser, juntamente com o desespero — aquela
anterior e este posterior à liberdade ■—’ <ai  característica mais
marcada da existência. A -angústia move-se no sientido da
perfeição; o destespero no sentido dai libertação. A angústia
instala o homem diante de si mesmo, enquanto não é aquilo
que há-de vir a ser pela liberdade. É também espírito, pois
é liberdade. É ainda ela que prepara e anuncia a ruptura que
há-de ocorrer, visto significar simuítâneamenlte um estado
instável e o salto que temos de dar. Colocada na linha de
 junção da possibilidade com a realidade, permite que o
existente se revele a si próprio, propõe-lhe o eu que tem
de realizar.  Mas, sob este ponto de vista, ela é também,
como diz Kierkegaard, a mais deprimente das categorias;
graças a ela, «o terror, a perdição e a ruína habitam paredes-
-meias com o homem». É este outiro aíSipecfco da escolha.—■
dessa escolha terrível porque abrange tudo, a salvação e a
ruína, a vida e a morte.

D JFg, pág. 152.


KIERKEGAARD 59

III

A Filosofia Existencial

1. Expusemos nas suas linhas gerais o existencialismo


kierkegaardiano. É agora a altura de procurarmos saber
se ele deverá ou não ser considerado como uma filosofia.
Para isso,  convém que tenhamos ipresentie não só o princípio
em que assenta, mas também a maneira como Kierkegaard
o interpretou, isto é, .precisamos 'de encarar a própria doutrina,
sob a forma concreta que revestiu.
Vimos que, em princípio, Kieirkegaaxd nunca aldmitiu que
o ponto de vista existencial pudesse vir a constituir um corpo
de doutrina formando sistema, ou, usando a expressão de
Berdiaeff, uma teoria sobre   a existênoia. Esitie o motivo que
o levou a querer mianter~s!e sempre no plaino concreto de uma
análise existencial que interessasse apenas a sua própria
subjectividade. Insistiu também na ilmpfolstsibi'líid(aíde de uma
«comunicação directa» desta1 subjectividade:: a existência- é
inefável, como o Indivíduo, com o qual ela se confunde. Só
pode efectuar-se a «comunicação indirecta», que etm si mesma
não é mais do que um apelo dirigido a alguém para que,
solicitado pelo meu existir concreto, tal como o «traduzem»
(no sentido próprilo da palavra ) ai minha vida, os meus aictoe
e as minhas obras, esise alguém se 'decida a seir ò fatidivíduo
e o Único.
Este princípio sfâmprie o aceitou Kaerkegaaapd. Do que
sie pode duvidar ê que   ele o tenha respeitado sempre no seu
rigorosio e absioiluto sentido. Os próprios títulos de vária® das
suas obras já são um indício claro 'da1patssaigiem da análísie
exisitencial à filosofia da existência ou ao «existencialismo».
Assim sucede, por exemplo, com o Conceito de Angústia e
com o Tratado do Desespero,   que pressupõem, evidentemente,
60 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

a sistematização e a universalização indispensáveis para tor


nar inteligíveis e comunicáveis os dados da atnálíse existen
cial Con-tra os sieus princípios, Kferkegaa-rd põe-se a filosofar,
isto é, passa para o plano do conceito e do sistema, e, con
sequentemente, para o campo da abstracção e da generalidade.
E isto que acabamos de dizer deve ser generailizado a uma
boa parte da abra de Kierkegaiand e, assim, encontraremos
explicação paira a censura-, que ele próprio c omsta-nitemen-toe
dirigia a si mesmo, de tratar as realidades da existência- como
poeta e orador. É certo que ele pretende manter-se sempre
fiel ao seu princípio, decla-raindo que as suats exposições se
destinam a ser transformadas pelo leitor em verdades pes
soais e vividas. Mas isso não impelde que o abstracto e o
universal sirvam de intermediários entre o autor e o lleiltor.
Não é possível haver entre ambos verdadeira comunicação
senão por meio ide uma- «Moisófia», isto é, peiai via do con-
ceitct  —■e embora essa- comunicação seja   indirecta, nem por 
isso deixa de ser uma- «comunicação».
Sob este aspecto, não nos oferece Kie-rkegaard uma- filo
sofia organizada e concluída (como é, por exemplo, a de
 Jaspers, embora sofrendo da mesma contradição internai),
mas apenas elementos fragmentários de uma filoisòfi-a- exis
tencial. São de lembrar aqui as admiráveis análises do deses
pero e -da angústia, do gozo estético e da vida étiica, ,das
condições da vida religiosa, do compriomisso e do risco, dia
liberdade c da escolha. Mas todos estes trabalhos estão longe
de constituir um todo completo. É certo que poderiam ser
coligidos os principais pontos de vista de Kierkegaard sobre
os diversos estádios da existência; isso, porém, nunca pas
saria de uma reconstrução mais ou merios arbitrária.

2. Pelo que fica exposto, já podemos availiar da pro


priedade que assiste à expressão «existencialismo kierke-
KIERKEGAARD 61
gaardiano». Deveremos observar agora que a palaivra «filo
sofia» teim, para Kierkegaard, um sentido muito especial.
Quer por decisão voluntária, qufer, maiis provàvelmente, pela
força das circunstâncias em que decorreu a sua vida,
Kierkegaard procurou, de facto, apresentar um método de
vida e não uma doutrina filosófica. O seu tema funda
mental é o do Indivíduo, daquele indivíduo que devemos
procurar vir a ser e que Kierkegaaírd faz coincidir com o
«devir cristão». Para a religião kierkegaardiana, como para
a vida moral tomada na sua mais elevada acepção, a única
coisa que interessa é o aperfeiçoamento e o profundo conheci
mento da personalidade, uma vez que só «o Indivíduo» existe.
Por esta razão, à doutrina de Kierkegaard caberã melhor a
designação de «método existencial» do que a de «filosofia
existencial», a não ser que consideremos a «filosofia» como
sendo apenas uma forma iou instrumento do método, um meio
e'n,tre outras e não um fim •— porque tudo se refere à prática
e à vida.  A «filosofia», para Kierkegaard, não é uma ciência
especulativa, mas sim «ciência prática», dentro daquele sen
tido itécnico da expressão que se emprega, por exemplo, para
definir a fítica.
Como conclusão diremos, em primeiro lugar, que uma
filosofia existencial  tem de partir sempre do Indivíduo, que é
a própria realidade, na sua plenitude ontológica. Os dados,
quie unicamente podem valer para ponto de partida, são os
que se enraizam na existência concreta, que é necessariamente
a minha ou a tua e não a de «toda' a gente» (o que, de resto,
não teria ’sentido algum). Na investigação existencial deve,
por isso, ter-se sempre presente não atpenais a existência, que
ainda é um abstracto, mas também o exisitenite e o Indivíduo,
que é concretamente uma história, isto é, tema sequência de
acontecimentos que tomam realidade e continuidade não só
peilo facto de serem assumidos por mim mas também porque
62 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

a sua necessidade se mudou em 'liberdade (36). Isto equivale


a dizer que, se quisermos pensar a existência e transformá-la,
porftanto, em conceito (o que é inevitável, uma vez que «filo
sofar» é passar necessàriamente, quer se queira quer não,
para o plano do conceito e do sistema), temos que referi-la
sempre às experiências singulares, donde 1'he vem a sua
significação e a sua verdade, as quais excedem, como tais,
qualquer saber objectivo, qualquer expressão geral e abstracta.
Em segundo lugar, a filosolfia tomada neste sentido
deverá ser sempre, para cada um de nós, não apenas um
sistema objectivo, que se olha de fora como quem olhai para
uma torre, mas uma realidade viva, que seja ao mesmo tempo
símbolo e ocasião de uma vida ou de um existir pessoais, uma
vez que não há verdade senão na apropriação e na subjecti
vidade. Não existimos para filosofar, mas filosofamos para
existir.  A filosofia não será nada sic não for siimultâneiametote
a expressão da vida e o meio de que nos servimos para a viver.
Tal é a mensagem de Kierkegaard: um método de vida
ou, antes, um método de pensamento que se acomoda às
exigências da vida. Assim entendido, o exiisltemciatemo não
poderá ser considerado como uma doutrina, conresponderá
antes a uma orientação para aquilo a que chamaremos, ootm
Gabriel Mareei, uma «filosofia concreta», ou seja, para uma
investigação da personalidade espiritual, através da qual
possamos apreender, no universal, o singular e, na' própria1
contingência individual, o Absoluto -— esse Absioluto que
unicamente lhe pode transmitir valor e sentido.

(" ) A2, pág. 223.


C a p ít u l o S e g u n d o

 N I E T Z S C H E 

1\ 1 Ão há dúvida nenhuma que a influência de Nietzsche


* foi ainda mais acentuada que a de Kierkegaard,
embora na obra nietzschiana não se encontre enunciada
qualquer teoria existencialista. Os escritos de Kierkegaard
mantiveram-se praticam ente desconhecidos durante toda a
segunda metade do século xix. As ideias de Nietzsche pude
ram, assim, antecipar-se às de Kierkegaard, com profunda
repercussão nos meios contemporâneos. Poderemos mesmo
afirmar que a aceitação qu'e a doiultrina de Kierkegaaid viria
a ter, depois do estuido a que foi voltada na França e na
Alemanha, se deve em grande parte à forma como os temas
nietzschianos haviam predisposto os espíritos e suscitado nos
filósofos a ideia de procuraram um novo caminho fora do
ideaiismo então reinante. Todos os exfeitCncialliístas pensam
desta maneira, nomeadamente Heidegger e Jaspers. Que terá
contribuído, portanto, para que Nietzsche seja tomado como
um dos precursores do existencialismo?
64 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Pensamento e existência

1. Ao compararmos Nietzsche com Kierkegaard deve


mos ter primeiramente em conta que ais ideias, tanto de um
como do outro, reflectem a personalidade de cada um
deles. Eslte retratamento da personalidade, através das res
pectivas ideias, toma para ambos a forma de exigência
fundamental, que Nietzsche eleva ao mais alto superlativo e
que Kierkegaard considera como o predicado mais caracte
rístico de uma doutrina existencial. Nietzsche chegou mesimo
a declarar, em termos idênticos aio do pensador dinamarquês:
«Escrevi os meus livros com o meu próprilo sangue» e um
dos temas em que mais insiste é o ide que o  pensamento e a
vida se condicionam entre si tão intimamente que só chegam
a ser inteligíveis através um do outro.  Assim como os escritas
de Kierkegaard correspondem às fasies da sua educação e às
sucessivas expressões da sua hisitória, assam itambém a fiilo-
sdfia de Nietzsche não é sienão a expressão ida' sua vida e a
tradução do seu mais íntimo drama peSsoal. E é is'to, que
poderia  passaT como simples facto seím consequências, qu:e
constitui, tanto para Nietzsche como para Kierkegaard, a
forma necessária da filosofia autêntica. Paara eles, o pensa
mento só vaile na medida em que, irrompendo da própria
existência, compromete por completo a vida e aceita todos
os riscos desse compromisso. Quando veisa este tema,
Nietzsche retoma, sem ter conhecido o seu predecessor, os
sarcasmos kierkegaardianos contra o «pensador puro» que
pretende subtrair as suas especulações àsi contingências 'dia
exísitência individual e do meio histórico. Fusitiiga, com a saia
ironia, esse intelectual descarnado, devoto 'do «conhecimento
NIETZSCHE 65
sem mácula» (1) , que designa por «homem teórico» e que
ele também pretendeu sei na juventude {como Kierkegaard
no tempo do seu fervor hegeliamo). Não tem dificuldalde
nenhuma em demonstrar que todas as filosofias do absoluto
intemporal são função das situações concretas em que elas
se desenvolveram.  A sua sem-razão esltá em se envergonharem
deisisa dependência e em renegarem esses laças cairnais, o
pesio da terra que em si comportam, o calor vi'ta'1 que 'lhes
dá valor e sentido. Parque uma fiilosolfia não pode s!er sfenão
um pensamento que se forja na1inquietação e na angústia,
através das vicissitudes da existência' individual. A filosofia
só pode vailer pela vida, na qual mergulhai tadasi as su'as
raízes (2).
Tadas as doutrinas existenciais retomaram este tema
fundamental de Kierkegaard e de Nietzsche. Segundo elas,
a filosofia é, primeiiro que tudo, uma experiência, e, se
Heidegger e Sartre pretendem construir uma ontologia sobre
essa experiência, esta permanece sempre comio basie necesisá-
ria da especulação. O próprio JaSpers, que se aproxima maás
de Kierkegaaind e de Nietzsche, diz que a filosofia não é
em sentido rigoroso senão essa própria' experiência no que

(*)  A lso sprach Zarathustra,  n, Von der unbefleckten Erkentnis


(Krõner, p. 132),
(2)  M enschli ches, AUzumenschli ches,   i, 292: «Dá à tua própria
vida o calor de um instrumento e de um meio de conhecimento; procede
de forma que tudo o que experimentas ~ ensaios, falsas manobras, erros,
ilusões, paixões, teus amores e tuas esperanças — tudo isto te conduza
ao teu desígnio... Quando o teu olhar for suficientemente penetrante para
atravessar as sombrias origens do teu ser e do teu conhecimento, talvez
possas então ver aparecer nelas, como num espelho, as estrelas longínquas
das culturas vindouras... É tempo, e não te espantes se os nevoeiros da
morte se aproximam. A caminho da luz ~ tal deve ser o teu último movi
mento; um grito, uma aclamação ao arroubamento do saber — seja a ta«
derradeira palavra!».
5
66 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

ela tem de mais individual e de mais comcrelto. Ninguém como


Nietzsche levou tão longe a1sua. fidelidade a este modo de
ver. Nunca defendeu a «objectividade» e aceito as contra
dições que correspondem, de certo modo, a momentos da sua
história. A coerência sistemática é, simultánea mente, para ele,
uma ilusão e uma absurdidade. Não é sòmente a1vida, mudança
contínua, passagem incessante do pró ao contra, que se opõe
a essa sistemática; o sentimento das complexidades da exis
tência não admite também a lógica rígida dos sistemas.
 A realidade é feita de oposições e de conflitos; mostra sempre
aspectos em que é inesgotável; qualquer afirmação provoca
uma negação e qualquer negação implica uma afirmação.
Ê unicamente esta multiplicidade de ponltos de vi's'ta apostos
que pode dar, em profundidade, a dimensão da vida e da
história e tornar apreensível, na sua verdade dialéctica, a
experiência interior do existente. Eis também o motivo por
que Nietzsche apresenta' cada um dos  steuis escritos sòmente
para um dado momento dessa' dialéctica vivente, a qual nunca
se pode considerar ligada às suas formas passadas. Como
Kierkegaard, ele sustenta que todos esses livros devem ser
antedatados, porque se viver é ir para a frente, pensar é vir
sempre para trás.

II

Verdade e valor

2. Tudo isto implica uma noção nova de «verdade».


Esta desce, se assim se pode dizer, do seu céu métafísico e
 Jógico para se instalar no plano psicológico e moral. A verdade
 já não é coincidência do pensamento com o absoluto, subtraído
este às servidões do espaço e do tempo, mas uma forma de
crença, uma opção pessoal, uma escolha vivida. A distinção
NIETZSCHE 67
clássica entre o verdadeiro e o falso deixou de ter sentido,
porque as   asserções não são nem podem ser senão expressões
subjectivas da personalidade concreta   e, por isso, inteiramente
válidas em todos os casos, desde que se renuncie à ilusão da
«objectividade» e desde que se tomem as «verdades» apenas
como ficções susceptíveis de traduzir a experiência e a exis
tência.
Nietzsche veio a insurgir-se tràgicamente contra este
problema da verdade, quando compreendeu que a solução que
lhe dava implicava uma transformação total da escala de
valores. Se, para ele, não há «céu da verdade», é porque
não há um Deus que dê fundamento (à estabilidade e à
perenidade. A «morte de Deus» que Nietzsche proclama nos
seus últimos escritos equivale à total e definitiva ruína do
absoluto. O mundo é humano; a história é humana; o homem
é homem e somente homem.  Os «inquiridores da verdade»
vêem-se desapossados do seu domínio de eleição, »porque já
não há verdade mas tão sòmente o homem, que não permanece,
mas evolui. Qualquer moral é portanto a forma contingente
e vitalícia de um «devir» histórico jamais acabado, cujo termo
infinito é esse Super-homem que tem como característica
ultrapassar-se sempre a si mesmo. O homem nietzschiano
corresponde verdadeiramente a esse «ser das lonjuras» de
que hão-de vir a falar Heidegger, Jaspers e Sartre e que, não
repousando senão em si, deve escolher-se a si próprio, tendo
como única finalidade saltar constantemente para além de si
mesmo. O Super-homem é um fuituro que nunca se pode
alcançar, e, na ruína de todas as verdades e sistemas, a única
verdade que subsiste é a que afirma o homem, e por isso o
define, como sendo um impulso e um salto para um possível
que lhe foge sempre numa fuga eterna.

3. Devemos, então, renunciar à moral? Em Nietzsche


encontram origem todos os sarcasmos com que Heidegger
68 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

fustiga o impessoal «se» e com que Sartre zurze o «sério».


Mas o que Nietzsche pretende é fundar uma nova moral nos
escombros da antiga.  Moral dos fortes, isto é, dos que com -
 preendcram a vaidade das morais «burguesas» e c/as lógicas
 por medida e dcs que, na noite da angústia, se resolvem: a
construir o homem do futuro.   À «moral dos escravos», que
é servidão e rotina, opõem eles a moral do Super-homem, que
é liberdade e criação de valores. Em todas as doutrinas exis
tenciais, repercutindo o eco de Nietzsche e de Kierkegaard,
encontraremos estes mesmos temas, que se caracterizam pela
preocupação de encontrarem uma ética nova que, orientada
inteiramente num sentido relativista, possa dar nova expressão
ao valor e, por isso mesmo, operar uma verdadeira «reavalia
ção» de todos os valores humanos. O problema da valoriza
ção aparece, assim, como problema central destas doutrinas.
Todas elas, incluindo a de Heidegger, são intencional e
eèsencialmente éticas.
Por último, devemos dizer que Nietzsche não apresentou,
de facto, nenhuma moral positiva, ou antes, que as suas teses
neste domínio são tão diversas como contraditórias. A única
asserção, que persiste em todos estes temas em conflito e que
lhes dá unidade, é a de que a verdade moral consiste em
ultrapassarmo-nos constantemente a nós mesmos.   Este ultra
passamente de nós próprios podemo-lo, entretanto, considerar
como uma forma de coincidência connosco mesmo e, por
consequência, como um aspecto dessa sinceridade e dessa
lucidez que Nietzsche incessantemente reivindicou, uma vez
que o homem se reconhece sempre futuro, para lá de si
mesmo, e se perde encontrando-se, não se podendo encon
trar senão perdendo-se.
NIETZSCHE 69

III

A angústia existencial

4. Compreende-se facilmente que tudo isto se não possa


dar sem angústia. Nietzsche e Kierkegaard aparecem-nos
como os heróis da angústia, e é pela conjugação da vida e das
obras de ambos que o tema da derrelicção, ou do abandono,
surgirá em todas as doutrinas existencialistas. 'Em Nietzsche,
porém, este tema reveste aspecto particular e tem, na sua
vida, diversas origens. Primeiramente (e este primeiramente
deverá ser tomado apenas no sentido cronológico) Nietzsche '
considera a angústia como exprimindo o  paradoxo da exis
tência individual, que é o grande e insondável mistério —■
porque o real é constituído, antes de tudo, pelos poderes
tenebrosos que se manifestam na vida biológica e nos instintos.
Nisto está o fundamento (o Grund)   sobre que assenta impes
soalmente a individualidade, mas que em si não é individual.
O Indivíduo afirma a sua individualidade, mas esta só poderá
tear realidade e potência quando se encontrar mergulhada no
oceano da vida orgânica e for completamente reabsorvida por
ele. Aqui se encerra, para Nietzsche, a contradição íntima
do Indivíduo. Daqui a tensão provocada pela oposição entre
o princípio dionisíaco, segundo o qual o homem como que sai
de si mesmo para fazer parte de qualquer coisa mais vasta
e profunda, e o princípio apolíneo, fonte de vida individual
e de consciência pessoal (3). A angústia é o sentimento desse
conflito absoluto e insolúvel, no qual o existente se sente

(*) Descohre-se aqui um primeiro esboço da náusea e da angústia


heideggerianas provocadas pelo súbito deslizar do mundo do ser para g 
mundo da existênda bruta e do caos.
70 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

como que esquartejado. Esta angústia, no grau mais elevado,


será a porta aberta para a loucura.
Mais tarde, Nietzsche já vê a angústia sob outra forma.
Admite-a ligada ao tema do «eterno retorno»,   por meio do
qual «o mundo da aparência (irá) até aos limites em que se
cria a si próprio, procurando refugiar-se no seio da verda
deira e única realidade». O presente fará surgir neoessària-
mente a angústia, porque, como tal, traduz em movimento
a negação da causa e do fim; é elemento de um círculo ver
tiginoso dentro do qual o homem gira eternamente em redor,
sem razão nem justificação, tornando constantemente ao
mesmo ponto e estando, por isso, condenado a só poder
medir-se a si mesmo. Sente-se impelido para um adiante que
é um voltar atrás, para uma liberdade que é fatalidade (4).
Fundando-se nisto e também nos vários acontecimentos
da sua vida, Nietzsche envolve a dor numa espécie de
apoteose, supondo-a capaz de atingir, no seu auge e con
torcendo-se sobre si mesma, o ponto em que, por esgota
mento, terá de acabar na loucura. Em Zarathustra,   Nietzsche
aJude com insistência à propensão característica do homem
para as solidões e para o deserto e à facilidade com que
ele se apresenta ora como profeta, ora como negador da
sua própria mensagem (5). A contradição habita nele por
quanto está sempre em busca de novos horizontes e de

(*) «O devir tem


tem um válor
vál or constante
constant e para cada momento e o seu
valor total será constante; ou, antes, não tem valor algum, porque nos
falta o instrumento para medir, ou seja, aquela norma sem a qual a pala
vra valor nâo pode ter sentido. O valor total do mundo é impossível de
avaliar; consequentemente, o pessimismo filosófico assenta no cómico.»
(*) Ensaio de uma reavaliação dos valores,   1888: «O moralista é
o contrário do pregador de moral; é um pensador que encara a moral
como suspeita, duvidosa, muna palavra, como um problema. Lamento ter
de acrescentar que, por isso mesmo, o moralista terá também de ser con
siderado como um suspeito».
NIETZSCHE 71
mundos desconhecidos. Não pode fixar-se em parte nenhuma,
e, se aceita tudo, porque tudo compreende, ouve bramir
incessantemente a revolta no seu coração.  Am
 A m or fati
fa ti  e vontade
de potência, resignação e revolta, o seu ser é rasgão e negação
da lógica. Sabe que é  pres
 pr esaa d e um mundo
mu ndo absu
ab surd
rdoo   e que não
poderá encontrar a salvação senão na loucura, isto é, na
crença igualmente absurda   de uma idade de oiro que o há-de
libertar da sua miséria presente (e). A angústia é, portanto,
a forma da sua vida e o sinal permanente de que o homem
se mantém ao nível do seu destino, isto é, tendendo para além
de si mesmo no sentido do impossível.

IV

A nova religião e a nova moral

5. O que fica dito ajudará


ajud ará a compreen
compreender
der a atitude
de Nietzsche perante a religião e especialmente perante
o cristianismo. Em nome da «filosofia histórica», que explica
as manifestações do espírito religioso (dogmas e mitos) como
fruto das condições biológicas, psicológicas e sociológicas,
no meio das quais se produziu o desenvolvimento histó
rico, Nietzsche nega de um modo geral toda a dogmática
cristã. Com tal perspectiva, não há, de facto, lugar para a
verdade absoluta: tudo, sem a menor excepção, se reduz
 prop
 pr opri
riaa m ente
en te às c ond
on d içõ
iç õ es humana
hum anas,
s,  que acabam com quais

(°) Gide {Prétextes,   págs. 177-178) observa muito judiciosamente,


falando da loucura de Nietzsche, que o que se deveria dizer é que «Nietzs
che procurou fazer-se louco». De facto, «à medida que via mais claro mais
exaltava o inconsciente. Para Nietzsche, a alegria convinha-lhe por qual*
quer preço.
preço . Com toda a força da sua razão, atirava-se
atirav a-se para a loueu
loueur»,
r», '
como para um refúgio».
*

72 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

quer pretensões
pretensões cie
cie «objectividade»
«object ividade» ( 7). Isto
Ist o mesmo
mesmo se deveria
dizer, aliás, da metafísica em geral: também ela está exclusi
vamente destinada a entrar no domínio da história, como
forma ultrapassava da civilização.
Não deveremos supor, entretanto, que a atitude de
Nietzsche para com a religião é puramente negativa. Pelo
contrário, Nietzsche antevê o aparecimento de uma nova
religião, isto é, de uma concepção de salvação, sobre as ruínas
das religiões dogmáticas, especialmente do cristianismo, rela
cionando-a com o tema do eterno retorno que, como se viu,
é para o indivíduo, que se reconhece finito e transiente, fonte
de angústia e de terror, mas tamém principio de imensa
exaltação, desde que sabemos, pela nossa existência presente
que estamos  já   na eternidade. A angústia e a aflição, pro
vocadas pela visão implacável de um destino trágico indefi
nidamente repetido, dão à nossa presente existência individual
valor metafísico e religioso, porque nos revelam a nossa eter
nidade. Dionísio, do qual somos membros parcelares, cumpre
 por
 p or nós o seu desti
de stino
no eter
et ernn o . Deste sentimento procede o
lirismo de Zaratustra (8):

( ’ ) «Sempre que que encontramos uma uma moral, encontramos


encontr amos uma valo va lo
rização e uma classificação hierárquica dos instintos e dos actos humanos.
Essas classificações e essas valorizações são ordinàriamente a expressão
das necessidades de uma comunidade ou de uma grei: o que aproveita à
grei, o que é útil ao seu primeiro chefe — e ao segundo e ao terceiro —
é que serve também de medida suprema para aquilatar o valor de cada
indivíduo. As condições de conservação variam muito de uma comunidade
para outra, porque resultam de morais muito diferentes; e se considerar
mos todas as transformações essenciais que as greis e as comunidades,
os Estados e as sociedades terão ainda de sofrer, poderemos profetizar
que ainda hão-de aparecer, de novo, morais muito diferentes. A morali
dade corresponde, para o indivíduo, ao seu instinto gregário.»
(*) Z a R a t h u s t r a , Das andere Tanzlied, 3   (Krõner, p á g . 2 4 ) .

i
NIETZSCHE 73
Ó homem1
homem1 Atenção!
Atenção!
Que diz a profunda meia-noite?
Eu dormi, dormi,
De profundo sono eis-me acordado:
O mundo é profundo
Tão profundo como nunca supôs o dia.
Profundo é o seu mal,
 A aleg
al egri
riaa — mais profunda ainda que a pena:
 A d o r diz:
diz : Pass
Pa ssa!
a!
 Ma
 M a s toda
to da a aleg
al egri
riaa quer
qu er a eter
et ernn idad
id ade,
e,
Quer a profunda, bem profunda eternidade!

