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Bezerra, N. X.

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qual colonizadores e populações de matriz Tapuia entre grupos não abdicou das intersecções com
protagonizaram uma série de violentos conflitos pelas representantes das matrizes de origem africana e
disputas de terras no interior nordes no, tendo como europeia, fato que contribuiu para diluir entre as
cenário mais sangrento a região norte-rio-grandense populações atuais caracterís cas sico-corporais
de Assú, promoveu o declínio da população indígena estereo padas, alusivas ao po indígena internalizado
masculina, morta por dificultar o processo de genericamente pelo imaginário social, talvez mais
interiorização da presença portuguesa em suas terras. condizente com grupos amazônicos, entretanto,
A par r dele, a historiografia foi acionada para diferente da realidade exposta pelos indígenas do Rio
fundamentar o discurso unilateral sobre o total Grande do Norte (VALLE; PEREIRA; MOREIRA, 2006).
“extermínio” dos na vos em solo po guar. Outra Desde então, a história do Catu dos Eleotérios
estratégia de anulação da cultura indígena foi a criação tem sido escrita mediante sucessivas ações cole vas,
de aldeamentos, ação implementada pela Coroa obje vando garan r progressivamente o
Portuguesa e apoiada pelas Ordens religiosas dos reconhecimento defini vo de sua iden dade étnica;
jesuítas, carmelitas e franciscanos. Nesses lugares, a não mais como “catuzeiros”, termo pejora vo u lizado
escravização não oficializada jus ficada pela inserção outrora por não indígenas para ridicularizá-los e
do indígena na sociedade colonial e a dominação caracterizá-los nega vamente, mas, como um grupo
cultural, auxiliada por uma severa ideologia católica, com valores culturais específicos e em relação de
contribuíram para a crescente diluição da cultura equidade com outros grupos sociais. Como uma dessas
indígena, culminando com a separação intencional e a ações, podemos certamente associar a organização da
convivência forçosa de indivíduos pertencentes a Festa da Batata, espaço comunitário de lazer e
etnias dis ntas (SANTOS JÚNIOR, 2008). entretenimento, de circulação da economia local, mas,
A lei no 601, de 18 de setembro/outubro de sobretudo, um campo propício para seus habitantes se
reafirmarem poli camente, diante de seus parentes e
1
1850, do Ministério do Império, documentava o
desaparecimento dos indígenas dos censos oficiais, também de visitantes externos, recobrando sua
declarando as terras indígenas como devolutas. Uma iden dade étnica e fortalecendo suas tradições
citação cascudiana con da na obra História do Rio culturais.
Grande do Norte, de autoria de Marlene da Silva Mariz e Figura 1 - Comunidade do Catu dos Eleotérios,
Luiz Eduardo Suassuna (Apud SANTOS JÚNIOR, 2008, novembro de 2015.
pág. 154), registra dados que reforçam a tese do
desaparecimento das populações indígenas em terras
po guares:

O século XIX assis u ao desaparecimento


do indígena no Rio Grande do Norte[...]
Depois de 1850, como afirma Cascudo, as
informações foram rareando, subs tuídas
pelas referências de mes ços. Diluíram-se
os indígenas na população e o seu
território patrimonial, dividido entre as
autoridades locais.

Entretanto, contrariando tal declaração, a


“ressurgência” dos Eleotérios como um grupo indígena
não representou um caso isolado, pois, desde os anos Fonte: foto do autor.
de 1970, soma-se a outras comunidades indígenas,
notadamente situadas na região Nordeste e vinculadas O termo Catu possui origem Tupi-Guarani, seu
a um processo conhecido como “etnogênese ou significado é diverso, porém, pode ser interpretado
emergência étnica”. O argumento central para jus ficar como “local bom” ou “agradável”, nome propício à
t a l fe n ô m e n o a n c o r a - s e n o s p ro c e s s o s d e paisagem, na qual está inserida a comunidade do
reorganização sociocultural, mo vados por essas “Catu”, geográfica e oficialmente iden ficada como um
comunidades diante de uma hibridação étnica forjada distrito, dividido pelo Rio Catu, divisor natural dos
por imposições polí cas e econômicas, que reprimiram municípios de Goianinha e Canguaretama. Esse rio é
fortemente a diversidade dos legados culturais dos um elemento natural e simbólico de grande
povos indígenas em nome de uma ambicionada
homogeneização da cultura nacional. Essa mistura
1
Tratamento genérico u lizado pelos indígenas para se referir uns aos
outros, independentemente de sua etnia).

