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JUSTIÇA O QUE É FAZER A COISA CERTA

Michael Sanders

Aula 01 – o lado moral do assassinato

Primeiro caso:
Caso do bonde, sem freio, com velocidade de 100 km e vc, o maquinista, percebe
que tem 5 operários nos trilhos à frente. Voce se desespera porque percebe que
os 5 operários irão morrer. Chegando mais próximo percebe um desvio à direita,
um trilho auxiliar, e ve que nesse caminho há 1 operário trabalhando. Voce pode
virar e matar 1 operário e poupar 5. Qual a coisa certa a fazer? A maioria desviaria
o bonde, escolhendo o princípio “melhor que um morra para que cinco possam
viver”.

Segundo caso:
A mesma situação, porém voce não é o maquinista, é um observador que está
numa ponte acima dos trilhos e voce percebe que o bonde está desgovernado e
irá atingir 5 operários que estão trabalhando nos trilhos. Voce percebe que
debruçado na ponte há um homem muito gordo olhando o bonde e voce poderia
lhe dar um empurrão, ele cairia sobre os trilhos, bem no caminho do bonde. Ele
morreria mas 5 seriam poupados. Quantos jogariam o gordão da ponte? Agora a
maioria não jogaria. O que aconteceu com o princípio melhor salvar 5 vidas
mesmo sacrificando uma?

Terceiro caso:
Vamos supor que voce é um médico no pronto socorro e chegam 6 pacientes.
Eles sofreram um terrível acidente com um bonde. Cinco sofreram ferimentos
leves e um está seriamente ferido. Voce poderia passar o dia todo cuidando
daquele seriamente ferido, mas durante este tempo os outros 5 morreriam. Ou
voce poderia cuidar dos 5 mas, durante este tempo, o outro seriamente ferido,
morreria. Quantos salvariam os 5 no lugar do médico? Agora, o caso de um outro
médico, desta vez voce faz transplantes e tem cinco pacientes, cada um
precisando desesperadamente de um transplante de órgão para sobreviver. Cada
um precisa de um órgão diferente e voce não tem nenhum doador e por isso logo
todos irão morrer. Ai voce se lembra que no quarto ao lado tem um cara saudável
fazendo chek-up, e ele está cochilando. Voce poderia entrar silenciosamente e
arrancar os 5 órgãos. O home iria morrer mas voce salvaria 5 vidas. Quantos
fariam isso? Ninguém levantou a mão, apenas um.

Alguns princípios morais surgem dessas histórias.


O primeiro é que a coisa certa a fazer depende das consequências que resultarão
da sua ação. Melhor sacrificar um para salvar cinco. Isso é um exemplo de
raciocínio moral consequencial. Foi o primeiro exemplo do bonde. Mas nos outros
casos a maioria não acharam correto matar uma pessoa mesmo que seja para
salvar 5 vidas. Isto aponta para uma maneira categórica de pensar sobre o
raciocínio moral. O raciocínio moral categórico situa a moralidade em certos
requisitos morais absolutos, certos deveres e direitos categóricos, independente
das consequências. O mais importante pensador do raciocínio moral consequente
foi Jeremy Bentham (filósofo político inglês do século XVIII) com a doutrina do
utilitarismo. O mais importante pensador do raciocínio moral categórico é o filósofo
alemão do século XVIII Immanuel Kant.

