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(1) SINTOMA E FIM DE ANÁLISE

Lucía Barbero Fuks

“Para entender o conceito de sintoma, é preciso considerá-lo em suas duas dimensões.


Por um lado, o sintoma é um símbolo mnêmico e, como tal, um substituto ligado à
linguagem. Por outro, é um mecanismo que torna possível uma satisfação pulsional,
implicando uma dimensão de gozo.

Para Freud, o sintoma aparece como retorno do recalcado. Trata-se de uma substituição
do recalcado, cujo sentido é inconsciente. É o tempo de decifrar. O analista decifra. Para
Lacan, o sintoma é, também, uma mensagem a se decifrar e, quando isso se dá,
consegue-se a “liberação do sentido aprisionado”.

Quando um sujeito, no dispositivo analítico, decifra seu sintoma, produz um saber que
está articulado no sintoma. Do deciframento desse saber inconsciente particular a cada
sujeito emergirá esse mundo de equívocos que é o sintoma.”

“(...)Aprofundando na metapsicologia do sintoma, Freud sustenta, nos diversos


momentos de sua teoria, algumas constantes: por exemplo, o sintoma é sempre
considerado uma expressão do inconsciente e pode ser reinserido dentro de uma trama
que lhe dá sentido, da mesma maneira que os sonhos, os atos falhos e o chiste. É uma
formação de compromisso, produto de uma transação entre os conteúdos inconscientes e
a ação do recalque; um retomo do recalcado de forma deformada servindo de via de
expressão tanto para o recalcado quanto para a defesa. Será, assim, o cumprimento
deformado de um desejo inconsciente e também uma satisfação sexual substitutiva: “a
prática sexual dos doentes”, O sintoma é parte da trama de representações às quais está
ligado e a partir das quais adquire sentido. E uma forma de memória, substituto de um
processo que, para o paciente e para o analista, é preciso encontrar. Como analistas,
podemos dar ao analisando os caminhos necessários para reexaminar e mudar sua
posição.”

“(...)No entanto, permanece uma margem de indeterminação na particularidade da


eleição da representação sintomática. Por que uma dor e não outra, por que um órgão e
não outro, pergunta-se Freud, cogitando também se os transtornos orgânicos existentes
na história do sujeito podem também ser utilizados da mesma maneira.

Isso, para além de seu conteúdo autônomo, nos leva a pensar em algo que não é da
ordem da eleição, e sim da imposição. Essa perspectiva de um sintoma imposto coloca
em questão a causalidade particular de uma eleição subjetiva. Freud considera que o
sujeito, de maneira figurada ou metafórica, pode converter em incidências corporais
sintomáticas algumas locuções. Isso supõe que o sujeito pode fazer do seu corpo o
suporte que encarna determinado significante.
O sujeito não aparece aqui como passivo e entregue às evidencias da contiguidade

(“coincidência fortuita”) e da semelhança (“comunidade pelo conceito”). Trata-se agora

de um sujeito ativo, com intencionalidade e a resposta do sintoma vem de uma “escolha

subjetiva”.”

“ (...)Nas entrevistas preliminares de uma análise coloca-se a conformação do sintoma,


entendido como a forma em que cada um goza do inconsciente na medida em que este o
determina.

O sintoma por si mesmo não conduz à análise se não tem implicação subjetiva, isto é, se
não se o reconhece como portador de um sentido obscuro que implica um sujeito
desconhecido de si mesmo.”

“(...)Freud diz que o ego se apropria do sintoma, isto é, que aprende a lidar com seu
sintoma. Isto pode ter uma conotação positiva para o sujeito, pois é óbvio que, para ele,
o sintoma tem uma utilidade. Mas também tem a conotação negativa quando o ego se
apropria do sintoma para fazer resistência a partir desse lugar. O ego não quer renunciar
à satisfação presente no sintoma em si, o que nos remete à satisfação pulsional, tomado
do contexto do longo caminho do neurótico para alcançar a satisfação.

Existe uma passagem da queixa — aquilo do qual o sujeito quer se desvencilhar — ao


sintoma analítico, isto é, a implicação, o reconhecimento da verdade, o consentimento
onde o sintoma dá as coordenadas do sujeito, premissas necessárias para a direção da
cura.

