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UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS

CURSO DE DIREITO

TEORIA CONTEMPLADA NO EXAME DE PROFICIÊNCIA EM

LÍNGUA PORTUGUESA III


Elaboração: Profª Dra. Carolina Knack

1
ARGUMENTAÇÃO: INTRODUÇÃO

Palavras iniciais
Segundo Filho1, “compor conflitos de interesses por meio judicial é uma das funções primordiais
do Direito. Tais conflitos advêm de divergentes formas de se interpretar um determinado fato jurídico. É
nessa instância que se legitima o texto argumentativo.”

O autor explica que “a argumentação jurídica caracteriza-se, especialmente, por servir de


instrumento para expressar a interpretação sobre uma questão do Direito, que se desenvolve em um
determinado contexto espacial e temporal.” Por isso, ao operar a interpretação, “impõe-se considerar esses
contextos, ater-se aos fatos, às provas e aos indícios extraídos do caso concreto e sustentá-la nos limites
impostos pelas fontes do Direito.”

Resumidamente, um profissional do Direito deve recorrer ao texto argumentativo para defender


seu ponto de vista, mas para o sucesso dessa tarefa, precisa ter, antes, uma boa narração, na qual foram
expostos os fatos de maior relevância sobre o conflito debatido. 2

DESCREVER, NARRAR E ARGUMENTAR

A arquitetura do texto jurídico dá-se a partir das inter-relações entre três atos discursivos: o
descrever, o narrar e o argumentar.

No Direito, é de grande relevância o que se denomina tipologia textual: narração, descrição


e dissertação. O que torna essa questão de natureza textual importante para o direito é a
sua utilização na produção de peças processuais, como a Petição Inicial, a Contestação, o
Parecer, a Sentença, entre outras, podendo cada uma delas apresentar diferentes
estruturas, a um só tempo. Para melhor compreender essa afirmação, observe o esquema
da Petição Inicial e perceba como essa peça pertence a um gênero híbrido do discurso
jurídico, o que exige do profissional do direito o domínio pleno desses tipos textuais. 3

1
FILHO, João N. Cerqueira. Teoria da argumentação: caderno de exercícios. Curso de Direito. [s.d.]
2
Idem.
3
FETZNER, Nely L. C. (organizadora). Interpretação e produção de textos aplicados ao Direito. Rio de Janeiro: EReditora Rio, Ed.
Saraiva, 2008. Disponível em: <http://www.faeso.edu.br/downloads/Interpretacao%20e%20Producao%20de%20
Textos%20Aplicadas%20ao%20Direito.pdf> . Acesso em: 20 jan. 2016.
2
DESCREVER

Conforme define Gélson Clemente dos Santos (1983, p.183), a “descrição é a reprodução de uma
realidade – é a representação verbal de um aspecto, ou sequência de aspectos. Na descrição, o emissor
provoca na mente do receptor uma impressão sensível, procura fazer com que o leitor ‘veja’ na sua mente
um objeto material ou um processo espiritual”.
Desse conceito, apreende-se o objetivo da descrição: compor a imagem de uma ideia, fazendo a
representação simbólica dessa imagem por meio de palavras: seja a pessoa, seja o ambiente, seja a
natureza (estética ou espiritual), um objeto, um sentimento, uma cena, o redator vai dando à linguagem
impressões que permitam ao receptor “ver” o que está sendo descrito.

Charaudeau (2008)4 sustenta que a descrição se concretiza mediante um nomear, um situar e um


qualificar. Assim, quando escrevemos que Fulano é brasileiro, casado, com domicílio na Rua X, n. Y,
estamos: (i) nomeando (Fulano), (ii) situando (nascido no Brasil, morando na rua tal), e (iii) qualificando: é
casado, brasileiro etc.

A descrição é empregada largamente na redação jurídica, porque a narrativa dos fatos é tecida por
meio do relato das ações, buscando os elementos e pormenores que pintem o quadro, segundo a versão da
parte processual. Valda Oliveira Fagundes, em sua obra O discurso do júri: aspectos linguísticos e retóricos
(1987), demonstra que as narrativas da acusação e da defesa são construídas pelo relato dos fatos, e estes
elementos funcionam como argumentos (função argumentativa).

NARRAR

Uma narração expressa um conjunto de transformações de situações que remetem a personagens


determinadas, mesmo coletivas. Opera com personagens, portanto, situações, tempos e espaços entre os
acontecimentos. Conta eventos sequenciais, concomitantes, anteriores ou posteriores a outros. Ao
encadear uma sequência de fatos (reais ou fictícios) em que personagens se movimentam num certo
espaço à medida que o tempo passa, o autor está assumindo a atitude linguística de narração. Em outras
palavras, o autor usa a linguagem verbal para construir um universo dinâmico, sujeito a constantes
transformações.
Elementos da narrativa
Estrutura da narrativa: - fato (o que aconteceu);
- situação inicial; - partes envolvidas (quem participou);
- complicação ou desenvolvimento; - modo (como aconteceu);
- ápice; - tempo (quando aconteceu);
- desfecho. - lugar (onde aconteceu);
- causa (por que aconteceu);
Conte uma história com início, meio e fim! - consequência (por isso).

4
CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso. São Paulo: Contexto, 2008. (cf. Profa. Juliana Camargo).
3
DESCREVER E NARRAR PARA ARGUMENTAR: A CONSTRUÇÃO DE UM PONTO DE VISTA5

Embora a narrativa de certas peças processuais não admita uma atividade persuasória expressa,
tem diluído, em seu conteúdo, grande poder de convencimento, já que dos fatos surgem os
direcionamentos da argumentação e as informações necessárias para que uma tese seja compreendida e
aceita.
Na narrativa jurídica, o ponto de vista do narrador, ainda que não venha expresso diretamente, pode
estar sugerido não só pela seleção vocabular, como também pela seleção dos fatos a serem narrados. Esse
ponto de vista, conduzido pelo transcurso do tempo, abre espaço para a aceitação de uma tese, que
somente poderá ser exposta em outro momento e em outro discurso: o argumentativo.

Observe o esquema que traduz esse raciocínio:

Síntese das características dos atos de narrar e de argumentar.6

NARRAR ARGUMENTAR
Expor os fatos importantes do caso Defender uma tese (ponto de vista)
Qual o concreto a ser solucionado no compatível com o interesse da parte
Objetivo? Judiciário. que o advogado representa.
Cada fato representa uma O fato (informação) narrado é aqui
Como o fato é informação que compõe a história da retomado com o status de elemento
tratado? lide a ser conhecida no processo. de persuasão; é um elemento de
prova com o qual defende a tese.
Pretérito – é o mais utilizado, porque Presente – tempo verbal mais
todos os fatos narrados já ocorreram. adequado para sustentar o ponto de
(Ex.: o empregado sofreu um vista. (Ex.: o autor deve ser indenizado
acidente); por seu empregador);
Presente – fatos que se iniciaram no Pretérito – deve ser usado para
passado e que perduram até o retomar os fatos (provas / indícios)
momento da narração. (Ex.: o relevantes da narração, com os quais
Qual o tempo empregado está sem capacidade defenderá a tese. (Ex.: o autor deve ser
verbal utilizado? laborativa); indenizado por seu empregador porque
Futuro – pouco utilizado, mas pode sofreu um acidente no local de
ser empregado para apontar trabalho);
consequências que possam advir dos Futuro – deve ser usado ao

5
FETZNER, Nely L. C. (organizadora). Interpretação e produção de textos aplicados ao Direito. Rio de Janeiro: EReditora Rio, Ed.
Saraiva, 2008. Disponível em: <http://www.faeso.edu.br/downloads/Interpretacao%20e%20Producao%20de%20
Textos%20Aplicadas%20ao%20Direito.pdf> . Acesso em: 20 jan. 2016.
6
FILHO, João N. Cerqueira. Teoria da argumentação: caderno de exercícios. Curso de Direito. [s.d].
4
fatos. desenvolver as hipóteses
argumentativas. (Ex.: o trabalhador
deve receber o benefício do INSS,
pois, caso contrário, não terá como se
sustentar).
Qual a pessoa Utiliza-se geralmente a 3ª pessoa – Também se utiliza geralmente a 3ª
do discurso? advogado que narra o que aconteceu pessoa. Mas outras são possíveis
ao cliente. também, como 1ª pessoa do singular
ou plural.
Como os fatos Os fatos são dispostos em ordem Os fatos e as ideias são organizados
são cronológica, ou seja, na mesma em ordem lógica, ou seja, da maneira
organizados? ordem em que aconteceram no mais adequada para alcançar a
mundo natural. persuasão do auditório.
Uma narrativa bem redigida deve Antes de redigir uma argumentação
responder, sempre que possível, às consistente, tente refletir sobre, pelo
seguintes perguntas: a) O quê? (fato menos, as seguintes questões: a) Qual
Quais seus gerador); b) quem? (partes); c) onde? o fato gerador do conflito? b) qual a
elementos (local do fato); d) quando? (momento tese que será defendida? C) com que
constitutivos? do fato); e) como? (maneira como os fatos sustentará essa tese? d) Que
fatos ocorreram); f) por quê? tipos de argumentos deverá utilizar?
(motivações da lide).
O texto narrativo tem natureza O texto argumentativo tem função
Qual a natureza predominantemente informativa. persuasiva por excelência.
do texto? Sua função persuasiva está atrelada à
fundamentação.
Quanto à Uma narrativa pode ser simples Não há como defender uma tese sem
parcialidade... (imparcial) ou valorada, dependendo adotar um posicionamento. Toda
da peça a produzir. argumentação é valorada.

5
ARGUMENTAÇÃO: ASPECTOS TEÓRICOS

Segundo Charaudeau7, quando pensamos o discurso argumentativo, é importante destacar que seu
modo de organização é mais delicado que o do narrativo. Talvez porque o narrativo, dando conta das ações
humanas, esteja mais relacionado a uma forma de realidade “visível e tangível”. O argumentativo, ao
contrário, contata com o saber que tenta dar conta da experiência humana através de certas operações de
pensamento. Aliás, não se pode anular uma narrativa. Pode-se dizer que é inexata ou inventada, mas sua
contestação não é abolida. Em contraposição, uma argumentação pode ser negada em seu fundamento
mesmo ou, em todo caso, anulada em sua validade. Ela desaparece sob a contestação se ela não a pode
superar.
Isso porque a argumentação é uma prática humana que parte da divergência para chegar a uma
convergência. Se a compararmos a uma flecha, o arco é a divergência e o alvo é a convergência. A
divergência é o ponto de partida da ação de argumentar. Não se defende uma ideia se ela é aceita por
todos. Se há pelo menos duas posições possíveis sobre um tópico, existe a possibilidade de alguém
precisar construir um discurso argumentativo a respeito. Para essa possibilidade se transformar em
realidade, o sujeito que argumenta precisa ter, antes de tudo, um desejo de convergência, um ideal de
apagamento de diferenças, de construção de um consenso a partir da aceitação de sua ideia pelas outras
pessoas. É para os outros que se argumenta: a atividade discursiva argumentativa tem o objetivo de mudar
o pensamento e, muito frequentemente, as ações daqueles para os quais é dirigida. Essa ação sobre o
outro é o ideal da conduta argumentativa, que se efetiva na medida em que o sujeito-alvo concorda com a
tese que lhe é apresentada e modifica seu comportamento ou pelo menos percebe a racionalidade que
sustenta esse posicionamento, argumentam Savioli e Fiorin 8.
Como realizar esse percurso? O que deve haver na argumentação para que a divergência inicial se
transforme em convergência final? Charaudeau 9 afirma que é preciso que o sujeito da argumentação
empreenda uma dupla busca: de racionalidade e de influência. Espera-se, de quem argumenta, que
apresente razões que justifiquem sua tese, mas essas razões dependem não da lógica num sentido estrito,
mas em grande parte dos conhecimentos e das crenças compartilhadas por seu auditório ou sujeito-alvo.
Essa racionalidade que não obedece necessariamente a uma lógica formal, mesmo quando se trata
de uma decisão judicial, está, portanto, também à mercê da outra busca implicada no jogo argumentativo:
quem argumenta busca exercer influência, atendendo ao ideal de fazer com que os outros compartilhem
uma mesma opinião. Essas duas buscas precisam andar juntas para que se tenha uma conduta
argumentativa. É por essa razão que não há argumentação quando, por exemplo, alguém se vale tão-
somente da sedução ou da força para levar o outro a compartilhar sua convicção, sem apelo à
racionalidade. É pela mesma razão que uma argumentação pode simplesmente não funcionar se ela,
mesmo dispondo das mais lógicas razões, não levar em conta os valores, as crenças e os saberes de seu
sujeito-alvo.
Conforme Charaudeau10, para que haja argumentação é preciso que exista:
- um propósito sobre o mundo que faça questão para alguém quanto a sua legitimidade;
- um sujeito que se engaja relativamente a esse questionamento (convicção) e desenvolve um
raciocínio para tentar estabelecer uma verdade (seja própria ou universal, trate ela de uma simples
aceitabilidade ou de uma legitimidade) sobre esse propósito;
- um outro sujeito que, respeitado pelo mesmo propósito, questionamento e verdade, constitui o alvo
da argumentação. Trata-se de uma pessoa à qual se dirige o sujeito que argumenta, no desejo de levar ao
partilhamento da mesma verdade (persuasão), sabendo que ele pode aceitar (pró) ou refutar (contra) a
argumentação.

7
CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2014.p.201.
8
SAVIOLI, F. P.; FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006.
9
CHARAUDEAU, P. op.cit., p.206.
10
Ibid., p.205-206.
6
De modo geral, segundo Goldnadel11, podemos considerar que uma conduta argumentativa tem as
seguintes características:
1. Sujeito que argumenta/ sujeito da argumentação – É aquele que produz a argumentação, que
deseja agir sobre o outro, modificando sua maneira de pensar ou mesmo seu comportamento. Nem
sempre há coincidência entre o falante e o sujeito da argumentação. Por exemplo, é comum que um
presidente de sindicato fale por sua categoria e não em seu próprio nome.

2. Objetivo – Quem produz um discurso argumentativo não deseja simplesmente informar seu sujeito-alvo
das diferentes opiniões acerca de um campo problemático. Quer convencer seu auditório a aceitar sua
resposta ao problema.

3. Interlocutor ou sujeito-alvo – Os dois termos podem designar o que a retórica chama de auditório:
aquele(s) que se deseja convencer por meio da argumentação.

4. Campo problemático – Uma argumentação responde a um problema central, a uma questão polêmica.
O campo problemático tende a preexistir ao discurso argumentativo, raramente sendo criado pelo
sujeito da argumentação. Este, na verdade, constrói seu discurso como uma resposta a esse campo,
procurando convencer seus interlocutores de que sua resposta ao problema é aceitável. Por exemplo,
numa sentença em que o juiz decide que a guarda de uma criança (X) deve ficar com a mãe, o campo
problemático poderia ser expresso na forma de uma pergunta: Quem deve ficar com a guarda da
criança X?

