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Escola de Artes

Departamento de Música
Mestrado em Ensino da Música

Técnicas de Relaxamento e Meditação no Ensino da Guitarra

Didática Específica

Aluno: João Pedro Silvestre Mendes


Docente: Professor Doutor Gonçalo Pescada

Évora, 2019
Índice
Introdução.............................................................................................................................................. 1
O problema ............................................................................................................................................ 1
Metodologias de relaxamento e meditação ......................................................................................... 2
A Coerência Cardíaca ....................................................................................................................... 3
Conclusão ........................................................................................................................................... 4
Bibliografia ............................................................................................................................................ 5
Introdução
O presente trabalho insere-se no âmbito da unidade curricular de Didática Específica I e
pretende refletir sobre como as técnicas de relaxamento e meditação afetam o desempenho do
guitarrista como professor e aluno.
Durante o estudo e prática de um instrumento, o músico tende a deparar-se com problemas
psicológicos como a ansiedade e a falta de concentração e problemas físicos como tensões
corporais associadas com má aplicação da técnica ou má postura que a longo prazo podem
provocar lesões físicas. Estes problemas podem afetar de forma negativa o bem-estar físico, e
psicológico do músico e consequentemente, a sua prestação no contexto em que se enquadra.
Assim, é muito importante para o músico saber como identificar e resolver estas problemáticas,
as quais podem interferir de forma negativa na sua carreira.
É neste cenário que as variadas técnicas de relaxamento, meditação e resolução de tensões
surgem, com vista a, pelo menos resolver o melhor e a maior quantidade possível destas
problemáticas que a todos afetam.
Deste modo, neste trabalho serão brevemente abordadas estas problemáticas, as potenciais
formas de impedir que estas afetem a performance do músico através de metodologias de
relaxamento e meditação, a importância destas serem abordadas aquando da aprendizagem do
instrumento, assim como também abordarei de forma mais detalhada uma dessas metodologias
– a coerência cardíaca.

O problema
Antes de poder abordar métodos de meditação e relaxamento, é importante perceber o porquê
deste tema ser sequer relevante para o interprete, professor ou aluno de música e porque é que
deve ser abordada durante a aprendizagem do instrumento.
O sucesso de uma apresentação musical, seja numa aula, num concurso ou num
concerto/audição, depende tanto da técnica e da preparação prévia do repertório do músico,
quanto do estado físico e psicológico do mesmo.
Segundo Damas (2017), “um terço dos músicos sofre de medo do palco que pode ter como
sintomas a coordenação lenta, falta de ar, depressão, distúrbios do sono, ataques de ansiedade.”.
Evans & Evans (2013), referem que as agendas carregadas de concertos e gravações, a carreira
docente e as elevadas exigências técnicas, dão origem à ansiedade da performance musical e
risco de burnout, sendo este um estado de esgotamento físico e mental, cuja causa está

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intimamente ligada à vida profissional. Todas estas condicionantes psicológicas afetam
negativamente a performance do músico enquanto professor, intérprete ou aluno.
No entanto, não são só as questões psicológicas que afetam negativamente o desempenho do
músico. A prática da atividade musical é também uma atividade física em interação com um
instrumento musical. Esta exige muita precisão e controle de postura e dos músculos para
suportar os movimentos que exige e, se for esse o caso, o instrumento também. De acordo com
Frank e Mühlen (2007), caraterísticas que exercem uma carga física enorme no músico, sendo
frequentemente diagnosticadas tendinites e mialgias (dor muscular). É quando aparecem estes
sintomas que afetam a capacidade de execução dos músicos que, na maior parte das vezes, surge
a tomada de consciência para os problemas ocupacionais relacionados com a prática de um
instrumento.
Deste modo, é cada vez mais importante que no ensino de um instrumento, para além da técnica
e preparação do repertório, exista a preocupação com o equilíbrio físico e emocional do aluno,
de modo a prevenir o aparecimento destes problemas ocupacionais e visando a qualidade de
vida do futuro instrumentista.

