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Percepção da qualidade da informação em recursos

da Web utilizados nas atividades de ensino e pesquisa


da Universidade Federal do Paraná

Andre Luiz Appel1 (UFPR)


Patricia Zeni Marchiori2 (UFPR)

Resumo:
Apresenta estudo voltado para investigação de critérios de qualidade da
informação relacionados à seleção de recursos de informação da Web por
professores e pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, para uso
em suas atividades de ensino e pesquisa. Como resultado o estudo
identifica e categoriza as fontes de informação da Web utilizadas por
professores e pesquisadores em suas atividades, destacando-se os principais
fatores de avaliação e o potencial de uso de tais recursos no meio
acadêmico. Observa-se, também, a preocupação dos professores e
pesquisadores com o rigor científico, para a seleção e o uso de fontes de
informação da Internet.
Palavras-chave: Recursos de informação da Internet – ensino e pesquisa.
Qualidade da informação – critérios.

Abstract:
This study aims to investigate the information quality (IQ) criteria
considered by professors and researchers when selecting information
resources from the Web to use in their teaching and research activities. A
sample survey was conducted with the faculty staff from the Federal
University of Paraná and a questionnaire was made available online. Among
the study discoveries, are information sources categories assigned by the
survey respondents as well as the concerns of professors and researchers
with scientific accuracy over the processes of use and selection of
information sources from the Internet.
Palavras-chave: Web information resources – teaching and research.
Information quality criteria.

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Introdução

O potencial para a agregação de novas tecnologias ao ensino implica em


reflexos na forma como professores fazem uso de diferentes meios/canais para a
divulgação/distribuição de conteúdos didáticos aos seus alunos, e no caso destes,
em relação as suas formas de aprendizado e quanto as suas necessidades de
adaptação aos mais variados espaços/ambientes de ensino virtuais/tecnológicos.
Por atividades de ensino, entendem-se aquelas por meio das quais ocorre a
construção do conhecimento ou, de acordo com Moran (2003, p. 12), é o momento
em que se “organizam uma série de atividades didáticas para ajudar os alunos a
compreender áreas específicas do conhecimento”. Moran afirma ainda que “ensinar
é um processo social, mas também é um processo profundamente pessoal: cada um
de nós desenvolve um estilo, seu caminho, dentro do que está previsto para a
maioria” (2003, p. 13). Para tanto, cada professor detém certo poder escolha na
composição e na incorporação de diferentes recursos a sua metodologia de ensino,
atentando para os impactos dessa ação no que se refere ao aprendizado de seus
alunos.
A atividade de pesquisa é definida por Marconi e Lakatos (2007, p. 157) como
“um procedimento formal, com método e pensamento reflexivo, que requer um
tratamento científico e se constitui no caminho para conhecer a realidade ou para
construir verdades parciais”. As ideias de formalidade, de método e tratamento
científico, apresentadas pelas autoras implicam na concepção de pesquisa como
um processo passível de socialização, ou seja, os resultados (conhecimentos)
alcançados pelo pesquisador devem estar devidamente formatados ou
sistematizados para que possam ser compreendidos pela coletividade. O conceito
de ‘verdades parciais’, intimamente ligado ao escopo da Ciência, prevê que

face à dinamicidade intrínseca à própria natureza, seus resultados [de


pesquisa] são sempre provisórios. Isto é, esses sistemas explicativos não
têm caráter permanente. Inserem-se num processo ininterrupto de
investigação, o que faz da ciência uma instituição social, dinâmica,
contínua, cumulativa. (TARGINO, 2000, p. 2)