O aviso é o seguinte: ler esses livros como exercício de auto-conhecimento, traz


certos riscos. Esses riscos vem do fato de que a filosofia nos ensina e nos
perturba, confrontado-nos com o que ja sabemos, nos tiram de um ambiente
familiar e aceitável e o torna estranho. A filosofia nos afasta do familiar, não
fornecendo novas informações, mas convidando e provocando uma nova maneira
de ver. E aí está o risco, quando o familiar se torna estranho….ele nunca mais
volta ao que era. O autoconhecimento é como a inocência perdida. Por mais
perturbador que voce o considere, jamais poderá ser despensado ou dessabido. O
que torna esta empreitada difícil, mas também fascinante é que a filosofia moral e
política é uma história e voce não sabe aonde a historia o levará. Mas o que voce
sabe é que a historia fala de voce. Este é o risco pessoal. Uma maneira de
apresentar a maçonaria seria prometer que lendo esses rituais voce se tornará um
cidadão melhor e mais responsável, voce se tornará um participante mais eficaz
na maçonaria, mas essa seria uma promessa parcial e enganadora, mas não é
assim que funciona. É preciso considerar a possibilidade da filosofia fazer de voce
um cidadão pior, não melhor, ou ao menos cidadão pior antes de transformá-lo em
cidadão melhor. E isso porque a filosofia é uma atividade que distancia e até
debilita. E isso remonta à Socratés. Há um diálogo, o Górgias, no qual um dos
amigos de Sócrates, Cálicles, tenta dissuadí-lo de filosofar. Cálicles dia a
Sócrates: “A filosofia é um belo brinquedo, desde que adotemos com moderação,
na época certa da vida, Mas, se alguém a usa mais do que deve, leva-se à ruína
absoluta. Ouça meu conselho, diz Cálicles: abandone a argumentação. Aprenda
as realizações da vida ativa. Adote como modelo não aqueles que passam seu
tempo nessas disputas mesquinhas, mas aqueles que vivem bem, tem boa
reputação e muitas outras bençãos.” Assim, na verdade, Cálicles está dizendo a
Sócrates: Pare de filosofar, caia na real – vá estudar administração! E Cálicles
tinha razão porque a filosofia nos distancia das convenções, das conclusões
estabelecidas e das crenças sutis. Esses são os riscos pessoais e políticos. E,
face a esses riscos, há uma evasão característica. O nome dessa evasão é
ceticismo. A ideia é assim: não resolvemos de uma vez por todas nem os casos e
nem os princípios que estávamos discutindo quando começamos. E se tantos
filósofos não resolveram as questões depois de tantos anos, quem somos nós
para achar que aqui na maçonaria poderemos resolvê-las? Portanto, talvez, seja
só questão de cada pessoa ter seus próprios princípios e nada mais haja a ser dito
a respeito. Nenhuma forma de raciocinar. Essa é a evasão, a evasão do ceticismo
à qual ofereço a seguinte resposta: é verdade, essas questões foram debatidas
por muito tempo, Mas o próprio fato de elas terem recorrido e persistido pode
sugerir que, embora sejam impossíveis num sentido, sejam inevitáveis em outro. E
o motivo pelo qual são inevitáveis é que nos vivemos algumas respostas a essas
questões todos os dias. Portanto, o ceticismo apenas levanta os braços e desistir
da reflexão moral não é a solução. Kant descreveu muito bem o problema do
ceticismo quando escreveu: “O ceticismo é um pouso para a razão humana onde
ela pode refletir sobre suas incursões dogmáticas. Mas não é uma moradia para
habitação permanente. Simplesmente aquiescer ao ceticismo” Kant escreveu
“jamais bastará para superar a inquietude da razão” Encerraria dizendo que o
objetivo desses estudos é despertar a inquietude da razão e ver aonde ela pode
nos levar!

