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Filosofia, Ética e

Responsabilidade Social
Margarida Maria Souto Fantoni
Margarida Maria Souto Fantoni

Filosofia, Ética e Responsabilidade Social

Belo Horizonte
Janeiro de 2016
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Edição
Grupo Ănima Educação

Vice Presidência
Arthur Sperandeo de Macedo

Coordenação de Produção
Gislene Garcia Nora de Oliveira

Ilustração e Capa
Alexandre de Souza Paz Monsserrate
Leonardo Antonio Aguiar

Equipe EaD
Conheça
o Autor
Margarida Fantoni é Mestra em
Administração/Gestão da Inovação pelas
Faculdades Integradas de Pedro Leopoldo,
graduada em Ciências Econômicas pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
pós-graduada em Gestão Estratégica da
Informação pela UFMG e em Administração
Financeira pela Fundação João Pinheiro
(FJP). Consultora independente e produtora
de conteúdos para Educação a Distância,
atuou profissionalmente junto à Secretaria de
Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG)
nas áreas de Gestão da Informação e Gestão
do Conhecimento; no Serviço de Apoio à
Micro e Pequena Empresa (SEBRAE); nas
áreas de Estratégias e Diretrizes e Inteligência
Empresarial; e na Federação das Indústrias
do Estado de Minas Gerais (FIEMG), na área
de Estudos Econômicos. Ministrou cursos de
Gestão da Informação e do Conhecimento
para a FJP, FEAD e SEPLAG-MG. Ministrou
disciplinas de Teoria Econômica e Economia
Monetária para cursos de graduação em
Administração e Comércio Exterior da UNA.
Apresentação
da disciplina
Nesta disciplina, voltada para futuros profissionais da área de Publicidade
e Propaganda, serão oferecidos importantes subsídios para a sua
reflexão, contribuindo para que a sua atuação no mercado de trabalho
se faça de maneira responsável, pautada em princípios morais e éticos.

O estudo se iniciará com a apresentação e discussão de conceitos


gerais em torno da Ética e da Moralidade, tendo como pano de fundo a
dinâmica das relações sociais e políticas que regem a vida em sociedade.
Você vai se defrontar com questões relativas à origem e evolução da
Sociedade, incluindo noções sobre Responsabilidade Social, além de
conceitos básicos sobre a origem e formação do Estado ou Sociedade
Política, suas finalidades e funções.

A abordagem culminará na análise das forças políticas que interagem


na Sociedade, palco e insumo dos processos de comunicação que
permeiam as relações sociais. Essa estreita vinculação entre a
comunicação e a política será tratada em capítulo especial dedicado à
Comunicação Política.

Sendo a Ética o fundamento básico da ciência da comunicação, também


serão discutidos os meios de comunicação, suas características e
técnicas de abordagem, os direitos e deveres dos profissionais de
comunicação, assim como a responsabilidade social destes últimos.

Uma visão mais abrangente da disciplina será dada com a abordagem


de temas de grande sensibilidade no contexto dos processos de
comunicação, relacionados com a Democracia e seus principais
modelos, os Direitos Humanos e a Cidadania - incluindo a sua
dinâmica no Brasil, analisados sob o prisma da inquietante questão da
desigualdade social.

Mãos à obra, pois a jornada vai começar!


UNIDADE 1  003
Ética e sociedade 004
Conceito de ética, moral e moralidade  006
Sociedade civil e noções de responsabilidade social  023

UNIDADE 2  041
Ética e Política 042
Estado e poder  044
Organização social e política  067

UNIDADE 3  081
Ética na Comunicação 082
A ética nos meios de comunicação  084
Direitos e deveres dos profissionais de comunicação  095
A responsabilidade social dos profissionais de comunicação  107

UNIDADE 4  121
O papel da comunicação 122
Comunicação política  124
Relação entre comunicação e política  147
UNIDADE 5  162
Modelos de Democracia 163
A Caracterização da Democracia  165
A Democracia Representativa (Indireta)  170
A Democracia Associativa  187
A Democracia Deliberativa 191

UNIDADE 6  202
Direitos Humanos 203
A Doutrina dos Direitos Humanos  205
Direitos e Garantias Constitucionais  218

UNIDADE 7  243
Cidadania 244
A Cidadania em Perspectiva  246
Direitos Políticos Vinculados à Cidadania  262

UNIDADE 8 279
Cidadania e Desigualdade Social 280
Etnia, Gênero e Performances Identitárias 282
Cidadania e Direitos Humanos no Brasil 297
Revisão 312

REFERÊNCIAS  316
Ética e sociedade
Introdução

Reflita e responda rapidamente à seguinte indagação: qual é a


diferença entre Ética, Moral e Moralidade?

Se a pergunta deixou você confuso, não se aflija. É fato que, no dia


a dia, as pessoas costumam utilizar essas expressões de forma
sinônima. No entanto, embora semelhantes e correlacionados,
seus significados são diferentes, conforme você verá ao longo
desta Unidade. Sob qualquer perspectiva, constituem princípios
fundamentais que norteiam a vida em Sociedade.

A Ética, a Moral e a Moralidade tem sido objeto de estudo e


controvérsia ao longo do tempo. Originárias do período Clássico, as • Conceito de ética,
moral e moralidade
reflexões, de caráter eminentemente filosófico, foram conduzidas
• Sociedade
primeiramente pelos Sofistas, seguidos por Sócrates, Platão e
civil e noções de
Aristóteles, seus maiores expoentes. Tais reflexões evoluíram a responsabilidade
partir das contribuições de ilustres pensadores das eras Cristã, social
Moderna e Contemporânea, sendo fundamental a compreensão
dos seus fundamentos e implicações para as relações humanas.

A origem de toda a problemática está na própria convivência entre


os homens. Influenciados pelas condições objetivas de vida e pelo
contexto histórico, os indivíduos assimilam determinados valores e,
estabelecendo-se em grupos, criam regras de comportamento que
assumem caráter de obrigatoriedade para todos os integrantes.
Mas é importante ressaltar que os indivíduos têm preservada a
sua liberdade de escolha. A obrigatoriedade de conduta decorre
do fato de que os indivíduos acatam internamente as normas
estabelecidas e aplicam-nas de forma espontânea, por julgá-
las válidas e valorosas para o alcance da finalidade social. Este é
o pano de fundo da discussão que faremos ao longo da primeira
parte desta Unidade.

Compreender os meandros da Ética, da Moral e da Moralidade


implica compreender o próprio processo de formação e evolução da
Sociedade, em uma visão dinâmica e mutável do comportamento
humano à luz das transformações históricas que se processam no
ambiente sociocultural.

Observa-se que a Sociedade é composta por grupos sociais


organizados e diversificados, os quais, à semelhança e em
consonância com os indivíduos que os integram, são dotados de
valores mutáveis ao longo do tempo, sendo regidos por normas de
conduta que lhe são próprios.

Dentre tais grupos, figuram as empresas, tipo especial de


organização social de fundamental importância para o processo de
desenvolvimento socioeconômico. As empresas são responsáveis
pelas engrenagens do sistema produtivo que geram a riqueza de
uma nação e, por conseguinte, viabiliza o sustento do seu povo.
Assim, as empresas são, simultaneamente, sujeito e objeto de
grandes implicações de natureza moral e ética, requerendo especial
atenção.

Tais aspectos serão abordados na segunda parte da Unidade, que


incluirá uma discussão acerca da origem e formação histórica da
Sociedade, além do fenômeno da Responsabilidade Social.
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Ética, moral e
moralidade
A título de provocação, vamos iniciar esta discussão pontuando
uma questão absolutamente quotidiana, a qual você já pode ter
vivenciado ou testemunhado:

Você acorda tarde em uma segunda-feira e verifica na sua


agenda que tem um importante compromisso de trabalho logo
no início da manhã. Você pega o seu carro e, por azar, ocorre
um acidente que provoca um grande engarrafamento na via
em que você está trafegando. Você percebe que vai se atrasar
muito, e que isso pode significar uma repreensão por parte da
chefia imediata, ou mesmo o seu desligamento da empresa, já
que o seu chefe está “na sua cola” e circulam rumores de uma
lista de demissões. O que você faz?

a. Liga para a empresa e diz que está passando muito mal e,


então, se dirige a uma emergência hospitalar para simular
um mal-estar e pegar um atestado médico;

b. Liga para a empresa, explica a situação, e avisa que


infelizmente vai se atrasar ou faltar à reunião;

c. Na primeira oportunidade, deixa o carro estacionado em


qualquer lugar e vai em busca de um taxi num trecho mais
adiante;

d. Passa por cima do canteiro central, acostamentos ou


passeios de pedestres, tentando se desviar do trânsito, até
atingir uma via secundária e sair do engarrafamento o mais
depressa possível.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Enfrentamos situações problemáticas todos os dias, as quais se


traduzem como verdadeiros dilemas morais. Sejam de maior ou
menor complexidade, eles implicam sempre em uma tomada de
decisão que trará consequências individuais e às vezes também
coletivas, de maior ou menor gravidade. Mas como determinar a
melhor decisão a ser tomada? Existem regras ou critérios claros
para nortear as nossas decisões e a nossa forma de proceder?

À luz de tais indagações, entramos no sensível terreno da Ética,


da Moral e da Moralidade, sendo fundamental o esclarecimento
acerca dos respectivos conceitos, para o que serão feitas algumas
considerações prévias.

Destaca Vásquez (1993) que desde as mais primitivas épocas da


humanidade, o homem adota um comportamento prático-moral,
denominado Moral Efetiva, que orienta a sua vida em comunidade,
sendo este comportamento dinâmico e mutável ao longo do tempo,
Enfrentamos
em consonância com o respectivo contexto histórico. situações
problemáticas todos
Essa Moral Efetiva, pautada em um código prático e objetivo os dias, as quais
se traduzem como
da conduta humana, está intrinsecamente ligada à liberdade do
verdadeiros dilemas
indivíduo, que a aceita intimamente e legitima as normas morais morais.
estabelecidas, tomando-as para si como obrigatórias. Com base
em tais normas, o indivíduo adota por vontade própria as ações
tidas como boas e valiosas e, segundo os mesmos critérios, critica
as ações praticadas pelos outros, formulando juízos.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Norma e ação, portanto, são os dois elementos básicos que compõem a

Moral Efetiva, que se decompõe nos planos ideal e real, respectivamente.

Quando a regra moral (traduzida no plano ideal pela norma) se transforma

em ação no plano da vida real, corresponde à noção de Moralidade,

compreendida como uma expressão do código moral vigente, permeando

de forma concreta as relações humanas. Em suma, considera-se que

moral é a norma, enquanto Moralidade é a ação que dela decorre, seja em

âmbito individual ou coletivo.

Ressalta-se que a Moral Efetiva (norma + ação), sob um prisma


mais generalista e desvinculado das questões objetivas do
comportamento humano, é também objeto de estudos teóricos
Ética, relacionada
quanto às suas especificações ou princípios gerais, natureza, com os aspectos
objetivos e evolução ao longo do tempo. A partir daí, avançamos teóricos da Moral
do sensível campo da Moral para o não menos delicado campo da Efetiva, não se
confunde com
Ética.
esta última, que
é focada nos
A Ética, relacionada com os aspectos teóricos da Moral Efetiva, não aspectos práticos
se confunde com esta última, que é focada nos aspectos práticos
do comportamento
humano.
do comportamento humano. No entanto, deve-se destacar a íntima
relação entre ambas: as análises e tratativas oferecidas pela Ética
influenciam as práticas morais e estas, por sua vez, constituindo o
objeto de investigação teórica da Ética, trazem a ela novas luzes,
em um processo de retroalimentação constante.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Neste ponto, torna-se oportuna a apresentação dos conceitos


formais de Ética, Moral e Moralidade:

A moral é um sistema de normas, princípios e valores,


segundo o qual são regulamentadas as relações
mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a
comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas
de um contexto histórico e social, sejam acatadas
livres e conscientemente, por uma convicção íntima, e
não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal.
(VÁSQUEZ,1993, p.69).

[...] a moralidade é a moral em ação, a moral prática e


praticada. (VÁSQUEZ, 1993, p. 52).

A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral


dos homens em sociedade. (VÁSQUEZ,1993, p.12).

A ética é a teoria
Os Fundamentos da Moral ou ciência do
comportamento
Entendida a Moral como o conjunto mutável e dinâmico de normas moral dos homens
em sociedade.
de comportamento que regulam a vida em sociedade, cabe ressaltar
os dois elementos básicos que a caracterizam:

a. A origem social

Já dizia Aristóteles, filósofo Clássico, que “o homem é por


natureza um animal social”. E é exatamente a vida em sociedade
que viabiliza o surgimento da Moral, tendo como pré-requisitos
a convivência coletiva e a existência de um determinado nível
de consciência orientando as ações dos homens.

Essa consciência é de suma importância em se tratando da


própria essência da Moral, porque traz à tona o princípio da
responsabilização dos indivíduos pelos atos que praticam,
sob o pressuposto da liberdade de escolha. É, pois, por sua
própria vontade que o homem reconhece e aceita intimamente
a norma moral, arcando com os ônus e bônus decorrentes das
suas ações.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Sem liberdade de escolha, não há que se falar em comportamento

moral, pois a ação, nesse caso, traduzirá um ato irreflexo e automático,

motivado pela coação. Assim, ainda que a Moral apresente caráter

eminentemente social, é a consciência individual que a legitima.

b. O caráter histórico

A trajetória evolutiva do homem, nos campos material e


espiritual, implica um permanente processo de transformação
das relações sociais, com a consequente substituição das
normas morais que as orientam pelos novos padrões de
comportamento que emergem e são considerados aceitáveis.
Isso faz da Moral um fenômeno essencialmente histórico,
determinado pelas condições objetivas que permeiam a vida
em sociedade, refletindo os problemas e reflexões peculiares a
cada época.

Cabe ressaltar que as normas morais também são variáveis


de acordo com cada sociedade, razão pela qual não podemos
falar de uma Moral única, aplicável a todos os povos, posto que
suas origens, motivações e contextos são igualmente diversos.

O caráter mutável e dinâmico da Moral suscita a discussão


em torno da sua evolução ao longo do tempo e a decorrente
mensuração do progresso moral da humanidade.

Vásquez (1993) destaca que o progresso histórico da


humanidade se opera - ainda que de forma não planejada
e heterogênea entre os povos e entre os indivíduos - nos
campos da matéria, da organização social e da cultura,
criando condições para a ocorrência do progresso moral, que
pode efetivar-se ou não. Em suma, os impactos do progresso
histórico podem ser positivos ou negativos do ponto de vista
moral.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O autor aponta três critérios efetivos para a identificação do


progresso moral:

• ampliação espontânea das relações sociais reguladas


pelas normas morais, em substituição a relações sociais
anteriormente regidas apenas por normas externas, como
as do direito;

• ampliação do nível de consciência dos indivíduos, com a


consequente expansão do grau de responsabilização pelos
seus atos;

• incremento do grau de articulação dos interesses


individuais e coletivos: “A elevação da moral a um nível
superior exige tanto a superação do coletivismo primitivo,
no âmbito do qual não podia desenvolver-se livremente a
personalidade, como do individualismo egoísta, no qual o
indivíduo se afirma somente às custas da realização dos
demais” (VÁSQUEZ, 1993, p.46).

Cabe ressaltar, por fim, que o comportamento humano apresenta


múltiplas dimensões, derivadas das diversas relações que o homem
estabelece com o mundo que o cerca, traduzindo necessidades que
lhe são próprias. Tais dimensões evidenciam-se particularmente
na religião, na política, no direito, no trato social e na ciência, sendo
importante discutir a sua relação com a Moral.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Quadro 1 – A Moral frente à diversidade


do comportamento humano

A Moral não decorre da Religião, sendo


inclusive anterior a ela, como demonstra
a experiência com os povos primitivos,
que mantinham códigos próprios de
conduta sem que houvesse uma religião
estabelecida. No entanto, é fato que a
Moral e
Religião impõe determinados códigos de
Religião
conduta nas relações entre os homens, tendo
seus imperativos morais emanados dos
mandamentos divinos. Há, portanto, uma
moral de inspiração religiosa, mas a Religião
não é indispensável para a efetivação da
Moral.

Diferentemente da Moral, que preconiza


a conduta entre indivíduos e entre estes
e a comunidade, a Política se materializa
mediante a formação de grupos, sejam
eles classes, povos ou nações. Tendo por
objetivo a preservação ou a transformação
da realidade social, a Política pressupõe
a atuação organizada e consciente dos
grupos em prol do interesse coletivo. Moral
e Política constituem dois eixos distintos e
Moral e independentes do comportamento humano,
Política muitas vezes antagônicos. O grande desafio
que se apresenta à prática política é o alcance
do equilíbrio entre o moralismo abstrato,
que equivocadamente despreza dados
objetivos da realidade, e o realismo político
que, marcado pela busca da objetividade
e utilitarismo máximos, ignora elementos
essenciais da moralidade.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Direito apresenta estreita conexão


com a Moral, na medida em que ambos
traduzem normas de comportamento que se
apresentam como obrigatórias e imperativas,
Moral e promovendo a coesão social, embora no
Direito último caso não haja a incidência de coerção,
substituída pela convicção íntima. Além
disso, ambas possuem caráter histórico,
sendo que as mudanças sociais também
implicam mudanças no Direito.

Outro conjunto de normas que regula o


comportamento em sociedade diz respeito
ao Trato Social. Assim como a Moral, o Trato
Social também apresenta caráter histórico,
mutável e é considerado obrigatório, sem a
Moral
presença de mecanismos coercitivos. Porém,
e Trato
diferentemente da Moral, ele traduz uma
Social
regulamentação meramente formal e exterior,
na medida em que a sua aplicação nem
sempre é amparada pela convicção íntima,
traduzindo um mero convencionalismo
visando ao acolhimento social.

A Moral não tem caráter científico, na medida


em que possui uma estrutura normativa e
prescritiva de orientação prática. No entanto,
relaciona-se com a Ciência na medida em que
fornece a ela subsídios para o estudo teórico
Moral e dos seus fundamentos, nos domínios da
Ciência Ética. Por outro lado, há que se atentar para
a responsabilidade moral dos cientistas no
exercício das suas atividades, incluindo as
naturais consequências que suas pesquisas
venham a trazer para a sociedade, para o bem
ou para o mal.

Fonte: Elaborado pela autora com base em Vásquez (1993).

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Fundamentos da Ética

Afirma Vásquez (1993) que a Ética não cria a Moral, embora tenha
por objeto os princípios, normas ou regras de comportamento moral
dos homens. E ainda:

A ética depara com uma experiência histórico-social no


terreno da moral, ou seja, com uma série de práticas
morais já em vigor e, partindo delas, procura determinar
a essência da moral, sua origem, as condições objetivas
e subjetivas do ato moral, as fontes da avaliação moral,
a natureza e a função dos juízos morais, os critérios
de justificação destes juízos e o princípio que rege a
mudança e a sucessão de diferentes sistemas morais.
(VÁSQUEZ, 1993, p.12).

É notório o caráter científico atribuído ao estudo da Ética que,


focada em formulações teóricas, busca o estabelecimento de
conceitos, hipóteses e teorias pautadas na racionalidade e na Moral vem do latim
comprobabilidade - a exemplo de qualquer ciência, em que pesem “mos”, que quer
as dificuldades intrínsecas ao objeto de estudo em questão. dizer “costume”, em
consonância com
Segundo Vásquez (1993), a Ética pode ser entendida como a ciência
a noção de norma
da Moral. adquirida pelo
homem por hábito.

Segundo aponta Vásquez (1993), os significados usualmente atribuídos à

Ética e à Moral, bem como a correlação estabelecida entre elas - enquanto

ciência e seu objeto - não correspondem à origem etimológica das

respectivas palavras. Moral vem do latim “mos”, que quer dizer “costume”,

em consonância com a noção de norma adquirida pelo homem por hábito.

Já Ética vem do grego “ethos”, que remete a “modo de ser” também

vinculado à noção de forma de vida ou comportamento adotado pelo

homem.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

No tocante ao caráter científico da Ética, vale a pena destacar sua


relação com as demais ciências que lhe dão suporte e sustentação.

Quadro 2 – A Ética e suas vinculações com as demais ciências

Emancipada da Filosofia, de onde se origina e


com a qual mantém suas raízes, a Ética tem
como principal desafio o distanciamento dos
princípios absolutos com que no passado os
teóricos pretendiam tratar os problemas éticos,
Ética e firmando-se em uma visão racionalista do mundo.
Filosofia A Ética parte de uma visão filosófica do mundo,
que constitui o cerne das suas abordagens,
onde o homem é um ser social, transformador e
histórico. Para suas investigações, se apropria de
disciplinas filosóficas como a Lógica, a Filosofia
da Linguagem e a Epistemologia.

A Moral, embora tenha caráter social, é processada


internamente, sendo absolutamente pessoal e
íntima. E sendo a conduta humana caracterizada
Ética e pela subjetividade e pelo psíquico, a Ética não
Psicologia pode prescindir da análise dos fundamentos da
Psicologia, que contribui para uma compreensão
mais ampliada do comportamento moral dos
homens.

As Ciências Sociais, tais como a Antropologia


Ética e Social e a Sociologia, são fundamentais
Ciências para a compreensão do comportamento do
Sociais homem enquanto ser social engajado em uma
comunidade, protagonista das relações sociais.

Tendo por objeto de estudo as questões


relacionadas com o funcionamento do sistema
Ética e
de produção, as Ciências Econômicas elucidam
Ciências
para o campo da Ética os impactos de tal sistema
Econômicas
sobre a geração e a distribuição da riqueza, de
profundas implicações no campo moral.

A relação entre Ética e Direito segue o mesmo


sentido da relação anteriormente apresentada
Ética e
entre a Moral e o Direito. Ambas as disciplinas
Direito
têm por objeto de estudo o comportamento do
homem

Fonte: Elaborado pela autora com base em Vásquez (1993).

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Outro aspecto de suma relevância diz respeito ao fato de que,


sendo a Moral dinâmica e mutável ao longo do tempo, o estudo
da Ética reconhece a diversidade de princípios e normas morais
estabelecidos ao longo do tempo. À luz dos respectivos contextos
históricos, toma tais princípios e normas como ponto de partida,
porém sem se identificar com nenhum em particular. Isso confere
generalidade aos seus pressupostos e assegura o caráter teórico-
científico da Ética.

Deve-se ressaltar que a evolução histórica dos princípios e normas


morais propicia o estabelecimento de variadas doutrinas éticas -
marcadas pelos problemas e reflexões próprios de cada época, as
quais influenciam-se mútua e sucessivamente. Uma síntese dessas
doutrinas é apresentada na sequência, a partir das reflexões de
Vásquez (1993).

A reflexão é centrada
A Ética Grega na concepção do
bem e na virtude,
receita eficaz para
As questões éticas, tratadas no âmbito da filosofia grega, podem que o homem possa
ser subdivididas em três grandes movimentos, iniciando-se com os agir corretamente e
Sofistas (século V a.C.), que elevaram ao máximo a preocupação alcançar a felicidade.
com os problemas políticos e morais do homem, chegando a um
relativismo exacerbado em que o homem é a medida de todas as
coisas.

O segundo movimento veio com os grandes Clássicos, notadamente


Sócrates, Platão e Aristóteles. Opondo-se diretamente aos Sofistas,
a Ética racionalista de Sócrates (470-399 a.C.) manteve o foco no
homem, mas sem o relativismo sofista exacerbado. A reflexão é
centrada na concepção do bem e na virtude, receita eficaz para que
o homem possa agir corretamente e alcançar a felicidade.

Por sua vez, a Ética de Platão (427-347 a.C.), discípulo de Sócrates,


é centrada na filosofia política, em um contexto em que a Pólis
(cidade-estado grega) desempenha papel central na vida social e
moral dos indivíduos. Em sua visão metafísica do mundo (dualismo

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

e ideias permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis, de validade


universal), Platão postula que a alma deve elevar-se ao plano das
ideias para purificar-se e, assim, alcançar o bem absoluto e a
felicidade, mediante a prática de virtudes expressas na vida política,
em sociedade.

Já Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, contesta a visão


de seu mestre quanto à existência de um plano ideal das ideias
dissociada da vida concreta dos indivíduos. Cabe a estes a busca
incessante da felicidade, viabilizada pelo desenvolvimento das
virtudes intelectuais e práticas (éticas), aplicadas no exercício das
relações sociais e políticas da Pólis.

Deve-se ressaltar que, sendo a Pólis um palco de atuação exclusiva


da elite grega, tanto Platão quanto Aristóteles restringem a esta Para os Estóicos, a
Pólis deixa de ser
última o pleno desenvolvimento da vida moral e o alcance da
o centro da vida
verdadeira felicidade, inacessível aos demais estratos sociais. política e social,
sendo o universo e
seus fundamentos
Observam-se, como importantes elementos presentes à Ética Grega
físicos, a mola
Clássica, a estreita ligação com a política, a exaltação das virtudes propulsora da Moral.
e da contemplação como a ponte para o alcance da felicidade, bem
como a razão favorecendo o necessário equilíbrio das paixões.

Por fim, destaca-se o movimento dos Estóicos e Epicuristas que se


seguiu à desagregação do mundo greco-romano, entre os séculos
IV e III a.C., desencadeando novas reflexões acerca da Ética. Para
os Estóicos, a Pólis deixa de ser o centro da vida política e social,
sendo o universo e seus fundamentos físicos, a mola propulsora
da Moral. Neste contexto, Deus é o princípio fundamental de todas
as coisas e a fatalidade é o elemento que rege a vida dos homens.
A Moral é traduzida por uma vida em harmonia com o universo,
amparada pela razão e imune à conturbação das paixões, de forma
independente da vida política e social.

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Epicuristas, por seu turno, descaracterizam a intervenção


divina sobre os fenômenos físicos e a vida do homem, devendo
este último ser inteiramente livre para buscar o bem e a felicidade
mediante o gozo de prazeres saudáveis, sobretudo os vinculados à
vida espiritual.

FIGURA 1 – Ética Grega

Fonte: Elaborado pelo autor

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Ética Cristã Medieval

A sociedade medieval tem sua sustentação na Igreja que, por


intermédio da religião, rege o código de conduta moral dos homens,
constituindo um guia para a salvação da alma eterna.

A Ética Cristã Religiosa, neste sentido, é influenciada pelos


desígnios divinos, ficando o bem e a felicidade vinculados ao
exercício das virtudes morais e teológicas. A ordem humana é
totalmente subordinada à ordem divina.

Deve-se destacar a importante contribuição do cristianismo para a


consolidação da ideia de igualdade entre os homens – ainda que A ordem humana
é totalmente
na sociedade medieval ela possa parecer sem sentido -, igualdade
subordinada à ordem
essa que assume uma conotação especial justificada pelo contexto divina.
histórico em que se insere. Certamente não se trata de igualdade
material, e sim, de igualdade espiritual a ser conquistada após a
morte, no plano sobrenatural, como recompensa por uma vida
virtuosa e de contemplação a Deus.

Do ponto de vista da Ética Cristã Filosófica, a religião cristã


subordina a Filosofia à reflexão em torno das verdades divinas e das
questões teológicas (como a fé, a esperança e a caridade). A Ética
Cristã Filosófica, assim, nada mais é que uma Ética Teológica, de
índole religiosa e dogmática, segundo aponta Vásquez (1993). Seus
principais expoentes são Santo Agostinho (354-430), ainda nos
primórdios do cristianismo, e São Tomás de Aquino (1226-1274).

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unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

FIGURA 2 – Ética Cristã

Fonte: Elaborado pelo autor

A Ética Moderna

Vásquez (1993) delimita a Ética Moderna ao período compreendido


entre o século XVI e o início do século XIX, sendo caracterizada,
sobretudo, pelo antropocentrismo, em contraposição ao
teocentrismo da sociedade medieval precedente.

O homem volta a ser o foco das atenções, num contexto de


grandes transformações nas esferas: econômica, amparada pelo
desenvolvimento científico; social, motivada pela poderosa classe
burguesa em ascensão; e estatal, com a configuração do Estado
Moderno em substituição ao Estado Absolutista decadente, ao que
se seguiu o enfraquecimento da Igreja. Observa-se que:

Na nova sociedade, consolida-se um processo de


separação daquilo que a Idade Média unira: a) a razão
separa-se da fé (e a filosofia, da teologia); b) a natureza,
de Deus (e as ciências naturais, dos pressupostos
teológicos); c) o Estado, da Igreja; e d) o homem, de
Deus (VÁSQUEZ, 1997, p. 240).

20
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Iluminismo, movimento desencadeado no século XVIII, representa


o ápice das mudanças processadas no período, quando a Moral
torna-se efetivamente laica sob o prisma da razão.

O maior expoente da Ética Moderna é Kant (1724-1804), que vê no


homem um ser livre, ativo e protagonista das transformações que
se processam na sociedade. A Ética de Kant é formal e autônoma,
postulando um dever universal para todos, independentemente
de posição ou classe social, bem como enfatizando a consciência
individual como guia do comportamento moral.

FIGURA 3 – Ética Moderna

Fonte: Elaborado pelo autor

21
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Ética Contemporânea

Vásquez caracteriza como contemporâneas as doutrinas éticas que


repercutem nos dias atuais, originárias do século XIX em diante.

O Estado Liberal, sustentado pelo modo capitalista de produção, foi


marcado pelo forte acirramento das contradições e desigualdades
socioeconômicas - apesar de o espetacular progresso científico
e tecnológico que o acompanhou -, o que resultou em conflitos
sociais de grandes proporções e implicações até os dias atuais.

A Ética Contemporânea, neste sentido, se contrapõe ao formalismo


de Kant - exacerbado pelo racionalismo absoluto de Hegel (1770-
1831), trazendo à tona a concretude do homem enquanto indivíduo,
bem como o papel central do homem no contexto de suas relações
sociais, tendo Karl Marx (1818-1883) como expoente desta última
abordagem.

Também caracteriza a Ética Contemporânea o reconhecimento


do componente irracional do comportamento humano, como
sugerem as abordagens do existencialismo, do pragmatismo e da
psicanálise.

22
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Sociedade civil e noções


de responsabilidade
social
Sociedade e Sociedade Civil

Sendo a vida social o palco em que se configuram e desenrolam a


Moral e a Ética, torna-se fundamental a compreensão dos conceitos
de Sociedade e Sociedade Civil, partindo da discussão em torno da
sua formação histórica.

Segundo apontam Menezes e Fantoni (2015), são duas as correntes


explicativas acerca da formação da sociedade:

a. Organicista: originária dos Clássicos, enfatiza a sociedade


como uma reunião de indivíduos interagindo de modo
solidário e ordenado, em busca de uma forma de
organização superior. Assim, “[...] o homem é induzido
fundamentalmente por uma necessidade natural, porque
o associar-se com os outros seres humanos é para ele
condição essencial de vida”. (DALLARI, 1998, p. 8). A
sociedade, sob essa perspectiva, resulta da conjugação de
um impulso associativo natural e da vontade humana;

b. Mecanicista: deriva da corrente filosófica jusnaturalista,


que vê na sociedade o resultado de um acordo de vontades
livremente pactuado entre os indivíduos, mediante vínculo
associativo (ou contrato social hipotético), visando à
realização de objetivos comuns. Explica Soares (2011) que
a sociedade teria surgido não por um impulso associativo
natural, mas a partir de três hipóteses: exclusivamente pela
vontade humana, livremente pactuada; como resultado da
evolução da vontade humana, em perspectiva material ou
espiritual; ou pela predisposição e necessidades humanas.

23
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Hobbes (1588-1679) foi o maior expoente dessa teoria contratualista


de formação da sociedade, relacionando o associativismo natural
a um estágio preliminar do comportamento humano (Estado de
Natureza), quando imperava a barbárie e a desordem social que lhe
são inerentes.

Assim, o Estado de natureza representa, para Hobbes, uma


permanente ameaça para a sociedade, aplicando-se não apenas
a eras primitivas da humanidade, como também a épocas mais
recentes, pelo que se justifica a criação de instituições políticas para
reprimir as ações dos indivíduos. Em suma, apenas um contrato
hipotético firmado entre os indivíduos pode garantir a normalidade
da vida social.
o Estado de
Impõe-se, assim, a consolidação de um poder central, representado natureza representa,
para Hobbes, uma
pelo Estado (ou pelo soberano, no caso do Estado Absolutista
permanente ameaça
Monárquico) para garantir o cumprimento dos termos do Contrato para a sociedade.
Social, o qual representa os interesses da coletividade.

Apesar da diferença de enfoques em torno da formação da


sociedade (organicista x contratualista), Bonavides (2000), citando
Talcott Parsons, afirma que é possível definir genericamente a
Sociedade como sendo “[...] todo o complexo de relações do homem
com seus semelhantes”. (BONAVIDES, 2000, p.22).

Há autores que só admitem o vocábulo Sociedades, no plural, face


ao reconhecimento da existência de não apenas um, mas de uma
pluralidade de grupos com características absolutamente diversas
entre si. Outros se referem a Sociedades de sociedades, e não
Sociedades de indivíduos.

Soares (2011), por sua vez, caracteriza a Sociedade como uma


reunião de indivíduos submetidos a uma dada divisão social do
trabalho, mediante a estruturação de complexas relações e regras
de conduta evoluídas historicamente.

24
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Ressalta-se que a Sociedade, como tal, pressupõe a existência


de três elementos básicos constituintes, sendo eles, segundo
Dallari (1998): finalidade (valor social), pautada no bem comum;
manifestações de conjunto (ordem social e jurídica), com foco em
objetivos comuns e compartilhados, amparados pela lei; e poder
social, capaz de impor a vontade a indivíduos ou grupos mediante o
emprego da força, configurando o poder político.

Finalidade (Valor Social)


A finalidade ou valor social está relacionada com a liberdade
humana, respaldada pela corrente finalista de pensamento. Esta
última sugere que o homem é livre para escolher a finalidade social,
ainda que a determinação do bem comum (seu objetivo final)
A finalidade ou
seja uma tarefa pouco trivial, dada a diversidade de preferências valor social está
individuais que, não raro, motivam embates entre os indivíduos. relacionada com a
liberdade humana,
respaldada pela
Difere, portanto, da corrente determinista, que afirma estar o homem
corrente finalista de
submetido a leis naturais sujeitas ao princípio da causalidade e que pensamento.
estas, estando fora do seu controle, não lhe permitem orientar a
vida social segundo um objetivo maior, implicando em uma postura
conformista de submissão às leis.

Manifestações de conjunto (Ordem social e jurídica)

O alcance da finalidade social deve decorrer de manifestações


de conjunto dos indivíduos, de forma harmoniosa e ordenada,
mediante três requisitos: reiteração, ordem e adequação.

A busca do bem comum deve ser frequentemente reiterada


mediante um conjunto harmônico de atos individuais e coletivos.
Tal harmonia é obtida pelo estabelecimento de uma ordem, sendo
esta estabelecida por normas de comportamento social que se
diferenciam das leis do direito. Estas últimas também resultam

25
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

da vontade geral, mas são imperativo-atributivas, implicando na


exigência do seu cumprimento ou na punição do infrator.

A garantia de compatibilidade das manifestações de conjunto com


a finalidade de que se revestem é dada pela adoção de métodos
adequados, em consonância com os fatores histórico-culturais.

O Poder social

A necessidade do poder social é um assunto controverso, tendo


encontrado muitos opositores ao longo do tempo. A discussão
estende-se dos Clássicos (cínicos, estóicos e epicuristas) ao
Cristianismo, quando se verifica a condenação do exercício do
A necessidade do
poder de um homem sobre o seu semelhante.
poder social é um
assunto controverso,
Porém, conforme apontam Menezes e Fantoni (2015), até mesmo tendo encontrado
nos primórdios do Cristianismo já se observava a consciência muitos opositores ao
longo do tempo.
de que as regras estabelecidas no reino dos homens devem ser
respeitadas, o que se depreende da célebre recomendação de “dar
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (DALLARI, 1998,
p. 16).

Seguiram-se as correntes anarquistas, vinculadas às liberdades


individuais, que ao longo do tempo evoluíram para teses mais
radicais. Toma-se, por exemplo, o socialismo contemporâneo de
Karl Marx (1818 – 1883) em seus objetivos de deposição do poder
do Estado e das instituições burguesas por ele sustentadas, tendo
como pano de fundo a ideia de que o poder social não é legítimo,
nem necessário.

26
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

No entanto, Menezes e Fantoni (2015) apontam que a história


da humanidade é pontuada pela presença de um poder político
regulador, em resposta à desigualdade dos indivíduos nos diversos
planos da existência; ou pela subordinação a uma entidade
divina associada ao detentor do poder (representado, no Estado
Absolutista Monárquico, pelo direito divino do soberano). A partir do
Estado Moderno, surge a ideia do povo como a verdadeira fonte do
poder, exercido em seu nome por uma representação.

As considerações acerca dos três elementos básicos constituintes


da Sociedade, aqui apresentados, suscitam a discussão relacionada
com o conceito de Sociedade Civil. Citando Bobbio, Matteucci e
Pasquino (1998), Menezes e Fantoni (2015) enfatizam que:

[...] o surgimento da sociedade civil está relacionado


com as necessidades básicas e progressivas dos
indivíduos em torno da instituição de um poder comum A partir do Estado
a todos (tal como diziam os contratualistas sobre Moderno, surge a
a formação histórica da sociedade), voltado para a ideia do povo como
garantia da paz, da liberdade, da propriedade e da
segurança, de modo a apaziguar os conflitos entre os
a verdadeira fonte do
indivíduos. Daí originou-se a sociedade civil, conceito poder, exercido em
originalmente vinculado à noção de sociedade política seu nome por uma
ou Estado. (MENEZES e FANTONI, 2015, p.148-149, representação.
grifo do autor)

As autoras citam, ainda, que os filósofos Hobbes (1588-1679)


e Locke (1632-1704), acresceram à expressão Sociedade
Civil o significado de civilidade, que passou a representar,
simultaneamente, as noções de Sociedade Política e civilizada.

Rosseau (1712-1778), por sua vez, não admitia a caracterização


da Sociedade Civil como Sociedade Política (ou Estado), tendo
em vista o alto nível de desorganização então observado no tecido
social, marcado pelas “[...] usurpações dos ricos, o banditismo dos
pobres e as paixões desenfreadas de todos”. (BOBBIO, MATTEUCCI
e PASQUINO,1998, p. 1207). Assim caracterizada, a Sociedade Civil
equiparava-se, na visão de Rosseau, ao Estado de Natureza de
Hobbes.

27
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Hegel (1770-1831), também rejeitava a identificação da Sociedade


Civil com uma Sociedade Política ou Estado, caracterizando-a
como um estágio que precede o Estado, que surgiria apenas mais
tarde, sustentado pela normatividade da lei e pela justiça.

Já Karl Marx (1818-1883) associou o conceito de Sociedade


Civil à noção de sociedade burguesa, na medida em que essa,
emancipada do Estado e em consonância com os ideais liberais,
tinha seus direitos naturais preservados a todo custo pelo próprio
Estado, em detrimento das classes desfavorecidas. A Sociedade
Civil, assim, constituiria um pré-Estado, semelhante ao Estado de
Natureza definido pelos jusnaturalistas e por Hobbes, caracterizado
por povos primitivos (ou selvagens) candidatos à evolução para
uma forma superior.

Por fim, Gramsci (1891-1937) reforça a distinção entre os conceitos


de Sociedade Civil e Sociedade Política ou Estado, sendo a primeira
o espaço da atuação dos interesses privados, enquanto a segunda
refletiria a hegemonia do grupo dominante e o comando sobre a
sociedade pela ordem jurídica.

A partir dessas considerações, a Sociedade Civil é apresentada


como:

[...] a esfera das relações entre indivíduos, entre


grupos, entre classes sociais, que se desenvolvem à
margem das relações de poder que caracterizam as
instituições estatais. Em outras palavras, Sociedade
civil é representada como o terreno dos conflitos
econômicos, ideológicos, sociais e religiosos que o
Estado tem a seu cargo resolver, intervindo como
mediador ou suprimindo-os; como a base da qual
partem as solicitações às quais o sistema político
está chamado a responder; como o campo das várias
formas de mobilização, de associação e de organização
das forças sociais que impelem à conquista do poder
político (BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO,1998, p.
1210).

28
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que a Sociedade Civil é “o espaço das relações do poder de

fato”, enquanto o Estado é “o espaço das relações do poder legítimo”

(BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO, 1998, p. 1210), existindo uma nítida

correlação entre eles. É na Sociedade Civil, assim, que a Sociedade

Política ou Estado tem que buscar a legitimidade da sua atuação.

A esse respeito, Dallari (1998) distingue dois tipos específicos de

sociedades, sintetizadas por Menezes e Fantoni (2015):

a. Sociedades de Fins Particulares, relativas a grupos com

finalidades sociológicas ou culturais que dispensam

reconhecimento ou formalização legal, sendo vinculadas a

objetivos bem definidos e sempre com adesão voluntária;

b. Sociedades de Fins Gerais ou Sociedades Políticas, que têm

objetivos genéricos, voltados para a criação de condições que

viabilizem a consecução dos objetivos particulares, coordenando-


A Sociedade Política
os em consonância com a vontade geral, e cuja participação é mais expressiva
involuntária. é o justamente o
Estado, abrangendo
As Sociedades de Fins Gerais ou Sociedades Políticas são voltadas para todas as demais
a consecução do bem comum, tendo por exemplo emblemático a Família, sociedades que a
ele se integram de
instituída de modo a concretizar os objetivos dos seus integrantes, à luz de
forma involuntária.
determinados princípios e valores. A Sociedade Política mais expressiva é

o justamente o Estado, abrangendo todas as demais sociedades que a ele

se integram de forma involuntária.

Soares (2011) aponta que hoje “[...] a Sociedade Civil apresenta-se,

genericamente, como o não-Estado, isto é, o lugar ou as relações onde

o Estado não deve intervir”. (SOARES, 2011, p. 37, grifo do autor). No

entanto, para o cumprimento das suas finalidades, o Estado deve buscar

a legitimidade da sua atuação junto à Sociedade Civil, resultando daí o

reconhecimento da mesma como força política.

O autor ressalta, ainda, que a sociedade moderna é uma Sociedade de

Massas, regida pela produção em grande escala e pela utilização de meios

de comunicação de massa, sendo marcada por conflitos e fragmentação

em torno de grupos, coletividades, classes, partidos e facções.

29
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Sociedade de Massas caracteriza-se pela coexistência de verdadeiros

sistemas sociais, guiados pelos princípios da racionalização,

descentralização e diferenciação, encontrando-se em permanente

intercâmbio e integração de valores, normas e processos.

Fundamentos da
Responsabilidade Social
De tudo até aqui exposto, verifica-se que a sociedade é constituída e
representada por organizações que se estendem a todas as esferas
da vida humana, sendo regidas, tal como os indivíduos que as
conduzem, por um conjunto de valores morais e princípios éticos
em permanente interação e retroalimentação.

São muitas as temáticas que permeiam a questão da


Responsabilidade Social, alcançando a multiplicidade de
organizações da Sociedade Civil, partindo da responsabilidade
individual até abordagens mais abrangentes e de grupos, a exemplo
das apontadas por Munhoz (2015): diversidade e multiculturalismo;
infância e adolescência; terceira idade; analfabetismo funcional;
apoio ao município; reabilitação do preso; inclusão de pessoas com
necessidades especiais; erradicação da pobreza e inclusão social;
inclusão digital; recuperação do meio ambiente; inclusão racial;
voluntariado; movimento LGBT.

As empresas constituem um tipo particular de organização da


Sociedade Civil, sendo dotadas de fundamental importância na
medida em que nelas são processadas as condições que propiciam
o bem-estar geral e o desenvolvimento da sociedade, mediante a
apropriação e a transformação dos escassos fatores de produção
disponíveis. Essa é uma condição indispensável para a geração e a
distribuição da riqueza ao longo do tempo.

30
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

As atividades das empresas, por conseguinte, geram um conjunto


de externalidades a curto, médio e longo prazos não apenas na vida
das pessoas - que delas obtêm a sua fonte de renda e subsistência
-, mas também sobre o meio ambiente, de onde são extraídos os
recursos naturais e para onde se revertem os rejeitos do processo
de transformação dos fatores produtivos, sobretudo no caso do
processo fabril.

