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Universidade Federal do Rio de Janeiro

OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A CÂMARA MUNICIPAL


DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO:
estabelecendo trajetórias de poder (1808-1830)

Jupiracy Affonso Rego Rossato

2007
APÊNDICE

BANCO DE DADOS DO SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO


291

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1808 1

NOME CARGO NA CM DATA / LOCAL DE PROFISSÃO/ OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Agostinho Petra de Bitencourt Juiz de Fora/ 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
Presidente do Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Senado da Câmara Desembargador 1830). Quatro filhos.
Manoel José da Costa Vereador Tenente Coronel 03/11/1826 Viúvo. Três filhos.
Francisco Xavier Pires Vereador Coronel agregado de 16/08/1826 Maria Tereza Pires. Cavaleiro da Ordem de Cristo
ordenanças; Quatro filhos

Manoel Pinheiro Guimarães Vereador Sargento-mór/ Negociante de Ana Felícia da Silva Hábito da O.de Cristo (1808)
grosso trato Lisboa. Deixa filhos.

João Gomes Barroso Juiz Almotacé 27/04/1766 Negociante de grosso trato / 14/10/1829 Maria Joaquina de Hábito da Ordem de Cristo (1808); Comendador da
(jan/.fev/ mar.) Arcebispado de Braga. Coronel reformado do 3º Azevedo. Quatro filhos. Ordem de Cristo com lotação de 16$000 (1820);
Regimento de Infantaria de Comendador agraciado com uma vida mais na Comenda
Milícias da Corte da Ordem de Cristo de que teve mercê, para se verificar
em seu filho Alexandre Gomes Barrozo, com 12$000 de
tença efetiva (1824); Fidalgo Cavaleiro (1825)
Francisco Pereira de Mesquita Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Negociante de grosso trato / 21/12/1821 Polucena Rosa Pereira Cavaleiro da Ordem de Cristo; Concessão de sesmaria de
(jan/.fev/ mar.) Capitão/ meia légua de terras em quadra nos sertões de Valença,
distrito da Corte (1826).
Amaro Velho da Silva Juiz Almotacé 16/ 05/ 1780 Negociante de grosso trato / 25/ 04/ 1845 Solteiro Comendador da O.de N. Sra da Conceição de Vila
(abr./.maio/ jun.) Capitão; Alcaide-mor da Vila Viçosa (1808); Hábito da O. de Cristo (1808);
de S. José d’El Rey, Comarca Mercê do Hábito de Noviço da O.de Cristo (1809);
do RJ (1820), Proprietário de Fidalgo Cavaleiro da Real Casa (1811); Título do
um engenho de açúcar, Conselho (1812); Comendador da Ordem de Vila
próximo a Macaé. Viçosa (1818); Tratamento de Senhoria da Vila de
Deputado da Junta do S.José d’El Rei da Comarca do RJ (1820);
Comércio, Agricultura, Comendador da Ordem de Cristo com lotação de
Fábrica e Navegação (1819). 12$000; Veador da Imperatriz (1826); Mercê do
acréscimo de uma sesmaria de meia légua de testada
com uma légua de fundo as margens do rio Macaé, para
açúcar e criação de rebanhos de gado vacum;
Barão de Macaé (1826);
Visconde de Macaé (1829), “com honras de grandeza”.

1
Este Banco de Dados, ainda em fase de coleta de informações, está sendo estruturado a partir de fontes pesquisadas no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Biblioteca
Nacional; Arquivo Nacional, Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, Instituto de Genealogia (IHGB), além de uma bibliografia complementar, apontada ao final do trabalho.
Futuramente, ele será apresentado em um novo formato, em estudos, a fim de que se possa visualizar suas informações da maneira mais completa possível. Quanto a grafia de alguns
nomes, buscou-se atentar para as assinaturas nos termos de posse.
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Lourenço Antônio Ferreira Juiz Almotacé Capitão 03/05/1836 Joaquina Rosa de Jesus
(abr./.maio/ jun.) Ferreira. Duas filhas.
Francisco Antônio de Guimarães Juiz Almotacé Capitão
(jul./.ag./ set.)
Joaquim Ribeiro de Menezes Juiz Almotacé Coronel
(jul./.ag./ set.)
Manoel José da Silva Ramalho Juiz Almotacé Capitão
(out./ nov./ dez.)
Carlos Alves de Almeida Juiz Almotacé Capitão
(out./ nov./ dez.)
José Luiz Alves Procurador Negociante de grosso trato; 1848 Thereza de Jesus Alves. Hábito da Ordem de Cristo (1808); Mercê do Hábito de
Capitão. Sem filhos. Noviço da Ordem de Cristo (1809); Mercê da ampliação
da sua jurisdição de Juiz dos Falidos e da Mesa da
Comissão para as Causas de Comércio (1819).
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo
Amaro José Vieira Escrivão substituto Escrivão do Registro e da
Receita e Despesa da Mesa do
Desembargo do Paço e da
Consciência e Ordens
José Marques Pereira Tesoureiro 19/04/1761 Capitão da Ordenança das 11/02/1822 Rita Maria da Fonseca
Bispado do Porto Barras da Vila de São Marques. Três filhos.
Sebastião e seu distrito
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SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1809

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Agostinho Petra de Bitencourt Juiz de Fora/ 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
Presidente do Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Senado da Câmara 1830); deixou 4 filhos.
Cláudio José Pereira da Silva Vereador mais Coronel Luiza Sebastiana da
velho Cunha de Azevedo
Coutinho
José Pereira Guimarães Vereador Coronel; Negociante de 02/05/1821 Solteiro
grosso trato
João Pedro Carvalho de Moraes Vereador Tenente Coronel; Coronel Moço da Imperial Câmara; Comendador da Ordem de
agregado 1º Regimento da 2ª Cristo; Cavaleiro da Ordem da Conceição.
linha; Presidente da Mesa da
Consciência e Ordem
Manoel José da Costa Juiz Almotacé Tenente Coronel; 03/11/ 1826 Viúvo. Três filhos.
(jan/.fev/ mar.)
Manoel Pinheiro Guimarães Juiz Almotacé Negociante de escravos / Ana Felícia da Silva Hábito da O.de Cristo (1808)
(jan/.fev/ mar.) Capitão Lisboa. Um filho.

José Luiz Alves Juiz Almotacé Negociante de escravos / 1848 Tereza de Jesus Alves. Hábito da Ordem de Cristo (1808); Mercê do Hábito de
(abr./.maio/ jun.) Capitão Não deixou filhos. Noviço da Ordem de Cristo (1809); Mercê da ampliação
da sua jurisdição de Juiz dos Falidos e da Mesa da
Comissão para as Causas de Comércio (1819).
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
((abr./.maio/ jun.)
José Custódio Ribeiro de Juiz Almotacé Capitão; Comendador Apolinária Rosa Furtado
Magalhães (jul./.ag./ set.) de Magalhães. Cinco
filhos.
Bernardo José de Figueiredo Juiz Almotacé Província do Rio de Capitão 22/10/1860 Viúvo de Matilde Rosa
(jul./.ag./ set.) Janeiro de Figueiredo. Dois
filhos.
Fernando de Oliveira Guimarães Juiz Almotacé Capitão
(out./ nov./ dez.)
João José Ferreira Juiz Almotacé Capitão 01/10/1878 Viúvo de Luiza Cândida
(out./ nov./ dez.) (?) de Santa Cruz Ferreira.
Casa-se com Emília de
Jesus Ferreira. Sete
filhos.
João de Souza Motta Procurador Comendador Antônia de Vasconcelos
Cirne. Deixa um filho.
Manoel Coelho Ferreira Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
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SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1810

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Agostinho Petra de Bitencourt Juiz de Fora/ 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
Presidente do Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Senado da Câmara Cavaleiro e posteriormente 1830). Quatro filhos.
Comendador da Ordem de
Cristo
Manoel Ignácio de Andrade Vereador 1782 – Marapicú, Rio Coronel de 2ª linha, Marquês 1867 1ª- Theodora Egina
Sotto Maior de Janeiro de Itanhaém, Comendador da Arnaut do Rivo
Ordem de Cristo; Cavaleiro Ramalho; 2ª- Francisca
da Ordem da Vila Viçosa Mathilde Pinto Ribeiro;
(Port.) 3ª Joana Severina Pinto
Ribeiro; 4ª- Maria
Angelina Beltrão
Antônio de Pinna Vereador Província do Rio de Coronel 07/06/1817 Úrsula Jacinta de Cavaleiro da Ordem de Cristo
Janeiro Castilhos
Miguel da Silva Vieira Braga Vereador Tenente Coronel
Joaquim José Pereira de Faro Procurador Membro da Junta 1º Barão do Rio Bonito
administrativa da Caixa de
Amortização; Coronel
reformado do extinto 1º
Regimento de Infantaria de 2ª
linha do Exército
Cláudio José Pereira da Silva Juiz Almotacé Coronel Luiza Sebastiana da
(jan/.fev/ mar.) Cunha de Azevedo
Coutinho
José Pereira Guimarães Juiz Almotacé Coronel. Negociante de 02/05/1821 Solteiro
(não serve porque pede para ser (jan/.fev/ mar.) grosso trato.
escuso)
João Pedro Carvalho de Moraes Juiz Almotacé Coronel agregado ao 1ª Moço da Imperial Câmara, Comendador da Ordem de
(abr./.maio/ jun.) Regimento de 2ª linha; Cristo; Cavaleiro da Ordem da Conceição.
Presidente da Mesa da
Consciência e Ordem
João de Souza Motta Juiz Almotacé Capitão Antônia de Vasconcelos
((abr./.maio/ jun.) Cirne. Deixa um filho.
José Maciel Gago da Câmara Juiz Almotacé Sargento das Ordenanças; Cavaleiro da Ordem de Cristo
(jul./.ag./ set.)
Manoel Dias de Lima Juiz Almotacé Capitão
(jul./.ag./ set.)
295

Mariano Antônio de Amorim Juiz Almotacé Capitão da Companhia de Oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro; tesoureiro da
Carrao (out./ nov./ dez.) Artilharia da Ilha do Ordem Imperial do Cruzeiro; Hábito da Ordem de Cristo
Governador, agregada ao
Regimento de Infantaria de
Milícias do Distrito de Irajá
Domingos José de Azevedo Juiz Almotacé Capitão
(out./ nov./ dez.)
296

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1811

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Desembargador Agostinho Petra Juiz Almotacé, 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
de Bitencourt servindo de Juiz de Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Fora Cavaleiro e posteriormente 1830). Quatro filhos.
Comendador da Ordem de
Cristo
Antônio Gomes Barroso Vereador mais 4/10/1767 Negociante de escravos/ 28/03/1825 Ana Clara de Souza Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de 15$000
velho Arcebispado de Braga Coronel de milícias; Deixou 4 filhos. (1810); Mercê de uma comenda da Ordem de Cristo para
Deputado da Junta do Banco se verificar em seu filho Antônio Gomes Barroso Júnior
Nacional (1809) Alcaide-mór (1818); Fidalgo Cavaleiro da Casa Real (1819); Cavaleiro
da Vila de Tagoahy por toda da Ordem Imperial do Cruzeiro (1828).Cavaleiro da
sua vida (1820). Ordem da Rosa (1830).
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Manoel Gomes Cardozo Vereador Sargento-mór 08/07/1814 Ana Miguelina de


Oliveira
Manoel Ignácio de Andrade Juiz Almotacé 1782, no Brasil. Coronel/ de 2ª linha; Coronel 1867 Viúvo de Teodora Egina Cavaleiro da Ordem da Vila Viçosa (Portugal);
Sotto Maior (jan/.fev/ mar.) do 5º Regimento de Infantaria Arnaut do Rivo Comendador da Ordem de Cristo, Marquês de Itanhaém.
e Milícia. Comandante do Ramalho, de Francisca
Distrito de Irajá. Matilde Pinto Ribeiro e
Joana Severina Pinto
Ribeiro. Casa-se com
Maria Angelina Beltrão.
Miguel da Silva Vieira Braga Juiz Almotacé Tenente Coronel
(jan/.fev/ mar.)
Joaquim Jozé de Siqueira Juiz Almotacé Juiz da 1ª Vara Criminal 14/07/1834 Viúvo de Tereza Maria Reposteiro da Câmara do Número, com moradia, mercê e
(abr./.maio/ jun.) Negociante de grosso trato. Caetana. Sem filhos. vestiária (1810); Hábito da Ordem de Cristo (1811);
Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de 16$000
(1812): Fidalgo Cavaleiro da Real Casa (1813);
Comendador da Ordem de N. Sra. Da Conceição de Vila
Viçosa (1818); Moço da Imperial Câmara de Guarda
Roupa (1825); mercê a a seu sobrinho Antônio Joaquim
de Siqueira, da Comenda da Ordem de Cristo (1826);
mercê a seu sobrinho, Joaquim José de Siqueira Júnior,
da comenda da Ordem de Cristo (1829).
João Soares de Bulhões Juiz Almotacé Capitão das Ordenanças; Mariana Cândido Gomes Cavaleiro da Ordem de Cristo
((abr./.maio/ jun.) senhor de engenho. Cardoso
297

Manoel Ferreira de Araújo Juiz Almotacé Tenente da 3° Companhia do


(jul./.ag./ set.) 5° Regimento de Infantaria de
Milícias da Capitania da
Bahia.
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Manoel Gonçalves de Carvalho Juiz Almotacé 27/12/1762, Negociante de grosso trato/ 1844 Maria Francisca Pereira Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de tença efetiva
(out./ nov./ dez.) Arcebispado de Braga Capitão da 6ª Companhia de de Figueiredo. (1810)
Ordenanças do Bairro de
Guaratinguetá (1808)
Manoel Jozé Ribeiro de Oliveira Juiz Almotacé 20/06/1838 Luiza Augusta
(out./ nov./ dez.) Marcondes de Oliveira.
Quatro filhos.
Lourenço Antônio Ferreira Procurador Capitão 03/05/1836 Joaquina Rosa de Jesus
Ferreira. Duas filhas.
298

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1812

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Desembargador Agostinho Petra Juiz Almotacé, 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
de Bitencourt servindo de Juiz de Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Fora 1830). Quatro filhos.
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Quatro filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Bento Luiz de Oliveira Braga Vereador Coronel 14/01/1814 Casado em 1ª núpcias
com Francisca Casemira
Xavier de Veras e em 2ª
núpcias com Francisca
Mariana de Oliveira
Coutinho. Onze filhos.
Manoel Velho da Silva Vereador Negociante de grosso trato Rosa Maria Rita Rocha Cavaleiro da Ordem de Cristo
Pinto
João Gomes Valle Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de tença efetiva
(jan/.fev/ mar.) Capitão (1821).
João Ignácio Tavares Juiz Almotacé 1774, em Lisboa Negociante de escravos/ Viúvo, casado em 2ª
(jan/.fev/ mar.) Sargento-mor núpcias com Luiza Rosa
da Motta
Joaquim Jozé de Siqueira Juiz Almotacé Juiz da 1ª Vara Criminal 14/07/1834 Viúvo de Tereza Maria Reposteiro da Câmara do Número, com moradia, mercê e
(abr./.maio/ jun.) Negociante de grosso trato Caetana. Sem filhos vestiária (1810); Hábito da Ordem de Cristo (1811);
Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de 16$000
(1812): Fidalgo Cavaleiro da Real Casa (1813);
Comendador da Ordem de N. Sra. Da Conceição de Vila
Viçosa (1818); Moço da Imperial Câmara de Guarda
Roupa (1825); mercê a a seu sobrinho Antônio Joaquim
de Siqueira, da Comenda da Ordem de Cristo (1826);
mercê a seu sobrinho, Joaquim José de Siqueira Júnior,
da comenda da Ordem de Cristo (1829).
José Teixeira de Mello Juiz Almotacé Sargento-mor 23/03/1850 Tereza Joaquina de
((abr./.maio/ jun.) Mello. Uma filha.
João Alves de Souza Guimarães Juiz Almotacé Arcebispado do Porto Negociante de grosso trato 10/04/1850 Viúvo de Laureanna de Cavaleiro da Ordem de Cristo
(jul./.ag./ set.) Capitão Souza Lopes. Três filhos.
Manoel Gomes de Oliveira Juiz Almotacé Negociante; Comenda da Ordem de Cristo, em sua vida, da lotação de
Couto ((jul./.ag./ set.).) Capitão das Ordenanças da 12$000 réis
Freguesia da Sé
299

João Siqueira Tedim Juiz Almotacé Tenente Coronel


(out./ nov./ dez.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio da Costa Barbosa Procurador Bispado do Porto Coronel Luiza de Sant’ Ana Mercê da administração, em sua vida, de terreno no Saco
Negociante de grosso trato Borges, viúva do capitão do Alferes, nos subúrbios da Corte (1817)
Luiz Dias de Almeida.
Cinco filhos.

Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão de Cavaleiro da Ordem de Cristo


Almotaçaria
Antônio Francisco Leite Tesoureiro Capitão Águida Maciel Leite
300

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1813

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Desembargador Agostinho Petra Juiz Almotacé, 1762 Juiz de Fora, Desembargador 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
de Bitencourt servindo de Juiz de Bacharel em Leis pela Borges Leal (falecida em Cristo
Fora Universidade de Coimbra; 1830). Quatro filhos.
Cavaleiro e posteriormente
Comendador da Ordem de
Cristo
Cláudio José Pereira da Silva Vereador mais Coronel Luiza Sebastiana da
velho Cunha de Azevedo
Coutinho
Luiz de Souza Dias Vereador Conselheiro Viúvo
José Pereira Guimarães Vereador Coronel. Negociante de 02/05/1821 Solteiro
grosso trato.
José Antônio da Silva Guimarães Juiz Almotacé Capitão
(jan/.fev/ mar.)
Jozé dos Santos Vieira de Juiz Almotacé Tenente 04/02/1824 Francisca Tereza Martins
Moraes (jan/.fev/ mar.) de Moraes. Sete filhos
Domingos José Pereira Braga Juiz Almotacé Capitão
(abr./.maio/ jun.)
Antônio da Costa Barbosa Juiz Almotacé Bispado do Porto Coronel/ Negociante de Luiza de Sant’ Ana Mercê da administração em sua vida de terreno no Saco
(abr./.maio/ jun.) grosso trato Borges, viúva do capitão do Alferes, nos subúrbios da Corte (1817)
Luiz Dias de Almeida.
Cinco filhos.

Antônio Alves de Araújo Juiz Almotacé Coronel


(jul./.ag./ set.)
Francisco de Souza de Oliveira Juiz Almotacé Coronel
(jul./.ag./ set.)
Alexandre da Costa Barros Juiz Almotacé Sargento-mór Catarina Viana de SEM REFERÊNCIAS
(out./ nov./ dez.) Freitas. Um filho
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
João de Souza Motta Procurador Comendador Antônia de Vasconcelos
Cirne. Deixa um filho.
301

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1814

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Desembargador Agostinho Petra Juiz de Fora/ 1762 Bacharel em Leis pela 1844 Maria Amélia de Castro Cavaleiro da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
de Bitancourt Presidente do Universidade de Coimbra; Borges Leal (falecida em Cristo
Senado da Câmara Cavaleiro e posteriormente 1830). Quatro filhos.
Comendador da Ordem de
Cristo
Francisco Xavier de Araújo Vereador Capitão-mór
José Marcelino Gonçalves Vereador Diretor do Banco Nacional Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição
da Vila Viçosa; Comendador da Ordem de Cristo, em
vida e da lotação de 16$000 réis.

Lourenço de Souza Meirelles Vereador Cidade do Rio de Coronel; Comendador 04/01/1857 Solteiro
Janeiro
Cláudio José Pereira da Silva Juiz almotacé Coronel Luiza Sebastiana da
(jan/.fev/ mar.) Cunha de Azevedo
Coutinho. Um filho.
José Pereira Guimarães Juiz almotacé Coronel. Negociante de 02/05/1821 Solteiro
(jan/.fev/ mar.) grosso trato.
Francisco Pereira dos Juiz Almotacé Capitão 21/12/1847 Solteiro
Santos Castro (PODE TER (abr./.maio/ jun.)
HOMÔNIMO)
Antônio Rodriguez da Silva Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS
((abr./.maio/ jun.)
Carlos José Moreira Sobrinho Juiz Almotacé Capitão
(jul./.ag./ set.)
Antônio Gomes de Britto Juiz Almotacé Capitão. Luiza Francisca Mori de
(jul./.ag./ set.) Senhor de engenho Brito. Duas filhas.
Cândido Martins dos Santos Juiz Almotacé Cidade do Rio de Capitão 09/01/1834 Alexandrina Rosa Vilela
Vianna (out./ nov./ dez.) Janeiro de Barros Viana. Dois
filhos.
Manoel Joaquim Ribeiro Juiz Almotacé Tenente 09/10/1856 Viúvo. Sete filhos.
Barbosa (out./ nov./ dez.)
Manoel Dias de Lima / João de Procurador Comendador Antônia de Vasconcelos
Souza Motta (reconduzido) Cirne. Deixa um filho..
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo
José Gomes Pupe Correa Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
302

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1815

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Dr. Luís Joaquim Duque Juiz de Fora/ Desembargador. 28/11/1834 Fidalgo Cavaleiro; Hábito da Ordem da Conceição.
Estrada Furtado de Mendonça Presidente do Ministro do Supremo
Senado da Câmara Tribunal de Justiça e Senador
de 1827 a 1834.
Antônio Gomes Barrozo Vereador 4/10/1767, Coronel de milícia; Deputado 28/03/1825 Ana Clara de Souza Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de 15$000
Arcebispado de Braga da Junta do Banco Nacional Deixou 4 filhos. (1810); mercê de uma comenda da Ordem de Cristo para se
(1809) verificar em seu filho Antônio Gomes Barrozo Júnior
Alcaide-mor da Vila de (1818); Fidalgo Cavaleiro da Casa Real (1819); Cavaleiro
Taguahy, por toda sua vida da Ordem Imperial do Cruzeiro (1828).Cavaleiro da Ordem
(1820) da Rosa (1830).
Manoel Ignácio de Andrade Vereador 1782, no Brasil. Coronel/ de 2ª linha; Coronel 1867 Viúvo de Teodora Cavaleiro da Ordem da Vila Viçosa (Portugal);
Souto Maior do 5º Regimento de Infantaria Egina Arnaut do Rivo Comendador da Ordem de Cristo, Marquês de Itanhaém
e Milícia. Comandante do Ramalho, de Francisca
Distrito de Irajá. Matilde Pinto Ribeiro e
Joana Severina Pinto
Ribeiro. Casa-se com
Maria Angelina Beltrão
Coronel Antônio de Pinna Vereador Província do Rio de Coronel 07/06/1817 Úrsula Jacinta de Cavaleiro da Ordem de Cristo
Janeiro Castilhos
Antônio Pinheiro Guimarães Juiz almotacé 27/02/1785 Capitão 24/02/1836 Alexandrina Severa de Hábito da Ordem de Cristo.
(jan/.fev/ mar.) Oliveira Pinheiro. Sem
filhos.
SEM REFERÊNCIAS Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Ignácio Antônio Amaral Juiz Almotacé Capitão Luiza Rosa da
(abr./.maio/ jun.) Conceição Amaral.
Nove filhos.
José Dias de Paiva Juiz Almotacé Alferes
((abr./.maio/ jun.)
José Manoel Gonçalves Villela Juiz Almotacé Tenente Coronel
(jul./.ag./ set.)
José Alves Duarte Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS
(jul./.ag./ set.)
José Pereira da Silva Manoel Juiz Almotacé Cidade do Rio de 14/05/1864 Solteiro, legitimou um Comendador da Imperial Ordem da Rosa, Cavaleiro da
(filho de Cláudio José Pereira da (out./ nov./ dez.) Janeiro filho. Ordem de Cristo.
Silva)

Manoel Luiz de Oliveira Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS


303

(out./ nov./ dez.)


Carlos José Moreira Procurador Capitão
(interinamente, no lugar de João
de Souza Motta, falecido)
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo.
João Pinto da Silva Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
304

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1816

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS

Dr. Luís Joaquim Duque Juiz de Fora/ Desembargador. 28/11/1834 Fidalgo Cavaleiro; Hábito da Ordem da Conceição.
Estrada Furtado de Mendonça Presidente do Ministro do Supremo
Senado da Câmara Tribunal de Justiça e Senador
de 1827 a 1834.
Francisco de Souza Oliveira Vereador Coronel
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Quatro filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Francisco José Pereira das Neves Juiz almotacé 20/07/1863 Maria Angélica de
(jan/.fev/ mar.) Araújo Neves. Onze
filhos.
João José de Mello Juiz almotacé Comarca de Serro Frio Negociante de escravos/ 29/04/1827 Viúvo de Anna Joaquina
(jan/.fev/ mar.) Capitão de Mello. Seis filhos.
José Antônio dos Santos Xavier Juiz Almotacé Capitão 1830
(abr./.maio/ jun.)
Domingos José Teixeira Juiz Almotacé Sargento-mor
((abr./.maio/ jun.)
José Cardoso Nogueira Juiz Almotacé Cirurgião Mor do Corpo das Hábito da Ordem de Cristo
(jul./.ag./ set.) Ordenanças da Corte
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem do
(jul./.ag./ set.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da BA:
Chanceler da Relação do RJ.
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé IDEM AO
(por solicitação do mesmo) (out./ nov./ dez.) ANTERIOR
José Cardoso Nogueira Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel
Antônio Martins Pinto de Britto Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo.
305

José Marques Pereira Tesoureiro 19/04/1761 Capitão da Ordenança das 11/02/1822 Rita Maria da Fonseca
Bispado do Porto Barras da Vila de São Marques. Três filhos.
Sebastião e seu distrito
306

NÃO HOUVE ELEIÇÃO PARA VEREADORES, FICANDO NO CARGO OS MESMOS DO ANO ANTERIOR,
ATÉ O MANDATO DE 2

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1817

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Antônio Lopes Calheiros de Juiz de Fora/ SEM REFERÊNCIAS
Menezes Presidente do
Senado da Câmara
Francisco de Souza Oliveira Vereador Coronel
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Deixa 4 filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Luís José Vianna Gurgel do Vereador IDEM AO ITEM


Amaral e Rocha ANTERIOR
SEM REFERÊNCIAS Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Antônio José da Costa Ferreira Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Capitão, Comendador 25/08/1830 Carolina Fausta Pinto Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000;
(jul./.ag./ set.) Ferreira. Três filhos. mercê de um dos almoxarifados do Reino.
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem do
(jul./.ag./ set.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da BA:
Chanceler da Relação do RJ.

2
Informações obtidas no IHGB, Lata 51, pasta 11 – Relação dos Juízes de Fora da Cidade do Rio de Janeiro e dos vereadores da mesma cidade desde 1791 até a posse da
nova Câmara Municipal, criada pela Lei de 1º de outubro de 1828.
307

Antônio José da Costa Ferreira Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Capitão, Comendador 25/08/1830 Carolina Fausta Pinto Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000;
(por solicitação do mesmo e (out./ nov./ dez.) Ferreira. Três filhos. mercê de um dos almoxarifados do Reino.
requerimento dos moradores)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel
Antônio Martins Pinto de Britto Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo.
José Marques Pereira Tesoureiro 19/04/1761 Capitão da Ordenança das 11/02/1822 Rita Maria da Fonseca
Bispado do Porto Barras da Vila de São Marques. Três filhos.
Sebastião e seu distrito
308

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1818

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO/ OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Antônio Lopes Calheiros de Juiz de Fora/ SEM REFERÊNCIAS
Menezes Presidente do
Senado da Câmara
Francisco de Souza Oliveira Vereador Coronel
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Deixa 4 filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Antônio José da Costa Ferreira Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Capitão, Comendador 25/08/1830 Carolina Fausta Pinto Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000;
(jan./fev./ mar.) Ferreira. Três filhos. mercê de um dos almoxarifados do Reino.
Antônio José da Costa Ferreira Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
((abr./.maio/ jun.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
SEM REFERÊNCIAS Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo
José Marques Pereira Tesoureiro 19/04/1761 Capitão da Ordenança das 11/02/1822 Rita Maria da Fonseca
Bispado do Porto Barras da Vila de São Marques. Três filhos.
Sebastião e seu distrito
309

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 3

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Antônio Lopes Calheiros de Presidente SEM REFERÊNCIAS
Menezes
Francisco de Souza Oliveira Vereador Coronel
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Deixa 4 filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem do
(jan./fev./ mar.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da
BA: Chanceler da Relação
do RJ.
Antônio José da Costa Ferreira Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Capitão, Comendador 25/08/1830 Carolina Fausta Pinto Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000;
(por solicitação do mesmo e (jan./ fev./ mar.) Ferreira. Três filhos. mercê de um dos almoxarifados do Reino.
requerimento dos moradores)
Antônio José da Costa Ferreira Juiz almotacé IDEM AO ITEM
(jan/.fev/ mar.) ANTERIOR
Jorge Antônio dos Santos Xavier Juiz Almotacé Capitão
((abr./.maio/ jun.)
Pascoal Cosme dos Reis Juiz Almotacé Cidade do Porto Comendador 06/01/1833 Catarina Josefa de
(abr./.maio/ jun.) Andrade Telles. Deixa
três filhos
Francisco José da Rocha Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Margarida Cândido da Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000;
(jul./.ag./ set.) Rocha. Um filho. Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro; Hábito da
Ordem de São Bento de Aviz; Oficial da Imperial Ordem
da Rosa.
José da Costa Araújo Juiz Almotacé Sargento-mor
(jul./.ag./ set.)

3
Por decisão de D.João, em 20 de março de 1819, o Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro passa a ter quatro almotacés, como o da cidade de Lisboa, conforme
pedido do próprio Senado, “por não serem bastante dois almotacés para o desempenho dos deveres,[...] pelo grande aumento da população e multiplicidade de lojas, padarias e
mais casas de vendagem, sobre que devem vigiar...”. Cf. AGCRJ, códice 39-2-14
310

Diogo Gomes Barrozo Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Negociante de grosso trato 26/03/1831 Maria Cândida de Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de tença efetiva;
(out./ nov./ dez.) Tenente Coronel Oliveira Cardoso mercê de um dos almoxarifados do Reino, a título do
Hábito da Ordem de Cristo; Comendador da Ordem de
Cristo
José Ignácio da Costa Florim Juiz Almotacé Bispado do Porto Negociante de grosso trato Joaquina Rosa Leal. Hábito da Ordem de Cristo; Cavaleiro da Ordem do
(out./ nov./ dez.) Capitão Quatro filhos. Cruzeiro; Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa.

Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel


Antônio Martins Pinto de Britto Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo.
José Gomes Pupe Corrêa (serve Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
interinamente no lugar de José
Marques Pereira)
311

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1820

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Antônio Lopes Calheiros de Presidente SEM REFERÊNCIAS
Menezes
Francisco de Souza Oliveira Vereador Coronel
Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Rita Maria Caetana. Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Imperial
linha do Exército do Brasil; Deixa 4 filhos. Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da Imperial Casa
Negociante de grosso trato.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo.
Amaral e Rocha.

Manoel Plácido de Paiva Juiz almotacé Capitão


(jan/.fev/ mar.)
Antônio José de Carvalho Juiz almotacé Capitão 26/07/1863 Carolina Maria de
(jan/.fev/ mar.) Carvalho. Dois filhos
Venâncio Jozé Lisboa Juiz Almotacé Capitão; Desembargador 13/05/1850 Úrsula Maria do Cavaleiro da Ordem de Cristo.
(jan/.fev/ mar.) Deputado, Presidente das Bonsucesso. Cinco
províncias de São Paulo filhos.
(1838) e do Maranhão
(1842). Família ligada ao
comércio.
Jozé Antônio de Carvalho Juiz Almotacé 09/08/1833 Um filho natural com
(abr./.maio/ jun.) Ana Joaquina Travassos
da Costa
Antônio Alves da Silva Pinto Juiz Almotacé Bispado do Porto. 30/09/1855 Maria Benedita da Silva
(abr./.maio/ jun.) Pinto. Um filho
legitimado.
Jozé Cardozo Nogueira Juiz Almotacé Sargento-mor
(abr./.maio/ jun.)
Francisco José dos Santos Roiz Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Ignácio José de Araújo Juiz Almotacé 12/12/1827 Ana Quitéria de Araújo. SEM REFERÊNCIAS
(jul./.ag./ set.) Seis filhos.
Antônio Moreira Lírio Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS
(jul./.ag./ set.)
Manoel José Pereira do Rego Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS
(out./ nov./ dez.)
Pedro José Bernardes Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Clara Genuína Teixeira
(out./ nov./ dez.)
312

Alexandre Ferreira de Juiz Almotacé Cidade do Rio de Janeiro 10/03/1855 Viúvo de Cláudia
Vasconcellos Drumond (out./ nov./ dez.) Ignácia de Oliveira
Fagundes (dois filhos);
Flora Augusta de
Azevedo Drumond (uma
filha)
Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo
José Gomes Pupe Correia Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
313

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1821

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
José Clemente Pereira Juiz de Fora/ Desembargador e Juiz de Maria Joaquina Grande Dignatário da Imperial Ordem da Rosa;
Presidente do Fora Conselheiro do Império; Dignatário da Ordem Imperial
Senado da Câmara do Cruzeiro; Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Luiz José Vianna Gurgel do Vereador Tenente Coronel da 2ª linha Fidalgo Cavaleiro; Comendador da Ordem de Cristo
Amaral e Rocha.

Manoel Caetano Pinto Vereador Bispado do Porto Coronel reformado da 2ª 25/11/1837 Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da
linha do Exército do Brasil; Imperial Ordem do Cruzeiro; Fidalgo Cavaleiro da
Negociante de grosso trato. Imperial Casa
Francisco de Souza Oliveira ou Vereador Coronel
Manoel José da Costa?
Antônio Alves de Araújo Procurador Coronel
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro.
João Alves da Silva Porto Juiz almotacé Cidade do Porto. Negociante de grosso trato 1830 Viúvo de Jacinta Mercê do Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva
(jan/.fev/ mar.) / Coronel Benedita de Almeida. de 12$000; Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro;
Cinco filhos. Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa.
Antônio Francisco Leite Juiz almotacé Capitão
(jan/.fev/ mar.)
Francisco José Pereira das Neves Juiz Almotacé 20/07/1863 Maria Angélica de
(jan/.fev/ mar.) Araújo Neves. Deixa 11
filhos.
Manoel Francisco de Oliveira Juiz Almotacé Negociante de grosso trato/ 1884 Rosa Airosa de Oliveira Hábito da Ordem de Cristo com tença efetiva de 12$000
(abr./.maio/ jun.) (cinco filhos) (1820)
Francisco José dos Santos Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Hábito da Ordem de São Tiago da Espada e 12$000 de
(abr./.maio/ jun.) tença efetiva (Igreja Matriz da Vila de Sergipe de El Rei)
(1809); Hábito da Ordem de Cristo com 12$000 de tença
(1810).

Joaquim Marques Baptista de Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS


Leão (abr./.maio/ jun.)
João Rodrigues Ribas Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Cavaleiro da Ordem de Cristo; Alferes da 2ª companhia
(jul./.ag./ set.) das Ordenanças do Distrito de Vila Nova (1819); Oficial
da Ordem da Rosa (1845)
João José Dias Moreira Juiz Almotacé Sargento-mor
(jul./.ag./ set.)
João Ferreira Coutto de Menezes Juiz Almotacé Tenente Coronel
(jul./.ag./ set.)
Manoel José Gomes Moreira Juiz Almotacé Capitão
(out./ nov./ dez.)
314

Manoel Vellozo Tavares Juiz Almotacé Capitão


(out./ nov./ dez.)
Domingos José Martins de Juiz Almotacé Arcebispado de Braga Capitão das ordenanças 28/04/1834 Rita Luiza Martins de
Araújo (out./ nov./ dez.) Araújo (três filhos);
Maria Luiza Martins de
Araújo (três filhos).
Antônio Teixeira Pinto da Cruz Tesoureiro SEM REFERÊNCIAS
315

AQUI SÃO ELEITOS NOVOS VEREADORES

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1822

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO/ OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
José Clemente Pereira Juiz de Fora/ Desembargador e Juiz de Maria Joaquina Grande Dignatário da Imperial Ordem da Rosa;
Presidente do Fora Conselheiro do Império; Dignatário da Ordem Imperial
Senado da Câmara do Cruzeiro; Cavaleiro da Ordem de Cristo.
José Paulo de Figaro Nabuco e Presidente do Desembargador
Araújo Senado no
impedimento do
atual
Domingos Vianna Gurgel do Vereador Membro das principais 02/08/1823 Ana Adelaide de Souza
Amaral famílias, sendo filho do Dias. Dois filhos.
fidalgo da Corte Luiz José
Vianna Gurgel do Amaral e
Rocha
João Soares de Bulhões Vereador Capitão das Ordenanças; Mariana Cândido Gomes Cavaleiro da Ordem de Cristo
senhor de engenho. Cardoso
José Pereira da Silva Manoel Vereador Cidade do Rio de Janeiro 14/05/1864 Solteiro, legitimou um Comendador da Imperial Ordem da Rosa, Cavaleiro da
(filho de Cláudio José Pereira da filho. Ordem de Cristo.
Silva)
José Antônio dos Santos Xavier Procurador 1825 Luiza Rosa Xavier.
Quatro filhos.
José Martins Rocha Escrivão do Senado
José Agostinho Barbosa Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João José de Araújo Gomes Juiz almotacé Capitão
(jan/.fev/ mar.)
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem do
(jan./fev./mar.) Comarca de PE; Ouvidor Assis; 2ª- Erculana Cruzeiro.
da Comarca de Rio das Felizarda Figueira; 3ª
Velhas (MG); Maria Joaquina Gersaint
Desembargador Ordinário Dantas e Mendonça
da Casa da Suplicação
(Lisboa); Chanceler da
Relação da BA: Chanceler
da Relação do RJ.
Francisco Antônio Gomes Juiz Almotacé Bispado do Rio de 04/05/1847 Francisca Matildes de
(abr./.maio/ jun.) Janeiro Proença. Cinco filhos.
316

Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé


Rocha (abr./.maio/ jun.)
Felippe Néri de Carvalho Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem do
(abr./.maio/ jun.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da
BA: Chanceler da Relação
do RJ.
Francisco José dos Santos Juiz Almotacé
Rodrigues (jul./.ag./ set.)
João da Silva Nepomuceno Juiz Almotacé Família ligada ao negócio
(jul./.ag./ set.) de escravos
Sebastião Luiz Vianna Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Francisco Garcia Durão Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Joaquim Mariano de Moura Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
João da Costa Guimarães Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Jozé de Araújo Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
João Euzébio de Souza Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
José Antônio dos Santos Xavier Procurador 1825 Luiza Rosa Xavier.
Quatro filhos.
Francisco João Rodrigues, filho Tesoureiro
317

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1823

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E NOBILIÁRQUICOS
NASCIMENTO CARGOS MERCÊS
Dr. Lúcio Soares Teixeira de Juiz de Fora/
Gouvêa Presidente do
Senado da Câmara
Antônio José da Costa Ferreira Vereador Arcebispado de Braga Capitão, Comendador 25/08/1830 Carolina Fausta Pinto
Ferreira. Três filhos.
Manoel Teodoro de Araújo Vereador
Azambuja
Paulo Prudêncio Duque Estrada Vereador
Antônio Bandeira de Gouvêa Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Joaquim Moreira da Costa Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João Francisco Pereira da Juiz Almotacé
Fonseca (jan/.fev/ mar.)
José Botelho de Siqueira Juiz Almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Antônio Gomes Barrozo Júnior Juiz Almotacé Família ligada ao comércio
(abr./.maio/ jun.) de escravos
João da Costa Lima Júnior Juiz Almotacé Alferes Mariana Elisa de
(abr./.maio/ jun.) Oliveira Cardoso
José Bento Ferreira Soares Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Manoel Jozé da Silva Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Francisco Antônio Leite Juiz Almotacé 05/07/1832
(jul./.ag./ set.)
Francisco Alves de Brito Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Joaquim Francisco de Faria Juiz Almotacé Negociante de escravos Maria Henriqueta Comendador da Ordem de Cristo (1822); Cavaleiro da
(jul./.ag./ set.) Teixeira de Macedo Ordem Imperial do Cruzeiro (1830); Oficial da Ordem da
Rosa (1854)
Ignácio Ratton Juiz Almotacé Maria Madalena Pires e,
(jul./.ag./ set.) ao enviuvar, casa-se com
sua cunhada Teresa
Florência Pires. Dois
filhos.
José Domingues Moncorvo Filho Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
318

Custódio de Souza Pinto Juiz Almotacé


(out./ nov./ dez.)
Joaquim Bandeira de Gouvêa Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio José Pereira Dantas Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Manoel Gomes de Oliveira Procurador
Couto
Francisco Rodrigues de Aguiar Escrivão de
almotaceria
José Gomes Ferreira Tesoureiro
319

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1824

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS ÓBITO CÔNJUGE/ FILHOS DECRETOS HONORÍFICOS E
NASCIMENTO CARGOS NOBILIÁRQUICOS
MERCÊS
Lúcio Soares Teixeira de Gouvêa Desembargador Juiz Desembargador
de Fora, Presidente
do Senado da
Câmara
Antônio José da Costa Ferreira Vereador Arcebispado de Braga Capitão, Comendador Carolina Fausta Pinto
(Antônio Teixeira Porto ?) Ferreira. Três filhos.
Domingos José Teixeira (Luiz Vereador
José Vianna Gurgel do Amaral e
Rocha ?)
Joaquim José de Souza Meireles Vereador
José Agostinho Barbosa (José Procurador
Antônio Fernandes ?)
João Martins Lourenço Vianna Juiz almotacé Negociante de grosso trato; Solteiro em 1821 Hábito da Ordem de Cristo (1822); Comendador da
(jan/.fev/ mar.) Quartel-mestre agregado ao 2º Ordem de Cristo (1841).
regimento de Milícias da
Corte (1815)
Domingos Alves de Brito Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João Caetano dos Santos Juiz Almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João Teixeira Guimarães Juiz Almotacé
(jan/.fev/ mar.)
José Pereira Vidal Juiz Almotacé Negociante de grosso trato. 1832 Mariana Ramos de Mercê do Hábito da Ordem de Cristo (1822); Alvará do
(abr./.maio/ jun.) Capitão agregado ao Albuquerque Hábito da Ordem de Cristo (1823); Cavaleiro da Ordem
Regimento de Infantaria de Imperial do Cruzeiro (1829)
Milícias de Cuiabá (1812).
Fernando José de Souza Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Bernardo Pinto Gonçalves Silva Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Bernardo Jozé Borges Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
José Moreira Lírio Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Antônio José de Abreu Juiz Almotacé
Guimarães (jul./.ag./ set.)
Manoel Francisco Lírio Juiz Almotacé Coronel 24/09/1840 Maria das Graças dos
(jul./.ag./ set.) Santos Lírio. Seis filhos.
320

José da Silva Guimarães Juiz Almotacé


(jul./.ag./ set.)
Antônio José Moreira Pinto Juiz Almotacé Negociante de grosso trato Joana Perpetua Oficial da Ordem da Rosa (1841)
(out./ nov./ dez.) Guimarães

José Bernardes Monteiro Juiz Almotacé


Guimarães (out./ nov./ dez.)
Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé
Rocha (out./ nov./ dez.)
Antônio da Silva Rodrigues Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
José Agostinho Barboza Procurador
Francisco José Rodrigues Filho Tesoureiro
321

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1825

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Henrique Veloso de Oliveira Juiz de Fora/
Presidente do
Senado da Câmara
Cel. Manoel Frazão de Souza Vereador
Rondon
Cel. Lourenço Antônio do Rego Vereador Negociante de grosso trato Ana Polucena de
Mesquita
Sargento-mór Antônio Gomes de Vereador
Brito
Francisco José Fernandes Juiz almotacé Negociante de grosso trato
Salazar (jan/.fev/ mar.)
José Antônio de Carvalho Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
José Gomes Ferreira Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Jozé Rodrigues Salgado Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
José Antônio da Costa Guimarães Juiz Almotacé Negociante de grosso trato, 1829 Viúvo de Maria
(abr./.maio/ jun.) não tendo registrado como Bernarda do Nascimento,
filho José Antônio da Costa desde 1798.
Guimarães.
Sabino da Silva Nazareth Juiz Almotacé
((abr./.maio/ jun.)
Manoel da Cunha Barboza Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Roque Antônio Cordeiro Filho Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
José Maria Claro Ribeiro Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
José Vieira de Castro Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Luiz Antônio de Souza Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
João Pinto Sampaio Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Gregório de Castro de Moraes e Juiz Almotacé
Souza (out./ nov./ dez.)
322

Miguel Ferreira Gomes Filho Juiz Almotacé Família ligada ao negócio de


(out./ nov./ dez.) escravos
Antônio José Ribeiro da Cunha Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Joaquim Teixeira de Macedo Juiz Almotacé Negociante de grosso trato; 1853 Francisca de Assiz Hábito da Ordem de Cristo (1828); Oficial da Ordem da
(out./ nov./ dez.) Escrivão da Alfândega da Menezes Rosa (1847)
Corte.
Constantino Dias Pinheiro (João Tesoureiro
José de Mello ?)
João José de Mello Procurador Negociante de grosso trato Mercê do Hábito da Ordem de Cristo (1823), na Capela
Capitão de N.Sra. do Monte do Carmo.
323

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1826

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Francisco José Alves Carneiro Juiz de Fora/
Presidente do
Senado da Câmara
Cel. Manoel Moreira Lírio Vereador Coronel 24/09/1840 Maria das Graças dos
Santos Lírio. Deixa 5
filhos.
Cel. Lourenço de Souza Meireles Vereador
Diogo Gomes Barrozo Vereador Tenente Coronel/ Negociante Maria Cândida de Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de
de grosso trato Oliveira Cardoso 12$000 (1809); mercê de um dos almoxarifados do
Reino, a título do Hábito da Ordem de Cristo (1809);
Comendador da Ordem de Cristo (1812)
Cap. João Alves de Souza Procurador Negociante de grosso trato Cavaleiro da Ordem de Cristo
Guimarães
José Antônio Alves de Carvalho Tesoureiro Negociante de grosso trato
Francisco Pereira de Mattos Escrivão do Senado
da Câmara e da
Almotaceria
Manoel José de Souza e França Administrador do
Matadouro da Praia
de Santa Luzia
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem
(jan./fev./mar.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana do Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da BA:
Chanceler da Relação do RJ.
Francisco Xavier Pereira da Juiz almotacé
Rocha (jan/.fev/ mar.)
Feliciano Alexandrino Gomes Juiz almotacé Negociante de grosso trato Hábito da Ordem de Cristo (1829)
(jan/.fev/ mar.) Secretário do 2º Corpo de
Tropa Ligeira de Milícias da
Capitania do Rio Negro
(1814)
Custódio Xavier de Barros Juiz almotacé Maria Rosa Xavier de
(jan/.fev/ mar.) Barros
324

José Antônio Gomes de Araújo Juiz Almotacé


(abr./.maio/ jun.)
Joaquim de Babo Pinto Juiz Almotacé Negociante de grosso trato
((abr./.maio/ jun.) Sargento-mor
Damazo Moreira de Souza Juiz Almotacé
Meireles (abr./.maio/ jun.)
Miguel Joaquim Pereira da Silva Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé
Rocha (jul./.ag./ set.)
Pedro Antônio de Campos Bello Juiz Almotacé
Vianna (jul./.ag./ set.)
Antônio José Gomes Alves Juiz Almotacé
Bastos (jul./.ag./ set.)
Joaquim José Gomes de Barros Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Domingos José Martins de Juiz Almotacé
Araújo (out./ nov./ dez.)
Antônio Joaquim da Silva Tibre Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
José Rodrigues Gonçalves Valle Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Joaquim Bandeira de Gouvêa Juiz Almotacé Maria Fernandes
(out./ nov./ dez.)
325

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1827

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO/ OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Francisco José Alves Carneiro Juiz de Fora/
Presidente do
Senado da Câmara
José Antônio da Costa Vereador Negociante de grosso trato
Guimarães
Cândido Martins dos Santos Vereador
Vianna (substituído em junho
por Diogo Gomes Barroso)
Manoel da Cunha Barbosa Vereador
(substituído em setembro por
Diogo Gomes Barroso)
Joaquim Marques Baptista de Procurador
Leão
Francisco José Bernardes Tesoureiro
João Silveira do Pillar Juiz almotacé 25/08/1851 Viúvo de Tereza
(jan/.fev/ mar.) Dionísia Barbosa da
Fonseca
Manoel de Passos Corrêa Juiz almotacé Negociante de grosso trato Rosa Maria Alves
(jan/.fev/ mar.)
Joze Jorge da Silva Juiz almotacé Negociante de grosso trato Maria Carolina Jorge de
(jan/.fev/ mar.) Oliveira Peixoto
Duarte Jozé de Mello Juiz almotacé Negociante de grosso trato
(jan/.fev/ mar.) Capitão-mor
José Borges Pinho Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
José Antônio Gonçalves Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
João Marcos Vieira de Souza Juiz Almotacé
Pereira (abr./.maio/ jun.)
Manoel José Duarte Guimarães Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé
Rocha (jul./.ag./ set.)
Agostinho Gonçalves Joaquim Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
João José Dias Camargo Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
326

Joaquim Bernardino da Costa Juiz Almotacé


(jul./.ag./ set.)
José Ribeiro da Fonseca Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Fernandes Vaz Juiz Almotacé Freguesia de N.Sra.da 17/09/1863 Solteiro
(out./ nov./ dez.) Candelária, RJ
Manoel Francisco da Costa Juiz Almotacé Março de Tereza Joaquina do
Tibau (out./ nov./ dez.) 1838 Nascimento Tibau.
Deixa 8 filhos.
Agostinho Gonçalves Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
327

SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 4

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Dr. Francisco José Alves Juiz de Fora/
Carneiro/ Antônio José Alves Presidente do
Amazonas (interino de agosto a Senado da Câmara
outubro, quando toma posse o
Dr. Francisco Gomes de
Campos)
Bernardo José Borges Vereador
Manoel José Ribeiro d’Oliveira Vereador
Antõnio Francisco Leite Vereador
Felipe Ribeiro da Cunha Juiz almotacé Negociante grosso trato 26/04/1839 Solteiro, sem filhos
(jan/.fev/ mar.)
José Vicente Cordeiro Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Manoel Antônio Cardoso Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João Caetano dos Santos Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
João Coelho Gomes Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Bento José de Freitas Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Miguel Joaquim Rangel Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
João Antônio Fernandes Juiz Almotacé
Pinheiro (abr./.maio/ jun.)
Antônio Luiz Pereira da Cunha Juiz Almotacé 1760, na Bahia Juiz de Fora; Ouvidor da 1837 1º- Isabel Joaquina de Cavaleiro da Ordem de Cristo; Dignatário da Ordem
(jul./.ag./ set.) Comarca de PE; Ouvidor da Assis; 2ª- Erculana do Cruzeiro.
Comarca de Rio das Velhas Felizarda Figueira; 3ª
(MG); Desembargador Maria Joaquina Gersaint
Ordinário da Casa da Dantas e Mendonça
Suplicação (Lisboa);
Chanceler da Relação da BA:
Chanceler da Relação do RJ.
Francisco Antônio Gomes Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)

4
ibidem, nota 2. Ver também IHGB, Coleção Senador Nabuco, Lata 379, livro 04, Câmaras Municipais – Decretos,conselhos, notas, leis, projetos, manuscritos e impressos,
compilados pelo Conselheiro José Tomás Nabuco de Araújo, a respeito da Câmara Municipal e reunidos em volume encadernado: 1854-1868.
328

Antônio da Costa Guimarães Juiz Almotacé


(jul./.ag./ set.)
Francisco Luiz da Costa Juiz Almotacé Santo Idelfonso , Porto Negociante grosso trato Ciana Rosa de
Guimarães (jul./.ag./ set.) Travassos, viúva, sem
filhos do 1º casamento.
Quatro filhos.

José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(out./ nov./ dez.) de Andrade
Domingos José de Moura Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Anacleto da Silva Ramos Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Manoel José Cardoso Júnior Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Venâncio José Lisboa (pai) Procurador
Joaquim Antõnio Alves Tesoureiro Negociante grosso trato
(substituído José Antônio Alves
de Carvalho)
329

NÃO HOUVE ELEIÇÕES E SERVIRAM OS MESMOS ATÉ A POSSE DA CÂMARA MUNICIPAL EM 1830
SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1829
NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Dr. Francisco Gomes de Campos Juiz de Fora/
Presidente do
Senado da Câmara
Bernardo José Borges Vereador
Manoel José Ribeiro d’Oliveira Vereador
Antõnio Francisco Leite Vereador
José Ferreira de Faria Pertence Juiz almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(jan/.fev/ mar.) de Andrade
Domingos José de Moura Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Bento José de Freitas Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
Manoel Martins Vieira Juiz almotacé
(jan/.fev/ mar.)
José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(abr./.maio/ jun.) de Andrade
Domingos José de Moura Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Manoel Teixeira Passos Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Manoel Pacheco Ferreira Juiz Almotacé
(abr./.maio/ jun.)
Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé
Rocha (jul./.ag./ set.)
João Caetano dos Santos Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
José Narciso Coelho Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(jul./.ag./ set.) de Andrade
José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(out./ nov./ dez.) de Andrade
Domingos José de Moura Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
João Caetano dos Santos Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Joaquim Antônio Lopes de Souza Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
330

Venâncio José Lisboa Suplente de Desembargador. Família 1850 Úrsula Maria do Cavaleiro da Ordem de Cristo.
vereador ligada ao comércio, Bonsucesso
Deputado e Presidente da
Província de SP (1838) e do
MA (1843).
Escrivão
Tesoureiro
331

CÂMARA MUNICIPAL DE 1830/ 1832

NOME CARGO NA CM DATA/ LOCAL DE PROFISSÃO / OUTROS OBITO CÔNJUGE/ FILHOS OUTROS CARGOS OCUPADOS
NASCIMENTO CARGOS
Bento Oliveira Braga Vereador (o mais Tenente-coronel da 1838
Obs.: .Seu pai já serviu no Senado votado e por isso Cavalaria, de 2ª linha, senhor
da Câmara, como almotacé. Presidente) de engenho (filho das
principais famílias.
Pres. da CM de 1830,
Pres. da Câmara de
Deputados na Assembléia
Geral na 3ª Legislatura (1834-
1837), pela província do RJ.
José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Tenente Coronel Felisbina Joaquina Rosa
(jan./ fev./ mar.) de Andrade
Antônio Gomes de Brito Suplente de Sargento-mór das ordenanças, Luiza Francisca Mori de
vereador membro das principais Brito. Duas filhas.
famílias, senhor de engenho.
Antônio José Ribeiro da Cunha Vereador 1845 Cav. da Ordem de Cristo, Irmão da Ordem Terceira de
S. Francisco de Paula e de S. Francisco da Penitência,
Irm. de N. S. do Pilar da Igreja de S. Bento, Irm. de
Sta. Luzia da Praia, Imp. Irm. de N. S. de Misericórdia.
Antônio Pereira Pinto Vereador Tenente-coronel de 2ª linha, 1831 Maria Josefina de Morais Cavaleiro da Ordem de Cristo,
membro das principais
famílias.

Bento Oliveira Braga Vereador (o mais Tenente-coronel da 1838


Obs.: .Seu pai já serviu no Senado votado e por isso Cavalaria, de 2ª linha, senhor
da Câmara, como almotacé. Presidente) de engenho (filho das
principais famílias.
Pres. da CM de 1830,
Pres. da Câmara de
Deputados na Assembléia
Geral na 3ª Legislatura (1834-
1837), pela província do RJ.
Domingos Carvalho de Sá Suplente de Negociante Maria Cândida Loduvina
vereador
Francisco Antônio Leite Vereador Família ligada a serviços da
Coroa.
Francisco Luiz da Costa Vereador --- Negociante de grosso trato --- Ciana Rosa de
Guimarães Travassos. Quatro filhos.
Henrique José de Araújo Vereador Proprietário 1875 Comendador da Ordem de Cristo
332

João José da Cunha Era suplente de Comissário de corveta. 1848


vereador e assume o Montevidéu
mandato no lugar de
João Martins Lourenço Viana Suplente de --- Negociante de grosso trato --- Hábito da Ordem de Cristo (1822); Comendador da
vereador Quartel-mestre agregado ao 2º Ordem de Cristo (1841).
regimento de Milícias da
Corte (1815)
João Silveira do Pilar Suplente de Negociante da praça do RJ. 1848 Comendador da Ordem de Cristo
vereador exerceu diversos cargos
públicos, como Juiz de Paz do
2º Distrito da Freguesia de
São José.
Joaquim José Pereira de Faro Vereador Negociante e coronel da 5ª 1856 Cavaleiro da Ordem de Cristo
legião da Guarda Nacional; 2º Barão do Rio Bonito
Vice-presidente do Banco do
Brasil.
Joaquim José da Silva Suplente de Médico ---
vereador
José de Carvalho Ribeiro Vereador Fazendeiro português/ 1843 Hábito da Ordem de Cristo com 12$000 de tença efetiva
Negociante de grosso trato (1819).
Tenente
José Pereira da Silva Manuel Vereador Comendador 1864
Manoel da Cunha Barbosa Suplente de Comendador (português)
vereador
Manoel dos Passos Correia Suplente de Santa Maria Maior de Negociante de grosso trato --- Rosa Maria Alves
vereador Vila de Viana
Manoel Gomes de Oliveira Suplente de --- ---
Couto vereador
Manoel Lopes Pereira Bahia Suplente de Comerciante, ocupante de --- Mariana Carolina do Barão de Meriti
vereador cargos públicos (português) Espírito Santo Lopes
Simplício da Silva Nepomuceno Era suplente de Rio de Janeiro, Freguesia Traficante de escravos --- Maria Thereza de Jesus
vereador e assume o da Candelária
mandato em lugar
de Antônio Pereira
Pinto
Venâncio José Lisboa Suplente de Desembargador. Família 1850 Úrsula Maria do Cavaleiro da Ordem de Cristo.
vereador ligada ao comércio, Bonsucesso
Deputado e Presidente da
Província de SP (1838) e do
MA (1843).
Domingos Alves Pinto Procurador
Antônio dos Santos Cunha Encarregado da
Contabilidade
333

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Este banco de dados foi estruturado a partir das informações pesquisadas em vasta documentação:

ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (AGCRJ)

Almotacés (1791– 1811 / 1817 – 1819) 39-2-14


Almotacés (1807) 39-2-15
Almotacés (1820 – 1821) 39-2-16
Almotacés (1821) 39-2-17
Almotacés (1822) 39-2-18
Almotacés (1822 – 1824) 39-2-19
Almotacés (1825) 39-2-10
Almotacés (1826) 39-2-21
Almotacés (1827) 39-2-22
Almotacés (1828 – 1829) 39-2-23
Almotacés (1830) 39-2-24
Almotacés (1812 – 1813) 39-2-4
Atas da Câmara Municipal (18/01/1830 – 18/10/1831) 17-1-1
Atas da Câmara Municipal (20/10/1831 – 17/09/1833) 17-1-2
Termos de posse e juramento (1792 – 1830) 48-3-3
334

Tratamento de Senhoria a CM 18-1-8


Vereanças (1814-1821) 16-3-25
Vereanças (1822-1827) 16-3-27
Vereanças (1828-1830) 16-3-28
Sessões da Câmara Municipal (1830 – 1870) 18-1-32
Portarias do Senado da Câmara (1816 – 1818) 7-3-26
Posses e juramentos da CM (1791 – 1830) 48-3-3
Posturas e infrações (1793 – 1830) 48-3-7

ARQUIVO NACIONAL (AN)

Códice 223 – vol. I nº 01529. Registro de eleição de


vereadores de várias eleições.
Almanak administrativo, mercantil e industrial Laemmert
“Termos de Bem Viver”. Coleção Polícia da Corte. Códice 410 – vol. 1 e 2.
Termo de informação das pessoas idôneas para servirem os cargos da governança desta Corte. Códice 812, vol. I, 31 de outubro de
1815.
Provedoria da Fazenda Real, Códice 242, vol. 1, 01552
Secretaria da Real Junta do Comércio-matrícula de negociantes, termos de juramentos de testemunhas . Códice 170, 01424 ,volume 1
Junta do Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação – livro de matrícula dos negociantes de grosso trato e sua guarda-livros e
caixeiros. Códice 171, 01427, volume 1.
Registro de eleições de vereadores de várias vilas e cidades do Brasil (1812-1823), Códice 223
Ordens Honoríficas, Códice 14 – Latas verdes
Índice alfabético de A a Z (ordens honoríficas), Códice 116
Termos de juramentos e testemunhos, Códice 117
335

Inventários Post-mortem e Testamentos, diversos códices


Diversos documentos, Códice 812, volumes 1, 2, 3,4

ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO (ACMRJ)


Certidão de Óbitos – Freguesia de Santana – 1817-1838: índice E 636; 1838- 846: E 637
Freguesia de São José – 1831-1848 índice E 053
Freguesia de Nossa Senhora da Candelária – 1809-1838: índice E 738
Freguesia de Nossa Senhora da Glória – 1835-1855: índice E 789
Freguesia do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé – 1830-1833: índice E 162
1833-1837: índice E 163
1837-1840: índice E 164
1840-1843: índice E 165

Registros de casamentos – Freguesia de São José, índice I-028 A


Freguesia de Santa Rita, índice I-032, 0549/0550
Freguesia de Sant’Ana, índice I- 040 – 0681
Freguesia do Engenho Velho, índice I-056 – 0446
Freguesia da Candelária, AP 791

Bibliografia consultada:

FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: um estudo sobre o tráfico atlântico de escravos para o porto do Rio de Janeiro (c.1790 – c.
1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1993.
FRAGOSO, João Luís. Homens de grosa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro(1790-1830). Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de
Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2002.
336

DICIONÁRIOS BIOBIBLIOGRÁFICOS

BITENCOURT, Liberato. Homens do Brasil: em todos os ramos da atividade e do saber, de 1500 aos nossos dias. Gomes Pereira
Editor. Rio de Janeiro. 1914

BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; BUENO, Antônio Henrique de Cunha. Dicionário das Famílias Brasileiras. Projeto Cultural e
Coordenação Geral ÍberoAmérica Comunicação e Cultura SC Ltda: São Paulo, vol. 1 e 2, 2000.

BLAKE, Sacramento. Dicionário biobibliográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1970.

MACEDO, Joaquim Manuel de. Anno Biographico Brazileiro, 3 volumes.


RIBEIRO FILHO, J. S. Dicionário biobibliográfico de escritores cariocas (1565-1965). Livraria Brasileira Editora. Rio de Janeiro,
1965.

SANTOS, L. G. Memória para servir à história do Reino do Brasil. Vol. 1 e 2.

SOUZA, J. Galante de. Índice de Biobibliografia Brasileira.


ii

OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A CÂMARA MUNICIPAL


DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO:
estabelecendo trajetórias de poder (1808-1830)

JUPIRACY AFFONSO REGO ROSSATO

Tese de Doutorado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em História
Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro como requisito parcial para a
obtenção do grau de Doutor em História.

Orientador: Prof. Dr. Manolo Garcia Florentino

Rio de Janeiro

Março de 2007
iii

OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A CÂMARA MUNICIPAL DA


CIDADE DO RIO DE JANEIRO:
estabelecendo trajetórias de poder (1808-1830)

Jupiracy Affonso Rego Rossato

Orientador: Prof. Dr. Manolo Garcia Florentino

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da


Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do
grau de Doutor em História.

Aprovada pela Banca Examinadora:

__________________________________________________________
Professor Dr. Manolo Garcia Florentino – Presidente
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________________
Professora Dra. Juliana Beatriz Almeida de Sousa
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________________
Professor Dr. Antônio Carlos Jucá de Sampaio
Universidade Federal do Rio de Janeiro

__________________________________________________________
Professora Dra. Maria de Fátima Silva Gouvêa
Universidade Federal Fluminense

__________________________________________________________
Professor Dr. Marco Morel
Universidade Estadual do Rio de Janeiro

__________________________________________________________
Professor Dr. Roberto Guedes Ferreira – Suplente
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

__________________________________________________________
Professor Dr. João Luis Ribeiro Fragoso – Suplente
Universidade Federal do Rio de Janeiro
iv

Rossato, Jupiracy Affonso Rego


Os negociantes de grosso trato e a Câmara Municipal do Rio de Janeiro:
estabelecendo trajetórias de poder/ Jupiracy Affonso Rego Rossato. - Rio de Janeiro:
UFRJ/ IFCS, 2006.
xii, 323f.: il.; 31 cm.
Orientador: Manolo Garcia Florentino
Tese (doutorado) – UFRJ/ IFCS/ Programa de Pós-graduação em História Social,
2007.
Referências Bibliográficas: f. 162-172.
1. Evolução da cidade do Rio de Janeiro. 2. A Câmara Municipal da cidade do Rio
de Janeiro. 3. Os negociantes de grosso trato e a Câmara Municipal da cidade do Rio
de Janeiro. 4. A atuação dos negociantes de grosso trato na Câmara Municipal da
cidade do Rio de Janeiro. 5. A Câmara Municipal e os negociantes de grosso trato no
contexto do Primeiro Reinado. I. FLORENTINO, Manolo Garcia. II. Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História Social. III. Os
negociantes de grosso trato e a Câmara Municipal do Rio de Janeiro: estabelecendo
trajetórias de poder (1808-1830).
v

Dedico esse trabalho ao meu pai, pela sua insistência na importância do estudo,
e a quem eu fiquei devendo essa alegria, e à minha mãe, tão frágil, mas em quem ainda
procuro força e razões para seguir adiante.
vi

Agradeço sinceramente

ao meu orientador Professor Dr. Manolo Garcia Florentino, pela confiança;

à Professora Dra. Juliana Beatriz Almeida de Souza, que, apesar de suas


ocupações, jamais me deixou sozinha, com sua voz amiga e tranqüilizadora e seus
e-mails esclarecedores e gentis;

ao Professor Dr. Maurício Abreu, pelo interesse demonstrado por esta pesquisa;

ao Eduardo, por seu trabalho impecável e pelo ouvido companheiro;

à CAPES, cuja Bolsa de Doutorado foi imprescindível para a dedicação ao


trabalho;

às minha irmãs Giracy, Iacy, Icy e Igicy, pelo incentivo constante e o ombro
amigo;

ao meu irmão Tupiacy, pela atenção e suas soluções mirabolantes no suporte


técnico;

aos meus filhos, Bruno e Ligya, que, cada um ao seu estilo, me encorajaram e
ajudaram sempre;

ao meu marido Osmar que, após esses quatro anos de Doutorado, não desistiu de
estar casado comigo;

ao Leonardo e a Thaís, que buscavam palavras de consolo, quando me viam


desesperada e deram apoio logístico;

às minhas netas, Julia e Luiza, a quem eu devo pagar muita atenção e dengo, que
ficaram adiados para depois da Tese...

à Sônia, a quem eu deleguei tarefas vitais para a minha tranqüilidade e que foi
firme nas horas precisas;

aos sobrinhos, cunhados, amigos, colegas de trabalho, enfim, a todos que se


preocuparam e dividiram este momento comigo.
vii

SUMÁRIO

PALAVRAS INICIAIS.............................................................................................................13
CAPÍTULO 1 – EVOLUÇÃO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO ................................21

CAPÍTULO 2 - A CÂMARA MUNICIPAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO..........32

2.1- A CÂMARA MUNICIPAL E A CONSTITUIÇÃO DE 1824: LEI DE 1º DE


OUTUBRO DE 1828..................................................................................................................43

CAPÍTULO 3 - OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO .............................................53

3. 1- A PROXIMIDADE À COROA........................................................................................55
3. 2 - VISÃO GERAL DO GRUPO......................................................................................... 58
3. 3 - NEGÓCIOS + PRESTÍGIO = MERCÊS E HONRARIAS.............................................68
3. 4 - UNIDOS EM NOME DO PODER..................................................................................76
3.5. FORTUNAS AMEALHADAS E NEM SEMPRE MANTIDAS......................................86
3.6. ALGUMAS PALAVRAS..................................................................................................88

CAPÍTULO 4 - OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO NA CÂMARA MUNICIPAL


DO RIO DE JANEIRO...........................................................................................................93

4.1 - DOIS CAMINHOS METODOLÓGICOS........................................................................99


4.1.1. Composição das Câmaras Municipais do Rio de Janeiro.........................................100
4.1.2. Estrutura das sessões do Senado da Câmara Municipal da cidade do Rio de
Janeiro.....................................................................................................................................105

4.1.3. Temas das vereanças....................................................................................................106


4.2. MUDANÇAS POLÍTICAS.......................................................................................118
4.2.1. 1815 - 1818 ................................................................................................................... 118
4.2.2. 1820 – 1822 ...................................................................................................................123

CAPÍTULO 5 - A CÂMARA MUNICIPAL E OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO


NO CONTEXTO DO PRIMEIRO REINADO....................................................................130

5.1. O PERÍODO PÓS-INDEPENDÊNCIA .....................................................................130


5.2. A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DA CÂMARA MUNICIPAL .......................................138
5.3. OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A NOVA CÂMARA MUNICIPAL........152
5.4. OBSERVAÇÕES FINAIS.................................................................................................155

CONCLUSÃO ........................................................................................................................158

REFERÊNCIAS......................................................................................................................161
viii

ANEXOS .................................................................................................................................172

APÊNDICE .............................................................................................................................289
ix

LISTA DE ABREVIATURAS

AN – ARQUIVO NACIONAL
AGCRJ – ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
BN – BIBLIOTECA NACIONAL
ACMRJ – ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO
NA – NOTA DA AUTORA
x

RESUMO

Este estudo analisa a participação do grupo denominado de negociantes de


grosso trato, dedicado ao comércio de longa distância, na Câmara Municipal da
cidade do Rio de Janeiro, no início do século XIX, entre os anos 1808 e 1830. Esse
trabalho tem como objetivo maior distinguir as formas pelas quais esse grupo, que
figurava como grandes importadores de escravos, serviu-se dos cargos da governança
para construir seus espaços próprios de poder, aproveitando-se das estratégias e
procedimentos propiciados pela instituição, utilizados como resposta ao processo de
redefinição de sua importância política no contexto do grande reordenamento político-
institucional, que caracterizou o período abordado.

Em busca de meu intento, utilizei extensa documentação, formada pelas atas


das sessões da Câmara Municipal, listas de desembarque de escravos, inventários,
testamentos, ordens honoríficas, termos de juramento, certidões de óbito e casamento,
entre outros documentos, pesquisados no Arquivo Nacional, Arquivo Geral da Cidade
do Rio de Janeiro, no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, Instituto
Brasileiro Histórico Geográfico e no Colégio de Genealogia. Além disso, foi feita
uma análise dos órgãos administrativos presentes na ordenação da cidade, como a
Intendência de Polícia, o Ministério do Império e a própria Câmara Municipal do Rio
de Janeiro. A produção historiográfica sobre o tema foi, certamente, de extrema valia.
xi

ABSTRACT

This study analyzes the participation of the called thick treatment traders group,
dedicated to the long distance commerce, at Rio de Janeiro’s Municipal Chamber, at
the beginning of XIX century, between 1808 and 1830. This work has as greater
objective to distinguish the ways in which this group, that appeared as big slaves
importers, was served of the govern positions to construct their own power spaces,
taking advantage of the strategies and procedures propitiated by the institution, used as
reply to the redefinition process of its politics importance in the context of the great
politician-institutional rearrangement, that characterized the mentioned period.

