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Bernardo Neme Ide e Guilherme Cysne Rosa

Bases moleculares das estratégias

de treinamento com baixa disponibilidade

de carboidratos

Molecular basis of the training strategies with low-carbohydrate


availability

Resumo
A partir dos resultados de algumas pesquisas que estabeleceram relações entre a ativação de vias de sinalização intracelulares e a
diminuição das concentrações intramusculares de glicogênio (GLICO), estratégias de treinamento com baixa disponibilidade de
carboidratos (CHO) (training low) têm sido propostas como potencializadoras das adaptações ao treinamento de endurance. Todavia,
como o GLICO representa uma importante fonte de energia para a manutenção da intensidade do exercício, sua degradação, e/ou não
ressíntese, pode levar a uma diminuição da intensidade das sessões, consistindo em um aspecto a ser balanceado contra os argumentos
da “suprarregulação molecular”. Algumas das estratégias training low induzem a depleção das concentrações intramusculares de GLICO
por meio da redução da ingesta de CHO. Todavia, os estudos originais que forneceram a fundamentação molecular para sua utilização
promoveram a depleção do GLICO através da intervenção do exercício, e não diretamente da redução da ingesta de CHO. Pesquisas
longitudinais com dietas cetogênicas (pobres em CHO e ricas em gorduras) mostram que elas podem ser depreciativas do desempenho e
da saúde geral dos atletas e que, possivelmente, a realização do exercício – seja ele de alta ou baixa intensidade – ainda seja a alternativa
mais eficaz e segura na redução das concentrações intramusculares de GLICO e na ativação de enzimas-chave intracelulares, nas respostas
adaptativas ao treinamento de endurance.

Palavras-chave: Glicogênio; biogênese mitocondrial; periodização da nutrição; AMPK; PGC-1α.

Abstract
Based on the results of some studies that established relationships between intracellular signaling pathways activation and the
reduction of intramuscular glycogen (GLICO) stores, training strategies with low carbohydrate availability CHO (training low) have
been proposed as potentiators for endurance training adaptations. However, as GLICO represents an important source of energy for
exercise intensity maintenance, its degradation, and/or not resynthesis, may lead to a decrease of session’s intensity, consisting an aspect
to be balanced against the "supra molecular regulation" arguments. Some training low strategies induce the intramuscular GLICO
depletion by reducing the CHO intake. However, the original studies that provided the training low molecular foundation promoted the
GLICO depletion throughout the exercise intervention, and not directly by the reduction of CHO intake. Longitudinal researches with
ketogenic diets (low CHO and high fat) show a depreciation of the athlete’s performance and overall health, and that the exercise itself
(high or low intensity) is possibly the most effective and safe alternative to reduce the intramuscular GLICO stores and the activation
of intracellular key enzymes in adaptive responses to endurance training.

Keywords: Glycogen; mitochondrial biogenesis; periodized nutrition; AMPK; PGC-1α.


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Bernardo Neme Ide e Guilherme Cysne Rosa