Aula 02 – qual a coisa certa a fazer

A ideia de Bethan é intuitiva, a coisa certa a fazer, a coisa justa a fazer é


maximizar a utilidade. Utilidade é o saldo de prazer sobre dor, felicidade sobre
sofrimento. Ele chegou a essa conclusão observando que nós, seres humanos,
somos governados por dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Nos gostamos
do prazer e detestamos a dor. Por isso a moralidade deveria ser, individual ou
coletivamente, maximizar o nível geral de felicidade. O bem maior para o maior
número. Para testar este princípio vamos analisar um caso real, o caso da Coroa
contra Dudley e Stephens. Um caso jurídico inglês do século XIX.
O navio Mignonette afundou no Atlântico Sul a 1300 milhas do Cabo. Eram 4
tripulantes, Dudley era o capitão, Stephens o imediato e Brooks o marinheiro,
todos de excelente caráter. O quarto tripulante era o camareiro Richard Parker de
17 anos. Ele era órfão, não tinha família e fazia a sua primeira viagem longa pelo
mar. Embarcou contrariando amigos pois achava que a viagem faria dele um
homem. Uma onda atingiu o navio e o Mignonette afundou. Os 4 tripulantes
escaparam num bote. O único alimento que tinham eram duas latas de nabos em
conserva. Nenhuma água doce. Nos 3 primeiros dias não comeram nada. No 4º
dia abriram uma das latas de nabo e a comeram. No dia seguinte pescaram uma
tartaruga. Junto com a outra lata de nabos a tartaruga permitiu que eles
sobrevivesse pelos dias seguintes. E depois, por 8 dias, não tiveram mais nada,
nem água, nem comida. Numa certa altura o camareiro Parker estava deitado no
fundo do bote porque bebera água salgada e se sentia mal. Parecia estar
morrendo. Assim no 19ª dia o capitão sugeriu que eles fizessem um sorteio.
Deveriam tirar a sorte para ver quem iria morrer para salvar o resto. Brooks
recusou-se, não gostou da ideia do sorteio. Então o sorteio não foi feito. No dia
seguinte, ainda não havia nenhum navio à vista e Dudley pediu que Brooks
desviasse o olhar e indicou a Stephens que o garoto Parker deveria ser morto.
Dudley ofereceu uma prece e avisou ao garoto que a sua hora havia chegado e
matou-o com um canivete, apunhalando-o na jugular. Brooks emergiu de sua
objeção de consciência e compartilhou do banquete macabro. Por 4 dias eles se
alimentaram do corpo e do sangue do camareiro. Então eles foram resgatados.
Dudley descreve o resgate em seu diário com um eufemismo estarrecedor. No 24º
dia, enquanto tomávamos o café da manhã, um navio apareceu finalmente. Os 3
sobreviventes foram resgatados por uma navio alemão. Eles foram levados de
volta para Inglaterra, onde foram presos e julgados. Brooks tornou-se testemunha
de acusação. Dudley e Stephens foram a julgamento. Eles não discutiram os
fatos, alegaram que agiram por necessidade. Esta foi a defesa deles.
Argumentaram que era melhor que um morresse para que 3 pudessem sobreviver.
O promotor não se convenceu dos argumentos e disse homicídio é homicídio e o
caso foi a julgamento. Se ponho no lugar dos jurados, qual seria a sua sentença?
Conclusões:
Pelo princípio do raciocínio consequencial, o que eles fizeram é justificável porque
o camareiro era órfão e a sobrevivência dos outros 3 trouxe mais benefícios para
uma maior quantidade de pessoas, incluindo os familiares deles.

Pelo princípio do raciocínio categórico, homicídio é homicídio, mesmo quando


aumenta a felicidade geral da sociedade.

Mas, por que o homicídio é categoricamente errado?


Seria porque até os camareiros tem certos direitos fundamentais?
E se esse é o motivo, de onde vem esses direitos senão da ideia de bem estar ,
utilidade ou felicidade maiores?
Outros disseram que o sorteio faria a diferença. Haveria a ideia que todos somos
iguais, mesmo quando alguém pode ser sacrificado pelo bem estar geral? Por que
a concordância com um procedimento, até um procedimento injusto, justifica o
resultado que advém daquele procedimento?
Se o camareiro tivesse concordado livremente, então estaria certo tirar a vida dele
para salvar o resto? Qual a operação moral que o consentimento realiza? Por que
o consentimento faz tanta diferença moral ao ponto de um ato que seria errado,
tirar uma vida sem consentimento, torna-se moralmente permissível com ele?

