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DIREITO PENAL DO

CONSUMO – UM
DIREITO PENAL
SIMBÓLICO
A SIMBOLIC CRIMINAL LAW - LAW OF
CONSUMER CRIMES

José Danilo Tavares Lobato*

R ESUMO : O artigo formula forte crítica à Lei do


Consumidor em sua parte penal. A crítica formulada
procura demonstrar, a partir da análise de dois tipos
penais, a falácia do discurso de proteção do consumidor.
As justificativas destas criminalizações são postas em
xeque, posto não encontrarem amparo real, mas tão
somente imaginário ou simbólico e, assim, servirem para
legitimar a expansão do Direito Penal e do controle
político-social, sem o correspondente ganho protetivo
para insuperáveis bens jurídicos.
PALAVRAS-CHAVE: Direito Penal do Consumo – Proteção
do Consumidor – Direito Penal Simbólico

A BSTRACT : The article brings a critic thought about


Criminal Consumer Law. The justify of Law is hard
criticized because this speech of the legitimacy of Criminal

ARTIGO RECEBIDO EM: 27/07/2008 – ACEITO EM: 24/10/2008


* Doutorando em Direito pela UGF. Mestre em Direito – Ciências Penais
pela UCAM. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFRJ.
Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro.

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Consumer Law does not represent the truth. It means


that common thought of the application of criminal
sanctions to guarantee consumer’s protection is rejected.
This article shows that Brazilian Criminal Consumer Law
is more symbolic than effective to reach its law aims.
KEY WORDS: Criminal Consumer Law – Consumer’s
Protection – Symbolic Criminal Law

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo visa a verificar algumas inconsistências do Direito Penal


do Consumo. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor (lei 8.078/
1990) é a norma base deste Direito Penal, mas não exclusiva, pois também
encontramos incriminações penais envolvendo as relações de consumo na lei
8.137 de 1990. Não se tem qualquer propósito exauriente na abordagem da
temática proposta. O escopo consiste em realizar uma reflexão livre, a partir
dos tipos penais previstos nos artigos 69 e 70 do Código de Proteção e Defesa
do Consumidor, a respeito das iniqüidades encontradas no Direito Penal do
Consumo.

2. DIREITO PENAL DO CONSUMO OU DIREITO PENAL DO CONSUMIDOR?

Chamamos de Direito Penal do Consumo por concordar, de certo modo,


com a crítica de Marques Borges, endossada por Sérgio Chastinet Guimarães em
sua dissertação, de que a proteção ao consumidor vem ao lado dos interesses
supra-individuais1 relacionados à proteção, circulação e distribuição de bens e

1
Bravo, a respeito da legislação espanhola, que envolve uma mistura de
tutelas entre objetividades jurídico-penais que distinguimos em
economia popular e consumidor - (art 281 CP) Desabastecimento de
matérias primas ou produtos de primeira necessidade, (art 282 CP )
Falsa Publicidade, dentre outros tipos penais – afirma que a lei penal
espanhola “incluiu um grupo de hipóteses delitivas que podem ser
consideradas como autênticos delitos sócio-econômicos contra os
consumidores, em razão de haver um atentado contra os interesses
destes, enquanto um grupo coletivo, no âmbito do mercado” (tradução e
grifos nossos). BRAVO, Emilio Moreno y. Delitos Relativos al Mercado y

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serviços e à manutenção da credibilidade do modelo econômico instituído2. Em


outras palavras, o termo Direito Penal do Consumidor termina por expressar
menos do que necessita ao excluir de seu campo semântico interesses outros que
não propriamente os do consumidor, seja este visto individual ou coletivamente.
A legislação penal voltada à tutela das relações de consumo não se confunde
necessariamente com proteção ao consumidor, como, por exemplo, o que ocorre
na hipótese do artigo 69 do CPDC.
No entanto, a recusa em se perceber a legislação penal, cujo objeto seja as
relações de consumo, como um Direito Penal do Consumidor, não significa que
aceitamos a defesa pura e simples de que o consumidor é mediatizado para que o
Direito Penal, basicamente, assegure o consumo enquanto fato econômico
formador da estrutura de nossa sociedade.3 Caso assim procedêssemos, seríamos
obrigados a reconhecer tal processo de mediatização do ofendido em todos os
outros crimes previstos na legislação pátria.
Por esta visão, nos crimes contra o patrimônio, o proprietário é o meio pelo
qual se faz a tutela da propriedade, enquanto base de nosso sistema sócio-
econômico (capitalista). Dessa forma, este proprietário também seria mediatizado.
Se, por um lado, há de se concordar com Per Mazurek de que o Direito deva ser
considerado “como realidade produzida pela história e por toda a sociedade”, isto é, em
sua relação com “as condições de produção social”4, por outro, assiste razão a Eugenio
R. Zaffaroni e Nilo Batista em sua advertência de que “o resultado final da
criminalização primária e secundária e o do poder configurador subterrâneo que lhes é inerente”
não é fruto de uma manipulação central e consciente das agências (gestores da
criminalização), posto que estas agências são regidas por relações de concorrência
interna e externa.5 Em outros termos, não se pode simplificar o sistema penal a
uma mera superestrutura de garantia dos fatores econômicos. Esta simplificação
não é permitida em razão de o sistema penal sofrer, em todas as suas esferas, as
mais diversas e possíveis influências sócio-políticas.