5. Tese – É a posição do sujeito da argumentação em relação a um campo problemático. É a ideia que


esse sujeito pretende ver aceita por seu auditório. Utilizando-se o mesmo exemplo da sentença, a tese
defendida pelo juiz é a de que a guarda da criança X deve ficar com a mãe.

6. Argumentos – Argumento é uma razão apresentada para convencer os interlocutores da aceitabilidade


da tese defendida. Um discurso argumentativo deve apresentar pelo menos um argumento; do
contrário, não fará o apelo à racionalidade, essencial para caracterizar uma atitude argumentativa. A
lógica da argumentação é importante, mas, como observado anteriormente, os discursos
argumentativos cotidianos costumam não depender tanto de uma lógica estrita, mas sim da
verossimilhança dos argumentos junto ao sujeito-alvo. No caso da sentença sobre a guarda da criança
X, um argumento que poderia ser usado pelo juiz é o desejo expresso pela criança de que prefere ficar
com a mãe ou o pouco interesse demonstrado pelo pai em relação a seu filho.

Ao produzirmos ou ao ouvirmos/lermos um texto argumentativo, todos esses itens se fazem


presentes. Alguns na superfície do texto, outros escondidos nas suas entrelinhas. Afinal, para que um texto
possa ser entendido, é preciso sempre ler tanto o que é dito como o que não é dito.

TEXTO COMPLEMENTAR
CUNHA, Marcelo G. Argumentação processual: como articular estrategicamente a palavra em juízo. Porto
Alegre: Núria Fabris, 2010.

11
GOLDNADEL, M. Língua Portuguesa III. Apostila. São Leopoldo: UNISINOS, 2006.
7
8
ARGUMENTAÇÃO: TIPOS DE ARGUMENTOS

Introdução12

Um texto bem estruturado, construído com argumentos escolhidos segundo os objetivos do


discurso, atua com maior intensidade no ânimo do destinatário. E como se define a eficácia de um
argumento? Isso dependerá sempre da solidez do raciocínio que o sustenta e de como ele é recepcionado
pelo interlocutor.
A seguir, elencamos alguns argumentos que, de acordo com a finalidade almejada, podem ser
empregados no discurso jurídico. Não é demasiado alertar que a formação de argumentos é condicionada
por fatores variáveis, como o contexto discursivo e a capacidade de criação de quem afirma determinado
ponto de vista. Impossível, portanto, encerrá-los em uma listagem exaustiva. Sendo assim, neste material,
trataremos de alguns tipos de argumento.

1. Argumento de autoridade13

O argumento de autoridade consiste na citação de autores renomados, autoridades num certo


domínio do saber, numa área da atividade humana, para corroborar uma tese, um ponto de vista. Na
argumentação jurídica, o juízo de uma autoridade acerca do assunto, acolhendo a tese defendida, confere
ao discurso maior confiabilidade e serve como meio de prova em favor de uma proposição.
Para que esse recurso tenha o efeito pretendido, é necessário que a pessoa invocada seja
efetivamente uma autoridade respeitada pelo auditório. Por autoridade, entende-se aquele sujeito dotado de
uma ascendência resultante de investidura acadêmica ou funcional, ou alguém que reconhecidamente
possui grande competência em um assunto ou ofício. Nesse sentido, no âmbito jurídico, a autoridade pode
ser uma instituição, professor universitário, teórico, legislador, juiz, advogado, promotor ou qualquer
profissional possuidor de influência entre os juristas.

Escrever e falar corretamente é um objetivo a ser perseguido por todos, não importa a
área de atuação. Mas no campo jurídico o cuidado deve ser ainda maior, sob pena de
comprometer, de forma irremediável, não só a imagem do profissional, como o próprio
resultado do seu trabalho. "O Direito é a profissão da palavra, e o operador do Direito, mais
do que qualquer outro profissional, precisa saber usá-la com conhecimento, tática e
habilidade", adverte Eduardo Sabbag [...].
Advogado e professor, doutor em Direito Tributário e doutorando em Língua
Portuguesa pela PUC-SP, Eduardo Sabbag admite que a expressão "português jurídico"
pode criar uma falsa impressão sobre o seu significado, como se a língua portuguesa fosse
diferente para médicos, dentistas, engenheiros e advogados. "A língua é uma só, não
importa quem dela faz uso", adverte, ressaltando que o “português jurídico” é a simples
aplicação das regras gramaticais aos recursos expressivos mais usuais no discurso jurídico.
Em outras palavras, de acordo com sua própria definição, "a exteriorização jurídica do
sistema gramatical".14

Além da citação de autores renomados, a citação de doutrina também é comum como argumento
de autoridade no discurso forense atual.

2. Argumento baseado em prova(s) concreta(s)

São fatos comprobatórios, que servem para justificar opiniões, apreciações, ponto de vista,
julgamentos, etc. Os dados apresentados devem ser pertinentes, suficientes, adequados, fidedignos. As
provas concretas podem ser cifras, estatísticas, dados históricos, fatos da experiência cotidiana, exemplo de
um caso em particular, ilustração (caso concreto), etc. Esse argumento, "quando bem feito, cria sensação
de que o texto trata de coisas verdadeiras e não apresenta opiniões gratuitas", defendem Savioli e Fiorin 15.
12
CUNHA, M. G. Argumentação processual: como articular estrategicamente a palavra em juízo. Porto Alegre: Núria Fabris Ed.,
2010.p.97
13
Ibid., p.97-98.
14
PEREIRA, R.. As armadilhas da língua portuguesa no dia a dia forense. Revista Consultor Jurídico. 10 mar. 2014. Disponível em:
<http://www.conjur.com.br/2014-mar-10/estante-legal-manual-armadilhas-gramaticais-cotidiano-forense>.
15
SAVIOLI, F. P.; FIORIN, J. L. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006. p. 288.
9
Esse dado é relevantíssimo, principalmente diante de um Judiciário sobrecarregado,
moroso e que não propicia em tempo razoável as respostas demandadas pelo
jurisdicionado. O Brasil possui 90 milhões de processo em tramitação, segundo o Conselho
Nacional de Justiça. Foram ajuizadas em 2011 um total de 26,5 milhões de novas ações. O
país conta com mais de 16 mil juízes, resultando na média de oito magistrados por 100 mil
habitantes, uma situação similar a que encontramos em países europeus. Na Espanha, há
dez juízes para cada 100 mil habitantes. Na Itália, onze por 100 mil.16

Deve-se tomar cuidado com argumentos que fazem apelo a uma totalidade indeterminada, pois
basta um único caso em contrário, para derrubá-los. Se alguém diz "Todo político é ladrão", basta que se
cite um que não seja, para que o argumento deixe de ter validade. Por outro lado, se alguém diz "Nenhum
europeu toma banho todos os dias", basta que se cite um que o faça, para que o argumento deixe de ter
validade. No geral, essas generalizações feitas com base em dados insuficientes revelam apenas nossos
tabus e preconceitos. Cuidado, portanto, com generalizações do tipo: nunca, sempre, todos, ninguém, nada,
entre outros.

3. Argumento baseado no raciocínio lógico

Esse argumento diz respeito às relações entre duas ou mais proposições, das quais se extrai uma
conclusão lógica.17

Ora, se as autoridades brasileiras não conseguem garantir um mínimo de segurança ao


brasileiro comum, papel que incumbe, legitimamente, ao Estado garantir, não pode querer
deixá-lo indefeso frente à violência, coibindo-lhe o direito de ter uma arma, para impedir, por
exemplo, que sua casa – espaço privado inviolável que todo ser humano tem direito de
preservar – seja violada por um assaltante, papel efetivamente não realizado por quem
deveria realizá-lo: o poder público.18

4. Argumento baseado no consenso19

É o uso, para fins de argumentação, de uma proposição evidente por si mesma ou aceita
universalmente. Embora o consenso absoluto seja provavelmente uma utopia, o fato é que certas
proposições são aceitas socialmente como "verdades inquestionáveis", não necessitando de comprovação
quando enunciadas num discurso. O argumento de consenso é uma asserção indiscutível, evidente e
universalmente aceita.
Desse modo, se alguém afirma que a função do direito é distribuir justiça ou, também, na mesma
esteira, afirma que sem educação o país não vai adiante, está utilizando argumentos consensuais.

O mais recente caso de corrupção em obras públicas contém os ingredientes de praxe:


empresas aliadas ilegalmente para superfaturar produtos e serviços, administrações
públicas omissas ou coniventes com a rapina do dinheiro do contribuinte e órgãos
fiscalizadores ineficazes e morosos. Nesse contexto de incúrias, até o papel do Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (CADE) é controverso, uma vez que o órgão
encarregado da fiscalização de empresas é subordinado ao Ministério da Justiça, sob o
comando do petista José Eduardo Cardozo, até pouco tempo cotado para concorrer à
sucessão paulista pelo PT 20.

Se é verdade que qualquer ato de violência traumatiza o indivíduo em formação, também é


válida a tese do limite que deve ser dado ao cidadão, particularmente nos primeiros anos de
vida.21

16
ARBEX, S. C. Tendências e debates: Regra única para todos. Folha de S. Paulo. 2013. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/95165-regra-unica-para-todos.shtml>. Acesso em: 1 ago. 2014.
17
PETRI. M. J. C. Manual de Linguagem Jurídica. São Paulo: Saraiva, 2009.
18
MULLER, L. Tipos de argumentos. Polígrafo de Português II. Faccat, 2011.
19
SAVIOLI, F.P.; FIORIN, J.L.,op.cit.,p.285.
20
EDITORIAL. O escândalo do metrô. Zero Hora. Publicado em 07 de agosto de 2013. Disponível em:
http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/?topo=13,1,1,,,13. Acesso em: 07 ago. 2013.
21
MULLER, L. Tipos de argumentos. Polígrafo de Português II. Faccat, 2011.
10
5. Argumento da competência linguística

O argumento da competência linguística é aquele em que conteúdo e forma misturam-se para levar
à persuasão. Na medida em que todo discurso é constituído por meio de palavras, pode-se dizer que a
escolha delas é também um tipo de argumento e, assim, tornam-se inseparáveis forma e sentido.22
Como o modo de dizer dá confiabilidade ao que se diz, em muitas situações de comunicação
(discurso político, jurídico, religioso, pedagógico, etc.) exige-se o uso da variante culta da língua, bem como
da linguagem própria da profissão e, ainda, um vocabulário adequado à situação de interlocução. 23
Pensemos em dois pareceres médicos, por exemplo: (a) "Com isso poderá receber na corrente
sanguínea soluções de glicose, cálcio, vitamina C, produtos aromáticos - tudo isso sem saber dos riscos
que corre pela entrada súbita deste produto na circulação”. Esta passagem tem mais força argumentativa
do que (b) “Com isso poderá passar para o sangue um monte de drogas, sem noção de prejuízo que isso
dá”.
No entanto, é preciso considerar que palavras difíceis não significam diretamente competência
linguística, pois a boa argumentação é aquela que se transmite com fluência, com objetividade e não, ao
contrário, com palavras que dificultam a compreensão. 24

Destarte, como coroamento desta peça-ovo emerge a premente necessidade de


jurisdição fulminante, aqui suplicada a Vossa Excelência. Como visto nas razões suso
expostas com pueril singeleza, ao alvedrio da lei e com a repulsa do Direito, o energúmeno
passou a solitariamente cavalgar a lei, este animal que desconhece, cometendo toda sorte
de maldades contra a propriedade deste que vem às barras do Tribunal. Conspurcou a boa
água e lançou ao léu os referidos mamíferos. Os cânones civis pavimentam a pretensão
sumária, estribada no Livro das Coisas, na Magna Carta, na boa doutrina e nos melhores
arestos deste sodalício. Urge sejam vivificados os direitos fundamentais do Ordenamento
Jurídico, espeque do petitório que aqui se encerra. O apossamento solerte e belicoso deve
ser sepultado ab initio e inaudita altera parte, como corolário da mais lídima Justiça.25

No Direito, competência linguística significa linguagem precisa, direta, culta e clara. O patamar da
linguagem culta, entretanto, diferencia-se da linguagem “preciosa” – falsamente pomposa.26

Do que foi exposto acima, conclui-se que os fatos narrados nesta petição inicial são
incontroversos e estão provados sumariamente por meio dos documentos aqui juntados.
Tanto o Código Civil como a Constituição da República contêm regras claras que protegem
a propriedade, observada sua função social – ou seja, exatamente a hipótese deste
processo. Como nos ensinam a melhor doutrina e a jurisprudência, o pedido em exame
contém todos os elementos que determinam a concessão imediata de reintegração de
posse: há interesse econômico, os fatos estão provados e o direito do autor é indiscutível. A
água potável existente no local está sendo poluída e as vacas leiteiras ficaram ao
desabrigo, pelo que os prejuízos são evidentes. Assim, pede a concessão da liminar, por
medida de direito e de Justiça.27

22
RODRÍGUEZ, V.G.. Argumentação jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal. Campinas: LZN Editora, 2002.p.158.
23
SAVIOLI, F.P.; FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006.
24
RODRÍGUEZ, V.G., op.cit.,p.166.
25
MORENO, C.; MARTINS, T.. Português para convencer: comunicação e persuasão em Direito. São Paulo: Ática, 2006. p.13.
26
RODRÍGUEZ, V.G. Argumentação jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal. Campinas: LZN Editora, 2002.p.166.
27
MORENO, C.; MARTINS, T.. Português para convencer: comunicação e persuasão em Direito. São Paulo: Ática, 2006. p.15.
11
RACIOCÍNIO SILOGÍSTICO E ARGUMENTAÇÃO

O raciocínio silogístico é aquele em que, segundo Cunha28, “dadas certas premissas, se extrai uma
conclusão consequente e necessária.” O autor explica que a sentença judicial é frequentemente citada
como o resultado desse raciocínio silogístico: o juiz, uma vez ciente dos fatos que as partes lhe apresentam,
“faz o cotejo desses fatos com a regra jurídica e, dessa confrontação, deduz a sua conclusão.” Cunha ainda
salienta que não apenas a sentença emprega esse tipo de raciocínio: “toda e qualquer manifestação
processual poderá estar fundamentada nessa espécie de raciocínio, pois os litigantes procuram
primeiramente expor os fatos de acordo com seu ponto de vista, depois os enquadram em normas jurídicas
e, por fim, postulam as consequências que lhes favorecem.”29

Leia atentamente o trecho abaixo e observe o esquema elaborado por Filho 30.

