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Alexandre Dutra Gomes da Cruz, Dordania de Souza Resende & Joanna Brown Wetter de Oliveira Reis

A dinâmica psíquica do suicídio


sob a perspectiva do desnudamento
do Eu na melancolia
Alexandre Dutra Gomes da Cruz
Dordania de Souza Resende
Joanna Brown Wetter de Oliveira Reis

Resumo
Este texto propõe uma investigação da dinâmica psíquica do suicídio a partir do desnudamento do
Eu na melancolia. O suicídio foi considerado sob a perspectiva da identificação melancólica com
o objeto perdido, investigando também o estatuto do objeto em questão. A partir da psicanálise,
buscou-se desvendar alguns pontos da problemática que envolvemo o ato suicida e destacar o
insuportável que afeta o sujeito nessa experiência, tendo como resultado o apagamento da sub-
jetividade e a passagem ao ato como último recurso.

Palavras-chave: Identificação, Melancolia, Objeto, Psicanálise, Suicídio.

Introdução sujeito em buscar ajuda e, por vezes, é pos-


O suicídio é um fenômeno complexo, sível identificar a falta de conhecimento e
que envolve diferentes fatores e pode ser de atenção sobre o assunto por parte dos
abordado a partir de diferentes perspec- profissionais de saúde.
tivas. Na atualidade, a problemática do Nesse contexto, torna-se essencial
suicídio é de extrema relevância para a reconhecer os fatores de risco e os fatores
nossa coletividade, haja vista que ela é preventivos, tidos como condutas auxilia-
crescente e preocupante, denunciando res do profissional de saúde, a fim analisar
a presença de um mal-estar inerente ao clinicamente o risco e, a partir dessa pre-
sofrimento psíquico, que nos possibilita missa, alinhar as estratégias para intervir
interrogar sobre o modo como os sujeitos junto a essa população.
lidam com ele. Contudo, não nos deteremos a pesqui-
A Organização Mundial da Saúde sar esse caráter preventivo, com alcance
(OMS), agência da ONU, destacou que às práticas preventivas, mas pretendemos
anualmente mais de 800 mil pessoas no articular neste trabalho o enfoque psicana-
mundo morrem por suicídio, e a segunda lítico acerca do ato suicida, privilegiando
causa principal de morte entre jovens com os seus aspectos subjetivos, que implicam
idade entre 15 e 29 anos. Vale ressaltar que diretamente o sujeito em questão.
75% dos suicídios ocorrem em países de É sabido que o tema do suicídio sem-
baixa e média renda (OMS, 2016). pre esteve presente como uma questão a
Segundo a Associação Brasileira de ser investigada. E em virtude do seu im-
Estudos e Prevenção ao Suicídio (ABEPS), pacto social, Durkheim (2000) discorreu
por meio de estudos e pesquisas, é preciso sobre esse fenômeno, destacando que cada
repensar a maneira como se aborda o tema sociedade está predisposta a fornecer um
do suicídio. Há demasiada resistência do contingente determinado de mortos vo-
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luntários pelas proposições que decorrem estiver matando também um objeto com
da vida em sociedade. Durkheim assinala- o qual se identificou, e, em segundo lugar,
va também que o bem-estar ou a felicidade se não estiver dirigindo contra si mesmo
do indivíduo somente é possível se houver um desejo de morte que era voltado para
equilíbrio entre suas expectativas, suas exi- outra pessoa. A descoberta regular de tais
gências e os meios socialmente acordados. desejos inconscientes de morte no suicida
E m L u t o e m e l a n c o l i a , Fr e u d não deve surpreender, nem impressionar
([1917/1915] 2010) buscou desvelar, como uma confirmação as nossas de-
através da investigação psicanalítica, os duções, pois o inconsciente de todos os
possíveis desfechos do conflito psíquico vivos está pleno de tais desejos de morte,
que conduzem ao sofrimento e suas im- inclusive em relação a pessoas amadas.
plicações no processo de subjetivação,
introduzindo a discussão do suicídio como Para entender o suicídio através do
um ato, uma possível válvula de escape olhar instigante da psicanálise, é neces-
para o mal-estar na civilização. sário esquadrinhar a dinâmica própria
Busca-se no tipo clínico melancólico do ato suicida. Cassorla (1984), em seu
uma ampliação do entendimento do fra- livro O que é suicídio, afirma que as ideias
casso no trabalho psíquico empreendido suicidas, apesar de ainda constituírem um
frente à tarefa de lidar com as perdas da tabu no imaginário popular, já emergiram
vida, o que resulta em autoacusações em algum momento na vida da maioria
dirigidas ao próprio Eu, objetalizado con- das pessoas, visto que a pulsão de morte
tra si próprio. Paradoxalmente, em uma está sempre presente em todos os seres
tentativa de destruir o objeto odiado de humanos.
sua identificação inconsciente encontra Suicídio é a morte de si mesmo, e há
na própria morte a solução para o conflito que discuti-la em sua ampla significação,
psíquico. permitindo compreender o ato em suas
A psicanálise compreende o suicídio manifestações de autoagressividade e
como um enigma. O desencadeamento do heteroagressividade. Assim, o objetivo
ato é enigmático. No entanto, deste trabalho1 foi investigar a dinâmica
psíquica do suicídio, tal como é elucidada
[...] ele traz consigo a questão da vida e por Freud ([1917/1915] 2010), a partir
da morte para o sujeito, tendo em vista do desnudamento do Eu na melancolia.
que, no ato suicida, o sujeito encena o Nesse sentido, o suicídio pôde ser con-
seu próprio desaparecimento (Ansermet siderado na perspectiva da identificação
2003, p. 180). melancólica com o objeto perdido, caben-
do investigar também qual é o estatuto do
Desvendá-lo, exige investigar os pro- objeto em questão.
cessos de constituição psíquica intricados Sabe-se que esse é um problema que
nessa dinâmica, priorizando os pressupos- parece não ter solução satisfatória. No
tos dos conteúdos inconscientes e procu- entanto, as contribuições da psicanálise
rando desvendar, no campo da dinâmica privilegiam a ideia do conflito psíquico
psíquica, a expressão das tensões pulsio- como base da constituição subjetiva e de
nais que levam o sujeito ao ato suicida. seus destinos pulsionais. Acreditamos,
De acordo com Freud ([1921] 2011,
p. 136):
1. Este texto faz parte da pesquisa para trabalho cientí-
fico de conclusão de curso de graduação em psicologia,
Talvez ninguém encontre a energia psí- de caráter qualitativo e descritivo, realizado a partir
quica para se matar, se, primeiro, não de revisão bibliográfica integrativa do tema de estudo.