Assim, a diversidade, dimensão e complexidade das atividades


humanas na contemporaneidade, conferem à disciplina da Ética e
Responsabilidade Social Empresarial uma importância crescente,
sendo crucial a sua discussão face aos inúmeros abusos e
As oportunidades
catástrofes verificados, tanto na esfera humana quanto ambiental, trazidas pela
malgrado a existência de normativos e sansões legais aplicáveis. atuação consciente e
integrada de parcela
das organizações
Cabe ressaltar, por outro lado, as oportunidades trazidas pela
empresariais junto
atuação consciente e integrada de parcela das organizações às respectivas
empresariais junto às respectivas comunidades em que atuam, comunidades em
ainda que vinculadas a um processo de imposição social crescente.
que atuam.

Isto posto, abaixo, são apresentadas duas definições formais e


equivalentes de Responsabilidade Social.

31
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

[...] movimento de incorporação – por parte das


empresas – das demandas éticas postas pela
sociedade contemporânea ao mundo dos negócios
e à área econômica. Essas demandas são várias e
diversificadas, mas podem ser resumidas em dois
pólos ou catalisadores principais: o cuidado com o
meio ambiente e a atenção às questões dos direitos
fundamentais das pessoas e coletividades, incluindo
aí o direito ao desenvolvimento. (INSTITUTO ETHOS,
[2004?], p. 5).

[...] compromisso que uma organização deve ter


para com a sociedade, expresso por meio de atos e
atitudes que a afetem positivamente, de modo amplo,
ou a alguma comunidade, de modo específico, agindo
proativamente e coerentemente no que tange a seu
papel específico na sociedade e a sua prestação de
contas para com ela. (ASHLEY, 2002, p. 6).

Essa questão assume particular importância considerando que,


nos dias de hoje, “[...] não se pode avaliar uma empresa com os
padrões tangíveis de ontem, pois referenciais intangíveis, como
marca, imagem, prestígio e confiabilidade, decidem a preferência
e garantem a continuidade”. (MATOS, 2015, p.1). Tal circunstância
pode ser a linha divisória entre o sucesso e o fracasso de uma
organização empresarial.

32
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Você deve estar se perguntando, a essa altura, sobre a efetividade das

iniciativas propaladas pelas empresas que afirmam desenvolver ações de

Responsabilidade Social.

É preciso estar atento para o caráter meramente midiático de campanhas

promovidas no âmbito de determinadas corporações, mais interessadas

em vender uma imagem de Responsabilidade Social para a conquista de

novos consumidores.

O Instituto Ethos (2007) dá uma importante contribuição para essa

reflexão, ao desenvolver uma abordagem acerca dos principais aspectos

que caracterizam uma empresa socialmente responsável. Tais aspectos

são sintetizados no quadro a seguir.

33
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Quadro 3 - Como identificar uma empresa socialmente


responsável

CARACTERÍSTICA DESCRIÇÃO

Há assertividade e clareza na divulgação


Transparência de informações, decisões e intenções da
empresa aos stakeholders.

Há compromissos assumidos publicamente


em relação aos colaboradores, ao futuro
Compromisso da empresa, ao tratamento conferido
aos recursos naturais e à promoção da
diversidade.

Há interação e cooperação com outras


Envolvimento instituições, na busca por resultados
melhores e mais efetivos.

Atração e A relação com os colaboradores é de “ganha-


retenção de ganha”, visando os melhores resultados para
talentos ambas as partes.

Motivação Os colaboradores internos e fornecedores


dos são envolvidos e engajados na gestão da
colaboradores Responsabilidade Social.

Predomina um ambiente de cordialidade


Solução de e diálogo, incluindo a prevenção de riscos
conflitos e a gestão do relacionamento com os
stakeholders.

Existem metas específicas para as ações


Estratégia de
de Responsabilidade Social, lado a lado
Responsabilidade
com os demais indicadores de desempenho
Social
empresarial.

A mensagem e a exemplificação do corpo


diretivo são inequívocas, incluindo a
Comprometimento
designação de colaboradores para atuarem
da direção
especificamente na área de Responsabilidade
Social.

Fonte: Elaborado pela autora, com base em Instituto Ethos (2007).

34
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Responsabilidade Social Empresarial não se confunde com Filantropia.

Esta última, relacionada com projetos especiais desenvolvidos junto a

comunidades ou colaboradores internos, caracteriza apenas uma vertente,

ainda que importante, da Responsabilidade Social Empresarial.

Segundo o Instituto Ethos [2004?], para ser entendida como tal, a

Responsabilidade Social Empresarial (ou RSE) deve abranger iniciativas

consistentes e passíveis de mensuração em três áreas estratégicas (triple

bottom line), a saber: sustentabilidade econômica, sustentabilidade social

e sustentabilidade ambiental. Essas três áreas são retratadas em sete

grandes tópicos:

• valores, transparência e governança;

• público interno;

• meio ambiente;

• fornecedores;

• consumidores/clientes;

• comunidade;

• governo e sociedade/política.

Além disso, é importante ressaltar que “RSE está além do que a empresa

deve fazer por obrigação legal. Cumprir a lei não faz uma empresa ser

socialmente responsável” (INSTITUTO ETHOS, 2007, p.6).

Na mesma linha, Munhoz (2005) apresenta um interessante


decálogo acerca da forma como as empresas devem se portar com
relação à Responsabilidade Social:

1. Fazer com que a ação parta do local para o global; a


comunidade e o ecossistema subjacentes devem ser
merecedores das primeiras e principais atenções.

35
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

2. Adotar uma estratégia de comportamento ambiental


e social voltada ao ambiente e olhar para o outro,
abandonando a individualidade.

3. Aumentar a competitividade (se não houver uma alternativa


melhor), pois isso satisfaz todos os níveis – fornecedores,
colaboradores internos, sociedade subjacente, investidores,
ou seja, toda a cadeia de valor da empresa.

4. Obter alguma ISO; talvez seja melhor uma que se refira aos
cuidados ambientais (já existente no mercado).

5. Aumentar a comunicação pessoal e da corporação, além


da transparência nos atos – da qual não está isenta,
como muitos pensam (de lá de dentro, é claro), a atividade
governamental.

6. Promover o desenvolvimento sustentável, que consiste Obter alguma ISO;


talvez seja melhor
em mais do que nunca em uma palavra bonita e estranha;
uma que se refira
ele passa a ser uma preocupação contra o consumismo aos cuidados
individual e os gastos das empresas, além de poder ser ambientais (já
existente no
utilizado para dar mais peso a alguma proposta.
mercado).
7. Envidar esforços em favor da democracia, da equidade e da
justiça social, visto que são temas importantes e sugestivos
e que podem provocar a admiração e a aceitação de
propostas inovadoras, materializadas em atitudes voltadas
para a responsabilidade e a autoridade social.

8. Harmonizar o comportamento ético com as exigências do


capital e do individualismo humano, o que pode influenciar
as pessoas em vários âmbitos.

9. Buscar a colaboração e a cooperação - não aquelas


incutidas em atos como distribuir moedas nos semáforos,
as quais, para serem cunhadas, custam mais que seu
valor nominal -, pois essa postura pode trazer resultados
positivos.

36
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

10. Propor processos de formação permanente e continuada


às organizações, numa perspectiva de se tornarem grupos
aprendentes (Senge, 1990) ou serem classificadas como
investidores na cidadania. (MUNHOZ, 2015, p. 32-33).

Por fim, deve-se destacar que cabe a cada cidadão o


acompanhamento permanente da atuação empresarial, mediante
a utilização de meios formais e informais. Um exemplo típico é
comunicação por intermédio das redes sociais, poderoso canal para
esse propósito de vigilância, de modo a garantir a cumprimento dos
preceitos éticos e morais que devem regular a vida em Sociedade.

Tendo em mente os aspectos abordados nesta Unidade, e com base nos

elementos apresentados no texto abaixo, reflita sobre a questão proposta

a seguir, relacionada com uma situação real de Responsabilidade Social

Empresarial. Lembre-se de consultar também o site da empresa para a

obtenção de informações adicionais.

• Como você descreveria e avaliaria a estratégia de

Responsabilidade Social da empresa protagonista, antes e após

o desastre humano e ambiental abaixo retratado?

Barragem se rompe, e enxurrada de lama destrói distrito de Mariana

Do G1 MG - 5/11/2015 17h14 - Atualizado em 16/11/2015 21h28

[...] O diretor-presidente da empresa diz que o rompimento foi identificado

na tarde desta quinta e, imediatamente, foi acionado o plano de ação

emergencial de barragens para priorizar o atendimento das pessoas que

trabalham no local ou que vivem próximo às barragens. "Lamentamos

profundamente e estamos muito consternados com o acontecido, mas

37
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

estamos absolutamente mobilizados para conter os danos causados

por esse acidente", finalizou. [...] Segundo a prefeitura, o distrito de Bento

Rodrigues tem cerca de 600 moradores, em 200 imóveis. Mas como

outras localidades podem ter sido atingidas pelo mar de lama, a estimativa

é de 2 mil pessoas afetadas.

[...] NOTA DA SAMARCO DIVULGADA NA TARDE DESTA QUINTA: A

Samarco informa que houve um rompimento de sua barragem de rejeitos,

denominada Fundão, localizada na unidade de Germano, nos municípios

de Ouro Preto e Mariana (MG). A organização está mobilizando todos

os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de

danos ao meio ambiente. As autoridades foram devidamente informadas

e as equipes responsáveis já estão no local prestando assistência. Não

é possível, neste momento, confirmar as causas e extensão do ocorrido,

bem como a existência de vítimas. Por questão de segurança, a Samarco

reitera a importância de que não haja deslocamentos de pessoas para

o local do ocorrido, exceto as equipes envolvidas no atendimento de

emergência”.

Fonte: BARRAGEM se rompe, e enxurrada de lama destrói distrito de

Mariana. G1 Minas Gerais. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-

gerais/noticia/2015/11/barragem-de-rejeitos-se-rompe-em-distrito-de-

mariana.html>. Acesso em: 17 nov. 2015.

Revisão
• Você acompanhou, nesta Unidade, uma discussão acerca
da Ética, da Moral e da Moralidade. Os principais tópicos
abordados são sintetizados a seguir.

• A Moral traduz um código prático e objetivo da conduta


humana, amparada pelo princípio da liberdade de escolha,
sendo que o indivíduo o toma por obrigatório por convicção
íntima, aplicando-o nas relações sociais.

38
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• A conjugação da norma de comportamento e da ação


do indivíduo resulta na Moral Efetiva. Esse movimento
da norma (plano ideal), assimilada e posta em ação pelo
indivíduo (plano real) recebe a denominação de Moralidade.
Assim, Moral é a norma, enquanto Moralidade é a ação que
dela decorre, em âmbito individual ou coletivo.

• Os estudos teóricos sobre as especificações, natureza,


objetivos e evolução da Moral ao longo do tempo
constituem o campo de atuação da Ética, que possui
caráter essencialmente científico.

• A Ética se relaciona com os aspectos teóricos da Moral,


mas não se confunde com ela, embora ambas estejam
intimamente relacionadas, como ciência e seu objeto.

• A Moral decorre da vida em Sociedade, que constitui


o palco onde se desenrolam as relações sociais, as
quais são regidas por valores que moldam as normas de
comportamento dos indivíduos.

• A Sociedade, por sua vez, é formada por diversificados


grupos sociais que se baseiam em valores e normas
de conduta próprios, dentre os quais se destacam as
corporações empresariais.

• A importância, abrangência e complexidade da atuação


das empresas atribui caráter de criticidade à questão da
Moral e da Ética, dadas as profundas implicações sobre a
vida dos indivíduos e das comunidades. Razão pela qual se
torna particularmente relevante a discussão em torno da
Responsabilidade Social Empresarial.

39
unidade 1
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Para saber mais sobre a aplicabilidade e o emprego da Responsabilidade

Social Empresarial nas Micro e Pequenas Empresas, leia o passo a passo

elaborado pelo SEBRAE em parceria com o Instituto Ethos.

• INSTITUTO ETHOS DE EMPRESAS E RESPONSABILIDADE

SOCIAL. Responsabilidade Social Empresarial para Micro e

Pequenas Empresas - Passo a Passo. São Paulo: SEBRAE, 2003.

Disponível em: <http://www.ufal.edu.br/empreendedorismo/

downloads/manuais-guias-cartilhas-e-documentos-sobre-

empreendedorismo-e-inovacao/manual-de-responsabilidade-

social-empresarial-para-micro-e-pequenas-empresas>. Acesso

em: 17 nov. 2.015

• RESPONSABILIDADE Social Empresarial - ADM0701. Postado

por: Micaell Hussan. (6min.34seg.): son. color. Port. Disponível

em: <https://www.youtube.com/watch?v=8EOblOZgjN4>. Acesso

em: 23 nov. 2015.

RESPONSABILIDADE Social Empresarial. Postado por:


Sebrae – SP. (7min.11seg.): son. Color. Port. Disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=96s38EDS43Q>.
Acesso em: 23 nov. 2015. Para saber mais sobre os
conceitos e aplicações práticas da Responsabilidade
Social Empresarial, assista aos dois interessantes vídeos
indicados.

• O QUE é sustentabilidade? Postado por: VideosEducativos

(3min.02seg.): son. Color. Port. Disponível em: <https://www.

youtube.com/watch?v=tIz3lbrD0U4>. Acesso em: 23 nov. 2015.

40
unidade 1
Ética e Política
Introdução

Ética e Política parecem ser dois conceitos contraditórios, a


julgar pelos desvios frequentemente observados na conduta dos
representantes do povo no exercício das suas funções públicas.

O comportamento dos representantes e líderes populares é julgado


à luz dos valores e normas morais assimilados e aplicados nas
relações sociais. No entanto, essa correlação não é tão simples e
linear quanto a princípio possa parecer. Você verá que nem sempre
a Política caminha lado a lado com a Ética e a Moralidade, pois
“[...] aquilo que é obrigatório em moral nem sempre é obrigatório
na política, e aquilo que é lícito na política nem sempre é lícito na
moral”. (BOBBIO, 2000, p.173).
• Estado e poder
Você concorda com a afirmação de Bobbio? A questão é revestida de • Organização
social e política
grande complexidade e suscita polêmica, tendo como ponto central
a questão do Poder e suas múltiplas formas de manifestação
implícitas nas relações que permeiam a vida em Sociedade e,
particularmente, a arena política.

Esta Unidade é dedicada à discussão do Poder e da Política em seu


sentido mais amplo, considerando-se duas abordagens.

A primeira, de natureza institucional e formal, trata do poder legítimo


que é exercido pelo Estado, designado como Poder Político. Para
subsidiá-la serão apresentados, em caráter preliminar, importantes
fundamentos relacionados com a formação e evolução histórica
do Estado, seus elementos constituintes e finalidades, além dos
instrumentos repressivos e ideológicos utilizados para imposição
dos preceitos legais e condicionamento da vontade geral.
A segunda abordagem tem conotação social, e é dada pelas relações
que se processam no domínio do dito poder de fato, exercido pela
Sociedade Civil, aqui designado como Forças Políticas.

No âmbito dessas Forças Políticas, travam-se importantes lutas


e embates vinculados à concretização dos objetivos dos diversos
grupos que compõem a Sociedade, estando essas Forças em
interação contínua com o Poder Político, sob o forte apelo da Ética
e da Moralidade.

Os conceitos e temáticas aqui retratados são fundamentais para a


sua melhor compreensão em torno do papel desempenhado pelos
diversos atores sociais, bem como das problemáticas nacionais
contemporâneas e de seus desdobramentos, contribuindo para o
aprimoramento da sua atuação cidadã.
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Estado e poder
A caracterização do Estado
Afinal, o que é o Estado, essa figura abstrata que cerca tantos
aspectos da nossa vida? O Estado pode ser conceituado a partir
de três abordagens distintas de natureza filosófica, jurídica e
sociológica, cada qual implicando uma visão particular.

Segundo Bonavides (2000), a abordagem filosófica afirma que o


Estado é “a realidade da ideia moral”, orientando o comportamento
dos indivíduos. Do ponto de vista jurídico, o Estado é “a reunião
de uma multidão de homens vivendo sob as leis do direito”. A
abordagem sociológica, por sua vez, trata o Estado como uma
“instituição social que um grupo vitorioso impôs a um grupo
vencido” [...], ou então, um “grupo humano fixado em determinado Do ponto de vista
jurídico, o Estado é
território, onde os mais fortes impõem aos mais fracos sua
“a reunião de uma
vontade”. (BONAVIDES, 2000, p. 26-28). Qual delas faz mais sentido multidão de homens
para você? vivendo sob as leis
do direito”.
Dallari (1998), por sua vez, reconhece apenas duas vertentes de
análise. A primeira caracteriza o Estado como uma entidade de
natureza concreta e política (ainda que regulada pelo Direito), visto
como uma força de dominação, ou instância de institucionalização
do poder. A segunda vertente é de natureza jurídica, relacionada
com a noção de ordem, e não de força. Nesse caso, o caráter
jurídico se sobrepõe ao poder político.

Observa-se que a visão de Estado apresentada por Dallari (1998)


enfatiza o seu viés político, sendo este caracterizado como “uma
ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo
situado em determinado território”. (DALLARI, 1998, p. 44).

44
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Origem e Formação do Estado

A moderna concepção de Estado, como entidade política


orientadora da vida em Sociedade, é uma contribuição de Nicolau
Maquiavel - importante pensador da República de Florença (1469-
1527), tendo sido consolida a partir do século XVI.

Maquiavel afirmava que, sendo os homens pouco confiáveis por


sua própria natureza, a manutenção do poder é uma prerrogativa
fundamental dos governantes, para o que devem empregar
quaisquer meios necessários, independentemente das implicações
morais daí decorrentes.

FIGURA 1 - Maquiavel

Fonte: www.shutterstock.com

Apesar de o caráter radical e desconfortável da afirmação,


compatível com o contexto histórico em que foi formulada (valendo
a Maquiavel, inclusive, o título de “Patrono do Absolutismo”) deve-
se destacar que, ao longo da história da humanidade, a presença
de um poder regulador das relações entre os homens sempre foi
considerado garantia da ordem e da segurança. É neste contexto
que serão discutidos, na sequência, os principais postulados acerca
da origem e da formação histórica do Estado.

45
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Segundo Dallari (1998), há três hipóteses fundamentais acerca da


origem do Estado:

• existência desde os primórdios da humanidade, quando


os homens já apresentavam uma dada organização social
regulada por um poder central;

• origem na evolução da vida em Sociedade, em função das


necessidades ou conveniências dos indivíduos;

• origem em condições específicas, dadas pela prerrogativa


da sua Soberania, viabilizando a afirmação do Estado.

Você viu, na Unidade 1 do Livro da Disciplina, que duas correntes se opõem A segunda corrente
quanto à origem da formação da Sociedade: teórica defende a
formação contratual
• Organicista: originária dos Clássicos, enfatizando a sociedade do Estado, a partir
de um ato voluntário
como uma reunião de indivíduos interagindo de modo solidário
dos homens.
e ordenado, em busca de uma forma de organização superior

(impulso associativista natural);

• Mecanicista: derivada da corrente filosófica jusnaturalista, que vê

na sociedade o resultado de um acordo de vontades livremente

pactuado entre os indivíduos, mediante vínculo associativo (ou

contrato social hipotético), visando à realização de objetivos

comuns.

Isto posto, observa-se que a explicação para a formação do Estado


é também amparada por essas duas correntes teóricas. A primeira
delas aponta a formação natural ou espontânea do Estado. A
segunda corrente teórica defende a formação contratual do Estado,
a partir de um ato voluntário dos homens.

46
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Menezes e Fantoni (2015), citando Dallari (1998), apontam que


os Estados também podem ser formados por derivação, ou
seja, a partir de outros Estados preexistentes, mediante três vias
alternativas:

• Via da União: situação em que Estados originais


desaparecem e se reagrupam em um novo Estado,
adotando-se uma Constituição única;

• Via do Fracionamento: quando parte de um determinado


território se desmembra, dando origem a um novo Estado
independente, com ordenação jurídica própria; ou

• Via da Guerra: implicando em novas configurações


territoriais impostas pelos vencedores.

Outra classificação, também apresentada pelas autoras, é dada


por Maluf (2009), que identifica três modos de constituição dos
Estados.

a. Modo Originário: relativo a um agrupamento humano que


estabelece um governo em um dado território, constituindo
um ordenamento jurídico e político.

b. Modo Secundário: que se desdobra em:

• União: podendo assumir o formato de uma Confederação


(como no caso da extinta União Soviética); Federação
(como o Brasil); União Pessoal (governo transitório de dois
ou mais países, exercido por um único governante); ou
União Real (união permanente entre dois ou mais países,
como a Grã-Bretanha);

• Divisão: que pode ser Nacional, face à independência de


uma região ou província, dando origem a uma nova unidade
política; ou Sucessoral, como se observava nas monarquias
medievais, mediante a divisão da propriedade do monarca
entre parentes e sucessores.

47
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. Modo Derivado: desdobrado em:

• Colonização: a exemplo das antigas colônias inglesas,


espanholas e portuguesas;

• Sucessão dos Direitos de Soberania: típica da idade média,


mediante a outorga de direitos;

• Ato de Governo: decorrente da vontade de um conquistador,


a exemplo de Napoleão I.

Evolução Histórica do Estado

Ao longo do tempo, o Estado vem apresentando uma sucessão de


configurações, dando origem a uma série de critérios alternativos
para a sua tipificação em consonância com os respectivos
contextos históricos.

Dentre as propostas de tipificação conhecidas, destaca-se aquela


oferecida por Dallari (1998) em torno da evolução cronológica
do Estado, subdividida em 5 (cinco) fases, conforme sintetizam
Menezes e Fantoni (2015):

48
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

QUADRO 1 – Fases da evolução cronológica do Estado

Origem nas antigas civilizações orientais,


caracterizado pela pouca clareza em torno
Estado dos papéis da família, da religião, do Estado
Antigo ou e da organização econômica. Há predomínio
Teocrático da unicidade, ou seja, ausência de divisão de
territórios e de funções. A religião mantém
estreita relação com o Estado.

A pólis, ou cidade-Estado grega, era marcada


Estado pela autonomia e pela democracia, ainda que
Grego uma pequena elite pudesse influenciar as
decisões de interesse público.

A exemplo do Estado Grego, manteve a


configuração de cidade-Estado desde a sua
fundação, em 754 a.C., até o ano 565 da era
Estado cristã, quando foi substituído pelo Estado
Romano Medieval. Tinha como característica mais
marcante a base familiar de organização social,
sendo que o povo, embora em nível restrito,
participava das decisões de interesse coletivo.

Sob a égide do cristianismo e do feudalismo,


as relações entre senhores feudais e servos
se processavam de forma autônoma em
relação ao poder do Estado. No entanto, o
cenário de invasões constantes dos bárbaros
e a fragilidade dos Estados constituídos
foram decisivos para a consolidação de
Estado
uma unidade de governo, sustentada pela
Medieval
poderosa e influente Igreja. Cisões e disputas
de poder verificadas entre os próprios Estados
constituídos e a Igreja, por seu turno, criaram
um clima tal de instabilidade que, aliado a
um cenário socioeconômico já conturbado,
constituíram as bases para a instauração do
Estado Moderno.

Entidade soberana e suprema em relação ao


seu respectivo espaço territorial, sendo este
constituído por dois elementos materiais,
notadamente, o território e o povo; e um
Estado
elemento formal, relacionado com o governo,
Moderno
também retratado como poder, soberania ou
autoridade. Também é usual a caracterização
de um quarto elemento, relativo à finalidade do
Estado.

Fonte: Adaptado de MENEZES E FANTONI (2015).

49
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Elementos Constituintes do Estado

Os principais aspectos relacionados a cada um dos elementos


constituintes do Estado são apresentados na sequência.

• Soberania: é o poder supremo do Estado Moderno,


suplantando todos os outros de natureza privada. Tal poder,
segundo aponta Dallari (1998) é uno, porque não podem
coexistir duas soberanias; indivisível, porque além de uno,
é universal do ponto de vista dos fatos sociais; inalienável,
porque vinculado exclusivamente à entidade que o detém
(Povo, Nação ou Estado); e imprescritível, porque não tem O terceiro é de
prazo certo de duração. natureza culturalista,
tratando a soberania
de maneira plural,
como um fenômeno
social, jurídico
[...] “poder que tem uma Nação de organizar-se e político.
livremente e de fazer valer dentro de seu território a
universalidade de suas decisões para a realização do
bem comum”. (REALE, 2000, p. 140).

A Soberania pode ser explicitada segundo três enfoques. O primeiro


é de caráter político, vinculado ao poder coercitivo. O segundo tem
cunho jurídico, vinculado ao poder decisório sobre o conjunto de
normas e direitos, sendo de fundamental importância na medida
em que viabiliza a coerção de eventuais arbitrariedades cometidas
pelo Poder Público. O terceiro é de natureza culturalista, tratando a
soberania de maneira plural, como um fenômeno social, jurídico e
político.

50
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Território: a noção de Território é relevante na medida em


que é nele que se dá a afirmação da Soberania, assegurando
a eficácia do poder e a manutenção da ordem. As fronteiras
territoriais são classificadas como naturais, vinculadas
aos aspectos estritamente geográficos; artificiais, quando
fixadas por meio de tratados; ou ainda esboçadas, no caso
de não ser possível uma delimitação precisa dos territórios.
No tocante ao mar e ao espaço aéreo, não são raros os
embates travados entre os Estados, em função dos fortes
interesses econômicos e geopolíticos envolvidos.

• Povo: é o componente mais emblemático do Estado.


Caracterizado como uma entidade abstrata, deve-se
ressaltar que sua concepção apresenta conotação jurídica.

Menezes e Fantoni (2015), citando Dallari (1998), apontam que o


conceito de povo apresenta uma face subjetiva, enquanto entidade
detentora de direitos, configurando uma relação de coordenação; e
uma face objetiva, enquanto objeto da atuação do Estado, sendo
sujeito a deveres, em uma relação de subordinação.

Deve-se compreender como povo o conjunto dos


indivíduos que, através de um momento jurídico, se
unem para constituir o Estado, estabelecendo com
este um vínculo jurídico de caráter permanente,
participando da formação da vontade do Estado e do
exercício do poder soberano. (DALLARI, 1998, p. 39).

O autor ressalta que do vínculo jurídico entre o Estado e o povo


decorrem três atitudes possíveis:

• atitudes negativas, impondo limites à ação do Estado;

• atitudes positivas, quando o Estado atua em defesa dos


próprios indivíduos;

• atitudes de reconhecimento do Estado a indivíduos que


atuam no seu interesse.

51
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

FIGURA 2 - Elementos Constituintes do Estado

Fonte: Do autor

O conceito de Povo não se confunde com o de Nação e muito menos

com o de População. Nação diz respeito à concepção de comunidade

que, existindo naturalmente em função de sentimentos e características

compartilhadas pelos indivíduos, forma-se independentemente da vontade

dos mesmos.

População, por sua vez, envolve um aspecto meramente numérico ou

demográfico, incluindo os estrangeiros, que podem ser integrados pela via

da naturalização, o que lhes permite usufruir dos direitos políticos próprios

dos nativos.

Finalidade e Funções do Estado

A finalidade do Estado, segundo Dallari (1998), diz respeito ao


relacionamento deste com os indivíduos, do que resultam três
categorias: fins expansivos, limitados e relativos. A cada uma delas
corresponde um regime de Governo, mais ou menos autoritário, e
mais ou menos presente na regulação das relações sociais entre os
indivíduos.

52
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

a. Os fins expansivos retratam basicamente o Estado


totalitário, caracterizado pela anulação dos direitos
individuais. É o caso das sociedades vinculadas ao regime
comunista ou sociedades ditatoriais artificialmente
travestidas de democracias, onde as liberdades individuais
são restritas.

b. Os fins limitados dizem respeito à noção de Estado mínimo


(vinculado ao Estado Liberal), focado na preservação da
ordem social, com funções restritas à área da segurança,
da proteção das liberdades individuais e da aplicação das
regras de direito. O princípio do livre mercado é o grande
regulador da vida econômica e social.

c. Os fins relativos, por sua vez, retratam uma relação


harmônica entre o Estado e os indivíduos, em uma visão A raiz dos conflitos
de solidariedade voltada para a conservação do bem-estar está na necessidade
de legitimação do
destes últimos, tipicamente vinculado à Social Democracia.
poder de governo.

Menezes e Fantoni (2015) apontam que as funções do Estado


são estabelecidas de acordo com a sua finalidade social, em
consonância com o contrato social que lhe deu origem. Não por
acaso, a delimitação e a adequação de tais funções constituem um
dos maiores desafios que se apresentam à sociedade, muitas vezes
levando a conflitos.

A raiz dos conflitos está na necessidade de legitimação do poder


de governo. As teorias de justificação do Estado refletem, segundo
Maluf (2009), o pensamento político prevalecente em cada fase da
evolução da humanidade, focadas nos mais diversos argumentos,
que vão desde o sobrenatural (Estado divino), à razão (Estado
humano), e à história (Estado social).

53
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Uma síntese de tais teorias é apresentada na sequência:

• Teorias teológico-religiosas - vinculam-se à noção de:

• direito divino sobrenatural, onde o Estado é fundado


por Deus – rei e sumo sacerdote, sendo seu legítimo
representante e governador;

• direito divino providencial, predominante na Idade


Média, segundo o qual se reconhece a origem divina
do Estado, mas por manifestação providencial de Deus,
levando à coexistência de dois poderes, um temporal e
outro espiritual, sendo este último superior.

• Teorias racionalistas: correspondem às teorias


contratualistas, já discutidas nesta Unidade, que
caracterizam o Estado como produto da razão humana,
viabilizado por um acordo de vontades pactuado entre os
indivíduos.

• Teorias idealistas: são fundadas no determinismo e no


fatalismo, sendo o Estado a representação suprema de
Deus, razão pela qual o seu poder é absoluto.

• Teorias socialistas: de cunho totalitário, retratam o Estado


como a organização da supremacia da classe dominante, o
que leva a uma permanente luta de classes.

• Teorias sociais democráticas: o comando do Estado e do


exercício do poder do governo é subordinado à vontade
nacional, por intermédio dos poderes constituinte e
legislativo.

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unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Poder Político

Discutida a origem e a formação histórica do Estado, bem como


suas principais características, vamos passar à discussão do Poder
Político, elemento fundamental que o qualifica.

Para entender o Poder Político, é necessário elucidar a natureza


do Poder e a sua correlação com o Estado, passando pelo próprio
conceito de Política, termo herdado do grande filósofo grego
Aristóteles (384-322 a.C.).

A Política era retratada pelos Clássicos como arte ou ciência


do Governo, ou mesmo como reflexão sobre as coisas da pólis
(cidade-estado grega). Esse significado original foi paulatinamente
substituído ao longo do tempo, dando lugar, na era moderna, a
expressões tais como: Ciência do Estado, Ciência Política, Filosofia
Política, dentre outros, quando se firmou como:

“a atividade ou conjunto de atividades que têm de


algum modo, como termo de referência, a pólis, isto é,
o Estado.” (BOBBIO, 2000, p.159-160).

O Poder, por sua vez, é traduzido como:

[...] uma relação entre dois sujeitos, na qual um impõe


ao outro a própria vontade, determinando-o seu,
[definição essa que deve ser integrada à noção de]
posse dos meios [...] que permitem obter, exatamente,
alguma vantagem ou os efeitos desejados. (BOBBIO,
2000, p.161).

Assim, observa-se que o Poder traduz uma relação de subordinação


entre dois sujeitos, um ativo e um passivo, tendo o primeiro a posse
de instrumentos específicos para viabilizar o seu exercício de
dominação.

55
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Mas o Poder, manifestando-se nas relações entre os homens,


apresenta-se sob três formas: o Poder Econômico, o Poder
Ideológico e o Poder Político, diferenciando-se, sobretudo, quanto
aos meios utilizados pelo sujeito ativo para impor ao sujeito passivo
um determinado comportamento.

Observa-se que Poder Econômico é aquele em que o sujeito ativo


usa a posse de bens, em um cenário de recursos escassos, para
induzir o comportamento do sujeito passivo; o Poder Ideológico
O Estado é o
utiliza a influência das ideias para condicionar a percepção, os detentor do Poder
valores e o comportamento do sujeito passivo; e por fim, o Poder Político, entendido
Político utiliza instrumentos formais de coerção para impor o como instrumento
de força,
comportamento do sujeito passivo, mediante o emprego força.

O Estado é o detentor do Poder Político, entendido como


instrumento de força, apresentando-se ora como sujeito,
responsável pela regulação das atividades que caracterizam a vida
em Sociedade; ora como objeto, alvo das diversificadas tratativas
inerentes às atividades dos indivíduos, que estão em permanente
luta pela satisfação das suas necessidades.

Assim, observa-se que Política e Poder estão intimamente


relacionados, sendo pilares de uma sociedade caracterizada pela
desigualdade entre os atores sociais, formada por sujeitos ativos e
passivos.

FIGURA 3 – Interação entre poderes

Fonte: Do autor

56
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Poder Político, prerrogativa do Estado, é apontado por Bobbio


(2000) como o poder supremo em uma Sociedade, sendo o mais
eficaz para o cumprimento da finalidade social, e ao qual se
subordinam o Poder Econômico e o Poder Ideológico.

O autor adverte que, embora seja condição necessária para o exercício

do Poder Político, o uso da força não é condição suficiente para

caracterizá-lo. É preciso que essa vantagem seja exclusiva, aplicando-

se inequivocamente a todos os indivíduos e grupos que compõem a

Sociedade, com a consequente criminalização e penalização dos atos de

violência perpetrados fora do domínio do Estado. O autor adverte


que, embora seja
condição necessária
São apontadas como características peculiares ao Poder Político:
para o exercício do
Poder Político, o
a. a exclusividade, implicando que a formação de grupos
uso da força não é
sociais armados concorrentes do Estado no emprego da condição suficiente
força é um ato ilegal; para caracterizá-lo.

b. a universalidade, vinculada à inquestionável legitimidade


das decisões tomadas pelos detentores do Poder Político e
à incidência obrigatória de suas decisões sobre o conjunto
de indivíduos e grupos sociais;

c. a inclusividade, relativa à interferência imperativa do Estado


em todas as esferas da vida social, via normas jurídicas,
com vistas ao alcance da finalidade social.

Entendido o Estado como Poder Político que detêm a vantagem


exclusiva do emprego da força, vale a pena discutir a sua concepção
como “força de execução e de intervenção repressiva”, derivada da
teoria marxista.

57
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Aparelhos Repressivos de Estado

Althusser (1970), um dos principais autores nessa linha, caracteriza


o Estado como um instrumento de satisfação dos interesses da
burguesia capitalista, para o que conta com variados aparelhos
repressivos, os quais são responsáveis pela perpetuação das
relações de produção (e de dominação) capitalista.

Segundo o autor, os Aparelhos Repressivos de Estado dizem


respeito a um conjunto de instituições especializadas representadas
pela polícia, tribunais, sistema prisional, dentre outras, além
do Exército, das figuras do Chefe de Estado e de Governo e da
própria administração pública, por intermédio dos instrumentos
normativos.

Esses aparelhos apresentam feições nitidamente coercitivas, tendo Pois bem, cabe
ressaltar que o
como objetivo, na visão marxista, assegurar a continuidade das
Poder Político impõe
relações de produção da classe dominante, amplamente favoráveis limites a si mesmo,
à burguesia capitalista. Vale destacar que a visão marxista ainda que tais limites
sejam variáveis
corresponde à visão de luta de classes formulada originalmente por
segundo o regime de
Karl Marx, vinculada à teoria socialista e sua natural evolução para Governo adotado.
o comunismo.

A essa altura, você deve estar se questionando acerca dos pressupostos

desta figura de Estado todo-poderoso, autossuficiente, interventor e, por

consequência, extremamente perigoso.

Pois bem, cabe ressaltar que o Poder Político impõe limites a si mesmo,

ainda que tais limites sejam variáveis segundo o regime de Governo

adotado. Num extremo, tem-se o Estado Democrático de Direito, que

reconhece direitos e oferece garantias às liberdades individuais. De outro,

destaca-se o Estado Totalitário que é, “[...] em sua natureza de caso-limite,

a sublimação da política, a politização integral das relações sociais”.

(BOBBIO, 2000, p.166).

58
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

É importante destacar, neste contexto, o importante conceito de


direito de resistência, apontado por Menezes e Fantoni (2015)
como um mecanismo de autodefesa da sociedade em relação aos
seus governantes, de modo a preservar os direitos fundamentais
do homem, apresentando legitimidade jurídica na medida em que
esteja explicitado na Constituição.

A Constituição brasileira reconhece formalmente o direito


de resistência, dando-lhe fundamentação jurídica dentro de
determinados limites. Os instrumentos utilizados estão relacionados Direito reconhecido
aos cidadãos, em
com a petição ou representação, o habeas corpus, o mandado de
certas condições, de
segurança, dentre outros, assegurando a manifestação dos direitos recusa à obediência
civis. e de oposição às
normas injustas,
à opressão e à
revolução.

Direito reconhecido aos cidadãos, em certas


condições, de recusa à obediência e de oposição às
normas injustas, à opressão e à revolução. Tal direito
concretiza-se pela repulsa a preceitos constitucionais
discordantes da noção popular de justiça; à violação
do governante da ideia de direito de que procede o
poder cujas prerrogativas exerce; e pela vontade de
estabelecer uma nova ordem jurídica, ante a falta de
eco da ordem vigente na consciência jurídica dos
membros da coletividade. A resistência é legítima
desde que a ordem que o poder pretende impor
seja falsa, divorciada do conceito ou ideia de direito
imperante na comunidade [...]. (DINIZ, 2005, p. 181).

59
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Com relação à classificação do Direito de Resistência, Buzanello


[200-?] adota como critério a espécie do direito e aponta os seus
respectivos instrumentos, descritos a seguir:

• Objeção de consciência:

• Recusa ao cumprimento de deveres incompatíveis


com convicções morais, políticas ou filosóficas, sendo
requerida lei especial ou decisão judicial. A Constituição
brasileira reconhece a “escusa genérica de consciência”
ou a “escusa restritiva ao serviço militar” (art. 5º, VIII
c/c art. 143, par. 1º, CF).

• É aplicável, por exemplo, a indivíduos vinculados a


religiões que não admitem a participação em atividades
bélicas. Nesse caso, tais indivíduos podem converter
as suas obrigações institucionais em outros tipos de
prestação de serviços alternativos, a critério da própria
instituição.

• Greve política:

• Abstenção coletiva do trabalho, mediante ação política


e jurídica. A Constituição brasileira reconhece o direito
de greve visando melhoria das condições laborais e de
salários ou mudanças junto à esfera do poder político
(art. 9º, CF).

• Desobediência civil:

• Caracteriza-se pela deslegitimação da autoridade


pública ou de uma lei, por ação coletiva e não violenta.
Pode ser direta (desafio aberto às leis) ou indireta
(oposição a leis isoladas, influenciando o Legislativo).

• Na Constituição brasileira, decorre de cláusula


constitucional aberta, dando abertura ao direito de
resistência contra atos que violem os princípios
democráticos (art.1º, III, V, CF e art. 5º, par. 2º, CF).

60
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Princípio da autodeterminação dos povos:

• O povo tem a prerrogativa de escolher a forma de


governo e o governo de sua preferência, e de formar um
novo Estado.

• A Constituição brasileira o reconhece como princípio


político do direito internacional (art. 4º, III, CF).

• Direito à revolução:

• Diz respeito à defesa dos direitos fundamentais do


povo, ainda que mediante o uso da força, o que não
encontra respaldo jurídico, dado que afronta a própria
ordem jurídica.

Discutimos anteriormente que a força, insumo básico dos Aparelhos

Repressivos de Estado, não é suficiente para caracterizar e qualificar

o Poder Político. Assim, são também de grande relevância e eficácia

os instrumentos voltados para o condicionamento dos indivíduos, por

intermédios dos Aparelhos Ideológicos de Estado, que serão discutidos a

seguir.

Os Aparelhos Ideológicos de Estado

Os Aparelhos Ideológicos de Estado caracterizam-se pela


aplicação de métodos difusos e sutis para condicionamento do
comportamento social, nem sempre detectados com facilidade,
requerendo vigilância e avaliação crítica por parte da Sociedade
quanto aos seus desdobramentos.

Tais aparelhos manifestam-se basicamente na esfera privada,


por intermédio de instituições especializadas tais como a Igreja,
a Escola, a Família, as normas jurídicas, os partidos políticos,
as organizações sindicais, os mecanismos de veiculação das
informações na Sociedade e as próprias expressões culturais.

61
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por intermédio dos mais variados instrumentos comunicacionais,


são incutidas mensagens investidas, segundo a sua natureza, de
conteúdos de fundo ora moralista, ora econômico, ora nacionalista
etc.

Conforme ressalta Buzanello [200-?], não existem aparelhos


de Estado puramente ideológicos ou puramente repressivos,
distinguindo-se não só pela natureza, mas também pela ênfase dos
instrumentos utilizados.

No caso dos aparelhos ideológicos, a pressão é exercida por meio de


critérios e regras sociais de exclusão, seleção, sanção ou censura;
em suma, quem não os segue, sofre reprimenda e eventualmente
é alijado do grupo social. No caso dos instrumentos repressivos,
a ação é normativa, implicando em sanções legais aos indivíduos
infratores. A ordem
pública, assim, é
Em comum, o fato de que, embora os aparelhos ideológicos e
apresentada como
condição básica e
repressivos sejam diversificados quanto às circunstâncias e indispensável para a
aos meios de aplicação, sempre apontam para uma ideologia garantia dos demais
dominante. fins sociais.

A Finalidade da Política

Observa-se que os fins da Política são variáveis, determinados


em função dos objetivos e metas que venham a ser fixados
pela Sociedade em um dado momento, em consonância com o
contexto histórico e as condições objetivas que se apresentem aos
respectivos grupos sociais.

No entanto, é possível a caracterização de um fim mínimo,


relacionado com a manutenção da ordem pública - seja no
plano interno, vinculado às relações sociais; ou no plano externo,
relativamente à manutenção da Soberania Nacional. A ordem
pública, assim, é apresentada como condição básica e indispensável
para a garantia dos demais fins sociais.

62
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Bobbio (2000) faz uma advertência quanto às tentativas formuladas por

teorias tradicionais (incluindo as Clássicas) de vinculação da Política a

outros fins que não a Ordem Pública. Ou da visão da Política como um fim

em si mesma.

No primeiro caso, busca-se atribuir à Política um fim vinculado ao bem

comum ou à justiça social. Mas, deve-se ressaltar que esses objetivos são

específicos e prescritivos em torno do que, na visão dos seus defensores,

seria uma “Política boa”, ideal, não tratando da descrição do que a Política

efetivamente é. Uma “Política ruim”, neste sentido, seria igualmente uma

Política, no seu sentido estrito.

No segundo caso, aponta o autor que “[...] o poder pelo poder é a forma

degenerada do exercício de qualquer forma de poder, que pode ter por

sujeito tanto quem exerce aquele poder de amplas dimensões [...] quanto

quem exerce um pequeno poder [...].” (BOBBIO, 2000, p.169).

Segundo Bobbio (2000), deve-se reconhecer que a visão de um fim


mínimo da Política, vinculado à manutenção da ordem pública,
é redutora em relação aos aspectos sociais, com os quais está
intrinsecamente ligada.

A justificativa e o apelo dessa visão redutora é a tentativa de


separação entre as esferas da Política e da Não-Política, ou seja,
do Estado e do Não-Estado, em consonância com os postulados da
Filosofia Política moderna, os quais se manifestam na delimitação
da fronteira entre as atuações da Sociedade Civil e do Estado.

63
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Você viu, na Unidade 1, que a Sociedade Civil é caracterizada como “o

espaço das relações do poder de fato”, enquanto o Estado é “o espaço das

relações do poder legítimo” (BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO,1998, p.