a los Consumidores.in; Curso de Derecho Penal Económico. 2ª.ed. Enrique


Bacigalupo (Org). Madri: Marcial Pons, 2005. p.308 e p 309.
2
GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Tutela Penal do Consumo.
Abordagem dos aspectos penais do Código de Defesa do Consumidor e do Artigo
7o. Da Lei no 8.137, de 27.dez.1990. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004.
p.43.
3
GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Op. Cit. p.45.
4
MAZUREK, Per. Teoria(s) Marxista e Socialista do Direito. In: Introdução
à Filosofia do Direito e à Teoria do Direito Contemporâneas. A.
Kaufmann e W. Hassemer (Orgs). Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2002. p.444.
5
ZAFFARONI, E. Raúl; BATISTA, Nilo; et al. Direito Penal Brasileiro – I.
1a.ed. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2003. p.60 e p.61.

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De qualquer forma, é inegável o interesse político de proteger o consumo,


enquanto fator econômico, ao prever tipos penais para condutas atentatórias às
relações que o envolvem, mesmo que a maior parte dos tipos penais previstos no
CPDC seja destinada, prioritariamente, a defender o consumidor. Contudo, como
esta prioridade não se confunde com exclusividade, entendemos que o mais
adequado seja o emprego da denominação Direito Penal do Consumo.

3. ART 69 DO CPDC6

Para comprovar que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor não


tutela necessariamente o consumidor e nem teve esta vocação, passemos a analisar
do artigo 69 do CPDC. Em que pese o pensamento majoritário dos autores que
trataram do crime do artigo 69 do CPDC, o consumidor não é o sujeito passivo,
mas, sim, o Estado7. O consumidor (ou a sua coletividade) é sujeito passivo nos
crimes previstos nos artigos 67 e 68 do Código de Proteção e Defesa do
Consumidor, uma vez que tais normas penais incriminadoras procuram tutelar o
consumidor de forma a que, em razão de sua exposição à publicidade, ele não seja
enganado, abusado ou se comporte de maneira a pôr em risco sua saúde ou
segurança.8 Por outro lado, a norma do artigo 69 visa a garantir outra norma do
Código de Proteção e Defesa do Consumidor, que, na hipótese, é a do parágrafo
unido do artigo 369.

6
Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que
dão base à publicidade: Pena - Detenção de um a seis meses ou multa.
7
A favor: GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Op. Cit. p.112. Contra:
PASSARELLI, Eliana. Dos Crimes contra as Relações de Consumo – Lei Federal
n. 8.078/90(CDC). São Paulo: Editora Saraiva, 2002, p.79; COSTA JR.,
Paulo José da. Crimes contra o Consumidor. São Paulo: Editora Jurídica
Brasileira, 1999, p.50; MARQUES, Cláudia Lima; BENJAMIN, Antônio
Herman V.; MIRAGEM, Bruno. Comentários ao Código de Defesa do
Consumidor – Arts. 1o. a 74 – Aspectos Materiais. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2004, p.842; PRADO, Luiz Regis Prado. Direito Penal
Econômico. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004, p.151.
8
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser
enganosa ou abusiva: Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado). Art. 68. Fazer ou promover publicidade que
sabe ou deveria saber ser capaz de induzir o consumidor a se comportar
de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança: Pena -
Detenção de seis meses a dois anos e multa
9
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor,
fácil e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo único. O
fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em

