Você está na página 1de 4

2.

GÊNESIS

respeito dos descendentes de Abraão e aparece assim:


“Os filhos de Quetura, concubina de Abraão, foram Zinrã, Joc-
sã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá. Os filhos de Jocsã foram Sabá e
Dedã”.
7) Ainda que aos olhos modernos pareça errada a atitude discri-
minatória de Abraão separando Isaque de seus outros filhos,
que receberam presentes e foram mandados embora (Gn 25.6),
sua atitude pode ser considerada de grande prudência. Isto
deve ter evitado uma luta interna pelo poder no clã após a mor-
te de Abraão.

2.5. A História de José (37-50)


A história de José que ocupa esta grande parte do Livro de
Gênesis é uma obra-prima da literatura antiga. Ela difere das
demais partes de Gênesis e apresenta-se como uma narrativa dra-
mática, completa e emocionante, tendo um bom início, um meio
coerente, cheio de surpresas e emoção, e um final espetacular, que
prende o leitor do início ao fim da leitura. Estas características
especiais da narrativa têm levado alguns estudiosos a classificar a
composição sob o gênero literário conhecido como “novela”.
Como não é possível entrarmos em todos os detalhes da
história utilizaremos a mesma forma de abordagem que foi utiliza-
da no item anterior quando foi tratado do Período Patriarcal. Ou
seja, será apresentado um esboço a respeito da trajetória de José e,
em seguida, alguns destaques que ajudam na interpretação do tex-
to de Gênesis 37-50.

2.5.1. O esboço geral


1. José com sua família em Canaã(37.1-36)
2. José como escravo no Egito, na casa de Potifar (39.1-19)

34
O PENTATEUCO

3. José como prisioneiro no Egito (39.20-40.23)


4. José como o salvador do Egito e povos vizinhos(41.1-57)
5. José como o salvador de seu pai e irmãos (42.1-50.26)

2.5.2. Destaques que ajudam na interpretação


1) O primeiro destaque a ser dado, para que não ocorra uma má
interpretação do texto, é descobrir o verdadeiro heroi da histó-
ria. Uma leitura menos atenta pode dar a entender que José é o
heroi. Contudo, o autor da história não cansa de mostrar que
Deus é o personagem principal. Isto pode ser visto já no início
da narrativa quando José recebe sonhos reveladores, que cer-
tamente vêm de Deus, e em todo o restante da história, até as
suas últimas linhas. Por exemplo:
a) Tudo que José fazia na casa de Potifar prosperava porque
Deus estava com ele (39.2, 3, 5);
b) José prospera, mesmo na prisão, porque Deus está com ele
(39.21, 23);
c) Deus dá a José a interpretação dos sonhos do mordomo e do
padeiro do rei do Egito (40.8);
d) Deus deu a interpretação do sonho de Faraó (41.14-16);
e) Faraó reconhece que Deus está com José (41.37-39);
f) José reconhece que foi Deus quem o enviou para o Egito
para conservar a vida de sua família (45.4-8);
g) Jacó recebe uma revelação divina dizendo-lhe que deveria ir
com toda a família para o Egito, onde estava José (46.1-7);
h) José reafirma a seus irmãos que foi Deus quem o enviou para
o Egito tornando o mal, que eles desejavam fazer-lhe, em
bem (50.15-21);
i) A história toda, e o Livro de Gênesis com ela, termina com
uma declaração de fé nas promessas de Deus feitas a
Abraão, Isaque e Jacó. O texto termina assim:

35
2. GÊNESIS

22 E José permaneceu habitando no Egito, ele e a família de


seu pai; e viveu cento e dez anos.
23 E José viu os filhos de Efraim, até a terceira geração; tam-
bém os filhos de Maquir, filho de Manassés, nasceram sobre
os joelhos de José.
24 Depois dessas coisas, José disse a seus irmãos: Estou para
morrer, mas Deus certamente vos visitará e vos fará subir
desta terra para a terra que jurou a Abraão, a Isaque e a
Jacó.
25 E José fez os israelitas jurarem, dizendo: Certamente Deus
vos visitará e fareis transportar daqui os meus ossos.
26 Então morreu José, com cento e dez anos de idade; e,
depois de o embalsamar, colocaram-no num caixão no Egito
(50.22-26).

2) Alguns têm interpretado que a túnica especial que José ganhou


de seu pai (ketonet passîm - µySiPæ tn,toK] - Gn 37.3) era uma
vestimenta de muitas cores, outros uma veste longa, e outros,
ainda, uma roupa cerimonial com ornamentos. Não dá para ter
certeza absoluta de como ela era, mas o mesmo termo é utiliza-
do, bem mais tarde, em 2 Sm 13.18, em uma referência às rou-
pas das filhas do rei, o que aponta para uma roupa muito espe-
cial, uma vestimenta apropriada para membros da família
real.27 Está claro no texto que esta preferência demonstrada
por Jacó foi um dos pontos que suscitou o ciúme dos irmãos de
José sobre ele.
3) A aparente contradição entre Gn 37.36 onde diz que os “midia-
nitas” venderam José a Potifar e Gn 39.1 que informa ter sido
ele comprado dos “Ismaeleitas”, concilia-se perfeitamente se
levarmos em conta que, em algumas ocasiões, os dois termos
são utilizados no Antigo Testamento, como sinônimos. Este é
o caso que aparece em Jz 6, 7 e 8, onde o povo invasor da época
de Gideão é chamado tanto de midianitas (Jz 6.11,14,16 e
27 KIDNER, D. Gênesis: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1991, p.168.

36
O PENTATEUCO

outros; 7.1,13,14,15; 8.22) como de ismaelitas (8.24). Veja, no


relato bíblico que segue, o texto que mostra o final da batalha
quando Gideão é convidado para ser rei de Israel, e perceba
como os midianitas também são chamados de ismaeleitas. O
texto diz assim:
22 Então os homens de Israel disseram a Gideão: Reina sobre
nós, tu, teu filho e o filho de teu filho, pois nos livraste das
mãos dos midianitas.
23 Porém Gideão lhes respondeu: Nem eu nem meu filho rei-
naremos sobre vós, mas o SENHOR reinará sobre vós.
24 Gideão também lhes disse: Quero fazer-vos um pedido.
Que cada um me dê uma argola do despojo (porque os ini-
migos usavam argolas de ouro, pois eram ismaelitas)
(Jz 8.22-24).

4) Em Gn 41.14 está a informação de que José se barbeou antes de


ir se encontrar com o Faraó. Certamente fez isto por ordem de
quem o chamou para o encontro, pois este ato reflete um cos-
tume Egípcio que vai contra o costume hebreu de usar barba.
5) O capítulo 38 de Gênesis aparece como uma história à parte da
de José. Ele trata, principalmente, de Judá e Tamar, enfatizan-
do a prática da lei do levirato, pela qual o irmão do falecido sem
filhos deveria se casar com a viuva para providenciar descen-
dência ao morto. Ela interrompe de forma abrupta a história de
José o que tem levado muitos a pensar que originalmente ela
não estava no lugar em que agora se encontra. Contudo, não
há uma explicação lógica do motivo pelo qual o redator final de
Gênesis colocou-a, ou deixou-a, neste lugar. Para uma melhor
leitura da história de José pode-se pular este capítulo e, mais
tarde, voltar e estudá-lo à parte.

37

Você também pode gostar