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JOSÉ ARISTIDES DA SILVA GAMITO

AS RAÍZES DO CRISTIANISMO
E A REDESCOBERTA DE SEU SIGNIFICADO

Ensaios sobre o Cristianismo

Conceição de Ipanema – MG
2010
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Dados para Citação Bibliográfica

GAMITO, José Aristides da Silva. Ensaios sobre o cristianismo. Coletânea de Artigos sobre
religião. Conceição de Ipanema: Publicação em meio eletrônico, 2010.

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1. EM DEFESA DA INTEGRIDADE DO NOME DE DEUS

CRITÉRIOS PARA SE FALAR DE DEUS HOJE


“A melhor religião é a mais tolerante.” Émile de Girardin.

Chegamos a 20091. As festas de saudações ao ano novo são repletas de votos e


promessas de mudanças e prosperidade. Essas ocasiões são favoráveis para uma revisão de
atitudes. Propomos uma reflexão sobre o 2º Mandamento: “Não tomarás o nome de YHWH
teu Deus em vão”.
Vivemos numa época em que se desrespeita o nome de Deus. Muitas entidades
religiosas usam o nome sagrado para garantir vantagens pessoais e sempre passam uma
imagem equivocada de Deus. Esses erros são das instituições e também das pessoas que
conversam no dia-a-dia sobre assuntos religiosos. Qualquer um de nós pode cometer tais
erros. Colocamos muitas ideias humanas na conta de Deus.
Levando em conta esses problemas, precisamos refletir sobre alguns critérios para se falar de
Deus. Reportamo-nos ao Êxodo. A imagem do divino revelada no episódio da sarça ardente
não tem um nome definido (Ex 3, 14). Deus é apresentado simplesmente como aquele que é o
que é. E não pode ser representado por nenhuma imagem. O fogo é tomado como símbolo de
sua presença justamente por ser um elemento misterioso e indefinido.
Portanto, tomar o nome de Deus em vão é atribuir símbolos, objetos, ideias e atitudes a Deus.
Na verdade, são representações que pretendem tomar posse da identidade de Deus e
representar a sua vontade. Quando homens de fé comentem esses erros acabam permitindo
excluir e até matar em nome de Deus.
A recomendação “não farás para ti imagem de escultura” remete-nos à integridade do divino.
Em outras palavras, diz-nos “não use seus desejos imperfeitos e humanos para representar
Deus. Não tente interpretar sua vontade de modo impensado”. No AT, há uma advertência de
Deus: meus pensamentos e sentimentos não são os mesmos de vocês. O maior pecado das
religiões hoje é desrespeitar o nome de Deus.

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Este artigo foi publicado no livreto “Palavras Que Ficam” em janeiro de 2009.

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CORAÇÃO HUMANO, LUGAR DE INTIMIDADE COM DEUS
“A religião está no coração, não nos joelhos”. Jerold Douglas William.
O livro do Êxodo relata que Deus pune o culpado até a 3ª geração, mas quando se fala
de misericórdia, o mesmo diz que ele perdoa até a mil. As diversas tradições textuais
apresentam essas faces de Deus. Porém, toda leitura sensata só pode optar por um Deus
misericordioso. Se toda a história de comunicação entre Deus e o homem é para o benefício
do homem, ou seja, é uma história de amor: no fim, só a misericórdia pode prevalecer.
Uma relação espiritual sadia deve tender para sentimentos positivos e enobrecedores.
A diminuição da pessoa humana é uma agressão à pessoa divina. As pessoas não podem
jamais projetar suas limitações em Deus. Muitos lêem a recomendação evangélica “de não
julgar”. Mas não conseguem pesar no evangelho o que é maior: a justiça ou o amor. No fim,
são tentadas a admitir um Deus vingativo que determina premiações e condenações a seus
filhos.
Se o Evangelho mostra um Jesus compassivo até o ponto de perdoar seus malfeitores,
como pode alguém sustentar um Deus que castiga, pune e leva seus fiéis à condenação? A
relação inadequada consigo mesmo pode gerar uma imagem negativa de Deus. Portanto, a
vigilância e o discernimento devem estar presentes o tempo na vida de fé. Mais uma vez vem
a advertência: não confundir Deus com nossos desejos.
O homem de fé deve separar suas limitações da vontade de Deus. O humano e o
divino estão muito próximos, porém não convém que tomemos a liberdade de falar
demasiadamente do divino. Nós só entendemos da nossa condição humana. O coração
humano na sua mais pura sensibilidade é o lugar de intimidade com Deus. Por isso, o amor é a
metáfora da natureza divina. Cabe-nos a tradição dos místicos, não falar tanto de Deus, mas
fazer um constante silêncio de contemplação e adoração.