In my search, an extensive documentation was used, including minutes of the


Municipal Chamber sessions, slaves disembark lists, inventories, wills, honorific
orders, oath terms, death and marriage certificates, among others documents, all
researched in the National Archive, Rio de Janeiro General Archive, in the archive of
Rio de Janeiro Metropolitan Bar, Brazilian Geographic Historical Institute and at
the Genealogy School. Moreover, an analysis of the administrative agencies that were
present at the city decree was made, such as the Police Intendency, the Empire
Ministry and the proper Rio de Janeiro’s Municipal Chamber. The history graphical
production about the subject was, certainly, of extreme value.
xii

“ Os Mestres podem abrir a porta, mas só você pode entrar...”


PALAVRAS INICIAIS

Os estudos iniciais sobre a economia colonial brasileira basearam-se na premissa


de que esta repousou, não só no período colonial como no imperial, sobre a atividade
agrícola e, conseqüentemente, as denominadas elites agrárias formavam o único grupo
social, detentor do mando político e sustentáculo da estrutura monárquica vigente.

Estes estudos apontavam para a formação, no século XVII, de

“ [...] uma nobreza da terra que, por meio de “expedientes” políticos retirados
do Antigo Regime português, adquire a hegemonia sobre a sociedade. Essa
nobreza, através da conquista de terras e de homens (guerras justas, ou não,
contra o “gentio da terra”), do sistema de mercês e domínio da Câmara
Municipal, conseguiu se apropriar de parte do excedente de sociedade colonial.
Tratava-se de um conjunto de mecanismos de acumulação cuja base era o
comando político sobre uma sociedade em formação; esse comando assumia a
forma de cargos administrativos nomeados pela Coroa (provedores da fazenda,
capitães de fortaleza etc.) e postos na “Câmara Municipal” [...]
O sistema de mercês consistia numa tradição medieval portuguesa, pela qual a
coroa concedia benesses (terras, comendas, cargos militares e civis etc.),
recompensando os seus leais vassalos. A posse de tais mercês, particularmente
na forma de cargos, representava o exercício do poder sobre a sociedade.
Quanto às Câmaras, as melhores famílias da terra, através das vereanças,
podiam interferir nos preços do mercado, como o dos alimentos, açúcar e fretes
dos navios, e delegar monopólios sobre bens públicos (açougue público e
balança do açúcar) para privilegiados. Na verdade, nesse século, a economia era
gerida a partir da política.” 1 .

1
FRAGOSO, João. “Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil”.
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 29, 2002. Cf. também em “A nobreza da República; notas sobre a formação
da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro”. Topoi. Revista de História do Programa de Pós-Graduação em
História Social da UFRJ. Rio de Janeiro: UFRJ/7 Letras, n. 1. O termo “nobreza da terra” foi utilizado em
variados momentos nesta Tese.
14

Jack Greene 2 , analisando o papel desempenhado pelas áreas periféricas na


instituição dos impérios ultramarinos, afirma que a idéia de um Estado centralizado,
auto-suficiente, atuando como centro irradiador de poder, através do estabelecimento de
um pacto colonial que só desfavorecia as colônias deve ser relativizada, uma vez que os
países colonizadores não podiam prescindir da força política daqueles que possuíam
interesses locais e exerciam a autoridade nas colônias, autoridade esta advinda,
principalmente, do fato de não serem absenteístas, mas sim proprietários moradores,
presentes e capazes de perceber a força que possuíam para negociar e o status que
poderiam alcançar e manter, através de barganhas políticas. Para Portugal, em
particular, os chamados “homens bons”, membros das Câmaras municipais, são um
exemplo bem específico e apropriado da importância das instâncias locais de poder.

O surgimento de novas pesquisas sobre a importância do poder local em relação


ao poder central e ao próprio papel dos diferentes segmentos ligados à economia
colonial neste poder local, aprofundando o tema e trazendo diferentes metodologias de
análise, levou alguns autores a se dedicarem a rever essa posição, incorporando
diferentes dados e conclusões, que, se não alteraram de forma completa o antigo
panorama, certamente lhe conferiram novas possibilidades de compreensão.

Nesse sentido, autores como Manolo Florentino e João Fragoso 3 , principalmente,


ampliaram as discussões historiográficas sobre a atividade econômica colonial do
Brasil, aprofundando nelas a análise da figura do “negociante de grosso trato”,
mormente no que tange a sua participação nos destinos políticos do período colonial e,
mesmo, imperial, o que faz com que forme, junto aos seus iguais, um grupo dominante
na primeira metade do século XIX.

Segundo Ronaldo Vainfas, “grosso trato significava, literalmente, ‘grande

2
GREENE, Jack. "Negociated Authorities", in: Negociated Authorities. Essays in Colonial Political and
Constitutional History. Charlottesville and London. University Press of Virginia, 1994.
3
Cf. FLORENTINO, Manolo Garcia. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o
Rio de Janeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 e FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura:
acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2ª.ed., 1998
15

comércio’ [...] (e os) ‘negociantes de grosso trato’ ou ‘homens de negócio’, (eram)


basicamente financistas e usurários, diferenciando-se dos comerciantes que vendiam a
‘retalho’, ou seja, que tinham lojas”. 4

Fragoso define os comerciantes de grosso trato como "negociantes, em geral,


envolvidos simultaneamente no tráfico internacional de escravos, no abastecimento
interno e nas finanças coloniais" 5 , uma vez que não era seguro aplicar todo o seu capital
num só investimento, devido à fragilidade do mercado.

Também para Anna Laura Teixeira de França

“Os mercadores coloniais expandiam seu negócio em diversas atividades, de


modo que o homem de negócios era um comerciante com interesses no
comércio de exportação, que financiava engenhos de açúcar, que possuía
armazéns e quotas na marinha mercante, e que também mantinha uma loja de
varejo desde que esta não fosse sua principal atividade.
As atividades mercantis possibilitavam a formação de intricadas redes e tinham
por objetivo garantir a ascensão social de determinados grupos da sociedade
colonial. Como uma característica do período, geralmente a escolha dos agentes
dos grandes comerciantes orientava-se em função de alianças familiares e
clientelistas,[...] os comerciantes também procuravam ocupar cargos públicos,
fazendo dos mesmos uma fonte de renda complementar.” 6

Em Lisboa, desde 1757, de acordo com Aníbal de Almeida Fernandes, “o


comércio de grosso trato, em si mesmo, era considerado uma profissão nobre, não
proibida à nobreza hereditária e ainda uma profissão própria para quem desejasse
adquirir nobreza.” 7 . É possível aplicar esse mesmo raciocínio para o Brasil, uma vez
que D. João VI, a partir de sua chegada à colônia, utilizou-se amplamente do “principal

4
VAINFAS, Ronaldo (org.) – Dicionário do Brasil Colonial, 1500-1808 – Rio de Janeiro: Editora Objetiva,
2000, p. 287.
5
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro
(1790-1830), op.cit. p.34.
6
FRANÇA, Anna Laura Teixeira de França. “As possibilidades de ascensão social oferecidas no Pernambuco
Colonial – Séculos XVII e XVIII”. Mneme – Revista de Humanidades. Dossiê Cultura e Sociedade na América
Portuguesa Colonial, v.5, n. 12, out./nov.2004. Disponível em http://www.seol.com.br/mneme. Acesso em
setembro de 2006.
7
FERNANDES, Aníbal de Almeida. A dinastia Bragança e as raízes da nobreza brasileira: dinâmica
social no Portugal dos Braganças a partir do século XVI, março, 2006. Disponível em
http:///www.jbcultura.com.br/anibal/dinastia/htm. Acesso em junho de 2006.
16

capital econômico de que dispunha a monarquia, que era a concessão de títulos


nobiliárquicos e lugares nas ordens militares e religiosas para remuneração dos mais
variados serviços prestados” 8 e grandes doações feitas pela elite nativa e, inclusos nela,
os negociantes de grosso trato.

O objetivo geral deste trabalho foi perceber a atuação do grupo desses


negociantes, ligados mais especificamente ao comércio de escravos africanos, na cidade
do Rio de Janeiro, no período de 1808 a 1830. Partiu-se da idéia de que este grupo
buscava estar próximo ao poder para, através dele, definir sua importância e se habilitar
ao recebimento de mercês e honrarias reais, utilizando-se para isso de todos os espaços
abertos a sua participação, a fim de consolidar posições de mando, já adquiridas no
período colonial, e estabelecer outras, buscando manter seu status quo. A fim de atingir
seu intento, essa pesquisa dedicou-se aos mais variados aspectos da vida desses
negociantes, incluindo aí suas relações comerciais, políticas e alianças matrimoniais.

A partir do cruzamento dos dados amealhados neste estudo, chegou-se a uma


questão específica: a participação deste grupo nos órgãos de governança, em especial na
Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro. Entre os principais negociantes de
grosso trato, foram encontrados cerca de 40 homens que, em algum momento, dentro
do período analisado, pertenceram a essa instituição municipal. Surgiu, então, uma
conseqüente proposta de trabalho, baseada na atuação destes homens na governança
municipal, buscando o entendimento da importância dos cargos ocupados para a
realização de seus projetos maiores.

Nesse sentido, um de meus objetivos foi perceber de que forma a Câmara


Municipal buscou se apropriar de todos os espaços de ação que suas funções lhe
facultavam – funções essas esvaziadas pouco a pouco, com a criação de outras
instâncias de autoridade pública –, a fim de retomar a importância política que balizou
sua criação, ainda no período colonial, e se manter como lócus de poder em meio à
imbricação de poderes existentes na capital da Corte. Assim, os referenciais teóricos
8
idem.
17

que nortearam esse trabalho foram permeados pela própria discussão dos conceitos de
poder e do “dom”, este último equivalente, neste trabalho, às “mercês”, honrarias,
títulos e outras benesses reais, que pudessem “engrandecer” aquele que as recebesse.

Através das “mercês” reais recebidas, os membros desta Câmara viam meios de
aumentar seu prestígio, participando do próprio governo, através de cargos ou do
estabelecimento de relações parentais, via casamentos. As “mercês”, em meu
entendimento, funcionavam como o próprio “dom”, que segundo Marcel Mauss,
“encadearia três obrigações: de dar, de receber, aceitar e de restituir, uma vez que
aceitou”. Maurice Godelier, analisando e desenvolvendo o conceito de Mauss, vai mais
longe, afirmando que “o dom aproxima os protagonistas porque é partilha e os afasta
socialmente porque transforma um deles em devedor do outro. Pode-se divisar o
formidável campo de manobras e de estratégias possíveis contido virtualmente na
prática do dom e a gama de interesses opostos que ele pode servir” 9 .

Para a execução do presente trabalho, partiu-se da hipótese geral de que o acesso


aos cargos de vereança e almotaçaria poderiam trazer benefícios políticos e uma maior
proximidade do poder real – o que lhes garantiria acesso a variadas mercês (“dons”),
que os qualificavam como participantes de uma “nobreza da terra” e, portanto, capazes
de influenciar os projetos políticos do Brasil colônia e império, contrapondo suas
atividades comerciais à agrário-exportadora, tida como base da economia brasileira e
principal influência política junto à Corte.

Maria Fernanda Bicalho, utilizando-se também da definição do conceito de


“dom”, sintetizado por Godelier 10 , refere-se ao fato de que,

“As câmaras constituíram-se em uma das principais vias de acesso a um


conjunto de privilégios que permitia nobilitar os colonos; e que, ao transformá-
los em cidadãos, levou-os a participar do governo político do Império.

9
GODELIER, Maurice. O enigma do dom. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.14.
10
ibidem , p. 23.
18

[...](Pelo) O ato régio de conferir honras e privilégios [...] aqueles


beneficiados passariam a estar ligados ao monarca por uma rede baseada em
relações assimétricas de troca de favores e serviços.[...]” 11

A relação entre o poder local e o poder central, via recebimento do “dom”, é


também, de certa forma, apontada por Godelier, que afirma que o “dar” estabelece uma
relação de superioridade, pois “aquele que recebe o dom e o aceita fica em dívida para
aquele que deu.” Nesse sentido, os membros da Câmara, empenhados em relações com
o poder central, ao mesmo tempo que distribuíam “dons” no seu desempenho junto à
população, mantendo-o “devedora”, referendava o poder real, numa retribuição às
honrarias que recebiam.

Foi seguindo esta hipótese específica que esse estudo estruturou-se em cinco
capítulos, apêndices e anexos.

No primeiro capítulo, busquei enfocar a evolução histórica da Cidade do Rio de


Janeiro. Preocupei-me em estabelecer as bases da evolução da cidade, sua ampliação e
organização territorial e, principalmente, institucional, com a criação de vários órgãos
responsáveis pelo sossego da cidade, como a Intendência de Polícia, após a chegada da
família real.

No segundo capítulo, procurei estabelecer a forma pela qual a sua Câmara


Municipal se estruturou neste espaço. Nesse sentido, estive atenta às suas atribuições e
seus mecanismos de funcionamento, na tentativa de estabelecer um panorama geral,
discutindo suas relações com a Secretaria dos Negócios do Ministério do Império, a
qual ela estava diretamente submetida. Procurei privilegiar as discussões
historiográficas tradicionais sobre a importância da Câmara Municipal diante de outras
instituições que tornavam a cidade do Rio de Janeiro um caso específico dentro do

11
FRAGOSO, J., BICALHO, Maria Fernanda B. & GOUVÊA, M. de Fátima (org.). O Antigo Regime nos
trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.
206-207.
19

conjunto provincial que formava o Império e seu projeto de se tornar uma capital à
altura da Corte portuguesa que abrigava, um local de civilidade e urbanidade, segundo
moldes europeus. Utilizei neste capítulo a bibliografia sobre o tema, bem como as Atas
e outros documentos da Câmara Municipal, pesquisados no Arquivo Geral da Cidade
do Rio de Janeiro.

No terceiro capítulo, analisei o grupo especial a que se atém esta tese, formado
por negociantes de escravos, ligados à vereança ou à almotaçaria, que, através da
prestação de serviços à Coroa portuguesa, obtinham, além de mercês e privilégios, o
prestígio que os colocava entre os formadores da “nobreza da terra”. Busquei
identificar suas redes de alianças, principalmente matrimoniais e a significação política
das mesmas. Com esse objetivo, utilizei, além da bibliografia sobre o tema, dados
compilados em inventários, testamentos, ordens honoríficas, termos de juramento,
certidões de óbito e casamento, entre outros documentos, pesquisados no Arquivo
Nacional, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, no Arquivo da Cúria
Metropolitana do Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro Histórico Geográfico e no Colégio
de Genealogia. Como apêndice a esse capítulo foram apresentadas três árvores
genealógicas, que buscaram dar maior visibilidade às alianças matrimoniais realizadas
pelo grupo de negociantes de escravos.

No quarto capítulo, procurei distinguir as medidas aprovadas, na Câmara


Municipal do Rio de Janeiro, por este grupo de comerciantes de escravos, buscando
compreender a lógica de suas posições tomadas, a partir de seus interesses maiores de
se estabelecerem em certa igualdade com os grandes senhores de terra, no que tange à
proximidade do poder. Para tanto, utilizei a documentação presente no Arquivo
Nacional e no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, referente ao Senado da
Câmara Municipal.

No quinto capítulo, dediquei-me a analisar as mudanças sofridas pela Câmara


Municipal da cidade, no contexto do Primeiro Reinado e suas transformações políticas,
dando ênfase ao grupo específico estudado por este trabalho. Foi utilizada a
20

documentação já mencionada no parágrafo anterior.

Em um outro apêndice, ao final da Tese, foi apresentado um Banco de Dados,


reunindo elementos coletados nas diversas fontes já citadas, incluindo as informações
pesquisadas sobre aqueles que tiveram cargos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro,
no período de 1808 a 1830. Acredito ser este um valioso instrumento para o estudo
dessa instituição, na primeira metade do século XIX.

A seção de anexos foi formada por alguns documentos importantes para este
trabalho, tais como decretos, resoluções, alvarás e leis, bem como os inventários e
testamentos de alguns dos negociantes estudados.

Utilizei o método histórico (crítica interna das fontes), buscando cruzar a


documentação com o contexto histórico em que ela se insere: as tensões, os conflitos, as
estruturas e relações sociais. Carlo Ginzburg 12 propõe um método de conhecimento cuja
essência está na observação do detalhe como fundamental à explicação. O paradigma
do “saber indiciário”, proposto por ele, tem sua força no “pormenor revelador” e foi a
essa busca que me lancei, na tentativa de dar conta da leitura dos documentos que se
referem à atuação dos negociantes de grosso trato na Câmara Municipal do Rio de
Janeiro, atentando para os indícios que pudessem me auxiliar a resgatar a vivência
desse grupo na construção de uma cidade, que lhe garantisse sua sobrevivência política
e social.

12
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e História. SP. Companhia das Letras, 1991. pp.
143-179.
CAPÍTULO 1

EVOLUÇÃO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

A cidade do Rio de Janeiro teve um desenvolvimento espacial, econômico e


social bem específico. Leila Algranti 13 , abordando esse tema, aponta três momentos
diversos. O primeiro teria ocorrido a partir da fundação da cidade, em 1565, quando
esta foi criada como Vila de São Sebastião, para legitimar a política portuguesa de
preservação da colônia contra as ameaças de invasão francesa; o segundo momento
teria tido lugar após a descoberta de ouro nas Minas Gerais, em fins do século XVII,
que veio terminar com o período de estagnação ocorrido após a fundação da cidade.
As duas capitanias foram então ligadas e o Rio de Janeiro transformou-se no porto
exportador do minério. A terceira etapa teria se iniciado com a transferência da
capital de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro, para facilitar a fiscalização da
metrópole sobre os negócios. Com isso, a cidade passou a ser a sede do governo
português na América, abrigando, a partir de 1763, o vice-reinado, tendo, por
conseguinte, passado por inúmeras obras de urbanização e embelezamento para fazer
jus a sua nova posição.

A chegada da família real portuguesa, em 1808, demonstrou, no entanto, o


quanto a cidade ainda necessitava de modificações. Kátia Mattoso afirma que “cidade
e campo são, no Brasil dos séculos XVII, XVIII e até mesmo no XIX, estreitamente
inter-relacionados, com limites espaciais imprecisos e estreita simbiose econômica,
sendo as cidades “pomares”, hortas, campos urbanizados” 14 . Segundo Maurício
Abreu, na verdade, a cidade do Rio de Janeiro ainda tinha contornos indefinidos, no

13
ALGRANTI, Leila. O feitor ausente: estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro. 1808-1822. Ed. Vozes,
Petrópolis, 1988, p.27 - 29.
14
MATTOSO, Kátia. Ser escravo no Brasil. Editora Brasiliense, 1981, p.13.
22

início do período oitocentista, ocupando um limite estreito, entre os Morros do


Castelo, São Bento, Santo Antônio e da Conceição, num espaço “duramente
conquistado à natureza, através de um processo de dissecamento de brejos e mangues
que já durava mais de três séculos” 15 . Prova disso é que, em 25 de outubro de 1808, o
Príncipe Regente, D. João, aprovava a determinação do Senado da Câmara, que
estabelecia “uma nova demarcação do terreno da cidade do Rio de Janeiro: de um
lado o rio das Laranjeiras, por outro o Rio Comprido, por outro o mar, em toda a sua
circunferência”. Além disso, mandava-se pôr marcos na ponte do Catete junto ao rio
das Laranjeiras, nas duas pontes que estavam na passagem do Rio Comprido. 16

O estabelecimento da Corte na cidade passou a exigir providências que


assegurassem o atendimento das necessidades básicas de uma população em fase de
crescente aumento, a qual se incorporava, além de tudo, “estrangeiros de várias
nacionalidades, ligados principalmente ao comércio e ao corpo diplomático, bem
como grande parte dos funcionários do Estado portugueses” 17 .

Segundo Noronha Santos,

“A cidade do Rio de Janeiro, nos seus primórdios, era dividida sob um aspecto
eclesiástico em diversas freguesias ou paróquias, as quais se limitavam aos
territórios de jurisdição religiosa, em princípio. Depois, essas mesmas
freguesias passaram a abranger os territórios de jurisdição administrativa.” 18

A primeira freguesia a ser criada foi a de São Sebastião, pela provisão de 20 de


fevereiro de 1569. Várias outras a seguiram, mas, em 1821, treze anos após a
chegada da família real, e a um ano da independência do país, o Rio de Janeiro ainda
era restrito a cinco freguesias urbanas (Candelária, São José, Sacramento, Santa Rita e

15
ABREU, Maurício de A. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. 3ª edição. Prefeitura da Cidade do Rio de
Janeiro, Secretaria Municipal de Urbanismo. IPLANRIO, RJ, 1997, p. 35
16
Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, doravante AGCRJ, Limites da Cidade do Rio de Janeiro, códice
68-3-1. Tanto este quanto os documentos subseqüentes tiveram sua grafia e acentuação atualizadas.
17
ABREU, Maurício de A., op.cit.
18
SANTOS, Noronha. As freguesias do Rio Antigo vistas por Noronha Santos. Edições O Cruzeiro, 1965.
23

Santana), sendo as demais existentes predominantemente rurais (Irajá, Jacarepaguá,


Campo Grande, Inhaúma, Ilha do Governador, Guaratiba, Engenho Velho, Ilha de
Paquetá).
Para Maurício Abreu,

“ já nesta data podia-se notar, entretanto, uma tênue diferenciação social .


Abrigando agora o Paço Real, na atual Praça XV, e as repartições mais
importantes do Reino, as freguesias da Candelária e São José transformaram-
se gradativamente em local de residência preferencial das classes dirigentes
entre as cinco freguesias urbanas, que ocupavam os sobrados das ruas estreitas
da Freguesia da Candelária, [...], as chácaras recentemente retalhadas em
terras situadas ao sul da cidade (nos atuais bairros da Glória e Catete),
seguindo assim os passos da rainha Carlota, que morava em Botafogo. As
demais classes, por outro lado, com reduzido ou nenhum poder de mobilidade,
[...] adensavam cada vez mais as outras freguesias urbanas, especialmente as
de Santa Rita e Santana, dando origem aos atuais bairros da Saúde, Santo
Cristo e Gamboa.” 19

A cidade carecia de infra-estrutura básica, principalmente no que concernia aos


transportes, o que obrigava a população a se concentrar em determinados pontos,
sendo o centro da cidade o maior núcleo de atração. Nesse sentido, ainda de acordo
com Abreu, a diferenciação das moradias das elites e da massa do povo era mais de
forma do que de localização das mesmas.

O crescimento ocorreu rapidamente. Roberto Guedes Ferreira 20 , utilizando


dados para a Freguesia de São José, avalia a expansão da cidade pelo aumento do
número de imóveis: para o período de 1780 a cidade comportava 5.827 imóveis
urbanos (residenciais e/ou comerciais); de 1808 a 1810, 7.548 imóveis; 10.151 em
1821 e 13.423 em 1838.

19
ABREU, Maurício, op. cit., p. 37. Sobre a data de criação das freguesias, Cf. SANTOS, Noronha, op. cit.
Candelária (1634), Irajá (1644), Jacarepaguá (1661), Campo Grande (1673), Ilha do Governador (1710),
Inhaúma (1749), São José (1751), Santa Rita (1751), Guaratiba (1755), Engenho Velho (1762), Ilha de Paquetá
(1769), Lagoa (1809), Sant’Ana (1814), Sacramento (1816, em substituição a de São Sebastião), Santa Cruz
(1833), Glória (1834), Santo Antônio (1854), São Cristóvão (1856), Espírito Santo (1865), Engenho Novo
(1873) e Gávea (1873).
20
FERREIRA, Roberto Guedes. Na pia batismal: família e compadrio entre escravos na Freguesia de São José
do Rio de Janeiro (primeira metade do século XIX). Dissertação de Mestrado, UFF, Niterói, 2000, capítulo 2, p.
49.
24

Novas freguesias foram sendo criadas no período de 1821 a 1838: Engenho


Velho, que passou a atrair a população mais favorecida economicamente pelo fato da
família real residir em São Cristóvão e Lagoa (que incluía Botafogo e suas chácaras,
em seu arrabalde), ambas surgindo no censo de 1821 ainda como freguesias rurais; e a
freguesia da Glória, em 1834, desmembrada da de São José, fruto do crescimento
populacional urbano do Catete e do bairro das Laranjeiras.

A divisão da cidade em freguesias e, posteriormente, dessas em distritos, era


feita pelo Senado da Câmara, denominado mais tarde, após a Lei de 1º de outubro de
1828, Câmara Municipal. Pode-se pensar que, nem sempre, essa fragmentação do
espaço era bem explicitada, uma vez que reiteradas portarias e avisos eram feitos pelo
Ministério dos Negócios do Império, através de sua Secretaria, a quem a Câmara
reportava-se diretamente, para que esta se pronunciasse sobre o tema. Um exemplo
disso pode ser observado na Portaria do Ministro do Império, Estevão Ribeiro de
Rezende, em 3 de junho de 1825, que solicitava que “o Senado da Câmara determine
circunstanciadamente todos os limites do distrito ou termo desta cidade” 21 . Outro
exemplo surge na Portaria do Ministro José Clemente Pereira, de 24 de abril de 1829,
solicitando que “o Ilustríssimo Senado da Câmara envie a relação das freguesias que
há na cidade e seu termo e das capelas filiais curadas e não curadas de cada
freguesia” 22 . Uma Decisão da Regência, através do Ministro da Justiça, Diogo
Antônio Feijó, em 14 de julho de 1831, estipulava que a Câmara fizesse uma divisão
do termo da cidade em quatro partes proporcionais a sua população, para nomeação
dos juízes criminais 23 , enquanto uma nova divisão civil e judiciária da província do
Rio de Janeiro foi decretada em 15 de janeiro de 1833, sendo feita a partir das
Instruções do Código do Processo Criminal de 13 de dezembro de 1832, ficando cada
distrito composto de 75 “fogos” 24 . A freguesia de Sacramento ficou assim dividida

21
AGCRJ. Limites e divisões de freguesias(1825),, códice 68-3-4.
22
AGCRJ. Limites e divisões de freguesias (1809-1833), códice 68-3-2 .
23
Coleção das leis do Império do Brasil de 1830. Parte Primeira e Segunda: Coleção das Decisões do Governo
do Império do Brasil, Decisão nº 175. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1876.
24
Coleção das leis do Império do Brasil de 1832, Parte Primeira, Lei de 29 de novembro de 1832,Título I,
capítulo I, art. 2º. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1874. Cf. Anexo A, ao final deste trabalho.
25

em três distritos; São José, três distritos; Candelária, dois distritos; Santa Rita, dois
distritos; Sant’Ana, dois distritos e Engenho Velho, também dois distritos. 25

O Ato Adicional, Lei no 16, de 12 de agosto de 1834, fez alterações e adições à


Constituição Política do Império, conforme já havia sido determinado pela Lei de 12
de outubro de 1832 e instituiu o Município Neutro ou da Corte, ficando o termo da
cidade desmembrado da província do Rio de Janeiro.

Assim, já no final da primeira metade do século XIX, o Rio de Janeiro se


apresentava de forma bem diferente. Com a abertura de novas estradas que levavam à
periferia da cidade, as classes que possuíam renda mais alta deslocaram-se do centro
urbano, que já estava congestionado, em direção à Lapa, Catete, Glória (freguesia da
Glória), Botafogo (freguesia da Lagoa) e São Cristóvão (freguesia do Engenho
Velho). Já a freguesia de Sant’Ana, junto com a de Santa Rita, acomodava as
populações urbanas de baixa renda, tais como trabalhadores livres e escravos “de
ganho” que tinham a necessidade de habitar perto do local onde podiam encontrar
trabalho.

A partir de 1850, a cidade incorporava novas áreas à área urbana e outras


freguesias foram criadas: Santo Antônio, em 1854, desmembrada da de São José,
Santana e Sacramento e fruto dos novos trabalhos de drenagem do Saco de São
Diogo; São Cristóvão, criada em 1856, anteriormente pertencente à Freguesia de
Engenho Velho; e Espírito Santo, em 1865, desmembrada das freguesias de Santo
Antônio, Engenho Velho e São Cristóvão. O centro manteve-se como local de
residência das populações pobres da cidade, que habitavam em cortiços, concentrados
nas imediações dos centros de negócios, principalmente nas freguesias de Santana,
Santo Antônio, São José e Santa Rita. Esses cortiços eram vistos como verdadeiros
centros de epidemias e insalubridade e foram, por isso, os primeiros alvos da
reforma do prefeito Pereira Passos, já no início do século XX.
25
Coleção das leis do Império do Brasil de 1833. Parte Primeira e Segunda: Coleção das Decisões do Governo
do Império do Brasil. Decisão nº 31, Edital de 28 de janeiro de 1833. Rio de Janeiro, Typographia Nacional,
1873.
26

Pode-se bem imaginar a necessidade de um projeto efetivo que garantisse a


segurança da cidade, em face, até mesmo, da confusa divisão territorial. Era
necessário ordenar não só o espaço como também a população, colocando-a sob
rígido controle. Assim sendo, uma das primeiras providências tomadas pelo Príncipe
Regente D. João, para tornar o espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro mais
adequado à presença da família real, foi a criação da Intendência Geral da Polícia da
Corte e do Reino, pelo Alvará de 5 de abril de 1808, e o cargo de Intendente Geral da
Polícia da Corte e do Estado do Brasil, em 10 de maio do mesmo ano, da mesma
forma e com a mesma jurisdição que tinha o de Portugal, segundo o Alvará de sua
criação, de 25 de Junho de 1760, que criou, para a cidade de Lisboa, a Intendência
Geral da Polícia do Reino. 26

Antes da chegada da corte portuguesa ao Brasil, “a polícia praticamente não


existia. [...] A organização judiciária e policial do Brasil colônia era um emaranhado
de cargos com funções cujos limites de poder e jurisdição se chocavam, tornando-se
bastante difícil precisar, com clareza, a competência própria de cada cargo e/ou
órgão” 27 . A Intendência Geral da Polícia da Corte e do Império do Brasil era
responsável “pelas obras públicas, pelo abastecimento da cidade e segurança pessoal e
coletiva, o que incluía a ordem pública, a vigilância da população, a investigação
dos crimes e a captura dos criminosos” 28 , ou seja, a fiscalização de tudo que se
referisse à vida na cidade, indo “a esfera de ação da Polícia desde a segurança
pública às questões de saúde, passando pelos conflitos conjugais e familiares e
pelo recrutamento” 29 . A Intendência centralizou todas as atribuições policiais que
estavam dispersas pelas várias outras autoridades coloniais, tais como ouvidores
gerais, alcaides-mores e menores, capitães-do-mato e quadrilheiros, todas

26
Coleção das leis do Brasil (1808-1811). Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1890.
27
REIS, Marcos de Freitas. “ A Intendência Geral da Polícia da Corte e do Estado do Brasil: os Termos de Bem
Viver e a ação de Paulo Fernandes Viana”. Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH). Anais da II
Reunião. São Paulo, 1983.
28
HOLLOWAY, Thomas. A Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio
de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. p. 46.
29
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. “A Intendência-Geral da Polícia: 1808-1821”. Acervo. Rio de Janeiro, v.1, nº
2, pp. 137-251, jul.-dez. 1986.
27

consideradas instituições policiais, “ impropriamente chamadas civis”. 30

Coube ao primeiro intendente de polícia da cidade do Rio de Janeiro, Paulo


Fernandes Viana, que esteve no poder de 1808 a 1821, a nova organização da cidade.
Ele representava a vontade direta do monarca e “seu cargo englobava poderes
legislativos, executivos e judiciais” 31 . Ocupou-se esse primeiro intendente de
tarefas que foram desde a pavimentação e iluminação de ruas à construção de
aquedutos e fontes públicas, que minorassem o problema de abastecimento de
água da cidade. Adolfo Morales sublinha que o intendente dotou “a cidade de
inúmeros melhoramentos, introduzindo novos costumes e estabelecendo necessárias
disposições policiais e urbanas” 32 . Data também de seu mandato a criação da Guarda
Real, responsável pela segurança de D. João, pelo Decreto de 13 de maio de 1808 e da
Divisão Militar da Guarda Real da Polícia do Rio de Janeiro – da qual se originaria a
atual Polícia Militar –, que tinha a função de zelar pela ordem pública, fazendo, para
isso, tudo que estivesse ao seu alcance, incluindo aí a perseguição a criminosos e a
33
manutenção do controle sobre os escravos, pelo Decreto de 13 de maio de 1809 .
Ambas as corporações eram subordinadas à Intendência Geral – que pode ser vista
como o núcleo de uma “polícia civil”, burocrática.

Uma das mais interessantes medidas de Paulo Fernandes foi a instituição dos
“Termos de Bem Viver”, que se mantiveram em vigência mesmo após o ocaso do
poder do intendente e sua morte, sendo citado no Código do Processo Criminal, em
1832 34 .

Os “Termos de Bem Viver”, segundo Marcos de Freitas Reis, “formalizavam


compromissos assumidos por uma, duas ou mais partes perante o intendente ou um

30
SILVA, José Luiz Werneck da. “A polícia no município da corte: 1831-1866”. In: A polícia na corte e no Distrito
Federal. Rio de Janeiro, série Estudos PUC/RJ, v. 3, 1981.
31
idem
32
RIOS FILHO, Adolfo Morales de los. O Rio de Janeiro Imperial. Rio de Janeiro: Topbooks, UniverCidade Editora, 2ª
edição, 2000, p. 130.
33
Coleção das leis do Brasil (1808-1811), op. cit.
34
Coleção das leis do Império do Brasil (1832), op.cit., Título II, Capítulo II, “Dos Termos de Bem Viver e de
Segurança”.
28

seu representante. Esses compromissos referiam-se a uma gama variada de aspectos


de infração da ordem pública ou privada” 35 : bom relacionamento entre cônjuges,
parentes, vizinhos; limitação do trânsito de determinados indivíduos por certos
logradouros, freguesias, etc; relações entre senhores e escravos, coibindo sevícias,
cárcere privado dos cativos, furtos de cativos ou por eles praticados; cumprimentos
de posturas, com as respectivas penalidades para a violação das mesmas, entre
outros. Quando esses compromissos deveriam ser assinados ou o que levava a
Intendência a exigi-los não foi possível determinar, uma vez que a documentação
pesquisada não foi suficientemente esclarecedora 36 .
Outros trunfos guardava a Intendência Geral de Polícia da Cidade do Rio de
Janeiro para estabelecer a ordem. Entre eles, o seu próprio elemento humano,
representado, principalmente, por seus comandantes da Guarda Real. Um dos mais
conhecidos deles foi Miguel Nunes Vidigal, que atuou de 1809 até sua
aposentadoria, em 1824. Vidigal, segundo Holloway, comandava um grupo
truculento, pouco preocupado com considerações éticas a respeito do tratamento que
deveria ser dispensado aos que caíssem em suas mãos. Utilizava seu chicote, “de
haste longa e pesada, com tiras de couro cru em uma das extremidades, o qual podia
ser usado como cacete ou chibata” 37 , de forma indiscriminada, principalmente em
escravos, mas também em qualquer um que fosse considerado vadio ou ocioso.

A Polícia – incluindo aí tanto a Intendência Geral quanto a Guarda Real – era


sustentada pelas elites econômicas e políticas, através de “taxas e empréstimos
privados, além de subvenções dos comerciantes locais e proprietários de terras” 38 .
Nesse sentido, seu papel principal deveria ser defender os interesses desses grupos,
suas propriedades, seu “status quo” e controlar o espaço público da cidade. A
Intendência de Polícia realizava um trabalho intensivo para manter dentro de limites
rígidos um conjunto explosivo de brancos pobres, escravos, libertos e imigrantes

35
REIS, Marcos de Freitas, op.cit. p. 97.
36
Termos de Bem Viver. Arquivo Nacional, doravante AN, códice 410, vol. I e II.
37
HOLLOWAY, Thomas, op.cit., p. 48-49
38
idem
29

portugueses, estes últimos vigiados também de perto, uma vez que era preciso
certificar-se que “vinham com fins pacíficos, só para trabalhar, não para fazer
conspirações absolutistas ou republicanas ou tramarem a recolonização” 39 , um temor
que não deixava de rondar as mentes das autoridades, mesmo alguns anos após a
independência. Assim, era fundamental que a cidade funcionasse de acordo com os
interesses do grupo dominante e Vidigal e os seus comandados cumpriam à risca suas
funções, buscando “infundir terror nos corações dos ociosos, vadios e escravos
recalcitrantes” 40 .

A partir de 1825, o novo intendente geral da polícia, Francisco Alberto


Teixeira Aragão, buscou intensificar o controle social na cidade, através de uma série
de regulamentos policiais internos, que incluía inúmeras iniciativas a favor de uma
repressão violenta e sistemática da população livre pobre e dos escravos urbanos,
tendo instituído um toque de recolher a ser seguido por toda a população. Essa medida
acabou por se tornar quase que folclórica, uma vez que o horário marcado para o
recolhimento e o fechamento das casas comerciais – 22 horas no verão e 21 horas no
inverno 41 – era precedido pelo insistente badalar do terceiro sino de São Francisco de
Paula, que tocava, sem parar, durante meia hora. Segundo Coaracy, “as freiras de
Santa Teresa adotaram o hábito de repicar um dos sinos do seu convento vinte
minutos antes do “toque do Aragão” [...] para avisar aos pretinhos para que se
recolhessem e não se deixassem pegar pela ronda dos quadrilheiros” 42 .

Em janeiro de 1825, Aragão estabeleceu uma série de rígidas normas policiais,


que seriam reforçadas ainda mais em novembro do mesmo ano, quando um decreto
real criou o cargo de comissário, uma espécie de assistente direto do intendente,
juntamente com um regulamento composto de 19 artigos, a ser implementado pelos
novos funcionários. Entre os artigos, pode-se citar o Artigo 1º, que estabelecia a

39
RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no
Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: FAPERJ, 2002, p. 175.
40
HOLLOWAY, Thomas, op.cit., p. 48-49.
41
ibidem, p.58.
42
COARACY, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1988, p.,246.
30

proibição de ajuntamentos de dia ou à noite, principalmente de pretos escravos ou


forros, prevenindo desordens; o 2º, que prevenia sobre a vadiagem e a mendicância; o
5º, que proibia a reunião de pessoas nos botequins e armazéns; o 8º, que regulava o
uso de armas de fogo; o 13º, que estipulava o açoitamento do escravo preso
praticando desordens, além de recomendações sobre a venda de carnes, falsificação de
pesos e medidas, e etc. Singularmente, mesmo sem o comissariado ter sido
implantado – em seu lugar criou-se a figura do Juiz de Paz, em 1827, – esses artigos
transformaram-se em posturas municipais, a partir de 1830, o que pode revelar
bastante sobre qual seria a preocupação principal dos grupos responsáveis pela
segurança e tranqüilidade da cidade. 43
A Intendência Geral da Polícia e os órgãos a ela subordinados mantiveram-
se em pleno funcionamento até cerca de 1828, quando a Câmara Municipal,
juntamente com os Juízes de Paz, veio trazer para si muitas das responsabilidades que
até então concerniam àquelas instituições.

O cargo de Juiz de Paz já havia sido criado pela Constituição de 1824 44 e foi
regulamentado pela Lei de 15 de outubro de 1827 45 . Eram leigos e eleitos localmente,
da mesma forma que os vereadores 46 , sendo os responsáveis pela divisão dos distritos
em quarteirões (“que não conterão mais de 25 fogos”), para onde eles nomeavam
auxiliares, denominados “inspetores de quarteirão”, civis que atuavam desarmados,
para evitar infrações, investigar crimes, prender e julgar infratores de pequenos
delitos. O Juiz de Paz foi a figura central do Código do Processo Criminal, de 1832,
que “acaba praticamente com o aparato judiciário criminal herdado desde a Colônia, o
Reino Unido e o Primeiro Reinado [...] (havendo) a transformação ou substituição nas
Instituições Policiais” 47 , extinguindo as Ouvidorias de Comarca, os Juízes de Fora

43
Para uma melhor compreensão do alcance das medidas tomadas por Aragão e as instituídas pelo regulamento
do comissariado, ver Anexo B, ao final deste trabalho. AN, caixa 777, pacote 1.
44
PORTO, Walter Costa (Coord.). “A Constituição de 1824”. In: Constituições do Brasil. Brasília, 1987, Título
6º, “Do Poder Judicial”, Capítulo único, “Dos Juízes e Tribunais de Justiça”, artigo 162.
45
Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1827. Primeira Parte, p. 67-71 – Atos do Poder
Legislativo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. Cf. Anexo C, ao final deste trabalho.
46
Cf. Anexo D.
47
SILVA, José Luiz Werneck da., op.cit., p. 197, nota 111.
31

(estes sim, letrados) e os Ordinários (que eram eleitos, anualmente pelos “homens
bons” e substituíram os antigos “Alcaides”). Já em 1841, o Juiz de Paz teve seu poder
e importância diminuídos, com o surgimento da figura do Chefe de Polícia, que se
encarregou de várias de suas antigas funções. 48

A abdicação de D. Pedro I, em 1831, com todas as suas implicações políticas,


não poderia deixar de trazer profundas modificações na organização policial. A
impossibilidade de D. Pedro de Alcântara, então com cinco anos de idade, assumir o
poder, levou o Brasil, ainda em fase de acomodação à sua nova posição de país
independente, a reforçar o aparato repressor. Em 1831, foi criada a Guarda Nacional,
organização não-militar para defender as liberdades constitucionais e a “Nação” 49 ,
exercendo ainda funções policiais. A abolição da Guarda Real de Polícia e a criação
do Corpo Militar de Polícia da Corte (base da futura Polícia Militar) também
ocorreram nesse ano, tendo o primeiro chefe desta Polícia da cidade, Eusébio de
Queiroz, organizado uma espécie de milícia, os “pedestres” (base da futura Polícia
Civil).

As figuras do Ouvidor, do Juiz de Fora e Ordinário, para Holloway, estavam


intimamente ligadas às lembranças da dominação colonial portuguesa e, dos primeiros
anos pós-independência até o início da década de 1830, “portugueses” e
“brasileiros” 50 viram-se envolvidos em confrontos políticos cada vez mais freqüentes,
os quais não eram minorados pelo estilo centralizador e autoritário de D. Pedro I.
Assim, o autor afirma que “a autoridade do intendente de polícia e da Guarda Real
48
Cf. Anexo E, ao final deste trabalho, Lei de 3 de dezembro de 1841, que reforma o Código do Processo
Criminal. Coleção das Leis do Governo do Império do Brasil de 1841. Rio de Janeiro: Typographia Nacional,
1889.
49
Cf. HOBSBAWN, Eric J. Nações e Nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade.Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1990, p. 27-31, onde o autor discute o significado da palavra “nação” para o período em questão,
demonstrando que ele se diferencia muito do conceito moderno do termo, que é “historicamente muito recente”.
50
Uma proveitosa discussão sobre o “ser português” e o “ser brasileiro” pode ser apreciada em RIBEIRO,
Gladys Sabina, op.cit., passim, onde a autora aponta que “até o início de 1822, nascer brasileiro significava “ser
português”, com isso designava-se apenas o local de nascimento dentro da Nação portuguesa [...] os
‘portugueses da Europa que ... moravam no Brasil eram também ‘ brasileiros’ ”. Ao longo da primeira metade
do ano de 1822, “os ‘brasileiros’ eram os moradores do Brasil”, não importando se fossem “portugueses da
Europa” ou “portugueses da América”, enquanto que “brasiliense” designava apenas os nascidos no Brasil. Um
novo significado para o “ser brasileiro” e o “ser português” foi uma construção política, necessária à ruptura
completa com Portugal, após a independência, diante do perigo da “recolonização”.
32

minguou juntamente com a do monarca” 51 . Em 1831, o ministro da Justiça, Manoel


José de Sousa França, ao convocar os Juízes de Paz, recém-eleitos, a policiar seus
distritos, afirmou que a Intendência Geral da Polícia “estava tão desacreditada na
opinião pública, que coisa ociosa fora o emprego dela para conseguir algum bom
resultado na pacificação dos ânimos agitados dos nossos cidadãos” 52 .

No início da década de 1830, portanto, pode-se ver a Câmara Municipal e o


Juiz de Paz, exercendo um importante papel ordenador do espaço urbano, incluindo o
papel policial, já que eles passaram a dividir com a polícia o controle das “violações
menores da ordem pública” – bebedeiras, jogo, prostituição, desordens, vozerios,
etc.), “através das posturas municipais e regulamentos policiais internos” 53 .

51
HOLLOWAY, Thomas, op.cit., p. 74.
52
idem
53
ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, São Paulo: Fapesp, 1999.
CAPÍTULO 2

A CÂMARA MUNICIPAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Em 1565, a administração do Capitão-mor Estácio de Sá, instituiu a “justiça


ordinária da terra, nomeando-lhe serventuários – juiz, alcaide-mor e alcaide-pequeno”.
Além disso, fundou o Conselho de Vereança ou Câmara, construindo “a Casa da
Câmara, assobradada, telhada e grande, no roçado de grande área no alto e encosta do
morro Cara de Cão”, sendo seu primeiro presidente o juiz ordinário Pedro Martins
Namorado 54 . O governador-geral Mem de Sá nomeou para ouvidor da Câmara
Christóvão Monteiro, em ato de 9 de abril de 1567; nomeou também juiz de órfãos,
escrivão e tabelião de notas, pregoeiros, meirinho, almotacéis 55 .

A Câmara seguia o estabelecido pelo Regimento de 1506, para a governação


municipal de Portugal, que era regido pelas Ordenações Manuelinas e, posteriormente,
as Afonsinas, onde havia um sistema representativo de participação indireta do povo
nos negócios públicos municipais, através dos “vereadores”, que substituíam a
assembléia dos “homens bons”. Esses “homens bons”, segundo Coelho da Rocha 56 ,
eram as pessoas mais gradas da terra e, posteriormente, de acordo com Cândido
Mendes 57 , “apenas os munícipes que já haviam desempenhado algum cargo na
administração local”. Segundo Fleiuss, pelas Ordenações Afonsinas, a Câmara era

54
FLEIUSS, Max. História Administrativa do Brasil. 2ª edição. SP: Companhia Melhoramentos de São Paulo,
1925.
55
SALGADO, Graça (Coord.). Fiscais e Meirinhos: a administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
56
ROCHA, M.A. Coelho da. Ensaio sobre a história do governo e legislação de Portugal. 7ª edição. Coimbra,
Universidade, 1896.
57
ALMEIDA, Cândido Mendes de. (Org.). Ordenações Filipinas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985
(reprodução da edição de 1870), nota 1 ao § 6º, livro I, art. 69)
33

composta pelos juízes ordinários, dois vereadores e dois almotacés 58 . Tanto os juízes
ordinários quanto os vereadores eram eleitos anualmente pelos “homens bons”, sendo
os primeiros confirmados pelo rei, podendo também servir de Juízes de Órfãos ou do
Crime, onde esses não existissem.

As discussões historiográficas a respeito das Câmaras não dão conta da


dimensão do tema, por si só, muito extenso e complexo e, talvez por isso, bastante
fragmentado em sua abordagem: existem autores que buscam o entendimento sobre a
autonomia e espaço de atuação das Câmaras; outros realizam estudos sobre os membros
da sociedade que formam essa Câmara; alguns pesquisam o lado econômico desses
órgãos locais; ou seja, a variedade dos trabalhos é considerável, mas o aprofundamento
ocorre em áreas específicas.

Discutindo a importância das Câmaras para o século XVI, por exemplo, João
Francisco Lisboa, afirma que, a princípio, o seu campo de ação era quase que ilimitado,
já que

“taxavam o preço do jornal dos índios e mais trabalhadores livres em geral, aos
artefatos dos oficiais mecânicos, à carne, à farinha, ao sal, às aguardentes, ao
pano e fio de algodão, aos medicamentos e ainda as próprias manufaturas do
Reino, regulavam o curso e o valor da moeda da terra; proviam sobre a
agricultura, navegação e comércio; impunham e recusavam tributos;
deliberavam sobre entradas, descimentos, missões; sobre a paz e a guerra com
os índios e sobre a criação de arraiais e povoações; prendiam e punham a ferros
funcionários e particulares; faziam alianças políticas entre si; chamavam,
finalmente, à sua presença e chegavam até a nomear e suspender governadores e
capitães”. 59

Para o século XVIII, tinham também como tarefa, de acordo com Boxer,

58
Segundo PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. “Almuthasib — Considerações sobre o direito de almotaçaria
nas cidades de Portugal e suas colônias”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 21, nº42, p. 365-395. 2001,
“a palavra almotaçaria foi usada, desde a Idade Média, tanto em sentido geral, para designar a instituição ou suas
atribuições, quanto em sentido particular, para designar as atividades mais correntes do almotacé e, depois, da
câmara em relação ao abastecimento das cidades. Almotaçar era fiscalizar o comércio, ou garantir que todos
pudessem encontrar alimentos no mercado, impondo racionamento quando preciso, ou, ainda, tabelar preços.
Neste último sentido, que chegou ao século XIX, a almotaçaria era qualquer tabelamento de preços...”
59
LISBOA, João Francisco. Obras. 2 vols. Lisboa, Matos Moreira & Pinheiro, 1901.
34

“distribuir e arrendar as terras municipais e comunais; lançar e cobrar taxas


municipais; fixar o preço de venda de muitos produtos e provisões; verificar a
qualidade das suas mercadorias; passar licenças para construção; assegurar a
manutenção de estradas, pontes, fontes, cadeias e outras obras públicas;
regulamentar feriados públicos e as procissões e ser responsável pelo
policiamento da cidade e pela saúde e sanidade públicas. O rendimento da
Câmara provinha diretamente das rendas da propriedade municipal, incluindo
das casas que eram alugadas como lojas, e dos impostos lançados sobre uma
grande variedade de produtos alimentares [...] . Outra fonte de rendimento
provinha das multas passadas pelos almotacéis e por outros oficiais àqueles que
transgrediam os estatutos e as regulamentações municipais (posturas).” 60

Raymundo Faoro faz uma crítica direta à interpretação de João Francisco Lisboa,
discordando da possibilidade da Câmara representar uma verdadeira instância de poder,
tanto no período colonial quanto no imperial

“a descrição de João Francisco Lisboa, colhida de um efêmero momento da


colônia, não traça um fiel retrato do município brasileiro, nos primeiro séculos
de sua formação. O estudo das fontes a desacredita: as câmaras nunca
passaram de corporações administrativas, sem a fantasiosa prerrogativa de
colaborar na vontade da política colonial”. 61

Segundo Faoro, as Câmaras foram criadas como um “terceiro elo da


administração colonial, [...] (tendo) nascido de preocupações fiscais do soberano, com o
estímulo de motivos militares e de defesa, sempre alheias ao espírito autonomista do
self-government anglo-saxão” 62 . Para o autor, apesar da aparente amplitude das
atribuições da câmara, ela somente atuava nos “casos de somenos importância: nos
mais graves, porém, convocavam as chamadas juntas gerais, nas quais se deliberava à
pluralidade de votos da nobreza, milícia e clero” 63 . Segundo o seu raciocínio, se houve
um momento em que essas instituições possuíram algum poder político, isso teria
ocorrido logo no início da colonização, quando a metrópole necessitava do concurso

60
BOXER, Charles R. O Império Colonial Português (1415-1825), Lisboa, edições 70, 1981, p. 308.
61
FAORO, Raymundo. “Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro”. Grandes nomes do
pensamento brasileiro. Editora Globo, Vol. I, p. 211.
62
ibidem, vol. I, p. 207.
63
ibidem, p. 210.
35

dos proprietários para efetivar a posse do território. Com o tempo, no entanto,

“a metrópole [...] logo se arrependeu, temerosa das conseqüências autonomistas


e descentralizadoras. Foi um momento fugaz, breve [...] e as câmaras se
convertem, depois de curto viço enganador, em simples executoras das ordens
superiores, [...] descem passo a passo a passivo instrumentos dos todo-
poderosos vice-reis, capitães-generais e capitães-mores. [...] As câmaras caíram
à categoria de departamentos administrativos da capitania.” 64

Em sua conclusão sobre o tema, esse autor afirma que o papel das câmaras não
se transformou nem mesmo a partir da independência política, já que, nas palavras do
autor

“O espírito da independência, com o estímulo prestado pelas câmaras locais ao


príncipe, a aprovação do texto constitucional por elas, fariam supor que o
espírito municipal conquistaria lugar de relevo nas novas instituições políticas.
A lei que organizou os municípios – a que cria em cada cidade e vila do império
câmaras municipais (lei de 1o de outubro de 1828) – ficou aquém da palavra
constitucional [...]. Em lugar de uma célula viva, diretamente nascida da
sociedade, associação superior à lei, [...] saiu um município tutelado. Sob o
fundamento de separar os poderes, confundidos e embaraçados no período
colonial, converte-se o município em peça auxiliar do mecanismo central.
Dotado de atribuições amplas [...], não possuíam rendas, senão as mínimas
indispensáveis à manutenção de seus serviços, sujeitas as câmaras ao
desconfiado e miúdo controle dos conselhos gerais das províncias, dos
presidentes provinciais e do governo geral. As posturas – a lei municipal, na
sua expressão atual – teriam vigência provisória de um ano, dependentes de
confirmação dos conselhos gerais da províncias, que as poderiam revogar e
alterar.” 65

Também Capistrano de Abreu, em sua conhecida obra, afirma que “nada


confirma a onipotência das câmaras municipais descoberta por João Francisco Lisboa, e
repetidas à porfia por quem não se deu ao trabalho de recorrer às fontes” 66 . Mais
adiante, o mesmo autor aponta, em correspondência a João Lúcio de Azevedo, em
1917, que “em São Paulo começaram a publicar as atas da Câmara. Já estão fora 11

64
idem.
65
FAORO, Raymundo, op.cit., p. 345.
66
ABREU, Capistrano. Capítulos de História Colonial: 1500-1800. 6ª edição. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira; Brasília, INL, 1976, p. 134.
36

volumes de que posso pouco extrair. Cada vez me convenço mais de que João
Francisco Lisboa falseou a história, dando-lhes uma importância que nunca possuíram
as municipalidades”. Na mesma nota, no entanto, se acrescenta a informação de que
Edmundo Zenha, diante das mesmas atas, entendeu dar razão às conclusões de
Lisboa 67 .

Caio Prado Júnior, aproxima-se do pensamento de Faoro, ainda que com alguma
sutil diferença. Para ele também, a Câmara tinha um “caráter de mero departamento
administrativo, subordinado ao governo geral e nele entrosado intimamente, [...]
(funcionando) como verdadeiros departamentos do governo geral, e (entrando)
normalmente na organização hierárquica administrativa dele”68 . Mas, diferentemente de
Faoro, esse autor entende que dada

“[...] a forma popular com que se constituem e funcionam, este contato íntimo
que mantêm com governadores e administrados, as Câmaras assumem um papel
especial. [...] (sendo) por ela que transita a maior parte das queixas e
solicitações do povo. Será esta a origem da força com que contarão mais tarde
as Câmaras para agir efetivamente, como de fato agiram, e intervir, muitas
vezes decisivamente, nos sucessos da constitucionalização, independência e
fundação do Império. Será o único órgão da administração que na
derrocada geral das instituições coloniais, sobreviverá com todo seu poder,
quiçá até engrandecido.” 69 (sem grifo no texto original)

José Luiz Werneck busca analisar o papel da Câmara Municipal do Rio de


Janeiro, em relação a outras instâncias de poder sediadas na cidade e desenvolve a idéia
– já veiculada por Caio Prado, em relação à Colônia como um todo – de que no Rio de
Janeiro havia a

“[...] confusão da jurisdição e da competência das autoridades sediadas, [...] (já


que) com a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, tanto o município
quanto a Província passaram para o controle do Ministério do Reino, depois do
Império. O ‘governo geral’ assumiu o controle do ‘governo regional’ (capitania
e província) e indiretamente sobre o governo ‘local’ (o município), já que o

67
ibidem, p. 228, nota 98. Cf. em ZENHA, Edmundo. O Município no Brasil (1532-1700). São Paulo, Ipê, 1948,
p. 32-37.
68
PRADO JÚNIOR, Caio,. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. 15. ed., São Paulo, Ed. Brasiliense, 1977, p. 326.
69
idem
37

Senado da Câmara permanecia” 70 .


Ao mesmo tempo, o autor afirma que apesar de ter papel meramente
administrativo, as Câmaras eram um espaço de representação da autonomia local, sendo
o “epicentro polarizador dos interesses agrários, mercantis e burocráticos do ‘partido
brasileiro’, formado por grandes proprietários de terra e de escravos, comerciantes e
setores burocráticos, [...] que comandou a participação política na independência 71 .
Nesse sentido, para esse grupo, os dispositivos do novo Regimento, estabelecido pela
Lei de 1o de outubro de 1828, que garantiam facilidades às atividades de produção
e circulação de mercadorias (§ 8o e 10o, do artigo 66), eram de fundamental
importância, mas, para além disso, sobressairia a necessidade da Câmara funcionar
também como um instrumento de repressão, fundamental nessa sociedade com uma alta
porcentagem de escravos e homens livres pobres” 72 .

Fátima Gouvêa, retoma os estudos clássicos aqui citados e afirma que

“[..] vários são os autores, que têm enfatizado o caráter um tanto promíscuo –
imbricação do público e do privado de forma desordenada – que vigorava no
interior das relações político-administrativas no Rio de Janeiro [...],
especialmente a partir de 1763, com sua elevação à condição de capital do Vice-
Reino do Brasil e, posteriormente em 1808, com a chegada da Família Real à
cidade. Esse novo quadro acarretava uma dificuldade de convivência entre
esses novos e diferentes órgãos que passavam então a integrar a administração
ali estabelecida. Numerosas eram as situações de tensão e contradição
vivenciadas pelos diferentes agentes, que mutuamente questionavam suas
competências e atribuições. Entretanto, a caracterização mais geral desse
relacionamento – ou seja – das práticas e comportamentos dos oficiais que
concorriam para a forma como se dava a articulação por um lado, entre os
órgãos e oficiais da administração colonial e por outro, entre esses grupos de
interesses situados na cidade – parece encontrar-se mais vinculada a um quadro
de cumplicidades e conivência entre interesses basicamente comuns...” 73

Maria Fernanda Bicalho também distingue momentos diversos da atuação da


Câmara, no que tange ao acúmulo de funções e poder. Pode-se entender que a autora

70
SILVA, José Luiz Werneck da., op.cit., passim.
71
idem
72
idem
73
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. “Redes de poder na América Portuguesa: o caso dos ‘homens bons’ do Rio
de Janeiro, ca. 1790 – 1822”. Revista Brasileira de História, v. 18, nº 36, p. 297 – 330. 1998, . p. 309.
38

relativiza, na verdade, tanto a possibilidade de um poder ilimitado para a Câmara,


quanto um simples papel administrativo para o órgão.

“A Câmara do Rio de Janeiro gozou, durante todo o século XVII de uma


autonomia impensável, se comparada à centúria seguinte .[...] Em 1647, D. João
IV [...] ampliou as prerrogativas da câmara, dentre as quais o direito – ou
privilégio – de ‘em ausência do governador e do alcaide-mor daquela praça,
faça a Câmara da dita Cidade o ofício de Capitão-Mor e tenha as chaves dela’.
Não obstante, a partir de finais do século XVII e início do XVIII, o exacerbado
poder econômico e político das câmaras foi sendo progressivamente
cerceado.[...] foram se constituindo progressivamente meios mais eficazes de
enquadramento político-administrativo dos poderes locais. Uma das primeiras
medidas nesse sentido foi a criação do cargo de juiz de fora [...] Sua
proliferação mais intensa [...] foi muitas vezes considerada pela historiografia
como prova do declínio do municipalismo, cerceado pelas pretensões
centralizadoras da monarquia. Essa interpretação vem sendo revista pela
historiografia nos últimos anos. O fato deste oficial ser nomeado pela Coroa e a
ele caber a presidência da Câmara – substituindo o antigo juiz ordinário eleito
pela comunidade – obscureceu o papel que ele desempenhou” 74 .

João Fragoso, observando a atuação das Câmaras na área econômica, apresenta o


conceito de “economia do bem comum”, a partir da possibilidade de famílias ligadas ao
serviço da governança local formarem fortunas , uma vez que

“as câmaras, em nome do bem comum da República, intervinham no mercado,


controlando os preços e serviços ligados ao abastecimento da cidade [...] No
caso do Rio de Janeiro, a instituição também discutia o preço dos fretes para o
reino e o preço do açúcar. Interferia, portanto, naquilo que se chama pacto
colonial (Novais, 1979), podendo ainda conceder o exclusivo de bens e serviços
essenciais à vida comum da cidade. [...] Tanto o senado da câmara quanto a
coroa – enquanto cabeças da República – retiravam do mercado e da livre
concorrência bens e serviços indispensáveis ao público, passando a ter sobre
eles o exercício da gestão. Em outras palavras, entremeando e interferindo nas
lavouras, no comércio e no artesanato do moradores dos concelhos/ súditos do
rei teríamos um conjunto de bens e serviços que poderiam ser identificados pelo
nome de ‘economia do bem comum’.” 75

Também Fleiuss afirma que, de uma ou outra forma, a partir de 1608, com a

74
FRAGOSO, João, BICALHO, Maria Fernanda Baptista & GOUVÊA, Maria de Fátima (org.). op.cit., p. 189-
222.
75
ibidem, p. 31-71.
39

promulgação das Ordenações Filipinas, uma profunda modificação vai atingir a


organização das Câmaras, que passam a ter funções muito menos amplas que as de
então. Isso se deu, de acordo com o autor

“à medida que os vice-reis foram concentrando em suas mãos todos os poderes


políticos, integrando o regime administrativo e fortalecendo a administração
militar [...] A Câmara se vê despida de suas funções judiciárias, que ficaram
reduzidas aos julgamentos com o juiz presidente, das ações de injúrias verbais,
pequenos furtos e causas de almotaçaria...” 76

Este esvaziamento de funções só viria a se agravar com a independência do


Brasil, em 1822 77 , principalmente com a Lei de 1º de outubro de 1828, que estabelecia
um poder meramente administrativo.

De todo modo, ainda em 1757, uma provisão régia concedeu ao Conselho de


Vereança ou à Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, o título de Senado da
Câmara 78 , que acumulava funções legislativas, judiciárias e tributárias. Outra
deferência foi demonstrada pela Decisão nº 13, de 14 de junho de 1808, que “concedia
ao Presidente do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, a honra e mercê de pegar em
uma das varas do pálio na procissão do corpo de Deus, como é costume, em Lisboa,
pegar o Presidente do Senado” 79 . Em Alvará de 6 de fevereiro de 1818, ainda o
Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro “seria premiado por D. João VI com o
tratamento de “Senhoria”, pois este ‘assistiu à aclamação e jurou lealdade ao povo da
cidade’, título negado por Portaria, em 26 de janeiro deste mesmo ano, à cidade de São

76
FLEIUSS, Max, op.cit.
77
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. “Câmaras”. In: VAINFAS, Ronaldo (Dir.) Dicionário do Brasil Colonial.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. pp. 88-90.
78
Segundo Cândido Mendes, op.cit., na nota de rodapé nº 1, nos comentários sobre o Livro I, Título LXVII, das
Ordenações Filipinas, somente as Câmaras da Bahia, São Luiz do Maranhão e São Paulo, além da do Rio de
Janeiro tiveram o título de Senado da Câmara. Para PRADO, Caio, op. cit., p. 348, “Senado é título honorífico e
especial que as Câmaras da colônia se arrogaram abusivamente. Só em raros casos o título será confirmado
legalmente”.
79
Coleção de leis do Brasil (1808-1811), op.cit., Decisão nº 13, de 14 de junho de 1808. Segundo Cândido
Mendes, “a vara era, e ainda é, a insígnia que trazem os juízes e oficiais seculares, em sinal de jurisdição, para que
fossem conhecidos e não sofressem, em suas ordens, resistências”. ALMEIDA, Cândido Mendes, op.cit., nota de
rodapé nº 1, Livro I, Título LXV.
40

Luiz do Maranhão 80 . Além disso, em decreto também de 6 de fevereiro de 1818,


concedeu aos habitantes da Cidade e aos que serviam no Senado da Câmara privilégios
de “aposentadoria passiva” 81 . Inicialmente, esses privilégios haviam sido concedidos
somente aos negociantes, em 1809 82 e janeiro de 1818 83 . Posteriormente, em 9 de
janeiro de 1823, seria mais uma vez agraciado, agora com o título de “Ilustríssima”,
concedido pelo imperador do Brasil, D. Pedro I, em reconhecimento ao apoio prestado
pela instituição camarária da cidade no desenrolar dos acontecimentos verificados em
fins de 1822” 84 . O tratamento de “Senhoria” e o título de “Ilustríssima” seriam
confirmados pelo Decreto nº 86 de 18 de julho de 1841:

“Querendo distinguir a Câmara Municipal desta cidade do Rio de Janeiro, que


além de ser a capital do Império teve a honra de assistir ao ato sublime da minha
sagração e coroação: Hei por bem fazer-lhe mercê do tratamento de Senhoria e
Ilustríssima, de que ficará gozando. Cândido José de Araújo Vianna, do meu
Conselho, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, o tenha
assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio
de Janeiro, em 18 de julho de 1841, vigésimo da Independência e do Império =
com a rubrica de Sua Majestade, o Imperador = Cândido José de Araújo
Vianna. 85

As Ordenações Filipinas modificaram a composição das Câmaras. O Senado da


Câmara da cidade do Rio de Janeiro passou a ser composto por três vereadores (quatro,
em algumas Câmaras), um procurador, um escrivão, tesoureiro e dois juízes almotacés
– que “tinham jurisdição contenciosa em causas de pequenos valores, nos embargos de
obras novas, e nas condenações por infrações de posturas...” 86 –, que serviam durante
três meses. Aqueles que tinham servido de vereadores e procurador no ano anterior,

80
idem.
81
Coleção de leis do Brasil (1818), Decreto de 06 de fevereiro de 1818. No meu entendimento, a aposentadoria
passiva garantia o direito de manter suas casas e seus negócios, sem o risco de serem obrigados a se retirarem
(aposentarem), conforme a conveniência do governo, por abertura de ruas ou mesmo pelo uso de suas habitações
por outrem, conforme já havia ocorrido quando da chegada da família real.
82
Cf. Anexo F.
83
Cf. Anexo F1.
84
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. “Redes de poder na América Portuguesa: o caso dos ‘homens bons’ do Rio
de Janeiro, ca. 1790-1822”. Revista Brasileira de História, v. 18, nº 36, p. 313.
85
AGCRJ. Tratamento de ‘Senhoria’ a Ilma. Câmara Municipal. códice 18-1-8. Decreto nº 86 de 18 de julho de
1841.
86
AZEVEDO, Moreira de. O Rio de Janeiro: sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades.
Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana Editora, vol. 1, 3 ed., 1969, p.512.
41

serviam de almotacés no ano seguinte, ficando os trimestres sobrantes para novos


eleitos para o cargo. O juiz de fora (um letrado, nomeado pelo monarca) era o
presidente do Senado e, na sua falta, presidia o vereador mais velho. Os vereadores
serviam por um ano e “de três em três anos reuniam-se com os que já tinham sido
vereadores, com os ‘homens bons’ (homens probos, proprietários de terras ou
burocratas) e, presididos pelo ouvidor da comarca, formavam uma lista de cidadãos
aptos para serem vereadores” 87 . A partir daí, o sistema eleitoral complicava-se, numa
sucessão de doze nomes, dos quais formavam-se três listas, cada qual de quatro nomes,
que eram lacradas e enviadas à Câmara, no mês de dezembro, colocadas em uma urna e
sorteada por um menino. No segundo ano, agia-se da mesma forma até que no terceiro
ano só restava uma lista, com os vereadores indicados para o mandato. Os cargos de
vereança eram obrigatórios, somente podendo admitir-se escusa com justa causa.
Vários vereadores buscavam eximir-se de nova responsabilidade, alegando prejuízo de
seus negócios, mas nem sempre tinham seus recursos deferidos. Por outro lado, alguns
permaneciam por longo tempo a serviço da Câmara, por pedido próprio 88 .

Entre os funcionários do Senado da Câmara, após 1808, incluíam-se os


responsáveis pela vacinação anti-variólica, cuja propagação era parte das preocupações
do governo. Em 4 de abril de 1811, o Príncipe Regente D. João, assinou o seguinte
decreto:

“Tendo mandado organizar nesta Corte, debaixo das vistas do Intendente Geral
da Polícia da Corte e Estado do Brasil, e do Físico-Mor do Reino, um
estabelecimento permanente, para que com mais extensão e regularidade se
propague e se conserve, em benefício dos povos, o reconhecido preservativo da
vacina e, querendo remunerar com gratificações proporcionadas as pessoas nele
empregadas: Hei por bem que pelo meu Real Erário se paguem a quartéis as
quantias declaradas as pessoas mencionadas na relação que será com este
assinada pelo Conde de Aguiar, do Conselho de Estado e Presidente do Real
Erário, com vencimento do dia em que principiaram a exercer os seus
respectivos empregos. O mesmo Conde d e Aguiar o tenha assim entendido e

87
ibidem., p. 511.
88
Antônio Gomes Barrozo, por exemplo, vereador em 1811, pede “por idade e por moléstia”, para não servir de
juiz almotacé em 1812. Seu pedido é deferido, sendo até mesmo alegado para isso que “sua casa de negócios e
seu engenho em Tagonhy (Itaguaí) davam trabalho, além do mesmo ser Provedor da Santa Casa de Misericórdia”.
Um exemplo de longa permanência no cargo pode ser o do juiz almotacé Antônio Luiz Pereira da Cunha, que
serve trimestres em 1816 e 1817.Cf. AGCRJ, códice 39-2-14, Almotacés.
42

faça executar por este Decreto somente, sem embargo de quaisquer Leis ou
disposições em contrário. Palácio do Rio de Janeiro, em 4 de abril de 1811.
Com a rubrica do Príncipe Regente” 89

Em 1820, pela Decisão nº 11, de 12 de fevereiro, através do Ministério do Reino,


estabeleceu-se a instituição vacínica nas capitanias. 90

Ainda em 1825,

“O Ilustríssimo Senado da Câmara manda participar a V.S. que do dia 14 do


corrente mês em diante se há de fazer a vacina na Casa da Câmara, no Campo
d’Aclamação, o que lhe participo para sua inteligência e ao mesmo passo lhe
rogo queira fazer-me mercê de participar o mesmo aos demais Ilustríssimos
Senhores Empregados na vacina para que assim o ficassem entendendo.
Deus guarde a V. S. muitos anos.
Rio de Janeiro, 6 de junho de 1825
Ilmo. Sr. Hércules Octaviano Muzzi
Francisco Pereira Matos” 91

Também o Decreto de 12 de setembro de 1826 autorizou a despesa com a


vulgarização e prática da vacina no Império:

“Sendo-me presente a resolução da Assembléia Geral Legislativa, que declarou


autorizado o Governo a fazer todas as despesas necessárias para a vulgarização
e prática da vacina em todo o Império: Hei por bem, tendo ouvido o Meu
Conselho de Estado, sancionar a referida resolução. Palácio do Rio de Janeiro,
em 12 de setembro de 1826, 5º da Independência e do Império. Com a rubrica
de Sua Majestade o Imperador
José Feliciano Fernandes Pinheiro” 92

“Manda S.M. o Imperador, pela Secretaria de Estado dos Negócios


Estrangeiros, remeta à Junta do Instituto Vacínico, o pus vacínico vindo da
Inglaterra, para dele fazer o conveniente uso, assim como participar-lhe que por

89
Coleção das leis do Brasil : Cartas de Lei, Alvarás, Decretos e Cartas Régias de 1811. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional,
1890.
90
Coleção de leis do Império do Brasil. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1889.
91
AGCRJ. Instituição Vacínica., códice 45-1-41.
92
Coleção das leis do Império do Brasil de 1826. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1881.
43

despacho expedido por esta repartição, do Visconde de Itabayana, se


ordenou venha de hora em diante o mesmo pus acondicionado de maneira
proposta pela referida Junta. Paço Imperial, 4 de dezembro de 1826.” 99

O Instituto Vacínico esteve ligado primeiramente ao Senado da Câmara e,


posteriormente, à Câmara Municipal, através do mesmo diretor, Hércules Octaviano
Muzzi, pelo menos até o início da década de 1840.