Introdução

C
Com inúmeras adaptações ao treinamento mais variadas estratégias nutricionais que podem
físico podendo ser potencializadas ou atenuadas ser utilizadas em uma periodização nutricional
pela disponibilidade de macro e micronutrientes para atletas de endurance. Especificamente as
consumidos na dieta, a interação entre exercício estratégias de treino com baixa disponibilidade
e nutrição é atualmente bem consolidada na de carboidratos (CHO) – exógenos (CHO
literatura1,2. Entretanto, como efetivamente consumidos na dieta) ou endógenos (glicogênio
essa alteração no suprimento energético pode muscular ou hepático) –, chamadas na literatura
modificar as respostas adaptativas, ainda internacional de training low, são as mais
vem sendo uma grande área de pesquisa polêmicas e algumas vezes mal interpretadas
conduzida por várias décadas1. Neste quesito – como completamente sem CHO (training zero)7.
paralelamente à periodização do treinamento –, a A proposta da training low é baseada no fato de
periodização nutricional emerge como uma nova que a transcrição de genes envolvidos com as
proposta promissora na otimização das respostas adaptações ao treinamento de endurance possa
adaptativas em prol do desempenho físico e/ou ser otimizada8,9. Isso ocorre porque vários fatores
de adaptações morfológicas2. A definição mais de transcrição possuem domínios ligantes ao
detalhada e precisa do conceito de periodização glicogênio (GLICO) e, quando suas concentrações
nutricional é recente, sendo proposta no trabalho intramusculares estão baixas, tais fatores seriam
publicado por Jeukendrup2. Ela refere-se ao uso liberados no citosol, podendo, assim, se associar
de específicas estratégias nutricionais de forma com diferentes proteínas alvo8,9. A training low
planejada, objetivando realçar as adaptações às amplificaria, então, a sinalização promovida por
sessões, planejamentos de treino, ou então obter enzimas como a 5’ monofosfato de adenosina
outros efeitos potencializadores do desempenho ativada quinase (AMPK) e a p38 ativada por
a longo prazo. Assim como em uma periodização mitógeno (p38MAPK), que possuem papeis
do treinamento – onde todos os métodos podem diretos no controle da expressão e atividade
ser efetivos –, a definição de periodização de fatores de transcrição gênica envolvidos na
nutricional acima mencionada também deixa biogênese mitocondrial e demais adaptações ao
claro que, desde que objetivem a melhora no treinamento de endurance8,9.
desempenho a longo prazo, todos os métodos ou Existem reportadas na literatura seis estratégias
estratégias nutricionais, integradas ou não com o consideradas como training low: 1) treinar duas
treinamento físico, podem ser efetivos. vezes ao dia; 2) treinar em jejum; 3) treinar com
Considerando que a periodização do baixa disponibilidade de CHO exógeno; 4) baixa
treinamento físico consiste de uma sequência disponibilidade de CHO durante a recuperação;
lógica de alteração de métodos, intensidade e 5) dormir com baixa disponibilidade de CHO;
volume das sessões3,4 – criando as principais 6) dietas cetogênicas: baixo CHO e ricas em
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diferenças nas adaptações enfatizadas, gordura2,10. Nesse sentido, e considerando o


predomínio metabólico e requisição por macro
crescente interesse na literatura e consequentes
e micronutrientes5 –, para que um nutricionista
transposições práticas das estratégias training
consiga elaborar um bom plano alimentar ele
low na periodização nutricional, o objetivo do
deve ter acesso e saber analisar e interpretar a
periodização de treino de seus pacientes/atletas. presente trabalho foi discutir sobre as bases
Uma vez realizada essa análise e interpretação, moleculares que fundamentaram seu emprego na
o nutricionista pode fazer uso dos mais periodização nutricional como potencializadoras
distintos métodos e/ou estratégias nutricionais, das adaptações em atividades de endurance.
manipulando a quantidade de carboidratos, Para tanto, inicialmente pontuaremos a
proteínas, fluidos e alguns micronutrientes fundamentação molecular para o uso das
ao longo das sessões e demais etapas do estratégias e, posteriormente, analisaremos com
planejamento5. mais detalhes como os estudos induziram as
Um recente trabalho publicado por Jackix e reduções das concentrações de CHO, associando
Santos6 teceu uma elegante explanação sobre as às determinadas respostas adaptativas observadas.

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Bases moleculares das estratégias de treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos

Como o uso das estratégias training low subsequentemente fatores de transcrição e