NO ROSTO DO OUTRO HÁ UM IMPERATIVO “NÃO MATARÁS”


“Minha religião é o amor a todos os seres vivos”. Leon Tolstoi.

A invisibilidade de Deus se torna visível para nós na pessoa do outro. A pretensão de


se amar a Deus sem passar pelo irmão é o pecado da fé. Crer dissociado de amar conduz o fiel
a uma religião de autoenganadores. Outro critério que apontamos para uma justa relação com
Deus é o amor ao próximo.

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A pregação de Jesus de Nazaré tem um forte apelo à dimensão do próximo. A fraternidade e
a justiça orientam a relação entre as pessoas. O centro da regra de ouro é a pessoa do outro:
Tudo que você deseja do outro, faça primeiro a ele. Este princípio resume a Lei e os Profetas
(quer dizer toda a Escritura). O verdadeiro rosto de Deus se enxerga estampado no semblante
do outro.
Segundo Emmanuel Lévinas (1906-1995), filósofo lituano, no rosto do outro há um
imperativo que nos diz “não matarás”. A fé radicada no mistério de Deus se traduz pela
‘absolutidade’ da presença do outro ser humano. Meu egoísmo se limita quando toca no
direito do próximo. Não simplesmente uma lei, é uma exigência natural. O rosto do outro me
interpela à reverência. Além disso, o filósofo afirmava que o outro me precede. O egoísmo
seria o ideal de uma vida sem sentido.
Nenhum interesse e nenhuma crença justificam o uso de violência para aparar as
diferenças. É dever irrecusável das religiões assegurar o caráter sagrado do ser humano. Não é
possível sustentar a fé em um Deus que justifica o mal. Os fundamentalistas fazem Deus
tomar partido por eles. Quando enxergaremos todas as pessoas como irmãos de modo
incondicional? Quando atingirmos tal estágio, poderemos falar de Deus sem receio.

TERRA, AGLOMERAÇÃO DE HOMENS OU COMUNIDADE DE IRMÃOS?


“A verdadeira religião nos prescreve que amemos até nossos inimigos”. Santo Agostinho.

Os diversos desrespeitos cometidos contra o nome de Deus nos põem em alerta. Neste
quarto tema, refletiremos sobre a relação necessária que vem da fé. Um povo religioso não
pode constituir meramente uma terra de homens, mas uma comunidade de irmãos. A fome, a
pobreza e as guerras são o grande escândalo de um mundo onde a maioria diz crer em Deus.
Cada ano 18 milhões de pessoas morrem de problemas relacionados com a pobreza, as
guerras agravam a situação: somente o conflito entre israelenses e palestinos matou 15 mil
pessoas desde 1964 e 1,1 bilhão de pessoas passam fome no mundo.
Para o profeta Isaías, justiça e salvação estão unidas (Is 45,8). Não se pode pensar em
salvação se o compromisso com a paz e a justiça não estiver garantido. A aplicação da justiça,
às vezes, encontra um espaço muito apertado nas comunidades de fé, estamos muito
preocupados com ritos e normas. O cotidiano das comunidades se reduz a mera preocupação
com aspectos celebrativos e se esquece da dimensão social e humanista da fé.

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Desde a antiguidade os povos procuraram se organizar em comunidade. Tal tendência
reforça os laços naturais de solidariedade que há entre nós. Dentre esses meios a religião
aparece como aquele fenômeno que sustenta a união entre os homens. Portanto, não nos
esqueçamos de refletir a cada dia sobre a responsabilidade de se ter fé.
Encerramos esta discussão em favor da integridade do nome de Deus. Mas o compromisso de
zelar pelo nome dele não cessa. Rezemos para que não caiamos no erro de tomar o nome de
divino em vão e de tomá-lo como justificativa de nossas convicções egoístas e intolerantes.