Também a Iluminação Pública seria responsabilidade da Câmara, a partir da Lei


de 1º de outubro de 1828, tendo a “Lei Orçamentária de 15 de dezembro de 1830,
mandado entregar à municipalidade os fundos necessários para atender às despesas com
esse serviço” 100 . Antes dessa data, esse serviço estava a cargo da Intendência de
Polícia e, em 1843, “desejando o Governo pôr, sob sua imediata inspeção, o serviço de
iluminação do Município da Corte, determinou, pela lei nº 317, de 21 de outubro, que o
mesmo ficasse a cargo do Ministério da Justiça” 101 , retirando-o da alçada da Câmara
Municipal.

2.2 A CÂMARA MUNICIPAL NA CONSTITUIÇÃO DE 1824 – LEI DE 1º DE


OUTUBRO DE 1828

A Constituição outorgada por D. Pedro I, em 1824, veio trazer novas definições


para o arranjo administrativo do recém-criado país. O governo imperial passou a se
organizar dividido em quatro Poderes Políticos: Moderador, Executivo, Legislativo e
Judicial.

O Poder Moderador era exercido pelo Imperador; o Executivo, era chefiado pelo
Imperador e exercido pelos seus ministros de Estado, que comandavam os Ministérios
do Império, Estrangeiros 102 , Guerra, Justiça 103 , Fazenda e Marinha, representados pelas

99
idem.
100
DUNLOP, C.J. Apontamentos para a História da Iluminação Pública da cidade do Rio de Janeiro. Impressos
1000 exemplares pelo sistema “Multilith”, na Companhia de Carris, Luz e Força do Rio de Janeiro, Ltda.
101
idem.
102
Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1822, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887,
Decreto de 2 de maio de 1822, que dividiu a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, que até
então formavam uma só Secretaria.
44

respectivas Secretarias de Estado dos Negócios. O Poder Legislativo era delegado pelo
Imperador à Assembléia Geral, que era composta por duas Câmaras: a dos Deputados –
eletiva e temporária – e a dos Senadores ou Senado – vitalício –, cujos membros
eram representantes das províncias do Império, que eram governadas por presidentes
nomeados pelo poder central. Nas províncias, onde a Capital do Império não estivesse
alocada, formar-se-iam Conselhos Gerais (a partir de 1835, as Assembléias Legislativas
Provinciais substituem os Conselhos Gerais, segundo resolução da Lei de 12 de outubro
de 1832, referendada no Ato Adicional de 12 de agosto de 1834). Por fim, o Poder
Judicial era exercido pelos Juízes (Juízes de Direito e Juízes de Paz, estes últimos
eleitos da mesma forma que os vereadores) e Tribunais de Justiça (em algumas
províncias, como na Bahia e Rio de Janeiro, havia a Relação, um tribunal para julgar as
causas em segunda e última instância e na capital do Império, além da Relação, havia o
Supremo Tribunal de Justiça).

No Rio de Janeiro, estava estabelecido o poder central, na figura do imperador e


seu gabinete de ministros, com destaque para o Ministro do Império, e a Assembléia
Geral Legislativa.

A Constituição definia nos três artigos de seu capítulo II, Das Câmaras, em seu
Título 7o, Da Administração e Economia das Províncias, que

“em todas as cidades e vilas ora existentes, e nas mais que para o futuro se
criarem haverá Câmaras, às quais compete o Governo econômico e municipal
das mesmas cidades e vilas [...] (sendo) as Câmaras eletivas [...] (e) o
exercício de suas funções municipais, formação das suas posturas policiais,
aplicação das suas rendas, e todas as suas particulares, e úteis atribuições ...
decretadas por uma Lei regulamentar.” 104

A Lei de 1º de outubro de 1828 instituiu o “Regimento das Câmaras Municipais

103
Coleção das Leis do Brasil (1821). Parte I (“Índice das Leis das Cortes Gerais Extraordinárias e
Constitucionais da Nação Portuguesa”). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1889. Lei de 23 de agosto de 1821,
pela qual D. João, atendendo às Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa divide a
Secretaria de Estado dos Negócios do Reino em duas: Secretaria de Estado dos Negócios do Reino e Secretaria de
Estado dos Negócios da Justiça. A partir de 1824, a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino torna-se a
Secretaria de Estado dos Negócios do Império.
104
PORTO, Walter Costa (Coord.). op.cit., 1987, Título 7o, cap. II.
45

do Império” e, em 1830, o Senado da Câmara foi extinto, instalando-se a Ilustríssima


Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro. Durante o ano de 1829 e início de
1830, houve um período de transição de poder, ficando o mandato dos membros do
Senado da Câmara transacto vigorando até meados do ano de 1830. Também o cargo
de juiz almotacé foi abolido pelo Decreto de 26 de agosto de 1830, passando os
processos que pertenciam a esses para os Juízes de Paz 105 .

O “Regimento das Câmaras Municipais do Império” estava dividido em cinco


Títulos: o 1o, definia a forma de eleição das Câmaras; o 2o, estipulava as funções
municipais; o 3o, referia-se às Posturas Policiais; o 4o, à aplicação das rendas e o 5o
versava sobre os empregados da Câmara. 106

As Câmaras das cidades passaram a ser compostas por nove membros e as das
vilas de sete e de um secretário, que teriam mandato de quatro anos (com
eleições realizadas no dia sete de setembro em todas as paróquias). Poderiam votar ou
serem votados todos aqueles designados nos artigos 91 e 96 da Constituição de 1824,
quais sejam, todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros naturalizados, podendo, em
qualquer parte que existissem, serem elegíveis em cada Distrito Eleitoral para
deputados ou senadores, ainda quando aí não sejam nascidos, residentes ou
domiciliados. Os vereadores poderiam ser reeleitos e o cargo poderia ser recusado, caso
a reeleição se desse de imediato. O eleito não poderia escusar-se de aceitar o cargo
quando de sua primeira eleição, salvo em caso de enfermidade grave ou se tivesse
emprego civil, eclesiástico ou militar.

Quanto às suas funções, as Câmaras seriam “corporações meramente


administrativas, e não exerceriam jurisdição alguma contenciosa” 107 . Quaisquer dos
vereadores e o presidente poderiam propor e discutir aquilo que lhes parecesse mais
relevante ou conveniente, desde que apresentado por escrito, assinado e datado.
Nenhum vereador poderia votar qualquer assunto particular, seu ou de seus

105
Coleção de leis do Império do Brasil de 1830, op.cit.
106
AGCRJ, códice 18-1-66, ou Coleção das Leis do Império do Brasil.(1828 – 1829) . Parte I, Poder Legislativo,
Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. Cf. Anexo G, ao final deste trabalho.
107
ibidem, Título 2°, art. 24.
46

descendentes ou ascendentes, irmãos ou cunhados.


A Câmara da Capital seria responsável por dar posse e juramento ao presidente
da Província e às Câmaras competiria “repartir o Termo em Distritos, nomear os seus
oficiais e dar-lhes títulos, dar título aos Juízes de Paz e fazer publicar por edital os
nomes e empregos destes funcionários” 108 .

Seria encargo da Câmara nomear uma comissão de cidadãos idôneos, que


visitaria prisões civis, militares, eclesiásticas, Cárceres dos Conventos dos Regulares e
todos os estabelecimentos públicos de caridade, a fim de informar sobre seu estado e os
melhoramentos que se faziam necessários. Também os maus tratos e atos de crueldade
praticados contra os escravos deveriam ser objeto de cuidado da Câmara, que se
encarregaria do melhor modo de preveni-los 109 .

O Título 3o, refere-se às Posturas Policiais. Pelo artigo 66 do Regimento da


Câmara, esta teria “a seu cargo tudo o que diz respeito à Polícia e economia das
povoações e seus termos, pelo que tomarão deliberações e proverão por suas posturas”
sobre vários objetos, tais como alinhamento, limpeza, iluminação e desimpedimento
das ruas, reparos e construção de aquedutos e chafarizes e sobre os artigos que dispõem
mais diretamente sobre a população da cidade, quais sejam “vozerios nas ruas em horas
de silêncio, injúrias e obscenidades contra a moral pública” 110 , e outras atitudes
normalmente atribuídas ao “populacho”, incluindo aí cativos ou pobres em geral,
fossem esses brancos ou mestiços.

Em relação à aplicação das rendas da Câmara, contemplada no Titulo 4o,


observa-se que todas as despesas deveriam ser autorizadas por Posturas ou
determinadas por deliberação da Câmara e que esta, não podendo fazer frente “a todos
os objetos de suas atribuições, preferirão aqueles que forem mais urgentes; e nas
cidades ou vilas aonde não houverem Casas de Misericórdia, atentarão principalmente

108
ibidem, art. 55.
109
Este dispositivo, na verdade, somente será levado em consideração na proposta de posturas apresentada à
Câmara em 13 de março de 1838 (AGCRJ, códice 18-2-1), transformando-se em postura na seção referente à
Polícia do Código de 1838.
110
ibidem, Título 3º, art. 66. § 4º.
47

na criação dos expostos, sua educação e demais órfãos, pobres e desamparados.” 111
Além disso, o Regimento frisava que as Câmaras eram subordinadas aos Presidentes
das Províncias, sendo-lhes vetado deliberar sobre assuntos não compreendidos no
próprio Regimento.

O Título 5o, refere-se aos empregados da Câmara e, pode-se observar, com o


passar dos mandatos, que o quadro de funcionários aumenta constantemente, conforme
às novas necessidades da cidade, que se ampliavam, e da própria instituição camarária,
de certa forma também presa à determinadas práticas clientelistas, que incluíam a
nomeação de “protegidos” para os cargos existentes.

Inicialmente, o regimento estipulava que fariam parte da Câmara um secretário,


que se encarregaria da escrituração de todo expediente, um procurador, a quem
competiria arrecadar e aplicar as rendas destinadas às despesas do Conselho, além de
defender os direitos da Câmara perante as Justiças Ordinárias e “demandar perante os
Juízes de Paz a execução das Posturas, e a imposição das penas aos contraventores
delas”. A Câmara também nomearia um porteiro para executar os serviços da casa, um
fiscal e seu suplente para cada Freguesia da cidade ou vila, a quem competiria vigiar a
observância das posturas da Câmara, promovendo sua execução e ficando responsáveis
pelos prejuízos ocasionados por sua negligência. No caso de julgamento das multas por
contravenções às Posturas das Câmaras, os responsáveis seriam os Juízes de Paz. O
Título 5o ainda esclarece que as Câmaras deveriam dirigir-se aos presidentes das
Províncias, em todas as coisas que a Lei de Outubro de 1828 estabelecesse, sendo que
na província onde estivesse a Corte, deveriam se reportar ao Ministro do Império e a
Assembléia Geral e, nas demais, estariam subordinadas ao presidente da província e à
Assembléia Provincial.

Aos poucos, também a Assembléia Geral Legislativa fez-se presente no controle


da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, principalmente no que remonta à
aprovação das posturas, como se pode observar no seguinte Decreto:

111
AGCRJ, códice 18-1-66, Título 4°, art. 76.
48

“Hei por bem sancionar e mandar que se execute a resolução seguinte da


Assembléia Geral Legislativa:
Art. 1º. As posturas das Câmaras Municipais terão vigor por mais um ano, se
antes disso não forem confirmadas, ou alteradas pela Autoridade competente,
podendo ser corrigidas no que a experiência tiver aconselhado, como vantajoso
ao Município.
Art. 2º. Ficam revogadas as Leis, Alvarás, Decretos e mais disposições em
contrário.
O Visconde de Alcântara, do meu Conselho, Ministro e Secretario de Estado
dos Negócios da Justiça, e encarregado interinamente dos do Império, o tenha
assim entendido e expeça os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro,
em 24 de Setembro de 1830, nono da Independência e do Império.
Com a rubrica de Sua Majestade Imperial. Visconde de Alcântara” 112

Mais tarde, esse controle torna-se mais explícito, pela Resolução de 25 de


outubro de 1831:

“Tendo a Assembléia Geral Legislativa, pela Resolução de 25 de outubro de


1831, determinado que as Posturas Municipais não poderão ser executadas sem
a sua competente e prévia aprovação e que esta tenha lugar provisoriamente
pelo Governo, quando a sua utilidade assim o exija e não se achar reunida nessa
ocasião a mesma Assembléia Geral, a qual devem ser depois apresentadas:
Manda a Regência, em nome do Imperador, pela Secretaria d’Estado de
Negócios, que a Câmara Municipal desta cidade remeta, com toda a brevidade,
a mesma Secretaria d’Estado uma cópia autêntica das suas posturas, para se
proceder a respeito delas, na conformidade da mencionada Resolução. Palácio
do Rio de Janeiro, em 06 de dezembro de 1831. José Lino Coutinho.” 113

A Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro dependia do Ministério do


Império para a criação de impostos e taxas, orçamentos, operações de crédito,
arrendamentos, troca ou venda de bens municipais, entre outros temas, já que era a
Secretaria do Estado dos Negócios do Império, que arcava com parte das despesas do
município, como aponta o Aviso abaixo:

“Manda o Regente, em Nome do Imperador, pela Secretaria d’Estado dos


Negócios do Império, participar à Câmara Municipal desta Corte, para sua
inteligência e em resposta ao seu ofício de 12 do corrente, que na data de hoje

112
Coleção das Leis do Império do Brasil de 1830, op.cit.
113
AGCRJ, códice 18-1-67.
49

se expediu Aviso à Repartição da Fazenda para pagamento da quantia de


5.930$566 réis, que a mesma Câmara despendera no mês de setembro findo,
com a Iluminação, Vacina e Passeio Público. Palácio do Rio de Janeiro, em 16
de Outubro de 1838. Bernardo Pereira de Vasconcellos 114

A correspondência trocada entre a Câmara da cidade do Rio de Janeiro e as


Secretarias de Estado dos Negócios dos Ministérios era intensa. De acordo com as Atas,
vê-se que todas as sessões iniciavam-se pela leitura da Portaria de uma das Secretarias,
que poderia versar sobre os mais variados temas: responsabilidade da Câmara em
relação à inspeção da Saúde Pública; conserto de chafarizes; obras de iluminação;
oferta de verbas para auxílio em obras públicas; a necessidade de se recomendar aos
Juízes de Paz a execução das Posturas; pagamento e nomeações para os mais variados
cargos; pedido de confecção de mapas da cidade; solicitação de relação de escolas de
primeiras letras; sobre a epidemia de cólera na Rússia; sobre os lugares que
necessitavam de calçamento; pedido de orçamento para a confecção de uma estátua
eqüestre; sobre a possibilidade de se guardar o cofre da Câmara no Tesouro Nacional e,
principalmente, respostas aos ofícios enviados à Secretaria pela própria Câmara.
Normalmente, essa correspondência seguia sempre o mesmo modelo:

“Ilustríssimo Excelentíssimo Senhor = A Câmara Municipal desta cidade


representa ao Governo que sendo muito interessante ao bem público a limpeza
das praias e ruas da cidade a cargo da mesma Câmara Municipal, segundo a Lei
de sua instituição, e que achando-se nas prisões da Corte muitos escravos, que,
apodrecendo nas mesmas prisões, se tem tornado inúteis à sociedade a quem
não prestam serviços e onerosos a seus senhores, responsáveis talvez pela sua
sustentação, quanto julgados isentos de crime, podendo tais indivíduos ser
aproveitados no serviço de limpeza da cidade; e que havendo também réus
sentenciados a trabalhos públicos, convirá muito que de uns e outros se ponham
a disposição da Câmara uma quantidade até quarenta, dando-lhe um suficiente
número de soldados para sua guarda, que diariamente vão receber e entregar nas
respectivas prisões acorrentados de dois a dois, ficando necessária a sua
organização a cargo da mesma Câmara. O que leva ao conhecimento de Vossa
Excelência para ser presente à Regência Provisória em Nome do Imperador.
Deus guarde a Vossa Excelência. Paço da Câmara Municipal do Rio de Janeiro,
4 de Junho de 1831”. 115

114
AGCRJ, Portarias do Governo à Câmara Municipal, 1832-1839, códice 47-4-66
115
AGCRJ, códice 47-4-65, passim.
50

Os ofícios e requerimentos enviados por ambas as partes não ficavam sem


resposta. Assim sendo, responde a Secretaria de Estado dos Negócios do Império, em
11 de Junho de 1831, ao supracitado ofício da Câmara:

“Sendo presente a Regência Provisória em Nome do Imperador o ofício da


Câmara Municipal desta Cidade de 4 do corrente mês, em que expõe ser
conveniente que se pusesse a sua disposição um suficiente número de escravos e
de outros réus sentenciados a trabalhos públicos, que se acham recolhidos nas
prisões para se empregarem na limpeza das ruas e praças desta cidade, a cargo
da mesma Câmara, segundo a Lei de sua instituição, pedindo com esta
providência o auxílio de soldados para servirem de guarda aos ditos presos:
Manda a Mesma Regência pela Secretaria de Estado dos Negócios do Império
participar a referida Câmara que ocorrendo o inconveniente de não haver
soldados que possam dispensar-se para tal serviço, não é possível dar-se a
providência que lembra. Palácio do Governo, em 11 de Junho de 1831. Manoel
José de Souza França.” 116

Pode-se ter mais um exemplo do teor da correspondência trocada pelo ofício


abaixo:

“Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: Sendo presente a esta Câmara Municipal


que freqüentemente desta Corte são furtados muitos escravos, que são
conduzidos à província de Minas Gerais, e ali vendidos pelos roubadores deles
ou seus sócios neste criminoso tráfico: resolveu a Câmara levar esse objeto ao
conhecimento de Vossa Excelência para que sendo presente a Regência se
hajam de dar as necessárias providências para que cesse um flagelo e sejam
punidos efetivamente com todo o rigor da lei os criminosos de tal delito. Deus
guarde a Vossa Excelência. Paço da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, 21
de Junho de 1831.” 117

Normalmente, a resposta do Governo era dada em breve tempo:

“Manda a Regência, em nome do Imperador, pela Secretaria de Estado dos


Negócios do Império, participar à Câmara Municipal desta Cidade, para sua
inteligência, que na data de 22 do corrente, se expediram as necessárias ordens à
Repartição da Justiça e ao Presidente da Província de Minas Gerais a fim de
empregarem as mais eficazes e convenientes medidas que obstem a continuação
dos roubos de escravos, que diariamente experimentam os habitantes desta

116
idem
117
idem
51

Corte, como representou a mesma Câmara em seu ofício de 21 de Junho


passado. Palácio do Rio de Janeiro, em 26 de Junho de 1831. José Lino
Coutinho” 118

Apesar da submissão da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro ao


Ministério do Império, submissão essa claramente estipulada por lei e seguida à risca,
conforme os exemplos dados acima, isso não significa dizer que as relações entre as
duas instâncias de poder fossem sempre pacíficas. Por vezes, é possível anotar a forma
pouco afável com que a Câmara se dirige às Secretarias, em resposta às suas Portarias,
mormente nos momentos em que se julga atingida naquilo que considera como suas
delegações.

“Manda a Regência, em nome do Imperador, pela Secretaria de Estado dos


Negócios do Império, remeter à Câmara Municipal desta Cidade, o
requerimento incluso de Manuel Joaquim Ferreira Simões, em que pelas razões
nele expostas, pede ser provido no lugar de Porteiro da mesma Câmara, a fim de
que sobre a referida pretensão haja de deferir ou informar, parecendo. Palácio
do Governo, em 4 de Julho de 1831. Manoel José de França.” 119

Pela leitura da 48ª Sessão da Câmara, em 09 de Julho do mesmo ano, percebe-se


que a Câmara toma como uma afronta às suas atribuições, a intromissão da Secretaria
de Estado. À resposta dada à referida Secretaria, de que o pretendente não seria
nomeado “por não achar-se (sic) em circunstâncias”, é anexado o seguinte parecer do
vereador Silveira Pilar, que afirmara “não haver se conformado com a resposta que dá a
Câmara Municipal à portaria da Secretaria de Estado de Negócios do Império, em data
de 4 do corrente, na qual lhe ordena que informe ou defira o requerimento de Manuel
Joaquim Ferreira Simões, em que pede o lugar de Porteiro da Câmara...”

“Tendo a Lei de 1º de Outubro de 1828, no Artigo 82, declarado mui


terminantemente que à Câmara Municipal compete a nomeação de Porteiro e
seus ajudantes, não pode nem deve a mesma Câmara dar cumprimento à
Portaria da Secretaria de Estado de Negócios do Império de 4 do corrente, tanto
na primeira como na segunda parte, por ser sua atribuição somente tais
nomeações, nas quais não pode o Governo intervir de maneira ou forma alguma,
118
idem
119
idem
52

enquanto existir aquele Artigo na Lei. E ainda mesmo quando competisse ao


Governo aquela nomeação, a Câmara Municipal jamais informaria pessoa
alguma, não só por não lhe impor a Lei essa obrigação, como pela veemente
razão de que tendo o Governo mesmo ordenado, em Portaria da Secretaria de
Estado de Negócios da Justiça, de 30 de maio que a Câmara informasse pessoa
idônea para o lugar de Carcereiro da Cadeia desta Cidade e tendo ela informado
depois de escrupuloso exame Joaquim Antônio da Costa Cordeiro, com cinco
votos , bem como Silvino José de Almeida, também concorrente, com apenas
dois votos, o que valia o mesmo que dizer fora reprovado, todavia, aparece este
último nomeado Carcereiro, com assombro e admiração da Câmara, que viu
assim escarnecida a informação que ela dera em virtude de exigência do
Governo.” 120

Um outro exemplo pode ser observado quando a mesma Secretaria, através de


outra Portaria, tenta colocar Diogo Venceslau Fernandes no cargo, já anteriormente por
ele ocupado, de Feitor do Passeio Público. Mais uma vez, a Câmara nega o pedido,
mandando declarar ao Ministro que “esse negócio não marchou com a regularidade
necessária, pois deveria o postulante requerer primeiro à Câmara e quando pela
resolução dela se julgasse ofendido em seus direito procurasse, então, recurso no
Governo.” 121

O fato é que, entre arroubos de rebeldia e provas de deferência, a relação entre a


Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro e o Ministério do Império, impôs-se
durante todo o período estudado, num diálogo constante, através do qual se pode
perceber o delineamento dos limites do projeto ordenador que pretendia “civilizar” a
cidade. Fica claro também o quanto a Câmara é consciente e ciosa de seu papel nesse
ordenamento e, diferentemente do que a historiografia tradicional afirma, a sua
disposição em disputar o seu espaço na política imperial, não se contentando em ser
uma simples “repartição pública”.

120
idem
121
AGCRJ, 88ª Sessão da Câmara Municipal, em 6 de dezembro de 1831, códice 17-1-2.
CAPÍTULO 3

OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A CÂMARA MUNICIPAL DO


RIO DE JANEIRO

Em fins dos anos setecentos e início dos oitocentos, no Senado da Câmara da


cidade do Rio de Janeiro formou-se um forte grupo, cujos membros não somente
ocupavam cargos nessa governança, mas também apresentavam preponderantes pontos
em comum, tais como, a dedicação aos negócios de grosso trato, envolvendo o
comércio de escravos africanos122 , bem como, o recebimento de mercês reais,
incluindo aí, títulos, comendas e honrarias, das quais eles retiravam, não somente
lucros monetários, mas também, a possibilidade de pertencimento à chamada “nobreza
da terra”, onde se diferenciavam dos demais habitantes da cidade, por se apresentarem
como possuidores de privilégios que não estavam ao alcance de todos. Os membros
desse grupo podiam se unir através de alianças comerciais e/ou matrimoniais e
possuíam estratégias em comum, buscando garantir seu status quo, através da
manutenção ou criação de determinadas leis municipais (posturas), bem como
estabelecer, diante dos outros poderes governamentais – Intendência de Polícia, no
período colonial, por exemplo, e Secretarias dos Ministérios, já na época imperial –
seu próprio campo de atuação e força, contando para isso com a aquiescência real.

Na busca de conhecer melhor estes membros específicos foi utilizada

122
Optei, neste trabalho, pela não utilização do termo “traficante” para o período 1808-1030, uma vez que os
tratados, assinados entre Inglaterra e Portugal, toleravam a importação de escravos, desde que oriundos dos
portos da África, localizados ao sul do Equador, conforme Anexo H. Apesar do uso, na época, do termo
“tráfico”, ele, muitas vezes, substituía o termo “comércio”, tendo uma conotação diversa da atual.
54

documentação variada e ampla: relação dos negociantes de grosso trato do Rio de


Janeiro, ligados ao tráfico negreiro; lista de embarque e desembarque de escravos;
inventários post-mortem, atas das reuniões da Câmara, relação de mercês, registros de
casamento e todos os demais papéis que pudessem trazer à luz os projetos de união e
cumplicidade de objetivos deste grupo. Além disso, lançou-se mão, também, da
produção historiográfica recente sobre o tema, que se tem dedicado com especial
interesse a esse grupo de poder. Os autores que pesquisam a importância desses
negociantes de grosso trato têm procurado demonstrar o quanto deve ser relativizada a
teoria de que a economia brasileira repousava sobre a atividade agrário-exportadora,
deixando de lado àqueles ligados ao comércio de escravos e que, até a colocação dessa
atividade na ilegalidade, amealharam imensas fortunas, que foram reinvestidas das
mais diversas formas, inclusive na compra de terras 122 .

O cruzamento do banco de dados dos membros do Senado da Câmara do Rio de


Janeiro, do período de 1808 a 1830, desenvolvido na pesquisa desta Tese, com a
listagem dos maiores negociantes de escravos da praça do Rio de Janeiro, do mesmo
intervalo de tempo, apontou a presença desses homens nos mais variados cargos da
governança municipal e a importância desses comerciantes de grosso trato para a
economia brasileira, bem como seu envolvimento nos projetos políticos do Brasil
colônia e império.

Em princípio, quarenta grandes negociantes de escravos ocuparam cargos de


vereança ou de almotaçaria no Senado da Câmara do Rio de Janeiro, no período
mencionado, alguns sendo eleitos repetidas vezes. Certos anos deixam ainda lacunas,
como demonstram as tabelas que se seguem, mas, mesmo assim, é um número bem
representativo da presença e conseqüente influência destes homens na vida da cidade.
As considerações sobre eles foram alinhavadas a partir de seus inventários, de suas
atuações nas sessões do Senado da Câmara, de seus títulos, honrarias e relações
estabelecidas, inclusive matrimoniais, na tentativa de se estabelecer um critério de
122
Cf. FLORENTINO, Manolo. ,op.cit.; FRAGOSO, João Luís., op.cit.; FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda;
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva., op.cit.; MALERBA, Jurandir. A corte no exílío, civilização e poder no Brasil às vésperas
da independência (1808-1821). SP: Companhia das Letras, 2000; MARTINHO, Lenira Menezes et GORESTEIN, Riva,
op.cit..
55

comportamento e estratégias do grupo. É importante frisar que dez entre os arrolados


pertenciam às famílias dos dezessete maiores comerciantes de escravos da África para
o porto do Rio de Janeiro 123 . Isso sem considerar os casos específicos daqueles que se
fizeram representar, na Câmara, por seus filhos ou outros parentes, como, por
exemplo, Miguel Ferreira Gomes, que realizou 40 viagens à África, em busca de
cativos, no período de 1814 a 1830, cujo filho, Miguel Ferreira Gomes Filho, ocupou o
cargo de juiz almotacé, na governança de 1825. Ou ainda, aqueles que comandavam os
navios, a serviço dos negociantes, como Antônio de Pina, vereador em 1810 e 1815 e
que realizou incursões a Luanda, servindo a José Joaquim Guimarães, em 1816, e a
Cabinda, em 1817 e 1818, a serviço de José Francisco Ferreira da Rocha. Entendo ser
possível fazer diversas ilações, a partir do cruzamento das informações deste banco de
dados com outros documentos.

3.1. A PROXIMIDADE À COROA

Logo quando de sua chegada ao Brasil, em 1808, D. João observou a urgência


de se unir a quem pudesse fazer frente às necessidades financeiras da Corte, fugitiva
da Europa. Breve se apercebeu da existência de um grupo, que possuía capital –
porque se ligava ao comércio atlântico português – mas que não estava disposto a
abrir mão deste, sem régias compensações. Na verdade, desde o final do século XVIII,
formava

“(...) um forte grupo de pressão, individualizado e independente dos grandes


fazendeiros, capazes de fornecer crédito ao Rei e aos proprietários rurais e que
se faziam representar na Câmara Municipal e diretamente junto ao Rei e aos
órgãos da cúpula da administração da metrópole.”124

Segundo Jorge Caldeira, a atividade mercantil da colônia podia ser distinguida,


inicialmente, entre os chamados estabelecidos,

123
Para a realização dessa análise, utilizou-se, principalmente, o trabalho de FLORENTINO, Manolo Garcia, Em costas
negras”, op.cit, apêndices 26 e 30, além dos outros, já citados na nota 1, deste presente trabalho.
124
LOBO, Eulália Maria L. História do Rio de Janeiro: do capital comercial ao capital financeiro. Rio de
Janeiro, IBMEC, 1978, vol. 1, p. 56.
56

“(...) os taberneiros, com suas vendas espalhadas pelos subúrbios (...) no


patamar seguinte ficavam os muitos donos de pequenas lojas, às vezes não
desligados do artesanato, donos de pequenos armazéns, comerciantes de
tecidos, etc... [e] os pequenos e médios atacadistas, principalmente quando
responsáveis pela distribuição de produtos importados pelo interior do país ou
pela compra de alguns produtos de exportação.” 125

Não eram esses, no entanto, que ocupavam o lugar de maior destaque entre os
comerciantes:

“(...) o topo de pirâmide [da hierarquia comercial] era reservado a uns


poucos eleitos, os grandes atacadistas que cuidavam da compra e venda de
mercadorias em províncias distantes e no exterior. Um lugar nessa seleta
confraria só era obtido depois que a Junta de Comércio desse ao
candidato um registro, que permitia usar o título de comerciante de grosso.
Somente com esse registro um comerciante podia realizar transações
internacionais, e só obtinham o registro os que satisfizessem exigências
rigorosas: ter reputação ilibada e comprovar uma reserva financeira capaz de
garantir seus clientes contra os riscos dos negócios.” 126 (sem grifo no texto
original)

De acordo com Boxer, os negociantes de grosso trato eram aqueles ligados ao


grande comércio e às atividades econômicas e eram de atividade diferente do grupo de
comerciantes, que eram os donos de lojas abertas, que vendiam a varejo (ou a
retalho) 127 . José da Silva Lisboa afirmava que os negociantes de grosso trato eram
aqueles que investiam grandes capitais em tráficos e manufaturas, também
participando dos negócios de especulação, bancos e seguros 128 . A documentação
mostra, no entanto, que muitos desses negociantes, registrados nos livros da Real Junta
de Comércio também eram varejistas ou atacadistas.

O registro na Junta de Comércio somente se dava a partir da indicação e


confirmação da capacidade comercial e financeira do candidato, firmada por dois

125
CALDEIRA, Jorge. Mauá. Empresário do Império. São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 70.
126
idem
127
BOXER,C.R. The Golden Age of Brazil, 1695/1759: growing Pains of a colonial society. Berkeley and Los
Angeles: University of California Press, 1962, p. 110.
128
LISBOA, José da Silva, Princípios de direito mercantil e leis da Marinha. Lisboa: Impressão Régia, 1819,
tratado V, p. 69, Apud MARTINHO, Lenira Menezes et GORESTEIN, Riva. Negociantes e caixeiros na sociedade da
Independência. RJ: Secretaria Municipal da Cultura, 1993, p. 133.
57

membros mais antigos, num “Termo de Juramento”. Assim, por exemplo, o capitão
Fernando de Oliveira Guimarães e o sargento-mór Antônio de Oliveira Guimarães
assinaram, em 6 de setembro de 1809, por Simplício da Silva Nepomuceno, possuidor
de loja de varejo na rua da Quitanda, garantindo sua matrícula. 129

3.2. VISÃO GERAL DO GRUPO

Não seria lógico pensar que o grupo, objeto do estudo atual, somente possuísse
características e objetivos comuns; porém, é impossível negar os evidentes pontos de
contato entre seus membros. Acesso à mercês, títulos honoríficos, cargos em
instituições públicas e, ao menos aparentemente, um razoável trânsito nas instâncias de
poder, além, certamente, das matrículas como negociantes de grosso trato na Real
Junta do Comércio. A documentação sobre os mais variados requerimentos feitos ao
Príncipe Regente e por ele atendidos revela uma acentuada deferência a esse grupo,
como foi possível observar, no decorrer deste trabalho.

A partir das pesquisas iniciais, várias questões foram levantadas. Uma das
primeiras, das tantas que me ocorreram, foi o porquê da busca de cargos no Senado da
Câmara. É certo que o fato do status conferido a um posto de governança pesava
favoravelmente, mas busquei olhar para além dessa evidência, que me pareceu
simplista demais. Que outros interesses poderiam, então, nortear esses grandes
negociantes?

Em princípio, cogitei a hipótese dos almotacés estarem envolvidos em outras


funções, além do aferimento de pesos e medidas, tais como a fiscalização das
arqueações 130 , o que seria um bom motivo para o interesse dos negociantes de
escravos pelo cargo. No entanto, refiz, ao menos parcialmente, essa linha de
raciocínio, lendo a documentação sobre os termos de contagem de escravos
transportados pelos navios negreiros, como o citado abaixo:

129
AN, códice 171, vol.1, 01427, p. 2v., Junta do Comércio, Agricultura, Fabricação e Navegação: Livro de matrícula de
negociantes de grosso trato.
130
Arqueação é a capacidade de carga de uma embarcação, sendo uma preocupação das autoridades que os navios negreiros
não ultrapassassem o limite permitido. Cf. Anexo I.
58

“Termo da contagem dos escravos transportados na corveta N. Sra. da


Conceição e Santa Rita, de que é Mestre José de Almeida, vindo de Angola.
Aos nove dias do mês de outubro do ano mil oitocentos e oito, no porto desta
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a bordo da corveta N. Sra. da
Conceição e Sta. Rita, de que é Mestre José de Almeida, chegado de Angola,
aonde eu, Escrivão adiante nomeado, vim por ordem e comissão do Vice-
Almirante da Real Armada José Caetano de Lima, Intendente da
Marinha, para efeito de examinar se o número de escravos transportados
na dita corveta excedia da arqueação e assistindo a contagem dos ditos
escravos, depois de examinar o Livro dos Mortos e feitas as mais averiguações
necessárias, na forma do capítulo onze do Alvará de três de março de mil
setecentos e setenta, achei existirem vivos trezentos e sessenta e seis e terem
morrido no mar cento e nove, e dentro do porto seis, que juntos fazem [...]
quatrocentos e setenta e quatro, número de sua arqueação. Para que a todo o
tempo conste todo o referido, lavrei este termo, que assinou comigo o dito
mestre, Gregório Manuel do Couto, escrivão da Intendência da Marinha,
que o escreveu e assinou. José Tavares Ribas” 131 . (sem grifo no texto
original)

Aparentemente, então, os almotacés não se envolviam, ao menos de forma


direta, com o desembarque de escravos, uma vez que, pelo citado Alvará de três de
março de 1770, o Rei D. José I e o Primeiro Ministro D. Sebastião José de Carvalho e
Mello, Marquês de Pombal, criaram a Intendência da Marinha no Arsenal da Bahia,
competindo ao Intendente, dentre outras tarefas: vistoriar a carga dos navios; fazer as
arqueações e fiscalização das embarcações e comprar os gêneros necessários aos
armazéns reais. Aliás, é um dado interessante desta documentação o fato de nela se
encontrar – pelo menos, no período analisado – poucos termos de contagem de
escravos que excediam a arqueação, o que, mesmo assim, não configurava grande
problema para o mestre envolvido nesses casos:

“Termo da contagem dos escravos transportados na corveta Menino Deus-


Bom Piloto, de que é Mestre Domingos Vieira Santos, vindo de Benguela.
Aos vinte e um dias do mês de junho de mil oitocentos e cinco, nesta cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro, a bordo da corveta Menino Deus-Bom Piloto,
de que é Mestre Domingos Vieira Santos, vinda de Benguela, aonde eu,
Escrivão adiante nomeado, vim por ordem e comissão do Chefe da Esquadra,
Intendente da Marinha José Caetano de Lima, com o Escrivão de Meirinho da
Real Fazenda João Marques Ribeiro, para efeito de examinar se o número de
escravos transportados nesta corveta excedia ao de sua arqueação e assistindo a
contagem dos ditos escravos, depois de examinar o Livro dos Mortos [...]

131
AN, códice 242, vol. 1, 01552, Provedoria da Fazenda Real, p.146.
59

vindo por este modo de exceder da mesma arqueação dezesseis escravos, que
diz o mesmo capitão, lhe foram concedidos na lista de equipagem, por falta de
marujo, de que não apresenta documento por lhe terem ficado em Benguela,
por descuido, os competentes despachos, os quais se obriga a apresentar no
prefixo tempo de um ano, e que para a fim de cumprir, dava por seu fiador o
Capitão Manoel Gomes Cardoso, que presente se achava, o qual disse que se
obrigava como com efeito por este, a obrigar demonstrar que os dezesseis
escravos que excediam da arqueação lhe foram concedidos na lista de
equipagem por falta de marujos e que, pelo contrário, se sujeitava às penas da
lei das arqueações [...]
OBS.:Em nove de outubro de mil oitocentos e cinco, apresentou o competente
despacho, pelo qual mostra terem se lhe concedido em Benguela dezesseis
cabeças, fora do número da arqueação [...] Manoel Alexandre Alves
(Alvarez?)” 132 . (sem grifo no texto original)

É possível entender que Manoel Gomes Cardoso, que ocupou o cargo de


procurador do Senado da Câmara, em 1793, o de vereador, em 1801 e estaria
novamente na vereança, no ano de 1811, possuía o prestígio necessário para garantir a
idoneidade moral do mestre da corveta. Pode-se pensar, também, que não devia ser tão
rigorosa a lei da arqueação que não comportasse uma solução alternativa,
principalmente envolvendo fiadores poderosos.

Por outro lado, os almotacés eram responsáveis, como já foi visto, pelo
abastecimento da cidade, o que implicava nos cuidados com a importação e exportação
de alimentos, algo que interessava diretamente aos negociantes de grosso trato, que se
dedicavam ao comércio negreiro mas, também, ao comércio interno de outros
produtos. Dos livros da Real Junta do Comércio 133 , que registravam as matrículas dos
negociantes, foram retirados os seguintes dados:

QUADRO 1 – Matrícula de negociantes na Real Junta de Comércio, Fábricas, Agricultura e


Navegação

DATA NEGOCIANTE REGISTRO DO TIPO DE COMÉRCIO


06/09/1809 Simplício da Silva Nepomuceno (vereador em Loja de varejo na Rua da Quitanda
1830)
18/10/1809 José Antônio da Costa Guimarães (juiz almotacé Matriculado como negociante de grosso trato
em 1825 e vereador em 1827)

132
ibidem, p. 109.
133
AN, códice 170, 01424 – Secretaria da Real Junta do Comércio – matrícula de negociantes, termos de juramentos de
testemunhas, volume 1; Códice 171, 01427 – Junta do Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação – livro de matrícula dos
negociantes de grosso trato e sua guarda-livros e caixeiros, volume 1.
60

22/03/1810 João Ignácio Tavares (juiz almotacé em 1812) Negociante da praça de Lisboa e depois matriculado no
Rio de Janeiro
13/10/1809 Joaquim de Babo Pinto (juiz almotacé em 1826) Loja de varejo na Rua da Quitanda
22/05/1810 João Gomes do Valle (juiz almotacé em 1812) Estabelecimento na rua dos Pescadores
30/05/1810 José Luiz Alves (procurador em 1808; juiz Um dos negociantes de maior porte da praça do Rio de
almotacé em 1809) Janeiro, com estabelecimento da rua das Violas
29/07/1811 José Ignácio da Costa Florim (juiz almotacé em Loja de ferragens na Rua da Direita
1819)
07/10/1811 Francisco José Fernandes Salazar (juiz almotacé Negociante de grosso trato
em 1825)
22/06/1812 João Alves da Silva Porto (juiz almotacé em 1821) Loja de varejo na Rua da Quitanda
23/06/1812 Diogo Gomes Barroso (juiz almotacé em 1819; Negociante de grosso trato da Vila dos Campos,
vereador em 1826) importando e exportando gêneros, estabeleceu-se na
praça do Rio de Janeiro
16/11/1812 Francisco José dos Santos (juiz almotacé em Matriculado com loja de ferragens, por atacado e como
1821) negociante de grosso trato, importando e exportando
gêneros
18/10/1813 Lourenço Antônio do Rego (vereador em 1825) Negociante de grosso trato, estabelecido em Sabará,
importando e exportando gêneros, estabeleceu-se na praça
do Rio de Janeiro
10/01/1814 Miguel Ferreira Gomes (cujo filho exerceu o Negociante de grosso trato
cargo de juiz almotacé em 1825)
09/03/1814 Francisco José da Rocha (juiz almotacé em 1819) Negociante de grosso trato, da praça do Rio Grande,
importando e exportando gêneros, estabeleceu-se na praça
do Rio de Janeiro (já era da Junta Comercial de Lisboa)
1815 João Martins Lourenço Vianna (juiz almotacé em Negociante de grosso trato, exporta e importa gêneros
1824; suplente de Vereador em 1830)
17/05/1816 Felipe Ribeiro da Cunha (juiz almotacé em 1828) Negociante de grosso trato, da praça da Bahia,
importando e exportando gêneros, estabeleceu-se na praça
do Rio de Janeiro
24/07/1816 José Jorge da Silva (juiz almotacé em 1827) Negociante de grosso trato, importando e exportando
gêneros
17/05/1817 Joaquim Teixeira de Macedo (juiz almotacé em Negociante de grosso trato
1825)
13/08/1818 João Rodrigues Ribas (juiz almotacé em 1821) Matriculado como importador e exportador de gêneros
23/08/1819 Manoel dos Passos Correa (suplente de vereador Negociante de grosso trato
em 1830)
23/05/1821 João José de Mello (juiz almotacé em 1816) Negociante de grosso trato
10/06/1822 Joaquim Francisco de Faria (juiz almotacé em Negociante de grosso trato
1823)

O Quadro 1 permite que se perceba que, como já dito anteriormente, os


negociantes guardavam suas peculiaridades. Pode-se observar, por exemplo, que, os
estabelecimentos comerciais ocupavam, preferencialmente, as imediações da
Freguesia da Candelária, nas ruas da Quitanda, das Violas (atual rua Teófilo Otoni), da
Direita (rua Primeiro de Março) e dos Pescadores (rua Visconde de Inhaúma). Além
disso, os envolvidos com os negócios de grosso trato, podiam ser também varejistas,
atacadistas e, ainda, homens de outras praças comerciais, que se estabeleceram,
também, na do Rio de Janeiro, em busca de relações comerciais mais vantajosas e de
maior monta. É preciso não perder de vista que todos aqueles que se têm pesquisado,
no período estudado, encontravam-se matriculados como negociantes, o que me levou
ao entendimento de que era do seu interesse que os gêneros que importavam
61

abastecessem a cidade e, para isso, muito valeria contar com a boa vontade dos
almotacés, responsáveis pelos pesos e medidas e pela avaliação da qualidade dos
produtos distribuídos no comércio. Tomando-se como base o Quadro 2, logo abaixo,
que aponta as viagens realizadas à África, pelos negociantes de grosso trato, alguns
dos quais foram citados no Quadro 1, observou-se que além de escravos, eles também
traziam, de suas viagens, outros gêneros, como cera, azeite, fazendas, entre outros
produtos, os quais comercializavam 134 . Seria vantajoso não enfrentar uma rigorosa
fiscalização de suas cargas ou ser indicado, preferencialmente, como fornecedor.

QUADRO 2 – Negociantes de escravos com cargos de governança na Câmara Municipal do Rio de


Janeiro (por atuação nos negócios) 135

Negociante de escravos Período de Nº de viagens Rota de comércio Nº de escravos Outros produtos


atuação comprados importados
Antônio José da Costa 1811 01 Cabinda sem dados
Barbosa
Antônio José Moreira 1829 02 Cabinda 287 (dados
Pinto incompletos)
Amaro Velho da Silva 1816-1822 18 Cabinda / Luanda sem dados Cera, marfim, azeite
Antônio Gomes Barrozo 1814 45 Cabinda sem dados
Antônio José Medeiros/ 1824-1827 04 Cabinda/ Ambriz sem dados
Simplício da Silva
Nepomuceno
Diogo Gomes Barrozo 1827-1830 45 Cabinda/ Molembo/ 1515 Marfim, cera
Moçambique
Duarte Jozé de Mello 1823/26 02 Luanda 975 Cera, azeite
Feliciano Alexandrino 1829 01 Quilimane 587
Gomes
Felipe Ribeiro da Cunha 1828/29 03 Cabinda/ Molembo 303
Francisco José da Rocha 1812,/13/14 47 Rio Zaire/ Cabinda sem dados
Francisco José dos Santos 1819-1830 22 Cabinda/ Moçambique/ 6980 Tartarugas
Rio Zaire/ Benguela/
Inhambane/ Quilimane
Francisco José Fernandes 1811/12/15 04 Calabar/ Cabinda/ Benguela 3043
Salazar
Francisco Luiz da Costa 1827/ 30 06 Luanda/ Moçambique/ 485 Cera, azeite
Guimarães Quilimane/ Lourenço
Marques
Francisco Pereira de 1812-1822 11 Benguela 384 (dados Cera, enxofre,
Mesquita incompletos) marfim, azeite
João Alves da Silva Porto 1818-1830 34 Moçambique,/Rio Zaire/ 1931 (dados Cera, azeite,
(exceto Quilimane, Molembo/ incompletos) marfim, tartarugas
1827) Ambriz/ Luanda/ Lourenço
Marques/ África/ Cabinda/
Inhambane
João Alves de Souza 1813, 1822 09 Rio Zaire,/Luanda 362 (dados
Guimarães incompletos)
João Gomes Barrozo 1811-1829 45 Cabinda/ Moçambique/ 7762 (dados Tartarugas
Ambriz/ Rio Zaire incompletos)

134
AN, Códice 242, op.cit.
135
ibidem. Cf. em FLORENTINO, Manolo Garcia, op.cit., uma apurada interpretação desses dados.
62

João Gomes Valle 1812-1825 50 Luanda/ Benguela/ 6338 (dados Cera, marfim,
(exceto Cabinda/ Moçambique incompletos) azeite, azeite de
1819) amendoim, ferro
João Ignácio Tavares 1811-1819 17 Rio dos Camarões/ Luanda/ 410 (dados
(exceto Cabinda e Moçambique incompletos)
1813)
João José de Mello 1819-1826 13 Luanda/ Cabinda/ Ambriz/ 4878 (dados Cera, azeite
Moçambique incompletos)
João Martins Lourenço 1813 02 Cabinda sem dados Cera
Viana
João Rodrigues Ribas 1818 e 1819 02 Cabinda/ Rio Zaire sem dados
Joaquim Antônio Alves 1825/26,28/ 04 Moçambique 2177 Cera, azeite
29
Joaquim de Babo Pinto 1822 01 Quilimane 203
Joaquim Francisco de 1824/25/27 03 Benguela 1222 Cera
Faria
Joaquim José de Siqueira 1817 01 Cabinda sem dados
Joaquim Teixeira de 1821/24/25/ 18 Luanda/ Benguela 1120 (dados Cera, azeite
Macedo 26 incompletos)

José Antônio da Costa 1824 01 Luanda sem dados Cera, marfim


Guimarães
José de Carvalho Ribeiro 1821 01 Ambriz sem dados Enxofre e marfim
para a Fazenda Real
e cera
José Ignácio da Costa 1821, 1823 02 Luanda 446 (dados
Florim incompletos)
José Ignácio Vaz Vieira/ 1812 01 Cabinda sem dados
João Ignácio Tavares
José Jorge da Silva 1828/29 03 Cabinda 212 (dados
incompletos)
José Luiz Alves 1811/13/15/ 12 Benguela/ Costa da Mina/ 862 (dados
16/17/18 Luanda/ Cabinda incompletos)
José Pereira Vidal 1827 01 Molembo 272
Lourenço Antônio do Rego 1823-1830 27 Benguela, Cabinda, Luanda, 11564 (dados Cera, fazendas,
Ambriz incompletos) azeite
Manoel dos Passos Corrêa 1826/29/30 03 Moçambique 2362 Tartarugas, esteiras
Manoel Francisco de 1826-1830 13 Cabinda/ Ambriz/ 5431 (dados
Oliveira Quilimane incompletos)
Manoel Gonçalves de 1812/13/17/ 18 Cabinda/ Rio Zaire/ 1412 (dados Cera, azeite
Carvalho 18/19/21/22/ Luanda/ Quilimane/ incompletos)
24/25 Moçambique
Manoel Pinheiro 1822 45 Luanda 541
Guimarães
Pedro José Bernardes 1828, 1829 04 Cabinda 1122
Simplício da Silva 1826, 1829 03 Cabinda/ Molembo 648 (dados Azeite
Nepomuceno incompletos)

O objetivo do Quadro 2 foi o de demonstrar a presença dos membros do grupo


pesquisado nos negócios negreiros, o que não impede que se façam algumas
observações sobre a própria dinâmica desse comércio, apesar de não ser esta a
intenção precípua deste estudo.

O período de realização das viagens foi bem extenso, chegando até o ano de
1830. O número de incursões ao continente africano variou, entre os negociantes
pesquisados, sendo a maior quantidade delas feita por Antônio Gomes Barroso e seu
63

irmão João, que realizaram, cada um, 45 viagens, e João Gomes do Vale, que totalizou
50 idas à África.

Até cerca do fim do século XVIII, àqueles que se dedicaram ao negócio de


cativos, realizaram suas transações, principalmente, com os portos da África
Ocidental, como a Ilha de São Tomé. No período de 1795 a 1811, os portos da África
Central Atlântica, como Cabinda, passaram a ter maior destaque, posição perdida,
posteriormente, para a região da África Oriental, como o porto de Moçambique. Essas
modificações se deveram à assinatura da convenção, em Viena, em 21 de janeiro de
1815, entre o Príncipe Regente de Portugal e o Rei da Grã-Bretanha, que proibia o
comércio de escravos africanos ao norte do Equador, forçando a mudança das rotas.
Entendo ser interessante observar a flexibilidade e adaptação dos negociantes às
decisões políticas que eram tomadas pela Coroa portuguesa.

Retornando à análise das vantagens que os negociantes de escravos poderiam


auferir, como vereadores, entendo que eles teriam em suas mãos um forte instrumento
de proteção de seus negócios, uma vez que eram eles quem estabeleciam as posturas,
as leis que regulamentavam a vida urbana e que, certamente, poderiam ser propostas
de acordo com seus interesses maiores. Ainda assim, é preciso relativizar essa noção
do uso da lei somente em benefício próprio. Afinal, havia uma cidade a “civilizar”, a
ordenar, até mesmo visando a legitimação da dominação exercida pela chamada
“elite”. O risco de ver na atuação desses negociantes na Câmara somente uma busca de
defesa de seus próprios interesses, é incorrer na definição de lei, feita por um
“marxismo sofisticado”, na expressão de E. P. Thompson. Seguindo essa forma de
análise, criticada pelo autor, acreditar-se-ia que

“a lei é por definição,[...] uma parcela de uma ‘superestrutura’ que se adapta


por si às necessidades de uma infra-estrutura de forças produtivas e relações de
produção. Como tal, é nitidamente um instrumento da classe dominante de
fato: ela define e defende as pretensões desses dominantes aos recursos e à
força de trabalho [...] e opera como mediação das relações de classe com um
conjunto de regras e sanções adequadas, as quais, em última instância,
confirmam e consolidam o poder de classe existente. Portanto, o domínio da
lei é apenas uma outra máscara do domínio de uma classe. O
64

revolucionário não precisa ter nenhum interesse pela lei, a não ser como
fenômeno do poder e da hipocrisia da classe dominante: seu objetivo deveria
ser o de simplesmente subvertê-la.” 136 (sem grifo no texto original)

Apesar dessa visão não deixar de ser tentadora, como solução para várias
questões, prefiro aliar-me ao pensamento de Thompson, que afirma que, apesar da

“lei, considerada como instituição (os tribunais, com seu teatro e


procedimentos classistas), ou pessoas (juízes, advogados, Juízes de Paz), poder
ser muito facilmente assimilada à lei da classe dominante [...] a lei também
pode ser vista como ideologia ou regras e sanções específicas que mantêm uma
relação ativa e definida (muitas vezes por um campo de conflito) com as
normas sociais; [...], pode ser vista simplesmente em termos de sua lógica,
regras e procedimentos próprios – isto é simplesmente enquanto lei. [...] Não
podemos simplesmente afastar toda a lei como ideologia, e ainda assimilar
a ideologia ao aparato de estado de uma classe dominante. [...] Assim, a lei
(concordamos) pode ser vista instrumentalmente como mediação e reforço
das relações de classe existentes e, ideologicamente, como sua legitimadora
[mas] é inerente ao caráter específico da lei, como corpo de regras e
procedimentos, que aplique critérios lógicos referidos a padrões de
universalidade e igualdade. [...] A maioria dos homens tem um forte senso
de justiça, pelo menos em relação aos seus próprios interesses.” 137 (sem grifo
no texto original)

De uma ou outra forma, seria ingenuidade não analisar que era altamente
lucrativo política e economicamente, para os negociantes, pertencerem à governança
local, podendo influir nas decisões que lhes afetavam diretamente. Mesmo sendo o
Senado da Câmara presidido por um Juiz de Fora, um letrado indicado diretamente
pelo monarca português, é difícil imaginá-lo completamente dissociado dos interesses
desse grupo.

Maria de Fátima Silva Gouvêa, Gabriel Almeida Frazão e Marilia Nogueira dos
Santos, em recente artigo 138 , apontam para o que Antônio Manoel Hespanha

136
THOMPSON, E.P. Senhores e caçadores: a origem da Lei Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, pp. 349-
350.
137
ibidem, pp. 350, 351, 353, 354.
138
GOUVÊA, Maria de Fátima da Silva, FRAZÃO, Gabriel Almeida, SANTOS, Marilia Nogueira dos. “Redes
de Poder e Conhecimento na Governação do Império Português, 1688-1735”. Este artigo resultou de pesquisa
desenvolvida pelo projeto Conexões Imperiais: oficiais régios e redes governativas no Atlântico sul português,
1645-1777, que conta com o apoio dos Programas de Produtividade em Pesquisa e de Iniciação Científica do CNPq –
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Universidade Federal Fluminense/RJ
65

denominou paradigma corporativista 139 , onde desenvolveu o conceito de que não


existiria um poder puro, não partilhado, e onde as várias partes se uniriam de forma
consensual para viabilizar o mando, que permaneceria centralizado nas mãos do
monarca. Além disso, esse mesmo monarca seria o responsável pela formação de uma
extensa rede de relações, através do dom ou da mercê, onde o beneficiado ficaria
obrigado à retribuição, fosse esta material ou na forma de apoio político incondicional
e onde este mesmo beneficiado também se encarregaria de formar sua própria rede
clientelar, através também de dons e favores.

Pelo Quadro 3, pode-se ter um exemplo desse corporativismo, percebendo-se


que esse grupo especial, apesar de não deixar de se fazer representar, como já
anteriormente foi dito, de uma forma ou outra na Câmara, o fez, de forma mais
marcante nos primeiros anos da chegada da família real ao Brasil, mesmo já tendo
vários de seus membros pertencido à governança local, antes de 1808. Apesar da
historiografia mais tradicional minimizar a Câmara de Vereadores como real lócus de
poder, estudos mais recentes têm insistido na importância do poder local como
indispensável para a manutenção e respaldo da autoridade do império português, na
colônia. Diversos negociantes de grosso trato, como Amaro Velho da Silva e Antônio
Gomes Barroso, comandavam grande cabedal de negócios, em sua grande parte
originário das atividades anteriores de suas famílias em Portugal, que, vindo para o
Brasil, já teriam capitais necessários para seu estabelecimento e expansão, não só
financeira como política, na colônia. Antônio Gomes Barroso, por exemplo, foi
Presidente da Câmara Municipal em 1799, juiz almotacé em 1800, deputado da Junta
do Banco Nacional (Banco do Brasil) em 1809 140 , vereador em 1811 e 1815, tendo
sido agraciado com várias mercês, inclusive para seu filho, Antônio Gomes Barroso
Júnior. Quanto a Amaro Velho da Silva, vereador em 1808, ocupante de cargos em
mandatos anteriores, recebeu o título de nobreza de Barão e, posteriormente, de

139
HESPANHA, António Manuel & XAVIER, Ângela Barreto. “A representação da sociedade e do poder”.In: HESPANHA,
António Manuel (org.). História de Portugal – Antigo Regime, vol 4. Lisboa: Estampa, 1993.
140
Cf. Anexos M e N, que tratam da criação do Banco do Brasil, em 1808 e da nomeação de seus diretores e
deputados da Junta, em 1809.
66

Visconde de Macaé 141 . Vários são os exemplos que podem ser citados para reforçar a
idéia de que havia, entre o monarca e os representantes do poder local, um jogo de
interesses e benefícios mútuos, que só fez se aprofundar com o estabelecimento da
Corte na cidade.

O Quadro 3 não leva em conta o período anterior a 1808, marco inicial deste
estudo. No entanto, pode-se inferir, pelo menos, um dado interessante dele, analisando
os envolvidos em cargos de vereança na Câmara Municipal: se, a presença dos
negociantes de escravos na governança, era ainda espaçada, totalizando cinco
vereadores nos mandatos de 1791 a 1806, (a saber: Manoel Ribeiro Guimarães,
Antônio Gomes Barroso, Manoel Velho da Silva, Antônio de Pinna e Fernando
Carneiro Leão, titulado como Conde de Vila Nova) temos, em 1807, os três cargos de
vereança ocupados por João Gomes Barroso, Francisco Pereira de Mesquita e Amaro
Velho da Silva (Visconde de Macaé), todos pertencentes ao grupo de negociantes de
grosso trato, envolvidos com o comércio de escravos. Se este é ou não um dado
relevante, é algo a ser analisado, mas que pode suscitar inúmeras questões, acredito ser
fato.

QUADRO 3 - Negociantes de escravos com cargo de governança na Câmara Municipal do Rio de


Janeiro (por mandato) 142

ANO VEREADORES JUÍZES ALMOTACÉS (02 por PROCURADORES E


(total por ano)/ NEGOCIANTES trimestre, até 1819; 04, por lei, a TESOUREIROS (total por ano)/
DE ESCRAVOS (no ano) partir daí)/ NEGOCIANTES DE NEGOCIANTES DE
ESCRAVOS (no ano) ESCRAVOS (no ano)
1808 03/ 01 08/ 03 01/ 01
1809 03/ - 08/ 02 01/ -
1810 03/ 01 08/ - 01/ -

141
A família Velho da Silva será objeto de estudo, ainda neste capítulo. Sempre que nos referirmos a Amaro
Velho da Silva, o sobrinho, colocaremos, em seguida ao nome, o seu título de nobreza, uma vez que seu tio,
irmão de Manuel Velho da Silva, também se chamava Amaro. Aliás, os homônimos, fossem eles da mesma
família ou não, foram um dado complicador neste estudo.
142
Para a execução dos Quadros e do Banco de Dados, citados neste trabalho foram, até o presente momento, consultadas as
seguintes fontes primárias, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro: Códice 48-3-3 –Termos de juramento e posse
(1791-1830); Códice 6-3-19 – Registro de funcionários municipais (1830-1890); Códice 6-3-19 – Funcionários da
Secretaria da Câmara Municipal (7-2-25); Códice 68-3-4 – Funcionários (Índice) (1798-1870); Códice 39-2-14 – Almotacés
(1791-1811) 1817-1819); Códice 39-2-4 – Almotacés (1812-1813); Arquivo Nacional: Códice 223 – Registro de eleições de
vereadores de várias vilas e cidades do Brasil (1812-1823);Códice 14 – Ordens Honoríficas; Códice 116 – Índice alfabético
de A a Z (ordens honoríficas); Códice 171 – Junta do comércio: matrícula de negociantes, termos de juramentos e
testemunhos..; Códice 17 – Secretaria da Real Junta Comercial – termo de matrícula de negociantes de grosso trato e seus
guarda-livros e caixeiros; Diversos códices: Inventários Post-mortem e Testamentos.
67

1811 03/ 01 08/02 01/ -


1812 03/ - 08/ 05 01/ -
1813 03/ - 08/ 01 01/ -
1814 03/ - 08/ - 01/ -
1815 03/ 01 08/ - 01/ -
1816 03/ - 08/ 01 01/ -
1817 03/ - 08/ - 01/ -
1818 03/ - 08/ - 01/ -
1819 03/ - 08/ 03 01/ -
1820 03/ - 12/ 01 01/ -
1821 03/ - 12/ 04 01/ -
1822 03/ - 16/ 02 01/ -
1823 03/ - 16/ 02 01/ -
1824 03/ - 16/ 03 01/ -
1825 03/ 01 16/ 03 01/ -
1826 03/ 01 16/02 01/ 01
1827 03/ 01 16/ 03 01/ -
1828 03/ 01 16/ 02 01/ 01
1829 03/ 01 16/ - 01/ -
1830 09 e 12 suplentes/ 03 vereadores e Ainda 01 no 1º trimestre/ - 01/ -
02 suplentes

Pode-se observar, como dito anteriormente, que no ano de 1808, cinco


membros da Câmara Municipal estavam envolvidos no comércio de escravos e que,
até 1830, somente em três mandatos não foi registrado nenhum desses negociantes em
cargos daquela governança. É também possível perceber que, nos anos subseqüentes à
independência do Brasil, e principalmente à outorga da Constituição pelo imperador
D. Pedro I, este número tornou a se mostrar significativo.

Os cargos de vereança permaneceram ocupados pelos mesmos membros, no


período entre 1816 e 1821, somente havendo alteração nos casos dos juízes almotacés
e do juiz de fora. Assim sendo, Francisco de Souza Oliveira, Manoel Caetano Pinto e
Luís José Vianna Gurgel do Amaral e Rocha foram vereadores até final de 1821,
quando se processou a nova eleição para o mandato de 1822. Acredito que é possível
relacionar esse fato à morte de D. Maria I, em 1816, pelo documento a seguir:

“[...] convocação extraordinária do dito Presidente que apresentou o Régio


Aviso de 20 do corrente dirigido a ele em que El Rei Nosso Senhor fora
servido resolver que em demonstração do sentimento pela morte da
Senhora Rainha Dona Maria Primeira que Deus chamou a sua Santa
Glória se executasse pelo Senado da Câmara desta Cidade todas aquelas
demonstrações que em casos semelhantes se tem praticado com os
Senhores Reis deste Reino, mandando igualmente o dito Senhor que os
moradores desta Cidade trouxessem luto por espaço de um ano a saber,
68

seis meses rigoroso, e seis meses aliviado[...] outro Régio Aviso da mesma
data em que Sua Majestade era servido resolver em demonstração de
sentimento pela morte da Augustíssima Senhora Rainha Dona Maria Primeira
[...] se suspendesse os despachos dos Tribunais por oito dias, e que as mesas
dos Tribunais fossem cobertas de luto pelo temo de um ano [...], e se ordenou
ficassem suspensos os despachos do Senado pelos oito dias [...], e que se
procedessem [...] o quebramento dos escudos, e porque o Tribunal ficava
fechado e não se poderia convocar Câmara”. 143 (sem grifo no texto original)

3.3. NEGÓCIOS + PRESTÍGIO = MERCÊS E HONRARIAS

O Quadro 4 traz informações que documentam o prestígio e as conseqüentes


regalias obtidas, pelo grupo de negociantes de escravos, do Príncipe Regente, D. João,
e seu livre trânsito nas áreas próximas ao poder real.

A começar pelas próprias mercês recebidas, na forma de ordens honoríficas,


comendas, sesmarias e até mesmo títulos de nobreza, atingindo a concessão de
favores, atendimento de pedidos e apadrinhamento de filhos de elementos desse grupo,
os negociantes de escravos usufruíam de regalias e de uma proximidade com a Corte,
que nada deixava a dever a qualquer abastado proprietário rural, visto por grande parte
da historiografia, como já foi dito anteriormente, como a real “elite” no poder.

QUADRO 4 – Negociantes de escravos com cargos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro (por
profissão e recebimento de mercês) 144

ANO NOME CARGO NO SC DECRETOS HONORÍFICOS E MERCÊS


1808 Manoel Pinheiro Vereador Hábito da Ordem.de Cristo (1808); carta-patente promovendo-
Guimarães o ao posto de Sargento.-mór agregado às ordenanças da Corte
do Rio de Janeiro (1819); decreto ordenando que por seu
falecimento sejam feitas todas as transações mercantis e
demandas em juízo a sua casa comercial, sob a firma
“Pinheiro, viúva e filhos” (1821).
João Gomes Barroso Juiz Almotacé (jan./ Coronel reformado do 3º Regimento de Infantaria de Milícias
fev./ mar.) da Corte; Hábito da Ordem de Cristo (1808); Comendador da
Ordem de Cristo com lotação de 16$000 (1820); Comendador
agraciado com uma vida mais na Comenda da Ordem de Cristo
de que teve mercê, para se verificar em seu filho Alexandre
Gomes Barroso, com 12$000 de tença efetiva (1824); Fidalgo
Cavaleiro (1825)

143
AGCRJ, sessão extraordinária de 21/03/1816.
144
A presente pesquisa foi realizada no Arquivo Nacional, Graças Honoríficas, latas verdes.
69

Francisco Pereira de Juiz Almotacé (jan./ Cavaleiro da Ordem de Cristo; Carta-patente promovendo-o a
Mesquita fev./ mar.) Sargento-mór agregado às Ordenanças da Corte do RJ (1819);
concessão de sesmaria de meia légua de terras em quadra nos
sertões de Valença, distrito da Corte (1826).
Amaro Velho da Silva Juiz Almotacé (abr./ Comendador da Ordem de N. Sra da Conceição de Vila Viçosa
* o tio, de mesmo maio/ jun.) (1808); Hábito da Ordem de Cristo (1808); mercê do Hábito de
nome, era também Noviço da Ordem de Cristo (1809); Fidalgo Cavaleiro da Real
conhecido negociante Casa (1811) Título do Conselho (1812); Comendador da
de escravos, tendo Ordem de Vila Viçosa (1818); Deputado da Junta do
falecido em 1811 Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação (1819);
tratamento de Senhoria da Vila de S.José d’El Rei da Comarca
do RJ (1820); Comendador da Ordem de Cristo com lotação de
12$000, podendo logo usar a insígnia de comendador; Alcaide-
mor da Vila de S. José d’El Rey, Comarca do RJ (1820);
Veador da Imperatriz (1826); proprietário de um engenho de
açúcar, próximo a Macaé, obteve, em nome do Príncipe
Regente, o acréscimo de uma sesmaria de meia légua de
testada com uma légua de fundo as margens do rio Macaé, para
açúcar e criação de rebanhos de gado vacum; Barão de Macaé
(1826);Visconde de Macaé (1829), “com honras de grandeza”.
José Luiz Alves Procurador Hábito da Ordem de Cristo (1808); mercê do Hábito de Noviço
da Ordem de Cristo (1809); ampliação da sua jurisdição de
Juiz dos Falidos e da Mesa da Comissão para as Causas de
Comércio (1819).
1809 Manoel Pinheiro Juiz Almotacé (jan./ CITADO NO ANO DE 1808
Guimarães fev./ mar.)
José Luiz Alves Juiz Almotacé (abr./ CITADO NO ANO DE 1808
maio/ jun.)
1811 Antônio Gomes Vereador mais velho Coronel de milícia; Deputado da Junta do Banco Nacional
Barroso (1809); Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de
15$000 (1810); mercê de uma comenda da Ordem de Cristo
para se verificar em seu filho Antônio Gomes Barrozo Júnior
(1818); Fidalgo Cavaleiro da Casa Real (1819); Alcaide-mor
da Vila de Taguahy, por toda sua vida (1820); Cavaleiro da
Ordem Imperial do Cruzeiro (1828).Cavaleiro da Ordem da
Rosa (1830).
Manoel Gonçalves de Juiz Almotacé (out./ Capitão da 6ª Companhia de Ordenanças do Bairro de
Carvalho nov./ dez.) Guaratinguetá (1808); Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de
tença efetiva (1810)
Joaquim Joze de Juiz Almotacé (abr./ Reposteiro da Câmara do Número, com moradia, mercê e
Siqueira maio/ jun.) vestiária (1810); Hábito da Ordem de Cristo (1811);
Comendador da Ordem de Cristo, com lotação de 16$000
(1812): Fidalgo Cavaleiro da Real Casa (1813); Comendador
da Ordem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa (1818);
Moço da Imperial Câmara de Guarda Roupa (1825); mercê a
seu filho Antônio Joaquim de Siqueira, da Comenda da Ordem
de Cristo (1826); mercê a seu filho, Joaquim José de Siqueira
Júnior, da comenda da Ordem de Cristo (1829).
1812 João Gomes do Valle Juiz Almotacé (jan./ Capitão; Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de tença efetiva
fev./ mar.) (1821).
João Ignácio Tavares Juiz Almotacé (jan./ Sargento-mor
fev./ mar.)
Joaquim Joze de Juiz Almotacé (abr./ CITADO NO ANO DE 1811
Siqueira maio/ jun.)
João Alves de Souza Juiz Almotacé Cavaleiro da Ordem de Cristo
Guimarães (jul./ag./set.)
Antônio da Costa Procurador Capitão; Mercê da administração em sua vida de terreno no
Barbosa Saco do Alferes, nos subúrbios da Corte (1817)
1813 Antônio da Costa Juiz Almotacé (abr./ CITADO NO ANO DE 1812
Barbosa maio/ jun.)
1815 Antônio Gomes Vereador CITADO NO ANO DE 1811
Barrozo
70

1816 João José de Mello Juiz Almotacé (jan./ Alferes de Cavalaria, considerado como praça avulsa do
fev./ mar.) Exército do Brasil (1815); Alferes agregado ao 1º Regimento
de Cavalaria de Coimbra do Exército do Reino (1816);
Tenente do 1º Regimento de Cavalaria do Exérrcito (1818);
Capitão; Mercê do Hábito da Ordem de Cristo (1823), na
Capela de N.Sra. do Monte do Carmo.
Francisco José da Juiz Almotacé Capitão da Companhia do Arraial do Sr. Bom Jesus do Terço
1819 Rocha (jul./.ag./ set.) das Ordenanças da Vila de N. Sra. do Livramento das Minas
do Rio das Contas (1810) ; Ajudante da tropa de linha da
guarnição da Capitania do Ceará (1812);Tenente da Infantaria
com exercício de ajudante de ordens da pessoa do mesmo
governador, ficando adido ao Estado maior do Exército (1813);
Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000
(1821); Hábito dos noviços da Ordem de Cristo (1827); Oficial
da Imperial Ordem do Cruzeiro (1828); Hábito da Ordem de
São Bento de Aviz; (1828); Cavaleiro da Ordem Imperial do
Cruzeiro (1830); Oficial da Ordem da Rosa (1831)
Diogo Gomes Barrozo Juiz Almotacé (out./ Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000
nov./ dez.) (1809); mercê de um dos almoxarifados do Reino, a título do
Hábito da Ordem de Cristo (1809); Comendador da Ordem de
Cristo (1812); Carta-patente promovendo-o ao posto de
tenente-coronel agregado ao regimento de milícias do Campo
de Goitacazes (1814); Carta-patente promovendo-o ao posto de
capitão da 5ª companhia do regimento de infantaria do Campo
de Goitacazes (1828)
José Ignácio da Costa Juiz Almotacé (out./ Capitão de 2ª linha; Quartel-mestre do 1º Regimento de
Florim nov./ dez.) Infantaria de Milícias da Corte do Rio de Janeiro (1819);
Hábito da Ordem de Cristo (1824); Cavaleiro da Ordem da
Rosa (1858); Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro (1822)
1820 Pedro José Bernardes Juiz Almotacé (out./ SEM REFERÊNCIAS NA DOCUMENTAÇÃO
nov./ dez.) PESQUISADA

1821 João Alves da Silva Juiz almotacé Carta-patente promovendo-o ao posto de ajudante de
Porto (jan/.fev/ mar.) ordenanças da Corte (1811); Carta-patente aprovando-o para o
posto de sargento-mór agregado às ordenanças da Corte (1819)
;Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva de 12$000
(1820); Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro.
Manoel Francisco de Juiz Almotacé Capitão do distrito de Turvo, Termo da Vila do Príncipe,
Oliveira (abr./.maio/ jun.) capitania de MG (1817); Hábito da Ordem de Cristo com
tença efetiva de 12$000 (1820)
Francisco José dos Juiz Almotacé Capitão da Companhia de Ordenanças na Vila de N.Sra. do
Santos (possíveis (abr./.maio/ jun.) Bom Sucesso (1808); Hábito da Ordem de São Tiago da
homônimos) Espada e 12$000 de tença efetiva (Igreja Matriz da Vila de
Sergipe de El Rei) (1809); Capitão da Tropa Auxiliar do
Regimento de Cavalaria da capitania da Bahia (1809); Padrão-
mór da Vila Nova de Porteirão (1810); Hábito da Ordem de
Cristo com 12$000 de tença (1810); Alferes da 4ª companhia
das Ordenanças da Vila de Loanda, capitania de Loanda
(1809); Tenente do Regimento de Infantaria Miliciana do
Distrito da Capela de Santa Ana (1809); Alferes da 5ª
companhia do Regimento de Infantaria Miliciana da Vila de
Jagoipe, capitania da Bahia (1815); Sargento-mór ; Reforma
do posto de Capitão da 10ª companhia (1819); Reforma do
posto de Sargento-mór da Companhia de Ordenanças do
Distrito de Gravatá da Vila de N. Sra. De Bom Sucesso,
capitania de Minas Gerais (1818); Alferes da Companhia de
Forasteiros do Termo das Ordenanças da Vila da Abadia
(1820).