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Podemos perguntar de que maneira o consumidor será prejudicado pela


conduta do fornecedor/anunciante que deixa de organizar dados fáticos, técnicos
e científicos que dão margem à publicidade. Essa omissão causa prejuízo à
fiscalização administrativa, que terá maior dificuldade e dispêndio em uma eventual
investigação a respeito da abusividade da publicidade. Contudo, ainda que haja a
omissão do fornecedor/anunciante em organizar os dados que embasam a
propaganda, o consumidor não terá e nem poderá sofrer qualquer dano se a
publicidade veiculada for verídica e estiver em conformidade com as pautas sociais
de conduta. Ou seja, o consumidor só será passível de sofrer algum prejuízo se a
publicidade for enganosa ou abusiva, hipótese em que encontrará a tutela do
artigo 67, ou se a propaganda o levar a se comportar de maneira ofensiva à sua
saúde ou segurança, quando, então, o fornecedor/anunciante incidirá nas penas
do tipo previsto no artigo 68 do CPDC.
Recusamos que a norma do artigo 69 tutele o direito de prova do consumidor,
já que o consumidor, enquanto parte tecnicamente hipossuficiente, pode se valer
do direito à inversão do ônus da prova10, o que significa que, em eventual litígio
técnico sobre os dados veiculados na publicidade, o ônus da prova da veracidade
dos dados competirá ao fornecedor e não ao consumidor.
Para arrematar a não-tutela do consumidor pelo artigo 69, citamos Passarelli
que afirma, com todas as letras, que “mesmo sendo verdadeira a publicidade, caso os
dados previstos em lei não estejam em poder do fornecedor, subsiste o crime”11. Inclusive,
ressalte-se que a incriminação permanecerá ainda que o fornecedor/anunciante
tenha consigo os dados fáticos, técnicos e científicos exigidos pela lei. Para tanto,
basta que eles não estejam organizados. Prado explica que “deixar de organizar” é
não manter em ordem, arquivo ou arrumados os dados, isto é, “o fato de se constatar
a mera existência de tais dados, sem, todavia, estarem devidamente organizados, não afasta a
configuração do presente delito”12.
Em realidade, a importância de tal organização de dados relaciona-se apenas
com o exercício do poder de polícia13 pela Administração Pública na aferição da

seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos,


técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem.
10
Art. 6º São direitos básicos do consumidor: (...) VIII - a facilitação da
defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a
alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de
experiências (grifos nossos).
11
PASSARELLI, Eliana. Op. Cit. p.80.
12
PRADO, Luiz Regis Prado. Op. Cit. p.151.
13
Art. 78 do Código Tributário Nacional. Considera-se poder de polícia
atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando
direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a abstenção

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legalidade da publicidade. Em Di Pietro, verifica-se que o poder de polícia é a


atividade estatal de impor limites ao exercício de direitos individuais em benefício
do bem estar coletivo ou interesse público14. Assim, para assegurar a obediência
da norma prevista parágrafo unido do artigo 36 do CPDC, o legislador, ao invés
de criar meios administrativos, optou por utilizar o Direito Penal com o fim de
facilitar o exercício de seu poder de polícia. Entretanto, não obstante o óbvio, por
razões obscuras e inexplicáveis, há um pensamento comum professando que a
norma do artigo 69 do CPDC protege o consumidor. Assiste razão a Zaffaroni
em sua afirmativa de que “o atual discurso jurídico-penal procura ocultar o baixíssimo
nível de elaboração teórica das premissas com um altíssimo grau de elaboração das conseqüências,
o que desconcentra e confunde”15.

4. ART. 70 DO CPDC16

Em contrapartida, trazemos o artigo 70 do Código de Proteção e Defesa do


Consumidor como um tipo penal que visa a diretamente tutelar o consumidor.
Este tipo penal é um ponto de referência do equívoco legislativo em sede penal,
isto é, o artigo 70 do CPDC representa o que se entende por Direito Penal
simbólico. Ressalve-se com Juarez Tavares que o simbólico cumpre um papel de
legitimação do poder17.