2. REDESCOBRIR A IDENTIDADE DE JESUS

Durante os primeiros séculos da Igreja um dos grandes desafios encontrados foi o


surgimento das heresias. Os pais da Igreja se esforçaram tremendamente para que a fé fosse
transmitida com fidelidade. Porém, o cristianismo primitivo foi se construindo a partir do
contato do Evangelho com as diversas culturas do mundo antigo. Os cristãos provenientes do
meio filosófico e de religiões mistéricas tendiam a interpretar os princípios da fé a partir de
sua visão de mundo.
A dificuldade doutrinal foi explicitar coerentemente a identidade de Jesus. Houve muitas
propostas e discussões. Surgindo, assim, os desvios de doutrina chamados de heresias
cristológicas. Essas questões foram resolvidas em concílios. Hoje essas heresias persistem de
outras formas. E quando se pergunta sobre a identidade de Jesus o problema reaparece.
O que se observa nas igrejas e movimentos pentecostais é uma despersonalização de Cristo.
Flagrantes de pregações e de programas de TV nos sugerem que Jesus é definido segundo
critérios de âmbito psicológico, financeiro e clínico. As visões cristológicas contemporâneas
se afastam consideravelmente da tradição bíblica e são afirmações impactantes como “Jesus é
a solução”. O padre e o pastor apresentam Jesus a partir da carência do fiel. Para se converter
é necessário ter problemas financeiros, de saúde ou passionais. A função de Jesus é responder
e solucionar os males daquele que crê. A sua personalidade é colorida segundo a praticidade,
seu aspecto ontológico se perde. Jesus não é mais assumido como o Filho de Deus, está mais
para super-homem. O slogan do cristão que defende essas heresias é “Jesus tem poder”.
Essas constatações nos impulsionam a uma revisão de método de evangelização. As
influências do mercado nos fazem sacrificar a identidade do Filho de Deus. Ele é apresentado
segundo princípios do marketing como um produto de excelente qualidade. E que soluciona
todos os problemas do ser humano. Uma visão utilitarista de Deus e pessimista de homem.
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Deus existe para servir o homem na superação de suas limitações e o homem precisa estar
decadente e ameaçado para buscar a divindade. A personalidade de Jesus se encontra
fragmentada e presa a interesses de ordem prática. Quando se diz que “Jesus é tudo”, corre-se
o risco de reduzi-lo a nada.
As pregações e a catequese não podem desgrudar o olho da Bíblia e da Tradição. A tarefa
religiosa de nosso tempo é indubitavelmente redescobrir Jesus. A síntese da fé cristã
formulada no Credo professa: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor “e seus
desdobramentos.
Jesus Cristo possui todas as dimensões da pessoa humana, mas é único e não pode ser
confundido com uma expressão vaga sem compromisso histórico. Não tem como pregar um
Cristo versátil, multicolor e com personalidade cambiante sem desviar da fé ortodoxa. A fé
tem uma fórmula própria, transmitida, que reflete um mistério ímpar. Portanto, é preciso
redescobrir Jesus com os pés na história para que não se caia em heresias hodiernas tais como
as do Jesus terapeuta, financista e clínico.

3. O SILÊNCIO E A SOLIDARIEDADE

Duas lições de Maria de Nazaré

Vamos aprender com elas duas lições: O silêncio e a solidariedade. Essas duas
virtudes estão tão raras no mundo de hoje. O Novo Testamento diz que Maria em silêncio
guardava tudo no seu coração. Silêncio não quer dizer ficar apático, mas é uma atitude de
sabedoria.
É preciso guardar muitas coisas, e refletir sobre elas, antes de dizer. A
responsabilidade sobre a palavra gera vida. Quando se afirma demais, se perde nas palavras.
Muitas pessoas hoje se afogam no ruído do mundo. A Palavra tem a hora certa, a pessoa certa
e o lugar certo. E não temos respostas para tudo, muita coisa precisa somente de reverência e
não de explicações.
O Novo Testamento também afirma que Maria foi às pressas servir sua prima. A
solidariedade não é feita com o que nos sobra, mas a partir do que temos. Mesmo que os
nossos bens e nosso tempo sejam escassos sempre há algo para ser doado. Hoje com a correria

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do mundo moderno, as pessoas programam a solidariedade para o Natal, para quando se
aposentarem, para quando sobrar tempo ou dinheiro.
O hábito do falatório e do individualismo tem nos impedido de sermos mais humanos.
Assim, a solidariedade inteligente e o silêncio sábio precisam encontras espaço em nossas
vidas. As pessoas e a natureza como um todo precisam cada vez da consciência de unidade.
Essa é a grande lição da jovem de Nazaré!