Aula 03 – colocando um preço na vida

Para o filósofo Bethan o princípio mais elevado da moralidade é maximizar o bem


estar geral ou a felicidade geral, ou ainda o saldo do prazer sobre a dor, tanto
pessoal quanto política. Resumindo, maximizar a utilidade.
Ele chega a esse princípio seguindo esta linha de raciocínio: somos todos
governados pela dor e prazer, portanto qualquer sistema moral precisa leva-los
em conta. Qual a melhor forma de leva-las em conta? Maximizando-as. Isso leva
ao princípio do bem maior para a maioria. O que devemos maximizar? Bethan diz,
a felicidade ou, mais precisamente, a utilidade. Maximizar a utilidade é um
princípio não só para os indivíduos mas também para as comunidades e
legisladores. O que é uma comunidade, Bethan pergunta, é a soma dos indivíduos
que a formam. Por isso, ao decidir qual a melhor política, como deve ser a lei, e o
que é justo, os cidadãos e os legisladores deveriam se perguntar: se somarmos
todos os benefícios desta política e subtrairmos todos os custos, a coisa certa a
fazer é aquela que maximiza o saldo da felicidade sobre o sofrimento. É isso que
significa maximizar a utilidade. Esta lógica utilitária é muitas vezes chamada de
análise custo-benefício. É usada por empresas e governos o tempo todo e envolve
colocar um preço, geralmente em dólares, para simbolizar a utilidade nos custos e
benefícios de várias propostas.

Exemplos do estudo do tabagismo feito pela Philips Moris que concluiu como
positivo para o governo liberar o tabagismo na ótica do custo-benefício. Também
do carro da Ford que tinha um tanque atrás que explodia numa batida na parte de
trás que concluiu que era melhor pagar as indenizações por morte do que corrigir
o defeito no carro. A pergunta feita: que valor devemos dar à vida humana?

Caso do estudo do uso do celular ao dirigir conclui que os benefícios da permissão


são maiores que os custos das 2000 vidas perdidas nos acidentes de trânsito
causados pelo uso do celular enquanto dirige seu veículo.

Objeções ao utilitarismo:
O utilitarismo respeita adequadamente os direitos individuais ou da minoria? Há
falhas ao respeito aos direitos individuais.
É possível agregar utilidade ou preferência ou valores a tudo? Não é possível
agregar valores em dólares a tudo.

Pesquisa de um psicólogo na década de 1930 tentou provar que todos os bens,


serviços, valores e preocupações humanas podiam ser traduzidas numa única
medida uniforme. Apresentou a jovens que dependiam do Estado uma lista de
experiências desagradáveis e perguntou quanto eles cobrariam para se submeter
a cada uma e anotou tudo. Por exemplo, quanto você cobraria para arrancar um
dente da frente? Ou quanto cobraria para deixar amputar um dos dedinho dos
pés? Ou para comer uma minhoca viva de 15 cm? Ou para passar o resto da vida
numa fazenda no Kansas? Ou para estrangular um gatinho com as mãos?
O item mais caro da lista: passar o resto da vida no Kansas = $300.000, Comer
uma minhoca = $100.000, o mais barato foi tirar um dente = $4500.

Conclusão da pesquisa: qualquer desejo ou satisfação que existe, existe em


alguma medida e é, portanto, mensurável.

Mas esta teoria de Thorndike corrobora a teoria do utilitarismo, ou a natureza


absurda da sua lista sugere a conclusão contrária, de que talvez estejamos
falando de vidas e que as coisas que estimamos não possam ser mensuradas?

AULA 12 – O PRINCÍPIO SUPREMO DA MORALIDADE


https://youtu.be/ynzNJFLgTdg

Fundamentação de Kant fala de 2 grandes questões:


1ª qual é o princípio supremo da moralidade?
2ª como a liberdade é possível?

