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Resenha: LE GOFF, Jacques.

História e
memória. Tradução de Bernardo Leitão. 5º
Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003.

A memória coletiva faz parte das grandes questões das sociedades


desenvolvidas e das sociedades em via de desenvolvimento, das
classes dominantes e das classes dominadas, lutando, todas, pelo
poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção.

Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a


libertação e não para a servidão dos homens.

Jacques Le Goff

O AUTOR
Jacques Le Goff, destacado historiador medievalista ligado a
Escola dos Annales, autor de vasta produção historiográfica, foi
responsável pela Escola dos Annales em sua terceira geração
na década de 1970.

A OBRA
Ela é dividida em 10 capítulos e foi lançada em 1988. No
prefácio o autor produz um estudo aprofundado sobre a
história, exclamando se a história tem sentido ou se existe
sentido nela. A história, portanto, é erudita, sendo também
entendida como uma prática social e conseguiu, ao seu modo,
passar as limitações da transmissão oral. A atual história é uma
filosofia da história e também a história do homem. O
documento é monumento e cabe ao historiador respeitar sua
especificidade. O calendário, por exemplo, é uma forma de a
sociedade domesticar o tempo natural, ligado a cultura e
dialoga com as ciências da natureza e vida. O autor fala de
eventos do século 20, como o fracasso do marxismo, fascismo,
nazismo, as duas guerras mundiais e a bomba atômica, a
renovação da ciência histórica (Escola dos Annales), e o
terceiro mundo com sua nova história.

HISTÓRIA
O estudo da história começou na hegemonia européia. O autor
apresenta o argumento de alguns intelectuais[1], e afirma que
ela é renovação e crise, presente e passado, parte do presente
no passado, além de poder ser divididas em duas: a história da
memória coletiva e a dos historiadores. O documento é um
texto e por isso um discurso, e por esse viés o autor afirma que
o documento, o monumento e os textos nunca são puros. A
objetividade do historiador não é somente uma omissão aos
fatos, pois se ele possui gostos pessoais, seu trabalho deve ser
guiado por critérios científicos, tanto que a filosofia da história é
uma reflexão critica da prática historiográfica. A história pode
ser conto, mas, ao mesmo tempo ela é poética, científica e
filosófica e gênero literário (mas não literatura), ela possui seu
método dedutivo[2], ela possui uma face sinistra e misteriosa
(ao tocar em assuntos como morte e sofrimento). Segundo o
autor, Karl Marx não formulou leis gerais na história e aponta
também a questão da problemática das revoluções. Nem o
passado ou a memória é puramente história, mas seu objeto de
pesquisa e as fontes, nem mais objetivas ou históricas, pois a
própria história é uma ciência e depende do saber adquirido
profissionalmente. O autor destaca que sente muito prazer em
ler romances históricos bem feitos. Conforme a época de
produção do livro, a história era feita principalmente no mundo
ocidental, comunista e no terceiro mundo. A historiografia
segundo aponta Le Goff, nasceu de uma seita da Grécia antiga
e os historiadores antigos possuíam muitos documentos, como
listas reais da Babilônia e Egito, em uma época que a ideia de
civilização era a própria ideia de história. Na antiguidade
surgem obras de cunho da filosofia da história, como De
Civitate Dei[3] eMuqaddina[4], considerando a história como
uma ciência nobre. No cristianismo o tempo é o da liturgia,
cronologia e linear. A história ficou a parte da revolução
científica dos séculos 17 e 18, mas o século 19 foi importante a
ela, pois encontrará uma base nas universidades e arquivos
dos novos estados; na Prússia, por exemplo, era considerado
um grande centro da história, como atestado por Leopold van
Ranke:
Atribui-se a história a função de julgar o passado e instruir o presente
para ser útil ao futuro; minha tentativa não pretende ter tão gigantescas
funções, mas apenas mostrar como as coisas se deram realmente[5].

Em várias regiões a história assumia diferente formas: Na


China só era história se fosse escrita, Gênova (Itália) possuía
história própria desde o século 7 e na Itália, França, Espanha,
Polônia e América do Sul predominavam os historiadores da
vida social e política. Vale citar a tese de Fustel sobre a
história,
Quando os monumentos escritos faltam á história, ela deve pedir as
línguas mortas os seus segredos e, através das suas formas e
palavras, adivinhar os pensamentos dos homens que as falaram. A
história deve perscrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação,
todas estas velhas falsidades sob as quais ela deve descobrir alguma
coisa de muito real, as crenças humanas. Onde o homem passou e
deixou alguma marca da sua vida e inteligência, ai esta a história[6].
Segundo Le Goff, um documento falso também é um
documento e até códigos de construção de documentos devem
ser minuciosamente estudados, sendo que nessa ideia nenhum
documento é inocente, pois podem existir os “fazedores de
história”. Existe pouca produção historiográfica do leste
europeu, destacando casos como da União Soviética (a história
de seus territórios satélites é diferente da sua). A história-conto
é substituída pela história-problema. É afirmado que toda
história é história contemporânea e ela segue novas
orientações, pensando-se na influência na crise do mundo das
histórias, os limites e incertezas da nova história e a produção
historiográfica, vinculada a sociedade do consumo.