poderia potencializar as adaptações ao coativadores que exercem papeis regulatórios
treinamento de endurance? na coordenação da expressão de proteínas
codificadoras nucleares ou mitocondriais7.
Uma das principais adaptações induzidas pelo Juntamente com a sirtuína isoforma tipo 1
treinamento e a nutrição voltada ao desempenho (SIRT1), a p38MAPK e a AMPK podem
em atividades endurance é a melhora na fosforilar diretamente o fator de transcrição
capacidade oxidativa do tecido muscular- gênica peroxissomo proliferador-ativado
esquelético9,11. Ela pode ser decorrente tanto de receptor γ coativador 1-α (PGC-1α) e estimular
alterações estruturais (e.g. aumentos na densidade uma cascata de reações ligadas ao DNA nuclear
mitocondrial, capilar e de proteínas de transporte e mitocondrial12,13. No núcleo, o PGC-1α se liga e
de membrana) como metabólicas, como o aumento ativa demais fatores de transcrição, como NRF1,
da atividade de enzimas-chave do ciclo de Lynen NRF2, PPARδ, EERα e MEF2, para coletivamente
e Krebs9,11. Para alcançá-las, o planejamento induzir uma suprarregulação de uma variedade
de treino deve ser composto por métodos que de proteínas envolvidas no transporte e na
induzam uma quebra da homeostase celular, oxidação de glicose e ácidos graxos7. Já na
enfatizando distúrbios metabólicos12,13 por meio mitocôndria, o PGC-1α modula a atividade do
do aumento das concentrações intracelulares de fator de transcrição A (Tfam), uma proteína
ADP, AMP, Ca2+, espécies reativas de oxigênio codificada no núcleo que, por si só, regulada
(ROS), razão NAD+/NADH, AMP/ATP, lactato pelo PGC-1α e subsequentemente incorporada à
e quedas nas concentrações intramusculares de mitocôndria, aumenta a transcrição de proteínas
GLICO e na razão ATP/ADP14,15. mitocondriais9,17. Assim sendo, o PGC-1α é
Assim como no treinamento e na nutrição em reconhecido como o principal ponto de controle
prol do desempenho em atividades de força e na regulação de DNA mitocondrial e nuclear7.
potência, algumas adaptações ao treinamento de Tal cascata de sinalizações intracelulares pode
endurance também podem ser consolidadas frente levar a algumas das adaptações mais notáveis
à estimulação de mecanismos de sinalização de enfatizadas pelo treinamento de endurance: a
síntese proteica16. Nesse sentido, as mudanças biogênese mitocondrial e a angiogênese17. A
do estado energético celular acima citadas longo prazo, tais respostas podem aumentar
induzem a ativação de enzimas quinases-chave a densidade mitocondrial e capilar das fibras
do metabolismo, como a AMPK, a calmodulina musculares e, consequentemente, sua capacidade
quinase (CaMK) e a p38MAPK. Tais quinases oxidativa como um todo. A Figura 1 apresenta
podem agir sozinhas ou em conjunto, ativando uma visão geral do processo acima descrito.

Figura 1. Resumo das vias de sinalização de síntese de proteínas relacionadas às adaptações ao


treinamento de endurance.

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ROS = espécies reativas de oxigênio.


Fonte: Adaptado de Hood et al.17. 17
Bernardo Neme Ide e Guilherme Cysne Rosa

Adicionalmente às respostas moleculares de AMPK e β-acetil-CoA carboxilase (ACCβ)