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assim, contribuir para o campo de estu- ou abandono. Quando levado a termo,


dos concernentes ao enigma do suicídio. esse processo confronta o sujeito com a
Ponderamos a sua relevância ao abordar ausência do objeto amado, permitindo
a dinâmica psíquica, que conduz o Eu a que, aos poucos, ocorra um desligamento
ser tomado como objeto, dirigindo contra psíquico desse objeto, abrindo caminho
si próprio as mais severas autoacusações para que os investimentos amorosos em
como elementos que inviabilizam os pro- outros objetos possam ser restabelecidos.
cessos de subjetivação, levando o sujeito Sendo assim, na perspectiva freudia-
ao autoextermínio. Para a psicanálise, na, o luto se constitui como uma reação
tais aspectos são de extrema relevância, típica à perda do objeto ou de alguma
pois exprimem uma forma de mal-estar abstração no campo dos ideais. Sua re-
contemporânea. lação está sob a influência consciente,
Não se pretende esgotar o tema aqui na medida em que essas experiências são
explorado, mas transmitir conhecimento vivenciadas e subjetivadas pelo sujeito
e apresentar possibilidades de reflexão, com o passar do tempo.
permitindo a ampla discussão sobre ele. Apesar de inicialmente apontar al-
gumas semelhanças entre o luto e a me-
A problemática lancolia, Freud demarca claramente que,
do suicídio em Freud diferentemente do que ocorre no luto,
e as contribuições na melancolia ocorrem autodepreciações
de Luto e melancolia e ofensas dirigidas contra o próprio Eu,
Em Luto e melancolia, Freud ([1917/1915] assinalando o seu empobrecimento psíqui-
2010) salientou a dimensão da dinâmica co. O lamento amargo do melancólico se
psíquica ao descrever o que sucede nos refere a uma perda em âmbito pulsional,
processos do luto e da melancolia, com- portanto a uma perda de libido.
parando o afeto manifesto nesses dois es- Sendo assim, há uma abolição do
tados. As correlações abordadas por Freud desejo na melancolia, marcada por um
entre esses dois processos se justificam pela traço que merece destaque no contexto
aparente semelhança entre eles. da leitura que aqui se propõe:
No processo do luto, a perda não
se refere apenas à morte de uma pessoa No melancólico há uma insistente comu-
querida ou à perda de um ideal investido nicabilidade no desnudamento de si pró-
libidinalmente. Essa dinâmica também prio (Freud, 1917 [1915] 2010, p. 177).
se refere à perda do lugar que o sujeito
ocupava junto ao objeto que se perdeu. Na ausência do investimento objetal,
No luto, o sujeito enfrenta dificuldades em a libido retorna para o Eu, estabelecendo
abandonar algumas posições já estabeleci- uma identificação com o objeto perdido.
das em sua economia psíquica. O trabalho Essa perda objetal se traduz, na metapsico-
psíquico empreendido pelo enlutado, ape- logia freudiana, como uma perda narcísica.
sar de empobrecer o Eu e fazer com que o Sendo assim, diante da impossibilidade
sujeito se desinvista libidinalmente de seus de o sujeito renunciar ao amor que o
objetos, é considerado fundamental para vinculava ao objeto perdido, há o retorno
a saúde psíquica do sujeito. desse afeto contra o Eu, fazendo-o sofrer,
Freud entende isso como um trabalho extraindo uma satisfação sádica de seu
de desligamento progressivo da libido em sofrimento.
relação aos seus objetos de prazer ou aos As análises de Freud apontam para
ideais que veiculam satisfação narcísica, um fator enigmático ao investigar as ten-
perdidos subitamente em virtude de morte dências suicidas na melancolia. Quando se