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importância para seus habitantes por oportunizar o quando verificamos mais atentamente o contexto
cul vo da agricultura familiar em suas margens úmidas sociocultural que envolve sua criação, percebemos
e favorecer outras prá cas culturais como os banhos e que ela foi ressignificada pela comunidade de onde
a pesca. Num olhar panorâmico sobre o Catu, percebe- advém, e que seus indivíduos atribuíram outros
se que seus limites são emoldurados pelos canaviais sen dos à sua realização, dentre os quais, um
entrecortados por fragmentos de Mata Atlân ca, momento especial para reafirmação da iden dade e da
predominam próximos das moradias, os quintais renovação de tradições indígenas, além de ser uma
compostos por árvores fru feras diversas (na vas e oportunidade para estreitar a solidariedade entre o
exó cas), pequenos criatórios de animais domés cos grupo e gerar renda (DANTAS, 2008).
(galinhas, porcos e vacas) e, margeando o Rio Catu, os A compreensão de iden dade que u lizo
dialoga com o conceito de hibridação defendido por
canteiros ou leirões2, des nados à produção de
Nestor Canclini (2003), entendido como “processos
hortaliças e legumes, destacando-se o plan o de
socioculturais nos quais estruturas que exis am de
milho, cebolinha, coentro, alface, mandioca e batata-
forma separada, se combinam para criar novas
doce.
estruturas, objetos e prá cas”. Tal abordagem não
reconhece a iden dade cultural como um conjunto de
Breve histórico da festa
tradições “autên cas” e imutáveis de um grupo ou
etnia, embotadas numa perspec va dissociada de uma
A festa da batata fortalece a iden dade e
construção dinâmica, cole va e histórica. As
nossa ligação com a terra – a territorialidade. transformações ocorridas ao longo do tempo na
É um momento de comemoração da colheita. organização da festa da batata são especialmente
Nessa ocasião apresentamos o Toré ´aberto` ilustra vas das assimilações de bens, saberes e fazeres,
junto aos visitantes. Também fazemos o Toré resultantes dos intercâmbios estabelecidos pelos
´fechado`, quando cultuamos a ´jurema indígenas do Catu com outros grupos culturais.
sagrada` e os ´encantado` (espíritos dos As origens da Festa da Batata remontam ao Dia
antepassados). Absorvemos forças para de Todos os Santos, comemorado no dia 1º de
con nuar na luta pela terra por meio de novembro, e sua celebração já exis a anteriormente à
nossos encantados, nossos antepassados. inauguração da Capela de São João Ba sta em 1977. A
(Luiz Katu Apud GUERRA, 2016). programação religiosa compreendia novenário, missas
e procissões, em 2015, a procissão não foi realizada, de
acordo com Ocilene Soares, responsável nos úl mos
A princípio, é preciso dizer que esta pesquisa é anos pela organização, a decisão foi consequente do
inicial e necessita ser complementada, jus fico assim expressivo desinteresse dos moradores, mo vado pelo
por apresentar lacunas, que não dão conta do evento aumento das famílias evangélicas, que não se
em sua totalidade, começando pelo desafio do tempo reconhecem par cipando de um ritual de tradição
compreendido para o registro etnográfico, (entre 7h católica. Na fala de outros moradores, as diferenças
até pouco mais das 19h, no dia 1º. de novembro de religiosas ainda tropeçam na inserção do Toré na
2015). A mo vação surgiu do meu real interesse em programação da festa e sua conhecida associação ao
par cipar de uma fes vidade indígena dedicada à ritual da Jurema. Sendo assim, alguns não consideram
batata-doce e esboçar um registro antropológico sobre aceitável par ciparem de rituais comuns que lidam
o evento. Interessava-me conhecer sobretudo com credos diversos, evitando, por esse mo vo, se
informações gerais sobre as origens da festa, como se integrarem efe vamente à festa.
estruturava e, mais precisamente, quais alimentos O uso de apelidos é frequente no Catu, por
compunham seu cardápio fes vo, quem os preparava e isso, cabe aqui mencionar essa caracterís ca para
como ocorria o seu consumo. Ao longo do dia da festa, entendermos parte da história dessa festa na
foram realizadas entrevistas dialogadas com comunidade. O senhor Francisco Soares, conhecido
residentes do Catu e visitantes, bem como, registros como “Chico Neném”, falecido em 1990, avô de “João
fotográficos. de Zezinho”, esposo da senhora Ocilene, por muitos
O conceito de festa no âmbito das ciências anos, tomou à frente da organização da festa e,
sociais é compreendido como um fenômeno social e segundo relato do cacique Luiz Katu , o pai de Chico
3