ANTIGO/MODERNO
O par antigo/moderno é mais comum a Idade Média e ao
século das luzes, entendendo-se que antigo está mais próximo
de tradição enquanto moderno está para inovação, mas nem
sempre se opuseram. O cristianismo, anterior a antiguidade, se
opunha ao novo e não ao moderno. O cristianismo em sua
conjuntura poderia ser entendido como novo, pois a
antiguidade então era compreendida como a cultura greco-
romana pagã. O embate antigo/moderno segundo o autor é
total nos contatos iniciais entre os índios da América com os
europeus, no Japão do pós-guerra ocorreu uma modernização
equilibrada em meio às tensões, em Israel o debate está em
salvaguardar o antigo e desenvolver o moderno, a arte africana
e japonesa carregam muito da influência da arte ocidental no
século 19. Por moderno, pode-se pensar no ocidente, no jovem
e modernidade, cultura de massas (Edgar Morin), assim como
as revoluções e os progressos materiais. Mas alguns campos
são muito coesos aos dois conceitos, como o campo cultural,
literal ou a reforma religiosa. Marx apontava que a abstração do
estado político é um produto moderno. O autor aponta que
moda deve ser diferenciada de moderno, e não precisa ser arte
ou moderno para ser arte moderna.
PASSADO/PRESENTE
Por presente, a ideia não deve ser somente do instante, mas
sim de uma interação entre eles. Na França, a
contemporaneidade começa em 1789 com a Revolução
Francesa e na Itália no Renascimento ou na queda do
fascismo. Para alguns pensadores, a concepção de história é
outra[7]. A Idade Média era uma época que as pessoas viviam
sob um constante anacronismo, que segundo Le Goff “o
passado não é estudado enquanto passado, ele é revivido e
incorporado constantemente”. Os povos de Guérés, da Costa
do Marfim, possuem 5 noções de tempo, em relação ao dia. A
expressão novo e revolucionário é normalmente usada quando
lembra melhoria. Os regimes nazistas e fascistas usavam as
grandes memórias em suas convicções. Mas o autor aponta
para o sentido social da história, observando influência do
positivismo na psicanálise e distinguindo os velhos apocalipses
e milenarismos na ciência-ficção.

PROGRESSO/REAÇÃO
A ideia de progresso surgiu na antiga Atenas e se espalhou no
ocidente por volta do século 16. A crise de 1929 é relacionada
com o mito do fim da prosperidade e, comumente, os regimes
fascismo/nazismo são um preço pago por ela. O Japão é um
país muito relacionado ao progresso, principalmente quando se
toca nos anos de 1867 e 1945, marcos do crescimento
nipônico. A Idade Média elimina o crescimento e combina-se
com o cristianismo. Pode-se vincular o progresso a ideia
científica e desenvolvimento, que ilumina o futuro e o passado.
No humanismo o progresso é vinculado ao retorno aos antigos,
a Revolução Francesa criou (porém negava) o progresso, não
sendo somente um conceito burguês. A relação entre terceiro
mundo e progresso,
Depois de 1945, a grande novidade, na perspectiva do progresso, foi o
despertar do Terceiro Mundo e o seu acesso progressivo a
independência. Esse fenômeno conduziu a desocidentalização da ideia
de progresso e ao suscitar de esforços em favor do
desenvolvimento[8].
IDEIAS MÍTICAS
Por mítico, entendem-se idades felizes. A idade mítica
desempenhou um importante papel na história e humanidade
como o mito do país da abundância, como entre os vários
povos estudados nessa obra: nos índios guaranis existia o mito
da “terra sem mal”, aos povos africanos era a idade do ouro, no
oriente predominava a concepção de união entre terra e céu.
No Egito existem muitos relatos sobre a “primeira vez” do
mundo, na Mesopotâmia existe o poema de criação e no corão
a ideia do lugar da felicidade.

ESCATOLOGIA
Escatologia é a doutrina das crenças relativas ao destino final
do homem e do universo, considerado um tema recente datado
do século 19. Bultmann, apontado por Le Goff, afirma que
escatologia é “quando o homem é colocado perante uma
decisão”, no hinduísmo e catarismo é a migração das almas
(também chamado de metempsicose), no Valhala[9] germânico
é o lugar dos heróis, os lapões, celtas e esquimós temiam que
o céu caísse sobre eles, assim como na literatura germânica
o ragnararok do poema edda voluspa tratavam do fim do
mundo o apocalipse equivale a um desligamento de nossa
experiência deste mundo. Segundo Mircea Eliade,
Os mitos do fim do mundo desempenham um papel importante na
história da humanidade. Puseram em evidência a “mobilidade das
origens”: de fato, a partir de um certo momento, “a origem” não está só
num passado mítico, mas também num futuro “imaginário[10]”.

O autor apresenta o etnólogo brasileiro Kurt Nimuendajú, em


seu trabalho sobre a emigração dos índios guaranis antes da
chegada dos espanhóis a América. O ano novo ao mesmo
tempo inspira morte e ressurreição. O oráculo é uma divindade
que revela seus segredos. A laicização é considerada uma das
primeiras metamorfoses da escatologia. Uma das influências
diretas das ideias escatológicas são religiões como as atuais
adventistas do sétimo dia e testemunhas de Jeová, nisso a
escatologia se torna um novo desafio da história, pois segundo
o autor, o que o historiador sabe do medo?

DECADÊNCIA
Segundo Le Goff, existia pouco estudo quanto ao tema de
decadência. O termo não se opõe a progresso, mas é mais
comum ser ligado a ideia de envelhecimento, como nos
argumentos de Santo Agostinho que o homem possui 6 idades
(primeira infância, infância, adolescência, juventude,
maturidade e velhice). Decadência também é ligada a um
anúncio de renovação e crise, sendo comum o vínculo do
termo a queda de Roma. O autor aponta que o romance
histórico é uma forma de fuga do presente. Baseado nas teses
de Marx, Le Goff afirma que em 1848 ocorre uma ruptura entre
a burguesia e o povo. Segundo muito se defendia (e se
defende), o destino de alguns impérios, igrejas e seitas é
traçado pelas estrelas.