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percebe tomado por essa perda, tratando canibalesca com o objeto, incorporado
a si mesmo como objeto, o Eu encami- pela ingestão e subsequentemente tomado
nha-lhe toda a hostilidade originalmente como algo próprio do sujeito; na verdade,
endereçada ao mundo exterior. tomado como aquilo que lhe é o mais pró-
prio, e paradoxalmente, o mais estranho.
É exclusivamente esse sadismo que solu- Desse modo, os primeiros processos
ciona o enigma da tendência ao suicídio, de identificação descritos por Freud se arti-
que torna a melancolia tão interessante e culam durante a vigência do complexo de
tão perigosa. Tão imenso é o amor de si Édipo, a partir do qual o garoto toma a mãe
mesmo do ego (self-love), que chegamos a como objeto de desejo e o pai como seu
reconhecer como sendo o estado primevo ideal identificatório. Duas configurações
do qual provém a vida instintual, e tão psíquicas são assim descritas: com a mãe
vasta é a quantidade de libido narcisista vigora um investimento objetal primário
que vemos liberada no medo surgido de direto; com o pai uma identificação, na
uma ameaça à vida, que não podemos qual ele é tomado como modelo. Durante
conceber como esse ego consente em sua o declínio do complexo de Édipo, essas
própria destruição (Freud, [1917/1915] configurações convergem estabelecendo,
2010, p. 185). assim, uma identificação ambivalente com
o pai, ou seja, mesclada com componentes
A análise da melancolia abre caminho de amor e ódio.
para pensar o enigma do suicídio a partir Em síntese, Freud esclarece que, em
da psicanálise, ajudando a esclarecer o sua primeira emergência, a identificação
percurso martirizante do Eu. O Eu só pode constitui a mais primordial forma de liga-
matar a si próprio se puder fazer com que ção afetiva a um objeto, através da introje-
o investimento de objeto retorne sobre si, ção do objeto no Eu. Essa introjeção, como
ou seja, tratando-se sadicamente como é possível inferir a partir do que já se disse,
objeto, dirigindo contra si a hostilidade é própria da melancolia, que está na base
que seria originalmente voltada para o de fenômenos como a autodepreciação
objeto perdido. Na melancolia, as autorre- do Eu e a autocrítica, além das amargas
criminações expressam essa hostilidade de recriminações dirigidas contra si próprio.
forma clara, trazendo uma preciosa lição Vê-se, assim, que o ressentimento ali-
clínica acerca do suicídio: mentado contra o pai pode eventualmente
eclodir sob a forma de uma vingança con-
[...] a retirada dessas acusações do objeto tra ele. No entanto, a identificação conduz
amado e direcionadas para o Eu é pilar na esses investimentos psíquicos ao retorno
reflexão psicanalítica acerca da melan- sobre a sua própria raiz, ou seja, o Eu.
colia e na construção de considerações Dessa forma, a melancolia revela
sobre o suicídio (Cremasco; Brunhari, um Eu dividido em duas partes, e uma
2009). se enfurece com a outra. Uma parte de
si, transformada pela introjeção, detém
Da constituição do Eu à identifica- o objeto perdido; a outra parte se torna
ção melancólica com o objeto perdido depositária da consciência moral, uma
O processo descrito por Freud ([1921] instância crítica2 erigida no Eu.
2010) como identificação foi por ele
considerado como a forma mais antiga
de constituição de um laço afetivo com o 2. Os desdobramentos acerca do conceito dado a essa
“instância crítica” postulada por Freud em questão,
Outro. A primeira forma de identificação a posteriori, foi destacada em sua obra O Eu e o Id
destacada por Freud foi a identificação ([1925/1923] 2011). O agente foi nomeado de supereu.