histórico incluso numa determinada temporalidade e Neném narrava par cipações nos festejos, sugerindo
passível de atualizações, segundo a realidade do grupo forte influência católica nos primeiros anos da festa e
social na qual é produzida (DA MATTA, 1980); sua existência já no início do século XX. Com a morte
(CHIANCA, 2006); (FERREIRA, 2011). Quando
iniciamos nossa observação sobre a festa da batata, 2
Faixa de terreno cul vável.
compreendemos ser, a princípio, uma festa campesina 3
O nome Katu escrito com a letra “K”, quando citado no texto, refere-se
vinculada a uma origem religiosa católica. Porém, à pessoa do cacique Luiz.

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de Chico Neném, foi estabelecido um hiato entre os comidas e bebidas na comunidade é compreendida
anos de 1990 a 2002, quando a programação cultural como alterna va para a geração de renda, os ganhos
foi esquecida provisoriamente, preservando-se apenas ob dos são rever dos para o consumo próprio de cada
a parte religiosa da festa. par cipante que investe na organização da festa e
A mudança da festa começa a ser delineada em normalmente são reaplicados para melhorias no trecho
2000, ano no qual o cacique Luiz Katu principia seu de terra cul vado por cada família.
envolvimento com o movimento indígena, Por volta do meio dia, um almoço composto por
conquistando para si o papel de líder e porta-voz da frango, arroz, feijão, macarrão (espaguete), farofa e
comunidade. Sua função par lhada juntamente com batata-doce e, como bebida, refrigerantes; as
outras lideranças locais, almejava reivindicar a sobremesas eram opcionais. Nesse momento, o
iden dade indígena dos seus habitantes, consumo foi feito com as pessoas distribuindo-se
fundamentada em prá cas e relatos de seus sentadas pelo chão ou nos degraus da escadaria da
antepassados forçosamente esquecidos ao longo de escola. Após o almoço, as crianças que mais tarde
muitos anos. Tais ações à época, amparadas por par cipariam do Toré, principiaram fazer pinturas
estudos antropológicos mudam a perspec va até corporais umas nas outras e a ves r as saias de palha
então aceita da inexistência de grupos indígenas no Rio usadas na dança.
Grande do Norte.
Em 2002, Luiz Katu organiza uma comissão Porque a batata e não outro alimento?
obje vando a recuperação da programação cultural da Figura 2 - Plan o de batata-doce
festa, além de es mular o aumento do plan o da no Catu, novembro de 2015.
batata-doce nas terras banhadas pelo Rio Catu. A
batata-doce, dentre as espécies cul vadas pela
agricultura familiar, é aquela que apresenta um tempo
de colheita menor, entre dois meses a três meses após
o plan o de suas ramas, além disso, o mês de
novembro estaria situado no final de um desses ciclos
que compreendem sua colheita. Essa caracterís ca foi
determinante para que essa raiz fosse escolhida dentre
outras culturas como tema central da nova versão da
festa. A Festa da Batata é, portanto, inicialmente uma
celebração agrícola, um momento para festejar a boa
safra. Porém, quando recuperamos o histórico de
reafirmação polí ca da iden dade indígena na
comunidade, a festa é também um ato simbólico
importante para consolidar o sen mento de
iden dade étnica do grupo e as tradições herdadas de
Fonte: foto do autor.
seus antepassados.
O preparo das comidas da festa ocorre na
véspera para o mizar a distribuição e finalização dos A batata-doce (Ipomoea batatas) é uma planta rús ca,
pratos durante o evento. Outros alimentos são de fácil adaptação, baixo custo de produção, podendo
ser cul vada em diferentes pos de solo e de clima.
comercializados por ambulantes não residentes no
Para consumo humano, são apreciadas suas raízes,
Catu e que anualmente vendem seus produtos
assadas, fritas ou cozidas e, em alguns países, também
especificamente por ocasião da festa, ambulantes
os seus brotos. No Brasil, é a quarta hortaliça mais
oferecem churrasquinhos de carne bovina, linguiça
consumida, possuindo grande aceitação popular.
calabresa e frango, milho cozido, batata frita, pizza,
pastel de carne, coxinha de galinha, enroladinho de Sabe-se que é originária da América Tropical e
salsicha, algodão-doce, pipoca, sorvete e caldo de foi cul vada por populações na vas, porém, há
cana. Esses comerciantes, em sua maioria, residem em imprecisões sobre o local de origem: noroeste da
municípios e pequenas comunidades achegadas ao América do Sul (Peru, Colômbia e Equador), Sul do
Catu. México ou América Central (Guatemala). Há relatos
Para a festa, são montadas estruturas com
sobre sua u lização por indígenas brasileiros no século
barracas metálicas ou de madeira cobertas com lona
sinté ca para comercializar, servir ou consumir os XVI (MINISTÉRIO, 1989), informação par lhada por
alimentos e abrigar as demais a vidades da festa, como CASCUDO (2004) e, mais recentemente na década de
a venda do artesanato local. A importância da venda de 1960, quando a batata-doce é iden ficada como um