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A realização da pesquisa requer, ainda, a construção de um projeto que sirva
de suporte e orientação para o pesquisador ao longo do processo. Nesse caso, se
estabelece um conjunto de atividades nas quais pode se tornar efetivo o uso da
Internet, tais como a seleção do problema a ser investigado, a coleta,
sistematização e classificação dos dados coletados e a apresentação/publicação
dos resultados da pesquisa.
Quanto à utilização de recursos de informação provenientes Web como
suporte didático e de pesquisa, tende-se a atribuir maior relevância àqueles que
possibilitam ou estão voltados para geração e/ou disseminação de conteúdos,
englobando materiais textuais, audiovisuais e de compartilhamento de bookmarks
ou links equivalentes à “bibliografia recomendada”, por exemplo, recorrentemente
utilizadas no meio acadêmico. Há também recursos destinados à simulação de
ambientes virtuais de ensino e aprendizagem que permitem a criação e o
gerenciamento de cursos e conteúdos online, conhecidos como Course/Content
Management Systems (CMS), tais como o Moodle, o Drupal e o JoomlaLMS.
A opção pelo uso de tais recursos se dá em um momento em que vem se
desenhando uma “cultura da interface”, assim denominada por Johnson (1997), em
que a comunicação e/ou a troca de informações ocorre por meio de desktops e
mais recentemente nos browsers (navegadores para acesso à Web). Momento em
também que se abre espaço, especialmente por parte dos alunos afetos ao
ambiente tecnológico, para a incorporação de novos verbetes no seu vocabulário
cotidiano tais como “navegar na web”, “clicar”, “copy&paste”/copiar&colar etc.,
em decorrência da rápida expansão e acolhimento das tecnologias computacionais.
Em meio a esse universo, diversos fatores podem influenciar na escolha e no
uso de fontes de informação da Web por parte dos professores. Um deles diz
respeito à ocorrência de um expressivo aumento no número de recursos de
informação disponíveis em meio eletrônico, o que tende a dificultar a recuperação
de materiais com conteúdo pertinente aos objetivos de ensino e pesquisa. Em
muitos casos, tais materiais encontram-se hospedados em bases de dados com altos
custos de acesso e limitações quanto ao idioma, uma vez que parte significativa dos

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textos é publicada em inglês, ou, em outros casos, há restrições impostas à
redistribuição destes materiais, tais como a proteção de direitos autorais.
Para além desse contexto, os professores podem optar pela utilização de
recursos de informação que estejam hospedados em plataformas de acesso livre, as
quais permitem o uso dos conteúdos sem a cobrança de taxas e com licenças mais
flexíveis para a cópia, distribuição e a criação de derivações de tais conteúdos
como as licenças Creative Commons.
Dessa forma, considerando-se que fontes de informação podem vir a ser
selecionadas para uso como subsídio ao ensino e à pesquisa, ressalta-se a
importância se trabalhar na identificação dos critérios de qualidade da informação
que subsidiem a seleção de tais recursos, garantindo assim, a confiabilidade dos
mesmos para essa finalidade.
Para tanto, pretendeu-se fomentar a discussão acerca dessas e demais
questões, ligadas principalmente a gênese do conceito de uso da Web como uma
plataforma de serviços voltados para colaboratividade. Na dimensão do trabalho de
campo, partiu-se do pressuposto de que professores e pesquisadores que atuam no
âmbito da Universidade Federal do Paraná (UFPR) elegem um ou mais recursos de
informação da Web com base em critérios de qualidade. Isto posto, o estudo
consiste na investigação de quais critérios são utilizados por essa comunidade e
quais as relações existentes entre os mesmos.

A Internet como plataforma de conteúdos e serviços

Ao longo dos anos, com a implementação de novas tecnologias e de acordo


com os anseios e necessidades do mercado e da sociedade em geral, tem se
configurado na Internet um panorama voltado para a colaboratividade, dando
ênfase a ações que possibilitaram o surgimento do conceito da Web 2.0. De acordo
com O’Reilly apud Coutinho e Bottentuit,

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a Web 2.0 é a mudança para uma Internet como plataforma, e um
entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre
outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem
os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas
pessoas, aproveitando a inteligência coletiva. (2007, p. 200)

Ainda que o conceito de Web 2.0 seja alvo de controvérsias, pode-se


afirmar, de acordo com O’Reilly (2007), que o mesmo compreende a noção de Web
como plataforma de serviços, por meio da qual os usuários detêm certo controle
sobre as informações que produzem e as utilizam com finalidade colaborativa.
Pode-se afirmar que a iniciativa da Web 2.0 consiste basicamente em “um conjunto
de princípios e práticas que interligam um verdadeiro sistema solar de sites que
demonstram alguns ou todos esses princípios e que estão a distâncias variadas do
centro” (O’REILLY, 2007, p. 20). De acordo com o autor, os serviços que se
destinam a ocupar um espaço na Web 2.0 devem considerar uma série de
competências essenciais que garantam a manutenção da Internet como uma
plataforma para a distribuição de produtos e serviços e que garantam o
posicionamento do usuário como controlador dos seus próprios dados.
Tais competências prezam pela não adoção de softwares “empacotados” em
favor de mashups1, com uma arquitetura que favorece a participação, com o
emprego da “inteligência coletiva”, a otimização de custos e a possibilidade de
transformação de dados e sua fonte geradora (O’REILLY, 2007). É relevante
mencionar também a necessidade de formação de uma arquitetura da participação,
como também a urgência da padronização, para a promoção da integração entre
diversos serviços. Outro fator de peso a ser implementado é a descentralização,
permitindo a construção de plataformas flexíveis que independem da configuração
dos computadores ou sistemas operacionais utilizados, voltadas inclusive para
acesso aberto e transparente aos aplicativos, o que abre espaço para a
contribuição de diferentes usuários e/ou programadores. Destaca-se ainda a
importância da modularidade e complementaridade dos aplicativos, e do controle