Assim, pode-se fazer valer a dupla função do sintoma, sendo que no ato analítico opera
uma transferência que substitui a função de repetição pela função de representação que
comporta um efeito de sentido e transforma o sintoma em algo susceptível de ser
interpretado. Mas o sintoma comporta um valor de gozo.”

“”(...)Fazer análise, levando tudo isso em consideração, seria refazer uma história.
Há, no entanto, pacientes que não querem refazer sua história, ficando presos ao
que já se contaram e tornando mais difíceis e raros quaisquer questionamentos. O
efeito terapêutico, nesses casos, cura o sintoma, mas não o sujeito. Somos levados a
pensar, então, no limite do efeito terapêutico. Pois é preciso diferenciar: o fim da
neurose não é o fim de um sintoma.

Essas questões concernem à concepção e à abordagem do sintoma ao longo de todo o


processo analítico, mas tornam-se mais prementes e centrais quando começamos a
considerar o fim da análise. A partir desse ponto de vista, o analista não poderia
posicionar-se a favor da satisfação pulsional presente no sintoma. A análise
questiona essa satisfação pulsional e o paciente sabe disso, o que, em alguns casos,
leva a transferência a se configurar como reação terapêutica negativa.

Em “O ego e o id”, Freud (1923) considera a integração do sintoma no ego, ou seja,


o fato de que o ego se associa com o sintoma para seguir gozando dessa satisfação
pulsional que está presente no sintoma. A reação terapêutica negativa aparece
também vinculada à consciência de culpabilidade. Persistindo a necessidade de castigo,
que em “Inibições, sintomas e angústia” (Freud, 1926) é trabalhada como resistência do
superego, o sintoma torna-se irredutível, e somos conduzidos a considerar a relação
entre sofrimento, sintoma e gozo.
Em diversos momentos e a partir de diversas perspectivas, Freud afirma que, no
sintoma, o sofrimento “traz” certa satisfação.”

“(...)Há uma relação entre sintoma e verdade. A verdade nunca é totalmente dita.
Há, isto sim, um conceito de verdade que não se entrega numa formulação única e
definitiva, e que entra no terreno da interpretação.

Essa sua proximidade com a verdade assinala que o sintoma goza da verdade.
Analisar o sintoma até o limite do interpretável equivale a descobrir o ponto de
gozo do sintoma, que seria, em última instância, seu sentido verdadeiro. O sentido
do sintoma, nesse ponto de vista, seria o real do gozo, ou seja, aquilo que não pode ser
inscrito.

No início de uma análise, o sintoma está dizendo algo que não foi desvendado, e é
importante que o paciente de crédito a ele. Que considere que seu sintoma
representa ou exprime, se não toda, ao menos algo de sua verdade. Apesar de que,
no longo processo da análise, terá que se haver com a limitação de que o sintoma,
mesmo decifrado, vale lembrar, não revela toda a verdade do sujeito, já que é
outra via de entrada para os conteúdos do inconsciente.”

(2)E O SINTOMA UMA DESORDEM A SER “CURADA”?

Maria Cristina Ocariz

“ (...)O sintoma é uma formação do inconsciente, como o sonho e o lapsos, que


expressa um sentido mascarado. Sua linguagem é a linguagem do inconsciente, os
mecanismos os do processo primário, O sintoma está articulado a uma verdade.
Mas, é também um texto em que se escreve, de um modo disfarçado, o pulsional
que não cessa de buscar expressão. E uma das formas em que a pulsão consegue se
inscrever no aparelho psíquico e se satisfazer.
O sintoma é uma solução em si mesmo: é uma maneira do sujeito conseguir lidar
com a castração; e uma das formas para se organizar frente às limitações de seu
corpo e às interdições da cultura. Paradoxalmente, o sintoma neurótico é uma
defesa, é uma maneira do ser humano se defender de seu universo pulsional e das
vicissitudes e perigos da vida, mas também é doença quando se opõe à
transformação, ao movimento, apesar dos sofrimentos que acarreta. Defesa é uma
operação muitas vezes mal compreendida pelos psicanalistas, que a utilizam como
sinônimo de resistência. Quando Freud fala de defesa fala das operações,
mecanismos necessários para que qualquer ser humano possa se organizar
psiquicamente.