MEMÓRIA
Grécia e Roma são considerados os países da civilização da
epigrafia, embora a escrita tenha levado um longo caminho ao
seu suporte. Na Grécia foi criada a deusa da memória,
Mnemonisa e em outras regiões como Egito, Mesopotâmia,
China e América (pré-colombiana) civilizaram a memória. A
memória é uma representação do passado, sendo histórica e
social. O autor aponta para a memória dos computadores (ela é
auxiliar dos seres humanos) e o código genética, os dois
dotados de memória, embora não humana. É considerado um
tema muito importante, pois algumas classes, grupos
dominantes e indivíduos tem o desejo de ser senhores da
memória. As primeiras culturas sem escrita eram certamente
diferentes, mas não totalmente diversas. No Congo, o recém
nascido ganha dois nomes, sendo que o segundo é o da
memória. Na antiguidade, alguns monumentos como a estela
de Naram-Sin e a famosa estela de Ramurabi são memórias
dos reis. O autor aponta que a passagem da memória oral para
escrita é difícil de entender, dada sua complexibilidade. No
relato de Cícero, a memória esta presente,
Durante um banquete oferecido por um nobre em Tessália, Scopa,
Simônides cantou um poema em honra de Castor e Pólux. Scopa disse
ao poeta que não lhe pagaria senão metade do preço estabelecido e
que os próprios dióscuros lhe pagassem a outra metade. Pouco depois,
vieram chamar Simônides, dizendo-lhe que dois jovens o chamavam.
Ele saiu e não viu ninguém. Mas, enquanto estava lá fora, o teto da
casa afundou-se sobre Scopa e seus convidados, cujos cadáveres
esmagados ficaram irreconhecíveis. Simônides, lembrando-se da
ordem em que estavam sentados, identificou-os, e assim puderam ser
remetidos aos respectivos parentes[11].

Assim como também pode ser vista a importância da memória


em outros escritos,
Guarda-te de esqueceres Yahweh, teu Deus, negligenciando as suas
ordens, os seus costumes e as suas leis [...]. Não esqueças então
Yahweh, teu Deus, que te fez sair do país do Egito, da casa da
servidão [...]. Lembra-te de Yahweh, teu Deus: foi ele que te deu esta
força, para agires com poder, guardando assim, como hoje, a aliança
jurada aos teus pais. Certamente que se esqueces Yahweh, teu Deus,
se segues outros deuses, se os serves e te prosternas diante deles,
advirto-te hoje, perecerás[12].

Observa-se em como a igreja cultuava os mortos, nos libri


memoriales,
Quorum quarumque recolimus memoriam (aqueles ou aquelas cuja
memória lembramos); qui in libello memoriali [...] scripti
memorantes (aqueles que estão inscritos no livro da memória para que
se lembre); quorum nomina ad memorandum conscripsimus (aqueles
de quem escrevemos os nomes para guardarmos na memória)[13].

O dia 2 de novembro virou desde a Idade Média (no início da


Igreja) a data de culto aos mortos, sociedade que venerava os
velhos pela sua memória. A proposta dos enciclopedistas
Diderot e D’Alembert era fazer uma recolha da memória com a
enciclopédia. A valorização da comemoração e o túmulo são
ambos do século 19 época em que foram criados os museus.
Após a Guerra da Secessão nos Estados Unidos foi criada uma
data comemorativa pelos nortistas. O auge da memória foi na
era dos regimes fascistas e nazistas. Le Goff apresenta o
argumento de Breton, “e se a memória mais não fosse que um
produto da imaginação?” Segundo Freud, nada do que
possuímos (na mente) pode ser inteiramente perdido.

CALENDÁRIO
O calendário (de calendarium, livro de contas) é um sistema
anual, social, do ritmo do universo, cientifico, cultural e
emblema de poder. Sua manipulação no início era um direito
real e importante ao cristianismo. No Egito, cinco séculos antes
de Cristo, existia um calendário de 12 meses e de 30 dias para
cada mês. Por calendário pode-se também entender as
tradições, dado que ajuda a entender as dificuldades de troca
de calendário[14], como não conseguiu a Revolução Francesa
com seu calendário revolucionário. A lua é considerada um
objeto de beleza e apreciação de crenças sumidas, em que o
próprio cristianismo não era favorável a ela. Os povos baulés
da Costa do Marfim não nomeiam os meses nem seus nomes,
assim como possuem várias formas para o dia. A semana, que
poucos povos ignoram foi uma invenção dos hebreus, a
Inglaterra (primeira nação industrializada do mundo), inventou
o week-end, fim de semana dedicado ao descanso. O século é
do latim saeculum, ou seja, equivalia a dizer geração humana.

DOCUMENTO/MONUMENTO
Segundo o autor, o que sobrevive do passado não é o que
existiu e sim o que os historiadores escolhem para estudar,
pois se o documento é a escolha do historiador, o monumento
é a herança do passado. Monumento é originário
de monumentun (monere), ou seja, “fazer recordar”. A história
só existe devido aos documentos. Por volta de 1960 ocorreu
uma explosão de fontes, sendo que Le Goff aponta que a
revolução documental tende a substituir os próprios
documentos. O autor enfatiza que todo documento também é
monumento e que essencialmente, todo documento também é
mentiroso, dado suas origens de produção.

BIBLIOGRAFIA
BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a
Revolução Francesa da historiografia. Tradução de Nilo Odalia.
São Paulo: Editora UNESP. 1997.
DAVIDSON, Hilda Roderick Elis. Deuses e Mitos do
Norte da Europa. Tradução de Marcos Malvezzi Leal.
São Paulo: Madras. 2004.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de
Bernardo Leitão. 5º Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003.