1
Mashup: aplicativo Web híbrido. (http://en.wikipedia.org/wiki/Mashup_(web_application_hybrid)).

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dos usuários, especialmente de forma que estes possam representar suas
identidades a partir de diferentes recursos (FUTURE..., 2007).
Nesse contexto, inúmeros novos serviços têm sido disponibilizados aos
usuários enquanto outros reforçam o seu pioneirismo e fortalecem o conceito da
Web colaborativa. No que tange à inserção da Internet no espaço educacional e
investigativo, percebem-se mudanças em relação aos métodos de ensino
tradicionalmente aplicados, especialmente na forma como as informações e os
conteúdos didáticos são disponibilizados durante o processo de aprendizagem e no
tocante ao aproveitamento de tais conteúdos pelos alunos. De acordo com Belloni
(2002), as novas gerações desenvolvem modos diferenciados de aprendizagem, que
se caracterizam pela maior autonomia e pela não sistematização. Esses indivíduos
estão voltados para a construção de um conhecimento mais ligado com a
experiência concreta (real ou virtual), em contraposição à transmissão de conceitos
pontuais abstratos, frequentemente praticada nas escolas. Soma-se a isso, a
expansão dos espaços para compartilhamento para além dos ambientes
tradicionalmente destinados a essa finalidade, como as escolas e bibliotecas. Tal
diversificação tem se dado, em especial, devido à corrente transposição das fontes
de informação do suporte impresso para o eletrônico, pela aplicação de novas
tecnologias da informação e comunicação.

Qualidade de fontes de informação: transição do enfoque tradicional


às novas expressões de conteúdo

Em um momento de transição contínua de recursos das mídias impressas


para a mídia eletrônica/digital, verifica-se um aumento expressivo na variedade de
recursos audiovisuais disponíveis, dos mais variados formatos e maneiras de se
disseminar conteúdos. Essas transformações vêm afetando principalmente o público
receptor, desafiando a sua capacidade de avaliação de tais recursos, pois a cada

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dia, novos fatores ou indicadores podem ser considerados nesse processo, em
decorrência das mudanças nos modos de produção e consumo de informação.
Com base nesse cenário, Marchiori e Appel (2008) apresentaram uma
proposta para avaliação de fontes de informação (Figura 1), combinando um roteiro
de critérios coletados na literatura com uma estrutura voltada para uma nova
leitura de tais critérios em concordância com o ambiente tecnológico em que se
inserem os recursos.

Figura 1: Diagrama de dimensões de qualidade de fontes de informação

Fonte: MARCHIORI e APPEL (2008).

A ideia que sustenta a estrutura do diagrama consiste na flexibilização de


critérios tradicionalmente utilizados para a avaliação de fontes de informação, uma
vez que a percepção pessoal da qualidade pode, ainda que não obrigatoriamente,
acompanhar a percepção formal da qualidade. Da mesma forma, tal proposta