Para responder a primeira questão é preciso entender 3 dualismos que Kant


estabeleceu:

O primeiro está relacionado à intenção de nossas atitudes


Segundo Kant apenas um tipo de intenção condiz com a moralidade: a intenção
do dever, fazer a coisa certa pelo motivo certo. Outros tipos de intenção são
incluídos na categoria de inclinação. Sempre que a intenção para o que fazemos
for satisfazer um desejo, uma preferência pessoal, ou buscar algum interesse,
estamos agindo por inclinação. É comum haver uma intenção de interesse nas
atitudes, Kant não refutava isso. Quando agimos moralmente, à medida que
nossas ações possuem valor moral, o que confere o valor moral é exatamente
nossa capacidade de estar acima do próprio interesse, da prudência da inclinação,
e agir por dever. É permitido ter sentimentos que sustentem a execução da coisa
certa contanto que eles não forneçam a intenção para agir.

O segundo é a ligação entre a moralidade e a liberdade. Há duas maneiras


diferentes para que a minha ação seja determinada: autonomamente ou de
maneira heterônoma (sujeição do indivíduo à vontade de terceiros). Segundo Kant
só sou livre quando a minha ação é determinada autonomamente, ou seja,
segundo a lei que eu imponho a mim mesmo e não segundo uma lei que nos é
imposta. De onde vem essa lei que impomos a nós mesmos? Da Razão. Se a
razão determina a minha ação então a ação torna-se uma força de decisão
independente das regras da natureza, da inclinação ou da circunstância. Ligado
aos rígidos conceitos de Kant sobre a moralidade e liberdade está um conceito
particular da razão. Como a razão pode determinar a ação? Existem 2 maneiras e
isso nos leva ao 3º dualismo.

O terceiro é que existem comandos diferentes da razão. Um dos comandos é


chamado de imperativo – esse é simplesmente uma obrigação. Um tipo de
imperativo é o hipotético. Os imperativos utilizam a razão instrumental – se você
quer X então faça Y. É o raciocínio que usa meios para chegar a um fim. Exemplo:
Se você quer ter uma boa reputação nos negócios não de troco errado aos seus
clientes porque a notícia pode se espalhar. Isso é um imperativo hipotético. Se a
ação só é válida como um meio, o imperativo é hipotético. Se a ação é válida por
si mesma, e portanto necessária, e portanto uma ação que está em harmonia com
a razão, então o imperativo é categórico. Essa é a diferença entre o imperativo
categórico e o hipotético. Um imperativo categórico comanda categoricamente, ou
seja, sem referência ou dependência de qualquer outro propósito