Freud desenvolve em toda sua obra as vicissitudes do sintoma durante o processo


analítico: as diversas manifestações sintomáticas pelas quais os pacientes nos
procuram, o sofrimento decorrente das mesmas, a satisfação compulsiva que
insiste, a resistência à dissolução ou transformação do sintoma, o apego a ele, a
resistência à cura, o perigo de se curar. Existe uma resistência à cura, por amor ao
vínculo, que pode eternizar os processos psicanalíticos: a transferência como
sintoma e os tratamentos intermináveis. Freud considerava que uma análise muito
prolongada podia ser contraproducente.”

“(...)Lacan produz novas concepções metapsicológicas. Podemos encontrar três


momentos e concepções de sintoma em Lacan: o sintoma como mensagem, o
sintoma como gozo e o sintoma como criação, invenção.

O primeiro Lacan, apesar de retornar a Freud com os operadores da linguística e da


antropologia estrutural, sustenta a mesma concepção que Freud: o sintoma é um
retomo do reprimido, uma mensagem dos conteúdos inconscientes recalcados.”

“(...)Um sintoma psíquico ou corporal que se intromete na vida do sujeito


provocando infelicidade e dor representa uma porção de gozo excessivo que não foi
desarticulado e que volta para complicar sua existência.

O tratamento analítico não pretende que o gozo desapareça, isso seria a morte.
Mas é diferente um gozo sem limites de um gozo barrado. Desde Freud, o ideal
terapêutico é “dominar”, “domesticar” a pulsão para acalmar o sujeito (Freud, 1937,
cap. 3). “Algo da ordem da satisfação deve ser retificado no nível da pulsão”, diz
Lacan (1963-64) no Seminário Ii (p. 172).”

“(...) O neurótico pode ser aquele que faz sempre a mesma obra, pinta sempre o
mesmo quadro, repete-se no mesmo ponto, no mesmo fracasso, na mesma
dificuldade, no mesmo obstáculo. Isso é um sintoma empobrecedor, que incomoda.
Analisar-se significa reconhecer e questionar o próprio sintoma, se angustiar,
seguir os labirintos do desejo, com o intuito de sair do aprisionamento nas redes
imaginárias do fantasma, e viver em outro estado, menos passivo, mais atuante,
criativo e transformador.”
(3) OS DESTINOS DO SINTOMA E A QUESTÃO DO FIM DA ANÁLISE

Mário Eduardo Costa Pereira

“Já em suas primeiras aproximações teóricas dos fins a que se propunha o método
catártico, Freud deixava antever que seu novo dispositivo clínico distanciava-se
amplamente da concepção de terapêutica usual na tradição médica. Esta, ancorada na
therapéia dos antigos gregos, legitimava-se eticamente pelos esforços do terapeuta em
ocupar-se do sofrimento do outro, fosse no sentido da cura ou no alívio da dor e do
padecimento. Nessa vertente, a terapia mantinha conexões éticas e antropológicas com
aquilo que ulteriormente, na história do Ocidente, constituiria o âmbito da compaixão,
da caridade e da misericórdia. O alívio do sofrimento engendrado pelo sintoma estaria,
assim, moralmente justificado.

Ora, em um primeiro momento, Freud descobre a estrutura propriamente linguajeira e


significante do sintoma neurótico, bem como a possibilidade de eliminá-lo pela via da
palavra e da recordação. O caso de sua paciente Cecilie M., amplamente discutido ao
longo de “Estudos sobre a histeria” (1895), disso fornece um exemplo paradigmático:
assolada ao longo de 15 anos por episódios de uma dor hemifacial aguda e
desesperadora, a paciente obtém a remissão definitiva desse sintoma quando, submetida
ao método catártico, consegue se recordar das circunstâncias em que aquele se instalou.
No momento em que surgira a doença, ela passava por uma terrível crise conjugal e,
durante uma discussão, seu marido dirige-lhe um áspero insulto.