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Na metapsicologia elaborada por do a relação libidinal essencial com a sua


Freud, o objeto aparece sempre ligado à imagem corporal.
pulsão, portanto é correlato dela. Freud De acordo com Lacan, o estádio do
destaca também a possibilidade de compo- espelho explica a estruturação do Eu e o
nentes pulsionais se fundirem ou se separa- seu campo de relações:
rem uns dos outros mediante o confronto
de forças de atração e repulsão, que podem Basta compreender o estádio do espelho
se expressar de forma ambivalente na vida como uma identificação, no sentido pleno
emocional do sujeito, como é o caso do que a análise atribui a esse termo, ou seja,
amor/ódio mantidos no vínculo com um a transformação produzida no sujeito
mesmo objeto. quando ele assume uma imagem – cuja
Além disso, cabe esclarecer que, na predestinação para esse efeito de fase é
perspectiva metapsicológica adotada suficientemente indicada pelo uso, na
por Freud, os objetos são elevados ao teoria, do antigo termo imago (Lacan,
estatuto de determinantes originários na [1949] 1998, p. 97).
constituição subjetiva (Júnior, 2001).
Isso pode ser atestado no texto Luto e Ao assumir a sua imagem, o sujeito
melancolia ([1917/1915] 2010), no qual estabelece uma identificação com ela.
a concepção de “objetos de identificação” Esse campo demarcado pelo estádio do
se torna fundamental na constituição do espelho é responsável pelas relações
sujeito, em particular através da noção de que constituem o Eu. É o momento de
identificação primária. demarcação das bordas do corpo, dos
A constituição identificatória do Eu limites em relação ao corpo do outro, dos
na matriz narcísica, explicitada por Freud objetos e da realidade em que se situa.
no texto Uma introdução ao narcisismo É a sensação de identidade, o reconhe-
([1914] 2010), assinala que o narcisismo cimento de si.
está na base da atitude da pessoa com Partindo do pressuposto freudiano de
relação ao seu próprio corpo, que o trata que o Eu não é um ponto de partida, mas
assim como um objeto sexual é comu- há que ser constituído, as argumentações
mente tratado. Ao introduzir o conceito de Lacan assinalam que o Eu não se cons-
de narcisismo a partir de investimentos titui a partir de uma suposta maturação
libidinais, Freud destacou que o Eu deve biológica, mas se estabelece por intermé-
ser considerado como o reservatório inicial dio de uma identificação com a imagem
da libido, que posteriormente será enviada reconhecida antecipadamente pelo olhar
aos objetos. Sendo assim, quanto mais uma do outro:
se absorve, mais a outra se empobrece.
No narcisismo o Eu em sua totalidade O ponto importante é que essa forma
é tomado como objeto de amor. O narci- situa a instância do Eu, desde antes de
sismo é a absorção amorosa do sujeito por sua determinação social (Lacan, [1949]
meio da sua imagem. A partir das contri- 1998, p. 98).
buições de Lacan no texto O estádio do
espelho como formador da função do eu O estádio do espelho encarna a pri-
([1949] 1998), a constituição do eu é o meira relação do sujeito com o outro, a
momento originário de reconhecimento partir do registro imaginário, definidor
da própria imagem a partir do olhar do do Eu ideal como condição de estrutura,
Outro, que a sanciona. Trata-se de uma determinante para a vida psíquica subse-
matriz imaginária, que atravessa o percur- quente, conforme explicitado por Lacan
so de constituição do sujeito, representan- ([1949] 1998, p. 100):
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A função do estádio do espelho revela- corresponde a um empobrecimento das