Entretanto, a sabedoria dionisíaca exige a aceitação


pronta e total da existência, exactamente como ela é no
Devir infinito. O homem deve assumir o Destino no qual se
encontra vertiginosamente comprometido.   A existência deve
tomar um sentido religioso, em vintude do destino individual
de cada um se identificar com o destino do Todo e ser esse
mesmo destino, identificando-se, assim, com Deus que nasce,
morre e renasce eternamente (9). Tal é a verdade existencial

(9) Cf. Fragm . da Ciência jocosa  (Krõner, v, págs. 265-266}:


C f. Fragm.
«Que aconteceria se, dia e noite, um Demónio te seguisse na tua solidão
mais solitária e 'te
't e dissesse:
dissesse: «Est
«E staa vida que
que vives e tens
tens vivido
vivido terás que
que
•vivê
vi vê-la
-la ainda mais uma vez ve z e ainda
ai nda uma infinidade
infinidade de vezes:
vez es: ela
el a nada
te apresentará de novo e cada sofrimento, cada alegria, cada pensamento,
cada suspiro e cada facto indizivelmente grande ou pequeno da tua vida
deverão suceder-se de novo e pela mesma ordem — assim como essa tei^
de aranha e esse luar entre as árvores, assim como este instante e eu
mesnjo
mesnjo.. A ampulheta da existência
existê ncia volta
vo ltar-s
r-se-á
e-á indefinidam
indefinidamente
ente — e, com
ela,
ela, também
também tu,tu, grão da sua areia». ^ Não Nã o te rojarias por terra, rangen
rangendo
do
os dentes e amaldiçoando o Demónio que te falasse assim? Ou, dar-se-á
o caso de teres já vivido um desses instantes prodigiosos em que lhe
tivesses
tivess es respondido: «T u és um Deus e nunca ouvi nada mais divfnol divfnol».
».
74 AS DOUTRINAS   EXISTENCIALISTAS

que deve fundamentar a nova Religião e trazer a salvação ao


mundo (10).
Uma nova moral se impõe, portanto, perante estas intui-
ções. É isto o que sobretudo interessa a Nietzsche. Quanto ao
dogma cristão, criva-o de tais motejos que a sua atitude nos
faz lembrar muitas vezes a de Voltaire (u). A seus olhos,
a dogmática não passa de um aspecto desprezível do cris
tianismo. Há, entretanto, no cristianismo um erro maior e
mais perigoso, porque é causa das ilusões que mais grave
mente prejudicam o homem. Este erro é a Moral. Foi ela
que falsificou todos os nossos juízos sobre o bem e o mal.
Nietzsche insiste constantemente neste ponto, que é, sem
dúvida, aquele que dá mais unidade à sua obra crítica. Retoma
iodos os temas cépticos da antiguidade; acusa, sobretudo, a
moral cristã de ter levado o homem a pensar que nunca se
poderá ultrapassar por si mesmo, instalando-o num conforto
interior, na satisfação de si, na submissão ao facto e, por
fim. numa má fé. E isto constitui, em relação à grandeza

tema do amor fati   viremos a encontrá-lo, sob formas


(” ) Este tem
aliás diferentes, em Heidegger, em Jaspers e em Sartre. Também a noção
jasperiana do «instante
«instante eterno»
eterno» (já encontrada
encont rada em Kierkeg
Kie rkegaard
aard)) se apro
ap ro
xima muito da ideia nietzschiana da eternidade. O «eterno retorno» de
Nietzsche apresenta também, sob certo aspecto, forte semelhança com a
«repetição» kierkegaardiana. Por último, devemos ainda observar que o
isolamento trágico do indivíduo e da sua consciência perante o mundo,
segundo
segundo a concepção
concep ção de Nietzsche
Nietz sche (ou de Kierk
Ki erkega
egaard
ard)) —- «Dev
«D evee ser
terrível o ser-isolado, escreve Nietzsche, encontrar-se sozinho em frente
do juiz e do vingador da sua própria lei, qual estrela projectada no espaço
vazio ou no hálito gelado do ser-sòzinho» — se há-de voltar a encontrar
em Heidegger, Sartre e Jaspers.
(u) Humano, demasiado humano é  a sua apreciação de Voltaire.
Mais tarde, Nietzsche escreverá a propósito desta apreciação: «Voltaire
é, sobretudo, um grande fidalgo de espírito: o que eu sou, eu também,
— o nome de de Volt
V oltaire
aire num escrito
escrit o meu
meu constitui na realidade um pro pro 
gresso
gre sso •— é um progre
pro gresso
sso em direcçã
dire cçãoo a mim mesmo».
NIETZSCHE 75
humana, a pior das abdicações. Porque não há grandeza senão
na liberdade com que o homem constrói para si, na luta e na
angústia, um destino consoante a sua envergadura.   É preciso,
portanto, que o homem deixe de ser moral para se tomar
sage; precisa de conquistar uma nova inocência por sobre as
ruínas de todos os conformismos que ligam o destino do homem
à fidelidade de uma pretensa «natureza humana». Não há
natureza humana: a essência do homem é futura, sempre pro
 ject
 je ctad
adaa no horizonte
horiz onte do mundo
mundo que ele el e edifica
edific a com a sua
dor e as suas lágrimas.
A moral cristã, nos últimos escritos de Nietzsche, toma-se
o tipo da «moral dos escravos». Desde que os valores não
são senão o produto dos instintos, os valores cristãos terão
de apresentar-se como o fruto de uma verdadeira impotência.
A causa principal desta impotência deve procurar-se no
ressentimento dos fracos contra os fortes: estes, nos quais
se manifestava, com toda a energia, a riqueza expansiva
da vida, aceitaram, quando a decadência da força criou as
condições favoráveis a esse contra-senso, a qualificação de
«maus». Deixando-se convencer pelos fracos de que havia
outro mundo, aonde estavam reservados castigos para os
poderosos, vieram a adquirir uma má consciência. Duvidaram
de si mesmos e, por fim, abdicaram perante os mitos inven
tados pelo ressentimento dos fracos. Desde então, a noite
do cristianismo passou a envolver o mundo.

6. Deste
De ste modo, o home
homem,
m, ao proclamar a morte de
Deus e a agonia do cristianismo, deve fazer tábua rasa de
todos os valores à sombra dos quais tem vivido ou vege
tado. Importa, todavia, que essa desvalorização não venha
a converter-se num puro e simples niilismo. «Ainda que
radicalmente niilista, escrevia Nietzsche em 1887, eu não
desespero de encontrar a porta de saída, a passagem que levt
a qualquer coisa». O ateísmo não se fez para assegrumr ao
76 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

homem um quietismo satisfeito ou um repouso sem grandeza.


O ateísmo é doloroso: implica um drama; arranca o homem
à paz enganadora em que ele sonha poder estabelecer-se e
lança-o à conquista dele mesmo, numa empresa cheia de
perigos e de riscos. O ateísmo obriga a operar uma alteração
de valores, a forjar para eles uma nova escala qíie vienha
substituir a que outrora só tinha a autoridade e o prestígio
que vinham de Deus.
A essa nova escala, nunca Nietzsche chegou a defi
nir-lhe o sentido. O seu pensamento modificava-se constante
mente à medida que a ia enunciando, negando sistemàtica-
mente o que primeiro tinha concebido e afirmado. Nenhum
dos miitos que inventa tem, a seus olhos, valor para substituir
o Deus ausente: nem a arte, nem o génio, nem o saber his
tórico, nem o super-homem, nem o eterno retorno, nem essa
«vontade de poderio», cuja invenção marca, no trágico des
moronamento da razão de Nietzsche, o último fracasso dos
seus esforços para preencher a lacuna aberta pela «monte de
Deus». Pode-se afirmar, em boa verdade, que toda a  filo
 fi loss o fia
fi a
de Nietzsche gravita, do princípio ao fim, em torno do pro
blema de Deus.  Deus é a personagem principal e, por assim
dizer, única, da história dramática de Frederico Nietzsche —
 € a cruz de Cristo domina
domina visivelmente todo o horizonte
nietzschiano ( 12). A negação
ne gação,, pela sua- própria violência,

{” ) Cf. Carta a Peter Gast (21 Julho de 1881) (Nietzsches,


(21 de Julho
 gesam
 gesamm melte
lt e B r i efe,
fe,  Inselverlag, Leipzlg, t. iv, pág. 63), a propósito de
 A uror
ur ora:
a:  «Veio-me à ideia que o continuo debate que, no meu livro, inti
mamente travo com o cristianismo vos poderia parecer estranho e ser-vos
até penoso; é que o cristianismo é ainda o melhor elemento de vida ideal
que eu até agora realmente conhed: desde a infância que o tenho seguido
até em muitos dos seus escaninhos e creio nunca lhe ter feito injúria no
meu coração. Em suma, eu sou descendente  de gerações inteiras de ecle
siásticos cristãos — perdoai-me
perdoai-me esta falta». »
NIETZSCHE 17 
transforma-se, aqui, em afirmação e o «não» é também uma
forma do «sim» (13).
São estes os temas principais que irão constituir a herança
do existencialismo contemporâneo. Vê-se bem como eles vão
ao encontro do existencialismo kierkegaardiano. Primado e
valor exclusivo da subjectividade, afirmação da existência
como valor fundamental, precedendo e condicionando a
essência do homem, que não pode ser senão frutto do esforço
e obra
ob ra da liberdade,
liber dade, — necessida
neces sidade
de para
par a o homem
homem de se
ultrapassar sempre, sem poder descansar nunca em qualquer
aquisição estável de ordem racional ou de ordem moral, —

(“) Jaspers (Nieízsche und das Christeníum,   Verlag Fritz Seifert,


Hameln, 1938) interpreta a atitude de Nietzsche perante o cristianismo
sob uma forma que, caracterizando curiosamente o pensamento jasperiano,
é, também, de aceitar em muitos aspectos. Jaspers considera o cristianismo
como «reivindicação». Ora, diz ele, a hostilidade de Nietzsche contra o
cristianismo, como realidade, é inseparável do seu afecto de facto ao
cristianismo, como reivindicação, e esse afecto deve ser considerado como
nitidamente positivo, porquanto, escreve Nietzsche, «também nós, os sem-
-Deus e antimetafísicos, vamos buscar o nosso fogo ao incêndio que a
velha fé milenária ateou» (pág. 9). Jaspers resume assim (pág. 13) os pon
tos essenciais
es senciais da sua análise: 1. A luta de Nietzsche contra o cristianis
cristianismo
mo
é consequência das suas tendências cristãs  (e Nietzsche tem perfeitamente
consciência disso). 2. Essas tendências cristãs manifestaram-se nele desde o
princípio, sobrevivendo à perda total da fé nos dogmas cristãos; trans
formaram-se, desde então, para ele numa franca energia de progresso.
3. Assim se explica como Nietzsche foi conduzido ao niilismo,  ou seja
à negação de todas as noções que primeiramente havia adoptado. 4. Mas
esse niilismo, que Nietzsche considera como inevitável e que leva às
suas últimas consequências, não lhe agrada para nele se instalar; peto
contrário, propõe-se atacá-lo embora dentro de uma luta com feição
iflteiramente
iflteiramente nova.
nov a. — Para
Pa ra estabelecer estes diferentes pontos,  Jaspe
diferentes pontos,  Jaspers
rs
esforça
esfo rça-se
-se por
po r mostrar (págs. 42-
4 2-43
43)) que
que a possib
possibilida
ilidade
de de uma
uma visão
de conjunto da história universal é de origem cristã e que esta mesma
visão implica a concepção do homem como ser corrompido, ou seja, usa
noção cristã, assim como a crença na possibilidade de salvação. Mas esta.
78 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

desprezo pela filosofia que se baseia na lógica abstracta,


estranha à vida e incompatível com o ilogismo e a absurdidade
de que o mundo estáest á impregna
impr egnado
do —- nece
ne cess
ssid
idad
adee do compro
c ompro
misso e do risco, fatalidade do desespero e da angústia, como
condições permanentes da grandeza humana, — não aceitação
da religião, nem do cristianismo, como plataforma segura para
o pensamento e para a acção, — profunda tensão do ser em
relação a Deus, que não se pode encontrar senão negando-o:
todos estes temas, diversamente assimilados pelas doutrinas
de hoje, virão criar um clima ou uma «situação» que definirá
filosoficamente a época contemporânea.

segundo Nietzsche, realizar-se-á sem divindade. Por outro lado, Nietzsche


deseja a verdade por qualquer preço, a verdade sem sombra, absoluta.
Esta exigência, diz Jaspers, leva a conceber um mundo sem Deus, em
virtude do próprio fracasso do saber que, em si, pretende ser absoluto.
Neste caso, há três caminhos a seguir: ou bem que a absurdidade do
mundo reduz o pensamento aos seus limites e estes têm como exigência
elevar-se para a Transcendência que não é conhecível (esta possibilidade
de acesso à Transcendência não se revela senão aos investigadores ver
dadeiramente grandes e dotados de forte capacidade de ascese espiritual):
— ou bem que o mundo absurdo é insuportável: o interesse pela verdade
cessa
ces sa imediatamente
imediatamente e surge o niilismo;
niilismo; — ou, então, o homem terá
te rá de
conformar-se com a insuportabilidade do absurdo. Pois1bem, acrescenta
 Jaspere
 Jaspere,, Nietzsche
Nietzsche seguiu
seguiu estes
estes três caminh
caminhos.
os.
Qual deverá ser, portanto, a nossa posição em face do pensamento
de Nietzsche? Nele, diz Jaspers, nunca poderemos encontrar firmeza em
qualquer verdade. «O seu pensamento, na realidade, não nos mostra o
caminho a seguir, não nos ensina uma crença, não nos proporciona terreno
firme. Pelo contrário, ele tira-nos o sossego, atormenta-nos incansavel
mente, escorraça-nos de todos os abrigos em que procuramos refúgio,
estilhaça todos os disfarces» (pág. 83). «Deste modo, ao instalar-nos no
nada, ele pretende dar fundamento ao nosso espaço, fornece-nos o meio
de procurar o nosso próprio e autêntico fundamento, do qual teremos de
partir. Leva-nos a descobrir o que sabemos e o que não sabemos, o qute
podemos conhecer e o que é incognoscível. Para ele, sòmente é verda
deiro o que surge do nosso próprio substrato» (págs. 84-85),
SEGUNDA PARTE

 AS
 A S D O U TR I N A S
EXISTENCIALISTAS
   i
   i
       n

   h
    É
   H
   M
   i
   f
   t
   ï
   à
   l
  1
   i
   T
    b
   ü
  m
  a
   i
  w
   i
   W
   i
   f
   i
   i
  a
  w
   i
   t
  r
  m
           l

   ■
           l
           '

   ¥
          i

   '
    f
  >
    l
   i
   i
   ^
    Í
  1
  c
    f
   M
    Í
    É
   I
    É
   i
   t
   t
   t
    l
   B
   M
    Í
  1
   i
   '
  ~
   i
  n
   i
    É
  a
   i
  a
  a
  a
    Ã
  —
    l
    Ü
    h
   i
   S
    f
    l
    f
    É
   M
Ca p ít u l o P r im e i r o

H E ID
ID E G G E R E S A R T R E

|\ I o existencialismo
existenci alismo contemporâneo, HeideggerHeid egger e Sar
S artr
tree
^ ocupam
ocupam uma uma posiçã
p osiçãoo especial e inteiramente distinta
dos outros existencialistas. Ambos recorrem à fenomenolo-
gia husserliana e, embora dela se distanciem muito, seguem-
~lhe, contudo, o método. Ambos se propõem, também, fundar
uma ontologia, isto é, uma ciência do ser , se bem que o ser
que eles encaram seja o ser da existência humana.  Por esta
diferença específica   se caracterizam as duas doutrinas, que,
nem por isso, podem deixar de ser consideradas como ver
dadeiras ontologiasi Revestem-se, assim, as doutrinas de
Heidegger e de Sartre de um cunho de originalidade própria
que as distingue nitidamente daquelas que se agrupam à volta
do nome de Jaspers.
Semelhantes sob este ponto de vista, as filosofias de
Heidegger e de Sartre esitão, entretanto, longe de ser idên
ticas entre si. Embora se sirvam do mesmo método e versem
temas comuns, cada uma tem o seu cunho ou espírito pró
prio. Para Heidegger a vida autêntica existe no desespero;
para Sartre é  pa  p a r a além
al ém   do desespero que ela se realiza.
O conteúdo doutrinário de cada uma delas mostra-se assim
muito diferent
dife rente,
e, tornando
tornan do inconfundíveis
inconfun díveis as duas
duas filosofias. %
8
82 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS'

Sartre, de resto, como teremos ocasião de ver, é o primeiro


a discutir e a criticar os  pontos
 pon tos essenciais
essen ciais   da doutrina de
Heidegger. E, se Heidegger chegasse a publicar a segunda
parte de Sein und Zeit, estamos certcs de que a  oposição entre
as duas filosofias iria até à contradição. Enquanto Heidegger
se insur
insurge
ge con
c ontr
traa aquele
aqueless que o tomam
tomam por ateu
at eu ■— aind
ai ndaa que
a primeira parte do Sein und Zeit  não seja de molde a jus-
tificaj essa sua indignação — , Sartre manifesta-se, através
do seu sistema, nítida e formalmente ateísta.
Seja, todavia, qual for a forma como o encaremos, o
certo é que este aspecto verdadeiramente capital diferencia
as duas doutrinas que, por outro lado, comungam no mesmo
propósito de fundarem uma ciência do ser da realidade
humana, se devotam igualmente à fenomenologia e ambas se
ressenrem (a de Sartre em menor grau) da influência nietzs-
chiana
A r tig o I

 M A R T I N HO HEIDEGGER

O problema do ser e o seu método

1. Desde págin a de Sein und Zeit,  Heideg-


De sde a primeira página
ger deixa transparecer o intuito de retomar pela base o pro
blema do ser, começando, dentro de tal desígnio, por definir
o sentido dessa mesma questão (*).

(J) S Z , págs. 12-13. Nas N as citações servir-nos-emos


servir-nos-emos da6 da6 seguin
seguintes
tes
siglas:
SZ:  Sein
 Sei n und Zeit
Zei t ( O ser e o tempo),
tempo),   Max Niemeyer, Verlag, Halle,
1 / edição
edição,, 1927.
1927.
 W g r: V om W esen de des G r undes
undes ( D a essê
essênc
ncii a do fundame
fundamento),
nto) ,  Nie
meyer, Halle, 1.“ edição, 1929.
KPM: Kant und das Problem der Metaphysik (Kant e o problema
da Metafísica),  Verlag G. Schulte Bulmke, Frankfurt-a.-M.,
1934.
 W M . W as ist M etaphysi
taphysikk ? (Q ue é a  Me
 M etafí sica
si ca?? ) ,  Verlag G. Schulte
Bulmke, Frankfurt-a.-M., 1930.
HWD: Hölderlin und das Wesen der Dichtung (Hölderlin e *
essência da poesia),  Albert Langen, Georg Müller, München,
1936.
As citações de SZ serão tiradas directamente do texto afanlfo ns
84 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Não nos devem surpreender estes primeiros propósitos:


com eles abrem classicamente todos os tratados de Onto
logia, desde Aristóteles e Platão. Devemos, entretanto, subli
nhar aqui uma expressão empregada por Heidegger — a da
«elaboração concreta», com a qual pretende definir não só
o intento da sua obra, ou seja esclarecer o sentido do ser,
mas também o seu método, que é proceder por via concreta
a esse esclarecimento. Este apelo ao concreto, inteccalado na
definição vulgar da Ontologia, caracteriza o existencialismo.
Sobre este assunto, fixemo-nos desde já num ponto de
primordial importância. Heidegger pretende constituir uma
 filo
 fi loso
sofia
fia d o ser 
se r   fundada na análise do ser concreto e singular.
Orientada no sentido de uma teoria do ser da existência
humana e, mais ainda, no sentido de uma teoria do ser em
geral (a), Heidegger quer que esta filosofia seja designada
por existencial  e não por existentiva.   A designação de «filo
sofia do existente ou existentiva» conviria pelo contrário,
segundo o mesmo Heidegger, à doutrina de Jaspers que,
recusando-se inteiramente a admitir que a análise da exis
tência concreta possa conduzir a uma teoria do ser, se atém

das outras obras referem-se à tradução de H. Corbin. (Quesí-ce que la


 Mé
 M étaphysi
taphysi que?
ue?  por Martin Heidegger, seguida de extractos sobre o ser
e o tempo e de uma conferência sobre Hõlderin; traduzida do alemão com
prefácio e notas por Henry Corbin, Paris, Colecção Les Essais,   n. Vil,
Gallimard, 1938).
(’ } Cf. o que
que escrevia Heidegger,
Heidegger, em carta dirigida à  Socié
car ta dirigida  Soci été  fran-
çaise de Philosophie, em  1937 (Bulletin de  Outubro-Novembro de 19 37  3 7 ) :
«Devo dizer de novo que as minhas tendências filosóficas, embora se
triate em  Sein
 Sei n und
und Z ei í de E xi ste
st enz e de K i er k egaard,  não podem ser
classificadas como Existenzphilosophie.   É provável que este erro de inter
pretação seja, de momento, difícil de afastar. Entretanto, devo declarar
que a questão que me preocupa não é a da existência do homem: é a do
ser na sua totalidade, e como tal».
HEIDEGGER E SARTRE 85

sistematicamente, e decalcando o método fenomenológico, à


descrição das situações existenciais concretas do homem (3).
Antes de entrar nesta analítica existencial, Heidegger
procura primeiramente definir o sentido do problema do ser.
A antiguidade grega, com Platão e Aristóteles, fornece, diz
ele, elementos preciosos de solução. As especulações esco
lásticas sobre o ser, que vieram depois, não sòmenfce não
trouxeram nada de novo como até conduziram a investigação
por caminhos errados — se bem que em nossos dias o pro
blema do ser se encontre votado a inteiro esquecimento (4).
Seria, de facto, afastarmo-nos irremediavelmente do ser,
tomá-lo como sendo, de todos, o conceito mais geral, nada
claro, insusceptível de ser definido e evidente por si. Tendo-se
pronunciado, assim, a escolástica, poder-se-ia supor que esta
ria tudo dito! Na realidade, porém,- está tudo por dizer, e,
se quisermos compreender cabalmente a significação do ser,
teremos de retomar a questão desde o principio.
Indaguemos primeiramente qual é   o sentido dessa ques
tão, ou seja, a sua estrutura formal. Quando se formula uma
pergunta, já se pressupõe, de oerto modo, a resposta. O facto
de o homem se interrogar a si mesmo sobre o sentido do ser
implica que ele jáj á tenha qualquer conhecimento
c onhecimento do ser —
senão a interrogação não teria cabimento. Do ser, há uma
evidência comum e vaga, que terá de ser o facto do qual
deveremos partir. Esta evidência, porém, tem que ser minu
ciosamente apreciada e esclarecida, havendo, portanto, neces
sidade de a encarar como um problema (5).
Este problema do ser jamais poderá ser resolvido

(*)
(*) S Z , págs. 12-13.
12-13.
(') S Z, pág. 1.
(')
(' ) S Z , págs. 5-6. — Descartes, observa Heidegger, defi
defini
niu,
u, de
de
certo modo pelo menos, o Cogitare servindo-se do Ego;   entretanto, deixo«
o  swn
 sw n inteiram
inteiramente
ente por explicar (SZ,
(S Z, pág. 4 6 ). , >
86 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

mediante uma demonstração porque é impossível reduzir o


ser, como tal, a outro ser, uma vez que o ser não é um pos
sível. Para estudarmos a questão do ser, teremos, portanto,
de recorrer ao método fenomenológico, que é uma espécie de
«mostração» (“). Aqui, porém, surge uma dificuldade: qual
será, entre todos os existentes, aquele que, por melhor reali
zar a essência do ser, deverá em primeiro lugar prender a
nossa atenção? — Caímos num círculo vicioso porque esta
dificuldade só poderá ser resolvida desde que em nós haja
um juízo antecipado sobre o ser (7).
A dificuldade poderá, no entanto, ser removida uma vez
verificado que não há realmente senão um ser capaz de
se interrogar sobre o ser. Esse existente privilegiado sou eu
mesmo. A inquirição recai, assim, sobre um único objecto
possível, que é o próprio ser do sujeito existente,   que nós
designaremos, usando a terminoilogia de Heidegger, por
Dasein.  Pelo exame reflexivo deste existente se poderá che
gar a uma noção do sentido do ser em geral (8).

(*) SZ, pág. 6.


(') SZ, pág. 7.
(’ ) SZ, págs. 7 e 13. — Há aqui um equivoco, de resto já notado
por vários comentadores de Heidegger (Cf. especialmente A. de  W a e lh e n s ,
La Philosophie de Martin Heidegger,   Louvain, Ed. do Instituí Supérieur
de Philosophie, 2.’ ed„ 1946, pág. 8, nota 2). Heidegger define o Dasein
(SZ, pág. 42) oomo sendo essencialmente  ]emeinigkeit   (quer dizer, o facto
de ser alguém,  de ser tal indivíduo ou tal pessoa). Neste caso, tudo o
que se possa dizer ou afirmar do Dasein corresponde apenas àquilo que
convém e pertence a tal  Dasein ou a tal  indivíduo. Entretanto, Heidegger
afirma do Dasein em geral aquilo que constitui o Dasein próprio e pessoal
de cada um, submetido à análise fenomenológica. Esta passagem do sin
gular ao geral é certamente possível (constitui até a própria definição do
conhecimento intelectual), mas não no contexto heideggeriano, que todo
ele assenta num empirismo radical. Adolf Dyroff (Philosophía perennis,
 J. Habel, Regensburg, 1930, Band n, pág. 782), observa, precisamente
acerca deste mesmo ponto, que Heidegger passa constantemente do een-
HEIDEGGER E SARTRE 87
De tudo isto resulta que a questão do ser, que constitui
a própria metafísica, se reduz ao modo de ser do interrogante,
que é propriamente o existente interrogando-se sobre o ser
da existência. Isto equivale a dizer que a investigação onto
lógica será preliminar e fundamentalmente consitituída (sem
poder, de facto, ser de outra forma) pela análise existencial
^ontológica) do meu Dasein   singular e concreto (9).