Lavrador é preso por raspar casca de árvore


Ele usava a casca de árvore para fazer chá para sua mulher, que está doente

O ministro José Sarney Filho (Meio Ambiente) e as entidades ambientalistas Greenpeace e ISA (Instituto
Socioambiental) criticaram a prisão, em flagrante, do lavrador José dos Anjos, 58 anos, que, durante dois anos, raspou
a casca de uma árvore para fazer chá para sua mulher, que está doente.
José raspava a casca de uma árvore chamada almesca, em uma área de preservação permanente que fica
às margens do córrego Pindaíba, em Planaltina (a 44 km de Brasília).
O lavrador disse que usava a casca para fazer chá para a mulher, Helena dos Anjos. Ela tem Doença de
Chagas. José conta que soube que o chá melhorava as condições dos acometidos pela doença.
Em 20 de junho de 2000, José foi surpreendido com um tiro para o alto, dado por soldados da Polícia
Florestal, quando raspava a almesca. Preso em flagrante delito, algemado e levado para a delegacia, o lavrador foi
enquadrado na Lei do Meio Ambiente (Lei 9.605, de 1998). Segundo o delegado Ivanilson Severino de Melo, José
provocou "danos diretos ao patrimônio ambiental”, crime previsto no artigo 40 da lei. O delito, inafiançável, é punido com
1 a 5 anos de prisão.
José foi colocado numa cela com outros cinco presos, acusados de homicídio e roubo.
* Diário de Cuiabá. Capa. Domingo, 17 de fevereiro de 2008. Edição nº 9641 24/06/2000. Disponível em:
<http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=9595&edicao=9641&anterior= 1>

ESTRUTURA DO SILOGISMO

Premissa maior Premissa menor Conclusão (C)


(PM) (Pm) Resultado lógico
Norma estabelecida pelo
legislador
+ Fatos ocorridos no caso
concreto analisado
decorrente da junção
das duas premissas

Art. 40, Lei 9.605/98: causar dano


direto ou indireto às Unidades de
Conservação, independentemente de
sua localização:
Pena - reclusão, de um a cinco anos. José raspava a casca de uma árvore José praticou crime ambiental,
chamada almesca, em uma área de previsto no art. 40 da Lei
§ 1° Entende-se por Unidades de preservação permanente que fica às margens 9.605/98. Deve ser punido com
Conservação de Proteção Integral as do córrego Pindaíba, em Planaltina. reclusão por um período de um a
Estações Ecológicas, as Reservas cinco anos.
Biológicas, os Parques Nacionais, os
Monumentos Naturais e os Refúgios
de Vida Silvestre.

ARGUMENTAÇÃO E DEMONSTRAÇÃO

Segundo explica Perelman31, “damos o nome de argumentação ao conjunto das técnicas


discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão das mentes às teses que se apresentam ao seu

28
CUNHA, Marcelo Garcia da. Argumentação processual: como articular estrategicamente a palavra em juízo. Porto Alegre: Núria
Fabris, 2010.p. 32
29
Ibid., p.32.
30
FILHO, João N. Cerqueira. Teoria da argumentação: caderno de exercícios. Curso de Direito.
31
PERELMAN, C. Lógica jurídica. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 15.
12
assentimento”. Já o termo demonstração é, conforme o autor, “reservado aos meios de prova que
possibilitam concluir, a partir da verdade de certas proposições [...].”
No exemplo a seguir, é possível verificar uma situação concreta em que a demonstração (meio de
prova), operacionalizada por meio do silogismo, pode auxiliar a argumentação a alcançar seus objetivos.

RACIOCÍNIO DE NATUREZA ARGUMENTATIVA32


Quem quer?
Menor representado pela mãe. Requerente (autor).

O quê?
Alimentos
(pensão a título de provisão para o Pedido.
menor).

De quem? Requerido (réu).


Do pai do menor.

Fundamento jurídico do pedido:


Por quê? Art. 1.696, CC: o direito à prestação de alimentos
A lei estabelece essa obrigação é recíproco entre país e filhos, e extensivo a todos
os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais
próximos em grau, uns em falta de outros.

DEMONSTRAÇÃO – MEIOS DE PROVA


Para desenvolver uma argumentação que convença o magistrado da procedência do pedido de alimentos,
é necessário demonstrar que realmente o requerido tem essa obrigação de alimentar o requerente, ou seja, é
fundamental que a parte autora demonstre a paternidade para o juiz, sem a qual não tem qualquer
serventia o fundamento jurídico selecionado.

Quais os meios de prova admitidos pelo Direito no tocante à comprovação (demonstração) da paternidade?

Art. 1605, CC: na falta, ou defeito, do termo de nascimento (certidão), poderá provar-se a filiação por qualquer
modo admissível em direito:
I - quando houver começo de prova por escrito, proveniente dos pais, conjunta ou separadamente;
II - quando existirem veementes presunções resultantes de fatos já certos."

Sem a demonstração da paternidade, não terá sucesso a


Conclusão: argumentação de que o requerido tem a obrigação de prestar
alimentos ao requerente, com fundamento no art. 1696, CC.

ORGANIZAÇÃO DA TESE E DOS ARGUMENTOS NO TEXTO: COESÃO E COERÊNCIA

Nos textos analisados em aula, percebemos que há uma “costura” entre os enunciados e suas
partes. Essa “costura” se dá por meio de recursos como repetições, substituições, conexões, etc., pelos
quais vamos “tecendo” o texto, ou seja, construindo relações de sentido. Esses mecanismos de costura
consistem na COESÃO.

Tal como falar, escrever é uma atividade necessariamente textual. Ninguém fala ou escreve
por meio de palavras ou de frases justapostas aleatoriamente, desconectadas, soltas, sem
unidade. O que vale dizer: só nos comunicamos através de textos. Sejam eles orais ou
escritos. Sejam eles grandes, médios ou pequenos. Tenham muitas, poucas ou uma
palavra apenas. Assim, a competência comunicativa, aquela que nos distingue como seres

32
FILHO, João N. Cerqueira. Teoria da argumentação: caderno de exercícios. Curso de Direito.
13
verbalmente atuantes, inclui necessariamente a competência para formular e entender
textos, orais e escritos.33

Texto, palavra que provém do latim textum, significa “tecido, entrelaçamento”. Assim, é possível
compreender o texto como um tecido verbal, cujas ideias devem estar entrelaçadas para formar um todo.
Segundo Platão e Fiorin34:
a) em um texto, o significado de uma parte não é autônomo, mas depende das outras com que se
relaciona;
b) o texto não é um amontoado de frases, ou seja, nele, as frases não estão simplesmente
dispostas umas após as outras, mas estão relacionadas entre si. Por isso, o sentido de uma
frase depende do sentido das demais com que se relaciona;
c) o significado global de um texto não é o resultado de uma mera soma de suas partes, mas de
uma combinação geradora de sentido.

A função da coesão é “exatamente a de promover a continuidade do texto, a sequência interligada


de suas partes, para que não se perca o fio de unidade que garante a sua interpretabilidade” 35.

Como se constrói a coesão de um texto?

A continuidade do texto da qual falamos é providenciada no percurso do texto pelas relações


semânticas que se vão estabelecendo entre os vários segmentos. É uma continuidade de sentido, portanto.
A partir da função que os mecanismos coesivos exercem na construção da textualidade, a coesão pode ser
estudada em duas modalidades:

i) aquela em que se inserem e se retomam termos no texto:

Pedro foi inocentado no processo, visto que não havia provas contra ele.

ii) aquela em que se estabelecem relações lógicas entre termos, segmentos, parágrafos:

Pedro foi inocentado no processo, visto que não havia provas contra ele.

consequência causa

articulador/nexo/conector que explicita a relação de causa-consequência

A COSTURA TEXTUAL: ARTICULADORES OU CONECTORES

Observações36:

 Os articuladores ou conectores são palavras ou expressões que exercem uma importante função na
superfície do texto: são responsáveis por estabelecer relações lógicas e argumentativas entre os
segmentos textuais, articulando frases e parágrafos.

33 ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola, 2005.
34 SAVIOLI, Francisco Platão; FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006.
35 ANTUNES, op.cit., p. 48.
36
Adaptado de: ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Editora Parábola, 2005.
14
 Ao instaurarem essas conexões, contribuem para a construção do sentido global do texto, fazendo-
o progredir tematicamente.

 Os conectores são uma espécie de sinal ou de marca que vai orientando o interlocutor acerca da
direção de sentido pretendida.

 Esses conectores ou articuladores, na medida em que ligam partes do texto, estabelecem, entre os
segmentos vinculados, uma relação semântica (contrariedade, causa, consequência, condição,
conclusão), exercendo, portanto, uma função argumentativa no texto.

 Funcionam, então, como marcadores que especificam (sinalizam) a relação semântica criada, que é
fundamental para que qualquer pessoa produza ou compreenda um texto.

A seguir, serão explorados alguns importantes casos dessa relação, que podem auxiliar a leitura e
a compreensão de textos e ajudar na produção escrita dos textos argumentativos. 37

RELAÇÕES LÓGICO-SEMÂNTICAS
(as que se estabelecem por meio de conectores ou juntores do tipo lógico)

1– Relação de Condicionalidade (se p então q)


Essa relação é expressa pela combinação de duas proposições, uma das quais é a condição para
que a outra seja verdadeira. Uma das orações se introduz pelo conector “se”, “caso”, e outra, pelo
operador “então” (implícito, ou não). Nesse caso pode-se afirmar que, sendo o antecedente verdadeiro, o
consequente também o será.

Nexos: se, caso, desde que, contanto que etc.

Exemplos:
Se você anda sentindo fadiga, falta de concentração, (então) pode estar estressado.
Caso você viaje hoje à noite, poderá descansar mais amanhã.
Se aquecermos o ferro, ele derreterá.
A testemunha será decisiva, se mantiver sua palavra e disser a verdade.
A eutanásia poderia ser legalizada, caso tivesse como base um estudo muito sério e interdisciplinar
sobre todos os aspectos com que se envolve.

2 - Relação de causalidade (p porque q)


É expressa pela combinação de duas proposições, uma das quais encerra a causa que implica
uma determinada consequência. Assim, uma das orações indicará a causa que acarreta a consequência,
esta expressa na outra.

Nexos: porque, pois, como, já que, visto que, uma vez que, devido a, em virtude de, em
consequência de, consequentemente, tão… que etc.

Exemplos:
As reservas cambiais esgotam-se gradativamente, uma vez que as exportações têm sido, por
alguns anos consecutivos, menores que as importações.
Em virtude dos dias de paralisação do magistério, as aulas se estenderão até o fim de janeiro.
Como são sólidas e já têm caixa alto, as companhias japonesas conseguem tomar financiamentos
a juros de 4% ao ano.
As intoxicações alimentares podem causar problemas tão grandes que acabam ocasionando a
morte.
A menina chorou porque apanhou da mãe.
O torcedor gritou tanto que ficou rouco.

37
KOCH, I. V. A coesão textual. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2004, p.53-79.

15
O torcedor gritou demais; então ficou rouco.
O torcedor ficou rouco porque gritou demais.

3- Relação de mediação/finalidade (de intenção)


Uma das proposições do período explicita o(s) meio(s) para se atingir determinado fim expresso
na outra.

Nexos: a fim de, com o propósito de, com o intuito de, com a intenção de, propositadamente,
intencionalmente etc.

Exemplos:
Os órgãos do governo deveriam exercer maior fiscalização sobre os restaurantes a fim de diminuir
o número de casos de intoxicação alimentar.
Com o intuito de reduzir o número de intoxicações alimentares neste verão, o governo aumentou
em 30% o seu número de fiscais.
Para que dissesse a verdade, foi preciso ameaçá-lo.
O advogado estudou criteriosamente o processo para ganhar a causa da sua vida.

4- Relação de disjunção
Esta relação pode ser tanto do tipo lógico quanto do tipo discursivo. Expressa-se pelo conectivo
“ou”. Pode indicar inclusão ou exclusão, como se verifica nos casos:
No próximo feriado, você vai para a praia ou para a serra? (exclusivo)
Todos os congressistas deveriam usar crachás ou trajar camisas vermelhas (inclusivo: e/ou).

5 - Relação de temporalidade
Por meio de duas orações, a relação de temporalidade indica localização no tempo, relacionando
uma oração que expressa temporalidade a outras ações, eventos, estados de coisas etc., expressa em
outra.
a- Tempo simultâneo: Quando o juiz entrou no recinto, todos se levantaram. (Ou: mal, nem bem,
assim que, logo que, no momento em que);
b- Tempo anterior/posterior: Antes que o juiz entrasse no recinto, aquele familiar do réu
desmaiou. Depois que aquele familiar do réu desmaiou, algumas pessoas ficaram
preocupadas.
c- Tempo contínuo ou progressivo: Enquanto as testemunhas se preparavam para entrar na
sala do júri, na rua, os jornalistas se amontoavam na porta do prédio.

6- Relação de conformidade
Expressa-se pela conexão entre duas orações nas quais se mostra a conformidade do conteúdo
de uma com algo asseverado em outra.
O réu agiu conforme o advogado o havia orientado.

7- Relação de modo
Uma das orações expressa a maneira ou modo como se realizou um fato contido em outra
oração.
Sem piscar, ele mentiu ao juiz descaradamente.
Como se fosse uma rainha, entrou na sala para assentar-se na cadeira de juíza.

RELAÇÕES DISCURSIVAS E ARGUMENTATIVAS

Conforme Koch,38 “os encadeadores do tipo discursivo são responsáveis pela estruturação de
enunciados em textos, por meio de encadeamentos sucessivos, sendo cada enunciado resultante de um ato
de fala distinto”. Nesse caso, a relação que se estabelece não é a de tipo lógico estabelecida entre os

38
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 71.
16
conteúdos de duas orações, mas “se produzem dois ou mais enunciados distintos, encadeando-se o
segundo sobre o primeiro, que é tomado como tema”39.
Como prova de que são enunciados diferentes, que resultam cada um de um ato de fala particular,
estes poderiam ser apresentados sob forma de dois períodos ou até poderiam ser proferidos por dois
locutores diferentes. Por essa razão tais encadeamentos podem acontecer entre orações (mesmo período),
entre períodos e também entre parágrafos (por isso, são chamados de operadores ou encadeadores de
discurso).

1- Relação de adição ou de conjunção


Os conectores articulam sequencialmente frases cujas proposições se adicionam a favor de uma
mesma conclusão.

Nexos: e, também, não só… mas (como) também, tanto… como, além de, além disso, ainda, nem
(= e não) etc.

Exemplos:
Eu ingressei na Universidade e iniciei um trabalho novo.
Eu não só ingressei na Universidade mas também iniciei um trabalho novo.
Tanto ingressei na Universidade como iniciei um trabalho novo.
Ele é o melhor juiz que conheço. Estudou muito. Além disso, revela uma atuação impecável desde
2001.

2 - Disjunção argumentativa
Usam-se enunciados que apresentam orientações discursivas diferentes, resultantes de dois atos
de fala distintos. Por meio do segundo ato de fala quer-se provocar o leitor ou ouvinte para que este
modifique sua opinião ou apenas aceite aquela que se expressou no primeiro:

Todo voto é útil. Ou não foi útil o voto dado ao Rinoceronte Cacareco nas eleições Municipais anos
atrás?

3 - Contrajunção argumentativa

a - Refutação
Por meio dessa contrajunção, podem ser contrapostos enunciados de orientações
argumentativas diferentes, prevalecendo a do enunciado introduzido pelo operador mas.