— Foi como uma bofetada em meu rosto!, exclama Cecilie, levando a mão à face.
Nesse momento, diz Freud, “cessam a dor e os ataques”. Freud compreende aqui a
dimensão metafórica do sintoma histérico concretamente expressa pelo corpo do sujeito,
sem que a consciência tivesse qualquer participação nesse processo. O tratamento
consistia, naquele momento da história da psicanálise, em uma talking cure: uma cura
pela conversa através da qual a recordação insuportável, abafada e deformada pelo
recalque, podia finalmente ser resgatada e reintegrada no fluxo elaborativo das
representações. O inconsciente, no dizer de Freud, era um saber que não podia ser
suportado enquanto tal, enquanto a terapêutica catártica consistia na criação das
condições para que a representação insuportável pudesse ser tolerada e encarada em
toda sua terrível verdade. Da recordação da cena traumática, através da elucidação do
enigma do sintoma, Freud passaria a focalizar a análise das resistências que impediam o
retorno do passado à consciência. Tratava-se, pois, pela via da palavra, de tornar
consciente o inconsciente, superando-se as oposições ativas do sujeito à recordação,
completando-se as lacunas da memória e restituindo-se a livre circulação das energias
psíquicas pelas redes associativas que constituem as representações. Nessa perspectiva,
a ação terapêutica da nascente talking cure não correspondia necessariamente a um
ganho direto de alívio ou de bem-estar, mas, simplesmente, ao resgate de uma verdade
insuportável:
Quando prometo a meus pacientes ajuda ou melhora por meio de um tratamento
catártico, muitas vezes me defronto com a seguinte objeção:

Ora, o senhor mesmo me diz que minha doença


provavelmente está relacionada com as
circunstâncias e os acontecimentos de minha vida.
O senhor, de qualquer maneira, não pode alterá-los.
Como se propõe ajudar-me, então?

E tem-me sido possível dar esta resposta: “Sem


dúvida o destino acharia uma maneira mais fácil do
que eu para aliviá-lo de sua doença. Mas você
poderá convencer-se de que haverá muito a ganhar
se conseguirmos transformar seu sofrimento
histérico numa infelicidade comum. Com uma vida
mental restituída à saúde, você estará mais bem
armado contra essa infelicidade.”

Salta aos olhos o caráter trágico dessa primeira concepção terapêutica de Freud:
transformar o sofrimento neurótico em miséria humana comum, não deixando qualquer
margem a um consolo fácil ou ao aplacamento falso da dor de viver. Elaborava-se um
tratamento operando pelo resgate da verdade subjetiva e do qual não resulta um alívio
direto do mal-estar, mas apenas uma retomada da vida psíquica a partir do ponto em que
esta se tomou insuportável. O ganho dessa operação residiria no fato de o sujeito ter
novamente a sua disposição aquele quantum de libido inutilmente imobilizada no
processo defensivo, podendo esta ser doravante empregada no sentido indicado por seu
desejo.

É nesse mesmo fulcro que se inscreve para Freud a tragédia fundadora da psicanálise.
Édipo pode ser considerado o protótipo do homem engajado até a raiz de seu ser na
busca da verdade, a qual ele termina por descobrir, não obtendo como prêmio a
felicidade, mas a constatação da própria miséria e de sua responsabilidade em
assenhorear subjetivamente do destino que lhe fora preparado. Um longo processo o
conduzirá desde o momento da revelação da verdade, à automutilação, ao
autobanimento, através do exílio, até uma tardia reconciliação consigo mesmo pela
subjetivação do fato de que, em última instância, ele não teria mesmo como escapar ao
vaticínio dos deuses e às palavras do oráculo. Restava-lhe aceitar sua condição mortal e
assimilar em sua existência, da melhor maneira possível, as determinações irrevogáveis
que lhe foram impostas. Tal apaziguamento termina por lhe conceder não uma vida
feliz, mas uma reconciliação consigo mesmo e, por isso mesmo, a possibilidade de um
morrer mais sereno.
Sob essa óptica, a mera aplicação de um questionário de avaliação de qualidade de vida,
tão em moda em nossos esforços de cientifização operacional das práticas clínicas, antes
e depois da revelação da verdade a Édipo, demonstraria, pelo absurdo, a esterilidade de
se pretender avaliar os efeitos de uma análise pelos critérios mundanos de bem-estar
compartilhados por uma comunidade em um dado momento histórico. O bem produzido
pelo reencontro de uma verdade subjetiva decorre não necessariamente de um
acréscimo de felicidade, mas da apropriação pessoal da existência e da possibilidade
tomar-se um sujeito que responde pelo próprio desejo no interior dessa estreita margem
de liberdade na qual se desenrola à condição humana de cada um.