2. Tentaremos, portanto, determinar o sentido do ser


em geral. Esta determinação é tanto mais necessária quanto
é exigida por todas as ciências, as quais, chegadas a um certo
grau de desenvolvimento, sofrem a inevitável «crise dos
fundamentos». Esta crise consiste propriamente no exame
das noções fundamentais, à volta das quais determinada
ciência se organizou espontâneamente. Este exame tem como
finatlidade definir exactamente qual a estrutura particular do
ser que constitui o objecto dessa ciência. Foi assim que a mate
mática, na aparência a mais rigorosa das ciências, teve em
nossos dias a sua crise de crescimento, no debate que se deu
entre o formalismo e o*  intuicionismo. A teoria da relatividade
veio a corresponder, na física, ao mesmo fenómeno crítico.

tido ôntico  ouexistentivo ( = ser singular e concreto) ao sentido ontoló


 gico  ou existencialista ( = ser em geral), supondo erradamente que há
' entre ambos equivalência ou igualdade.
(’ ) Conservaremos a palavra Dasein  (etimològicamente: estar-aí:
da-sein) para designar a existência singular e concreta. A expressão rea-
lidade-humana,  utilizada por H. Corbin e retomada por J.-P. Sartre, não
corresponde, de facto, ao sentido de Dasein,  porque acentua fortemente
(mas não injustamente) a ambiguidade estrutural do Dasein  heideggeriano,
que tanto é o existente singular e concreto como o ser da existência
humana em geral. Acabámos de apontar este equívoco. Resta dizer qu«
para Heidegger a investigação corresponde, antes de tudo, a uma analítica
do ser concreto do existente. O termo Dasein  pode servir para traduzir
esse conceito'— mesmo que o venha a ultrapassar nos seus limites.
9

, 88 AS DOUTRINAS EXISTENCIAL ISTAS

Mas se todas as ciências acabam por ser convidadas a inter


rogar-se a si mesmas sobre a estrutura do ser particular de
que se ocupam, é evidente que outra questão mais vasta se
levanta qual é a do sentido do ser em geral. Ora esta ques
tão não poderá ser resolvida, contràriamente ao que por vezes
se tem pensado, pelo simples desenvolvimento linear do dado
científico. Faz parte do direito metafísico e não pode ser
senão de ordem metafísica, porque a sua solução comanda
a de todos os outros problemas. É a questão fundamental,
que faz da ontologia a ciência filosófica por excelência.
Orientada no sentido da determinação da existenciali-
dade, a ontologia tem as suas raízes na análise existentiva
(ou análise ôntica)  do ser que está em cada um de nós. Daqui
deriva o seu método, que é o da  fenomenologia   e que se pro
põe ir, como se disse atrás e segundo a expressão de Husserl,
«às próprias coisas». Há, todavia, um ponjto capital que
separa Heidegger de Husserl. Husserl coloca, por assim dizer,
a existência entre parêntesis, para unicamente se entregar à
determinação da estrutura dos fenómenos e do seu modo de
aparição perante a consciência transcendental. Heidegger, pelo
contrário, concentra toda a sua investigação na determinação
da existencialidade. As duas doutrinas seguem, portanto, vias
completamente divergentes (10).
Heidegger adopta um método que se lhe afigura mais
adequado à ontologia, cuja finailidade é apreender o sentido
do ser em geral.  Sob o aspecto do ser é que a análise fenome-
nológica deverá, pontanto, encarar o dado existencial. Este
dado existencial é constituído pelo ser do existente. Mas,
contràriamente àquilo que se poderia pensar, este ser está

(“ ) Daremos, no Apêndice, uma ideia geral da Fenomenologia de


Husserl, destacando também a posição de Heidegger e de Sartre pe
rante ela.
HEIDEGGER E SARTRE 89
escondido, isto é, não é imediatamente manifestado naquilo
em que ele se manifesta (1X). Torna-se, por isso, necessário
descobri-lo. Nestes primeiros passos da ontologia heidegge-
xiana pressente-se a influência sub-reptícia do kantismo:
admitir o ser para lã do dado imediato é uma hipótese intei
ramente gratuita, porque a análise fenomenológica nada disso
nos revela. Afastamo-nos, assim, da forma apodíctica do
método de Husserl. Heidegger, entretanto, não pensa da
$ mesma maneira. Segundo ele, a forma apodíctica não exclui
as implicações da análise (o não-imediafamente manifesto está
implicado no manifesto) e, além disso, afastar, de uma forma
radical, a ideia de coisas em si, escapando absolutamente
à intuição.

II

A analítica fundamental do Dasein

1. A primeira questão a atender na investigação do sen


tido do ser é a do carácter do Dasein ou seja a estrutura do
existente  que é cada um de nós. O ser dfeste existente é o
meu (1?). Ora, dois aspectos característicos do ser se impõem

H SZ, pág. 35. .


(“ ) Importa concretizar desde já o significado que Heidegger atri
bui aos terxnos  ser (seirt) e existente (das Seiende),  quando distintamente
os emprega. O existente  designa a existência bruta, situada aquém de
qualquer inteligibilidade, numa indeterminação total. (Sob este aspecto,
podê-lo-íamos comparar à matéria-prima  dos Escolásticos, com a dife
rença, na verdade capital, de que esta nunca existe naquela indetermina
ção que caracteriza o existente bruto de Heidegger). Quando tivermos
de o contrapor ao ser, designá-lo-emos por exi stente em bruto. — O ser 
do existente é o existente que o Dasein afecta de uma determinação que
faz dele tal ser,  conferindo-lhe inteligibilidade e verdade (SZ, pág. 230).
É o mundo (quando constituído pelo Dasein, esclarece aliás Hddegger
90 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

imediatamente à análise. O primeiro é que a essência do ser


(isto é, o que ele é) reside na sua existência, uma vez
que ele não pode ser separado nem distinguido dos seus
modos de ser. O ser-tal do existente é, portanto, o ser pri
mário e o único ser real do existente. Às suas propriedades
são apenas modos possíveis do existente e não potências
escondidas do ser. O Dasein é a possibilidade concreta e total
da minha existência,   e isto equivalerá, portanto, a dizer que a
existência tem prioridade sobre a essência (1S).
O segundo aspecto característico do ser a considerar é
que o Dasein é sempre o meu.  Não deve, portanto, ser tomado

— W gr, págs. 67-68) que determina o existente (bruto) e faz dele um ser,
incorporando-o numa totalidade.
(” ) Importa frisar que Heidegger não diz que «a existência   pre
cede a essência»   (como se exprime J.-P. Sartre); afirma apenas que há
uma «preeminência» (Vorrang)   da existência sobre a essência (SZ,
pág. 43). Para Sartre, pelo contrário, como teremos ocasião de ver, a
existência, como liberdade absoluta, não de existir mas de um determi-
nado-existir  , precede inteiramente a essência. Isto é o que Sartre esta
belece pelo menos em teoria, porque, no fim de contas, ele acaba por
invocar uma essência  («desejo de ser») que condiciona fundamentalmente
a existência e que, por consequência, a  precede.  —•Devemos dizer desde
já que a palavra existência  não tem exactamente o mesmo significado em
ambos os filósofos. Para Heidegger designa apenas o modo de ser do
Dasein, ou seja, o homem quando se interroga a si próprio sobre o seu
ser. À existência, tomada no sentido genérico de qualquer presença no
inundo, a título de dado,  designa-a Heidegger por Existentia.   Sartre não
entra nesta distinção e para ele a palavra existência  engloba os signifi
cados de Existenz  e Existentia  e designa pura e simplesmente «presença
efectiva no mundo».
A palavra  ser,  em Heidegger, reveste ainda outros sentidos, bem
delimitados nos termos alemães e que são:
1. Das Sein: o  ser em geral,— ou o ser do existente.
2. Das Seiende:   o existente em bruto (ou o sendo).
 3. D as W esen:   a essência — o que o existente tem de vir «a ser»
(Zusein).  — A essência do Dasein reside, portanto, na sua exis-
HEIDEGGER E SARTRE 91
ontològicamente como um caso ou um exemplar de uma
,espécie de existente, nem como o aspecto fenomenológico de
um substrato que se mantém imóvel sob o fluxo da mudança.
É totalmente meu e a sua expressão só será correcta quando
adjunta do pronome pessoal: «Eu  sou», «Tu   és», de qualquer
maneira que eu seja ou que tu sejas. O existente que é a
minha pessoa está para o seu ser na mesma relação que para
a sua própria possibilidade: é preciso dizer que o Dasein é  a
# sua possibilidade e não que ele tem ou  possui  a sua possi
bilidade, como se itratasse de coisa presente e actualizável.
Esta é a razão pela qual ele tem de se escolher e de se con
quistar, podendo também perder-se, ou ganhar-se apenas
em aparência. Está colocado entre a existência autêntica e
a existência inautêntica <— e esta última não é um ser «menor»
ou um grau «inferior» do ser: é ainda um ser plenamente
concreto, mas absolutamente diferente do ser da autentici
dade (14).

tência. Ou ainda, segundo a fórmula de Hegel: A essência é o


que «tem sido» (W esen ist was gewesen ist).
4. Das Dasein:  o estar-aí, o existente singulär concreto.
5. Das In-der-Welt'Sein: o   estar-no-mundo; o Dasein «em situa
ção» no mundo das coisas-utensilios.
6. Das Mit-Sein:  o ser-com; o Dasein relacionado com os outros
Dasein.
7. D as E xistenz:  a existência; ö modo de ser da essência do Dasein.
8. Das Vorhandensein  (ou Existentia):   presença no mundo; dado
puro; ser do existente-coisa, como coisa.
9. Das Zuhandensein:  ser da existente-utensilio, como utensílio.
(“ ) SZ, págs. 42-43. — Heidegger não quer atribuir (cf. pág. 43)
carácter moral a esta distinção. A apreciação moral, no entanto, já se
encontra implícita na distinção entre ser autêntico e ser inautêntico, embora
para esta distinção Heidegger não apresente qualquer critério que a justi
fique ou fundamente. Perante a análise, o que leva a admitir que o
existir «autêntico» é superior ao existir «inautêntico»— ou, então, qwri
o motivo por que um é qualificado de «autêntico» e o outro de  «teau-

0'
92 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

2. Para explicar o Dasein não se pode evidentemente


partir de uma ideia   da existência. O Dasein terá de ser des
crito de uma maneira real, tal como se vê e se compreende,
mesmo que ele se encontre no erro, pois o próprio erro é um
modo do ser real, uma maneira de existir. É, portanto, da quo-
tidianidade média e banal que temos de partir, sem nos preo
cuparmos por enquanto de distinguir o que, dentro do Dasein,
possa haver de autêntico ou de inautêntico. Por agora só nos
interessa conhecer a estriftura da existência. Entretanto, a
análise da quotidianidade não é coisa fácil, porque, como
observa Heidegger, se se pode dizer com Santo Agostinho:
«Quid propinquius meipso mihi?», com Santo Agostinho
devemos também acrescentar: «Ego certe laboro hic et laboro
in meipso: factus sum mihi terra difficultatis et sudoris
nimii» (1B).

têntico» ? (Sobre o assunto, cf. as judiciosas observações de A. de  W a e -


l h e n s , La Philosophie de Martin Heidegger, pág. 31, n. 1 ) . — Sartre
(L'Etre et le Néant,  págs. 651-652) critica de modo análogo esta distinção
entre existir autêntico e não-autêntico e vai até mais longe na sua crítica.
Na psicanálise existencial, diz ele, só se deve parar diante do que é evi
dentemente irredutível, isto é, diante do  proj ecto inicial,  no qual o fim
projectado aparece como  ser   do Dasein. Ora a classificação do projecto
em «autêntico» e «inautêntico» não é irredutível. Heidegger funda-a na
atitude do sujeito perante a sua própria morte, ou porque a aceite abso
lutamente (autenticidade), ou porque a ela fuja refugiando-se na angústia
(inautenticidade). Mas quem não vê que isso se explica pelo simples facto
de nos encontrarmos agarrados à vida? Nem a fuga diante da morte, nem
a sua aceitação resoluta podem, portanto, ser tomadas como projectos
fundamentais. Tanto uma como outra atitude só poderão, pelo contrário,
ser compreendidas desde que assentem num projecto original de viver ou
de ser, isto é, desde que tenham como base a escolha original do nosso
ser. Em suma, Heidegger caiu na mesma falta que tão vivamente censura
nos outros: detém-se no õntico  ou empírico, quando julga que está a
abordar o ontológico  ou metafísico.
•(“ )  S Z ,   págs. 41-45 (S. A g o s t i n h o , Confissões, x , cap. 16).
HEIDEGGER E SARTRE 93
O estar-no-mundo  é, declara Heidegger, a determinação
fundamental do Dasein, aquela que se nos depara em primeiro
lugar quando encaramos o ser da existência, tal como ele se
apresenta em um ou outro dos seus medos, e, por consequên
cia, indiferentemente em relação a cada um desses modos.
Apreendido na sua totalidade concreta, o fenómeno estar-no -
-mundo, ou ser-no-mundo,  pode ser considerado nos seus três
aspectos: o mundo, o ser do existente e o ser-em, ou estar~em.
0 Ao considerar o mundo,  no qual eu existo, impõe-se-me
a obrigação de determinar a estrutura desse «mundo» e de
definir a ideia de «mundanidade». O existente   está sempre
dependente do modo de ser-no-mundo. Precisamos de saber
o que   é este existente, isto é, o que é o Dasein submetido à
quotidianidade. Estar-em   evoca, primeiro que tudo, o facto de
estar contido em qualquer coisa, como a água no copo ou o
fato no guarda-vestidos. Não é, porém, neste sentido predi-
camental que o Dasein está no mundo. O estar-em   é propria
mente existencial, isto ê, pertence à estrutura específica do ser,
enquanto que o estar-em   predicamental significa apenas uma
modalidade acidental a ajuntar à existência. Não se pode,
 portanto, atingir e pensar  o eu senão ligado ao mundo,   isto é,
a todo este conjunto exterior que não é o eu, mas que lhe
está ligado de tal sorte que essa ligação se torna precisamente
constitutiva desse próprio eu (16).
O ser-em   do Dasein reveste formas múltiplas, entre as
quais devemos destacar como mais frequentes as do habito e
do diligo,  e também as de empreender, executar, informar-se,
interrogar, considerar, permitir, decidir, etc. Mas todos estes
aspectos do ser-em   dizem principalmente respeito ao modo de
ser característico da  preocupação (Bersorg en),  cuja significa
ção ontológica (ou existencial) se refere a um possível estar-
^ t
H SZ, págs. 52-54. S*
94 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

-no-mundo do Dasein; porque o esíar-no-mundo caracteriza


essencialmente o Dasein, a relação do seu ser com o mundo
é essencialmente preocupação. Esta faz, portanto, parte da
estrutura ontológica do ser (17).

3. Como é que nós conhecemos o mundo? Em primeiro


lugar o Dasein não pode apreender nele senão os objectos
que correspondem às suas necessidades. O sentimento pré-
-ontológico que temos do mundo encontra-se, de facto, mode- #
lado pelas coisas com que estamos em relação quotidiana.
Isto, contudo, dá-se antes que o próprio Dasein acabe por se
fazer coisa entre as coisas, constituindo-se em mundo separado
e fechado com os objectos que suscitam o seu interesse ime
diato. O mundo transformou-se no seu mundo.
É   necessário, entretanto, contrariar esta tendência natural
e esforçarmo-nos por apreender o próprio mundo. A questão
está em saber se o método de Heidegger permite de ver
dade passar do nosso   mundo para o mundo em que estamos.
Heidegger realiza a passagem, com a simplicidade do filósofo
que analisa a sua experiência. Para ele o que interessa é
aclarar a ideia de mundanidade em geral   (18). O que aqui
naturalmente se impõe é reduzir o mundo à soma dos objectos
que contém: casas, árvores, homens, montanhas, astros.
Entretanto, facilmente se vê que o mundo não pode ser uma
soma de coisas: o fenómeno «mundo» é uma totalidade,  pois
 já é pressuposto pelas coisas. Estas são para ele e não ele para
elas. Na realidade, «mundo» designa a ideia existencial de
«mundanidade» (Weltlichkeit) . Esta ideia pode harmoni
zar-se com as estruturas de diversos mundos particulares,
mas contém sempre a noção «a priori» de mundanidade, e

H SZ, págs. 54-57.


(“ ) SZ , pág. 63.
m
HEIDEGGER E SARTRE 95

esta noção diz respeito, não a um mundo de objectos, mas


ao mundo do Dasein. O carácter «a priori» da mundanidade
impede evidentemente que ela seja sobrepujada e ultra
passada: o nosso esforço deve tender simplesmente a expli
cá-la (19).
A análise dâ mundanidade em geral terá de partir do
«mundo circundante» (Umtvelt),  que será determinado em
múltiplos sentidos pelas diversas formas da preocupação (20).
O existente não é o objecto de um «mundo teórico», mas faz
parte essencial daquele em que a preocupação lhe impõe a
presença. O ser quotidiano vive num mundo de utensílios,
que têm carácter pragmático e se relacionam essencialmente
com o Dasein que deles se serve. A capacidade de se tomar
utensílio (Zeughaftigkeit)   é portanto constitutiva da coisa
útil: esta não existe como ,tal mas sim apenas no acto em
que se utiliza («utilizar» é, propriamente, tornar «útil»). Isto
equivale a dizer que a nossa primeira apreensão do mundo não
é teórica e desinteressada, mas prática e utilitária.   Mas como,
por outro lado, a coisa-utensílio leva ontològicamente a outras
coisas-utensílios, por sua vez correlacionadas com outros
complexos-utensílios, tudo o que é útil pressupõe o mundo,
não podendo o «ser-em-si» do existente intramundano ser
apreendido ontològicamente senão à luz do fenómeno
«mundo» (S1) e, por consequência, à luz do Dasein, centro
necessário do sistema dos utensílios e das relações que signi
ficam, sem que ele esteja referido a nenhuma coisa. A totali
dade que engloba o existente é de taí natureza qu t se apresenta

(“ )i  A .  de Waelhens (loc. dt., pág. 42) frisa que o mundo, assim


concebido, corresponde sensivelmente ao que Gabriel Marcel designa por
«mistério».
(” ) SZ, pág. 66 sg.
(” ) SZ, pág. 76. 1
96 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

como sendo o conjunto das possibilidades que constituem o


Dasein. É   portanto o Dasein que confere aos objectos intra-
mundanos sentido e inteligibilidade, isto é, que os faz ser
(senão eles não passariam de «coisas», existentes em bruto
ainda não emergidos do obscuro caos). Como eu sou   as minhas
 possibilidades,   a ordem dos utensílios intramundanos é a
imagem projectada dessas minhas possibilidades, isto é, a
imagem de tudo o que eu sou. O mundo é, portanto, aquilo
a partir do qual o Dasien se mostra o que é.   Como tal, o
ser do mundo é determinação existencial (ontológica) do
Dasein (22).
Heidegger declara (23) que esta sua interpretação filo
sófica se encontra muito distanciada do idealismo e muito
mais próxima do realismo. Para ele, o famoso problema da
existência do mundo exterior não passa de pseudo-problema.
A existência do mundo exterior não requer, de facto, qual
quer prova; evidencia-se imediatamente, porquanto, ninguém
poderá conceber o Dasein abstraído do mundo. Entretanto,
o realismo, por seu lado, considera suficiente o recurso ao
existente (ou seja, aqui, o ser-em-si e a substância), sem se
importar de explicar o ser do existente e, consequentemente,
de saber se a realidade do mundo precisa de ser provada
e se essa prova é possível. O mundo está, de facto, para além
de qualquer prova, vindo o Dasein e o mundo a constituir
conjunta e indissoluvelmente o «estar-no-mundo» (24).

D SZ, pág. 88.


(” ) SZ , págs. 202-208.
(**) Esta argumentação de Heidegger é das mais discutíveis e a sua
libertação do idealismo muito precária. J.-P. Sartre (L'Etre et le Néant,
pág. 306) observa, aliás muito judiciosamente, que «a transcendência
heideggeriana corresponde a um conceito de má fé». Ela bem quer ultra
passar o idealismo, ao acentuar o carácter estrutural do ser-com, que não
se pode pensar sem o mundo. Mas isto não basta, porque o eu apenas apa-
•* *
* ‘

HEIDEGGER E SARTRE 97
4. Resta-nos finalmente saber como é que o Dasein
aparece como estando-no-mundo. Isto equivale a formular o
problema do espaço.  Este problema decompõe-se, de facto,
em três problemas distintos, relativos à espacialidade dos seres
intramundanos: — a espacialidade do es'tar-no-mundo, isto é,
dó mundo como tal; a espacialidade do próprio Dasein; e a
espacialidade do espaço (25).
A espacialidade é um dos caracteres dos seres intra
mundanos. Mas qual será a natureza desta espacialidade?
Para formarmos dela uma primfeira ideia, devemos observar
que a proximidade (Gegend)  dos objectos em relação a nós
é menos proximidade «material» {porque os objectos próximos
de nós podem ser inexistlentes para nós) do que proximidade
determinada pela preocupação; um objecto muito longínquo
pode estar próximo de mim se ele me é de qualquer modo
útil (os meus óculos, uma vez colocados, estão, para mim,
mais longe do que o objecto que obstervo através delles).
Somos, assim, levados a pensar que a relação da distância
entre nós e os objectos (tomada em brulto) é sempre função
das significações de que precisamente nos servimos para os
constituir e, por consequência, que a  proximidade resulta da
 preocupação   e designa o conjunto dos lugares ocupados pelos
objectos a que nós atribuímos utilidade. Não que ela seja

rece no contexto  heideggeriano como subjectividade a contemplar as suas


próprias imagens. Este modo de ultrapassar o idealismo, no fundo, não é
senão uma forma bastarda do mesmo idealismo, uma expressão de «psicokv
gia empírico-criticista». Não resta dúvida que o Dasein «existe fora de sáx>;
o mal é que este «existir fora de si» corresponda, para Heidegger, à defi
nição do si-mesmo. Heidegger não consegue afinal livrar-se do idealismo.
Em última análise, usa o mesmo processo do pseudo-reaUsmo {porque o
autêntico realismo é coisa muito diferente): quer  provar   a «realidade»
do mundo mas não o consegue.
(“ ) SZ, págs. 101-113. *
7 w 
98 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

formada pela soma dos objectos úteis: na realidade, ela


precede estes na ordem das possibilidades dentro da qual
a preocupação distingue lugares e sítios.
Nós atribuímos espacialidade ao Dasein. Mas este «estar-
-no-espaço» não pode evidentemente ser apreendido senão
em função da maneira de ser desse existente. O Dasein, que
não se caracteriza pela capacidade de se tornar utensílio, não
tem lugar entre as coisas. Ele não está dentro   do espaço, ainda
que esteja «no» mundo definido pelas direcções da preocupa
ção. Se, portanto, a espacialidade lhe convém de alguma
maneira, ela só será possível sob o seu modo particular
de ser-em.  Ora esta espacialidade tem, simultaneamente, o
carácter de aproximação   e de estruturação.   Com efeito, o
Dasein tende constantemente a integrar no seu mundo circun
vizinho o maior número possível de objectos e, por conse
quência, tende a suprimir a distância. A civilização contem
porânea ilustra admiràvelmente esta tendência constitutiva do
Dasein, donde se vê que ela é fundamentalmente condicio
nada pela preocupação: o «aqui» define-s|e propriamente pelo
grau de utilidade (no sentido de utensílio). Mas esse mundo,
de cada vez mais aproximado do Dasein e como congregado
à volta dele, requer também uma organização. Esta ordem
interior, que dá uma estrutura determinada ao conjunto das
coisas-utensílios, é, por sua vez, efeito da preocupação. A vida
social impõe-nos, de facto, um mundo já estruturado, mas no
interior do qual as preocupações próprias do Dasein intro
duzem ordens e estruturas novas correspondentes às suas
necessidades individuais.
O Dasein é, portanto, espacial ao mesmo «tempo que é
espacializante;   organizar é situar um objecto, relativamente
a outros objectos, num dado lugar. Compreendie-se, efecti
vamente, que os objectos sobre os quais pode actuar o Dasiein
sejam susceptíveis die ser apreendidos por modos muito
diversos, desde que pode haver entre eles relações lextrema-
HEIDEGGER E SARTRE 99
mente numerosas e variadas. Estas relações constituem o
campo das possibilidades do Dasein e o espaço do mundo não
é mais do que este campo de possibilidades. O espaço resulta,
 portanto, da estrutura «estar~no~mundo» do Dasein,  que é
espacial ao mesmo tempo que implica uma espécie de elasti
cidade ou de mobilidade no interior da totalidade do mundo —
condição fundamental da espacialidade do mundo (26).

III

O estar-no-mundo como «ser-com». O «se»

1. «O estar-em» fundamental do Dasein leva-nos agora


a perguntar o que é esse Dasein submetido à quotidianidade
(Alltäglichkeit).  Esta nova estrutura que se define por
«O que?» é uma maneira de ser do Dasein, como qualquer
outra das suas estruturas, e constitui um existencial. Por ele
somos levados a outras estruturas originais, que são o «sier-
-com» e a ipsidade ou sujeito da existência quotidiana (27).