Exemplo:
Tinha tudo para ser uma boa defesa. Mas o advogado não acreditou na sua força retórica.

b - Concessão
Ainda que/Embora/Apesar de certa desconfiança, o juiz aceitou as desculpas daquela testemunha.
(prevalece, como já estudamos, a orientação argumentativa do enunciado não introduzido pelo operador).
Observação: sempre lembrar os argumentos mais fortes/mais fracos nesses dois movimentos (ver
aulas passadas)

4 - Explicação ou Justificativa
Ocorre quando se encadeia, sobre um ato de fala inicial, um outro que justifica ou explica o
anterior.

Exemplo:
Não levante, pois/que ainda tenho duas perguntas a fazer. (justificativa)
Devo ter falado muito mal, pois ninguém me entendeu. (explicação que justifica).

5 - Comprovação
Um novo ato de fala acrescenta uma possível comprovação daquilo que a asserção anterior
assevera (primeiro ato de fala):

39
Ibid., p. 72.
17
Encontrei o famoso neurologista na reunião, tanto que ele estava com seus dois livros famosos
debaixo do braço e com o crachá da Sociedade Americana de Neurologistas.

6 - Conclusão
Um enunciado (b) estabelece uma relação de conclusão em relação a algo dito (outros atos de
fala que contêm premissas, uma das quais, geralmente, implícita e de consenso entre as partes
interlocutoras) em um enunciado anterior (a).

Nexos: pois, por isso, por conseguinte, portanto, assim, como resultado, logo, então etc.

Exemplos:
As grandes empresas de exploração de madeira extraem tudo o que conseguem da floresta
amazônica; logo, os animais nativos estão ameaçados de extinção.
O réu é um indivíduo perigoso; portanto, deve ficar afastado do convívio pessoal.
Ingressei na Universidade; assim, daqui a algum tempo, estarei com o diploma na mão.
A equipe elaborou uma defesa desarticulada, portanto/por conseguinte/logo os resultados para o
réu, que era comprovadamente inocente, não foram satisfatórios.

7 - Comparação
Estabelece, entre um termo comparante e um termo comparado, relação de igualdade,
inferioridade ou superioridade. Koch40 lembra que a comparação se faz com intenção de se argumentar
em favor ou contra uma conclusão que se pretende.

Exemplos:
Esta sentença é tão justa quanto aquela que lemos na semana passada.
Esta petição é mais complexa do que a de Dr. Luís.
Este depoimento é tão verossímil quanto aquele.
Tal depoimento é mais duvidoso do que o anterior.

8- Generalização ou extensão
“O segundo enunciado exprime uma generalização do fato ocorrido no primeiro ou um
amplificação de uma ideia nele expressa”41.

Exemplo:
O defensor está muito atrasado. Aliás/ É verdade (que) é raro que ele seja pontual.

9 - Especificação/ exemplificação
Ocorre quando o segundo enunciado particulariza ou exemplifica uma declaração mais geral
do que se expressa no primeiro.

Exemplos:
Muitos dos advogados fazem Mestrados nesta faculdade, por exemplo, Joel Barros.
Os julgamentos do STF são interessantes, como tem sido este do Mensalão.

10 - Correção ou redefinição
Um segundo enunciado corrige ou suspende ou redefine o conteúdo do primeiro, atenuando
ou reforçando o comprometimento com a verdade do que foi veiculado. Ainda pode questionar-se a
legitimidade da enunciação.

Exemplos:
Irei a sua festa. Isto é, se você me convidar.
Eu não irei a sua festa. Se você quer saber minha opinião.
Meus parabéns! Ou não devo cumprimentá-lo por isso?
Pedro chega hoje para o início das aulas da faculdade de Psicologia. Ou melhor, eu penso/acredito
que ele virá hoje...
Ele não é muito esperto. De fato, parece-me bastante bobo.
40
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 72.
41
Ibid., p. 75.
18
Vou a nossa reunião de estudos. Ou melhor, vou tentar comparecer a esse encontro.

Principais relações estabelecidas pelos articuladores

19
MOVIMENTOS ARGUMENTATIVOS

20
21
22
Referência:
MORENO, C; MARTINS, T. Português para convencer: comunicação e persuasão em direito. São Paulo: Ática, 2006.

23
MOVIMENTOS ARGUMENTATIVOS: SÍNTESE

O movimento argumentativo define o sentido geral de uma argumentação, isto é, a forma como o
argumentador se situa em relação a um ponto de vista já enunciado.

 aprovar: ocorre quando o falante manifesta sua aprovação completa em relação ao que foi
enunciado;
 refutar: ocorre quando se marca um desacordo completo em relação ao que foi enunciado;
 conceder: ocorre quando, apesar de o falante marcar seu desacordo com o que foi enunciado,
manifesta aceitação sobre um ponto particular da argumentação precedente.

Destes três movimentos, estudamos os dois últimos.

1. Refutar (refutação)
Refutar consiste em negar a pertinência do ponto de vista do adversário.

(1) Pedro é inteligente (p), mas é incapaz de resolver seus problemas (q).

Em (1), temos um mas que, de um lado, coloca em confronto dois pontos de vista que argumentam
em direções opostas e, de outro lado, fornece diretivas que permitem interpretar o ponto de vista do
enunciador.
No enunciado (1), a incapacidade de Pedro de resolver seus problemas (q) é argumento mais forte
para uma dada conclusão do que sua inteligência (p). O texto progride na direção indicada por q. O
conector “mas” nega argumentativamente o segmento que o antecede; rompe com a conclusão esperada e
apresenta um outro aspecto para ser considerado.
A estrutura p, mas q pode ser parafraseada da seguinte maneira: “Sim, p é verdadeiro; você teria a
tendência de, em decorrência disso, concluir C, mas não deve fazê-lo, pois q é apresentado como um
argumento mais forte para não-C do que p o é para C.”
 p = vai na direção de uma conclusão C;
 q = vai na direção de uma conclusão não-C.

Assim, a refutação:
 inverte a orientação argumentativa do enunciado;
 orienta argumentativamente para não-C.

2. Conceder (concessão)
Consoante Oswald Ducrot42,

Concessão, no sentido retórico do termo, é a aceitação de um argumento do


adversário, que não se refuta, mas que se faz seguir de um argumento em sentido
inverso, a partir do qual se conclui. É um tipo de manobra que não custa caro e um
meio persuasivo importante. Concordando com o adversário que seu ponto de vista é
justo e pertinente, o indivíduo, de um lado, concilia-se com ele, de outro, torna-lhe
menos penoso admitir os argumentos contrários a ele.

Nesse sentido, observe um possível diálogo interior de um professor:

(1): A concessão é um assunto complexo. [logo, não se deve tratar desse assunto]
(2): Embora a concessão seja um assunto complexo, caracteriza-se por ser uma estratégia
essencial para quem quer aprender a argumentar. [logo, deve-se tratar desse assunto]

O locutor, ao apresentar o primeiro enunciado, da perspectiva de (1), concede razão ao


adversário, reconhecendo que “a concessão é um fenômeno complexo”; porém, na perspectiva (2), ele
introduz um movimento argumentativo que conduz para a conclusão “logo deve-se tratar desse assunto”.
Ao utilizar a concessão, o locutor se protege de uma possível contra argumentação. Se ele
simplesmente dissesse “A concessão é uma estratégia essencial para quem quer aprender a argumentar”,

42
DUCROT, O. Argumentation e persuasion. In: Colloquie d’anvers “enunciation et part-pris”. 1990.
24
poderia ouvir uma crítica do tipo “Você não deveria ter abordado o fenômeno da concessão, pois é um
assunto muito complexo”. Antes que isso ocorresse, ou, para que isso não ocorresse, o locutor se valeu do
enunciado concessivo.
Dessa maneira, a concessão ocorre quando, apesar de o argumentador marcar seu desacordo
com o que foi enunciado, manifesta aceitação sobre um ponto particular da argumentação de seu oponente.

Para efetuar o movimento argumentativo da concessão, empregam-se os articuladores embora e


ainda que.

(2) Ele é irresponsável (p), embora inteligente (q).

As estruturas p, embora q; embora q, p têm funcionamento semelhante a p, mas q, com algumas


especificidades. O conector “embora” nega o argumento do segmento em que aparece. Nesse caso, o texto
progride na direção do segmento que não contém o conector “embora”. Dito de outro modo: os argumentos
introduzidos por “embora” são argumentativamente negados. Os argumentos decisivos são apresentados
no segmento onde não há o conector “embora”, segundo Ingedore Villaça Koch.

Exemplo
Imagine que um dos argumentos para acusarem seu cliente de ter cometido um assassinato é a
inimizade entre este e a vítima. Negar essa hostilidade é impossível, pois há diversas evidências que a
confirmam. Entretanto, você sabe e necessita provar que seu cliente é inocente. Um movimento concessivo
em relação à argumentação contrária a seu cliente poderia ter a seguinte configuração:

1. Na primeira etapa, apresenta-se um argumento que segue o mesmo sentido da argumentação


apresentada previamente: admite-se, em relação a um ponto particular, que algum argumento precedente é
aceitável:

Realmente, meu cliente e a vítima eram inimigos.

Esse enunciado, isoladamente, poderia ser favorável à seguinte conclusão implícita:


Meu cliente tinha motivo para cometer o assassinato.

2. Na segunda etapa, opõem-se argumentos que tomam sentido contrário e que têm
um valor mais forte que o argumento precedente:

Porém, não há correlação direta entre inimizade e assassinato. Além disso, há diversas evidências
de que meu cliente estava em outra cidade na hora do crime. Deve-se considerar também que ele jamais
tentou agredir fisicamente a vítima ou qualquer outra pessoa em todos os seus 55 anos de vida.

Esses enunciados, por sua vez, conduzem a uma conclusão oposta:

Meu cliente não cometeu o assassinato.

Essa segunda conclusão acaba prevalecendo em relação à primeira, caracterizando um movimento


de concessão em relação ao discurso de quem acusou seu cliente de assassinato.

25
ESTRATÉGIAS COMUNICATIVAS E ARGUMENTATIVAS

Muitas vezes, não é suficiente ter os melhores argumentos para alcançar o convencimento das
outras pessoas; frequentemente, é preciso empregar certas estratégias que, paralelamente à racional
apresentação de provas e evidências, aumentam o poder persuasivo da argumentação.
Entre as estratégias argumentativas, destacam-se as seguintes:

1. A definição

A estratégia de definição constitui-se em um recurso por meio do qual se procede à “Explicação do


significado de uma palavra, expressão, frase ou conceito”. Trata-se de uma “Operação que procura
determinar de maneira clara um conceito, um objeto”, aliando-se à “Capacidade de descrever (algo ou
alguém), destacando suas características”.43
Mesmo no caso em que não se trata de uma verdadeira definição (ela toma a aparência de uma
definição), ela serve para produzir um efeito de evidência e de saber para o sujeito que argumenta.
Conforme Charaudeau44, “a definição não pode ser posta em causa, uma vez que é, por definição,
consensual (saber popular) ou científica (saber de conhecimento)”.

A barriga de aluguel, gestação de substituição ou cessão temporária do útero é entendida,


por muitos doutrinadores, como o ato pelo qual uma mulher cede seu útero para a gestação
do filho de outra, a quem a criança deverá ser entregue após o nascimento, assumindo a
mulher desejosa ou fornecedora do material genético a condição de mãe.45

O princípio da razoabilidade, inserto no artigo 1.059 do Código Civil para a fixação do lucro
cessante, pode e deve ser adotado pelo juiz no arbitramento do dano moral. Razoável é
aquilo que é sensato, comedido, moderado; que guarda uma certa proporcionalidade.
Importa dizer que o juiz, ao valorar o dano moral, deve arbitrar uma quantia que, de acordo
com o seu prudente arbítrio, seja compatível com a reprovabilidade da conduta ilícita e a
gravidade do dano por ela produzido. 46

2. A comparação

No quadro da argumentação, a comparação, quando bem empregada, pode produzir um efeito


pedagógico, ilustrando a tese e facilitando a compreensão da conclusão em favor da qual se argumenta. O
desejo de alcançar a adesão do interlocutor leva o sujeito da argumentação a comparar uma ideia sobre a
qual há divergência com um fato ou ideia sobre a qual ambos concordam. Por essa razão, a analogia é
construída sobre premissas consensuais ou sobre as quais há grande probabilidade de haver concordância.
As marcas da comparação são diversas, conforme Charaudeau 47:
- vocábulos gramaticais: como, tal, tal como, assim, assim como, da mesma forma (que), mais
que…, menos que…;
- vocábulos lexicais: assemelhar-se (semelhança entre x e y), parecer, corresponder
(correspondência entre x e y), aproximar (aproximação entre x e y), comparar (comparável, comparação
entre), ter em comum, ter de diferente, diferenciar (diferença), opor (oposição entre).

43
Cf. Dicionário Aulete Digital.
44
CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2014. p. 236.
45
ZAMATARO, Y. Da barriga de aluguel, gestação de substituição ou cessão temporária do útero no Direito Brasileiro. Disponível
em:<http://blog.angelicoadvogados.com.br/2013/07/12/da-barriga-de-aluguel-gestacao-de-substituicao-ou-cessao-temporaria-do-utero-
no-direito-brasileiro/>. Acesso em: 7 ago. 2013.
46
SOUZA, A. C.E.; FETZNER, N. L.C.; PALADINO, V. C. Argumentação jurídica: teoria e prática. 4.ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos
Editora, 2013. p.156-157.
47
CHARAUDEAU, P., op.cit., p.237.
26
Os “rolezinhos” tornaram-se o assunto deste verão. Os encontros de um
número expressivo de jovens em shoppings de São Paulo são considerados por
muitos como uma espécie de continuação das manifestações de desencanto e
indignação de junho passado. Há, de fato, aspectos em comum. Como as passeatas
a céu aberto contra a péssima gestão do Estado brasileiro, os “rolezinhos” reúnem
participantes que marcam o encontro previamente pelas redes sociais. Em ambos,
grupos oportunistas de vários matizes ideológicos procuram pegar carona na
notoriedade desses movimentos. No caso dos “rolezinhos”, comerciantes e
frequentadores dos shoppings e, depois, a sociedade foram pegos de surpresa.
Pois, assim como as manifestações de inverno, a moda do verão surgiu
inesperadamente e se tornou o tema predominante das últimas semanas. [...]
A sociedade demanda códigos e padrões de comportamento para que os
direitos de todos sejam assegurados. Da mesma forma que não se deve andar de
skate em hospitais nem conversar durante um espetáculo, não é aceitável superlotar
casas de eventos para não se repetirem tragédias como a da boate Kiss. Em
recintos fechados, não é razoável dar margem a tumultos que ponham em risco a
segurança das pessoas.48

Vejamos mais alguns exemplos. 49

Imagine a seguinte situação hipotética: um sujeito ingressa num prédio situado na


Baker Street e lê distraidamente, numa pequena placa afixada na porta do elevador: “É
proibido conduzir cigarros acesos”. Nada de anormal. Uma advertência cada vez mais
recorrente na vida atual. No entanto, entra também no elevador Scherlok Homes
ostentando o seu inseparável cachimbo. Enquanto o elevador sobe, no meio da incômoda
fumaceira, o primeiro passageiro repreende a atitude do notável detetive, recebendo como
resposta:
“ – Meu caro, a placa veda conduzir cigarros acesos. Isso eu não descumpri. O
que tenho na mão é algo absolutamente diferente.”
Abre-se a porta e ele sai calmamente dando uma baforada no ar.
O que nos leva a concluir que a razão está com o indivíduo queixoso? O raciocínio
por analogia. Através dele fixamos semelhanças entre as coisas diversas, e essa
proximidade impulsiona a aplicação de uma mesma solução.