Metodologias de relaxamento e meditação


Conforme referimos no capítulo anterior, a atividade musical pode fomentar lesões a nível do
físico e causar uma enorme pressão a nível psicológico. Damas (2017), descreve a importância
das técnicas de autorregulação para a preparação técnica, mental e física. “Trabalhar de forma
relaxada e confortável ajuda a evitar o maior problema que pode atingir instrumentistas e
bailarinos: as lesões por esforço repetitivo (RSI – Repetitive Strain Injury).” (Damas, 2017).
Um dos caminhos para atingir o conforto é através de variadas técnicas de relaxamento,
contudo, a grande maioria destas (como o Yoga, Qigong, Tai Chi, Biofeedback, Meditação,
entre outras) exige um profissional treinado na área. Ainda assim, o professor deve estar
sensibilizado para esta temática de modo a transmitir a sua importância para o aluno, sendo este
autónomo para optar pela que melhor a si se adapte.
Existem, no entanto, técnicas que promovem o bem-estar e o equilíbrio entre o corpo e a mente,
que podem ser ensinadas pelo professor, as quais podem beneficiar a prática de um instrumento
e que são de fácil aprendizagem e aplicação, tais como, a respiração profunda, a técnica do
relaxamento progressivo e a coerência cardíaca.
A respiração profunda consiste numa técnica de relaxamento simples, que pode ser realizada
em qualquer lugar e ajuda a controlar os níveis de ansiedade. A pessoa deve sentar-se

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confortavelmente e inspirar profundamente e lentamente pelo nariz, conduzindo o ar até ao
abdómen e expirar pela boca empurrando o máximo de ar enquanto contrai os músculos do
abdómen, repetindo o exercício várias vezes até alcançar o seu bem-estar.
O relaxamento progressivo consiste numa técnica que permite eliminar a tensão muscular
através do relaxamento progressivo dos diversos grupos musculares, enquanto presta atenção
às sensações que acompanham os movimentos de tensão e relaxamento. A pessoa deve começar
por relaxar os músculos a partir dos dedos dos pés, passando por todas as partes do corpo até
chegar aos músculos do pescoço e da cabeça, deve concentrar-se 5 segundos em cada musculo,
contraindo-o ao mesmo tempo que inspira e depois descontraindo cerca de 30 segundos
enquanto expira.
Estas técnicas têm vindo a demonstrar resultados bastante positivos na diminuição dos níveis
de stress e ansiedade.

A Coerência Cardíaca
A coerência cardíaca é um estado psicofisiológico, em que a respiração, frequência cardíaca e
pressão arterial se encontram em perfeita sincronia entre si. Este estado é algo que é possível
aprender a controlar e utilizar para a redução de níveis de stress e ansiedade. Este controle sobre
a coerência cardíaca foi investigado e popularizado pelo neuropsiquiatra francês David Servan-
Schreiber, no seu livro “Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem
psicanálise”. Servan Schreiber (2003), diz que “… é perfeitamente possível uma pessoa entrar
sozinha em coerência, sem computador, e sentir imediatamente os benefícios disso na sua vida
diária. Para tal, basta aprender a viver em coerência.”
A técnica da coerência cardíaca, é constituída por três etapas. A primeira consiste, como no
ioga e outras técnicas de relaxamento, em voltar o foco para o interior de si mesmo, aceitando
que “as nossas preocupações podem esperar um pouco, o tempo suficiente para que o coração
e o cérebro recuperem o seu equilíbrio…” (Servan-Schreiber, 2003). O autor descreve que a
melhor maneira de o conseguir será respirando duas vezes de forma lenta e profunda, deixar a
atenção acompanhar a inspiração e expiração e permitir uma pausa de alguns segundos entre
ambas as respirações. Esta pode apenas parecer uma simples ação, que nada fará e não tem
nenhum sentido lógico, mas esta ação serve como um travão fisiológico, que obriga a mente a
separar-se das variadas condicionantes externas e a focar-se numa ação única e simples. Este
exercício deve depois ser continuado o maior tempo possível, permanecendo de “espírito
vazio”.