João Rodrigues Ribas Juiz Almotacé Cavaleiro da Ordem de Cristo; Alferes da 2ª companhia das
(jul./.ag./ set.) Ordenanças do Distrito de Vila Nova (1819); Oficial da Ordem
da Rosa (1845)
1823 Joaquim Francisco de Juiz Almotacé Comendador da Ordem de Cristo (1822); Cavaleiro da Ordem
Faria (jul./.ag./ set.) Imperial do Cruzeiro (1830); Oficial da Ordem da Rosa (1854)
71

1824 João Martins Lourenço Juiz almotacé Quartel-mestre agregado ao 2º regimento de Milícias da Corte
Viana (jan/.fev/ mar.) (1815); Hábito da Ordem de Cristo (1822); Comendador da
Ordem de Cristo (1841).
José Pereira Vidal Juiz Almotacé Capitão agregado ao Regimento de Infantaria de Milícias de
(abr./.maio/ jun.) Cuiabá (1812); Mercê do Hábito da Ordem de Cristo (1822);
Alvará do Hábito da Ordem de Cristo (1823); Cavaleiro da
Ordem Imperial do Cruzeiro (1829)
Antônio José Moreira Juiz Almotacé (out./ Oficial da Ordem da Rosa (1841)
Pinto nov./ dez.)
1825 Francisco José Juiz almotacé SEM REFERÊNCIAS NA DOCUMENTAÇÃO
Fernandes Salazar (jan/.fev/ mar.) PESQUISADA
José Antônio da Costa Juiz almotacé (abr../ Senhor de engenho
Guimarães maio/ jun.)
Joaquim Teixeira de Juiz Almotacé Escrivão da Alfândega da Corte; Hábito da Ordem de Cristo
Macedo (out./nov/ dez) (1828); Oficial da Ordem da Rosa (1847)

Lourenço Antônio do Vereador Alferes da 1ª companhia de Ordenanças da Freguesia de Santa


Rego Rita (1810); Promoção a Capitão da 2ª companhia de
Ordenanças da Freguesia de Santa Rita (1817); Cavaleiro da
Ordem do Cruzeiro (1823); Promoção a Coronel (1825);
Hábito da Ordem de Cristo (1825); Carta de sesmaria
concedendo-lhe meia légua de terras nos sertões de
Valença(1827); Oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro (1828).
1826 Feliciano Alexandrino Juiz almotacé Secretário do 2º Corpo de Tropa Ligeira de Milícias da
Gomes (jan/.fev/ mar.) Capitania do Rio Negro (1814); Hábito da Ordem de Cristo
(1829)
João Gomes do Valle Tesoureiro CITADO EM 1812
Joaquim de Babo Pinto Juiz Almotacé Reformado do posto de Sargento-mór do 1º Regimento de
(abr./.maio/ jun.) Milícias desta Corte (1818)
1827 Manoel dos Passos Juiz almotacé SEM REFERÊNCIAS NA DOCUMENTAÇÃO
Corrêa (jan/.fev/ mar.) PESQUISADA
José Antônio da Costa Vereador CITADO EM 1825
Guimarães
Joze Jorge da Silva Juiz almotacé Hábito da Ordem de Cristo (1826)
(jan/.fev/ mar.)
Duarte Jozé de Mello Juiz almotacé Comerciante; Alferes do Regimento de Milícias da cidade de
(jan/.fev/ mar.) Loanda; Ten. da 7ª companhia do Regimento de Milícias de
Loanda, no reino de Angola (1816); Hábito da O. de Cristo e
12$000 de tença (1819); Carta-patente nomeando-o Capitão-
mór do Campo (1820); Comenda da Ordem de Cristo (1841);
1828 Felipe Ribeiro da Juiz almotacé SEM REFERÊNCIAS NA DOCUMENTAÇÃO
Cunha (jan/.fev/ mar.) PESQUISADA, ATÉ O MOMENTO
Francisco Luiz da Juiz Almotacé SEM REFERÊNCIAS NA DOCUMENTAÇÃO
Costa Guimarães (jul./.ag./ set.) PESQUISADA, ATÉ O MOMENTO
Joaquim Antônio Tesoureiro Deputado nomeado para a Junta do Banco Nacional (1809);
Alves Hábito da Ordem de Cristo e 12$000 de tença efetiva;
Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro (1829)
1830 Francisco Luiz da Vereador CITADO EM 1828
Costa Guimarães
João Martins Lourenço Suplente de CITADO EM 1824
Viana vereador
José de Carvalho Vereador Carta-patente nomeando-o Alferes agregado ao 2º Regimento
Ribeiro de Milícias da Corte (1808); Carta –patente promovendo-o ao
posto de Tenente da 5ª companhia do 2º Regimento de
Infantaria de Milícias da Corte (1815); Reforma do posto de
Tenente (1818); Hábito da Ordem de Cristo com 12$000 de
tença efetiva (1819).
Manoel dos Passos Suplente de CITADO EM 1827
Correia vereador
72

Simplício da Silva Suplente de Carta-patente promovendo-o ao posto de alferes da 4ª


Nepomuceno vereador companhia do 1º Regimento de Infantaria de Milícias da Corte
(passa a vereador no (1809); Carta-patente nomeando-o tenente da 2ª companhia do
mesmo mandato) 1º Regimento de Milícas da Corte (1815); Carta-patente
promovendo-o ao posto de Capitão da 3ª companhia do 1º
Regimento de Infantaria de Milícias da Corte (1818); Decreto
reformando-o no posto de Capitão (1820)Cavaleiro da Ordem
da Rosa (1846);

Como é possível observar, várias foram as formas de agradar ou favorecer os


grandes negociantes da praça do Rio de Janeiro, formando uma rede que envolvia
negociações que deveriam ser vantajosas para ambos os lados.

Os grandes negociantes financiavam, com substanciosas contribuições, a


construção de monumentos, obras urbanas, festas reais, entre outras iniciativas do
poder real e, em troca, viam-se atendidos em seus requerimentos, sempre dirigidos
diretamente ao Príncipe Regente, na figura do Ministro da Secretaria de Negócios do
Reino, como se pode observar nos exemplos a seguir.

Solicitou Amaro Velho da Silva, em 1813, que pudesse usar o brasão de armas
de sua família, tal como o havia recebido os seus progenitores, em Portugal e D. João,
acolheu e aprovou sua solicitação, numa demonstração de deferência ao seu leal
súdito.

“João, por graça de Deus, Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves,


d'aquém e d'além mar, em África Senhor de Guiné e da Conquista
Navegação, Comércio, Arábia, Pérsia e da Índia.
Faço saber aos que esta minha Carta de Brasão d' Armas virem que o
Conselheiro Amaro Velho da Silva, Cavaleiro Professo e Comendador da
Ordem de Cristo, Fidalgo Cavaleiro da minha Casa Real, Tenente-Coronel
de Milícias d'esta Corte, [...] o suplicante serviu de Vereador do Senado da
Câmara d'esta cidade. Os quais seus pais e avós e mais ascendentes foram
pessoas das distintas famílias de Portugal, d'onde são Fidalgos de linhagem e
Cota d' Armas e Solar, [...], servindo no político e no militar os lugares mais
distintos do Governo, sem que em tempo algum cometessem crime de lesa-
Majestade Divina ou humana. Pelo que: Me pedia ele, suplicante, por Mercê
[...], lhe Mandasse dar Minha Carta de Brasão de Armas das ditas Famílias
para d' elas também usar na forma que as tiveram e foram concedidas aos ditos
seus progenitores – E vista por mim a dita sua petição [...], lhe Mandei passar
esta Minha Carta de Brasão [...] O qual Escudo e Armas poderá trazer e usar
tão somente o dito Conselheiro Amaro Velho da Silva, [...] E assim mesmo
as poderá trazer em seus firmais, anéis, sinetes e Divisas, pô-las em suas
73

casas, Capelas, edifícios, e deixá-las em sua própria sepultura, e finalmente se


poderá servir honras, gozar, aproveitar d'elas em tudo e por tudo , como lhe
convém. [...]" 145

Outra prova de deferência da Coroa para com seu súdito Amaro Velho da Silva
foi o batizado de Carlota, sua sobrinha, filha de sua irmã Mariana Eugênia
Alexandrina, casada com o comendador José Luís da Motta, apadrinhada pelo Príncipe
Regente D. João e a Princesa D. Carlota.

Muitas das mercês obtidas eram estendidas até os descendentes desse grupo de
negociantes, como o caso de Antônio Gomes Barroso Júnior (que esteve na Câmara
em 1837) e Alexandre Gomes Barroso (filho de João Gomes Barroso), que receberam
também a Ordem de Cristo, por mercê a seus progenitores. Além disso, muitos tinham
direito a uma espécie de pensão, que recebia a denominação de “tença efetiva”, ou
“lotação”, quando passavam a pertencer à Ordem de Cristo. Entre os arrolados pode-
se citar os próprios Antônio e João Gomes Barroso, além de Diogo Gomes Barroso
(sobrinho de ambos), João Alves da Silva Porto, Francisco José dos Santos, Duarte
José de Mello, e vários outros.

Outra forma de privilegiar esses negociantes era liberá-los de suas convocações


para os cargos da Câmara. Aparenta estranheza que os membros desse grupo abrissem
mão de cargos políticos e que isso pudesse representar benefícios, mas isso ocorria
com freqüência, não para a vereança, mas para o mandato de juiz almotacé.

“D. João, por Graça de Deus, Príncipe Regente [...], Faço saber a vós, Juiz,
Vereadores e mais Oficiais da Câmara desta cidade, que o Coronel Antônio
de Pina me representou o grave detrimento e prejuízo que se lhe seguirá
de fazer os três meses de almotacé, que lhe estavam a caber por acabar de
vereador, pedindo-me que, em atenção a comparecer sempre pronto em
todas as vereanças e cargos da Câmara e a ter já servido no ano de 1803 e
a viver no seu engenho distante, cuja ausência lhe era danosa, o isentasse
dos referidos meses. E visto seu requerimento, Hei por bem dispensá-lo de
fazer os três meses de almotacé. ” 146 (sem grifos no texto original)

145
MAIA, Manoel A. Velho da Motta Maia. O conde de Motta Maia. Livraria Francisco Alves, 1937. Cf. a
íntegra deste documento no Anexo J.
146
AGCRJ, códice 39-2-14
74

E ainda um outro exemplo:

“D. João, por Graça de Deus, Príncipe Regente [...], Faço saber aos que esta
provisão virem que, atendendo a representar-me Antônio Gomes Barroso,
primeiro vereador do Senado da Câmara desta cidade, a impossibilidade
em que estava de servir os três meses de almotacé no ano próximo futuro
pela sua idade muito avançada e moléstia e pelo manejo da sua casa de
negócio e desordem do Engenho de Tagoahy, que precisava da sua
assistência, acrescendo a estes embaraços achar-se atualmente no Serviço
de Provedor da Santa Casa de Misericórdia, o que só bastava para lhe
encher todo o tempo: Hei por bem dispensar ao suplicante de servir os ditos
três meses de juiz almotacé. ” 147 (sem grifos no texto original)

É interessante observar a preocupação do Príncipe Regente com os problemas


de seus Oficiais da Câmara, principalmente no que tange aos “prejuízos de seus
negócios”. Ainda há que se registrar que tanto Antônio de Pina quanto Antônio
Gomes Barroso (este, apesar da moléstia e idade avançada!) voltaram à Câmara como
vereadores, em 1815, e tornaram a pedir – e a obter – licença para não exercerem o
cargo de juiz almotacé em 1816. A almotaçaria podia ser a “porta de entrada” para o
serviço de governança, mas, provavelmente, sua importância era minimizada em
relação ao ganho político ou financeiro (ainda que indireto) que a vereança pudesse
representar.

Fazia também parte do relacionamento dos negociantes de escravos com o


poder central, a participação nas obras públicas e festas reais, através de polpudas
contribuições. Também nos momentos de “aflição” do Estado, havia o apelo para que
a ajuda não faltasse, como, por exemplo, no período imediatamente antecedente à
independência política:

“Donativos e subscrições para urgências do Estado, mandados abrir pelo


Príncipe Regente D. Pedro, por portaria da Secretaria de Negócios do Reino,
de oito de fevereiro de mil oitocentos e vinte e dois.
Tendo este Senado aberto uma subscrição de donativos voluntários a favor das
atuais emergências da Sagrada causa do bem geral da Nação, em que devem
ser compreendidas todas as classes de cidadãos livres, em cumprimento da
portaria da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, junta para cópia;

147
idem
75

encarrega Sua Majestade de fazer entregar as cartas que acompanham aos


cidadãos que têm servido neste Senado, fazendo lançar na relação junta, as
quantias com que quiserem contribuir. O Senado espera do conhecido zelo
de Sua Majestade que nesta ocasião lhe continue a prestar os mesmos
serviços que em outras de Sua Majestade tem recebido.
Em vereação de dezesseis de fevereiro de mil oitocentos e vinte e dois.” 148
(sem grifo no texto original)

Foram recolhidos donativos para levar ao fim “a nossa feliz regeneração, tão
gloriosamente iniciada”, nas palavras do Senado. Tanto cidadãos quanto comerciantes,
como padeiros, donos de manufaturas de cera, comerciantes de tabaco, corporação de
ourives, negócios de madeira, armazém de mantimentos, mercadores de livros e
livreiros, fabricantes de velas de sebo, classe de ofícios de segeiros, lojas de louça,
mestres do oficio de alfaiates, mestres pedreiros, carpinteiros e oficiais, contribuíram.
Entre estes, Pedro José Bernardes, com a quantia de 100$000, Cláudio José Pereira da
Costa (cunhado de Amaro Velho da Silva) com 300$000, além do coronel João Gomes
Barroso ser o tesoureiro geral da receita e despesa, a quem a Câmara entregava o
dinheiro recolhido.

Ao solicitar a sua dispensa de juiz almotacé para o mandato de 1809, Francisco


Pereira de Mesquita afirma que

“... a primeira vez que serviu de almotacé publicou as Festas pelo nascimento
da Sereníssima Princesa D. Maria Tereza, o que fez com todo o fausto e, por
conseqüência, com dispêndio. Em 1807, serviu de 2º vereador e na chegada de
Sua Majestade, na forma da lei, estava servindo de almotacé e em razão
publicou as Festas e teve grande trabalho com a limpeza da cidade, fazendo vir
órgãos e mais vibres que se faziam indispensáveis para a maior presença do
povo que repentinamente veio, sendo-lhe preciso em razão, acautelar os
embarques de mantimentos que seguiram para fora.[...]” 149

O favorecimento mútuo era, portanto, uma constante nas relações entre os


negociantes de escravos e o poder central.

148
AGCRJ – códice 42-3-65. Donativos e subscrições para as urgências do Estado, mandado abrir pelo Príncipe
Regente D. Pedro.
149
AGCRJ, códice 39-2-14.
76

3.4. UNIDOS EM NOME DO PODER

Entre os integrantes do próprio grupo, as relações também se baseavam no “dar


e receber”. As fortunas se uniam, as teias de poder se fortaleciam, principalmente
através das uniões matrimoniais.

Os casamentos entre os filhos dos negociantes de escravos não fugiam às regras


da época: eram, normalmente, “arranjos” entre amigos, tratados, muitas vezes, desde o
nascimento das crianças. Muitos matrimônios eram realizados dentro da própria
família, entre primos de primeiro grau, mantendo assim, a fortuna restrita a um
pequeno círculo. Mas, o mais comum, era a soma de fortunas, visando o aumento do
poder, não só econômico como também político e social. Pode-se seguir esta linha de
raciocínio, observando-se alguns exemplos:

Lourenço Antônio do Rego, listado entre os dezessete maiores negociantes de


escravos da praça do Rio de Janeiro, entre 1811-1830 150 , casou-se, em 1813, com Ana
Polucena de Mesquita, sobrinha de Francisco Pereira de Mesquita, também arrolado
como grande negociante de escravos 151 . Mesquita, por sua vez, em seu testamento,
estabelece como primeiro testamenteiro o seu tio, o coronel José Pereira Guimarães,
membro da Câmara Municipal em 1798, 1809 e 1813; como segundo testamenteiro,
seu amigo Capitão João da Costa Lima, vereador da Câmara em 1805; e como terceiro
testamenteiro, o próprio Lourenço Antônio do Rego, na Câmara, em 1825. Além
disso, Mesquita deixou o legado de três contos e duzentos mil réis a sua sobrinha Ana
e Lourenço terminou por ser seu testamenteiro 152 , por desistência dos outros dois.
Certamente, o círculo de relações de amizade de ambos, trouxe dividendos mútuos.

As pesquisas no Arquivo da Cúria Municipal do Rio de Janeiro lançaram


alguma luz sobre as alianças matrimoniais desses negociantes, mostrando de que
forma as famílias acabavam por se unir, num emaranhado de relações, por vezes até
inesperadas. Viu-se, neste trabalho, três casos emblemáticos sobre o tema,
150
Cf. relação em FLORENTINO, Manolo, op.cit., apêndice 20, página 242.
151
ibidem, apêndice 26, p.254.
152
Cf. no Anexo K1 , o testamento e o inventário de Francisco Pereira de Mesquita.
77

apresentados na forma de árvore genealógicas, como apêndices, ao final deste


capítulo.

Em primeiro lugar, tem-se a família de Diogo Teixeira de Macedo, que se


encontra arrolado entre os dezessete maiores negociantes de escravos do período
analisado, tendo realizado 18 viagens à Luanda, entre 1812 e 1822 153 . Os filhos de seu
casamento com Ana Mattoso da Câmara tiveram sucesso na carreira política: Diogo
Teixeira de Macedo (?-1882) foi Magistrado, Deputado, Desembargador e Presidente
do Estado do Rio de Janeiro, sendo agraciado com o titulo de Barão de São Diogo,em
18/12/1873 e Sérgio Teixeira de Macedo (1809/1867) foi presidente da Província de
Pernambuco e Ministro do Império 154 . Já sua filha Maria Henriqueta Teixeira de
Macedo, casou-se com Joaquim Francisco de Faria, citado no quadro de matrículas da
Junta de Comércio e que importou, de Benguela, cerca de 1260 escravos, no período
entre 1824 e 1827 155 . Deixou, também como descendente, o poeta Álvaro Teixeira de
Macedo.

Diogo Teixeira de Macedo, filho, foi casado com Francisca Maria de Souza
Breves, que faleceu em 1848. A família Breves deixou imensa descendência em Barra
do Piraí, sendo, provavelmente, uma das famílias mais ricas do Império. Francisca
Maria era filha do capitão-mór José de Souza Breves, filho do patriarca da família,
Antônio de Souza Breves, e irmã de José de Souza Breves Filho, “o rei do café”.
Casou-se, em primeiras núpcias, com seu primo, Raimundo de Souza Breves, filho de
seu tio Tomé de Souza Breves, irmão do seu pai, e, após o falecimento de seu primo,
uniu-se matrimonialmente a Diogo Teixeira de Macedo. Ainda um outro casamento
uniria as duas famílias, através da bisneta de Tomé de Souza Breves, Ana Francisca da
Silveira, que se casou com o Conselheiro Sérgio Teixeira de Macedo, um dos filhos de

153
AN, Inventários Post-Mortem(1790-1835)
154
BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; BUENO, Antônio Henrique de Cunha. Dicionário das Famílias Brasileiras.
Projeto Cultural e Coordenação Geral ÍberoAmérica Comunicação e Cultura SC Ltda: São Paulo, vol. 1 e 2, 2000.
155
AN,Códice 242; BN, Seção de Microfilmes: periódicos: Gazeta do Rio de Janeiro (para o período entre
01/07/1811 e 31/12/1822), Espelho (de 01/10/1821 a 31/6/1823), Volantim (de 01/09/1822 a 31/10/1822),
Diário do Governo (de 02/01/1823 a 20/5/1824), Diário do Rio de Janeiro (de 02/12/1825 a 02/12/1827),
Jornal do Commércio (02/10/1827 a 30/06/1830) e Diário Fluminense (de 21/05/1824 a 31/12/1830).
78

Diogo Teixeira de Macedo, pai.

É interessante observar a sucessão de casamentos de elementos consangüíneos,


de segunda ou terceira linha, nas famílias de maiores posses. Somente na família
Breves, esse tipo de união ocorre mais de uma dezena de vezes. Os documentos que
atestam tais uniões apelam, quase sempre, para as mesmas razões, como o que se
segue:

“Raimundo de Souza Breves e Dona Francisca de Jesus Maria.


Ano: 1826.
Datas do processo: 01/06/1826 a 22/06/1826.

Ilmo. e Revmo. Sr. Vigário da Vara

Dizem os oradores Raimundo de Souza Breves, e Dona Francisca de Jesus


Maria, que se acham justos, e contratados para se casarem; porém não podem
fazer sem que sejam dispensados por Sua Exa. Revma. do impedimento de 2º
grau de consangüinidade, em que se acham ligados; portanto a fim de obterem
a dispensa, querem perante V. M. justificar o seguinte:

Que o Sargento-Mor José de Souza Breves, é irmão legítimo de Tomé de


Souza Breves, e que deste procede o orador, e daquele a oradora, por isso
ligados com o impedimento acima declarado.
Que os oradores, por irem freqüentemente, como parentesco, a casa um de
outro, se afeiçoaram, e por isso se contrataram casar por consentimento de seus
pais.
Que entre os oradores não tem havido ação alguma ilícita, vivendo a oradora
honestamente em casa de seus pais.
Que a oradora não achará facilmente pessoa de sua qualidade, para se
casar, por que são os oradores das principais famílias do lugar, onde
moram, e parentes da maior parte deles.
Que o orador possuirá quatro contos de réis, e a oradora nada, sim seus
pais.
Que não se casando, não ficará bem reputada a honra da oradora por se haver
feito público este contrato, portanto:
Pede a V. M. seja servido admitir suas testemunhas para depois de justificado
o deduzido, com ele obterem de Sua Exa. Revma. o benefício da Dispensa.
Et orabunt ad Dominum

Moradores na Comarca de Santana do Piraí.

Testemunhas presentes no processo: Coronel José Gonçalves Morais, Belizário


Antônio Ramas Barbas e Francisco Mariano da Conceição.

Penitências: “(...) assistam os oradores na sua Matriz a duas missas


79

conventuais com velas acesas nas mãos, que deixarão na mesma Matriz, reze
cada um vinte rosários, façam dois jejuns ordinários, confessem-se uma vez, e
tudo ofereçam a Deus Nosso Senhor em sufrágio pelas almas do Purgatório
(...)” 156 . (sem grifos no texto original).

Duas informações relevantes são apresentadas neste documento: o fato de que


“os oradores são das principais famílias do lugar onde moram e parentes da maior
parte deles” e que a oradora nada tinha de seu, apontando para o fato de que as
mulheres, em tal período, mesmo sendo de ricas famílias, não eram consideradas como
“de posses”. Sendo assim, entendo que o casamento podia lhes servir como uma forma
de herdarem, ainda em vida de seus pais, mesmo que o fosse em nome do marido,
“cabeça do casal”.

De qualquer forma, a família Breves, não relacionada entre as negociantes de


escravos da África, termina por se ver unida a um grupo que enriqueceu da compra e
venda de negros africanos. Pela primeira união, com o próprio primo, Francisca Maria
garantiu que a fortuna dos Breves permanecesse dentro do próprio círculo familiar e,
através do casamento com Diogo Teixeira de Macedo, aliou duas grandes fortunas. A
descendência da família, forjada através de inúmeras associações matrimoniais,
acabou por alcançar a família Lima e Silva, na figura do irmão de Luís Alves de Lima
e Silva (futuro Duque de Caxias), José Joaquim de Lima e Silva Sobrinho, o duque de
Tocantins, que se casou com Emiliana de Moraes, filha de Antônio Gonçalves de
Moraes (irmão do Barão de Piraí, José Gonçalves de Moraes) com Ana Margarida de
Jesus de Souza Breves (filha do patriarca Antônio de Souza Breves e, portanto, tia de
Francisca). Além disso, também se uniram às famílias Carneiro Leão, Carneiro
Vianna, Gomes Barroso e Monteiro de Barros, num verdadeiro circuito de poder,
através destes matrimônios.

A família Gomes Barroso protagonizou, também, um exemplo típico de


casamento e proteção de patrimônio. João Gomes Barroso e sua esposa, Maria

156
ACMRJ – Caixa 1514, notação 17.094
80

157
Joaquina de Azevedo Barroso, tiveram cinco filhos : João Gomes Barroso (35 anos,
à época do falecimento do pai, em 1829); Alexandre Álvares Barroso (19 anos);
Antônio Álvares Gomes Barroso (18 anos); Honorata Carolina Benigna da Penha de
Azevedo Barroso (12 anos).

Alexandre Álvares casou sua própria filha, Leonarda Alexandrina, em 1847,


com o irmão mais velho, João, que era demente, a fim de tutelar os bens do irmão, que
veio a falecer em 1868. O próprio Alexandre casou-se com sua prima, bem como seu
filho, Alexandre Gomes Barroso Júnior, também o fez, como atestam os documentos a
seguir:

“Alexandre Álvares Gomes Barroso e Dona Tereza Leonarda de Azevedo.


Ano: 1829.
Datas do processo: 14/02/1829 a 17/02/1829.

Exmo. Revmo. Sr.

Dizem os oradores Alexandre Álvares Gomes Barroso, e Dona Tereza


Leonarda de Azevedo, moradores nesta Cidade que eles se contrataram casar;
porém não o podem conseguir pelo impedimento que entre eles há do segundo
grau de consangüinidade na linha transversa, do qual humildemente suplicam a
dispensa admitindo a justificar o seguinte:
1º. Que Leonardo Álvares de Azevedo, era irmão de Dona Maria Joaquina de
Azevedo Barroso, e que desta nasceu o orador, e aquele procedeu a oradora.
2º. Que os oradores por se amarem extremosamente se contrataram casar, e
porque já por algumas pessoas é sabido este ajuste receiam não venha a ter a
oradora quebra na sua boa reputação.
3º. Que a oradora é órfã de pai, e orador filho famílias, e portanto não
sabe o que lhe tocará por falecimento de seus pais, porém julgam que lhe
ficará de parte a parte bens para se poderem bem tratar.
4º. Que a oradora não foi raptada pelo orador, vivem separados, e entre eles
não tem havido mais que um amor lícito, por isso:
Pede a V. Exa. Revma. Se digne dispensar com os oradores no referido
impedimento, provadas as suas premissas.
Et orabunt ad Dominum.
Remetido ao Revmo. Doutor Provisor com as faculdades para a Dispensa. Por
Comissão de Sua. Exa. Revma. Aguiar. (sem grifo no texto original)

Foram ouvidos os depoimentos de duas testemunhas e dada a penitência de

157
Há controvérsias quanto a isso, uma vez que a ficha do Colégio Brasileiro de Genealogia apresenta o casal
como progenitores de onze filhos. Optei, no entanto, pelas informações contidas no inventário de João Gomes
Barroso, AN, maço 461, nº 1592, de 1829.
81

praxe aos postulantes, que puderam, em seguida, unir-se em matrimônio.

“Penitência dada aos oradores: “Reze cada um dos oradores três rosários, e
faça um jejum ordinário, confessem-se uma vez, e satisfação em comutação
das mais penitências cem mil réis para obras pias a arbítrio de Sua Exa.
Revma., e tudo oferecerão a Deus Nosso Senhor em oferecimento pelas almas
do Purgatório”.

Aos vinte e três dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e vinte e nove, na
Capela de São Cristóvão, pelas seis horas da tarde com Provisão de Sua
Excelência Reverendíssima, depois de feitas as diligências do estilo sem
impedimento algum, e dispensados do impedimento que entre eles havia do
segundo grau de consangüinidade na linha transversa, na forma do Decreto, e
Constituição que rege este Bispado, com licença do Reverendo Pároco desta
Freguesia, em presença do Reverendo José Francisco da Silva Cardoso, e das
testemunhas [...] se recebeu em matrimônio o Comendador Alexandre Álvares
Gomes Barroso[...], , e com Dona Tereza Leonarda de Azevedo, [...], e
receberam as bênçãos nupciais [...] 158 .

Interessante observar que o casamento entre parentes era algo tão costumeiro,
que, no caso citado, passou de pai para filho:

“Alexandre Alves Gomes Barroso Júnior e Emília Magalhães Alves de


Azevedo.
Ano: 1856.
Datas do processo: 22/07/1856 a 24/07/1856.

Exmo. e Revmo. Sr.

Dizem os oradores Alexandre Alves Gomes Barroso Júnior e Dona Emília


Magalhães Alves de Azevedo, naturais deste Bispado, [...] que eles se acham
juntos, e contratados para se receberem em matrimônio, mas não o podem
fazem sem que primeiramente sejam dispensados do impedimento que entre
eles há de consangüinidade duplicada em terceiro grau de linha transversal, do
qual humildemente imploram a dispensa camarariamente, expondo as causas
seguintes:
Que o pai da oradora é primo irmão tanto do pai, como da mãe do orador, e por
isso no terceiro grau.
Que os oradores se amam mutuamente, e com o consentimento de seus pais se
ajustaram casar.
Que os oradores fazem vantagem em se casarem por serem de famílias
honestas, e religiosas, e no lugar onde mora a oradora não achará melhor
vantagem de consorte.
Que entre eles não tem havido comércio ilícito, e vivem separados: portanto,
Pede a V. Exa. Revma. Se digne conceder-lhes a dispensa pedida, comutando-

158
ACMRJ - AP 0791 – Livro de casamentos da Freguesia da Candelária.
82

lhes as penitências que deveriam cumprir em alguma esmola para obras pias, e
passando-se a Provisão para se receberem em qualquer Oratório ainda para
esse fim preparado com dispensa dos proclamas.
E.R.M.

Penitência dada aos oradores: “Comuto as penitências que estes oradores


deveriam cumprir, em trinta mil réis para as obras pias, confessem-se, e
comunguem, e tudo ofereçam à Paixão de Cristo, Senhor Nosso, em sufrágios
pelas almas do Purgatório. Satisfeito, os dispenso no impedimento alegado, e
os absolvo das censuras, para o fim da presente praça. Rio de Janeiro,
22/07/1856. Cônego João Rodrigues”. 159 (sem grifo no texto original)

Mais uma vez, pode-se observar, pelo documento, a referência às vantagens de


semelhante casamento, principalmente para a mulher, em função de não “existirem
bons partidos na região” (isso apesar dela pertencer à família de posses).

Também Diogo Gomes Barroso, sobrinho dos irmãos Barroso, casou-se em


1819 com Maria Cândida de Oliveira Cardoso, filha do já citado Manoel Gomes
Cardoso, que ocupou o cargo de procurador do Senado da Câmara, em 1793, o de
vereador, em 1801 e 1811.

Talvez o caso mais denotativo da importância dos matrimônios para a


manutenção do prestígio e da fortuna das famílias (e aí, é necessário estender para
além dos negociantes de escravos essa noção, inerente à época) seja o da família Velho
da Silva. Esta se uniu fortemente aos Motta, inicialmente através do casamento do
Comendador José Luiz da Motta e Gertrudes Matilde, irmã de Leonarda Maria Velho
da Silva, casada com o capitão Manoel Velho da Silva. Os laços foram reforçados com
o matrimônio de Mariana Eugênia Alexandrino Velho da Silva, também filha de
Manoel e Leonarda com José Luiz da Motta, seu primo materno. Dessa união nasceu,
entre outros, Leonarda Maria Velho e Motta, que se casou com José Maria Velho da
Silva, seu primo em terceiro grau:

“Aos doze dias do mês de agosto de mil oitocentos e vinte e seis, no oratório
da chácara do Conselheiro Amaro Velho da Silva, [...], depois de feitas as
diligências do citado e dispensados do impedimento de terceiro grau de

159
ACMRJ – Caixa 2943, Notação 70444.
83

consangüinidade na linha transversal [...], com licença do revendo pároco desta


freguesia, em presença do reverendo José Álvares Pinto de Azevedo e das
testemunhas Amaro Velho da Silva e Francisco Alberto Teixeira de Aragão
recebeu em matrimônio José Maria Velho da Silva,[...] e Leonarda Maria
Velho e Motta, [...]” 160

Além desse vantajoso casamento, uma outra filha de Mariana Eugênia e José
Luiz da Motta, Maria Isabel Velho e Motta, casou-se com Manoel Domingos da Silva
Maia, deixando como descendente Cláudio Velho da Motta Maia, médico particular de
D. Pedro II (tendo-o acompanhado, inclusive, no exílio do imperador, em Paris), que,
por seu turno, deixou entre os descendentes de seu casamento com Maria Amália Cruz
Vianna, a filha Amanda Velho da Motta Maia, mais tarde consorciada com Mário
Ernesto Hermes da Fonseca, primeiro filho do Marechal Hermes da Fonseca, com sua
primeira esposa, Orsina Francione da Fonseca.

Todas as outras filhas de D. Leonarda Maria Velho da Silva (ela própria Dama
161
da Corte Imperial e, após a morte do marido, à frente dos negócios, junto com seu
cunhado Amaro Velho da Silva e seu filho, de mesmo nome) e Manoel Velho da Silva,
casaram “bem”, como se dizia à época. D. Maria Tomásia Angélica (única casada
quando seu pai morreu, em 1807) com Manuel Guedes Pinto, que, entre os anos de
1819 e 1830, trouxe de Luanda mais de 8 000 escravos africanos. Mathildes Carolina,
em 1807, após a morte do pai (contrário ao matrimônio), casou-se com o
Desembargador Manoel Bernardes Pereira da Veiga, que recebeu o título de barão de
Jacotinga, em 1830. Leonarda Maria casou-se, em 1810, com o Desembargador do
Paço Cláudio José Pereira da Costa. Também suas netas fizeram “bons” casamentos:
Carlota Adelaide, filha de Mariana Alexandrina e José Luiz da Motta casou-se com o
Conselheiro Francisco Alberto Teixeira de Aragão, o novo Intendente Geral da Polícia
da Corte, substituto do Conselheiro do Paço Paulo Fernandes Vianna, cujo filho se
casaria com Honorata Benigna Gomes Barroso, filha de João Gomes Barroso, um dos
maiores comerciantes de escravos da praça do Rio de Janeiro, juntamente com seu

160
Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, Registro de Casamentos da Freguesia da Candelária
(1809-1837), AP-791, folha 151.
161
Cf. DIEGUEZ, Lucília Maria Esteves Santiso. Dona Leonarda Maria da Silva Velho: uma Dama da Corte
Imperial (1754-1828). Dissertação de Mestrado. UFF. Niterói, 2004.
84

irmão Antônio Barroso. Assim, como é possível perceber, também àqueles não ligados
aos negócios da escravidão, interessava as uniões entre as famílias, numa
demonstração de que a sociedade aceitava ou, pelo menos, não rejeitava os
negociantes negreiros, preocupando-se mais em manter a fortuna, o prestígio e as
mercês dentro de um determinado círculo de relações e, se possível, dentro do próprio
espaço de consangüinidade.

Aliás, numa sociedade repleta de regras que beiravam o preconceito, é


interessante que estas fossem deixadas de lado, em função de interesses financeiros ou
estratégicos. Pode-se observar isso no caso específico de José Antônio da Costa
Guimarães, registrado como filho de pai incógnito, tendo sido criado pelo tenente
Bento José Alves de Oliveira, e que se casou com Henriqueta Ferreira de Assunção,
em 1829, filha de João Ferreira da Silva Braga e de Inácia Francisca Maya. Entendo
que era do conhecimento de todos que seu verdadeiro pai era José Antônio da Costa
Guimarães, conhecido negociante de escravos da praça do Rio de Janeiro, e juiz
almotacé do Senado da Câmara em 1825 e 1827, com uma única filha Francisca de
Paula, reconhecida de sua união legal com Maria Bernarda do Nascimento. Viúvo, em
1798, João Antônio cuidou dos bens indivisos do casal, até sua morte, em 1829. Com
o seu falecimento, seu genro e inventariante Tenente-Coronel Antônio Maria da Silva
Torres, viúvo de sua única herdeira legítima, pediu a separação dos inventários do
casal, alegando fraudes na administração do sogro, que visava lesar os herdeiros, seus
netos menores, em favor do “intruso” José Antônio da Costa Guimarães, que se
apresentou também como candidato à partilha dos bens. Os bens foram confiscados
pelo juiz de órfãos e José Antônio (filho) recusou-se a comparecer a juízo, apesar das
seguidas intimações, até ser reconhecido como herdeiro nominado, o que acabou por
alcançar. Administrou os bens do pai falecido até 1834 162 .

Por sinal, no que tange a filhos naturais, registrados como de pais incógnitos e
que recebiam, posteriormente, títulos e mercês, os negociantes de grosso trato não
fugiam à regra da época patriarcal em que viviam. Um exemplo disso é Francisco

162
AN – Seção de Inventários: caixa 1119, nº 272 – ano 1831
85

José Guimarães, filho de pais incógnitos, exposto, batizado e criado na casa de


Francisco Pinheiro Guimarães 163 . Francisco realizou, no período entre 1811 e 1830,
inúmeras idas à África, da qual trouxe cerca de 3.800 cativos, em nome da família
Pinheiro Guimarães. Um dos anos onde não realizou nenhuma viagem foi o de 1822,
quando Manoel Pinheiro Guimarães viajou à Luanda, trazendo cerca de 540 escravos.
No entanto, se é certo que Manoel foi vereador e juiz almotacé, nos anos de 1808 e
1809 e Francisco não teve nenhum cargo de governança, gozava, de qualquer modo,
da confiança e proteção da família Pinheiro Guimarães.

Entendo ser possível ver, ainda, uma outra lógica nas alianças matrimoniais dos
negociantes de grosso trato da governança da Câmara Municipal da cidade do Rio de
Janeiro, para além do prestígio e união de fortunas. A própria mudança de perfil da
Câmara leva à conclusão de que os casamentos já não eram realizados somente dentro
de um círculo fechado, que incluía somente negociantes, fazendeiros. Os filhos destes
cresciam e formavam um novo grupo, ainda ligado ao mando paterno, mas voltado de
forma mais intensa para a carreira militar e o bacharelado em Direito, principalmente,
ou a carreira na Medicina. Nesse sentido, os chamados “bons partidos” já não eram os
tios ou cunhados fazendeiros, mas os jovens tenentes e os bacharéis que, amparados
pela fortuna e prestígio dos pais, logo galgavam postos mais altos, tanto na carreira
militar quanto no campo do Direito ou dos cargos políticos.

Uma outra observação a ser feita é sobre a faixa etária dos noivos. Era comum
que a noiva mal tivesse chegado aos quatorze anos, enquanto seu prometido já beirava
a casa dos trinta. No entanto, o contrário também era aceitável. Na família Fernandes
Vianna, por exemplo, o Desembargador Paulo Fernandes Vianna tinha 40 anos de
idade ao desposar Luisa Rosa Carneiro da Costa, 16 anos. Seu sobrinho, de mesmo
nome, contava 19 anos ao se casar com Ana José Clarisse Vaugen, de 24 anos.
Também na família Gomes Barroso, viu-se João Gomes Barroso, filho, de 51 anos,
desposar sua sobrinha, Leonarda Alexandrina, de apenas 14 anos, enquanto seu tio
Antônio Gomes Barroso, de 35 anos, casou-se com Ana Clara Rosa, de 13 anos

163
ACMRJ – AP 0134 – Livro de casamentos da Freguesia do Santíssimo Sacramento, caixa 2447, nº 50541.
86

apenas.

A reconstrução dessas ligações matrimoniais pode representar um passo adiante


no conhecimento da dinâmica que ordenava esse grupo de negociantes de grosso trato,
na busca de suas estratégias para se manterem próximos ao poder. Analisando os três
casos aqui apresentados, é possível observar que, de uma forma ou de outra, as três
famílias terminaram ligadas aos mesmos grupos, através de uma ou outra geração.
Acredito que várias interpretações possam ser organizadas a partir dessa pesquisa, mas
longo é o caminho a ser percorrido. Esse é apenas o começo e vários dados aguardam
para serem reunidos e analisados. O tempo, certamente, será um grande aliado para o
futuro desse estudo.

3.5. FORTUNAS AMEALHADAS E NEM SEMPRE MANTIDAS

Os grandes negociantes de escravos reuniram grande fortuna com suas


transações. Enquanto o comércio de africanos foi permitido, foi fonte de grandes
lucros, o que permitiu a formação de pecúlios consideráveis. No entanto, nem todos
aqueles que se dedicaram a esta atividade, de acordo com os inventários analisados,
puderam deixar herança polpuda a seus herdeiros. Se é fato que muitos conservaram
seus bens e os transmitiram aumentados aos filhos, também é verdade que as falências
ocorreram com freqüência.

Pelos documentos consultados, era comum o fazer-se dívidas para pagamentos


posteriores, assinando-se recibos que, em grande parte das ocasiões, só eram do
conhecimento da família, quando da abertura do inventário. É possível encontrar boa
parte dos bens das famílias analisadas comprometida com credores. José Luiz Alves,
por exemplo, falecido em 1848, uma das fortunas da Corte, não deixou filhos de seu
casamento com Thereza de Jesus e, tanto ela quanto os irmãos de José Luiz, abriram
mão da herança para pagamento de dívidas, nada restando, uma vez que já se
encontrava falido desde 1822. 164

164
AN – Seção de Inventários, caixa 3650, nº 3481.
87

Joaquim Teixeira de Macedo, falecido em 1853, tinha sete filhos com sua
esposa, Dona Francisca de Assis Menezes. Deixou inúmeras dívidas (letras,
promissórias, dívidas na Europa, com uma sociedade comercial francesa) para o
pagamento das quais o espólio não foi suficiente 165 .

Nem todos os negociantes de escravos, no entanto, tiveram o mesmo descuido


com suas finanças. Basta observar a situação de Antônio Gomes Barroso, através de
seu testamento 166 , para se concluir o quanto o comércio de escravos africanos era
rendoso. Entre bens móveis e imóveis, incluindo o Engenho de Tagoaí, com muita
escravatura, ele deixa esmolas de vinte e cinco mil e 200 réis para cinqüenta viúvas e
“dez dotes de 200$000, cada um, para se casarem dez raparigas brancas, pobres,
honradas e órfãs, domiciliadas desta Corte ou fora dela.” 167

Também João Gomes Barroso deixou imensa fortuna, incluindo aí terras,


engenhos, escravos, gado, cafezais, ouro, prata, além de sociedade em navios e sítios.
O total líquido de seu inventário foi de 524:197$153, uma significativa quantia. 168

Leonarda Maria da Silva Velho possuía, segundo seu inventário, um total geral
de 241 escravos, no montante de 31:315$800. Além disso, por conta de bens imóveis,
ouro, prata, entre outros, seu espólio confirma o valor líquido de 280:099$49. 169

De uma forma ou de outra, acredito que se pode entender a importância deste


grupo específico de homens, ligados aos negócios da escravidão e à vida da Corte,
assim como o seu interesse por cargos públicos, principalmente na governança,
mercês, graças honoríficas, títulos, enfim, todo e qualquer símbolo que os pudesse
diferenciar do comum dos habitantes locais, colocando-os num patamar mais elevado
e estabelecendo, para eles, um status que os mantivesse próximos ao poder, além de

165
AN – Seção de Inventários, caixa 610, nº 6961.
166
AN – Seção de Inventários, maço 2296, nº 2370, que inclui o testamento, aberto em 29/03/1825. Cf. o texto
completo no Anexo K2.
167
AN, loc.cit.
168
AN – Seção de Inventários, maço 461, nº 1592, que inclui o testamento, aberto em 14/10/1829. Cf. Anexo K3
169
AN – Seção de Inventários, maço 433, nº 8373, que inclui o testamento, aberto em 04/11/1825.
88

lhes garantir lucros substanciosos.

3.6. ALGUMAS PALAVRAS

Entendo ser importante frisar que, não somente os negociantes de escravos com
mandatos no Senado da Câmara Municipal beneficiavam-se das mercês e privilégios
concedidos pela Coroa, tendo sido prática comum àqueles que ocupavam cargos de
vereança, como o demonstrado no caso específico de Antônio Luís Pereira da
Cunha 170 .

Em relação ao enriquecimento ou ganhos financeiros daqueles que não


participavam do comércio de negros africanos, também alguns inventários pesquisados
podem fornecer informações sobre os bens deixados pelos vereadores e almotacés, que
podiam representar fortunas ou se resumir à parca herança. Os inventários apresentam
casos como o do presidente da Câmara Municipal de 1830, Bento de Oliveira Braga,
Tenente-coronel da Cavalaria, senhor de engenho, filho das principais famílias,
presidente da Câmara de Deputados na Assembléia Geral na 3ª Legislatura (1834-
1837), pela Província do Rio de Janeiro, e que lega, a seus descendentes, fazendas em
diversas localidades (Freguesia de Irajá, Município de Itaguaí, Vassouras, Freguesia de
Jacotinga e um sítio, em Vila de Iguaçu), onde possuía inúmeros escravos: 162 em
Irajá; 168 mais 7 “sem valor de venda”, em Itaguaí; 48 na fazenda de Vassouras; 128
(5 sem valor de venda) em Jacotinga e 54 (3 sem valor de venda) em Vila do
Iguaçu 171 . Por outro lado, vê-se que João José da Cunha, vereador no mesmo
mandato, Comissário de corveta, falecido em 1848, não deixa bens (inclusive
escravos),“à exceção do que ganhou com sua profissão, cujo montante perfazia
400$000” 172 . Nesse sentido, entendo poder concluir que aqueles que já possuíam boa
situação econômica, podiam prevalecer-se dos cargos para, quem sabe, aumentar sua
fortuna, enquanto que os que viviam de rendimentos médios, decorrentes de sua

170
Cf. no capítulo 4 desta Tese.
171
AN, Seção de Inventários, nº 1429, caixa 389
172
AN, Seção de Inventários, nº 1553, caixa 4147
89

profissão, por vezes, não tinham – ou não aproveitavam –, a mesma oportunidade.

De qualquer forma, tanto negociantes de escravos quanto àqueles que não se


dedicavam a esse mister, tinham, nos cargos da governança da Câmara, a ocasião de
receber as benesses deles advindas.
Braz Joana do
Manoel de Maria de São Fernandes Espírito Santo
Breves José

Antonio de Souza Maria de Jesus


Antonio Cecília de
Breves Fernandes Francisco Luiza Barbosa
Lobo Frazão Almeida Saturnina de Moraes Dr. Antonio Candido Carneiro Leão
de Souza Breves da Cunha Leitão

Capitão Mór José de Maria Pimenta Lobo


Souza Breves (cas. Frazão de Almeida Leôncia de Moraes de Luiz Alves de Oliveira
José de Souza Souza Breves Belo
1777) Breves Filho (Rei Serafina José Netto
do Café) (cas. Carneiro Leão Ferreira
Maria da Silva Domingos de 1831) Maria Isabel Moraes Silvino José de Moraes
Antônio Rodrigues Francisca Valadão de Souza Breves Costa (seu primo)
Breves Souza Breves
Flores Cel. José Joaquim
de Souza Breves Manoel Netto
José Frazão de Cecília de Moraes Costa
Carneiro Leão
Maria Pimenta de Moraes de Souza (sua prima)
Ana Margarida de Francisco Luiz José Luiz Mariana Rodrigues Dias Breves
Jesus de Souza Gomes Gomes (Barão (1° Casamento) Almeida Breves
Manoel Francisco Mãe Antonio Paula de Souza
Esposa Breves
Breves de Mambucaba) (Fazendeiro paulista) Joaquim José de Justina Bulhões Belo Manoel
Isidoro de Souza Souza Breves Carneiro Leão Antônio Netto Ana Maria
João dos Santos
Breves (cas. em Francisca Rosa da Carneiro Leão Leme
Bartolomeu de Tomé de Souza Maria Rodrigues Breves
1834) Esposa Rosa Luíza Conceição Antonio Gonçalves de Rita Clara de Souza
Souza Breves Breves (1° Casamento) Conde Fé d´ Ostrinni
Gomes (2°Casamento) Moraes Rita de Moraes de
Souza Breves (Ministro da Itália no Brasil)
Margarida Gertrudes Agostinho Luiz Ana Pimenta de
Lourenço Sgt. Mór Possidônio
da Conceição da Silveira Francisca Clara Margarida de Almeida Breves Sgt.Mor. João da Silva Isabel Maria Josefa Rafaela Capitão Manoel
Esposa Francisco Breves Carneiro da Silva
de Assis de Souza Breves Rita Luiza Ana Rita Gomes Fonseca de Lina Brandão Ivo Carneiro Leão Martins Nicolau Netto Joana Severina
Mariquinha de Moraes Streva
Severino de Souza Breves (2° Casamento) Gomes (cas. em 1772) Carneiro Carneiro Leão Augusta
Cecília Pimenta de Souza Breves
Souza Breves Delfina de Antonio Luiz
Campos Bello da Silveira Camilo Gomes Frazão de Souza
Raimundo de Antônio Gomes José Gonçalves de
Breves Cecília de Moraes de Conselheiro João Martins
Joaquim de Souza Luiz de Souza Souza Breves Moraes(Barão de José Joaquim de Lima Joana Maria da
Breves (cas. em Breves (cas. em 1826) Pirahy)- (cas. 1799) Souza Breves Camélio dos Santos e Silva
Ana Francisca Fonseca Costa
Francisco Francisca de Ana Francisca Rosa Honório
1839) da Silveira Coronel Brás
Maria Pimenta Gomes Virgínia Eufrosina Jesus Maria de Maciel da Costa (Baronesa Hermeto
Miguel Eugênio Monteiro de Rita Clara de Moraes Carneiro Leão
Maria Benta Maria Eugênia de Almeida Souza Breves de S. Salvador dos Carneiro Leão
Barros (filho do Barão de Maria Eulália de Lima Mal. José Joaquim de Lima e Maria do Loreto Lourenço (cas. Em 1772)
de Souza Breves Campos de Goitacazes)
Paraopeba) Fonseca Silva (Visconde de Magé) de Nascentes Fernandes Vianna
Breves João Gomes Maria Joaquina
Sgt. Mór Victoriano Brites Clara de
Rosa Clara da Barroso (cas.: Duque Estrada
da Silva Figueira Souza Breves Maria Isabel de Moraes Maria José de Souza D. João Francisco da
Alegria Francisca de Ten. Gal. Manoel da Fonseca 1793) Álvares de Azevedo João Fernandes Desembargador Paulo Luíza Rosa Loreto
Luís de Souza Breves Macedo (4ª baronesa Costa de Souza e
Souza Monteiro Emiliana de Souza de Lima e Silva (Barão de Vianna Fernandes Vianna Carneiro da Costa
Desembargador Breves (Barão de Mullingan- Ingl.) Albuquerque
de Barros Breves (Baronesa Joaquina Pimenta Suruí) (cas.: 1802)
Francisco de Paula de Guararema) Alferes José Pedro Paulo Fernandes
Carlota Joaquina Francisco de do Amparo) de Almeida Breves
de Miranda Paula Monteiro de Monteiro de Barros de Medeiros Mal. Luiz Manoel de Lima e Carneiro Vianna Francisco da Costa de
Amélia Augusta Honorata Carolina Maria Leonor
Barros Silva (Conde de São Souza Macedo (Visconde
Monteiro de Barros Joaquim José Gonçalves Benigna da Penha Carneiro Vianna
Cecília Pimenta de Simão) (cas.: 1830) da Cunha)
Júlio César de Joaquim Luiz de de Moraes Cel. Luiz Alves de Azevedo Barroso
Miranda Monteiro de Almeida Breves Ana Quitéria Nicolau Antonio Nogueira Ana Joaquina de Almeida
Augusta Emília Souza Breves de Freitas Belo Maria Joaquina de Lima e
Barros Joaquina de Oliveira e Gama
Monteiro de Barros Silva Maria do Loreto Pedro Justiniano Carneiro Ana Vidal Carneiro da Luiz José de Carvalho e
(2º casamento) Antonio Gonçalves Carneiro Vianna de Carvalho e Mello (3º Costa Mello (1º Visconde com
de Moraes Visconde de Cachoeira) grandeza de Cachoeira)
Mariana Cândida Brigadeiro Francisco de Lima
Sargento-Mor Diogo Tereza de Barros e Cap.Mor Luiz Prates Mãe José Gonçalves de Oliveira Belo e Silva (Barão da Barra
Emiliana Clara Luiz Alves de Lima Ana Luiza de Loreto Francisca Mônica Carneiro da
Teixeira de Macedo Silva Matos Gago da Câmara de Oliveira Roxo Grande) (cas.: 1801) Manoel Jacinto José Ignácio Nogueira Francisca Maria
Gonçalves de e Silva (futuro Carneiro Vianna Costa e Gama (cas. 1809)
(Barão de Nogueira da Gama da Gama Valle de Abreu e
Moraes Duque de Caxias)
Guanabara) Caetano Pinto de Miranda Maria Elisa (Marques de Baependi) Mello (ou Lima)
Manoel Antônio da Maria Amália (cas.: 1833)
Joaquina Clara de Mathias Gonçalves de Montenegro (filho) (2º visc. Gurgel do
Diogo Teixeira de Ana Mattoso da Honório Hermeto Fonseca Costa de Mendonça
Maria Henriqueta Moraes Oliveira Roxo (Barão de V. Real da Praia Grande) Amaral
Macedo (cas. 1789) Câmara Carneiro Leão (Marquês (Marques da Gávea) Corte Real Luíza do Loreto Vianna Francisco Nicolau Carneiro da José Alexandre
Manoel Ana Maria Netto Carneiro de Vargem Alegre) Carlota Joaquina de Eliza Leopoldina
de Paraná) (cas. 1826) de Lima e Silva (Bar. de Gama (Barão com Grandeza Carneiro de Leão
Francisco de da Leão Lima e Silva Carneiro Leão (cas.
Sta Mônica) de Sta Mônica) (Visc.c/Grand.de São
Faria Conceição Maria Balbina de João de Souza Maria da Penha (Baronesa de Suruí) 1829)
Emiliana Salvador de Campos)
Rita Clara Gonçalves José Joaquim de Lima e Souza da Fonseca Fonseca de Miranda
Brigadeiro Antonio Joaquina de Nicolau Neto Umbelina de Ana Francisca Vianna João Carneiro da Silva
de Oliveira Roxo Silva Sobrinho (Conde de Costa (2° Casamento Montenegro Carolina Leopoldina
João de Menezes Menezes Diogo Teixeira de Macedo Carneiro Leão Moraes (1° cas.) de Lima e Silva (1º barão de Ururay) Manoel Jacinto Carneiro da
(Baronesa de Santa Tocantins) (cas. 1828) em 1848) de Lima e Silva
(Barão de São Diogo) (2º (Barão de Santa (Baronesa de Ururay) Costa e Gama (Barão de
casamento de Francisca) - Maria) Juparanã)
Maria Maria Amália de
Joaquim Teixeira de Francisca de Assis José Gonçalves
Pres. da prov. do RJ - Francisca de Souza Luiz Cezar de Lima e Lima e Silva
Macedo Menezes de Macedo de Moraes Bernardina Mafalda de Luís Alves de Lima e
1869 Breves Silva
Luiz Otávio de Lima e Silva Silva (morre aos 14 Brás Carneiro Nogueira da Rosa Gama Nogueira Valle da
Henrique
Joaquim Teixeira de Oliveira Roxo anos) Costa e Gama (2º Visconde de Gama
Maria Henriqueta Joaquim Francisco Hermeto
Macedo (2º Barão de Baependi) – (cas. em 1834)
Teixeira de de Faria Carneiro Leão
Vargem Alegre) Ana Clara Breves Cel. Silvino José
Macedo Manoel José Maria Eufrásia Negreiro
de Moraes da Costa Dr. Manoel Monteiro Maria Joaquina de Francisca Jacinta Nogueira da
Miguel Calmon Monteiro de Barros da Cunha Matos
de Barros Sauvan Gama
Menezes de Macedo
Maria Mathias
Joaquina
ConselheiroSérgio Henriqueta Gonçalves de
Clara Carneiro Comendador Lucas Antonio Maria Tereza Joaquina
Teixeira de Macedo Carneiro Leão Oliveira Roxo
Clotilde Theolindo Leão Monteiro de Barros(Visconde de de Sauvan
(Barão de Cecília de Moraes
Menezes de Macedo Oliveira Roxo) Congonhas – 1° Pres.Prov.de SP)

Beatriz Smith de Sérgio Teixeira de Maria da Glória Maria do Carmo


Álvaro Teixeira de Conde Maurício Haritoff Ana Clara de Moraes da Costa
Anna Francisca Vasconcellos Macedo Carneiro Leão
Macedo (poeta)
Menezes de Macedo José Joaquim
1807-1849
Caetano Geraldino M. da Costa
Teófilo Benedito Carlota Amália de Azevedo João Gualberto
Maria Thereza Menezes Sérgio Diogo Saudade Duarte Otoni Manoel Eugênio M. da Costa
de Macedo Teixeira de Macedo Pinto Romualdo José (Barão de Paraopeba) Francisca Contança Leocádia da Fonseca

Teófilo Carlos Benedito Otoni Rita Belmira M. da Costa


Manoel José
Antônio João Menezes
José Feliciano M. da Costa Marcos Antonio Mateus Herculano
de Macedo
Monteiro
Silvino José M. da Costa
Josefa Emília Menezes Lucas Antonio Monteiro de
de Macedo Joaquim José M. da Costa Barros

Joaquim José M. da Costa

LEGENDA:

= TEÓFILO BENEDITO OTONI = FERNANDES CARNEIRO VIANNA = SOUZA BREVES = GOMES BARROSO = TEIXEIRA DE MACEDO = CARNEIRO LEÃO = LIMA E SILVA = CARVALHO E MELLO = FRANCISCA/ JOAQUIM TEIXEIRA DE MACEDO = ANA/ DIOGO TEIXEIRA DE MACEDO = PIMENTA DE ALMEIDA BREVES = HONÓRIO HERMETO CARNEIRO LEÃO = VIANNA DE LIMA E SILVA = CARNEIRO VIANNA = HONORATA AZEVEDO BARROSO = CARNEIRO DA COSTA

= DUQUE ESTRADA ÁLVARES DE AZEVEDO


Antônio Velho da Ana do Pilar Pinto Domingos Vieira Antonia Thereza
Silva Pinto de Jesus

Gertrudes José Luiz da


Domingos
Matildes Motta
Velho da Silva

Amaro Velho Clara Rosa do José Álvares


da Silva Sacramento de Azevedo

Manuel Velho Leonarda Maria


da Silva da Conceição

Mariana Eugenia José Luiz da Motta


Alexandrina

Francisco Augusto Velho e


Leonarda Maria Velho Motta
Desembargador Cláudio
da Silva
José Pereira da Costa
Carlota Adelaide(Afilhada Conselheiro Francisco
Mathildes Carolina de D.Joaõ e D.Carlota) Alberto Teixeira de Aragão
Dr. Manoel Bernardes da
Velho da Silva
Veiga
Mariana Velho e Motta
Maximiano Teixeira de
Aragão
Manoel Velho da Silva Rosa Maria Pita Rocha
Velho
Maria Thomazia Antonio Teixeira de Mathildes Velho e Motta
Rocha Velho da Silva Carvalho e Paes
Maria Thomazia
Manoel Guedes Pinto
Angélica

Gertrudes Velho e Motta José Pereira da Costa


Manoel Guedes Pinto
Amaro Velho da Silva
(Visconde de Macaé) José da Cruz Vianna Esposa
(grande exportador de café)
Amaro Guedes Pinto
Maria Izabel Velho e Motta Manoel Domingos da Silva
Maia
Francisco Velho da Josefa Ximenes da Silva Antonio Luiz Von Hoonholtz Maria Luiza Dodsworth
Silva Marechal Hermes da Orsina Francione da (Barão de Teffé)
Cláudio Velho da Motta Maia (Barão,
José Guedes Pinto Maria Amália Cruz Vianna Fonseca Fonseca (cas. em 1877)
Conde , Visconde com grandeza, médico
Manoel Rodrigues Leonarda Maria Velho e particular de D.Pedro II )
Eugenia Castro Monteiro
Monteiro(Conde de Conselheiro José Maria Motta
Estrela) Velho da Silva Nair de Teffé (cas. em
Francisca da Motta Maia
1913)
Amanda Velho de Motta Mario Ernesto Hermes da
Carolina Monteiro da José Maria Velho da Maia (1ª esposa) Fonseca
Silva Velho Silva

Marcelina da Silva Engenheiro José Maria Dr.Manoel Velho da Motta Euclides Hermes da
Velho da Silva Velho Maia
Joaquim Ribeiro de Não era sua esposa Fonseca
Avelar(Barão de Capivari)

Dr. Oscar Velho da Motta


Joaquim Ribeiro de Mariana Velho da Silva
Manoel Vieira Tosta(1° Barão e Isabel Pereira de Maia
Avelar(Visconde de
Visconde de Muritiba) Oliveira Ubá)

Dr Cláudio Velho da Motta


Manoel Vieira Tosta Maria José Velho de Maia
Filho(2° Barão com Avelar(Baronesa de
grandeza de Muritiba) Muritiba)

LEGENDA:

= VELHO DA SILVA = DESCENDENTES DOS VELHO DA SILVA = VELHO E MOTTA = LEONARDA MARIA/ GERTRUDES MATILDE = JOSÉ LUIZ DA MOTTA = SILVA MOTTA = MANOEL GUEDES PINTO = CARVALHO E MELLO = CRUZ VIANNA = VELHO DA MOTTA MAIA = HERMES DA FONSECA = TEIXEIRA DE ARAGÃO
Leonardo Álvares de Francisca de Magalhães Gregório Duarte Apolônia Borges de Azevedo
Azevedo Amaral
Natalia Mariana Duarte
Domingos Álvares de
Azevedo ..Gago Coutinho Cap. Manoel Antonio Antunes Catarina de Lemos Duque
(1° Casamento) Ferreira Estrada

Helena Caetana da Cruz


Lemos (terceira neta de
Sg.Mor. Ambrósio Dias Ana Josefa da Cruz Duque Henrique Duque Estrada –
Raposo Estrada 2° Casamento)

Alexandre Álvares Duarte de Ana Vitória Joaquina da Cruz Duque Estrada


Ana Mariana Álvares de Helena Caetana Álvares de
Azevedo (3° Casamento - Prima da Segunda Esposa)
Azevedo Azevedo

Francisca Paula Álvares de


Alexandre Álvares de Azevedo Catarina Francisco Álvares
Padre José António Álvares de Azevedo
de Azevedo
Azevedo

Manoel Antônio Álvares de


Miguel José Álvares de Azevedo Alexandre Álvares de Azevedo (Barão de Itapacorá)
Antonio Álvares de Azevedo
Azevedo
Pedro José Ribeiro de Faria Caetana Maria do Sacramento Manoel Lopes Maria Tereza

Mariana Jacintha Álvares de


Domingos Álvares de Azevedo
Luiz Álvares de Azevedo Azevedo
Francisco Lopes de Clara Rosa Caetano do
Souza Bonfim Manoel Gomes Barroso Domingas da Fonseca
Ten.Cel. Joaquim Mariano
Manoel Antonio Álvares de Joaquim Álvares de Azevedo Álvares de Castro
Antonio Gomes Azevedo(Barão de Itapacora)
Ana Clara Rosa de Souza Barroso (cas.:
Barroso 1775) Cap. Domingos Álvares de
João Álvares de Azevedo( Major Azevedo
Manoel Gomes Francisco Álvares de Azevedo e Senhor de Engenho)
Antonio Gomes Barroso
Junior Barroso
Dr. Ignácio Manoel Álvares
de Azevedo
Ana Eugenia de Souza João Gomes Maria Joaquina Duque Estrada Leonardo Álvares de Azevedo Úrsula Maria de
Barroso Barroso (cas.: Álvares de Azevedo Azevedo
1793) Mariana de Azevedo Sodré
Alexandre Álvares Tereza Leonardo
Rosa Francisca de Souza Maria Josefa
Gomes Barroso de Azevedo Joaquim Álvares Pai Mãe
Barroso Barroso
(cas.: 1829) Gomes Barroso
Cap. Alexandre Álvares de
Antonio Álvares Margarida Delfina Alexandre Azevedo
Emilia Magalhães
Conselheiro Francisco Lopes de Maria Ignes de Souza Gomes Barroso Pereira Cardoso José Álvares Alvares Gomes
Álvares de Azevedo
Souza Faria e Lima Barroso Gomes Barroso Barroso Junior
Maria Dulce de Azevedo
(cas. 1856)
João Gomes Leonarda
Tereza Leonardo Antônio José Gomes
Barroso (demente) Alexandrina de
de Azevedo Bastos Pereira Bastos
(cas.: 1845) Azevedo Barroso

Maria Amélia de Palmerim de


Azevedo Vieira Azevedo Vieira
Maria Joaquina de Ursulina Eugênia de
Azevedo Barroso Azevedo Barroso João Álvares
Gomes Barroso
Ana Francisca Rosa Maciel
Coronel Brás
da Costa (Baronesa de São
Maria do Loreto Lourenço Francisco Álvares Carneiro Leão
Ana Vidal Carneiro Luiz José de Carvalho e de Nascentes Fernandes Vianna Gomes Barroso Salvador dos Campo de
da Costa Mello (1º Visconde com Goitacazes)
grandeza de Cachoeira)
Desembargador Paulo Luíza Rosa Loreto
João Fernandes Fernandes Vianna (cas. Carneiro da Costa
Vianna 1802) Eliza Leopoldina
José Alexandre
Luiz José Carneiro de Carneiro Leão (cas.
Carneiro de Leão
Carvalho e Mello (2º Honorata Carolina Paulo Fernandes 1829)
(Visc.c/Grand.de São
Visconde com grandeza Benigna da Penha Carneiro Vianna Salvador de Campos)
de Cachoeira de Azevedo Barroso (Conde de São Simão, Luiz Alves de Lima e
cas. 1830) Silva (Futuro Duque
Ana Luiza Carneiro
Pedro Justiniano Carneiro Maria do Loreto de Caxias)
Vianna (cas. 1833)
de Carvalho e Mello (3º Carneiro Vianna
Ana Joaquina de Nicolau Antônio
Visconde de Cachoeira)
Almeida e Gama Nogueira
Manoel Jacinto Francisca Mônica Luíza do Loreto Francisco Nicolau Carneiro
Nogueira da Gama Carneiro da Costa e Vianna de Lima e Nogueira da Gama (Barão
(Marquês de Baependi) Gama (cas. 1809) Silva (Baronesa de com Grandeza de St° Mônica)
Stª Mônica

Francisca M. Vale de Cel. José Ignácio


Manuel Jacinto
Abreu e Mello (Baronesa Nogueira da Gama
Carneiro da Costa e
de S. Mateus) Ana do Loreto Vianna João Carneiro da Silva
Gama (Barão de
Juparanã) de Lima e Silva (1º Barão de Ururaí)
Marquês de Caraglio e de (Baronesa de Ururaí)
Antonio Monteiro Clara Maria Barbosa
S. Marsan – título italiano Rosa Mônica Nogueira
Pedra Carneiro Leão Braz Carneiro
Valle da Gama
Nogueira da Costa e
Gama (2º conde de
Baependi)
Rodrigo Domingos de Gabriela Maria Inácia Azinari José Fernando
Souza Coutinho (1º conde de Souza Marsan Gertrude Pedra Carneiro Leão (Barão
de Linhares) Carneiro de Leão de Vila Nova de São
José)

Francisco Affonso Maurício Guilhermina Adelaide


de Souza Coutinho Carneiro Leão
(Marques de Maceió) (Marquesa de Maceió)
(cas. 1824

LEGENDA

= FERNANDES VIANNA = GOMES BARROSO = DUQUE ESTRADA ÁLVARES DE AZEVEDO = CARNEIRO DE CARVALHO E MELLO = CARNEIRO LEÃO = AZEVEDO BARROSO = CARVALHO E MELLO = ALVES DE LIMA E SILVA = CARNEIRO VIANNA = CARNEIRO DA COSTA
Antônio José da Francisca Rosa Francisco da Ana Maria Rita
Motta de São José Rocha Leão

José Francisco Maria Rosa de


Bernardes São José

Margarida Cândida Francisco José da Rocha


Bernardes Leão (Barão com grandeza
de Itamarati)

Com. José Justiniano Esposa


da Silva Manoel Teixeira Maria Cardoso João Manoel dos Clara Maria da
Pinto Santos Penha

Antônio José Augusta Maria da


Bernardes Silva
Ten. Antônio Maria Rosa da
Clara Guilhermina José Francisco
Teixeira Pinto da Penha
da Rocha Bernardes
Cruz
Pedro José Clara Genuína
Bernardes Teixeira
Maria Romana Francisco José da
Teixeira Bernardes Rocha Filho (Conde
Francisco José Maria de Itamarati)
Bernardes Guilhermina

Joaquim José
Bernardes
CAPÍTULO 4

A ATUAÇÃO DOS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO NA CÂMARA


MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

Diferentemente das sessões pesquisadas nos anos de 1830 e posteriores a esse,


as vereanças anteriores não apresentavam os autores de propostas específicas, sobre
este ou aquele tema, trazendo somente, ao final, aqueles que haviam assinado as atas.
Isso representou um complicador, numa pesquisa em que se pretendeu separar as
propostas dos negociantes de grosso trato das de outros grupos ligados à Câmara,
porque, na verdade, o grande desafio daqueles que detinham o poder político e
econômico da colônia, fosse ou não ligado ao comércio de escravos, era garantir o seu
espaço, duramente conquistado, diante da recém-chegada Corte portuguesa ao Brasil,
fugitiva de uma Europa conflagrada pelas guerras napoleônicas. Assim, dentro do
possível, ao pesquisar sobre os negociantes de grosso trato, preocupei-me em
contextualizar sua atuação, que se confundiu, no entanto, com a participação dos
outros grupos ligados ao poder, que, como esses elementos específicos, viam-se frente
a frente com a necessidade de manter seu status quo, diante da sociedade da Corte
portuguesa que, seguindo seu rei na fuga, viu-se transladada para um terra “selvagem”.