(26) SZ, pág. 111. A. de Waelhens (loc. cit., pág. 333) diz, e muito
bem, que Heidegger considera, assim, resolvido o problema do Dasein
como corpo,  Este, segundo ele, estaria compreendido na implicação reve
ladora da espacialidade no Dasein. Trata-se, porém, de uma afirmação
gratuita, porque a «revelação» da espacialidade nada mais poderá explicar
que a formação do  sentimento  de espaço e nunca que existe  um espaço
e especialmente um corpo.  É certo que Heidegger poderia aqui replicar
dizendo que o existir como corpo está garantido pela equação: existência
humana = estar-no-mundo. Mas, «isso seria grave ilusão, contesta, por
sua vez, A. de Waelhens: o Dasein que é  estar-no-mundo concebe-se como
pura subjectividade e não como um ser de carne, enquanto que, recipro
camente, esse mundo  é uma forma de inteligibilidade e nunca um cosmos
resistente».
H SZ, págs. 114-130.
100 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

O que é. portanto, este Dasein, do qual já consideramos


tantos aspectos? — Somos nós, enquanto existentes; o ser do
Dasein é o meu. Ontològicamente !é  um sujeito  com as carac
terísticas do «eu» absoluto ou fundamental. Não se pode,
todavia, supor que o eu absoluto ou fundamental tem de
ser necessariamente o da quotidianidade. O ontológico não
coincide fatalmente com o ôntico. O eu fundamental poderá
coincidir com o eu do seu mundo,  mas também é possível
que o eu absoluto ou  fundamental  não seja o eu  da existên
cia quotidiana e que o eu da quotidianidade não seja um eu
absoluto e autêntico: o eu pode escapar-se a si mesmo e per
der a sua ipsidade. Isto, aliás, é um facto que se pode inter
pretar de múltiplas maneiras. O que convém, portanto, é
definir a estrutura essencial da ipsidade (28).
Notemos, em primeiro lugar, que, como consequência das
análises precedentes, nunca pode haver sujeito sem mundo.
Não há um eu isolado, que tivesse sido dado sem outros
eus.  Portanto, o eu é propriamente um «ser-com», e este
«ser-com» está em relação com outros Dasein, que compõem
o meu  mundo circunvizinho e que estão integrados neste e
aproximados de mim pela preocupação, ao mesmo itempo que
eu os trago por assim dizer comigo, da mesma forma que a
terra se move no espaço envolta pela sua atmosfera. Os Dasein
do meu   mundo disitinguem-se dos utensílios porque eles
«estão-aí-também-comigo(com-eu)». Este «com» e este «tam
bém» são existenciais: designam essa estrutura do estar-
-no-mundo que implica a minha comparticipação no mundo
com «os outros»'— não com «os outros», sinónimo dos res

(**) A ipsidade (Selbstheit)   não se confunde com o eu fundamen


tal nem com o eu secundário. Pertence à essência do Dasein e tem valor
existencial. O eu fundamental é um aspecto da ipsidade: esta exprime-se
no eu fundamental; com o eu fundamental, o existente define-se como
sendo ele mesmo, só ele e nada mais (SZ, pág. 318).
HEIDEGGER E SARTRE 101

tantes homens fora de mim, mas com «os outros» no sen


tido de que não nos distinguimos desses outros, entre os
quais nós também estamos. Assim, o estar ~no~mundo é um
mundo em comum,  e, para mim, estar é existir em comum
com outros (2B).
Distinguiremos dois modos essenciais do «ser-com».
O primeiro, que definimos como  preocupação, é a atenção ao
mundo circundante.   O segundo é a solicitude,   que é atenção
ao próximo como tal.  Torna-se, porém, evidente que este
último modo pode ser deficiente, em virtude da indiferença
em relação ao próximo que a vida quotidiana muitas vezes
comporta (30).
De que modo é que nós conhecemos o outro,  aquele que
nós não somos? Há quem diga, refere Heidegger, que esse
conhecimento vem pela simpatia (Max Scheler). Entretanto,
não é o fenómeno da simpatia que pode, ontològicamente,
estabelecer o primeiro contacto entre dois sujeitos. A simpatia
não é um fenómeno existencial original: também exige um
fundamento, que é justamente aquilo que a análise nos revela,
ou seja, o «ser-com» como constituinte ontológico do ser-no-
-mundo. Ao mesmo tempo que o Dasein é,  tem esse modo
de ser que consiste em existir em comum com o outro (S1).
Este é o motivo por que o conhecimento do outro estabelece
que a minha relação com os outros seja uma projecção do meu
próprio ser «num outro». O outro vem a ser um duplicado de
mim,  vindo eu a interpretá-lo segundo o meu próprio eu (S2).

H SZ, pág. 118. -


(" ) SZ, pág. 121.
(31) SZ, pág. 125.
(“ ) SZ, pág. 124. — J. P. Sartre {L’Etce et le Néant,   págs. 303-317)
critica contundentemente esta análise do ser-em.  Diz ele que Heidegger nâto
justifica, de forma alguma, a passagem da verificação empírica do se*»»
-em-comum para a posição da coexistência, como estrutura ontológica do
102 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

2. Mas voltemos à questão de saber quem é o ser que


tem o ser-em-comum com os outros na quotidianidade da
existência.
A experiência adverte-nos, aqui, que o carácter da exis
tência, expresso em termos existenciais, é a dependência,  O ser
do eu é de certo modo assumido pelos outros, sem que seja
possível dizer que é assumido por este ou por aquele. O eu
está submetido constantemente à necessidade de se subordinar
aos outros nas obrigações comuns da vida quotidiana e até
nas ideias. Quando, portanto, se pergunta o que é o Dasein,
deve-se responder que é um neutro impessoal: o «Se» (das
 M an).
A existência em comum dissolve totalmente o Dasein de
cada um no modo de ser dos «outros», a tal ponto que esses
outros perdem os seus próprios caracteres distintivos. O «se»
exerce verdadeira ditadura. Exige o nivelamento, a instalação
na média, o que designaremos por «vida pública e aberta»:

estar-no-mundo.   Mesmo que esta estrutura fosse provada, nunca ela poderia
explicar o  ser-com  concreto (da minha amizade por João, por exemplo), uma
vez que «o outro» é originalmente indeterminado. Heidegger não pode esta
belecer a determinação, porque não é possível compreender como o  ser-
-com,  enquanto estrutura ontológica do Dasein, possa fazer surgir uma
outra realidade humana. Sem dúvida que eu sou, como «ser-com», o ser
pelo qual «há uma outra realidade humana». Estamos caídos na própria
fórmula do solipsismo. O meu «ser-com», tal como o apreendo, a partir do
«meu» ser, não é mais que uma exigência a priori do meu ser. Podemos
acrescentar ainda que, como relação a priori, a minha relação com
outrem é constitutiva  da minha experiência e exclui qualquer facto que não
haja sido construído por ela, isto é, qualquer transcendência, e, por con
sequência, qualquer outrem concreto autêntico, que deverá sempre apre
sentar-se como encontro ou acidente contingente (pelo menos quanto à sua
realidade ontológica de «outrem»). Assim, portanto, conclui Sartre
(pág. 307), «mesmo nos seus êxtases, a realidade-humana permanece só».
A solidão do ser-em-comum é ainda uma solidão consigo, e o  ser-com
não passa de outro aspecto de mim mesmo.
HEIDEGGER E SARTRE 103

o «se» é efectivamente uma espécie de caminho aberto a qual


quer viandante. O «se» suprime a responsabilidade própria,
em proveito de uma responsabilidade comum, que não é de
ninguém. Cada um é   o outro e ninguém é ele-próprio.   O «se»
não é ninguém. Como tal, é a forma da existência inautên
tica (8S).
Não se deve supor o «se», acrescenta Heidegger, como
se fosse um «sujeito coledtivo», pairando, por assim dizer,
acima da multidão. Ele é, na realidade, um existencial que
pertence, a título de fenómeno original, à noção positiva do
Dasein. É um ser real, a saber: o «Si-mesmo» (Man~selbst):
um ser completamente imerso no ser-em-comum, mas cujo eu
conserva a sua plena realidade, que consiste precisamente
nesta falta de personalidade: eu sou,  mas já não sou   eu,
no sentido de mim-mesmo; eu sou os outros sob a forma
do «se».
A concepção pré-ontológica do ser do Dasein quotidiano
e do mundo tem a sua origem neste modo de ser, que é o «se».
O mundo fica reduzido ao mundo circunvizinho, e, neste,
tudo se converte em coisas: o   próprio ser do existente, que é
um ser-em-comum, torna-se uma coisa entre muitas outras (S4).

3. Tentaremos agora ir mais adiante na análise do

(" ) SZ, págs. 126-128.


(“ ) A. de Waelhens chama a atenção para a excessiva brutalidade
com que Heidegger descreve o «se». Gabriel Mareei, por seu lado, fala
da «sufocante tristeza» que emana dessa descrição destinada a abranger,
segundo Heidegger, a maior parte da humanidade. Isso é desconhecer as
riquezas espirituais do amor, da fidelidade ao dever e da fé, que tantas
vezes se escondem sob as aparêndas da banalidade quotidiana. «Ê aqui,
escreve A. de Waelhens (loc. cit., pág. 78), que se mostra pela primeira
vez o enorme poder de destruição que estruturai sem dúvida, não só a
própria base do pensamento de Heidegger como também a sua trágica
grandeza».

"** "
104 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

ser-em   como tal, procurando apreendê-lo na sua unidade.


Neste intuito, deveremos observar que o Dasein está neces
sariamente aqui ou ali e que esta propriedade essencial de
ser um ser situado   (ou um «estar-aí»: dasein)   é a que
mais vincadamente caracteriza a existência, naquele sentido
em que a escolástica afirma que a individualidade é a pró
pria raiz do existente. Ora, o «estar-aí» manifesta-se prin
cipalmente sob duas formas ontológicas: o «sentimento da
situação originária» e a «interpretação».
O que Heidegger denomina sentimento da situação ori~
 ginária (Befindlichkeit)  corresponde, na ordem ontológica,
ao que se designa, sob o ponto de vista ôntico, por «estado
afectivo». A cada instante, o Dasein experimenta um sen
timento qualquer, por mais fraco que seja. Esses estados
afectivos   variam incessantemente, segundo as vicissitudes da
quotidianidade e, muitas vezes mesmo, sem que lhes possamos
descobrir a causa (35). Quanto mais inexplicáveis, mais eles
se sentem. O sentimento revela profundezas que o nosso
conhecimento não pode atingir. Ora o sentimento que está na
origem de todos os outros é o que nos revela a nossa situação
fundamental, que é precisamente a de estar-aí:   é a maneira
existencial pela qual se descobrem a mim, mostrando-me como
neles me encontro implicado, o mundo, o existir em comum*
e a existência, que. no seu conjunto, constituem, por seu lado,
o estar-aí do ser-no-mundo.
Esta situação é sentida como absolutamente originária
e fundamental, porque não pode comportar nada que seja
ulterior ao sentimento de estar-aí, de estar-Jançado-aí, de tér
de existir, de ter de assumir a existência como um encargo ao
qual eu correspondo (3G). Mas isto, vulgarmente, passa

H SZ, pág. 134.


(**)■ Idem.

r
HEIDEGGER E SARTRE 105
desapercebido, a não ser naqueles casos em que, no meio da
mais banal quotidianidade, o sentimento da situação origi
nária se impõe bruscamente ao Dasein. A maior parte das
vezes, porém, tudo se dispõe em nós de forma a dissimular
mo-nos a nós próprios aquilo que somos fundamentalmente,
e o sentimento originário deixa de atendler ao facto de se
estar-lançado-aí, para exprimir a aversão ou o atractivo que
sentimos pela existência. A aversão tem quase sempre a pre
ferência: serve para iludir a existência; faz-me sentir estra
nho a mim mesmo, convencendio-me de que me devo deixar
perder por completo na banalidade do «se» (37).
O sentimento fundamental do esta r-aí corresponde, por
tanto, ao sentimento do estar-lançado-aí,   ou seja, ao senti
mento do abandono   ou da derrelicção (Geworfenheit)  (38).
Este sentimento pertence à própria estrutura do ser e não
resulta simplesmente de uma contingência acidental na maneira
de chegar ao mundo mas sim da própria existência na sua
realidade ontológica. Eu sou, com efeito, projectado no mundo
sem que dá minha parte tenha havido qualquer escolha ; o sen
timento de abandono e de solidão acompanha, portanto, a
minha existência, impregnando-a de tal forma que imprime
profundo carácter à sua natureza (39). Por isso, eu sinto

(" ) SZ , pág. 135.


(as) H. Corbin (loc. cit., pág. 15) traduz a palavra Geworfenheit 
por déréliction.
t  (“ ) Servir-se do abandono (estar-lançado-aí)  para definir o estar-
-jâ-aí   é seguir caminho um tanto arbitrário. Ninguém assiste à génese
do seu próprio ser e, quando eu me interrogo sobre essa génese, é porque
já existo. Mas o que não se pode é ligar, de uma maneira universal, à
verificação deste facto um sentimento de angústia e fazer desta angústia
a  própri a essência  do Dasein. O que aqui se poderia dizer é que o exis-
tir-já-aí levanta um  problema,  que é o da minha existência e o da exis
tência em geral. O sentimento do abandono, implicitamente, poderá ser
uma  solução  desse problema, ou seja, a solução encarada através da
106 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

também que a existência não será para mim senão o fruto de


uma conquista, numa luta que nunca acabará. Raríssimas
vezes, todavia, isto se reconhece: reconhecer no abandono a
verdade fundamental da existência é próprio do existir
autêntico. Quase sempre, porém, o sentimento da situação
originária fica envolvido, escondido, deformado e recalcado
no seio da massa movediça dos sentimentos da vida quoti
diana.
Pode-se analisar concretamente o sentimento da situação
originária estudando os dois modos de ser que dele derivam:
a angústia e o medo. Mais adiante falaremos da angústia.
Quanto ao medo, três perguntas se podem formular: — de que
temos medo, o que é ter medo e por que temos medo? Na res
posta a estas perguntas se encontrará a estrutura do senti
mento da situação originária (40).
O terrífico é sempre um ser intramundano, apreendido
como existente, mas no seu aspecto de fenomenalidade de
objecto terrificante. Com aquilo que encerra de perigoso, ele
apresenta-se-nos, com efeito, como uma ameaça   que se apro
xima de nós (enquanto o objecto está longe o que tem de
temível permanece oculto). Trata-se indubitàvelmente de uma
ameaça, porque o perigo não deverá aparecer como inevitável.
— O medo,  portanto, consiste menos em temer um mal futuro
do que em descobrir uma ameaça que faz pesar sobre nós o
objecto temível que se aproxima. — É sempre pelo Dasein
que nós tememos, porque só o existente se pode amedrontar,
quando está em causa o seu ser. Ê certo que também podemos
temer pela segurança da nossa casa ou da nossa herdadé.
Mas isso é porque o Dasein é   conjuntamente aquilo que o
preocupa: o perigo pairando sobre as coisas que o preocupam

contingência absoluta e da estrutural absurdidade da existência. Todavia,


afirmada a priori, esta solução é puramente gratuita.
D SZ, págs. 140-142.
HEIDEGGER E SARTRE 107
torna-se uma ameaça para ele. De faeto, o medo traduz sem
 pre o sentimento originário do ser intramundano, que sente
a sua existência como que ameaçada, e, por isso mesmo, faz
 parte da existência,   acompanhando-a sempre.

4. O sentimento da situação originária não é, portanto,


senão uma das estruturas ontológicas que constituem o «estar-
-aí» ou a haecceidade   do Dasein. O «estar-aí» é também
constituído pela «interpretação» (41). Este termo «interpre
tação» não significa uma maneira de conhecer como outra
qualquer, nem mesmo devemos supô-lo sinónimo de «explica
ção» no sentido corrente da palavra. De facto, o conhecimento
ou ia explicação de qualquer coisa constituem sempre derivados
existenciais da interpretação, que definiremos como o ser
existencial do  poder-ser   próprio do Dasein. Efectivamente,
o Dasein aparece sempre como um  poder-ser. Nunca é uma
coisa fechada ou parada. É aquilo que pode ser e exisite segundo
o modo das suas possibilidades. É aqui precisamente que está
a origem da sua preocupação perante o «mundo» e perante
os outros, ou seja, a questão fundamental da sua própria
possibilidade. O Dasein deve, portanto, interpretar o seu ser,
isto é, as suas possibilidades.
Mas isto não significa uma liberdade de indiferença,
como se o Dasein, colocado em face das suas possibilidades,
tivesse de as escolher de fora como eu escolho numa montra
o objecto que me agrada. Na realidade, o saber que se acomoda
às minhas possibilidades pertence ao próprio ser do «estar-aí»,
que 'é essencialmente interpretação (e é só porque o Dasein

(41) SZ , págs. 142-166. Para a tradução do termo Verstehen  recor


remos a A. de Waelhens (loc. cit., pág. 88, n. 1), que o traduz por «inter
prétation». Convém, de facto, estabelecer a distinção entre o termo
existencial que Heidegger designa por Verstehen   (interpretação) e as
noções correntes de compreensão  e mesmo de explicação.
108 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

é assim que ele pode perder-se e desconhecer-se e também


reencontrar-se nas suas possibilidades). Eu sou, portanto,
livre, mas dentro dos estritos limites da minha possibilidade
— o que equivale a dizer que qualquer escolha é uma deter
minação criadora do meu ser.
A interpretação possui uma estrutura ontológica a que
chamaremos  pro-jecto (Ent-wurf).   Pro-jectar é o resultado
imediato do poder-ser. Este projecto não pode, entretanto,
referir-se a qualquer plano preconcebido; o Dasein é que,
de facto, está já projectado em si mesmo: existir, para ele,
é necessariamente pro-jectar, isto é, assenhorear-se (sem-
que nem sempre disso tenha conhecimento expresso) do
espaço facultado ao jogo do poder-ser como carreira do seu
ser. É, portanto, fazer existir a possibilidade. Esta é também
a razão por que o Dasein é sempre «mais» do que aquilo que
é de facto, mas nunca mais do que é realmente, porque o
poder-ser pertence essencialmente à sua realidade. Ao Dasein
podemos, portanto, dizer com toda a verdade: «Tornaste o
que és».
A interpretação determina aquilo a que chamamos a
«visto» do Dasein (J2). Quando a vista do Dasein incide sobre
a existência na sua totalidade dá lugar à clarividência — esse
conhecimento de mim que me faz apreender o meu ser-no-
-mundo como sendo essencialmente um ser-com-os-outros,
intervindo estes como momentos constitutivos da existência
do Dasein. A inclarividência, pelo contrário, não corresponde
apenas a um erro egocentrista na apreciação do meu ser, é
sobretudo desconhecimento do mundo. Todo o nosso saber
relativamente aos objectos, a nós mesmos e ao ser em geral
deriva, portanto, da interpretação. Mas o ser, no pro-jecto, é
somente interpretado e não apreendido ontològicamente.

H SZ, pág. 146.


HEIDEGGER E SARTRE 109

O projecto reveste forma particular na explicação (Aus~


legung),   que tem como carácter essencial determinar a estru
tura de uma coisa como «servindo paira», isto é, definir a coisa
como tal, enquanto tal  (a casa como  casa, a porta enquanto
porta). O «em-quanto» é a forma mais geral da interpretação.
Apreender um objecto é (como está bem estabelecido pela
psicologia da forma) assenhorear-se dia significação  desse
objecto: uma coisa desprovida de sentido não existe para
mim. Reciprocamente, o objecto reduz~se ao seu sentido e,
então, é o que é para o meu projecto.   A interpretação não
pretende, portanto, isolar o objecto sobre que incide: consi
derar a mesa como tal, equivale a colocá-la entre parêntesis
em relação ao conjunto de que ela faz parte, mas não a des
tacá-la desse conjunto. O que a interpretação pretende é situar
exactamente o objecto no conjunto dos objectos intramun-
danos, isto é, apreender-lhe o sentido relativamente a mim,
e isto reconduz-me à interpretação de mim mesmo e do mundo.
As estruturas existenciais fundamentais são, portanto,
como acabámos de ver, o sentimento da situação originária e
a interpretação. Esta encontra a sua primeirta1expressão (Ãus-
sage)   nos gestos pelos quais manifestamos aquilo que nos
explicitam os utensílios de que nos servimos. Esses gestos não
são necessáriamente palavras nem mesmo ideias: são simples
atitudes expressivas   e as palavras, aqui, têm apenas o valor
de   um gesto imediatamente significativo de ordem prática.
Todavia, a expressão pode tomar a forma de linguagem.
Esta. por sua vez, resulta da discursividade (4S) — existen
cial que se pode definir como sendo o instrumento pelo qual
organizamos ou articulamos entre si os objectos intramun-
danos, conferindo-lhes um sentido, ao mesmo tempo que

(“ ) Vamos buscar a A. de Waelhens (loc. cit,, pág. 28, n. 4) o


termo discursivité,  tradução de R ede,  que tem, como origem da lingua*
gem, um sentido que a palavra discurso  interpretaria mal.
p

110 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

organizamos e articulamos também a interpretação do nosso


próprio Dasein. A discursividade é, portanto, juntamente
com o sentimento da situação originária, um dos componentes
do «estar-aí» (44).
A linguagem é a expressão externa da discursividade,
que estrutura o mundo nos seus diversos «membros», afec
tando cada um de uma significação e imprimindo a todos o
carácter do «ser-com» do Dasein. O Dasein é necessariamente
diálogo,  porque o seu existir é em si mesmo dialéctico; está
constantemente referido aos «outros» que, no seu conjunto,
constituem o mundo do Dasein (4S).

5. A análise das estruturas ontológicas ou existenciais


do estar-no-mundo afastou-nos um pouco do exame da quoti-
dianidade do Dasein. Torna-se necessário voltar agora ao
assunto, com o fim de definir com mais propriedade o modo
de ser do «se», isto é, da existência inautêntica  (46). Este
modo de ser comporta, efectivamente, uma sensibilidade, uma
interpretação, uma discursividade e uma explicitação parti
culares que, na sua realidade ontológica concreta, dão teste
munho do fenómeno do abandono ou derrelicção.  Anotaremos
aqui três caracteres específicos da existência exterior e pública
do «se», a saber: o tagarelar quotidiano, o espírito de curio
sidade e o de ambiguidade, ou de equivocidade.
 Já dissemos qual era a origem da linguagem, que resulta
da necessidade de comunicação, essencial ao ser, que é ser-em
e ser-em-comum. A linguagem caraeteriza-se principalmente
por concentrar tudo ao redor do «diz-se», que assim se toma
a fórmula por excelência da exactidão e da verdade. Deste
modo a linguagem (e por linguagem deveremos entender aqui

(M) SZ , pág. 165.


H SZ,  pág.  170.
(“ ) SZ , págs. 166-180.
HEIDEGGER E SARTRE 111
não só a linguagem falada mas também itudo o que se escreíve
e se transmite na quotidianidade) perde aquela sua primeira
ligação com o ser e passa a relacionar-se apenas com os eus
utilizados, que se substituem às próprias coisas. O que «se
tem dito» éique passa a estar em causa. Esta forma de lingua
gem constitui o «tagarelar» (Gerede),   que admite a possibi
lidade de se compreender tudo sem necessidade de uma pré
via adaptação às coisas (47).
Não é possível evitar por completo esta forma da quo
tidianidade, na qual o Dasein se encontra de cento modo
imerso. É nela, por ela e contra ela que se realiza a inter
pretação autêntica e a readaptação à realidade das coisas.
Entretanto se o tagarelar se encerra, sem resistência nem
revolta, na passividade do «se», torna-se, ontològicamente
falando, uma interpretação da existência, ficando esta, dentro
dessa interpretação, privada das suas raízes e das relações
autênticas com o mundo, com os outros e consigo mesma.
Deste estado, aliás, o Dasein não tem a menor consciência,
porque a quotidiana e obstinada «realidade» do tagarelar lhe
esconde o nada em que se encontra mergulhado (48).
Este nada imagina-o o Dasein sob a forma do ser, atra
vés do artifício da curiosidade.  O des|ejo de saber, de que
fala Aristóteles, citado por Santo Agostinho (49), reduz-se
a uma simples preocupação de aparência: o Dasein procura
desembaraçar-sie de si e perder-se nos objectos quotidianos.
Para a curiosidade, não interessa compreender o que se vê.
isto ê, penetrar até à realidade do ser; o que unicamente
inltetfessa é ver. Ela só procura a novidade em si e não se
importa com o que significa essa novidade. A curiosidade
nunca se detém ou se concentra num objecto presente: pro

D SZ, pág. 169.


(*) SZ, pág. 170.
(™) Confissões,   X, c. 35.
112 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

cura ir sempre mais longe, constantemente agitada por uma


frenética necessidade de dispersão, que comunica à lexistência
quotidiana aquela forma impulsiva e descontínua que é sinal
de desarreigamento e de vácuo. Entretanto, o que a curiosi
dade tem de pior é transmitir ao Dasein, que se lhe entrega,
a impressão ilusória de uma autêntica vivência (50).
Desta ilusão nasoe o terceiro fenómeno característico da
quotidianidade, ou seja a ambiguidade.  Por ela, torna-sie
impossível distinguir o autêntico do inautêntico. Não se limita
apenas ao mundo, mas estlende-se também ao existir^em-
-comum como tal e até ao próprio ser do Dasiein relativamente
a si mesmo. Todos sabem tudo e falam de tudo o que ocorre;
cada um sabe também tudo o qu|e d|eve acontecer e aquilo que
deveria propriamente fazer-se. A capacidade die «discorrer»
passa a ser a medida exacta do que sle sabe e daquilo quje é.
A equivocidade do discurso quotidiano confere à acti
vidade do Dasein um carácter significativo que &  mantém
constantemente em atraso, tornando-a inconsistente e super
ficial, desintegrada do real. Pela ambiguidade em que se
encontra instalado, o Dasein está sempre «aí», ou seja, nesse
estado «público» do ser-em-comum em que as palavras mais
vulgares e a curiosidade mais engenhosa são o seu alento:
está sempre aí onde quotidianamente tudo acontece, mas
onde, de [acto, nada se passa   (51).

6. Esitas três características do estar-aí do Dasein


determinam uma maneira de ser fundamental a que chamare
mos desprendimento, descaimento (Verfallen).   Todavia, não
convém dar a esta palavra sentido negativo, como se a quo
tidianidade fosse um não-ser. O descaimento   tem, efectiva-

(■) SZ , págs. 170-173.


(M) SZ, págs 173-175.
HEIDEGGER E SARTRE 113

mente, uma certa positividade: o Dasein é inteiramente


absorvido, por assim dizer, pelo «mundo» e pelo ser comu
nitário. Trata-se, de facto, de uma maneira de «não-ser»,
mas no sentido de «não-ser-si-mesmo». O Dasein tornou-se
 positivamente outro, diferente de si-mesmo.
Por outro lado, o desprendimento ou estar caído (des
caimento) não deVe ser compreendido como queda de um
estado primitivo mais alto e mais puro. Semelhante queda
(pecado original) não só a não experimentámos sob o ponto
de vista ôntico, mas nem mesmo, ontològicamlente, temos dela
qualquer noção que nos permita atribuir-lhe determinado
sentido (52). Na realidade, o descaimento ou desprendimento
é uma determinação existencial do próprio Dastein, o qual,
pelo facto de dever precisamente perder-se ou desprender-sie,
 já está em si perdido e decaído.
Por fim, ainda poderia haver outra maneira errada de
compreender a estrutura ontológica do Dasein que seria tomar
o estado de desprendimento como fase que pudesse ser trans-
^posta por efeito de um progriesso de cultura. Não há dúvida
que outras formas de civilização poderão vir a modificar
grandemente os aspectos da autenticidade. Entretanto, esta
terá de manter-se sempre como possibilidade fundamental do
Dasein:  é parte constitutiva do estar-no-mundo e o homem
não pode desfazer-se dela da mesma forma que não pode
saltar por cima da sua própria sombra (S3).

