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DOI 10.

1590/S0103-40142015000100020

O poema em prosa em foco


Álvaro Faleiros I

R nuras, Arte dalançado


ecentemente pela Ilumi-
pequena reflexão:
laire, em tradução de Aurélio Buarque
de Holanda escolhida por Paixão, é uma
poema em prosa contemporâneo, de das que melhor sintetizam a nova poéti-
Fernando Paixão, como assinala o pró- ca em curso à época:
prio autor, debruça-se sobre um tema qual de nós, em seus dias de ambi-
que, apesar de sua grande importância ção, não sonhou com o milagre de
para o desenvolvimento da poesia no uma prosa [que fosse] poética, mu-
século XX, ainda não foi devidamente sical sem ritmo e sem rima, bastante
estudado – o poema em prosa. Fernan- maleável e bastante rica em contras-
do Paixão avança e explora algumas das tes para se adaptar aos movimentos
possibilidades dessa forma poética na líricos da alma, às ondulações do
produção contemporânea. devaneio, aos sobressaltos da cons-
Fruto de sua tese de doutorado, de- ciência?
fendida na PUC de São Paulo em 2004, Pode-se dizer que ela é um mote para
o livro se coloca três grandes questões: o estudo. Na Parte I do livro, dedica-
Como definir o poema em prosa? Que da a tópicos de linguagem e de com-
tipo de linguagem esse gênero prioriza? posição, o que interessa é, nas palavras
Quais são suas características? do próprio autor, “capturar a dinâmica
Perguntas tão abrangentes e funda- do poema em prosa”. Capturá-la im-
mentais exigem, como bem nota o au- plica, aqui, justamente debruçar-se so-
tor, necessariamente um recorte. Em seu bre “movimentos líricos”. Para tal, as
trabalho, optou por partir das origens noções escolhidas foram metonímia e
francesas, colocando algumas questões fragmento, narração e descrição, além
iniciais justamente a partir daquele que do ritmo, por vezes também chamado
elaborou primeiro as bases do gênero, de melopeia. Fernando Paixão inicia sua
isto é, Charles Baudelaire e seus Petits análise discutindo, a partir de Agamben,
poèmes en prose, publicados em 1869. A a identificação do enjambement como
cuidadosa pesquisa empreendida, inspi- aquilo que define a poesia em oposição
rada em trabalhos como o de Suzanne à prosa. Interessa à discussão o fato de a
Bernard, leva a discussão a textos bem quebra do verso “interferir no ritmo e
anteriores ao de Baudelaire; iniciando até mesmo no imaginário dos versos” ou
com Les aventures de télémauque, de Fe- ainda o fato de a linearidade tipográfica
nelon, publicado em 1699, passando por do poema em prosa reforçar sua discur-
autores como Marmotel, Parny, Flocon sividade. Essa linha de argumentação,
e Mérimé, para chegar assim ao precur- por se interessar pela “configuração de
sor de Baudelaire, Aloysius Bertrand. um imaginário distinto”, retoma a tese
Mas, como indica um dos capítulos do de Barbara Johnson de que o poema
livro, o “gênio do gênero” é mesmo em prosa se caracterizaria pela predo-
Baudelaire e é a partir dele que a refle- minância da metonímia como figura de
xão é conduzida. A citação de Baude- linguagem, diferentemente do poema