Os cortesãos portugueses, arrancados abruptamente da metrópole, afastados de


todos os significantes que haviam adquirido e mantido durante toda uma vida – e que
os distinguiam como “superiores” ao povo –, tinham, agora, a uni-los e os diferenciar
dos “da terra”, somente os seus códigos sociais próprios, e estavam dispostos a se
manterem afastados e hierarquicamente distintos, mesmo dos mais abastados da
colônia.

Seriam, portanto, esses, os dois grupos mais diretamente afetados pelo


94

“processo civilizatório”, que envolveu subitamente a colônia, colocando-a na posição


de sede do governo metropolitano, num processo para o qual ela ainda não estava
amadurecida e que iria transformá-la, de maneira inevitável, com todas as dificuldades
que esse “salto” hierárquico ocasionaria.

Assim, ao estudar a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, julguei importante


abrir espaço para a análise de seus membros em geral, que imprimiam à instituição
suas idéias, através de suas propostas e, até mesmo, de seu perfil social. O raciocínio
foi o de pesquisar aqueles que compunham a instituição, buscando compreender,
através do conhecimento do próprio homem, aquilo que o levava a atuar politicamente
de uma forma ou de outra, seguindo seus interesses pessoais ou o que ele julgava
melhor para a administração da cidade. Mais adiante, busquei entender, de forma
específica, os negociantes de grosso trato em suas propostas, pois, apesar de
apresentar pontos em comum com os outros grupos, tinham, também, o interesse
comercial norteando sua participação na governança.

Nesse sentido, ao analisar a documentação, pude observar que, tanto


negociantes de grosso trato, quanto àqueles membros da Câmara Municipal que não
tinham ligações com o comércio de escravos, dedicavam-se, pelo menos
aparentemente, à preocupação maior de cuidar do abastecimento de víveres, limpeza
de ruas e praias e o estabelecimento da tranqüilidade e a segurança, dentro do projeto
de instituir um espaço civilizado na capital da Corte, afastando os perigos
representados pelos escravos negros e brancos pobres para a população que sustentava
e dominava econômica e politicamente o espaço urbano.

Os anos iniciais da Corte portuguesa no Brasil foram naturalmente tumultuados,


pela necessidade de acomodação do imenso grupo metropolitano, chegado, sem
preparativos prévios, à colônia. Assim, pode-se entender a própria atuação da Câmara
Municipal da cidade do Rio de Janeiro, neste período que engloba os anos de 1808 a
1814, como marcada pela obrigatoriedade de fazer frente aos requisitos de adaptação
da nova população à cidade e, para o período posterior, até 1830, onde o contexto
95

político apresentava-se, já, diferente.

Para além das medidas ligadas à população, havia ainda que promover festas
públicas, sustentar financeiramente as comemorações da família real (bodas,
aniversários, aclamações) e atender às necessidades da Corte, o que rendia mercês
indispensáveis à manutenção do status quo do grupo que, pertencendo à Câmara
Municipal, tinha possibilidade de uma proximidade maior com o poder real e as
benesses dela advindas.

Uma parte considerável da documentação pesquisada refere-se aos pedidos de


escusas de vereadores para não servirem no cargo de almotacé. Conforme já
anteriormente explicado, os eleitos eram indicados para servirem durante três anos,
sendo um ano como vereador ou procurador e, nos dois anos subseqüentes, revezando-
se no cargo de juiz almotacé, que tinha um mandato de três meses, sendo dois
almotacés por trimestre (posteriormente aumentado para quatro almotacés, conforme
visto no primeiro capitulo). Pelos dados obtidos, aqueles que já haviam servido como
vereadores não faziam esforço maior para ocuparem o cargo de almotacé, alguns até
mesmo esquivavam-se dele quando possível, sob as mais variadas desculpas. Os
pedidos eram encaminhados ao Príncipe Regente, através do Ouvidor da Comarca e
poucos eram os pedidos negados, apesar da demora dos processos em serem deferidos.

Assim, Joaquim do Babo Pinto, sargento-mor de Milícias reformado,


comerciante e importador de 203 escravos, no ano de 1822173 , pede deferimento do seu
pedido de não servir como almotacé, nos meses de julho, agosto e setembro de 1816,
sob alegação de que

“[..] jamais o Suplicante se negou ao serviço público de V. Majestade, [...] e


desejaria ter forças, e saúde para no exercício de qualquer função, que se
lhe encarregasse para mostrar-se digno Vassalo de tão Augusto Soberano:
173
AN, Inventários Post-mortem e Testamentos, Diversos códices. Quanto aos privilégios dos moedeiros estão
listados no “ Livro de Rezisto dos Privilegios, Liberdades e Izençois que os Senhores Reys destes Reynos Tem
Concedido aos Officiais e Moedeiros da Sua Caza da Moeda” (a grafia do título original foi mantida), pela
importância que esta corporação gozava no reino. O primeiro privilégio é do reinado de D. Dinis (1324) e o
último do reinado de D. João V (1751).
96

obstam porém a seus desejos as suas enfermidades [...] merecerão de V.


Majestade tal Contemplação que Houve por bem reformar o Suplicante em
Sargento-Mor de Milícias [...]: além disto o Augustíssimo Senhor, o
Suplicante é moedeiro do Número da Casa da Moeda desta Corte, [...] e
como tal isento de todos os Cargos públicos conforme aos privilégios
incorporados em direito, que V. Majestade outorgou aos Moedeiros [...] e
humildemente prostrado ante o Régio Trono roga a V. Majestade a Graça de o
isentar do lugar de Almotacé,[...]” (sem grifo no texto original)

“Dom João por Graça de Deus Rei do Reino Unido de Portugal, e do Brasil, e
Algarves, d’aquém e d’além Mar em África Senhor de Guiné e da Conquista
Navegação Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia. [..] sobre o
requerimento de Joaquim de Babo Pinto, Capitão Agregado a Oitava
Companhia do Primeiro Regimento de Milícias desta Corte, [...] Hei por bem,
por Minha Imediata, e Real Resolução de 29/12/1817, Fazer-lhe Mercê de o
Reformar [...] no Posto de Sargento Mor do Mesmo Regimento com o qual não
vencerá Soldo algum de Minha Real Fazenda, mas gozará de todas as Honras e
Privilégios que direitamente [sic] lhe pertencerem.[...]”

“Matias da Silveira Pinto Pereira da Fonseca Osório, Cavaleiro Professo da


Ordem de Cristo, Sargento Mor do 2° Regimento de Cavalaria de Milícias,
Cirurgião da Real Família de S. Majestade e da Câmara, Estado do Exmo.
Duque de Cadaval, Aprovado em Medicina Prática, Teórica, e Farmácia
Química.”
“Atesto em como Joaquim de Babo Pinto Capitão Agregado a 8°
Companhia do 1° Regimento de Milícias da Corte do Brasil a quem eu por
várias vezes tenho tratado de um aflição hemorroidal e ataques nervosos e
aflição e vaporosos atacando esta de preferência a cabeça e por isto padecendo
por várias vezes vertigens o ponto de cair [...] por ser tudo verdade, e me ser
pedida passo o presente que jurarei se preciso for pelo juramento do meu grau.
Rio de Janeiro, 28/04/1816.

“Eu, abaixo assinado, Bacharel formado em Filosofia e Medicina pela


Universidade de Coimbra, segundo médico do Hospital Real Militar e da
Marinha desta Corte. Certifico que o Capitão do Primeiro Regimento de
Milícias desta Corte, Joaquim Babo Pinto, é assaz hemorroidário, padecendo
muito no seu sistema de nervos, sendo repetidas vezes atacado de vertigens a
ponto de cair, [...] Atesto por ser verdade, e sendo necessário afirmo debaixo
do juramento do meu grau. Rio de Janeiro, 20/05/1816. Mariano José do
Amaral.”

“Francisco Mendes Ribeiro Cirurgião da Família de S. M. e Mor do


Regimento da 2° Linha da Corte.
Atesto e juro que o Sargento Mor Joaquim do Babo Pinto padece uma
afecção espasmódica em todo o sistema nervoso, acompanhado de insultos
vertiginosos, que por muitas vezes cai por terra, [...] além disto [...] foi preciso
fazer-se lhe a operação, ficando o mesmo paciente com uma fístula completa
97

com destruição das funções intestinais, que no tempo, de fazer as suas


operações naturais, lhes saem pela mesma fístula, partes excrementícias, [...],
passa o referido na verdade que o escrevo debaixo do mesmo juramento. Rio
de Janeiro, 11/06/1820.” 174

Ao pedido, iam anexados depoimentos de três testemunhas e de um médico


reconhecido como competente na Corte.

Um outro exemplo pode ser visto nos documentos abaixo, onde surge o nome
de um dos maiores negociantes de escravos do período analisado, Félix José dos
Santos, que, entre 1823 e 1829 importou mais de 6000 cativos africanos para o Brasil.
É interessante observar que Santos não alega somente problemas com sua saúde, como
também faz menção às suas ocupações com sua Casa de negócios. 175

“Ilmos. Srs. do Senado.


Diz Félix José dos Santos, que ele foi nomeado por este Ilmo. Senado da
Câmara para servir o emprego de Juiz Almotacé, e como o Suplicante se acha
incomodado de Saúde como mostra pela Certidão junta, e igualmente com
as ocupações de sua Casa, as quais lhe tiram todo o tempo,[...] o haja de
dispensar do referido Emprego para que foi nomeado; portanto,
P. a V.V.S.Sas. sejam Servidos atendendo ao exposto dispensar ao Suplicante.”
(sem grifo no texto original)

“Francisco Coelho Pinto, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Cirurgião aprovado


em Medicina prática por Sua Majestade Imperial que Deus guarde.
Atesto que o Sr. Capitão-Mor Félix José dos Santos se acha em atual
uso de remédios por causa de uma enfermidade que padece nas vísceras
superiores, e privado de exercer suas obrigações,[...].
Rio de Janeiro, 22 de junho de 1825, Francisco Coelho Pinto” 176

Pela parte da documentação apresentada, pode-se inferir a disposição do


governo em não perder o apoio destes negociantes, uma vez que as escusas eram
aceitas e os requerimentos deferidos. No entanto, não é possível deixar de ressaltar que
o número de pedidos de dispensas diminuiu consideravelmente nos períodos
imediatamente antecedentes e posteriores ao fim do período colonial. Afinal, o

174
AN - códice 812 , volume 3, documento 9.
175
AN, Inventários post-mortem, 1790-1835.
176
AN - códice 812, volume 4, documento 29.
98

pertencimento ao grupo que formava o Senado da Câmara é patente, como forma de


recebimento de privilégios e mercês. Como referência a esse ponto, pode-se observar
o exemplo específico de Antônio Luiz Pereira da Cunha (Quadro 6). É bem verdade
que Antônio Luiz já era Fidalgo da Real Casa, Chanceler da Relação da Bahia,
Conselheiro da Fazenda remunerado, em 1808. Porém, é a partir do seu juramento,
em 3 de julho de 1816, para o cargo de juiz almotacé, cargo este exercido por seis
anos 177 , que é possível perceber um verdadeiro progresso em sua vida pública: foi
Deputado da Real Junta do Comércio (1818); Fiscal dos Marcos (1819); 3º Intendente
Geral de Polícia da Corte e Reino do Brasil (1821); recebeu mercê de um lugar
ordinário de Desembargador da Mesa do Desembargo do Paço (1821); foi agraciado
com “uma vida na comenda que tem para se verificar em seu filho Antônio Luiz
Figueira Pereira da Cunha” (1821); mercê de “sesmaria de uma légua de tença de
testada e 2 de fundo, começando na Barra do Rio Muruhi” (1823); recebeu o grau de
Cavaleiro da Ordem de Cristo (1824); Dignatário da Ordem Imperial do Cruzeiro
(1824); os títulos de nobreza de Visconde de Inhambupe de Cima, com honras de
grandeza (1825); Marquês de Inhambupe (1826); Ministro e Secretário de Estado dos
Negócios Estrangeiros (1826); Senador (1826). Ou seja, gozou de todas as honrarias
a que fez mérito pela sua dedicação ao serviço da Coroa. Se não é possível afirmar que
isso foi fruto de sua longa passagem pelo Senado da Câmara, ao menos se pode
conjecturar sobre o tema, principalmente porque Pereira da Cunha foi novamente
almotacé, já em 1828.

Um outro fator pode ser útil, também, na tentativa de apontar a importância dos
cargos na Câmara Municipal: a permanência no espaço da Câmara, mesmo que em
cargos menos representativos. Se, como afirma Maria de Fátima Silva Gouvêa, “o
cargo de almotacé parece ter sido a principal porta de acesso a outros cargos de
governança no Rio de Janeiro, em finais do século XVIII e início do XIX” 178 , é bem

177
AGCRJ – códice 39-2-19. Pelo aviso de 4 de janeiro de 1819, Sua Majestade deferiu o requerimento de
Antônio Luiz, que solicitava a permanência no cargo de almotacé, que ocupava desde 1816. Em agosto de 1822,
foi destituído do mesmo cargo, por se encontrar há tempos nele.
178
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva, op.cit., p.553.
99

verdade que, após alcançar o posto de vereança, vários foram os que pediram dispensa
do mandato de almotacé. Mesmo assim, pode-se concordar com o pensamento da
autora, levando-se em consideração o fato de se encontrar antigos vereadores e
almotacés nos mais variados cargos, em anos posteriores. Felippe Nery de Carvalho,
por exemplo, juiz almotacé num trimestre do ano de 1822, vereador em 1833, é
inspetor de quarteirão do Engenho Velho, em 1849. José Ignácio da Costa Florim
(almotacé em 1819), João Pedro da Veiga (vereador em 1833) e José Antônio de
Araújo Filgueiras (suplente de vereador em 1845) são juízes de paz da Freguesia de
Santa Rita em 1849. Outros exemplos podem ser apontados, o que vem a corroborar
com o fato de que permanecer nos quadros da Câmara Municipal representava ganhos
políticos ou financeiros.

4.1. DOIS CAMINHOS METODOLÓGICOS

A fim de realizar uma análise o mais aprofundada possível, utilizei duas


metodologias: na primeira, usei como ponto de referência determinados mandatos –
uma vez que dar conta de todo o período de 1808 a 1830 era tarefa de grande monta –
utilizando, como amostragem, as constituições das Câmaras de 1808, 1822, 1830 e
1849, buscando os pontos em comum e aquilo que as diferenciava. Não foram marcos
aleatórios, uma vez que 1808 foi ponto inicial dessa pesquisa, a partir da chegada da
família real à sua colônia americana; 1822, foi o retrato de um período político tenso,
às portas da formação de um novo país independente e, por fim, 1830, apresentou os
179
frutos da lei de 1º de outubro de 1828 . A composição da Câmara de 1849 apareceu
como critério comparativo para a análise das outras, consolidando suas mudanças de
perfil. Como segunda escolha metodológica, separei as propostas dos homens da
vereança por temas, acreditando assim, também, estabelecer um padrão de
comportamento por mandatos, levando em consideração que o momento vivido pela
sociedade, o contexto político de cada período, relaciona-se, de maneira inequívoca às
atividades políticas. Não houve uma divisão explícita, mas sim o uso das duas

179
Para acesso a maiores informações sobre parte dos membros da Câmara Municipal do Rio de Janeiro,
encontra-se um banco de dados, ao final da tese.
100

metodologias, concomitantemente e, neste capítulo, busquei analisar as Câmaras de


1808 e 1822.

4.1.1. Composição das Câmaras Municipais do Rio de Janeiro

Como foi visto no capítulo anterior, o Senado da Câmara era composto por três
vereadores – que serviam por um ano – um procurador, um escrivão, um tesoureiro,
diversos oficiais e dois juízes almotacés –, que serviam durante três meses.

O vereador tinha várias funções: legislar sobre os diversos assuntos referentes à


cidade e à população, ou seja, estabelecer as “posturas”; dar posse aos farmacêuticos,
professores, doutores, juízes, entre outros; cuidar das arrematações das rendas do
Conselho; manter-se informado sobre o estado de estradas, pontes, praias, casas, a fim
de indicar a necessidade de reparos; promover as festas religiosas e as comemorativas
de aniversários, casamentos, batizados da família real; estabelecer estratégias para o
abastecimento de víveres para a cidade, principalmente de carnes verdes; ocupar-se,
enfim, com tudo aquilo que dissesse respeito ao progresso e tranqüilidade urbanos.

Os almotacés atendiam às providências práticas, discutidas pelos vereadores,


cuidando para que as posturas fossem cumpridas. Segundo Mello Pereira, “o exercício
do direito de almotaçaria por parte das nossas câmaras municipais configuram aquilo a
que denominamos de três agendas do viver urbano: a do mercado, a do construtivo e a
do sanitário” 180 . Isso significava preocupar-se com os pesos e medidas dos víveres, bem
como das obras públicas e procedimentos para a higiene das cidades, dando conta de
mantê-la dentro das leis estabelecidas. Seu cargo exigia que eles permanecessem à
frente de um determinado setor de cuidados com a cidade por, pelo menos, uma
semana. Em vários documentos, o juiz almotacé assina e frisa “juiz almotacé
semanário”, ou assim é denominado, como nos exemplos a seguir:

180
PEREIRA, Magnus Roberto de Mello, op.cit.
101

“Felizmente completei a minha semana no exercício das carnes no


Matadouro de Santa Luzia, sem a menor novidade, tudo esteve em ordem e
asseio, sendo a sua matança 816 reses [...] Deus guarde a Vossa Senhoria,
como havemos mister. Rio, 20 de abril de 1822 Francisco Antonio Gomes” 180
(sem grifo no texto original)

“Concluo a minha semana nas carnes e as providências que achei mais


apropriadas segundo as circunstâncias do tempo foram as seguintes [...]
Antonio Luis Pereira da Cunha” 181 (sem grifo no texto original)

“Conclui a minha semana das Execuções, com o pesar de não dar


completamente execução às Portarias de V.S [...] que me foram apresentadas
em 11 de fevereiro, em dia tal que a nossa cidade se achava convulsa pelo
perigo que esperava ter da Tropa Auxiliadora Achei ser prudência tocar
muito de passagem só nos principais objetos como sejam carnes, peixe e
pão porque são a maior parte das classes e estas mesmas que são inerentes
a este Juízo, bem como Carniceiros, Taberneiros, e padeiros, quase todos os
indivíduos são milicianos e se achavam em defesa da cidade [...] Antônio
Luis Pereira da Cunha” 182 (sem grifo no texto original)

“Auto de vistoria nas duas pontes da Praia de D. Manoel como abaixo se


declara:
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e vinte e
dois, aos quinze de fevereiro, nesta cidade do Rio de Janeiro e praia de D.
Manoel, onde foi vindo o Juiz Almotacé semanário Antônio Luiz Pereira da
Cunha [...] 183 (sem grifo no texto original)

“Participo a V.S. que na presente semana mataram-se 829 reses no


Matadouro de Santa Luzia, em que forneceu os talhos dispersos da Cidade
na forma do costume.
Deus guarde a V.S., como há mister. Rio, 13 de julho de 1822, Sebastião Luiz
Vianna, Almotacé semanário das carnes” 184 . (sem grifo no texto original)

Dois almotacés ocupavam o mandato, em cada trimestre para que, dessa


maneira, todos os setores da cidade pudessem ser eficazmente monitorados. Com o
crescimento da cidade, D. João, em decisão de 20 de março de 1819, estabeleceu que

180
AGCRJ- códice 39-2-19
181
idem.
182
idem. Acredito que o almotacé refere-se aos acontecimentos ocorridos após 09/01/1822, com a decisão de D.
Pedro permanecer na colônia, à revelia das ordens de Portugal.
183
idem
184
idem
102

“ o Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro passa a ter quatro


almotacés, como o da cidade de Lisboa, conforme pedido do próprio Senado,
“por não serem bastante dois almotacés para o desempenho dos deveres,[...]
pelo grande aumento da população e multiplicidade de lojas, padarias e mais
casas de vendagem, sobre que devem vigiar...” 185

De modo geral, como se pode observar pelas quatro listagens a seguir, a


composição das quatro Câmaras Municipais analisadas foi se tornando mais eclética, à
medida que se aproximava o ano de 1830. A Câmara Municipal de 1808 guardava,
ainda, muito de uma formação mais próxima ao poder real, mais “elitista”, se é que se
pode denominá-la assim. Era composta, em sua maioria, por grandes negociantes, os
denominados de grosso trato, e setores ligados aos senhores de engenho. A Câmara
de 1822 já apresenta uma diminuição do número de grandes negociantes, com a
presença mais marcante de militares, o que também caracteriza o mandato de 1830. A
formação da Câmara de 1849 nos serve de ponto de referência, pois ela retrata a
presença de um reduzido número de negociantes e uma maioria de bacharéis, médicos
e militares.

Maria de Fátima Silva Gouvêa, buscando “a construção de um perfil


característico do conjunto de homens que freqüentaram o espaço político-
administrativo constituído pelo Senado da Câmara da cidade”, já havia levantado
algumas peculiaridades desse processo de transição. Segundo a autora, as mudanças
não abrangeriam tão somente as profissões, como também a faixa etária dos
membros da Câmara, que apontaria para um “rejuvenescimento” destes, como
também privilegiaria as relações familiares, onde filhos e netos ainda se beneficiariam
do prestígio dos antigos ocupantes dos cargos de governança, para também ocupá-los
186
.

Mas, para além de suas diferenças, o que tinham esses homens em comum,

185
AGCRJ, códice 39-2-14
186
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva .“Os homens da governança do Rio de Janeiro em fins do século XVIII e
início do XIX”. In: VIEIRA, Alberto (Org.) O Município no mundo português. Funchal, CEHA/ Secretaria
Regional do Turismo e da Cultura, 1998.
103

além, obviamente, do próprio cargo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro? Aqueles


que foram “descobertos”, através de inventários, ainda podem “falar” sobre os bens
que deixam, que incluem mais imóveis nas freguesias urbanas que fazendas. É certo,
também, que, fora aqueles que possuíam terras, a grande maioria não era proprietária
de um número relevante de escravos, pelo menos nas duas últimas Câmaras
analisadas. Naturalmente, todos pertenciam ao grupo de “respeitáveis cidadãos” da
Cidade do Rio de Janeiro e, como tal, queriam ver seu sossego, sua tranqüilidade e,
principalmente, suas propriedades, garantidos, mantendo os que não eram seus iguais
nos seus devidos lugares, mas entendo que seus projetos buscavam organizar a cidade
como um todo, sem deixar de lado, no entanto, seus interesses pessoais e
corporativistas. Alguns tinham títulos de nobreza. Outros eram diretores de banco.
Praticamente todos haviam recebido mercê de títulos honoríficos, fossem da Ordem de
Cristo, da Ordem Imperial do Cruzeiro ou da Imperial Ordem da Rosa, sendo esses os
mais utilizadas pelo rei para agraciar seus leais súditos.

De certa forma, a feição da Câmara transformou-se lentamente, no período


analisado, uma vez que os seus membros continuavam sendo proprietários, políticos,
negociantes, intelectuais, enfim, pertenciam a grupos ligados à camada daqueles que
“construíam” e mantinham a cidade. É compreensível, portanto, que seus projetos
privilegiassem o dar a ela uma feição mais ordenada, tornando-a menos “perigosa”
para aqueles que nela investiam e tinham seus interesses.

Acredito, pelas informações obtidas, que o grupo que se reunia nas sessões da
Câmara Municipal para legislar, apesar da diversidade de profissões e até mesmo de
fortunas – como bem apontaram os inventários analisados 187 – teve integração e
coerência nos seus propósitos, sendo voltado, de uma forma ou de outra, para os
mesmos fins, quais sejam, a manutenção do seu “status quo” e a transformação da
cidade do Rio de Janeiro na segura e ordeira capital do Império e da Corte.

187
Ao final deste trabalho, Cf. no Anexo J, dados sobre alguns inventários, coletados no AN.
104

QUADRO 5 - SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1808 188

NOME CARGO PROFISSÃO /TÍTULOS


Agostinho Petra de Bitencourt Juiz de Fora/ Presidente do Senado da Bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra;
Câmara Cavaleiro e posteriormente Comendador da Ordem
de Cristo.
Manoel José da Costa Vereador Capitão (em 1805)
Francisco Xavier Pires Vereador Coronel agregado de ordenanças;
Cavaleiro da Ordem de Cristo
Manoel Pinheiro Guimarães Vereador Negociante de grosso trato,
Capitão (em 1802)
Antônio Martins Pinto de Brito Escrivão Cavaleiro da Ordem de Cristo
João Gomes Barroso Juiz Almotacé (jan/.fev/ mar.) Negociante de grosso trato;
Capitão
Francisco Pereira de Mesquita Juiz Almotacé (jan/.fev/ mar.) Negociante de grosso trato;
Capitão;
Cavaleiro da Ordem de Cristo
Lourenço Antônio Ferreira Juiz Almotacé (abr./.maio/ jun.) Capitão

Amaro Velho da Silva Juiz Almotacé (abr./.maio/ jun.) Negociante de grosso trato ;
Capitão
Francisco Antônio de Guimarães Juiz Almotacé (jul./ago./set.) Capitão

Joaquim Ribeiro de Menezes Juiz Almotacé (jul./.ag./ set.) Coronel

Manoel José da Silva Ramalho Juiz Almotacé (out./ nov./ dez.) Capitão

Carlos Alves de Almeida Juiz Almotacé (out./ nov./ dez.) Capitão

José Luiz Alves Procurador Negociante de grosso trato


Amaro José Vieira Escrivão substituto Escrivão do Registro e da Receita e Despesa do
Desembargo do Paço e da Consciência e Ordem
José Marques Pereira Tesoureiro Capitão da Vila de São Sebastião (1808)

Como é possível observar, no ano da chegada da família real à colônia, cinco


dos membros da Câmara do Rio de Janeiro, eram ligados diretamente aos negócios de
grosso trato. Fora esses, os outros elementos dessa governança eram, em sua maioria,
pertencentes ao quadro das Ordenanças.

O ano de 1808 é marcado por inúmeras modificações do modo de vida dos


habitantes coloniais. A começar pela sua própria moradia, uma vez que, para acomodar
todos aqueles que vieram com S.A.R., foi necessário “convidar” grande número de
moradores a se mudarem de suas residências. Além disso, o exclusivo colonial
começou a ser desestruturado, com a abertura dos portos às nações amigas de Portugal,
o que trouxe lucros consideráveis a esses comerciantes e a necessidade de se
estabelecerem rituais de agradecimento, como festas, procissões e comemorações que
188
As listagens a seguir baseiam-se no Banco de Dados, encontrado ao fim da tese, e que foi estruturado a partir
de fontes pesquisadas no AGCRJ, Biblioteca Nacional, AN, Cúria Metropolitana, Instituto Histórico Geográfico
Brasileiro, Instituto de Genealogia, além de uma bibliografia complementar, apontada ao final do trabalho.
Quanto à grafia de alguns nomes, buscou-se atentar para as assinaturas nos termos de posse.
105

envolvessem a família real e proporcionasse o seu reconhecimento do trabalho desses


homens “da terra”, na verdade, muitos deles, vindos de Portugal já com sua fortuna
amealhada, como é o caso de Amaro Velho da Silva.

Por outro lado, é o momento do início da reestruturação da cidade, também por


conta da presença da Corte, que faz com que a se Câmara preocupe em transformar
fisicamente o espaço da cidade, estabelecendo medidas “civilizatórias” e um maior
controle da população e do próprio abastecimento urbano.

Poucas foram as indicações documentais da Câmara Municipal para esse ano e


o que consegui amealhar foi através das leis estabelecidas por alvarás, decretos e
avisos reais. Por essa documentação, acompanhei, entre outras medidas, a criação da
Intendência de Polícia e do Banco Nacional, além da nomeação de deputados da Real
Junta do Comércio, como Fernando Batista Leão, Antônio Gomes Barroso e Joaquim
Antônio Gonçalves, João Rodrigues Pereira de Almeida, Bernardo Lourenço Vianna,
todos cinco, negociantes de escravos da praça do Rio de Janeiro e três deles
detentores de algum mandato da Câmara Municipal. De qualquer maneira, mesmo
sem a leitura das atas das sessões camarárias, pôde-se auferir que, se por um lado, foi
um período de continuidade dos trabalho da Câmara de 1807, onde os três vereadores
e o procurador eram negociantes de grosso trato (João Gomes Barroso, Francisco
Pereira de Mesquita, Amaro Velho da Silva ( Visconde de Macaé) e Lourenço
Antônio Ferreira), por outro, imperou a necessidade de organizar a cidade, atentando
para a presença da Corte, e, talvez, não o momento mais adequado de medidas
corporativistas. Afinal, o sustento financeiro da família real, com seus altos custos, já
deveria garantir inúmeras mercês...

4.1.2. Estrutura das sessões do Senado da Câmara Municipal da cidade do Rio de


Janeiro

Os homens da governança da Câmara reuniam-se duas vezes por semana,


podendo as sessões se realizarem com um intervalo de três ou quatro dias,
acontecendo, normalmente, às quartas e sábados, ou em sessões extraordinárias. As
106

atas das sessões tinham uma fórmula a ser repetida no começo e final de cada
vereança, a saber:

“Fórmula inicial: Aos [...] de [...] de [...] anos nesta Corte do Brasil, em os
Paços do Senado da Câmara se ajuntaram o Desembargador Juiz Presidente, e
mais Oficiais do mesmo Senado abaixo assinados para fazerem sua Vereação
na forma dos seus Regimentos, e acordaram várias pendências do bem comum,
e despacharam petições de partes a requerimentos dos mesmos.
Fórmula final: e desta forma houveram por feita esta Vereação de que para
constar fiz este termo com que assinaram, e eu [escrivão] o escrevi.”

Entre uma fórmula e outra, seguiam-se as medidas e decisões tomadas ou


votadas pelos vereadores, instruções para os juízes almotacés, leitura de Avisos de Sua
Alteza Real (doravante S.A.R), respostas à petições, queixas, etc.

Até cerca do ano de 1822, os vereadores dedicavam-se, no início das sessões, à


ciência dos Avisos reais e à tomada de decisões sobre os variados temas. Deste ano
em diante, no entanto, as sessões iniciavam-se com a leitura dos avisos expedidos pela
Secretaria de Estado de Negócios do Império, em nome do Imperador, o que se
aprofundou ainda mais a partir da Constituição de 1824, uma vez que a Câmara, como
já dito anteriormente, passou a ser subordinada diretamente ao Ministério de Estado de
Negócios do Império, com a interferência deste ainda mais notadamente sentida, e
menos sutil, do que no período da Secretaria de Negócios do Reino, mencionada com
menor freqüência.

4.1.3. Temas das vereanças

- A preocupação com o “pão nosso de cada dia”

Tema recorrente em todas as sessões da Câmara Municipal, o chamado “pão de


vintém” tinha seu peso estabelecido conforme o preço do trigo. Assim, se vê em
sessão do início de março 1814, o pão de vintém ao peso de três onças, e duas
107

oitavas 189 “por assim regular o preço por que corre o trigo”, assim como em início de
dezembro de 1821, o peso do mesmo pão é regulado em seis onças. Aliás,
curiosamente, foi esta a última menção a esse tema, uma vez que os anos seguintes
apresentam preocupações bem distintas, mais de cunho político, como se verá adiante.

Lembrando que os negociantes de grosso trato dedicavam-se, também, ao


comércio interno, é possível compreender a preocupação da Câmara com o
abastecimento de farinha para a cidade do Rio de Janeiro, buscando impor
determinados limites para que o produto não escasseasse ou abundasse, provocando
sua alta ou a diminuição do preço, o que afetaria o consumo de pão e prejudicaria os
interesses comerciais do grupo.

- A carne verde

O abastecimento de carnes verdes, na cidade do Rio de Janeiro, foi sempre um


problema a ser resolvido pelas autoridades. Havia regulamentação sobre o número de
reses que deveriam ser abatidas por dia, suas condições de higiene para a venda, a
preocupação com a falsificação dos pesos e, principalmente, com a falta do produto.
Os almotacés viam-se cobrados de forma rígida pelas vereanças, no cumprimento de
seus deveres junto aos abatedouros e a rigorosa fiscalização que deveriam proceder
quanto ao armazenamento do produto e controle de sua negociação, com as pessoas
que arrematavam os talhos de carne, para a venda na cidade. Para maior controle
dessa venda, a Câmara delegava essa tarefa a um Contratador das Carnes, que assinava
um compromisso, com várias cláusulas, e que era responsável pelo matadouro da
cidade.

A documentação a esse respeito é ampla, minuciosa e específica. Vê-se, que


esse era um problema que afligia a cidade de tal modo, que por anos, foi um tema
presente nas sessões. Em sessão de 1816, lê-se que

189
O pão custava um vintém, que era uma moeda portuguesa de cobre ou bronze, equivalente a 20 réis (valor
muito baixo), enquanto que uma onça valia 28,4 gramas e uma oitava, como o próprio nome designa, era a
oitava parte de uma onça (cerca de 3,5 gramas).
108

“[...,] nela se representou o atual Procurador deste Senado que era constante,
e público contra o preço estipulado nas arrematações que se vendia ao
público, tanto nos talhos de carne verde de vaca como de porco, e carneiro
se estava vendendo ao público por maior preço do que o da sua
arrematação sobre o que se acordou que o Escrivão do Senado escrevesse ao
Juiz Almotacé para imediatamente dar providência contra os transgressores
[...]” 190 (sem grifo no texto original)

“[...], e nela acordaram que atendendo a representação que tem feito os Juizes
Almotacés sobre a venda da carne verde que em muitos açougues se cortam
com licença do Contratador carne comprada no matadouro do mesmo, tem os
ditos cortadores excedido o preço de 30 réis a libra, [...] fossem proibidos
todos os talhos que não fossem por conta do Contratador, para o que
acordaram que os Almotacés fizessem intimar ao Contratador das Carnes
que ele não poderia dar licença a pessoa alguma para ter açougue antes o
teria por sua conta na forma que lhe determinava a condição décima do
seu Contrato, [...] ” 191 (sem grifo no texto original)

Ainda em 1817, o problema estava na pauta de discussão da Câmara, quando os


vereadores

“[...] acordaram mais que sendo constante a falta de carne que o Escrivão
escrevesse ao Almotacé obrigando os contratadores a abastecerem a
Cidade deste gênero em que pelo menos obriga a matar 800 rezes por
semana [...] e outrossim é também constante as falsificações que se fazem
no peso da carne, sobre cuja venda ele deve zelar, deve dar da abastança, e
preços dos gêneros da primeira necessidade [...]” 192 (sem grifo no texto
original)

E também, em 1821, o abastecimento de carne verde da cidade do Rio de


Janeiro ainda estava por se resolver:

[...] e acordaram, que sendo necessário cortar pela raiz, todas as causas, que
direta, ou indiretamente possam contribuir, para que nos talhos de vaca desta
Cidade se venda a carne com excesso de preço, e com desigualdade na sua
qualidade, se dessem as seguintes providências: 1° Que os Juízes Almotacés a
quem competir, assistam a matança dos Bois, e distribuição de carne para
os talhos; 2° Que todos os talhos se distribuam as rezes inteiras sem

190
ibidem, sessão de 29/05/1816.
191
ibidem, sessão de 28/08/1816.
192
ibidem, sessão de 15/10/1817
109

distinção, a fim de que a carne possa chegar com igualdade a todo o Povo;
e fica proibido o abuso de separar os quartos traseiros a favor de uns com
prejuízo certo de outros, e com infração dos Direitos, em que todos são
iguais; 3° Que o Contratador forneça aos Cortadores dos Talhos, casa,
balanças, pesos, e aferições, e faça, por sua conta, as conduções do
Açougue para os Talhos, e pague aos mesmos Cortadores 400 réis por
cabeça, e lhes abone uma libra de quebra por arroba. 4° Que os Talhos
não sejam servidos por Negros Cativos, sem assistência de Cortadores
forros por assim estar determinado pelas Posturas [...] 193 (sem grifo no
texto original)

Continuando no mesmo ano, após várias baldadas tentativas de resolverem o


problema,

“[...] Nesta Vereação se acordou que se retirasse da Praça a arrematação dos


Matadouros [...] se mandou [alienar] a este Senado, Manoel Joaquim do
Carmo, [...] servindo-lhe de instruções provisórias os artigos seguintes.
Primeiro, fará matar nos Matadouros de Santa Luzia, e do Campo de
Santana, todos, as rezes destinadas ao fornecimento dos Açougues
públicos desta Cidade, com asseio, e limpeza, e fará cortar os mesmos bois
em quartos e pesá-los quando pelos donos lhe sejam requeridos,[...] 5°
Cobrará dos donos de gado 320 réis por cada uma cabeça que matar:
[...]dará conta da sua administração ao Senado da Câmara no fim de cada
trimestre, e no mesmo prazo entrará para o Cofre das rendas do Senado
com a soma que se arbitrar que não será nunca menos de 1:000$000 de
réis por trimestre: 6° Dirigirá todas as semanas ao Senado da Câmara
uma informação exata do número de bois que se matar [...]” 194 (sem grifo
no documento original)

Ainda assim, em sessões de anos posteriores, até o término da documentação


pesquisada, em 1830, ainda eram registradas reclamações e tentadas novas maneiras
de abastecer a cidade do produto.

- As rendas da Câmara Municipal

Ao final de cada ano, eram feitas as arrematações das rendas do Conselho,


pertencentes à Câmara Municipal, sendo afixados, para isso, editais, que visavam
atrair arrematantes, que cobrassem os devedores da Câmara – rendas do Ver (ou Ver o
Peso) que recaía diretamente sobre o comércio ambulante da cidade, taxas aos oficiais
193
sessão de 11/07/1821
194
sessão de 29/12/1821
110

mecânicos, aluguéis de imóveis, entre outros. Os arrematantes precisavam apresentar


um fiador idôneo e tinham direito a uma porcentagem das arrecadações, mas, muitas
vezes não cumpriam sua obrigação, como se pode ver no documento abaixo:

“[...] e nela requereu o Procurador deste Senado, que tendo Eleutério José da
Cruz arrematado os foros que o Senado vencem de casas, e terrenos no
corrente ano pela quantia de 300$000 réis, obrigando-se a cobrar os
atrasados por conta deste mesmo Senado, fazendo a restauração relativa a
esta, sucede que são passados dois quartéis sem que nada tenha entregado
das cobranças dos mesmos ao Tesoureiro do mesmo Senado, [...] e por isso
requer a esse respeito se dê providência, [...]” 196 (sem grifo no texto original)

Das rendas da Câmara eram pagas as obras arrematadas a terceiros ou feitas a


jornais, os gastos com os presos e degredados, ordenados de físicos, cirurgiões,
boticários, e quaisquer outras despesas com festas religiosas ou oficiais. Nem sempre
essas rendas cobriam as necessidades da governança, o que levou os vereadores, pelo
menos por uma vez, a pedirem autorização a D. João para conseguir empréstimos do
Banco Nacional (Banco do Brasil), a fim de terminar as obras de sua nova Casa, no
Campo de Santana. Em Real Aviso, expedido pela Secretaria de Estado dos Negócios
do Reino, D. João autorizou o empréstimo de “20:000$000 de réis a quartéis de
4:000$000 de réis para se continuar a obra da nova Casa que se está edificando”. 197

- Obras na cidade do Rio de Janeiro

Arruamentos, calçamento de ruas, construção ou conserto de pontes, limpeza de


praias e desobstrução da rua da Vala (atual rua Uruguaiana) – para prevenir o efeito
das constantes enchentes que inundavam e transformavam a cidade num caos – eram
colocados em arrematação pela Câmara, a fim de cumprir as exigências da população,
que se manifestava em ofícios à Secretaria de Estado de Negócios ou em queixas aos
próprios vereadores ou juízes almotacés.

“[...] ofício do Intendente Geral da Polícia desta Corte de 25 de março do


presente ano [...] em que expunha o dano que causava ao público não se ter

196
AGCRJ- vereanças de 1815- códice 16-3-25, sessão de 16 de agosto.
197
AGCRJ, sessão de 17/01/1818, op.cit.
111

ultimado a ponte de Andaraí por que deixando o rio o seu alveu antigo se
espraiava pela estrada, e tinha tornado intransitável as seges, carros, e a
condução dos trigos achando-se a estrada inteiramente cortada, e que
além desta serventia pública também por aí fazia S.A.R. seus passeios, e
que o estado da estrada vinha servir de obstáculo a tudo isso [...] pelo
mesmo Presidente foi dito que ele ao receber do referido ofício fora
pessoalmente ver a estrada, e ponte, e fazendo chamar aos pretos daquelas
vizinhanças mandou desentulhar o rio, e fez encanar as águas ao seu
antigo alveu, mandando tapar os buracos da estrada a tornou transitável
como dantes[...] 198 ” (sem grifo no texto original)

“[...] foi apresentado um Aviso expedido pela Secretaria de Estado dos


Negócios do Brasil acompanhado de um requerimento dos moradores da
Rua do Cano atrás de São Francisco de Paula pedindo providência a
respeito da inundação que experimentam em ocasiões de enchentes
[...]” 199 (sem grifo no texto original)

Um fato interessante a se observar quanto a essas obras é a preocupação dos


caminhos percorridos pela família real, o que levava à Câmara à providências mais
rápidas.

[...] pelo mesmo Desembargador Juiz Presidente foi dito que ontem a sua casa
fora ter um criado de S. Majestade a Rainha Nossa Senhora, e lhe dissera
que não fazendo a dita Senhora por ora os seus passeios pela Rua do
Ouvidor, em razão de umas casas arruinadas, mas sim pela Rua da
Cadeia, e Piolho, e que estas estavam cheias de buracos, o que ele vinha
expor a ele dito Presidente da parte da mesma Senhora para mandar
imediatamente tapar os referidos buracos, e que ele Presidente dera logo
as providências [...] para tapar os ditos buracos, [...]” 200 (sem grifo no texto
original)

Não se passava uma sessão sequer onde não se discutisse sobre as providências
a serem tomadas para tornar a cidade mais habitável ou menos “incivilizada”. Os
próprios limites da cidade ainda eram indefinidos, como demonstram os documentos
pesquisados, de outubro de 1808 201 , o que era uma preocupação recorrente, pelo
menos até meados de 1829, no que diz respeito à divisão em freguesias 202 , tema

198
AGCRJ – sessão de abril de 1815, ibidem.
199
ibidem, sessão de maio de 1815. A rua do Cano é, atualmente, a rua Sete de Setembro.
200
ibidem, julho de 1815. A rua da Cadeia é a atual rua da Assembléia e a do Piolho é a rua da Carioca.
201
AGCRJ – códice 68-3-1, op. cit.
202
AGCRJ – códice 68-3-2
112

retomado com insistência, conforme mencionado no capítulo 1 deste trabalho.

- Preparativos para as festas

Cabia às Câmaras a organização das festas religiosas ou oficiais. Aqui, se faz


necessário uma nota explicativa. Segundo Daniela Miranda,

“As festas religiosas, também chamadas de anuais, compreendiam as


feitas aos santos padroeiros da vila e do reino. Tinham suas datas fixas e
determinadas por um calendário litúrgico e não eram promovidas
somente pelos Senados, pois algumas ficavam a cargo das irmandades,
confrarias e ordens terceiras. As oficiais, ou as que ligavam-se (sic) a
eventos ocorridos com membros da família real, elementos da Igreja e
representantes da administração, cabiam somente ao Senado, e eram
ocasionais, apesar da intensa freqüência com que aconteciam.
De acordo com as determinações vindas de Portugal, cabia às câmaras de todo
o Brasil ordenar, assistir e acompanhar as festas do Corpo de Deus, Santa
Isabel, Anjo Custódio do Reino, santos padroeiros das vilas, São Francisco de
Borja, Patrocínio de Nossa Senhora e outras menos solenes, como São
Sebastião, Ladainhas de Maio e Publicação da Bulla da Santa Cruzada.” 203
(sem grifo no texto original)

Nas festas religiosas, os membros da Câmara Municipal tinham lugar de


destaque, portando os pálios (varas) condizentes com sua posição camarista, além de
se apresentarem devidamente paramentados. Nas procissões ao padroeiro da cidade,
São Sebastião, a Câmara conduzia o seu estandarte com o brasão da cidade e seus
membros vestiam-se de gala, com casaca verde e chapéu de plumas brancas, levando o
andor com a imagem do padroeiro ao ombro. Além disso, designava pessoas gradas
que também tinham a honra de tal carregamento, ficando sujeitas à multas pecuniárias
caso não atendessem a tal honraria. 204

Todo um aparato cercava as festas religiosas e seu ponto alto, a procissão.


Havia que notificar a população de suas responsabilidades, como a pintura das
fachadas das casas, limpeza e decoração das ruas por onde passassem os cortejos.
203
MIRANDA, Daniela. Músicos de Sabará: a prática musical religiosa a serviço da Câmara (1749-1822).
Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de História.
Belo Horizonte. Setembro/2002
204
Cf. outras informações em COARACY, Vivaldo. op.cit.
113

Porém, nada se comparava aos preparativos para as festas reais. Inúmeras


sessões da Câmara discutiam as medidas a serem tomadas para demonstrar a Sua
Alteza Real o respeito e consideração devidos pelos oficiais camaristas, em ocasiões
como nascimentos, casamentos, batizados, falecimentos, entre outros eventos de
comemoração ou consternação, envolvendo a família real. Tudo isso implicava em
altos gastos, o que provocava que as obras necessárias à organização do espaço urbano
– construção de pontes, ruas, cadeias, calçadas – fossem postergadas ou feitas às
custas de doações da população, como aponta o documento abaixo:

“[...] e nela acordaram aceitar-se o oferecimento dos moradores da Rua do


Senhor dos Passos de darem a pedra necessária para a calçada da parte da
mesma rua, e o Senado mandou fazer a dita calçada pagando só o feitio dela
pelo que mandara que hoje se pusessem editais para o dito fim [...]” 205

Assim sendo, não admira que o Senado recebesse críticas do “Desembargador


Corregedor da Comarca sobre a confusão, e decadência das rendas deste Senado” 206 .
Afinal, a Câmara costumava endividar-se para sustentar o fausto das comemorações,
que incluíam fogos, luminárias, esculturas, além de apresentações especiais, como
cavalhadas, touradas, teatros, entre outras homenagens.

Pode-se observar pela documentação, que o período áureo de festividades da


Corte no Brasil deu-se entre os anos de 1815 e 1818. Neste curto espaço de tempo, a
colônia viu seu status político modificar-se, assistiu às exéquias de uma rainha, a
aclamação de um rei e o casamento de seu herdeiro. Desde 1814, no entanto, as
sessões da Câmara dedicam um bom espaço aos preparativos para fazer frente a essas
comemorações, conforme exemplos abaixo:

“[...] e na mesma Vereação se determinou que se fizesse a festividade


costumada pelo aniversário da chegada de S.A.R a esta Corte do Brasil na
forma praticada nos mais anos antecedentes” 207 (sem grifo no texto original)

205
AGCRJ, sessão de setembro/1815, códice 16-3-25.
206
ibidem,, sessão de 18/12/1815.
207
ibidem, sessão de 04/03/1815.
114

“[...] e nesta Vereação se recebeu um Aviso expedido pela Secretaria de


Estado dos Negócios do Brasil da data de 16 de junho deste ano para
mandar afixar editais a fim de haverem luminárias nas três noites
sucessivas de 19 a 21 do corrente pelas gloriosas notícias, e sucessos das
Armas aliadas” 208 (sem grifo no texto original)

“[...] resolvido dias 20, 21 e 22 para o tríduo festivo em homenagem a D.


João pela elevação do Brasil a Reino Unido, com luminárias, missa
cantada, fogo de artifício e ornamentação das portas e janelas das casas
das ruas por onde fosse passar S.A.R.[...]” 209 (sem grifo no texto original)

“[...] Sua Majestade manda que para o desembarque da Sereníssima


Senhora Princesa Real Dona Carolina Josefa Leopoldina entrada nesta
Corte seja tudo feito com Solene Pompa e grande Cortejo, [...] foi
outrossim o mesmo Senhor servido que o Senado da Câmara fizesse
publicar um Bando para que os moradores desta Corte pusessem quatro
noites luminárias, a primeira na noite da sua chegada e seguidas outras
luminosas, e sendo o desembarque no dia imediato ao da chegada os
moradores da Rua Direita e Largo do Terreiro do Paço ornassem as suas
janelas com colchas e cortinas, [...]” 210 (sem grifo no texto original)

Inúmeros outros exemplos poderiam ser apresentados, mas, entendo que, a


partir dos já mencionados, é possível pensar nas despesas que essas medidas
acarretariam à Câmara.

Esses gastos feitos pela Câmara eram pagos pelo Procurador, que,
posteriormente, era reembolsado pelo Tesouro do Senado. Entre os custos, pode-se
elencar os mais diversos: demonstrações materiais de alegria, com luminárias e fogos
de artifício pela elevação do Brasil ao status de Reino Unido a Portugal e Algarves;
cunhagem de moedas de ouro e prata, comemorativas da aclamação de D. João como
monarca do Reino Unido; comemorações do nascimento dos herdeiros reais;
batizados; exéquias; publicação dos editais para manter a população informada de suas
obrigações, como quanto à ornamentação de suas casas com colchas nas janelas, em
dias de cortejo real e, a publicação do bando (pregão público). O bando para a
208
ibidem,, sessão de 18/06/1815. As Armas Aliadas seriam Portugal, Grã-Bretanha e Irlanda do Norte,
empenhadas na Guerra Peninsular (desdobramento das Guerras Napoleônicas), contra a França.
209
ibidem, sessão janeiro/1816.
210
ibidem, setembro de 1817.
115

Publicação do Casamento do Príncipe Real Dom Pedro com Sua Alteza Real a
Arquiduquesa da Áustria Carolina Josefa Leopoldina, por exemplo, importou na
quantia de 542$920 réis, enquanto que o novo Estandarte com as Armas dos três
Reinos (Portugal, Brasil e Algarves) custou 446$450 réis. As contas da festividade que
o Senado fez em ação de graças pela exaltação do Brasil em Reino, implicaram na
quantia de 439$800 réis.

Os oficiais da Câmara não recebiam salários, mas, entre as despesas do Senado


é preciso que se acrescentem as propinas: era habitual o pagamento das mesmas aos
oficiais da Câmara, bem como outras autoridades locais, pela participação nos
acontecimentos festivos, religiosos ou reais.

“[...] acordaram que se passassem [...] igualmente o da propina do luto da


quantia de 340$000 réis, a saber para Ouvidor, Presidente, Vereadores,
Procurador e Escrivão a 40$000 réis cada um, ao Doutor Síndico, e Tesoureiro
a 20$000 réis, e Porteiro, e Alcaide a 10$000 réis [...]” 211 (sem grifo no texto
original)

“[...], e nela acordaram que se passasse mandado da quantia de 40$000 réis


para cada uma das propinas do casamento de Suas Altezas Reais o Príncipe
Real dos Reinos unidos com a Sereníssima Senhora Arquiduquesa da Áustria,
[...], e bem assim outra igual propina pela Feliz Aclamação de Sua
Majestade El Rei Nosso Senhor [...]” 212 . (sem grifo no texto original)

“[...] e nela acordaram que se passassem os mandados das propinas dos lutos
pelos falecimentos de El Rei de Espanha e a Rainha das mesmas Espanhas
(sic) na forma do estilo [...]” 213 (sem grifo no texto original)

Alguns vereadores abriam mão deste pagamento, como, por exemplo, o


primeiro Vereador, o Comendador Francisco de Souza de Oliveira, que “disse que não
aceitava a propina de 40$000 réis devida-lhe pelo luto, e a cedia a favor das rendas do

211
ibidem,, sessão de 03/04/1816. NA: o luto seria pela morte de D. Maria I, como apontou o documento da
página anterior.
212
ibidem, sessão de 15/04/1818.
213
ibidem, agosto de 1819. Os falecimentos de Suas Majestades Católicas El Rei Carlos Quarto, e Rainha Dona
Maria Luiza de Bourbon se deram em maio de 1819.
116

Senado[...]” 214 , mas foi rara essa ocorrência, ao menos na documentação pesquisada.

Uma outra forma de fazer frente a gastos inesperados era abrir subscrição de
donativos, entre os grandes comerciantes, corporações de ofícios (sapateiros, ourives,
funileiros, entre outros), os próprios oficiais da Câmara e pessoas gradas da terra.

“[...] deliberam que o primeiro e terceiro Vereadores os Comendadores


Francisco de Souza de Oliveira e o Coronel Manoel Caetano Pinto
ficassem encarregados de receberem os donativos para as Festas Reais
pelo casamento de Suas Altezas Reais que o Senado vai fazer, e se eleja
também para os acompanhar os cidadãos Custódio Moreira Lírio, e Manoel
Moreira Lírio cujo donativo é privativo os cidadãos do comércio, pois que para
outras repartições já se tem nomeados pessoas dos respectivos ramos [...]” 215
(sem grifo no texto original)

As solicitações eram bem recebidas ou, pelo menos, obedecidas, a julgar pelos
documentos a seguir.

“[...] fazerem Vereação extraordinária para o efeito de deliberar sobre as


festividades e regozijos públicos que se devam fazer pelo feliz casamento de
S.A.R. o Senhor D. Pedro de Alcântara com a Senhora Princesa Real Dona
Carolina Josefa Leopoldina: havendo já o mesmo Senado de prevenção
chamado a Câmara as bandeiras de ofícios e mais repartições de que é
costume imemorial concorrerem para as festividades públicas e reais
proveniente de alianças das Pessoas Reais em todos quaisquer regozijos
que tem o Povo [...], e que o Presidente ficasse encarregado de dar parte a Sua
Majestade e oferecer em nome do mesmo Senado estas festas [...]” 216 (sem
grifo no texto original)

“[...] se designarem os fundos necessários para se fazer festejos, que tudo


deverá ser com a decência e dignidade as pessoas a quem é [devido]: para cujo
efeito acordaram que eles Vereadores e Procurador faziam um fundo de
32:000$000 de réis, 8$000:000 de réis a cada um, para suprirem as rendas
do Senado nos presentes e determinados festejos, [...]” 217 (sem grifo no texto
original)

“[...] Na mesma Vereação se nomeavam várias pessoas para fazerem

214
AGCRJ, sessão de 27/04/1816, ibidem.
215
ibidem, sessão de 21/02/1818.
216
ibidem, sessão de 11/11/1817.
217
ibidem, sessão de 15/12/1817.
117

cobrança nas repartições de ofícios e negócios que devem concorrer para


as festas Reais na forma que é do estilo [...]” 218 (sem grifo no texto original)

Como é possível observar, era grande a importância dada pelo Senado da


Câmara aos assuntos relacionados à Corte. Afinal, vivia-se numa sociedade do Antigo
Regime, onde estar ligado de uma ou outra forma à realeza, trazia uma identificação de
classe, delimitava o próprio espaço individual dentro da sociedade. Além disso, volto
a frisar, a “nobreza da terra” via-se inferiorizada diante dos que seguiram D. João na
fuga de Portugal e que resistiam à ligações com os nativos, mesmo os mais
afortunados.

Segundo Jurandir Malerba

“[...] a diligente elite econômica fluminense pugnou por apresentar-se


entre os que cercavam o rei, instaurando-se uma verdadeira cruzada por
nobilitação. Nos momentos culminantes da realeza, como foi o desembarque
de D. Leopoldina [...] a vida se regulava pelo cerimonial. Ali foram se
estabelecendo os contatos mais ou menos amistosos, mais ou menos
conflitantes entre as facções, quando uns primavam por vincar distâncias
honoríficas insuperáveis e outros por ostentar o poderio econômico que,
pensavam, poderia comprar-lhes a distinção.” 219

O próprio Malerba aponta as contribuições de Manoel Pinheiro Guimarães e


Francisco Pereira de Mesquita, negociantes de grosso trato, presentes no Senado da
Câmara em 1808/09 e 1807/08, respectivamente, na organização e financiamento da
decoração da cidade, com arcos triunfais, para a chegada de D. Leopoldina 220 .
Presentes no luto e nas festas reais, os negociantes da praça do Rio de Janeiro,
almejavam e recebiam seu quinhão de agrados por parte de D. João e, após a
Independência, de D. Pedro I.

218
ibidem, sessão de 30/12/1817.
219
MALERBA, Jurandir. A Corte no exílio: civilização e poder no Brasil às vésperas da independência (1808 a
1821). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 26.
220
ibidem, p. 71, 72.
118

4.2. MUDANÇAS POLÍTICAS

Como já frisei anteriormente, as atitudes dos negociantes de grosso trato,


dentro do Senado da Câmara, tinham uma estreita ligação com o contexto político em
que se inseriam. Nesse sentido, as sessões ocorridas nos períodos em que estes
homens estiveram na vereança, podem ser avaliadas de acordo com a situação da
Corte, na colônia. Principalmente a partir de 1815, vê-se o tema político tornar-se
dominante nos documentos da Câmara.

4.2.1. 1815 - 1818

A mudança de situação de colônia a Reino Unido a Portugal e Algarves


provocou reações de júbilo intenso em seus habitantes, principalmente naqueles que
pertenciam aos grupos ligados ao poder, fosse esse econômico ou político – quase
sempre às duas esferas, simultaneamente.

Se a abertura dos portos brasileiros a outras nações, em 1808, trouxe


oportunidade de aumento do comércio e, portanto, maiores lucros ao grupo ligado ao
grosso trato, a transformação do status político, em 1815, mostrou-se ainda mais
promissora. Afinal, como colônia, o comércio ainda se curvava às exigências dos
negociantes da metrópole, enquanto que, como Reino Unido, alguns privilégios seriam
alcançados.

Não foi, portanto, sem razão, que os membros do Senado da Câmara Municipal
da cidade do Rio de Janeiro, celebraram efusivamente a iniciativa do Príncipe Regente
D. João.

“[...] o edital que deste Senado se mandou afixar para que os moradores desta
Corte, e subúrbios pusessem luminárias por três dias em razão do
contentamento de que todo o povo está possuído por S.A.R. haver por bem
elevar os Seus Estados do Brasil a dignidade e categoria de Reino, e que
por este mesmo motivo o Senado deveria render as devidas graças de
amor, e de respeito ao mesmo Soberano, e que o Desembargador Juiz
Presidente solicitasse dia para ir o Senado beijar a mão a S.A.R. pela
119

graça que acaba de fazer a este Reino do Brasil.” 221 (sem grifo no texto
original)

E alguns dias depois,

“ [...] tendo vindo de beijarem a mão de S.A.R. pela Graça de haver


elevado os seus domínios da América a graduação e categoria do Reino, e
acordaram que se fizessem demonstrações públicas de alegria com ações
de graça na Igreja, e com fogos de artifício e três dias de iluminação;
[...]” 222 (sem grifo no texto original)

Nem mesmo os tratados assinados junto à Inglaterra, sobre o tráfico negreiro,


em 1815, interferiram, pelo menos aparentemente, no relacionamento entre a
monarquia lusa e os negociantes de grosso trato. Apesar dos limites impostos ao
comércio de cativos, D. João buscou meios de proteger os interesses do grupo de
comerciantes, através de indenizações previstas por lei e outros artifícios. Ao menos,
num primeiro momento, não houve prejuízos maiores computados. 223

Em 1817, mesmo com a ratificação do tratado de abolição do tráfico, D. João,


ainda que pressionado pelos ingleses, manteve sua proteção aos negociantes de negros
africanos, garantindo “promulgar na sua Capital e logo que for possível, em todo o
resto dos Seus Estados, uma Lei determinando as penas em que incorrem todos os seus
vassalos, que para o futuro fizerem um tráfico ilícito de escravos” 224

Em 1816, a rainha de Portugal, D. Maria I, faleceu, após longos anos de


desvario mental. Sua morte representou a ascensão de D. João ao trono do Reino
Unido, o que deu ensejo a novas demonstrações de vassalagem dos homens da
governança, em geral, e da vereança, em particular. Uma coroação real em plena
América teve alta significação simbólica. Os habitantes da cidade do Rio de Janeiro,
em sua representação camarária, sentiram-se agraciados por Sua Majestade, que como
um verdadeiro monarca privilegiava seus súditos. Sendo assim,

221
AGCRJ, sessão de 20/12/1815, op.cit.
222
ibidem, sessão de 28/12/1815.
223
Cf. Anexos G1 e G2, ao final deste trabalho.
224
Cf. Anexos G3, G4, ao final deste trabalho.
120

“[...] acordaram que estando escalado dia seis de fevereiro para a coroação
de Sua Majestade o Procurador do Senado fizesse concluir, e dar as
providências para ser acesa em o dia da Coroação, e nos mais a
iluminação que se determinou [...]; o Senado com o seu Presidente ordene
irem assistir a publicação do bando que suposto não tinha sido estilo do
Senado assistir as publicações de bandos [...] contudo este Senado lembrando-
se de ser a primeira coroação nesta Corte, e desejando por si fazer este ato mais
pomposo quanto da sua parte tinham já de comum acordo se prevenido a se
apresentaram para saírem no bando que anunciasse a aclamação, parecendo-
lhe que deste modo davam mais um passo de maior respeito e vassalagem
ao melhor dos Soberanos que nos Rege [...]” 225 (sem grifo no texto original)

A sua fidelidade não passara em branco e, mais ainda isso ficou demonstrado
quando, por alvará de 31 de janeiro de 1818, Sua Majestade concedeu aos
“mercadores, sendo Matriculados pela Real Junta do Comércio deste Reino do Brasil e
Domínios Ultramarinos, o Privilegio de Aposentadoria Passiva nas lojas e casas, em
que habitam e conservam o seu negócio”, mercê esta estendida a todos os habitantes
da cidade do Rio de Janeiro, enquanto que todas as pessoas “que serviram e tiverem de
servirem na governança”, receberam privilégios estabelecidos pelas Ordenações
Filipinas, Livro 2º, Título 58, além da própria Câmara ter recebido o título de
“Senhoria”. 226

O ano de 1817 foi um ano de inúmeros preparativos e gastos com festividades,


com o casamento do herdeiro do trono, D. Pedro, com a arquiduquesa da Áustria, D.
Josefa Leopoldina, em 6 de novembro – apesar de já haver ocorrido por procuração, na
Áustria, em 13 de maio – como a aclamação de D. João como rei de Portugal, que teria
lugar no início do ano de 1818. Mesmo assim, foi tempo, também, de garantir a
lealdade a S.A.R, contribuindo para que a Corte fizesse frente à uma nova revolução
no nordeste, a Revolução Pernambucana.

A instalação da família real na colônia e o conseqüente aumento de despesas


que isso representava, se, por um lado, trouxe mudanças expressivas na cidade do Rio

225
AGCRJ, janeiro de 1818, op.cit.
226
ibidem, sessão de 11/02/1818. Para um maior entendimento do significado do termo “aposentadoria
passiva”, cf. os Anexos F, F1 e F2.
121

de Janeiro, por outro, significou a continuidade de um processo que vinha se


acentuando há algum tempo: a exploração das províncias do Norte e Nordeste, em
benefício das do Centro-Sul. A respeito desse fato, a historiadora Maria Odila Leite da
Silva Dias 227 aponta para o aumento dos impostos sobre a exportação de vários
produtos nordestinos, como o açúcar, o algodão, o tabaco, como forma de custeio do
funcionamento da Corte e da política externa joanina, envolvendo conflitos como o da
Guiana – invadida por Portugal, em 1809, como represália à ocupação do país pelas
tropas napoleônicas, e que deveria ter sido devolvida à França, após a assinatura do
Tratado de Paris, em 1814, mas que somente em 1817 foi desocupada pelos
portugueses.

Os grandes fazendeiros das províncias afetadas não tardaram a se rebelar contra


o que consideravam favorecimento e tratamento desigual por parte da monarquia, para
com a região por onde a colonização havia se iniciado, principalmente num momento
onde a produção açucareira e algodoeira achava-se em queda. O movimento
revolucionário não tardou a se instalar, unindo vários segmentos da sociedade,
principalmente os já citados fazendeiros, descendentes daqueles que haviam pego em
armas na Guerra dos Mascates, no século XVII. O sentimento anti-lusitano e
separatista tomou conta dos revoltosos, que chegaram a formar um Governo
Provisório.

É, portanto, a esse episódio, que se refere o Senado da Câmara Municipal do


Rio de Janeiro, quando em vereação extraordinária, de março de 1817, afirma que

“[...] visto ser constante que a Lealdade Portuguesa estava ofendida, pelo
caso acontecido no Recife de Pernambuco, e que achava de seu dever
ouvir aos Vereadores para deliberaram o meio de socorrerem os
oprimidos pelos malévolos; e correndo a votos unanimemente foi aceitado
pelos abaixo assinados ser justa a proposição, e votarem que se escrevessem
cartas aos cidadãos, para o que houvessem de concorrer conforme as suas
possibilidades para uma subvenção socorrerem os oprimidos, o que logo

227
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. “A interiorização da metrópole (1808-1853)”. In: MOTA, Carlos Guilherme
(Org.). 1822 – Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1982, p. 160-184.
122

nesta mesma Vereação se deu princípio e mandando-se cartas encarregando-se


certas pessoas da referida contribuição[...]” 228 (sem grifo no texto original).

A causa foi considerada justa, de acordo com o que indica as sessões


posteriores:

“[...] se ajuntaram o Desembargador Juiz Presidente e mais oficiais do


mesmo Senado para fazerem remessa dos donativos na forma que foi
acordada em Vereação de 31 de março passado, e com efeito se encarregou ao
Procurador do mesmo Senado o Coronel Antônio Alves de Araújo fazer
entrega da quantia de 18:722$670 réis que recebeu o dito Procurador com
as relações das pessoas que fizeram donativos [...]” 229 (sem grifo no texto
original)

“[...] e na mesma Vereação se fez remessa para o Real Erário da quantia


de 11:597$360 réis de donativo das subvenções pela repartição deste
Senado, não acompanhando as listas nominais dos contribuintes, o que se
prometeu fazer[...]” 230 (sem grifo no texto original)

Entendo que a extensa documentação apresentada, aponta o quanto era


importante para os membros do Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro,
demonstrar a S.A.R. a sua fidelidade em todos os momentos, apresentando-se dignos
das mercês que recebiam.

Antes de prosseguir, acredito ser necessária uma observação. Conforme


demonstrei nos quadros apresentados no quarto capítulo, somente nos anos de 1814,
1817 e 1818 não houve representantes dos negociantes de grosso trato nas listas como
vereadores ou almotacés. Aparentemente, isso vem de encontro à idéia da necessidade
desse grupo específico demonstrar apreço à monarquia, num período onde, como já
citei, vários momentos festivos ocorrem. No entanto, apesar de fora da governança,
esses homens não estavam afastados da vida pública ou da proximidade da Corte.
Talvez estivessem, sim, preocupados com os acordos feitos com a Inglaterra, em 1815
e ratificados em 1817, sobre a proibição do comércio negreiro ao norte do Equador e

228
AGCRJ- sessão de 31/03/1817, op.cit.
229
ibidem, sessão de 14/04/1817.
230
ibidem, sessão de 30/04/1817.
123

buscassem uma maior dedicação aos seus negócios. Os anos de 1817 e 1818, assim
como os que antecederam o ano de 1831, foram de grande movimentação no que se
refere aos negócios da escravidão, o que fazia com que os grandes negociantes
precisassem de um maior envolvimento com suas casas comerciais. No entanto, não
deixaram de lado sua preocupação em bem servir à Corte, acorrendo com polpudas
doações, nos momentos necessários.

4.2.2. 1820 - 1822

Se, em matéria de mudanças, o período anteriormente analisado foi agitado, foi,


realmente, a partir de 1821, meses após a Revolução do Porto, em Portugal, que o
Senado da Câmara dedicou boa parte de suas sessões aos temas políticos. Mesmo em
sessão de dezembro de 1820 231 , os vereadores ainda estavam preocupados em discutir
a cunhagem de moedas de ouro, como parte da comemoração da aclamação de D.
João, em 1818.

Portugal via-se na incômoda posição de ser governado de longe, com D.João


habitando sua colônia na América, após uma intempestiva saída da metrópole, fugindo
das tropas napoleônicas. O descontentamento com o rei só fez aumentar com sua
decisão de se manter no Brasil, mesmo após a expulsão dos franceses do Reino. Até
mesmo sua aclamação como rei de Portugal se dera na colônia, deixando-se o monarca
a ficar na América, enquanto que os portugueses seguiam tutelados pela Inglaterra. E,
se a abertura dos portos coloniais, em 1808, já havia sido criticada, a elevação da
antiga colônia ao status de Reino Unido, com todas as perdas comerciais que isso
ocasionou aos lusitanos, só fez com que os ânimos se acirrassem ainda mais.

A reação portuguesa, que já estava em gestação desde 1818, com a criação de


uma associação comercial, no Porto, acabou por ganhar a adesão de militares e
elementos do clero. A revolução propriamente dita iniciou-se em agosto de 1820, e os
rebeldes imediatamente formaram uma Junta Provisória, ampliando o movimento do
Porto até Lisboa e o tornando nacional. Passou-se a exigir a convocação de uma

231
ibidem, sessão de 6/12/1820.
124

assembléia constituinte e a volta da família real à metrópole, assim como a revogação


das regalias concedidas ao Brasil, inclusive sua elevação a Reino Unido.