4. CRÍTICA SOBRE A IDEIA DE PROVIDÊNCIA

A imagem humana de Deus versus a imagem divina do homem

O seguinte fato é uma experiência pessoal que me levou a refletir sobre a imagem de
Deus que as pessoas ainda têm. Dia 1º de setembro, minha esposa Joana Regina Gamito Silva
teve um aborto espontâneo. Meu primeiro filho, ainda um embrião, não resistiu a uma
hemorragia intra-uterina. Durante aquela semana, todas as pessoas que nos visitavam ou com
as quais eu me deparava na rua, querendo nos consolar, justificavam o fato.
Então, observando e classificando a explicação de cada uma, resolvi refletir sobre a
experiência. Fui ouvindo as pessoas e anotando numa folha e no decurso de 15 dias, das
pessoas que nos deram uma palavra de consolo, 95% disseram que era a vontade de Deus.
Elas associaram um fato espontâneo, sem causas constatadas por médicos, com significado
trágico, a uma determinação divina.
A imagem de Deus que uma pessoa tem, interfere diretamente na sua visão de mundo.
Muitas pessoas de fé confundem a sublimidade divina com uma arbitrariedade ou tirania de
Deus sobre a vida dos seres humanos. Estabelece-se, então, uma relação moral no contato
humano-divino. Neste processo, o homem (servo) se torna marionete e Deus (senhor) ganha
uma carga moral. Tal visão parece proceder de uma incapacidade de assimilação da imagem
de Deus dos evangelhos. Os adeptos do pentecostalismo tendem a incompatibilizar o Deus do
Antigo Testamento com o Deus do Novo Testamento. A saída seria reaprender a ler os livros
sagrados.
Porém, mais do que debater a participação de Deus na vida terrestre, seria descobrir
novas atitudes diante das tragédias. Por exemplo, abrir-se à visão de Deus como pura
gratuidade, a-moralidade. Diante das tragédias evitáveis devemos ter a disposição de assumir

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nossa irresponsabilidade. E diante nas inevitáveis, fazer silêncio, não racionalizar. Talvez
estes 95% precisem desenvolver uma atitude sapiencial diante dos fatos. E aprenderem a não
tomar o nome de Deus (a pessoa) em vão! Este mandamento precisa ser revisitado pelos
cristãos de hoje.
Vivemos uma época de muitos ruídos e pouca comunicação. A tarefa dos crentes do
século presente talvez seja aprender a se calar, pois viciaram no abuso das palavras. O segredo
da vida está além das palavras. A sabedoria está em se contentar com os fatos sem respostas.
O silêncio e a suspensão de juízo nos amadurecem muito mais para o mistério. Para que um
dia a fé que temos não leve mais a confundir a imagem que temos de Deus com a imagem que
Deus tem de nós.

5. A PESSOA HUM ANA NA ATUALIDADE

INTRODUÇÃO

Diante da realidade em que vivemos, a questão do valor do ser humano deve ser discutida
atentamente. Depois de um século de duas guerras mundiais e tantas atrocidades humanas,
imaginávamos um crescimento moral da humanidade. Mas isso não aconteceu, o século 21
iniciou marcado por guerras, terrorismo e tantas outras desumanidades. O avanço tecnológico
não correspondeu a um progresso moral dos homens.