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em versos, mais inclinado ao uso de me-
táforas. Fernando Paixão coloca à prova
esse princípio por meio da análise de um
poema de Charles Simic, no qual verifica
a presença de um “efeito de contiguida-
de”; constatação que não o impede de
atentar para o risco de generalização da
premissa. Abre-se assim o campo para a
discussão da “fragmentação” como ou-
tro possível mecanismo característico do
poema em prosa; a análise, dessa vez,
é ilustrada por um poema do espanhol
Andrés Sánches Robayna.
Esse procedimento de close reading é
replicado ao longo do livro, permitindo
ao leitor acessar in loco os mecanismos; PAIXÃO, F. Arte da pequena reflexão:
dentre os quais Paixão destaca outro poema em prosa contemporâneo.
par – narração e descrição. Para o autor, São Paulo: Iluminuras, 2014. 212p.
no poema em prosa, como demonstra
ao longo de dois instigantes capítulos,
a narrativa encontra-se “sob tensão” e “as imagens, e não somente as palavras,
a descrição cria uma “semiose intensi- interagem com os efeitos do ritmo”.
va”. Um terceiro e último princípio que Como se pode notar nas duas citações
“participa diretamente da composição aqui, elementos linguísticos são relacio-
do poema em prosa” é o ritmo. Com nados à imagem e ao imaginário. Com
sua capacidade de traçar de modo claro efeito, esses parecem ser centrais em sua
e objetivo panoramas históricos, Paixão reflexão e parecem ser o “algo mais” ci-
explica que, mesmo se diferente das no- tado no capítulo sobre o ritmo – intitu-
ções de ritmo simbolistas e de futuris- lado “melopeia e algo mais”.
tas, esse continua a cumprir um papel Se retomarmos os princípios que ca-
importante na construção do poema em racterizam o poema em prosa ao longo
prosa. do livro é possível notar, por exemplo,
Está em jogo a criação de repeti- que o autor, ao descrever o efeito do
ções, de ecos e de pausas que sustentam enjambement, destaca que “esse recur-
e “emprestam vivacidade às imagens”, so de linguagem […] produz um efei-
mas o modo como o ritmo se configura to correspondente no imaginário”; ao
é bem diferente. Ao analisar um poema referir-se à metonímia, aponta que essa
de Ferreira Gullar, o autor destaca que o ideia-síntese “permite captar certos me-
que caracterizaria seu ritmo seria a estru- canismos imaginários ligados ao gêne-
tura e a imagem da primeira frase, assim ro”; ao reescrever em versos um poema
como o encadeamento da enumeração em prosa de Simic, explica que “é pos-
que segue. Nessa dinâmica, a pontuação, sível perceber certa mudança de tonali-
a tonalidade das frases, os torneios vocá- dade e de colorido no poema, quando
licos vão constituindo o poema, no qual as imagens parecem transfiguradas em

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Foto Reprodução
Charles Baudelaire (1821-1867)

versos”. Os exemplos se multiplicam ao letânea de poemas em prosa, formada


longo das análises e colocam em evidên- por nomes como os de René Char, Pier-
cia a importância do ritmo, muitas ve- re Louÿs, Czelaw Milosz, James Tate,
zes chamado de “fluência”, “cadência”, Mário Quintana, Jorge de Lima, Murilo
“respiração”, fazendo que seja o produ- Mendes, Francis Ponge, Alejandra Pi-
tor de um “tônus narrativo”, um “fluxo zarnik, Ferreira Gullar, Carlos Drum-
narrativo”, uma “linha de ação” caracte- mond de Andrade, Edmond Jabès, Zul-
rístico do poema em prosa. É o próprio mira Ribeiro Tavares, Yves Bonnefoy…
autor quem afirma na página 129: Sendo Charles Simic e Herberto Helder
[…] a natureza rítmica desse tipo merecedores de capítulos a parte.
de escrita funciona ao modo de uma Enfim, o amplo leque de línguas em
linha contínua. Cabe ao poeta puxá- que os poemas originais foram escritos
-la e compor um traçado próprio, somado ao entendimento do ritmo,
sugerir imagens utilizando o con- sobretudo como produção de con-
traponto de palavras, tons, espaços e trapontos de palavras, tons, espaços e
pontuações. O fluxo das frases cor- pontuações, talvez justifique o fato de
responde ao movimento da linha. as análises serem feitas, na maioria das
Para ilustrar a diversidade de traçados, vezes, a partir das traduções sem que o
é mobilizada uma considerável variedade original seja reproduzido; uma ausência
de autores, de diversas nacionalidades, o sentida para os conhecedores das línguas
que leva à construção de uma rica co- originais, que poderiam, por meio do

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cotejamento, acessar algumas camadas
que nem sempre as traduções abarcam.
Essa ausência, contudo, não impede que
esse trabalho venha preencher uma im-
portante lacuna no Brasil, ainda mais se
levarmos em conta o lugar central que
essa “arte da pequena reflexão” ocupa
no espaço lírico contemporâneo.

Álvaro Faleiros é doutor em Letras pela


Universidade de São Paulo (2003); pro-
fessor de Literatura Francesa da FFLCH-
USP. @ – faleiros@usp.br

I
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo,
São Paulo/SP, Brasil.

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