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Para a segunda etapa, a pessoa deve focar-se conscientemente na zona onde o coração se
encontra no interior do peito, imaginar que esse é o responsável pela respiração, visualizar e
sentir cada respiração a atravessar esse órgão do nosso corpo, livre de quaisquer estímulos
externos.
Já na terceira etapa é que se começa a sentir a estabilidade entre o coração e o cérebro, sob a
forma de “uma sensação de calor ou expansão que se desenvolve no seu peito…”, devendo ser
acompanhada e encorajada pela respiração e pelo pensamento. Para alguém que está a executar
esta técnica pela primeira vez, esta é uma sensação estranha e que se manifesta discretamente,
visto que, após anos sem fim de stress e tensão, há um período de verdadeiro relaxamento ao
qual não estamos habituados. Contudo, o exercício não termina aqui. Deve-se abrir os olhos,
calma e lentamente, evocar emoções como a gratidão e a felicidade de forma natural, podendo
o eventual sorriso surgir nos lábios sem razão aparente. Estes são sinais que a coerência foi
estabelecida com sucesso.
O estado de coerência (cardíaca, respiratória, emocional) é muito importante para ajudar a
manter o nosso bem-estar mental, emocional e fisiológico. Os benefícios da coerência são a
calma, diminuição dos níveis de ansiedade, bons níveis de energia, clareza de pensamento e a
função adequada do sistema imunológico.

Conclusão
A realização deste trabalho permitiu refletir sobre os problemas/riscos ocupacionais
relacionados com a prática de um instrumento musical, os quais o professor deve ter bem
presentes, de modo adquirir as competências necessárias para a sua prevenção. Cada vez mais,
o ensino de um instrumento deve conter os aspetos relacionados com a aprendizagem técnica
do mesmo, mas também os aspetos relativos ao equilíbrio físico e emocional do instrumentista
e ao ambiente que o circunda. Estes fatores são muito relevantes para a sua performance
musical, mas também muito importantes na sua qualidade de vida, uma vez que muitos são os
músicos que tiveram de abandonar a sua carreira por problemas físicos associados à prática do
instrumento.
As utilizações das técnicas de relaxamento surgem aqui como um fator facilitador, pelos seus
benefícios, para diminuir o risco de aparecimento destes problemas.
A realização deste trabalho permitiu-me compreender que os problemas frequentes que surgem
aos praticantes de guitarra, ao nível de punhos, pescoço e costas, podem ser prevenidos
utilizando técnicas simples que promovam o relaxamento e equilíbrio entre o corpo e a mente.

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Bibliografia

Costa C. (2005), “Contribuições da ergonomia à saúde do músico: considerações sobre a


dimensão física do fazer musical”, Musica Hodie, vol. 5, nº 2, acedido no dia 20/10/2019 pelas
20h13 através do seguinte link: https://revistas.ufg.br/musica/article/download/2474/2428

Damas C. (2017), “A Confiança na Diminuição da Ansiedade de Músicos Eruditos”, Lisboa,


Universidade Nova, obtido em: http://hdl.handle.net/10362/28060 a 16 de Outubro de 2019,
pelas 23h10

Evans A. & Evans A. (2013), “Secrets of Performing Confidence”, 2ª Edição, London,


Bloomsbury, acedido em 18 de outubro de 2019, pelas 22h, no seguinte link:
https://books.google.pt/books?hl=en&lr=&id=cbmOAQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PP1&dq=Eva
ns,+A.,+%26+Evans,+A.+(2013).+Secrets+of+Performing+Confidence+(2nd+ed.).+London:
+Bloomsbury&ots=fSv2tb3YZY&sig=1LmWbGZ-
tPR_ttyyYci1iO_NgGM&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Frank A. E Mühlen C. (2007), “Playing-Related Musculoskeletal Complaints Among


Musicians: Prevalence and Risk Factors”, Revista Brasileira de Reumatologia

Servan-Schreiber D. (2003), “Curar – o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos


nem psicanálise”, Lisboa, Publicações Dom Quixote, ISBN: 972-20-2583-X

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