Podemos ver em Do mesmo modo que os olhos do morcego ficam ofuscados pela luz do dia,
também a inteligência da nossa alma fica ofuscada pelas coisas mais naturalmente evidentes, que a
primeira oração compõe-se de uma afirmação sobre algo que o locutor pressupõe conhecido do interlocutor.
Na sequência, vem a afirmação daquilo que se pretende aclarar pela associação. Não há uma intenção de
estabelecer uma igualdade simétrica entre as duas relações, mas apenas uma correspondência entre elas.
Essa é a função da analogia.

3. A narração exemplificativa

A narração dos fatos é pode ser compreendida como um momento de persuasão. Narrar fatos
significa apresentá-los de acordo com sua ordem no tempo. Isso facilita a compreensão do interlocutor, que
acompanha as ações narradas na mesma sequência em que ocorreram. Quando bem alinhavada, a
narrativa pode transformar-se em importante estratégia de convencimento.
Tendo em vista a melhor disposição do interlocutor, a narração dos fatos é, ainda, ocasião que
permite a inserção de elementos introdutórios da tese que será/foi exposta na fundamentação. 50

48
MATARAZZO, A.. O seu, o meu, o nosso “rolezinho”. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 jan.2014. Disponível em: < http://www1.folha.
uol. com.br/fsp/opiniao/148149-o-seu-o-meu-o-nosso-quotrolezinhoquot.shtml>. Acesso em: 28 fev.2014.
49
CUNHA, M. G. Argumentação processual: como articular estrategicamente a palavra em juízo. Porto Alegre: Núria Fabris Ed., 2010.
50
Ibid,.p.38-39.
27
51

4. A pergunta retórica

A pergunta retórica é aquela que é feita não com o objetivo de obter uma informação, mas, sim, com
a intenção de envolver a audiência, de conduzi-la para um determinado raciocínio. Tem, portanto, um
propósito persuasivo.

Veja-se, por exemplo, a questão da aplicação da pena. Embora as penas no Código


Penal vigente tenham previsões que vão da mínima à máxima, criou-se jurisprudência
tranquila, imutável, de que o cálculo da pena deve sempre partir do mínimo, com o que, na
prática, raramente chega a seu termo médio e nunca ao máximo. Exemplo, para esclarecer
o leitor, é do homicídio qualificado. A pena prevista em lei oscila entre 12 e 30 anos. O juiz
aplica a pena sempre partindo dos 12, o que faz com que em situações muito graves
chegue a algo em torno dos 18, 19, no máximo 20 anos.
Mas o máximo não é 30 anos? Por que nunca se aplica o máximo? Por que não se
toma como ponto de partida o termo médio, 21 anos? Resposta: porque a interpretação é
sempre através do criminoso e muitas vezes descriteriosa ou mal feita. Há juízes que
sempre oscilam entre 12 e 13 anos, deixando de diferenciar situações muitas vezes bem
diferentes. No Estado de São Paulo é que se tem visto nesses últimos júris de repercussão
uma tímida reação no sentido de cumprir corretamente a lei, dando-se a réus que
praticaram gravíssimos homicídios penas na casa dos 25 anos.52

5. A seleção vocabular

A escolha das palavras na argumentação pode servir para aumentar o poder de persuasão do
discurso. Em um texto que se referisse ao evento que deu origem à ditadura militar em 1964, seria possível
falar em “Revolução de 1964” (conotação positiva) ou “Golpe de 1964” (conotação negativa). Para um
defensor da democracia, por exemplo, a palavra “golpe” designaria melhor o acontecimento histórico de
1964.
Como expõem Perelman e Olbrechts-Tyteca 53, não existe escolha neutra, mas escolhas que
parecem neutras. Assim, alguém poderia preferir a expressão “Movimento de 1964” a fim de se manter
neutro em relação à ação dos militares, mas essa neutralidade seria também fruto da escolha de uma
posição, provavelmente advinda do desejo de não se comprometer nem com a esquerda nem com a direita.

51
SOUZA, A. C.E.; FETZNER, N. L.C.; PALADINO, V. da C. Argumentação jurídica: teoria e prática. 4.ed. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos Editora, 2013. p.260.
52
AMORIM, E.P. Mentiras repetidas. Zero Hora, 30 de março de 2014. Disponível em: <
http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2014/03/30/rtigo-mentiras-repetidas/?topo=13,1,1,,,13>. Acesso em: 01 ago. 2014.
53
PERELMAN, C., OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 169.
28
O panorama probatório coligido aos autos demonstrou claramente o dano ambiental [...]
imputado aos demandados, consistente no corte de vegetação em Área de Preservação
Permanente e depósito de resíduos no local, ocasionado pela ocupação da Fazenda
Coqueiros por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais SEM-TERRA (MST)
[...].54

A existência de danos morais é manifesta, face à gravidade do fato e por todos os reflexos
decorrentes do trauma vivido pelos autores, que tiveram suas vidas expostas à mídia
durante a invasão da Estância da Capivara, como denotam os vários recortes de jornais
encadernados nos autos. [...]55

6. A citação

Esse procedimento participa do fenômeno linguístico chamado de discurso relatado.


A citação consiste em referir-se, o mais fielmente possível – ou pelo menos dando uma impressão
de exatidão – às emissões escritas ou orais de um outro locutor, diferente daquele que cita, para produzir
na argumentação um efeito de autenticidade.
Segundo Charaudeau56, “a citação funciona como uma fonte de verdade, testemunho de um dizer,
de uma experiência, de um saber”.

A saúde é direito consagrado pelo Texto Constitucional em seu artigo 196, que trata como
“dever do Estado” e “direito de todos”, e que deve ser “garantida mediante políticas sociais
e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso
universal e igualitária às ações e serviços para sua promoção proteção e recuperação”.
Pois bem, avancemos. Na nova sistemática proposta, o ponto que causa maior polêmica é,
sem dúvida, a extensão do curso de medicina, mediante autorização provisória para
exercício de espécie de “residência reforçada” durante dois anos no SUS, o que,
evidentemente, elevaria o tempo de formação dos médicos.57

54
Disponível em: < http://www.tjrs.jus.br/>.
55
Disponível em: < http://www.tjrs.jus.br/>.
56
CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2014. p. 240.
57
OLIVEIRA, A. S. A proposta de “trabalho compulsório” dos médicos e a Constituição da República. Última Instância. Disponível
em: <http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/colunas/64689/a+proposta+de+%93trabalho+compulsorio%94+dos+medicos+e+a+con
stituicao+da+republica.shtml>. Acesso em: 24 jul. 2013.
29
INSERÇÃO DO DISCURSO ALHEIO NOS TEXTOS: POLIFONIA

Todo texto é produto de uma criação coletiva: a voz do seu produtor manifesta-se ao lado de um coro
de outras vozes que já trataram do mesmo tema e com as quais se põe em acordo ou desacordo. 58
Considerando essa propriedade, observe o exemplo abaixo.

Cláusula de distrato: comprador que desiste do imóvel deve ser restituído


É abusiva e ilegal a cláusula do distrato decorrente de compra e venda imobiliária que
prevê a retenção integral ou a devolução ínfima das parcelas pagas pelo comprador. O
entendimento foi ratificado pela 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça em julgamento
relatado pelo ministro Luis Felipe Salomão.
Segundo o ministro, o Código de Defesa do Consumidor, nos artigos 51 e 53, impede a
cláusula de decaimento que determine a retenção do valor integral ou substancial das
prestações pagas, por caracterizar vantagem exagerada do incorporador. Ele explica,
porém, que a construtora pode reter parte do valor pago para cobrir despesas
administrativas.
“É justo e razoável admitir-se a retenção, pelo vendedor, de parte das prestações pagas
como forma de indenizá-lo pelos prejuízos suportados, notadamente as despesas
administrativas realizadas com a divulgação, comercialização e corretagem, além do
pagamento de tributos e taxas incidentes sobre o imóvel, e a eventual utilização do bem
pelo comprador”, explicou.
Citando vários precedentes, o ministro reiterou ainda que a jurisprudência da 2ª Seção
já consolidou entendimento de que é possível, em caso de incapacidade econômica do
comprador, o cancelamento do compromisso de compra e venda. Também registrou que a
corte tem entendido que a retenção de percentual entre 10% e 25% do valor pago seria
razoável para cobrir despesas administrativas, conforme as circunstâncias de cada caso. 59

A leitura do segmento textual acima leva a perceber uma propriedade fundamental da linguagem: a
heterogeneidade constitutiva. Essa heterogeneidade, como explicam Savioli e Fiorin60, diz respeito ao fato
de os textos (materialização da linguagem) apresentarem a propriedade, intrínseca a eles, de constituir-se
de outros textos. Por isso, todos os textos são atravessados, ocupados, habitados pela(s) voz(es) de
outro(s).
As múltiplas vozes que se fazem presentes nos textos podem ser apresentadas de diferentes
formas: podem ficar implícitas, e aí é o leitor quem, a partir de seu repertório de conhecimentos, deve ser
capaz de percebê-las e recuperá-las; ou podem ser demarcadas explicitamente.

1. VOZES IMPLÍCITAS NO TEXTO

Quem tem medo da reforma da Lei de Direitos Autorais?


A partir de 2003, o Ministério da Cultura, na gestão dos ministros Gilberto Gil e Juca
Ferreira, promoveu uma série de encontros e seminários com o objetivo de discutir a
política de direito autoral no país. Coube, então, ao Ministério, organizar todo o trabalho de
atualização da legislação e retomar a função do Estado como responsável pela supervisão
e fiscalização das atividades deste setor.61

Uma leitura atenta do título leva o leitor a perceber que o texto em questão traz dentro de si parte de
um outro texto: o do conto de fadas dos Três Porquinhos – “quem tem medo do lobo mau”. Assim, a
compreensão está condicionada ao repertório do leitor.

58
SAVIOLI, F.P.; FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação. 5.ed. São Paulo: Editora Ática, 2006. p.25.
59
CONJUR NOTÍCIAS. Cláusula de distrato: comprador que desiste do imóvel deve ser restituído. Disponível em:
<http://www.conjur.com.br/2013-set-04/comprador-desiste-imovel-restituido-forma-justa>. Acesso em: 5 set. 2013.
60
SAVIOLI; FIORIN, Lições de texto: leitura e redação. 5.ed. São Paulo: Editora Ática, 2006. p. 29.
61
CONSULTOR JURÍDICO. Quem tem medo da reforma da Lei de Direitos Autorais? Disponível em: <http://consultor-
juridico.jusbrasil.com.br/noticias/100068464/quem-tem-medo-da-reforma-da-lei-de-direitos-autorais>. Acesso em: 5 set. 2013.
30
Folha de S. Paulo, 16 de junho de 2014.

2. VOZES EXPLÍCITAS NO TEXTO

Às vezes, coloca-se, explicitamente, uma outra voz por intermédio de processos de citação. Isso
acontece, usualmente, com as reportagens de jornal ou revistas, em que o jornalista, além de manifestar
sua própria voz, narrando um acontecimento, pode introduzir também a voz de seus participantes ou
observadores. Eis um exemplo típico:

Foro da Capital instala Juizado da violência contra a mulher


Unidade apreciará processos provenientes da aplicação da Lei Maria da Penha

O 2º Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher foi instalado nesta


segunda-feira no Foro Central de Porto Alegre. A unidade apreciará processos provenientes
da aplicação da Lei Maria da Penha. A juíza Madgéli Frantz Machado, titular do 1º Juizado
da Violência Familiar e Doméstica contra a Mulher, explicou que o Foro da Capital terá dois
juizados para tratar de casos como ameaças e lesão corporal contra mulheres. “O combate
à violência contra a mulher é uma prioridade no Estado”, explicou. De acordo coma juíza, é
preciso discutir o problema da violência contra a mulher em casa com as crianças, na
escola e na comunidade. “A violência contra mulher precisa ser banida. Temos que criar
uma cultura de paz”, destacou. [...]62

Na redação de textos científicos, é também muito comum fazer citações – essa é, inclusive, uma
exigência desse tipo de texto. Utilizar, reconhecer e dar crédito à criação intelectual de outros autores é uma
questão básica da ética acadêmica. Ora, é preciso demonstrar que não estamos “reinventando a roda” –,
como no seguinte trecho:

A Petição Inicial, em análise, intitula-se “Ação de Interdito Proibitório”, que é uma peça
jurídica em que o autor se vê ameaçado de esbulho ou turbação na posse. Assim, para se
prevenir, recorre ao poder judiciário com a finalidade de obter mandado judicial para
assegurar-se da violência iminente63. Guardamos o conceito elaborado por Gomes (1978,
p. 91) quando define turbação como “todo ato que embaraça o livre exercício da possa,
haja, ou não, dano, tenha, ou não, o turbador melhor direito sobre a coisa” e observamos o
conceito de esbulho postulado por Diniz (2004, p. 85), para quem “é o ato pelo qual o
possuidor se vê despojado da posse, injustamente, por violência, por clandestinidade e por
abuso de confiança”.64

Também nos textos jurídicos este é um procedimento recorrente e, inclusive, constitutivo da


argumentação a que se propõe.

As razões de defesa “que por expressa autorização legal poder ser alegadas em qualquer
tempo ou juízo” (art.303, inc.III) são raras e extraordinárias em direito material, mas
numerosas no processo. O Código Civil contém disposição expressa sobre prescrição
(art.162).65

O recurso à polifonia pode ter várias motivações. A principal delas, em um texto científico ou jurídico,
é fazer uso do argumento da autoridade, para a hipótese que estamos defendendo, ou explicitar a
paternidade de outras hipóteses que estamos atacando.

62
CORREIO DO POVO. Foro da Capital instala Juizado da violência contra a mulher. Disponível em: <
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=522065>. Acesso em: 31 mar.2014.
63
Iminente - ameaçadora; eminente - excelente, sublime.
64
LOURENÇO, M.V.N.S.. Petição inicial: movimentos argumentativos. Disponível em: <www.cchla.ufrn.br/.../Trabalho%20Semana%
20de%20Humanidades.pdf>. Acesso em: 5 set. 2013.
65
SOUZA, A. C.E.; FETZNER, N. L.C.; PALADINO, V. C. Argumentação jurídica: teoria e prática. 4.ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos
Editora, 2013.p. 242.
31
Conforme o guia produzido pela Biblioteca da UNISINOS 66, as citações dão credibilidade ao texto,
fornecendo informações a respeito de trabalhos já desenvolvidos na área e apresentando pontos de vista
semelhantes ou divergentes daquele defendido no texto. Nesse sentido, é importante destacar que o autor
do trabalho, ao iniciar a redação do texto, “deve escolher um padrão de apresentação das citações e segui-
lo do início ao fim do trabalho”.
A situação inverte-se, inteiramente, por exemplo, no caso da elaboração de uma ata, documento
polifônico por natureza.