acima expostas, a diminuição dos estoques foram mensuradas no repouso, durante uma hora
de GLICO muscular durante o exercício e de exercício na bicicleta ergométrica em uma
a subsequente ativação de AMPK podem intensidade de 70% do VO2 pico e após uma hora
promover, também, um aumento da taxa de de recuperação. Os sujeitos (8 homens jovens
oxidação de ácidos graxos14. O processo ocorre bem treinados em endurance) participaram
através da inibição da atividade da enzima aleatoriamente de duas sessões experimentais.
acetil-CoA carboxilase-β e possível estimulação Na noite anterior ao experimento, os indivíduos
da atividade da malonil-CoA descarboxilase18. realizaram um protocolo de depleção de GLICO
Tais efeitos combinados diminuem os níveis que consistiu de um exercício em ciclo ergômetro
de malonil-CoA no músculo, removendo a a 80% do VO2 pico, seguido de um ergômetro de
inibição do complexo proteico carnitina palmitil braços realizado por 15 min a 60 W. Após isso, um
transferase-1 (CPT-1), o que acaba facilitando período de exercício intermitente foi realizado.
a entrada de ácidos graxo para serem oxidados Ele consistiu de 1,5 min a 100 e 50% do VO2
na mitocôndria18. Assim sendo, além de exercer pico. O protocolo foi mantido até que os sujeitos
o papel de um importante substrato energético voluntariamente diminuíssem a intensidade
degradado durante o exercício, o GLICO para 80% do VO2 pico, e então realizaram mais
muscular constitui um regulador da transcrição um intervalado de 5 min a 75% do VO2 pico,
gênica no músculo esquelético, podendo alterar intercalando com 5 min no ergômetro de braços
a síntese proteica e, consequentemente, as a 45 W. Finalmente, realizaram 5 min de sprints
adaptações ao treinamento7,9. Dessa forma, as no ciclo ergômetro, sendo 1 min de estímulo
estratégias nutricionais que visam à manipulação com 3 min de pausa. O protocolo de depleção
dos estoques intramusculares de GLICO podem de GLICO durou em média 5 horas, e dizem ter
ser uma ferramenta útil na otimização das sido bem tolerado pelos sujeitos. Após deixarem
adaptações às atividades de endurance2. Além o laboratório, os sujeitos ainda foram instruídos
disso, é importante ressaltar que a condição de a se alimentar de uma forma específica,
baixa disponibilidade de CHO pode ser advinda controlada e com uma dieta isoenergética para o
tanto da diminuição das concentrações de GLICO jantar e durante a noite, consistindo de 80% de
muscular e/ou hepático como também da baixa carboidratos, 7% de gorduras e 13% de proteínas.
ingesta de CHO durante ou após o exercício, ou Já para a sessão a ser realizada com baixo CHO,
de combinações dessas intervenções2,10. a alimentação consistiu de 2% de CHO, 86% de
gorduras e 12% de proteínas.
Estudos pioneiros que forneceram a Os dados do experimento mostraram que,
fundamentação molecular das estratégias no repouso, a atividade de AMPK e ACCβ
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training low foi menor no estado HG quando comparada


ao LG. Já durante o exercício submáximo
As estratégias training low tiveram sua iniciado com LG, a atividade de AMPK foi
fundamentação molecular a partir do trabalho mais elevada. Assim sendo, os dados do estudo
conduzido por Wojtaszewski et al.19, em que sugerem, mas não provam, que a atividade de
foi estabelecida uma ligação direta entre a AMPK durante o exercício é regulada pela
disponibilidade de substratos e as vias de disponibilidade de substratos energéticos,
sinalização intracelulares. No trabalho, os como o GLICO muscular. Entretanto, durante o
pesquisadores mensuraram as sinalizações exercício LG, as concentrações de catecolaminas
intracelulares em resposta ao exercício realizado foram mais elevadas, indicando também
em condições de altas (HG) e baixas (LG) que ambos – a disponibilidade de substratos
quantidades de GLICO muscular (HG: 900 e os fatores humorais – contribuem para a
mmol/kg de massa seca e LG: 160 mmol/kg elevação na atividade de AMPK observada. Os
de massa seca, respectivamente). As atividades autores concluíram que, durante o exercício, o