A ameaça de perda dos privilégios até então alcançados, dividiu as opiniões,


colocando em lados opostos os que apoiavam a volta do rei a Portugal e os que temiam
uma “recolonização”, se a família real saísse do Brasil.

As manifestações nas sessões do Senado da Câmara eram cautelosas e, longe de


se pautar por críticas, permanecia fiel à Corte. A ida de D. Pedro de Alcântara, a
mando de seu pai, D. João, a Portugal, para averiguar a extensão dos fatos e prometer
jurar a Constituição portuguesa, não foi o suficiente para os lusitanos. Exigiu-se a
volta do soberano e este acabou por se conformar ao retorno.

“[...] e nesse ato chegando o Sereníssimo Senhor Príncipe Real do Reino


Unido de Portugal, Brasil e Algarves Dom Pedro de Alcântara depois de
ter recebido [...] o Real Decreto de 24 do corrente no qual Sua Majestade
Certifica aos seus povos que jurará e sancionará a Constituição [...]
Declarou o Mesmo Sereníssimo Senhor ser mandado por Seu Augusto Pai
e Senhor para em seu Nome Jurar já no dia de hoje a Constituição tal
qual se fizer em Portugal pelas Cortes. E para com a devida decência se
lançar os respectivos termos, e juramentos se mandou buscar um Livro novo
no qual se lançaram os referidos termos, e juramentos de El Rei Nosso
Senhor por seu Procurador o Sereníssimo Príncipe Real Dom Pedro de
Alcântara, e o Juramento do Mesmo Príncipe Real ao qual se seguiu ao do
Senhor Infante Dom Miguel, e depois se seguiram os novos empregados
públicos, o Senado da Câmara, e mais pessoas que estavam presentes neste
ato, sendo lidos os juramentos na presença do Povo, e Tropa e na presença do
Senado [...] 232 ” (sem grifo no texto original)

A Câmara demonstrou sua importância, em meu entendimento, quando se


apresentou como porta-voz do rei, em sessão de 27 de fevereiro de 1821, dando
ciência do Aviso Real, pelo qual deveria permanecer

“[...] em sessão continuada o tempo que for preciso, para que os Tribunais,
empregados, e demais habitantes desta Cidade prestassem o juramento a
Constituição, o qual se mandou cumprir, e registrar; e para o que mandou
afixar Edital em que se declarasse ao Público que o Senado se achava em

232
ibidem, sessão de 26/02/1821.
125

sessão continuada desde as dez horas da manhã até as duas, e das quatro até as
seis da tarde [...]” 233 (sem grifo no texto original)

Também os pedidos de permanência de D. João na cidade foram encaminhados


pela Câmara ao rei, que “agradece os puros sentimentos próprios do Povo Português
de Amor, e Lealdade, e declara não poder Acudir aos Desejos do Povo desta Cidade
prolongando nela por mais tempo a Sua Morada”. 235

E foi também pela Câmara da cidade que D. João, pelo Régio Aviso de 23 de
abril, mandou participar, “que dá Beija-mão de Despedida a 24 do mesmo mês”. 236

Igualmente foi a Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro quem esteve


em sessão aberta de “Vereação Extraordinária para receberem juramentos que as
Autoridades Eclesiásticas, Civis, e Militares, e todos os empregados públicos devem
prestar as Bases da Constituição Portuguesa”, após o próprio D. Pedro, já como
Príncipe Regente, todo o Senado da Câmara e outras autoridades e oficiais já a terem
jurado. 237

QUADRO 6 - SENADO DA CÂMARA MUNICIPAL DE 1822

NOME CARGO PROFISSÃO / TÍTULOS


José Clemente Pereira Presidente do Senado da Câmara Desembargador e Juiz de Fora
José Paulo de Figueiroa Nabuco Presidente do Senado no impedimento Desembargador
Araújo do atual
Domingos Vianna Gurgel do Vereador Membro das principais famílias, sendo filho
Amaral do fidalgo da Corte Luiz José Vianna
Gurgel do Amaral e Rocha
João Soares de Bulhões Vereador Membro das principais famílias;
Capitão das ordenanças;
Senhor de engenho;
Cavaleiro da Ordem de Cristo
José Pereira da Silva Manoel Vereador Alferes da Cavalaria de 2ª linha,
Membro das principais famílias.
José Martins Rocha Escrivão do Senado
José Agostinho Barbosa Juiz almotacé Hábito da Ordem de Cristo (1819), com tença
(jan/.fev/ mar.) efetiva de 12$000; Cavaleiro da Ordem
Imperial do Cruzeiro (1829)
João José de Araújo Gomes Juiz almotacé Capitão
(jan/.fev/ mar.)
João de Moraes da Silva Porto Juiz Almotacé Capitão;
(jan/.fev/ mar.) Membro de família ligada ao negócio de escravos

233
ibidem,, sessão de 28/02/1821.
235
ibidem,, sessão de 31/03/1821.
236
ibidem, abril de 1821..
237
ibidem, junho de 1821.
126

Antônio Luis Pereira da Cunha Juiz Almotacé Chanceler da Relação da Bahia


(jan/.fev/ mar.) Conselheiro da Fazenda
Deputado da Real Junta do Comércio
Fiscal dos Marcos
Intendente Geral de Polícia da Corte e Reino do
Brazil
Lugar ordinário de Desembargador da Mesa do
Desembargo do Paço
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios
Estrangeiros (1826)
Senador (1826)
Fidalgo da Real Casa
Agraciado com “uma vida na comenda que
tem para se verificar em seu filho Antônio
Luiz Figueira Pereira da Cunha”;
Mercê de Sesmaria de uma légua de tença de
testada e 2 de fundo, começando na Barra do Rio
Muruhi;
Cavaleiro Da Ordem de Cristo ; Dignatário
da Ordem Imperial do Cruzeiro;
Visconde de Inhambupe de Cima, com honras de
grandeza
Marquês de Inhambupe
Francisco Antônio Gomes Juiz Almotacé Capitão
(abr./.maio/ jun.)
Francisco Xavier Pereira da Juiz Almotacé Cavaleiro da Ordem de Cristo, com tença
Rocha (abr./.maio/ jun.) efetiva de 12$000.
Felippe Néri de Carvalho Juiz Almotacé Tenente da 4ª Companhia do Regimento 10 de
(abr./.maio/ jun.) Infantaria de Milícias ;
Alferes da 7ª Companhia do Regimento de
Infantaria;
Alferes da 4ª Companhia do Regimento de
Infantaria de Cabo Frio;
Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro ; Hábito da
Ordem de Cristo ; Comendador da Ordem de Crist
(1841)
Antônio Luis Pereira da Cunha Juiz Almotacé REFERÊNCIA ACIMA
(abr./.maio/ jun.)
Francisco José dos Santos Juiz Almotacé Sargento-mór das ordenanças, Cavaleiro da Ordem
Rodrigues (jul./.ag./ set.) de Cristo
João da Silva Nepomuceno Juiz Almotacé Família ligada ao negócio de escravos
(jul./.ag./ set.)
Sebastião Luiz Vianna Juiz Almotacé Tenente- Tenente-Coronel
(jul./.ag./ set.) Hábito da Ordem de Cristo, com tença efetiva
de 12$000, a qual renuncia;
Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro
Francisco Garcia Durão Juiz Almotacé
(jul./.ag./ set.)
Joaquim Mariano de Moura Juiz Almotacé Alferes da 4ª Companhia do Batalhão de
(out./ nov./ dez.) Caçadores de Milícias do Pilar (1815);
Tenente da 5ª Companhia do 2º Batalhão de
Caçadores de Milícias da Província do Rio de
Janeiro (1818); Tenente da 4ª Companhia
do mesmo regimento (1820); Hábito da Ordem
de Cristo (1829)
João da Costa Guimarães Juiz Almotacé
(out./ nov./ dez.)
Antônio Jozé de Araújo Juiz Almotacé Oficial da Imperial Ordem da Rosa (1844)
(out./ nov./ dez.)
João Euzébio de Souza Juiz Almotacé Capitão da 8ª Companhia do 3º Regimento de
(out./ nov./ dez.) Infantaria de milícias da Corte do Rio de Janeiro;
Ordem de Cristo
127

José Antônio dos Santos Xavier Procurador Sargento-mór das ordenanças


Cavaleiro da Ordem de Cristo
Francisco João Rodrigues, filho Tesoureiro

Pode-se observar pelo quadro acima, que as famílias que investiam diretamente
nos negócios de grosso trato, ligados principalmente ao comércio de escravos, já
tinham seus herdeiros na vereança. Quatorze anos separam as duas câmaras
pesquisadas e a sociedade muito se modificou. Os primeiros anos da família real, no
Brasil, de grandes dificuldades de acomodação da cidade à nova situação, de hospedeira
da Corte, já haviam passado e, após a elevação a Reino Unido e a volta de D. João para
Portugal, o Brasil buscou a independência política.

O que se percebe, a partir de então, é a articulação entre as Câmaras


Municipais, feita pelo Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro, em torno da
figura de D. Pedro, visto como única possibilidade de fazer frente às exigências das
Cortes portuguesas, que buscavam minar as conquistas políticas alcançadas durante a
estadia de D. João no Brasil. A sugestão da volta de D. Pedro para a Europa, com o
argumento de melhor prepará-lo para a sucessão real, foi o catalizador final. Às
Câmaras coube papel importante na representação enviada ao Príncipe, em janeiro de
1822, solicitando sua permanência no Brasil. Com a aquiescência do príncipe, e sua
disposição em enfrentar os dissabores de um enfrentamento com D. João e as Cortes, o
Senado da Câmara ofereceu-lhe, em maio de 1822, o título de “Protetor e Defensor
Perpétuo do Brasil” e,

“em Vereação extraordinária, e os Homens bons que no mesmo Senado


têm servido; [...] presente a todos a Representação que o Povo desta
Cidade dirigiu a presença de Sua Alteza Real O Príncipe Regente
Constitucional, e Defensor Perpétuo do Brasil, em que pretende e requer
que o Mesmo Senhor Mande convocar nesta Corte uma Assembléia Geral
das Províncias do Brasil [..] por ser este o único meio que se oferecia de
consolidar a União do Reino do Brasil, e de o Salvador dos males
evidentes de que estava ameaçado, e para evitar que se não rompia a sua
União com Portugal, como faz temer o estado exaltado a que se tem elevado
ultimamente a opinião Pública. Em virtude desta determinação saiu dos Paços
do Conselho ao meio dia o Senado da Câmara, e homens bons que nele têm
servido, e muitos Cidadãos de todas as classes que concorreram, [...] e [...] a
128

uma hora foi o mesmo Senado da Câmara, Deputação, e Cidadãos que


acompanhavam, introduzido na Grande Sala das Audiências, aonde já se
achava Sua Alteza Real; e sendo-lhe apresentada pelo Senado da Câmara a
Representação sobredita do Povo desta Cidade, [...] se dignou Sua Alteza
Real dar a seguinte resposta = Fico ciente da vontade do Povo do Rio; e
tão depressa saiba a das mais Províncias, ou pelas Câmaras, ou pelos
Procuradores Gerais, então imediatamente me conformarei com o voto dos
Povos desta grande, fértil, e riquíssimo Reino [...] a resposta que Sua Alteza
Real deu a Representação do Povo desta Cidade, e foi a mesma resposta
aplaudida com os seguintes vivas = Viva a Nossa Santa Religião. = Viva A
Princesa Real. = Viva a Assembléia Geral do Brasil. = Vivam as Cortes de
Lisboa. = Viva a união do Brasil com Portugal.” (seguem-se várias
assinaturas). 238 (sem grifo no texto original)

É a partir de 1822 que se pôde ver a relação das Câmaras Municipais e de D.


Pedro ganhar maior visibilidade e relevância. Segundo Iara Lis,

“A vantagem de recorrer às câmaras com o objetivo de instaurar a soberania e,


ao mesmo tempo, a legitimidade em D. Pedro, vinha da Antigüidade destas
instituições. Porque a câmara era tanto um órgão administrativo quanto
judiciário, [...] A câmara exercia este poder local, respondendo pela
administração, pela justiça, pelo fisco e pelo aparelho militar. [...] As
câmaras funcionavam como mediadoras entre a localidade e o monarca,
comunicando-se por meio de petições e representações [...] As câmaras
definiam-se como um lugar de elite, porém aí também se faziam
representar as outras vontades e interesse da cidade, dos homens de ofício,
dos lente e professores, das irmandades, das tropas e de outros mais. Ou
seja, se ela era gerida pelos homens bons, abarcava, não obstante,
discordâncias. [...] a câmara concorria para a mística da realeza e atuava
nas festas religiosas [...]. Na localidade, ela funcionava como uma espécie
de continuidade do rei, e não desperdiçava a oportunidade de se fazer
presente e exercer o comando [...]” 239 (sem grifo no texto original)

Assim, em 25 de maio do mesmo ano, o Senado da Câmara da cidade do Rio de


Janeiro, expediu ofício a todas as câmaras, solicitando a imediata adesão ao projeto de
uma Assembléia Geral das províncias, a fim de manter o Brasil unido. De todos os
cantos surgiram cartas que proclamavam a aceitação e união das câmaras, em torno da
instituição de uma Assembléia Geral.

238
AGCRJ, sessão de 23 de maio de 1822, op.cit.
239
SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria Coroada: o Brasil como corpo político autônomo (1780-1831). São
Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1999, p. 143-146.
129

E a sete de setembro,

“[...] dirigiu este Senado da Câmara uma Carta Circular a todas as Câmaras do
Brasil, propondo-lhes a necessidade de investir a Sua Alteza Real o Príncipe
Regente no exercício de todos atributos do Poder Executivo, que pela
Constituição lhe devem competir como a Lei Constitucional [...]” 240

E ainda, em 19 de setembro

“[...] em Vereação extraordinária o Senado da Câmara desta Cidade, e nela se


deliberou que se escrevesse uma Carta circular a todos as Câmaras do Brasil
convidando-as para a Aclamarem a Sua Alteza Real o Príncipe Regente
Primeiro Imperador Constitucional do Brasil, prestando o mesmo Senhor
previamente um juramento solene, de jurar guardar, manter, e defender a
Constituição que fizer a Assembléia Geral Constituinte e Legislativa Brasílica
[...] que o mesmo Senado desse todas as providências necessárias, para que
Sua Alteza Real fosse Aclamado Solenemente no dia 12 de outubro, por estar
conhecida ser esta a vontade do Povo”. 241

Pela documentação posterior, deu-se conta das respostas positivas das câmaras
consultadas e, finalmente,

“[...] se juntaram em Vereação extraordinária o Desembargador Juiz


Presidente, Vereadores, e Procurador do Senado da Câmara, comigo Escrivão
abaixo nomeado, e os Homens bons, que nele tem servido, e os Misteres, e
mais Cidadãos de todas as Classes Civis, e Militares, e saíram incorporados
para o Palacete do Campo de Santana, para ali ser Aclamado O Imperador
Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil,[...]”. 242

Iniciava-se aí, um novo momento da história política do agora país.

240
AGCRJ, sessão de 07/09/1822, op.cit.
241
ibidem, sessão de 19/09/1822.
242
ibidem, sessão de 12/10/1822.
CAPÍTULO 5

A CÂMARA MUNICIPAL E OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO NO


CONTEXTO DO PRIMEIRO REINADO

Neste quinto capítulo, dediquei-me com mais vagar a Câmara de 1830 –


dentro do contexto da participação dos negociantes de grosso trato – por sua
importância e ligação política ao período posterior à independência do Brasil e à
autoritária Constituição de 1824, outorgada por D. Pedro I.

5.1. O PERÍODO PÓS-INDEPENDÊNCIA

O Senado da Câmara Municipal do Rio de Janeiro esteve presente, de forma


ativa, às movimentações políticas, a partir de 1822 e, não houve um mandato sequer
onde não aparecesse um negociante de grosso trato, seja como vereador ou almotacé.

Logo após a própria aclamação de D. Pedro como Imperador do Brasil, que


teve lugar no dia 12 de outubro, a Câmara teve oportunidade de, novamente e como
de costume, demonstrar sua fidelidade ao monarca, envolvendo-se na substituição do
Procurador Geral da Província, Joaquim Gonçalves Ledo. Na vereação de nove de
novembro, o Senado da Câmara discutiu o fato de

“[..] havendo-se no dia 30 do passado mês de outubro reunido uma muito


considerável parte do Povo desta Cidade no Paço do Conselho, e nas suas
vizinhanças requerendo a este Senado se juntasse a seu outro Procurador
José Mariano de Azeredo Coutinho para Representar a Sua Majestade
Imperial, a necessidade de restituir aos Empregos de que haviam sido
demitidos os Ministros e Secretários de Estado dos Negócios do Império
José Bonifácio de Andrada e Silva, o da Justiça Caetano Pinto de
Miranda Montenegro, e o da Fazenda Martin Francisco Ribeiro de
Andrade, foi por todos bem claramente ouvido clamaram o mesmo Povo
em altas e máximas vozes, que o motivo desta deposição que se devia com
131

razão reputar fatal a segurança de todo o Império, e era uma cabala de


que estava a testa o Procurador Geral desta Província Joaquim
Gonçalves Ledo cuja deposição o mesmo Povo julgava indispensável [...]”
243
(sem grifo no texto original)

A fidelidade da cidade não foi deixada de lado por D.Pedro I, que na Vereação
de 15 de janeiro dirigiu, através da Secretaria de Estado dos Negócios do Império uma
Carta Régia concedendo à cidade o título de Muito Leal, e Heróica “de que ficará
gozando eternamente”. 244

E a instalação da Assembléia Constituinte, em três de maio de 1823, também


não deixou de ser anunciada, pelo Senado da Câmara que, em sete de maio

“[...] mandou declarar que em o dia 2 do corrente saiu o Bando, pelo qual se
fez público que no dia 3 do mesmo mês se instalava a Assembléia
Constituinte e Legislativa do Brasil, a cujo Bando foi o Senado, e os
almotacés para ser feito com mais pompa, luzimento, [...]” 245 (sem grifo no
texto original)

O ano de 1823 transcorreu, como todos os outros, em meio à providências


tomadas pelo Senado da Câmara a respeito do abastecimento de víveres da cidade,
arruamentos, limpeza de praias, conserto de pontes, procissões, festejos por
nascimentos na família real 246 e, entremeado, aqui e ali, algumas respostas aos ofícios
da Secretaria de Estado dos Negócios, onde se observou a atuação da Câmara na
manutenção do apoio a D. Pedro I. Assim é que, em sessão de 29 de outubro do
mesmo ano

“[...] foi proposto e aprovado que se abrisse uma subscrição para a qual
contribuam os membros deste Ilmo. Senado, para com o seu produto se
fornecerem meios aos brasileiros que ainda se conservam em Portugal,

243
AGCRJ, códice 16-3-27. Quanto ao fato citado, ocorrido em 30 de outubro, relaciona-se aos enfrentamentos
entre o grupo paulista de José Bonifácio e o grupo fluminense, considerado radical, por insistir no compromisso
de D. Pedro com a instituição de uma Assembléia Constituinte. Com a pressão feita pelas autoridades
envolvidas, o Procurador Geral da Província do Rio de Janeiro passou a ser José Mariano de Azeredo Coutinho.
244
ibidem, sessão de 15 de janeiro de 1823.
245
ibidem, sessão de 7/05/1823.
246
Nascimento de D. Paula Mariana, quinta filha de D. Pedro I com D. Leopoldina, no Rio de Janeiro, a 17 de
Fevereiro de 1823, e falecida na mesma cidade, em 16 de Janeiro de 1833.
132

não por falta de desejo de abster-se imediatamente ao chamamento que


deles fez Sua Majestade Imperial pela Proclamação de oito de janeiro do
corrente ano, mas sim pela de meios pecuniários que não tem para
restituírem-se a sua Pátria de que contudo não são filhos renegados [...]” 247
(sem grifo no texto original)

É interessante observar como as atas das sessões não fazem nenhuma menção
às calorosas discussões ocorridas nos debates da Assembléia Constituinte. É
compreensível que esta documentação se apresente em separado, já que se dava num
espaço que transcendia o da vereança. No entanto, os confrontos de projetos existiam,
entre aqueles que defendiam o poder absolutista de D. Pedro I e os que desejavam
limitá-lo e a Câmara permaneceu, segundo suas atas, a transcrever a situação
lastimável de ruas, praças, arrematações de obras. Após o imperador ter dissolvido a
Assembléia Constituinte por esta haver “perjurado ao tão solene juramento, que
prestou à nação de defender a integridade do Império, sua independência, e a minha
dinastia” 248 , o projeto de Constituição, estabelecido pelo grupo de confiança do
imperador, foi recebido pelo Senado da Câmara e, em sessão de 20 de dezembro,
onde foi solicitado que

“[...] os mesmos Vereadores declarassem, se achavam algumas


observações a fazer ao Projeto da Constituição oferecido por Sua
Majestade o Imperador, e remetido a este Ilmo. Senado em Portaria de 17
do corrente, ao que responderam todos unanimemente que nele só
encontravam uma prova decidida do liberalismo de Sua Majestade
Imperial e que nenhuma observação tinham a fazer, [...] acordaram que
quanto antes se publicasse Edital em que se declarasse a todos os
cidadãos indistintamente que dois dias depois de publicado este Edital se
achariam na casa do Ilmo. Senado dois livros para que em tempo
pudessem assinar todos os que fossem de opinião de que se deve jurar
como Constituição Política do Império o mesmo Projeto, e pedir-se a Sua
Majestade Imperial o mande executar, e um outro os que fazendo de
opinião contrária, para que reconhecendo-se a vontade geral, o mesmo
Senado se delibere ulteriormente a este respeito, pedindo a anulação do
mesmo Projeto,[...]” 249 (sem grifo no texto original)

Não há discussões relatadas nas atas do Senado da Câmara sobre o arbítrio de

247
ibidem, sessão de 29/10/1823.
248
Decreto da dissolução da Assembléia Constituinte, 12/11/1823.
249
ibidem, sessão de 20/12/1823.
133

D. Pedro em dissolver a Constituinte ou sobre o projeto de Constituição. O que há na


documentação é que em cinco de janeiro de 1824, em Vereação extraordinária

“[...] o Dembargador Juiz Presidente Vereadores e Procurador do Ilmo.


Senado da Câmara: Acordaram que se escrevessem cartas de convite a todos
os cidadãos, a todas as autoridades militares, eclesiásticas e civis, e todos os
comandantes dos corpos da primeira e segunda Linha, e a todas as
corporações religiosas para no dia 9 do corrente comparecerem na Sala do
mesmo Senado às onze horas em irem acompanharem a deputação que o
mesmo Senado em ato solene vai fazer a Sua Majestade Imperial, a
representar a Sua Majestade Imperial a vontade geral a que ele jure, e
mande jurar o Projeto por ele oferecido como Constituição Política do
Império [...]” 250 (sem grifo no texto original).

A Constituição foi jurada pelo imperador e demais autoridades, incluindo aí, o


Senado da Câmara, em 25 de março de 1824, após haver este recebido cartas de todas
as demais câmaras, apoiando o projeto. Logo a seguir, iniciaram-se os preparativos
para as eleições dos membros do Senado e da Assembléia Legislativa do Império,
dando a partida, assim, para mais um ciclo político no recém-país. As sessões que se
seguem, mesmo às dos anos posteriores, fazem menção ao juramento da população à
Constituição, dando a entender que não fazê-lo representaria cair no desagrado do
imperador.

Como posso pontuar a participação dos negociantes de grosso trato no período


destacado acima? Afinal, a partir de 1821 não houve um só mandato sem a
participação de, pelo menos, um deles, contabilizando onze elementos do grupo. Que
voz tinham esses negociantes, diante da virada política imposta por D. Pedro I?

A julgar pelas atas, a aquiescência com o projeto imperial era a norma. Como
grupo interessado no comércio de longa distância e no abastecimento interno, não
havia prejuízos a contabilizar com a posição ditatorial de D. Pedro I, uma vez que este
prosseguia dependendo do apoio da chamada “nobreza da terra”, fosse essa ligada ao
setor agrícola ou comercial. Em junho de 1826, Lourenço Antônio do Rego, que

250
ibidem, sessão de 05/09/1824.
134

importou entre os anos de 1823 e 1830 cerca de 11.100 escravos, além de cera 251 ,
conseguiu permissão para a venda de 1000 sacas de farinha para Montevidéu 252 . Os
acordos comerciais seguiam em vigor e o perigo da re-colonização, tão ao gosto dos
comerciantes de Portugal, havia sido, pelo menos momentaneamente, afastado. Para
agrado maior do grupo, o Procurador eleito para o ano de 1825 foi o negociante de
grosso trato João José de Melo, que importou, entre os anos de 1819 e 1826, cera,
azeite e cerca de 4800 escravos 253 . O cargo, também no ano seguinte, foi ocupado por
João Alves de Souza Guimarães, negociante de escravos, com viagens registradas em
1813 e 1822. Entendo, portanto, não ter o grupo estudado neste trabalho nada a obstar
ao governo imperial, que garantia as suas oportunidades de realizar seus negócios.

Prosseguindo nas demonstrações de agrado ao imperador, a Câmara Municipal


decidiu, em vereação extraordinária de junho de 1825,

“[...] que se pedisse licença a Sua Majestade Imperial para ser colocado o
seu Retrato na cabeceira da Mesa das Sessões da Casa Nova do Campo
da Aclamação, e que em reconhecimento dos Grandes Benefícios recebidos
do mesmo Augusto Senhor [...] que o mesmo Retrato fique colocado no
referido lugar perpetuamente,[...]”. 254 (sem grifo no texto original)

E ainda, resolveu também a Câmara, em julho de 1825, nomear uma comissão


para

“[...] organizar o plano de uma estátua eqüestre que se há de inaugurar a


Sua Majestade Imperial significativa dos relevantes feitos pelo mesmo
Augusto Senhor praticados a prol do Império e da Nação Brasileira, [...] Nesta
mesma Vereação se recebeu uma Portaria expedida pela Secretaria de Estado
dos Negócios do Império pela qual Sua Majestade Imperial houve por bem
designar que a estátua eqüestre se coloque no lugar onde se acha o
palacete no Campo da Aclamação por ser ali aonde por espontânea
deliberação dos povos tomou o Glorioso Título de Imperador do Brasil
[...]” 255 (sem grifo no texto original)

251
AN, Inventários post-mortem(1790-1835), op.cit.
252
AGCRJ, sessão de 10/06/1826, op.cit.
253
AN, Inventários post-mortem(1790-1835), op.cit..
254
ibidem, sessão de 04/06/1825.
255
ibidem, sessão de 11/07/1825.
135

E, em outubro do mesmo ano, iniciaram subscrições entre todos os cidadãos


para a inauguração da estátua eqüestre, após terem sido comunicadas todas as câmaras
e governantes de províncias, da homenagem. 256 Dessa sessão em diante, fez-se sempre
referência às várias listas de subscrições, recebidas de todas as camadas da sociedade,
incluindo as corporações de ofícios, ordenanças, comerciantes, através das câmaras.
Assim como o juramento à Constituição, a contribuição para a estátua eqüestre
significava ser fiel a D. Pedro I.

Em setembro do mesmo ano,

“[...] acordaram que tendo Sua Majestade Imperial feito público a Nação
Brasileira no dia 7 do corrente mês o reconhecimento deste Império devia
este Senado dar as mais vivas demonstrações do seu regozijo, que se
fizesse uma festividade da Igreja de missa cantada, sermão e Te Deum, e
que se rogasse a Sua Majestade Imperial a graça de conceder dia e comporá
este Senado incorporado com o clero e nobreza e povo ter a honra de lhe ir
beijar a Imperial Mão, e agradecer-lhe os Altos feitos que acaba de fazer em
prol da mesma Nação Brasileira [...]”. 257 (sem grifo anterior)

Em fevereiro de 1826, as negociações com D. João VI sobre o reconhecimento


da Independência do Brasil pareciam estar chegando a bom termo. Isso levou a que
em abril de 1826, a Secretaria de Estado de Negócios do Império desse o
conhecimento à Câmara que “se determinou hajam em 16, 17, e 18 luminárias
pequenas pelo motivo da publicação do tratado feito entre Sua Majestade Imperial e
Sua Majestade Fidelíssima sobre o reconhecimento do Império do Brasil”. 258

O ano de 1826 ainda reservou para a Câmara a oportunidade de mais uma


ocasião de demonstrar sua fidelidade à Sua Majestade: em dezembro, a imperatriz D.
Leopoldina faleceu, o que motivou a organização de várias demonstrações de luto, por
parte da vereança, com publicação de Bando, luto de seis meses e outras providências
de costume. Aliás, quanto às despesas feitas com essa demonstração de apreço,

256
ibidem, sessão de 13/10/1825.
257
ibidem, sessão de 10/09/1825.
258
ibidem, sessão de 13/12/1826.
136

“[...] visto não haver dinheiro no Cofre deste Senado para as despesas
extraordinárias que é mister fazer-se para o Ofício de Sua Majestade a
Imperatriz no Convento das Religiosas de Nossa Senhora da Conceição
da
Ajuda, suprirão os atuais três vereadores e procuradores cada um com
quantia de 1:200$000 réis fazendo ao todo a quantia de 4:800$000 réis de
empréstimo ao mesmo Ilmo. Senado [...]”. 259 (sem grifo no texto original)

O Senado da Câmara encontrava-se em dificuldades, uma vez que as despesas


ultrapassavam as rendas do Conselho. Uma das formas de D. Pedro I premiar a
fidelidade camarária foi buscando meios de resolver a situação financeira da
instituição, sempre às voltas com empréstimos ao Banco Nacional. Ao apelar para Sua
Majestade, os oficiais da vereança sempre conquistavam sua mercê de renovar os
créditos junto ao Banco do Brasil, em dívidas que ultrapassavam os anos. Assim,
ocorreu em março de 1827, quando João Marques Baptista de Leão, Procurador do
Senado da Câmara, ofereceu-se para pagar do próprio bolso os arrematantes das obras
da cidade e até do término da obra na nova casa do Senado da Câmara, “visto ser esta
obra de utilidade pública, e ordenada por Sua Majestade Imperial”, relatando em
sessão de março que

“[...] na ocasião da posse da presente Câmara, apenas existia no Cofre de seu


Tesoureiro a quantia de seiscentos mil e tantos réis, achando-se já
recebido adiantado o primeiro quartel das rendas dos dois matadouros,
aferições, toras da Quitanda, e que a sua dívida existia a 24:000$000 de
réis [...]” 260 (sem grifo no texto original)

O mesmo pronunciamento listava uma série de obras importantes para a


cidade, cujo término não seria possível por falta de recursos. Pediu o Procurador,
entre outras providências, que os fiscais recebessem um salário, a fim de poderem
fiscalizar com lisura as obras, aforamentos e cobranças de taxas do Conselho. A este
pronunciamento, D. Pedro I respondeu com a permissão que o Procurador

259
ibidem, sessão de 10/02/1827. A imperatriz faleceu em 11/12/1826.
260
ibidem, sessão de 31/03/1827.
137

“[...] sacasse letra sobre o Tesoureiro deste mesmo Senado, da quantia de


8:000$000 de réis, em reforma da dita quantia que este Senado por
empréstimo deve ao Banco Nacional, e que, igualmente o mesmo Tesoureiro
pague ao mesmo Banco a quantia de 240$000 réis, importância do prêmio da
referida letra.[...]” 261

Em setembro de 1828, a Câmara deu posse ao novo Ouvidor da Comarca,


Honório Hermeto Carneiro de Leão, sobrinho-neto de Rafaela Carneiro Leão, mãe de
Brás Carneiro Leão, cuja fortuna repousava, entre outros negócios, no comércio de
escravos.

Em outubro de 1828, a Câmara apressou-se em cumprimentar o imperador pelo


final do conflito com Buenos Aires 262 , apesar da forte crítica política feita ao
imperador D. Pedro I, pelo envolvimento no confronto na Cisplatina, do qual o Brasil
saiu derrotado.

“[...]Resolveram, sendo meio dia, levantar a sessão, para o fim de irem


cumprimentar a Sua Majestade Imperial pela faustíssima notícia da conclusão
da paz com a República de Buenos Aires [...]” 263

Aliás, o Senado da Câmara demonstrava o seu apreço às decisões do


imperador, mesmo quando essas eram motivo de prejuízos políticos. O mesmo já
havia se dado em 1824, na rebelião pernambucana da Confederação do Equador,
quando a Câmara obedeceu, sem discussões – ao menos em atas – ao embargo de
alimentos para a região nordeste do país. O Senado da Câmara buscava estar ao lado
do imperador, posição esta revertida com vigor, no período da abdicação.

Já em fins de novembro, a Câmara acompanhou a celebração do Te Deum, em


homenagem a eleição dos oito deputados, pela província, para a Assembléia
Legislativa a se instalar 264 . Logo em 1º de dezembro, o Senado da Câmara recebeu

261
ibidem, sessão de 11/08/1827. Essa letra foi renovada inúmeras vezes, com o beneplácito do imperador.
262
Trata-se aí da Guerra da Cisplatina, iniciada em 1825, contra a Argentina, que não aceitava o controle
brasileiro sobre a Província Cisplatina, desde 1821. A Cisplatina torna-se independente com o nome de Uruguai,
em outubro de 1828.
263
AGCRJ, sessão de 25/10/1828, op.cit.
264
ibidem, sessão de 29/11/1828.
138

através da Secretaria de Estado dos Negócios do Império “as instruções para as


eleições dos vereadores das câmaras respectivas e juízes de paz, na conformidade do
Tit. 5° da lei do primeiro de outubro do corrente ano”265 . Colocava-se um ponto final
no Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro.

5.2. A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DA CÂMARA MUNICIPAL

A Lei regulamentar de 1º de Outubro de 1828 instituiu o “Regimento das


Câmaras Municipais do Império” e, em 1830, o Senado da Câmara foi extinto,
instalando-se a Ilustríssima Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro. O ano de
1829 foi, já, um ano de transição, e no primeiro trimestre de 1830 ainda vigorou o
sistema de almotaçaria. Os membros desta Câmara tomaram posse em 16 de janeiro,
tendo sua primeira sessão se realizado em 18 de janeiro de 1830. Era a seguinte a
composição deste mandato:

QUADRO 7 – CÂMARA MUNICIPAL DE 1830/ 1832

NOME CARGO PROFISSÃO / TÍTULOS


José Ferreira de Faria Pertence Juiz Almotacé Hábito da Ordem de Cristo (1829)
(jan./ fev./ mar.)
Antônio Gomes de Brito Suplente de vereador Sargento-mór das ordenanças, membro das
principais famílias; senhor de engenho.
Antônio José Ribeiro da Cunha Vereador Alferes do morro de Santo Antônio da Cidade de
Mariana;
Cavalheiro da Ordem de Cristo; Irmão da Ordem
Terceira de S. Francisco de Paula e de S.
Francisco da Penitência, Irm. de N.S. do Pilar da
Igreja de S. Bento, Irm. de Sta. Luzia da Praia,
Imp. Irm. de N. S. de Misericórdia.
Bento Oliveira Braga Vereador (o mais votado e por isso Tenente-coronel da Cavalaria de 2ª linha, senhor
Presidente) de engenho, filho das principais famílias.
Seu pai já serviu no Senado da Câmara, como
almotacé.
Presidente da CM de 1830, Pres. da Câmara de
Deputados na Assembléia Geral na 3ª Legislatura
(1834-1837), pela província do RJ.
Domingos Carvalho de Sá Suplente de vereador Negociante
Francisco Antônio Leite Vereador Família ligada a serviços da Coroa.
Alferes da Companhia das Ordenanças do Distrito
de São Roque, na Capitania de Minas Gerais
(1815); Alferes da Companhia de Forasteiros do
Terço das Ordenanças da Repartição do Norte,
Capitania da Bahia (1815);
Hábito da Ordem de Cristo com tença efetiva de
12$000 (1821); Oficial da Ordem Imperial do
Cruzeiro (1827)

265
ibidem, sessão de 01/12/1828.
139

Francisco Luiz da Costa Vereador Negociante de grosso trato


Guimarães
Henrique José de Araújo Vereador Tenente (1802); Proprietário de terras;
Comendador
João José da Cunha De suplente de vereador, assume o Comissário de corveta.
mandato.
João Martins Lourenço Viana Suplente de vereador Negociante de grosso trato
João Silveira do Pilar Suplente de vereador Negociante da praça do RJ;
Exerceu diversos cargos públicos, como Juiz de
Paz do 2º Distrito da Freguesia de São José.
Comendador da Ordem de Cristo
Joaquim José Pereira de Faro Vereador Negociante ;
Coronel da 5ª legião da Guarda Nacional;
Vice-presidente do Banco do Brasil;
2º Barão do Rio Bonito
Cavaleiro da Ordem de Cristo
Joaquim José da Silva Suplente de vereador Médico
José de Carvalho Ribeiro Vereador Fazendeiro português;
Negociante de grosso trato
José Pereira da Silva Manuel Vereador Comendador da Ordem de Cristo
Manoel da Cunha Barbosa Suplente de vereador 2ª tenente;
Rua do Livramento, 129 (em 1848) Comendador da Ordem de Cristo (português)
Manoel dos Passos Correia Suplente de vereador Negociante de grosso trato
Manoel Gomes de Oliveira Couto Suplente de vereador Negociante;
Capitão das Ordenanças da Freguesia da Sé;
Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro;
Comenda da Ordem de Cristo, em sua vida, da
lotação de 12$000 réis;
Manoel Lopes Pereira Bahia Suplente de vereador Barão de Meriti;
Negociante com lojas de fazenda por atacado;
Ocupante de cargos públicos (português)
Simplício da Silva Nepomuceno Era suplente de vereador e assume o Negociante de grosso trato;
mandato em lugar de Antônio Pereira Capitão da 3ª Companhia do 1º Regimento de
Pinto Infantaria de Milícias da Corte;
Comendador da Ordem de Cristo.
Venâncio José Lisboa Suplente de vereador Desembargador. Família ligada ao comércio,
Cavaleiro da Ordem de Cristo.

Domingos Alves Pinto Procurador


Antônio dos Santos Cunha Encarregado da Contabilidade Hábito da Ordem de Cristo (1827)

As sessões iniciais da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, segundo


as atas do período de 1830-1831 266 , registravam que as primeiras medidas tomadas
pelos seus membros foram quase todas de cunho administrativo interno. Nesse
sentido, foi criada uma comissão de três membros para dar o seu parecer sobre os
diversos requerimentos enviados à Câmara solicitando cargos, devendo a referida
comissão “propor os que achar (sic) mais aptos para o exercerem” 267 . Para essa
Comissão foram designados os vereadores Antônio Pereira Pinto, Joaquim José
Pereira de Faro e José Pereira da Silva Manuel.

266
AGCRJ, Atas da Câmara Municipal- 1830-1831, códice 17-1-1.
267
ibidem, página 1, 1ª Sessão, dia 18 de janeiro de 1830, seguindo proposta do vereador Costa Guimarães,
aprovada por unanimidade.
140

Assim, foram sugeridos, votados e nomeados os empregados da Câmara,


atendendo aos dispositivos do Título 5o do Regimento das Câmaras Municipais:
porteiros, fiscais e suplentes, além da titulação dos Juízes de Paz. A escolha e votação
dos empregados da Câmara ocuparam grande espaço das sessões.

Também foi principal preocupação da Câmara, logo em sua segunda sessão,


formar comissões às quais se enviassem todos os negócios de sua competência, a
saber: Comissão Permanente 268 , Comissão de Contas e Comissão de Posturas. As
Comissões ficaram assim formadas: Comissão Permanente, vereadores Antônio
Pereira Pinto, Francisco Antônio Leite, Joaquim José Pereira de Faro e José Pereira
da Silva Manuel; Comissão de Contas, vereadores Francisco Luiz Costa Guimarães,
Henrique José de Araújo e José de Carvalho Ribeiro e a Comissão de Posturas,
vereadores Francisco Luiz Costa Guimarães, João José da Cunha e Antônio Pereira
Pinto. Além dessas, formou-se uma Comissão de Visita aos Cárceres e uma
Comissão de Saúde Pública 269 , formada pelos Facultativos Dr. Joaquim Cândido
Soares Meireles, Dr. Antônio Ildefonso Soares, Dr. Joaquim José da Silva e Dr. João
José de Carvalho. A essa Comissão foi solicitado um plano sobre a Saúde Pública,
bem como a designação do lugar mais apropriado para a formação do Cemitério ou
Cemitérios da cidade. No entanto, em que pese a grande contribuição dos
Facultativos escolhidos em vários parágrafos das Posturas de 1830, não se pode
afirmar, como alguns autores o fizeram, que foram eles os responsáveis por toda a
Seção da Saúde Pública, conforme a própria discussão tecida sobre o projeto de
posturas o demonstra.

268
AGCRJ, op.cit., códice 17-1-1, 2ª Sessão, proposta do vereador Costa Guimarães, que explicita que a
Comissão Permanente deve ser ouvida sobre todos os negócios do expediente e as outras Comissões sobre os
títulos a que se referem.
269
ibidem, 11ª sessão, 11 de fevereiro de 1830, onde se lê: “Nomeie-se uma Comissão de Saúde Pública
composta de Facultativos, que a rogo dessa Câmara e por espírito de patriotismo, se encarregue de apresentar um
plano sobre a Saúde Pública. Que os mesmos Facultativos que houverem de ser nomeados para este fim, se
encarreguem de designar a esta Câmara o lugar mais apropriado para a formação do Cemitério ou Cemitérios da
cidade”. A Comissão, também proposta pelo vereador Costa Guimarães é criada em 15 de fevereiro, na 13ª
sessão da Câmara. O Dr. Joaquim Cândido Soares Meireles foi o primeiro presidente e principal fundador da
Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1829, (aprovada por Decreto Imperial de 15 de Janeiro de 1830 e
depois transformada em Academia Imperial de Medicina, em 8 de Maio de 1835), sendo médico particular de D.
Pedro II e cirurgião.
141

Passado esse momento inicial, de organização interna, as Atas da Câmara


Municipal passam a registrar as discussões dos mais variados problemas que urgiam
serem resolvidos para que a cidade pudesse se estabelecer de forma mais ordenada,
condizente com sua posição de capital do Império Brasileiro. Na realidade, as
medidas a serem tomadas eram, basicamente, as mesmas que se arrastaram nos
mandatos anteriores: pedidos constantes e reiterados para limpeza das praias da
cidade (principalmente as praias do Peixe, dos Mineiros e a Prainha ); solicitação
de construção de pontes sobre as praias, de sobre as quais se pudessem lançar os
despejos públicos ao mar; permissão para receber materiais de obras; solicitação de
licença para os mais variados fins: estabelecimento de casas de talho de carne, para
quitandas e vendas; para levantar andaimes; para venda de casas, lotes; para
matar gado; para soltar fogos; para colocação de guarda-sol na frente de casas de
botequins; para exercer o curandeirismo; para abrir quitandas de lenha, fábrica de
velas, etc. Além disso, solicitava-se conserto de calçadas, registro de diploma de
boticários; estabelecimento de um local específico para uma praça de desembarque
de diferentes gêneros de abastecimento da cidade; pedidos de cartas de aforamento,
pagamento de laudêmio; apresentação de orçamentos para obras na cidade, pelos
fiscais de Freguesia; iluminação da cidade nos dias de Festas Nacionais (9 de janeiro,
3 de maio, 7 de setembro e 12 de outubro 270 ); pedidos de providências para o
impedimento da destruição de árvores plantadas; pedidos insistentes para iluminação
de ruas; ofícios de fiscais sobre os mais variados temas, como remoção de objetos que
impediam o livre trânsito nas ruas e entulhos ou obras sem licença; aterramento de
ruas; construção de esgotos cobertos.

Todas essas solicitações eram discutidas nas sessões da Câmara da cidade do


Rio de Janeiro, sendo, quase sempre, alvo de votação imediata para a sua aprovação

270
Cf. COARACY, Vivaldo, op.cit, p.185 e 260. Essas Festas Nacionais eram, respectivamente, o “Dia do
Fico” (1822), descobrimento do Brasil (comemorado erroneamente nesta data, por quase cem anos e somente
retificado com a descoberta e publicação da Carta de Pero Vaz de Caminha), proclamação da Independência e o
dia da aclamação de D. Pedro I como Imperador Constitucional do Brasil (1822), data que coincidia com seu
aniversário natalício.
142

ou seu indeferimento. Os objetos referidos acima, ocupavam a maior parte do tempo


das sessões, uma vez que era o próprio dia-a-dia da cidade que se discutia e decidia,
numa espécie de cidadania do cotidiano. No entanto, desde o início de seus trabalhos
do ano de 1830, os membros da Câmara chamavam a atenção para a necessidade de se
redigir novas posturas municipais, que substituíssem as antigas, que até então estavam
em vigor.

Sobre as antigas posturas, que regulavam a vida da cidade do Rio de Janeiro,


somente encontrei vagas referências. Fátima Gouvêa, aliás, já havia chamado a
atenção para o fato de que inexistia “um livro específico para registro e posterior
consulta das posturas que governavam a cidade do Rio de Janeiro” durante o período
anterior a 1830, porque este havia se extraviado, não sendo substituído, apesar das
ordens e ameaças feitas pelas autoridades competentes para que fossem tomadas
providências nesse sentido 271 . De um modo ou de outro, a recomendação dos
vereadores aos fiscais era que cuidassem para o cumprimento das antigas posturas,
enquanto as novas não fossem discutidas 272 .

As posturas municipais “constituíam o conjunto de preceitos municipais que


regulava o governo local em termos das obrigações relacionadas a ordem pública” 273 .
Elas normalmente tinham um caráter preventivo e

“[...] o não cumprimento delas [...] caracterizava [...] quase delito [..]
aproximando-se bastante dos ‘crimes policiais’ do Código Criminal, também
submetidos à instância primeira dos Juízes de Paz, portanto, igualmente, de
caráter muito ‘local’” 274 .

A historiografia brasileira não voltou sua atenção para as posturas municipais


271
A respeito das posturas que governavam a cidade do Rio de Janeiro, nos séculos XVII e XVIII, Cf.
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva, “Os homens da governança do Rio de Janeiro em fins do século XVIII e
início do XIX”, in O Município no mundo português. Funchal, CEHA/ Secretaria Regional do Turismo e da
Cultura, 1998, p. 549.
272
AGCRJ, Ata da Câmara Municipal, op.cit., 9ª sessão de 8 de Fevereiro de 1830.
273
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva, op.cit., p. 560, nota 19.
274
SILVA, José Luiz Werneck, op.cit., p. 33. Cf. também o mesmo autor, na p. 187, nota 49, onde ele lista os
chamados “crimes policiais” especificados no Código Criminal do Império do Brasil, que abrangiam, entre
outros objetos, as “ofensas da religião, da moral e bons costumes, [...], ajuntamentos ilícitos, os vadios e
mendigos...” (Atos do Poder Legislativo do Império do Brasil, p. 193-198).
143

como elemento regulador da vida da cidade ou vila e raros trabalhos debruçaram-se


atentamente sobre elas, limitando-se, no mais das vezes, a utilizá-las para
exemplificar ou referendar conclusões deste ou daquele autor. Nesse sentido, podem-
se ver referências às posturas municipais nos brilhantes trabalhos de Carlos Eugênio
Líbano Soares, Sidney Chalhoub, Luiz Carlos Soares, Martha Abreu – atenta à ação
da Câmara no que se referia às festas populares – entre outros, sem, no entanto, –
torno a frisar – dedicar-se ao papel da postura em si, somente indicando-a como
parte de suas próprias discussões sobre o objeto de suas obras. Em outros momentos,
essa historiografia até mesmo minimiza a importância dessas posturas, apresentando-
as como leis menores, uma vez que provisórias e sujeitas à aprovação e ratificação das
assembléias provinciais 275 , sendo, portanto, símbolos de uma autoridade local
tutelada, atrelada a desígnios maiores e mais poderosos e, no caso específico da
cidade do Rio de Janeiro, ainda dependentes do Ministério do Império, a quem a
Câmara Municipal era diretamente subordinada.

Entendo que essa subordinação e tutela do poder local pode ser relativizada,
uma vez que as instâncias administrativas envolvidas podiam ora atuar numa direção
mais autoritária, ora buscar a conciliação de interesses. Um interessante artigo de João
Reis 276 – que, trabalhando com a Câmara Municipal de Salvador, discute, com muita
propriedade, as tensões existentes, na capital da província da Bahia, entre as duas
instâncias político-administrativas, qual sejam, a Câmara Municipal e o governo
provincial, – pode tornar mais claro esse meu entendimento. A partir de dois
episódios ocorridos em Salvador, a greve dos ganhadores em 1857 e o motim popular
contra a carestia em 1858, todos dois originados pela instituição de posturas
municipais, o autor nos apresenta o embate entre a Câmara Municipal e o presidente
da Província da Bahia, com desdobramentos e conseqüências diversas. A fim de
melhor esclarecer o meu próprio ponto de vista, faço aqui um breve resumo dos dois
275
Cf., por exemplo, FAORO, Raymundo, op.cit., p. 345, onde o autor afirma que “as posturas – a lei municipal,
na sua expressão atual – teriam vigência provisória de um ano, dependentes de confirmação dos conselhos gerais
da províncias, que as poderiam revogar e alterar.”
276
REIS, João José. “Quem manda em Salvador? Governo local e conflito social na greve de 1857 e no motim
de 1858 na Bahia”. In: O Município no mundo português. Funchal, CEHA/ Secretaria Regional do Turismo e da
Cultura, 1998, p. 665-676.
144

fatos.

A greve dos ganhadores de 1857, uniu escravos e libertos contra uma postura
editada pela Câmara, que os obrigava a pagar uma licença e a portar uma placa de
metal para trabalhar. Segundo João Reis, essa medida faria parte de um projeto
maior de controlar o mercado de trabalho dos africanos, mas esses, rebelados,
cruzaram os braços, fazendo com que a cidade – como todas as outras áreas do
Império, nesse momento, extremamente dependente do braço africano – praticamente
parasse. Numa arrastada decisão, após idas e vindas políticas, onde os comerciantes
da Bahia, que queriam ver suas mercadorias circulando, fizeram a devida pressão, o
presidente da Província da Bahia, que já havia aprovado provisoriamente a postura,
forçou a Câmara a voltar atrás e a suspendê-la. Vitória do poder provincial sobre o
poder local.

No segundo episódio narrado por Reis, deu-se justo o inverso. A Câmara


instituiu uma postura para controlar o preço da farinha, evitando a ação de
atravessadores, que encarecia o produto. Após aprovar provisoriamente a medida, o
presidente da Província, ele próprio adepto do liberalismo econômico e pressionado
pela Associação Comercial, novamente recuou em sua decisão e forçou a Câmara a
suspender a postura. No entanto, aquela que parecia ser mais uma vitória do poder
provincial sobre o local, terminou em fracasso, uma vez que o povo, “povo livre”,
como bem frisa o autor, voltou-se contra o governo provincial e forçou a volta da
postura.

Cabe então aqui uma indagação: teria o governo provincial vencido realmente
o poder local no primeiro episódio ou somente teria alcançado a vitória pela ação dos
interessados, aí reunindo comerciantes e seus trabalhadores, os ganhadores libertos ou
escravos? Pelo que o segundo episódio demonstra, para além do poder local ou do
poder provincial, em certos momentos falava mais alto o poder das ruas e, nesse
sentido, nem sempre a Câmara e, mais diretamente os vereadores, aceitava a
subordinação ao executivo e legislativo provinciais. E, mais ainda, pelos casos
145

narrados pode-se ver que as posturas municipais não eram instrumentos políticos
ineficientes ou pouco importantes, antes pelo contrário: sua instituição deflagrava
reações apaixonadas e conflitantes.

Teve, então, a Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, ao se estabelecer


em janeiro de 1830, a preocupação precípua de criar novas posturas que regulassem
o espaço urbano, estabelecendo padrões de civilidade compatíveis com o novo Estado
Imperial que se formava. Para o estabelecimento dessas novas posturas, a Câmara
cercou-se de todos os cuidados, a fim de legislar de forma a atender as expectativas
da maioria dos interessados. Para isso, a Comissão de Posturas aprovou, por
unanimidade, a proposta de solicitar a participação de cidadãos comuns, fiscais de
Freguesias, médicos, Juízes de Paz, chefes de polícia, enfim de todos os cidadãos,
para que oferecessem suas sugestões à Câmara 277 , no sentido de que todos os mais
importantes e relevantes temas fossem contemplados pelas posturas. Assim, se pode
ler na Ata da Câmara que

“[...] Tendo essa Câmara de prover por meio de Posturas sobre muitos objetos
de Polícia e economia interna e seu termo, o vereador propõe que pela
Imprensa se convidem todos os cidadãos, a fim de que auxiliem com suas
memórias; podendo as enviar a mesma Câmara que as receberá com
especial agrado.” 278 (sem grifo no texto original)

É possível encontrar outro exemplo em:

“[...] Chegando ao meu conhecimento que a Ilustríssima Câmara pretende


reformar alguns dos parágrafos das suas posturas, novamente publicadas julgo
oportuno a ocasião de levar ao conhecimento de V.S. para ser presente a
mesma Ilustríssima Câmara, a presente representação por parte dos habitantes
desta freguesia [...] José Joaquim de Moura Salles - Juiz de Paz” 279

Ao apresentar, portanto, o seu Projeto de Posturas para o ano de 1830, a


Câmara Municipal já havia recebido, aceito ou rejeitado inúmeras propostas de textos

277
AGCRJ, códice 17-1-1, Ata da Câmara, sessão de 13 de março de 1830.
278
AGCRJ, códice 18-1-70, ofício do Vereador João José da Cunha, datado de 11 de março de 1830.
279
ibidem, ofício de 09 de março de 1839
146

de leis municipais. A apresentação desse Projeto ocorreu no dia 12 de junho de 1830


e, à primeira vista, as intenções da Câmara eram aparentemente modestas ao produzi-
lo. 280

“A Comissão de Posturas apresenta à Câmara Municipal o seu Projeto de


Posturas sobre os diferentes objetos, em que pela Lei a Câmara deve formá-
las. [...] A Comissão está bem longe de se persuadir de que no seu Projeto se
compreenda tudo quanto o Código Policial Municipal deve compreender, [...]
mas mesmo talvez não convenha procurar a reforma de um jato; em uma
cidade, aonde a Polícia Municipal tem sido completamente abandonada, só
por degraus ela pode ir restabelecendo. Convém ir aos poucos acostumando o
povo a sujeitar-se às Leis Policiais, ele entregue a uma perfeita licença sobre
estas Leis [...]”

Algumas observações são necessárias após a leitura desse trecho. Em primeiro


lugar, é preciso que se busque o sentido com que se utilizava, na referida época, a
palavra “polícia”. Segundo Thomas Holloway, havia dois significados para esse
termo: tanto poderia indicar “polimento”, aperfeiçoamento”, “civilização de uma
nação”, quanto “governo”, “administração” e “expurgo dos maus elementos que
pudessem por em risco a ordem vigente”. Nas palavras desse autor, “ as autoridades
policiais do Rio consideraram essas duas áreas de atividade ou conotações do termo –
repressão da criminalidade e civilização das classes urbanas inferiores – como
extensões uma da outra” 281 .

Outro dado interessante a observar é o registro que a Câmara Municipal faz do


“abandono da Polícia Municipal” e do pouco hábito que o povo teria de obedecer às
leis. Alguns autores afirmam que a Intendência de Polícia encontrava-se, realmente,
numa posição de desprestígio, em função da perda de apoio político sofrida pelo
Imperador D. Pedro I. Nesse sentido, sendo uma instituição que o povo entendia
diretamente ligada ao monarca, desde a sua criação pelo Príncipe Regente D. João, ela
teria sentido os reflexos da sensível queda de popularidade do Imperador. No entanto,
no meu entender, essa situação de tão completo desregramento da Polícia e, por

280
Cf. transcrição integral do documento no Anexo L.
281
HOLLOWAY, Thomas, op.cit., p. 280, nota 9.
147

conseguinte, do povo ainda é uma questão a ser respondida convenientemente.


Afinal, somente o Código Criminal de 1830 iria substituir as leis do primeiro
Intendente da cidade, Paulo Viana, e do major Vidigal, bem como os regulamentos da
época de Aragão, os quais jamais se poderiam denominar como brandos, antes pelo
contrário. Penso poder observar aí, então, um certo exagero, talvez uma possível
estratégia da Câmara para aumentar seu campo de atuação, já que, como uma outra
instância de poder, disputava, certamente, posições de mando dentro do conjunto de
autoridades locais, como alguns documentos indicam. Sendo assim, diminuir a
importância da instituição policial seria uma forma de ampliar a sua própria.

Num outro trecho da apresentação do Projeto, a Câmara torna a referir-se à


dificuldades externas para a instituição de suas Posturas.

“... Além de que a formação de diversas Posturas depende de estabelecimentos


que a Câmara tem de formar, quando as suas rendas o permitirem [...]. Assim
a Comissão reservou as Posturas sobre prisões para quando tiver reformado
estes estabelecimentos com as divisões e acomodações necessárias [...]” 282

No que diz respeito à necessidade de reforma das prisões, aqui alegada pela
Câmara, os memorialistas que trataram do tema, confirmam a sua situação de extrema
precariedade. Segundo o trabalho minucioso de Moreira de Azevedo, “entre nós as
prisões eram túmulos de condenados” 283 .

O Calabouço, para onde o senhor podia mandar seus cativos a fim de serem
açoitados ou passarem um período confinados, como castigo por fugas ou rebeldia,
era o

“único cárcere da cidade construído exclusivamente para escravos, mas não o


único em que se prendiam escravos.[...] As condições sanitárias eram
horrorosas, assim como o calor e a fedentina nos compartimentos sem

282
AGCRJ, Ata da Sessão de 12 de junho de 1830 – códice 17-1-1. Essa mesma transcrição pode ser também
consultada em Papéis sobre Posturas ou Infração de Posturas (1793-1830), códice 48-3-7.
283
Cf. AZEVEDO, Moreira de. op.cit., p.438.
148

ventilação e a escassa comida que os carcereiros deviam fornecer em troca das


taxas cobradas dos senhores” 284 .

Até mesmo navios ancorados no porto serviam de prisão, em casos especiais,


para sentenciados a trabalhos forçados ou para castigos de escravos, sendo o mais
conhecido deles o denominado “Presiganga” 285 . Aliás, essas embarcações eram
lucrativas para o senhor, que castigava seu escravo sem gasto na sua manutenção,
conforme se pode observar pelo documento abaixo:

“Constando pelo ofício de V.S., datado de 14 do corrente, que os escravos,


que por correção são mandados pelos respectivos senhores para a Presiganga,
sustentam-se ali à custa da Nação, a pretexto de se empregarem no serviço
interno daquele depósito, e sendo uma semelhante prática [...]até mesmo em
contradição como que se observa na prisão do Calabouço, onde os senhores
pagam o sustento dos escravos, que para ali são enviam, sem embargo de
andarem estes nos libambos empregados no carreto d’água para as diversas
estações públicas. Ordena Sua Majestade o Imperador que V.S. dê as
providências necessárias para que seja sempre recolhida ao cofre da
Intendência a importância do sustento e mais despesas que fizerem os
escravos dos particulares, postos por depósito e correção na Presiganga,
[...].” 286

Até 1808, o edifício que servia de cadeia à cidade localizou-se no pavimento


térreo do atual Palácio Tiradentes, sede, desde 1926, da Câmara dos Deputados
(Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro – Alerj). A “Cadeia Velha”, como foi
conhecida por mais de um século era formada por “aposentos quase sem ar, sem luz,
(onde) jaziam os condenados” 287 . Desta prisão, de acordo com Vivaldo Coaracy 288 , o
alferes Joaquim José da Silva Xavier saiu para ser enforcado, no dia 21 de abril de
1792, vindo desse fato o nome atual.

284
HOLLAWY, Thomas, op. cit., p. 65. Cf. também COARACY, Vivaldo, op.cit., p.290, onde diz que os
senhores pagavam cento e sessenta réis por cem açoites em cada cativo, renda que revertia para os cofres
públicos e que foi utilizada, por exemplo, nas obras do Passeio Público.
285
Cf. KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro: 1808-1850). Rio de Janeiro: Companhia das
Letras, 2000., p. 176. Essa denominação acabou por servir a todas as outras embarcações com a mesma
finalidade.
286
“Leis e decisões do Governo – 1830-1831”, op.cit., Aviso nº 22, Marinha.
287
AZEVEDO, Moreira de., op.cit., p. 438.
288
COARACY, Vivaldo, op.cit., p. 37.
149

Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, esse prédio foi
requisitado para servir à Corte e os presos foram transferidos para o Aljube, que,
conforme significado da própria palavra, de origem árabe, havia servido de cárcere
eclesiástico, até então. Sobre esta prisão, as descrições são enfáticas quanto às
suas terríveis acomodações:

“[...] era essa casa úmida, baixa, escura, e sem espaço conveniente para dar
abrigo a muitos indivíduos;[...] no mesmo cárcere recolheu-se o indivíduo que
praticara uma falta e o que cometera um crime, o homem livre e o escravo, o
branco e o africano, o moço e o velho; as mulheres foram encerradas em um
pequeno quarto ao nível da rua [...] Havia nessa cadeia confusão de crimes, de
idades, de sexos e de condições [...], havendo um único médico...” 289

Pela leitura do livro de Atas de 1830-1831, pode-se seguir o interesse do


governo imperial em tentar uma solução eficaz para o problema. A Comissão de
Visitas a Prisões e Cárceres esteve em todas as prisões e conventos da cidade –
inclusive no armazém de pólvora e que servia de prisão militar na Ilha das Cobras,
oferecido por D. Pedro, que terminou por tornar-se prisão civil, juntamente com
outros dois depósitos da Ilha de Santa Bárbara, em 1831. 290

Somente em 1835, segundo Vivaldo Coaracy, procedeu-se o início das obras


de uma Casa de Correção na rua Conde d’Eu, atual Frei Caneca, que se encontra em
processo de desativação. onde se encontra até os dias atuais.

O projeto das posturas de 1830, fruto do trabalho dos vereadores que


formavam a Comissão de Posturas, foi por eles apresentado à Câmara Municipal,
para votação final, organizado em duas Seções: a Seção Primeira referia-se à Saúde
Pública e contemplava os seguintes Títulos:

Título I- Sobre cemitérios e enterros


Título II- Venda de gêneros e remédios e sobre professores e boticários
Título III- Esgotamento de pântanos e águas infectadas e tapagem de terrenos abertos
Título IV- Economia, asseio dos currais e matadouros, e açougues públicos ou talhos

289
AZEVEDO, Moreira de., op.cit., p.438-439.
290
AGCRJ, códice 17-1-1, op.cit., 24ª Sessão da Câmara Municipal, março de 1830.
150

Título V- Sobre hospitais e casas de saúde, moléstias contagiosas


Título VI- Sobre colocação de curtumes e sobre qualquer estabelecimento de fábrica e
manufaturas, que possam alterar e corromper a salubridade ou atmosfera e sobre depósito de
imundície
Título VII- Sobre diferentes objetos que corrompem a salubridade da atmosfera e prejudicam
à saúde pública.

A Seção Segunda reunia as posturas referentes à Polícia, comportando os


Títulos:
Título I- Sobre alinhamento de ruas e edificação.
Título II- Sobre edificações ruinosas, escavações e quaisquer precipícios nas vizinhanças das
povoações
Título III- Sobre limpeza, desempachamento das ruas e praças e providências contra a
divagação de loucos e embriagados, de animais ferozes e os que podem incomodar o público
Título IV- Sobre vozerio nas ruas, injúrias e obscenidades contra a moral pública
Título V- Sobre estradas e caminhos, plantações de árvores para sua comodidade e para
outros objetivos
Título VI- Sobre polícia dos mercados, casas de negócios e portos de embarque e pesca
Título VII- Sobre diversos meios de manter a segurança e tranqüilidade e comodidade dos
habitantes
Título VIII- Sobre vacinas e expostos
Título IX- Disposições gerais a cerca de meios de execução. 291

Antes da votação final do texto das novas posturas propostas, a Câmara


decidiu imprimir 800 exemplares do Projeto para distribuir entre os assinantes
do “Diário Fluminense”, Juízes de Paz e Fiscais das Freguesias da Cidade para que
apresentassem, no prazo de oito dias, as observações que lhes ocorressem 292 .
Também à Sociedade de Medicina foi enviado um exemplar do Projeto, para que ela
“preste-se com as suas luzes, enviando à Câmara as emendas que julgar conveniente e
mesmo alguns aditamentos” 293 .

Somente após muitas discussões e inúmeras emendas, após a apresentação final


do Projeto de Posturas, em 14 de julho de 1830, ocorre a aprovação do texto final, em
04 de outubro de 1830, na 82a sessão da Câmara Municipal daquele ano. Nessa

291
AGCRJ, Ata da Sessão de 12 de junho de 1830 – códice 17-1-1, op.cit.
292
ibidem, sessão de 16 de junho de 1830.
293
ibidem., sessão de 07 de julho de 1830, proposta do vereador Simplício da Silva Nepomuceno, aprovada por
unanimidade. Cf. Nota 269, sobre a criação da Sociedade de Medicina.
151

mesma sessão, decidiu-se mandar imprimir 6000 exemplares das posturas 294 , a fim
de divulgá-las, além de afixá-las na porta das Igrejas Matrizes, após sua publicação
por Editais.

O texto final das Posturas de 1830 contemplou emendas apresentadas pela já


citada Sociedade de Medicina, além das propostas pelos vereadores eleitos para o
exercício de 1830, mantendo, no entanto, a configuração original, dividido em
duas Seções, referentes à Saúde Pública e à Polícia. 295

Assim, em função de sua posição particular, como sede da Corte, desde de


1808 e do governo imperial, a partir de 1822, a cidade do Rio de Janeiro teve, a meu
ver, em relação as outras cidades, uma certa precocidade no que tange à necessidade
de se enquadrar em moldes mais civilizados, atingindo padrões de comportamento
mais aceitáveis, dentro daquilo que era tido como urbanidade. Nesse sentido, seria
interessante analisar a criação das posturas na cidade de Salvador e Recife, a partir
do já citado trabalho de João Reis e o de Clarissa Maia, respectivamente,
comparando a instituição das leis municipais em cada cidade com a do Rio de
Janeiro. Reis apresenta o fato da já citada greve dos “ganhadores” em Salvador, em
1857, como represália à postura municipal que exigia uma licença para o “ganho”,
tanto de livres quanto de escravos, licença essa já exigida na cidade do Rio de Janeiro
desde o Código de Posturas de 1838 e Maia refere-se à proibição de ajuntamentos de
escravos na cidade do Recife, datada de 1873 e já posta em uso na cidade do Rio de
Janeiro desde 1831 296 . Entendo que os fatos citados apóiam minha interpretação.

294
Na fonte primária, grafa-se “6$000 exemplares”, o que deixa dupla interpretação: ou seis mil réis em
exemplares ou seis mil exemplares. Como a palavra “réis” (rs.) não surge após o numeral, preferi trabalhar com
a segunda hipótese. Cf. AGCRJ, códice 17-1-1, Sessão de 04 de outubro de 1830.
295
É interessante observar como a grande maioria dos autores refere-se a essas posturas como o “Código de
1830”. Na verdade, como já foi anteriormente frisado, o primeiro Código de Posturas somente será copilado em
1838, contemplando as posturas de 1830 em diante. Um código é um conjunto de leis e talvez as posturas,
anualmente renovadas, ampliadas ou mesmo anuladas, tivessem um caráter muito provisório para receberem
essa denominação. Pode-se considerar um simples caso de semântica ou um pormenor, porém, creio que os
documentos pesquisados permitem-me essa conclusão.
296
Cf. REIS, João. “A greve negra de 1857.” São Paulo, Revista USP, 1993 e MAIA, Clarissa Nunes. Samba,
batuques, vozerias e farsas públicas: o controle social sobre os escravos em Pernambuco no século XIX (1850 –
1888). Dissertação de Mestrado, UFPE, Recife, 1995, pp. 98.
152

5.3. OS NEGOCIANTES DE GROSSO TRATO E A NOVA CÂMARA MUNICIPAL

A Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, de 1830, formada a partir da


lei de 1828, foi composta, como visto no capítulo 3, quadro 4, por cinco homens
listados como negociantes de escravos. Desde a formação de 1812, a instituição não
reunia esse expressivo número de representantes.

O cenário político modificara-se. D. Pedro I havia conquistado a antipatia de


parte dos “brasileiros”, por seu estilo autoritário e, principalmente, pelo que era
considerado pelos “nacionais” como privilégios dados aos portugueses que o
rodeavam e participavam ativamente de seu Conselho. Os problemas entre os
chamados “brasileiros” e “portugueses” vinham se avolumando desde os primeiros
anos pós-independência. Se, num primeiro momento, “portugueses natos” e
“portugueses da América” formavam os “nacionais” ou “brasileiros”, unidos em torno
dos projetos da não-recolonização, da não-aceitação da volta à situação de colônia
portuguesa e de uma Independência, através de um príncipe português – uma vez que
os interesses dos negociantes lusos aqui radicados estavam em jogo e os levaram a
abraçar a “Causa Nacional da Liberdade” – após o “Grito do Ipiranga”, fez-se
necessário estabelecer limites e diferenciações políticas para a recém-formada Nação,
a fim de legitimá-la. Nesse sentido, distinguir a população que a formava,
estabelecendo quem eram os “estrangeiros” era fundamental. 297

Se, inicialmente, “Pátria era sinônimo do lugar reservado a determinados


‘homens bons’, que se reconheciam por nexos de propriedade e de privilégio”298 , a
estipulação do conceito de “cidadão brasileiro”, feita pela Constituição de 1824, veio
a trazer reivindicações de outros grupos, bem distantes dos ‘homens probos’ da terra:
os libertos (desde que nascidos no Brasil ou naturalizados, o que já era mais
complicado), que se incluíam naqueles que tinham direitos a defender e a conquistar,
como cidadãos; e também os escravos, mencionados na Carta de Lei somente no item
que defendia o direito pleno à propriedade – conceito no qual se inseriam – ambos se

297
RIBEIRO, Gladys Sabina, op. cit., onde me baseei para as citadas reflexões. Cf. também capítulo 1, nota 50.
298
ibidem, p. 47.
153

apropriando do discurso de “igualdade” e participando ativamente das discussões


políticas da cidade, levadas às ruas pela grande profusão de periódicos criados na
época e que “incendiavam” a opinião pública 299 .

Mas, acredito eu que, para além da rivalidade entre os grupos citados, uma
outra preocupação, esta mais específica, rondava os negociantes de grosso trato: por
um tratado estabelecido com a Inglaterra em 3 de novembro de 1826, havia sido
fixado o prazo de três anos para a extinção do tráfico negreiro, que passou a ser
considerado um ato de pirataria. É bem verdade que, somente em 7 de novembro de
1831, no período regencial, esse compromisso seria formalizado por uma lei, que
estipulava que todos os escravos, que entrassem no território ou portos do Brasil,
vindo de fora, ficariam livres (com exceção dos matriculados no serviço de
embarcações pertencentes a país onde a escravidão fosse permitida e os fugitivos do
território nacional. Além disso, pelo Artigo 2º,

“[...] Os importadores de escravos no Brasil incorrerão na pena corporal do


artigo cento e setenta e nove do Código Criminal, imposta aos que reduzem a
escravidão pessoas livres e na multa de duzentos mil reis por cabeça de cada
um dos escravos importados,[...]”