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permite ao interessado a utilização desse conjunto de elementos de avaliação,
adequando-o ao seu ambiente, objetivos e capacidade/experiência de julgamento.
Outro fator relevante na eleição de critérios de qualidade, que vem se
constituindo de acordo com a evolução do ambiente tecnológico, diz respeito à
necessidade de imediata disponibilidade de informações, ou seja, a informação
deve estar disponível em ‘tempo real’. Para tanto, buscadores como o Google e o
Yahoo, entre outros, são preparados realizar buscas em milionésimos de segundos.
No conjunto de informações recuperadas há, ainda, a interferência de critérios de
indexação das próprias ferramentas, voltados muitas vezes para a promoção de
determinados sites e produtos oferecidos via Web, caracterizando novas formas de
se trabalhar com anúncios e publicidade.
Soma-se a isso a importância atribuída a um determinado recurso por
mecanismos como o PageRank do Google, considerando-se uma pontuação utilizada
para classificar a importância (popularidade) de um site em relação a outros, tendo
como critério principal as estruturas de links desse recurso (quantidade e
qualidade) (INTERACTIVE..., 2009). Esse processo é potencializado a partir dos
serviços de otimização de sites, ou simplesmente SEO (Search Engine
Optimization), como um conjunto de estratégias com o objetivo de potencializar o
posicionamento de um site nos resultados naturais (orgânicos) nas páginas de
resultados das ferramentas de busca (INTERACTIVE..., 2009).
Em contrapartida, os usuários de tais serviços recebem uma significativa
quantidade de informações, contando com pouco tempo ou poucos subsídios para
avaliá-las. Destaca-se ainda, a dificuldade para a validação de informações
apresentadas em diferentes formatos, tais como os materiais audiovisuais,
incluindo os vídeos e podcasts. No caso dos podcasts e outros materiais multimídia,
Austria (2007) questiona se os critérios de avaliação utilizados para avaliar
materiais impressos/textuais não são também aplicáveis a outros formatos,
propondo a associação desses critérios com outros específicos das áreas de rádio e
comunicação.

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No caso dos blogs e microblogs, ocorre a falta de critérios condizentes com
conteúdos disponibilizados em tempo real que apresentam, em muitos casos, certa
volatilidade, dificultando a qualificação de um determinado recurso ao longo do
tempo. Algumas iniciativas têm surgido na tentativa de se avaliar recursos dessa
natureza como o caso do Technorati, buscador especializado na busca por blogs,
que apresenta um ranking dos blogs mais acessados, assim como as ferramentas de
compartilhamento de bookmarks, que permitem uma agregação de valor indireta a
esses recursos. No entanto, em ambos os casos, a agregação de valor se dá por
meio da avaliação da popularidade dos recursos, sem que leve em conta uma série
de critérios apresentados no âmbito acadêmico.
Buscando evidenciar um leque de recursos disponíveis via Web, utilizados e
validados em nível acadêmico, um estudo realizado em 2008, contou com a
participação de membros do corpo docente de diversas instituições de ensino, os
quais foram entrevistados por bibliotecários quanto aos recursos de informação
disponíveis em meio digital que considerariam úteis para a realização de suas
atividades (ITHAKA, 2008). Os resultados apresentaram 206 recursos únicos,
avaliados mediante critérios de originalidade e finalidade acadêmica,
posteriormente agrupados nas seguintes categorias:
a) periódicos online;
b) revisões;
c) pré-prints e relatórios de trabalho/pesquisa;
d) enciclopédias, dicionários e conteúdos acompanhados de anotações;
e) bases de dados de dados oriundos de pesquisas;
f) blogs;
g) fóruns/listas de discussão;
h) canais ou núcleos difusores de informação acadêmica (hubs).

Dentre as principais questões evidenciadas no estudo, destaca-se que parte


significativa dos recursos sugeridos pelos entrevistados incorpora revisão por pares
ou supervisão editorial, além do fato de que muitas das publicações digitais são

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direcionadas às pequenas audiências. Percebeu-se, além disto, que alguns dos
recursos que apresentam maior impacto são aqueles já disponibilizados há longo
período, sobressaindo-se a importância da longevidade de um recurso para a
construção da sua reputação/autoridade. Mais especificamente, os entrevistados
apontaram que, mesmo que surjam excelentes novas publicações digitais, elas
necessitam de anos para se estabelecerem e garantirem seu espaço na comunidade
acadêmica (ITHAKA, 2008).

Resultados e discussão

O trabalho de campo desenvolvido nesse estudo deu-se a partir de um


levantamento com o uso de um instrumento de coleta de dados (questionário)
aplicado junto a um universo de 620 professores/pesquisadores da UFPR. Tal
questionário, desenvolvido na plataforma de código aberto LimeSurvey voltada
para a geração de questionários aplicáveis em meio eletrônico, foi disponibilizado
aos participantes via e-mail, sendo que, ao final de sua aplicação, obteve-se uma
amostra não probabilística acidental composta de 118 respondentes.
Posteriormente, filtraram-se os retornos para a identificação de respostas
completas e incompletas, ocasionando um total de 78 respostas.
Dentre os demais pontos de investigação do levantamento, solicitou-se que
cada um dos participantes indicasse um recurso da Internet de uso recorrente
sendo que, em muitos casos, houve mais de uma indicação. Tais recursos foram
agrupados em uma ou mais categorias pré-definidas, permitindo a visualização dos
mesmos a partir de dois extremos: o núcleo formal de fontes de informação,
incorporando vetores do meio acadêmico (ITHAKA, 2008) e o núcleo voltado para as
novas expressões de conteúdos, incorporando elementos das Web 2.0 (FUTURE...,
2007), conforme Gráfico 1, a seguir.