de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à


higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado,
ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou
autorização do Poder Público, à tranqüilidade pública ou ao respeito à
propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. (Redação dada pelo
Ato Complementar nº 31, de 28.12.1966).
14
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. 7a.ed. Direito Administrativo. 7a.ed.
São Paulo: Editora Atlas, 1996. p.92 e p.94.
15
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Prólogo; in: Matrizes Ibéricas do Sistema
Penal Brasileiro – I. Nilo Batista (Autor). Rio de Janeiro, Editora Freitas
Bastos, 2000. p.13.
16
Art. 70. Empregar, na reparação de produtos, peça ou componentes
de reposição usados, sem autorização do consumidor: Pena - Detenção
de três meses a um ano e multa.
17
“Como o simbólico constitui, sob qualquer aspecto, um meio de integração
entre dois pólos, o discurso jurídico, desde há muito, apresenta o mesmo
conteúdo e os mesmos objetivos, justamente o de possibilitar, por meio
de sua forma, que jamais o poder real seja posto em discussão, e que o
Estado nunca lhe escape das mãos”. TAVARES, Juarez. A Globalização e
os Problemas de Segurança Pública. Ciênciais Penais – Revista da Associação
Brasileira de Professores de Ciências Penais. São Paulo, 2004. p.128.

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O legislador criou o artigo 70 para tipificar uma forma “especial de estelionato”.


Como se depreende da leitura do artigo, o propósito legislativo criou um
“estelionato nas relações de consumo”, porque o emprego, na reparação de um
produto, de peças de reposição usadas atinge diretamente o consumidor, que,
incapaz de controlar os objetos empregados no conserto de seu bem, é o sujeito
passivo da fraude realizada pelo fornecedor. O tipo penal trata de uma fraude.
Acrescente-se que esta fraude está dirigida ao consumidor que contrata o serviço,
isto é, o crime não pode ter como sujeito passivo a coletividade e nem a confiança
no sistema econômico de consumo como o bem jurídico tutelado, salvo se, nesta
última hipótese, se adotar a prevenção especial positiva jakobsiana como o fim da
pena criminal, o que recusamos18.
Em se adotando o entendimento de que o artigo 70 do CPDC protege
diretamente qualquer interesse ou entidade19, enquanto que o consumidor,
propriamente dito, só recebe uma proteção indireta ou mediata, seríamos obrigados
a reconhecer o concurso de crimes entre o citado artigo 70 e o crime de estelionato,
quando da ocorrência de dano patrimonial ao consumidor. Sob esta perspectiva,
além de ser irrefutável que os tipos penais visariam a proteger sujeitos passivos
diversos, não há como se superar o fato de não existir qualquer relação de
progressividade entre os tipos penais em questão e, muito menos, de que o crime
do artigo 70 do CPDC seja fase de realização do crime do artigo 171 do CP e
vice-versa. Curiosamente, Passarelli defende que, comprovado o dano patrimonial,
o tipo do artigo 70 do CPDC restará subsumido pelo do estelionato20. É de se
perguntar como um crime que tem como sujeito passivo a coletividade de
consumidores e como bem jurídico primário a tutela das relações de consumo21
pode ser consumido pelo crime de estelionato22 que tem a inviolabilidade do
patrimônio como objetividade jurídica e a pessoa física ou jurídica como sujeito
passivo23. Consultando Fragoso, não há dúvidas quanto à necessidade de que a

18
JAKOBS, Günther. Derecho Penal – Parte General – Fundamentos y Teoría
de la imputación. Trad: Joaquin Cuello Contreras e Jose Luis Serrano
Gonzalez de Murillo. Madrid: Marcial Pons, 1997. p.44. p.45.
19
Sobre o citado tipo penal, afirma Passarelli: “já na condição de sujeito
passivo da infração penal figura a coletividade de consumidores”.
PASSARELLI, Eliana. Op. Cit. p.82.
20
PASSARELLI, Eliana. Op. Cit. p.83.
21
PASSARELLI, Eliana. Op. Cit. p.82.
22
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Especial.
Vol III. 3a.ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2006. p.277 e p.278.
23
Em terras espanholas, quanto à relação dos crimes de expedição de
fatura falsa em prejuízo do consumidor e de estelionato, Bravo expõe
que o critério da consunção não é aplicável, “já que não é possível
predicar um concurso aparente de normas porque entre os preceitos
existe uma diversidade tanto de bens jurídicos protegidos como de