1. A PESSOA HUMANA NA ATUALIDADE

Para início de conversa, procuraremos levantar algumas situações da pessoa humana na


atualidade. O homem tornou-se relativo, individualista e descartável. Cada um defende a sua
opinião como verdade, defende seus interesses. A pessoa passou a valer pelo que tem e pela
aparência. Tudo isso gera um tipo de ser humano descartável. A procura de segurança
financeira, de sobrevivência a todo custo, sem cooperação, gera uma guerra de todos contra
todos. A prevalência do ter sobre o ser destrói qualquer compromisso moral. O terrorismo, a
corrupção política, o crime organizado são faces da perda de valores próprios da pessoa
humana. Fora do país, crescem cada vez mais as guerras entre as nações por causas políticas e
religiosas. Um não reconhece o outro como semelhante. O conflito nasce da incompreensão

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da diferença do outro, prefere eliminá-lo. No Brasil, a ganância pelo dinheiro devora a
honestidade e o compromisso com o bem comum. Além disso, há uma minoria que opta pelo
crime por sobrevivência. Porque teve a sua dignidade arrancada. O livro do Gênesis exalta a
dignidade do homem dentro da criação. O único criado à imagem e semelhança de Deus. Esta
semelhança é justamente a capacidade de amar e de viver em comunidade, de estabelecer
relações. O homem é pastor da criação, responsável por zelar dela e de seus irmãos, fazendo-
os progredir conforme sua dignidade.

2. A DESUMANIZAÇÃO E A ESTRANHEZA

Cada dia o homem está se tornando mais estranho ao seu semelhante. Uma estranheza no
sentido de indiferença. Naturalmente o outro já nos causa estranheza. As diferenças culturais e
de personalidades, que deveriam enriquecer as relações, tornam-se motivo de conflito.
Deixar-se levar pelo descaso do estranho gera a desumanização. O processo de
desumanização é crescente. As atitudes do homem estão mais irracionais. Olhemos alguns
fatos. A violência está nas ruas, nos filmes, nos jogos infantis. Até a religião tornou-se
geradora de destruição. As nossas crianças são educadas para uma cultura de violência.
Estamos amando menos, sendo mais hipócritas nas nossas relações. Faltam sorrisos sinceros e
amizades desinteressadas! O contato entre as pessoas tornou-se superficial, perturbado pela
desconfiança. Nas grandes cidades há medo dos assaltos e seqüestros, os casais temem a
infidelidade, o empregado tem horror a desemprego. As opiniões andam pouco tímidas
também. A suspeita ronda o nosso mundo. E os homens insensíveis se estranham como feras
acuadas. O Salmo que recitaremos nos ajudará a sentir a importância do homem para Deus.
Popularmente quando alguém morre, diz-se “nós neste mundo não valemos nada”. Esta
afirmação ignora a dignidade humana. Somos provisórios e limitados, mas especiais para
Deus. Fomos revestidos de glória e de beleza. Por causa desta dignidade não podemos
desprezar nossos irmãos. O amor deve ser a nossa resposta!

3. O HOMEM DESCARTÁVEL

O mundo moderno trouxe facilidades e conforto para vida humana. Com o desenvolvimento
da indústria, os produtos tornaram-se de uso prático, descartáveis. A descartabilidade provém

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do comodismo, da economia de tempo. Não exige cuidados com a conservação. A utilidade é
passageira. Uma vez servido, torna-se lixo. E lixo que, não sendo reciclado, destrói o planeta.
A gravidade é que o homem tornou-se descartável também. A pessoa humana tem um valor
absoluto. Nada a torna secundária, passageira e sem valor. É filha de Deus. A correria do
nosso mundo gerou o homem descartável. O mercado de trabalho descarta funcionários
quando não produzem mais lucro. As pessoas idosas e pessoas com deficiência são
conhecidas como “inválidas”. As amizades são transitórias. O artista depois do sucesso é
esquecido. Não se cultiva mais a memória dos mortos. A juventude fez do amor uma
experiência descartável. A moda do “ficar” é uma relação sem compromisso, interessa só o
carinho de um dia. A vida e o sentimento alheios não vêm ao caso. Alguns adolescentes
fazem listas de “ficantes”. Isto acontece no amor, na amizade, no trabalho e no estudo. É
perigoso até Deus cair nesta! Podemos ser tentados a querê-lo só nos momentos de
necessidade! No texto bíblico de hoje, o autor nos alerta para momentos na comunidade, nos
quais o homem perderá o seu sentido de filiação divina, comportando-se como se não tivesse
fé. Quanto a nós, devemos permanecer firmes não aderindo à moda do homem descartável –
sem moral e sem dignidade absoluta.