1210), estando em contínua interação e retroalimentação.

Política, Moral e Ética

Você conhece a origem da célebre frase: os fins justificam os


meios? A herança dessa frase é do florentino Nicolau Maquiavel
(1469-1527), importante pensador político moderno. Essa frase
ficou imortalizada como a máxima expressão da tirania.

A teoria política de Maquiavel, tratando basicamente da “arte da


liderança”, é dotada de profundo senso de utilitarismo, realismo e
empirismo, em consonância com o contexto histórico em que viveu,
marcado pelo antropocentrismo renascentista e por profundas
perturbações sociais e geopolíticas.

Maquiavel enfatizava o dever dos governantes de manter o poder


a qualquer custo, valendo-se, para tanto, das estratégias que se
fizessem necessárias. E afirmava: “[...] é necessário, portanto, que
o príncipe que deseja manter-se aprenda a agir sem bondade,
faculdade que usará ou não, em cada caso, conforme necessário.”
(MAQUIAVEL, 2006, p. 97).

Tirania ou não, crueldade ou não, os fins continuaram justificando


os meios até os dias atuais, conforme se depreende de muitas
situações vivenciadas em Sociedade, o que traz à tona a delicada
questão da Moral e da Ética na vida Política.

64
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que um dado comportamento, tido como obrigatório


no campo moral, nem sempre se apresenta como tal no campo
político; e nem tudo que é lícito no campo político encontra igual
respaldo no campo moral. E ainda, é fato que “[...] podem existir
ações morais que são impolíticas (ou apolíticas) e ações políticas
que são imorais (ou amorais). ” (BOBBIO, 2000, p.174).

Como pano de fundo dessa discussão, tem-se a polêmica em


torno da chamada Autonomia da Política, que traduz basicamente
o seguinte: o critério que faz uma determinada política ser
considerada boa ou má é diferente do critério que torna uma ação
moral boa ou má, sendo tais critérios incomparáveis.
A suposta
imoralidade da
Política, assim,
corresponderia a
Então, o que a Moral e a Política têm em comum? Aparentemente nada. uma moral diferente
À exceção do fato de que ambas atuam sobre o comportamento do e específica,
dissociada da
homem em Sociedade, verifica-se que essa atuação se dá em sentido
tradicional noção do
oposto quanto aos critérios de justificação e julgamento das ações a que dever pelo dever,
se referem. O que você acha? A Política deveria ser pautada por critérios

éticos e morais?

Bobbio (2000) enfatiza que a Moral e a Política estão circunscritas


a sistemas éticos distintos e opostos, razão pela qual não se pode
falar em imoralidade da Política e tampouco em ausência da Moral.

A suposta imoralidade da Política, assim, corresponderia a uma


moral diferente e específica, dissociada da tradicional noção do
dever pelo dever, implicando que se deve fazer o que estiver ao
alcance para garantir a realização do objetivo proposto, porque o
resultado alcançado é, em última instância, a régua que mede o
sucesso de qualquer empreitada.

65
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O que está em jogo, segundo o autor, é a distinção entre a Ética


da Convicção e a Ética da Responsabilidade, sendo a primeira
diretamente associada ao julgamento das ações do indivíduo,
enquanto a segunda se vincula ao julgamento das ações de grupos
sociais ou de indivíduos atuando em nome de grupos sociais.

Essa distinção entre Ética da Convicção (individual) e Ética da


Responsabilidade (grupal) é de extrema importância, pois é o que
fundamenta o conceito de Razão de Estado, entendida como:

[...] aquele conjunto de princípios e máximas com


base nas quais ações que não seriam justificadas se
cumpridas por um indivíduo isolado não são apenas
justificadas, mas em alguns casos de fato exaltadas
e glorificadas se cumpridas pelo príncipe, ou por
qualquer pessoa que exerça o poder em nome do
Estado. (BOBBIO, 2000, p.176).

A Moral, assim, fica reduzida a uma razão do indivíduo, enquanto


a Política seria guiada pela razão do Estado, a qual fundamenta a
atuação deste último.

66
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Organização social
e política
As Forças Políticas
A sociedade é composta por grupos diversificados que estão
em permanente interação, sendo esta pontuada por embates
e conflitos. O que é natural, considerando que a instabilidade é o
elemento que fomenta o dinamismo da sociedade, viabilizando o
progresso histórico e moral.

A sociedade é
São usualmente apontadas como forças políticas prevalecentes
composta por
em um Estado: a Sociedade Civil, os Grupos de Pressão, a Opinião grupos diversificados
Pública e Imprensa. que estão em
permanente
interação, sendo
Vale destacar que é contínuo o desenvolvimento de novas formas
esta pontuada por
de representação social, as quais dão o tom e a feição das forças embates e conflitos
políticas, trazendo novos e grandes desafios ao Estado Democrático
de Direito.

Na sequência, são apresentados os principais pontos relacionados


com cada Força Política apontada.

Sociedade Civil

Você já sabe que, para o cumprimento das suas finalidades, o Estado


deve buscar a legitimidade da sua atuação junto à Sociedade Civil,
resultando daí o reconhecimento desta última como força política.

67
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Você acompanhou, na Unidade 1, uma discussão sobre a Sociedade Civil,

definida como:

[...] esfera das relações entre indivíduos, entre


grupos, entre classes sociais, que se desenvolvem à
margem das relações de poder que caracterizam as
instituições estatais. Em outras palavras, Sociedade
civil é representada como o terreno dos conflitos
econômicos, ideológicos, sociais e religiosos que o
Estado tem a seu cargo resolver, intervindo como
mediador ou suprimindo-os; como a base da qual
partem as solicitações às quais o sistema político
está chamado a responder; como o campo das várias
formas de mobilização, de associação e de organização
das forças sociais que impelem à conquista do poder
político. (BOBBIO, MATTEUCCI E PASQUINO,1998, p.
1210).

Esses sistemas sociais, em contínua interação, exercem influência


decisiva nas decisões que se processam na esfera política.
Apresentando-se sob diversos formatos - com ou sem fins
lucrativos, de constituição formal ou informal – as chamadas
Organizações da Sociedade Civil (OSCs) traduzem movimentos
sociais espontâneos que atuam em prol das mais variadas causas,
influenciando decisivamente na formulação das políticas públicas.
Também atuam como um instrumento de controle da atuação
governamental, usualmente denominado controle social.

Oliveira e Haddad (2001) caracterizam como OSCs: as entidades


comunitárias, vinculadas ao desenvolvimento local e liderança de
lutas populares; as organizações de assessoria e pesquisa ou de
defesa de direitos; as fundações que atuam em áreas de interesse
social ou financiam projetos sociais; e as entidades filantrópicas.

68
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os autores apontam a importância das OSCs para o exercício da


democracia e enfatizam o entendimento de que:

[...] a existência de OSCs de variada índole concretiza


a liberdade constitucional de associação e que um
setor civil forte é reflexo do respeito ao pluralismo e
à expressão de legítimas diferenças, assim como do
exercício da tolerância como princípio de convivência
social. (OLIVEIRA, 1997, p.4 citado por OLIVEIRA e
HADDAD, 2001).

Cumpre destacar a necessária diferenciação entre as OSCs voltadas


para a promoção de interesses próprios e específicos de grupos
sociais, daquelas dedicadas a atividades de notório interesse
público (OSCIPs), que gozam de incentivos fiscais e financeiros do
Poder Público.
Mas há outras
As OSCIPs, segundo apontam Oliveira e Haddad (2001), não podem formas de
organização da
se envolver em questões político-partidárias, são submetidas
Sociedade Civil,
à auditoria anual e devem dar publicidade às suas respectivas podendo ser citadas:
demonstrações financeiras. as Organizações Não
Governamentais

Mas há outras formas de organização da Sociedade Civil, podendo


ser citadas: as Organizações Não Governamentais (ONGs),
entidades privadas sem fins lucrativos e com finalidade pública, no
Brasil estruturadas no formato de associações ou fundações em
razão da ausência de instrumento legal próprio; e as Organizações
Sociais (OSs), que também são entidades privadas sem fins
lucrativos, destinadas ao exercício de atividades sociais específicas,
mediante contrato de gestão firmado com o setor público.

Os objetivos de tais instituições são muitas vezes concomitantes,


razão pela qual não é trivial a tarefa de distinção entre elas,
dificultando a classificação institucional das mesmas.

69
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Vale ressaltar que em janeiro de 2016, entra em vigor um novo


Marco Regulatório das OSCs, dedicado à regulação das parcerias
voluntárias e colaborativas entre a Sociedade Civil (notadamente
as entidades privadas sem fins lucrativos, sociedades cooperativas,
organizações religiosas) e o Poder Público.

Segundo Soares (2011), uma característica importante a ser


ressaltada, em qualquer circunstância, diz respeito ao fato de que
as relações entre os grupos sociais, assim como entre estes e o
Poder Público, são influenciadas por fatores nem sempre explícitos,
de natureza econômica e administrativa, exigindo a interveniência
das regras do Direito para garantir a normalidade das interações.

Assim, afirma Soares (2011) que a Sociedade Civil é uma mescla de


direitos individuais, liberdades e associações voluntárias, cabendo
ao Estado garantir a autonomia e a competição para a consecução
dos interesses privados.

Grupos de Pressão

Menezes e Fantoni (2015) apontam que a representação política, em


uma sociedade democrática, se dá principalmente por intermédio
dos partidos políticos, cuja participação é voluntária. No entanto,
há outra importante categoria de instrumentos de intermediação
entre os indivíduos e o Estado, denominados grupos de pressão,
definidos como:

70
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

“[...] grupos que procuram fazer com que as decisões dos poderes públicos

sejam conformes com os interesses e as ideias de uma determinada

categoria social”. (BONAVIDES, 2000, p. 264).

Assim, o principal aspecto que caracteriza os grupos de pressão


é a forte influência que exercem ou tentam exercer sobre os
partidos políticos ou poderes constituídos do Estado, em favor de
interesses próprios, constituindo uma categoria de “poder de fato”,
independentemente de formalização jurídica.

Neste sentido, as expressões “governo invisível” ou “Estado dentro


do Estado”, apontadas por Bonavides (2000), traduzem com clareza
o papel e a importância dos grupos de pressão.

O conceito de grupos de pressão não se confunde com o conceito de

grupos de interesse, sendo estes últimos voltados para a representação da

sociedade acerca de temas sociais, profissionais, econômicos, religiosos,

dentre outros, cujo foco não está na questão política.

Observa-se a ausência de consenso em torno da tipificação dos


grupos de pressão. Um deles, oferecido por Bonavides (2000), diz
respeito às técnicas de ação empregadas. A busca de resultados
a qualquer custo induz determinados grupos a ações pouco éticas
- manifestadas de forma direta e ostensiva ou indireta e oculta -,
junto a partidos políticos, poderes formais constituídos, opinião
pública e imprensa.

71
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

As técnicas de abordagem dos grupos de pressão são variadas,


sendo utilizadas estratégias específicas segundo a natureza e grau
de sensibilidade das causas em questão. Menezes e Fantoni (2015),
com base em Bonavides (2000), apresentam uma síntese dos
principais métodos e respectivos instrumentos:

• Partidos políticos: a ação se volta para o convencimento


individualizado dos parlamentares, incluindo até mesmo
o suborno e a intimidação, bem como o financiamento a
campanhas eleitorais dos partidos, criando um vínculo sem
sempre ético.

• Poderes formais constituídos: a ação se concentra no


Legislativo, via comissões parlamentares, bem como no
Executivo, por intermédio das manifestações populares.

• Opinião pública: o apelo se dá via comunicação de massa


(rádio, imprensa, televisão), sendo paga pelo grupo de
pressão ou financiada por simpatizantes.

• Imprensa: Ocorre mediante notas e editoriais,


supostamente associadas aos interesses da coletividade, o
que nem sempre se revela verdadeiro.

A seguir, é apresentada uma síntese dos principais pontos positivos


e negativos relacionados com a atuação dos Grupos de Pressão.

72
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

FIGURA 2 - Elementos Constituintes do Estado

ASPECTOS POSITIVOS ASPECTOS NEGATIVOS

Melhor estruturação das Risco de comprometimento


demandas legítimas da dos princípios básicos da
sociedade, em face da democracia representativa,
complexidade observada substituída por uma
na atividade legislativa “oligarquia de grupos”.

As informações advindas
dos grupos são um Emprego eventual de meios
importante subsídio ilícitos, como a corrupção,
à própria atividade suborno e intimidação.
legislativa.

A competição de grupos
Favorecimento de privilégios
rivais é um processo
de grupos particulares, muitas
natural e inerente à
vezes em conflito com os
sociedade democrática
interesses da coletividade.
pluralista.

Despolitização do conflito Favorecimento de grupos


de classes, reduzido a minoritários dentro do próprio
um natural conflito de grupo de interesses, os quais
interesses, que deve ser se apropriam da “política do
disciplinado. grupo”.

Extravasamento não Manipulação da opinião


violento das aspirações e pública, afetando a
sentimentos latentes de capacidade de discernimento
segmentos da sociedade. e resistência do povo.

Fonte: Menezes e Fantoni (2015), elaborado com base em Bonavides (2000).

73
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

É comum o questionamento em torno da ética e da moralidade


da atuação dos grupos de pressão, bem como dos seus impactos
sobre o Estado Democrático de Direito, face aos desvios de conduta
usualmente observados. Tal circunstância implica em grande
resistência à institucionalização de tais organizações sociais,
porém, é fato que essa iniciativa constitui uma forma de limitar e
regular a atuação das mesmas.

Menezes e Fantoni (2015) destacam que os Estados Unidos


da América fornecem um exemplo bastante maduro de
institucionalização da atividade dos grupos de pressão no âmbito
legislativo, denominada lobby.

Tecnocracia
Vale destacar, ainda,
Vale destacar, ainda, como expressiva força política em expansão,
como expressiva
força política
a Tecnocracia. Observa-se que a Tecnocracia é bastante sedutora, em expansão, a
posto que se fundamenta no notório saber dos especialistas, Tecnocracia.
motivando a transferência da responsabilidade das decisões
políticas da “maioria” para uma elite tecnocrata, a qual sabe (ou
deveria saber) o que é melhor para o conjunto da sociedade.

Menezes e Fantoni (2015), com base em Bonavides (2000), apontam


que a intervenção dos tecnocratas pode se dar de forma silenciosa
ou ostensiva, manifestando-se na planificação econômica e
educacional, na segurança nacional, no sistema tributário, dentre
outros temas de grande relevância para a Sociedade.

Como resultado, verifica-se o monopólio das decisões públicas, que


caminham na direção de uma maior restrição à manifestação do
desejo popular nos mecanismos de representação política.

74
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Opinião Pública e Imprensa

Aponta Bonavides (2000) que a opinião pública é um conceito de


difícil caracterização, podendo ser entendida, segundo afirmava
Rousseau (1712-1778), como uma “lei gravada menos no mármore
ou no bronze do que no coração dos cidadãos”, refletindo a
“verdadeira constituição do Estado”. (BONAVIDES, 2000, p. 278).

A opinião pública foi reconhecida pela primeira vez como força


política a partir do Estado Moderno, assumindo papel de destaque,
desde então, particularmente com o advento do Estado Liberal,
quando se converteu em um importante instrumento da razão
burguesa.

O Estado Liberal, marcado pela forte desigualdade e deterioração


do quadro social, acabou imprimindo uma nova perspectiva à
opinião pública, no contexto de uma “sociedade de massas”. Assim,
no século XX a opinião pública se converteu em opinião de massa,
passando de instrumento da razão burguesa a instrumento da
razão de Estado.

Observe que, na sociedade de massas, a opinião pública é


artificialmente criada por intermédio da propaganda, via imprensa,
rádio e televisão, vistos como instrumentos de deformação ou de
entorpecimento das consciências em prol de grupos de interesse
ou da razão de Estado.

Mas esse é um assunto que discutiremos detalhadamente nas


próximas Unidades. Aguarde!

75
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Leia atentamente o texto abaixo, relacionado com a votação do Plano

Municipal de Educação de São Paulo, e em seguida reflita sobre a questão

proposta.

Câmara aprova Plano Municipal de Educação de SP sem palavra gênero

25/08/2015 20h44 - Atualizado em 25/08/2015 20h55

Grupos religiosos e LGBT acompanharam votação nesta terça-feira (25).

Texto segue agora para sanção do prefeito Fernando Haddad (PT).

Roney Domingos - Do G1 São Paulo

Vereadores aprovaram plano na noite desta terça-feira (Foto: Roney

Domingos/G1)

A Câmara Municipal de São Paulo aprovou nesta terca-feira (25), em

segunda discussão (final), o projeto de lei que trata do Plano Municipal

de Educação (PME). A pressão de religiosos eliminou do texto referências

à palavra gênero e trechos da Lei Orgânica do Município e do Plano

Nacional de Direitos Humanos que garantiriam igualdade de gênero no

ensino municipal. O projeto segue agora para sanção do prefeito Fernando

Haddad (PT).

O texto final segue o escrito no Plano Nacional de Educação. A votação

ocorreu sob pressão de religiosos contrários à discussão de questões de

gênero e identidade sexual com os estudantes. Os grupos LGBT, por outro

lado, pressionaram para que as escolas ensinem as crianças a respeitar a

diversidade sexual.

O Plano Municipal de Educação deverá orientar o Executivo no

planejamento da educação da capital paulista nos próximos dez anos.

Entre outras metas, o projeto original da Prefeitura previa promover

discussões sobre discriminação por gêneros no ambiente escolar e

também a inclusão de aulas de educação e diversidade sexual na grade de

disciplinas.

76
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Manifestantes estenderam uma bandeira LGBT em frente à Câmara na

tarde desta terça-feira. Por volta das 15h20, grupos de religiosos, de um

lado, e LGBT, de outro, ocuparam galerias sobre o plenário da Câmara, de

onde acompanharam a discussão. O vereador Toninho Vespoli (PSOL) foi

vaiado e interrompido por manifestantes enquanto defendia respeito à

diversidade sexual nas escolas.

DOMINGOS, Roney. Câmara aprova Plano Municipal de Educação de SP

sem palavra gênero. G1 São Paulo (on-line). Disponível em: <http://g1.globo.

com/sao-paulo/noticia/2015/08/camara-aprova-plano-municipal-de-

educacao-de-sp-sem-palavra-genero.html>. Acesso em: 08 dez. 2015.

Tendo em mente os conteúdos abordados nesta Unidade, e com base nas

informações retratadas no texto acima e acompanhadas através da mídia,

reflita sobre as seguintes questões:

• Como você descreveria e classificaria os métodos adotados

pelos respectivos grupos antagonistas?

• Que tipo de impactos sociais você acredita que poderão ser

observados a partir dos resultados da votação em questão?

77
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Revisão
Você acompanhou, nesta Unidade, uma discussão acerca da Ética
na Política, analisada sob o prisma Poder Político - prerrogativa
do Estado, e das Forças Políticas - prerrogativa da Sociedade Civil,
tendo como pano de fundo a questão do Poder.

Os principais tópicos abordados são sintetizados a seguir.

• O Estado pode ser caracterizado como “uma ordem jurídica


soberana que tem por fim o bem comum de um povo
situado em determinado território”. (DALLARI, 1998, p. 44).
Sua formação é amparada por duas correntes teóricas:
a primeira aponta a formação natural ou espontânea do
Estado, enquanto a segunda defende a formação contratual
do Estado, a partir de um ato voluntário dos homens.

• A finalidade do Estado é uma construção social, sendo


definida em consonância com o contexto histórico e as
condições objetivas da vida em Sociedade. Dela decorrem
as suas funções, tendo como ponto central a necessidade
de legitimação do poder de governo.

• O Poder, traduzido por uma relação de dominação,


apresenta-se sob três formas: o Poder Econômico, o Poder
Ideológico e o Poder Político, diferenciando-se, sobretudo,
quanto aos meios utilizados pelo sujeito ativo para impor
ao sujeito passivo um determinado comportamento.

• O Poder Político é exercido pelo Estado, que detém a


prerrogativa do emprego da força para o alcance da
finalidade social, mediante a utilização de instrumentos
denominados Aparelhos Repressivos do Estado.
Seus atributos são a exclusividade, a universalidade
e a inclusividade. Outras formas de intervenção no
comportamento da Sociedade dizem respeito aos
Aparelhos Ideológicos do Estado.

78
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• O aparente antagonismo entre a Ética e a Política pode ser


entendido à luz do confronto entre os conceitos da Ética da
Convicção e da Ética da Responsabilidade.

• As forças políticas que se contrapõem ao Poder Político do


Estado dizem respeito a: Organizações da Sociedade Civil
- OSCs (sistemas sociais em contínua interação, exercendo
influência decisiva nas decisões políticas); Grupos de
Pressão (que atuam em favor de interesses específicos,
mediante a utilização de variados métodos de abordagem
junto ao Poder Público, nem sempre éticos); Tecnocracia
(amparada na ideia de especialização técnica e, associada
a isso, na primazia dos respectivos interlocutores sobre a
opinião do Povo); Opinião Pública e Imprensa (instrumento
de condicionamento das massas).

• O GOVERNO Explicado. Postado por: Portal Libertarianismo.

(9min.27seg.): son. color. Port. Disponível em: <https://www.

youtube.com/watch?v=Xf0zu3BKegk>. Acesso em: 08 dez. 2015.

Para saber mais sobre a finalidade do Estado e suas funções decorrentes,

veja um interessante e irônico vídeo, intitulado “O Governo Explicado”.

• INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Mapa

OSC. Disponível em: < https://mapaosc.ipea.gov.br/>. Acesso em:

07 dez. 2015.

Para saber mais sobre as características e distribuição das Organizações

da Sociedade Civil no Brasil, acesse o Mapa elaborado pelo Instituto de

Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea.

79
unidade 2
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• MARCO REGULATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE

CIVIL – MROSC. Disponível em: <http://www.participa.br/osc/

paginas/historico>. Acesso em: 07 dez. 2015.

Para saber mais sobre o novo Marco Regulatório das Organizações da

Sociedade Civil, consulte o site indicado.

80
unidade 2
Ética na
Comunicação
Introdução

Você acompanhou, nas Unidades 1 e 2 do Livro da Disciplina, uma


discussão acerca dos preceitos da Ética e da Moral vinculados à
vida em Sociedade e, particularmente, à Política. Vamos avançar
um pouco mais nessa discussão, sob o inquietante prisma dos
processos de comunicação.

Definitivamente, a discussão em torno da Ética está em voga. A


sociedade contemporânea encontra-se aturdida em meio a uma
indubitável crise de natureza ética e moral, sendo significativos
os questionamentos em torno do legado que deixaremos para as
• A ética nos
próximas gerações, como decorrência das nossas escolhas nos meios de
campos econômico, social, ambiental e político. comunicação
• Direitos e
deveres dos
A face mais emblemática dessa crise se revela na ambiguidade do
profissionais de
comportamento dos indivíduos. Por um lado, verifica-se uma reação comunicação
contundente contra os crimes políticos e de grande expressão • A
social, num clamor crescente pelo cumprimento da justiça. Por responsabilidade
social dos
outro, legitimam-se comportamentos ilícitos ou situados na região
profissionais de
fronteiriça entre a licitude e a ética, desde que os impactos sobre a comunicação
coletividade sejam supostamente “menores”, ou mesmo “invisíveis”,
numa demonstração de certo esgotamento dos valores morais.

No plano nacional, esse paradoxo é reforçado pelo caráter quase


“endêmico” da corrupção no País - envolvendo instituições públicas
e corporações empresariais - e pelo seu espelhamento em cadeia na
sociedade, num contexto em que o “jeitinho brasileiro” representa,
de antemão, um traço cultural dominante.
É preciso elucidar a origem desse crescente desgaste observado
nos preceitos éticos e morais. Vivenciamos uma sociedade
globalizada e de massas, onde predomina a produção em grande
escala e o consumismo. Nela, as próprias identidades e as relações
sociais são fortemente influenciadas pelo consumo, ao qual se
atribui um grande conteúdo simbólico, constituindo um suposto
elemento de coesão social.

O traço mais característico dessa sociedade de massas é a


padronização dos comportamentos orientados pela ideologia
dominante, que traz como consequência a redução da visão crítica
e independente em torno dos fenômenos sociais.

Neste delicado cenário, floresce o campo de discussão daÉtica


que, outrossim, não deve ser confundido com a difusão de uma
certapráxis moralista que distorce o debate produtivo acerca do
tema.

Um dos mais importantes ingredientes desta problemática


diz respeito ao papel dos meios de comunicação de massa
que, amparados por poderosas técnicas e instrumentos de
mídia,acabam se transformando em veículos de propagação
ideológica, vinculados aos mais diversificados e circunstanciais
interesses de grupos particulares.

O que se propõe nos tópicos seguintes, assim, é uma reflexão em


torno da Ética aplicada aos processos de comunicação, incluindo
o papel e a postura dos profissionais que, no exercício das suas
funções, são chamados ao enfrentamento cotidiano de grandes
dilemas de natureza moral.

Tenha uma boa leitura!


FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Ética nos Meios de


Comunicação
Introduzimos a abordagem desta Unidade apontando a redução da
visão crítica dos indivíduos, como um subproduto da massificação
e do automatismo que caracterizam a sociedade contemporânea
globalizada, regida essencialmente por ideologias.

Esse fato é extremamente relevante para a discussão da Ética.Leão


(1995) aponta que as ideologias introduzem no comportamento
humano um elemento de abstração que limita a ação autônoma,
livre e criativa dos indivíduos, essencial para que a Ética possa se
manifestar em sua inteireza. Por essa razão, “[...] a Ética é uma luta
obstinada e sem tréguas contra as abstrações da conduta humana”.
(LEÃO, 1995, p. 17).

Você viu na Unidade 1 que um dos três critérios utilizados para a

identificação do progresso moral da sociedade, traduzido pela Ética

temporal, diz respeito à ampliação consistente do nível de consciência

dos indivíduos. Daí a consequente expansão do grau de responsabilização

pelos seus atos, sob o princípio basilar da liberdade de escolha.

84
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O autor adverte que o progresso técnico – elemento que qualifica


a evolução histórica da humanidade – ignora os valores e
desconsidera os próprios limites da sua operação, criando um
ambiente desfavorável ao exercício da Ética, tanto é que:

Por isso cresce hoje, cada vez mais, a metamorfose


das sociedades em ajuntamento, da educação em
adestramento, dos grupos em massa. É o caldo
de cultura e da cultura dos meios eletrônicos de
comunicação de massa. Ora, a Ética só pode afirmar-
se, florescer e viger fora das massificações e dos
automatismos. A criação contra as repetições, o
universal contra o abstrato, a originalidade contra
a reposição, a personalidade contra as massas, a
diferença contra as uniformizações da igualdade, tal
é o verdadeiro desafio da ética no contexto sem viço
nem vitalidade, em que hoje nos descobrimos inseridos
a cada passo e por toda parte. (LEÃO, 1995, p.19).

Tais considerações levam a crer que a Ética só pode prevalecer


e prosperar num ambiente fundado nas diferenças, livre das
massificações e dos automatismos, em que pesem os estímulos
contrários trazidos pelo progresso técnico.Daí a importância da
discussão sobre a influência exercida pelos meios de comunicação
de massa, na medida em que buscam guiar a consciência dos
indivíduos e moldar o comportamento social.

Observa-se que o fracasso da abordagem positivista na análise e


tratamento dos fenômenos sociais, vem atribuindo à Ética um papel
central no campo de estudo das Ciências Sociais, sobretudo a partir
da década de 1980.

85
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A esse respeito, Santos [200?] discute os elementos básicos


que distinguem a abordagem ética da abordagem positivista,
denotados nas quatro perguntas fundamentais formuladas por
Kant (1724-1804),proeminente filósofo prussiano da era moderna:

a. O que posso saber?-questionamento acerca dos limites do


conhecimento que se pode alcançar sobre as ciências da
natureza;

b. O que devo fazer?-questionamento de cunho moral e ético,


fora do âmbito das correntes positivistas, incluindo as
vinculadas às ciências humanas e sociais;

c. O que me é permitido esperar?-questionamento quanto


ao que se pretende ou deseja para o futuro, de particular
interesse para a discussão contemporânea das ciências
econômicas, da psicanálise e do progresso técnico;

d. O que é o homem?-questionamento diretamente vinculado


ao campo de estudo das Ciências Humanas e Sociais.

Daí decorre que, estando a Comunicação inserida no vasto campo


das Ciências Sociais, seus pressupostos e prática não podem
prescindir da atenta e rigorosa observação da Ética.

Neste sentido, “[...] estando a normatividade ética intimamente


ligada à regularidade pragmática do ‘agir comunicacional’, pode-se
dizer que a ética é uma ciência da comunicação por excelência”.
(SANTOS [200?], p. 8).

86
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

E é por intermédio da comunicação que a sociedade constrói e


transforma o mundo, conforme se depreende dos seus próprios
fundamentos:

Comunicar significa repetir, dividir, pôr em comum.


O homem compreende a si mesmo quando entra em
comunhão com os outros e para os outros, pois as
relações inter-humanas implicam a alteridade entre
ospróprios homens. Fora disto fica caracterizada a
agressão existencial. (CARVALHO, 1995 citado por
BUSATO, 2001, p.31).

No entanto, é forçoso admitir que a banalização do conteúdo


informativo promovida pela comunicação de massa - sob a forte
influência da publicidade e mediante a proliferação de mídias -,
retira a credibilidade dos meios de comunicação. As consequências
se fazem sentir no próprio conteúdo informativo, que perde em
qualidade e vê sua função social desgastada.

Segundo Silva e Santos [200?], a mídia é apontada como o


Quarto Poder, título que expressa com exatidão a sua força
como instrumento de controle social. Tal controle se manifesta
no fluxo informacional, condicionando a conduta dos indivíduos
pela imposição da ideologia vinculada aos grupos de interesse
que representa, entre os quais se incluem o Poder Público, as
corporações empresariais e os poderosos conglomerados de
comunicação.

Observa-se, neste sentido, que “A força midiática é notória naquilo


que divulga e no que silencia. Sua eficácia também é vista no
serviço de ‘inculcar ideias’, com o utilitário de fazer com que o
mundo pareça ser o que vemos nas capas das revistas, telas da
televisão ou do computador”. (SILVA E SANTOS, [200?], p.3).

87
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Do ponto de vista da Comunicação, pode-se caracterizar a


informação como:

O conjunto das formas, condições e atuações para fazer públicos,

contínua ou periodicamente, os elementos do saber, do acontecimento, de

especulações, de ações e projetos, tudo isto mediante uma técnica especial

com este fim e utilizando os meios de transmissão ou comunicação social.

(BRANCO, [2004?], p. 75).

Portanto, são dois os elementos básicos que permeiam o processo


de comunicação: a ação de publicação e a tecnologia empregada.
Do que decorre uma estreita correlação entre a informação e a Portanto, são dois os
Ética, na medida em que o informador é dotado de consciência e elementos básicos
portador de valores. que permeiam
o processo de
comunicação: a
O grande avanço tecnológico e a proliferação dos canais disponíveis ação de publicação
para a veiculação das informações imprimem um ritmo mais e a tecnologia
empregada.
acelerado aos processos comunicacionais, resultando numa
ênfase crescente conferida à questão da estética, em detrimento da
questão ética vinculada ao conteúdo da informação.

Neste contexto, aponta o autor que o apelo à Ética da Comunicação


se apresenta na relação bidimensional estabelecida entre o discurso
(regras de interlocução e diálogo) e a ação (regras da interação
justa). Observa-se que:

Estes dois domínios éticos não são, no entanto,


equivalentes, nem teórica, nem praticamente: a
interlocução fundamenta-se em princípios que exigem
a adequação, a expressividade e a sinceridade do
discurso, legitimando assim o poder e o dever dizer, ao
passo que a interação fundamenta-se em princípios de
operacionalidade e de instrumentalização, legitimando
o direito e o dever de agir. (BRANCO, [2004?], p.68).

88
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Daí decorre uma ruptura entre a chamada competência discursiva,


vinculada à “ética da verdade e da sinceridade”, em consonância
com os princípios da adequação, expressividade e realismo do
discurso; e a competência operacional, caracterizada como a “ética
da eficácia”, baseada nos princípios da performance técnica.

Destaca o autor que são usuais os questionamentos éticos que se seguem

ao lançamento de novos recursos tecnológicos, levando a discussões em

torno das regras que devem regular a utilização dos mesmos, as quais se

tornam cada vez mais complexas.

O fator que determina e sanciona a aplicação das novas mídias é o grau

de aceitação e incorporação da sua lógica pela sociedade, o que se

traduz pelos índices de audiência que elas obtêm. Vale ressaltar que a

racionalidade desse processo de incorporação caminha em direção a uma

Ética Pragmática, num contexto em que a própria mídia se converte na

mensagem.

Como corolário dessas dificuldades, verifica-se uma cisão natural


(e necessária) entre as questões éticas, que são vinculadas aos
valores, de ordem performativa; e as questões morais, que versam
sobre os instrumentos de ordem normativa e regulam as relações
contratuais entre os interlocutores do processo de comunicação.

De toda essa reflexão, fica a convicção de que:

[...] o leitor, o ouvinte e o telespectador confiam no


jornalista [e por extensão, nas demais modalidades
profissionais de comunicação – grifo nosso] para
que ele lhes diga o que viu e ouviu. Isto sublinha a
importância, para a sua fiabilidade e credibilidade,
fruto de uma formação especializada, de uma certa
experiência e de uma honestidade, que se querem,
fundamentais. (WOODROW, 1996, p. 218 citado por
BRANCO, [2004?], p. 87).

89
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os impactos da hiperconectividade
nos processos de comunicação
Segundo Gomes (2002), a Internet deve ser entendida à luz de três
fenômenos distintos que se manifestam, simultaneamente: por
intermédio de um ambiente de interconexão entre as pessoas; em
cujo ambiente viabiliza-se o acesso a uma grande diversidade de
conteúdos armazenados e compartilhados instantaneamente; e em
meio a um processo de permanente interlocução textual e produção
de novos sentidos.

Daí ressaltam alguns aspectos fundamentais. No tocante à


conectividade, há que se observar os impactos sociais relacionados
com a inclusão digital, instrumento de grande importância para
a promoção da cidadania e para a coesão social. O conteúdo
armazenado e compartilhado no ciberespaço, por sua vez, suscita
um polêmico e apaixonado debate em torno da sua regulamentação
e controle. E por fim, o contato e vínculos criados por meio da
Internet invoca o questionamento em torno da própria natureza das
relações sociais processadas entre os indivíduos.

Quanto ao campo de atuação da mídia, observa-se que este não


mais se restringe aos veículos convencionais de massa, como a TV,
o rádio, o jornal, dentre outros, deslocando-se em grande medida
para o vasto ciberespaço.

E são contundentes as diferenças observadas nos processos de


comunicação, quando confrontados esses dois universos tão
peculiares. No ciberespaço, ao contrário do que se observa nos
meios de comunicação de massa, tem-se que:

[...] a qualquer momento, sem autorização social e


sem grandes investimentos em recursos, (a) qualquer
sujeito pode se tornar emissor, (b) qualquer receptor
pode se tornar emissor e vice-versa, (c) qualquer
receptor pode se transformar em provedor de
informação, produzindo informação e distribuindo-a
por rede ou simplesmente repassando informações
produzidas por outrem. (GOMES, 2001, p. 134).

90
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Nessa mesma linha, aponta Moraes (2002) que a Internet altera a


lógica da comunicação convencional - que preconiza um emissor
ativo e múltiplos receptores passivos, dando origem a uma nova
“ecologia informacional” fundada no hipertexto. E descreve outros
elementos distintivos em relação aos meios de comunicação de
massa:

• Ausência de centros diretivos e comandos decisórios;

• Predomínio da reciprocidade e dimensão comunitária;

• Caráter interativo e multipolar que desestrutura os marcos


midiáticos convencionais;

• Maior dinamismo e diversidade de conteúdos;

• Diversificação dos agentes comunicadores, com a maior


socialização dos conteúdos e seus produtores;

• Maior liberdade de escolha em torno de temas, horários


e abordagens, em contraposição às rígidas diretrizes
editoriais e ideológicas dos veículos convencionais.

A Internet converte-se, portanto, em um mecanismo poderoso,


ao qual se atribui grande expectativa e esperança em torno do
seu papel (supostamente) humanizador e caráter democratizante
na difusão de informações, que deve se processar num ambiente
inteiramente livre e autônomo.

Neste contexto, não se pode menosprezar o ímpeto mercantil


manifestado pelos grandes conglomerados de comunicação
que, cientes do poder da web, buscam alternativas de atuação e
estratégias adaptativas a essa nova “ecologia informacional”.

91
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Mas também surgem, a partir daí, novos desafios aos processos


de comunicação, suscitando profundas reflexões éticas e morais.
Estas reflexões, segundo adverte Gomes (2002), vão muito além
das usuais abordagens fenomenológicas ou jurídicas, centradas
na análise dos impactos da Internet na vida em sociedade e na
democracia, ou em torno da sua regulamentação, à luz de preceitos
legais.

Elas vêm na esteira da produção e proliferação de conteúdos


polêmicos na Internet, povoada por posicionamentos fortemente
ideológicos (que o autor reputa como desumanos, antissociais,
lesivos da honra e da dignidade de grupos, instigadores de ódio
racial, de classe ou religião, etc.) e ofensivos ou ilícitos (vinculados
ao aborto, consumo de drogas, pornografia, pedofilia, etc.).

Neste sentido, a mesma ênfase com que determinadas correntes


defendem o rigoroso controle e regulamentação da Internet, de
modo a coibir atentados à dignidade humana, é aplicada pelos que
atacam qualquer tentativa de intervenção externa. Neste último
caso, o argumento privilegia o respeito ao pluralismo democrático e
a imponderável liberdade de expressão.

Gomes (2002) traduz com propriedade essa contraposição de


posicionamentos: “[...] cada um dos lados gostaria de ver certos
valores protegidos da censura ou pela censura, da liberdade de
expressão ou pela liberdade de expressão”. (GOMES, 2002, p. 148).

Assim, embora ambos rechacem os conteúdos impróprios,


ofensivos e até mesmo ilícitos disponibilizados no ciberespaço, as
tratativas propostas divergem entre si.

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unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Uma corrente advoga a censura prévia de certos conteúdos, visando


preservar os valores morais básicos da sociedade. Para tanto,é
invocada a figura do Estado como garantidor do contrato social e
da normalidade das relações sociais, ainda que o estabelecimento
dos limites para essa tutela seja tarefa extremamente delicada,
podendo até mesmo se tornar perniciosa.

Outra corrente preconiza a neutralidade absoluta do Estado,


deixando por conta do próprio ambiente infoeletrônico a sua
autorregulação, sendo esta exercida por intermédio dos usuários
que, a todo momento, podem contestar e até mesmo banir os
conteúdos impróprios.

Uma corrente
Seria de fato oportuna aregulamentação da Internet e a censura prévia advoga a censura
de determinados conteúdos que possam apresentar cunho notadamente
prévia de certos
conteúdos, visando
ofensivo? Estão aí colocados os elementos de um paradoxo fundamental,
preservar os valores
que o autor descreve da seguinte forma: morais básicos da
sociedade.
O que fundamenta o paradoxo de tal disposição
teórica e prática em que a existência da opinião
injusta e ofensiva é tolerável, mas a censura a esta
opinião injusta e ofensiva não o é? Sem que ninguém
o ouse confessar, sustenta tal paradoxo a convicção
socialmente compartilhada de que o princípio em que
se apoia o primeiro juízo de valor é menor que o princípio
que sustenta o segundo. [...] O aparente paradoxo
se resolveria no fato de quando se confrontam, na
avaliação de um ato, os valores da dignidade humana
e da liberdade de expressão, o segundo valeria mais”.
(GOMES, 2002, p. 148).

Em suma, seria a liberdade de expressão um valor absoluto, livre


de qualquer limitação e superior a qualquer outro valor, tal como a
dignidade humana? Grave questão, essa que se coloca, de cunho
ético e moral.

93
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que qualquer ato concreto praticado sob o princípio


da liberdade de expressão (independentemente das importantes
abordagens sociológicas e jurídicas vinculadas ao tema), somente
poderá ser considerado ético e moral, na medida em que seja
respeitada e preservada a dignidade da pessoa humana.

Ou seja, o que legitima a moralidade do ato,não é a sua mera


vinculação ao princípio da liberdade de expressão; e sim, o impacto
que provoca, à luz do quadro de valores aceitos e assumidos como
regras de comportamento social.

Vale destacar a possibilidade, sempre exaltada, de recurso à chamada

“censura repressiva” (a qual sustenta o próprio princípio da liberdade de

expressão), aplicada em momento posterior e em resposta aos desvios de

conduta constatados. A ressalva, nesse caso, diz respeito ao fato de que,

quando aplicada, os seus malefícios já se fizeram sentir, apresentando-se

irremediáveis na maioria das vezes.

A reflexão não é nada trivial. Como corolário, fica uma importante


advertência do autor: “As normas éticas são legítimas apenas
quando racionalmente válidas e validáveis, ou seja, quando
razoáveis, quando temos válidos motivos (razões) para aceitá-las
se as submetermos ao exame racional”. (GOMES, 2002, p. 160).

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unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Direitos e Deveres
dos Profissionais de
Comunicação
A discussão em torno da Ética nos processos de comunicação,
e particularmente da liberdade de expressão, suscita o debate
relacionado com os direitos e deveres dos profissionais de
comunicação.

Para tanto, torna-se necessária a apresentação dos marcos


conceituais relativos à Ética Profissional e à Deontologia.

Ética profissional é o conjunto de normas éticas que formam a consciência

do profissional e representam imperativos de sua conduta. O indivíduo que

tem ética profissional cumpre com todas as atividades de sua profissão,

seguindo os princípios determinados pela sociedade e pelo seu grupo de

trabalho. (SITE SIGNIFICADOS, 2015).

No tocante à relação entre a Ética e a Ética Profissional, cabe


ressaltar que os princípios éticos e morais aplicados à profissão
não estão dissociados daqueles vigentes no ambiente social maior,
o que é natural pois, é neste último que se processam as relações
entre as pessoas em todos os níveis. Observa-se que:

“Não há, portanto, um hiato entre a ética profissional


e a ética social, pois seria cindir a própria vida do
homem na sua totalidade, isto é, em seus diversos
pertencimentos: trabalho, gênero, família, ideologia,
cultura, desejos, etc.” (BRITES; SALES, 2007, p.8 citados
por NETO, ENGLER E SILVEIRA, 2014).

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unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Em suma, a Ética Profissional diz respeito a um conjunto de


princípios vinculados a um grupo particular, sendo tal grupo uma
derivação das relações que se processam no ambiente social mais
amplo - de onde emergem valores individuais e coletivos -, com ele
guardandoestreita correspondência.

Já no tocante à Deontologia, sua definição e pressupostos são a


seguira presentados:

Deontologia é uma filosofia que faz parte da filosofia moral contemporânea,

que significa ciência do dever e da obrigação. [...] A deontologia também

pode ser o conjunto de princípios e regras de conduta ou deveres de

uma determinada profissão, ou seja, cada profissional deve ter a sua

deontologia própria para regular o exercício da profissão, e de acordo com

o Código de Ética de sua categoria. (SITE SIGNIFICADOS, 2015).

Santos [200?] aponta que a Deontologia (termo trazido por Jeremy


Bentham, originário do grego déon, relativo a dever), diz respeito
a um tipo especial de ética, a Ética Deontológica, associada aos
ideais iluministas e particularmente a Kant (1724-1804).

A Ética Deontológica é focada nos conceitos de dever (obrigação


moral) e norma, e até mesmo de estética, guardando distanciamento
das questões relacionadas com a finalidade maior da existência do
homem.

Diferentemente, portanto, da Ética Teleológica (também chamada


de Ética das Virtudes) que, vinculada às éticas gregas e cristãs,
trata das consequências das ações praticadas pelo homem sobre
algo que se qualifica como sendo a finalidade da própria existência
humana, tal como o bem supremo.