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violação diga respeito ao “mesmo bem jurídico”24. Obviamente, partindo das premissas
de Passareli para o crime do art. 70 do CPDC, é equivocada a chamada do princípio
da consunção para resolver o conflito aparente de normas entre o citado tipo
penal e o do art. 171 do CP. Hungria consignava a existência da consunção de
uma norma por outra quando o crime previsto na primeira norma não passar de
uma “fase de realização do crime” previsto na segunda norma, vide a absorção da falsidade
ideológica pelo crime de bigamia, ou, ainda, se houver uma “necessária ou normal forma de
transição” (crime progressivo), veja-se o homicídio frente às lesões corporais que
lhe antecedem25.
Por outro lado, negando suas premissas, Sérgio Chastinet Guimarães afirma
que o fornecedor que obtém vantagem ilícita com prejuízo patrimonial relevante
ao consumidor cometerá o tipo penal do crime de estelionato, isto em razão do
princípio da subsidiariedade26. O erro de tal conclusão reside no fato de se defender
que o Estado é o sujeito passivo principal do crime previsto no artigo 70 do
CPDC, e que o bem jurídico, na hipótese, é “a intangibilidade da ordem econômica
incidente sobre o consumo, particularmente no aspecto da proteção do consumidor contra métodos
comerciais desleais e danos patrimoniais”27, o que deixa patente a escolha de soluções ad
hoc. Como pode haver a incidência do princípio da subsidiariedade entre crimes
com sujeitos passivos primários e bens jurídicos tão diversos? A lição de Fragoso
é clara ao somente admitir subsidiariedade quando a norma definidora de “crime
menos grave” estiver “abrangida pela norma que define crime mais grave, nas circunstâncias
concretas em que o fato ocorreu”, isto é, o crime definido por uma das normas em
conflito deve ser “elemento ou circunstância legal de outro crime”28.
Paulo José da Costa Jr. entende que o artigo 70 do CPDC possui o patrimônio
do consumidor como objetividade jurídica, sendo este o sujeito passivo da fraude
do fornecedor29. De forma lógica com suas premissas, expõe que o crime em tela
é uma espécie de estelionato, já que o sujeito ativo aufere vantagem indevida ao
empregar ardil ou ao manter o ofendido em erro30. Considerando que a intenção
do legislador foi, seguindo a Constituição, trazer proteção ao consumidor, podemos

sujeitos passivos, em razão de que será exclusivamente defensável o


concurso real de crimes” (tradução nossa). BRAVO, Emilio Moreno y.
Op. Cit. p.330.
24
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal – Parte Geral – Parte
Geral. 16a.ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003. p.453.
25
HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal. Tomo II. Vol.1. 4a.ed.
Rio de Janeiro: Editora Forense, 1958. p.139 e p.140.
26
GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Op. Cit. p.118.
27
GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Op. Cit. p.116.
28
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Op. Cit. p.452 e p.453.
29
COSTA JR., Paulo José da. Op. Cit. p.52.
30
COSTA JR., Paulo José da. Op. Cit. p.53.

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categoricamente afirmar, diferentemente Paulo José da Costa Jr., que o legislador


foi bastante infeliz em tipificar esta modalidade de fraude, isto porque, seguindo
as suas premissas, houve a retirada da tutela conferida pelo artigo 171 do Código
Penal ao consumidor. A mitigação da tutela do consumidor ocorreu no momento
em que se trouxe uma lei penal simbólica que beneficia o fornecedor de serviço
de conserto que realiza estelionato em suas funções.
Para salvar a norma prevista no artigo 70 do CPDC deste erro legislativo,
deve-se verificar a existência de uma interpretação que não exclua a tutela do
artigo 171 do Código Penal ao consumidor, não afronte a Constituição da
República31 e, principalmente, não pratique bis in idem32 na reprovação penal. A
dupla punição só será evitada se entendermos o artigo 70 como uma norma penal
dirigida a tutelar o consumidor, tendo o direito de informação como bem jurídico.
Até se concorda que exista, subsidiariamente, a tutela do patrimônio no crime do
artigo 70 do CPDC33, todavia, esta se dá a partir de um prisma diverso se comparado
com a tutela do artigo 171 do CP. No crime de estelionato, a tutela do patrimônio
está dirigida contra agressões que impliquem em sua perda ou diminuição, enquanto
que no crime do artigo 70 do CPDC o patrimônio do consumidor não é protegido
contra agressões que lhe retirem ou reduzam o valor, mas contra a agressão
praticada por terceiro que dispõe do mesmo sem o consentimento do consumidor,
que carece da informação adequada.
Pelo tipo do artigo 70 do CPDC, esta disposição do patrimônio alheio não
precisa necessariamente acarretar prejuízo patrimonial ao consumidor, ou seja,
ela apenas atinge o direito de escolha ou opção do consumidor pela origem da
peça ou componente de reposição a ser usado no conserto de seu bem. No
tocante, podemos citar Benjamin que, não obstante vislumbrar uma discutível
proteção à relação de consumo sanitária, defende que a norma em debate procura