[1] Paul Ricoer “a história é o reino do inexato”; Paul Veyne “a história é


também a história natural e humana”; Heidegger “ela é a projeção da
parte imaginaria no presente”; Humboldt “dever do historiador”;
Troeltsch “não existia uma, mas mais histórias”; Hegel que segundo Le
Goff foi o primeiro filósofo a colocar a história no centro da reflexão.
Outros pensadores, como Marx são destacados, mas ele só estudou a
história européia e ignorou o conceito de civilização; Gramsci “história e
a filosofia formavam um único bloco”; Strauss “podemos chorar o fato
de existir história”, Paul Veyne “a história é uma luta contra a ótica
imposta pelas fontes”; Lucien Febvre “a história é ciência e necessita
de técnica, métodos, além de ser ensinada”.
[2] Como na imaginação de animar os mortos e a imaginação científica.
[3] De Santo Agostinho, iniciada por volta de 413 e finalizada em 426.
[4] De 1377.
[5] LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo
Leitão. 5º Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003. p. 85.
[6] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 107.
[7] Para Hegel “o passado é o fardo da história”; para Piaget “é quando
a criança compreende o tempo, ela se liberta do presente”; Michelet “a
história da França começa com a língua francesa”; Hobsbawn “o
passado é o período anterior que o individuo lembra”.
[8] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 85.
[9] Cf. DAVIDSON, Hilda Roderick Elis. Deuses e Mitos do Norte da
Europa: Uma Mitologia é o comentário específico de uma era ou
civilização sobre os mistérios da existência e da mente humanas.
Tradução de Marcos Malvezzi Leal. São Paulo: Madras. 2004.
Cf.: LANGER, Johnni. Deuses, Monstros, Heróis: Ensaios de
Mitologia e Religião Viking. Brasília: Editora Universidade de Brasília.
2009.
ESENHA
Jacques, Le Goff – História e Memória – 5ª edição
– 2003 – Editora Unicamp.

Jacques Le Goff, na obra História e Memória, conduz no


capítulo intitulado Memória, um estudo sobre a
memória de que ela é seletiva, é o conjunto de funções
psíquicas pelas quais temos consciência do passado
como tal, que inclui a fixação, a conservação, a
lembrança e o reconhecimento dos acontecimentos;
parte de um sistema informático na quais as
informações são introduzidas e conservadas e podem
ser posteriormente recuperadas; narrações históricas
escritas por testemunhas presenciais; fatos ligados à
sua pessoa ou à sua época.

Conjunto de elementos culturais, sociais e históricos


que constituem as referências coletivas de um povo,
recordar ou fazer recordar. O comportamento narrativo
proporciona uma melhor assimilação, ou seja, faz
concretizar uma memória plena, desencadeando na
linguagem e memória, preservando o passado e o
presente através de documentos e monumentos. A
memória está inserida em um contexto familiar, social,
nacional histórico, onde se constitui em um elemento
essencial da identidade, da percepção de si e de um
grupo de pessoas.

Pierre Janet considera que o ato mnemônico é


fundamental e é o comportamento narrativo da
memória falada que provoca sensibilidades, faz com
que se crie um imaginário. Aprender e relembrar o
acontecido fará com que fiquemos com o melhor
ângulo, a melhor fala, as melhores emoções, fontes que
irão direto armazenar na pasta chamada memória.
Percebemos então que cada tempo histórico segue um
modelo de memória de
acordo com a civilização ou sociedade do momento.

A memória vem arraigada em cada visão de mundo,


maneiras de agir e pensar, crenças, dogmas,
julgamentos. A memória social é um dos meios para
abordar os problemas do tempo passado e presente da
história. Nos dias de hoje podemos analisar partindo do
pressuposto dos acontecimentos do Caso Isabella, onde
um crime bárbaro foi cometido e a sociedade, já
inserida em um tipo de cultura, a partir de
préjulgamentos, pré-conceitos e preconceitos, surgirão
em uma memória coletiva social negativa em razão da
brutalidade dos fatos e do sensacionalismo da mídia.

Na idade Média os velhos eram venerados, eram


chamados de homensmemórias. Le Goff mostra que os
documentos e monumentos, no final do século XIX,
sofreram diversas transformações, tornando-se para os
historiadores fundamentos para o fato histórico em
torno dos positivistas da escola dos Annales, estes
passam a ser estudado, criado e usado de forma crítica.
Partindo do pressuposto de que cada monumento
instaurado, guardado, capitulado nas diversas gerações
e civilizações constitui-se um legado genuinamente de
documentos e fontes históricas, através de provas,
instrumentos e testemunhos.

Notamos realmente uma revolução a partir de


documentos e monumentos, proporcionando
indiscutíveis teses, sínteses e antíteses, para melhor
historiografar. Lucien Lefebvre cita que não há notícia
sem documentos e que a história faz-se com
documentos escritos e quando da não existência,
deverá ser feita e tentar resgatar toda a historiografia.
Podemos citar a História das Mulheres nas diversas
épocas e civilizações, pois as fontes existentes são
escassas. Le Goff alerta para não nos deixar envolver
pela revolução documental e fazermos uma reflexão
crítica a despeito da história quantitativa, trabalhar
essa história serial, submetendo o documento para não
se deparar com falsos documentos.

A história quantitativa precisa ser tratada como


documento/monumento. Preocupa-se ainda em
demonstrar que o documento e monumento
independem da revolução documental e que os
historiadores percam o foco, ou seja, a crítica
documentária, lembrando ser o documento um
resultado da sociedade. Conclui-se então que a
memória, documento e monumento abarcam a
coletividade social, e seguiram sempre juntos com e
pelos diversos registros sociais, econômicos, culturais,
políticos e de todo o âmbito de lutas e forças para se
construir uma memória coletiva da história e na
história.

Algumas reflexões sobre o


“documento/monumento”, de Jacques
Le Goff

No último encontro do grupo de estudos, ocorrido no dia 05 de setembro,


discutimos o texto “Documento-monumento”, do historiador Jacques Le
Goff. O texto, um dos capítulos do livro “História e Memória”, de 1988, é
uma reflexão sobre o conceito de história. Do debate, ficaram muitas
considerações e inquietações e, para não perdermos o fio da memória, aí
vai um pequeno registro com pontos importantes do texto e da roda de
conversa.