se para nós, por conseguinte, como um reservas livres de libido em função do
caso particular da função da imago, que “furo no psiquismo”, por onde se esvai a
é estabelecer uma relação do organismo libido, como uma espécie de hemorragia
com sua realidade. de libido. Eis a razão para o Eu se tornar
empobrecido e arruinado. Tudo se esvai
O estádio do espelho é, portanto, uma nessa hemorragia, conforme aparece no
etapa fundamental na estruturação do delírio de ruína. Esse furo no psiquismo é
Eu, dado em momentos sucessivos. Após equivalente ao furo no simbólico, à fora-
a percepção da imagem no espelho, um clusão do Nome-do-Pai.
segundo momento será experimentado Segundo Quinet (1997), o registro
pela criança. Ela visualiza um corpo diante que deveria se inserir a partir do Nome-
de si, um outro corpo, que de certo modo, do-Pai é tomado por um furo, com efeito
está inserido diante da sua percepção de um “ralo aberto” por onde toda libido
refletida nas imagens que compõem esse escoa. Essa perda é a hemorragia narcísica
campo, tanto quanto os objetos que ali se referente ao que é foracluído do simbólico,
fizerem presentes. a qual é desvelada na melancolia através
Daí provém a matriz do fenômeno de da dor que corresponde à abolição do
reconhecimento, assinalado pela desejo, isto é, a dor de existir.
Segundo Quinet (2002, p. 91):
[...] jubilação triunfante e o ludismo de
discernimento que caracterizam o encon- A quebra da cadeia de significantes é
tro com sua imagem no espelho (Lacan, concomitante a uma “hemorragia” de
[1949] 1998, p. 115). libido. Além disso, “a dor corresponde a
um fracasso do aparelho psíquico” quan-
Desnudamento do Eu do este deixa de ser eficiente e grandes
na melancolia e passagem ao ato quantidades de energia irrompem. Dito
Localizada no âmbito da foraclusão do No- de outro modo, a dor é uma manifestação
me-do-Pai, a melancolia se situa no campo do fracasso do aparelho psíquico.
das psicoses. Lacan resgata na teoria freu-
diana do complexo de Édipo a articulação A foraclusão psicótica é um rechaço
para a metáfora paterna, o Nome-do-Pai. radical da Lei do Nome-do-Pai, de modo
O autor articula com esse conceito a fi- a não permitir a simbolização da castra-
nalidade de estabelecer as funções do pai ção, sob a forma de um furo no campo
no processo de simbolização. A função simbólico. O retorno da castração no real
paterna se inscreve na ordenação da repre- evidencia-se precisamente nesse furo, que
sentação do pai que impõe os limites, que se revela diretamente na psicose. A função
impõe a lei, portanto um pai simbólico. do Nome-do-Pai é tecer um enlace entre
os registros Simbólico, Imaginário e Real,
O Nome-do-Pai, no que ele funda estabelecendo uma articulação entre eles.
como tal o fato de existir a lei, ou seja, O melancólico está identificado com
a articulação numa certa ordem do sig- o pai enquanto objeto não incorporado
nificante – complexo de Édipo, ou lei do simbolicamente, ou seja, com a própria
Édipo, ou lei da proibição da mãe (Lacan, ferida narcísica deixada pela sua ausência.
[1957-1958] 1999, p. 153). Como consequência dessa identificação
mortífera, o sujeito se desnuda em função
Desse modo, a dissolução das asso- da perda do revestimento narcísico, se
ciações psíquicas, que é sempre dolorosa, autodegradando, se autoacusando e se au-
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totorturando. A incorporação canibalesca Laplanche e Pontalis (1987), ao