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estado de baixas concentrações de GLICO foi (High e Low). Alternando entre os métodos
acompanhado por um aumento da captação de contínuo (90 min a 70% do VO2máx) e intervalado
glicose e de ácidos graxos. Os experimentos (8 estímulos de 5 min com 1 min de pausa), o
acima mencionados analisaram tais respostas grupo High treinava apenas uma sessão ao dia; já
intracelulares e sanguíneas de forma aguda, o grupo Low treinou duas vezes ao dia a cada 2
entretanto as adaptações ao treinamento de longo dias, realizando primeiro a sessão de contínuo e,
prazo não requerem somente respostas agudas, após 1 hora, a de intervalado. O experimento teve
mas sim um aumento no estado estável de várias duração de 3 semanas. No tocante à intervenção
proteínas13,16. Nesse sentido, respostas crônicas dietética, foi fornecida aos sujeitos uma dieta
frente às estratégias training low não haviam padrão que consistiu de 67,5% de CHO, 13,5%
ainda sido observadas até a realização dos estudos de proteínas e 19% de lipídeos, ou seja, não foi
conduzido por Hansen et al.20 e Hulston et al.21. uma dieta de baixo CHO. Adicionalmente, ao
Na pesquisa conduzida por Hansen et al.20, longo das 3 semanas de intervenção, os sujeitos
7 indivíduos saudáveis e sedentários realizaram foram instruídos a manter um alto consumo de
sessões de treinamento na cadeira extensora CHO, sendo fornecidas devidas instruções para
durante 14 dias. Uma das pernas (Low) foi tanto. A potência gerada durante as sessões de
treinada por 5 dias com sessões de 1 hora e treinamento intervalado foi menor no grupo
separadas por 2 horas de intervalo; enquanto Low quando comparada ao grupo High (297 ±
isso, a outra perna (High) foi treinada realizando 8 W, contra 323 ± 9 W, P < 0.05). Entretanto, o
a mesma 1 hora de exercício, só que apenas 1 vez desempenho no teste de time trial melhorou em
ao dia. Os autores usaram como embasamento o ~10% em ambos os grupos (P < 0.05). A oxidação
fato de que, frente ao exercício, as concentrações de ácidos graxos intramusculares aumentou no
intramusculares de GLICO são depletadas e grupo Low (26 ± 2 para 34 ± 2 µmol.kg-1.min-1,
lentamente reestabelecidas ao longo das 24 P < 0.01), mas a oxidação de ácidos graxos livres
horas pós, caso a ingesta de CHO seja normal. foi similar entre os grupos, com apenas a oxidação
Entretanto, quando duas sessões de exercício de triacilglicerol muscular sendo incrementada no
são realizadas com intervalo de 2 horas, a grupo Low (16 ± 1 para 23 ± 1 µmol.kg-1.min-1, P
segunda sessão é realizada em um estado de < 0.05). Adicionalmente, o grupo Low teve um
baixas concentrações de GLICO. No tocante à aumento na quantidade de β-hidróxiacil-CoA
intervenção dietética, os sujeitos consumiram desidrogenase (P < 0.01). Resumidamente, frente
uma dieta que consistiu de 70% de CHO, 15% aos resultados, os autores concluíram que o
de proteínas e 15% de lipídeos, ou seja, não foi treinamento com baixa disponibilidade de CHO
uma dieta de baixo CHO. A atividade da enzima reduziu a intensidade dos treinamentos, mas
mitocondrial β-hidróxiacil-CoA desidrogenase aumentou a taxa de oxidação dos ácidos graxos.
foi significativamente aumentada somente na
perna Low, todavia a atividade da citrato sintase Resumo dos experimentos
(CS) foi aumentada em ambas as pernas. O
tempo de exaustão em um teste de resistência Algumas das estratégias de treinamento com
aumentou para ambas as situações, mas foi baixa disponibilidade de CHO investigadas e
significativamente maior para a perna Low. Os propostas na literatura induzem a depleção das
autores concluíram que o Treino realizado duas concentrações intramusculares de GLICO por
vezes ao dia a cada dois dias foi superior ao meio da redução da ingesta de CHO da dieta.
realizado uma vez ao dia. Todavia, ao analisarmos os estudos originais
Já no estudo conduzido por Hulston et al.21, a que deram a fundamentação molecular para a
mesma estratégia foi utilizada (treinos em dias estratégia, observamos que eles promoveram a
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alternados, comparados aos realizar duas sessões depleção do GLICO por meio da realização do
ao dia), mas agora em 14 ciclistas bem treinados. exercício e não da redução da ingesta de CHO
Os indivíduos foram divididos em dois grupos da dieta por longos períodos. Somente no estudo

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Bernardo Neme Ide e Guilherme Cysne Rosa