Sobre o conceito de documento/monumento

Antes de tudo, para Le Goff, a história – forma científica da memória


coletiva – é resultado de uma construção, sendo que os materiais que a
imortalizam são o documento e o monumento. Para o autor, “o que
sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma
escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento
temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à
ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Estes
materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas
principais: os monumentos, herança do passado, e os documentos,
escolha do historiador” (p.535, 1996).

Ao longo do texto, Le Goff desenvolve uma reflexão sobre estes dois


tipos de materiais, seus usos e sua legitimidade. Em princípio,
o monumento era visto como um material historiográfico de valor
contestável, sendo caracterizado pelo “poder de perpetuação, voluntária
ou involuntária, das sociedades históricas” (p.536, 1996) por meio de
testemunhos, em sua maioria não escritos. Já o documento, testemunho
essencialmente escrito, possuía mais legitimidade por ser relacionado à
“neutralidade”, o que o consolidou, inclusive, como prova jurídica ao longo
dos tempos. Para Le Goff, o documento que, para a escola histórica
positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o
fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha, de uma
decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo como prova
histórica. A sua objetividade parece opor-se à intencionalidade do
monumento” (p.536, 1996). A diferença entre estes dois materiais, parece
ser, assim, a dicotomia entre o testemunho “parcial” e o “imparcial”.

No entanto, posteriormente, Le Goff desconstrói esta falsa dicotomia,


afirmando que todo documento é monumento, pois todo documento é
fruto de escolhas e intenções de quem o elabora, sendo assim um ponto
de vista parcial da história. Para ele, “o documento não é qualquer coisa
que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou
segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do
documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo
e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de
causa” (p.545, 1996). Mais do que parcial, Le Goff escreve que, de
alguma forma, todo documento é uma mentira, já que é resultado de
uma “montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da
sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas
durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais
continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma
coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a
etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados
desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é
monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao
futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si
próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo o documento
é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo” (p.547-548,
1996).

Le Goff escreve, ainda, sobre a importância de valorizarmos todo material


histórico como documento, independente do registro escrito. Daí, levar
em consideração, “os vestígios da cultura material, os objetos coleção (cf.
pesos e medidas, moeda), os tipos de habitação, a paisagem, os fósseis,
(cf. fóssil) e, em particular, os restos ósseos dos animais e dos homens
(cf. animal, homo).”

Uma primeira pergunta: qual foi o impacto deste texto no período em que
foi lançado? Foi encarado como uma provocação aos historiadores? Se o
documento é mentira, o que é verdade então? Existem várias verdades.

As reflexões em torno do texto

A partir desta apresentação sucinta do conceito documento/monumento,


pode-se dizer que o historiador é, antes de tudo, sujeito histórico de seu
tempo. E seus documentos são construções de determinados sujeitos
históricos, estes também construções históricas de determinado campo
social. Todo documento/monumento é, assim, fruto da intencionalidade –
mais ou menos consciente – de quem o estuda ou produz.

Estas reflexões nos remeteram a outras obras que discutem a produção


da história e dos fatos científicos, como O queijo e os vermes, de Carlo
Ginzburg; o conceito de “história dos vencidos”, de Walter Benjamin; o
debate sobre objetividade e não-neutralidade nas ciências sociais, de
Max Weber;  e o debate sobre o filme como documento, de Marc Ferro.
Aí, chegamos em nosso campo de estudo: o cinema como material da
história, o cinema enquanto documento/monumento.
O filme é um documento/monumento.

O filme como um documento e a história como uma narrativa e vice-


versa. São todos discursos acerca de um fato, uma representação, um
recorte da realidade. Todos estão articulando imaginários e perspectivas
sobre determinados contextos e questões. O filme é um discurso sobre
alguma coisa e sobre si mesmo e fala de si, das condições em que foi
feito e de seu autor/realizador. Todo filme é, de alguma forma, baseado
em fatos reais, porque senão não haveria entendimento e
reconhecimento por parte do espectador. Neste sentido, para o
espectador, o filme tem que comunicar por si só. Ao final da projeção, o
que as pessoas têm em comum é o filme que acabaram de assistir
coletivamente; a recepção ocorre de acordo com as bagagens individuais
de cada espectador. Assim, a historiografia que temos acesso influencia
nossa leitura dos filmes e nossos repertórios influenciam muito nossa
recepção. Por exemplo, o filme Elefante branco, do Pablo Trapero (2012),
no cinema é uma catarse. Depois, no entanto, lendo sobre o contexto em
que foi feito, podemos refazer o percurso sobre o filme. Qual seria nossa
impressão com outra bagagem histórica?
Sobre a análise do filme

Alguns questionamentos surgiram: a análise do filme sem uma relação


com seu contexto histórico é superficial? Tudo depende do método de
análise, de escolhas do pesquisador. Aonde a análise quer chegar? Quer
partir do ponto de vista do espectador, este que supostamente não tem
mais informações sobre o “extra-campo”, ou quer ir para além do filme em
si? O que o filme diz por si só? O que ele não diz? Como convergir a
análise do filme com seu contexto? Temos que fazer recortes ao analisar
um filme. Recorte de método, inclusive.