Para introduzir a voz de uma outra pessoa, é comum o uso de verbos como dizer, falar, afirmar.
Muitas vezes, o autor do texto utiliza ainda outros verbos menos “neutros”, como enfatizar, advertir,
ponderar, confidenciar. É preciso ter cuidado ao utilizar esses verbos introdutores de vozes, pois é
bastante comum o autor de um texto utilizá-los (sobretudo os da segunda lista) de modo a manipular a voz
que apresenta. Vejam-se as diferenças que podem existir nos textos abaixo, apenas trocando o verbo
introdutor da voz:

(a) O presidente disse que a inflação vai diminuir.


(b) O presidente advertiu que a inflação vai diminuir.
(c) O presidente ponderou que a inflação vai diminuir.
(d) O presidente confidenciou que a inflação vai diminuir.

Além disso, muitas vezes o próprio leitor é colocado como voz no texto, em sequências como:
a) Imagine o leitor que...
b) Imaginemos que temos à frente...
c) É preciso conseguir, antes de tudo...
Em (a), o leitor é colocado explicitamente. Em (b), ele é colocado juntamente com o autor do texto.
Em (c), ele é colocado como se fizesse parte de um conjunto abstrato de pessoas.
De fato, o uso de expressões como é preciso, é urgente sugere as perguntas: preciso para quem?
Urgente para quem? Esse quem, na verdade, é uma espécie de vox populi a que se somam, com
cumplicidade, o autor e o leitor: o autor, por adesão explícita; o leitor, por indução do autor.

Sistemas de inserção de citações no texto:


O sistema de inserção das citações no texto pode se dar de dois modos: i) autor-data e ii)
numérico. O sistema autor-data é utilizado no corpo do próprio texto, ao passo que o numérico em
nota de rodapé. Conforme o Guia de Trabalhos Acadêmicos da Unisinos (2014), o curso de
Direito deve utilizar o sistema numérico (notas de rodapé), tanto para notas explicativas
quanto para as de referência.

Neste caso, indica-se a fonte de um documento citado em nota de rodapé, utilizando-se


algarismos arábicos, devendo ser única e consecutiva para cada capítulo ou parte. Não se inicia a
numeração a cada página. A primeira citação de uma obra, em nota de rodapé, deve aparecer
completa. Se há, em uma mesma página, citações subsequentes de uma mesma obra, estas podem ser
referenciadas, de forma abreviada, utilizando-se as expressões abreviadas (cf. mais adiante no
polígrafo).

66
BIBLIOTECA UNISINOS. Guia para elaboração de trabalhos acadêmicos (artigo de periódico, dissertação, projeto, relatório técnico
e/ou científico, trabalho de conclusão de curso e tese). Disponível em: http://www.unisinos.br/biblioteca/index.php?
option=com_content&task=view&id=107&Itemid=177&menu_ativo=active_menu_sub&marcador=177. Acesso em: 03 set. 2012. p. 62.
32
2.1. Vozes explícitas: citação direta 67

No discurso direto, há uma reprodução da palavra do outro a partir de aspas.

 Citações diretas com até 3 linhas: devem ser inseridas entre “aspas duplas”, no texto. As aspas simples
são utilizadas para indicar citação dentro de citação.

- autor inserido no parágrafo com nota de rodapé de referência com expoente próximo ao
autor citado (conforme exigido no Curso de Direito):
Nas palavras de Almeida1, “O projeto de avaliação envolve planejamento, pesquisa e mudança”.

- autor não faz parte do parágrafo com nota de rodapé de referência com expoente ao final da
citação (conforme exigido no Curso de Direito):
“O projeto de avaliação envolve planejamento, pesquisa e mudança”1.

- no rodapé:
______________
1 ALMEIDA, Maria Christina Barbosa de. Planejamento de bibliotecas e serviços de informação. 2. ed.

rev. e ampl. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 2005. p. 32.

Citações diretas com mais de 3 linhas: quando apresentarem mais de três linhas, as citações devem ser
destacadas do texto, com recuo de 4 cm da margem esquerda, em espaço simples, com uma letra menor
do que a utilizada no texto e sem aspas.

- autor inserido no parágrafo com nota de rodapé de referência com expoente próximo ao
autor citado (Curso de Direito):

Conforme afirma Campello1,

A pesquisa científica é um processo complexo, e durante sua execução o pesquisador


assume diversas funções: a de líder de equipe, a de captador de recursos, a de
comunicador, dentre outras. A função de comunicador é de fundamental importância
nesse processo, pois o pesquisador precisa estar constantemente atualizado em
relação aos avanços de sua área, inteirando-se do que outros cientistas estão fazendo
e, por outro lado, mostrando o que ele próprio está realizando, como forma de ter seu
trabalho avaliado pelos seus pares e de garantir a prioridade de suas descobertas.

- autor não faz parte do parágrafo com nota de rodapé de referência com expoente ao final da
citação (Curso de Direito):

A pesquisa científica é um processo complexo, e durante sua execução o pesquisador


assume diversas funções: a de líder de equipe, a de captador de recursos, a de
comunicador, dentre outras. A função de comunicador é de fundamental importância
nesse processo, pois o pesquisador precisa estar constantemente atualizado em
relação aos avanços de sua área, inteirando-se do que outros cientistas estão fazendo
e, por outro lado, mostrando o que ele próprio está realizando, como forma de ter seu
trabalho avaliado pelos seus pares e de garantir a prioridade de suas descobertas. 1

67
Exemplos retirados do Guia para elaboração de trabalhos acadêmicos da UNISINOS, cf. referência supra.
33
No rodapé:
__________________
1 CAMPELLO, Bernadete Santos. Encontros científicos. In: CAMPELLO, Bernadete Santos; CENDÓN,

Beatriz Valadares; KREMER, Jeannette Marquerite (Org.). Fontes de informação para


pesquisadores e profissionais. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 2000.
p. 55.

2.2. Vozes explícitas: citação indireta (paráfrase)

No discurso indireto, há uma paráfrase da palavra do outro. Segundo Othon Garcia68, a paráfrase
consiste no desenvolvimento explicativo ou interpretativo de um texto. É um tipo de exercício que
corresponde a uma espécie de tradução dentro da própria língua, em que se expressa, de maneira clara,
num texto B, o que consta num texto A, sem comentários pessoais, sem nada acrescentar e sem nada
omitir do que seja pertinente. Não consiste somente em substituir algumas palavras do texto original, mas
em reestruturar frases inclusive, de tal forma que a nova versão evidencie o pleno entendimento do texto-
base.
Assim, na paráfrase, o autor traduz, reformula, com suas palavras, a palavra do outro. Para isso,
utiliza um verbo introdutor da fala que vem de fora (verbos de dizer).

DOS ARGUMENTOS ÀS FALÁCIAS

Falácias e futuro
Marco Antonio F. Milani Filho*
Folha de S.Paulo, 03/12/2014**

Falácia é um argumento falso, mas com a aparência de verdadeiro. Um discurso falacioso é,


portanto, aquele que parece ser válido, mas contém uma ou mais inconsistências lógicas que invalidam o
seu conteúdo.
Neste agitado momento político, alguns argumentos que estão sendo amplamente disseminados nas
redes sociais, veículos de comunicação de massa e em rodas de amigos merecem atenção, não somente
pela demonstração da falta de racionalidade e ética discursiva para defender partidos, mas pelas
consequências nocivas que provocam.
Há propostas totalitárias que pretendem se passar por democráticas e cujos autores usam
argumentos falaciosos em suas falas para subverter a própria noção de democracia. Como é possível uma
proposta democrática desprezar ou tentar calar à força aqueles que pensam de maneira diferente? É
incoerente, a não ser que se use um discurso falacioso pelo qual se incuta a ideia de que determinado
grupo represente a vontade do povo e agirá para o seu bem, assim quem for contra ele é inimigo do povo.
Nesse tipo de discurso, quem ousar divergir ou tiver interesses contrários ao bom senso artificialmente
fabricado pelos que se dizem representar a vontade popular, não merecerá estar nesta sociedade.
Esse é o mesmo discurso de ódio pregado por alguns contra a classe média a qual foi ardilosamente
estereotipada como um grupo composto por indivíduos mesquinhos, preconceituosos e que são contra a
melhoria das condições de vida dos mais pobres. Situação estranha, uma vez que, conforme os dados da
Secretaria de Assuntos Estratégicos, a classe média hoje ultrapassa os 54% da população. Repetir essa
manifestação encolerizada é aviltar metade dos brasileiros.
Curioso é o fato de que muitos dos que destilam sua repulsa à classe média fazem parte dela ou de
estratos superiores, mas querem ser vistos como seres distintos, pairando acima dos desvios de caráter que
alegam que seus pais, amigos e familiares possuem. Repudiar a própria classe social seria algo como uma
tentativa de purificação, não fosse o fato de que continuam usufruindo de todos os benefícios e conforto que
a renda lhes proporciona.
O discurso de ódio promovido por esses grupos ilusoriamente democráticos também é aplicado para
incitar tensões com relação a gênero, raça, origem etc. de maneira que somente suas posições sejam
reconhecidas como benéficas e moralmente corretas, desqualificando divergências. Essa desqualificação é

68
GARCIA, O. M. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever, aprendendo a pensar. 26. ed. Rio de Janeiro: FGV,
2007.p.201.
34
feita denegrindo e ridicularizando os opositores, para estereotipá-los e serem considerados figuras
indesejadas e sem direito à livre expressão. Uma mulher negra e nordestina que apoie propostas contrárias
àquelas do partido que se arvora como defensor das minorias só pode ser uma traidora. Ela não faz mais
parte do povo.
Esta situação é gerada pelo maniqueísmo partidário, pois necessita dividir a sociedade entre
oprimidos e opressores para poder pavimentar seu caminho ao poder em nome da justiça social. A
desonestidade intelectual faz com que se construam discursos sem a preocupação com a validade da
argumentação dos debatedores, pois parte-se do princípio de que o mais importante não é se chegar na
verdade, mas impor os próprios pontos de vista.
Na história inúmeras lutas fraticidas eclodiram em nome da justiça social e provocaram milhões de
mortes, assemelhando-se mais a expurgos rancorosos do que a efetivos projetos de aperfeiçoamento da
sociedade.
A falácia argumentativa que camufla o totalitarismo é um problema real no Brasil, pois pode ser
utilizada para induzir a formação de um pensamento hegemônico a fim de que seus idealizadores sejam
reconhecidos como detentores de virtudes e tenham o apoio popular para usar a força para oprimir as vozes
discordantes.
É possível mudarmos essa tendência começando por nós mesmos, refletindo sobre a fundamentação
dos discursos que estamos usando para defender posições. Ao invés de se criticar pessoas (falácia "ad
hominem") e ignorar os argumentos do atacado pela suposição de que provêm de uma fonte indigna, que
se critiquem racionalmente os fatos e argumentos, para se testar a real consistência do próprio discurso.

*MARCO ANTONIO F. MILANI FILHO, 46, é economista, pós-doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha) e
professor da Unicamp
** Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/12/1556680-marco-antonio-f-milani-filho-falacias-e-
futuro.shtml>. Acesso em: 15 dez. 2014.

Falácia argumentativa 69

Criar argumentos significa manejar os elementos linguísticos aptos a persuadir. A melhor


argumentação é aquela que mais convence, e uma das características da argumentação convincente é que
ela seja honesta. Não existe nada pior ao interlocutor que perceber que o argumento deliberadamente
procura induzi-lo a erro.
O que é argumentação honesta?
Segundo quais critérios avaliar a honestidade de uma argumentação?
Não se mede a honestidade de uma argumentação pela causa que defende. Existe, seguidores que
apóiam incondicionalmente o posicionamento de um líder, porque acreditam ser ele boa fonte de
pensamentos, sejam religiosos, políticos, etc. Mas isso não significa boa argumentação, pois esta somente
é medida como boa ou má em seu percurso, e não previamente, o que no discurso jurídico implica
prejulgamento.
A argumentação passa a ser desonesta quando tende à falácia – ao erro que prejudica a
verossimilhança – desviando o percurso argumentativo da razoabilidade lógica.
O percurso estruturado de forma aparentemente lógica e, portanto, aparentemente válido,
denomina-se sofismo. Ele ocorre pelo desvio de sentido no percurso lógico, quando uma proposição não
leva necessariamente a uma conclusão.

O réu alega que é pobre e nunca teve envolvimento no crime de tráfico de drogas, pois se o
fizesse teria melhor condição econômica. Entretanto, contratou para defendê-lo um dos
melhores advogados do país, e, sabe-se, bons advogados são caros. Um profissional como
esse não seria contratado por um pobre e, por isso, não é verdade que o réu não tenha

69
Adaptado de:
RODRIGUES, V. G. Argumentação jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal. Campinas: IZN Ed., 2002.
GOLDNADEL, M. Falácias informais. Polígrafo Língua Portuguesa III. Unisinos, 2006.

35
envolvimento com atividade criminosa, pois somente dela poderiam vir os proventos para
os honorários do responsável defensor.

A honestidade na argumentação passa, então, pela construção do discurso apto a conduzir a uma
conclusão aceitável, sem que se desvirtuem conscientemente de uma razoabilidade, de uma probabilidade
plausível, que faça com que o interlocutor deposite credito no discurso. Vale lembrar que uma informação
propositadamente desvirtuada da verdade ou da verossimilhança pode fazer com que o interlocutor rejeite
todo o discurso, pois, inevitavelmente, a desonestidade em um argumento contamina todos os demais.

Vejamos alguns exemplos de falácias:

1. Generalização
O argumento de senso comum é muito eficiente quando enuncia um preceito que não pode ser contestado,
como quando se diz que um ser humano que passa fome não pode dar importância a questões intelectuais.
Entretanto, o argumento perde força quando enuncia generalizações indevidas, como quando se diz que os
moradores da favela são todos voltados ao crime.
Esse tipo de falácia ocorre quando se constata alguma regularidade nos fatos a partir de um número
reduzido de observações.

Concluí que todos os políticos são corruptos porque soube de casos de corrupção
envolvendo meia dúzia deles.

2. Reducionismo
Falácia que consiste no esquecimento de causas diversas, para argumentação. Aparece tanto nos casos
em que se analisa um fenômeno de modo a retirar dele elementos importantes (por exemplo, quando o
advogado diz que seu cliente está preso apenas por ter antecedentes criminais, quando deixa de dizer que
existem contra o réu indícios fortes de autoria de um novo delito, motivo que verdadeiramente motivara seu
encarceramento); ou ao deixar de responder às questões e aos argumentos daquele que tenta fazer vingar
uma tese, e que cobra manifestação legítima por parte daqueles que devem explicar seu posicionamento
(como quando se exige do julgador que se manifeste minuciosamente sobre os motivos que o fizeram
deixar de acolher os argumentos articulados em momento oportuno).