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dos alimentos domes cados pelos indígenas, Figura 3 - Batata-doce cozida com casca, a raiz
destacando seu cul vo entre os povos Goitacás, é u lizada em pratos salgados e doces servidos
durante a Festa da Batata no Catu.
Aweikota, Botocudo, Pataxó, Coroado e Apinajé
(DÓRIA, 2014).
No Catu, a batata foi escolhida por ser uma
espécie de fácil cul vo, além de manter uma
produ vidade regular durante o ano todo. Os
antepassados dos indígenas do Catu sempre
cul varam a batata-doce, esse alimento é consumido
dentro e fora da comunidade, comercializado nas feiras
livres dos municípios de Canguaretama e Goianinha.
Criar um festejo para ressaltar a importância da batata
foi decisão cole va.
A batata-doce é ingrediente versá l, no
contexto nordes no, aparece em pratos diversos
Fonte: Foto do autor, 2015.
(salgados e doces) nas três principais refeições do dia
(café da manhã, almoço e jantar), cozida ou assada, Um alimento iden tário?
juntamente com o inhame, a macaxeira, a fruta-pão e o
A calambica é um alimento de grande aceitação
cuscuz de milho; é subs tu va do pão feito com
pela comunidade local e pode ser consumida doce ou
farinha de trigo, servida com café, pura, acrescida de salgada, sua textura também apresenta variações e
m a n t e i g a o u n a t a . No a l m o ço o u j a n t a r, é aparência de um creme ou mingau. Em seu preparo, a
acompanhamento do feijão e das “misturas” (carnes, batata doce é amassada e acrescida ao de leite de coco
puro (não industrializado) até se obter uma aparência
aves, peixes, linguiças, ovos, fritadas, gado, caça).
cremosa, alguns preferem amassar pouco a batata,
Para sobremesas, é u lizada na preparação de bolos e preservando uma textura mais granulosa e menos
doces (SUASSUNA, 2010), (JÚNIOR, 2005). uniforme. É compreendida dentro da categoria de
Durante a festa, verificamos seu uso numa “comida forte”, desaconselhável para que tem
cozinha comemora va, na qual foram elaborados e “intes no fraco”.
Segundo a senhora Maria Dalva Bezerra,
consumidos diversos pratos doces e salgados (lasanha, conhecida como Dona Neném e proprietária do
suflê, purê, coxinha de galinha, bolinho de carne com Restaurante Olho do Katu, a mistura de jerimum
batata, torta salgada, calambica, doce de coco com (abóbora) amassado com leite de vaca, leite de coco ou
batata, pudim e “din-din” – polpa adocicada e caldo de galinha também é conhecida como calambica.
Informação similar ao significado de calambica con do
congelada em saquinhos plás cos – bolo e brigadeiro
no Dicionário do Nordeste: “sopa de jerimum com leite
de batata doce), alguns exemplos da comida co diana, de vaca e açúcar.” A origem exata do nome é
outros feitos exclusivamente por ocasião da festa. O desconhecida, outra variante u liza a macaxeira
preparo foi feito por Gilvânia do Nascimento, amassada com leite de coco e manteiga (NAVARRO,
merendeira da escola indígena situada no Catu, e por 2013).
Dentre as pessoas consultadas durante a
sua auxiliar Maria Regiana, responsáveis nos úl mos realização da pesquisa, jovens e idosas, todas,
dois anos pela produção de toda a comida da festa. À expressaram sua aceitação pela calambica como
exceção do caldo de cana, não observamos durante o alimento semanal, algumas mencionaram ser mais
evento bebidas artesanais ou que especificamente consumida como jantar. A escritora Ana Rita Suassuna
(2010), descreve o consumo da batata-doce cozida e
u lizem a batata doce em sua composição, muito
amassada com o garfo num prato fundo com leite
consumidos de acordo com alguns moradores, são o quente ou frio, como item do café da manhã ou da ceia
“vinho de gengibre”, a cachaça, além de cerveja e no sertão nordes no, destacando ser esse um prato
refrigerante, todas produzidas industrialmente. muito usado como refeição das crianças.

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Mudanças alimentares O contexto do toré na festa