Resumindo a ligação entre esses 3 dualismos paralelos: Ser livre no sentido de


autônomo exige que eu haja pelo imperativo categórico.
Mas qual é o princípio supremo da moralidade? O que ele exige de nós?
Kant oferece características para o imperativo categórico:
A 1ª fórmula da Lei Universal – agir apenas com base na máxima por meio da
qual você pode desejar que se tornasse uma lei universal. Kant define a máxima
como uma regra que explica a razão para o que você está fazendo, ou seja um
princípio. Por exemplo, uma promessa. Digamos que eu precise de R$100,00
desesperadamente, e sei que não vou poder devolver tão cedo. Chego para você
e faço uma promessa falsa, que eu sei que não poderei cumprir – por favor me
empreste R$ 100,00 que devolverei na próxima semana. Essa falsa promessa
condiz com o imperativo categórico? Kant fiz que não. E o teste para determinar
se ela condiz com o imperativo categórico é tentando torná-la universal. Se todos
fizessem falsas promessas quando precisassem de dinheiro então ninguém
acreditaria nessas promessas. Não existiriam promessas! Esse teste para verificar
a máxima categórica não é a razão. A razão pela qual você deve universalizar e
testar a sua máxima é para verificar se você está pondo suas necessidades e
desejos acima das necessidades e desejos dos outros. A razão para suas ações
não deve depender da justificativa de que seus interesses, necessidades e
circunstâncias especiais são mais importantes que as de outra pessoa. Essa é a
intenção moral por trás do teste da universalização.
A 2ª fórmula é a da humanidade como um fim. Kant afirma que não podemos
basear o imperativo categórico em quaisquer interesses, propósitos ou fins
particulares porque ele seria relativo à pessoa a qual pertencem esses fins. Mas
supondo que haja algo cuja existência tem em si mesmo um valor absoluto, um
fim em si mesmo então, nesse algo, e apenas nesse algo, haveria a base de um
possível imperativo categórico. O que podemos considerar algo com um fim em si
mesmo? Kant responde: “Digo que o homem e todo ser racional em geral existe
como um fim em si mesmo, não apenas como um meio para uso arbitrário por
esta ou aquela ação.” Kant faz a distinção entre indivíduos, de um lado, e coisas,
de outro. Seres racionais possuem dignidade, são dignos de respeito. Assim Kant
determina a 2ª fórmula do imperativo categórico: “Aja de tal forma a sempre tratar
a humanidade, seja na sua pessoa, na pessoa do próximo, jamais como um
simples meio mas sempre, ao mesmo tempo, como um fim”. Quando faço uma
falsa promessa estou usando você como um meio para os meus fins. Então não
estou respeitando você. Não estou respeitando a sua dignidade. A razão para
respeitar a dignidade do outro não tem nada a haver com nenhuma característica
particular do outro. Então o respeito kantiano é diferente do amor nesse sentido, é
diferente da compaixão, é diferente da solidariedade ou da empatia, do altruísmo,
porque o amor e essas outras virtudes para nos importamos com o outro tem a ver
com o indivíduo O respeito de Kant é o respeito pela humanidade que é universal,
por uma capacidade racional que também é universal.
Em todas as nossas atividades utilizamos de pessoas para atingir um propósito
como, por exemplo, pedir ajuda para fazer um trabalho sobre uma instrução
maçônica. Isso seria usar pessoas como um meio e isso não viola o imperativo
categórico desde que, ao lidarmos com o outro para levar adiante projetos e
interesses tratemos o outro de forma a respeitar a sua dignidade.
Esse é o princípio supremo da moralidade.

Agir por dever é seguir uma Lei Moral que você impõe a si mesmo. Isso torna o
dever compatível com a liberdade. Não tenho dignidade em estar sujeito à lei mas
sim quando a respeito sou o autor dessa mesma lei. Quando imponho essa lei a
mim mesmo, eu desejei essa lei, por isso, para Kant, agir segundo o dever e agir
com autonomia são a mesma coisa. Uma lei moral não obedece a condições
subjetivas, ela transcende as diferenças entre indivíduos, é uma lei universal.

Como a moralidade é possível?


Kant diz que precisamos distinguir 2 pontos vista da nossa vida:
Como objeto da experiência pertencemos ao mundo sensível. Nele as minhas
ações são determinadas pelas leis da natureza e pelas regularidades de causa e
efeito. Mas também habitamos um mundo inteligível. Nele, por ser independente
das leis da natureza, sou capaz de ter autonomia, de agir pela lei que imponho a
mim mesmo. Somente partir desse mundo inteligível eu posso me considerar livre.
Pois ser independente de determinação pelas causas do mundo sensível é ser
livre. Se eu fosse um ser integral e somente sujeito aos vereditos dos meus
sentidos, dor, prazer, fome, sede, apetite, não seríamos capazes de ter liberdade.
Neste caso toda vontade estaria condicionada ao desejo por algum objeto. Neste
caso toda escolha seria heterônoma, governada pela busca de algum fim externo.
Kant diz: “Quando nos consideramos livres transferimos nós mesmos para
o mundo inteligível e reconhecemos a autonomia do desejo.” Por habitarmos
os dois reinos, o reino da liberdade e o reino da necessidade, sempre existe uma
lacuna entre o que fazemos e o que devemos fazer, entre o ser e o dever. A
moralidade não é empírica. A ciência não pode decidir questões morais. A
moralidade fica distante do mundo empírico. E é por isso que nenhuma ciência
poderia oferecer verdade moral.