3. Falácias ad hominem (envenenar o poço)


Consiste no indevido ataque à pessoa do locutor que argumenta, sem que se enfrentem suas ideias, ou,
neste último caso, suas qualificações.

4. Falácia ad misericordiam
É aquela que apela à piedade como argumento em favor de uma causa, a exemplo do procurador que
assume que seu cliente, pela lei, merece grave reprimenda penal, mas sua prisão deixará a família sem
sustento.

O ex-diretor do DENATRAN deve ser absolvida no processo administrativo interno porque


tem muitos anos de dedicação à instituição.

5. Argumento de autoridade falacioso


Recorre-se ao sentimento de respeito que as pessoas têm às pessoas famosas, utilização da opinião de
uma pessoa famosa para reforçar um ponto de vista. Por exemplo, uma propaganda de computador que
procura convencer o consumidor a comprar o produto apresentando um ator famoso que o tem.

36
6. Falsa analogia
Trata-se da equiparação de uma situação específica a outra que difere em aspecto relevante para a
argumentação.

Se os militares retidos nos batalhões durante a semana podem visitar as famílias no fim de
semana, então os presos retidos nas cadeias devem poder fazer o mesmo.

7. Falácia do equívoco
É a forma de falácia através da troca de significados, vale-se da propriedade de certas palavras terem mais
de um significado.

O fim de uma coisa é a sua perfeição


A morte é o fim da vida
Logo, a morte é a perfeição da vida

Este argumento é falacioso porque nele se confunde diferentes sentidos da palavra ‘fim’, como meta
e como último acontecimento.

OPERADORES ARGUMENTATIVOS70

Ao utilizarmos a linguagem, sempre buscamos alcançar uma meta e, consequentemente, não


produzimos enunciados de forma aleatória. Para que nossas palavras conduzam o interlocutor, elas devem,
necessariamente, explorar seu aspecto argumentativo. Dentre os mecanismos linguísticos
colaboradores da argumentatividade, enfatizaremos aqui os operadores argumentativos.
Observem-se os seguintes enunciados:

(a) Este vestido é caro.


(a’) Este vestido é caro demais.

Supondo-se que alguém tenha dito (a) e (a’) em resposta a alguém que tenha perguntado: Compro
o vestido?, a conclusão a que se chega a partir de (a) e (a’) não é a mesma. Em (a’) há uma avaliação do
locutor, uma indicação de que o preço está acima de um limite dado como possível para a compra do
vestido.

(b) Ela levou um fora.


(b’) Ela levou mais um fora.

Os dois enunciados não argumentam para a mesma conclusão. A conclusão a que se chega a partir
de (b’) pode ser: “levar fora” é fato que se repete com ela. Poderíamos encadear, a partir daí, “é uma
desajeitada/azarada etc”.
70
Adaptação de texto produzido pela Profa. Dra. Marlene Teixeira.
ADAM, J.M. Éléments de linguistiquetextuelle: théorieet pratique de l’analysetextuelle. Liège: Mardaga, 1990.
CHARAUDEAU, P. Grammairedusens et de l’expression. Paris: Hachette, 1992.
DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas, SP: Pontes, 1987.
ILARI, R.; GERALDI, J.W. Semântica. São Paulo: Ática, 1985.
KERBRAT-ORECCHIONI, C. La enunciación: de la subjetividad en el lenguaje. Tradução para o espanhol: Gladys Anfora e Emma
Gregores. Buenos Aires: Hachette, s.d.
KOCH, I. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992.
MOESCHLER, J. Argumentation et conversation: éléments pour uneanalysepragmatique du discours. Paris: Hatier/Crédif, 1985.
RIEGEL, M. et al. Grammaireméthodiquedufrançais. Paris: PUF, 1997.
TRAVAGLIA, L. C. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003.
VOGT, C. Linguagem, ideologia e pragmática. São Paulo: HUCITEC/FUNCAMP, 1980.

37
Esses exemplos são para mostrar que há elementos linguísticos cuja função é provocar
modificações no interior da expressão em que aparecem, orientando o leitor para certos tipos de conclusão
e não para outras. Tais elementos chamam-se operadores argumentativos.
Observem-se os enunciados (1) e (2).

(1) São oito horas.


(2) São apenas oito horas.

Ao dizer São apenas oito horas em oposição à enunciação de São oito horas, não modificamos o
valor informativo do enunciado (2), mas apenas seu valor argumentativo.
Vejamos os encadeamentos que podem ser propostos num e noutro caso.

(3) São oito horas. Apressa-te.


(4) * São apenas oito horas. Apressa-te.

Se a sequência (3) é aceitável, a sequência (4) requer um contexto particular e um trajeto


argumentativo diferente para ser compreendida.
Um operador argumentativo limita então as possibilidades de utilização dos fins argumentativos dos
enunciados que ele modifica. Podem funcionar como operadores argumentativos as palavras: até, até
mesmo, inclusive, no mínimo, ao menos, pelo menos, aliás, ainda, já, na verdade, pouco, um pouco,
demais, mais, afinal, quase, apenas, entre outras.

Vejamos a partir de agora o funcionamento de alguns operadores argumentativos segundo Koch (2004).

1. Operadores que assinalam o argumento mais forte de uma escala orientada no sentido de
determinada conclusão: até, até mesmo, inclusive, nem mesmo, pelo menos...

As gramáticas tradicionais definem as preposições como “palavras de relação” no âmbito da oração


simples, e não hesitam em classificar entre elas a palavra até, apontando-a aliás como um bom exemplo
dessa classe de palavras. Não há dúvida de que a palavra até é preposição, em algum de seus empregos,
por exemplo, em:

(5) A BR 101 vai de Porto Alegre até Belém do Pará.

No exemplo acima, até introduz Belém do Pará, um dos complementos de vai; marca a relação de
regência entre o verbo e o sintagma nominal; indica um limite, lugar a que chega um processo ou um
movimento (pode indicar também momento no tempo a que chega uma ação/processo/estado: Tenho uma
boa lembrança dele até hoje). Até em (5) tem, portanto, função de preposição.
Certamente não é de preposição a função de até em:

(6) Até o governador compareceu ao enterro do bombeiro que morreu em serviço.

Fica evidente que não se pode atribuir papel de preposição a este último até quando se constata
que ele precede o sujeito da oração, que não pode vir nunca preposicionado. Como explicar esse uso de
até? Que análise lhe é apropriada? Ao tentar explicar esse uso de até precisamos esquecer as
classificações morfossintáticas tradicionais e fixar nossa atenção nas condições de uso.
Quando empregamos (6), estamos dizendo que o enterro em questão contou com a presença de
um certo número de autoridades, além do governador, e que o governador foi a mais alta autoridade
presente, ou aquela cujo comparecimento era o menos esperado.
Enunciados como (6) são habitualmente pronunciados como parte de um discurso em que o locutor
tenta persuadir seus ouvintes de uma tese qualquer. Aqui, a tese pode ser “que as autoridades prestigiam o
heroísmo dos humildes” ou ainda “que as autoridades não perdem oportunidades para desperdiçar em
38
iniciativas demagógicas o tempo que deveriam reservar ao trato da coisa pública” ou mesmo “que a morte
do bombeiro repercutiu profundamente na opinião pública”, para citar algumas alternativas. Em resumo: (6)
entra no discurso para apoiar uma tese (não necessariamente explicitada), é um argumento para essa tese.
O locutor dispõe de outros argumentos para apoiá-la, expressos por frases que informam sobre a
presença no enterro de vários populares, de pessoas salvas pelo bombeiro-herói, de oficiais do corpo de
bombeiros, de secretários de estado, de prefeitos da cidade, etc. Mas o argumento expresso por (6) é
dentre todos os disponíveis aquele que dá à tese defendida pelo locutor o apoio mais forte. É preciso
acrescentar que esses argumentos se organizam segundo uma hierarquia, ou segundo uma escala, fácil de
visualizar em representações como:

i. O governador esteve presente ao enterro.


ii. O prefeito esteve presente ao enterro.
iii. Os vereadores do bairro estiveram presentes ao enterro.
iv. etc.

Observemos os enunciados abaixo:

(7) A atividade acadêmica de Língua Portuguesa III alcançou seus objetivos. Até mesmo alunos que
não cursaram a atividade de Língua Portuguesa II foram bem sucedidos.

“Até mesmo” não acrescenta apenas uma circunstância a “conseguiram”, mas uma avaliação do
locutor sobre o que é dito: marca sua surpresa diante do fato; mostra que ele não esperava o que
aconteceu; institui esse argumento como o mais significativo para apoiar a tese do sucesso da disciplina.

(8) A atividade de Língua Portuguesa III não alcançou seus objetivos. Nem mesmo os bons alunos
foram bem sucedidos.

“Nem mesmo” revela também uma avaliação do locutor sobre o que é dito: marca sua surpresa
diante do fato de que nem os bons alunos foram bem sucedidos; transforma esse argumento no mais forte
para apoiar a tese do fracasso da disciplina.
Os operadores argumentativos ao menos, pelo menos, no mínimo introduzem dado argumento,
deixando implícita a existência de outros argumentos mais fortes. Colocam ideias num plano mais abaixo.
Para o leitor, fica implícita a possibilidade de aumento.

(9) Os alunos que encontraram dificuldade na atividade de Língua Portuguesa III preocuparam-se
em pelo menos obter aprovação.

O operador “pelo menos” revela o menor grau esperado em relação ao aproveitamento dos alunos.

2. Operadores que se distribuem em escalas opostas, isto é, um deles funciona numa escala
orientada para a afirmação total e o outro, numa escala orientada para a negação total: pouco, um
pouco; quase, apenas.

Pouco / um pouco

(a) João comeu pouco.


(b) João comeu um pouco.

Em termos informativos, os enunciados (a) e (b) veiculam o mesmo conteúdo. No entanto, sabemos
intuitivamente que eles não são equivalentes, porque não podemos substituir um pelo outro. Ao contrário,
há contextos específicos para o uso de cada uma dessas formas, o que significa dizer que seus
encadeamentos discursivos são distintos.

39
Imaginemos a situação de uma criança que está ameaçado pelo pai: se não comer, não brinca.
Supondo que a mãe saiba da ameaça, se ela diz ao pai João comeu pouco, sua fala vai na direção de que
ele quase não comeu. E a criança corre o risco de ficar sem brincar. Se a mãe diz ao pai João comeu um
pouco, sua fala argumenta no sentido de que a criança pode ser liberada para brincar: se ela comeu pouco
(um tanto de comida), então comeu; portanto, pode brincar.

Quase / apenas

O operador argumentativo “quase” aponta para a afirmação da totalidade, e, por isso, combina com
“a maioria”:

(a) A maioria dos cidadãos vota conscientemente: quase 80%.

O operador argumentativo “apenas” orienta para a negação da totalidade, o que permite seu
encadeamento com “poucos”:
(b) São poucos os que votam conscientemente: apenas 30%.

3. Operadores que têm por função introduzir no enunciado conteúdos pressupostos: já, ainda,
agora.

Se digo:

(a) Paulo mora no Rio.

meu enunciado não encerra nenhum pressuposto. Se, porém, eu disser:

(b) Paulo já mora no Rio.


(c) Paulo agora mora no Rio.

o conteúdo pressuposto é que Paulo não morava no Rio anteriormente.

Particularidades de ainda e já

AINDA (1)

(a) Assinala algo que se estende no tempo de forma inesperada (marcador de excesso temporal).
Registra a extensão no tempo de um fato que ocorria no passado e continua a acontecer no presente.

(1) Os ingênuos ainda acreditam que a corrupção vai ser extinta no Brasil.

(b) Enfatiza a informação veiculada, indicando que, entre os argumentos apresentados, aquele
marcado pelo ainda é de fundamental importância para a conclusão a que se deseja levar o leitor (marcador
de excesso não temporal).
Pode vir acompanhado de advérbio marcador de intensidade (menor, maior, melhor, pior, etc.).
Nesse caso, o advérbio assinala a intensidade maior ou menor de um argumento comparado a outro e o
ainda reforça essa intensidade no conjunto das informações apresentadas, a fim de convencer o leitor,
orientando seu raciocínio para a conclusão desejada pelo autor do texto.

(2) A corrupção no Brasil está ainda mais evidente.


(3) A situação do ensino público no Brasil está ainda pior.

40
AINDA (2)

(c) Introdutor de mais um elemento a favor de determinada conclusão. Costuma vir inserido em
expressões como “Convém assinalar/lembrar/frisar que...”; “Chama a atenção o fato de que...” Por exemplo,
um texto que argumenta na direção de que a corrupção no Brasil não tem solução, depois de levantar uma
série de fatos ligados à corrupção, pode concluir dizendo:
(4) (...) Convém lembrar ainda que casos como o da violação do painel do Senado são
corriqueiros no Brasil.

(a) Enfatiza a ocorrência de um fato em um tempo presente ou passado, podendo marcar:


uma antecipação (inesperada) no tempo (ao contrário de “ainda”, que marca a

permanência)
 e também mudança de estado em relação a um tempo anterior.

(5) Os alunos já começaram a estudar para o GB.

Em (5), já marca antecipação no tempo. Nas entrelinhas, fica a ideia de que os alunos estarem
estudando é fato que está acontecendo antes do tempo previsto para que aconteça. Temos aí um
argumento a favor da tese: os alunos estão sendo previdentes.

(b) Marca a urgência imediata de um acontecimento. Indica que algo precisa acontecer
imediatamente, “agora mesmo”.

8. Precisamos de mais ética já!


9. Diretas já!

Os operadores argumentativos na verdade e aliás

NA VERDADE

 Assinala que a informação seguinte é, para o produtor do texto, a versão definitiva sobre o
fato.
 Contrapõe o argumento que o locutor introduz ao anterior.
 Apresenta uma nova versão, mais ampla, para fatos já conhecidos.

(8) O povo brasileiro está atendendo ao apelo do Governo no sentido de diminuir o consumo de
energia elétrica. Em agradecimento a mais essa demonstração de civismo, FHC fez pronunciamento na
televisão, em cadeia nacional, na última segunda-feira. Na verdade, não se trata de patriotismo. Temos
outra alternativa?

(9) Ameaçado de voltar à idade das trevas, o povo brasileiro vive uma situação caótica. Na verdade,
esse é um dos períodos mais conturbados da nossa história recente.

ALIÁS

41
 Introduz o argumento decisivo para a defesa de uma tese. Esse argumento é apresentado a título de
acréscimo, como se fosse desnecessário, mas ele funciona como uma espécie de “golpe final” na
argumentação desenvolvida pelo locutor.

(11) Eles não fizeram o trabalho; aliás, nem compareceram à aula.


(12) João é o melhor candidato. Além de ter boa formação em Economia, tem experiência no cargo
e não se envolve em negociatas. Aliás, é o único candidato que tem bons antecedentes.