Da mesma maneira que a imagem do po sico


Figura 4 - Dança do Toré “aberto”, inserido
indígena idealizado sobrevive no senso comum,
no contexto da Festa da Batata, novembro de 2015.
igualmente persiste uma visão roman zada sobre
como se organizam os padrões alimentares pra cados
pelos grupos indígenas na contemporaneidade. Não
estamos mais diante de populações que provém o seu
sustento exclusivamente através da caça, do
extra vismo e do plan o de roças cole vas.
Quando observamos o contexto da Festa da
Batata, verificamos de imediato que o consumo dos
alimentos industrializados pelos habitantes do Catu
prevalece diante daqueles iden ficados como
“tradicionais”. Pensar a alimentação de modo mais
abrangente como uma prá ca cultural relevante em
interação con nua com o meio ambiente pode
significar o começo de uma análise mais próxima da
realidade. De acordo com MONTANARI (2008, pág.
189), “os modelos e as prá cas alimentares são o ponto Fonte: Foto do autor.
de encontro entre culturas diversas, fruto da circulação
de homens, mercadorias, técnicas e gostos de um lado O Toré é nossa dança sagrada. Dançamos
para o outro do mundo.” toda vez que queremos agradecer a Tupã
Parte dos habitantes do Catu trabalha como (Deus) e na Festa da Batata dançamos para
mão de obra das usinas regionais de beneficiamento de agradecer pela colheita da batata no Catu.
cana-de-açúcar, outra parte sobrevive como Comemoramos o ponto máximo da
agricultores familiares, cul vando e comercializando colheita e celebramos a união na
hortaliças em pequenas faixas de terras úmidas às representação de todos os santos e
margens do Rio Catu, onde a batata-doce é dos encantados.(Cacique Luiz Katu, 2016.)
alimentos mais cul vados. A produção excedente é
direcionada para as feiras livres dos municípios de
Canguaretama, Goianinha e Pedro Velho, espaço que A dança do Toré, realizada diante do público
igualmente acolhe o resultado do o cio dos coletores cons tuído por indígenas e pelo público visitante e
de mangaba, prá ca ainda desempenhada por alguns
diverso que costuma comparecer, a cada ano, à Festa
de seus habitantes. Essa fruta leitosa, perfumada e
da Batata, é um ponto alto na programação por reunir
adocicada é pica das terras arenosas do litoral
diversos aspectos simbólicos nela implícitos. É um
nordes no e encontrada nas áreas remanescentes de
momento religioso para reverenciar e agradecer às
Mata Atlân ca no entorno do Catu.
divindades, a união e a boa colheita da batata-doce,
A l i m i t a ç ã o d a s t e r r a s a g r i c u l t á ve i s ,
entretanto, também é um momento polí co
insuficientes para alimentar toda a comunidade ao
significa vo. (SOUSA, 2016)
longo do ano, a proximidade e circularidade de seus
Em 2015, o Toré foi apresentado como
habitantes pelas sedes dos municípios limítrofes, o
livre acesso às informações veiculadas pela mídia, componente da programação da festa ao final da tarde,