96
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Carapeto e Fonseca (2012), por sua vez, descrevem a Deontologia


como uma disciplina da Ética especialmente adaptada ao exercício
de uma profissão, mediante a necessidade de autorregulação das
atividades. Busca-se o estabelecimento de um código de conduta
profissional, cujo descumprimento leva à aplicação de sanções. O
objetivo é alcançar a excelência, bem como garantir a legitimidade e
a boa reputação da profissão e de seus titulares.

Observa-se, assim, que a Ética Profissional está mais ligada


aos princípios éticos e morais vinculados ao exercício de uma
determinada profissão, enquanto a Deontologia, também conhecida
como “Teoria do Dever”,tem uma função mais normativa e
reguladora em torno do comportamento dos profissionais, incluindo
a especificação dos seus direitos e deveres.

Daí decorrem os Códigos de Ética e os Códigos de Deontologia,


estabelecendo-se princípios morais e éticos, regulamentos e
normativos em torno da atuação profissional.

Elaborados e geridos pelas instituições e associações vinculadas


a cada categoria profissional, geralmente os códigos são mistos
e vinculados a um único documento, face à própria dificuldade de
separação dos seus escopos, que estão intimamente relacionados.
Eles complementam os dispositivos legais de regulamentação
profissional vigentes.

97
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os autores advertem que a Ética é mais abrangente que a Deontologia.

Assim, o mero ato de cumprir as normas e regulamentos deontológicos,

visando afastar a ameaça de sanções administrativas ou até mesmo

penais, não é suficiente para caracterizar a conduta profissional como

essencialmente ética.

Somente apresenta conduta ética o indivíduo que, por sua própria vontade,

reconhece e aceita intimamente a norma moral e, a partir dela, assume

um determinado padrão de conduta social (e profissional), arcando com

os ônus e os bônus decorrentes das suas ações.

Isso significa que, sem a convicção interior e a liberdade de escolha,


não há que se falar em comportamento moral e ético, tratando-se
de uma mera reprodução automática de convenções pela via da
coação.

O reconhecimento da forte influência exercida pelos meios de


comunicação no comportamento social, conferem importância
fundamental à instituição de Códigos de Deontologia e de Ética
Profissional.

São destacados, na sequência, os principais pontos preconizados


pelo Código dos Profissionais Jornalistas e pelo Código dos
Profissionais da Propaganda, este último procurando atender
a uma pluralidade de instituições com atividades afins, tais
como:Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAP),
Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Federação Nacional
das Agências de Propaganda (FENAPRO), a Associação Brasileira
das Agências Digitais (ABRADI), Associação Nacional dos Editores
de Revistas (ANER), Associação Nacional de Jornais (ANJ),
Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (APRO),
Associação Brasileira de Produtoras de Fonogramas Publicitário
(APROSOM), dentre outras.

98
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Código de Ética dos


Profissionais Jornalistas
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, segundo explicita a
Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ, é todo ele estruturado
tendo como base o direito constitucional do cidadão à informação,
no que concerne ao direito de informar, de ser informado e de ter
acesso à informação.

Isso significa que o direito fundamental de divulgar informações,


conferido às atividades jornalísticas e seus respectivos profissionais,
deve ser guiado por alguns princípios básicos, abaixo sintetizados:

• Compromisso com a qualidade da informação, que deve


ser precisa e correta;

• Compromisso com a veracidade dos fatos divulgados e


com o interesse público;

• Consciência da responsabilidade social no exercício das


funções, derivada da própria liberdade de imprensa.

Na mesma linha, Kosovski (1995) aborda três aspectos


fundamentais que devem ser observados pelos profissionais de
comunicação no exercício das suas atividades: a redação adequada
das matérias jornalísticas, que requer domínio quanto a sua técnica;
a imparcialidade dos interlocutores na produção das matérias
jornalísticas; e o respeito à liberdade alheia.

Afirma a autora que “a redação é a âncora da verdade, é o modo


de fixação dos significados ditos verdadeiros”. (KOSOVSKI, 1995, p.
27).

99
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, alguns requisitos vinculados à redação são fundamentais


para que os objetivos do processo de comunicação sejam
alcançados, transcritos a seguir:

1. Clareza: visão clara e exposição fácil.

2. Concisão: palavras justas e significativas, sem excessos.

3. Densidade: texto substantivo com fatos; frases repletas de


sentidos.

4. Simplicidade: a difícil facilidade, o uso de palavras familiares


e comuns.

5. Exatidão: a busca do termo justo.

6. Precisão: o rigor lógico e psicológico, no qual se evita a


ambiguidade.

7. Naturalidade: sem pedantismo e afetação. A simplicidade


se refere ao estilo, à naturalidade, ao tom.

8. Variedade: diversificação expressiva para não cair em


monotonia estilística.

9. Ritmo: adequar o ritmo ao fato ou história (ritmo grave,


reflexivo, cômico, etc.).

10. Brevidade: dizer apenas o necessário, usando a concisão e


a densidade. (KOSOVSKI, 2005, p. 28).

A imparcialidade do profissional de comunicação em seus


posicionamentos é outro aspecto de grande importância, embora
de difícil alcance, dado o caráter subjetivo que permeia a visão dos
fatos. No que diz respeito à liberdade alheia, trata-se dos limites
impostos à atuação jornalística, de modo a que sejam preservadas
as liberdades individuais.

100
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Como resultado, o Código de Ética aponta como deveres do


jornalista:

I - opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem


como defender os princípios expressos na Declaração
Universal dos Direitos Humanos;

II - divulgar os fatos e as informações de interesse público;

III - lutar pela liberdade de pensamento e de expressão;

IV - defender o livre exercício da profissão;

V - valorizar, honrar e dignificar a profissão;

VI - não colocar em risco a integridade das fontes e dos


profissionais com quem trabalha;

VII - combater e denunciar todas as formas de corrupção,


em especial quando exercidas com o objetivo de controlar
a informação;

VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e


à imagem do cidadão;

IX - respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em


todas as suas formas;

X - defender os princípios constitucionais e legais, base do


estado democrático de direito;

XI - defender os direitos do cidadão, contribuindo para a


promoção das garantias individuais e coletivas, em especial
as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e
minorias;

101
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

XII - respeitar as entidades representativas e democráticas


da categoria;

XIII - denunciar as práticas de assédio moral no trabalho


às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética
competente;

XIV - combater a prática de perseguição ou discriminação


por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de
gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou
mental, ou de qualquer outra natureza.(FENAJ, 2015).

O Código também faz um alerta quanto a informações que não


podem ser divulgadas pelos jornalistas:

• Informações voltadas para a satisfação de interesses


pessoais;

• Informações consideradas mórbidas, sensacionalistas ou


contrárias aos valores humanos, com destaque para as que
envolvam as práticas de crime e violência; e

• Informações obtidas por meios ilícitos ou antiéticos, salvo


(surpreendentemente) em casos de incontestável interesse
público e na ausência de alternativas para a apuração dos
fatos.

Vale destacar que os profissionais jornalistas são responsáveis


pelas informações que divulgam, ressalvados os casos de
adulteração de conteúdos por terceiros, circunstância que os exime
de responsabilidade.

O descumprimento aos dispositivos previstos no Código implica em


penalização dos infratores, incluindo a observação, a advertência, a
suspensão e a exclusão do quadro social da respectiva instituição a
que estiverem filiados.

102
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Branco [2004?] aponta, ainda,a existência de alguns princípios de


caráter geral, os quais devem ser observados pelos profissionais
jornalistas, cabendo ressaltar que estes são extensivos a outras
categorias profissionais de comunicação:

• A lealdade à profissão elegida, delimitada pelas suas


atividades próprias, contribuindo para o seu prestígio e boa
fama;

• A preparação adequada para o desempenho do ofício;

• O exercício competente e honesto da profissão, tendo


presente em todos os casos a dignidade humana;

• A entrega ao trabalho profissional como correspondendo a


uma vocação;

• A realização das prestações resultantes deste trabalho em


favor do bem comum e ao serviço da sociedade;

• O constante aperfeiçoamento do próprio saber, sem


considerá-lo jamais como algo limitado;

• A exigência justa de obter não só o respeito e prestígio


profissionais, mas também os meios materiais para uma
vida digna;

• A lealdade é um princípio razoável na sua própria


consciência, apesar de possíveis circunstâncias contrárias
ou contraditórias;

• O direito moral de permanecer na profissão elegida, e o


constante câmbio de atividades e ocupações de diversa
índole é oposto à estabilidade profissional;

• O esforço constante por servir os demais, conservando


plenamente, ao mesmo tempo, a sua liberdade profissional.
(BRANCO, [2004?], p. 78).

103
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Código de Ética dos


Profissionais de Propaganda

Os três primeiros parágrafos do Código de Ética dos Profissionais


de Propaganda denotam, pelo caráter taxativo da sua mensagem,
o grau de criticidade das atividades em questão, em razão dos
impactos que provocam na sociedade:

I – A propaganda é a técnica de criar opinião pública


favorável a um determinado produto, serviço, instituição
ou ideia, visando a orientar o comportamento humano das
massas num determinado sentido.

II – O profissional de propaganda, cônscio do poder que a


aplicação de sua técnica lhe põe nas mãos, compromete-se
a não utilizá-la senão em campanhas que visem ao maior
consumo dos bons produtos, à maior utilização dos bons
serviços, ao progresso das boas instituições e à difusão de
ideias sadias.

III – O profissional da propaganda, para atingir aqueles


fins, jamais induzirá o povo ao erro; jamais lançará mão da
inverdade; jamais disseminará a desonestidade e o vício.

104
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Malgrado o tom positivo das afirmações, estão aí contidos os


ingredientes de uma grande problemática instaurada na sociedade
contemporânea,vinculada ao campo de atuação da publicidade
comercial:

• O comportamento de massas é tipicamente alienante,


autômato, vinculado a ideologias que ferem os princípios
da livre escolha, o que se apresenta incompatível com a
essência da Ética.

• A noção de Responsabilidade Social nos ensina que o


estímulo ao aumento do consumo de bens fere os objetivos
de “consumo sustentável”, ou “consumo verde”, essencial
para o alcance da Sustentabilidade e a preservação do
planeta.

• O apelo da Sustentabilidade não se restringe à substituição


de“produtos ruins” por “produtos bons”, mas enfatiza
a necessidade de redução e racionalização do próprio
patamar do consumo. Não nos esqueçamos da nossa
“pegada ecológica”, abordada na Unidade 1!

Estaria então a atividade de propaganda, na contramão dos preceitos

fundamentais da Ética? Em suma, estaria a propaganda, na verdade,

induzindo as massas ao erro, ao invés de contribuir para a debelação

deste?

Graves reflexões, essas que se apresentam, sobretudo para a nova geração

de profissionais da área de Comunicação, que já se forma à luz de um novo

e emergente paradigma socioeconômico e ecológico, em contraposição a

conceitos há muito arraigados.

105
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os demais elementos retratados no Código de Ética dos


Profissionais de Propaganda versam sobre princípios éticos e, na
sua grande maioria, sobre aspectos reguladores e normativos em
torno das atividades exercidas.

Vale destacar a recente revisão e atualização do referido Código no


ano de 2014, tendo sido abordados importantes pontos, alguns dos
quais sintetizados:

• Compromisso de recusa a qualquer ato que venha a resultar


em prejuízos ao meio ambiente.

• Condenação a toda forma de mistificação do trabalho


publicitário, respeitando-se os usos e costumes e evitando-
se todo tido de indução;

• O repúdio a qualquer forma de discriminação, seja ela de


gênero, opção sexual, cor, raça ou condição econômica.

• A defesa da liberdade de mercado para a veiculação das


informações.

106
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Responsabilidade
Social dos Profissionais
de Comunicação
Na sociedade contemporânea, caracterizada pela diversidade de
canais de comunicação e pela instantaneidade de propagação das
informações, o papel e a influência da mídia constituem um assunto
polêmico e da maior gravidade.

De primordial, o fato de que, quanto maior a exposição dos fatos e


personagens abordados pela mídia, maior a responsabilidade desta
última quanto aos impactos causados na sociedade, traduzidos
pelas mobilizações que se seguem em resposta ao clima
engendrado ora de expectativa, ora de perplexidade, de pânico, de
desalento, de revolta, dentre outros.

A correlação entre mídia e violência, segundo Kosovski (2005), constitui

um dos exemplos mais emblemáticos dessa questão, existindo uma série

de estudos que apontam uma correlação positiva entre a exacerbação

das notícias em torno de práticas criminosas (particularmente o tráfico

de drogas) e a ampliação do número de delitos, que a partir daí vão se

tornando cada vez mais usuais. Ainda que a afirmativa seja carregada

de controvérsia, fica patente a imperiosa necessidade de observação de

preceitos éticos pelos veículos de comunicação.

107
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Outro aspecto de grande relevância, no tocante à influência dos


veículos de comunicação sobre o comportamento social (e que será
objeto de detalhamento na Unidade 4), diz respeito à esfera política.

Segundo adverte Branco [2004?], a atuação da imprensa exerce


papel decisivo nos debates (e nos resultados) políticos, não se
limitando à transmissão ou mediação de informações, sendo os
jornalistas apontados como verdadeiros produtores de opinião
pública.Como pano de fundo, a essencial questão do poder, objeto
de discussão da Unidade 2.

Observa-se que o poder da Comunicação, caracterizado como


um Poder Ideológico, se manifesta em função da sua capacidade
de intervir na dinâmica dos fatos socioeconômicos e políticos,
pelo que se invoca a Ética e a Responsabilidade Social dos seus
interlocutores.

E é exatamente por intermédio da poderosa mídia que os diversos


grupos de interesse, e particularmente o Estado, exercem a sua
propagação ideológica, em consonância com os chamados
Aparelhos Ideológicos.

Althusser (1970), importante autor da corrente marxista, aponta


que os Aparelhos Ideológicos são representados por instituições
especializadas, tais como a Igreja, a Escola, a Família, os Partidos
Políticos, as Organizações Sindicais, as normas jurídicas, e se
manifestam sob diversos formatos, por intermédio da mídia e das
expressões culturais.

Importância especial é conferida ao Aparelho Ideológico Escolar,


na medida em que, lado a lado com o Aparelho Ideológico Familiar,
incide diretamente sobre as crianças, mais suscetíveis ao controle
ideológico.

108
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os mecanismos de indução empregados dizem respeito a critérios e


regras sociais de exclusão, seleção, sanção, censura, dentre outros.
Em comum, o fato de que, embora sejam diversificados quanto às
circunstâncias e aos meios de aplicação, apontam sempre para
uma determinada ideologia dominante.

O discurso, originário de grupos particulares e moldado segundo


linguagens e instrumentos apropriados, é revestido de conteúdos
de fundo moralista, econômico, nacionalista, dentre outros, em Os mecanismos
de indução
consonância com a conjuntura e os interesses em pauta.
empregados dizem
respeito a critérios
O grupo dominante, desta forma, obtém e perpetua o poder por e regras sociais de
exclusão, seleção,
intermédio do controle dos Aparelhos Ideológicos, sob a chancela
sanção, censura,
dos veículos de comunicação. dentre outros.

Liberdade de Expressão x
Responsabilidade Social
A tratativa para a complexa questão derivada da contraposição
entre Liberdade de Expressão e Responsabilidade Social, reside
na conscientização crescente dos profissionais de comunicação,
impondo-se claros limites éticos às suas manifestações.

109
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Seria a Ética incompatível com a liberdade de imprensa? E como

compatibilizar o plano de consciência dos profissionais de comunicação,

que está vinculado à sua livre escolha, com os limites que lhes são trazidos

pelos Códigos de Ética e Deontologia?

A resposta é dada por Paulo de Tarso, que já afirmava há quase dois mil

anos atrás, em sua Primeira Epístola aos Coríntios: “Todas as cousas me

são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as cousas me são lícitas, mas eu

não me deixarei dominar por nenhuma delas”. (1 Cor 6,12). Esta é uma das

mais lúcidas e sábias recomendações do eminente Apóstolo de Jesus,

que toca diretamente o plano de consciência individual, e particularmente

dos profissionais da comunicação.

Vale a pena destacar algumas importantes alíneas contidas no


artigo 5º. da Constituição Federal, que trata dos direitos e deveres
individuais e coletivos, os quais representam pesos e contrapesos
ao exercício da comunicação em sociedade:

IV – É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado


o anonimato.

V – É assegurado o direito de resposta, proporcional ao


agravo, além da indenização por dano material, moral ou à
imagem.

IX - É livre a expressão da atividade intelectual, artística,


científica e de comunicação, independentemente de
censura ou licença.

X - São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a


imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização
pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

110
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

XII - É inviolável o sigilo da correspondência e das


comunicações telegráficas, de dados e das comunicações
telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas
hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de
investigação criminal ou instrução processual penal.

XIV – É assegurado a todos o acesso à informação e


resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao
exercício profissional. (SENADO FEDERAL, 2015).

Assim, observa-se que à liberdade de expressão (e de imprensa)


deve corresponder a responsabilidade pelos seus efeitos, pelo que
se impõem limites visando garantir a convivência harmônica em
sociedade. Daí a importância da Ética e da Deontologia, trazendo
à tona a questão dos limites, em respeito aos princípios básicos da
cidadania.

Busato (2001) aponta que os meios de comunicação não são


inofensivos nem imparciais, seja a sua mensagem voltada para o
bem ou para o mal. Tal circunstância torna-se particularmente grave
diante do baixo nível educacional e do reduzido grau de politização
da sociedade brasileira, em que pesem os avanços obtidos na
esfera socioeconômica e no próprio funcionamento do Estado
Democrático de Direito, ao longo das últimas décadas.

Particular alerta é feito pelo autor, no tocante à formação das


crianças e jovens, submetidos a um verdadeiro bombardeio
ideológico em prol do consumismo e da competitividade como
estilo primordial de vida, em contraposição direta aos princípios
mais elementares da Ética e da Moral. Neste contexto, o que se
observa, em grande escala, é a exploração da sensualidade, da
violência e outros recursos apelativos para o alcance dos efeitos
desejados.

111
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

São artifícios que, lamentavelmente, vêm se mostrando bastante


eficazes para o aumento da audiência dos canais de comunicação,
objetivo primeiro e último das empresas do setor.

No sentido oposto à manipulação promovida pela comunicação


de massa, os fatos jornalísticos, de modo geral e por todas as
mídias, deveriam ser apresentados como elementos subsidiários
ao processo de reflexão da sociedade - e nunca como verdades
absolutas ou fatos acabados -, de modo a respeitar-se o princípio
da livre escolha que deve orientar a consciência individual.

Não se trata, aqui, de nenhuma apologia à censura. O que se defende é a

apresentação de conteúdos de melhor qualidade formativa, de modo que

a comunicação possa estimular a construção e reconstrução permanente

de novos modelos éticos, suportados pela avaliação crítica e livre dos

indivíduos.

Sob tais pressupostos, e ao contrário da tendência que se


observa na atualidade, a comunicação seria alçada à categoria de
instrumento promotor da cidadania, contribuindo para o progresso
moral da sociedade.

Para tanto, há que se identificar e enfrentar um conjunto de


externalidades que atuam no sentido da deturpação dos princípios
mais nobres da Comunicação, impedindo que os seus objetivos
sociais se consolidem.

Busato (2001) aponta quatro delas, associadas, respectivamente,


à política, aos interesses econômicos, à diversidade cultural e ao
comportamento sexual, as quais serão sintetizadas na sequência.

112
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

a. A interveniência política:

Trata-se da intervenção dos governos na imprensa, mediante


o ocultamento ou a manipulação de informações oficiais (e
oficiosas); a contratação de matérias pagas; a pressão advinda do
poder econômico do setor público, com os seus vultosos contratos
de publicidade; dentre outros artifícios. O objetivo é influenciar a
opinião pública em favor dos respectivos projetos políticos, seja em
âmbito federal, estadual ou municipal.

A ação investigativa das empresas de comunicação, visando a


apuração da veracidade dos fatos e da completude das informações
é tarefa primordial, sob pena de que estas se transformem em
meros agentes propagandísticos dos governos, dificultando o
O objetivo é
controle social que deve ser exercido pela sociedade sobre o Poder influenciar a opinião
Político. pública em favor
dos respectivos
projetos políticos,
A recíproca também é verdadeira, ou seja, é inadmissível que os seja em âmbito
meios de comunicação atuem como mecanismos de campanha federal, estadual ou
anti governista sistemática, dirigindo ao Poder Público críticas municipal.
orquestradas, em razão das divergências salutares que decorrem
do processo democrático.

Neste sentido, não cabe aos meios de comunicação de massa


tomar partido pelo lado a ou b do palco político (embora não
se possa desvincular os seus interlocutores das suas crenças
pessoais) e sim, fornecer elementos para que os cidadãos reflitam e
se posicionem por suas próprias consciências.

O compromisso é com a verdade, com o máximo de honestidade


e neutralidade possível, de modo a que sejam respeitados os
princípios da cidadania e preservados os fundamentos básicos do
Estado Democrático de Direito.

113
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

b. A interveniência econômica:

O consumismo é o alimento da sociedade de massas, levando


à aquisição desenfreada e desnecessária de bens pela via da
imposição do desejo e da expectativa de inserção social, em
contraposição direta aos objetivos da Sustentabilidade que se
pretende legar às gerações futuras.

A superexposição e a linguagem são as principais armas utilizadas


para a propagação dessa mensagem consumista tão cara a grupos
econômicos particulares, representativos dos grandes anunciantes
que sustentam os veículos de comunicação.

Assim, o bom e velho Poder Econômico, retratado na Unidade 2,


constitui uma ferramenta poderosa para a propagação de ideologias
que, a todo instante, buscam impor um determinado padrão de
consumo e comportamento social, sob a chancela dos veículos de
comunicação de massa, sem os quais não subsistiriam.

O alvo é certeiro: a demonstração de resultados e o balanço


patrimonial das empresas de comunicação. E assim não poderia
deixar de ser, considerando que estas devem apresentar retorno
adequado aos investimentos dos seus respectivos acionistas. O
cerne da questão está no equilíbrio a ser buscado entre os dois
lados da moeda, afinal, “os fins não justificam os meios”!

Ao mesmo tempo em que não podem prescindir da necessária


rentabilidade das atividades, os veículos de comunicação também
não podem se render a todo tipo de manipulação que venha a
fraudar a percepção dos indivíduos e condicionar a sua decisão de
compra ou comportamento social.

Torna-se imperativa a avaliação dos impactos sobre a sociedade,


sob o imponderável holofote da Ética e da Responsabilidade Social.
Tarefa nada trivial!

114
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. A interveniência cultural:

Outro aspecto de suma relevância, mas de características mais


sutis, diz respeito ao movimento de homogeneização da cultura que
se observa, não raro, no âmbito dos meios de comunicação.

Trata-se da chamada “indústria cultural” que, sob a tutela de


grupos de interesse, promove a superexposição de determinadas
manifestações culturais, sobrepondo-as em relação a outras de
igual expressão social, ainda que essa ação possa ser desprovida
de intencionalidade.

A problemática diz respeito aos seus possíveis impactos sobre


a diversidade e a densidade cultural, tendo em vista as maiores
dificuldades que outros tipos de manifestação apresentam para se
reproduzir e auto afirmar, na ausência do patrocínio dos poderosos
grupos de interesse.Trata-se de uma luta contra a imposição de
padrões e hábitos culturais.

d. A interveniência sexual:

O autor também denuncia o componente sexual e de erotismo


com que as mais diversificadas categorias de produtos são
apresentadas pelos meios de comunicação, mediante imagens
explícitas ou mensagens implicitamente incorporadas em gestos,
sons ou palavras, traduzindo uma forma de manipulação das mais
espúrias.E que funciona!

Fere-se a dignidade humana sem o menor escrúpulo, sendo as


sensações e emoções convertidas em instrumentos de venda,
inteiramente banalizadas e automatizadas.

115
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por outro lado, ao deixar de abordar, ou abordar inadequadamente


aspectos essenciais em torno da sexualidade, mediante o
patrulhamento ideológico deste e de outros importantes temas
(caracterizado pela onda asfixiante do “politicamente correto”), os
veículos de comunicação acabam por prestar mais um desserviço
à sociedade, pois jogam uma cortina de fumaça em torno de
assuntos fundamentais não apenas para a reflexão ética e moral
dos indivíduos (sobretudo das crianças e jovens), mas também para
a tratativa de aspectos básicos vinculados à própria saúde pública.

Branco [2004?], por sua vez,na mesma linha apresentada por Busato
(2001), denuncia quatro elementos desestabilizadores, vinculados
à própria essência da comunicação de massa, que atuariam na
contramão do clamor pela “higienização” da comunicação e pela
maior conscientização dos seus profissionais:

1º O determinismo econômico e tecnológico, relacionado, por


um lado, com a dificuldade de conciliação entre os interesses das
empresas e do público, gerando pressões internas sobre os veículos
de comunicação; e por outro, com o imperativo da velocidade
de transmissão das informações, induzindo e estimulando a
manipulação mediática.

2º As modificações estruturais da televisão, causadoras de


uma certa confusão entre os gêneros informativo, de diversão e de
publicidade.

3º A desinformação e a manipulação, tática de natureza


oportunística que enfatiza o excesso midiático para o controle das
consciências dos indivíduos, no tocante a grandes questões de
interesse geral ou nacional.

4º A pressão dos serviços das relações públicas, cujos


eventuais favorecimentos e privilégios conduzem os profissionais
de comunicação à delicada fronteira entre a licitude e a moralidade.

116
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Na outra ponta do processo de comunicação, vale destacar o


papel fundamental do cidadão que, tendo direito à informação de
qualidade e isenta de ideologias e manipulações de qualquer tipo,
tem a responsabilidade de denunciar todo e qualquer tipo de abuso.

Este movimento é crucial paraforçar uma maior amplitude e


diversificação do escopo de informações disponibilizadas, em
contraposição à tendência de seletividade em torno de vertentes
particularizadas que promovem o controle das consciências e a
manipulação do comportamento social.

As relações entre o setor público e o setor privado constituem um dos

maiores desafios para o funcionamento adequado do Estado Democrático

de Direito. Leia a matéria jornalística indicada, que retrata a face delicada

dessas relações.

“Empreiteiras se aliam a Veja para chantagear governo”

SEG, 02/02/2015 - 11:12

ATUALIZADO EM 02/02/2015 - 11:42

Disponível em: http://jornalggn.com.br/tag/blogs/manipulacao-da-midia.

Acesso em: 23 dez. 2015.

Em seguida, reflita sobre as seguintes questões:

• Como você avalia a conduta do veículo de comunicação,

relativamente aos interesses manifestados pelo grupo econômico

em particular?

• Que aspectos você acredita que estão em jogo, no tocante aos

preceitos morais e aos princípios democráticos que regem a

sociedade brasileira?

117
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Revisão
Reveja, na sequência, os pontos centrais abordados nesta Unidade,
relacionados com a Ética na Comunicação:

• Os veículos de comunicação de massa, sendo regidos por


ideologias vinculadas a grupos de interesse, reduzem a
visão crítica dos indivíduos, promovendo a automatização
do comportamento social.

• A banalização dos conteúdos informacionais retira


a credibilidade dos meios de comunicação, que se
transformam em instrumentos de propagação ideológica,
com profundas implicações nos campos ético e moral.

• A Ética, por sua vez, só pode prevalecer e prosperar num


ambiente fundado nas diferenças, livre das massificações e
dos automatismos, em que pesem os estímulos contrários
trazidos pelos grandes avanços tecnológicos.

• A Internet altera a lógica da comunicação convencional, que


preconiza um emissor ativo e múltiplos receptores passivos,
dando origem a uma nova “ecologia informacional” fundada
no hipertexto, cuja maior pretensão é a humanização e a
democratização dos fluxos informacionais. Neste contexto,
os grandes conglomerados de comunicação buscam
alternativas de atuação e estratégias adaptativas a esse
novo ambiente.

• A emergência da Internet traz novos desafios relacionados


com a produção e disseminação de conteúdos de caráter
ofensivo e ilícito, suscitando uma polêmica em torno da
contraposição entre os valores da dignidade humana x
liberdade de expressão.

118
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• O ato concreto praticado sob o princípio da liberdade de


expressão somente será ético se, e somente se, estiver
amparado no respeito à dignidade humana e às liberdades
individuais, aspecto de suma importância para os
profissionais vinculados às atividades de Comunicação.

• A Ética Profissional está mais ligada aos princípios éticos


e morais vinculados ao exercício de uma determinada
profissão, enquanto a Deontologia, também conhecida
como “Teoria do Dever”, tem uma função mais normativa e
reguladora em torno do comportamento dos profissionais,
incluindo a especificação dos seus direitos e deveres.

• No tocante à Responsabilidade Social dos profissionais de


Comunicação, observa-se que quanto maior a exposição
dos fatos e personagens abordados pela mídia, maior
a responsabilidade desta última quanto aos impactos
causados na sociedade.

119
unidade 3
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Para saber mais sobre o processo de condicionamento ideológico

promovido pela sociedade de massas, veja o interessante vídeo

intitulado:

A Servidão Moderna. Publicado em 25 ago de 2012. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=Ybp5s9ElmcY. Acesso em: 23 dez.

2015.

• Para mais informações sobre o processo de manipulação da

mídia, incluindo os elementos que influenciamo comportamento

da imprensa, a forma como as notícias são produzidas e a

interveniência de interesses de grupos particulares, assista aos

seguintes documentários:

Mídia, Poder e Sociedade, publicado em 12 de jun de 2013, em três partes.

Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=P78WEDZhUYk>;<https://www.

youtube.com/watch?v=I6QY4JFrbUI>;<https://www.youtube.com/

watch?v=Zpjdfgi6yUI>. Acesso em: 23 dez. 2015.

Levante sua Voz, publicado em 9 mar de 2013. Disponível em: https://

www.youtube.com/watch?v=hlgvEuysACI. Acesso em: 23 dez. 2015.

120
unidade 3
O Papel da
Comunicação
Introdução

Você viu, na Unidade 3, que a comunicação exerce um papel central


na moderna sociedade contemporânea, pois é por intermédio dela
que a sociedade constrói e transforma o mundo.

Comunicar significa repetir, dividir, pôr em comum.


O homem compreende a si mesmo quando entra em
comunhão com os outros e para os outros, pois as
relações inter-humanas implicam a alteridade entre
ospróprios homens. Fora disto fica caracterizada a
agressão existencial. (CARVALHO, 1995 citado por
BUSATO, 2001, p.31). • Comunicação
política
Os problemas começam quando os meios de comunicação, • Relação entre
caracterizados como veículos de massa, se desviam da sua função comunicação e
política
social, atuando como instrumentos de propaganda ideológica em
favor de interesses particulares de grupos econômicos e políticos.

Não se trata, aqui, de defender a neutralidade dos meios de


comunicação, na medida em que os conglomerados que os
controlam são agentes sociais ativos, detentores de interesses
legítimos e posicionamentos próprios. Muito menos derestringir a
atuação dos meios de comunicação na cena social, na medida em
que os seus mecanismos e instrumentos são fundamentais para a
interação entre os indivíduos e para o próprio desenvolvimento da
sociedade.
O que se pretende é a consolidação de mecanismos de comunicação
alternativos que viabilizem a maior transparência, abrangência de
conteúdos e avaliação crítica dos fenômenos sociais.

Nesta unidade, vamos avançar na discussão em torno dos


processos de comunicação em uma dimensão muito peculiar e
sensível: a esfera política, com todas as suas consequências para o
pleno exercício da cidadania e para asaúde do Estado Democrático
de Direito.

A partir da apresentação dos conceitos básicos vinculados à


comunicação política, serão abordadas as principais estratégias
a ela vinculadas, recorrentemente utilizadas pela mídia. Tais
recursos visam moldar as percepções dos indivíduos, à luz de duas
dimensões temporais: uma de curto prazo, vinculada às campanhas
eleitorais; e outra de médio e longo prazos, voltada para a gestão
das carreiras políticas.

Os conteúdos são densos e polêmicos, exigindo muita atenção e


senso crítico. Mas o exercício reflexivo é imprescindível e urgente,
à luz do quadro de desagregação ética e moral vivenciado pela
sociedade brasileira, amplamente debatido nas unidades anteriores.

Tenha uma boa e produtiva leitura!


FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Comunicação Política
A comunicação política, constituindo uma das mais importantes
dimensões dos processos de comunicação social, pode ser
caracterizada como:

[...] o campo de estudos que compreende a atividade


de determinadas pessoas e instituições (políticos,
comunicadores, jornalistas e cidadãos) nas quais
se produz um intercâmbio de informações, ideias e
atitudes que envolvem os assuntos públicos. Em outras
palavras, a comunicação política é o intercâmbio de
signos, sinais ou símbolos de qualquer espécie, entre
pessoas físicas ou sociais, com o que se articula a
tomada de decisões políticas, assim como a aplicação
destas na sociedade. (CANEL,1999 citado por NOBRE e
NOBRE, 2013, p. 21).

Em termos mais restritos, pode-se caracterizar a comunicação


política como um processo que visa a:

[...] implementação de estratégias de aproximação


entre os diversos intervenientes do processo político,
tendo como enfoque central a relação entre os
partidos e os seus líderes e os públicos que constituem
o eleitorado, relação esta mediada pelos meios de
comunicação social. (SANTO e FIGUEIRAS, 2010, p.81).

124
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Vale destacar que a comunicação política pode ser analisada


segundo perspectivas analíticas diversificadas e não excludentes,
segundo aponta Matos (2006), a saber: a instrumental, a ecumênica,
a competitiva e a deliberativa.

a. A abordagem instrumental vê a comunicação política como


um conjunto de técnicas e propaganda ideológica de que
se valem os políticos e governantes para a manipulação da
opinião pública, mediante a utilização do marketing político
e a influenciação dasestruturas educativas e culturais.

b. A abordagem ecumênica, por sua vez, trata a comunicação


política como um sistema de interações múltiplas entre
políticos, mídia e cidadãos na esfera pública, mediante
a circulação de informações. Ressalta-se, no entanto,
que tais informações não são neutras, apresentando um
forte conteúdo simbólico vinculado ao contexto social e
político, o qual não pode ser desconsiderado. Desses fatos,
resultam discursos contraditórios segundo a origem da
comunicação, ou seja, se proveniente da classe política, dos
jornalistas ou da opinião pública apontada por pesquisas.

c. A abordagem competitiva está focada no condicionamento


da opinião pública pela mídia em torno dos fatos políticos,
utilizando-se, para tanto, aspectos cognitivos e simbólicos.
Afirma-se que a comunicação política é capaz de alterar
não só a recepção das mensagens, os temas e os termos
utilizados, como também as perspectivas e escolhas
políticas dos indivíduos.

125
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

d. A abordagem deliberativa, por fim, enfatiza os princípios


de uma democracia ampliada, a chamada democracia
deliberativa. A comunicação política se daria mediante
a participação da sociedade em um debate ampliado e
coletivo, onde os indivíduos são considerados iguais na
cena política e dispõem de liberdade e autonomia para
deliberarem sobre os temas políticos. Em contraposição,
portanto, à nossa atual democracia representativa, onde
se verificam limitações de ordem prática à participação
política popular, caracterizando uma democracia imperfeita,
ainda que mais pragmática e operacional.

Para entendermos o significado e o alcance da comunicação política,

torna-se necessário explicitara sua correlação com a comunicação

pública, ambas compartilhando o mesmo espaço de manifestação social,

denominado esfera pública.

Na esfera pública interagem os agentes públicos e privados, de


forma presencial ou mediante a utilização dos mais diversificados
instrumentos comunicacionais, físico se virtuais, estes últimos
imprimindo um caráter de instantaneidade e multidirecionalidade às
interações.

A comunicação pública representa o conjunto de interações


processadas na esfera pública,

tendo sua origem no interesse público, sua meta na


melhora da vida em comum, e suas regras processuais
ancoradas no direito universal à expressão, no debate
equilibrado, na deliberação cooperativa, e na tomada
de decisão compartilhada. (NOBRE e NOBRE, 2013, p.
18).

A comunicação política, por sua vez, pode ser considerada como


uma especificidade da comunicação pública, e está diretamente
vinculada à gestão da coisa pública.

126
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, pode-se dizer que a comunicação pública diz respeito ao


poder de interação dos agentes públicos e privados, enquanto a
comunicação política está relacionada com o poder de intervenção
de tais agentes na esfera decisória da sociedade.

A comunicação política abrange um amplo leque de temas, sendo


objeto de numerosas e expressivas pesquisas, algumas de cunho
mais reflexivo e conceitual, outras de cunho mais instrumental
e metodológico. Todas elas abordam estratégias e instrumentos
amplamente utilizados pela mídia no decorrer das campanhas
políticas, antes, durante e após os pleitos eleitorais.

Para enumerar apenas alguns desses temas, pode-se citar os


cenários de representação, a opinião pública, o marketing político, o
marketing eleitoral, a mídia de massa, a propaganda, as sondagens
de opinião, o spin doctoring, o agendamento, o priminge a espiral do
silêncio. Na sequência, vamos tratar detalhadamente de cada um
deles.

Os Cenários de Representação
Os cenários de representação podem ser caracterizados, segundo
Lima (2004), como espaços simbólicos de representação da
realidade social, sendo eles vinculados à esfera política, de gêneros,
de raças, de gerações, e daí por diante, envolvendo todas as
segmentações sociais relevantes.

Nesses espaços, estabelecem-se as articulações entre os


indivíduos visando à conquista da hegemonia social, mediante
relações de poder e influência que tipificam dois grupos
antagônicos: os dominadores e os dominados. Sempre existe um
espaço de representação hegemônico, representando o grupo
dominante, convivendo com espaços de representação alternativos
e subordinados, também chamados de contra hegemônicos,
vinculados aos grupos de dominados.

127
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

E é nesses espaços de representação simbólica que a mídia intervém,

alterando e criando novas realidades sociais à luz dos seus interesses.

Nas palavras do autor, “[...] as representações que a mídia faz da realidade

(media representations) passam a constituir a própria realidade”. (LIMA.

2004, p. 16).

Na verdade, há que se considerar três elementos básicos na


configuração dos cenários de representação: a centralidade da
mídia, a existência de uma hegemonia, e a supremacia da TV como
veículo de comunicação de massa.

A configuração de tais cenários não constitui tarefa trivial,


existindo uma série de desafios metodológicos, incluindo a própria
identificação dos traços hegemônicos da sociedade e dos seus
movimentos contra hegemônicos, vinculados às disputas históricas
em torno do poder no âmbito da sociedade.

Do ponto de vista operativo, os elementos constitutivos dos


cenários de representação podem ser obtidos nas matérias
jornalísticas impressas e, sobretudo, da programação da TV
extraídos, segundo Lima (2004), pelos índices de audiência dos
programas de entretenimento (telenovelas, séries, filmes, shows e
esportes), publicidade, telejornalismo e pseudo jornalismo (talk-
shows, entrevistas, variedades).

Neste contexto, os cenários de representação política - ou


simplesmente CR-P, conforme designa o autor -, dizem respeito
à análise em torno do comportamento dos eleitores no processo
eleitoral. Daí decorrem duas hipóteses: a) o CR-P dominante
delimita o debate no campo político, definindo os seus contornos,
embora não prescreva o seu conteúdo; e b) o candidato em eleições
nacionais e majoritárias deve moldar a sua imagem segundo o CR-P
dominante ou então construir um CR-P alternativo, sob pena de ver-
se alijado nas urnas.

128
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Lima (2004) aponta, ainda,cinco pressupostos gerais que norteiam


a configuração dos cenários de representação política - CRP:

1º) os partidos políticos e seus candidatos tentam se apropriar,


sempre que possível, dos símbolos e tradições culturais nacionais,
como forma de se aproximar do CR-P dominante e, com isso, obter
vantagem no processo eleitoral.

2º) os CR-P são mais aplicáveis ao sistema presidencialista de


governo, onde a figura personalista do presidente, que acumula
as funções de Chefe de Governo e Chefe de Estado, favorece a
manipulação dos símbolos nacionais.

3º) os candidatos ao pleito eleitoral apresentam interesses Os cenários de


representação,
conflitantes, refletindo disputas entre grupos no âmbito do CR-P
assim, são parte
hegemônico, ou disputas entre o CR-P dominante e os CR-P essencial do trabalho
alternativos. de orientação das
campanhas eleitorais
e da gestão das
4º)A polarização em torno da personalidade dos candidatos, típicas
carreiras políticas.
de sociedades com sistemas partidários fragilizados, favorece a
identificação, pelos estrategistas comunicacionais, dos CR-P em
disputa no processo eleitoral.

5º) as conjunturas nacional e internacional influenciam


significativamente os CR-P, trazendo impactos positivos ou
negativos ao projeto do grupo hegemônico. Por essa razão,
seus elementos devem ser cuidadosamente analisados pelos
estrategistas da comunicação eleitoral.

Os cenários de representação, assim, são parte essencial do


trabalho de orientação das campanhas eleitorais e da gestão das
carreiras políticas.

129
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Opinião Pública
Segundo Silveirinha (2004), a opinião pública pode ser
caracterizada, de forma simplista, como uma soma de opiniões,
ou seja, a expressão resultante de sondagens realizadas junto ao
público quanto às suas preferências e expectativas.

A autora aponta que é por meio da opinião pública que os


políticos se inteiram da percepção dos cidadãos e orientam as
suas decisões. Assim, do ponto de vista político, ela é o canal
que liga os governados aos seus governantes: traz visibilidade e A autora aponta
concretude às demandas sociais dos governados, por um lado; e que é por meio da
confere legitimidade à atuação dos governantes e representantes opinião pública
que os políticos
legislativos, por outro.
se inteiram da
percepção dos
A opinião pública também incorpora certa noção de sociabilidade, cidadãos e orientam
as suas decisões.
representando, do ponto de vista social, uma referência quanto ao
posicionamento do grupo dominante (ou hegemônico) em uma
dada sociedade.

No entanto, o conceito denota uma contradição fundamental, na medida

em que o termo opinião remete a algo particular e individual, enquanto o

termo pública, por sua vez, remete a algo coletivo e racional.

Da junção entre as duas expressões – opinião e pública – nasce


um novo sujeito como categoria sociológica, qual seja, o público,
que passa a ser o detentor da opinião, sob a mediação fundamental
dos veículos de comunicação.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Daí decorrem questionamentos de natureza normativa e sociológica. Em

primeiro lugar, é difícil tratar a opinião pública como um sujeito efetivo,

cuja opinião não apenas agrega, mas transcende o somatório de opiniões

individuais, expressando-se de forma inequívoca na esfera pública. Em

outras palavras: existe mesmo essa tal de opinião pública?

Além disso, é difícil (se não impossível) isolar a influência da mídia na

formação desta dita opinião pública, o que torna os seus resultados no

mínimo duvidosos.

Silveirinha (2004) aponta quatro visões correntes (e concorrentes)


em torno da propalada opinião pública:

• a opinião pública é formada pela agregação das opiniões


colhidas por intermédio das sondagens, eleições e
referendos;

• a opinião pública é traduzida pela maioria das opiniões


assinaladas pelos indivíduos;

• a opinião pública se forma por intermédio do debate, razão


pela qual é dinâmica, mutável ao longo do tempo;

• a opinião pública não existe, sendo um produto meramente


ficcional, fabricado pela mídia por pura conveniência.

Predomina, na sociedade contemporânea, a noção de opinião


pública sob um enfoque essencialmente empírico, vista como uma
expressão numérica obtida por meio das sondagens, utilizando-se
sofisticados métodos quantitativos.

Sua validade é questionável, na medida em que reflete, na verdade,


a visão particular dos que possuem meios para se fazer representar
nos debates processados na esfera pública, sob a mediação dos
veículos de comunicação de massa.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A problemática adquire bastante relevância, na medida em que a


opinião pública é utilizada como instrumento para o exercício da
democracia representativa que, desta forma, se vê comprometida
em seus pressupostos básicos.

O Marketing Político
Almeida (2004) aponta que o marketing político pode ser
caracterizado como um método de aplicação dos princípios do
marketing na atividade política, seja esta última proveniente de
governos, partidos ou personalidades políticas, vinculada ou não
aos pleitos eleitorais.