do objeto perdido é a raiz da condição traduzirem a expressão “passage à l’acte”
trágica do melancólico. [passagem ao ato], designaram-na como
Ao massacrar o seu Eu, equivalente aos atos impulsivos violen-
tos, agressivos, delituosos (assassinato,
[...] o melancólico despe-se ao extremo suicídio, atentado sexual, etc.). O sujeito
em seu discurso, referindo-se a si mesmo passa da dimensão psíquica ao ato pro-
com a violência de quem odeia, rejeita ou priamente dito.
deseja vingança (Pinheiro, 2010). Nesse sentido, a passagem ao ato pode
ser entendida como uma saída de cena
Suas declarações indicam uma perda ou um salto no vazio, em que o sujeito se
no próprio Eu, e a ascensão do objeto reduz a um objeto excluído ou rejeitado:
sobre ele, sob forma de uma identificação “[...] a passagem ao ato desvela a estrutura
narcísica. fundamental do ato” (Miller, 2014, p. 2).
Em consequência dessa identificação, O ato é o corte, o ponto crucial de uma
o sujeito se desnuda em função da perda do decisão do ser, uma via de escape para o
revestimento narcísico, se auto-odiando, suicida.
se autotorturando, se autoacusando, se De acordo com Ansermet (2003), o
autoinjuriando. A inibição de toda a ativi- desencadeamento de um ato suicida per-
dade e o rebaixamento do sentimento de manece enigmático. A psicanálise trabalha
autoestima, que posteriormente se expressa com o singular do sujeito, o que foge e se
como autorrecriminações e insultos alcan- esconde ao olhar da plateia. Ao encenar
çam dimensões de expectativa delirante de o seu próprio desaparecimento, o sujeito
punição por parte do próprio Eu. Essa parte encontra uma saída para o suicídio. Sendo
dissociada do Eu se contrapõe à outra, to- assim, o ato é uma passagem, a ultrapas-
mando-a por objeto e buscando destruí-la. sagem de uma barreira. O suicídio se dá
Paradoxalmente, a tentativa de exatamente nessa passagem: o ato deter-
destruir o objeto odiado de sua identifi- minado pela influência da pulsão de morte.
cação acarreta uma tendência a buscar
o seu próprio aniquilamento. O fracasso [...] a clínica da passagem ao ato nos
do trabalho psíquico relativo à perda do lembra a inscrição temporal inevitável do
objeto é assinalado pelas autoacusações ato, especialmente sob forma de urgência
dirigidas ao Eu objetalizado contra si (Miller, 2014).
próprio, evidenciando a violência pela
qual ele se vê tomado. Nesse processo, Para Miller (2014), todo ato verda-
há o risco iminente de passagem ao ato e deiro é um “suicídio do sujeito”. Trata-se
autoaniquilamento. de uma transgressão da censura psíquica.
Segundo Freud ([1917/1915] 2010, O desnudamento do Eu se dá na falha do
p. 185), a análise da melancolia confirma simbólico, na foraclusão do Nome-do-Pai
essa premissa: e na falta narcísica que, na melancolia,
resultam em um delírio de ruína. A me-
O – Eu – não pode se matar a não ser lancolia desvela que, na verdade, o Eu
quando ele pode, por um retorno de in- é um objeto. Essa estrutura do Eu, tal
vestimento de objeto, tratar a si mesmo como desvelada na melancolia, evidencia
como um objeto e dirigir contra si mesmo, a constituição do Eu a partir da imagem
a hostilidade que visa um objeto e que re- do objeto, assim como é demonstrado no
presenta a reação originária do Eu contra matema lacaniano (Quinet, 2002) para se
os objetos do mundo exterior. referir ao Eu: i(a) = imagem de a.
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A dinâmica psíquica do suicídio sob a perspectiva do desnudamento do Eu na melancolia