4. RECUPERAR A CONDIÇÃO DE AMAR

Depois de elaborarmos um retrato da pessoa humana na nossa sociedade, aproximemo-nos da


raiz do problema e ao mesmo tempo da solução. Há urgência de recuperar a condição de
amar. A educação nos convenceu que o homem se define pela sua capacidade de pensar. A
razão humana tornou-se muito vaidosa. Precisamos nos afirmar pela nossa capacidade de
amar. Considerando esta problemática, Bento 16 escreveu sua primeira carta encíclica, com o
título “Deus é amor”, refletindo sobre este tema. A condição de amar iguala todo ser humano.
Deus nos criou, nos salvou e nos santificou movido pelo seu imenso amor. A nossa resposta
não pode ficar por menos: só pode ser amor correspondido. O amor precisa ser cultivado. A
cultura e a situação social na qual nascemos podem ofuscar nossa capacidade de amar.
Violência e desrespeito só geram ódio. Só quando aceitarmos o direito de o outro ser
diferente, abrindo-nos ao diálogo, é que será possível criarmos uma civilização do amor. A
desumanização, o homem descartável, a indiferença e o individualismo desaparecerão,
quando corrermos o risco de amar. Esta arte é exigente. Ela nos aproxima de Deus e nos

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direciona para a caridade. Uma caridade-amor que realiza a justiça, a paz e supõe a fé e a
esperança. Amar exige cultivar, disposição, correr risco de se decepcionar. Implica tempo
para a escuta. Nosso mundo barulhento desaprendeu esta lição. Procuremos melhorar nossas
relações no meio em que vivemos. Busquemos ser agradáveis e
acolhedores com os outros, preocupando-nos com eles. Cultivemos amizades sinceras.
Sejamos tolerantes! Lembremo-nos de que amar não é os dois amarrados olharem um para o
outro, mas ambos olharem para uma mesma direção. E esta é o bem de todos. A 1ª Carta aos
Coríntios nos ajudará nesta tarefa.

6. A UNIDADE DENTRO DO CRISTIANISMO

PARA QUE TODOS SEJAM UM


Os teólogos, ao longo do tempo, foram usando instrumentos de interpretação. A primeira
parceira histórica foi a retórica grega. As categorias platônicas deram corpo de expressão para
a Bíblia. Houve maior resistência em aceitar o pensamento aristotélico. A crítica bíblica só
ganhou mesmo cientificidade nos séculos 18 e 19. Os intelectuais protestantes alemães
tiveram grande contribuição.
Mesmo com a aquisição de modernos instrumentos de interpretação, o aperfeiçoamento da
crítica bíblica não pôde impedir a continuidade, e até mesmo, o aumento de leituras
fundamentalistas por parte de grupos pentecostais. Na década de 90, por exemplo, cresceu nos
Estados Unidos uma pressão para a adoção do criacionismo nas escolas. O fato fez aumentar
as divergências entre fé e ciência.
Atualmente duas posições diante da Bíblia são bastante claras. Há uma interpretação
racionalista empregada em ambientes acadêmicos pelos biblistas. Essas conclusões chegam às
classes populares. A segunda é a interpretação estética, seu poder é os sentidos. A fonte é a
pregação de pastores e padres. São repassadas em meios de comunicação.
Será que sabemos o que a Bíblia quer dizer? As divergências de compreensão se tornam
diferenças instituições e por fim conflitos pessoais. “Para que todos sejam um”, o desejo de
Cristo fica em segundo plano. Os cristãos deveriam pôr em primeiro lugar seus pontos de
unidade: a fé em Cristo. As divergências dogmáticas não deveriam ser impedimento para o
progresso do Evangelho. Muitas esses pontos de divisão ganham espaço maior do que os

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benefícios que a fé pode trazer. É preciso ter coragem de sacrificar detalhes para salvar o
essencial!