favorece o consumo de alimentos industrializados e o a maioria de seus par cipantes era cons tuída por
contato com os alimentos “de fora”, ou seja, provocam crianças, estudantes da escola indígena, alguns jovens,
transformações diretas nos hábitos alimentares, poucos adultos, dentre eles o Cacique Luiz Katu. A
aproximando cada vez mais os indígenas da dieta composição do grupo prioritariamente formado pelas
consumida pela população iden ficada como não crianças é ressaltada simultaneamente como uma
indígena. esperança na permanência das tradições e lutas
Os alimentos elencados no cardápio preparado geradas em prol do reconhecimento social da
especialmente pelas mulheres indígenas para a ocasião comunidade e também como uma preocupação pelo
da festa e servido pelos vendedores ambulantes de fato dessas crianças se tornarem posteriormente
comida que par cipam do evento são especialmente estudantes das redes municipais e estaduais dos
ilustra vos de um processo de “hibridação” de municípios de Goianinha e Canguaretama, onde não
ingredientes, sabores e formas de preparo com terão mais em seus currículos a con nuidade dos
notórias influências externas. saberes indígenas que vivenciam no co diano e na

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escola situada na comunidade. O Toré serviria também O julgamento das batatas é feito por um dos
para lembrar, sobretudo entre as crianças e jovens, a moradores indicado e escolhido, a cada ano, pela
importância de sua iden dade étnica, suprimida ao comissão organizadora da festa para avaliar e pesar as
longo de séculos pelos discursos polí cos e religiosos. batatas concorrentes numa balança. As premiações
No conjunto formado pelas ves mentas de contemplam o primeiro e o segundo lugares, e não se
palha, instrumentos musicais, cân cos, coreografias, costuma entregar troféus, mas, implementos agrícolas
orações, enfeites e pinturas corporais, publicamente para aperfeiçoar o trabalho diário no campo.
são ressaltados valores culturais singulares que
caracterizam o sen mento de pertença ao grupo, um Figura 5 - Par cipantes do Concurso
modo de expressar e tornar sico o que é ser indígena e da Maior Batata, novembro de 2015.
conquistar visibilidade diante de atores sociais
dis ntos. Antes de começar a apresentação, o discurso
do cacique Luiz Katu ressaltou a relevância daquele
momento para além de um simples diver mento,
sublinhando o Toré como um ato de resistência contra
a violência sica e simbólica imposta às culturas dos
povos indígenas desde o período colonial. Segurando
em suas mãos um instrumento de pesca, o malho,
relembrou um encontro às margens do rio Catu entre
um de seus os com a antropóloga Jussara Galhardo,
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
como um fato que desencadeou as pesquisas
acadêmicas sobre o ressurgimento dos povos Fonte: Foto Vandrejefson da Costa Arcanjo.
indígenas no cenário po guar.