conduzido por Wojtaszewski et al.19 o estado de com ingestão idêntica de macronutrientes, mas
baixas concentrações de GLICO foi acentuado alternando dias com baixa e alta disponibilidade
por uma alimentação de baixo CHO (2% de de CHO; 3) LCHF (< 50 g dia-1 de CHO; 78% da
CHO, 86% de gorduras e 12% de proteínas) pós- energia advinda de gorduras; 2.1 g kg-1 dia-1 de
exercício. No estudo conduzido por Hansen et proteínas). Frente aos resultados, as conclusões
al.20, foi fornecida aos sujeitos uma dieta de 70% dos autores foram que, independentemente do
de CHO, 15% de proteínas e 15% de lipídeos, suporte dietético, as três semanas de treinamento
enquanto na pesquisa conduzida por Hulston et intensificado aumentaram a capacidade aeróbia
al.21 os sujeitos consumiram uma dieta padrão dos atletas. A dieta LCHF aumentou a taxa de
(67,5% de CHO, 13,5% de proteínas e 19% de oxidação dos ácidos graxos, mas resultou em
lipídeos), ou seja, dos três experimentos citados uma redução na economia dos movimentos dos
na literatura para embasar e fundamentar a atletas (aumento da demanda de oxigênio para
adoção da estratégia training low, apenas 1 deles uma determinada velocidade de deslocamento),
adotou uma refeição e não integralmente uma o que, de forma geral, prejudica o desempenho
dieta de baixo CHO. Mesmo assim, os resultados dos atletas. Contrastando com as dietas que
do estudo ainda são atrelados somente de forma forneceram cronicamente, ou periodizadamente,
aguda e após a realização de um protocolo uma alta disponibilidade de CHO, apesar do
extenuante de depleção de GLICO. aumento significativo na capacidade aeróbia, a
Adotando o treinamento realizado duas dieta LCHF levou a uma resposta negativa no
vezes ao dia, os experimentos conduzidos por desempenho dos atletas.
Hansen e Hulston20,21 fizeram uso do exercício O mais recente estudo relatando os resultados
como estratégia de depleção dos estoques de desempenho e demais avaliações psicológicas
intramusculares de GLICO, e, assim sendo, subjetivas frente a uma dieta LCHF foi publicado
das seis formas consideradas atualmente na por Mujika23. A pesquisa constituiu de estudo
literatura como estratégias training low (treinar de caso sobre o treinamento de um triatleta de
duas vezes ao dia; treinar em jejum; treinar com provas de longa distância. O atleta (ovo-lacto-
baixa disponibilidade de CHO exógeno; baixa vegetariano, 39 anos de idade, 1.79 m de altura
disponibilidade de CHO durante a recuperação; e 75 kg de massa corporal) sofria de problemas
dormir com baixa disponibilidade de CHO e gastrointestinais e, durante um período de 32
adoção de dietas cetogênicas: baixo CHO e ricas semanas, substituiu sua dieta habitual de alta
em gordura), os experimentos acima citados disponibilidade de CHO (HCHO) por uma dieta
fornecem embasamento direto somente para a LCHF. Nesse período, ele participou de 3 corridas
realização do treino duas vezes ao dia e dormir profissionais, restaurando a disponibilidade de
com baixa disponibilidade de CHO – sendo CHO somente nas refeições pré-competições
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que a última, apenas de forma aguda e perante e durante a etapa da corrida no triatlo. Após
a realização de um exercício que reduza os 21 semanas na dieta LCHF, o atleta teve seu
estoques de GLICO, como reportado no estudo pior desempenho no meio Ironman. Após 24
de Wojtaszewski et al.19. semanas – e em uma nova competição –, ele
Já no tocante à observação das respostas teve seu segundo pior desempenho no Ironman,
crônicas a dietas cetogênicas de baixo CHO e ricas sofrendo inclusive de seus usuais problemas
em gorduras (LCHF), Burke et al.22 investigaram gastrointestinais. Após 32 semanas na dieta
alguns de seus efeitos adaptativos ao longo de três LCHF, ele não terminou sua terceira corrida,
semanas de treinamento intensificado em atletas reestabelecendo seu desempenho somente após
de endurance de alto rendimento. No estudo, 5 semanas em que retomou a dieta HCHO,
três dietas isoenergéticas foram fornecidas: 1) terminando duas provas de Ironman (que foram
rica em CHO (g kg-1 dia-1: 8.6 de CHO, 2.1 de separadas por apenas 3 semanas de intervalo)
proteínas e 1.2 de gorduras) consumida antes, em segundo e quarto lugares. As análises
durante e após os treinamentos; 2) periodizada, psicológicas subjetivas de bem-estar também