Ainda pelo Artigo 3º, seriam importadores o “o comandante, mestre ou


contramestre; o que cientemente deu ou recebeu o frete, [...]; todos os interessados na
negociação [...]; os que cientemente comprarem como escravos, os que são declarados
livres no Art.1º; [...]”. O Artigo 5o estimulava a delação, oferecendo a quantia de trinta
mil réis por qualquer notícia que levasse ao escravo traficado ilegalmente.” 300

O tráfico somente seria extinto, no Brasil, em 1850, após reiteradas pressões


inglesas, por razões que não cabem aqui serem discutidas. No entanto, seria incorrer
em anacronismo imaginar que essa ameaça não seria levada a sério, à época da

299
LIMA, Ivana Stolze, op.cit., onde a autora afirma que são lançados 12 periódicos em 1830, 45 em 1831, 36
em 1832 e 51 em 1833, sendo uma parte denominada com as novas cores dos cidadãos que surgem: “O
Mulato”, “O Brasileiro Pardo”, “O Homem de Cor”, “O Crioulinho”, entre outros.
300
“Leis e decisões do Governo – 1830-1831”- Parte Segunda.
154

divulgação da lei. E, diante dela, qual teria sido a reação dos negociantes de escravos?

Quanto a isso, apenas posso conjecturar. A documentação oficial representada


pelas atas da Câmara apresenta-se ciosa da sua responsabilidade do cumprimento da
lei. Pode-se observar isso na 37ª sessão, realizada em 4 de junho de 1831, onde se leu
a Portaria da Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça, de 21 de maio, para que a
Câmara fizesse expedir uma circular aos Juízes de Paz de seus distritos,
recomendando-lhes toda a vigilância policial, para que não se continue o “vergonhoso
contrabando de se introduzirem escravos da Costa d’África” 301 . As Portarias sobre o
tema eram sempre lidas e, sucintamente, a Câmara dizia-se também sempre
“inteirada” e por aí ficava o assunto e as providências a serem tomadas.

A Câmara manteve a mesma formação durante os anos de 1830 a 1832, e a


próxima vereança, a de 1833, não apresentou nenhum negociante de grosso trato
entre seus membros. Presumo que os elementos anteriores buscaram, ainda que de
forma discreta, resguardar seus negócios e souberam demonstrar ao imperador a sua
insatisfação, com seus inesperados “princípios de filantropia” 302 , como se pôde
observar à reação camarária à abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, num
discurso inflamado e contundente:

“Honrados cidadãos fluminenses, a presteza com que haveis acorrido a voz da


Pátria para libertá-la de um jugo ignominioso, a dignidade que haveis sabido
conservar depois da vitória, o esquecimento em que pusestes passadas ofensas,
logo que o inimigo caiu em terra vencido, a ordem que guardastes no meio
de um vivo entusiasmo, [...] A Câmara Municipal, escolha vossa, [...] lhes
agradece em nome da Pátria as ações que elevaram a glória brasileira ao seu
zênite, [...] A vossa municipalidade se congratula, pois, convosco nos
sentimentos unânimes de amor da liberdade e da Pátria que tão formosamente
brilharam nos dias 6 e 7 de abril e nos seguintes. Viva a nação brasileira!” 303

301 2
AGCRJ, Atas da Câmara Municipal: 1830-1831. Códice 17-1-1, op.cit.
302
“Leis e decisões do Governo - 1830-1831”- Parte Segunda, onde, em janeiro de 1831, um aviso do
Ministério da Justiça comunicava que “Sua Majestade, o Imperador, animado dos princípios de filantropia que
concorreram para o tratado de abolição do tráfico da escravatura, [...] manda recomendar a V.Ex. toda
vigilância, sobre este objeto, a fim de que se não procure introduzir nos dessa Província, debaixo de qualquer
pretexto que seja, escravo algum em contravenção ao referido tratado [...]”
303
AGCRJ – Ata da Câmara Municipal- códice 17-1-1, op. cit., 25ª sessão, em 18 de abril de 1831,
proclamação do vereador João José da Cunha, aprovada por unanimidade.
155

Nos anos de 1828 e 1830, praticamente todos os elementos do grupo analisado


realizaram viagens à África, alguns com resultados muito expressivos. Manoel dos
Passos Corrêa importou 1781 negros africanos; Francisco Luiz da Costa Guimarães
negociou 3564 escravos. Pedro José Bernardes (1122 peças), Simplício da Silva
Nepomuceno (com Antônio José de Medeiros, 1931 peças), Miguel Ferreira Gomes
(7034 peças), Manoel Francisco de Oliveira (3091 peças), Lourenço Antônio do Rego
(4657 peças), Antônio José Moreira Pinto (287 peças), José Alves da Silva Porto
(6256 peças), Francisco José dos Santos (4077 peças), João Gomes Barroso (1285
peças), enfim, vários dos nomes citados como negociantes de escravos 304 , também
fizeram o mesmo, aproveitando-se, quem sabe, da presença de seus pares na Câmara.
De todo modo, de maneira geral, o grupo procurou se prevenir das surpresas que,
porventura, os arroubos humanitários de D. Pedro I pudessem provocar.

5.4. OBSERVAÇÕES FINAIS

A título de critério comparativo, elenco a seguir a formação da Câmara


Municipal de 1849. Como já havia anteriormente explicitado, este último quadro
demonstra a transformação do perfil da Câmara, que se alterou ao longo dos anos,
adquirindo uma feição diversa das anteriores, e sua escolha, para análise neste
presente trabalho, foi feita baseada no fato de que o governo encontrava-se já,
consolidado politicamente, com o fim do período regencial e a proclamação de D.
Pedro II como imperador.

Os grandes negociantes de grosso trato não mais estão ligados de forma direta
à instituição camarária e, se ainda participam dela, é através de seus filhos ou
sobrinhos, bacharéis em Direito, formados em Medicina ou herdeiros dos negócios
dos pais, mas, já não ligados ao comércio de escravos. E, além deles, a Câmara
comporta jornalistas, boticários, militares, enfim, a governança municipal perde, no
meu entendimento, o caráter corporativista, apontado por alguns autores, porque

304
AN, Inventários Post-mortem (1790-1835), op.cit.
156

contempla diversificados segmentos ligados à cidade, ainda que não pertencentes ao


“povo”, no sentido mais comum do termo.

QUADRO 8 – CÂMARA MUNICIPAL DE 1849/ 1852

NOME CARGO PROFISSÃO / TÍTULOS


Gabriel Getúlio Monteiro de Vereador (mais votado e, Bacharel em Direito;
Mendonça por isso, Presidente) Foi Presidente da Província do Espírito Santo, entre 1830 e
1831 e foi deputado.
Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Ordem
Imperial do Cruzeiro.
Dr. Cândido Borges Monteiro Vereador Médico cirurgião da Academia Imperial de Medicina;
Cavaleiro da Ordem de Cristo, Comendador da Imperial
Ordem da Rosa
Theophilo Benedicto Ottoni Vereador Jornalista;
Vice-presidente da Câmara dos Deputados, em 1846.
José Antônio de Araújo Vereador Tenente-coronel,
Filgueiras Negociante de fazendas por atacado;
Cavaleiro da Ordem de Cristo; Oficial da Imperial Ordem da
Rosa
Cons. Dr. Joaquim Vicente Vereador Médico;
Torres Homem Membro do Conselho de Estado;
Comendador da Ordem de Cristo.

Luís Rodrigues Ferreira Vereador Advogado

Manoel José de Bessa Vereador Negociante;


Comendador da Ordem de Cristo
João Pereira Darrigue Faro Vereador Negociante;
Comendador da Ordem de Cristo; Cavaleiro da Ordem
Imperial do Cruzeiro; Oficial da Imperial Ordem da Rosa
Francisco José Gonçalves Vereador Tenente-coronel;
Cavaleiro da Ordem de Cristo; Oficial da Imperial Ordem da
Rosa
Conselheiro José Clemente Suplente de vereador Juiz, Desembargador;
Pereira Senador; Conselheiro de Estado;
Grande Dignatário da Imperial Ordem da Rosa; Dignatário
da Ordem Imperial do Cruzeiro;
Cavaleiro da Ordem de Cristo

José Manoel Fernandes Pereira Suplente de vereador 2º Barão da Gamboa;


Comendador da Ordem de Cristo

Justino José Tavares Suplente de vereador Advogado

Gregório de Castro Moraes e Suplente de vereador Coronel;


Souza Capitão da 4ª Companhia do 2º Regimento de Cavalaria de
milícias da Corte;
Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro da Ordem
Imperial do Cruzeiro, Oficial da Imperial Ordem da Rosa;

Dr. José Joaquim Guimarães Suplente de vereador Advogado

Simplício da Silva Nepomuceno Suplente de vereador Negociante de grosso trato;


Capitão da 3ª Companhia do 1º Regimento de Infantaria de
Milícias da Corte (1818), reformado em 1820;
Comendador da Ordem de Cristo.
João Baptista Lopes Gonçalves Suplente de vereador Negociante;
Cavaleiro da Ordem de Cristo; Oficial da Imperial
Ordem da Rosa.
157

Thomaz José Pinto Cerqueira Suplente de vereador Advogado

Dr. José Pereira Rego Suplente de vereador Médico;


Cavaleiro da Ordem de Cristo
Luís Joaquim de Gouvêa Secretário Oficial papelista do Tribunal da Mesa da Consciência e
Ordem (1820);
2º Oficial da Secretaria do Tribunal da Mesa da Consciência
e Ordem, com ordenado (1827);
Cavaleiro da Ordem de Cristo (1825); Oficial da Imperial
Ordem da Rosa (1847)

Acredito poder ir um pouco mais adiante na análise dos membros desta câmara
de 1849, no que tange aos demais cargos públicos ocupados por estes homens, antes
ou após essa governança.

Observa-se a presença de um ex-Presidente de província e futuro deputado; de


um próximo vice-presidente da Câmara dos Deputados; de um membro do Conselho
de Estado e, de um senador e também Conselheiro de Estado. Não é, portanto, uma
câmara diferente das anteriores somente por nela existirem profissionais liberais,
como jornalistas, médicos, advogados. É uma governança que já tem
representatividade política para além da instância local. No meu entendimento, pode-
se afirmar que seus membros tinham já uma visão mais depurada do papel que
representavam no cenário da Corte e das possibilidades que possuíam de seguirem no
espaço de poder que os cargos ocupados lhes garantiam.

Portanto, se ainda é possível atentar para a presença de Simplício da Silva


Nepomuceno, remanescente da Câmara de 1830 e importador de escravos em 1824 a
1829, não é possível registrar mais nenhum outro grande negociante de grosso trato.
Não que esse grupo tivesse deixado de existir – apesar da proibição, ao menos oficial,
das atividades do comércio de escravos – mas sim porque, não obstante
conservassem, muitos deles, suas fortunas e importância social, politicamente foram
substituídos por um grupo que, acredito, já possuía uma nova interpretação da
política, tendo-a mesmo como ocupação principal. Assim, uma nova Câmara surgiu,
aparentemente mais condizente com a imagem de um país que visava a
“modernização”, mas sem dispensar as ordens honoríficas, é bom frisar...
CONCLUSÃO

Os trabalhos sobre negociantes de grosso trato e sobre Câmara Municipal já


fazem, felizmente, parte da historiografia brasileira. A pretensão de originalidade
deste trabalho foi a de unir os dois temas, com o objetivo de demonstrar a participação
deste grupo – distanciado da, até então, considerada base econômica e política do
país, qual seja, a atividade agrícola e os grandes proprietários de terra – nos destinos
do país. Partindo do pressuposto que o comércio de grande monta, interno ou externo,
exercia papel relevante no suporte econômico do Brasil colonial e imperial, busquei
entender como se dava esse processo de apropriação do espaço da governança da
Câmara, por estes elementos, que visavam lucros, não só econômicos, como também
o recebimento de privilégios reais, tais como títulos honoríficos, sesmarias,
facilidades comerciais, enfim, demonstrações de deferência por parte da monarquia e
a diferenciação social, em relação aos “da terra”.

Como normalmente ocorre, no exercício do estudo do período deste trabalho, a


documentação surgiu como um obstáculo, por vezes intransponível. Mesmo os
registros oficiais são incompletos, muitas vezes apontando somente os fatos e
interpretações do agrado do grupo dominante. As fontes extra-oficiais requereram
uma verdadeira garimpagem, onde muito do encontrado era “ouro de tolo”. Por isso,
minha opção metodológica valorizou – por vezes de forma minuciosa ao extremo – a
documentação específica encontrada. Se não posso afirmar que, através dela, respondi
minhas perguntas iniciais, posso garantir que me fiz outras, o que entendo como
fundamental para o exercício do historiador. Além disso, a pesquisa me conduziu à
reflexão, traduzida nas pequenas conclusões feitas em cada capítulo, e à maturidade
suficiente para encerrar essa etapa do meu trabalho sem frustrações. Acredito que,
com tudo isso, algumas observações finais podem ser alinhadas.
159

Em primeiro lugar, a reafirmação de minha opção teórica por E.P.Thompson,


quando afirma que “é inerente ao caráter específico da lei, como corpo de regras e
procedimentos, que aplique critérios lógicos referidos a padrões de universalidade e
igualdade”. Acredito que, para além dos interesses corporativistas, os homens da
vereança, entre eles os negociantes de grosso trato, tinham como objetivo a
organização da cidade do Rio de Janeiro e sua transformação em busca de padrões
ditos civilizados. Nesse sentido, a atuação da Câmara era direcionada ao
estabelecimento de normas de convivência e providências ligadas ao cotidiano da
cidade, que garantiam à essa instituição um lugar representativo na relação com a
população da cidade. Não pretendo, com isso, resvalar para a ingenuidade de supor
uma abnegação extremada desses indivíduos quanto aos seus interesses pessoais, mas
sim que estes interesses estavam intimamente ligados à função maior de estruturação
de uma cidade tida como “incivilizada”.

Num segundo momento, penso também ter conseguido apontar a participação


freqüente do grupo estudado, nos acontecimentos importantes para o futuro país,
fosse através de provas de deferência e fidelidade ao poder real, fosse encampando
projetos importantes para a sobrevivência política do próprio grupo, como, por
exemplo, a mudança de status político da colônia.

Uma de minhas dificuldades nesse trabalho foi separar as iniciativas dos


negociantes de grosso trato, na Câmara, dos outros projetos apresentados por aqueles
que não pertenciam a esse grupo. Como parte da parcela que detinha o poder político
e econômico da cidade, suas propostas para as mudanças no espaço urbano
imbricavam-se e se confundiam no todo. Por isso, minha preocupação de elencar as
câmaras dos períodos analisados, numa tentativa de observar a presença maior ou
menor de elementos do grupo estudado em cada mandato, a fim de estabelecer
àqueles que estavam à frente das decisões camarárias no período.

A verdadeira “caçada” empreendida aos elementos da Câmara acabou por me


levar a outros rumos e outros personagens, como os “brasileiros” e “portugueses”, o
160

conjunto da população pobre, e outros segmentos que até então não faziam parte das
minhas considerações. Nesse sentido, a pesquisa também me encaminhou a temas
políticos do período, sobre os quais eu pude refletir com mais vagar. Perceber
quantas portas foram abertas a minha frente talvez seja meu maior prêmio, após
quatro anos de pesquisa.

Como já coloquei anteriormente, a historiografia brasileira já tem analisado a


Câmara Municipal e os negociantes de grosso trato, mas, em meu entendimento,
ainda de forma compartimentada. É patente que a documentação oficial, como as
atas das sessões da Câmara, revela-se, por vezes, não confiável, já que reflete, no seu
silêncio sobre as discussões ocorridas, a posição dos poderosos da cidade – que,
como tais, se julgavam os responsáveis pela manutenção e existência da própria
cidade –, mas abrir o leque de opções de pesquisa, utilizando atestados de óbitos,
testamentos, inventários, casamentos e batismos, lista de votantes ou de
desembarques de escravos, livros da Junta Comercial, enfim, documentos das mais
diversas procedências, trouxe a possibilidade de ampliar o trabalho. Entendo que
acertei e errei em minhas análises, talvez em proporções pouco desiguais. De
qualquer modo, se não posso apregoar vitórias grandiosas, acredito que o esforço foi
válido diante da possibilidade de observar um pouco da sociedade onde viviam os
membros que compunham a Câmara da cidade do Rio de Janeiro e as modificações
sofridas por essa composição, ao longo dos anos.

Por fim, uma última observação. A Câmara abrigava inúmeros cargos, tais
como Arruadores, Administrador das Obras, Diretor da Instituição Vacínica,
Almoxarifes, Arrematantes de Matadouros, Cirurgiões Vacinadores e de Matadouros,
Marchantes (negociadores de gado), Porteiros, Ajudantes de Portaria, Oficiais
escrivãos, Fiscais de Freguesias, Administrador da Iluminação Pública, Juízes de Paz,
entre outros, que não foram listados ou mencionados neste trabalho, que visou as
atuações de vereadores, procuradores e juízes almotacés, o que já representou um
trabalho de proporções consideráveis e que, pelo menos, dentro do contexto proposto,
requereu grande fôlego.
REFERÊNCIAS

FONTES
Fontes Impressas:
ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (AGCRJ)
Código de Posturas da Ilustríssima Câmara Municipal do Rio de Janeiro e Editais da
Mesma Câmara. Rio de Janeiro, Eduardo e Henrique Laemmert, 1870.

Código de Posturas: Leis, Decretos, Editais e Resoluções da Intendência Municipal


do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Papelaria e Typographia Mont’Alverne, 1894.

Coleção das Leis do Brasil de 1808. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1890.

Coleção das Leis do Brasil de 1809. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1813. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1815. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1817. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1818. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1819. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1820. Decretos, Cartas Régias e Alvarás de 1820. Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Brasil de 1821. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1889.

Coleção das Leis do Império do Brasil de 1823.(Leis da Assembléia Geral


Constituinte e Legislativa). Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1887.
162

Coleção das decisões do governo do Império do Brasil de 1825-1827. Rio de Janeiro,


Typographia Nacional, 1878.

Coleção das Leis do Império do Brasil de 1828-1829. Rio de Janeiro, Typographia


Nacional, 1878.

Coleção das decisões do governo do Império do Brasil de 1830-1831. Rio de Janeiro,


Typographia Nacional, 1876.

Coleção das Leis do Império do Brasil de 1832. Rio de Janeiro, Typographia


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Typographia Nacional, 1864.

DUNLOP, C.J. Apontamentos para a História da Iluminação Pública da cidade do


Rio de Janeiro. Impressos 1000 exemplares pelo sistema “Multilith”, na Companhia
de Carris, Luz e Força do Rio de Janeiro, Ltda, s/d.

Posturas de 1830. Typ. Imp. Nac.

Fontes Manuscritas
Almotacés (1791– 1811 / 1817 – 1819) 39-2-14
Almotacés (1807) 39-2-15
Almotacés (1820 – 1821) 39-2-16
Almotacés (1821) 39-2-17
Almotacés (1822) 39-2-18
Almotacés (1822 – 1824) 39-2-19
Almotacés (1825) 39-2-10
Almotacés (1826) 39-2-21
Almotacés (1827) 39-2-22
Almotacés (1828 – 1829) 39-2-23
Almotacés (1830) 39-2-24
Almotacés (1812 – 1813) 39-2-4
Atas da Câmara Municipal (18/01/1830 – 18/10/1831) 17-1-1
Atas da Câmara Municipal (20/10/1831 – 17/09/1833) 17-1-2
163

Funcionários (Índice) (1798 – 1870) 16-4-25


Funcionários (Índice) (1810 – 1830 ) 7-2-35
Funcionários da Secretaria da CM (1829 – 1839) 7-2-36
Iluminação Pública (1818 – 1840) 7-2-26
Instituto Vacínico (1826 – 1849) 8-4-38
Limites da Cidade do Rio de Janeiro 45-1-42
Limites e divisões de freguesias (1809 – 1833) 68-3-1
Limites e divisões de freguesias (1825) 68-3-2
Livro de registros das leis relativas à CM 68-3-4

Portarias do Senado da Câmara (1816 – 1818) 7-3-26


Posses e juramentos da CM (1791 – 1830) 48-3-3
Posturas e infrações (1793 – 1830) 48-3-7
Relação de nomes de pessoas que costumam e podem 40-3-85
servir nos cargos de governança desta cidade e Corte do
Rio de Janeiro, 29/11/1822

ARQUIVO NACIONAL (AN)


Fontes Manuscritas
Regulamento para comissários. 1825. Caixa 777, pacote I.
Relação das pessoas que têm servido os cargos de vereadores e procuradores do
Senado da Câmara e de almotacés e filhos e netos dos cidadãos e bons do povo
(1795, 1796, 1797)- pauta de eleitores, 1800. Caixa 500, pacote 2.

“Termos de Bem Viver”. Coleção Polícia da Corte. Códice 410 – vol. 1 e 2.


Termo de informação das pessoas idôneas para servirem os cargos da governança
desta Corte. Códice 812, vol. I, 31 de outubro de 1815.

Provedoria da Fazenda Real, Códice 242, vol. 1, 01552


Secretaria da Real Junta do Comércio – matrícula de negociantes, termos de
juramentos de testemunhas . Códice 170, 01424 ,volume 1

Junta do Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação – livro de matrícula dos


negociantes de grosso trato e sua guarda-livros e caixeiros. Códice 171, 01427,
volume 1.
164

Registro de eleições de vereadores de várias vilas e cidades do Brasil (1812-1823),


Códice 223

Ordens Honoríficas, Códice 14 – Latas verdes


Índice alfabético de A a Z (ordens honoríficas), Códice 116
Termos de juramentos e testemunhos, Códice 117
Inventários Post-mortem e Testamentos, diversos códices
Diversos documentos, Códice 812, volumes 1, 2, 3,4

Fontes Impressas:
Coleção das leis brasileiras – desde a chegada da Corte até a Independência (Ouro
Preto – 1834)

Coleção das leis e decretos do Império do Brasil desde a Feliz Época de sua
independência: obra dedicada à Assembléia Geral Legislativa – Sessão de 1831. Rio
de Janeiro: Imprensa Typographia de Seignot-Plancher, 1832.

BIBLIOTECA NACIONAL - BN
Periódicos (Microfilmados)
Almanak administrativo, mercantil e industrial Laemmert RJ-PR-SOR165[1- 150]
Gazeta do Rio de Janeiro (para o período entre 01/07/1811 e 31/12/1822)
Espelho (de 01/10/1821 a 31/6/1823)
Volantim (de 01/09/1822 a 31/10/1822)
Diário do Governo (de 02/01/1823 a 20/5/1824)
Diário do Rio de Janeiro (de 02/12/1825 a 02/12/1827)
Jornal do Commércio (02/10/1827 a 30/06/1830)
Diário Fluminense (de 21/05/1824 a 31/12/1830)

ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO


Certidão de Óbitos – Freguesia de Santana – 1817-1838: índice E 636;
1838- 846: E 637
Freguesia de São José – 1831-1848 índice E 053
Freguesia de Nossa Senhora da Candelária – 1809-1838: índice
E 738
Freguesia de Nossa Senhora da Glória – 1835-1855: índice E
789
165

Freguesia do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé – 1830-1833:


índice E 162
1833-1837: índice E 163
1837-1840: índice E 164
1840-1843: índice E 165

Registros de casamentos – Freguesia de São José, índice I-028 A


Freguesia de Santa Rita, índice I-032, 0549/0550
Freguesia de Sant’Ana, índice I- 040 – 0681
Freguesia do Engenho Velho, índice I-056 – 0446
Freguesia da Candelária, AP 791

DICIONÁRIOS BIOBIBLIOGRÁFICOS

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ANEXO A

Lei de 29 de novembro de 1832 305 – Promulga o Código do Processo Criminal em


primeira instância, com disposição acerca da administração da Justiça Civil

“A Regência, em nome do Imperador e Senhor Dom Pedro II, faz saber a todos os
súditos do Império, que a Assembléia Geral decretou e Ele sancionou a Lei seguinte:
Código do Processo Criminal de Primeira Instância
PARTE PRIMEIRA
DA ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA
TÍTULO I
De várias disposições preliminares e das pessoas encarregadas da Administração da
Justiça Criminal, nos Juízos de Primeira Instância.
CAPÍTULO I
Disposições Preliminares
Art. 1º. Nas Províncias do Império, para a Administração Criminal nos Juízos de
primeira instância, continuará a divisão em Distritos de Paz, Termo e
Comarcas.
Art. 2º. Haverá tantos Distritos quantos forem marcados pelas respectivas Câmaras
Municipais, contendo cada um, pelo menos, setenta e cinco casas habitadas.
Art. 3º. Na Província onde estiver a Corte, o Governo e, nas outras, os Presidentes em
Conselho, farão, quanto antes, a nova divisão de Termos e Comarcas
proporcionadas, quando for possível a concentração, dispersão e necessidade
dos habitantes, pondo logo em execução esta divisão e participando ao Corpo
Legislativo para última aprovação.
Art. 4º. Haverá, em cada Distrito, um Juiz de Paz, um Escrivão, tantos Inspetores
quanto forem os Quarteirões e os Oficiais de Justiça, que parecerem
necessários.
Art. 5º. Haverá, em cada Termo ou Julgado, um Conselho de Jurados, um Juiz
Municipal, um Promotor Público, um Escrivão das Execuções e os Oficiais
de Justiça, que os Juízes julgarem necessários.
Art. 6º. Feita a divisão, haverá, em cada Comarca, um Juiz de Direito: nas cidades
populosas, porém, poderão haver até três Juízes de Direito com jurisdição
cumulativa, sendo um deles o Chefe de Polícia.
Art. 7º. Para a formação do Conselho de Jurados, poderão ser reunidos, interinamente,
dois ou mais Termos ou Julgados e, se considerarão como formando um
único Termo, cuja cabeça será a Cidade, Vila ou Povoação, onde com maior
comodidade de seus habitantes, possa reunir-se o Conselho de Jurados.
Art. 8º. Ficam extintas as Ouvidorias de Comarca, Juízes de Fora e Ordinários e a
Jurisdição Criminal de qualquer outra autoridade, exceto o Senado, Supremo
Tribunal de Justiça, Relações, Juízes Militares, que continuam a conhecer de
crimes puramente militares, e Juízos Eclesiásticos, em matérias puramente
espirituais.

305
Coleção das leis do Império do Brasil de 1832, Parte Primeira, Lei de 29 de novembro de 1832,Título I,
capítulo I, art. 2º. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1874
174

Art. 9º. A nomeação ou eleição dos Juízes de Paz se fará na forma das leis em vigor,
com a diferença, porém, de conter quatro nomes a lista do Eleitor de cada
Distrito.
Art. 10. Os quatro cidadãos mais votados serão os Juízes, cada um dos quais servirá
um ano, precedendo sempre aos outros aquele que tiver maior número de
votos. Quando um dos Juízes estiver servindo, os outros três serão seus
suplentes, guardada, quando tenha lugar, a mesma ordem entre os que não
tiverem ainda exercido esta substituição.
Art. 11. O Juiz de Paz reeleito não será obrigado a servir, verificando-se a sua
reeleição dentro dos três anos que imediatamente se seguirem àquele em que
tiver servido efetivamente.
CAPÍTULO II
Das pessoas encarregadas da Administração da Justiça Criminal em cada Distrito
SEÇÃO PRIMEIRA
Dos Juízes de Paz
Art. 12. Aos Juízes de Paz compete:
§ 1º. Tomar conhecimento das pessoas que de novo vierem habitar no seu Distrito,
sendo desconhecidas ou suspeitas, e conceder passaporte às pessoas que lho
requererem.
§ 2º. Obrigar a assinar Termo de Bem Viver aos vadios, mendigos, bêbados por
hábito, prostitutas que perturbam o sossego público, aos turbulentos, que por
palavras ou ações ofendem os bons costumes, a tranqüilidade pública e a paz das
famílias.
§ 3º. Obrigar a assinar Termo de Segurança aos legalmente suspeitos de pretensão
de cometer algum crime, podendo cominar neste caso, assim como aos
compreendidos no parágrafo antecedente, multa até trinta mil réis, prisão até
trinta dias e três meses de Casa de Correção ou Oficinas públicas.
§ 4º. Proceder a auto do corpo de delito e formar a culpa aos delinqüentes.
§ 5º. Prender os culpados, sejam no seu ou em qualquer outro Juízo.
§ 6º. Conceder fiança, na forma da Lei, aos declarados culpados no Juízo de Paz.
§ 7º. Julgar: 1º. As contravenções às Posturas das Câmaras Municipais; 2º. Os crimes
a que não esteja imposta pena maior que a multa até cem mil réis, prisão,
degredo ou desterro até seis meses, com multa correspondente à metade deste
tempo, ou sem ela, e três meses de Casa de Correção ou Oficinas públicas, onde
as houver.
§ 8º. Dividir o seu Distrito em Quarteirões, contendo, cada um, pelo menos, vinte e
cinco casas habitadas.
Art. 13. Sancionado e publicado o presente Código, proceder-se-á logo à eleição dos
Juízes de Paz nos Distritos que forem novamente criados, ou alterados, os quais
durarão até as eleições gerais somente.
SEÇÃO II
Dos Escrivães de Paz
Art. 14. Os Escrivães de Paz devem ser nomeados pelas Câmaras Municipais, sobre
proposta dos Juízes de Paz, dentre as pessoas que, além de bons costumes e
vinte e um anos de idade, tenham prática de processos ou aptidão para adquiri-
la facilmente.
175

Art. 15. Aos Escrivães compete:


§ 1º. Escrever em forma de processo, ofícios, mandados e precatórias.
§ 2º. Passar procurações nos autos e certidões do que não contiver segredo, sem
dependência de despacho, contanto que sejam de verbo ad verbum.
§ 3º. Assistir às audiências e fazer nelas ou fora delas, citações por palavras ou por
cartas.
§ 4º. Acompanhar os Juízes de Paz nas diligências de seus ofícios.
SEÇÃO III
Dos Inspetores de Quarteirões
Art. 16. Em cada Quarteirão haverá um Inspetor, nomeado também pela Câmara
Municipal sobre proposta do Juiz de Paz, dentre as pessoas bem conceituadas do
Quarteirão, e que sejam maiores de vinte e um anos.
Art. 17. Eles serão dispensados de todo o serviço militar de 1ª linha e das Guardas
Nacionais; e só servirão um ano, podendo escusar-se no caso de serem
imediatamente reeleitos.
Art. 18. Competem aos Inspetores as seguintes atribuições:
§ 1º Vigiar sobre a prevenção dos crimes, admoestando aos compreendidos no Ar. 12,
§ 2º, para que se corrijam: e, quando não o façam, dar disso parte circunstanciada
aos Juízes de Paz respectivos.
§ 2º. Fazer prender os criminosos em flagrante delito, os pronunciados não afiançados
ou os condenados à prisão.
§ 3º. Observar e guardar as ordens e instruções que lhes forem dadas pelos Juízes de
Paz, para o bom desempenho destas suas obrigações.
Art. 19. Ficam suprimidos os Delegados.
SEÇÃO IV
Dos Oficiais de Justiça dos Juízes de Paz
Art. 20. Estes Oficiais de Justiça serão nomeados pelos Juízes de Paz e tantos quantos
lhes parecerem bastantes para o desempenho das suas e das obrigações dos
Inspetores.
Art. 21. Aos Oficiais de Justiça compete:
§ 1º Fazer pessoalmente citações, prisões e mais diligências.
§ 2º Executar todas as ordens do seu Juiz.
Art. 22. Para prisão dos delinqüentes e para testemunhar qualquer fato de sua
competência, poderão os Oficiais de Justiça chamara as pessoas que para isso
forem próprias e, estas obedecerão, sob pena de serem punidas como
desobedientes.
CAPÍTULO III
Das pessoas encarregadas da Administração da Justiça nos Termos
SEÇÃO PRIMEIRA
Dos Jurados
Art. 23. São aptos para serem Jurados todos os cidadãos que podem ser Eleitores,
sendo de reconhecido bom senso e probidade. Excetuam-se os Senadores,
Deputados, Conselheiros e Ministros de Estado, Bispos, Magistrados, Oficiais
de Justiça, Juízes Eclesiásticos, Vigários, Presidentes e Secretários dos
Governos das Províncias, Comandantes das Armas e dos Corpos da 1ª Linha.
Art. 24. As listas dos cidadãos, que estiverem nas circunstâncias de serem Jurados,
176

serão feitas em cada Distrito, por uma Junta composta de Juízes de Paz,
Párocos ou Capelão e o Presidente ou algum dos Vereadores da Câmara
Municipal respectiva, ou, na falta destes últimos, um homem bom, nomeado
pelos dois membros da Junta, que estiverem presentes.
Art. 25. Feitas as listas dos referidos cidadãos, serão afixados à porta da Paróquia ou
Capela, e publicadas pela imprensa nos lugares em que haja, e se remeterão às
Câmaras Municipais respectivas, ficando uma cópia em poder do Juiz de Paz
para a revisão, a qual dever ser verificada pela referida Junta, todos os anos, no
dia primeiro de janeiro.
Art. 26. A revisão tem por fim:
§ 1º. Inscrever nas listas as pessoas, que foram omitidas ou que dentro do ano tiverem
adquirido as qualidades necessárias para Jurado.
§ 2º. Eliminar as que tiverem morrido, o que se tiverem mudado do Distrito, ou que
tiverem perdido as qualidades acima apontadas. Com estas listas reformadas, se
praticará o mesmo que se faz com a primeira indicada no artigo antecedente.
Art. 27. As Câmaras Municipais com os Juízes de Paz e Párocos, logo que receberem
as listas parciais dos Distritos, formarão uma lista geral, excluindo somente
dela os que notoriamente não gozarem de conceito público, por falta de
inteligência, integridade e bons costumes. Se, porém, em algum Termo, ou
ainda mesmo depois de reunidos, como dispõe o Art. 7º, resultarem apenas
sessenta Juízes de Fato ou pouco mais, de sorte que não bastem para suprirem
as faltas, que por ventura ocorram, se ampliará a apuração até número tal, que
seja suficiente.
Art. 28. Havendo queixas da parte de alguém, ou por ter sido inscrito, ou por ter
sido omitido nas listas, é do dever das Câmaras corrigi-las, eliminando ou
inscrevendo os seus nomes.
Art. 29. Os nomes dos apurados serão lançados em um livro destinado
particularmente para este fim, e será afixada nas portas da Câmara Municipal
e publicada pela imprensa, havendo-a, uma relação contendo por ordem
alfabética os nomes dos cidadãos apurados.
Art. 30. Passados quinze dias da publicação das listas apuradas, as Câmaras
Municipais farão transcrever os nomes dos alistados em pequenas cédulas,
todas de igual tamanho.
Art. 31. Preparadas as cédulas, na forma do artigo antecedente, as Câmaras
Municipais, no dia seguinte, a portas abertas, com assistência do Promotor
Público, mandarão ler pelo seu Secretário, a lista dos cidadãos apurados, e a
proporção que forem proferidos os nomes, o Promotor os verificará com as
cédulas e os irá lançando em uma urna.
Esta urna se conservará na sala das sessões, fechadas com duas chaves
diversas, uma das quais terá o Presidente da Câmara, outra o Promotor.
Art. 32. Tudo quanto nos Termos compete às Câmaras Municipais acerca das listas
dos que podem ser Jurados, será praticado nos Julgados por uma Junta
formada dos Juízes de Paz dos Distritos que neles houverem, da qual será
Presidente e Juiz de Paz da povoação principal, ou cabeça deles e Secretário
o seu Escrivão.
177

SEÇÃO II
Dos Juízes Municipais
Art. 33. Para a nomeação dos Juízes Municipais, as Câmaras Municipais respectivas
farão, de três em três anos, uma lista de três candidatos, tirados dentre os seus
habitantes formados em Direito ou Advogados hábeis ou outras quaisquer
pessoas bem conceituadas e instruídas; e nas faltas repentinas, a Câmara
nomeará um, que sirva interinamente.
Art. 34. Estas listas serão remetidas ao Governo da Província, onde estiver a Corte, e
aos Presidentes em Conselho nas outras, para ser nomeado dentre os três
candidatos um, que deve ser o Juiz Municipal do Termo.
Art. 35. O Juiz Municipal temas seguintes atribuições:
§ 1º. Substituir no Termo ao Juiz de Direito, nos seus impedimentos ou faltas.
§ 2º. Executar dentro do Termo as sentenças e mandados dos Juízes de Direito ou
Tribunais.
§ 3º. Exercitar cumulativamente a jurisdição policial.
SEÇÃO III
Dos Promotores Públicos
Art. 36. Podem ser Promotores os que podem ser Jurados; entre estes serão preferidos
os que forem instruídos nas Leis, e serão nomeados pelo Governo na Corte e
pelo Presidente nas Províncias, por tempo de três anos, sobre proposta tríplice
das Câmaras Municipais.
Art. 37. Ao Promotor pertencem as atribuições seguintes:
1º. Denunciar os crimes públicos e policiais e acusar os delinqüentes perante os
Jurados, assim como os crimes de reduzir à escravidão pessoas livres, cárcere
privado, homicídio ou a tentativa dele, os ferimentos com as qualificações dos Art.
202, 203, 204 do Código Criminal, e roubos, calúnias e injúrias contra o
Imperador, e membros da Família Imperial, contra a Regência e cada um de seus
membros, contra a Assembléias Geral e contra cada uma das Câmaras.
2º. Solicitar a prisão e punição dos criminosos e promover a execução das sentenças e
mandados judiciais.
3º. Dar parte às autoridades competentes das negligências, omissões e prevaricações
dos empregados na administração da Justiça.
Art. 38. No impedimento ou falta do Promotor, os Juízes Municipais nomearão quem
sirva interinamente.
SEÇÃO IV
Dos Escrivães e Oficiais de Justiça dos Juízes Municipais
Art. 39. Os Escrivães das cidades e vilas, que servem perante os Juízes locais e
Ouvidores das Comarcas, continuarão a servir perante os Juízes de Direito e
Municipais, tanto no crime como no cível, enquanto bem desempenharem
suas obrigações conforme a Lei de onze de outubro de mil oitocentos e vinte
e sete.
Art. 40. Os Escrivães, que servirem perante os Corregedores e Ouvidores do Crime e
Cível das Relações do Império, servirão nas mesmas Relações de Escrivães
das Apelações, promiscuamente com os Escrivães existentes, e por
distribuição em todas as apelações crimes e cíveis.
Art. 41. Os Oficiais de Justiça dos Termos serão nomeados pelos Juízes Municipais
178

dentre as pessoas da jurisdição, maiores de vinte e um anos.


Art. 42. Serão nomeados quantos forem necessários para o bom desempenho das
obrigações que estão a seu cargo.
Art. 43. A estes Oficiais compete executar as ordens e despachos do Juiz Municipal e
do Juiz de Direito, quando estiver no Município.
CAPÍTULO IV
Dos Juízes de Direito
Art. 44. Os Juízes de Direito serão nomeados pelo Imperador dentre os Bacharéis
formados em Direito,maiores de vinte e dois anos, bem conceituados e que
tenham, pelo menos, um ano de prática no foro, podendo ser provado por
certidão dos Presidentes das Relações ou Juízes de Direito, perante quem
tenham servido, tendo preferência os que tiverem servido de Juízes
Municipais e Promotores.
Art. 45. Os Juízes de Direito não se irão de uma para outra Comarca, se não por
promoção aos lugares vagos das Relações, a que tenham direito, ou quando a
utilidade pública assim o exigir.
Art. 46. Ao Juiz de Direito compete:
1º. Correr os Termos de sua jurisdição para presidir aos Conselhos de Jurados, na
ocasião de suas reuniões.
2º. Presidir ao sorteio dos mesmos Jurados, ou seja para o Júri de acusação ou para o
de sentença.
3º. Instruir os Jurados, dando-lhes explicações sobre a prova.
4º. Regular a Polícia das sessões, chamando à ordem os que dela se desviarem,
impondo silêncio aos expectadores, fazendo sair para fora os que se não
acomodarem, prender os desobedientes ou que injuriarem os Jurados e puni-los na
forma das Leis.
5º. Regular o debate das partes, dos advogados e testemunhas, até que o Conselho de
Jurados se dê por satisfeito.
6º. Lembrar ao Conselho todos os meios que julgar ainda necessários para o
descobrimento da verdade.
7º. Aplicar a Lei ao fato e proceder ulteriormente na forma prescrita neste Código.
8º. Conceder fiança aos réus pronunciados perante o Júri, aqueles a quem os Juízes de
Paz a tiverem injustamente denegado e revogar aquelas que os mesmos Juízes
tenham injustamente concedido.
9º. Inspecionar os Juízes de Paz e Municipais, instruindo-os nos seus deveres, quando
careçam.
Ar. 47. Nos lugares da reunião do Júri, as Câmaras Municipais respectivas aprontarão
para os Juízes de Direito, casa, cama, escrivaninha, louça e a mobília necessária
para seu serviço; os Juízes deixarão tudo no mesmo estado, repondo o que for
consumido, quando se retirarem.
CAPÍTULO V
Disposições Gerais
Art. 48. Os Inspetores, Escrivães e Oficiais de Justiça que se sentirem agravados em
suas nomeações, poderão recorrer na Província aonde estiver a Corte, ao
Governo e nas outras, aos Presidentes em Conselho.
Art. 49. Os Juízes de Paz, Juízes Municipais, Promotores, Escrivães e Oficiais de
179

Justiça perceberão os emolumentos marcados nas Leis para os atos que


praticarem, e os Juízes de Direito vencerão, interinamente, o ordenado que lhes
for marcado na Província onde estiver a Corte, pelo Governo, nas outras pelos
Presidentes em Conselho, que o poderão alterar conforme as circunstâncias,
enquanto não for definitivamente fixado por Lei.
Art. 50. O Governo dará os diplomas de nomeação a todos os Juízes de Direito e aos
Juízes Municipais da Província, aonde estiver a Corte; uns e outros prestarão
por si ou seu procurador, o juramento nas mãos do Ministro da Justiça. Nas
outras Províncias do Império, os Presidentes em Conselho passarão os
diplomas e darão juramento aos Juízes Municipais ou a seus procuradores, e as
Câmaras passarão os títulos e darão juramento a todos os encarregados da
administração da Justiça nos Distritos e Termos.
Art. 51. Do Juramento se lavrará termo em um livro, e será assinado por quem o der e
quem o deferir e pelo diploma se não cobrará direito algum.
Art. 52. Os Juízes de Paz, Juízes Municipais, Promotores e os mesmos Juízes de
Direito servirão por todo o tempo que lhes é marcado neste Código, não
cometendo crime por que percam os lugares e os seus agentes e oficiais,
enquanto forem de sua confiança, aos quais fica com tudo e direito de se
queixar na Província, onde estiver a Corte, ao Governo e nas outras aos
Presidentes em Conselho, contra o Juiz que os tiver lançado fora, por motivo
torpe ou ilegal.
Art. 53. Todas as Autoridades Judiciárias ficam obrigadas a dar parte ao Tribunal
Supremo, de todas as dúvidas, omissões, que encontrarem no presente Código.
PARTE SEGUNDA
DA FORMA DO PROCESSO
TÍTULO I
Do processo em geral
CAPÍTULO I
[...]
CAPÍTULO II
[...]
CAPÍTULO I
[...]
CAPÍTULO III
[...]
CAPÍTULO IV
[...]
CAPÍTULO V
[...]
CAPÍTULO VI
[...]
CAPÍTULO VII
[...]
CAPÍTULO VIII
[...]
180

TÍTULO II
Do Processo Sumário
CAPÍTULO I
Do Passaporte
Art. 114. Toda a pessoa que for se estabelecer de novo em qualquer Distrito de Paz,
deve apresentar-se pessoalmente, ou por escrito, ao Juiz respectivo, o qual
poderá exigir dela as declarações que julgar necessárias, quando se lhe faça
suspeita.
Art. 115. Todo o que não cumprir a obrigação prescrita no artigo antecedente, será
chamado à presença do Juiz de Paz, por ordem deste, para ser interrogado
sobre seu nome, filiação, naturalidade, profissão, gênero de vida e atual
pretensão.
Art. 116. Se o Juiz, pelas respostas, não for convencido de estar o interrogado livre do
crime, mandará que este se retire para fora do seu Distrito no prazo que lhe
for assinado, pena de ser expulso debaixo de prisão, exceto se provar que não
tem crime ou se der fiador conhecido e de probidade, que se obrigue a
apresentar passaporte dentro de certo prazo, sujeitando-se a uma multa se não
o fizer.
Art. 117. Verificando-se a expulsão, o Juiz de Paz publicará isto pelos jornais, que
houverem (sic) na Comarca declarando o nome do expulso, com todas as
circunstâncias, que possam fazê-lo conhecido ou oficiará ao Presidente da
Província, pedindo-lhe esta publicação por quaisquer outros jornais, não
havendo na Comarca.
Art. 118. Se o expulso em idênticas circunstâncias aparecer outra vez no mesmo
Distrito, será punido com prisão por um mês; esta pena será tantas vezes
repetida quantas forem as reincidências.
O cidadão que viajar por mar ou terra, dentro do Império,não é obrigado a
tirar passaporte, mas fica sujeito às indagações dos Juízes locais.
Ficam em vigor as Leis existentes sobre passaporte para países estrangeiros.
Art. 119. O passaporte deve ser passado pelo Escrivão do Distrito onde morar quem o
pedir, no qual se declare o nome, naturalidade, idade, profissão, estatura e os
seus sinais mais característicos, e que não tem crime, nem obrigação de
fiança em causa crime, e, ainda, a estes conceder-se-á uma vez que se não
passa para lugar de onde deixam de satisfazer a obrigação ou a pena.
Art. 120. O passaporte será assinado pelo Juiz de Paz. A parte pagará, para o Juiz,
quarenta réis e, para o Escrivão, duzentos réis.
CAPÍTULO II
Dos Termos de Bem Viver e de Segurança
Art. 121. O Juiz de Paz, a quem constar que existe no respectivo Distrito algum
indivíduo em circunstâncias dos que se acham indicados nos 2º e 3º do
Art.12, o mandará vir à sua presença com as testemunhas, que souberem do
fato: se a parte requerer prazo para dar defesa, conceder-lhe a um
improrrogável; a aprovada, mandará ao mesmo indivíduo que assina termo de
bem viver, em o qual se fará menção na presença do réu, das provas
apresentadas pró, ou contra; do modo de bem viver prescrito pelo juiz, e da
pena cominada, quando o não observe.
181

Art.122. Quebrado o termo, o juiz de paz, por um processo conforme ao que fica
disposto no artigo antecedente, imporá ao réu a pena cominada, que será
tantas vezes repetida quantas forem as reincidências.
Art.123. Todo o Oficial da Justiça poderá ex-ofício, ou qualquer cidadão, conduzirá a
presença do Juiz de Paz ao distrito a qualquer, que for encontrado junto ao
lugar, onde acaba de perpetrar um crime, tratando de esconder-se, fugir, ou
dando qualquer outro indício desta natureza, ou com armas, instrumentos,
papéis, e efeitos, ou outras cousas, que façam presumir cumplicidade em
algum crime, ou que pareçam furtadas.
Art.124. Se o Juiz perante quem for levado a suspeito entender que há fundamento
razoável (depois de ouvi-la e ao condutor) para acreditar-se que ele tenta um
crime, ou é cúmplice, ou sócio em algum, o sujeitará a termo de segurança,
até justificar-se.
Art. 125. O mesmo pode fazer o Juiz toda vez que alguma pessoa tenha justa razão de
temer que outra tenta um crime contra ela ou seus bens.
Art. 126. O condutor ou as partes queixosas devem dar juramento e provar com
testemunhas (ou documentos, quando lhes for possível) sua informação
escrita; o acusado pode contestá-la verbalmente e provar também sua defesa
antes que o Juiz resolva, e por isso no segundo caso deve ser notificado para
vir à presença do mesmo Juiz.
Art. 127. O Juiz, se a gravidade do caso o exigir, porá a parte queixosa sob a guarda
de Oficiais de Justiça ou outras pessoas aptas para guardá-la, enquanto o
acusado não assine o termo.
Art. 128. Se o acusado destrói as presunções ou provas do condutor ou queixoso,
fica sujeito a pena alguma, salvo havendo manifesto dolo.
Art. 129. Estes Termos de Segurança seguem todas as regras estabelecidas para as
fianças dos réus que se pretenderem livrar soltos.
Art. 130. Estes Termos serão escritos pelo Escrivão, assinados pelo Juiz, testemunhas
e partes, e quando estas não queiram assinar ou não souberem escrever, o fará
por elas, uma testemunha.
CAPÍTULO III
Da prisão sem culpa formada e que pode ser executada sem ordem escrita
Art. 131. Qualquer pessoa do povo pode, e os Oficiais de Justiça são obrigados a
prender e levar à presença do Juiz de Paz do Distrito, a qualquer que for
encontrado cometendo algum delito ou enquanto foge perseguido pelo clamor
público. Os que assim forem presos entender-se-ão presos em flagrante
delito.
Art. 132. Logo que um criminoso preso em flagrante for à presença do Juiz, será
interrogado sobre as argüições que lhe fazem o condutor e as testemunhas,
que o acompanharem, do que se lavrará termo por todos assinado.
Art. 133. Resultando do interrogatório suspeito contra o conduzido, o Juízo mandará
por em custódia em qualquer lugar seguro, que para isso designar; exceto o
caso de se poder livrar solto ou admitir fiança e ele a der, e se procederá na
formação de culpa, observando o que está disposto a este respeito no capítulo
seguinte.
182

CAPÍTULO IV
[...]
CAPÍTULO V
[...]

CAPÍTULO VI
[...]
CAPÍTULO VII
[...]
CAPÍTULO VIII
Da desobediência
Art. 203. O que desobedecer ou injuriar o Juiz ou qualquer autoridade a que seja
subordinado, ao Inspetor, Escrivão e Oficiais de Justiça ou patrulhas, em atos
de seus ofícios, será processado perante o Juiz de Paz do Distrito em que for
cometida a desobediência ou injúria, e sendo este o desobedecido ou
injuriado, perante o Juiz suplente.
Art. 204. Os Juízes, autoridades, Inspetores, Escrivães e Oficiais de Justiça ou
patrulhas desobedecidas ou injuriadas, prenderão em flagrante e levarão o
fato ao conhecimento do Juiz de Paz respectivo, por uma exposição
circunstanciada, por eles escrita e assinada, com declaração das testemunhas,
que foram presentes; à vista dela, mandará o Juiz de Paz citar o delinqüente
para a sua primeira audiência, que nunca será no mesmo dia da citação.
Art. 206. Não havendo queixa ou denúncia, mas constando ao Juiz de Paz que se tem
infringido as Posturas, lei policial, ou Termo de Segurança e de Bem Viver,
mandará formar auto circunstanciado do fato, com declaração das
testemunhas, que nele hão de jurar e citar o delinqüente, na forma do artigo
antecedente.
Art. 207. O Escrivão ou Oficial de Justiça permitirão ao delinqüente a leitura do
requerimento ou auto e mesmo copiá-lo quando o queira fazer.
Art. 208. Não comparecendo o delinqüente na audiência aprazado, o Juiz dará à parte
juramento sobre a queixa, inquirirá sumariamente as suas testemunhas e
decidirá, condenando ou absolvendo o réu.
Art. 209. Comparecendo o delinqüente, o Juiz lhe lerá a queixa, ouvirá a sua defesa,
que sendo verbal o Escrivão a escreverá, inquirirá as testemunhas e fará às
partes as perguntas que entender necessárias, depois do que lhes dará a
palavra, se a pedirem, para vocalmente por si ou seus procuradores deduzirem
o que lhes parecer a bem de seus direitos.
Art. 210. O Juiz dará a sentença nessa mesma audiência ou, quando muito, na
seguinte.
Art. 211. Esta sentença passa em julgado dentro de cinco dias e será executada, mas se
qualquer das partes, dentro deste tempo, recorrer para a Junta de Paz, o
Escrivão escreverá o recurso por termo assinado pela parte e fará dos autos a
competente remessa, suspensa a execução.
Art. 212. Tais recursos não terão lugar:
§ 1º. Quando os Juízes punirem seus Oficiais omissos com prisão, que não passe de
cinco dias.
183

§ 2º. Quando punirem as testemunhas que não obedecerem às suas notificações; no


entanto, fica a uns e outros o direito de vindicarem a injúria e responsabilizarem
o Juiz pelos meios ordinários.

CAPÍTULO IX
[...]
CAPÍTULO X
Das Juntas de Paz
Art. 213. As Juntas de Paz consistem na reunião de maior ou menor número de Juízes
de Paz, sob a presidência de um dentre os que forem presentes, escolhido por
seus colegas em escrutínio secreto, por maioria absoluta de votos.
Não poderão ser formados com menos de cinco, nem com mais de dez
membros.
Art. 214. Na Província em que estiver a Corte, o Ministro da Justiça, e nas outras os
Presidentes em Conselho, sobre informação das Câmaras Municipais,
determinarão onde e quantas vezes terão lugar estas reuniões em diferentes
pontos de cada Termo, não podendo ser menos de quatro, nem mais de doze
vezes no ano, com atenção ao número de causas e as distâncias.
Art. 215. As sessões das Juntas de Paz serão públicas, a portas abertas na casa que
forem para esse fim, pelos Juízes de Paz, escolhida, e não poderão durar mais
de oito dias sucessivos, incluídos os dias santos, nos quais também haverá
sessão.
Art. 216. Compete a estas Juntas conhecer de todas as sentenças dos Juízes de Paz que
houverem imposto qualquer pena, de que se tiver recorrido em tempo, e as
confirmarão ou revogarão ou alterarão, sem mais recurso, exceto o da revista.
Art. 217. O Juiz de Paz que faltar, será multado pela Junta por cada dia de sessão em
mil réis nas vilas e dois mil réis nas cidades, salvo produzindo escusa
legítima e provada.
Art. 218. Não concorrendo pelo menos metade e o Presidente dos Juízes de Paz, não
haverá sessão, mas ficará adiada para outro dia, e se chamarão os suplentes
dos que faltarem.
Art. 219. Todos os negócios serão decididos à maioria absoluta de votos dos membros
presentes: o empate importa a absolvição do réu.
Art. 220. Se o réu ou autor, ou ambos juntamente, não comparecerem, mas mandarem
escusa legítima, a decisão da causa ficará adiada para a sessão seguinte, se
não puder ter lugar na atual, por não comparecerem as partes em tempo.
Art. 221. A falta de comparecimento do réu, sem escusa legítima, o sujeitará
à pena de revelia, isto é, a decisão pelas provas dos outros sem mais ser
ouvido; a do autor, a perda do direito de continuar a acusação, a qual por este
mesmo fato ficará perempto.
Esta mesma disposição se guardará na falta de ambas as partes.
Art. 222. Principiado o conhecimento de um processo não poderá ser mais
interrompido, nem mesmo pela noite, salvo a requerimento das partes por
motivo justo.
Art. 223. O Juiz de Paz, que julgou a causa, não entrará no segundo julgamento dela,
mas somente dará as explicações, que lhe forem pedidas pelas partes ou
184

membros da Junta.
Art. 224. A ordem do processo será a seguinte:
§ 1º. O Escrivão da Junta de Paz, que será o do Distrito, em que se reunir a Junta, lerá
os outros perante as partes, Juízes e testemunhas.
§ 2º. O queixoso ratificará sua queixa, e o réu sua defesa: o primeiro será obrigado a
jurar, se o segundo requerer.
§ 3º. As testemunhas serão reperguntadas e outras, que de novo apresentarem as
partes, se assim o requererem, escrevendo-se os seus ditos para os casos de
recurso, se as partes o requererem.
Art. 225. O Presidente proporá por escrito nos autos as seguintes questões, depois de
discutida a matéria:
§ 1º. O crime está provado?
§ 2º. O réu é por ele respeitável?
§ 3º. Que pena se lhe há de impor?
§ 4º. Deve indenização?
§ 5º. Em quanto monta ela?
Art. 226. O Presidente lavrará a sentença em conformidade: se a pena for pecuniária, o
réu dará logo fiança, tanto a ela como às custas e dano: ou irá para a cadeia
por tanto tempo, quanto seja necessário para a satisfação, contando-se como
se pratica acerca das fianças; se for de prisão, ou correção, o réu não sairá
mais de sessão, senão para o seu destino, e, se além disso, tiver de pagar
indenização à parte, e o não fizer será compreendido no que fica acima
determinado até pagar.
Art. 227. A Junta marcará o vencimento das testemunhas, que forem chamadas a
requerimento das partes, as quais o pagarão.
TÍTULO ÚNICO
Disposição Provisória acerca da Administração da Justiça Civil
Art. 1º. Pode-se isentar-se a conciliação perante qualquer Juiz de Paz aonde o réu for
encontrado, ainda que não seja a Freguesia do seu domicílio.
Art. 2º. Quando o réu estiver ausente em parte incerta poderá ser chamado por editos,
para a conciliação, como é prescrito para as citações em geral.
Art. 3º. Se o autor quiser chamar o réu à conciliação fora do seu domicílio, no caso do
artigo primeiro, será admitido a nomear procurador com poderes especiais,
declaradamente para a questão iniciada na procuração.
Art. 4º. Nos casos de revelia à citação do Juiz de Paz, se haverão as partes por não
conciliadas e o réu será condenado nas custas.
Art. 5º. Nos casos que não sofrerem demora, como nos arrestos, embargos de obra
nova, remoção de tutores, e Curadores suspeitos; a conciliação se poderá fazer
posteriormente à providência, que deva ter lugar.
Art. 6º. Nas causas em que as partes não podem transigir, como Procuradores
Públicos, Tutores, Testamenteiros; nas causas arbitrais, inventários e
execuções; nas de simples ofício do Juiz; e nas de responsabilidade, não haverá
conciliação.
Art. 7º. Nos casos de se não conciliarem as partes, fará o Escrivão uma simples
declaração, no requerimento para constar no Juízo contencioso, lançando-se no
Protocolo, para se darem as certidões, quando sejam exigidas. Poderão logo
185

ser as partes aí citadas para Juízo competente que será designado, assim como a
audiência do comparecimento e o Escrivão dará prontamente as certidões.
Art. 8º. Os Juízes Municipais ficam autorizados para prepararem e processarem todos
os feitos, até sentença final exclusive e para execução da sentença.
Art. 9º. Os Juízes de Direito poderão mandar reperguntar as testemunhas em sua
presença e proceder a outra qualquer diligência, que entenderem necessária e
julgarão a final.
Art. 10. Ficam abolidos os juramentos de calúnia, que se dão no princípio das causas
ordinárias e nas sumárias, ou no curso delas, o requerimento das partes, assim
como a fiança às custas, ficando o autor vencido obrigado a pagá-las da cadeia,
quando o não faça vinte e quatro horas depois de requerido por elas.
Art. 11. As testemunhas serão praticamente inquiridas pelas próprias partes que as
produzirem, ou por seus advogados, ou procuradores, na forma dos artigos 262
e 264 do Código do Processo Criminal.
Art. 12. Os Escrivães, que servem perante os Juízes Municipais e de Direito, no Foro
Criminal, escreverão em todos os atos, que por esta disposição lhe ficam
pertencendo acerca dos processos e execuções das sentenças civis, regulando-
se pelos Regimentos dos Escrivães do Cível e das execuções.
Art. 13. Nas grandes povoações aonde a administração da Justiça Civil puder ocupar
um ou mais Magistrados, haverá um ou mais Juízes do Cível, a quem fica
competindo toda a jurisdição civil com exclusão dos Juízes Municipais, cuja
jurisdição nessa parte fica cessando. A designação do Distrito destes Juízes
será feita do mesmo modo que a divisão em Comarcas.
Art. 14. Ficam revogadas as Leis que permitiam às partes réplicas e tréplicas e
embargos antes da sentença final, exceto aqueles que nas causas sumárias
servem de contestação da ação. Os agravos de petição e instrumentos ficam
reduzidos a agravos do auto do processo: deles conhece o Juiz de Direito,
sendo interpostos do Juiz Municipal e a Relação, sendo do Juiz de Direito.
Art. 15. Toda a provocação interposta da sentença definitiva ou que tem força de
definitiva, do Juiz inferior para superior a fim de se reparar a injustiça, será de
apelação, extintas para esse fim as distinções entre Juízes de maior ou menor
graduação.
Esta interposição pode ser na audiência ou por despacho do Juiz, e termos nos
autos, como convier ao apelante, intimado a outra parte ou seu Procurador.
Art. 16. As sentenças que se extraírem do processo não conterão mais do que o
pedido e contestação ou articulado das partes, e a sentença com os documentos
a que ele se refere.
Art. 17. Não se julgarão nulas por falta de conciliação as causas antes da existência
dos Juízes de Paz.
Art. 18. Fica suprimida a jurisdição ordinário dos Corregedores do Cível e Crime e
Ouvidores do Cível e Crime das Relações e compreendendo esta supressão a
jurisdição de todos os Magistrados, que julgam em Relações tanto em primeira
instância, como em uma única com Adjuntos. Os processos de
responsabilidade e os das apelações, em todas as Relações regular-se-ão pelas
duas espécies de processo, que têm lugar no Supremo Tribunal de Justiça e
sempre em sessão pública.
186

Art. 19. Das sentenças proferidas nas Relações do Império não haverá mais agravos
ordinários de umas para as outras Relações, e só se admitirá a revista nos casos
em que as Leis a permitem.
Art. 20. Haverá tantos Juízes dos Órfãos quantos forem os Juízes Municipais e
nomeados pela mesma maneira. A jurisdição contenciosa destes Juízes fica
limitada às coisas que nascem dos inventários, partilhas, contas de Tutores,
habilitações de herdeiros do ausente e dependências dessas mesmas causas.
Art. 21. O governo, na organização da nova forma do serviço que, em virtude do
Código Criminal e desta disposição, deverá executar-se, poderá empregar em
lugares de Juízes de Direito, tanto no Crime como no Cível, os
Desembargadores existentes mais modernos, que o requererem e não forem
necessários à dita nova forma de serviço das Relações, os quais reverterão para
elas, quando lhes tocar por suas antiguidades, que lhes é conservada.
Art. 22. Fica extinta a diferença entre Desembargadores e Extravagantes e todos
igualados em serviço. Igualmente ficam extintos os lugares de Chanceler em
todas as Relações, e estas presididas por um dos três Desembargadores mais
antigos, nomeados trienalmente pelo Governo, e para estes Presidentes,
passarão. À exceção das glosas, que estão extintas, as atribuições dos anteriores
Chanceleres.
Art. 23. O mesmo Governo na Corte e os Presidentes em Conselho nas Províncias,
lhes arbitrarão ordenados razoáveis e acomodados às circunstâncias do tempo e
lugar em que servem, ficando dependentes de aprovação do Corpo Legislativo.
Art. 24. Os autos pendentes passarão para o Cartório do Juízo, a que competir a
continuação do conhecimento deles, e os findos dos Cartórios extintos passarão
para os Juízos Municipais.
Art. 25. Ficam abolidos os Inquiridores.
Art. 26. Fica revogado o Alvará de vinte e três de abril de mil oitocentos e vinte e três,
na parte que impõe a pena de nulidade aos processos, escrituras e mais papéis,
por falta de distribuição.
Art. 27. Ficam revogadas todas as Leis, Alvarás, Decretos e mais disposições em
contrário.
Manda portanto a todas as Autoridades, a quem o conhecimento e execução da
referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir, e guardar tão inteiramente,
como nela se contém. O Secretário de Estado dos Negócios da Justiça a façam
imprimir, publicar e correr.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos vinte e nove dias do mês de novembro de mil
oitocentos, trinta e dois, undécimo da Independência e do Império.
Francisco de Lima e Silva
José da Costa Carvalho
João Bráulio Moniz

Honório Hermeto Carneiro Leão

Carta de lei, pela qual Vossa Majestade Imperial Manda executar o Decreto da
Assembléia Geral que houve por bem sancionar, sobre o Código do Processo Criminal
de Primeira Instância, com disposição provisória acerca da Administração da Justiça
187

Civil, tudo na forma acima declarada.


Para Vossa Majestade Imperial ver.
Antônio Álvares de Miranda Varejão a fez.