Diver mentos Condiderações

Após a apresentação do Toré no final da tarde, Par ndo de sua versão original com forte
foi aberto o espaço na festa para as brincadeiras ênfase na celebração religiosa cristã e católica, nos
infan s. A criançada, composta por indígenas e não úl mos anos, a atual Festa da Batata recuperou a
indígenas, par cipou efe vamente e com grande programação cultural paralela com diver mentos,
entusiasmo do “pau de sebo” e do “gato no pote” ou temporariamente suspensa após um período de doze
“quebra pote”, brincadeiras tradicionais das festas anos e que também compunha o primi vo festejo.
populares nordes nas. As referidas brincadeiras Preservando sua temporalidade e o forte vínculo com o
rivalizavam com presença de um brinquedo contexto social que a sustém, foi progressivamente
contemporâneo na forma de um castelo inflável e ressignificada pela comunidade indígena do Catu dos
colorido que servia de pula-pula. Eleotérios, cons tuindo-se num espaço diverso para
Para os adultos, o concurso para a escolha da celebrar a importância do cul vo e do consumo da
maior batata representa outro momento de grande batata-doce, da crença em Tupã, na Mãe Terra e nos
expecta va dentro da festa, ocorre no início da noite, Encantados, na recuperação da dança do Toré, do
antecedendo o momento dos shows musicais que artesanato local, do idioma Tupi, símbolos e tradições
finalizam o evento, e serve de incen vo para o plan o culturais acionados para reafirmação da iden dade
da batata doce na comunidade. indígena po guara.
Sobre as regras, só podem par cipar indígenas A renovação da festa coincide com o crescente
residentes no Catu, para isso, os par cipantes envolvimento da comunidade representada por suas
comumente reservam o melhor leirão obje vando lideranças locais com o movimento indígena brasileiro
colher a maior batata que precisa ser e o processo de etnogênese vivenciado por seus
inques onavelmente procedente dessas lavouras. indivíduos. Nesse sen do, um de seus aspectos mais
Existem cinco variedades comuns cul vadas no Catu: emblemá cos é cons tuir-se num espaço social e
as variedades de batata-doce são conhecidas pelos polí co significa vo, garan ndo a justa visibilidade e o
nomes populares de “Vitória”, “Moi nha ou Vitorinha”, reconhecimento para os seus direitos e demandas.
“Granfina”, “Trouxinha”, “Lalaô”, todas podem concorrer Como pontos altos na programação da festa,
à eleição da maior batata, pois não apresentam destacam-se a apresentação do Toré e a própria
variações significa vas em relação às caracterís cas organização do evento em torno da escolha da batata-
vegetais de desenvolvimento e aspecto. doce como ingrediente central, valorizando o

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Ins tuto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus
Sobre o processo de hibridação ilustrado pelo
Canguaretama.
intercâmbio de ingredientes, formas de preparo e KATU, Luiz. Festa da batata: depoimento. [2 de jun., 2016]. Natal.
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determinar com mais precisão os hábitos alimentares MINISTÉRIO da Agricultura. Circular técnico do CNP Hortaliças. [S.l], v.3,
out. 1989.
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acarretar para a saúde da população seria mo vo para MOREIRA, Cláudia; PEREIRA, Edmundo; VALLE, Carlos Guilherme do. Os
Eleotérios do Catu – índios do Rio Grande do Norte. Galante, Scriptorium
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