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Bases moleculares das estratégias de treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos

foram negativas durante o período da dieta LCHF, uma maior síntese de proteínas miofibrilares,
com sentimentos de depressão, irritabilidade e da melhora na taxa de disparos de potenciais de
mal humor. O autor concluiu que as 32 semanas ação e no recrutamento de unidades motoras25.
de dieta LCHF não resolveram os problemas Substratos energéticos como o GLICO muscular
gastrointestinais do atleta, deteriorando o seu mostram-se extremamente importantes para a
desempenho e bem-estar geral. manutenção da intensidade do exercício, bem
como para o aumento do volume muscular como
Considerações finais e futuras perspectivas um todo24; 2) elas levam a uma diminuição
da intensidade das sessões, um aspecto que
Algumas das estratégias training low deve ser balanceado contra os argumentos em
propostas na literatura induzem a depleção relação à “suprarregulação molecular” das
das concentrações intramusculares de GLICO adaptações ao treinamento9. O direcionamento
por meio da redução da ingesta de CHO. para adaptações moleculares pode ser realizado
Todavia, os estudos originais que forneceram por meio de um balanço de sessões com baixa
a fundamentação molecular para o uso das disponibilidade de CHO, enquanto sessões de
estratégias promoveram a depleção do GLICO treino de alta intensidade devem ser supridas
muscular por meio da intervenção do exercício, e com alta disponibilidade de CHO, permitindo,
não diretamente da redução da ingesta de CHO. assim, que os atletas mimetizem o ritmo das
Todas as estratégias nutricionais, dentre elas competições e possam se habituar com as
a training low, parecem estar para a nutrição estratégias competitivas7, 9. Todavia, esse balanço
esportiva assim como os métodos de treino estão parece ser mais facilmente alcançado em atletas
para o treinamento esportivo. Assim como não recreacionais e amadores26 do que efetivamente
existe um método de treinamento único – que seja nos de elite22,27.
capaz de suprir todas as necessidades adaptativas Um último ponto a ser destacado é em relação às
dos atletas –, parece não existir uma estratégia pesquisas longitudinais publicadas até o presente
nutricional única e válida para otimizar todas momento com essas estratégias. Elas ainda são
as adaptações ao treinamento de endurance. escassas e devem ser analisadas com cuidado no
A importância da aplicação dos mais variados tocante à sua duração, público analisado (i.e.,
métodos de treinamento reside no fato que cada atletas de elite, recreacionais ou sedentários) e
um deles pode contribuir para o desenvolvimento à manipulação dos macronutrientes das dietas.
das capacidades físicas por meio de distintos Considerando os resultados dos estudos com as
mecanismos adaptativos. Acreditamos que assim dietas cetogênicas de baixo CHO e alta ingesta
devem ser também as estratégias nutricionais, de lipídeos, constatamos que, quando realizadas
sendo todas elas válidas e plausíveis de por um longo período de tempo, elas podem ser
aplicação, dependendo do objetivo, da condição depreciativas do desempenho e da saúde geral
física e nutricional do atleta e do momento de seu dos atletas e que a realização do exercício – seja
planejamento de treinamento. ele de alta ou baixa intensidade – possivelmente
Dois aspectos muito importantes a serem ainda é a alternativa mais eficaz e segura para
enfatizados sobre as estratégias training low reduzir as concentrações intramusculares de
são: 1) elas são voltadas unicamente para a GLICO, usufruindo, assim, da ativação de
melhora do desempenho em modalidades de enzimas-chave intracelulares nas respostas
endurance, tendo pouca, ou quase nenhuma adaptativas ao treinamento de endurance.
aplicação no tocante à otimização das respostas
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adaptativas em atividades de força e potência24. Conflito de interesses


Nestas atividades, o incremento do desempenho
não advém prioritariamente de uma melhora Os autores não declaram conflitos de interesse
na capacidade oxidativa muscular, mas sim de na publicação do trabalho.

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Bernardo Neme Ide e Guilherme Cysne Rosa

Agradecimentos em Nutrição Esportiva Funcional da Universidade


Cruzeiro do Sul, São Paulo, SP, Brasil, pelo apoio
Agradecemos a todo o corpo docente e em nossas discussões acadêmico-científicas que
administrativo do programa de Pós-Graduação levaram à concepção do trabalho.

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