A historiografia do cinema

Como selecionamos o que é importante e o que não é na história do


cinema? Como construímos os currículos das escolas de cinema? A
história do Brasil que estudamos na escola sempre está em função da
colônia. Que historiografia estamos aplicando para os estudos sobre o
cinema? Qual o nosso corpus? Que conceito de história está por trás?
Qual o lugar do cinema da América Latina nestes estudos? O cinema da
América Latina sempre foi retratado como um apêndice. Qual o
instrumental teórico que nós temos para pensar o nosso cinema?
Desse modo, o grupo se pergunta: que história contar dos cinemas da
América Latina e, portanto, qual o conceito de história que está por
trás, visto que pressupomos que este tipo de narrativa não apenas
pode ser feita como é relevante fazê-la.

A experiência cinematográfica

Como pesquisadores, dissecamos nosso objeto e perdemos o impacto, a


impressão “mais subjetiva” do deslumbramento com a obra. Ao analisar
um filme, devemos desconfiar da obra e lê-lo como um discurso, mas
também devemos desconfiar de nós mesmos e aproveitar as
inseguranças como elemento de aprofundamento intelectual. Como
leitores de nós mesmos devemos ser mais seguros e assertivos ou mais
inseguros e abertos aos imprevistos?

Alguns filmes são monumentais, se transformam em fetiche. De qualquer


maneira, na sala escura, cinema é acima de tudo um espetáculo,
independente da realidade que o cineasta propõe a mostrar. Como
recuperar o impacto do filme em palavras?

Os outros materiais históricos

A fotografia também é material histórico, assim como também é


manipulação, construção, mentira. É um recorte imagético da história.
Além do texto, do filme e da fotografia, é importante ressaltar a
importância da memória do corpo, das tradições populares e da história
oral como materiais históricos. Como exemplo podemos citar as
comunidades indígenas, que têm na história oral e na representação
corporal suas principais fontes de história. Neste sentido, o que
representa o Museu como espaço de memória, levando-se em
consideração os diversos povos?

Os maracatus rurais, criados por cortadores de cana do nordeste, fazem


com que em determinada época do ano eles se transformem em
personagens, encenando nas comunidades em que vivem. O maracatu
rural, o baque solto e o cavalo marinho, todas tradições históricas do
nordeste brasileiro, são monumentos culturais vivos, da cultura popular,
que estão vivas. A representação destas tradições não está
necessariamente nos museus, mas em seus corpos, em suas falas, na
interação entre as pessoas. Como podemos retratar isso sem uma
contextualização esquemática, querendo explicar tudo, significar tudo?
Além disso, estas tradições do meio rural não podem ser lidas de um
ponto de vista que as mumifique, pois estas não estão estagnadas no
tempo, são dinâmicas, híbridas, sendo influenciadas por outros elementos
e espaços, como o universo urbano. Para exemplificar, podemos citar as
fantasias dos caboclos de lança, do maracatu rural, que incorporam em
seus adereços imagens do cinema brasileiro, como do filme Tropa de Elite.
A polissemia dos documentos/monumentos

Assim, os textos, as ruínas, os artefatos, as atividades humanas são


todas fontes de história. Os seres humanos produzem
documentos/monumentos todo o tempo. Devemos prestar atenção ao
cotejamento dos documentos e não fazer uma leitura positivista: “o
documento já diz tudo”. Sempre ler um texto do lado de quem o produz, a
partir da interpretação do historiador, já que todo documento é resultado
de uma interpretação e fruto de outros documentos produzidos. Assim, os
pesquisadores devem buscar diversas fontes de interpretação. Os
estudos sobre o documento cinema funcionam da mesma forma: são
permeados de conflitos, pontos de vistas, cotejamentos. O sentido do
filme se dá por meio de três fatores: o filme, o público e sua compreensão
e a mediação de quem o interpreta. Importante prestar atenção nas
múltiplas perspectivas e re-narrativas:

Mais citações que surgiram ao longo do debate

Livros: Os jovens infelizes, de Pasolini; As potências do falso, de Deleuze;


Platão e os Sofistas; conceito de “campo social”, de Bourdieu; O cemitério
de praga, de Umberto Eco (sobre a divulgação de documentos falsos do
protocolo de Sião); Hans Belting (sobre o ponto de vista);A objetividade do
conhecimento nas Ciências Sociais,  de Max Weber; os textos de Raimon
Panikkar (que abordam mitos).
Filmes: O fim da história, de Manuel de Oliveira (reflexão sobre o
monumento); A sombra de um homem (Hanan Abdalla, filme egípcio para
fazermos uma reflexão sobre a alteridade);Maranhão 66, documentário de
Glauber Rocha (o tiro que saiu pela culatra: Glauber foi contratado para
fazer um documento sobre a posse de Sarney e acabou fazendo um
documentário crítico sobre a política coronelista no nordeste
brasileiro); Cidadão Kane, de Orson Welles (e a multiplicidade de
perspectivas); os filmes de Sanjinés (sobre os indígenas bolivianos);
os mockumentaries (falsos documentários).
Rádio: a verdade construída por Orson Welles ao anunciar, numa
transmissão radiofônica, a invasão do planeta Terra por alienígenas, o
que levou a um pânico coletivo nos Estados Unidos, em 1938.