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Gráfico 1: Categorias de recursos indicados pelos professores/pesquisadores

Fonte: os autores.

A partir do gráfico percebe-se que os periódicos online compreendem 25% do


total de recursos apresentados. As indicações referentes a essa categoria
contemplam bases de dados de periódicos de acesso aberto, assim como bases de
acesso pago, disponíveis via Portal de Periódicos Capes, onde se tem acesso a
periódicos e bases de dados de texto completo, caracterizando materiais de cunho
essencialmente acadêmico. Também se percebe a indicação de canais ou núcleos
difusores de informação acadêmica (16%), incluindo sites de instituições voltadas
ao ensino e à pesquisa, e de bases de dados oriundos de pesquisas (7%). Atenta-se
também para a ocorrência significativa de aplicativos da Web e CMS (19%),
especialmente o Moodle2 (apontado por 8 dos participantes), fóruns/listas de
discussão e aplicativos de mensagens instantâneas (8%), redes sociais (7%) e jornais

2
Na UFPR, esse aplicativo e disponibilizado institucionalmente para uso da comunidade acadêmica.

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online e e-books (5%), como canais para os quais tem se dado maior abertura no
âmbito acadêmico. Em seguida, têm-se as enciclopédias, dicionários (3%) e os
buscadores da Web (8%), conhecidos tradicionalmente como fontes de referência
para demais recursos de informação voltados para a publicação de literatura
primária. Quanto aos blogs e microblogs, embora correspondam às ferramentas da
Internet mais conhecidas/utilizadas no contexto educativo (COUTINHO e
BOTTENTUIT JR, 2007), estas figuram com um baixo percentual de uso (3%).
No tocante a avaliação da qualidade desses recursos, os questionamentos
foram divididos em dois pontos. O primeiro e principal ponto visava o levantamento
de critérios ligados à percepção pessoal e à percepção formal da qualidade nos
recursos indicados. Em um segundo momento, ofertou-se aos respondentes a
possibilidade de aprofundamento na avaliação das fontes de informação sob quatro
diferentes dimensões: autoria, repositório, conteúdo e recurso.
A partir dos resultados obtidos no ponto de avaliação da percepção pessoal
dos critérios de qualidade, percebe-se (Quadro 1) que os graus mais elevados da
percepção pessoal estão direcionados aos critérios referentes à “importância do
objetivo a ser atingido” e às “consequências de uso”.

Quadro 1: Critérios de qualidade na percepção pessoal

Exce- Inexis- Não Não se


Critérios Forte Médio Neutro Baixo Fraco Total
dente tente opinou aplica

Autoridade
8% 46% 18% 4% 10% 14% 100%
percebida

Grau de novidade 13% 59% 19% 1% 1% 4% 3% 100%

Consequências de
13% 60% 17% 1% 5% 4% 100%
uso

Envolvimento
6% 36% 27% 14% 3% 5% 9% 100%
pessoal
Importância do
objetivo a ser 13% 60% 17% 3% 5% 3% 100%
atingido

Fonte: os autores.