O autor traz, ainda, a contribuição de Rego (1985), que traduz o


marketing político como:

“[...] o esforço planejado para se cultivar a atenção, o


interesse e a preferência de um mercado de eleitores
[é] o caminho indicado e seguro para quem deseja
entrar na política”. (REGO, 1985 citado por ALMEIDA,
2004, p. 326).

A operacionalização do marketing político, neste sentido, inclui seis


passos: a definição do produto (no caso, o candidato); a definição
do público-alvo (no caso, os eleitores); a definição dos pontos fortes
e fracos, ameaças e oportunidades vinculadas à candidatura; a
definição da imagem e mensagem do candidato; a definição dos
instrumentos e métodos comunicacionais a serem utilizados; e
finalmente, a formulação do plano estratégico de marketing.

Mas o conceito de marketing político não é consensual, sendo um


assunto controverso e alvo de inúmeras críticas, na medida em que
traz a visão de mercado (própria das operações mercantis) para o
mundo da política. Afirma-se que o resultado seria uma progressiva
“despolitização da política”, com efeitos negativos para o processo
democrático.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Para a adequada compreensão do campo de atuação do marketing político,

é necessário diferenciá-lo do marketing eleitoral, que tem duração adstrita

ao período da campanha eleitoral, quando a conotação mercadológica e

mercantil se faz mais presente.

O marketing político tem uma dimensão mais abrangente que o


marketing eleitoral, compreendendo a gestão integral da carreira
política ao longo do tempo, visando estabelecer uma relação
mais duradoura entre os partidos/candidatos e os cidadãos/
eleitores. Poderia até mesmo representar um avanço nessa relação,
conferindo maior visibilidade e notoriedade às ideologias partidárias,
desde que autênticas.

Verifica-se uma tendência crescente de formação de estruturas


próprias ligadas aos candidatos, em um contexto em que a
campanha eleitoral assume um caráter contínuo, extrapolando-
se, portanto, o próprio período eleitoral. O objetivo é garantir a
perenidade dos atores na intrincada arena política, mediante a
gestão eficaz das suas respectivas carreiras.

Almeida (2004) nos traz uma série de indagações pertinentes: o marketing

político é realmente necessário e eficaz? É possível blindá-lo contra

o caráter mercantil que caracteriza as estratégias convencionais de

marketing? Até que ponto ele de fato contribui para a despolitização da

política?

Observa-se que um dos mais importantes aspectos relacionados


com a estruturação das estratégias de marketing político, diz
respeito à análise do contexto em que elas se desenvolvem, em
suma, à identificação das percepções e aspirações do público-alvo,
no caso, os eleitores.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Ocorre que a postura e a performance do candidato podem se


apresentar divergentes em relação às percepções e expectativas
do público em relação a ele, implicando um descolamento da
imagem em relação ao produto, ou seja, do candidato em relação
às suas ideias. Não há caminho ético que contorne, pela via do
marketing, essa contradição fundamental! O sucesso do candidato
fica condicionado à atuação dos estrategistas políticos, mediante
a interferência na percepção dos eleitores para torná-lo “aceitável”.

É usual a argumentação, a esse respeito, de que na atual sociedade


de massas, a prática política só se torna viável mediante a utilização
de estratégias de marketing. No entanto, segundo o autor, essa
afirmação carece de comprovação científica.

Além disso, aponta-se que o baixo nível de politização da sociedade


não é uma resultante direta do marketing político, como os seus
críticos supõem; ela decorre de outros aspectos, vinculados
à própria dinâmica do processo democrático. Ao contrário, o
marketing político até poderia contribuir para o “despertar” dos
cidadãos, introduzindo-os no debate político, que assim ganharia
maior visibilidade. O que não deixa de ser uma visão um tanto
romântica do processo político, você não acha?

Em suma, o debate estabelecido leva à crença de que o marketing


político, enquanto mecanismo de comunicação e mediação da
relação entre governantes e governados, pode trazer implicações
positivas ou negativas para o processo político, dependendo da
forma como é utilizado e, sobretudo, do nível prévio de politização
dos indivíduos.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Marketing Eleitoral
Entendido o conceito de marketing político, é importante detalhar
as características essenciais do marketing eleitoral. Segundo Santo
e Figueiras (2010), as modernas campanhas eleitorais, sobretudo
a partir da década de 90, foram fortemente influenciadas pela
globalização, pelo jornalismo crítico, pelo desenvolvimento das
ferramentas tecnológicas e pela disputa entre os partidos políticos.

As campanhas modernas apresentam, como traço distintivo em


relação aos seus estágios iniciais de desenvolvimento:

• a personalização da política, centrada mais na figura do


candidato do que do partido político;

• a centralização das atividades, com a forte especialização


das tarefas conduzidas por profissionais da comunicação
(spin doctors), suportadas pela psicologia social, marketing,
sociologia política, estatística, dentre outras áreas;

• a ampla utilização de sondagens de opinião e do suporte


televisivo, em consonância com os princípios estéticos
da mídia, fundamentais para o desenvolvimento das
estratégias vinculadas às campanhas eleitorais.

A proliferação de canais de comunicação alternativos, ancorados na

Internet, trouxe uma maior autonomia dos eleitores, que passaram a

contar com maior diversidade de fontes e conteúdos de informação, em

contraposição direta ao caráter massificador e homogeneizador da TV.

O autor aponta certo retorno à concepção pré-moderna das


campanhas eleitorais, crescendo a importância da comunicação
interpessoal e dos espaços de discussão, que disputam com a
mídia de massa a atenção dos eleitores.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O embate entre esses dois ambientes – o televisivo e o interativo,


no âmbito da Internet -, aliado à entrada sucessiva de novos
atores sociais antes excluídos do debate político, tem trazido
novos desafios à estruturação das campanhas políticas, que vão
ganhando maior complexidade a cada pleito eleitoral.

A comunicação eleitoral, sendo diretamente associada ao período


da campanha, objetiva a vitória de um determinado candidato ou
partido político, assumindo, portanto, uma característica peculiar
no contexto da comunicação política, mediante a formatação de
estratégias próprias.

Santo e Figueiras (2010) apontam que a mensagem representa o


elemento chave da estratégia vinculada à campanha eleitoral, para o
que se invocam as cinco funções básicas da comunicação política:
a identificação do candidato, a imagem do candidato, o ataque, a
defesa, bem como o desenvolvimento e exploração dos assuntos.

No âmbito da mensagem, figuram como elementos essenciais,


o tratamento conferido à linguagem, o desempenho da liderança
política - que está em permanente julgamento pelos eleitores -, e a
opinião pública. Permeando esses três elementos, o fundamental
papel desempenhado pela mídia de massa e pelos meios
alternativos da comunicação social que com ela competem.

136
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Daí a ascensão da polêmica figura do spin doctor, usualmente


associado ao “marqueteiro”, com as suas sofisticadas estratégias
de marketing, transformando as campanhas eleitorais em um
verdadeiro “cabo de guerra” entre os candidatos. E “guerra” é a exata
acepção conferida ao marketing político no contexto da campanha
eleitoral, conforme se depreende da citação a seguir:

[...] em política, a estratégia deve ser utilizada como se


utilizam os generais em tempo de guerra, pois a única
ação vergonhosa em campanha eleitoral é perdê-la” [e
mais], “o puritanismo não tem lugar nem hora em uma
guerra e nem em uma eleição, pois o que está em jogo
é muito importante para quem se dispõe a enfrentá-las.
(MANHANELLI, 1988 citado ALMEIDA, 2004, p. 327).

O candidato, produto desse marketing eleitoral, é o resultado


daquilo que os eleitores esperam (e compram), ou seja, uma “marca”
artificialmente criada, e não o que ele é de fato.

Cabe ressaltar, por fim, que o marketing eleitoral mantém estreita


relação com o marketing político, na medida em que este último
é o depositário da sua sustentação em longo prazo. Pode-se dizer
que “[...] trata-se de momentos diferenciados de uma mesma
intervenção no processo de disputa de hegemonia que se dá a partir
de instâncias diferentes”. (ALMEIDA, 2004, p. 339).

A Mídia de Massa
Nunes (2004) aponta que a mídia está no centro do marketing
eleitoral, fornecendo e instrumentalizando uma série de estratégias,
pelo que exerce uma decisiva influência sobre a percepção dos
indivíduos e, portanto, sobre os próprios resultados do pleito
eleitoral.

Neste contexto, os aspectos estéticos têm primazia em relação


ao conteúdo, o que implica certo esvaziamento do componente
político-ideológico das campanhas, dificultando o pleno exercício da
cidadania.

137
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os principais estudos sobre o papel da mídia nos processos eleitorais


estão relacionados com o fenômeno da “espetacularização” e
publicização das campanhas, agendamento de temas, dentre
outros, e também com o papel da mídia na articulação dos
movimentos sociais que eclodem nesse período.

Destacam-se os instrumentos vinculados à televisão, em função


do caráter personalista e emocional que eles imprimem à
comunicação, atuando no plano da subjetividade. As decisões de
voto, assim, ficam diretamente associadas à figura do candidato e
da mensagem por ele transmitida, segundo padrões específicos de
imagem e linguagem.

A propósito da influência da mídia televisiva, a autora discute a


interação observada entre a “rua’ e a “tela” que, estando em processo
de retroalimentação permanente, leva à contínua ressignificação
dos fenômenos sociais, alterando a percepção dos indivíduos.

É interessante notar, ainda, a extensão dos princípios da estética


televisiva a outros tipos de mídia:

Os programas de rádio procuram uma linguagem


naturalista, tentando transformar palavras em
imagens. Uma das mídias mais pré-históricas – a
pichação, procura fugir da antipatia que gera ao poluir
a cidade – que pode atingir a imagem do político -,
transformando-se em artísticos grafites. O cartaz de
poste procura o espaço de outdoor. É a transformação
definitiva da comunicação política rural, artesanal,
pontual em comunicação política urbana, industrial,
massiva. (NUNES, 2004, p. 356).

Os prejuízos trazidos pela midiatização excessiva do processo


político, segundo a autora, são tangíveis: a linguagem política
absorve a linguagem da propaganda comercial, o discurso político
se traduz por slogans, e as campanhas eleitorais se convertem em
verdadeiras campanhas publicitárias.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Propaganda
Certamente você já ouviu a frase: apropaganda é a alma do negócio!
Ela é antiga, mas os seus pressupostos, oriundos do início do século
XX, continuam tão válidos quanto sempre, a julgar pela centralidade
da sua abordagem junto aos profissionais de comunicação,
especialmente no tocante à estruturação das campanhas eleitorais.

A propaganda está diretamente relacionada com a noção de


convencimento, mediante o condicionamento ideológico típico dos
fenômenos de massa. Assim, segundo Gomes (2010), a persuasão
é o campo de atuação da propaganda que, sendo multidisciplinar,
guarda estreita relação com a psicologia, filosofia, artes, literatura,
dentre outras áreas.

É importante caracterizar a comunicação persuasiva, apontada pela


autora como “persuasão deliberada, orientada a conseguir alguns
efeitos utilizando técnicas de comunicação e psicológicas, em
algum grau, coativas”. (GOMES, 2010, p. 108). Muito conveniente
em períodos eleitorais, você não acha?

O objetivo é induzir os indivíduos, grupos ou classes a aderirem


a determinadas ideias e sentimentos, mediante a utilização de
poderosos recursos gráficos e eletrônicos. Seus porta-vozes são os
governos, partidos políticos, sindicados, igrejas, dentre outras tantas
instituições organizadas, que atuam como verdadeiros agentes
ideológicos na tentativa de imposição da sua visão particular de
mundo às massas.

Visão essa que, como adverte a autora, nem sempre traduz o lado
perverso da manipulação social, podendo estar associada a fins
nobres, como no caso de importantes campanhas nas áreas de
saúde e educação, por exemplo, que visam disseminar e incutir
hábitos saudáveis na população.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A autora também ressalta que propaganda não se confunde com


publicidade, sendo anterior a ela, na medida em que o pensamento
e a ideologia, intrínsecas à primeira, precedem a ação mercantil que
caracteriza a segunda.

Você viu, na Estrutura Didática da Unidade 3, que a publicidade carrega

em si mesma a concretude e a visibilidade do anúncio, que é sempre pago;

já a propaganda apresenta uma natureza mais dissimulada, sendo, via de

regra, gratuita, e utiliza uma linguagem mais próxima do jornalismo.

A propaganda, neste contexto, é um instrumento por excelência


para a “venda” de candidatos a cargos e funções políticas, sobretudo
em períodos de campanhas eleitorais, cujo tratamento se equipara
à venda de produtos comerciais.

As Sondagens de Opinião
As sondagens de opinião são caracterizadas por Santo (2010)
como um método de investigação social de base estatística,
suportado pela técnica de amostragem, mediante a aplicação de
questionários.

Seus resultados permitem inferir características fundamentais


acerca do público, subsidiando a estruturação da comunicação
política em torno da mensagem e da personalidade do candidato
ao pleito eleitoral.

Em que pese a concepção democrática da sondagem de opinião


estabelecida na sua origem –vinculada aos princípios da liberdade
de expressão e opinião -, alega Nunes (2004) que a mídia e os
próprios candidatos, por intermédio das pesquisas eleitorais,
influenciam a intenção de voto dos eleitores, impondo-lhes a noção
de “voto útil”.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Isso decorre de duas circunstâncias. Por um lado, verifica-se a


superexposição dos nomes de candidatos que figuram entre os
primeiros colocados na relação de “elegíveis”, paralelamente à
supressão dos nomes dos que aparecem em posições inferiores.
Tal interferência remonta às próprias deliberações dos partidos
políticos, na medida em que as pesquisas os orientam quanto à
aprovação e lançamento das candidaturas.

E, por outro lado, são reduzidas as oportunidades de participação


efetiva dos eleitores no debate político, seja pela inexistência de
espaços suficientes e adequados para essa finalidade, seja pelo
baixo nível de politização dos indivíduos.

Assim, mediante as pesquisas eleitorais produzidas pela mídia,


forma-se a opinião pública que, por sua vez, define a pauta dos
veículos de comunicação, direcionando as discussões e análises no
âmbito da cobertura jornalística. Observa-se que:

[...] esse é o novo papel dos meios de comunicação


de massa, politizados e partidarizados, construtores
do discurso único, do discurso unilateral, do discurso
monocórdio do sistema. Esses meios – que, no
passado, tão relevantes serviços prestaram à
democracia – de há muito abandonaram o clássico
papel de intermediação social. São hoje atores[...].
(AMARAL, 2000 citado por NUNES, 2004, p. 360).

Os resultados são, efetivamente, a banalização e espetacularização


da política, bem como a redução do espaço público onde os
indivíduos deveriam exercer a sua cidadania, já que, em grande
parte, ele torna-se privatizado pela excessiva interveniência de
interesses particulares.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Spin Doctoring
O elevado nível de profissionalização da comunicação política
pode ser denotado pela emergência da figura do spin doctor, cuja
denominação traduz, por si só, o caráter polêmico das atribuições
a ele conferidas: “alguém cujo trabalho é dar informação para o
público, de modo a conferir a melhor vantagem possível a um político
ou organização”. (LONGMAN DICTIONARY OF CONTEMPORARY
ENGLISH, 2010, p.1385, tradução nossa).

Sua origem está na crescente complexidade atingida pelos


processos eleitorais, como decorrência da diversificação
e proliferação dos canais de comunicação e conteúdos As redes sociais
informacionais promovidas pela Internet, levando à alteração do tornaram-se
perfil e comportamento dos eleitores. As redes sociais tornaram-se
concorrentes da
mídia de massa,
concorrentes da mídia de massa, competindo com ela pela atenção competindo com
do público-alvo. ela pela atenção do
público-alvo.
Essa nova realidade implicou na configuração de novas e
sofisticadas estratégias de abordagem das campanhas eleitorais
- para o que se requer a intervenção de profissionais altamente
especializados -, ancoradas nas técnicas da comunicação
publicitária.

Não por acaso, a expressão spin doctor acabou associada às noções


de manipulação e conspiração, na medida em que o conteúdo das
mensagens, via de regra, denotam mera propaganda em torno dos
respectivos candidatos, sem substância ou veracidade. Os fatos
negativos, por sua vez, são ocultados, falseando a realidade para os
eleitores.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Serrano (2010) aponta que o spin doctor, profissional em geral


proveniente do jornalismo ou da própria política, mantém estreita
relação com os veículos de comunicação de massa, utilizando
duas abordagens: como fonte direta, mediante citação, ou como
fornecedor das informações que irão orientar os comentários e
análises dos jornalistas, mantendo-se anônimo.

Em qualquer situação, o sucesso da abordagem de tais profissionais


requer um profundo conhecimento acerca da forma de atuação de
cada mídia, incluindo as inclinações dos veículos e seus respectivos
interlocutores.

O Agendamento
O agendamento, ou agenda-setting, diz respeito à intervenção da
mídia na seleção e priorização dos temas que serão levados ao
debate público por intermédio da cobertura jornalística. Você viu
esse conceito na Unidade 3, lembra? Aqui vamos abordá-lo do
ponto de vista da comunicação política.

Daí advém o direcionamento midiático em torno dos assuntos que


os indivíduos (eleitores) deverão focar as suas atenções no dia a
dia, os quais irão dominar, por indução, as suas conversas, reflexões
e até mesmo as suas relações sociais, dando origem à opinião
pública em torno dos candidatos e partidos.

Borges (2010) oferece uma descrição precisa da ação exercida pela


mídia por intermédio do agendamento: “[...] embora a imprensa nem
sempre seja bem-sucedida ao indicar às pessoas como pensar,
é espantosamente eficaz ao dizer aos seus leitores sobre o que
pensar”. (COHEN, 1963 citado por BORGES, 2010, p.137).

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Funciona mais ou menos assim: o líder político, candidato a


um cargo público, cria um “pseudoambiente” político visando
à formação da opinião pública, mediante a divulgação (ou
vazamento) de uma agenda noticiosa. Uma vez engendrada, tal
agenda alcança todos os veículos de comunicação de forma mais
ou menos homogênea, em um contexto em que a interpretação dos
fatos torna-se mais relevante que os próprios fatos. De modo que a
mensagem fabricada se firma na mente dos indivíduos, formando
ou alterando as suas percepções.

Miguel (2002), por sua vez, aponta que a mídia não se limita à mera
imposição da sua pauta aos indivíduos, avançando na criação dos
contextos em que os assuntos são debatidos, mediante uma técnica
psicossocial denominada enquadramento, que atua diretamente
na mente dos indivíduos. Por intermédio dela, são construídos
verdadeiros esquemas narrativos em torno da pauta, moldando o
julgamento eo posicionamentos dos indivíduos.

E quanto a você? Até que ponto os seus posicionamentos resultam


das suas próprias reflexões? Já pensou nisso?

O Priming
O priming (traduzido do inglês como pré-ativação) é uma técnica
usualmente tratada como uma continuidade do agendamento e do
enquadramento, no sentido de que integra uma linha sequencial de
direcionamento da percepção dos indivíduos.

Segundo aponta Cervi (2010), parte-se da definição do “que” as


pessoas devem pensar e falar (agendamento), ao que se agrega
a configuração dos contextos em que os fatos são apresentados
(enquadramento), sendo ativados, a partir daí, esquemas de fixação
da memória que influenciam o julgamento e a avaliação futura dos
governantes e lideranças políticas pelos cidadãos (priming).

144
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por esse mecanismo, verifica-se um condicionamento sutil e


inconsciente das percepções e comportamento das pessoas, por
meio de estímulos que se manifestam na “venda” de conceitos,
expectativas e metas.

Pense bem: você consegue conceber as nossas percepções como o

subproduto de uma linha de produção cuidadosa e inevitavelmente gerida

pela mídia? Não seria essa uma visão extremista demais?

Em suma, o campo de estudo do priming, derivado da


neuropsicologia e da psicologia social, diz respeito ao “modo como
um estímulo inicial pode afetar as respostas de um indivíduo a
estímulos subsequentes, sem que exista consciência do mesmo
sobre tal influência”. (PACHECO JUNIOR, DAMACENA e BRONZATTI,
2015, p.1).

Aplicado à comunicação política, o priming se ocupa dos efeitos


provocados pelas notícias jornalísticas nos indivíduos, mediante a
maior ênfase conferida a determinados aspectos em detrimento
de outros. Tais efeitos, vale ressaltar, são influenciados pelas
predisposições, esquemas de memória e padrão educacional dos
indivíduos, aspectos que deverão ser compreendidos e considerados
pela mídia para que a mensagem desejada seja efetiva.

Cervi (2010) explica que, embora o agendamento e o priming


adotem métodos correlatos quanto à sua aplicação (ativação
de esquemas de memória), eles se distinguem quanto ao foco. O
primeiro ocupa-se da definição dos conteúdos a serem pautados
para o debate público, enquanto o segundo está voltado para as
avaliações futuras do público em torno das ações dos governantes,
a partir da pauta estabelecida. Em comum, o objetivo de formação
da opinião pública.

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unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Espiral do Silêncio
Também a teoria da espiral do silêncio busca explicitar a poderosa
influência da mídia na formação da opinião pública, condicionando
o comportamento dos indivíduos.

Representa, assim, um instrumento de controle social, na medida


em que os indivíduos, identificando o comportamento social
dominante, tendem a omitir a sua visão quando esta se apresenta
divergente da maioria, dado o temor de exclusão social ou
mesmo da incidência de represálias. Em suma, os indivíduos têm
necessidade de associar-se a opiniões dominantes, sob pena de se
verem isolados, situação em que a melhor alternativa é o silêncio.

No entanto, para que a espiral se materialize, é necessário que três


elementos ativadores sejam observados, sem os quais ele não se
justifica ou sustenta:

a. componente normativo ou valor ativo:os temas em


questão deverão ser revestidos de forte componente moral,
implicando escolhas de cunho emocional;

b. componente temporal: é preciso que os temas tenham


relevância suficiente e horizonte de longo prazo para
suscitarem a reação dos indivíduos;

c. a mensagem midiática deve ser clara e inequívoca, de


modo a aguçar o questionamento dos indivíduos.

Assim, segundo Rosas (2010), os indivíduos estão continuamente


checando a opinião pública em torno de temas relevantes, a
partir da qual irão moldar os seus posicionamentos e a decisão
pela exposição destes, ou não. Tal comportamento se revela
particularmente nos pleitos eleitorais, ocasião que favorece a
polarização em torno dos posicionamentos políticos.

146
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Relação entre
Comunicação e Política
Com relação à interface observada entre a Comunicação e a
Política, é de fato notória e crescente a influência dos veículos
de comunicação de massa. A análise e a compreensão desse
fenômeno são vitais, na medida em que dele emergem as bases da
cultura política de uma dada sociedade.

Conforme se depreende das reflexões de Correia, Ferreira e


Santo (2010), os atores políticos se ocupam cada vez mais do
estabelecimento de estratégias de comunicação, sob a orientação
de profissionais especializados (os chamados spin doctors,
discutidos anteriormente), em consonância com os padrões
estéticos típicos da mídia de massa.

No entanto, ao se abordar essa estreita relação entre a Política e


a Comunicação, não se deve entender a primeira como um mero
ramo da publicidade, como alguns autores fazem crer, em função do
“espetáculo” que vem caracterizando as campanhas reproduzidas
na mídia televisiva.

Miguel (2002) adverte que ambos os campos – o político e o


comunicacional–apresentam cada qual uma lógica própria e
distinta, porém sobrepostas. Isso implica reconhecer que, de fato, a
mídia exerce um papel determinante no cenário político.

147
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Um “efeito colateral” dessa dinâmica de relacionamento diz


respeito à ampla exposição dos atores políticos e seus respectivos
discursos, com a explicitação pública das suas virtudes e defeitos,
em detrimento do debate verdadeiro em torno dos projetos de
interesse da sociedade:

Uma narrativa mais sofisticada atribui aos meios de


comunicação o papel de deflagrador da “espiral do
cinismo”: a imprensa lê cinicamente a disputa política e
os políticos se adaptam ao comportamento esperado,
numa cadeia de alimentação mútua. (MIGUEL, 2002, p.
159).

Outro “efeito colateral” importante apontado por Miguel (2002)


relaciona-se com a constatação de um progressivo insulamento
dos indivíduos, trazido, sobretudo, pela televisão, aliado à descrença
da sociedade em torno das instituições políticas, como decorrência
da banalização do processo político pela mídia.

Este último aspecto, afirmando-se verdadeiro, não deixa de


representar certo avanço em direção à desmistificação da atuação
das instituições, revelando as suas reais disposições, o que é salutar
para o processo democrático.

O autor desta cauma(perigosa) linha de argumentação de alguns autores.

Tudo começa com a constatação (verdadeira) de que a opinião pública,

altamente sugestionável pela mídia e destituída de visão crítica, deturpa

o debate político. E, pela sua expressividade, ela exerce uma influência

marcante (e negativa) sobre o planejamento da ação governamental,

cujos projetos ficam à sua mercê. Na impossibilidade de controle da

poderosa mídia, a conclusão lógica aponta para a(conveniente) redução

da participação das massas no processo político, de modo a refrear a

influência da (deturpada) opinião pública.

Trata-se de uma visão bastante elitista do processo político, que


toca diretamente no âmago do Estado Democrático de Direito!

148
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Ainda a respeito dessa visão (elitista) do processo político, Miguel


(2002) aponta a coexistência,frequentemente exaltada, de dois
ambientes próprios à arena política: os bastidores, onde se realizam
os acordos “secretos” e se concretizam as decisões relevantes; e o
palco, onde se processa o “jogo de cena” da interação entre a mídia e
os indivíduos, que são passivos por natureza. Verifica-se uma mera
aparência (e nada mais do que isso) de normalidade democrática.

Porém, o autor adverte que a passividade das massas, ao contrário


do que o argumento sugere, não é um traço intrínseco a elas, razão
pela qual ela pode ser revertida a qualquer momento, a partir de
fatos específicos que atuam como estopins para a reação popular.
O ano de 2013, marcado pelos fortes e numerosos movimentos de
rua, foi bastante didático e esclarecedor neste sentido.

A visão elitista da desigualdade política, expressa na “passividade”


das massas deriva, na verdade, da concentração do capital político
da sociedade em um reduzido número de atores sociais. Tal
situação somente poderá ser revertida mediante o reconhecimento
e a inserção de novos atores que venham a atuar na cena política.

Nesse contexto, cresce a cada dia a postulação pela maior


participação da sociedade no debate político, por intermédio de
instituições representativas que buscam o aprofundamento da
discussão em torno de temas sociais relevantes.

149
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

As Interfaces entre a Comunicação


e a Política
A comunicação e a política apresentam algumas interfaces
específicas e de grande importância para a configuração do cenário
político, sendo importante ressaltar quatro delas, apontadas por
Miguel (2002).

a. A Representação Política

Em uma sociedade plural e democrática, constituída por uma


mescla de interesses heterogêneos e conflituosos, são naturais
e comuns os embates e conflitos de interesses entre os agentes
sociais. O reconhecimento desse caráter plural, paralelamente à
afirmação do Estado Democrático de Direito, induzem a busca
por alternativas visando ao incremento e a maior efetividade da
participação popular nas decisões políticas.

Tarefa por si só pouco trivial, ao que se agrega a constatação de


que a mídia é de fato imprescindível para o debate das questões
sociais relevantes, embora atue, simultaneamente, como legítima
parte interessada e também como representante de interesses
particulares, do que resulta um viés da representação política.

A grande contribuição da Comunicação Política, neste sentido


- em que pesem as imperfeições do modelo democrático
representativo -, é a promoção e exposição contínua de novas e
variadas representações sociais, de modo a viabilizar a emergência
de novos interesses e perspectivas.

É esse mecanismo de retroalimentação permanente do debate,


envolvendo a comunicação e a política, que amplia a visão dos
indivíduos, para o que se requer, na visão de Miguel (2002), não a
neutralidade, mas sim o pluralismo dos meios de comunicação.

150
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

E aí se encontra o grande desafio. A atual configuração das


empresas de comunicação - marcadas pela concentração em
poucos agentes atuando como grandes conglomerados, ancorados
na convergência tecnológica e dependentes dos grandes grupos
econômicos – atua exatamente na contramão do pluralismo
almejado.

Trata-se, portanto, da crucial desigualdade observada entre o


restrito número de emissores e a grande massa de receptores, a
qual determina a sorte da representação política na sociedade. O
que equivale a dizer que se exige muito maior esforço da sociedade
para que novas vozes da representação social possam ser ouvidas
e legitimadas no cenário político.

b. A Construção do Capital Político

Um dos aspectos mais notórios relacionados com a interface entre


a Comunicação e a Política diz respeito à formação do capital
político na sociedade.

Miguel (2002) aponta dois tipos de capital político: o capital


delegado, relacionado com a ocupação de cargos institucionais
no Poder Legislativo ou Executivo, o que confere ao seu titular
prestígio suficiente para perpetuar a sua carreira política; e o
capital transferido, que como o próprio nome sugere, diz respeito à
conversão de outros tipos de capital simbólico, como a notoriedade
artística, profissional ou empresarial para a esfera política, o que
facilita o processo de investidura dos respectivos cargos. Não
sem alguma resistência dos próprios partidos políticos mais
estruturados ou de parcelas dos eleitores, que rejeitam esse tipo de
“transferência”.

151
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Em qualquer dos casos, destaca-se a atuação incisiva da mídia por


meio da exposição sistemática dos respectivos proponentes, seja
por intermédio do noticiário jornalístico, dos programas televisivos
do tipo talk show e tantas outras abordagens. Tal exposição figura,
assim, como um pré-requisito tanto para a disputa de cargo ou
função política, como para a garantia de sua continuidade.

c. A Construção da Agenda Política

Miguel (2002) caracteriza o Agendamento, já retratado em tópico


anterior, como um elemento de fundamental importância na
interface entre a Comunicação e a Política, na medida em que
cristaliza a intervenção direta da mídia na pauta de assuntos que
deverão reter a atenção (e a preocupação) da sociedade em geral,
particularmente nos períodos eleitorais.

Mas também a classe política se utiliza fartamente desse princípio


para impor os seus interesses junto à sociedade, mediante a
manipulação da agenda da mídia em favor das suas prioridades.
A tática consiste na criação dos chamados pseudo-eventos,
cuidadosamente planejados com o intuito de geração de notícias,
na forma de entrevistas, manifestações, reuniões, dentre outras
que, via de regra, obtêm ampla cobertura jornalística.

152
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

d. A Delimitação do Campo da Política

Miguel (2002) discute, ainda, um importante “divisor de águas”


promovido pela mídia em torno dos processos comunicacionais,
quando ela se agrega e separa o campo da política institucional e
partidária, do campo da política em seu sentido mais amplo, voltado,
em sua essência, para a tratativa das questões sociais cotidianas.

Uma representação emblemática dessa “fronteira” entre os campos


políticos diz respeito à própria segmentação editorial dos jornais. Os
cadernos de Política são dedicados à veiculação de informações
diretamente relacionadas com a atividade parlamentar e executiva
dos governos federal, estadual e municipal, o que denota, em
última instância, a força e a hegemonia das instituições políticas na
delimitação do que o autor chama de “campo político legítimo”.

Os assuntos relacionados com os problemas e a militância social,


por sua vez, assim como os fatos e impactos socioeconômicos
advindos das decisões políticas,são circunscritos aos cadernos de
Cidades ou Geral e de Economia, criando-se um distanciamento
artificial e tendencioso em relação à sua matriz política, o que
dificulta a compreensão das questões e cria obstáculos ao efetivo
exercício da cidadania.

Correia, Ferreira e Santo (2010), por sua vez, ao tratarem da interface


entre a Comunicação e a Política, apontam que ela se manifesta
de maneira contínua e cotidiana na sociedade contemporânea,
implicando uma reconfiguração da própria prática política, com os
seguintes impactos:

• relativização do poder dos atores políticos, dada a


emergência de novos atores e mecanismos de interação;

• aceleração dos horizontes temporais dos ciclos políticos,


com o maior dinamismo da atuação política, requerendo
profissionalização;

153
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• personalização e dramatização do poder, ancoradas nas


performances individuais e no palco televisivo;

• sujeição das mensagens políticas à estética televisiva;

• seleção de estratégias e políticas de maior adesão (ou


menor rejeição) popular, em consonância com a opinião
pública.

Comunicação e
Desenvolvimento Social
Um dos grandes desafios que se colocam à sociedade
contemporânea, segundo Nobre e Nobre (2013), consiste na
determinação da capacidade dos cidadãos de intercederem na
cena política de um País, valendo-se, para tanto, da comunicação
pública e da comunicação política processadas no âmbito da
esfera pública.

Tal circunstância realça o papel e a importância dos processos de


comunicação, devidamente ancorados no capital social e no capital
comunicacional da sociedade em questão.

Por capital social entende-se “o conjunto de recursos atuais e


potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de
relações mais ou menos institucionalizadas de conhecimento e
reconhecimento mútuo”. (BOURDIEU, 1980, citado por NOBRE e
NOBRE, 2013, p. 18). Na prática, seu estoque é determinado pelo
nível de envolvimento associativo entre os indivíduos.

Capital comunicacional, por sua vez, traduz “a base material e


simbólica da comunicação, mobilizada, por meio de processos
sociais interativos e participatórios, para gerar valor”. (NOBRE
e NOBRE, 2013, p. 20). É materializado pelo conjunto de ativos,
estruturas e sistemas que subsidiam a construção da identidade,
da imagem e da cultura, por meio do compartilhamento de
informações, relacionamentos e conversas.

154
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que, quanto maiores e expressivos os estoques de capital

social e de capital comunicacional na sociedade, maior a efetividade dos

processos de comunicação e maior o potencial de governança exercido

pelos cidadãos em torno dos seus representantes executivos e legislativos,

como convém ao exercício democrático.

A comunicação política, valendo-se dos estoques de capital social


e comunicacional, provoca efeitos concretos sobre a vida política
(sejam eles intencionais ou não), sendo essencial a compreensão
do contexto em que se desenvolve. E considerando que ela é um
subproduto da comunicação pública, cabe aqui destacar algumas
especificidades relacionadas com ambos os conceitos.

Destacam os autores que a comunicação pública tem conotação


cidadã, na medida em que retrata a interação simbólica entre os
indivíduos, buscando a convergência da compreensão em torno de
temas de interesse público. O debate se dá em torno “do que saber”,
para o que se faz necessário um adequado exercício de retórica,
mediante amais ampla utilização do capital comunicacional.

Já a comunicação política tem conotação democrática, no sentido


de que visa à interação material entre os atores políticos, buscando
a convergência da ação na gestão da coisa pública. A decisão se
dá em torno “do que fazer”, para o que se requer a flexibilidade das
negociações, mediante o emprego intensivo do capital social.

Vale destacar que a comunicação pública também requer


a sua dose de capital social, visando à estruturação de uma
network para sustentar o debate na esfera pública. Por sua vez,
também a comunicação política não pode prescindir do capital
comunicacional, sendo este indispensável para conferir visibilidade
à performance dos atores políticos, estimulando o engajamento em
torno da ação.

155
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Neste sentido, apontam os autores que “[...] o cidadão tem, na


comunicação pública, o dever de participar e o direito de decidir; e
na comunicação política, o dever de decidir e o direito de governar”.
(NOBRE e NOBRE, 2013, p. 23). Isso implica dizer que a cidadania
é obrigatória e absoluta, mas a democracia é facultativa e relativa,
requerendo permanente vigília e cobrança social.

Os autores destacam, ainda, o dinamismo da relação estabelecida


entre a comunicação pública e a comunicação política, no sentido
de que o debate, preconizado pela primeira, conduz à ação que
caracteriza a segunda, configurando uma espécie de “cidadania em
ação”, rumo à democracia.

O exercício da cidadania e da democracia, assim, traduz a alocação


dos capitais comunicacional e social nas relações estabelecidas
entre os indivíduos para a viabilização do entendimento e da ação,
objetivando a gestão da coisa pública.

No entanto, vale ressaltar que a imperfeição dos mecanismos de


representação política (típicos da democracia representativa),
aliada à intervenção incisiva da mídia, não oferecem garantias em
torno da efetiva participação popular no processo decisório.

Na busca pela maior participação popular no processo decisório,


verifica-se a preocupação com a qualidade dos debates realizados
no âmbito da esfera pública, o papel da opinião pública e a utilização
de métodos deliberativos, os quais enfatizam a participação direta
dos indivíduos no debate.

156
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Também fica realçada a importância da existência de processos


legítimos de comunicação midiática para a consolidação de uma
cultura política na sociedade, pois:

Quando se insiste em temas como a responsabilidade,


a diminuição da distância entre governantes e
governados, a prestação de contas perante os
cidadãos, a obtenção de uma maior proximidade do
público, a necessidade de o sistema político adquirir
receptividade para pretensões sociais conflituais,
deparamos com realidades que só são compreensíveis
tendo em conta a intervenção da comunicação,
nomeadamente, da comunicação mediática.
(CORREIA, FERREIRA e SANTO, 2010, p. 3).

Que a comunicação, com o concurso do esforço coletivo, seja


o caminho efetivo para a promoção da cidadania e dos ideais
democráticos!

Um dos maiores desafios que se apresentam à vida política diz respeito

à comunicação entre os atores políticos. Leia atentamente o texto

jornalístico do site G1:

“Leia a íntegra da carta enviada pelo vice Michel Temer a Dilma. Ele lista

episódios que demonstrariam 'desconfiança' da presidente.Assessoria do

vice disse que ele se surpreendeu com divulgação da carta”.

07/12/2015 23h16 - Atualizado em 08/12/2015 10h10

Andréia Sadi - Da GloboNews, em Brasília.

Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/12/leia-integra-

da-carta-enviada-pelo-vice-michel-temer-dilma.html. Acesso em: 07 jan.

2016.

157
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Em seguida, reflita sobre as seguintes questões:

• Quais teriam sido as motivações políticas que implicaram a

atitude do Vice-Presidente da República?

• Como você caracterizaria a eficácia da atitude, do ponto de vista

da estratégia de comunicação política?

• Qual foi o papel e a importância da mídia no desenrolar dos fatos?

Revisão
Na esfera pública, processa-se a comunicação pública, que diz
respeito ao poder de interação dos agentes públicos e privados; e
a comunicação política, relacionada com o poder de intervenção
de tais agentes na esfera decisória da sociedade. Nesse sentido, a
comunicação política pode ser entendida como uma especificação
da comunicação pública.

Os temas fundamentais vinculados à comunicação política são


amplos e diversificados, dentre os quais se destacam:

• Cenários de representação: espaços de representação da


realidade social, onde se formam significações específicas
e particulares às esferas política, no tocante a gêneros,
raças, gerações, estéticas etc.

• Opinião pública: soma de opiniões, ou seja, a expressão


resultante de sondagens de opinião realizadas junto ao
público.

• Marketing político: método de aplicação dos princípios do


marketing na atividade política, seja esta proveniente de
governos, partidos ou personalidades políticas, vinculada
ou não aos pleitos eleitorais.

158
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Marketing eleitoral: derivação do marketing político, tendo


duração adstrita ao período da campanha eleitoral, quando
a conotação mercadológica e mercantil se faz mais
presente.

• Mídia de massa: está no centro do marketing eleitoral,


fornecendo e instrumentalizando procedimentos
estratégicos. Exerce uma decisiva influência sobre a
percepção dos indivíduos e, portanto, sobre os próprios
resultados do pleito eleitoral.

• Propaganda: diretamente relacionada com a noção de


convencimento, mediante o condicionamento ideológico
típico dos fenômenos de massa, de ampla utilização nos
processos eleitorais. Não se confunde com publicidade.

• Sondagens de opinião: método de investigação social de


base estatística, suportado pela técnica de amostragem e
aplicação de questionários. São amplamente utilizadas nas
campanhas eleitorais.

• Spin doctor: profissional da comunicação cujo trabalho é


dar informação para o público, de modo a conferir a melhor
vantagem possível a um político ou partido político nos
pleitos eleitorais.

• Agendamento: ou agenda-setting: intervenção da mídia


na seleção e priorização dos temas que serão levados ao
debate público por intermédio da cobertura jornalística.

• Espiral do Silêncio: instrumento de controle social


exercido pela mídia em que os indivíduos, identificando o
comportamento social dominante, tendem a omitir a sua
visão quando esta se apresenta divergente da maioria,
dado o temor de exclusão social.

159
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os atores políticos se ocupam cada vez mais do estabelecimento


de estratégias de comunicação, sob a orientação de profissionais
especializados, mediante os padrões estéticos da mídia de massas.
Essa dinâmica leva à exposição excessiva os atores políticos, com a
explicitação das suas virtudes e defeitos, em detrimento do debate
verdadeiro em torno dos projetos de interesse da sociedade. Daí
decorre a “espetacularização” das campanhas políticas.

Constata-se um progressivo insulamento dos indivíduos, fechados


em si mesmos em torno da programação televisiva, bem como a
descrença da sociedade nas instituições políticas, como decorrência
da banalização do processo político pela mídia.

A imperfeição dos mecanismos de representação política, aliada à


intervenção da mídia, fragiliza a participação popular no processo
decisório, somente revertida a partir da introdução de novos atores
sociais na cena política.

Quanto maiores e expressivos os estoques de capital social


e comunicacional, maior será a efetividade dos processos de
comunicação e maior será o potencial de governança exercido
pelos cidadãos em torno dos seus representantes executivos e
legislativos, com o concurso da mídia.

• Para saber mais sobre os conceitos de Comunicação Política

e ter acesso a inúmeras pesquisas científicas na área, visite os

sítios abaixo:

http://comunicacaoepolitica.com.br/blog/sobre/, do Blog Comunicação e

Política, que abriga textos, discussões e informações acadêmicas na área.

http://www.compolitica.org/home/, sítio da Associação Brasileira de

Pesquisadores em Comunicação e Política – Compolítica, criado com o

fim de promover a especialidade de Comunicação e Política.

160
unidade 4
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Para saber mais sobre a estratégia de spin doctoring, vinculada

ao Marketing Político, assista ao interessante filme intitulado

“Spinning Boris”, de 2003. O filme aborda a experiência real

vinculada à reeleição de Boris Yeltsin em 1996, à luz da campanha

conduzida por estrategistas americanos contratados pelo

governo russo.

161
unidade 4
Modelos de
Democracia
Introdução

A democracia, palavra derivada do grego demokratía, traduz um


legado da Era Clássica da maior relevância para a sociedade
moderna, na medida em que enfatiza a preservação dos direitos
humanos, vinculados à liberdade e à igualdade entre os indivíduos.

Ela é de fato tão preciosa, que seus princípios se encontram


formalmente explicitados na Declaração Universal dos Direitos
Humanos, elaborada pela Organização das Nações Unidas em
1948, em seu Artigo XXI: “1: Todo ser humano tem o direito de fazer
parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de
• A
representantes livremente escolhidos”. (ONU, 2009, p.11). Caracterização
da Democracia

Segundo Martins (1997), a partir desse marco institucional, • A Democracia


Representativa
a democracia tornou-se a regra predominante nas modernas
(Indireta)
sociedades contemporâneas, ganhando maior expressividade e
• A Democracia
estabilidade nos países europeus, Estados Unidos, Canadá, Israel, Associativa
Japão, Austrália e Nova Zelândia. Outras Nações aderiram aos
• A Democracia
princípios democráticos, sendo que muitas delas, inclusive nas Deliberativa
Américas, ainda estão caminhando rumo à sua consolidação e
estabilidade.
No entanto, Martins (1997) adverte que o mundo contemporâneo
assiste, aturdido, à emergência de uma “crise democrática”, ditada
pela fragilidade observada dos sistemas político-partidários; pelo
elevado grau de desigualdade social que persiste nas sociedades
de tradição democrática, mesmo naquelas consideradas estáveis;
pela flagrante dominação dos interesses das Nações hegemônicas
em relação às demais, por intermédio da globalização econômica;
dentre outros fatores.

É importante ressaltar que, da era clássica até a idade


contemporânea, a democracia mudou inteiramente de significado.
Bobbio (2000) lembra-nos de que, para os antigos, tratava-se da
democracia direta, enquanto para os modernos, ela foi travestida
em democracia representativa, exercida por intermédio do voto.
A resultante dessa última versão é que quando votamos, fazemo-
lo não para decidir, mas para eleger aqueles que deverão decidir
em nosso lugar, do que resultam consideráveis riscos à própria
soberania popular.