31
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) XXXII - o Estado
promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor; Art. 170. A ordem
econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre
iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) V -
defesa do consumidor;
32
“Em termos gerais, o princípio non bis in idem consiste na proibição de
que um mesmo fato seja punido mais de uma vez. (...) não é possível a
aplicação conjunta de duas sanções penais a um mesmo fato” (tradução
nossa). MUÑOZ CONDE, Francisco; ARÁN, Mercedes García.
Derecho Penal – Parte General. 6ª.ed. Valência: Editora Tirant lo Blanch.
2004. p. 108 e p.110.
33
PRADO, Luiz Regis Prado. Op. Cit. p.154.

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assegurar a informação plena do consumidor34. Dessa forma, pode ser útil o critério
trazido, a contrario sensu, por Sérgio Chastinet Guimarães35 e que consiste na
verificação da relevância do prejuízo patrimonial. Isto é, caso a utilização de um
componente usado não traga prejuízo patrimonial ao consumidor, a hipótese legal
será a do artigo 70 do CPDC. Por outro lado, se houver prejuízo material, a
tipificação da conduta será, como defendido por Prado, a do artigo 171 do CP c/
c a do artigo 70 do CPDC, em concurso formal36, uma vez que há diversidade de
bens jurídicos primariamente protegidos.
No primeiro tipo, tutela-se a inviolabilidade do patrimônio e no segundo o
direito de informação e escolha do consumidor. Saliente-se que há o crime do
artigo 70 mesmo se, no caso concreto, o consumidor obtiver um acréscimo
patrimonial com o emprego da peça ou componente usado ao invés de um novo37.
Imagine se a peça nova escolhida pelo consumidor fosse uma de baixa qualidade
e de reduzido preço, enquanto que, apesar de usada, a utilizada pelo fornecedor,
sem o seu consentimento, fosse de melhor qualidade e de preço mais elevado,
ainda, assim, haveria o crime do artigo 70 do CPDC, o que significa que, mesmo
tendo o direito de informação e escolha do consumidor reflexo no patrimônio do
sujeito passivo, a informação e o poder de opção do consumidor possuem um
valor próprio que lhes erige à qualidade de um bem jurídico autônomo e diverso
da objetividade jurídica patrimônio.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise de apenas duas espécies delitivas, pôde-se constatar que os


tipos penais albergados pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor não
tutelam necessariamente o consumidor, mesmo quando, em tese, o escopo
legislativo tenha sido a proteção do consumidor. A concretização legal deste fim
deu-se de forma, no mínimo, questionável, para não dizer equivocada. No entanto,
acentuamos que o termo Direito Penal do Consumo tem a vantagem de não
trazer uma falsa restrição semântica, pois não esconde os fins da criminalização
realizada pela lei 8.078/1990. A “tutela” penal oriunda da lei 8.078/1990 vai além
da figura do consumidor, chegando inclusive ao Estado.

34
MARQUES, Cláudia Lima; BENJAMIN, Antônio Herman V.;
MIRAGEM, Bruno. Op. Cit. p.844.
35
GUIMARÃES, Sérgio Chastinet Duarte. Op. Cit. p.118.
36
PRADO, Luiz Regis Prado. Op. Cit. p.158.
37
Com posição similar: PRADO, Luiz Regis Prado. Op. Cit. p.157.

102
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Em todo caso, a idéia central do artigo foi mostrar a existência de um ramo


do Direito Penal, criado com fins meramente simbólicos, em que não há uma
consistência mínima para, com um grau mínimo de razoabilidade, permitir ao
intérprete saber o que e quem o Direito do Consumo tutela e, principalmente,
descobrir qual o fundamento que justifica a sua manutenção frente à dogmática
de um Direito Penal Liberal.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Especial. Vol III.
3a.ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2006.

BRAVO, Emilio Moreno y. Delitos Relativos al Mercado y a los Consumidores .in; Curso
de Derecho Penal Económico. 2ª.ed. Enrique Bacigalupo (Org). Madri: Marcial
Pons, 2005.

COSTA JR., Paulo José da. Crimes contra o Consumidor. São Paulo: Editora Jurídica
Brasileira, 1999.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. 7a.ed. Direito Administrativo. 7a.ed. São Paulo:
Editora Atlas, 1996.

FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal – Parte Geral – Parte Geral.
16a.ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003.

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