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A predominância de critérios que caracterizam preocupação com o uso dos
recursos da Internet remete a uma possível relação com os impactos ocasionados
pelo uso de tais recursos o que, de certa forma, justifica a escolha das categorias
de fontes de informações evidenciadas anteriormente, tais como periódicos e/ou
canais ou núcleos difusores de informação acadêmica. Fontes dessa natureza são
geralmente pré-qualificados, ou seja, carregam algum tipo de garantia dada por
equipes editoriais ou responsáveis pela sua produção e são construídas com base no
rigor científico, com os resultados claros e precisos. No caso dos periódicos em
meio eletrônico, Ithaka (2008) destaca ainda que tais publicações carregam o
mesmo status de seus “ancestrais” impressos, pela sua credibilidade e prestígio.
Todos esses fatores reforçam a confiabilidade de tais recursos, permitindo que suas
informações possam ser transmitidas sem a percepção de impactos negativos por
parte dos receptores.
Quanto ao “grau de novidade”, pode-se afirmar que este está relacionado
aos motivos que levam à escolha de recursos como aplicativos Web e CMS, tais
como Youtube, Flickr, Google Docs, Google Talk, Moodle entre outros.
Os critérios ligados ao “envolvimento pessoal” englobam essencialmente dois
aspetos. Primeiramente se observa o envolvimento para a construção e a
divulgação de um recurso pelos próprios professores/pesquisadores (caso dos blogs,
microblogs, fóruns/listas de discussão, mensagens instantâneas, aplicativos Web,
CMS e as redes sociais). Em segundo, o nível de envolvimento no momento de
escolha de recursos já existentes é dado pela natureza das demais fontes
indicadas, nas quais há o envolvimento de terceiros permitindo a isenção dos
professores/pesquisadores em suas escolhas. Esse fator se torna evidente também
em função dos graus medianos atribuídos ao critério “autoridade percebida”.
Em relação às indicações ligadas à percepção formal da qualidade, observa-
se a partir do Quadro 2, com base nas atribuições do grau Excelente, a existência
de uma possível correlação entre os critérios “confiabilidade” e “custo de acesso”.
Este segundo, no entanto, parece ser o ponto de maior discordância ou de desvio

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de opiniões por parte dos professores/pesquisadores, uma vez que houve a
indicação de todos os graus de percepção.
Na sequência, destacam-se ainda as atribuições aos critérios “velocidade de
acesso”, “autenticidade”, “consistência” e “autoridade reconhecida”. A
“velocidade de acesso”, que obteve percentuais de indicação de 8% e 54% para os
graus Excedente e Forte, pode variar consideravelmente de um recurso para outro,
dependendo forma como estes foram concebidos. Embora a maioria dos
participantes tenha indicado que dispõe de acesso de alta velocidade à Internet,
demais fatores ligados ao próprio recurso (como a disposição de seus elementos e
da linguagem de programação utilizada para sua construção) ou às condições sob as
quais os mesmos são acessados (equipamento e/ou browser utilizados etc.) podem
interferir no fator velocidade.

Quadro 2: Critérios de qualidade na percepção formal

Exce- Inexis- Não Não se


Critérios Forte Médio Neutro Baixo Fraco Total
dente tente opinou aplica
Autoridade
9% 54% 13% 3% 3% 6% 13% 100%
reconhecida
Filtros 5% 28% 33% 10% 4% 12% 8% 100%

Consistência 9% 55% 23% 5% 1% 4% 3% 100%

Confiabilidade 22% 45% 21% 5% 1% 4% 3% 100%

Precisão 9% 50% 26% 5% 1% 5% 4% 100%

Autenticidade 12% 55% 17% 5% 3% 5% 4% 100%


Velocidade de
8% 54% 28% 1% 3% 4% 3% 100%
acesso
Custo de acesso 21% 15% 14% 3% 13% 5% 14% 8% 8% 100%
Tecnologia
6% 45% 26% 4% 1% 9% 9% 100%
agregada

Fonte: o autores.

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A “autenticidade” (com 12% para Excedente e 55% para Forte) e a
“consistência” (com 9% Excedente e 55% Forte) figuram como fatores essenciais em
fontes de informação voltadas ao público acadêmico. Nesse sentido, a qualidade de
tais recursos é baseada na sua produção, ou seja, na metodologia e nos padrões
pré-estabelecidos pelos criadores de tais recursos (MARCHAND, 1989 apud
CALAZANS, 2008). A “autoridade reconhecida”, que apresenta maior percentual
para o grau Forte (54%), implica na autoria explícita do recurso e, em muitos casos,
na citação dos autores por outras fontes de informação. Os critérios “tecnologia
agregada” e “precisão” apresentam percentuais intermediários para o grau Forte
(45 e 50%), justificados, em parte, pelo desconhecimento, por parte dos
respondentes, dos requisitos técnicos ou da metodologia para a composição dos
dados apresentados pelos recursos.
No segundo ponto da avaliação, englobando as dimensões de autoria,
repositório, conteúdo e recurso, em função da não obrigatoriedade nas respostas
(os respondentes puderam optar entre quais dimensões avaliar) houve certa
predileção pela avaliação dos critérios referentes às dimensões de “conteúdo” e do
“recurso”. Em relação ao conteúdo, apresentaram destaque os critérios de
“atualidade e utilidade”, em consonância com a natureza dos recursos (em
constante atualização) e diretamente relacionadas aos objetivos de uso
manifestados pelos participantes, em harmonia com o critério da “importância do
objetivo a ser atingido” evidenciado anteriormente (Quadro 1). Quanto aos
critérios de “objetividade e profundidade”, percebeu-se uma relação destes com os
itens “clareza, estruturação lógica e estilo de escrita”, realçados na dimensão do
recurso.
Nas dimensões da “autoria” e do “repositório” deu-se atenção maior para o
“tipo da instituição/organização”. A partir dessas dimensões, destacam-se as
questões ligadas à permanência e à estabilidade de um recurso, defendidos por
Ithaka (2008) como fatores essências em fontes de informação voltadas para o meio
acadêmico. Na dimensão do repositório, destacou-se apenas o critério referente às
“condições de acesso” e quanto à dimensão da autoria, em especial, ressaltam-se