É com este pano de fundo que vamos discutira Democracia


Representativa ou Indireta, incluindo os seus dois instrumentos
de execução, o Sufrágio e a Representação Política; bem como os
modelos de democracia que com ela competem pela reconfiguração
das estruturas de poder na sociedade contemporânea, quais sejam:
a Democracia Associativa e a Democracia Deliberativa.

Cada qual com suas peculiaridades e limitações, esses novos


modelos deram origem a uma polêmica discussão em torno das
perspectivas futuras em torno dos ideais democráticos.

Tenha uma boa leitura!


FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Caracterização da
Democracia
A Democracia, instituto tão precioso no âmbito da sociedade
contemporânea, pode ser traduzida como:

[...]o governo do povo, pelo povo e para o povo. Podemos, assim, admitir

que a democracia é um processo de convivência social em que o poder

emana do povo, há de ser exercido, direta ou indiretamente, pelo povo e em

proveito do povo. (SILVA, 2005, p.126).

A Democracia traduz uma modalidade específica de regime político


– o regime democrático, pautado na liberdade e na autonomia
pública e privada, em contraposição ao regime autocrático, em que
as liberdades públicas são limitadas ou inexistentes, mediante a
concentração do poder.

Assim, observa-se que o primeiro passo no estudo da democracia


diz respeito à compreensão em torno do conceito de regime político,
que reflete o modo de organização do poder em uma determinada
sociedade:

[...] um conjunto de instituições políticas que, em determinado momento,

funcionam em determinado Estado, em cujo suporte se encontra

o fenômeno essencial da autoridade, do poder e da distinção entre

governantes e governados. (SOARES, 2011, p. 217).

165
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Democracia, objeto de discussão nesta Unidade, teve origem na


polis ou cidade-Estado grega, palco das assembleias atenienses
onde os cidadãos, sob os princípios fundamentais da igualdade e
da soberania popular, podiam se manifestar livremente e decidir
sobre as questões relevantes para a coletividade.

Silva (2005) aponta que são três os princípios fundamentais


que regem a Democracia: o princípio da maioria, o princípio da
igualdade e o princípio da liberdade, cuja fundamentação encontra-
se em Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C.), quando este afirma que: “a
democracia é o governo onde domina o número, isto é, a maioria,
mas [...] a alma da democracia consiste na liberdade, sendo todos
iguais”. (SILVA, 2005, p.129).

Na cultura grega, o conceito de igualdade ou isonomia, fundamental para a

expressão democrática, era vinculado à ideia de igualdade de direitos entre

os indivíduos integrantes de uma mesma casta, traduzindo a polarização

existente entre homens livres e escravos.

Não se admitia a um indivíduo dar ordens a outros considerados


iguais a ele (fosse homem livre ou escravo), ficando as decisões
vinculadas à apresentação de argumentos sólidos e válidos por
parte do proponente.

Assim, observa-se que os escravos podiam se expressar com


total liberdade no seu respectivo meio. Mas, em se tratando das
assembleias atenienses, somente os homens livres (e iguais)
podiam se expressar com total liberdade e contrapor as opiniões
alheias, independentemente de sua posição social.

166
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Esse conceito de igualdade contribuiu para a consolidação


da autonomia da polis, trazendo a noção de autogoverno em
contraposição aos regimes convencionais. As assembleias eram
o espaço onde se resolviam todos os problemas pertinentes à
coletividade.

Soares (2011) aponta que, a partir do deslocamento geográfico do


centro de gravidade do mundo antigo, da Grécia para a península
itálica, uma concepção semelhante à polis grega foi transportada
para a civitas romana, em consonância com a res publica
-denominação conferida à organização política da Roma antiga e
que traduz a noção de “coisa pública”.

A civitas manteve os princípios de isonomia e de democracia aos


moldes gregos, considerando como cidadãos “[...] os indivíduos
iguais, que usufruíam de poderes despóticos na esfera privada e
direitos políticos na pública, o que lhes proporcionava participação
direta nas instituições”. (SOARES, 2011, p.245).

Deve-se ressaltar que, finda aera greco-romana, a democracia


foi perdendo espaço gradativamente, tendo sido desqualificada
no período medieval, chegando a ser apontada até mesmo como
nociva à sociedade, sob o argumento de que suscitava a discórdia
entre as pessoas, envolvidas em infindáveis debates e conflitos.

Ela retomaria o fôlego apenas por ocasião do Estado Moderno,


na transição da Monarquia Absolutista para o Liberalismo, sob
os ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” trazidos pela
Revolução Francesa de 1789. Porém, logo ficou clara a inviabilidade
da participação direta do povo, segundo o modelo grego original,
tanto por questões objetivas quanto ideológicas.

167
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O próprio tamanho da população constituía um obstáculo


intransponível, problema este inexistente na civilização grega,
que apresentava reduzidas proporções. Além disso, a soberania
popular implícita ao modelo grego poderia colocar em risco a
propriedade privada tão cara à burguesia liberal, dados os naturais
questionamentos que viriam da população carente e ávida por
maior participação política.

A fórmula adotada pelo Estado Liberal foi a chamada Democracia


Representativa ou Indireta, onde o povo elege representantes para
atuar em seu nome por um determinado período de tempo.

Observa-se que a Declaração Universal dos Direitos Humanos de


1948, em seu Artigo XXI. aponta que: “3. A vontade do povo será
a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em
eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto
secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto”.
(ONU, 2009, p.11).

A democracia consolidou-se como o “governo da maioria”, sendo


que os interesses desta maioria estariam preservados por
intermédio da atuação dos seus legítimos representantes.

Porém, segundo aponta Soares (2011), os desvios do Estado Liberal


manifestados desde a sua origem - caracterizados por abusos e
arbitrariedades vinculados aos interesses das classes burguesas -
deturparam os princípios do sistema de representação política.

Como consequência, o ideal democrático ficou restrito ao seu


aspecto formal, gerando grande insatisfação da população e
induzindo a discussão em torno de instrumentos complementares
ao modelo de Democracia Representativa, tratados como
instrumentos de Democracia Semidireta, além de modelos
alternativos, notadamente a Democracia Associativa e a
Democracia Deliberativa.

168
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os referidos modelos e instrumentos serão detalhados na sequência


e permitem uma análise em torno dos seus respectivos atributos e
limitações. De antemão, são apresentadas considerações sintéticas
acerca de cada um deles, de modo a viabilizar a sua comparação
com o modelo grego de Democracia Direta.

QUADRO 1 – Tipos e Modelos de Democracia: Características


Gerais

TIPOS/MODELOS ESPECIFICAÇÃO

O povo exerce os poderes governamentais,


Democracia Direta fazendo leis, administrando e julgando. É um
modelo hipotético, ou reminiscência histórica.

O povo é fonte primária do poder, mas


Democracia não pode administrar o Estado, dada a
Representativa/ extensão territorial, densidade demográfica e
Indireta complexidade social, elegendo representantes
para essa finalidade.

Vinculada à Democracia Indireta, trata-se


da criação de instrumentos para viabilizar
Democracia a participação direta do povo nas decisões
Semidireta em torno de algumas questões relevantes.
É também tratada como Democracia
Participativa.

Preconiza o protagonismo das Associações


Democracia como mecanismo de qualificação da
Associativa participação popular direta nas decisões
políticas.

Preconiza o protagonismo da Sociedade Civil


Democracia como mecanismo de participação popular
Deliberativa direta nas decisões políticas, incluindo a
mediação das Associações.

Fonte: : Adaptado de SILVA (2005).

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unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Democracia
Representativa
(Indireta)
A Democracia Representativa ou Indireta pode ser caracterizada
como um regime pelo qual o povo elege representantes que,
atuando em seu nome por um período de tempo determinado,
estarão à frente das decisões políticas em torno das questões de
interesse público.

Por conseguinte, a eficiência e a eficácia da gestão da coisa pública


ficam diretamente relacionadas com a qualidade da representação
política, cuja autoridade é delegada pelo povo.

Para que a natureza da Democracia Representativa seja bem

compreendida, nada melhor que a seguinte assertiva: “o poder é do povo,

mas o governo é dos representantes, em nome do povo: eis aí toda a

verdade e essência da democracia representativa”. (BONAVIDES, 2000, p.

165).

Observa-se que o “poder do povo” se manifesta uma única vez a


cada ciclo eleitoral, por intermédio do voto, sendo delegada a seus
representantes, nos intervalos, ampla autonomia para o exercício
do poder político.

170
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Segundo Maluf (2009), a Democracia Representativa pode ser


analisada à luz de duas abordagens, conferindo a ela um duplo
sentido:

a. Sentido formal ou estrito: a democracia é um sistema de


organização política governado pela maioria, amparado
por convenções e normas jurídicas que assegurem a sua
adequada representatividade. Os representantes devem ser
eleitos, com mandatos temporários.

b. Sentido substancial: a democracia é uma ordem


constitucional, pautada pelo reconhecimento e garantia dos
direitos humanos; representa um meio para que o Estado
possa atingir os seus fins.

Assim caracterizada, a Democracia Representativa, segundo


o autor, é amparada por um conceito racional de igualdade entre
os indivíduos espelhada em quatro categorias, de fundamental
importância para que os seus pressupostos sejam alcançados:

• Igualdade jurídica, independentemente de raça, cor, religião,


ideologia ou posição social;

• Igualdade de sufrágio, garantida pelo valor unitário do voto;

• Igualdade de oportunidades, que devem ser extensivas a


todos;

• Igualdade econômica, relativa ao direito de todos os


indivíduos a condições mínimas de sustento.

171
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A seguir, são apontadas oito características básicas da Democracia


Representativa:

QUADRO 2 - Características da Democracia Representativa

Poder emanado do povo, exercido por meio de



representação política.

Representação exercida em caráter eletivo e



temporário.

3ª Ordem pública respaldada pela Constituição.

4ª Pluralidade de partidos políticos.

Reconhecimento formal dos direitos fundamentais



do homem.

6ª Princípio da igualdade de todos os indivíduos.

Supremacia da lei como expressão da soberania



popular.

Submissão dos governantes ao princípio da



responsabilidade.

Fonte: Elaborado pela autora, com base em MALUF (2009).

Na sequência, serão analisados os dois institutos que traduzem a


aplicação material da Democracia Representativa, quais sejam, o
Direito de Sufrágio e a Representação Política.

172
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Instrumentos da Democracia
Representativa
O Direito de Sufrágio

A Democracia Representativa é regida pelo voto, ou seja, pelo


Sufrágio, que pode ser restrito, quando se excluem grupos sociais
específicos, ou universal, fórmula adotada pelo Estado Democrático
de Direito, o que implica dizer que a maioria da população deve
legitimar a ordem social, para que esta possa ser implementada.

Como pressuposto, a ideia de que a unanimidade é impossível de


ser alcançada, sendo necessário então que a vontade da maioria
prevaleça sobre uma minoria.

São polêmicas as questões vinculadas a esse Princípio da


Maioria, sustentado na escolha de representantes políticos do
povo. Elas retratam, no âmbito das chamadas “teorias realistas”
da democracia, “[...] um mecanismo de escolha de líderes políticos
mediante a competição, entre os partidos, pelo voto, equiparando a
dinâmica política ao jogo de mercado” (Luchmann, 2011, p.59), em
uma lógica individualista e competitiva.

Tal é o desafio que se apresenta à sociedade contemporânea


na busca pela melhor forma de representação popular, face ao
antagonismo crescente dos pleitos, tornando cada vez mais difícil
a conciliação dos interesses. Isso, em função do aumento das
desigualdades, fruto das intermináveis crises sociais, econômicas
e políticas transpostas do tumultuado século XX para o século XXI.

Segundo Soares (2011), o chamado Princípio da Maioria, embora


racional e prático, não deixa de ferir o princípio da liberdade (no
caso, da minoria), exigindo, em contrapartida, a adoção de claros e
rigorosos critérios para a realização dos processos de votação, sem
o que as revoltas se tornam inevitáveis.

173
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, o Princípio da Maioria, traduzindo a essência da Democracia


Representativa, é regido por um conjunto de regras, abaixo
enumeradas.

QUADRO 3 – Regras básicas do Princípio da Maioria

1ª Maioria simples não qualificada (metade mais um).

Maioria absoluta (metade mais um do universo



eleitoral).

3ª Maioria relativa (metade mais um dos votantes).

Maioria qualificada (pode ser de dois terços ou três



quartos).

5ª Qualquer maioria (a maior dentre as minorias).

Fonte: Elaborado pela autora com base em Soares (2011).

Soares (2011) enfatiza a complexidade das regras vinculadas ao Princípio

da Maioria, suscitando uma série de questionamentos acerca da

efetividade da participação do povo no processo político. Afinal, por trás

de um processo decisório sobre os destinos da Nação, estão aspectos

essenciais, dentre os quais:

• Que grupos populares serão habilitados para participar dos

pleitos eleitorais?

• Que tipo de temas serão submetidos à discussão popular?

• Que interesses estarão envolvidos nos pleitos eleitorais?

174
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que tão importantes quanto às regras da decisão majoritária,

são os seus limites. O autor destaca, neste sentido, a necessidade de

ampla publicidade das regras, para que todos compreendam o seu teor; de

proteção ao direito de manifestação e participação das minorias, tanto nos

pleitos quanto na materialização das decisões políticas; e de respeito às

regras de moralidade política e social.

Dallari (1998) aponta, por sua vez, um conjunto de restrições


atribuídas ao sufrágio, eventualmente caracterizadas como
instrumentos de supressão dos direitos fundamentais do homem:

a. Restrição de idade: o indivíduo somente participa da vida


política a partir do momento em que adquire um grau
mínimo de maturidade, não havendo consenso quanto a
esse limite mínimo.

b. Restrição de ordem econômica (status econômico):


combatida e em muitos casos até expressamente proibida,
traduz uma violação da igualdade jurídica dos indivíduos.

c. Restrição de sexo: regra igualmente violadora do princípio


da igualdade jurídica dos indivíduos.

d. Restrição por deficiência de instrução: conceito polêmico,


o indivíduo somente participa da vida política na medida
em que apresente um grau mínimo de instrução, o que
exclui os analfabetos dos pleitos eleitorais, sob a alegação
de despreparo destes. Naturalmente, dependendo
da proporção de analfabetos, a restrição pode vir a
caracterizar uma situação em que uma minoria governa
a maioria, ferindo frontalmente o princípio da democracia
representativa, segundo a qual a maioria governa a todos.

e. Restrição por deficiência mental ou física: o primeiro caso


se justifica mediante a incapacidade de plena utilização das
faculdades mentais dos indivíduos. O segundo, no entanto,
pode e deve ser superado pela implementação de meios
especiais de acesso dos indivíduos aos pleitos eleitorais.

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unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

f. Restrição por condenação criminal: nesse caso, os


indivíduos têm os seus direitos políticos cassados,
excluindo-se os casos de simples suspeita ou mera
acusação, e mesmo processos onde não tenha ocorrido a
condenação.

g. Restrição por engajamento no serviço militar: dirige-se


aos militares que se encontram nos níveis mais baixos da
hierarquia da corporação militar, sob o argumento de que
estes, sendo os guardiões da ordem e das liberdades, não
podem ser influenciados por qualquer viés político.

O autor traz, ainda, duas importantes considerações acerca da


extensão do direito de votar. A primeira está relacionada com
a liberdade de agir do eleitor, que não pode ser coagido em sua
expressão de cidadania.

A segunda diz respeito à consciência do eleitor para que o seu


voto se dê de modo responsável e refletido, sendo fundamental a
ação instrutiva do Estado Democrático de Direito, promovendo e
estimulando a educação política dos cidadãos. O que nem sempre
ocorre, diga-se de passagem.

176
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Um último aspecto relacionado com o sufrágio trata dos sistemas


eleitorais, cuja análise assume grande relevância para garantir a
autenticidade dos pleitos, sendo alvo de intensas controvérsias.
Dallari (1998) apresenta os sistemas mais comuns, descritos
abaixo.

a. Sistema de representação majoritária: nessa modalidade,


somente o grupo político majoritário elege representantes,
independentemente do número de partidos políticos
participantes ou da margem de vantagem dos votos obtidos.
A representação obtida é relativa, ou seja, é inferior à soma
dos votos de todos os partidos políticos participantes do
pleito, correndo-se o risco de distanciamento da vontade
popular. E também é excludente em relação aos grupos
minoritários.

Uma das formas de superação das limitações do sistema


diz respeito à substituição da representação relativa
pela representação absoluta, ou seja, somente é eleito
o candidato que obtêm mais da metade dos votos
depositados nas urnas, situação difícil de ocorrer quando
disputam mais de dois candidatos. Nesse caso, adota-
se o turno duplo, quando apenas os dois candidatos mais
votados na primeira fase vão para a disputa final.

No Brasil, o sistema é utilizado para a eleição de chefes do


executivo, ou seja, presidente, governadores e prefeitos,
bem como para os senadores.

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FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

b. Sistema de representação proporcional: todos os partidos


políticos têm direito a representação, sendo o número de
cargos obtidos proporcional ao número de votos recebidos.
A maior vantagem desse sistema é a possibilidade (mas
não garantia efetiva) de representação das minorias, porém
argumenta-se que isso pode reduzir a eficácia do governo,
ao diluir as responsabilidades entre os vários grupos
de representantes, o que não ocorre com o sistema de
representação majoritária.

No Brasil, este sistema é utilizado para a eleição de


vereadores e deputados estaduais e federais.

c. Sistema de distritos eleitorais: nesse caso, o colégio


eleitoral é subdividido em distritos eleitorais, e o eleitor
vota apenas no candidato vinculado ao seu próprio
distrito, podendo assumir vários formatos. O mais comum
é dado pela fórmula “um eleitor - um voto”, com cada
distrito concorrendo e elegendo um único candidato, em
consonância com o princípio da representação majoritária,
porém restrita a um pequeno território.

As críticas dizem respeito à possibilidade de perpetuação


das lideranças locais, da baixa representação minoritária,
além de relações de clientelismo entre o governo e os
representantes distritais, aumento da corrupção, dentre
outros. A grande virtude, por sua vez, seria a maior
proximidade do candidato com a sua base eleitoral,
criando maior comprometimento e facilitando, inclusive, a
fiscalização da atuação dos representantes.

O autor alerta para o fato de que o sistema eleitoral deve guardar


consonância com as características peculiares a cada Estado, de
modo a garantir uma representação autêntica e responsável. Tarefa
nada trivial!

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FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Democracia Representativa, sustentada pelo Princípio da Maioria, não

é fácil de ser gerida. De acordo com o formato que assume, em função das

disputas internas pelo poder, pode redundar em abusos e arbitrariedades,

contrariando os próprios princípios da liberdade e da igualdade!

Soma-se a isso, o fato de que a democracia fica circunscrita aos períodos

eleitorais, retirando dos indivíduos a chance do pleno exercício da

cidadania.

Não por acaso, o sistema representativo vem se caracterizando, ao


longo do tempo, por uma elevada e crescente dose de insatisfação
popular, na medida em que os interesses dos cidadãos não são
adequadamente refletidos nas decisões políticas.

A Representação Política

Entendido o conceito de Sufrágio e suas várias formas, cabe


avançar na análise da Representação Política, de importância
central no debate da Democracia Representativa.

A Representação Política dá-se por intermédio dos partidos


políticos, que têm sua origem no século XIX. A maior distinção dos
partidos, em relação às formas de agremiação política anteriores,
está no abandono da designação de “inimigos do Estado” a que
eram submetidas.

Vale destacar que, com os partidos políticos, consolidou-se a noção


de “oposição política” como uma doutrina básica da democracia.
Assim, opor-se ao governo é legítimo e faz parte do processo
democrático, no sentido de que um grupo de pessoas, regidas por
princípios comuns, podem se articular pela defesa dos interesses
maiores da Nação, ainda que tais princípios sejam divergentes em
relação à ideologia dominante.

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unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

É controversa a conceituação precisa de partido político, sendo


oportuno destacar a seguinte definição:

Qualificação de um movimento de ideias centralizado


no problema político e cuja originalidade é
suficientemente percebida pelos indivíduos, para
que estes aceitem ver nele uma realidade objetiva
independente dos comportamentos sociais. [E ainda],
os partidos são instituições dotadas de personalidade
jurídica e situadas no âmbito do direito público interno.
(DALLARI, 1998, p. 60).

Neste contexto, o partido político pode ser um importante canal


de representação da sociedade, desde que se mantenha autêntico
em relação à sua ideologia; seja formado espontaneamente; e
tenha liberdade para atuar. Caso contrário, não passará de mero
instrumento de manifestação de interesses particulares.

Os partidos políticos, segundo o autor, podem ser classificados


segundo uma tipologia específica:

a. Quanto à organização interna: podem ser partidos de


quadros, focados mais na qualidade do que no número
de seus integrantes; e partidos de massas, voltados,
sobretudo, para a expressividade numérica, independente
da qualidade dos quadros.

b. Quanto à organização externa: podem ser sistemas de


partido único, quando há o monopólio de um único partido
no Estado; sistemas bipartidários, quando há dois grandes
partidos alternando no governo, como ocorre tipicamente
na Inglaterra e Estados Unidos; e sistemas pluripartidários,
situação mais comum, quando coexistem vários partidos
em decorrência do fracionamento de posições. É o caso do
Brasil.

180
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. Quando ao âmbito de atuação dos partidos: podem ser


partidos de vocação universal, que ultrapassam as
fronteiras de um Estado, com unidade de princípios e
métodos de ação; partidos nacionais, que gozam de
reconhecimento e predominância em todo o Estado;
partidos regionais, de atuação limitada a uma determinada
região; e os partidos locais, de cobertura municipal.

Os Desafios da Democracia
Representativa
Segundo Luchmann (2007), a Democracia Representativa vive
uma grave crise de credibilidade em âmbito internacional, cujas
evidências são facilmente identificáveis. Em linhas gerais, observa-
se o aumento contínuo da abstenção eleitoral em países de votação
não obrigatória; a desconfiança crescente dos cidadãos em torno
das instituições políticas; a fragilização das estruturas político-
partidárias, fruto da excessiva burocratização e da interferência
incisiva da mídia nos pleitos eleitorais.

Isso em um cenário de agravamento das desigualdades sociais,


mesmo nas Nações desenvolvidas, dando indícios de que a
democracia política ainda não se fez representar nos planos
econômico e social.

181
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

É possível, assim, apontar um conjunto de aspectos positivos e


negativos vinculados à Democracia Representativa - derivados das
regras do Sufrágio e da Representação Política -, os quais estariam
por trás do seu fraco desempenho como instrumento de promoção
da igualdade e do bem-estar social. Eles são a seguir sintetizados:

QUADRO 4 – Características da Democracia Representativa

PONTOS FORTES PONTOS FRACOS

Forte legitimidade Pouca clareza em torno


assentada no expressivo dos programas eleitorais
número de votos. apresentados à coletividade.

Menor grau de Impossibilidade de representação


complexidade do processo de todos os pontos de vista da
decisório. sociedade.

A profissionalização é mais
Profissionalização da
centrada na “política” que nas
atividade política.
políticas públicas.

Visão sistêmica e holística Pouca objetividade das votações


dos problemas da face aos embates entre grupos
sociedade. opositores.

Desvio de foco dos interesses


Liberdade de decisão dos
coletivos para os interesses
representantes.
particulares.

Fonte: Elaborado pela autora com base em Bobbio (2012).

A Democracia Semidireta: uma saída?


Com base nos argumentos até aqui apresentados, dois grandes
dilemas se apresentam ao exercício democrático na sociedade
contemporânea: as imperfeições da Democracia Representativa,
incapaz de preservar a prerrogativa de participação efetiva do povo
nas decisões políticas, por intermédio dos seus representantes
eleitos; e as dificuldades operacionais vinculadas à Democracia
Direta, aos moldes do modelo grego, usualmente tipificada como
utópica.

182
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Dallari (1998) destaca, nesse contexto, o movimento desencadeado


em favor da chamada Democracia Semidireta ou Participativa, que
ganhou expressão depois da 1ª Guerra Mundial. Originária da Suíça,
irradiou-se posteriormente para toda a Europa, voltada para pleitos
eleitorais específicos.

A Democracia Semidireta, desde a sua origem, buscava preservar


algumas características da Democracia Direta, oferecendo à
sociedade os seguintes mecanismos para subsidiar o debate em
torno da coisa pública:

a. Referendum, consistindo de uma consulta pública para


introdução de uma emenda constitucional ou lei ordinária;

b. Plebiscito ou Referendum consultivo, que diz respeito a


uma consulta prévia popular para respaldar a atividade
legislativa;

c. Veto popular, que implica na submissão de um projeto


Legislativo à aprovação popular, subordinada a um quórum
mínimo de eleitores votantes;

d. Iniciativa, relacionada com a prerrogativa do povo de


“fazer legislar”, ou seja, o povo leva a petição (formalmente
estruturada ou não) do seu interesse ao Legislativo, a quem
cabe discutir e legislar;

e. Revogação (ou recall), mecanismo originalmente associado


à Constituição americana, que prevê a revogação da eleição
de um legislador ou a reforma de decisão judicial sobre
constitucionalidade de lei, sendo muito raro o seu emprego.

Vale ressaltar que a Democracia Semidireta, ao longo do tempo,


teve o seu foco paulatinamente deslocado para a atuação dos
partidos políticos, que se consolidaram como a forma predominante
de representação política.

183
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Na sociedade contemporânea, busca-se, em última instância,


a manutenção da estrutura de representação política típica da
Democracia Representativa, porém aplicando-se alguns dos
mecanismos anteriormente listados, inspirados na Democracia
Direta. Seu uso, portanto, é de natureza complementar, visando
promover uma maior aproximação entre os representados e seus
representantes políticos na esfera pública.

Como resultado, verifica-se a ampliação dos canais de participação


popular, com foco em assuntos que tocam mais diretamente aos
interesses dos indivíduos, vinculados, sobretudo, à esfera local.
De outra feita, conforme adverte Luchmann (2012), os indivíduos
não teriam como se ocupar diretamente do debate público, face à
abrangência e diversidade das questões objeto da decisão política.

A Materialidade da Democracia
Representativa no Brasil
Ao estudar a Democracia Representativa e situá-la no contexto
político nacional, torna-se fundamental revisitar os conceitos de
Estado, já apresentados na Unidade 2, agora sob a perspectiva do
Estado Democrático de Direito.

[...] Modalidade do Estado Constitucional e internacional


do direito que, com o objetivo de promover e assegurar
a mais ampla proteção dos direitos fundamentais, tem
na dignidade humana o seu elemento nuclear e na
soberania popular, na democracia e na justiça social os
seus fundamentos”. (RANIERI, 2013, p. 317).

Duas expressões extraídas deste conceito são fundamentais para


a sociedade moderna: democracia, traduzindo a prerrogativa dos
indivíduos de participarem da vida política, manifestando livremente
suas posições; e direito, vinculada à legalidade, com a supremacia
da lei e da Constituição.

184
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Essa é a essência do Estado Democrático de Direito que pressupõe,


nas palavras de Ranieri (2013), o pluralismo, o multipartidarismo e
as garantias efetivas de direitos civis, políticos, econômicos, sociais
e culturais.

Vale destacar a síntese feita por Soares (2011) acerca dos princípios
que balizam o Estado Democrático de Direito:

QUADRO 5 – Os Princípios do Estado Democrático de Direito

PRINCÍPIO CARACTERÍSTICA

Princípio da Supremacia da Constituição


Constitucionalidade sobre todos os atos praticados.

Procedimentos que garantem o


Sistema de Direitos
respeito aos direitos humanos
fundamentais
previstos na Constituição.

Princípio da legalidade da Supremacia da lei, subordinada à


administração carta Constitucional.

Princípio da segurança Evoca a proteção da confiança


jurídica dos cidadãos na lei.

Princípio da Proteção Diz respeito à garantia de


jurídica e garantias procedimentos justos para a
processuais aplicação correta da lei.

Princípio de garantia de Garantia de direito de defesa a


acesso ao Judiciário todos os cidadãos.

Soberania dos três poderes


Princípio da divisão de
constitucionais, com colaboração
poderes
e vigilância recíprocas.

Fonte: Elaborado pela autora com base em Soares (2011).

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unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Estado brasileiro, segundo a Constituição promulgada em 1988, é um

Estado Democrático de Direito, tendo na democracia o seu pilar:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos


em Assembleia Nacional Constituinte para instituir
um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade,
a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores supremos de uma
sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos,
fundada na harmonia social e comprometida, na ordem
interna e internacional, com a solução pacífica das
controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a
seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA
DO BRASIL. (Preâmbulo CF, 1988).

A democracia brasileira está fundamentada nos princípios da


soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais
do trabalho e livre iniciativa, bem como o pluralismo político, à luz
de garantias jurídico-processuais que visam garantir o adequado
funcionamento do sistema democrático.

Nesse sentido, a Constituição Federal brasileira de 1988 preconiza


que: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente”. (CF, parágrafo único do art.
1º, grifo nosso).

Mais adiante, a Constituição estabelece que: “A soberania popular


será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto,
com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I -
plebiscito; II - referendo; III - iniciativa popular”.(CF,Art. 14, grifo
nosso).

Observa-se, assim, que a Constituição Federal de 1988, intitulada


“Constituição Cidadã”, buscou aproximar a Democracia
Representativa brasileira do instituto da Democracia Direta,
introduzindo no texto constitucional a possibilidade de eventual
utilização de alguns de seus instrumentos.

186
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Democracia
Associativa
Para uma melhor compreensão em torno dos pressupostos
básicos da Democracia Associativa, torna-se relevante explicitar,
preliminarmente, os conceitos e características das entidades
denominadas associações, que estão no centro da discussão.

Tal definição não é fácil, considerando a multiplicidade de enfoques


atribuídos à atuação de tais entidades à luz de teorias diversificadas,
dificultando o estabelecimento de características gerais. Luchmann
(2012) aponta que, em que pesem os riscos de reduções e
generalizações, as associações podem ser caracterizadas como:

[...] vínculos associativos que são frutos de escolhas


pessoais e que apresentam laços mais fracos (se
comparados com as associações familiares, por
exemplo) e maior grau de autonomia (se comparados
com grupos e organizações sindicais e profissionais,
com estruturas mais hierárquicas em que os membros
são relativamente anônimos entre si). (LUCHMANN,
2012, p.62).

Vale destacar que tal definição, ancorada nos princípios


da autonomia e do voluntariado, desconsidera as naturais
desigualdades observadas nas relações sociais e de poder
manifestadas no interior das associações, bem como nas
diversificadas relações entre essas e outros agentes sociais
públicos e privados.

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unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Tal circunstância ratifica, segundo a autora, a pluralidade de


configurações associativas, apresentando-se heterogêneas quanto
aos grupos sociais que as constituem e também quanto aos seus
formatos, recursos e intenções. Daí, também, decorrem diferentes
efeitos ou impactos sobre o processo democrático, que não podem
ser generalizados.

Luchmann (2014) alerta para o fato de que as associações apresentam

diferentes graus de aderência às virtudes democráticas que lhes

são usualmente atribuídas, o que indica a presença de importantes

ambiguidades e limites à atuação das mesmas no tocante aos

pressupostos aqui retratados. É o caso da existência de grupos privados

que se associam em torno da defesa de interesses particulares, nem

sempre compatíveis com o bem comum; os grupos racistas e de ódio,

dentre outros afins.

De todo modo, é consensual a importância atribuída ao


associativismo para a consolidação da democracia, tanto maior
quanto mais complexa se torna a realidade social que permeia o
debate em torno da coisa pública, refletindo a multiplicidade e
diversidade de interesses e suas respectivas representações.

As associações são usualmente exaltadas por promoverem o


desenvolvimento das virtudes cívicas, bem como por darem voz às
camadas mais desfavorecidas da população, em consonância com
os princípios da liberdade e da igualdade, disseminando os ideais
democráticos para todos os aspectos da vida social. Neste sentido,
elas qualificam a participação direta dos cidadãos, pressuposto
básico da democracia.

188
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Luchmann (2014) enfatiza a contribuição das associações,


segmentando-a em três grandes categorias:

• Desenvolvimento individual: favorecem o aumento da


capacidade de compreensão e julgamento dos indivíduos,
que podem exercer mais plenamente a sua cidadania;

• Formação da opinião pública: viabilizam o aprofundamento


e aprimoramento do debate em torno das questões de
interesse público;

• Fortalecimento das instituições de representação:


promovem uma maior participação e a legitimação das
decisões políticas.

Também Lenzi (2009) aponta que as associações tendem a facilitar


e viabilizar, na prática, a concretização dos interesses individuais
junto ao Poder Público, sob os seguintes argumentos:

a. A própria associação e a liberdade de associar constitui-se


em um bem intrínseco da democracia;

b. Associações proporcionam uma socialização cívica do


indivíduo e sua educação política;

c. Associações induzem a uma maior fiscalização da


autoridade e do poder político; e

d. Associações estimulam a deliberação política e a criação


de esferas públicas. (LENZI, 2009, s/p).

Entendida a caracterização das associações, observa-se que o


modelo da Democracia Associativa é fundamentado na liberdade
de associação como requisito fundamental para a consolidação
das liberdades individuais e do bem-estar social.

189
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Segundo Luchmann (2014), a proliferação e a diversificação das


organizações sociais, na esteira da globalização econômica,
introduzem novos e importantes desafios ao processo de
articulação das complexas demandas sociais, que não podem
mais ser conduzidas à luz do modelo democrático representativo,
baseado no sufrágio.

Nesse contexto, as associações despontam como uma alternativa


viável de representação política institucional, assumindo um papel
político central, ao lado do Governo e dos partidos políticos.

A formulação teórica da Democracia Associativa, assim, trata do


emprego dos pressupostos do associativismo como base para o
estabelecimento de uma governança democrática. Na verdade,
o modelo representa um “meio termo” entre o individualismo aos
moldes liberais e o centralismo do Estado.

Pela multiplicação das esferas de representação do poder,


viabilizada pelo associativismo, caberia ao Estado “ceder funções e
criar mecanismos de financiamento público, tendo em vista garantir
a atuação pública das associações como corpos voluntários que
exercitam o accountability, tanto internamente, quanto junto ao
poder público”. (LUCHMANN, 2012, p.68).

Em suma, a Democracia Associativa diz respeito a uma proposta


de “acomodação” dos princípios associativistas à Democracia
Representativa, em consonância com a pluralidade de
representações sociais que se manifestam na esfera pública.

190
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Democracia
Deliberativa
A busca do ideal democrático em seu sentido mais amplo, mais
próximo, portanto, da visão original da democracia grega -, traz
à tona a discussão em torno da Democracia Deliberativa, que
preconiza a plena realização dos direitos fundamentais do homem
e da cidadania, mediante a participação direta dos cidadãos nas
decisões políticas.

Primordialmente, o modelo traduz a expectativa de que a


democracia não fique restrita ao campo político, relacionada com
a preservação da vida e da liberdade, expandindo-se para o campo
econômico e irradiando-se no campo social.

Para compreender a natureza da Democracia Deliberativa, é


necessário recorrer aos conceitos de esfera pública e sociedade
civil, sendo esta última o elemento que constitui e caracteriza a
primeira.

Na Unidade 1, foi dito que a sociedade civil é “o espaço das relações

do poder de fato”, enquanto o Estado é “o espaço das relações do poder

legítimo”. Ela representa aesfera das relações entre indivíduos, grupos e

classes sociais, que se desenvolvem à margem das relações de poder que

caracterizam as instituições estatais.

191
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Na Unidade 2, foi apontado que os sistemas sociais representados no

âmbito da sociedade civil, apresentando-se sob diversos formatos (com

ou sem fins lucrativos, de constituição formal ou informal) estão em

contínua interação, exercendo influência decisiva nas decisões que se

processam na esfera política. E por essa razão, para o cumprimento das

suas finalidades o Estado deve buscar a legitimidade da sua atuação junto

à sociedade civil, resultando daí o reconhecimento desta última como

força política.

E na Unidade 4, por fim, foi explicitado que a esfera pública é o espaço de

interação dos agentes públicos e privados, de forma presencial ou mediante

a utilização dos mais diversificados instrumentos comunicacionais. É

neste espaço que se processam a comunicação pública e a comunicação

política.

Estão aí os elementos centrais que caracterizam e dão substância


à Democracia Deliberativa (vale dizer: a sociedade civil como força
política atuando na esfera pública), que pode então ser caracterizada
como:

Processo de institucionalização de espaços e


mecanismos de discussão coletiva e pública, tendo em
vista decidir o interesse da coletividade, cabendo aos
cidadãos reunidos em espaços públicos a legitimidade
para decidir, a partir de um processo cooperativo e
dialógico, as prioridades e as resoluções levadas a
cabo pelas arenas institucionais do sistema estatal.
(LUCHMANN, 2007, p.186).

Observa-se que a sociedade civil é vista, na Democracia


Deliberativa, como um conjunto de atores e instituições
marcados pelo pluralismo, autonomia, solidariedade, influências.
Consequentemente, tais atores e instituições geram impactos
significativos na esfera pública.

Segundo Luchmann (2007), o modelo de democracia ajustado


a essa visão de sociedade civil traduz uma tentativa de ajustar
os preceitos fundamentais da democracia às complexas e
diversificadas estruturas de representação social na moderna
sociedade contemporânea.

192
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Neste modelo, as decisões políticas são legitimadas por meio


do debate público, onde a sociedade civil tem a prerrogativa de
impulsionar, reivindicar e mediar os debates em torno da coisa
pública.

Para tanto, torna-se imprescindível a criação e a ocupação de novos


espaços de participação institucional. A experiência recente tem
demonstrado a utilização de alguns mecanismos específicos, tais
como:

• Os conselhos gestores de políticas públicas, de feições


formais e legais;

• O orçamento participativo, vinculado às agendas político-


partidáriasno exercício eventual do poder político;

• A mediação, por intermédio das representações sociais;

• Os fóruns, realizados pela via das audiências públicas; e

• Os referendos, que buscam na consulta pública a


legitimação dos projetos legislativos.

Os desafios são enormes. Segundo Luchmann (2007), as principais


críticas ao modelo de Democracia Deliberativa dizem respeito
à ênfase conferida a dois aspectos básicos: o pressuposto da
existência de condições de plena igualdade, liberdade e pluralidade
participativa, além da possibilidade inequívoca de construção de
legítimos consensos políticos coletivos.

193
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Em suma, o modelo pressupõe a racionalidade e a competência


comunicativa dos atores sociais na esfera pública, os quais
desfrutariam, em tese, de igualdade política e igualdade de
condições para a participação. Enfatiza a autora que:

[...] as críticas dizem respeito aos riscos de: populismo,


elitismo, coerção da maioria, força e sobreposição dos
interesses privados ou egoístas [...] e manipulação das
preferências por grupos com maior poder político e
econômico [...].Além disso, os mais pobres e destituídos
de recursos políticos são também aqueles que mais
provavelmente estarão ausentes de experiências
participativas e deliberativas”. (LUCHMANN, 2007,
p.183).

As dificuldades relacionadas com a Democracia Deliberativa poderiam

facilmente induzir o abandono do modelo. No entanto, alguns dos seus

pressupostos devem ser ressaltados, de modo a manter aceso ao debate,

essencial na busca por mecanismos alternativos à representação política

liberal, vinculada à Democracia Representativa. Vale a pena refletir!

Luchmann (2007) discute três importantes aspectos vinculados


à Democracia Deliberativa, que representam um contraponto às
críticas atribuídas ao modelo.

a. Inclusão

No tocante à inclusão política de novos atores sociais,


preconizada pelo modelo, o primeiro obstáculo trazido à
tona pelos seus opositores diz respeito à suposta apatia
que caracteriza tais indivíduos, além da incapacidade
participativa e argumentativa da camada mais pobre da
população.

194
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A autora relata, neste sentido, experiências concretas


em que tal participação se mostrou dinâmica e exitosa,
inclusive no tocante aos estratos populacionais de mais
baixa renda, comprovando que o perfil negativo traçado
em torno da participação popular não é uma realidade
inexorável. Com base em tais experiências, conclui-se que
não há uma relação imediata entre pobreza e apatia.

b. Manipulação

Os riscos apontados em torno da manipulação, por sua


vez, também encontram algum alento nas experiências
concretas observadas. É o que se depreende da mediação
exercida pelas organizações sociais associativas, via
representação coletiva, já discutida no âmbito do modelo
de Democracia Associativa. Nesse caso, as tentativas de
controle e manipulação por parte de grupos privilegiados
ficam sensivelmente amenizadas.

c. Centralidade do Poder Público

Argumenta-se, ainda, que a mediação da representação


coletiva não é suficiente para garantir a igualdade política
no âmbito dos debates que se processam nos espaços
participativos, subsistindo o corporativismo e as relações
clientelistas com partidos e lideranças políticas. O que
tenderia, inclusive, a reforçar as desigualdades sociais.

Neste caso, aponta a autora que caberia ao Poder Público


o papel de promover e estimular a adoção de mecanismos
que desenvolvam o associativismo civil em bases mais
sólidas, de modo que ele possa cumprir adequadamente o
seu protagonismo na esfera pública.

195
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Você deve ter percebido que a Democracia Deliberativa apresenta


pontos em comum com a Democracia Associativa, no tocante ao
reconhecimento da importância das associações para a promoção
dos ideais democráticos, embora com ênfase e perspectiva analítica
diferenciadas, conforme alerta Luchmann (2012).

Assim, enquanto na Democracia Associativa as associações são


apontadas como a solução para o gerenciamento da crescente
complexidade dos fenômenos sociais, na Democracia Deliberativa
a ênfase está na sociedade civil que, por sua vez, se utiliza das
associações que a integram para a geração do poder na esfera
pública, atuando diretamente nos espaços decisórios.

Considerando os três modelos de Democracia aqui abordados(quatro,

considerando a Democracia Semidireta, usualmente tratada como um

conjunto de instrumentos associados à própria representação política,

em caráter complementar), indaga-se: qual seria o modelo mais adequado

e aplicável? Quais são as perspectivas que se apresentam ao processo

democrático, a médio e longo prazos?

Segundo Luchmann (2012), a consolidação do processo


democrático, na moderna sociedade contemporânea, está
relacionada com a adequada articulação entre os pressupostos da
participação (Democracia Semidireta), da associação (Democracia
Associativa) e da deliberação (Democracia Deliberativa), de modo
a suprir as latentes deficiências do modelo atual de representação
política (Democracia Representativa).

196
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os riscos devem ser considerados, e não são desprezíveis. Na


abordagem associativista, além da possibilidade de manipulação
das associações e ingerência controladora por parte do Estado, cita-
se o possível negligenciamento das salutares tensões que geram o
progresso social, face aos acordos usualmente estabelecidos pelas
associações com o mercado e com o Poder Público; ou a tendência
de transferência das responsabilidades deste último para a
sociedade, o que pode implicar na fragmentação e perda de eficácia
das políticas públicas. A resultante pode ser a maior competição
em torno das representações políticas.

Na abordagem deliberativa, a excessiva ênfase conferida à


dicotomia entre a sociedade civil (entendida como o poder de
fato, palco de interesses sociais diversificados e heterogêneos) e
o Estado (detentor do poder político legítimo, palco de dominação
social) pode dificultar o debate entre as duas esferas de poder,
levando a uma situação de confronto onde todos perdem. Além
disso, ao negligenciar a heterogeneidade que caracteriza a
sociedade civil, a abordagem deliberativa reproduz, nos debates que
se processam na esfera pública, as desigualdades sociais inerentes
à sociedade contemporânea. O resultado pode ser a introdução de
um viés nas decisões políticas.

Em que pesem os riscos e dificuldades apontados, é por intermédio


da contínua exposição e aplicação dos métodos participativos,
associativos e deliberativos - com suas virtudes e limitações - que
a democracia poderá avançar, superando as limitações do modelo
representativo e incorporando, cada vez mais, a complexidade e
a diversidade de representações que caracterizam a sociedade
contemporânea.