Referência bibliográfica para o debate:

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4.ed. Campinas: Editora da


Unicamp, 1996.
Disponível aqui. RESENHA CRÍTICA
LE GOLF. Memória e História. São Paulo: Papirus, 1999.
p.423-483 Maria Lúcia Wochler Pelaes 
MEMÓRIA
O autor aborda, neste capítulo, os diferentes conceitos sobre a
"memória" e as respectivas funções no meio social.
Introduz o capítulo referindo-se a memória "como propriedade
de conservar certas informações", ligada às funções psíquicas,
através das quais o homem pode "atualizar impressões ou
informações passadas"(p.423).
Cita também os diversos sistemas de educação da memória
que existiram nas várias sociedades e em diferentes épocas:
as mnemotécnicas.
Entre os autores citados, merece uma atenção especial Pierre
Janet, o qual fornece ao conceito de memória aqui
apresentado, as noções de "comportamento narrativo" e
"função social", relacionadas ao ato mnemônico enquanto
comunicação de uma informação, na ausência do
acontecimento ou do objeto que o motivou (p.424-425).
O autor cita Leroi-Gourhan que referi-se a memória em sentido
lato, distinguindo três tipos de memória: a memória específica
para "definir a fixação dos comportamentos de espécies
animais", a memória étnica que "assegura a reprodução dos
comportamentos nas sociedades humanas" e a memória
artificial, que "possibilita a reprodução de atos mecânicos
encadeados"(p.425-426).
Ainda na introdução do capítulo delimita a base de sua análise,
calcada na valorização das relações entre memória e história.
Seu trabalho apresenta inicialmente um estudo da memória nas
sociedades sem escrita, antigas ou modernas, distinguindo na
história da memória, nas sociedades que têm simultaneamente
memória oral e memória escrita, a fase antiga de
predominância da memória oral em que a memória escrita ou
figurada têm funções específicas; apresenta, numa segunda
etapa, a fase medieval de equilíbrio entre as duas memórias
com transformações importantes das funções de cada uma
delas; a fase moderna de processos decisivos da memória
escrita, ligada à imprensa e à alfabetização; e, por fim, numa
terceira etapa, reagrupa os desenvolvimentos do último século
relativamente ao que Leroi-Goourhan chama "a memória em
expansão"(p.427).
O autor desenvolve os estudos apresentados acima em seis
sub-ítens: 

1. A memória ética.
Neste tópico o autor comenta sobre o desenvolvimento da
memória coletiva, fazendo parte da vida cotidiana para os
povos sem escrita, citando Leroi-Gouhan e Goody.
Cita também alguns exemplos da cultura de povos primitivos e
de que forma desenvolviam uma memória coletiva.
Comenta, citando Goody, que a memória coletiva nas
sociedades "selvagens" não se desenvolve palavra por palavra,
numa aprendizagem mecânica, mas como uma "construção
generativa", dentro de uma dimensão narrativa e em outras
estruturas da história cronológica dos acontecimentos (p.428-
430).

2. O desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita,


da Pré-história à Antiguidade.

Neste tópico o autor comenta o aparecimento da escrita,


estando ligado à uma profunda transformação na memória
coletiva, permitindo o desenvolvimento de duas formas de
memória: a primeira , em forma de monumento comemorativo
de um acontecimento marcante e a segunda, a inscrição em
pedra, suscitando na época moderna, uma ciência auxiliar da
história, a epigrafia (p.431).
Comenta a grande importância da memória funerária, como as
estelas sacerdotais ou reais egípcias, nas quais existe a
presença de uma "narrativa histórica" que funciona como um
arquivo mnemônico dos acontecimentos significativos da
época, assim como a importância dos documentos arquivados
nos mais diferentes suportes (osso, estofo, pele, papiro,
pergaminho, papel, entre outros). E com isso a criação de
"instituições de memória", como arquivos, bibliotecas e
museus, permitindo registros da "memória real", onde estão
narrados feitos que estabelecem "a fronteira onde a memória
se torna história" (p.432-434).
O autor comenta a transformação ocorrida nos processos de
"memória artificial", com a passagem da oralidade à escrita e o
aparecimento de "processos mnemotécnicos", permitindo a
memorização palavra por palavra, que segundo Goody, trata-se
de uma operação efetuada numa certa ordem e que permite
"descontextualizar" e "recontextualizar" um dado verbal,
segundo uma "recodificação lingüística" (p.435-436). 
Cita também Platão, em Fedro, numa colocação contrária à
anterior, onde a memória escrita contribuiria para o
desaparecimento das tradições da memória oral (p.437).
Comenta ainda a importância da laicização da memória relativa
à invenção da escrita permitindo à Grécia criar novas técnicas
de memória: a mnemotecnica e suas distinções entre os
lugares da memória e a memória artificial dividida em"câmaras
de memória" entre outros procedimentos que permitiam a
recordação mnemônica.(p.440-441).

3. A memória medieval no Ocidente.


Neste tópico o autor comenta a "cristianização da memória" e
da mnemotécnica, através da repartição da memória em uma
memória litúrgica e uma memória laica, de fraca penetração
cronológica, desenvolvimento da memória dos mortos,
principalmente dos santos, papel da memória no ensino que
articula o oral e o escrito e o aparecimento, enfim, de tratados
de memória (artes memoriae), caracterizando a intensa
variedade nos sistemas de memória da Idade Média (p.443)
O autor cita, entre outros exemplos, o Antigo Testamento,
principalmente o Deuteronômio, que "apela para o dever da
recordação e da memória constituinte", como fundadora da
identidade judaica. Ao citar o Novo Testamento, coloca a
recordação de Jesus numa perspectiva escatológica, negando
a experiência temporal e a história, confirmando uma das vias
da memória cristã (p.443-444).
Cita também Agostinho, o qual deixa na suas confissões, "parte
da concepção antiga dos lugares e das imagens de memória,
dando-lhes uma extraordinária fluidez psicológicas, referindo-se
a "imensa sala da memória" e a sua "câmara vasta e
infinita"(p.445-446).
Tomás de Aquino é citado, entre outros, como particularmente
apto a tratar da memória, principalmente no que se refere a
memória artificial, que se destaca no ensino de Alberto Magno. 
Alberto, a partir da doutrina clássica dos lugares, formulou
algumas regras mnemônicas: a idéia dos "simulacros
adequados das coisas que se deseja recordar" ligados à
relações corpóreas; em seguida, racionalizar sobre a ordem
dos fatos; depois , a efeito de estimulação da memória,
"meditar com freqüência no que se deseja recordar"(p.454-
455).