(“ ) SZ, págs. 179-180.— A pág. 306, n. 1, Heidegger diz que a


análise existencial do sentimento de culpabilidade nada esclarece a lavor 
ou contra  a possibilidade de um pecado original. Rigorosamente falando,
não se pode mesmo dizer que a ontologia do Dasein, em si, deixe aberta
tal possibilidade: filosòficamente, não se «sabe» absolutamente nada
acerca do pecado original.
(“ ) Heidegger supõe que o Dasein começa sempre pela existência
não-autêntica. Só depois, por qualquer forma, vem a resolução, que tefll
a sua origem na dispersão e na decadência — apeio a uma vida que coesiga
114 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Podemos, portanto, resumir o estado inautêntico do


Dasein como sendo uma alienação (Entfremduny),   não no
sentido do Dasein ser, de facto, arrancado a si mesmo, mas no
de ter perdido as suas próprias possibilidades. O Dasein não
se transforma, porém, em outro ser diferente do seu; realiza,
sim, um modo de ser possível de si mesmo. O Dasein move-se
 por completo dentro de si mesmo.  Somente, o movimento de
se perder ou de queda, que designamos por alienação, per
manece nele oculto, podendo porém vir a tomar o aspecto de
acesso a uma vida superior, mais nobre, à vida «plenamente
concreta e plenamente real». A existência autêntica, pelo
contrário, não poderá ser considerada como um salto que o
Dasein quotidiano pudesse vir a efectivar sobre o mundo
exterior; corresponde unicamente a uma maneira diferente de
comportamento por parte do mesmo Dasein em relação a esse
mundo exterior, que ele apreenderá, portanto, sob uma forma
também diferente.
Anotemos, por fim, que o desprendimento nunca é um
«facto concluído»; nunca pode também sfer considerado um
estado de equilíbrio. É como que um turbilhão no qual o «se»,
mantendo-se aquilo que é, se engolfa de cada vez mais, ao
mesmo tempo que se vai desapropriando progressivamente
de si mesmo e aturdindo frenèticamente o seu nada pessoal
na mais completa dispersão da banalidade quotidiana
Nesta análise do Dasein encontraremos a base fenomenal
para a interpretação sintética do ser do Dasein como «cuidado
ou preocupação» (Sorge)  (34).

libertar-se dos laços que a prendem e como que a inserem na estrutura


do «se».
H SZ, págs. 175-180.
HEIDEGGER E SARTRE 115

IV

A preocupação como ser do Dasein

1. As análises precedentes do estar-no-mundo fazem-


-no-lo apreender como uma estrutura originária e como um
todo. Verificámos, entretanto, que essa estrutura podia com
portar múltiplos aspectos. Vemo-nos, por isso, na necessidade
de saber como se deverá caracterizar, sob o ponto de vista
ontológico e enquanto totalidade indiferenciada,   a estrutura
concreta do Dasein. O problema, porém, não poderá ser
resolvido através de uma síntese dos resultados já obtidos.
O que até agora constituiu objecto da nossa análise foi o
modo de ser inautêntico do Dasein, te a questão do carácter
ontológico fundamental do Dasein nada tem que ver com
o ser da quotidianidade. Também não se pode pensar em
deduzir esse carácter ontológico a partir da simples noção de
homem, porque isso levar-nos-ia para o mundo da abstrac
ção — solução que desde início temos afastado. Como única
solução, e já que não é possível descobrir esse carácter no
próprio Dasein, resta-nos ir ao encontro de qualquer fenó
meno que nos revele o ser do Dasein naquilo que ele tem
de mais profundo e original e no-lo apresente sob uma forma
muito simplificada, pondo-o, por assim dizer, a descoberto.
Esse fenómeno, que nos revela a estrutura do Dasein,
apreendida na sua totalidade, é, como vamos ver, a angústia
(Angst).   A angústia exprime efectivamente o sentimento mais
profundo do Dasein, aquele que é princípio e origem de todos
os outros (vontade, anseio, desejo, inclinação, impulso), mas
que se mantém normalmente velado ou latente sob a forma
de cuidado e preocupação (S5).

H SZ, págs. 180-184.


116 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Partiremos da análise concreta do desprendimento (5G).


Este apresentou-se-nos como  fuga do Dasein perante si
mesmo, enquanto capacidade de ser si-mesmo (Selbst).   Como
explicar essa fuga? Mais atrás estudámos o fenómeno do
medo e vimos que ele se caracterizava por uma acção de recuo
diante do objecto ameaçador, Poder-se-â equiparar a fuga
do Dasein perante ele mesmo a iesse recuo que caracteriza
o medo? É de supor que não, porque o medo refere-se sempre
a um objecto bem definido, a este ou àquele. A angústia, pelo
contrário, nunca é determinada por um objecto definido:
supõe, é certo, uma ameaça, mas que não se encontra em
parte nenhuma. Este «em parte nenhuma» não quer dizer
nada;  indica unicamente a exclusão de qualquer determinação.
Na realidade, o mundo, directamente como tal, é que é a coisa
 perante a qual o Dasein se sente angustiado.
Não quer isto dizer, todavia, que, para a angústia, a
mundanidade do mundo tome a forma de realidade amea
çadora. Esta mundanidade está simplesmente implicada na
indeterminação da ameaça, diante da qual treme o Dasein,
e naquela ausência de interesse com que são encarados todos
os objectos do mundo: o mundo que circunda o Dasein encon
tra-se sossobrado.  Eis o mo'tivo por que a angústia reduz o
Dasein ao seu próprio estar-no-mundo; ela isola-o pierante
si mesmo e  faz-lhe sentir intensamente esse isolamento: é o
«solipsismo existencial», que corresponde à forma funda
mental do sentimento da situação originária.
E este estado é de tal natureza que o tagairelar quoti
diano daqui em diante perde, por completo, qualquer interesse.
Desaparecem todos os apoios da quotidianidade, reina a
solidão e o Dasein experimenta um confuso e espesso senti
mento de profunda estranheza e de total insegurança perante
um mundo que não lhe permite estar «em-si», ou seja, o

(*) SZ, págs. 184-191.


HEIDEGGER E SARTRE 117
mundo da quotidianidade. Excluído desse mundo circunvizi
nho, no qual a sua condição fundamental se encontrava velada
por uma segurança factícia, sente que o seu ser se vê como
que constrangido a usar da liberdade   para se escolher a si
mesmo; sente-se, inelutàvelmente, responsável de si mesmo.
Poucos sentem a angústia (57). Mas 'é isso mesmo,
desde que se tenha em conta que o «se» intervém constante
mente com o fim de a suprimir, que constitui a prova evidente
do seu carácter de dado fundamental. Ror si, ela tende a
levantar o Dasein do seu descaimento e a obrigá-lo a escolher
entre a existência autêntica e a existência inautêntica (58).

2. Estabelecemos que a angústia é o sentimento funda


mental do ser-no-mundo, que ela própria surge do facto de
o Dasein se sentir «já-arremessado-aí» e de se ver constran
gido a ter de optar entre duas formas opostas de existência.
Ora, estas determinações ontológicas não constituem elemen-

(67) SZ, pág. 190. — Heidegger acrescenta que muitas vezes a


angústia tem sido mal compreendida até por aqueles que a descreveram
como fenómeno específico. Santo Agostinho e Lutero relacionam-na com
o pecado, fazendo-a, assim, revestir apenas o carácter acidental de fenó
meno puramente psicológico que desaparece com o perdão do pecador.
Kierkegaard, embora tendo ido mais longe na análise da angústia, não sai
também do plano psicológico, quando o problema é ontológico  e afecta
a própria estrutura do ser.
(“ ) Cf. W M , onde Heidegger retoma a análise da angústia sob
outro aspecto, que é, aliás, complementar daquele que é encarado no SZ,
Heidegger parte da ideia do nada,  tal como ele se revela na angústia. Este
nada é um nada  que possui, entretanto, uma certa posifividade. Na angús
tia, e por ela, temos desse nada a experiência fundamental (pág. 29). Como
vimos, esta experiência corresponde a uma ameaça cuja origem é absolu
tamente impossível determinar. Produz um «resvalameinto» da totalidade
do existente e ao mesmo tempo comunica-nos a sensação de que resvala
mos nós mesmos com ele: o nada desoobre-se-nos, assim, bruscamente
(págs. 3C-32). — Ora, que é que este nada afectará? Claro está
118 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

tos de um todo, ao qual um ou outro elemento pudesse fazer


falta: entrelaçam-se organicamente numa estrutura original
que nos deverá revelar a totalidade indiferenciada do Dasein,
a sua natureza ontológica. Precisamos, portanto, de caracte
rizar a unidade dessa estrutura. Fá-lo-emos dizendo que o ser
do Dasein é cuidado ou preocupação (Sorge)  e comporta, como
tal, estes três elementos: o ser-para-diante (Das-sich-vorweg-
■sein)  ou existência, o estar-já-no-mundo (Das-sich-vorweg-
~schon~sein)  ou facticidade (Faktizität) o estar-arremessado-
-aí (Das-sein-bei)   ou descaimento (Verfallen)   (59).
Efectivamente, o ser do Dasein aparece como estando
sempre adiante de si mesmo,  considerado não em relação a
outros existentes, mas como  poder-set (Sein-können ),  isto é,
responsável do ser que é como ser-já-projectado-em-um-
-mundo. O existir é um facto primitivo: quando, sobre ele,
me interrogo, é porque já existo, com tudo o que a existência
implica para mim de necessidade de me projectar para diante

que o existente não é aniquilado  pela angústia. O que é aniquilado, o que


desliza para o nada, é a inteligibilidade do ser, a ordem e a estrutura das
coisas , o seu  sentido e valor.   Tudo parece desconjuntasse num caos sem
nome. Não se deve, entretanto, supor que se trata aqui de um acto positivo
de aniquilamento nem de uma aparição do nada: o nada aniquila-se a si 
 própri o  (pág. 34). Daqui mesmo surge a manifestação originária do exis
tente em bruto  e a prova de que há  um existente — e não nada. O «não
nada» nada explica, mas acentua a pura alteridade da existência bruta,
que não é nem isto nem aquilo, nada de ser que não é absolutamente
nada, que é absurdo inominável, estranho e repugnante até à náusea.
Devemos, entretanto, acrescentar que esta experiência do nada do ser e
do valor só se toma possível em virtude de o Dasein ser princípio e ori
gem do ser e do valor. Ela é, como tal, condição primeira do espanto  (que
é manifestação do nada) e por ela o homem é levado a formular objecções
e a procurar razões ou fundamentos, e, mais rigorosamente ainda, a cons-
tituir-se a si próprio em objecção. Ultrapassa assim a questão fundamen
tal da metafísica: antes do nada há o existente? (págs. 42-44).
H SZ , págs. 249-250.
HEIDEGGER E SARTRE 119
de mim mesmo, isto é, de ser «preocupação de».  A preo
cupação não corresponde, portanto, como antecipação de si,
a um comportamento particular  e contingente do Dasein
em relação a ele próprio: define, na sua unidade fundamen
tal, todas as determinações do ser.   Eu não tenho cuidado e
preocupação, ou, se tenho cuidado e preocupação, se quero
— desejo; se me sinto inclinado e impulsionado é o título de
consequência: eu sou   cuidado e preocupação ao mesmo tempo
que sou (60).

3. Encontramo-nos agora aptos a poder apresentar uma


solução para o  problema da verdade.   A filosofia correlacionou
sempre a verdade com o ser, fazendo, consequentemente,
coincidir o problema da verdade com o problema fundamental
da ontologia. Sendo certo que a história da noção da ver
dade só poderá ser escrita à luz da história da ontologia, é,
por sua vez, evidente que a ideia de verdade implica por si
uma concepção sobre a estrutura do ser, não podendo expli
citar-se através de uma simples análise do sujeito como tal,
porquanto a verdade diz sempre respeito a um objecto, não
só distinto do sujeito como ainda oposto a ele. As duas
asserções fundamentais sobre este tema devemo-las a Aristó
teles, embora as encontremos também em Kant. São elas:
o «lugar» próprio da verdade é o juízo; a essência da verdade
encontra-se no «acordo» do juízo com o seu objecto. Tome
mos, portanto, estas duas asserções e procuremos analisar
o seu valor em função da ontologia existencial.
Observemos, em primeiro lugar, que o acordo do juízo
com o objecto implica que a coisa seja apresentada ao conhe-

Tf60) SZ, págs. 180-196. — O aubor traduz a palavra  Sorge por


 Souci,  anotando que o termo não significa apenas cuidado acompanhado
de inquietação,  mas traduz também o facto de «prendre soin», de «se sou
cier». — N. do T.
120 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

cimento tal qual é.  O acordo pressupõe, portanto, uma relação


do género «tal qual». O que interessa agora saber é como
será possível estabelecer essa   relação entre o intellectus
e a res,  isto é, entre o ser ideaí que é concebido e o ser real
na sua realidade ontológica. Entretanto, o problema não se
pode põr assim porque, formulado desta maneira, irá implicar
a obrigação de estabelecer uma comparação e de operar a
passagem ou transpor mesmo o abismo que separa o objecto
concebido do objecto real, como se o real pudesse ser apreen
dido sem o recurso ao conceito (ei).  A verdade aparece-nos
como uma descoberta (Ent-deckung) do real existente , tal
como ele é em si mesmo.   O objecto mostra-se e manifesta-se
tal qual é. A verdade consiste precisamente nesta manifes
tação do objecto no seu ser.  De forma alguma tem, portanto,
a feição de um acordo entre o conhecer e o objecto, pelo
menos no sentido em que esse acordo se possa tomar como
adaptação do sujeito ao objecto. A sua estrutura ontológica
corresponde à maneira de ser que procura des-cobrir o próprio
existente real (62).
O juízo só é, portanto, possível desde quie se admita
como primeira condição que o objecto existente  já   é acessível,
o que implica, esclarece ainda Hieidegger (63), uma mani-
festabilidade ancepredicativa (ou verdade ôntica)   do existente.
Mas isto mesmo só poderá ser ontològicamente concebível

(**) Esta crítica não visa o ponto de vista aristotélico, segundo o


qual o objecto real está ontològicamente presente no sentido. A compa
ração, exigida pelo «acordo» que define a verdade lógica, é, neste caso,
estabelecida entre o conceito ou ideia e a imagem, que é a expressão do
próprio real.
(") Corresponde, segundo Heidegger, àquilo que os Gregos^ ante
viram ao designarem o fenômeno original da verdade como à-Xr)0sta, isto
é, como o facto de «não estar escondido». A verdade do Logos é, por
tanto, para e!es uma cncocpavaiç, isto é, uma des-coberta, uma re-velação.
(«) W gr , pág. 55.
»
HEIDEGGER E SARTRE 121

tendo em conta a noção de esfcar-no-mundo, uma vez que a


verdade supõe, por um lado, que o Dasein está apito a des
cobrir e, por outro lado, que o real existente é susceptível
de ser descoberto. Não estamos em presença de simples
definições nominais, mas de dados certos da análise ontoló
gica: o acto de des-cobrir é um modo de ser do ser-no-
-mundo (64).
É este mesmo modo de ser que exprime fundamentalmente
a verdade da existência.   Com efeito, dele resulta a inteligibili
dade e o sentido do existente intramundano, e o Dasein não
poderá apreender a sua verdade senão através de aquilo a
que poderemos chamar o choque contra os objectos que ele
vai organizando à medida que os descobre. Embora haja
necessàriamente uma espécie de igualdade entre a verdade
das coisas e a verdade do Dasein,   o que agora está em
causa é, num e noutro caso, a mesma e «única» verdade. Não
há ser — não dizemos existente  — se não houver verdade, e
só há verdade quando e enquanto houver um Dasein: a ver
dade, seja ela qual for, é sempre relativa ao Dasein   (S5).
É certo que o Dasein também se pode estabelecer na

(M) Heidegger diz (SZ, pág. 220) que a verdade corresponde exclu
sivamente a essa acção des-cobridora do Dasein, para além da qual nada
mais há que a possa ex;plicar. Desta forma, Heidegger recusa-se formal
mente a correlacionar a verdade com Deus, como seu primeiro funda
mento e sua origem primeira. Para ele, não há «verdade ontológica», no
sentido escolástico de que a inteligibilidade é essencial ao ser (cf. o nosso
trabalho L'intuition intellectuelle et le problème de la métaphysique,   Paris,
Beauchesne, págs. 69-80) : a verdade é constituída pura e simplesmente
pelo acto de des-cobrir, que arrebata o real existente (o existente em
bruto) à noite que o envolve e na qual se encontra mergulhado. 6 o
homem que, pela acção des-cobridora, cria a inteligibilidade que os exis
tentes em bruto não possuem de forma alguma em si mesmos.
(“ ) Heidegger afirma (SZ, pág. 227) que a questão das «verdades
eternas» só poderá ser resolvida mediante a prova de que existe e existirá
um Dasein por toda a eternidade. Enquanto essa prova não aparecer» as
122 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

«não-verdade», como resultado do descaimento ou da queda:


o existente manifesta-se ao Dasein, mas sob o modo da apa
rência. Tudo o quç anteriormente havia sido des-coberto
mergulha de novo na noite: o Dasein escolheu a vida inau
têntica (60).

«verdades eternas» não passam de afirmação fantástica e o facto de mui


tos filósofos nelas terem «acreditado» não as legitima de forma alguma.
(80) SZ, pág. 226. — Heidegger retomou a questão da verdade em
a Essência da Verdade (Vom W esen der Wahrheit),   estudo publicado
em 1943 (Vittorio Klostermann Verlag, Francfort-sur-le-Mein, in-8.° de
32 págs.), que reproduz uma conferência repetida várias vezes por
Heidegger, entre 1930 e 1932. A doutrina de  Sein und Zeit é  profun
damente alterada neste 'novo trabalho (e, possivelmente, nele se con
substancia também o motivo que levou Heidegger a desistir de publicar
a segunda parte daquela obra). É difícil resumir em poucas palavras
a nova posição de Heidegger. Partindo da noção da verdade como
identidade entre a re-velação e o re-velado, Heidegger deduz que a essên
cia da verdade é a liberdade,   porquanto a liberdade consiste no acto de
«deixar-ser» o existente por meio da re-velação. Todavia, acresceinta ele,
esta re-velação é sempre necessàriamente acompanhada de um velamento
(ou de uma dissimulação): o ser do Dasein é ainda mais dissimulante e
velador do que des-cobridor e re-velador. Com efeito, a re-velação dos
elementos singulares, com os quais o Dasein está relacionado, dissimula
simultaneamente o existente como totalidade,  razão por que a re-velação
é ao mesmo tempo dissimulação:   origina a errância (Irre).  O Dasein é,
portanto, simultâneamente clarividência e ilusão, verdade e não-verdade;
a sua essência é confusão e mistério.  A não-verdade irrompe da própria
essência da verdade. O   pior é que essa dissimulação se dissimula a si 
 própri a: o  mistério do Dasein envenena até as próprias origens da «ver
dade». Desta forma, o homem histórico move-se nas trevas que o assediam
por todos os lados.
Só através da filosofia é que o homem se poderá libertar da errân-
cia.  Como? Das trevas em que mergulha ele terá de levantar os olhos
para o mistério do Dasein no qual encontrará explicação para aquelas
mesmas trevas. Conseguiremos assim libertar-nos da errância através da
filosofia que no-la revela na sua «verdade» (isto é, na sua necessidade).
Entretanto, dever-se-á perguntar: sendo o Dasein um «ser dissimulante»,
na sua qualidade de re-velador, mistério e mistério insondável, abismo
*
HEIDEGGER E SARTRE 123
Não havendo verdade, acrescenta Heidegger, senão na
medida em que o Dasein é, e só enquanto é, uma vez que qual
quer verdade é sempre relativa ao seír do Dasein, não se segue
daqui que qualquer verdade tenha de ser sempre «subjectiva»,
pelo menos no sentido em que esta palavra significa poder
arbitrário do sujeito.  A verdade como revelação é um modo
de ser do Dasein   e, como tal, escapa aos caprichos deste,
porque resulta de uma estrutura que é universalmente
característica do Da.sein. Há, portanto, uma «verdade uni
versal» ou, mais exactamente, um «valor universal» para a
verdade. Nenhum cepticismo, por consequência, é de admitir
ou de justificar. Há necessàriamente uma verdade, por
que, existindo nós sob o modo de ser do Dasein, já estamos
na verdade. Quando «supomos» que há uma verdade, é
porque o Dasein, ao mesmo tempo que é,  já   está convencido
da sua capacidade de conhecer a verdade — e conhecê-la,
 para ele, é torná-la existente:   ele, de certo modo, segrega-a
naturalmente. Assim, como não se podem admitir «verdades
eternas», também não se pode conceber que exista um céptico
real, de carne e osso (67).

de confusão e de ilusão, como é que ainda será possível atribuir qualquer


sentido à «verdade do Dasein»? A verdade já não é senão o erro e o
erro passa a ser a verdade, uma vez que a re-velação é dissimulação e
que a dissimulação é re-velação (porquanto dissimula a dissimulação).
Heidegger parece conformar-se com estas consequências; para ele, a última
sabedoria do homem consiste na aceitação da ilusão,  isto é, no reconhe
cimento daquilo que é, ou seja, no reconhecimento da impossibilidade
que inibe o homem de des-cobrir essa verdade, em cujo encalço ele se
lança, no entanto, porfiada e afanosamente. (Durante a revisão das provas
tipográficas desta obra, recebemos a tradução francesa que A. de W ae-
lhens e W . Biemel acabam de publicar {Louvain Nauwelaerts, 1948) de
Vom Wesen der Wahrheií,  precedida de uma Introdução que muito ajuda
a compreender este tema extremamente difícil).
(0I) SZ, págs. 200-230, O cepticismo é, sem dúvida, mais para
temer do que supõe Heidegger. Neste neo-kantismo em que o Dasein. pr&-
124 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Ser-para-a-morte

1. Já estudámos a esitrutura fundamental do ser-no-


-mundo, cuja totalidade indiferenciada se revela como preo
cupação: o Dasein é um poder-ser peto qual se torna, no seu
ser, em problema do seu mesmo ser.  O que precisamos agora
de definir é o ser em geral. A análise existencial do Dasein, tal
como a temos seguido, não é susceptível de nos fornecer uma
interpretação ontológica do que no ser há de original e de
primeiro, porque ela não nos deixou entrever ainda a unidade
da estrutura total do existente. É, portanto, esta unidade da
totalidade que precisamos agora de conhecer. A ela chega
remos pela noção da morte (es).
A análise do Dasein como preocupação mostrou-nos que
o Dasein é perpétuo inacabamento. Como  podemos, portanto,
esperar apreendê-lo na sua totalidade, se esta jamais se
encontra realizada? É certo que a morte pode ser considerada
um acabamento: ontològicamente, é a possibilidade do Dasein,

jectando a luz que é ele mesmo (es  selbst die Lichíung ist,  SZ, pág. 133),
cria a inteligibilidade e q ser das coisas (isto é, dos existentes em bruto
ou em-si), onde estará a prova ou o fundamento que possa justificar o
valor universal atribuído à verdade? Heidegger apela para a estrutura
universal do Dasein. Mas o círculo vicioso é notório: esta estrutura do
Dasein não é, em si mesma, senão uma descoberta do Dasein, isto é, foi
transformada por ele em verdade universal. Ora, é exactamente esta ver
dade que está em questão! — Por outro lado, admitir que o Dasein segrega
a «verdade» como o fígado segrega a bílis, é ir directamente ao encontro
do cepticismo, cuja asserção fundamental se pode traduzir na fórmula de
Protágoras: «o verdadeiro» é apenas o resultado de uma fatalidade psico
lógica e só traduz, de facto, exigências puramente subjectivas.
P ) SZ, págs. 231-235.
HEIDEGGER E SARTRE 125
na qual a totalidade do ser do Dasein se encontra em jogo.
Este acabamento, porém, é ao mesmo tempo a sua ruína e o
seu fim: o Dasein não pode ser de forma alguma, como
existente, objecto de experiência (89). «—Mas nós observamos
a morte dos outros... Esta observação, todavia,, só se pode
fazer de fora e nada nos elucida sobre o que a morte é para
o moribundo. Aliás, ainda mesmo que pudéssemos «experi
mentar» ou «padecer» a morte de outrem, nada adiantaríamos,
porque isso não seria penetrar o sentido ontológico da minha
própria morte. Não é possível, nesltc caso, apelar para a
comutabilidade dos Dasein, porque essa comutabilidade rea
liza-se sob o modo do «se» e da quotidianidade: na morte,
a comutabilidade cessa absolutamente, porque ninguém pode
assumir a morte de outrem. Na quotidianidade, eu sòu todos-
-os-outros; mas, na morte, eu já não sou senão eu. Morre-«se»
sozinho, dizia Pascal: a morte, na medida em que é morte, é
essencialmente e exclusivamente minha (70).
Deveremos, portanto, desistir de apreender a essência
do fenómeno da morte? ■— Retomemos a análise da noção
dg acabamento e de inacabamento, na sua relação com a
noção de totalidade. Que significa o acabamento do Dasein?
Poder-se-á definir como um «não ainda», uma dilação, uma
delonga: o Dasein «ainda não» é o que será, e esta estru
tura caracteriza-o durante todo o tempo em que ele é. Atingir
o seu fim é para o «não ainda» cessar de existir como Dasein.
Assim, o inacabamento do Dasein não pode de forma alguma
comparar-se à falta de acabamento de certas coisas ape

C ) SZ, pág. 236.