197
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Leia atentamente o texto jornalístico intitulado “Um (pequeno) passo rumo

à democracia venezuelana", acerca das recentes eleições na Venezuela,

que traz indícios de um processo de transformação social em curso

naquele País.

Disponível em: http://economia.uol.com.br/noticias/

bloomberg/2015/12/09/um-pequeno-passo-rumo-a-democracia-

venezuelana-mac-margolis.htm. Acesso em: 20 jan. 2016.

Reflita sobre as seguintes questões:

À luz dos conceitos e princípios vinculados à Democracia Representativa

e ao Estado Democrático de Direito, como você caracterizaria o regime

político na Venezuela dos dias atuais? O País pode ser enquadrado como

uma democracia? Será ele uma ditadura? Que elementos poderiam ser

destacados para justificar uma ou outra posição?

Revisão
Reveja aqui, os principais pontos abordados nesta Unidade acerca
da Democracia e seus modelos alternativos:

• Os princípios fundamentais da democracia repousam


na liberdade e na igualdade entre os indivíduos, bem
como na soberania popular. O regime democrático teve
origem na polis ou cidade-Estado grega, onde os cidadãos
livres podiam se manifestar aberta e diretamente nas
assembleias atenienses, decidindo sobre as questões
relevantes para a coletividade.

198
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• O modelo de democracia que vigora na sociedade


contemporânea é distinto da concepção grega original.
Diz respeito à chamada Democracia Representativa ou
Indireta, traduzindo o “governo da maioria”, concebida
ainda no século XVIII com o advento do Estado Liberal.

• Na Democracia Representativa o povo, por intermédio do


sufrágio, elege representantes que deverão atuar em seu
nome por um período de tempo determinado, durante o
qual estarão à frente das decisões políticas. No sufrágio,
a maioria da população deve legitimar a ordem social para
que esta possa ser implementada. Como pressuposto, a
ideia de que a unanimidade é impossível de ser alcançada,
sendo necessário então que a vontade da maioria prevaleça
sobre uma minoria.

• O princípio da maioria, embora racional e prático, não


deixa de ferir o princípio da liberdade (no caso, da minoria),
exigindo, em contrapartida, a adoção de claros e rigorosos
critérios para a realização dos processos de votação via
representação majoritária, proporcional ou distrital.

• A representação política se dá por intermédio dos partidos


políticos, cuja constituição consolidou a noção de “oposição
política” como doutrina básica da democracia.

• As falhas verificadas no sistema de representação,


vinculadas a abusos de poder e todo o tipo de arbitrariedades,
vêm acarretando inquietações e insatisfação popular.
Busca-se a conjugação da representação política com
alguns mecanismos inspirados na Democracia Direta, em
caráter alternativo e complementar, de modo a promover
uma maior aproximação entre os representados e seus
representantes na esfera pública. Tais mecanismos
configuram a chamada Democracia Semidireta ou
Participativa, exercida por meio de: Referendum, Plebiscito
ou referendum consultivo, Veto popular, Iniciativa,
Revogação (ou recall).

199
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Ressalta-se o debate em torno de modelos alternativos


de democracia, que venham suprir as deficiências da
Democracia Representativa, tendo como expoentes,
as propostas vinculadas à Democracia Associativa e à
Democracia Deliberativa.

• A Democracia Associativa é fundamentada na liberdade de


associação como requisito fundamental para a consolidação
das liberdades individuais e do bem-estar social, em
consonância com a pluralidade de representações sociais
que se manifestam na esfera pública. As associações são
apontadas como uma alternativa viável de representação
política institucional, assumindo um papel político central,
ao lado do Governo e dos partidos políticos.

• A Democracia Deliberativa preconiza a plena realização


dos direitos fundamentais do homem e da cidadania,
mediante a participação direta dos cidadãos no debate
e nas decisões políticas. Nela, as decisões políticas são
legitimadas por meio do debate público, onde a sociedade
civil tem a prerrogativa de impulsionar, reivindicar e mediar
os debates em torno da coisa pública. Para tanto, torna-se
imprescindível a criação e a ocupação de novos espaços
de participação institucional, por intermédio de conselhos
gestores de políticas públicas, orçamento participativo,
mediação, fóruns e referendos.

200
unidade 5
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Para saber mais sobre os conceitos e peculiaridades da Democracia,

consulte as seguintes publicações:

• “A Democracia Grega”, de Martin Cezar Feijó, Editora Ática,

1997.

• “O Que Todo Cidadão Precisa Saber Sobre Democracia”, de

Maria Cristina Castilho Costa, Editora Global, 1986.

• Para ter acesso a pesquisas, artigos, e participar de canais

interativos sobre democracia, acesse os seguintes portais:

• http://democraciaejustica.org/cienciapolitica3/node/44

• http://www.ceadd.com.br/

• Para saber mais sobre a visão e a postura da população brasileira

acerca da democracia e do processo eleitoral, assista ao vídeo

intitulado Democracia Ativa – Rede Jovem de Cidadania (2011),

produzido pela Associação Democracia Ativa. Disponível em:

https://vimeo.com/42224094. Acesso em: 20 jan. 2016.

201
unidade 5
Direitos Humanos
Introdução

Nesta Unidade, vamos tratar dos Direitos Humanos, doutrina que se


encontra no âmago do estudo sobre a Democracia, vinculada aos
princípios da liberdade e da igualdade dos indivíduos.

A abordagem dos Direitos Humanos carrega, em si mesma, uma


visão tipicamente idealista e positiva em torno da disposição
moral da humanidade. Segundo Bobbio (2000), essa tradição vem
de Immanuel Kant (1724-1804), proeminente filósofo prussiano
que fundamentou a ação humana nos princípios da racionalidade
própria dos ideais iluministas do seu tempo, estabelecendo as
bases da ética moderna.
• A Doutrina
dos Direitos
Destaca-se o entusiasmo de Kant frente à emergência, sobretudo a Humanos
partir da Revolução Francesa de 1789, do que ele chamou de:
• Direitos e
[...] direito que um povo tem de não ser impedido por Garantias
outras forças de dar a si próprio uma constituição Constitucionais
civil que ele considere boa [...], em harmonia com os
direitos naturais dos homens, de tal feita que estes
que obedecem à lei devam também, reunidos, legislar.
(KANT, 1798 citado por BOBBIO, 2000, p.475).

Observa-se que a concepção de Direitos Humanos, originária do


século XVIII, está estritamente vinculada à ideia de direito natural
dos homens no “Estado de Natureza”, precedendo a sua própria
organização em sociedade.
Passados mais de dois séculos dessas importantes postulações,
a doutrina dos Direitos Humanos ganhou dimensão e legitimidade,
apresentando-se como uma regra de valor incontestável na moderna
sociedade contemporânea, embora nem sempre comprovada na
realidade observável.

É com este pano de fundo que discutiremos a intrigante questão


dos Direitos Humanos, incluindo seus fundamentos, conceito,
evolução histórica e configuração à luz dos modernos dispositivos
constitucionais que se propagaram pelas Nações ao redor do
mundo.

Tenha uma boa leitura!


FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Doutrina dos Direitos


Humanos
Para compreender a essência dos Direitos Humanos e as suas
implicações práticas, é necessário recorrer à análise dos seus
fundamentos básicos, no que diz respeito às relações entre os
indivíduos e ao próprio surgimento da sociedade.

A doutrina dos Direitos Humanos tem origem na corrente filosófica


do jusnaturalismo, segundo a qual os homens possuem direitos
naturais observados desde os primórdios da humanidade, direitos
esses que devem ser respeitados e preservados pelo Estado. E é
exatamente o tratamento conferido a esses direitos naturais, ao
longo do tempo, que está na raiz da problemática em torno dos
Direitos Humanos.

Observa-se que a passagem do “Estado de Natureza” (estágio


preliminar do comportamento humano, quando imperava a barbárie
e a desordem social) para o “Estado Social” (estágio que caracteriza
a formação da sociedade, à luz da teoria contratualista), trouxe
novos e importantes desafios à convivência entre os indivíduos, o
que acabou limitando o exercício dos seus direitos naturais.

Você viu, na Unidade 1, que Thomas Hobbes (1588-1679) foi o maior

expoente da teoria contratualista de formação da sociedade. Ele apontava

o “Estado de Natureza” como uma permanente ameaça para a sociedade,

na medida em que os homens, sendo maus por natureza, impõem os seus

interesses pela força. Tal circunstância justificaria a criação de instituições

políticas para reprimir as ações dos indivíduos, em consonância com o

“Contrato Social” estabelecido.

205
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por sua vez, John Locke (1632-1704), filósofo inglês da corrente


liberal que inspirou os ideólogos dos Direitos Humanos, caracterizou
o “Estado de Natureza” da seguinte forma:

Para bem compreender o poder político e deduzi-lo


da sua origem, deve-se considerar em qual estado se
encontram naturalmente todos os homens, e esse é
um estado de perfeita liberdade de regular as próprias
ações e dispor das próprias posses e da própria
pessoa, como se acredita ser melhor, dentro dos limites
da lei de natureza, sem pedir permissão ou depender
da vontade de nenhum outro. É também um estado
de igualdade, no qual cada poder e cada jurisdição é
recíproca [...]. (LOCKE, 1690 citado por BOBBIO, 2000,
p.485, grifos nossos).

Embora Locke tenha apresentado uma visão mais amena do


“Estado de Natureza”, ele apontava, tal como seus predecessores,
a necessidade de ajuste da perspectiva de liberdade e igualdade
dos homens mediante a atuação do poder político, conforme se
depreende das palavras iniciais do seu próprio texto.

Assim, para garantir o bom funcionamento do “contrato social”,


deveriam ser mantidas determinadas regras de convivência entre
os indivíduos, ficando os direitos naturais dos homens submetidos
à tutela do Estado.

A esse respeito, Maluf (2009) ressalta o chamado “humanismo


político” prevalecente nos séculos XVII e XVIII, segundo o qual
constitui dever do Estado, como sociedade política, assegurar os
direitos fundamentais do homem no âmbito do “contrato social”.

Bobbio (2000) avança nesta análise, destacando que a moral


sempre privilegiou um código de deveres e obrigações dos homens
(e não de seus direitos), mediante o estabelecimento de normas
imperativas de comportamento, fossem elas positivas (comandos
em torno do que deve ser feito) ou negativas (proibições quanto ao
que não pode ser feito).

206
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, observa-se uma histórica prevalência do dever sobre o


direito no curso das relações humanas em sociedade. O que se
explica, à luz da teoria contratualista de formação da sociedade, pela
ênfase no bem-estar da coletividade cujos objetivos, vinculados ao
“contrato social”, se sobrepõem ao de cada indivíduo em particular.

O deslocamento da ênfase do dever em direção ao direito, verificado


sobretudo a partir do século XIX, dá-se mediante a progressiva
reversão do foco das atenções da coletividade para o indivíduo,
estimulada pelos ideais iluministas que marcaram o pensamento
filosófico europeu do século XVIII.

O Iluminismo foi um movimento desencadeado na Europa do século XVIII,

preconizando a supremacia da razão humana frente ao controle exercido,

até então, pelo Estado e pela Igreja sobre as ações humanas. Buscava-

se a vitória das “luzes” do racionalismo sobre as “trevas” do dogmatismo

inerente ao absolutismo monárquico. Daí decorreram importantes

mudanças políticas, econômicas e sociais capitaneadas pela classe

burguesa, baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que

iriam redundar na Revolução Francesa de 1789.

O século XIX foi marcado, assim, pela retomada do foco nos


direitos naturais do homem que, sob a influência do Iluminismo,
deu impulto à moderna doutrina dos Direitos Humanos. Sua
característica marcantefoi o individualismo, até então contido sob
a argumentação de fomento à desordem, em desacordo com a
noção prevalecente de obediência e dever que devia caracterizar a
vida em sociedade, sob a tutela do Estado.

207
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Inverte-se, a partir daí, a ordem de prevalência dos valores do Estado


e do individuo: em primeiro lugar deve vir o indivíduo e, em segundo
lugar, o Estado.

Nessa inversão da relação entre indivíduo e Estado,


inverte-se também a relação tradicional entre direito e
dever. No que concerne aos indivíduos, vêm de agora
em diante antes os direitos e depois os deveres; no
que concerne ao Estado, antes os deveres e depois os
direitos. (BOBBIO, 2000, p.480).

O individualismo é, portanto, o ponto de partida para o entendimento


da moderna doutrina dos Direitos Humanos, considerando-se o seu
tríplice sentido: o metodológico, relativamente ao estudo das ações
dos indivíduos, dado pelas ciências sociais; o ontológico, no que diz
respeito à igual autonomia e dignidade atribuídas a cada indivíduo;
e o ético, onde cada indivíduo é tratado como uma “pessoa moral”.

Ao individualismo vinculam-se a dois princípios fundamentais, não


por acaso centrais no âmbito do estudo da democracia: a liberdade A norma jurídica tem
e a igualdade, direitos naturais cuja prerrogativa de fruição, à luz caráter imperativo-
atributivo,ou seja, o
do Estado Democrático de Direito, requer a observação da norma
Estado tem poder
jurídica. para impor direitos e
atribuir deveres aos
cidadãos.
A norma jurídica tem caráter imperativo-atributivo,ou seja, o Estado
tem poder para impor direitos e atribuir deveres aos cidadãos. Vale
dizer que o dever imposto a um indivíduo implica na concomitante
atribuição de um direito a outro indivíduo, sendo usual a afirmação
de que “o direito de um indivíduo consiste no dever do outro”.

Observa-se que a doutrina dos Direitos Humanos, vinculada à


moderna concepção dos direitos naturais dos homens, enfatiza o
aspecto atributivo da norma jurídica. Do ponto de vista do Estado,
considera-se que este tem um dever precisamente porque o cidadão
tem um direito, razão pela qual os seus poderes são limitados.

208
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O que dizer, então, dos princípios da liberdade e da igualdade, no


âmbito da doutrina dos Direitos Humanos? Bobbio (2000) apresenta
uma interessante análise em torno do assunto.

No tocante à liberdade, observa-se um significativo avanço em


relação à sua concepção original, que o qualificava como um direito
negativo, ou seja,como a faculdade do indivíduo de fazer alguma
coisa desde que não houvesse impedimento legal para tanto.

Em um segundo momento, o conceito de liberdade passou a


incorporar a noção de autonomia, segundo a qual os indivíduos
agem não em função da ausência de uma norma impeditiva,
mas respaldados por leis que garantem o pleno exercício da sua
vontade, estabelecidas em consonância com a soberania popular.
Vem de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), proeminente filósofo
iluminista, a frase que denota com clareza essa nova concepção de
liberdade, entendida como: “a obediência à lei que prescrevemos a
nós mesmos”. (BOBBIO, 2000, p.489).

Em um momento seguinte, observa-se a conversão da liberdade


como direito negativo para um direito positivo, entendido como a
capacidade jurídica do indivíduo para agir pró-ativamente segundo
a sua vontade, sendo tal capacidade respaldada por instrumentos
previstos nos dispositivos constitucionais.

Essa ampla liberdade se manifesta segundo três parâmetros


básicos e complementares:

a. A vida pessoal, que deve ser protegida contra ingerências


externas, sobretudo por parte do Estado;

b. A vida política, que deve ser garantida mediante a


participação direta ou indireta no processo decisório;

c. A vida em sociedade, mediante a distribuição equânime


dos recursos da sociedade, de modo a garantir uma vida
digna a todos os indivíduos.

209
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Também o conceito de igualdade, segundo Bobbio (2000),passou


por sucessivos aprimoramentos ao longo do tempo, estando a sua
análise vinculada ao conceito subjacente de justiça.

Na versão convencional de justiça, a igualdade implica em que


indivíduos de uma mesma categoria devam ser tratados de forma
igual, situação que bem poderia ser expressa pela assertiva: “a cada
um a mesma coisa”.

A dificuldade diz respeito ao estabelecimento dos critérios segundo


os quais devem ser especificadas e quantificadas as categorias
de indivíduos que, por sua vez, são reconhecidamente dotados de
diferentes atributos. Assim, à luz do conceito de justiça, são também
admissíveis situações expressas pelas seguintes assertivas: “a
cada um segundo o mérito”, “a cada um segundo a necessidade”, e
daí por diante.

Em suma, coexistem dois critérios compatíveis com o conceito


de igualdade, sob o prisma da justiça. Foi preciso, portanto, que a
doutrina dos Direitos Humanos firmasse um conceito universal em
torno da igualdade, a partir das seguintes indagações: “igualdade
em que” e “igualdade entre quem”? Isso implica definir um conjunto
mínimo de direitos básicos que devem ser atribuídos a todos
os indivíduos, independentemente das categorias a que eles
pertençam.

Observa-se que os conceitos de liberdade e igualdade estão


intimamente relacionados, de modo que a liberdade negativa
corresponde à igualdade jurídica dos indivíduos; a liberdade política
corresponde à igualdade política vinculada ao sufrágio; e a liberdade
positiva corresponde à igualdade social, conferida pelo usufruto dos
bens sociais.

210
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Evolução Histórica dos


Direitos Humanos
As primeiras Declarações de Direitos Humanos, fruto da
consolidação gradativa dos ideais de liberdade e igualdade dos
homens, tiveram origem na Independência dos Estados Unidos e na
Revolução Francesa.

Observe o seguinte trecho da Declaração de Independência dos


Estados Unidos da América, de 1776:

Cremos axiomáticas as seguintes verdades: que os


homens foram criados iguais; que lhes conferiu o
Criador certos direitos inalienáveis, entre os quais o
de vida, o de liberdade e o de procurarem a própria
felicidade; que para a segurança desses direitos se
constituíram entre os homens governos, cujos justos
poderes emanam do consentimento dos governados;
que sempre que qualquer forma de governo tenda a
destruir esses fins assiste ao povo o direito de mudá-
la ou aboli-la, instituindo um novo governo cujos
princípios básicos e organização de poderes obedeçam
às normas que lhes pareçam mais próprias a promover
a segurança e a felicidade gerais. (MALUF, 2009, p. 132,
grifo nosso).

211
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observe, na sequência, os seguintes trechos da Declaração dos


Direitos do Homem e do Cidadãode 1789, fruto da revolução
francesa:

Os representantes do povo francês, reunidos em


Assembleia Nacional, [...] resolveram declarar
solenemente os direitos naturais, inalienáveis e
sagrados do homem, a fim de que esta declaração,
sempre presente em todos os membros do corpo
social, lhes lembre permanentemente seus direitos
e seus deveres;[...] em razão disto, a Assembleia
Nacional reconhece e declara, na presença e sob a
égide do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem
e do cidadão:

Art.1º. Os homens nascem e são livres e iguais em


direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-
se na utilidade comum.

Art. 4º. A liberdade consiste em poder fazer tudo que


não prejudique o próximo. Assim, o exercício dos
direitos naturais de cada homem não tem por limites
senão aqueles que asseguram aos outros membros da
sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites
apenas podem ser determinados pela lei.(USP [200?],
site, grifo nosso].

Bobbio (2000) destaca uma sutil diferença entre os textos, no que


tange à ênfase conferida aos princípios da igualdade e da liberdade
dos indivíduos. No documento americano, a igualdade assume
o status de condição fundamental, sendo a liberdade um direito
associado, juntamente com outros direitos. O documento francês,
por seu turno, atribui a mesma ênfase a ambos os princípios.

Já no século XIX, as Constituições passaram a incorporar a


Declaração dos Direitos do Homem, traduzindo uma força
limitadora do poder do Estado. Neste sentido, observa-se que “[...]
a Declaração de Direitos é uma síntese do Estado democrático, um
resumo da ciência política autêntica e a razão de ser do próprio
Estado”. (MALUF, 2009, p. 220).

212
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Ranieri (2013), por sua vez, enfatiza que a efetiva consolidação dos
Direitos Humanos como tema político ocorreu apenas ao final da
Primeira Guerra Mundial, quando eles foram vinculados aos direitos
de cidadania e de nacionalidade, explicitados no âmbito interno das
Constituições nacionais.

Somente mais tarde, com a criação da ONU – Organização das


Nações Unidas em 1945, à luz das atrocidades cometidas em nome
do nazismo, é que os Direitos Humanos iriam se estender para além
das fronteiras nacionais, tornando-se universais no âmbito de uma
ordem internacional.

Assim, em 1948, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos


do Homem (posteriormente ratificada pela Declaração dos Direitos
Humanos de Viena, em 1993), cuja importância é comparável à das
Declarações de 1776 e 1789:

A Assembleia Geral proclama a presente declaração


universal dos direitos humanos como o ideal comum
a ser atingido por todos os povos e todas as nações,
com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da
sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração,
se esforce, através do ensino e da educação, por
promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela
adoção de medidas progressivas de caráter nacional e
internacional, por assegurar o seu reconhecimento e
a sua observância universal e efetiva, tanto entre os
povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os
povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo I

Todos os seres humanos nascem livres e iguais


em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros
com espírito de fraternidade.

Artigo II

1 – Todo ser humano tem capacidade para gozar


os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja
de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou
de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza,
nascimento, ou qualquer outra condição. (UNIC Rio,
2009, pg. 4, grifo nosso).

213
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Esses são, portanto, os grandes marcos da trajetória dos Direitos


Humanos na história da humanidade, cuja evolução, segundo
Bobbio (2000), pode ser delimitada por quatro fases sucessivas.

A primeira delas diz respeito ao movimento de constitucionalização


dos Direitos Humanos, expressos nas primeiras constituições
liberais e democráticas firmadas desde o final do século XVIII até o
início do século XX.

A segunda fase, que perdura até os dias atuais, compreende


a extensão dos Direitos Humanos da esfera civil (vinculados
basicamente ao princípio da liberdade negativa) para a esfera
política (traduzidos pelo sufrágio universal), e posteriormente para
a esfera social (com a incorporação crescente dos direitos sociais
que caracterizaram a social democracia, no âmbito da liberdade
positiva).

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, deu


origem à terceira fase, relacionada com a universalização dos
Direitos Humanos,também em curso nos dias atuais. A partir daí, o
indivíduo passou a ser visto como um sujeito do direito internacional,
em posição de exigir justiça contra o Estado não apenas no cenário
interno, mas também em uma instância superior no âmbito externo.

Observa-se que a referida Declaração explicitou os três aspectos


essenciais do conceito de liberdade vinculado à doutrina dos
Direitos Humanos: a liberdade negativa, vinculada aos direitos
civis, está presente nos artigos 7 a 20; a liberdade política está
contida no artigo 21, que trata dos direitos políticos no contexto
da democracia; e a liberdade positiva encontra-se expressa nos
artigos 22 a 27, que tratam da “segurança social” relacionada com
os direitos econômicos, sociais e culturais dos indivíduos.

214
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

No tocante ao conceito de igualdade,a Declaração afirma que


os indivíduos são iguais em dignidade e direitos que, tendo sido
devidamente especificados, passam a constituir um conjunto
mínimo de direitos a serem observados por todas as Nações. Com
a ressalva de que essa igualdade, relativamente aos direitos a ela
vinculados, deve prevalecer entre todos os indivíduos, e não apenas
entre indivíduos enquadrados em uma mesma categoria, como se
depreende do seu Artigo II – ítem 1.

Observa-se que o maior problema enfrentado na esfera da


universalização dos Direitos Humanos é a sua efetividade e
aplicação prática, na medida em que a ordem internacional é mais
frágil, comparativamente à ordem nacional, sendo que nesta última
os instrumentos apresentam maior concretude, respaldada por
dispositivos constitucionais.

E por fim, a quarta e mais recente fase, relacionada com a maior


especificação dos Direitos Humanos, que passaram a ser
gradativamente segmentados segundo as diferentes fases da vida
do indivíduo (direitos da infância, juventude, velhice); do sexo (direito
das mulheres); ou das diferentes condições da existência humana
(direitos dos enfermos, deficientes físicos ou mentais).

215
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Caracterização dos
Direitos Humanos
À luz do que foi até aqui exposto, pode-se afirmar que os Direitos
Humanos representam direitos universais (e naturais) a serem
observados na vida em sociedade, podendo ser definidos como:

[...] um conjunto de faculdades, prerrogativas e


procedimentos que materializam exigências éticas
de comportamento relativas à dignidade da pessoa
humana, à inviolabilidade da sua vida e à garantia de
sua liberdade, igualdade, segurança e propriedade.
(RANIERI, 2013, p. 279).

216
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Segundo RANIERI (2013), os Direitos Humanos apresentam as


seguintes características:

QUADRO 1 – Características essenciais dos Direitos Humanos

São universais, já que aplicam-se a todos os indivíduos, em


consonância com o princípio da igualdade.

Têm conotação moral e, assim, são respaldados por justificação


racional, independentemente de positivação no âmbito do Direito.

São preferenciais, cotejando a proteção do ordenamento jurídico.

São fundamentais, pois se vinculam às necessidades essenciais


dos homens, razão pela qual são prioritários em relação aos demais
direitos previstos pelo ordenamento jurídico.

São abstrados, levando à necessidade de ponderação para a sua


adequada aplicação, em consonância com o contexto histórico e
social.

São abertos, dado que a todo momento podem ser caracterizados


novos direitos implícitos ou não escritos.

São cumulativos, na medida em que novos direitos se somam aos


anteriores.

São variados, porque se acumulam ao longo do tempo e desdobram-


se em diversas dimensões normativas.

Fonte: Adaptado de Ranieri (2013).

A autora alerta para os impactos da globalização sobre a doutrina dos

Direitos Humanos, gerando uma contraposição entre os princípios do

universalismo, voltado para a preservação de um nível ético mínimo de

dignidade humana; e do relativismo, vinculado à noção de que os direitos

humanos são determinados pela cultura de cada sociedade, que é

heterogênea e diversificada.

217
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Sob esse enfoque, “[...] não há universalidade, mas pluralidade de


direitos humanos”. (RANIERI, 2013, pg 281), resultando daí um meio
termo entre os conceitos de unidade e diversidade, em defesa do
multiculturalismo dos Direitos Humanos.

Direitos e Garantias
Constitucionais
Você viu, no tópico anterior, uma discussão sobre a doutrina dos
Direitos Humanos. Agora, vamos falar sobre Direitos e Garantias
Fundamentais do Homem, e uma primeira indagação que se faz é a
seguinte: qual é a diferença entre essas duas concepções?

Observa-se que os Direitos Humanos são abstratos, aplicando-


se à humanidade de um modo geral, especialmente vinculados
a tratados de âmbito internacional. Já os Direitos e Garantias
Fundamentais, por sua vez, possuem amparo Constitucional, sendo
respaldados por normas objetivas, estabelecidas para viabilizar
o efetivo cumprimento dos Direitos Civis, Sociais e Políticos no
âmbito das Nações.

A distinção entre as duas concepções, portanto, está na ênfase


conferida à positivação jurídica, que é inerente aos Direitos e
Garantias Fundamentais, definidos como:

[...] as disposições inseridas em determinado


ordenamento jurídico que reconhecem e garantem
o mínimo existencial do ser humano, rechaçando
desta forma os abusos perpetrados pelas autoridades
públicas, limitando o poder do Estado. São disposições
que resguardam legalmente a dignidade da pessoa
humana”. (VASCONCELOS, 2013, p. 121).

218
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A esse respeito, Silva (2005) aponta que os enunciados das solenes


proclamações de Direitos Fundamentais do Homem passaram a
compor gradativamente os textos constitucionais, assumindo o
caráter de normas jurídicas positivas, representando um direito
particular de cada povo.

Deve-se ressaltar, no entanto, que são muitas as dimensões e


formatos assumidos pelos Direitos e Garantias Fundamentais no
âmbito das diversas Nações, em consonância com as configurações
dos seus respectivos textos constitucionais.

As expressões direitos e garantias fundamentais não se confundem:

a primeira diz respeito a normas que reconhecem a existência de um

interesse ou vantagem; a segunda se refere a normas que asseguram a

efetivação desse direito reconhecido.

É importante observar a essência da mensagem contida na


expressão Direitos Fundamentais do Homem que, segundo Silva
(2005), traduz:

[...] no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e


instituições que ele concretiza em garantias de uma
convivência digna, livre e igual de todas as pessoas.
No qualificativo fundamentais acha-se a indicação
de que se trata de situações jurídicas sem as quais a
pessoa humana não se realiza, não convive e, às vezes,
nem mesmo sobrevive; fundamentais do homem
no sentido de que a todos, por igual, devem ser, não
apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e
materialmente efetivados. Do homem, não como o
macho da espécie, mas no sentido de pessoa humana
[...]. (SILVA, 2005, p.178, grifos do autor).

219
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Direitos e Garantias Fundamentais são usualmente


categorizados segundo “gerações”, em uma alusão à sua evolução
histórica, em consonância com a doutrina dos Direitos Humanos e
o dinamismo da própria sociedade. São elas:

• 1ª Geração: relacionada com os direitos políticos e civis,


vinculados a meios de defesa da liberdade, envolvendo:
direito à vida, de liberdade religiosa, de propriedade, de
participação política, de inviolabilidade de domicílio e de
segredo de correspondência.

• 2ª Geração: relativa aos direitos sociais, econômicos e


culturais, vinculada ao bem-estar dos indivíduos e justiça
social, envolvendo: direito à saúde, educação, trabalho,
habitação, previdência e assistência social.

• 3ª Geração: preconiza a fraternidade e a solidariedade,


envolvendo direitos relacionados à tratativa do meio
ambiente, progresso tecnológico, patrimônio público,
qualidade de vida, direitos do consumidor, e da infância e
juventude.

• 4ª e 5ª Gerações: vinculadas, respectivamente a questões


institucionais, como a democracia, a informação e o
pluralismo; bem como ao direito à paz. (Masson, 2013).

Contudo, tal denominação de “geração” não é consensual, já que


remete a uma ideia de superação. Ao contrário, cada nova geração
agrega-se à anterior, em vez de substituí-la, sendo mais adequada,
segundo alguns autores, a identificação de “dimensões” temáticas
que interagem e se complementam.

220
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O conjunto de Direitos Fundamentais apresenta algumas


características em comum, a seguir sintetizadas:

QUADRO 2 – Características essenciais dos Direitos


Fundamentais

CARACTERÍSTICA ESPECIFICAÇÃO

Evoluem ao longo do tempo, em consonância


São históricos
com o contexto social.

Não pode haver distinção de raça, cor, sexo,


São universais
idade, etnia, ou qualquer outro aspecto.

Formam um sistema harmônico indissociável


São indivisíveis
entre si.

São inalienáveis, Não são transferíveis ou comercializáveis,


imprescritíveis e nem se extinguem pelo uso; também não se
irrenunciáveis pode renunciar a eles.

Não sendo absolutos, não podem prevalecer


São relativos,
uns sobre os outros, devendo ser observada a
complementares e
complementaridade e interdependência entre
interdependentes
eles.

Não se pode desrespeitá-los, devendo ser


São invioláveis e
garantidos pelo Poder Público, ainda que
efetivos
mediante coerção.

Fonte: Adaptado de Masson (2013).

221
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Direitos e Garantias Fundamentais


na Constituição Brasileira
A positivação que caracteriza o conceito de Direitos e Garantias
Fundamentaisna Constituição brasileira pode ser observada no
texto abaixo:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos


em Assembleia Nacional Constituinte para instituir
um Estado democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade,
a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores supremos de uma
sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos,
fundada na harmonia social e comprometida, na
ordem interna e internacional, com a solução pacífica
das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de
Deus, a seguinte Constituição da República Federativa
do Brasil. (Constituição Federal, 1988, Preâmbulo).

Estão aí reunidos os elementos que conferiram à Constituição


brasileira de 1988 a denominação de “Constituição Cidadã”, dada a
ênfase conferida aos direitos do cidadão, tendo como fundamentos
cinco pilares: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa
humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, bem
como o pluralismo político.

Também o Título I da Constituição – Dos Princípios Fundamentais,


em seu artigo 3º - inciso IV, aponta como um dos objetivos
fundamentais da República Federativa do Brasil, a promoção do
bem-estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Mascarenhas (2010) aborda que o Direito Constitucional brasileiro


reconhece cinco grandes grupos de direitos fundamentais: os
Direitos Individuais (Art. 5º); os Direitos Coletivos (também no Art.
5º); os Direitos Sociais (Art. 6º e 193 e seguintes); os Direitos à
Nacionalidade (Art. 12); e os Direitos Políticos (Art. 14 a 17).

222
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Silva (2005) ressalta que não é clara, no texto constitucional


brasileiro, a linha divisória entre os direitos e garantias fundamentais
cujos conceitos, conforme já apontado anteriormente, não são
iguais. Assim, cabe à doutrina jurídica a identificação do que sejam
direitos e do que sejam garantias constitucionais:

Dos direitos e deveres individuais e coletivos, [o texto


constitucional] não menciona as garantias, mas boa
parte dele constitui-se de garantias. Ela [a Constituição]
se vale de verbos para declarar direitos que são mais
apropriados para enunciar garantias. Ou talvez melhor
diríamos, ela reconhece alguns direitos garantindo-os.
(SILVA, 2005, p.186, grifos nossos).

Tendo em mente essas considerações preliminares, você vai


acompanhar, a partir de agora, uma discussão sobre os Direitos
Civis e os Direitos Sociais, dimensões da maior relevância no
âmbito dos Direitos e Garantias Fundamentais. Os Direitos à
Nacionalidade e os Direitos Políticos, também integrantes do
conjunto de Direitos e Garantias Fundamentais na Constituição
brasileira, serão retratados na próxima Unidade, quando trataremos
do tema da Cidadania.

a. Os Direitos Civis

Os Direitos Civis, no âmbito da Constituição brasileira, estão


relacionados com os Direitos e Deveres Individuais e Coletivos,
sendo voltados para a proteção dos indivíduos e grupos sociais,
incluindo as pessoas jurídicas.

Sendo dirigidos ao homem enquanto “pessoa moral”, estão


particularmente relacionados com o conceito de liberdade negativa,
ao mesmo tempo em que conferem aos indivíduos autonomia
e independência frente ao Estado, cuja atuação encontra claros
limites.

223
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O enfoque dos Direitos Individuais e Coletivos, de caráter inédito,


encontra-se fundamentado no Título II, Capítulo I – art. 5º. e seus
77 incisos, estendendo-se a outros dispositivos na forma de direitos
decorrentes ou implícitos:

Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção


de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e
à propriedade, nos termos seguintes [...]. (Constituição
Federal, Art. 5).

Mascarenhas (2010) adverte que outros importantes dispositivos tratam

igualmente da proteção dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos,

por intermédio das “ações constitucionais” previstas nos incisos XXXIV,

alínea a - incisos LXVIII a LXXIII, além da “ação civil pública”, voltada para

a prevenção ou composição de danos morais e patrimoniais causados ao

meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético,

histórico, turístico e paisagístico.

Silva (2005) caracteriza os Direitos Individuais como direitos


fundamentais do homem-indivíduo, relativo aos particulares. Tais
direitos podem ser subdivididos, segundo o autor, em:

• Direitos individuais expressos (enunciados explicitamente


no art. 5º);

• Direitos individuais implícitos (subentendidos nas regras


de garantias, via art. 5º, II); e

• Direitos individuais decorrentes, vinculados ao regime de


tratados internacionais subscritos pelo Brasil.

No tocante aos direitos individuais expressos e implícitos, sua


classificação é dada por cinco grandes grupos: direito à vida, direito
à intimidade, direito à igualdade, direito de liberdade e direito de
propriedade.

224
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os direitos coletivos, citados no caput do art. 5º, não estão explicitados

no texto constitucional, podendo ser associados, segundo o autor, aos

seguintes direitos: acesso à terra urbana e rural; acesso ao trabalho;

transporte coletivo; energia e saneamento básico; meio ambiente sadio;

melhoria da qualidade de vida; preservação da paisagem e da identidade

histórica e cultural; informações do Poder Público; reunião, associação e

sindicalização; manifestação coletiva, incluindo o direito de greve; controle

do mercado de bens e serviços essenciais; direito de petição, dentre outros.

Tais direitos se aproximam da noção de direitos individuais de expressão

coletiva.

Veja, a seguir, a descrição sumarizada dos direitos individuais e


coletivos previstos na Constituição brasileira, dada por Mascarenhas
(2010):

• Direito à Vida: o Estado deve assegurar o direito à vida


e, além disso, que a vida seja digna do ponto de vista da
subsistência.

• Igualdade: a lei não pode dar tratamento discriminatório,


preconceituoso ou racista aos indivíduos.

• Igualdade entre homens e mulheres: busca-se coibir a


diferenciação de dignidade jurídica, moral e social entre os
sexos.

• Princípio da legalidade: implica na submissão e respeito à


lei.

• Vedação da tortura e a tratamento desumano ou


degradante: relativa a qualquer prática que possa atingir a
integridade humana, seja ela de natureza física ou moral.

225
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Liberdade de manifestação do pensamento: consiste


na liberdade de manifestação de opinião, de religião, de
informação, de imprensa, de telecomunicações, sendo
vedado o anonimato, de modo a coibir comportamentos
levianos ou irresponsáveis.

• Direito de resposta e indenização: concedido ao indivíduo


atingido em sua honra, de forma proporcional ao dano
causado.

• Inviolabilidade à liberdade de credo: extensiva ao direito de


não acreditar ou professar nenhuma fé.

• Prestação de assistência religiosa: assegurada pelo


Estado às entidades civis e militares de internação coletiva
(Forças Armadas e prisões). Inclui a chamada “escusa de
consciência”, relativa à recusa de submissão a atividades
que afrontem a crença religiosa, convicção filosófica
ou política, e diz respeito ao serviço militar obrigatório e
convocação para a guerra.

• Liberdade de expressão: veda qualquer tipo de censura


prévia, seja ela política, ideológica ou artística, exceto
nos aspectos relacionados à faixa etária, observada a
responsabilização do autor.

• Inviolabilidade da intimidade, da vida privada, a honra e


da imagem: trata-se de proteção constitucional à vida,
privada das pessoas físicas e jurídicas, assegurado o direito
a indenização por dano moral e material.

• Inviolabilidade da casa: exceção admitida em caso


de flagrante delito, desastre, prestação de socorro ou
determinação judicial.

226
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Inviolabilidade das correspondências e das comunicações


telegráficas, de dados e telefônicas: exceção admitida
apenas em caso de ordem judicial, e relaciona-se com os
direitos de inviolabilidade da intimidade e inviolabilidade da
casa.

• Livre exercício de qualquer trabalho: todo cidadão pode


exercer qualquer trabalho, desde que não tenha caráter
ilegal, prevalecendo o princípio da legalidade sobre o
princípio da moralidade. São ressalvadas as situações em
que são exigidas qualificações profissionais específicas
para o exercício do trabalho, as quais devem ser
regulamentadas por lei.

• Sigilo da fonte: garantido sempre que necessário


ao exercício profissional, no tocante à divulgação de
informações, guardando relação com os direitos de
inviolabilidade da vida privada, da intimidade, da honra e da
imagem.

• Liberdade de locomoção: diz respeito ao direito de ir e vir,


em tempos de paz e na forma da lei.

• Reunião pacífica: os indivíduos podem se reunir em locais


públicos, desde que de forma pacífica, mediante aviso
prévio às autoridades competentes.

• Liberdade de associação: condicionada a fins lícitos, a


associação pode ocorrer a qualquer tempo, de forma
livre, sem necessidade de autorização, exceto em caso de
associação de caráter militar, que é vedada.

227
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Direito de propriedade e suas limitações: disciplinado pelo


Código Civil, garante o direito de propriedade, que deverá
atender a sua função social, sendo previsto procedimento
para desapropriação por necessidade ou utilidade
pública ou por interesse social, mediante pagamento de
indenização. Também é previsto o uso da propriedade
privada pela autoridade competente em caso de iminente
perigo público, sendo assegurada indenização por eventual
dano.

• Direito autoral: trata-se de um direito de propriedade


imaterial, concedido aos autores pela utilização, publicação
ou produção de suas obras, incluindo atividades que
envolvem a utilização da voz e da imagem, além dos
inventos e inovações, mediante o registro de marcas e
patentes.

• Herança e sucessão: refere-se à transferência de


titularidade dos bens a herdeiros e sucessores.

• Defesa do consumidor: refere-se ao direito de reparação


pelo dano causado ao consumidor, face ao não
cumprimento das especificações originais ou defeito
verificado quando da entrega ou utilização do bem.

• Direito de receber informações dos órgãos públicos:


relativo a informações de interesse particular ou coletivo,
exceto em caso de sigilo vinculado à segurança da
sociedade ou do Estado.

• Direito de petição e de obtenção de certidões: a petição


se vincula à defesa de direitos contra ilegalidade ou abuso
de poder, enquanto a obtenção de certidões diz respeito
a defesa de direitos e esclarecimento de situações de
interesse pessoal, de caráter declaratório, com isenção do
pagamento de taxas às repartições públicas.

228
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Princípio da legalidade: refere-se ao direito de acionamento


do Poder Judiciário para resgatar um direito que tenha sido
violado.

• Direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada:


o direito adquirido impede que a lei retire o direito do
indivíduo; o ato jurídico perfeito se aplica à lei de ordem
pública, implicando que não pode ser alterada em função
de novas leis que venham a ser editadas; a coisa julgada diz
respeito a um direito concedido que não pode mais passar
por recurso.

• Vedação ao juízo ou tribunal de exceção: em consonância


com o Estado Democrático de Direito, implica em que as
ações judiciais sejam sempre submetidas aos Tribunais
já existentes e sujeitas às leis vigentes, para garantir a
imparcialidade.

• Júri popular: instituição democrática voltada para o


julgamento de crimes dolosos contra a vida, sendo
considerado um serviço de relevante valor social, prestado
mediante convocação dos cidadãos.

• Anterioridade legal: o crime somente se tipifica mediante a


existência de uma lei prévia que o caracterize.

• Irretroatividade da lei: eventual retroatividade somente


pode ser invocada em benefício do réu.

• Vedação às discriminações aos direitos e liberdades


fundamentais: veda qualquer tipo de discriminação
que atente contra os direitos e garantias fundamentais,
tornando-a sem efeito jurídico.

• Criminalização da prática do racismo: constitui crime


inafiançável e imprescritível, punido com a prisão.

229
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Crimes inafiançáveis e hediondos: vinculados à violação


dos direitos humanos, são assim considerados os crimes
de tortura, tráfico de drogas, terrorismo, ação de grupos
armados civis ou militares contra a ordem constitucional,
sendo responsabilizados tanto os mandantes, quanto os
executores e os que, podendo evitá-los, se omitem.

• Princípio da personalização e da individualização das


penas: a pena imputada a um indivíduo não pode ser
repassada a familiares, parentes ou terceiros, mas a
reparação patrimonial dos danos causados, sim.

• Extradição: decorrente de tratados e acordos internacionais,


refere-se à transferência coercitiva de um indivíduo de
um país a outro, não se aplicando aos brasileiros, salvo
os naturalizados, quando o crime tiver ocorrido antes da
naturalização; não se aplica a crimes políticos.

• Princípio do devido processo legal: o indivíduo somente


pode ser sentenciado pela devida autoridade competente,
aplicando-se a juízes e autoridades policiais.

• Contraditório e ampla defesa: trata-se da garantia de que


o acusado terá direito à apresentação de todo e qualquer
elemento que possa contribuir para a elucidação da verdade
dos fatos.

• Inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos:


não tem relevância processual as provas que infringem o
direito material.

• Presunção de inocência: trata-se de um princípio basilar


do Estado de Direito, segundo o qual ninguém pode ser
considerado culpado até prova em contrário.

• Assistência judiciária gratuita: garantia de assistência


integral e gratuita pelo Estado a todos os cidadãos que
comprovem insuficiência de recursos.

230
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Erro do judiciário: o Estado deverá indenizar o cidadão


condenado por erro judicial.

• Gratuidade de certidões e ações constitucionais: o registro


civil de nascimento e a certidão de óbito não são cobrados
de cidadãos que comprovem insuficiência de recursos,
assim como a ação popular, o habeas corpus e o habeas
data (honorários advocatícios não incluídos).