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os casos para os quais não houve opinião ou aplicabilidade acerca dos critérios
disponíveis, uma vez que a mesma poderia não representar um fator condicionante
para a escolha de determinados recursos.

Considerações finais

Com a realização desse estudo, foi possível a identificar as fontes de


informação da Web utilizadas por professores e pesquisadores em suas atividades
de ensino. Evidenciou-se, da mesma forma, a caracterização e categorização de
tais fontes, a partir de tendências de uso de recursos da Internet, tanto no âmbito
acadêmico, quanto em novas formas de expressão de conteúdo fomentadas pelos
avanços tecnológicos. O estudo permitiu o reforço do potencial de uso das
ferramentas da Web no meio acadêmico, em relação àquelas já presentes no
núcleo formal acadêmico, assim como de outras que se encontram em estágio de
evolução constante, direcionado às necessidades e capacidades de uso dos
usuários.
De modo geral, percebeu-se que os professores/pesquisadores estão
motivados para a prática da disseminação de informações, ação condizente com a
ideia do compartilhamento e da participação, agregando valor às práticas de ensino
e pesquisa vigentes. O conceito de valor, nesse caso, é visto no sentido de se
promover a melhoria de tais práticas pelo incremento de recursos de informação
que se façam disponíveis, em benefício dos próprios professores/pesquisadores, em
relação ao seu trabalho, e dos alunos, na questão do aprendizado.
Na questão da avaliação dos recursos de informação, mantêm-se a demanda
pelo rigor científico, privilegiando a seleção e o uso de recursos de informação
“validados” pela comunidade acadêmica. No entanto, percebeu-se a abertura de
um espaço significativo para a incorporação de novos modelos de produção e uso da
informação. Observou-se, a preocupação, por parte dos professores/pesquisadores,
com a questão da utilidade, dos objetivos de uso e com o conteúdo na avaliação

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qualitativa dos recursos da Web, sem se notar, no entanto, uma disposição para a
verificação de quais os critérios que de fato sustentam a utilidade de um recurso.
O uso de tais critérios, associados aos recursos indicados, denota que a
avaliação da informação no ambiente das atividades de ensino e pesquisa volta-se
mais para a percepção pessoal da qualidade, uma vez que houve baixa interação
dos participantes com os critérios voltados para a percepção formal, respectivos à
autoria, ao conteúdo, ao repositório e às características inerentes aos recursos.
Esse fato demonstra que a qualidade está associada aos fatores mais rapidamente
percebidos pelos professores/pesquisadores, tais como as consequências de uso e
os objetivos a serem atingidos, evidenciados nos resultados do levantamento. Tais
fatores permitem a observação de uma maior preocupação por parte dos
professores/pesquisadores com os impactos de uso dos recursos, o que, no entanto,
não auxilia na construção ou definição de um cenário de critérios que garantam a
seleção de recursos ou serviços de informação adequados ao uso em ambientes
acadêmicos.

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Referências

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jun. 2008.

1
Andre Luiz APPEL, Gestor da Informação
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Grupo de Pesquisa Metodologias para Gestão da Informação (GPMGI)
alappel@gmail.com

2
Patricia Zeni MARCHIORI, Profa. Dra.
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Departamento de Ciência e Gestão da Informação
pzeni@ufpr.br

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