(,0)' SZ, págs. 237-241. A. de Waelhens (loc. cit., pág. 138, n. 3)
observa com razão que, nestas afirmações, há um grave equivoco. Hei
degger não distingue «o morrer» fenómeno existencial (acontecimento
individual concreto) da morte, fim de toda a existência. O fibtico e o
ontológico são confundidos uma vez mais.
126 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

nas incompletas por não terem reunido todos os elementos


que as integram e que, sob qualquer forma, já existem.
De facto, as coisas nunca são «incompletas»: são sempre
completas tais como são e a nossa percepção é que, por
referência a um modelo ou a uma essência, as faz ou não
«incompletas». O crescente da lua é, cm si mesmo, uma coisa
acabada: sou eu que o concebo como progressão para a lua
cheia. A água, quando se aquece, é, em qualquer momento,
com a temperatura que acusa, uma coisa acabada e perfeita
mente determinada: mas eu, desejando água a ferver, consi
dero-a como água «incompletamente» quente. Com o Dasein,
nada disto acontece: o seu inacabamento é realmente consti
tutivo: o «não ser ainda» é para ele maneira de ser essencial.
O Dasein é uma fuga perpétua em direcção às suas possibili
dades : corre atrás de um possível que não é outra coisa senão
ele próprio e que, como tal, está necessariamente fora do seu
alcance. O Dasein é, por essência, o ser que jamais poderá
alcançar-se.
A totalidade do Dasein poder-se-á comparar à matu
ridade do fruto? Aqui, a comparação também não será per
tinente. O fruto é. de facto, um acabamento, mas a título
de perfeição adquirida, enquanlto que o acabamento do Dasein
nada tem que ver com a perfeição: é um desmoronamento ,
ou seja, o esgotamento das suas possibilidades específicas.
Morremos imperfeitos assim como morremos sozinhos.
Será. por último, possível compreender a morte como
cessação do Dasein? Diz-se que a chuva «cessa» quando
deixa de cair, que o caminho «cessa» quando já não existe
como tal, que o pão chegou «ao fim» quando se encontra
consumido, que a pintura está «concluídta» quando a parede
está pronta. Ora, nenhuma destas acepções convém à morte
do Dasein: morto, o Dasein não fica nem acabado no sen
tido de perfeito, nem simplesmente desaparecido, nem tornado
pronto. Na realidade, como «não ainda» essencial, o Dasein,,
HEIDEGGER E SARTRE 127
desde que é,  já   é o seu fim. O seu ser é um set-para-o~fim
(Sein-zum~Ende). Desde que o homem nasce já é suficiente
mente velho para morrer. A morte não é, portanto, uma
«cessação». O Dasein não cessa de existir por efeito de um
acontecimento ou acidente exterior: a morte é para ele uma
maneira de ser que o afecta enquanto existe (71).
A morte é uma possibilidade que o próprio Dasein
assumiu para definir, através da forma mais pessoal, o seu
poder-ser. Os homens, geralmente, exímem-se à angústia da
morte. Uns encaram-na como simples verdade estatística ou
certeza experimental. Neste caso, fica indecisa a minha sorte
pessoal. Outros reduzem a certeza da morte à certeza de que
«se morre», como se a morte atingisse apenas o «se», que não
é ninguém.  A morte corresponde, para o tagarelar quotidiano,
a um caso acidental e desagradável.  Há sempre a preocupação
de dissimular aquele ser-para-a-morte que nós somos: con
solam-se os moribundos escondendo-lhes a iminência da morte
(quem consola é que, de facto, se esforça por se animar a
si mesmo). O «se» foge diante da morte: afasta o pensa
mento da morte como debilitante; não item a coragem necessá
ria para afrontar a angústia que ela envolve (T2).
Esta angústia, porém, nunca poderá deprimir o homem
se ele se colocar, de verdade, em presença da morte, enca
rando-a como a sua possibilidade mais pessoal e menos
mutável. Esta possibilidade, de facto, não é outra coisa senão
a possível impossibilidade da existência em geral.   Não se
trata de uma certeza empírica, como a contida na afirmação:
é certo que «a» morte há-de-vir. Trata-se, sim, de uma
necessidade metafísica  que é, quanto ao Dasein, a mais pessoal
e, ao mesmo tempo, a mais geral: necessidade de uma não-

H SZ, págs. 241-246.


H SZ, págs. 252-255. * 
128 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

-necessidade da existência, contingência absoluta de toda a


existência humana. O homem é, essencialmente e constitucio
nalmente, um ser-para~a~morte (Sein-zum-Tode).   O homem
só existe para morrer. Enquanto não compreender isto, o
Dasein não se compreende a si mesmo. A interpretação
existencial da realidade humana como ser-para-a-morte é a
única que permite ao Dasein conformar-se com a existência
autêntica e, por consequência, com a ipsidade da existência
pessoal, uma vez que a morte se apresenta sempre e necessà-
riamente como sendo a minha  morte (73). O que, portanto, me
individualiza em mais alto grau é a angústia que provém
da morte e do nada (7i).
Deste modo, a angústia é a forma própria da autenti
cidade. É a revelação do nosso ser, dando sentido a todas
as nossas possibilidades e à totalidade do Dasein, e esta não
é mais do que a absoluta inclusão de todo o nosso poder-ser
na possibilidade fundamental da moríe (75).

(" ) SZ, págs. 239, 240, 250, 263.


(” ) J. P. Sartre (L'être et le néartt,  págs. 617-619) não hesita em
classificar esta argumentação de Heidegger tuna escamoteação. Heidegger,
escreve Sartre, «começa por individualizar a morte de cada um de nós
dizendo que ela é a morte de uma  pessoa,  de um indivíduo», não podendo,
portanto, outro assumi-la por mim; e, a seguir e como consequência, «uti
liza essa individualidade incomparável, que ele confere ã morte a partir
do «Dasein», para individualizar o próprio «Dasein»; é arremessando-se
livremente para a sua última possibilidade que o «Dasein» se conformará
com a existência autêntica e se desprenderá da banalidade quotidiana para
atingir a unicidade insubstituível da pessoa». Trata-se de argumentação
circular.
(’*) SZ, págs. 255-260. — Interessa apenas sublinhar o equívoco
da fórmula «ser-para-a-morte». A palavra «para» pode ser tomada em dois
sentidos completamente diferentes consoante designa termo ou  finali dade.
O homem é «para a morte» no sentido em que a morte é o termo neces
sário da existência humana; mas não se segue que ele seja  para  a morte
no sentido de a existência humana não ter outra  finali dade  que não seja
HEIDEGGER E SARTRE 129
2. A maior parte das vezes, o ser-para-a-morte corres
ponde para o Dasein a um simples dado empírico: o Dasein
não se reconhece no seu ser como sendo  propriamente  para
a morte. Vimos, efectivamente, que a quotidianidade é uma
espécie de fuga diante da morte. A autenticidade exigirá,
pois, que o Dasein se possa manter e conduzir como sendo
 propriamente   um ser-para-a-morte. Quais serão as condições
existenciais dest3 possibilidade? Observemos em primeiro
lugar que a possibilidade tem, aqui, um sentido completamente
especial e, na verdade, único. Na ordem dos objectos intra-
mundanos, realizar um possível é aniquilar a sua possibili
dade, mas também é criar novas possibilidades: a  possibilidade,
como tal, subsiste a todas as realizações. A morte, ao con
trário, nada realiza: ela é estritamente a possibilidade da
impossibilidade de qualquer nova realização. A aceitação da
morte equivalerá à espera   da morte, visito que corresponde a
uma possibilidade constitutiva e permanente do ser-para-a-
-morte. O suicídio não poderá ser, efectivamente, senão uma
outra forma de fuga diante da morte.  A existência autêntica
está sempre colocada diante da morte, admitindo-a como
 próxima, e,  pottanto, encontra-se em condições de poder 
compreender, em cada momento, a vaidade absoluta de qual
quer realização e o nada de tudo o que pode ser tomado como
real.  Pouco a pouco, a contingência fundamental da nossa
ou de qualquer outra existência torna-se «maior», isto é,

a morte. O homem é-para-morret,   já que morrer é uma lei inelutável da


condição humana: mas também não-é-para-morrer, porque a morte nio
constitui a razão de ser da existência humana. Ou então, servindo-nos de
outras palavras dentro de linguagem mais heideggeriana: a morte nâo
corresponde ao sentido absoluto e definitivo da existência. Digamos, pelo
menos, que não se pode passar tão inadvertidamente, como o faz Heideg-
ger, do primeiro para o segundo sentido, ou seja, do plano do facto
o plano do direito.
130 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

descobre-se como não suportando absolutamente qualquer


limite, como não admitindo «mais ou menos», significando
a possibilidade infinita da impossibilidade da existência. Con
sequentemente, o Dasein consente na morte como a suprema
e mais pessoal possibilidade do seu próprio existir, possibi
lidade inelutável e sem apelo. Torna-se livre diante dela, ao
sentir o nada de todo o ser (70).
Livre para as suas próprias possibilidades, compreendi
das como estão na possibilidade fundamental do ser-para-
-a-morte, o Dasein não corre o perigo de se deixar influenciar
pela maneira como os outros compreendem a existência, nem,
por sua vez, pretende constrangê-los a adoptar a sua própria
maneira de ver.  Admite que os outros sejam o que quiserem
ser.  Se é certo que o sentido autêntico da morte isola, tam
bém é certo que a existência em comum é essencial ao Dasein
e funda-se na possibilidade deixada a cada um de fazer do

(") J.-P. Sartre critica àsperamente (Uêtre et le néant,  págs. 615-


-638) estes pontos de vista de Heidegger. Não pode conceber que a
realidade-humana possa ser definida como um ser-para-a-morte. É-me
ahsolutamente impossível, diz, esperar a morte, como minha  morte.
A morte pertence evidentemente à condição humana; mas a minha  morte
não está nem pode estar dentro das minhas possibilidades. Não pode fazer
parte da estrutura ontológica do «por-si». Ela mostra-nos o facto total
mente contingente da existência do outro e do mundo, porque sem o
outro, ela seria a desaparição simultânea do «por-si» e do mundo, do
subjectivo e do objectivo: ela não pode ser queda fora do mundo senão
porque o outro é causa de que haja ainda um mundo.  A morte é, por
tanto, vun puro {acto, radicalmente contingente e absurdo, que eu não
 posso esperar  e que me vem de {ora, por   acaso, exactamente como o nas
cimento, constituindo com este o dado puro e simples  a que chamamos
 facti cidade.  — Esta crítica de Sartre é decisiva. O ser-para-a-morte corres
ponde a uma impossibilidade metafísica, porque a morte, como atrás refe
rimos, não constitui de forma alguma um fim ou uma finalidade. Mas
isto nâo significa que estejamos de acordo com Sartre. Não é agora oca
sião de discutir o seu ponto de vista. A ele havemos de voltar.
HEIDEGGER E SARTRE 13!
seu poder-ser aquilo que entender. Tal é a liberdade diante
da morte, fundamentalmente manifestada pela angústia (77).

3. Tudo o que acabamos de dizer relativamente ao ser


total do Dasein assenta no terreno fenomenológico. Sabemos
que o ser-para-a-morte é existencialmente   possível. Resta-nos
saber se corresponde também a uma exigência do Dasein,
quando este se encontra plenamente consciente de si. Para
isso, precisamos de um testemunho.  Só mediante um teste
munho é que poderemos saber se o Dasein, em virtude de
uma conexão essencial com o seu poder-ser fundamental, se
arremessa, ou não, no ser-para-a-morte (78).
Precisamos, portanto, de conseguir o testemunho de uma
existência autêntica, isto é, de uma existência que se iretomou
ou reconquistou, arrancada à empresa primeira do «se».
O senso comum diz que é à consciência moral   que se deve
pedir esse testemunho. A voz da consciência   é, com efeito, a
expressão do que há de original no Dasein. INão é facto
acidental; «existe» segundo o modo de ser do Dasein e cons
titui com ele um único todo.
Ora a consciência apresenta-se como apelo (Rof) do
Dasein ao seu mais pessoal poder-ser e à sua própria respon
sabilidade. Poderá haver quem interprete a voz da consdênda

(” ) SZ, págs. 260-267. — Heidegger não põe a questão de um


para-além da morte. É certo que, 30b o ponto de vista da análise do ser-
-no-mundo, a questão não deverá ser posta. No entanto, a análise feno-
menológica deve certamente dar conta desta espécie de exigência de imor
talidade que, em determinado sentido, também parece ser constitutiva da
realidade humana. Todavia, Heidegger vê nisso apenas uma outra maneira
de «fuga diante da morte».
(™) A. de Waelhens (loc. cit., págs. 150-151) frisa que este «tes
temunho» não pode ser tomado senão como complemento da teoria que
o precede, como a teoria, em si, não pode ser senão uma interpretação
dos factos.
132 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

como sendo outra forma do imperialismo do «se». Entretanto


esta interpretação não é de admitir porque o apelo da cons
ciência, contrariando, por vezes, inteiramente as sugestões do
«se», chega a provocar uma ruptura brutal no estado de aten
ção e de submissão a esse mesmo «se». A quotidianidade
desmorona-se perante a voz desse apelo, que vem de longe e
ressoa ao longe.
Quem é aqui o interpelado? Evidentemente que é o pró
prio Dasein e o apelo ê dirigido, através do «eu-se», ao próprio
si do Dasein.   O «se», atravessado por este apélo, deixa de ter
sentido — pelo menos, quando o interpelado escuta o apelo
como deve ser e o interpreta fora dos moldes do tagarelar
quotidiano.
Mas, então, quem faz o apelo? Eis o que, sobre
modo, interessa saber para podermos interpretar fielmente
o fenómeno da consciência. Nós dizemos que a consciência
faz apelo ao «si» do Dasein, para além do «se» do descai
mento. Mas, como tal, fica indeterminada. Não diz nem o
seu nome, nem a sua posição, nem a sua origem; não mostra
o seu rosto. Opõe-se a que o seu clamor tenha uma inter
pretação «mundana»; não quer ser outra coisa senão esse
mesmo apelo. Quem é portanto que dirige o apelo? — Só pode
ser o próprio Dasein.
Mas, então, o Dasein interpelado vem a ser a mesma
coisa que o Dasein interpelante? Claro está que o Dasein
não se interpela deliberadamente a si mesmo. O grito de apelo
sai-lhe contra a sua expectativa e até contra a sua vontade.
Mas esse grito não provém de outro — de um outro qualquer
situado no mundo. Ele retine no  fundo de mim  e também  por 
cima de mim (79). Isto é o que , na realidade, se passa, quer

(™) Reconhece-se aqui o tema agostiniano: «Deus intimlor intimo


meo et superior summo meo». Heidegger repele, todavia, o recurso a Deus,
como «apelante», ao afirmar que o apelo, a vir de Deus, seria puramente
HEIDEGGER E SARTRE 133

se considere esse grito como a voz de Deus guer como a


expressão de uma força estranha (da sociedade ou das potên
cias biológicas da raça e do sangue). Estes recursos, porém,
são inteiramente inoperantes: não conseguem explicar a razão
por que o apelo é simultaneamente  meu e estranho a mim.
Admitimos que o apelante é o próprio Dasein, um Dasein
que nada permite identificar como realidade mundana, mas
que se revela na angústia da sua condição original de ser-
-arremessado-no-nada~do-mundo. A sua voz parecerá, ao
«eu-se» da existência quotidiana, como vinda de muito longe,
de terra estrangeira, embora ela saia do próprio Dasein que
é quem apela, como consciência, do fundo do seu ser. Este
 grito da angústia chama a si o Dasein e leva-o a encarar as
suas autênticas possibilidades.   Ao mesmo tempo, a consciência
revela-se como o  grito da preocupação: o   apedante é o Dasein
que, abandonado, se angustia ao ver-se devolvido ao sen
tido da sua condição original; o apelado ié o Dasein, solicitadio
a levantar-se do seu descaimento no «se». Perante o Dasein,
equaciona-se, portanto, a escolha entre a autenticidade e a
inauteniicidade; e a possibilidade desta alternativa radica-se
na estrutura fundamental do Dasein, que é preocupação (80).

4, Interpelado, o Dasein djeve responder, isto é, deve


escolher. De outro modo, o apelo deixaria de ter sentido.
Ora a voz da consciência começa por nos falar de culpa   e de
culpabilidade (Schuld).   Que quererá isto dizer? Ser culpável
de qualquer coisa é ter contraído uma dívida para com alguém,
em virtude de danos que lhe causámos nos seus bens. Devo-lhe

exterior ao Dasein. No entanto, é aqui que se encontra a solução da que*«


tão! Se a consciência exprime uma ordem de direito, que vem de Deus
criador, o grito que ela lança não há dúvida que é  simultâneamente  dela
e para ela -- sem deixar de ser de Deus.
H SZ, págs. 267-280.
134 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

aquilo de que o privei injustamente. Sou responsável perante


ele dessa falta, ao mesmo (tempo que sou a sua causa.  Pre
cisamos, agora, de ir mais adiante, procurando definir o
sentimento de culpa, não já em função do seu objecto,  mas na
medida em que o ser-culpável deve ser compreendido como
modo de ser do Dasein.
Para tanto, a ideia de «culpável» deve ser reduzida ao
que ela possui de mais formal; deverá ser encarada em si,
sem relação com qualquer dever ou lei, para que o culpável
não possa sentir-se em falta por virtude da sua culpa. De
resto, é o que se passa com a existência, como se   viu: não
porque ela seja perfeita, mas porque não pertence à categoria
dos seres-coisas, aos quais qualquer coisa pode faltar. A cul
pabilidade implica negatividade, e,  por isso, convém esclarecer
a natureza existencial desta negatividade. Ela não pode ser
puramente objectiva e, portanto, não consiste apenas em
privar outrem de um objecto ao qual tem direito: se assim
fosse a negatividade estaria noutrem  e não no culpável.  Tor-
na-se necessário acabar com a terminologia habitual e dizer
que a minha culpabilidade não resulta de uma falta noutrem:
a falta noutrem é que resulta da minha culpabilidade e deve-se
unicamente ao facto de já se encontrar em mim a negativi
dade.
Que será, portanto, esta negatividade esjtrutural do
Dasein, princípio e fundamento do mal que ele pratica?
Fâcilmeníe o conseguiremos saber, desde que nos recordemos
que o Dasein é essencialmente preocupação, isto é,  abandono,
pro-jecção e descaimento. O existente conhece-se como lan-
çado-no-mundo e este carácter não se localiza atrás dele, como
resultado de um facto consumado, mas acompanha toda a
sua existência sob a forma de preocupação. Sob este aspecto,
o Dasein existe como poder-ser, com o encargo e a respon
sabilidade de escolher livremente as suas possibilidades.
Todavia, esta liberdade não é absoluta: por um lado, o Dasein
HEIDEGGER E SARTRE 135
não se deu a si mesmo o ser que ê; por outro lado, as possi
bilidades que se lhe abrem são limitadas: ele só realiza umas,
excluindo outras; escolher é renunciar. O Dasein nunca pode,
portanto, ser senhor absoluto da sua própria existência.
Além disso, a negatividade é para ele constitutiva:   em certo
sentido, ele é, no fundo de si mesmo, uma negatividade. E é
o duplo carácter de não ser por si mesmo, visito ser um ser-
-arremessado-ali, e de se sentir estruturalmente constrangido
a tornar-se este ou aquele ser, que define a angústia do Dasein,
não como correspondendo a um momento passageiro da sua
existência, mas como a sua própria essência. Por este motivo
o Dasein é culpável  e culpável enquanto existe e como nega
tividade que é.
Esta mesma negatividade tem, portanto, o seu princípio no
Dasein, uma vez que ele assume uma existência que a si se
não deu e que consente em existir sob o modo de um poder-
-ser, que é fundamentalmente imperfeito e finito. Responsável
da sua própria finitude e do seu nada, o Dasein é por isso
mesmo inteiramente •culpável  (81).

(8I) SZ, págs. 280-289. — Ter-se-á notado certamente como nesta


dialéctica acerca da culpabilidade e do pecado Heidegger se furta delibe
radamente a qualquer referência religiosa. São curiosas, a este respeito,
as considerações de A. de Waelhens {loc. cit., págs. 164-165). Por um
lado, diz, não se poderia pensar em abolir a culpabilidade pela conversão
a um novo género de vida: pelo contrário, ela é de tal forma essencial ao
Dasein que nenhuma conversão passageira é concebível e, menos ainda,
qualquer libertação ou redenção. A «redenção do homem», segundo este
contexto, só  poderia resultar de uma destruição  da natureza humana —
tese tipicamente luterana. Por outro lado, dificilmente se poderá conceber
que a culpabilidade, assim compreendida, ainda conserve qualquer signi
ficação moral.  Está integrada no corpo como sua propriedade natural:
não é um facto proveniente da vontade e da escolha. Heidegger afirma,
e repisa, que é o Dasein que assume a sua própria finitude. Mas, como
poderia ele deixar de a assumir? Encontramo-nos assim perante uma con
cepção que a consciência moral repele de forma absoluta: nSo há dúvidk
136 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

VI

A existência autêntica e a temporalidade

1. O conhecimento e o sentimento da culpabilidade


pessoal, experimentados e vividos num silêncio de angústia,
são a condição e a forma da «reso/ução>, que é o acesso à
vida autêntica, à verdade original  do Dasein. Esta « resolução»
(Entschlossenh^it)  é propriamente a projecção e a determi
nação (isto. pelo menos, na ordem das situações concretas
existenciais, porque, ontològicamente. a possibilidade do
Dasein mantém-se sempre indeterminada, aberta) das mais
pessoais possibilidades do Dasein, consideradas dentro da
perspectiva da culpabilidade original e do ser-para-a-morte,
irremediável e tctal.
Com isto. porém, nada se alterou no conteúdo do
mundo: as relações com os outros não se modificaram. O que
se modifica profundamente é o aspecto sob o qual o mundo
e os outros terão, de ora avante, de ser apreendidos. Estamos
perante uma nova descoberta do mundo, segundo a qual o
Dasein, permanecendo ser-no-mundo, passa a tolerar em
absoluto os outros, sentindo que não pode modificar-lhes a
consciência, e substitui as caprichosas e agitadas relações do
interesse por um verdadeiro ser-em-comum (82). É certo que
a existência resoluta não pods de forma alguma sepafar-se do
clima e do ambiente do «se». Não é possível abstrair da
«situação». que implica um sem-número de circunstâncias

que  a finátude é a condição primeira da  possi bilidade  do pecado; todavia,


ela não constitui o pecado, Este reside, não na finitude, nem na escolha
desta, que está fora do nosso akance, mas na livre escolha de uma acti
vidade má.
(■) SZ . págs. 296-298.
HEIDEGGER E SARTRE 137
(pessoas, lugares, profissão, negócios) sobre as quais o «se»
reina como pleno senhor. Mas ao Dasein resoluto compete
considerar  a situação sob o aspecto da vaidade absoluta e do
nada irremediável, que só ele, vivendo-a, será capaz de
apreender,  áo contrário do «se», para o qual tudo se reduz
a ocasiões e acasos, acontecimentos isolados que surgem do
fundo de uma «situação geral» que, provavelmente, aíé poderá
ser considerada como uma coisa.
Esta «resolução», que coloca tudo sob a perspectiva da
morte, está, entretanto, longe de poder ser tomada como puro
hábito. Corresponde a uma conquista permanente  e corres
ponde ainda, pelo próprio efeito das transformações inces
santes da situação e das insidiosas tentações que elas
originam, a uma vitória, que continuamente se renova, contra
os sempre novos e constantes aliciamentos da inautentici-
dade í83).

2. Já podemos agora compreender melhor o sentido da


preocupação como elemento constitutivo do ser do Dasein.
Precisamos, entretanto, de ir mais longe na análise da preo
cupação, es£crçando-nos por lhe apreender com mais precisão
ainda a estrutura ontológica fundamental e estabelecendo a
nossa análise sobre tudo o que nos é dado, e constantemente
dado, fenomenológicamente, pela experiência do Dasein.
A permanência do Dasein não se funda numa substan-
cialidade ilusória, mas sim na autonomia do seu eu existente,
cujo ser foi apreendido como preocupação. A preocupação,
por sua vez, enraíza-se na experiência da temporalidade da
existência resoluta. Esta temporaliza-se necessariamente, ainda
que de modos diferentes, nas suas diversas possibilidades.
Ela não está dentro  do íempo, como uma coisa dentro de

(a ) SZ, págs. 289-301.


138 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

outra, mas é temporal por essência, da mesma forma que


existir não c mais do que exercer modos de temporalização.
Há uma constante reciprocidade entre a temporalização e os
modos de ser do Dasein (84).
Para podermos apreender o sentido da temporalidade
(Zeitlichkeit) e o valor expressivo da totalidade do ser do
Dasein, é preciso considerar que o Dasein é sempre e neces-
sàriamente antecipante, uma vez que ele está continuamente
voltado para as suas possibilidades. Em seu ser, o Dasein
é fundamentalmente futuro (85): o homem é «o ser das
lonjuras'» (86). Na existência resoluta, esta antecipação terá
de ser necessàriamente a da morte, que, como possibili
dade extrema, encerra em si todas as outras possibilidades.
O Dasein resoluto não pode, portanto, conquistar a plena
certeza da sua resolução (uma vez que a possibilidade d'a
inautenticidade é igualmente constitutiva do Dasein) senão
retomando-se constantemente a si mesmo e contrariando as
forças caprichosas da inautenticidade, isto é, só poderá adqui-

H SZ, págs. 301-304.


(“ ) Montaigne exprime a mesma ideia em termos semelhantes, o
que não é de estranhar dada a sua familiaridade com Os processos da
análise existencial, Diz ele: «Aqueles que censuram os horàens por anda
rem sempre a olhar para as coisas futuras e nos ensinam a apreendermo-
-nos como bens presentes e a repousarmos neles, como tendo ainda menos
ligação com o que há-de-vir do que com aquilo que já é passado, come
tem o mais vulgar dos erros humanos, pois atrevem-se a chamar erro àquilo
para que a própria natureza nos encaminha, com o fim de dar continua
ção à sua obra, e imprimem-nos, assim, a ideia falsa de que devemos ser
mais ciosos da nossa acção do que da nossa ciência. Nós nunca nos
encontramos dentro de nós; estamos sempre para além de nós. O temor,
o   desejo, a esperança lançam-nos para o que há-de vir e ocultam-nos o
sentimento e a consideração daquilo que é, deleitando-nos com aquilo que
há-de ser, mesmo para lá da nossa existência». (Essais, i, iii,  ed. V i l l e y ,
t. i, págs. 15-16).
(“ ) Wgr, pág. 100.

*
HEIDEGGER E SARTRE 139
rir essa certeza por uma antecipação constantemente renovada
da sua morte. O  pensamento da morte caracteriza o Dasein
que se tornou transparente a si próprio.
Há, portanto, uma ligação essencial entre a resolução
e o ser-para-diante. Ligação essencial há também entre a
resolução e o ser-sido   (ser-passado), visto que a aceitação e a
antecipação da morte é a aceitação da culpabilidade original,
a qual impiica que o Dasein se assuma tal como foi sempre,
tal como  j á era quando foi arremessado-no-mundo (87)- A vida
autêntica é, portanto, um «passado-futuiro» (88): simultânea
e solidàriamente regresso ao passado e pro-jecção para o
futuro, isto é, para a morte e para o nada. O Dasein é simul~
tâneamente futuro e passado,   e só por isso a resolução pode
tornar presente a situação, isto é, possuir o sentido autên
tico do presente, que se define propriamente pelo instante,
ou seja, o presente estabelecido e mantido na temporalidade
autêntica (8B), na qual o passado e o futuro são ambos pre
sentes (eo).

(" ) SZ, págs. 325-326.