O Eu se encontra entre os objetos do Considerações finais


mundo, conforme evidenciado no Estádio Freud procede em sua investigação so-
do espelho: bre a melancolia buscando esclarecer a
tendência à autodestruição, tão comum
O Eu é o objeto das pulsões, ou seja, é nesses casos. Nesse sentido, ele avança
para o Eu que as pulsões irão se dirigir. O assinalando o suicídio como uma resposta
objeto desvelado na melancolia é diferen- para a problemática colocada em jogo pela
te desse objeto de amor que o Eu é para melancolia. E destaca na identificação
o ideal. Se guardamos a orientação que narcísica os elementos cruciais que per-
Freud nos dá quando diz que o psicótico mitem afirmar que a sombra do objeto se
desvela aquilo que o neurótico guarda sobrepõe violentamente ao Eu do sujeito.
em segredo, será na psicose que encon- No entanto, a dimensão do ato im-
traremos a estrutura desvelada (Quinet, plicada no suicídio não foi totalmente
2002, p. 144). explorada por Freud na problemática
melancólica. Assim, deixa aberto o campo
Para Brunhari e Darriba (2014), a para outras investigações. Posteriormente,
tendência à autodestruição pode ser com- o conceito de passagem ao ato foi intro-
preendida como o sadismo que retorna duzido por Lacan, que traz como questão
ao Eu pela pulsão de morte. Essa pulsão a problemática do “deixar-se cair” do
de morte está na base das tentativas ou sujeito melancólico (caracterizada como
execuções suicidas; nela persiste a ten- uma queda a partir da identificação com
dência à autodestruição, que se efetiva o objeto). Nesse sentido, o ato suicida tem
no suicídio. como ponto central essa relação do sujeito
Essas considerações sobre o suicídio com o objeto ao qual se identifica.
confirmam a sua ligação direta com a iden- A psicanálise ensina que o assujeita-
tificação narcísica ao objeto e a dinâmica mento do Eu com o objeto da identificação
psíquica presente no processo melancóli- traduz o mecanismo psíquico típico da
co. Sendo assim, o suicídio passa a ser visto melancolia, no qual o aniquilamento do
como uma possível resposta do sujeito incômodo do sofrimento só sobrevém com
para fazer anteparo ao real insuportável o fim da própria vida. Desse modo, o Eu é
com o qual é confrontado. Diante dele, se reduzido à sombra do objeto, fazendo-se
torna inviável o trabalho do luto, recurso castigar e até mesmo se matar matando
psíquico indispensável para a elaboração também o objeto com o qual se identificou.
da perda no campo narcísico. O estudo metapsicológico da me-
Quando o investimento se desliga do lancolia revela que as recriminações e as
objeto e retorna ao Eu, ocorre na melanco- injúrias são, na verdade, dirigidas a um
lia a identificação ao objeto, ocasionando objeto que habita o Eu. Esse mecanismo
o retorno do investimento objetal ao Eu. se fundamenta na identificação narcísica
O Eu se trata como se fosse o próprio e retorna para o Eu em um curto circuito
objeto perdido. de autodestruição. É possível, então, su-
O triunfo do objeto se apresenta como pormos que esse mecanismo é prevalente
a via para o suicídio: em alguns casos de suicídio, nos quais o
Eu é cúmplice do sadismo direcionado a
[...] a questão do suicídio passa a incluir a si próprio.
dimensão do objeto; ou seja, o Eu apenas Essas elaborações permitem destacar
atenta contra si na medida em que ataca a importância de considerar os desfechos
um objeto em si (Brunhari; Darriba, trágicos para os conflitos psíquicos, pouco
2014). explorados nos manuais de classificações
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diagnósticas estatísticas, incorporadas ao


mal-estar contemporâneo. A melancolia Referências
constitui o campo próprio do sofrimento ABEPS - Associação Brasileira de Estudos e Pre-
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Recebido em: 11/03/2019


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