Registrado nesta Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça, a folha 104, verso do
Livro 1º de Leis, Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1832. João Caetano de Almeida
França.
Honório Hermeto Leão

Publicado na Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça e Selada na Chancelaria do


Império, em 5 de dezembro de 1832.
João Carneiro de Campos

Decreto de 13 de dezembro de 1832 7 – Dá instruções para a execução do Código do


Processo Criminal

A Regência, em nome do Imperador, o Senhor D. Pedro II, Há por bem, que na


execução do Código do Processo Criminal se observem as Instruções com que este
baixam, assinados por Honório Hermeto Carneiro Leão, Ministro e Secretário do
Estado dos Negócios da Justiça. O mesmo Ministro assim o tenha entendido e faça
executar. Palácio do Rio de Janeiro, em treze de dezembro de mil oitocentos e trinta e
dois, undécimo da Independência e do Império.
Francisco de Lima e Silva
José da Costa Carvalho
João Bráulio Moniz

Honório Hermeto Carneiro Leão

Instruções a que se refere o Decreto acima


Art. 1º. O Governo na Província do Rio de Janeiro e os Presidentes em Conselho, logo
que for publicado o Código do Processo Criminal, nas respectivas Províncias,
passarão a fazer a nova divisão dos Termos, na forma do Art. 3º do referido
Código, conservando ou alterando os atuais limites, onde parecer conveniente,
e criando novos Termos onde for necessário.
Art. 2º. Confirmada a atual ou feita nova divisão dos Termos, farão a divisão de
Comarcas, declarando os Termos de que há de constar cada uma delas, tendo
para isso atenção às distâncias de uns a outros Termos, ao número provável de
causas crimes e cíveis que nestes podem mover-se, e à demora que há de ter o
segundo a provável abundância de negócios de sua competência.
Art. 3º. Feita a divisão dos Termos e Comarcas, o Governo e os Presidentes em
Conselho ordenarão a eleição de novas Câmaras Municipais nos Termos, que
forem novamente criados, conservando as atuais em todos os outros Termos e
7
Coleção das leis do Império do Brasil de 1832, Parte Primeira, op.cit.
188

ordenarão às Câmaras atuais e as que forem eleitas para os novos Termos dos
Distritos, na conformidade do Art. 2º do Código do Processo.
Art. 4º. As Câmaras poderão conservar ou alterar os Distritos atuais, ou criar novos,
segundo parecer mais conveniente, procurando, na divisão que fizerem,
compreenderem, em cada um dos Distritos, o número necessário de cidadãos
idôneos e capazes de ocupar os cargos de Juiz de Paz, e os mais que devem
haver em cada um deles, atendendo a que o número de casas, de que trata o
citado Art. 2º, é o mínimo, mas que elas poderão fazer divisões de Distritos que
compreendam o número de casas habitadas que mais conveniente for.
Art. 5º. Feita a divisão dos Distritos, as Câmaras marcarão dia para eleição dos Juízes
de Paz dos Distritos que forem novamente criados ou alterados, procedendo-se
a esta eleição em conformidade dos Art. 9º e 10º do Código do Processo
Criminal, e das mais Leis, que regulam semelhantes eleições.
Art. 6º. Quando algum dos quatro cidadãos mais votados, que hão de ser Juízes,
falecer ou for escuso nos termos do Art. 4º da Lei de 15 de Outubro de 1827, a
Câmara Municipal juramentará outro mais votado, de sorte que haja sempre
quatro juramentados.
Art. 7º. Nos Distritos atuais, que não forem alterados, diminuindo-se ou
acrescentando-se o seu território, continuarão a servir os Juízes de Paz que para
elas estão eleitos, na forma das Leis em vigor, devendo-se nas futuras eleições
gerais proceder conforme o disposto nos citados Art. 9º e 10º.
Art. 8º. Divididos os Distritos, as Câmaras Municipais participarão imediatamente ao
Ministro da Justiça, no Rio de Janeiro, e aos Presidentes em Conselho, nas
outras Províncias, o número de Distritos, que fica tendo o seu respectivo Termo,
declarando circunstanciadamente a divisão que houverem feito e informando
quais os diferentes pontos do Termo em que convém que se façam reuniões das
Juntas de Paz e o número de vezes que tais reuniões devem ter lugar em cada
ano, tudo nos termos do Ar. 213 e 214 do Código do Processo Criminal.
Art. 9º. Na mesma ocasião, se for possível, ou logo que o seja, as Câmaras Municipais
remeterão ao Governo na Corte, e aos Presidentes em Conselho nas Províncias,
as propostas para Juízes Municipais, para Juízes de Órfãos e para Promotores
Públicos.
Art. 10. Cada uma destas propostas conterá três nomes diversos de cidadãos habitantes
nos respectivos Termos e que tenham os requisitos declarados nos Ar. 33 e 36
do Código; além dos nomes se fará menção, nesta proposta, da profissão de
cada um dos propostos, declarando-se suas luzes, serviços, inteligência e
quaisquer outras qualidades que os tornem aptos para ocupar os cargos
respectivos para que são propostos.
Art. 11. As Câmaras Municipais, no formar as propostas, terão o maior cuidado em
escolher pessoas que não tenham escusa alguma legítima ou impedimento
que as possa isentar ou inibir de exercer os cargos para que são propostas; no
caso de dúvida, ouvirão as pessoas que intentarem propor e haverão (sic)
atenção aos motivos que apresentarem, conforme o merecimento que tiverem.
Art. 12. Recebidas as propostas, e estando elas nos devidos termos, o Governo na
Corte e Províncias do Rio de Janeiro e os Presidentes em Conselho nas outras
Províncias, nomearão, dentre os cidadãos propostos para cada um dos cargos,
189

os que hão de servir de Juízes Municipais, Juízes de Órfãos e Promotores e


farão constar, às respectivas Câmaras Municipais a escolha que houverem
feito: estas darão os títulos e deferirão juramento aos Promotores que tiverem
sido nomeados e farão constar aos Juízes Municipais e de Órfãos, suas
respectivas nomeações, marcando-lhes um prazo razoável, dentro do qual se
hajam de apresentar por si ou por seus procuradores, na Corte, ao Ministro da
Justiça e nas Províncias aos Presidentes em Conselho, a fim de receberem
seus diplomas e prestarem juramento nos termos do Art. 50 do Código.
Art. 13. As Câmaras Municipais participarão ao Ministro da Justiça na Corte e nas
Províncias ao Presidente em Conselho, o prazo que tiverem marcado aos
Juízes Municipais e de Órfãos, para dentro dele prestarem juramento e
receberem seus diplomas e, não se apresentando estes dentro do referido
prazo por si ou seus procuradores, devidamente autorizados, serão
processados como desobedientes pela autoridade competente, para o que lhes
remeterá pela Secretaria de Estado respectiva, na Corte, e pelas do Governo,
nas Províncias, cópia do Oficial-Maior, que certifique o não comparecimento.
Art. 14. As Câmaras Municipais, menos a da Corte e as das Capitais das Províncias,
logo que tiverem feito estas propostas, nomearão dentre os respectivos
candidatos, um Juiz Municipal e um Juiz de Órfãos, os quais, sendo por elas
juramentados, servirão interinamente os referidos cargos, até que se verifique
a nomeação definitiva do Governo, ou dos Presidentes em Conselho. Os
Juízes Municipais interinos nomearão dentre os candidatos propostos para
Promotores, um, que sendo igualmente juramentado pela Câmara Municipal,
sirva ao referido cargo interinamente.
Art. 15. Estes empregados interinos começarão imediatamente a exercer as suas
atribuições, pondo em execução o Código do Processo, na parte que lhes diz
respeito.
Art. 16. Seis meses antes de terminados os três anos, que os Juízes Municipais e de
Órfãos e os Promotores Públicos devem servir, as Câmaras Municipais farão
nova proposta nos mesmo termos. Também farão nova proposta nos casos de
falecimento, ausência por mais de um ano para fora do Município, de
provimento a emprego incompatível e de reconhecida incapacidade física ou
moral, de cada um dos ditos empregados.
Ar. 17. Dividido o Termo em Distritos e feitas as eleições de Juízes de Paz dos
Distritos novamente criados ou alterados, estes e os Juízes de Paz, que são
conservados, passarão a dividir seus respectivos Distritos em tantos
quarteirões quantos forem necessários para o bom desempenho de seus
deveres, contanto que nenhum tenha menos de vinte e cinco casas habitadas,
podendo, onde for conveniente, conter cem ou mais; e proporão à respectiva
Câmara Municipal, um Inspetor para cada quarteirão, o qual sendo por ela
aprovado receberá título e juramento e, não o sendo, a mesma Câmara o
comunicará ao Juiz de Paz, para que faça outra proposta, que também poderá
ser rejeitada, mas não poderá ser a terceira.
Art. 18. As propostas para Escrivães de Paz serão feitas pela mesma maneira que as
dos Inspetores de Quarteirões, e estes empregados da mesma, receberão título
e juramento das Câmaras Municipais.
190

Art. 19. Os propostos para Escrivães de Paz e Inspetores de Quarteirão entrarão logo a
servir interinamente, sendo, para isso, juramentados pelos respectivos Juízes
de Paz, enquanto não são aprovados pelas Câmaras Municipais.
Art. 20. Quando os Juízes de Paz julguem conveniente ao serviço público, poderão
remover os Escrivães de Paz e os Inspetores de Quarteirão, fazendo em tal
caso nova proposta às Câmaras Municipais, salvo aos removidos o recurso de
que trata o Art. 52 do Código do Processo, sem suspensão dos efeitos de
renovação.
Art. 21. Um dos primeiros trabalhos dos Juízes de Paz, tanto dos que forem eleitos de
novo, como os atuais, que são conservados, será o alistamento dos Jurados,
de que tratam os Art. 23, 24 e 25 do Código do Processo, o qual farão com a
maior diligência, a fim de ser o dito Código posto em inteira execução.
Art. 22. Dando-se o caso de que o Pároco ou Capelão de algum Distrito esteja
ocupado no alistamento de outro Distrito, que igualmente pertença a sua
Paróquia ou Curato, poderá, cada um destes, em tal caso, nomear um
eclesiástico ou cidadão do Distrito, que faça as suas vezes, dando-lhe os
documentos e esclarecimentos que forem precisos.
Art. 23. A Câmara Municipal compete designar os Distritos em que cada um de seus
membros há de, com os Juízes de Paz e Párocos ou Capelães, ou com os que
os substituírem, na forma do artigo antecedente, formar a Junta para o
alistamento dos Jurados, de que trata o Art. 24 do Código do Processo; e só
impedimento do Vereador designado para o Distrito, ou no caso de haver
maior número de Distritos que de Vereadores, terá lugar a substituição deste
membro da Junta pela forma declarada no citado Art. 24.
Art. 24. Também compete à Câmara Municipal, logo que tiver recebido as listas
parciais dos Jurados de todos os Distritos do seu Termo, designar e publicar o
dia em que os Juízes de Paz de cada um desses Distritos e os Párocos hão de
comparecer na sala de suas sessões, para aí procederem juntamente com ela à
formação da lista geral dos Jurados do Termo, inscrevendo nela os alistados
em cada um dos Distritos, com exclusão somente dos declarados no Art. 27
do Código.
Art. 25. Durante as sessões que a Câmara Municipal fizer para a formação da lista
geral, de que trata o artigo antecedente deverão ser apresentadas todas as
queixas e reclamações dos que tiverem sido indevidamente inscritos, ou
excluídos das listas parciais dos Jurados; e as Câmaras, examinando essas
queixas ou reclamações, com os Párocos e Juízes de Paz, corrigirão as listas
parciais, eliminando ou inscrevendo nas listas gerais os nomes dos queixosos
ou reclamantes, uma vez que, pela maioria, absoluta de votos dos Vereadores
e membros adjuntos, se julgue fundada a queixa ou reclamação, praticando-se
assim o que está determinado no Art. 28 do Código.
Art. 26. Formada a lista geral e praticados os atos determinados nos Arts. 29, 30 e 31,
as Câmaras Municipais darão disso conta ao Governo da Corte e Província do
Rio de Janeiro e aos Presidentes em Conselho nas outras Províncias,
participando o número e os nomes dos Jurados, que tiverem sido apurados.
Art. 27. Se o número de Jurados apurados for diminuto para formar Conselho de
Jurados, o Governo na Província do Rio de Janeiro e os Presidentes em
191

Conselho nas outras, ordenarão, quando assim convenha, a reunião desse


Termo a outro vizinho, como permite o Art. 7º e mandarão remeter à Câmara
Municipal da Cidade, vila ou povoação que designarem como cabeça de
Termo, as listas dos Jurados ou termo que lhe for reunido.
Art. 28. Se, ainda depois de assim reunidos dois Termos, resultarem apenas sessenta
Juízes de Paz de fato, ou pouco mais, terá, então, lugar a ampliação da
apuração de que trata o final do Art. 27.
Art. 29. O Governo na Província do Rio de Janeiro e os Presidentes em Conselho nas
demais Províncias, na mesma ocasião em que procederem à formação dos
Termos e Comarcas, na conformidade dos Arts. 1º e 2º destas Instruções,
designarão quais as povoações onde deve haver mais de um Juiz de Direito e
um ou mais Juízes de Cível, na forma do Art. 6º do Código e do Art. 13 da
Disposição Provisória acerca da Administração da Justiça Civil.
Art. 30. Os Presidentes em Conselho são autorizados a designarem, dentre os
Magistrados que estiverem servindo nas suas respectivas Províncias, os
Juízes de Direito, para cada uma das suas Comarcas, e os Juízes Especiais do
Cível, havendo na Província alguma povoação nas circunstâncias declaradas
no Art. 13, do Título Único da Disposição Provisória acerca da
Administração da Justiça Civil.
Art. 31 Os Presidentes em Conselho darão conta ao Governo da designação que
tiverem feito, a fim de ser o Magistrado definitivamente nomeado pelo
mesmo Governo para Juiz de Direito da Comarca ou Juiz do Cível da
povoação, ou ser em seu lugar nomeado outro como parecer mais
conveniente, devendo, todavia, o Magistrado assim designado, ir logo exercer o
lugar de Juiz de Direito ou do Cível, para que for designado com Portaria do
Presidente, sob juramento, com que estiver servindo, até que, definitivamente
nomeado, preste por si ou por seu procurador, juramento nas mãos do
Ministro da Justiça e receba seu diploma.
Art.32. Logo que estes Magistrados cheguem ao lugar, que lhe for designado, porão
em execução o Código em todas as Comarcas, devendo em tal caso os Juízes
Municipais das Comarcas, para os quais os Presidentes não designarem Juízes
de Direito por falta de Magistrados na Província, exercer como substitutos
dos ditos Juízes, todas as suas funções nos respectivos Termos. Da mesma
sorte, os Juízes Municipais exercerão todas as funções dos Juízes de Direito,
sempre que o seu lugar venha, por qualquer modo, a vagar e quando o Juiz de
Direito estiver ausente da Comarca ou com licença, ou impedido de moléstia
grave e prolongada.
Art. 34. Os Presidentes das Câmaras Municipais, logo que receberem a ordem para a
execução do Código, convocarão as Câmaras extraordinariamente, caso não
estejam em sessão ordinária e estas não poderão interromper as sessões
enquanto não estiver cumprido tudo quanto lhes é encarregado nas presentes
Instruções e no Código do Processo, e que é necessário para ser posto em
inteira execução: as mesmas Câmaras deverão ativar as Autoridades locais,
que forem omissas ou negligentes em executar aquilo que lhes é incumbido.
Art. 35. A divisão, que nas Províncias que se fizer de Comarca, Termos e Distritos, os
lugares designados para as sessões das Juntas de Paz, o ordenado que for
192

marcado para Juízes de Direito e tudo quanto em execução do Código se


praticar, será levado pelos Presidentes em Conselho ao conhecimento da
Assembléia Geral e do Governo.
Art. 36. Os feitos crimes que estiverem pendentes perante Juízes, que julgam em
primeira instância, não sendo de privilegiados e não sendo os crimes daqueles
que cabem na alçada dos Juízes de Paz, serão remetidos ao Juiz de Paz da
cabeça do Termo.
Art. 37. Destes feitos, aqueles que já estiverem com o libelo oferecido, ainda mesmo
que já tenham sentença, estando pendente por embargos, deverão somente ser
apresentados ao segundo Conselho de Jurados ou Júri de Sentença; aqueles,
porém, em que ainda se não tiver oferecido libelo acusatório, deverão ser
apresentados ao Primeiro Conselho de Jurados ou Júri de Acusação e,
achando este motivo para a acusação, seguirão os mais termos do Código.
Nesta disposição se compreendem os feitos crimes pendentes ante os
Conselhos de Guerra, não sendo os crimes puramente militares ou de
emprego militar e ante as justiças eclesiásticas, sendo os crimes tais que dêem
lugar à imposição de outras penas além das espirituais. Neste caso, serão os
fatos remetidos por translado.
Art. 38. Sendo parte acusadora a Justiça, o Juiz de Paz respectivo, logo que recebe o
processo, fará disso participação ao Promotor para prosseguir na forma do
Código.
Art. 39. Os agravos de injusta pronúncia pendentes perante os Ouvidores de
Comarcas, serão, com os feitos em que tiverem sido interpostos, remetidos ao
Juiz de cabeça do Termo, para se proceder a seu respeito como fica disposto nos
artigos antecedentes.
Art. 40. Os feitos cíveis pendentes ou em execução perante os Juízes extintos pelo
Código e disposição provisória acerca da Administração da Justiça Civil,
serão remetidos aos Juízes Municipais ou Juízes de Distrito, no Cível nos
Termos ou povoações a que pertencerem, para aí prosseguirem seus ulteriores
termos n forma de direito e da Disposição Provisória acerca da Administração
da Justiça civil. As mesmas autoridades serão remetidos os feitos, que
penderem perante os Juízes de Órfãos, não sendo os enumerados no Art. 20
da disposição provisória acerca da Administração da Justiça Civil.
Art. 41. As apelações cíveis e crimes a que penderem perante os Ouvidores de
Comarca, serão remetidas à Relação do Distrito, para aí prosseguirem seus
termos e serem sentenciados na forma do novo Regulamento.
Art. 42. Não se prosseguirá no conhecimento dos agravos de petição e instrumento
que ainda estiverem pendentes ante os Ouvidores de Comarca, qualquer que
seja o seu estado, porém, a requerimento de parte ficarão reduzidos a agravos
do auto do processo, para deles se tomar conhecimento nos termos do Art. 14,
da Disposição Provisória acerca da Administração da Justiça Civil.
Art. 43. Os Juízes Municipais, nos Termos em que não houver Juízes de Direito
especiais para o Cível, na forma do Art. 3º da Disposição Provisória acerca da
Administração da Justiça Civil, deverão conhecer dos feitos e contas
pertencentes à Provedoria de Resíduos e Capelas, até sentença final
exclusiva, na forma porque procedem a respeito dos outros feitos cíveis na
193

conformidade do Art. 8º da referida disposição, competindo o julgamento


final dos ditos feitos e contas ao Juiz de Direito.
Art. 44. Nas povoações em que houver Juízes do Civil, competirá a estes todo o
conhecimento dos ditos feitos e contas.
Art. 45. Os Escrivães das Provedorias das Comarcas passarão a escrever nos objetos
de Provedoria perante os Juízes Municipais e de Direito do Termo, que era
cabeça da Comarca, e, se nesse Termo houver Escrivão especial de
Provedoria, poderão escolher outro Termo dessa Comarca.
Art. 46. Acerca dos processos pendentes nas Relações, se guardará o disposto no
respectivo Regulamento.
Palácio do Rio de Janeiro, em treze de dezembro de 1832
Honório Hermeto Carneiro Leão
194

ANEXO B

Portaria de 4 de novembro de 1825 306 – Regulamento para os Comissários de Polícia


do Império do Brasil (1825)

Foi presente a sua Majestade o Imperador o ofício de 31 do mês passado, em


que o Desembargador do Paço Intendente Geral da Polícia, ponderando a dificuldade
que tem os Ministros Criminais dos Bairros desta Corte, e Juízes territoriais desta e
mais Províncias do Império, em razão de sua extensão e população (além de outras
causas) de cumprirem exatamente os Editais, ordens e leis de Polícia representa a
necessidade, que há de estabelecerem-se neste Império, conformemente à disposição
do Aviso de 28 de maio de 1810, as providências de alguns Comissários com distritos
marcados e designados, a quem pertença o exato cumprimento das instruções, que
pela Intendência Geral da Polícia, ou seus delegados nas Províncias, lhes forem
transmitidas; e o Mesmo Augusto Senhor tomando em consideração a utilidade, que
dever resultar das providências mencionadas no sobredito ofício a bem do serviço
público, tranqüilidade e segurança individual, que garante a todo o cidadão a
Constituição do Império: Há por bem aprová-los e Manda pela Secretaria d’Estado de
Negócios da Justiça que o Intendente Geral da Polícia as faça logo por em devida
execução. Palácio do Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 1825. Visconde de
Nazareth = cumpra-se e registre-se. Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1825 = Aragão
= Registrada no livro competente a fl. 5. Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1825 =
Almeida.

Providências de Polícia, a que se refere à Portaria expedida pela Secretaria de Estado


de Negócios da Justiça, na data de 4 de novembro de 1825

1ª. Haverá nesta Província do Rio de Janeiro e nas mais, em que se julgar conveniente,
o número de Comissários de Polícia que for necessário em proporção dos
respectivos distritos, que lhe serão competentemente marcados e designados,
precedendo informações sobre a extensão, população e mais circunstâncias, para
que eles possam preencher seus deveres.
2ª. Serão escolhidos para Comissários de Polícia pessoas de conhecida honra,
probidade e patriotismo, e só os Empregados Públicos em outro serviço
incompatível, poderão ser isentos deste cargo, que todo é em benefício público; e
que sua Majestade O Imperador atenderá conforme desempenharem suas
obrigações.
3ª. Pela Intendência Geral da Polícia e seus Delegados nas Províncias, se hão de
passar gratuitamente os títulos necessários para o exercício deste cargo, lavrando-
se no reverso o termo de juramento, que será deferido aos Comissários por
qualquer juiz competente e do distrito.
4ª. Nenhum Comissário de Polícia será obrigado a servir mais de um ano; e os que
neste cargo se acharem ocupados serão isentos de outro qualquer encargo pessoal.
5ª. É da competência dos Comissários a fiscalização e cumprimento das ordens e
Editais de Polícia, darem ou requererem as providências necessárias para prevenir
306
AN, Caixa 777, Pacote 1.
195

os delitos e cuidarem em todos os mais objetos que por qualquer consideração


competem à Polícia.
6ª. Para este efeito, os Comissários são obrigados a regular-se pelas instruções, que
lhes forem transmitidas pela Intendência Geral da Polícia ou pelos seus Delegados,
e são responsáveis por qualquer omissão ou culpa a este respeito, devendo nos
casos extraordinários e imprevistos consultar o Intendente, ou o seu Delegado,
quando não haja perigo na demora, darão somente parte do que tiverem praticado
no desempenho dos seus cargos.
7ª. Para maior facilidade do serviço, cada comissário poderá propor um ou mais Cabos
de Polícia, de quem receberão parte de todos os acontecimentos nos seus
respectivos Distritos; estas partes serão imediatamente remetidas pelos
Comissários aos Juízes Territoriais nos casos em que estes deverem por elas
proceder judicialmente; e sempre ao Intendente Geral da Polícia, em épocas
razoáveis, quando o caso merecer.
8ª. Os Cabos que assim forem propostos não terão exercício antes de serem
confirmados pela Intendência Geral de Polícia, ou por seus Delegados nas
Províncias, e serão depois gratificados em proporção do trabalho que tiverem, a
vista de atestados dos respectivos Comissários, especificando a natureza do serviço
praticado.
9ª. A Imperial Guarda da Polícia, os Comandantes dos Distritos, os Juízes Territoriais
e as mais autoridades, a que competir, prestarão prontamente todo o auxílio
necessário que lhes for requerido pelos Comissários e ainda pelos Cabos quando
estes não tenham tempo de solicitar daqueles as respectivas requisições.
10ª. Toda a pessoa, seja de que condição for, poderá recorrer aos Comissários e
Cabos de Polícia, a qualquer hora do dia ou da noite para requerer a manutenção
de sua propriedade, segurança individual ou familiar e para reprimir todos aqueles
fatos que sendo legalmente proibidos lhe puderem ser prejudiciais por alguma
maneira.
Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1825
Francisco Alberto Teixeira de Aragão

Instruções transmitidas pela Intendência Geral da Polícia do Brasil aos seus


Comissários da Província do Rio de Janeiro, fora da Corte.

Art. 1º Sendo o mais nobre e importante ofício da Polícia o coibir e prevenir os delitos,
é do primeiro cuidado dos comissário empregarem todos os meios conducentes
para esse fim: não consentir nos lugares dos seus distritos ajuntamentos alguns,
de que possam seguir-se desordens, seja de dia ou de noite, principalmente de
pretos escravos ou forros, ficando a cargo das rondas e patrulhas o dissipá-los,
não havendo para eles causa justa. (sem grifo no original)
Art. 2º Os comissários devem acudir prontamente aos tumultos, assuadas e motins
populares, vigiar neles pelos que usam de armas proibidas, fazendo-os logo
prender e entregar às autoridades a que competir, com parte circunstanciada do
acontecimento.
Art. 3º Compete-lhes adotar as providências necessárias para a boa ordem,
tranqüilidade e decência nas Festas Religiosas, divertimentos públicos ou
196

outros quaisquer lícitos ajuntamentos, prevenindo o que puderem para que não
hajam desastres.
Art. 4º Examinarão incessantemente se existem, nos seus distritos, sociedades secretas,
sem haverem preenchido previamente as formalidades da lei e darão
imediatamente parte a esta Intendência de qualquer novidade a este respeito,
assim como sobre qualquer anúncios, pasquins ou boatos que possam, por
alguma maneira, perturbar o sossego público.
º
Art. 5 Não consentirão nas vendas, armazéns e botequins, ajuntamentos de pessoas
sem comprar, seja de dia ou de noite e, para este fim, farão que as referidas
casas estejam fechadas desde às nove horas da noite no verão e oito no inverno,
até o amanhecer (à exceção das estalagens, que poderão abrir-se para a
comodidade dos passageiros que chegarem, tornando imediatamente a fechar as
portas), sob pena de pagarem da cadeia os donos ou caixeiros 4$800 pela
primeira vez, o duplo pela segunda e pela terceira, o triplo, e as licenças serem
cassadas para mais não se concederem.
º
Art.6 Não devem tolerar nos seus distritos, homens vadios, desertores ou indivíduos
que não tenham ofício ou emprego de que subsistam, nem pessoas de costumes
escandalosos, que vivam de jogo ou algum outro meio ilícito, aparecendo
luzidos ou com objetos de grande valor sem mostrarem donde os houveram
(sic), e remeterão ao juiz do lugar todos os que acharem nestas circunstâncias,
para se proceder contra eles na forma da lei, comunicando depois a esta
Intendência os nomes e pena daqueles que por este motivo forem condenados e
até os sinais do indivíduo, se for possível. Da mesma maneira, procederão
contra os mendigos, doentes fingidos, ermitãos, pedidores de esmolas, etc., que
encontrarem sem licença da Polícia, ou fora dos limites que ela demarcar.
º
Art.7 Farão escrupulosos exames a respeito das pessoas que chegarem aos seus
distritos, para saberem se são ou não suspeitas, e estão munidas dos necessários
títulos, guias ou passaportes, e achando suspeitas, as remeterão imediatamente
à autoridade competente, para esta proceder como for de lei. Para este efeito,
visitarão constantemente por si ou pelos Cabos de Polícia, as casas públicas
que receberem ou onde pernoitarem passageiros.
º
Art.8 Toda pessoa a quem por lei não for concedido o uso de armas proibidas, sendo
com ela encontrada de dia ou de noite, será logo remetida com aram ou armas e
parte do comissário à respectiva autoridade, para se proceder na forma da lei.
Quanto a espingardas de caça, ninguém as poderá trazer sem licença da Polícia
perante quem os portadores se devem ter legitimado e justificado os requisitos
da lei.
º
Art.9 Para facilitar, não só a execução do precedente artigo, mas também a achada de
instrumentos para abrir portas e roubar casas, as rondas, patrulhas, Cabos e
Oficiais encarregados de Polícia, poderão dar as necessárias buscas em pessoas
de suspeita e terão precisa obrigação de o fazer todas as noites, depois das oito
horas.
º
Art.10 Os comissários devem apresentar-se logo o lugar em que aparecer, por crime
ou desastre, algum cadáver humano, ou pessoa gravemente ferida, e posto que
não lhes compete formarem o corpo de delito legal, contudo, enquanto não
chegar o respectivo juiz criminal, tomarão como testemunhas todas as
197

declarações, armas e mais objetos ou circunstâncias que servirem para


ilustração do juiz e do procedimento legal a que houver de proceder-se.
Art.11º Os escravos que forem presos por fugidos ou em quilombos (que os
Comissários procurarão destruir quanto lhes for possível) serão imediatamente
remetidos à Intendência com a respectiva parte e conta da despesa para lhes ser
logo paga com gratificação, para os apreensores. O mesmo se praticará
relativamente aos ladrões e salteadores, na conformidade do Edital de 3 de
janeiro deste ano, que também executarão no que for aplicável aos seus
distritos e não estiver posteriormente ordenado o contrário.
Art.12º Obrigarão os capitães do mato a que apresentem os seus títulos para os
visarem e inscreverem seus nomes em uma lista de que remeterão cópia a esta
Intendência, ordenando que os ditos capitães lhes participem cada uma
apreensão de escravos fugidos, para se evitarem extorsões aos senhores e que
os escravos se conservem por muito tempo no tronco ou cárceres privados. Os
Comissários terão a maior vigilância neste objeto, participando logo às
autoridades os abusos sobre que convier dar providências.
º
Art.13 O escravo que for preso em desordem ou com armas de defesa ou perpetrando
algum delito, será logo açoitado no lugar mais público do distrito, onde estará
fincado um mourão com duas argolas para se fazer o castigo, à custa do senhor,
que nunca excederá a cem açoites por cada vez, sem que este procedimento
tolha os recursos ordinários a quem competirem. (sem grifo no original)
º
Art.14 Fica sendo muito recomendado aos Comissários, não só a perseguição dos
ladrões e salteadores pelas estradas e caminhos públicos, mas até o solicitarem
a conservação das mesmas estradas e seus reparos, fácil e livre trânsito, a abertura
de novos caminhos, o desembaraço de embarques e desembarques, evitando
precipícios e propondo a esta Intendência o que julgar conveniente para se
tomarem as medidas possíveis sobre este objeto tão importante.
º
Art.15 Não se deve esquecer aos Comissários o fazerem todo o lavrador, maior ou
menor, tenha exato cuidado de conter dentro de boas cercas o seu gado vacum
e outros animais, de maneira que não possam prejudicar os vizinhos.
º
Art.16 Fica, finalmente, competindo aos Comissários de Polícia, a pronta execução de
todas as ordens desta Intendência e vigiarem incessantemente em tudo que
interessar à tranqüilidade, saúde e comodidade pública, participando às
autoridades o que convier para este efeito ou providenciando o que lhes couber
nos limites destas instruções, para o que lhes advirto que dever ter todo o
cuidado.
Que não divaguem pelas ruas, caminhos e lugares públicos, indivíduos doidos,
furiosos ou bêbados, animais daninhos ou ferozes e ainda cães avulsos, sem
dono.
Que sejam imediatamente enterrados em covas de quatro pés de profundidade
os animais mortos abandonados, que se acharem nos seus distritos e à custa dos
donos, sabendo-se quem são, procurando-se a limpeza e evitar todas as
exalações insalubres de qualquer qualidade e de que podem resultar moléstias
graves.
Que se não vendam gêneros e carnes corruptas ou de animais morbosos; que
os currais e matadouros sejam desinfetados; que não se falsifiquem pesos ou
198

medidas; que haja abundância e limpeza de água de beber; que sejam


demolidos os prédios arruinados, que ameaçarem perigo; que se acuda
prontamente aos incêndios, etc., participando-os também aos almotacés ou
autoridades a que competir, para darem as providências e dando conta a esta
Intendência, quando sobre estes objetos não sejam atendidas as suas
requisições.
º
Art.17 Em todos os casos de prisão por delitos, os Comissários não poderão deter os
presos por mais de vinte e quatro horas, devendo neste tempo remetê-los com
parte circunstanciada à autoridade civil e do lugar, para esta lhes formar o
processo, como determina a Constituição Política deste Império, ficando
responsáveis pela contravenção deste artigo.
º
Art.18 Espera-se do zelo pelo bem público e da probidade dos Comissários que eles
hajam de evitar e nunca suscitar a discórdia, comportando-se com a maior
circunspecção e prudência no desempenho de seus deveres, conciliando rixas, e
solicitando sempre que todos os moradores do seu distrito vivam em boa união,
com o respeito devido à Sagrada Pessoa do Imperador e autoridades
constituídas.
Art.19º Para que estas instruções cheguem ao conhecimento de todos a quem
interessam, os Comissários lhes darão a publicidade necessária, mandando-as
afixar nos lugares mais públicos dos seus distritos.
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1825
Francisco Alberto Teixeira de Aragão (do Conselho de Sua Majestade Imperial,
fidalgo Cavaleiro da Sua Imperial Casa, Cavaleiro da Ordem de Cristo,
Desembargador do Paço e Intendente Geral da Polícia da Corte e Império do
Brasil
199

ANEXO C

Lei de 15 de outubro de 1827 307 - Cria em cada uma das Freguesias e das Capelas
Curadas um Juiz de Paz e Suplente

D. Pedro I, por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador


Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil: Fazemos saber a todos que a
Assembléia Geral decretou, e nós queremos a Lei seguinte:
Art. 1º Em cada uma das freguesias e das capelas filiais curadas, haverá um Juiz de
Paz e um suplente para servir no seu impedimento, enquanto se não
estabelecerem os distritos, conforme a nova divisão estatística do Império.
Art. 2º Os Juizes de Paz serão eletivos pelo mesmo tempo e maneira por que se
elegem os Vereadores das Câmaras.
Art. 3º Podem ser Juizes de Paz os que podem ser eleitores
Art. 4º Ao eleito não aproveitará escusa alguma, salvo doença grave e prolongada, ou
emprego civil e militar que seja impossível exercer conjuntamente, devendo
provar perante a Câmara a legitimidade desses impedimentos, para ela então
chamar o imediato em votos a fim de servir de suplente; e no caso contrário,
poderá ser constrangido, impondo-se-lhe as mesmas penas cominadas aos
vereadores. Aqueles porém que tiver servido duas vezes sucessivamente, poderá
escusar-se por outro tanto tempo.
Art. 5º Ao Juiz de Paz compete:
§ 1º. Conciliar as partes, que pretendem demandar, por todos os meios pacíficos, que
estiverem ao seu alcance: mandando lavrar termos do resultado, que assinará com
as partes e escrivão. Para a conciliação não se admitirá procurador, salvo por
impedimento pessoal, e sendo outrossim o procurador munido de poderes
ilimitados.
§ 2º. Julgar pequenas demandas, cujo valor não excede a 16$000, ouvindo as partes, e
à vista das provas apresentadas por elas; reduzindo-se tudo a termo na forma do
parágrafo antecedente.
§ 3º. Fazer separar os ajuntamentos, em que há manifesto perigo de desordem; ou
fazer vigiá-los a fim de que neles se mantenha a ordem; e, em caso de motim,
deprecar a força armada para rebatê-lo, sendo necessário. A ação porém da tropa
não terá lugar senão por ordem expressa do Juiz de Paz, e depois de serem os
amotinadores admoestados pelo menos três vezes para se recolherem as suas
casas, e não obedecerem.
§ 4º. Fazer, porém, custódia o bêbedo durante a bebedice.
§ 5º. Evitar as rixas, procurando conciliar as partes, fazer que não haja vadios, nem
mendigos, obrigando-os a viver de honesto trabalho, e corrigir os bêbedos por
vícios, turbulentos, e meretrizes escandalosas, que perturbam o sossego público,
obrigando-os a assinarem Termo de Bem Viver, com cominação de pena; e
vigiando sobre seu procedimento ulterior.
§ 6º. Fazer destruir os quilombos, e providenciar a que se não formem.
§ 7º. Fazer auto de corpo de delito nos casos, e pelo modo marcados na Lei.

307
Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil de 1827. Primeira Parte, p. 67-71 – Atos do Poder
Legislativo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878.
200

§ 8º. Sendo indicado o delinqüente, fazer conduzi-lo a sua presença para interrogá-lo à
vista dos fatos existentes, e das testemunhas, mandando escrever o resultado do
interrogatório. E provado com evidência que seja o delinqüente, fazer prendê-lo
na conformidade da Lei, remetendo-o imediatamente com o interrogatório ao
Juiz Criminal respectivo.
§ 9º. Ter uma relação dos criminosos para fazer prendê-los, quando se acharem no seu
distrito, podendo em seguimento deles entrar nos distritos vizinhos e tendo
notícias de algum criminoso em outro distrito, avisar disso ao Juiz de Paz e ao
Juiz Criminal respectivo.
§ 10º. Fazer observar as posturas policiais das Câmaras, impondo as penas delas aos
seus violadores.
§ 11º. Informar aos Juiz dos Órfãos, acerca do menor ou desasisado, a quem falecer o
pai, ou que se achar abandonado pela ausência ou desleixo do mesmo.
Informar igualmente ao mesmo Juiz acerca de direitos, que comecem a existir a
favor de pessoas, que não o exercerem plenamente a administração de seus bens;
e acerca dos bens abandonados pela ausência de seus donos falto ou desleixo de
seus procuradores. E enquanto o Juiz dos Órfãos, não providenciar, a cautelar o
perigo, que possa haver tanto sobre as pessoas, como sobre os bens, remetendo
imediatamente ao respectivo Juiz o auto que a tal assunto praticar.
§ 12º. Vigiar sobre a conservação das matas e florestas públicas, onde as houver e
obstar nas particulares ao corte de madeiras reservadas por Lei.
§ 13º. Participar ao Presidente da Província todas as descobertas, que ou casualmente,
ou em virtude de diligências públicas ou particulares, as fizerem ao seu distrito;
de quaisquer produções úteis do reino mineral, vegetal ou animal, remetendo-lhe
as amostras.
§ 14º. Procurar a composição de todas as contendas e dúvidas que se suscitarem entre
moradores do seu distrito, acerca de caminhos particulares, atravessadouros, e
passagens de rios ou ribeiros; acerca do uso das árvores empregadas na
agricultura ou mineração; dos pastos, pescas e caçadas; dos limites tapagens e
cercados das fazendas e campos; e acerca finalmente dos danos feitos por
escravos, familiares ou animais domésticos.
§ 15º. Dividir o distrito em quarteirões, que não conterão mais de 25 fogos; e nomear
para cada um deles um oficial, que o avise de todos os acontecimentos e execute
sua ordem.
Art. 6º. Cada Juiz de Paz terá um Escrivão do seu cargo, nomeado a juramento pela
Câmara, cujo provimento, será gratuito não estará sujeito a prestação alguma.
Este escrivão servirá igualmente de Tabelião de notas, no seu distrito somente,
para poder fazer e aprovar testamentos, e perceberá os emolumentos devidos aos
Escrivães e Tabeliães. No impedimento ou falto do Escrivão servirá
interinamente um homem juramentado pelo Juiz de Paz.
Art. 7º. O Juiz de Paz terá os mesmos emolumentos que o Juiz de Direito.
Art. 8º. O Juiz de Paz não chamará pessoa alguma a sua presença sem lhe declarar
fim para que, exceto em negócio de segredo fazendo essa declaração.
Art. 9º. O Juiz de Paz, sendo desobedecido, fará conduzido desobediente a sua
presença, e mandará lavrar termo de desobediência, ouvindo sumariamente o réu;
e sendo convencido, lhe imporá a pena de multa de 2 a 6 mil rés, ou de dois a
201

seis dias de prisão, quando o desobediente não tenha meios de satisfazer a multa.
O réu não será havido por desobediente sem que tenha sido intimado um
mandado por escrito, e o Oficial tenha passado contra-fé.
Art. 10. O produto das multas impostas pelo Juiz de Paz, será aplicada às despesas das
Câmaras.
Art. 11. O máximo das penas, que pode impor o Juiz de Paz, não excederá a multa de
30.000 rés, a prisão de um mês e a casa de correção (havendo no lugar) ou
oficinas públicas por três meses.
Art. 12. A termo do bem viver, e sentença que impõe pena, terá lugar em
conseqüência de prova de duas a três testemunhas com audiência da parte. E
nesses dois casos poderá o réu fazer perguntas as testemunhas sobre seus
depoimentos; e tanto estas como as respostas serão escritas e assinadas.
Art. 13. Quando o Juiz de Paz impuser qualquer pena, será o réu, estando preso,
conduzido com o processo perante o Juiz Criminal respectivo; e estando solto,
será notificado para comparecer e alegará a sua justiça, pena de revelia.
Art. 14. O Juiz Criminal, convocando dois Juizes de Paz mais vizinhos, confirmará ou
revogará a sentença sem mais recursos.
Art. 15. Ficam revogadas todas as leis, que estiverem em oposição à presente.

Mandamos portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da


referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente,
como nela se contém. O Secretário de Estado dos Negócios do Império a façam
imprimir, publicar e correr. Dado no Palácio do Rio de Janeiro, aos 15 dias do mês de
Outubro de 1827, 6º da Independência e do Império.
Imperador com Guarda.
Visconde de S. Leopoldo

(L.S.)
Carta de Lei pela qual Vossa Majestade Imperial manda executar o decreto da
Assembléia Geral Legislativa, que houve por bem sancionar, sobre a criação de Juiz
de Paz e seu Suplente e cada freguesia e capelas filiais curadas; sobre as funções
inerentes a este cargo, tudo na forma acima declarada.
Para Vossa Majestade Imperial,
Luiz Joaquim do Santos Marrocos a fez

Registrada a folha 182 do livro 4º do registro de cartas, leis e alvarás – Secretaria de


Estado dos Negócios do Império em 29 de Outubro de 1827 – Albino dos Santos
Pereira.
Monsenhor Miranda

Foi publicada esta carta de Lei nesta Chancelaria-Mor do Império do Brasil – Rio de
Janeiro em 31 de Outubro de 1827 – Francisco Xavier Raposo de Albuquerque.
Registrada na Chancelaria-Mor do Império do Brasil a folha 87 do livro 1º de Cartas,
Leis e Alvarás – Rio de Janeiro em 31 de Outubro de 1827 – Demétrio José da Cruz.
202

ANEXO D

Decreto de 1º de Dezembro de 1828 – Dá instruções para as eleições das Câmaras


Municipais e dos Juizes de Paz e seus Suplentes

Hei por bem que se proceda às eleições dos membros das Câmaras Municipais, e
Juizes de Paz, na conformidade das Instruções, que com este baixam assinados por
José Clemente Pereira, do Meu Conselho, Ministro e Secretário de Estado dos
Negócios do Império, que assim o tenham entendido, e faça executar com os
despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em 1º de Dezembro de 1828, 7º da
Independência e do Império.
Com a rubrica de sua Majestade Imperial
José Clemente Pereira.

Instruções para se proceder às eleições das Câmaras Municipais, e dos Juizes de Paz

Art. 1º. A eleição dos Vereadores das Câmaras Municipais, e dos Juizes de Paz, e seus
Suplentes, será feita nas assembléias paroquiais de todas as freguesias da
Província do Rio de Janeiro, no 2º Domingo de Janeiro de 1829; e nas outras
Províncias do Império no dia que os seus Presidentes designarem.
Art 2º. As Assembléias paroquiais serão presididas pelos Juizes de Fora ou
Ordinários, das cidades, ou vilas, a que as freguesias pertencem, com
assistência dos Párocos, ou dos seus legítimos substitutos. Havendo mais de
uma freguesia na cidade ou vila, e seu termo, o Juiz de Fora, ou Ordinário
presidirá a assembléia paroquial principal; as outras serão presididas pelos
Vereadores atuais, ou transatos, e mais pessoas da governança, nomeados pelas
Câmaras, a mesma forma que se tem praticado para as eleições paroquiais dos
Deputados à Assembléia Geral.
Art. 3º. As pessoas nomeadas para presidente não podem escusar-se; salvo mostrando
impedimento legal.
Art. 4º. No dia aprazado para as eleições, reunidos os cidadãos das respectivas
freguesias, que têm direito de votar, no lugar que as Câmaras tiverem
designado 15 dias antes, na conformidade do art. 2º da Lei de 1º de Outubro do
corrente ano, a portas abertas o Presidente tomará assento à cabeceira da mesa
que ali se deve achar, ficando ao seu lado direito o Pároco ou Sacerdote que
suas vezes fizer, em cadeiras de espaldar. Todos os mais assistentes terão
assento sem mais precedência e estarão sem armas, na forma do § 2º do
capítulo 2º das instruções de 26 de Março de 1824.
Art. 5º. As Câmaras nunca designarão o corpo das Igrejas para o lugar, em que se
devem fazer as eleições, salvo quando não houver outra casa com capacidade
suficiente para elas se fazerem.
Art. 6º. O Presidente fará um voz alta e inteligível a leitura do título 1º da Lei do 1º de
Outubro e das presentes instruções: finda esta, de acordo com o Pároco,
proporá a assembléia paroquial dois cidadãos dentre os presentes para
secretários e outros dois para escrutadores, que sejam pessoas de confiança
pública, os quais, sendo aprovados por aclamação, tomarão lugar de um de
203

outro lado da mesa. Se forem rejeitados, o Presidente, de acordo com o Pároco,


proporá a assembléia paroquial novas pessoas; e assim sucessivamente até que
se consiga aprovação dos quatro secretários escrutadores. O Presidente, o
Pároco, os Secretários escrutadores formam a mesa da assembléia paroquial .
(§ 2º e 3 do capítulo 2º das instruções citadas)
Art. 7º. Instalada assim a mesa, se procederá imediatamente à eleição; entregando
cada um dos votantes ao Presidente duas cédulas; contendo a primeira os
nomes de nove pessoas, que tenham as qualidades necessárias para poderem ser
Vereadores, sendo a eleição para as Câmaras das cidades e os nomes de sete se
forem para as Câmaras das Vilas Este cédula será assinada no verso, ou pelo
mesmo votante ou por outro, a seu roubo, se ele não souber ou não puder
escrever, e fechada com um rótulo: - Vereadores para a Câmara da cidade de...
ou Vila de... – Imediata, e sucessivamente entregará o mesmo votante outra q
contenha os nomes de duas pessoas que tenham as qualidades necessárias para
poderem ser Juizes de Paz. Um par Juiz de Paz e outra para suplente do distrito,
onde estes houverem de servir; e será do mesmo modo que a primeira assinado
no verso, e fechado, com o rótulo dizendo: - Juiz de Paz, e Suplente da
Paróquia de ... ou da Capela de... ( Art. 7º da citada Lei do 1º de Outubro)
Art. 8º. Naquelas freguesias, aonde por haver capela ou capelas filiais, se deve eleger
mais de um Juiz de Paz, os cidadãos, que forem habitantes do distrito das
mesmas capelas, são obrigados a votar para Juiz de Paz e seu Suplente em
pessoas, que sejam moradoras dentro das mesmos distritos e no rótulo das suas
cédulas, escreverão – Juiz de Paz e seu Suplente a capela de... – Os que forem
habitantes no distrito da Paróquia principal, votarão em pessoas moradoras no
mesmo distrito, e o rótulo das suas cédulas escreverão – Juiz de Paz e Suplente
da Paróquia de...
Art. 9º. As cartas, em que remeterem fechadas as duas cédulas os cidadãos, que as
não puderem entregar pessoalmente, nos termos do art.8 da citada Lei, devem
ir reconhecidas por tabelião nas cidades e vilas, que o tem: nos lugares aonde
não houver, será bastante que vão reconhecidas por uma pessoa conhecida de
algum dos membros da mesa: mas não obstante esta falta de reconhecimento,
não deixarão de ser admitidas tais cédulas, sempre que algum dos membros da
mesa certificar que reconhece a letra das sobreditas cartas. Estas devem
acompanhar a remessa, que das cédulas, dentro delas enviadas se fizer para as
Câmaras do distrito.
Art. 10. As mesas dão obrigadas a receber as cédulas dos votantes, enquanto houver
pessoas, que as apresentem; ainda mesmo que para esse fim seja necessário
continuar o ato do seu recebimento. Neste caso, levantando-se a sessão antes do
pôr do sol, se guardarão as cédulas recebidas em um cofre fechado com duas
chaves de que terá o Presidente uma e um do Secretários outra; guardando-se o
mesmo cofre em lugar seguro para o dia seguinte ser aberto em mesa plena, e
se prosseguir no recebimento das cédulas.
Art. 11. O Presidente fará ter sobre a mesa a lista geral de todas as pessoas da
Paróquia, que tem direito de votar, que houver sido afixado nas portas da igreja
matriz, segundo a disposição do Art. 5 da citada Lei; e à proporção que as
cédulas se forem entregando, mandará anotar os nomes dos votantes; e serão
204

rejeitadas todas aquelas, cujos apresentantes, não tendo os seus nomes na


sobredita-lista, tiverem deixado de interpor o recurso de reclamação que lhes
liberaliza o art. 6º da citada Lei; ou havendo o interposto, nele não tiverem
obtido melhoramento. Igualmente serão rejeitadas as listas daqueles
apresentantes, que apesar de dizerem que têm seus nomes na lista geral, não
forem reconhecidos pelos membros da mesa como os próprios; ou na falta
deste reconhecimento não puderem provar a sua identidade de pessoa com
uma testemunha pelo menos, cujo testemunho a mesma mesa se der por
satisfeita. As decisões, que a mesa tomar nestes casos, são terminantes.
Art. 12. Acabado o recebimento das cédulas, a mesa remeterá fechadas as que
respeitarem à eleição dos Vereadores, com ofício, que declare o número delas à
Câmara do distrito; esta procederá nos termos do Art. 10, 12 e seguintes da
citada Lei do 1º de Outubro do corrente ano.
Art. 13. Processar-se-á depois ao exame, e apuração dos votos da eleição para Juizes
de Paz, e seus Suplentes, na forma do art. 11º da citada Lei.
Art. 14. Finda a apuração, sairá eleito para Juiz de Paz, aquele cidadão, que tiver
obtido a maioria de votos, e para seu Suplente o imediato em votos.
Art. 15. Acabada a apuração dos votos dos Juizes de Paz e seus Suplentes, se
procederá nos termos do art. 9º da citada Lei, contra todos os cidadãos com
direito de votar, que tiverem deixado de concorrer a dar sua cédula
pessoalmente, ou a não tiverem enviado, tendo legítimo impedimento.
Art. 16. De tudo se lavrará uma ata, em substância pelo teor e forma seguinte:
Ata da eleição dos Vereadores para a Câmara da Cidade ou Vila de... e Juiz (ou
Juizes de Paz da freguesia de...).
Aos... dias do mês de... do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de
mil oitocentos e vinte e nove, oitavo da independência e do Império, na casa...
(aqui se porá o lugar da reunião que tiver sido designada pela Câmara)
freguesia de... distrito da cidade ou vila de... em virtude da portaria do
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, expedida na data do
primeiro do mês de Dezembro de mil oitocentos e vinte e oito, (nas províncias
se dirá – Presidente-) e editais da Sobredita Câmara, se reuniu a assembléia
paroquial da mesma freguesia, para o fim de se proceder à eleição de nove (ou
sete) Vereadores que hão de formar a Câmara Municipal da Sobredita cidade
(ou vila) de... e do Juiz de Paz, e seus Suplentes da referida freguesia, se houver
capelas filiais, se fará menção delas sendo Presidente F. Juiz, Vereador, etc. e
depois de se formar a mesa, na conformidade das instruções, saindo nomeados
por aclamação F., e F. par Secretários e F., e F. para escrutadores, se procedeu
ao recebimento das cédulas e as quais, depois de entregues todas, se contarem à
eleição dos Vereadores, das que são relativas à eleição dos Juizes de Paz, se
manterão remeter as primeiras à Câmara deste distrito, na conformidade do
artigo décimo da Lei do primeiro de Outubro do corrente ano. Passando-se
depois ao exame, e apuração os votos para Juizes de Paz, e seus Suplente,
obteve F. a maioria de (tantos) votos, e F. a de... votos, saindo por isso eleições
o primeiro para Juiz de Paz e o segundo para seu Suplente, na conformidade do
artigo undécimo da citada Lei; e assim se participou por escrito a sobredita
Câmara. E procedendo-se nos termos do artigo nono da Lei do primeiro de
205

Outubro do corrente ano, achou-se terem deixado de entregar pessoalmente as


suas cédulas F., F., e F.; e julgou-se improcedente o impedimento dos que as
mandaram em carta fechada ao Presidente, F., F., e F., à vista do que, a mesa os
julgou incursos, na pena da multa de dez mil réis imposta a referida artigo, e na
mesma quantia condenou todas as expressadas pessoas com aplicação para as
obras públicas. E de tudo para constar e mandou lavrar esta ata, em que assinou
a mesa comigo Secretário da mesma, que o escrevi.
Art. 17. As Câmaras, logo que tiverem recebido a participação da eleição do Juizes de
Paz e seus Suplentes, designarão dia a estes para irem tomar posse nas mesmas
Câmaras. Eles são obrigados a comparecer perante estas, no dia, e hora que se
lhes designar, e prestarão juramento pela maneira seguinte – Juro aos Santos
Evangelhos desempenhar as obrigações de Juiz de Paz da freguesia, ou capela
filial de... , guardar a constituição, e as Leis, e às partes o direito – com o que
ficará tomada a posse do lugar de Juiz de Paz; e para, constar, se lançará a
competente verba de haver prestado este juramento, no verso da cópia da ata da
sua eleição, sem o que não poderá entrar em exercício. O mesmo se praticará
com os Suplentes.
Art. 18. As atas originais da eleição dos Vereadores, e dos Juizes de Paz e seus
Suplentes, serão remetidos para os distritos respectivos. Aonde serão
guardadas; tirando-se delas três cópias autênticas pelos secretários das Câmaras
Municipais, e concertadas por um Tabelião de fé pública; uma para ser
remetida com ofício do mesmo Secretário ao Ministro e Secretário de Estado
dos Negócios do Império, na Província do Rio de Janeiro, e aos Presidentes nas
Províncias, e as outras duas ao Juiz de Paz e seus Suplentes, para lhe servirem de
título.
Art. 19. A despesa, que se fizer com a impressão da lista geral das pessoas, que tem
direto de votar mandar publicar pelo art. 5º da citada Lei e todas as mais
despesas indispensáveis para que as eleições se verifiquem, serão pagas pelas
Câmaras respectivas.
Art. 20. Se acontecer que na apuração das cédulas da eleição dos Vereadores, ou
mesmo para Juiz de Paz, aparecem algumas que contenham um número de
pessoas elegíveis maior que aquele que Lei requer ou que não reúnam as
qualidades que a Lei exige; no primeiro caso só se escreverão os primeiros
nomes até se preencher o número legal, e os outros se rejeitarão; e no segundo
sempre os nomes se escreverão; mas se afinal reunirem a maioria serão
excluídos da eleição, declarando-se motivo legal desta rejeição na ata, e recairá
a eleição no imediato ou imediatos em votos, que reunirem todas as qualidades
necessárias para poderem ser elegíveis.
Art. 21. Têm voto na eleição dos Vereadores e Juizes de Paz, os que podem votar na
nomeação dos eleitores de paróquia: a saber: 1º os cidadãos brasileiros que
estão no gozo de seus direitos políticos; 2º os estrangeiros naturalizados (Art.
91 da Constituição) com tantos que uns e outros sejam domiciliados na
freguesia; sendo bastante que provem que têm estabelecido nela a sua
residência com ânimo de fixarem o seu domicílio.
Art. 22. São excluídos de votar na sobredita eleição; 1º os menores de 25 anos, etc... e
o mais como se acha no art. 92 da Constituição.
206

Art. 23. Podem ser Vereadores todos os que podem votar nas assembléias paroquiais,
tendo dois anos de domicílio dentro do termo de Vila, ou Cidade a que
pertencer a Câmara de que devem ser membros. Art.4º da Lei citada.
Art. 24. Podem ser Juizes de Paz, e seus Suplentes, todos os cidadãos, que podem ser
eleitores de Paróquia. (Art. 3º da Lei de 15 de Outubro de 1827).
Art. 25. Tanto os Vereadores, como os Juizes de Paz, e seus Suplentes, devem ser
homens probos, e honrados, de bom entendimento, e amigos do sistema
Constitucional estabelecido, sem nenhuma sombra de suspeita de inimizade à
causa do Brasil.
Art. 26. Se nas eleições aparecerem denuncias de suborno, a mesa formará um exame
verbal, e público sobre a mesma denúncia; e a sua decisão será terminante,
ficando privados de voto ativo e passivo, na presente eleição, todos aqueles que
forem convencidos do suborno; formando deste processo uma ata separada, que
será remetida às Câmaras respectivas, e estas a enviarão sem demora ao
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, na Província do Rio
de Janeiro; e nas outras Províncias, aos Presidentes.
Palácio do Rio de Janeiro, em 1º de Dezembro de 1828. José Clemente Pereira.
207

ANEXO E

Lei nº 261 de 3 de dezembro de 1841 308 – Reformando o Código do Processo


Criminal

D. Pedro II, por Graça de Deus e Unânime Aclamação dos Povos, Imperador
Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Fazemos saber a todos os Nossos
súditos, que a Assembléia Geral Decretou, e Nós Queremos a Lei Seguinte:
TÍTULO I
Disposições Criminais
CAPÍTULO I
Da Polícia
Art. 1º. Haverá no Município da Corte, e em cada Província, um Chefe de Polícia com
os Delegados e Subdelegados necessários, os quais, sobre proposta, serão
nomeados pelo Imperador, ou pelo Presidente. Todas as autoridades Policiais
são subordinadas ao Chefe de Polícia.
Art. 2º. Os Chefes de Polícia serão escolhidos entre os Desembargadores e Juízes de
Direito: os Delegados e Subdelegados dentre quaisquer Juízes e Cidadãos:
serão todos amovíveis e obrigados a aceitar.
Art. 3º. Os Chefes de Polícia, além do ordenado que lhes competir como
Desembargadores ou Juízes de Direito, poderão ter uma gratificação
proporcional ao trabalho, ainda quando não acumulem o exercício de um e
outro cargo.
Art. 4º. Aos Chefes de Polícia, em toda a Província e na Corte, e aos seus
Delegados, nos respectivos distritos, compete:
§ 1º. As atribuições conferidas aos Juízes de Paz pelo Art. 12 § 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 7º
do código do Processo Criminal.
§ 2º. Conceder fiança , na forma das Leis, aos réus que pronunciarem ou prenderem.
§ 3º. As atribuições que acerca das Sociedades Secretas e ajuntamento ilícito
concedem, aos Juízes de Paz, as Leis em vigor.
§ 4º. Vigiar e providenciar , na forma das Leis, sobre tudo que pertence à prevenção
dos delitos e manutenção da Segurança e tranqüilidade pública.
§ 5º. Examinar se as Câmaras Municipais tem providenciado sobre os objetos de
Polícia, que por Lei se acham a seu cargo, representando-lhes com civilidade as
medidas que entenderem convenientes , para que se convertam em Posturas, e
usando recurso do Art. 73 da Lei de 1º de outubro de 1828, quando não forem
atendidos.
§ 6º. Inspecionar os teatros e espetáculos públicos, fiscalizando a execução de seus
respectivos Regimentos e podendo delegar esta inspeção, no caso de
impossibilidade de a exercerem por si mesmos, na forma dos respectivos
Regulamentos, às autoridades judiciárias ou Administrativas dos lugares.
§ 7º. Inspecionar, na forma dos Regulamentos, as prisões da Província.
§ 8º. Conceder mandados de busca, na forma da Lei.
§ 9º. Remeter, quando julgarem conveniente, todos os dados, provas e esclarecimentos

308
Coleção das Leis do Governo do Império do Brasil de 1841. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1889.
208

que houverem obtido sobre um delito com uma exposição do caso e de suas
circunstâncias, aos Juízes competentes a fim de formarem a culpa.
Se mais de uma autoridade competente começarem um processo de formação de
culpa, prosseguirá nele o Chefe de Polícia ou Delegado, salvo, porém, o caso da
remessa de que trata na primeira parte deste parágrafo.
§ 10. Velar em que os seus Delegados e Subdelegados ou Subalternos cumpram os
seus regimentos e desempenhem os seus deveres, no que toca a Polícia, e a
formar-lhes culpa, quando o mereçam.
§ 11. Dar-lhes as instruções que forem necessárias para melhor desempenho das
atribuições policiais que lhes forem incumbidas.
Art. 5º. Os subdelegados, nos seus distritos terão as mesmas atribuições marcadas no
artigo antecedente para os Chefes de Polícia e Delegados, excetuadas as dos § 5º,
6º e 9º.
Art. 6º As atribuições criminais e policiais que atualmente pertencem aos Juízes de
Paz, e que por esta Lei não forem especialmente devolvidas às Autoridades,
que cria, ficarão pertencendo aos Delegados e Subdelegados.
Art. 7º. Compete aos Chefes de Polícia exclusivamente:
§ 1º. Organizar, na forma dos seus respectivos Regulamentos, a estatística criminal da
Província, e a da Corte, para o que todas as Autoridades criminais, embora não
sejam Delegados da Polícia, serão obrigados a prestar-lhes, na forma dos ditos
Regulamentos, os esclarecimentos que delas dependerem.
§ 2º. Organizar, na forma que for prescrito nos seus Regulamentos, por meio de seus
Delegados, Juízes de paz ou Párocos, o arrolamento da população da Província.
§ 3º. Fazer ao Ministro de Justiça e aos Presidentes das Províncias, as
participações que os Regulamentos exigirem, nas épocas e pela maneira neles
marcadas.
§ 4º. Nomear os carcereiros e demiti-los, quando não lhes mereçam confiança.
Art. 8º. Para o expediente da Polícia, e escrituração dos negócios a seu cargo, poderão
ter os Chefes de Polícia das Províncias um até dois Amanuenses, cujos
vencimentos e, os dos carcereiros, serão marcados pelo Governo, e sujeitos à
aprovação da Assembléia Geral Legislativa.
O expediente de Polícia da Corte poderá ter maior número de empregados.
Art.9º. Os Escrivães de Paz e os Inspetores de Quarteirões servirão perante os
Subdelegados, sobre cuja Proposta serão nomeados pelos Delegados.
Art.10. Para a concessão de um mandado de busca, ou para a sua expedição ex-ofício,
nos casos em que este procedimento tem lugar, bastarão veementes indícios, ou
fundada probabilidade da existência dos objetos, ou do criminoso no lugar da
busca. O mandado não conterá nem o nome nem o depoimento de qualquer
testemunha. No caso de não se verificar a achada, serão comunicadas a quem
sofreu a busca, as provas em que o mandado se fundou, logo que as exigir.
Art.11. Acontecendo que uma Autoridade Policial, ou qualquer Oficial de Justiça,
munido do competente mandado, vá em seguimento de objetos furtados, ou de
algum réu em distrito alheio, poderá ali mesmo aprendê-los, e dar as buscas
necessárias, prevenindo antes as Autoridades competentes do lugar as quais
lhes prestarão o auxílio preciso, sendo legal a requisição. No caso, porém, de
que essa comunicação prévia possa trazer demora incompatível com o bom
209

êxito da diligência, poderá ser feita depois, e imediatamente que se verificar a


diligência.
Art.12. Ninguém poderá viajar por mar ou por terra, dentro do Império, sem
Passaporte, nos casos e pela maneira que for determinado nos Regulamentos do
Governo.
CAPÍTULO II
Dos Juízes Municipais
Art. 13. Os Juízes Municipais serão nomeados pelo Imperador dentre os Bacharéis
formados em Direito, que tenham pelo menos um ano de prática do foro,
adquirida depois da sua formatura.
Art. 14. Esses Juízes servirão pelo tempo de quatro anos, findo os quais poderão ser
reconduzidos, ou nomeados para outros lugares, por outro tanto tempo,
contanto que tenham bem servido.
Art. 15. O Governo poderá marcar a estes Juízes um ordenado, que não exceda a
quatrocentos mil réis.
Art. 16. Enquanto se não estabelecerem os Juízes do Art. 13 e nos lugares onde eles
não forem absolutamente precisos, servirão os substitutos do Art. 19.
Art. 17. Compete aos Juízes Municipais:
§ 1º. Julgar definitivamente o contrabando, exceto o apreendido em flagrante, cujo
conhecimento, na forma das Leis e Regulamentos de Fazenda, pertence às
Autoridades Administrativas; e os de Africanos, que continuará a ser julgado na
forma do Processo comum.
§ 2º. As atribuições criminais e policiais, que competiam aos Juízes de Paz.
§ 3º. Sustentar, ou revogar, ex-ofício, as pronúncias feitas pelos Delegados e
Subdelegados.
§ 4º. Verificar os fatos que fizerem objetos de queixa contra os Juízes de Direito das
Comarcas, em que não houver Relação, inquirir sobre os mesmos fatos
testemunhas, e facilitar às Partes a extração dos documentos que elas exigirem
para bem a instruírem, salvo a disposição do Art. 161 do Código do Processo
Criminal.
§ 5º. Conceder fiança aos réus que pronunciarem ou prenderem.
§ 6º. Julgar as suspeições postas aos Subdelegados.
§ 7º. Substituir na Comarca ao Juiz de direito na sua falta ou impedimento. A
substituição será feita pela ordem que designarem o Governo na Corte, e os
Presidentes nas Províncias.
Art. 18. Quando os Juízes Municipais passarem a exercer as funções de Juiz de
Direito, ou tiverem algum legítimo impedimento, ou forem suspeitos, serão
substituídos por suplentes na forma do artigo seguinte:
Art. 19. O governo da Corte e os Presidentes nas Províncias, nomearão, por quatro
anos, seis cidadãos notáveis do lugar, pela sua fortuna, inteligência e boa
conduta, para substituírem os Juízes Municipais nos seus impedimentos,
segundo a ordem em que seus nomes estiverem. Se a lista se esgotar, far-se-á
outra nova pela mesma maneira, devendo os incluídos nesta servir pelo tempo
que faltar aos primeiros seis; e enquanto ela se não formar, os vereadores
servirão de substitutos pela ordem de lotação.
Art. 20. A autoridade dos Juízes Municipais compreenderá um ou mais Municípios,
210

segundo a sua extensão e população. Nos grandes e populosos poderão haver


os Juízes Municipais necessários com jurisdição cumulativa.
Art. 21. Os Juízes Municipais e de Órfãos, pelos atos que praticarem tanto no civil,
como no crime, perceberão dobrados os emolumentos marcados no Alvará de
dez de outubro de 1754 para os Juízes de Foro e Órfão das Comarcas de
Minas Gerais, Cuiabá e Mato Grosso.
CAPÍTULO III
Dos Promotores Públicos
Art. 22. Os Promotores Públicos serão nomeados e demitidos pelo Imperador, ou
pelos Presidentes das Províncias, preferindo sempre os Bacharéis formados,
que forem idôneos e servirão pelo tempo que convier. Na falta ou
impedimento serão nomeados interinamente pelos Juízes de Direito.
Art. 23. Haverá pelo menos em cada Comarca um Promotor, que acompanhará o Juiz
de Direito: quando, porém, as circunstâncias exigirem, poderão ser nomeados
mais de um. Os Promotores vencerão o ordenado que lhes for arbitrado, o
qual, na Corte, será de um conto e duzentos mil réis por ano, além de mil e
seiscentos por cada oferecimento de libelo, três mil e duzentos réis por cada
sustentação no Júri, e dois mil quatrocentos reis por arrazoados escritos.
CAPÍTULO IV
Dos Juízes de Direito
Art. 24. Os Juízes de Direito serão nomeados pelo Imperador dentre os cidadãos
habilitados, na forma do Art. 44 do código do Processo; e quando tiverem
decorrido quatro anos da execução desta Lei, só poderão ser nomeados Juízes
de Direito aqueles Bacharéis formados que tiverem servido com distinção os
cargos de Juízes Municipais ou de Órfãos, e Promotores Públicos, ao menos
por um quadriênio completo.
Art. 25. Aos Juízes de Direito das Comarcas, além das atribuições que têm pelo
Código do Processo Criminal compete:
1º. Formar culpa aos Empregados Públicos como privilegiados nos crimes de
responsabilidade.
2º. Julgar as suspeições postas aos Juízes Municipais e Delegados.
3º. Proceder, ou mandar proceder ex-ofício, quando lhe for presente por qualquer
maneira algum Processo acima, em que tenha lugar a acusação por parte da
Justiça, a todas as diligências necessárias, ou para sanar qualquer nulidade, ou para
mais amplo conhecimento da verdade, e circunstâncias, que possam influir no
julgamento. Nos crimes em que não tiver lugar a acusação por parte da Justiça, só
a poderá fazer a requerimento de parte.
4º. Correr os Termos da Comarca o número de vezes, que lhe marcar o Regulamento.
5º. Julgar definitivamente os crimes de responsabilidade dos Empregados Públicos
não privilegiados.
Art. 26. Os Juízes de Direito, nas Correições que fizerem nos Termos de suas
Comarcas, deverão examinar:
1º. Todos os Processos de formação de culpa, quer tenham sido processados perante
os delegados e Subdelegados, quer perante o Juiz Municipal; para o que
ordenaram que todos os Escrivães dos referidos Juízes lhes apresentem os
processos dentro de três dias, tenham ou não havido neles pronúncia, e emendarão
211

os erros que acharem, procedendo contra os Juízes, Escrivães e oficiais de Justiça,


como for de direito.
2º. Todos os Processo crimes que tiverem sido sentenciados pelos Juízes Municipais,
Delegados e Subdelegados: Procedendo contra eles, se acharem que condenarão
ou condenarão ou absolverão os réus por prevaricação, peita ou suborno.
3º. Os Livros dos Tabeliões e Escrivães para conhecerem a maneira porque usam de
seus ofícios, procedendo contra os que forem achados em culpa.
4º. Se os Juízes Municipais, de Órfãos, Delegados e Subdelegados fazem as
audiências, e se são assíduos e diligentes no cumprimento dos seus deveres,
procedendo contra os que acharem em culpa.
CAPÍTULO V
Dos Jurados
Art. 27. São aptos para Jurados os cidadãos que puderem ser Eleitores, com a exceção
dos declarados no Art. 23 do Código do processo Criminal, e os Clérigos de
Ordens Sacras, contanto que esses Cidadãos saibam ler e escrever e tenham de
rendimento anual por bens de raiz, ou Emprego Público, quatrocentos mil réis,
nos Termos das cidades do Rio de Janeiro, Bahia, Recife e São Luiz do
Maranhão: trezentos mil réis nos Termos das outras cidades do Império: e
duzentos em todos os mais Termos. Quando o rendimento provier do comércio
ou indústria, deverão ter o duplo.
Art. 28. Os Delegados de Polícia organizarão uma lista (que será anualmente revista)
de todos os cidadãos, que tiverem as qualidades exigidas no artigo antecedente,
e a farão afixar na porta da Paróquia, ou Capela, e publicar pela imprensa, onde
o houver.
Art. 29. Estas listas serão enviadas ao Juiz de Direito, o qual com o Promotor Público
e o Presidente da Câmara Municipal formará uma Junta de Revisão, tomará
conhecimento das reclamações, que houverem (sic) e formará a lista geral dos
Jurados, excluindo todos aqueles indivíduos que notoriamente forem
conceituados de faltar de bom senso, integridade e bons costumes, os que
estiverem pronunciados, e os que tiverem sofrido alguma condenação passada
em julgado por crime de homicídio, furto, roubo, bancarrota, estelionato,
falsidade ou moeda falsa.
Art. 30. O Delegado, que não enviar a lista, ou o membro da Junta, que não
comparecer no dia marcado, ficará sujeito à multa de cem a quatrocentos mil
réis, imposta pelo Juiz de Direito, sem mais formalidade que a simples
audiência, e com recurso para o Governo na Corte, e Presidentes nas
Províncias, que a imporão direta e imediatamente quando tiver de recair, sobre
o Juiz de Direito. Enquanto se não organizar a lista geral, continuará em vigor
a do ano antecedente.
Art. 31. Os Termos, em que se não apurarem pelo menos 50 jurados, reunir-se-ão ao
Termo ou Termos mais vizinhos, para formarem um só Conselho de Jurados, e
os Presidentes das Províncias designarão nesse caso, o lugar da reunião do
Conselho, e da Junta Revisora.
212

CAPÍTULO VI
Da Prescrição
Art. 32. Os delitos em que têm lugar a fiança, prescrevem no fim de vinte anos,
estando os réus ausentes fora do Império, ou dentro, em lugar não sabido.
Art. 33. Os delitos que não admitem fiança, prescrevem no fim de vinte anos, estando
os réus ausentes em lugar não sabido, ou fora do Império, não prescrevem em
tempo algum.
Art. 34. O tempo para a prescrição conta-se do dia em que for cometido o delito. Se,
porém, houver pronúncia interrompe-se, e começa a contar-se da sua data.
Art. 35. A prescrição poderá alegar-se em qualquer tempo, e ato do Processo da
formação da culpa, ou da acusação; e sobre ela julgará sumária e
definitivamente o Juiz Municipal, ou de Direito, com interrupção da causa
Municipal.
Art. 36. A obrigação de indenizar prescreve passados trinta anos, contados do dia em
que o delito for cometido.

CAPÍTULO VIII
Das Fianças
Art. 37. Nos crimes mencionados no Art. 12 § 7º do código do Processo, os réus (que
não forem vagabundos, ou sem domicílio) se livrarão soltos.
Art. 38. Além dos crimes declarados no Art. 101 do código do Processo, não se
concederá fiança:
1º. Aos criminosos, de que tratam os Arts. 107 e 116 na primeira parte, e 123 e 127 do
Código Criminal.
2º. Aos que forem pronunciados por dois ou mais crimes, cujas penas, posto que a
respeito de cada um deles, sejam menores que os indicados no mencionado Art.
101 do Código do Processo, as igualem, ou excedam, considerados conjuntamente.
3º. Aos que uma vez quebrarem a fiança.
Art. 39. No termo de fiança os fiadores se obrigarão além do mais contido no Art. 103
do Código do Processo, a responderem pelo quebramento das fianças, e os
afiançados, antes de obterem contra-mandato, ou mandado de soltura, assinarão
termo de comparecimento perante o Júri, independente de notificação, em todas
as subseqüentes reuniões até serem julgados a final, quando não consigam
dispensa de comparecimento.
Art. 40. Aos fiadores serão dados todos os auxílios necessários para a prisão do réu,
qualquer que seja o estado do seu livramento.
1º. Se ele quebrar a fiança.
2º. Se fugir depois de ter sido condenado.
Art. 41. Querendo o fiador desistir da fiança poderá notificar o afiançado para
apresentar outro que o substitua dentro do prazo de 15 dias, e se ele o não
satisfizer dentro desse prazo, poderá requerer mandado de prisão; porém se
ficará desonerado depois que o réu for efetivamente preso, ou tiver prestado
novo fiador.
213

Art. 42. A fiança se julgará quebrada:


1º. Quando o réu deixar de comparecer nas sessões do Júri, não sendo dispensado pelo
Juiz de Direito por justa causa.
2º. Quando o réu, depois de afiançado, cometer delito de ferimento, ofensa física,
ameaça, calúnia, injúria, ou dano contra o queixoso, ou denunciante, contra o
Presidente do Júri, ou Promotor Público.
Art. 43.Pelo quebramento da fiança o réu perderá metade da multa substitutiva da
pena, isto é, daquela quantia, que o Juiz acrescenta ao arbitramento dos Peritos:
na forma do Art. 109 do Código do Processo Criminal. O Juiz que declarar o
quebramento, dará logo todas as providências para que seja capturado o réu, o
qual fica sujeito a ser julgado a revelia, se ao tempo do julgamento não tiver
ainda sido preso. Em todo caso, o resto da fiança fica sujeito ao que dispõe os
artigos seguintes.
Art. 44. O réu perde a totalidade do valor da fiança quando, sendo condenado por
sentença irrevogável fugir antes de ser preso. Neste caso, o produto da fiança,
depois de deduzido a indenização da parte, e custas, será aplicado a favor da
Câmara Municipal, a quem também se aplicarão os produtos dos quebramentos
de fianças.
Art. 45. Se o réu afiançado, que for condenado, não fugir, e puder sofrer a pena, mas
não tiver a esse tempo meios para a indenização da parte, e custas, o fiador
será obrigado a essa indenização e custas, perdendo a parte do valor da fiança
destinada a esse fim, mas não a que corresponde à multa substituta da pena.
Art. 46. Ficam suprimidas as palavras – ou que sejam conhecidamente abonados – do
Art. 107 do Código do Processo.
CAPÍTULO VIII
[...]
CAPÍTULO IX
[...]
CAPÍTULO X
[...]
CAPÍTULO XI
[...]
CAPÍTULO XII
Disposições Gerais
Art. 91. A Jurisdição policial e criminal dos Juízes de Paz fica limitada a que lhes é
conferido pelos § 4º, 5º, 6º, 7º e 14 do Art. 5º da Lei de 15 de Outubro de
1827. No exercício de suas atribuições servir-se-ão dos Inspetores, dos
Subdelegados, e terão Escrivães que poderão ser os destes.
Art. 92. A denúncia, queixa e acusação poderão ser feitas por Procurador, precedendo
licença do Juiz, quando o autor tiver impedimento que o prive de comparecer.
Art. 93. Se em um Termo, ou uma Comarca, ou em uma Província tiver aparecido
sedição ou rebelião, o delinqüente será julgado, ou no Termo, ou na Comarca,
ou na Província mais vizinha.
Art. 94. A pronúncia não suspende o exercício dos direitos políticos, senão depois de
sustentado competentemente.
Art. 95. Ficam abolidas as Juntas de paz, e o 1º Conselho dos Jurados. As suas
214

atribuições serão exercidas pelas Autoridades Policiais criadas por esta Lei, e