Todos esses operadores fazem parte da gramática da língua, mas têm merecido pouca atenção nos
livros didáticos. Pertencem às classes gramaticais invariáveis (advérbios, preposições, conjunções,
locuções adverbiais, prepositivas, conjuntivas) ou, então, são palavras que, de acordo com a NGB 71 não
foram incluídas em nenhuma das dez classes gramaticais, merecendo, assim, “classificação à parte” 72.
Acontece, porém, que são justamente essas palavras, tradicionalmente descritas como “meros
elementos de relação, destituídas de qualquer conteúdo semântico”, as responsáveis, em grande parte,
pela força argumentativa de nossos textos.73

71
Nomenclatura Gramatical Brasileira.
72
Em várias gramáticas, são denominadas palavras denotativas ou denotadoras de inclusão, de exclusão, de retificação etc.)
73
KOCH, I. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 2004.
42
PRESSUPOSTOS E SUBENTENDIDOS

Os enunciados sempre afirmam claramente alguma coisa ou, no vocabulário de Oswald Ducrot,
“põem” alguma coisa. Assim, definimos como conteúdo posto de um enunciado aquilo que está
claramente dito, como no exemplo:

Paulo chegou tarde.

Dizemos que o enunciado acima “põe”:

1. que Paulo chegou e


2. que sua chegada foi tarde.

Entretanto, muitas vezes, encontramo-nos em situações nas quais não nos interessa dizer tudo
abertamente. Há situações nas quais precisamos ou desejamos dizer e, ao mesmo tempo, fazer como
se não tivéssemos dito, ou melhor, há situações nas quais desejamos ter a possibilidade de recusar a
responsabilidade de ter dito; isso é possível por meio de formas implícitas.
São muitas as razões que justificam o emprego de formas implícitas: a existência de um
impedimento em relação a uma determinada informação, o medo de ofender o interlocutor ou de gerar
um constrangimento, um tabu dentro da comunidade de que participamos, entre outros motivos.
Precisamos considerar, ainda, um outro motivo para o emprego de implícitos: toda afirmação
explicitada pode tornar-se tema de discussão e, por esse motivo, é passível de ser rebatida, contradita.
Ao enunciar uma opinião ou uma ideia, automaticamente a expomos a possíveis críticas de nossos
interlocutores.
A fim de evitar o confronto, procuramos formas de dizer que não exponham o conteúdo defendido
à contestação. Em situações dessa natureza, podemos, ao “pôr” alguma coisa, deixar algo implícito; as
formas implícitas cumprem a função dizer o que desejamos dizer sem que sejamos obrigados a assumir
que dissemos.
Vejamos, por exemplo:

[...]
Por que alguém tem tanta inveja de você, meu amor?
[...]
Por que alguém tem de querer lhe negar valor?
[...]
Por que alguém tem de implicar com você?
[...]

GIL, Gilberto. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras,


1996.

Conteúdo pressuposto:

a) alguém tem inveja da amada do locutor;


b) alguém quer negar o valor da amada;
c) alguém implica com ela.

O questionamento que se apresenta ao leitor é apenas em torno dos motivos (por que...?).
Lembramos que para se perguntar sobre os motivos de determinado fato é preciso admitir a
existência desse fato (conteúdo implícito).

Podemos separar em duas categorias os procedimentos de implicitação:

1. Os discursivos, que dependem do contexto de enunciação e de um raciocínio do interlocutor


para serem reconstruídos (subentendidos);

43
2. Os não discursivos, inscritos na significação dos elementos que compõem o enunciado
(pressupostos).

O subentendido não está inscrito no enunciado; ele depende de um raciocínio do interlocutor em


torno do enunciado. Muitas vezes dizemos uma coisa para fazer entender outra, como, por exemplo,
dizemos a alguém que sempre chega atrasado à aula:

– Pedro, você chegou cedo.


Pedro, sabendo que está constantemente em atraso, pode entender que o estamos
acusando de estar sempre atrasado e responder:
– Você está dizendo que eu costumo me atrasar?

Diante dessa pergunta, podemos negar que tenhamos desejado dizer isso, uma vez que foi por
meio de um raciocínio que Pedro chegou a tal conclusão. O enunciado não continha de fato essa
informação e é por isso que podemos negá-la.

Já um enunciado que contém um pressuposto sempre encerra dois conteúdos, um posto e outro
pressuposto. Dizemos, assim, que tal enunciado põe alguma coisa e pressupõe outra. O exemplo
clássico de pressuposição é o enunciado:

Paulo parou de fumar.

Esse enunciado:
“põe” que Paulo não fuma e
“pressupõe” que Paulo fumava antes.

Para apreender um conteúdo pressuposto é necessário recorrer à significação linguística. É por


isso que Oswald Ducrot afirma que o pressuposto está inscrito na língua. Desse ponto de vista, todos os
pressupostos que o sentido de um enunciado traz já estão previstos na significação de frase.
O reconhecimento do pressuposto não está ligado a uma reflexão individual do falante, mas
inscrito na língua, ligado ao próprio enunciado. Ele vale em qualquer enunciado, independentemente de
qualquer contexto.

TESTES

a) Quando afirmamos:
José continua doente.
Posto “José está doente”
Pressuposto “José já estava doente anteriormente à minha enunciação”.

b) Quando negamos:
José não continua doente.
Posto “José não está doente”
Pressuposto “José já estava doente anteriormente à minha enunciação”.

c) Quando interrogamos:
José continua doente?
Posto Eu não sei se José está doente ou não e solicito essa informação a meu interlocutor.
Pressuposto José já estava doente anteriormente à minha enunciação.

d) Quando estabelecemos uma ligação de subordinação:


Eu não sei se José continua doente.
Posto Expresso minha falta de conhecimento em torno do fato de José estar ou não doente.
Pressuposto José já estava doente anteriormente à minha enunciação.

44
Podemos notar que, em todas as formas anteriormente apresentadas – negação, interrogação e
ligação de subordinação –, o pressuposto manteve-se. Houve alteração apenas no conteúdo posto, o
que comprova as regras de negação e da interrogação.

Em síntese:

Podemos dizer que algumas informações são transmitidas explicitamente; outras o são
implicitamente: estão pressupostas ou subentendidas. Uma leitura eficiente deve captar tanto as
informações explícitas quanto as implícitas. Caso não possua esta habilidade, o leitor/ouvinte/oponente
concordará com ideias que rejeitaria se as percebesse.

MARCADORES DE PRESSUPOSIÇÃO74

Quais são os termos que, em geral, servem de marcadores de pressupostos? Vejamos alguns exemplos.

1) Adjetivos ou outras expressões qualificadoras

(1.1) Julinha foi meu primeiro caso ganho.

Primeiro pressupõe:
a) que tenho outros casos ganhos;
b) que os outros casos vieram depois do de Julinha.

2) Verbos que indicam mudança ou permanência de estado


Por exemplo: permanecer, continuar, tornar-se, vir a ser, passar [a], deixar [de], começar [a], principiar
[a], converter-se, transformar-se, ganhar, perder, entre outros.

(2.1) Renato continua doente.

O verbo continuar indica que Renato já estava doente no momento anterior ao presente.

3) Certos advérbios

(3.1) A produção agropecuária no Brasil está totalmente nas mãos dos brasileiros.

O advérbio totalmente pressupõe que não há, no Brasil, nenhum estrangeiro produtor agrícola.

4) Certas conjunções

(4.1) Frequentei todo o curso de inglês, mas não obtive fluência oral.

O pressuposto, encadeado pelo mas, é que ao frequentar todo um curso dever-se-ia ter fluência oral.

5) Orações adjetivas

(5.1) Os brasileiros, que não se importam com a coletividade, só se preocupam com o seu bem-
estar e, por isso, jogam lixo na rua, fecham cruzamentos, etc.

O pressuposto é que todos os brasileiros não se importam com a coletividade. O mesmo período
poderia, no entanto, ser redigido assim, com a oração adjetiva não separada da principal por vírgulas:

(5.2) Os brasileiros que não se importam com a coletividade só se preocupam com o seu bem-estar
e, por isso, jogam lixo na rua, fecham cruzamentos, etc.

74
SAVIOLI, F.S; FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação. 5.ed. São Paulo: Editora Ática, 2006. p.309-310.
45
Nesse caso, o pressuposto é que alguns brasileiros não se importam com a coletividade e só esses
é que fazem os atos de incivilidade arrolados.
No primeiro caso, em (5.1), a oração é explicativa; no segundo caso, em (5.2), a oração é restritiva.
As explicativas pressupõem que o que elas expressam refere-se à totalidade dos elementos do conjunto
expresso pelo antecedente do pronome relativo (no caso, os brasileiros); as restritivas pressupõem que o
que elas dizem concerne apenas a uma parte dos elementos do conjunto expresso pelo antecedente do
pronome relativo. O produtor do texto escreverá uma restritiva ou uma explicativa segundo o
pressuposto que quiser comunicar.

AMBIGUIDADE75

Como lidar com a ambiguidade

Um dos grandes cuidados que se deve tomar ao proferir um discurso de caráter argumentativo é o
de, na medida do possível, não ser ambíguo, pois a ambiguidade fatalmente conduz a interpretações
errôneas. Contudo, a ambiguidade é inerente à linguagem, e esta, por sua vez, é a principal ferramenta
da argumentação. Mas assim como a linguagem oferece-nos uma multiplicidade de maneiras de
expressão, o que pode gerar ambiguidade, também ela nos permite definições minuciosas do objeto
tratado, a ponto de nos aproximarmos tanto dele que seria impossível a confusão com qualquer outro.
Eis, portanto, a importância de analisar o contexto histórico (temporal e espacial) e ideológico em
que está sendo empregado o objeto de linguagem (seja ele um termo, uma definição, uma expressão).
Isso porque a interpretação errônea, geralmente advinda de um discurso ambíguo, é outra maneira de se
reduzir uma argumentação ao ridículo. Para não ser vítima de tal estratégia do adversário, basta
contextualizar exatamente o termo ou expressão utilizada até que o auditório tenha perfeita ciência do
que se pretende dizer.
Uma forma bastante simples de se evitar a ambiguidade é utilizar uma linguagem clara e direta,
favorecendo a compreensão por parte do interlocutor, definindo-se inicialmente o sentido em que serão
empregados os termos-chave do discurso. Nesse sentido, Moreno e Martins (2011) afirmam que, para o
advogado, que necessita ser preciso em tudo aquilo que escreve, não existe perigo maior do que a
ambiguidade. Uma frase (ou parte dela) é ambígua quando pode dar lugar a duas interpretações
legítimas, como é o caso do exemplo a seguir:

O réu negou que tivesse confessado a autoria do furto durante o depoimento.

O responsável pela ambiguidade é o adjunto adverbial durante o depoimento; ali onde se


encontra, no final da frase, deixa-a passível de duas interpretações, pois pode referir-se tanto ao verbo
negar (significado A), quanto ao verbo confessar (significado B). Isso pode ser facilmente verificável se o
trocarmos de lugar:

Durante o depoimento, o réu negou que tivesse confessado a autoria do furto.

O réu negou que tivesse, durante o depoimento, confessado a autoria do furto.

É claro que o defeito não estava evidente para o autor da frase, que não deve ter-se dado conta
de seus dois significados. Para avaliarmos o dano que um descuido desses pode acarretar, digamos que
o autor foi você, e que você a escreveu tendo em mente o significado A. Quando alguém ler esta frase
(seja o seu oponente, seja o juiz), três coisas distintas podem acontecer:

a) ele pode enxergar apenas o significado A – exatamente o que você pretendia transmitir; apesar
do risco que você correu, tudo acabou dando certo;

75
MORENO, C.; MARTINS, T. Português para convencer: comunicação e persuasão em Direito. 2. ed. São Paulo: Ática, 2006. p.
203-207.

46
b) ele pode enxergar apenas o significado B, criando-se um desencontro radical entre aquilo que
você queria dizer e a informação que o leitor retirou do texto (com todas as consequências
prejudiciais de um mal-entendido dessa natureza);
c) ele pode perceber de que a frase é ambígua e exigir uma retificação ou uma explicação
posterior. Se este leitor for o juiz, você estará perdendo prestígio junto a ele; se for seu
oponente, pode ter certeza de que aproveitará a falha para desacreditar sua capacidade e
enfraquecer sua posição.

Fica assim bem claro que, das três hipóteses citadas, duas são extremamente prejudiciais a você,
o que torna a ambiguidade um dos mais sérios inimigos a combater. No entanto, como aquele que
escreve muitas vezes fica cego para os próprios defeitos, aconselhamos submeter os textos mais
importantes ao exame de uma pessoa em cuja leitura você confia.
Toda ambiguidade deve ser eliminada, mesmo nos casos em que uma das leituras possíveis é
muito mais provável do que a outra. Veja o exemplo:

Quando tentaram separar o animal de seu dono, ele mordeu o tenente dos bombeiros.

Se você perpetrar uma frase como esta, não adianta se desculpar alegando que, apesar de
ambígua, 90% dos leitores entenderão que o tenente só pode ter sido mordido pelo animal. A estatística
aqui não interessa, pois, como numa daquelas leis de Murphy, vale o seguinte princípio: toda frase que
puder ser entendida de duas maneiras certamente o será. Mesmo que pareça absurda a hipótese de um
humano vir a morder o tenente, esta poderá ser a primeira interpretação do leitor. Ele irá, em seguida,
corrigi-la, mas poderá, com toda a razão, aproveitar a oportunidade para atacar a qualidade do texto.

Pronomes

O promotor disse ao juiz que sua entrevista tinha prejudicado muito o andamento do processo.

Ele me saudou pelo primeiro nome e me entregou um envelope, mas isso não me surpreendeu.

A comissão foi visitar a menina da cadeira de rodas que foi encontrada dentro do lago da praça.

Na primeira frase, o possessivo “sua” pode designar tanto o promotor quanto o juiz. Na segunda
frase, não sabemos a que se refere o demonstrativo “isso”– se à saudação, se à entrega do envelope.
Finalmente, na terceira frase, o antecedente do relativo “que” é ambíguo; não sabemos se foi a menina
ou a cadeira de rodas que encontraram no lago da praça.
Há situações em que a repetição pura e simples do substantivo seria uma solução bem mais
segura e eficiente do que a substituição por pronomes. É o caso da maioria dos contratos, em que é
fundamental distinguir cuidadosamente os direitos e deveres de cada um dos contratantes, o que
implica, consequentemente, antes de mais nada, identificá-los muito bem (os direitos e deveres, ou os
contratantes? O leitor sentiu o perigo?).

Adjuntos adverbiais: atenção a eles!

Ela achou o cheque que tinha perdido no domingo.

O advogado criminalista encontrou o famoso jogador que ele tinha defendido a bordo do
transatlântico.

Assinamos um contrato de honorários para auxiliá-lo no dia 15.

Na primeira frase, não sabemos se o domingo foi o dia em que ela perdeu ou achou o cheque. Na
segunda, a bordo do transatlântico pode ter sido onde o advogado encontrou o jogador, ou onde o
defendeu. Na última frase, o dia 15 pode ser a data de assinatura do contrato de honorários ou a data do

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início de seu cumprimento. Para desambiguizar essas frases, teríamos de trocar a posição do adjunto
adverbial (separando-o com vírgulas).

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