Com o avanço de sua experiência clínica com o novo dispositivo de escuta que criara e
com o amadurecimento de suas elaborações metapsicológicas, Freud é conduzido a
retirar conseqüências ainda mais agudas em relação ao sintoma e às possibilidades de
sua abordagem pela psicanálise. Ele constata que, para além de um enigmático
ciframento significante, o sintoma consiste em uma expressão da vida sexual do sujeito,
a sua forma privilegiada de gozar. Decorreria fundamentalmente daí a paradoxal
oposição do paciente em abandonar seus sintomas, os quais — no início — motivaram
sua busca por tratamento.

Esse aspecto de gozo implicado no sintoma neurótico — irredutível à obtenção do


prazer e freqüentemente mortal — não era eliminável pela mera recordação, nem pela
interpretação direta de seu caráter de retórica do inconsciente. Freud passa, então, a
radicalizar as conseqüências do fato de que o sintoma é sustentado por pulsões cegas,
que clamam por satisfação completa e que se articulam à fantasia inconsciente, a qual
lhes dá inscrição e consistência. Correlativamente, no plano clínico apenas o resgate
dessa matriz fantasmática permitiria ao sujeito um certo distanciamento em relação à
repetição automática do gozo mórbido da qual estava prisioneiro. A dimensão pulsional
do sintoma revelava assim uma potencialidade mortífera e, em si mesma, incurável. Eis
aí o novo problema ao qual se confrontava Freud: o que seria curável e o que é
irredutível pelo método psicanalítico? Afinal de contas, como se perguntava Lacan, o
que se pode esperar de uma análise? Pode-se pretender uma espécie de ortopedia da
vida pulsional, a partir da palavra pronunciada em transferência e das intervenções
efetivadas pelo analista, retificando-se, assim, os desvios supostamente mórbidos do
desejo?

Particularmente instrutivo sobre este ponto é essa importante página do movimento


psicanalítico protagonizada por Ferenczi (1921) em seu reconhecimento de que não se
pode obter do sujeito a renúncia a suas exigências pulsionais, mas apenas, mais
modestamente, buscar que este se coloque em boa inteligência e de acordo com seus
complexos. Em relação a esses aspectos de repetição automática, carregada de exigência
de satisfação e por vezes profundamente instalada no próprio caráter do sujeito, apenas
uma técnica mais “ativa”, para retomar os termos ferenczianos, poderia ser capaz de
romper com a estabilidade mórbida alcançada através do sintoma. Romper a cadeia
mortífera das repetições apresenta-se como uma tarefa mais urgente e mais fundamental
do que a mera reapropriação do recalcado.

Tal abordagem nos coloca em uma situação paradoxal: o sujeito entra em análise em
função de sua crença de que o sofrimento e a repetição engendrados por seus sintomas
podem ser resolvidos através da elucidação de seu enigma através da palavra dirigida a
alguém suposto saber algo do inconsciente. Tal crença — legítima situação de fé — não
é precocemente desqualificada pelo analista, que por sua vez sustenta uma fachada de
acreditar ele próprio no inconsciente. O processo analítico, contudo, mais cedo ou mais
tarde coloca em evidência uma dimensão que, para mais além do “envoltório formal do
sintoma”, e da elucidação de suas cadeias de determinação significante, é em si mesma
incurável, verdadeiro pathos que submete e constitui os sujeitos humanos enquanto tais.
Trata-se do Real em que se ancoram as tendências pulsionais, subjetivamente inscrito
pela fantasia inconsciente, mas a ela irredutível. Promessa de restituição da Coisa (das
Ding) perdida, essa dimensão orienta toda a tendência psíquica em busca de uma
satisfação absoluta e primordial. Ela fundamenta qualquer assentamento possível da
experiência de uma realidade psíquica e, por extensão, do próprio existir.

Sob esse prisma, a dimensão de palavra dirigida ao campo da verdade, própria ao


processo psicanalítico, deve levar o sujeito a trilhar as cadeias de sua determinação
significante a partir do campo do Outro, esgotando-as em sua capacidade de gerar
sentido e colocando em evidência a irredutibilidade dos significantes fundadores de suas
identificações mais estruturanteS. A partir desse ponto, instalam-se as condições de
possibilidade de concretização do projeto clínico freudiano inspirado em Goethe:
“aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”.”

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