4. Os progressos da memória escrita e figurada da


renascença aos nossos dias.

Neste tópico o autor comenta a importância da invenção da


imprensa para a constituição da memória ocidental,
proporcionando o acesso do leitor comum à uma memória
coletiva, assistindo-se então, à exteriorização progressiva da
memória individual, tendo uma importante conseqüência: "a
teoria clássica da memória formada na Antigüidade greco-
romana é modificada pela escolástica, que tivera um lugar
central na vida escolar, literária e artística da Idade média,
desaparecendo quase que completamente no movimento
humanista"(p.457).
Ao citar Pierre de la Ramée, observa que as técnicas de
memorização antigas são substituídas por novas, que segundo
Ramée, obedessem à uma ordem dialética. Nos sistemas
escolares as matérias relacionadas ao estímulo da mémoria,
diminuem de importância numa corrente "anti-memória",
enquanto que os estudiosos do desenvolvimento cognitivo,
como o expoente Jean Piaget, demonstraram que a memória e
a inteligência se complementam (p.459).
É comentada também a contribuição dos vocabulários descritos
em dicionários, como importante fonte de pesquisa, mostrando
que "a vida cotidiana foi penetrada pela necessidade de
memória". Quanto ao alargamento da memória coletiva, cita
Leroi-Gourhan: "Os dicionários atingem os seus limites nas
enciclopédias de toda a espécie que são publicadas" (p.460-
461)
Após a Revolução Francesa, como comenta o autor, "assiste-
se a um retorno da memória dos mortos na França, como em
outros países da Europa", evocando um rito de lembrança e
visita à cemitérios (p.462). 
Após esse período, o autor comenta que se desenvolve a
laicização das festas e do calendário, facilitando em muitos
países a multiplicação de comemorações e a conseqüente
manipulação da memória coletiva, voltada para a lembrança de
fatos históricos, ligados aos conservadores e nacionalistas da
época (p.463).
Cita ainda o movimento científico do século XVIII destinado à
conservação da memória nacional, através da criação de
"Arquivos nacionais" e os "depósitos centrais de arquivos" e
com isso o desenvolvimento das bibliotecas (p.464-465). 
É importante ressaltar neste tópico a apresentação da
"fotografia" como importante meio de revolução dos sistemas
de memória, permitindo que se multiplique e popularize um
processo de memória preciso, que registre a memória temporal
e cronológica, criando uma memória social, que segundo Pierre
Bourdieu "As imagens do passado dispostas em ordem
cronológica,(...) evocam e transmitem a recordação dos
acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo
vê um fator de unificação nos monumentos da sua unidade
passada(...)"(p.466).

5. Os desenvolvimentos contemporâneos da memória.


Neste tópico o autor comenta a grande transformação da
memória coletiva no século XIX e XX, significando um "salto"
nos sistemas mnemônicos, tal qual a memória compilada em
fichas, significando a organização do conteúdo das bibliotecas,
semelhante a um "córtex cerebral exteriorizado", porém sem
meios próprios de rememoração (p.467).
Os desenvolvimentos da memória coletiva no século XX, como
comenta o autor, constituem uma verdadeira revolução da
memória , sendo a memória eletrônica o mais significativo
(p.467). 
O autor observa que há duas conseqüências importantes com
o aparecimento da memória eletrônica: a utilização da
calculadora nas ciências sociais e a utilização do computador,
constituindo um novo tipo de memória arquivista, o banco de
dados (p.468-469).
É também citada a memória hereditária, como uma mensagem
encerrada no código genético, constituindo uma memória
biológica semelhante a eletrônica, enquanto programa onde se
fundem duas funções: "a memória e o projeto". E
contrariamente aos computadores, a mensagem hereditária
não permite qualquer intervenção exterior, não podendo haver
mudança do programa (p.470-471).
É citado Freud, sobre a Interpretação dos sonhos, onde afirma
que "o comportamento da memória durante o sonho é
certamente significativo para toda a teoria da memória",
quando a memória é fonte de conhecimento latente, de
esclarecimento da vivência individual e coletiva da infância
(p.471).
É feita uma análise das grandes transformações porque passou
a memória coletiva, através da constituição das ciências sociais
e a instituição de lugares de memória coletiva topográficos e
simbólicos, determinando a renúncia a temporalidade linear em
proveito dos "tempos múltiplos" em arquivos que fazem a
memória histórica (p.473).

6. Conclusão: a valor da memória.


São apresentadas conclusões do estudo realizado no capítulo,
sendo possível extrair quatro conceitos fundamentais:
? A memória como elemento essencial na constituição da
identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma atividade
fundamental dos indivíduos e das sociedades de hoje (p.476);
? A memória coletiva é mais que uma conquista, sendo
também um instrumento e um objeto de poder (p.476);
? A constituição de uma memória coletiva ligada estritamente a
uma classe social dominante, como o caso da historiografia
etrusca, determinou uma ausência de memória quando a
civilização desapareceu (p.476);
? Em estudos sobre a memória familiar para o "homem
comum" africano e o europeu, descobriu-se que todo aquele
aparato de memória extra-oficial, "as recordações familiares, às
histórias locais, de clã, de famílias, de aldeias, às recordações
pessoais...,(...) de algum modo representam a consciência
coletiva de grupos inteiros (...), contrapondo-se a um
conhecimento privatizado e monopolizado por grupos precisos
em defesa de interesses constituídos" (p.477).

Em conclusão, o capítulo "memória", ao ser analisado, constitui


importante fonte de pesquisa em qualquer área de
conhecimento, porém em especial na área de história,
fornecendo conteúdo enriquecedor, relativo aos conceitos de
memória coletiva, estabelecidos a partir do estudo da função
social da memória.
 
Revisado por Editor do Webartigos.com