(“ ) SZ, pág. 391.
(" ) SZ, pág, 338. <—Este instante heideggeriano não corresponde
exactamente ao instante de Kierkegaard. Heidegger diz (SZ, pág. 338, n. 1)
que Kierkegaard analisou bem o fenómeno existentivo  (ôntico) do instante,
mas que não conseguiu dar-lhe uma interpretação ontológica  (existencial),
porque ficou demasiadamente atido à noção vulgar de tempo, determi
nando o instante a partir do agora e da eternidade. Ora, escreve Heideg
ger, (SZ, pág. 347), o modo do hoje é o fenómeno que mais se opõe ao
verdadeiro instante, porque por ele o Dasein está em toda a parte e não
está em parte nenhuma, enquanto que o instante autêntico coloca a exis
tência na situação e determina o próprio estar-ai do Dasein.
(m) SZ, pág. 386. — A questão, como observa J. Wa hl (Etudes
kierkegaardiennes,  pág. 470, n. 3), está em saber se será possível ligar
estes três sentimentos, como pretende Heidegger. «Poder-se-á, tendo e«B
conta esta tríplice dimensão da preocupação, que é expressão do tríplice
êxtase do tempo, chegar a uma síntese do futuro, do presente e do
140 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Entretanto, esta interpretação ontológica da existência


do Dasein corresponde a uma forma de ideal e, portanto, terá
de ser encarada como um pressuposto da análise — poder-se-á
objectar. E esta objecção, segundo Heidegger (01), tem plena
razão de ser, porque traduz precisamente aquilo que, na
realidade, se passa. O facto, que se chama ideal, não pode
ser negado; deve ser tomado em conta, com o seu carácter
de necessidade positiva, como objecto da investigação onto
lógica. Filosofia alguma pode renegar os seus pressupostos
que fazem um todo com ela, vindo ela a verificá-los através
do seu próprio desenvolvimento. Foi assim que, em face dos
pressupostos da pesquisa, assentámos que o Dasein autêntico
é fundamentalmente preocupação e que a preocupação está
essencialmente radicada na possibilidade última do ser-para-
-a-morte. Corresponderá, então, este sentido do ser, pergunta
Heidegger, a uma construção arrojada e arbitrária? — De
forma alguma. A análise mostrou-nos que não há, de facto,
 para o ser-no-mundo, qualquer instância superior ou ulterior 
à do poder morrer   (B2).

sado?», tal como Nietzsche, com o seu eterno retomo, pretende estabelecer
um equivalente' da eternidade? (A existência resoluta permitiria, segundo
Heidegger, constituir a eternidade com o auxilio do tempo). Mas, se a teo
ria da existência resoluta não comporta, fundamentalmente, qualquer «fuga
diante do tempo», visto que concebe o nascimento e a morte não como
acontecimentos determinados mas como modos essenciais do Dasein, como
poderemos nós ter ainda em conta esse mesmo tempo que Heidegger
parece admitir como essência da realidade humana? Morte e nascimento,
nascimento e morte tornam-se de certo modo intemporais: o tempo não
é mais do que uma ilusão do Dasein; a única realidade, se assim r.os
podemos exprimir, será a eternidade do nada.
(" ) SZ, pág. 310.
(” ) Aqui, a dificuldade é precisamente a mesma que assinalámos
ao começo. A passagem da experiência singular e concreta à afirmação
ontológica (e universal) corresponde ao que há de mais arbitrário e gra
tuito. O que a análise mostrou é que, para Heidegger,  não há instância
HEIDEGGER E SARTRE 141

3. Depois do que fica exposto, estamos agora em con


dições de compreender o que é a totalidade do Dasein.
A estrutura de conjunto da preocupação é que no-la descobre.
Efectivamente, essa estrutura não é um ajuntamento, mas um
todo orgânico, visto que os fenómenos existenciais da morte,
da consciência moral e da culpabilidade são interdependentes,
articulando-se entre si como membros de um único organismo.
Todavia, temos ainda necessidade de considerar o eu (secun
dário ou principal), que, para tantas ontologias chegou a ser
tomado como um substrato (substância ou sujeito). Como
vimos, a análise estabeleceu, que o Dasein só é propriamente
um «eu» na e  pela angústia da existência resoluta.  É, por
tanto, a existencialidade, como constituinte da preocupação,
que fornece o sentido ontológico da ipsidade do Dasein.
A estrutura da preocupação, apreendida no seu conjunto,
inclui o fenómeno da ipsidade (93).
Por outro lado, sabemos que a temporalidade nos dá
o sentido ontológico da preocupação. Ela revela-nos, efectiva
mente, a estrutura total da preocupação, explicando a anti-
culação interna e originál dos seus elementos constitutivos.
Futuro, passado e presente são formas solidárias da preocupa
ção.  O Dasein é fundamentalmente temporalização. O tempo
não é uma coisa: ele próprio se temporaliza sob a forma de
futuro, de passado e de presente, que são os três êxtases da
temporalidade (Ekstasen der Zeitlichkeit),  não estendidos,
nivelados e indefinidamente repetidos, como é concepção

superior à do ser-para-a-morte. Mas com que direito se pode universalizar


esta situação existencial e fazer dela o formal próprio da existência? É evi
dente t> erro de indução. — Poderíamos ainda acrescentar que esta análise
está longe de ser exaustiva. Como teremos ocasião de ver, Sartre pôs
bem a claro as suas lacunas e afirmações gratuitas, insurgindo-se energica
mente contra a ideia de se admitir o ser-para-a-morte como estrutura onto*
lógica da realidade-humana.
(“) SZ, págs. 316-323.
142 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

corrente, mas imbricados entre eles na unidade fundamental


da sua estrutura ontológica. Por eles, o Dasein aparece colo
cado diante de um horizonte (ou esquema horizontal), que é a
forma total dos três êxtases, irredutíveis e exteriores entre si,
mas necessariamente dados em conjunto, como pluralidade
interiormente articulada.  A temporalidade é uma dialéctica
viva, uma tensão contínua entre a unidade e a pluralidade.
A vitória da unidade aboliria o tempo a favor de uma pura
presença imóvel, sem qualquer ritmo interno capaz de dar
medida da sua espessura indivisível. Da mesma forma, a
vitória da pluralidade aboliria também o tempo, separando
inteiramente os elementos da sua estrutura. A condição exis-
tencial-temporal da possibilidade do mundo, isto é, o mundo
como transcendência, (ou como realidade exterior), implica,
portanto, que a temporalidade, como unidade extática, possua
aquilo que denominamos um horizonte (Horizont) . Vê-se
assim como se pode dizer com verdade que é pelo facto de
o Dasein se temporalizar que há   também um mundo. S e
nenhum Dasein existisse, não haveria mundo  (94).

(**) SZ, pág. 365. — Heidegger estabelece (SZ, pág. 366) que,
pelo próprio facto de o Dasein ser fundamentalmente extático, o mundo
 já  existe «ali de fora», como nunca pode existir um objecto. O problema
da transcendência (ou da realidade objectiva do mundo exterior) não
deve formular-se assim. «Como é que um sujeito poderá mostrar qual
quer comportamento para oom um objecto fora de si», se a totalidade dos
objectos se encontra identificada com a ideia de mundo? A questão como
deve ser posta é assim: «como é ontològicamente possível que o existente
possa ser tomado como intramundano e, como tal, ser objectivado?». Só
recorrendo à transcendência extática horizontal do mundo se poderá
encontrar resposta para esta pergunta. Se se apreende ontològicamente o
«sujeito» como um Dasein existente, cujo ser é fundado na temporalidade,
dir-se-á: o mundo é «subjectivo». Mas este mundo «subjectivo» passa
então a ser, desde que é temporalmente transcendente, mais «objectivo»
que qualquer objecto. — Estas explicações dificilmente poderão satisfazer.
Conduzem-nos, efectivamente e com toda a evidência, a uma concepção
HEIDEGGER E SARTRE 143
A finitude do tempo resulta da preocupação como ser-
-para-a-morte. O Dasein existe como finito. O futuro, que
temporaliza em primeiro lugar a existência e dá sentido à
existência resoluta, revela-se, desta forma, como finito. Mas,
não é verdade que o tempo continua apesar do desmorona
mento do meu Dasein no nada? Certamente. Isso, porém,
não se opõe à finitude da temporalidade original, que não é
interessada pelos acontecimentos do mundo. A finitude do
tempo original não significa uma cessação (como na concepção
quotidiana), mas constitui o carácter essencial da têmpora-
lização, da mesma forma que o futuro autêntico só pode
existir como possibilidade insuperável de aniquilação (B5).

de «objectividade», tipicamente kantiana, que não passa de uma outra


forma de subjectividade, visto que se reduz a uma simples «objectividade-
-para-mim». O mundo é dado ao Dasein como um «objecto»; mas isso
não constitui prova da sua «transcendência». É certo que Heidegger, como
se viu, eximindo-se a essa «prova», se justifica dizendo que a transcen
dência se encontra na estrutura do Dasein como sendo  sempre-já  dada.
Neste caso, porém, poderemos dizer que ela tem ünicamente valor empí
rico, tomando, assim, Heidegger uma posição muito próxima do realismo
ingénuo. E só pelo simples e  puro idealismo é que Heidegger consegue
escapar-se a este terrível extremo (se é que ele se chega a escapar — pois,
a maior parte das vezes, o idealismo não passa de uma forma do realismo
ingénuo).  Se, efectivamente, o Dasein só se constitui enquanto constitui 
o mundo, a «transcendência» deste é interior ao próprio Dasein.   Pouco
importa, aqui, que o Dasein não possa ser apreendido senão num mundo
que deverá ser considerado como  sempre-já  constituído, porque isso,
quando muito, poderá explicar e (explicará?) a ilusão do Dasein quanto
à transcendência do mundo, mas nunca poderá fazer dessa transcendência
uma realidade.
(” ) SZ, págs. 323-331.
144 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

VII

Temporalidade e historicidade

1. O Dasein, dizíamos, é essencialmente um ser-para-


-a-morte. A morte é, portanto, o «termo» do Dasein. Rigoro
samente, ela não é senão o  fim   que devora a tofcailidade do
Dasein. Há ainda outro «termo», que é o começo, o nasci~
mento. O existente desdobra-se ou estende-se, de certo modo,
entre o nascimento e a morte, e esta extensão, desde que
constitui sucessão contínua de dias, dá à temporalidade o
carácter de historicidade (Geschichtlichkeit) . Toda a exis
tência do Dasein, entre estes dois termos extremos, é uma
duração e uma história (98).
Ora esta história nunca deverá ser compreendida como
preenchimento de uma duração exterior ao Dasein. Efectiva
mente, ela é em si mesma exclusiva consequência do facto
fundamental de o Dasein se temporalizar através dos três
êxtases da temporalidade. A historicidade do Dasein não é
mais do que o desenrolamento   do próprio Dasein, e este
desenrolamento ou extensão não pode ser concebido como
abandono do passado e posse do que ainda não é. O Dasein,
de facto,  existe quando nasce e é também quando nasce que
ele morre, na sua qualidade de ser-para-a-morte.  Os dois
«termos» e o intervalo entre eles, que é a preocupação do
Dasein, existem   conjuntamente, durante o tempo em que o
Dasein, de facto, existe (97).
A possibilidade da historicidade resulta, portanto, de o
existente ser temporal, não no sentido de existir «na história»,

C) SZ, págs. 372-373.


O SZ , pág. 374.
HEIDEGGER E SARTRE 145
mas no de não existir nem poder existir senão historicamente,
visto que é temporal no próprio fundo do seu ser (9S).
Não poderemos, portanto, aceitar a concepção vulgar do
histórico.  Segundo ela, o histórico é, antes de tudo, o passado
e, no próprio «presente», é tudo aquilo que tem relação com
o passado, aquilo que é objecto de interesse «histórico».
Assim, conservam-se nos museus objectos que pertenceram
a homens célebres, não pela sua utilidade, mas unicamente
porque serviram personagens que já não existem. Esta defi
nição do histórico em função do passado dá lugar a sérias
dificuldades ( " ) . Se se assenta, efectivamente, em classifi
car como históricos os factos passados que tiveram impor -
tância  para a civilização, por que não qualificar da mesma
forma os factos presentes que devem determinar a história
«futura»? Aliás, é isso o que acontece correntemente e os
próprios jornais são os primeiros a anunciar que tal aconte
cimento contemporâneo ou próximo-futuro virá a ser um
«acontecimento histórico». Pretende-se, assim, dizer que esse
acontecimento, uma vez chegado, se deverá tornar, logo que
se tenha desenrolado e passado,   um facto «histórico». Toda
via, esta explicação é insuficiente, porque nada prova que tal
ou tal outro facto, que se nos afigura sem importância, não
venha também a ter importância digna de ser perpetuada.
Na realidade, todos os factos, ainda os menos «importantes »
têm história.   O histórico engloba todos os acontecimentos,
passados, presentes ou futuros, da vida humana.
A este respeito, devemos ainda notar que o carácter da
historicidade só se pode aplicar com propriedade aos aconte
cimentos relacionados com o homem.  A primazia do histórico

D SZ , págs. 375-377.
(“”) Cf. a definição dê J.-P. Sartre (Z/êíre et le nèant,   pág. 581):
«Se as sociedades humanas são históricas, não é só porque têm um pas
sado, mas sim porque o retomam  a título de monumentos,
10 '
146 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

cabe ao Dasein.   Só secundariamente é que se poderão dizer


históricos os objectos intramundanos, quer se traíte de %ten-
silios, no sentido mais amplo da palavra, quer da própria
natureza, considerada como «o campo da história» (10°). '
Resta-nos, agora, saber até que ponto e em que condições
ontológicas a historicidade pertence à subjectividade do sujeito
«histórico» (101).
Podemos admitir, imediatamente, que a historicidade terá
de se apresentar a cada Dasein segundo o modo autêntico
ou inautêntico da sua temporalidade. Definiu-se a existência
autêntica como sendo aquela que aceita resolutamente a situa
ção, isto é, aquela que aceita as possibilidades de facto da
existência e, à frente delas, a que as engloba a todas —
a morte. Em determinado sentido, esta fatalidade da morte
evita ao Dasein os «golpes da sorte», de que o «se» se chora
continuamente. Para o Dasein não há fatalidade ou destino
visto que ele mesmo é destino e fatalidade; a sua liberdade
é a própria forma dessa fatalidade.   Esta fatalidade essencial
converte o Dasein num ser  futuro,   pois obriga-o a antecipar
constantemente um porvir que é a queda no nada da morte.
Mas isto mesmo implica a aceitação da culpabilidade original
da finitude: só um existente que, originalmente, tenha sido
como futuro pode assumir e aceitar a herança da sua própria
derrelicção, e ser  presente   para o «seu tempo» (102). O Dasein
autêntico não só se considera herdeiro do seu passado como
assume ainda a responsabilidade de todas as possibilidades
que, de facto, realizou na existência, mesmo daquelas que lhe
são impostas.  A autenticidade é fundamentalmente   o acfo
 peto qual o Dasein assume o encargo de uma herança
(Erbe)   e só perdura enquanto durar esse acto que a consltitui.

(,w) SZ, pág. 381.


(1B) SZ, págs. 378-382.
(’“ ) SZ , pág. 385.
HEIDEGGER E SARTRE 147
Daqui se vê que é propriamente a temporalidade,
enqfanto finita, que torna possivel a historicidade, visto que
implica a unidade estrutural dos itrês êxtases pelos quais a
exterioridade se constitui, ou seja, a unidade estrutural de
uma exisitência sucessiva, cujas fases são interiormente con
cordantes e interiormente se encontram também unificadas.

2. Acabamos de mostrar que a existência resoluta


assume o encargo de todo o seu passado. Não é necessário,
porém, que ela o faça expressamente. Mas se o faz, devere
mos considerar essa expressa tomada de encargo, segundo
diz Heidegger (usando, com outro sentido, o termo de Kier-
kegaard) como repetição (Wiederholung),  isto é, como reto
mada das possibilidades do Dasein passado - e no passado
do Dasein da existência resoluta se inscreve tudo o que nele
houve de grande na história, isito é, no ser. Como se faz esta
repetição?
Não admitimos evidentemente que ela possa ter feição
mecânica. Ela só pode ser invenção,  isto é, retomada  pessoal,
com tudo o que a situação presente exige, dos exemplos que
o passado nos fornece, ou, então, imitação original dos heróis
da vida autêntica. Na realidade, a repetição corresponde a
uma réplica  das possibilidades da existência passada, ou
então a um chamamento  àquilo que, do passado, age sobre o
presente. É que o passado, incluindo o meu  próprio, está
constantemente em prorrogação.   Veremos mais adiante, ao
estudar a maneira como o Dasein se pode historicizar, que
«a história» só existe sob a forma de interpretação e que, em
si mesma, é uma espécie de refracção dos fins do Dasein..
Deste modo, a história é engendrada pelo futuro. Ao mesmo
tempo, porém, está sempre sujeita a ser retomada e trans
formada. segundo as mudanças que podem afectar os fins do
Dasein. Está essencialmente «em prorrogação» — e, para que
assim não sucedesse, seria necessário que «a história» se
148 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

desenrolasse num mundo finito e fechado, onde aos acon


tecimentos fosse imprimido sentido imutável e definitivd! Só
no fim do mundo poderá haver «história».
Ora o próprio passado do Dasein confirma tudo isto:
ao mesmo tempo que incessantemente vai criando esse pas
sado vai pro-jectando as suas possibilidades. O  passado
que o Dasein assume e «reduplica» é, portanto, uma forma
do seu pro-jecto.   E se o passado, pela repetição, actua sobre o
presente, como réplica das possibilidades da existência ou
como apelo àquilo que se manteve eficaz, isso é devido ao
coeficiente de realidade e ao significado que lhe são transmi
tidos pelo Dasein. Não resta, portanto, dúvida que é pela
repetição, conclui Heidegger, que o Dasein manifesta a sua
própria história e exprime o poder fundamental de escolher
os seus heróis (103).
A tese da historicidade do Dasein não implica que o
carácter histórico pertença ao sujeito, considerado em si
mesmo e desligado do mundo: o Dasein existe como «ser-
-no-mundo» e esse facto é essencialmente histórico. Qual
quer acontecimento da história é acontecimento do ser-no-

("*) SZ, págs. 385-386. — J. Wahl (Etudes kierkegaardiennes,


págs. 232-233), diz que a «repetição» heideggeriana implica, logicamente,
que «o que está inscrito no ser permaneça imperecível». Entretanto, como
sabemos, para Heidegger, «só há ser em relação ao homem, o qual é
perecível por essência». Deixará, todavia, de haver contradição admitindo
que o que  foi é  susceptível de ser transmitido, não no aspecto singular e
único (e que como tal já não é), mas no seu valor (relativo ao homem, claro
está). Mas, sob este ponto de vista, não poderemos levantar a questão
da eternidade dos valores (relativos ao homem), tal como, paradoxalmente,
a levanta, por exemplo, Nicolai Hartmann, admitindo como valores eter
nos os valores desprovidos de qualquer substrato ontológico e que são
«revelados» pelo homem no seu quotidiano esforço de civilização. Se os
valores são, como o homem, vitalícios, poder^se-ão ainda considerar valo
res? Valores que subsistem, sem qualquer apoio no ser, numa eternidade
puramente formal, de forma alguma são inteligíveis.
HEIDEGGER E SARTRE 149

-mundo, e a historicidade do Dasein é a própria historicidade


do mundo,  a qual resulta da temporalização do Dasein e da
exterioridade ou horizontalidade que é, por sua vez, afec
tada pelos três êxtases da temporalidade. Existindo, o Dasein
situa-se num meio intramundano, e é esta sua imersão no
seio do mundo que dá origem à história do mundo. Todos
os objectos, instrumentos e obras, livros e instituições, etc.,
são, por este motivo, também «históricos», ligados como estão
à existência do Dasein e à sua historicidade.
O Dasein inautêntico inverte esta relação e supõe que
a sua própria historicidade deriva da historicidade do mundo.
Pela mesma razão, o seu ser reveste para ele a aparência de
coisa arrastada numa corrente que lhe é exterior. Vive dis
perso na multitude «do que se passa» em cada dia e que para
ele toma o aspecto de «destino» — de um destino que o
domina e lhe impõe a própria forma de vida. A sua exis
tência torna-se, assim, descontínua, constituída por pontos,
ficando éle sem saber o que é que entrelaça e dá unidade à
existência, quando não chega até a desconhecer que existe
esse princípio de unidade. Tem como carácter próprio per
der-se constantemente no aqui e no agora e só compreende
o «passado» pelo que conserva de «real» no «presente».
O esquecimento constitui o fundo do seu ser (104).

3. Tudo o que fica exposto é de molde a ajudar-nos a'


compreender a origem existencial da história (Historie)   como
ciência, a partir da hisltoricidade do Dasein. O problema,
agora, cifra-se em saber exactamente qual é, no seu aspecto
mais formal, o objecto próprio da história. As condições da

(104) SZ, págs. 387-3 92.— Cf. P a s c a l , Pensées,  n.° 406. «Não
tendo podido desfazer-se da morte, da miséria e da ignorância, os homens,
na mira de se tomarem felizes, determinaram não pensar em nenhuma
dessas coisas».
150 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

temporalização do Dasein, c da historicidade que ela funda


menta, levam-nos a pensar que o único objecto possível da
ciência histórica terá de ser constituído pelas possibilidades
do Dasein, as que ele escolheu e que, como tais, poderão vir
a ser susceptíveis de repetição, não no que tiveram de sin
gular, mas naquilo que, nesse mesmo singular, tem valor uni
versal. Quando a história descobre o Dasein passado, na
sua possibilidade, manifesta simultaneamente o «universal» no
único, Será, portanto, colocar mal a questão pretender saber
se o objecto da história será constituído por factos «indivi
duais» ou por «leis gerais». A história só pode ter como
objecto aquilo que constitui o princípio da historicidade, isto
é, a escolha existencial   que o Dasein fez das suas possibili
dades e que o historiador considera susceptível de repetição.
O próprio historiador é também histórico:  «historiciza-se»
precisamente no acto em que interpreta a «história» à luz das
suas próprias ideias e dos seus pontos de vista políticos,
sociais, económicos, culturais, isto é, à luz dos seus próprios
projectos.
Dever-se-á, portanto, dizer, que a história se inicia não
a partir do presente, ou do real do «hoje», donde ela se
poderia voltar para o passado volvido, mas sim a partir do
 futuro,  e, com mais precisão ainda, a partir do futuro do pró
prio historiador e da sua preocupação essencial e fundamen
tal (105). O historiador materializa e revela simultaneamente
os fins que pro-jecta e que a si mesmo o constituem (106).

("*)■ SZ, págs. 392-397. Ê um dos sentidos que se pode dar ao


Processo  de Kafka.
(“*) Unia lacuna singular apresenta este estudo sobre o Dasein.
Sem sombra de paradoxo, poderemos dizer que nele  se nota sobretudo a
 falta do indivíduo (ou da pessoa) — o que é particularmente grave num
contexto existencialista. O indivíduo não poderia, efectivamente, afir
mar-se nem compreender-se na banalidade da existência quotidiana. O «se»
é inteiramente contrário à personalidade: o eu dissolve-se no anonimato
HEIDEGGER E SARTRE 151

VIII

A transcendência do Dasein

1. Transcender, para Heidegger, é ultrapassar   (107).


É transcendente o que realiza  esse acto de «ultrapassar», isto é,
o existente é que transcende. Designa-se também corrente
mente como «transcendente» a coisa a atingir pelo acto
de ultrapassar. Todavia, esta última noção é equívoca, uma

colectivo. A individualidade fica sendo o privilégio da vida autêntica,


que tem como apoios a morte e a vaidade e o nada da acção. É este, de
facto, o ponto de vista de Heidegger. Entretanto, como poderemos ter
em conta o indivíduo autêntico de Heidegger se ele parece ser incapaz
de qualquer comunicação verdadeira com os outros existentes? É certo
que o «discurso» é uma das estruturas do Dasein, mas, com efeito, ele
só se explicita ao nível da inautenticidade, sob a forma do tagarelar quo
tidiano.  Nunca é diálogo,  troca de impressões e expressão de união e
amizade. O autêntico é silêncio. —■Por isso mesmo, e como consequên
cia lógica (porque o conflito é uma forma da comunicação), o indivíduo
autêntico de Heidegger está liberto de qualquer espécie de conflito com
outras pessoas, igualmente autênticas. Todavia, não há dúvida que este
conflito de liberdades,  esta oposição entre pessoas, constitui um dos ele
mentos essenciais da individualidade. Não parece possível reduzi-lo a
um puro e simples modo de ser da quotidianidade, porque, ao contrário,
é uma das expressões da autenticidade. Por fim, Heidegger diz que o
autêntico Dasein se define melhor pela historicidade do que pela indivi
dualidade ou, então, a individualidade toma para ele a forma linear
uma vida sem drama, a não ser interior, a aparência de uma existência
concentrada sobre si mesma e que desconhece os outros individualmente,
olhando-os em conjunto com os objectos intramundanos. Perante isto.
podemos evocar o «Karma» do budismo birmano. Assim falava Gaudama
(Buda) : «Cada ser tem seu acto próprio; cada qual é o fruto do seu pró
prio acto e cada um tem como senhor o seu próprio acto. São os actos
próprios que distinguem os homens». Na vida autêntica, os homens possuem
a magnífica solitude da divindade.
(1(n) Wgr, pág. 62.
152 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

vez que o «transcendente», assim concebido, seria parte


essencial do acto de ultrapassar. Seria, como diria Sartre,
um «transcendente-transcendido». Neste estudo há, segundo
Heidegger ( lHK), três pontos que convém focar: o acto de
ultrapassar que é acontecimento próprio de qualquer exis
tente; este acto de ultrapassar mostra-se-nos, sob o ponto de
vista formal, como uma relação que vai «de» qualquer coisa
«para» qualquer coisa; finalmente, no acto de ultrapassar, há
sempre «qualquer coisa» que é ultrapassada.
O Dasein é o existente que realiza o acto de transcender.
A transcendência pertence-lhe com toda a propriedade; é
uma estrutura fundamental da subjectividade,  isto é, não é
um modo de ser do Dasein como tantos outros, mas sim ele
mento constitutivo do próprio Dasein e, sob este aspecto,
anterior a qualquer comportamento. Por isto mesmo não
podemos utilizar aqui a noção de «sujeito puro» que existe,
em sentido idealista, antes do objecto, fazendo da transcen
dência uma relação entre sujeito e objecto. O que na reali
dade se verifica é que o Dasein é, em si, transcendente, isto
é, só existe e só pode existir ultrapassando.
E, agora, é a altura de perguntar: pelo acto dé ultra
passar, próprio do Dasein, que é que é ultrapassado? Terá
de ser, precisa e unicamente, o  próprio existente . Por «exis
tente», devemos entender aqui o «existente em bruto», isto é,
tudo aquilo que se encontra reduzido à pura existência (a «natu
reza» ou a «terra»), sem ter ainda sido afectada pelo carácter
cto ser e da inteligibilidade. É o Dasein, como vimos, que
constitui os existentes como seres inteligíveis e o acto de
transcender consiste nesta mesma constituição: o Dasein
ultrapassa   os existentes no sentido   do ser inteligível de cada
um deles. Por esse acto de transcendência, o próprio Dasein
emerge da existência bruta e situa-se no ser. O Dasein trans-

(10#) Wgr, pág. 63.