7. A GRATUIDADE DA SALVAÇÃO

A VISITA GRATUITA DE NOSSO

Quando percebemos ele já estava no nosso meio. Quem podia imaginar que aquela criança
de Belém era ele?! Seu primeiro choro infantil foi lição de amor tão singular. A humanização
de Deus foi surpreendente, gratuita e não exigiu respostas. Belém não é um lugar necessário.
O coração do homem é um presépio gratuito do divino. Mas, ele quis armar a sua tenda entre
nós. Tornou-se um profeta não para nos ensinar um código de moral, mas para nos convidar a
uma experiência acessível a todos: o amor. Porém, tenho de discorrer sobre a natureza desse
amor. Ele não é um amor exigente e nem é recíproco. Ele é pura iniciativa, nítido
desdobramento em favor do outro. Ele não diz faça o bem para ser salvo. Mas, nele já está
implícita a salvação: o bem faz sentido porque vivemos uma relação de pessoas salvas. A
História da Salvação plenificada na epifania do Senhor nos mostra uma relação de graça.
Entre o homem e Deus há uma caso de aspiração e sedução infindável.
O Natal nos faz repensar a nossa relação com Deus. Ele não tinha nenhuma dívida
conosco, não havia um contrato exigindo a sua manifestação para que crêssemos. Nem impôs
a fé como condição. No entanto, ele veio. Ele que nos criou livremente. Só poderá receber
uma resposta gratuita. Ao longo da história nosso zelo excessivo foi instituindo obrigações
para o amor. E passamos a dizer que devemos o amor uns aos outros. Isso não cabe na
natureza intrínseca do mesmo.Como podemos sentir a relação de graça e de liberdade com o
nosso Deus? A fé cristã não parte da adesão a um conjunto de verdades. Começa com um
encontro pessoal com Jesus. Ás vezes, mediado pela comunidade ou não. A estrutura central
desse ato de fé que nasce dessa apresentação interpessoal é o amor. Não é uma experiência
moral em primeira instância. É uma relação estética pautada por um amor espontâneo. A
conversão de muitos santos se deram da maneira mais impensável. É um enamoramento sem
formas prévias, sem exigências de reciprocidade. Compreende-se a medida do amor é com o
próprio amar. O Evangelho provoca uma virada de expectativa diante da lei. Enquanto, se
espera do devoto um cumprimento perfeito dos mandamentos.
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A gratuidade evangélica vai além, justamente naquilo que não se exige. Não precisamos
mostrar nossas ações para atrair recompensas, o intuito do bem não é receber outro em troca.
Essa perspectiva contradiz os ditos “amor com amor se paga”, “o bem se paga com bem”. A
essência evangélica nos convida a dar mais um passo, convida-nos a uma virada de
expectativa. O amor não nos faz devedores. Se concordamos com atitude farisaica (da
recompensa), no lugar em que não se fizer mais o bem, não teremos motivação para realizá-
lo. O efeito da graça na vida humana só pode ser uma postura de gratuidade. Caso contrário
estaremos numa relação ambígua. A encarnação só pode ser entendida num contexto de graça
e a relação com ela fará sentido se for por nada. E as nossas relações interpessoais? Qual será
o parâmetro? O limite é o amor. Ele é desmedido. “Ama e faze o que quiseres”, dizia
Agostinho. Não tenhamos medo o amor dá o contorno próprio ás coisas autenticamente
humanas. Se não há uma relação de necessidade e de obediência. Então, tudo é permitido,
dirão alguns. Quando desviamos e projetamos a razão do amor na premiação que Deus nos
conferirá, desfiguramos o amor divino. Se tiramos a premissa esquecemos que somos seres
amorosos. A graça age a na comunhão entre o homem e Deus.
A salvação é a maneira objetiva como a graça nos toca – não depende de nosso mérito.
Agora a santidade é a relação subjetiva que se estabelece com a graça. É acolhida livre e
pessoal da salvação – é uma construção pessoal. Essas relações quando são confundidas, não
conseguimos compreender a visita gratuita que nosso Deus nos faz a cada Natal. Amar é
próprio de quem cultiva a hospitalidade. Fica o convite para acolhermos o nosso visitante
neste Natal, em outras palavras: sejamos gratuitos – amemos as pessoas pelo que elas são e
não pelo que elas podem nos dar. Assim como o nosso Deus fez conosco na Encarnação.