HEIDEGGER E SARTRE 153
cende-se, portanto, a si mesmo, e transeende-se necessaria
mente.  Esta transcendência constitui a sua ipsidade (10B).

2. Como se produz esta transcendência? Produz-se em


totalidade. Não existe como facto contingente, que tanto
poderá realizar-se como deixar de se realizar. Também não
poderá ser tomada como contemplação puramente teórica de
objectos já existentes, sobre os quais o Dasein, tomando-os
como alvo da sua intuição ou do seu pensamento, neles viesse
a projectar a inteligibilidade do ser. « A transcendência é fun
damental e essencialmente pro-jecto das possibilidades do
Dasein » (110): os existentes só são inteligíveis em função
dessas possibilidades. Assim, pelo facto de existir, o Dasein
 já é transcendente e já se transcendeu a si mesmo, consti
tuindo-se em ipsidade.
Mas, sendo assim, como se poderá dizer que a trans
cendência implica um sentido  para qualquer coisa,   uma direc
ção? A implicação facilmente se compreende desde que se
admita que a transcendência do Dasein se verifica no sentido
do próprio mundo, considerado este como unidade e totali
dade. É assim que o acto de transcender, próprio do Dasein,
encontra a sua verdadeira significação: o acto de ultrapassar
é criação do mundo como tal — criação, não dos existentes
brutos, que estão para lá do ser e do pensamento, mas dos
seres cujo conjunto organizado constitui o mundo e que ape
nas são inteligíveis e verdadeiros em função desse mundo (1M).
 Afirmar que o Dasein transcende equivale portanto a dizer:

(íog) W gr, pág. 64. — A. de Waelhens (loc. cit., pág. 253) não vê
contradição entre esta asserção e a anteriormente formulada (SZ, pág. 323)
que dava a preocupação como fundamento da ipsidade do Dasein. A preo
cupação é o ser do Dasein, mas esse  set   constitui-se na transcendência.
D SZ. págs. 57, 99, 102.
(U1) W gr, pág. 65.
154 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

na essência do seu ser, o Dasein é organizador de um


mundo  (112), devendo definir-se o acto da transcendência
como sendo aquele pelo qual o Dasein se constitui como ser-
-no-mundo (11S).
Mas, então, que se deverá entender por «mundo» e
que relação haverá entre o Dasein e o mundo? Em primeiro
lugar, devemos observar que o mundo não pode ser con
cebido como o encadeamento empírico dos existentes. Pelo
contrário, terá de ser compreendido, à maneira de Kant,
designando a totalidade transcendental  (ou ontológica) dós
existentes: a totalidade terá de estar sempre implicada, quais
quer que sejam as mudanças que afectem a sua posição
interna. É a esta compreensão antecipante em relação à tota
lidade que chamamos transcendência-para~o~mundo  (114).
O mundo, como totalidade, não é, portanto, propria
mente falando, um existente. Ele é aquilo a partir do qual o
Dasein anuncia não só os existentes com os quais pode entrar
em relação, mas ainda como é que essas relações podem ser
formadas (115). Tal é o aspecto mais verdadeiro do mundo
— mais verdadeiro que o aspecto iteórico — pelo qual o con
 junto dos existentes é sempre acessível ao Dasein, exprimindo
para ele a totalidade das suas possibilidades (116). O mundo
é aquilo que o Dasein pro-jecta à sua frente, vindo a ser o
conjunto das relações que pode ter com os existentes, entre

(”! ) Wgr, pág. 90.


(ms) W gr, pág. 65. — Perante estes pontos de vista de Heidegger
poder-se-á pensar, objecta Sartre (Uêtre et le néant,  pág. 503), que a
configuração do mundo é determinada estàticamente  pelo Dasein ao pro
jectar as suas possibilidades ou ao ultrapassar os existentes no sentido do
seu ser. Mas isso seria olvidar que esse mesmo pro-jecto e acto de ultra
passar mudam a cada instante a própria figuração do mundo.
(,M) W gr, págs. 81, 85, 87.
(1M) W gr, pág. 88 .
4?M) W gr, págs. 89-90, 100.
HEIDEGGER E SARTRE 155
os quais existe. Mas pro-jectar assim o mundo é pro-jectar-se
e transcender-se a si mesmo. Esta antecipação e transcen
dência, que constitui, como vimos, a ipsidade do Dasein,
corresponde ao acto pelo qual o Dasein constitui o mundo.
Eis a razão por que se torna necessário dizer que o mundo
é essencialmente relativo ao Dasein  (117).
Disto mesmo se conclui que o Dasein, como pro-jectante,
está já no meio  do existente e por ele se sente investido.
A transcendência corresponde ao pro-jecto e esboço do
mundo, mas de sorte que o pro-jectante seja comandado pelo
reino desse existente que ele transcende (118). Pro-jecto do
mundo e investimento do Dasein pelo existente são ,  portanto,
contemporâneos:  pertencem a uma única temporalidade, visto
que ambos constituem a temporalização (119). E, por isso
mesmo e da mesma forma, o Dasein se reconhece limitado

(m) W gr, págs. 88-90. — É a esta capacidade, que o Dasein possui


de constituir o mundo em função de si mesmo e de se constituir assim
como ipsidade, que Heidegger chama liberdade.  O acto de ultrapassar no
sentido do mundo corresponde, portanto, à própria liberdade. Esta liber
dade não poderá ser tomada como uma escolha, nem como simples espon
taneidade (espécie de causalidade), pois que a espontaneidade e a escolha
já pressupõem a transcendência e a ipsidade do Dasein. A liberdade tem
uma origem mais profunda, visto que corresponde àquilo por que há um
mundo, e, por consequência, àquilo por que o Dasein existe como ipsidade.
Portanto, ela é propriamente o acto pelo qual o Dasein se constitui a si
mesmo, ou seja, a origem e o princípio de qualquer fundamento e, por
isso mesmo, de qualquer inteligibilidade e de qualquer vedor (Wgr,
págs. 97-98). Assim se explica que o Dasein, na essência do seu existir,
seja um ipse  livre e responsável de si (Wgr, pág. 96), passando a ficar
ligado ao mundo que constitui. A liberdade revelasse assim como o que
torna possível criar e que, ao mesmo tempo, permite sofrer constrangi
mentos e obrigações (Wgr, pág. 96). Daqui se infere, como observa
A. de Waelhens (loc. cit., pág. 265), que a liberdade terá de assumir,
neste contexto, a forma de uma necessidade compreendida.
(11S) W gr, pág. 99.
(ns) W gr, pág. 100.
156 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

e finito. A transcendência, sob o duplo aspecto de pro-jecto


e de investimento, é simultâneamente voo e privação: o pro
 je cto do mundo só se torna real pela privação, uma vez que
as possibilidades do Dasein nunca podem ser todas realiza
das simultâneamente. E este será o testemunho claro da  fini-
tude  inerente à liberdade do ser humano, a confirmação
evidente da essência  finita   da liberdade do homem (120).
Às duas maneiras de «fundar» (pro-jecto do mundo e
investimento do Dasein pelo existente) que acabámos de
analisar, devemos juntar uma terceira, que é actualizada pelas
duas primeiras e cuja essência consiste em «motivar», isto é,
tomando a palavra na acepção original, em tornar possível o
«porquê?» como tal. O motivar, neste sentido, recai, portanto,
sobre a possibilidade transcendental   do «porquê» em geral.
Ora, só a transcendência, tal como foi determinada pelas duas
maneiras de fundar, é que pode responder propriamente a
esse «porquê?». Só ela mostra, com efeito, como o pro-jecto
do mundo, determinando um voo do possível no próprio seio
do existente que investe e comprime de todos os lados o
Dasein, faz surgir o «porquê», que assim se torna uma neces
sidade ontológica absoluta (121).
Este «porquê» pode assumir formas diversas, mas as
principais são as seguintes: «Porque é que isto é assim e não
de outro modo?» — «porque é que há qualquer coisa antes
do nada?». Estes porquês, porém, implicam já uma certa
compreensão preconceitual do ser e do nada: a noção trans
cendental do ser é que torna possível o porquê. Ela já con
tém em si, com efeito, a resposta original, a resposta abso
lutamente primeira e última a qualquer possível pergunta.
Fornece, por consequência, a motivação ou o fundamento
último de qualquer interrogação. Precisamente porque o ser

(“ ) W gr, pág. 101.


('” ) W gr, págs. 102-103.
HEIDEGGER E SARTRE 157
e a sua situação se encontram a descoberto nessa noção é
que a transcendência, isto é, a estrutura da realidade humana,
corresponde à origem e princípio de toda e qualquer verdade
ontológica (122).
Não se poderá, no entanto, ir ainda mais longe e per
guntar «porque» é que o Dasein possui uma tal estrutura?
Heidegger declara que este porquê já não é legítimo porque
não corresponde precisamente a nada. Efectivamente, não é
possível ir além do Dasein, tal como existe.  Ele é tal como é,
e na análise da sua estrutura ontológica se encerra toda a res
posta possível. Pretender fundar como tal o próprio Dasein
seria tão contraditório como querer sobrevoar-se a si mesmo
ou conhecer-se antes de ser.  O recurso à transcendência
transcendente do Dasein reveste carácter tão basilar em todas
as relações com o existente que só à luz da compreensão do
ser, emanada por essa transcendência, o existente pode ser
manifestado nele mesmo, isto é, como existente que é e tal
como é (12S).
Mostrámos assim que a tríplice derivação do acto de
fundar se radica na transcendência do Dasein e, por conse
quência, na própria liberdade.  A liberdade é, portanto, a ori
 gem do princípio de razão e, como tal, o  fundamento do fun
damento.  Eis por que ela é o abismo da realidade humana, o
fundamento que é impossível ultrapassar: apreender o carácter
abissal do seu ser é para o Dasein o termo absoluto e intrans
ponível de toda e qualquer investigação dialéctica ou psicoló
gica. A liberdade-para-fundar   é a razão última, em si mesma
sem razão, porque, desde que se apreende como liberdade-
-para-fundar, o Dasein já se encontra arremessado na existên
cia, já é o sujeito da sua derrelicção e finitude essenciais (iai).

(“ ) W gr, págs. 103-105.


(***) W gr, pág. 104.
(“ ) W gr, págs. 109-111.
158 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

Finalmente, teremos de renunciar à pretensão dc chegar 


a uma verdade absoluta.   Esta, se é que a palavra tem sen
tido, é e nada mais pode ser do que abismo e silêncio. Estará
Heidegger disposto a ultrapassar este ponto, que ele supõe
ser o escolho inexorável e impeditivo de qualquer averigua
ção sobre o ser? O próprio facto de ter renunciado, ao que
parece, a publicar a segunda parte de O ser e o tempo poderá
ser considerado sinal suficientemente claro desse desígnio, e
como confissão tácita da impossibilidade de descobrir um
meio de escapar à imanência e à finitude, que caracterizam
o Dasein, de lobrigar aquele caminho que conduz, finalmente,
a esse Absoluto que não cessa de solicitar as aspirações tanto
intelectuais como morais do homem e sem o qual nem ele nem
o mundo teriam sentido. Nenhuma análise ou doutrina, por
mais engenhosas que sejam, poderão convencer o homem a
entronizar como absoluto, conforme pretende Heidegger, o
nada e o absurdo (12S).

(“’) A partir da conferência inédita sobre a Origem da obra


de arte (Vom Ursprting des Kuntswerkes,  1936), cujo resumo é apresen
tado por A. de Waelhens (loc. cit., págs. 283-292), Heidegger dá a
impressão que caminha para «uma filosofia de inspiração nietzschiana»,
procurando na imersão no seio da Terra, isto é, num absoluto de tipo
dionisíaco, «um remédio para uma finitude que, apesar de tudo, é insus
tentável» (pág. 365). Deste modo, perante o Dasein, seria restaurado um
ahsoluto, mas que ficaria, se assim se pode dizer, debaixo dele.  Os únicos
deuses seriam então os deuses ctónicos e a comunicação com esse mundo
subterrâneo da existência bruta poderia ser conseguida, ainda que rara
mente e a titulo de privilégio, e sempre parcialmente, por meio da obra
de arte. — Se, nas conversas particulares, Heidegger, segundo se diz, pro
testa contra o qualificativo de «existencialismo ateu» dado à sua filosofia,
teremos de convir que o Deus, ao qual, no fim de contas, viria a conduzir
a sua doutrina, deverá ser esse «abismo de nada», esse abismo de indeter
minação que já Jacob Boehme invocava. Como se poderá, então, consi
derar, sem grave equívoco, como teísta a filosofia de Heidegger? (Ver,
no final, Notas complementares — 1).
Artigo II

y.-P. SARTRE

A Náusea

1. A experiência fundamental de que parte Sartre e


aquela que tem para ele maior valor como revelação existen
cial é a do tédio ou aborrecimento.  Numa conferência sobre
«a natureza da metafísica», Heidegger declarava que «o abor
recimento intenso, pairando como nevoeiro silencioso sobre
os abismos da realidade humana, congraça homens e coisas,
incluindo-nos a nós mesmos, numa surpreendente indiferencia-
ção» e revela o existente na sua totalidade {').   No romance
intitulado La Nausée,   Sartre disserta copiosamente sobre essa
experiência privilegiada e fundamental do aborrecimento.
Procuremos, portanto, compreendê-la primeiramente e apreen
der-lhe o seu significado (2).
O ponto de vista que Sartre foca sempre em primeiro
plano na sua obra é o da «liberdade». O seu objectivo con

(’) WM„ ed. C o r b i n ,  pág. 29.


(’ ) Sobre esta análise, cf. o excelente estudo de Claude-Edmonde
M a g n y ,  Sartre ou la duplicité de l’être, em Les Sandales d'Empédcde, ■

Ed. de la Bâconlère, Neuchâtel, 1945, págs. 105-172.


160 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

siste em desacreditar a ideia de uma necessidade, exterior a


nós, derivando de uma estabilidade das coisas ou de uma
ordem moral objectiva. Os indivíduos já não são tributários
de um «carácter» determinado ou de uma «essência» defi
nida, donde resultariam todas as suas propriedades e todos
os seus actos, nem dos constrangimentos que lhes vêm de
fora, ou seja da Sociedade ou de Deus. O princípio primeiro
da existência concreta dos indivíduos tem de se situar numa
opção profunda, absolutamente gratuita,   pela qual eles se
escolhem absolutamente.
É esta «liberdade» — que, aliás, nada tem de comum com
a liberdade de indiferença — que singulariza as personagens
de Sartre, especialmente Antoine Roquentin, em La Nausée.
Duas atitudes se tornam possíveis: resistir àquelas impressões,
tendências ou impulsos que os chamados «normais» julgam
estar obrigados a repelir (censurando-se interiormente de o
não fazerem) — ou, então, entregar-se totalmente a esses
impulsos, tendências ou impressões, não por mera passivi
dade, mas na firme decisão de se fazer coincidir com eles.
É esta última atitude que escolhem as personagens de Sartre,
na esperança de chegarem assim a uma verdade que o homem
normal não pode atingir. Esta atitude, designa-a Sartre por
«trapaça» (tricherie),   pelo que encerra de voluntário e de
resoluto e, por isso mesmo, de inquietante e de suspeito aos
olhos do «normal»; as regras comuns são contestadas e rene
 gadas.   Os trapaceiros, procurando mergulhar a fundo na
náusea, distinguem-se assim dos outros indivíduos, ditos nor
mais, que não trapaceiam, e que são os fariseus e conformis
tas, os devotos da ordem e da «moral», os embrutecidos por
uma existência mecanizada e intermutável — fantoches pro
duzidos em série. A todos eles engloba Sartre na designação
de «nojentos» (3).

(’) Cf. La NausH,  pág. 167.


HEIDEGGER E SARTRE 161

Os nojentos dispõem de três meios para exòrcizar a náu


sea: a ciência, a magia e a loucura (a Realidade, o Valor e a
Transcendência). A ciência   leva, efectivamente, a admitir a
realidade da lei da mudança,  pela qual, como mostrava
Meyerson, o contingente se encontra racionalizado e o múl
tiplo reduzido à unidade. Entretanto, este mundo da ciência
é arbitrário: é construído pelo homem unicamente para esca
par ao desânimo provocado por um devir estruturalmente
gratuito, sem lei e sem finalidade. «— A magia  decide e esta
belece pura e simplesmente que há coisas estáveis e essên
cias fixas, normas absolutas e invariáveis, imaginando que
elas se produzem pelo facto de serem instituídas. — A lou
cura,  depois de admitir a absurdidade da existência, volta-se
para o mundo da magia, apelando para uma «metafísica»
que edifica voluntlàriamente um mundo superior, divino além,
terra e céu novos, destinado a encobrir o nada vestiginoso
de tudo o que é. Destes artifícios é que os trapaceiros se
querem desfazer, perante o escândalo dos «normais» que
só vêem (com razão, aliás) possibilidade de segurança na
submissão âs regras de pensamento e de vida elaboradas pela
«sabedoria secular» dos homens.

2. Que condições exige a trapaça? Em primeiro lugar,


teremos de renunciar à nossa «personalidade», isto é, à cons
ciência clara, que só turva a espontaneidade da existência e
a sua livre expansão, renunciando também a essa «vontade»,
apregoada pelos filósofos do dever, que apenas tem por efeito
impor aos nossos pensamentos e sentimentos uma ordem arti
ficial e um constrangimento arbitrário (e, de facto, exterior).
O eu deve ser, todo ele, abandonado à sua própria lógica,  não
se devendo, portanto, dizer: «Eu» ou «Eu penso», mas sim
«Qualquer coisa pensa em mim». «Quanto mais eu pensava,
menos me parecia ser eu», declara uma personagem de Le Sift»
162 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

sis  (4). O resultado desta «despersonalização» (ou «descrista-


lização») será eliminar do pensamento tudo o que, nele,
houver de ponderado ou represente construção social, obe
diência a imperativos estranhos; tudo o que revele influência
familiar e profissional ou reflicta formas cristalizadas da tra
dição. Fica, assim, eliminada a cortina que , nos esconde o
nada e nos protege da Náusea.
A segunda condição da trapaça (ligada, aliás, à desper
sonalização e à dessocialização) consiste em renunciar ao pas
sado.  «Ser sem odor e sem sombra, sem passado, nada mais
ser do que invisivel desenraizamento de si em direcção ao
futuro», declara Daniel Sereno, em L'Age de raison  (5).
O passado é o meu «eu» solidificado, objectivado, a minha
«facticidade»: tenho que o arrastar atrás de mim como uma
coisa morta. Para agir, os nojentos supõem que é necessário
voltarem-se para ele e, por assim dizer, consultarem-no. Vivem
voltados para trás e não para a frente. Avançam recuando.
Quando contam o seu passado, pretendem torná-lo numa
sucessão de aventuras interessantes: transformam-se a si
mesmos num mito. De facto, o passado não pode ser senão
uma massa de acontecimentos gratuitos, à maneira de pontos
dispersos, privados de qualquer espécie de sentido (6).

(4) Le Sursis,  pág. 320.


f ) Pág. 179.
(*) Cf. em Le Sursis  (pág. 349) os propósitos de Mathieu Delarue:
«E que farei eu da minha própria vida? Nada mais simples: havia em
Paris, na Rua Huyghens, um aposento à espera  dele, com duas divisões,
aquecimento central, água, gás, electricidade, duas poltronas verdes e um
caranguejo de bronze sobre a mesa. Ele voltaria a sua casa, introduziria
a chave na fechadura; retomaria a sua cadeira no liceu Buffon. E nada
se teria passado. Absolutamente nada. A sua vida, a vida habitual, espe
rava-o; tinha-a deixado no seu escritório, no quarto de dormir: retomá-la-ia
sem reconstituir histórias — ninguém reconstituiria histórias... num mês
tudo estaria  esquecido — sòmente ficaria uma pequena e invisível cicatriz
HEIDEGGER E SARTRE 163
Estas duas condições da trapaça são puramente nega
tivas. Têm como fim tornar possível a revelação, essencial
à trapaça e, segundo a qual, o mundo é apreendido sob um
aspecto absolutamente inacessível aos «nojentos». Esta revela
ção ontológica, que assinala o ponto culminante da experiên
cia existencial, consiste numa brusca descoberta da existên
cia: «as coisas podem ser de qualquer modo» e não mostram
estabilidade alguma: se, aparentemente, não mudam, isso
deve-se exclusivamente à sua própria indolência ou à nossa.
De um instante para outro, os objectos mais vulgares per
dem a sua consistência e a sua identidade, a linguagem já
não encobre as coisas que, «libertadas dos seus nomes, se
mostram, então, disformes, obstinadas, monstruosas na sua
materialidade indeterminada e absurda. Na realidade, nada
há de estável na existência a não ser aquilo que nós lhe con
ferimos. Esta revelação impõe-nos a ideia ou o sentimento
de que tudo é possível, que não há nem regras nem normas ,
nem quadros fixos e invariáveis, que o espaço e o tempo não
são rígidos mas elásticos.   Por efeito deste deslizamento ou
deste esvaimento do mundo quotidiano, nós caímos a pique
na Náusea (7).
 Já se não deve, portanto, falar em «coisas». As coisas
e o mundo das coisas sou eu quem os constrói ao falar nelas
ou ao olhá-las. Esse mundo não tem qualquer realidade a não
ser a dos conceitos e das palavras pelas quais eu coagulo
o seu derramamento e atribuo sentido à sua absurdidade (8).

na continuidade da sua vida,  uma pequena beliscadura: a lembrança de


uma noite em que se convenceu de que partia para a guerra».
(’) Esta descrição poder-se-á comparar à do mundo caótico da
existência bruta, de Heidegger, tanto mais que também ele toca, como se
viu, o caso da «náusea».
(8) Aqui poder-se-ia evocar Bergson, convidando-nos a ir ao
encontro do real, mediante um esforço violento de renúncia aos quadros
feitos da inteligência conceituai, debruçada sobre a acção e fabricando as
164 AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS

 A experiência da trapaça [az deslizar no seu nada esse mundo


confeccionado geomètricamente.  Todavia, diante da existên
cia reconduzida a si mesma, diamte desse «derramamento
pastoso», eu experimento, ao mesmo tempo, um  profundo
desânimo.  Nada mais há do que a existência, ou seja, qual
quer coisa que é absolutamente contingente e gratuita;  que
está ai sem se saber porquê, sem nada que lhe exija ou expli
que o aparecimento; qualquer coisa que é essencialmente
absurda (9), que «existe preguiçosamente, indolentemente,
numa espécie de frouxidão, como aquilo que não pode impe
dir-se de existir»; qualquer coisa que é demais para a eter
nidade (10).
O desânimo transforma-se em pavor, quando essa visão
do mundo nos revela não só a total ausência de necessidade,
que é o fundo último da existência, mas ainda esse  poder de
 proliferação indefinida   que a caracteriza, semelhante à proli
feração de um tecido canceroso, que não tem outra razão ou
lei que não seja a do impulso primeiro C11). No seu próprio

«coisas». Entretanto, esta ascese bergsoniana, ao lado da de Sartre, não


passa de simples divertimento de salão em dias de chuva! De resto,
Bergson não apresenta o seu método como meio de mergulhar no nada,
mas como meio de atingir o ser e de alcançar o absoluto.
(') Cf. La Nausée,  pág. 167: «Nenhum ser pode explicar a exis
tência. A contingência não é aparência enganadora que se posia desnudar;
é o absoluto e, por consequência, a perfeita gratuidade. Tudo é gratuito;
esta cidade, este jardim, eu próprio. Se damos conta disso, logo entramos
dentro de nós mesmos e tudo começa a flutuar... é a Náusea; eis o que
os Nojentos... tentam encobrir com a sua ideia de direito. Mas que grande
mentira: ninguém tem direito; eles são inteiramente gratuitos como os
outros homens; eles não chegam a sentir-se demais...» — Ibid., pág. 193:
«Os existentes nascem sem razão, prolongam-se por fraqueza e morrem
por embate».
(”) La Nausée,  pág. 113.
(u) Métalnikoff {Immoríaliíé et rajeiinissement dans la biologie
moderne,  Flammarion, 1924) diz que um infusório microscópico poderia
em quatro meses dar origem a um volume de matéria viva ultrapassando
HEIDEGGER E SARTRE 165
movimento, a existência, que não pode impedir-se de existir,
tende a invadir tudo e a tudo ocupar (1Z).

3. A experiência da Náusea, diz Sartre, tem valor


metafísico. Revela-nos o fundo do ser e, como tal, deve
conduzir-nos a uma nova visão do mundo das coisas e do
homem (13). Heidegger delineou, nas suas obras, o quadro

a do globo, se essa proliferação não fosse coibida por causas externas.


«Isto dá bem ideia da força extraordinária que possui a microscópica
célula viva que assimila e edifica o seu protoplasma com tão maravilhosa
energia e celeridade». Pois é exactamente esta «maravilha» que a Sartre
provoca a náusea.
(“ ) Cl. Edmonde Magny (loc. cit.) faz notar que toda esta descri
ção da Náusea dimana de um preconceito evidente. Trata-se, seguramente,
como Sartre pretende, de uma escolha.  Mas esta escolha precisa de ser
justificada, a fim de valer como experiência cósmica. Ora, não se pode
deixar de verificar que a justificação não passa de simples trocadilho de
palavras, que já no plano literário se evidencia bem perante o abuso com
que Sartre emprega, por exemplo, o termo «obsceno», aplicando-o a
objectos que os «normais» de forma alguma consideram obscenos (a mão,
as feições do rosto) e ainda perante os epítetos de que ele se serve, como
«pastoso», «viscoso», para qualificar coisas e gentes. Por outro lado, Sar
tre encara os actos humanos como sendo despidos de qualquer espécie de
sentido, absolutamente vazios de intenção racional. A impressão de estra
nheza e de absurdidade que dimana dos seus escritos é semelhante à for
necida por uma fotografia que tivesse fixado apenas os movimentos das
pernas de um grupo de homens a caminhar: esses movimentos obstinados,
estereotipados, sem finalidade aparente, dos membros inferiores, deverão
afigurar-se monstruosamente inúteis e estúpidos. Assim é a humanidade
que nos apresenta J.-P.-Sartre: os homens são desumanizados; agitam-se
estèrilmente no vácuo absoluto, sem outra justificação que não seja a de
estarem condenados a essa agitação. Mas o que, aqui, também é evidente
é que os dados estão falseados e que nós nos encontramos em pleno
arbitrário.
(u) Aqui, basta apenas recordar a objecção, várias vezes leva»*
tada, durante o nosso estudo sobre Heidegger: a experiência da náusea
(supondo-a efectiva)  só  pode ter valor individual. Corresponde à expe
riência de J.-P. Sartre e nada mais. O seu «valor metafísico» nSo  paSSb