8. A SUPERAÇÃO DO FUNDAMENTALISMO E ABERTURA AO


OUTRO

VERDADE E CONTRADIÇÃO NO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

O constante crescimento da tensão entre mulçumanos e cristãos nos leva a questionar a


postura das grandes religiões monoteístas. As diferenças culturais entre oriente e ocidente são
enormes. O choque cultural é inevitável. As culturas não estão num mesmo nível de
compreensão da realidade. As religiões monoteístas sempre tiveram tendências absolutistas. O
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judaísmo historicamente foi menos problemático. O islamismo e o cristianismo fortemente
marcados pela propagação da fé, quiseram se tornar religiões universais. E num sistema de
verdade fechado não há espaço para a diversidade. Essas religiões trazem consigo uma visão
de mundo monista. A modernidade forçou o cristianismo a uma conversão que o enriqueceu
muito. Ajudou-o a recuperar o espírito primitivo: a religião da tolerância e do amor. Mas a
cultura ocidentalista construída ao longo dos séculos contínua. Ela, veladamente, considera o
oriente irracional e primitivo. Isso se deve à transposição cultural feita com o cristianismo, de
um povo intuitivo, sensível para uma civilização marcada pela razão e pela metafísica. Por
outro lado, o oriente islâmico considera os ocidentais como infiéis, ateus e materialistas e
devem ser convertidos. A destruição do Word Trade Center deu início a uma grande cruzada
na era contemporânea que fica cada vez mais tensa. As guerras no Afeganistão e no Iraque
provaram a hipocrisia do Império Americano, ícone do ocidente. O fundamentalismo
democrático pela força da razão sustenta uma aparência mascarada pelos ideais da Revolução
Francesa, mas no fundo relativiza seus discursos em favor do mercado. Os fundamentalistas
orientais são menos hipócritas. Seus ideais são levados até as últimas conseqüências, o
indivíduo e a pátria se fundem. Dando ocasião para o tipo de “martírio” dos homens-bombas.
Religião é uma questão séria demais. Por isso essas defesas violentas de convicções. Os
monoteísmos universalizantes fizeram um difícil concubinato entre verdade e contradição. As
religiões pregam a prosperidade do mundo, o amor de Deus e salvação dos homens, mas usam
meios contraditórios para imporem essas verdades. É totalmente contraditório pregar Deus
por meio da guerra. Para elas, a fé dignifica e autoriza uns a sacrificarem outros na tarefa de
homogeneizar o mundo. O múltiplo não é tolerado. A proposição principal é: Deus é uno. Daí
se justifica o monismo: uma só fé, uma só cultura, um só pensamento. O diverso é visto como
subversão ao plano de Deus. O que fizemos da religião? Poderíamos nos perguntar. Um
grande problema é a mediação histórica da verdade. Homens, lugares determinados e sistemas
de pensamento tornam-se mediações necessárias para a verdade ou para Deus. As religiões do
Livro sacralizam a palavra escrita e a amarram a conceitos fixos. Os intérpretes fazem da
palavra seu refém. Ela profere literalmente a palavra de Deus de modo fixo e cristalizado.
Todos os espaços da vida têm que ter uma referência ao divino. Há uma colonização do
cotidiano pela Palavra cristalizada. A religião passa a ser condição fundamental para a
antropologia – o homem é um subordinado ao Deus petrificado nas escrituras. Um conflito
entre oriente e ocidente pode acontecer a qualquer momento. A grande cruzada reparadora da

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Idade Média é uma possibilidade a qual não podemos ignorar. O fim da história e do mundo
pode ter como causa uma guerra religiosa. Assim provaremos para quem sobreviver o quanto
conhecemos a verdade. Relativizamos o nosso conceito de dignidade humana para
defendermos o divino. Somos religiosos para termos tempo para sermos humanos. Uma
guerra religiosa é soco mais dolorido que podemos dar no coração de Deus, Numa religião
que perde a razão de vista, a verdade e a contradição se confundem.

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IDENTIFICAÇÃO DO AUTOR

José Aristides da Silva Gamito é bacharel em


Filosofia e pós-graduado em Docência Básica e
Universitária, licenciando em Filosofia (2010). É
natural de Vermelho Velho, Raul Soares, MG.
Sendo filho de Aristides Antônio da Silva (in
memoriam) e Lourdes Leandra da Silva (in
memoriam). É casado com a professora de
Biologia Joana Regina Gamito. Atualmente reside em Conceição de Ipanema, MG.

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