• Razoabilidade da duração do processo: trata da garantia


de que os processos sejam tramitados de forma célere,
sendo altamente criticada a inclusão de tal dispositivo
como norma constitucional.

b. Os Direitos Sociais

Os Direitos Sociais expressam um conjunto de contraprestações do


Estado, voltadas para o atendimento das expectativas dos cidadãos
enquanto seres sociais que, como tal, vivem em coletividade
segundo relações de interdependência.

Considerando que tais direitos dependem da ação positiva e


concreta do Estado, eles não são imediatamente aplicáveis, sendo
também variáveis segundo a capacidade prestativa do poder
público do País em questão. Por essa razão, são considerados
direitos imperfeitos.

Também denominados “direitos de justiça”, os Direitos Sociais


conferem a liberdade positiva aos indivíduos que, munidos de
capacidade para agir em condições de igualdade social, têm
afirmada a sua dignidade e potencial de desenvolvimento no âmbito
da sociedade.

231
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Direitos Sociais podem ser caracterizados como:

[...] prestações positivas proporcionadas pelo Estado


direta ou indiretamente, enunciadas em normas
constitucionais, que possibilitam melhores condições
de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar
a igualização de situações sociais desiguais. São,
portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade
[...]. (SILVA, 2005, p. 286).

[...] normas de ordem pública, dotadas de


imperatividade, inviolabilidade, auto aplicabilidade,
e são suscetíveis de mandato de injunção em caso
de omissão do poder público na regulamentação de
alguma norma de direito social que inviabilize o seu
exercício. (MASCARENHAS, 2010, p. 101).

A análise dos Direitos Sociais permite a configuração de visões


alternativas em torno da sua classificação. Silva (2005) aponta uma
tipificação em seis classes:

a. Direitos sociais relativos ao trabalhador;

b. Direitos sociais relativos à seguridade (saúde, previdência e


assistência social);

c. Direitos sociais relativos à educação e à cultura;

d. Direitos sociais relativos à moradia;

e. Direitos sociais relativos à família, criança, adolescente e


idoso;

f. Direitos sociais relativos ao meio ambiente.

232
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Também é possível uma classificação dos direitos sociais em duas


categorias:

a. Direitos sociais do homem produtor, englobando:


liberdade de instituição sindical; direito de greve; direito
de determinação das condições de trabalho; direito de
cooperar na gestão da empresa; direito de obter emprego; e

b. Direitos sociais do homem consumidor, envolvendo: saúde;


segurança social; desenvolvimento intelectual; acesso
igualitário a educação; formação profissional; cultura e
garantia ao desenvolvimento da família.

Na Constituição Brasileira, os Direitos Sociais são retratados no


Título II, Capítulo II – art. 6º. ao 11, tendo por objeto a melhoria das
condições de vida das pessoas, em consonância com os princípios
da igualdade social.

Os temas retratados abrangem o direito à educação, à saúde, ao


trabalho, à moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à
maternidade, infância, assistência aos desamparados. Esses temas
são recorrentes no Título VIII da Constituição (que trata da Ordem
Social, enfocando seus mecanismos e aspectos organizacionais),
encontrando-se os dois Títulos em estreita consonância.

Na sequência, é apresenta uma síntese dos direitos sociais dos


trabalhadores (art. 6º ao 11), extraída de Mascarenhas (2010):

• Direitos dos trabalhadores urbanos e rurais: são


cumulativos com os demais direitos constitucionais, e se
estendem aos servidores públicos.

• Proteção contra despedida arbitrária, seguro-desemprego


e FGTS: em caso de despedida arbitrária (sem justa causa),
cabe o pagamento de indenização; o seguro-desemprego
se aplica em casos de desemprego involuntário; o FGTS foi
criado em substituição à estabilidade do emprego.

233
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Salário, sua irredutibilidade e proteção: fixação do salário


mínimo nacional, reajustado periodicamente, para suprir as
necessidades básicas do trabalhador e sua família.

• Piso salarial: vinculado a determinadas profissões, em


consonância com a extensão e complexidade do trabalho.

• Irredutibilidade do salário: os salários só podem ser


reduzidos mediante acordo coletivo entre patrões e
empregados, e não podem ser inferiores ao salário mínimo
nacional.

• 13º salário: correspondente a 1/12 da remuneração integral


devida no mês de dezembro de cada ano.

• Retenção dolosa do salário: a retenção dolosa é crime; a


participação em lucros ou resultados não integra o salário.

• Condições de trabalho: Jornada de oito horas, remuneração


de serviço extraordinário, férias anuais, aviso prévio,
adicionais de insalubridade e periculosidade e outros.

• Liberdade de associação profissional e sindical: a lei


não exige a autorização do Estado para a constituição
de sindicato, sendo vedada a criação de mais de uma
organização de uma mesma categoria profissional ou
econômica em uma mesma base territorial, que não pode
ser inferior a um município.

• Direito de greve: fundamenta-se no princípio da liberdade do


trabalho, sendo vedada a demissão dos grevistas ou a sua
substituição, à exceção dos casos de prejuízos irreparáveis
ou abuso do exercício do direito de greve, mediante decisão
judicial.

• Participação nos colegiados dos órgãos públicos:


vinculada a órgãos que cuidam dos interesses profissionais
e previdenciários, como o FGTS e INSS.

234
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Representação: eleição de representantes em empresa com


mais de 200 empregados, sendo que os representantes
gozam de estabilidade provisória.

Mascarenhas (2010) também analisa o Título VIII da Constituição -


Da Ordem Social, onde buscou-se enfatizar os direitos sociais como
instrumento de equilíbrio e justiça social, visando à preservação da
dignidade humana. Os temas retratados, de expressivo componente
ideológico, estão a seguir sintetizados.

• Seguridade social: conjunto de ações voltadas à garantia


dos direitos à saúde, previdência e assistência social,
custeadas com: recursos da União, Estados e Municípios;
contribuições sociais dos empregadores; contribuições dos
trabalhadores e demais segurados; receita de loterias; e
também do importador de bens e serviços.

São observados os seguintes princípios: universalidade da


cobertura do atendimento; uniformidade e equivalência dos
benefícios e serviços nas áreas urbana e rural; seletividade
e distributividade na prestação dos benefícios e serviços;
irredutibilidade do valor dos benefícios; equidade na
forma e participação no custeio; diversidade da base de
financiamento; caráter democrático e descentralizado da
administração.

• Saúde: é direito de todos e dever do Estado, cujas ações


preconizam a redução dos riscos de doença e o acesso
igualitário às ações e serviços voltados para a promoção,
proteção e recuperação da saúde. A atuação pública se dá
mediante um sistema único, gerido de forma regionalizada
e hierarquizada, observados os seguintes princípios:
descentralização; atendimento integral, com prioridade
à prevenção; gestão democrática, com a participação da
sociedade.

235
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Previdência social: possui caráter contributivo e obrigatório,


pautada em critérios objetivos para manutenção do
equilíbrio financeiro e atuarial. É vinculada aos seguintes
benefícios: doença, invalidez, morte e idade avançada;
proteção à maternidade; desemprego involuntário; salário-
família e auxílio-reclusão para dependentes de segurados
de baixa renda; pensão por morte do segurado ao cônjuge
ou companheiro e dependentes.

• Assistência social: financiada com recursos da seguridade


social, é dirigida a quem necessitar, tendo por objetivos: a
proteção à família, maternidade, infância, adolescência
e velhice; amparo às crianças e adolescentes carentes;
promoção da integração ao mercado de trabalho;
habilitação e reabilitação de portadores de deficiência e
sua integração à vida comunitária; pagamento de benefício
mensal ao deficiente e ao idoso carente.

• Educação: também constitui direito de todos e dever do


Estado, tendo por objetivo o pleno desenvolvimento do
indivíduo e seu preparo para o exercício da cidadania e
qualificação para o mercado de trabalho.

Os princípios observados são: igualdade de acesso e


permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar,
pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas,
com a coexistência de instituições públicas e privadas;
gratuidade em estabelecimentos públicos; valorização dos
profissionais de ensino; gestão democrática; garantia de
padrão de qualidade; piso salarial profissional nacional para
a educação escolar pública.

236
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Cultura: o Estado deve atuar em duas frentes, assegurando


o direito à cultura a todos os cidadãos e promovendo a
cultura de forma generalizada, bem como protegendo
todas as formas de manifestação cultural (incluindo as de
minorias culturais, como as indígenas e afro-brasileiras).

• Desporto: relacionado com o princípio da dignidade


humana, compreende o dever do Estado de promover
práticas desportivas formais e não formais como forma
de lazer, visando à integração dos cidadãos à vida social,
promoção da saúde coletiva e proteção ao meio ambiente.

• Ciência e Tecnologia: o Estado deve promover e incentivar


o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação
tecnológica, bem como apoiar a formação de recursos
humanos especializados, incluindo o apoio às empresas que
realizem investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

• Comunicação social: a Constituição consagra a liberdade


de expressão na área intelectual, artística, científica e de
comunicação, sem restrições, observados os dispositivos
legais relacionados, a exemplo da Lei de Imprensa.

• Meio ambiente: o Estado deve defender e preservar o


meio ambiente, garantindo qualidade de vida às gerações
futuras, sendo as condutas lesivas punidas penal e
administrativamente, com a reparação de danos.

• Família: é reconhecida como base da sociedade e, como


tal, deve ser protegida. São definidos três tipos de entidades
familiares: casamento civil ou religioso com efeitos civis;
união estável entre homem e mulher; comunidade formada
por qualquer dos pais e seus descendentes. É admitida a
dissolução do casamento civil pelo divórcio de forma direta.

237
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que os dispositivos legais vêm mudando ao


longo do tempo, em função do dinamismo do tecido social,
como a união de pessoas do mesmo sexo, viabilizada por
intermédio de decisão judicial do Supremo Tribunal Federal.

• Criança, adolescente e idoso: é dever da família,


da sociedade e do Estado assegurar-lhes o direito à
vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à
liberdade e à convivência familiar e comunitária, bem como
preservá-los de toda negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão.

• Índios: é reconhecida a organização social indígena,


incluindo seus costumes, línguas, crenças, tradições
e direito originário sobre a terra ocupada em caráter
permanente, utilizada de forma produtiva e essencial para a
preservação do seu bem-estar, a qual deve ser demarcada e
protegida pela União.

Leia atentamente o texto jornalístico indicado a seguir, relacionado com

a dramática situação dos refugiados na Europa, envolvendo uma decisão

legal tomada unilateralmente em torno dos bens dos imigrantes:

“Dinamarca aprova lei que permite confiscar bens dos imigrantes”.

Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/dinamarca-vota-

hoje-lei-que-permite-confiscar-bens-dos-imigrantes. Acesso em: 01 fev.

2016.

238
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Reflita sobre as seguintes questões:

• No contexto da crise migratória mundial, que direitos estão sendo

desrespeitados, nos países de origem e nos países de destino

dos migrantes?

• Quais seriam as implicações da atitude do governo dinamarquês

sobre os objetivos da ONU de universalização dos Direitos

Humanos?

• • Que fatores de natureza cultural e social estariam

motivando o comportamento dinamarquês que, em última

instância, reflete o posicionamento predominante na Europa?

Revisão
Reveja os principais pontos tratados nesta Unidade, relacionados
com a questão dos Direitos Humanos.

• A doutrina dos Direitos Humanos desenvolveu-se a partir


do século XVIII, tendo sua origem na corrente filosófica
do “jusnaturalismo”, segundo a qual os homens possuem
direitos naturais observados desde os primórdios da
humanidade. As primeiras Declarações de Direitos
Humanos tiveram origem na Independência dos Estados
Unidos e na Revolução Francesa.

• Para garantir o bom funcionamento do “contrato social”, os


direitos naturais dos homens foram submetidos à tutela
do Estado. Nesse sentido, a moral sempre privilegiou um
código de deveres e obrigações dos homens (e não de
seus direitos), mediante o estabelecimento de normas
imperativas de comportamento.

239
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• O deslocamento da ênfase do dever em direção ao direito,


verificado sobretudo a partir do século XIX, se dá mediante a
progressiva reversão do foco das atenções da coletividade
para o indivíduo, estimulada pelos ideais iluministas que
marcaram o pensamento filosófico europeu do século XVIII.

• O individualismo é, portanto, o ponto de partida para o


entendimento da doutrina dos Direitos Humanos, ao qual
vinculam-se dois princípios fundamentais: a liberdade e a
igualdade, direitos naturais cuja prerrogativa de fruição, à
luz do Estado Democrático de Direito, requer a observação
da norma jurídica, enfatizando-se o aspecto atributivo desta
última.

• Nessa moderna concepção dos direitos naturais dos


homens, a liberdade apresentou um significativo avanço em
relação à sua concepção original, que a qualificava como
um direito negativo, passando a incorporar, em um segundo
momento, a noção de autonomia; e posteriormente,
ganhou o status de direito positivo. No tocante à igualdade,
passou-se a considerar um conjunto mínimo de direitos
básicos que devem ser atribuídos a todos os indivíduos,
independentemente das diferentes categorias a que eles
pertençam.

• Já no século XIX, as Constituições passaram a incorporar a


Declaração dos Direitos do Homem, traduzindo uma força
limitadora do poder do Estado.

240
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• No tocante à evolução histórica dos Direitos Humanos,


a primeira fase veio com a constitucionalização de tais
direitos, expressos nas primeiras constituições liberais
e democráticas. A segunda fase, que perdura até os dias
atuais, compreende a extensão dos Direitos Humanos da
esfera civil para a esfera política, e, posteriormente, para
a esfera social. A terceira fase veio com a Declaração
Universal dos Direitos do Homem da ONU, em 1948,
implicando na universalização dos Direitos Humanos. E
a quarta fase etá relacionada com a maior especificação
dos Direitos Humanos, que passam a ser segmentados
segundo as diferentes fases da vida, sexo ou condições da
existência humana.

• A distinção entre as concepções de Direitos Humanos


e Direitos e Garantias Fundamentais do Homem está na
ênfase conferida à positivação jurídica destes últimos,
representando um direito particular de cada povo.

• Na Constituição Brasileira, Os Direitos e Garantias


Fundamentais estão vinculados aos Direitos Civis (Direitos
Individuais e Coletivos), Direitos Sociais, Direitos à
Nacionalidade e Direitos Políticos. Os Direitos Civis estão
mais vinculados ao princípio da liberdade, enquanto os
Direitos Sociais vinculam-se primordialmente ao princípio
da igualdade.

241
unidade 6
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Para ter acesso a pesquisas e artigos sobre os Direitos Humanos,

acesse a Biblioteca virtual de Direitos Humanos da Universidade

de São Paulo. Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.

br/>. Acesso em: 29 jan. 2016.

• Para saber mais sobre a história e a especificação dos Direitos

Humanos preconizados pela ONU, assista aos vídeos da

Organização Unidos pelos Direitos Humanos:

a. A História dos Direitos Humanos. Disponível em: <http://

www.humanrights.com/pt/what-are-human-rights.html>.

Acesso em 28 jan. 2016.

b. 30 Direitos Humanos. Disponível em: <http://www.

humanrights.com/pt/what-are-human-rights/universal-

declaration-of-human-rights.html>. Acesso em: 28 jan. 2016.

• Para saber mais sobre a situação dos refugiados na Europa,

assista ao minidocumentário “Detidos na Itália – a miséria dos

migrantes e refugiados”. Disponível em: <https://nacoesunidas.

org/video-detidos-na-italia-a-miseria-dos-migrantes-e-

refugiados/>. Acesso em: 01 fev. 2016.

• Para saber mais sobre o número e a distribuição dos Refugiados

no Brasil, acesse o Mapa que mostra de onde são os estrangeiros

com esse status no País. Disponível em: <http://g1.globo.com/

mundo/noticia/2014/04/refugiados-brasil/index.html>. Acesso

em: 01 fev. 2016.

242
unidade 6
Cidadania
Introdução

Você já parou para pensar sobre o significado e o alcance do


conceito de Cidadania na moderna sociedade contemporânea?
Ou sobre as implicações do exercício da Cidadania na sua vida
cotidiana?

Agregue às suas reflexões a seguinte afirmativa: “[...] o primeiro


direito, do qual derivam todos os demais, é o direito de ter direitos”.
(ARENDT, 1978, citada por SOARES, 2011, pg. 178).

Dessa afirmação, pode-se inferir que é por meio da Cidadania que os


indivíduos acessam a ordem jurídica do seu País, viabilizando a sua
participação no processo político-decisório e a fruição dos Direitos
• A Cidadania em
e Garantias Fundamentais dispostos na Carta Constitucional. Perspectiva
• Direitos
A Cidadania representa, pois, um elemento central no estudo da Políticos
Vinculados à
Democracia e dos Direitos Humanos, assuntos retratados nas
Cidadania
unidades 5 e 6.

Vamos abordar, a partir de agora, a trajetória histórico-evolutiva da


Cidadania que, diretamente associada à noção de Povo, teve como
marco a instauração do Estado Moderno, acompanhando a própria
evolução dos princípios democráticos e da doutrina dos Direitos
Humanos.

Ao caracterizarmos a Cidadania, vamos tratar da sua conceituação,


fundamentos, critérios e instrumentos utilizados para a sua
materialização, com foco na discussão dos Direitos Políticos
que dela decorrem, destacando os dispositivos previstos na
Constituição Brasileira.
Não menos importantes são os argumentos apresentados no
tocante às limitações e desafios que se apresentam ao efetivo
exercício da Cidadania no País, condição para que se consolidem
os princípios democráticos e a plena observação dos Direitos
Humanos.

Tenha uma boa leitura!


FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Cidadania em
Perspectiva
Antecendentes
Para tratarmos do tema da Cidadania, torna-se necessária
uma prévia e rápida discussão em torno do conceito de Povo,
componente fundamental do Estado, sem o qual este nem mesmo
poderia existir.

Deve-se compreender como povo o conjunto dos


indivíduos que, através de um momento jurídico, se
unem para constituir o Estado, estabelecendo com
este um vínculo jurídico de caráter permanente,
participando da formação da vontade do Estado e do
exercício do poder soberano. (DALLARI, 1998, p. 39).

Distingue-se dos conceitos usuais de Nação, que reporta à


noção de comunidade, vinculada a sentimentos e características
compartilhadas pelos indivíduos; e de População, que traduz
um aspecto meramente numérico e demográfico, incluindo os
estrangeiros integrados pela via da naturalização, o que lhes permite
usufruir dos direitos políticos próprios dos nativos.

Paradoxalmente, embora o Povo seja uma entidade abstrata, sua


concepção tem conotação jurídica, o que lhe confere concretude.
Dallari (1998) ressalta que essa conotação jurídica representa
uma conquista recente, consolidada a partir do Estado Moderno,
momento em que se firmava a designação de cidadãos para os
seus integrantes.

246
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O autor faz uma interessante narrativa em torno dessa trajetória. Na


Grécia antiga, cidadão era o homem livre que tinha a prerrogativa
de participar das decisões políticas que se processavam nas
Assembleias, indicando a existência de uma casta privilegiada
de indivíduos que dispunham de determinados direitos públicos
juridicamente firmados no âmbito da Polis.

Na Roma antiga o conceito tornou-se mais amplo em relação


a práxis grega, vindo o Povo a ser associado ao próprio Estado
romano. Também ali já se observava uma conotação jurídica, pois
ser cidadão implicava em ter a titularidade de direitos públicos.

Na Idade Média, a noção de Povo apresentou-se menos precisa, em


função do fracionamento peculiar dos Estados, mas foi superada
a visão aristocrática até então prevalecente, abrindo espaço para
a nova concepção que, mais adiante, seria associada ao Estado
Moderno, inspirada nos ideais democráticos.

Ainda que a aristocracia e seus reflexos no campo político não


tenham sido eliminados a partir do Estado Moderno, observou-
se um importante avanço na extensão dos direitos públicos a um
conjunto mais numeroso de representantes do Povo.

A primeira fase do Estado Moderno, caracterizada pela Monarquia


Absolutista, foi marcada pela consolidação do conceito de Povo,
que passou a ser referenciado nos textos constitucionais a partir
do século XVIII, sob a inspiração do Iluminismo. Isso culminou,
pelo menos em teoria, na afirmação jurídica da cidadania, coma
generalização da designação de cidadão.

Dentre os autores que contribuíram para essa afirmação, destaca-


se Jellinek (1900), cuja obra redundou na fixação da noção jurídica
de Povo, disciplinando a participação deste na vida do Estado.

247
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A doutrina de Jellinek, segundo Dallari (1998), distingue um aspecto


subjetivo da noção de Povo, que o retrata como um elemento
componente do Estado em uma relação de coordenação, ou seja,
os indivíduos são considerados “sujeitos de direitos”; e outro
aspecto objetivo, em que o Povo é entendido como objeto do poder
do Estado em uma relação de subordinação, sendo constituído por
“sujeitos de deveres”.

Assim, observa-se que no Estado Moderno, os indivíduos, além de


se submeterem ao poder hegemônico, também podem participar de
sua constituição e exercer funções específicas, situação em que se
apresentam como titulares de direitos públicos subjetivos. Embora
a designação de cidadãos seja extensiva a todos os que participam
da constituição do Estado, há uma categoria especial que possui
a chamada cidadania ativa, exercendo atribuições próprias do
Estado.

Desse vínculo jurídico entre o Estado e o povo, desenvolvido a partir


do Estado Moderno, decorrem três tipos de atitudes por parte do
poder hegemônico:

a. Atitudes negativas, com a imposição de limites à atuação


do Estado, na medida em que a subordinação dos indivíduos
ao poder hegemônico é disciplinada juridicamente;

b. Atitudes positivas, uma vez que o Estado deve agir na


proteção e defesa dos interesses dos indivíduos, com
consonância com o Contrato Social;

c. Atitudes de reconhecimento, pois certos indivíduos podem


agir no interesse do Estado na condição de cidadãos ativos.

248
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A partir dessas considerações, algumas conclusões podem ser


inferidas:

1ª. O povo representa um componente ativo do Estado, com


ele mantendo um permanente vínculo jurídico que atribui
aos indivíduos o status de cidadãos, incorrendo em direitos
e deveres. Nesse sentido, o Povo pode ser caracterizado
como o conjunto dos cidadãos do Estado.

2ª. Por intermédio da vinculação jurídica com o poder


hegemônico, os indivíduos viabilizam a sua participação na
formação da vontade do Estado e no exercício da soberania,
ainda que mediante certas condições e restrições, dadas
por razões de ordem prática. Os indivíduos que atendem
aos requisitos determinados pelo Estado adquirem estes
direitos, obtendo o status de cidadãos ativos.

3ª. O descumprimento dos requisitos exigidos pelo Estado


para o exercício da cidadania ativa implica na sua perda ou
redução, mas mantendo-se intacta a sua cidadania.

4ª. O descumprimento dos requisitos mínimos para a


preservação da cidadania também pode implicar na sua
perda, situação extrema em que o indivíduo é excluído do
Povo no Estado respectivo.

249
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Cidadania Contemporânea
A evolução da noção de cidadania a partir do Estado Moderno é
destacada por Soares (2011), segundo os enfoques do Estado
Liberal, do Estado Social e do Estado Democrático de Direito, que
serão apresentados na sequência.

a. A Cidadania Liberal

A Cidadania Liberal é vinculada ao Estado Liberal, fase que sucedeu


a Monarquia Absolutista. Segundo essa concepção, os indivíduos
são tratados como pessoas formais e privadas, portanto externas
ao Estado cuja atuação é bastante limitada na esfera econômica,
em consonância com os princípios do Liberalismo Econômico.

Segundo a concepção de Jellinek (1954), citado por Soares (2011),


o indivíduo adquire do Estado Liberal o status de cidadão, sendo
este amparado por exigências público-jurídicas subdivididas em
quatro categorias, delimitadas segundo o status crescente de
personalidade do indivíduo:

1º. Status subjectionis (cidadania passiva), onde o indivíduo é uma


figura que se submete ao Estado, não podendo invocar sua
autodeterminação, sendo destituído de personalidade.

2º. Status libertatis (cidadania negativa), onde o indivíduo, gozando


de suas liberdades individuais, é independente do Estado, o qual
não se intromete em determinadas matérias, tendo o seu poder
limitado ao interesse geral.

3º. Status civitatis (cidadania positiva), onde o Estado se obriga a


prestações positivas junto ao indivíduo, visando a defesa dos
seus direitos civis.

4º. Status ativae civitatis (cidadania ativa), onde o indivíduo participa


do poder político, influenciando nas decisões de Estado
mediante o direito de sufrágio e de participação no tribunal de
júri, como jurado.

250
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Em meio a uma sociedade de massas marcada por profunda


desigualdade social e predominância de interesses difusos e
impessoais, o Estado Liberal de Direito implicou, segundo o autor, na
distorção do próprio mecanismo de representação política, movido
por relações pessoais entre representantes e representados.

O resultado foi uma cidadania de contornos restritos, legitimada


pelo sufrágio universal que a prática demonstrou ser ineficiente
como instrumento de sustentação dos direitos mais amplos dos
cidadãos, sobretudo os mais desfavorecidos pelo sistema de
classes sociais.

b. A Cidadania Social

A Cidadania Social caracterizou o Estado Social que sucedeu o


então desgastado Estado Liberal, passando a prevalecer uma noção
comunitarista de cidadania, caracterizada como ativa e pública,
onde os indivíduos se integram em uma comunidade política, em
um contexto de grande intervencionismo estatal.

Os direitos fundamentais tornaram-se parte integrante da


Constituição no Estado Social de Direito, ficando os direitos básicos
dos indivíduos sob a tutela do Estado, classificados como:

1º. Direitos civis, de caráter universal, extensivos a toda a base


social. Correspondem à primeira fase de desenvolvimento da
cidadania, verificada ainda no Estado Liberal, relacionados com
a garantia à vida, liberdade e propriedade.

2º. Direitos políticos, aplicáveis a sistemas eleitorais e políticos e


vinculados ao processo democrático, sendo mais tardios e de
mais difícil universalização.

3º. Direitos sociais, voltados para a garantia de uma renda mínima


e seguridade social às classes trabalhadoras, tendo sido
consolidados sobretudo a partir do final da 2ª. Guerra Mundial.

251
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. A Cidadania no Estado Democrático de Direito

Correspondendo ao atual paradigma da sociedade moderna, a


cidadania no Estado Democrático de Direito é exercida em plenitude
e de forma ativa, traduzindo a capacidade do cidadão de influenciar
efetivamente as decisões do Estado, tendo a prerrogativa de
concretizar sua autodeterminação e de fazer valer as suas
reivindicações, por intermédio da ação política.

Para tanto, é requerido um ambiente efetivamente democrático,


com a instituição de canais de interlocução e intermediação entre
o Estado e a Sociedade Civil, além de mecanismos que viabilizem a
educação e preparação dos indivíduos para a vida política.

A cidadania, nestes moldes, é respaldada por dispositivos


constitucionais, com a legitimação de partidos políticos, eleitorados,
assembleias parlamentares, tribunais e todo o aparato jurídico
indispensável ao funcionamento do processo democrático.

d. A Metacidadania

A Metacidadania está relacionada com o movimento de


constitucionalização do Direito Internacional, como decorrência da
progressiva evolução dos direitos fundamentais do homem.

Nesse contexto, o direito internacional caracteriza-se pelo


pluralismo de ordenamentos jurídicos superiores, mediante valores,
princípios e regras universais expressos em Declarações e Acordos
dos quais as Nações se tornam signatárias. Busca-se a afirmação
do princípio da dignidade humana como elemento central das
Constituições nacionais, que se tornam crescentemente atreladas
às normas internacionais, ainda que a efetiva positivação destas
últimas represente um desafio a ser ainda transposto.

252
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O grande desafio está relacionado com a coexistência harmônica


entre planos constitucionais diversos, tendo como base comum às
Nações uma constituição supranacional traduzida por exigências
específicas, incluindo aquelas vinculadas aos direitos fundamentais
do homem.

Como pano de fundo, está o conceito de soberania compartilhada,


segundo a qual os Estados signatários dos acordos internacionais
não abrem mão de suas respectivas soberanias, que passam
a ser exercidas de forma compartilhada no tocante a matérias
especificamente acordadas.

Essa é a problemática com que se defronta a doutrina do Direito


Comunitário, um novo e contemporâneo enfoque que não se
confunde com o tradicional Direito Internacional, tendo surgido
em razão das novas realidades impostas pela União Europeia,
envolvendo matérias afetas tanto ao direito público quanto ao
direito privado.

Trata-se de um paradigma bastante recente no âmbito do Direito,


constituindo um grande desafio (e também um importante
aprendizado) para a ciência jurídica, fundamental para a
consolidação da terceira fase evolutiva dos Direitos Humanos,
relacionada com a sua universalização.

Somente assim, os indivíduos poderão realmente desfrutar da sua


condição de sujeitos do direito internacional, em posição de exigir
justiça contra o Estado, tanto no cenário interno, como em uma
instância superior no plano externo.

253
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Caracterização da Cidadania
Diante do que foi até aqui exposto, pode-se caracterizar a Cidadania
por intermédio das seguintes afirmações, cujos conteúdos se
complementam:

[...] um conjunto de direitos que dá à pessoa a


possibilidade de participar ativamente da vida e do
governo de seu povo. Quem não tem cidadania está
marginalizado ou excluído da vida social e da tomada
de decisões, ficando numa posição de inferioridade
dentro do grupo social. (DALLARI, 1998, pg.14).

[...] a cidadania consiste, pois, no conteúdo de pertencer


de forma igualitária a uma determinada comunidade
política, devendo ser medida pelas instituições e pelos
direitos e deveres que a configuram; logo, a cidadania
Segundo o Direito
é monolítica, constituída por diferentes tipos de
direitos e instituições, e produto das histórias sociais brasileiro, Cidadão é
diferenciadas protagonizadas por distintos grupos o indivíduo titular dos
sociais”. (SOARES, 2011, pg. 183). direitos políticos de
votar e ser votado.
Segundo o Direito brasileiro, Cidadão é o indivíduo titular dos
direitos políticos de votar e ser votado. A Cidadania é adquirida
por intermédio do alistamento eleitoral, realizado por iniciativa dos
próprios indivíduos, que, por esse meio, tornam-se qualificados
como eleitores perante a Justiça Eleitoral. Assim, observa-se que:

[...] a cidadania se adquire com a obtenção da qualidade


de eleitor, que documentalmente se manifesta na posse
do título de eleitor válido. O eleitor é cidadão, é titular da
cidadania, embora nem sempre possa exercer todos os
direitos políticos. (SILVA, 2005, p.347).

Segundo as regras brasileiras, o alistamento é obrigatório para


maiores de 18 anos e facultativo para os analfabetos, maiores de
70 anos e também para os jovens maiores de 16 e menores de 18
anos.

254
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Mascarenhas (2015) reforça que a cidadania, caracterizada como


um atributo do indivíduo que possui direitos políticos e civis, pode
ser ativa, no tocante à capacidade de ser eleitor; ou passiva, quando
vinculada à capacidade de ser eleito. Assim, observa-se que todo
cidadão passivo é também ativo, mas nem todo cidadão ativo é
passivo.

Soares (2011), por sua vez, complementa que aos direitos políticos
e civis seguem-se os direitos econômicos, sociais e culturais, que
são decorrentes dos primeiros, conferindo uma visão mais ampla
ao conceito de Cidadania.

Você deve estar se perguntando, a essa altura: qual é a diferença


entre Direitos Humanos e Direitos de Cidadania?

Você já sabe, dos estudos realizados na Unidade 6, que os Direitos


Humanos estão vinculados aos direitos naturais dos homens,
sendo abstratos e universais, existentes desde os primórdios da
humanidade, independentemente da sua positivação jurídica.
Quando essa ocorre, no âmbito das Constituições nacionais,
adquirem o status de Direitos e Garantias Fundamentais.

O pleno exercício dos direitos fundamentais dos homens, em determinado

espaço público, é garantido mediante o acesso à ordem jurídico-política,

conferido aos indivíduos pela Cidadania.

A Cidadania, estando vinculada à ordem constitucional, não


traduz valores universais, reportando-se a decisões de cunho
eminentemente político, sujeitando-se às deliberações no âmbito
dos Estados.

255
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Benevides [200?] exemplifica com precisão a distinção entre Direitos


Humanos e Direitos de Cidadania:

[...] uma criança não é cidadã, no sentido de que ela não


tem certos direitos do adulto, responsável pelos seus
atos, nem tem deveres em relação ao Estado, nem em
relação aos outros; no entanto, ela tem integralmente
o conjunto dos Direitos Humanos. Um doente mental
não é um cidadão pleno, no sentido de que ele não é
responsável pelos seus aos, portanto ele não pode
ter direitos, como, por ex., o direito ao voto, o direito à
plena propriedade e muito menos os deveres, mas ele
continua integralmente credor dos Direitos Humanos.
[...]. (BENEVIDES, [200?], p. 5-6).

A garantia e extensão da Cidadania a todos os indivíduos aptos


a usufruí-la representa questão da maior importância para a
efetivação dos Direitos Humanos no Estado Democrático de Direito,
permitindo o avanço da sociedade da mera retórica à prática.

É também fundamental especificar que o conceito de Cidadania não

se confunde com o conceito de Nacionalidade. Segundo Silva (2005),

Cidadania diz respeito a um status vinculado ao regime político; enquanto

Nacionalidade traduz um vínculo ao território estatal estabelecido

por nascimento ou processo de naturalização sendo, por sua vez, um

pressuposto para a cidadania.

Observa-se que, do ponto de vista sociológico, a nacionalidade


expressa a pertinência de um dado indivíduo a uma Nação; mas
do ponto de vista jurídico, ela traduz o vínculo jurídico-político do
indivíduo com o Estado, dado pelo Direito Público Interno. Isso
atribui um caráter de dubiedade à caracterização de Nacionalidade,
que será discutida a seguir.

256
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Direitos de Nacionalidade

As regras ou Direitos de Nacionalidade são matéria constitucional,


sendo essenciais para a configuração da cidadania. À luz do Direito
Constitucional brasileiro, os termos Nacionalidade e Cidadanias
e distinguem da seguinte forma: nacional é o brasileiro nato
ou naturalizado, vinculado ao território brasileiro; o cidadão é o
nacional no gozo dos direitos políticos e participante da vida do
Estado. Assim, ficam configurados três personagens:

• O nacional, detentor da nacionalidade brasileira, seja ele


nato (nacionalidade involuntária, primária ou originária)
ou naturalizado (nacionalidade voluntária, secundária ou
adquirida);

• O cidadão, detentor do direito de cidadania, que para ser


considerado como tal, precisa ter a nacionalidade brasileira, As regras ou Direitos
primária ou secundária; de Nacionalidade
são matéria
• O estrangeiro, objeto de constituição jurídica distinta e constitucional, sendo
específica, mas igualmente detentor de direitos no território essenciais para a
configuração da
nacional, recebendo a proteção do Estado pelo simples fato
cidadania.
de pertencer à “categoria humana”.

A aquisição involuntária dos Direitos de Nacionalidade se dá


segundo dois critérios, a inteiro juízo dos Estados, segundo os seus
dispositivos legais:

a. Origem sanguínea: derivada da descendência de nacionais,


tipicamente adotada por Países de emigração com o
propósito de manutenção do vínculo com os descendentes
dos seus nacionais que se ausentam, temporária ou
definitivamente;

b. Origem territorial: atribuída a quem nasce no respectivo


território, tipicamente adotada por Países de imigração,
com o claro intuito de fixação de imigrantes em território
nacional, nacionalizando-se os seus descendentes.

257
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A aquisição voluntária dos Direitos de Nacionalidade, por sua vez,


também se opera mediante dois critérios:

a. Vontade manifestada pelo indivíduo: à luz de determinadas


alternativas conferidas pelo Estado de concessão;

b. Vontade do Estado: mediante outorga, espontaneamente


ou a pedido. No Brasil, se processa nas situações de
residência no País há mais de 15 anos, radicação precoce
ou conclusão de curso superior.

Masson (2013) destaca os casos dos indivíduos apátridas e


polipátridas. Os apátridas são os desprovidos de Pátria, não
possuindo vínculo com nenhum Estado em particular, em razão
de um conflito negativo de nacionalidade: é o caso típico de
incompatibilidade entre os critérios de aquisição involuntária de
nacionalidade.

Os polipátridas são os que se enquadram em critérios de


nacionalidade de mais de um Estado, em razão de conflito positivo
que resulta em dupla nacionalidade, ou por terem adquirido
uma segunda nacionalidade de forma voluntária, sem perder a
nacionalidade originária.

É importante destacar que, segundo estabelece a Constituição brasileira

(§ 2º do Capítulo III – Da Nacionalidade), “A lei não poderá estabelecer

distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos previstos

nesta Constituição”. (Constituição Federal, 1988, Art. 12).

258
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, observa-se que são admitidas algumas exceções taxativas


ao princípio da igualdade entre brasileiros natos e naturalizados:

• São privativos de brasileiros natos, os cargos de Presidente


e Vice-Presidente da República, Presidentes da Câmara
dos Deputados e do Senado Federal, Ministro do Supremo
Tribunal Federal, de carreira diplomática, de oficial das
Forças Armadas e de Ministro de Estado da Defesa. Isso
por comporem a linha sucessória presidencial ou por
razões de segurança nacional.

• São reservados apenas a brasileiros natos, seis assentos


no Conselho da República, órgão auxiliar da Presidência da
República em momentos de crise institucional. No entanto,
os naturalizados poderão integrar tal Conselho desde
que se apresentem como líderes da maioria ou minoria
da Câmara de Deputados ou Senado Federal, ou mesmo
como Ministro da Justiça, cargos para os quais não há
impedimento legal.

• O brasileiro nato não pode ser extraditado de forma


nenhuma. O naturalizado, por sua vez, pode ser extraditado
a qualquer tempo, caso tenha praticado crime comum antes
da naturalização, ou se for comprovada a participação em
tráfico ilícito de drogas.

• A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão


sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos.
Para os naturalizados, a propriedade requer mais de 10
anos de naturalização.

259
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Por fim, há que se ressaltar a possibilidade de perda da nacionalidade


brasileira, mediante duas situações específicas:

• Perda-punição: aplicável a brasileiros naturalizados por


sentença judicial, em razão de atividade nociva ao interesse
nacional, perda essa que não é extensiva ao cônjuge e
dependentes;

• Perda-mudança: imputável a brasileiros natos e


naturalizados, quando o indivíduo adquirir outra
nacionalidade de forma voluntária, excetuando-se os casos
em que ela decorrer de recebimento de nacionalidade
de origem primária, ou for fruto de imposição de Estado
estrangeiro onde o brasileiro resida.

Os Desafios da Cidadania no Estado Democrático de Direito

Discutimos, na Unidade 5, os desafios que se apresentam à


Democracia no Estado Democrático de Direito, vinculados às
limitações inerentes ao modelo de Democracia Representativa.

Vamos tratar, agora, desses mesmos desafios sob a perspectiva da


Cidadania - elemento central para o exercício da Democracia -, em
face do cenário de profundas desigualdades sociais que persistem
no País, paralelamente à crescente e complexa demanda por
direitos.

É notório o descompasso observado entre os Direitos Fundamentais


expressos na Carta Constitucional de 1988, por um lado, e as
garantias efetivas em torno da liberdade positiva, igualdade social
e solidariedade que sustentam o Estado Democrático de Direito, por
outro.

Os indivíduos, mal atendidos em suas necessidades sociais


básicas e desprovidos de visão crítica e consciência em torno dos
seus próprios direitos, são encarados como sujeitos passivos e
submetidos ao poder hegemônico.

260
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Isso se traduz em distanciamento cada vez maior entre o cidadão e


o Estado.

O resultado é a própria limitação do exercício da Cidadania, sendo


importante ressaltar que:

O exercício da cidadania é antes de tudo uma forma de


exercício de democracia, pelo menos em tese não há
Estado democrático sem cidadãos livres e conscientes
na sua forma de ação, assim não há como conviver
num Estado com cidadãos alienados seja por uma
educação deficitária, seja pela influência dos efeitos
decorrentes da globalização, seja pela exclusão
social de grupos minoritários dentro da sociedade.
(CARVALHO, 2008, p.60).

Assim, a sobrevivência do Estado Democrático de Direito vincula-


se à revisão do modelo de distribuição e proteção dos direitos
fundamentais dos indivíduos, garantindo a dignidade da sua
existência e a sua capacidade de integrar de forma proativa o
processo político-decisório do País.

O ambiente local, onde estão plantadas as estruturas básicas do


cidadão vinculadas à escola, igreja, associações e outras formas
organizativas, constitui o espaço ideal para o desenvolvimento
da cidadania ativa, viabilizando a participação efetiva dos atores
sociais, com a clara manifestação e contraposição das suas
vontades, preferências e necessidades. Os instrumentos vinculados
aos modelos alternativos de Democracia, retratados na Unidade 5
(Democracia Participativa, Democracia Associativa e Democracia
Deliberativa) apontam nessa direção.

Mas também é importante, no contexto da chamada metacidadania,


a consideração do ambiente maior que representa a comunidade
mundial, onde o cidadão nacional afirma-se como um sujeito do
direito internacional. Não há mais limites territoriais ao exercício
da Cidadania, podendo o indivíduo pertencer a vários espaços
locais simultaneamente, os quais se encontram inexoravelmente
interligados.

261
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Assim, as abordagens local e global se complementam e


interconectam, em um contexto de respeito às diversidades e
à pluralidade de interesses, envolvendo as classes dominantes,
classes periféricas, instituições sociais e o Estado.

Direitos Políticos
Vinculados à Cidadania
A Constituição brasileira, em seu Título I – Dos Princípios
Fundamentais – Art. 1º, ao especificar que a República Federativa
do Brasil é um Estado Democrático de Direito, aponta a cidadania
como um dos seus cinco fundamentos, ao lado da soberania, da
dignidade da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho e a
livre iniciativa, além do pluralismo político.

A Carta Constitucional também afirma, no Parágrafo Único do


Título I, que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente.

De tais dispositivos decorrem os Direitos Políticos retratados no


Título II – Capítulo IV – art. 14 a 16, que têm como base o pleno
exercício da cidadania obtida por intermédio do alistamento
eleitoral. Esses direitos conferem aos indivíduos a prerrogativa de
participação na vida política e, portanto, nas decisões do Estado.

Silva (2005) aponta que os Direitos Políticos traduzem um


conjunto de normas que regulam a atuação da soberania popular,
representando um desdobramento do princípio constitucional da
democracia brasileira.

262
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Masson (2013) reforça o argumento, caracterizando os Direitos


Políticos como:

[...] expressão que traduz o conjunto de normas legais


permanentes que regulamenta o direito democrático de
participação do povo no Governo, diretamente ou por
seus representantes. Os direitos políticos consistem,
pois, na disciplina dos meios necessários ao exercício
da soberania popular. (MASSON, 2013, pg. 285).

Daí decorre que:

[...] cidadão é o indivíduo que preserva a titularidade


dos seus direitos políticos e de outros direitos que são
derivados destes. É por meio do alistamento eleitoral
que o indivíduo adquire sua cidadania e, ao adquiri-la,
poderá exercer a soberania popular por intermédio do
direito ao sufrágio, pelo voto, por meio do referendo,
iniciativa popular, ação popular e organização e
participação em partidos políticos. (MASSON, 2013,
pg. 324).

Silva (2005) ressalta que a dimensão eleitoral constitui o núcleo


dos Direitos Políticos, mas essa delimitação é bastante restritiva,
na medida em que ignora o papel e as regras de funcionamento
dos Partidos Políticos - instrumentos primordiais de representação
política na democracia brasileira -, retratados em separado no Título
II - Capítulo V da Constituição Federal.

263
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Enquanto expressão do direito de votar e ser votado, os Direitos


Políticos podem ser classificados segundo a modalidade do seu
exercício, conforme aponta Silva (2005), subdividindo-se em:

a. Direitos Políticos Ativos: dizem respeito à capacidade


eleitoral ativa dos indivíduos no tocante às condições
do “direito de votar”, ou seja, tratam do eleitor e da sua
atividade como tal;

b. Direitos Políticos Passivos: dizem respeito à capacidade


eleitoral passiva dos indivíduos no tocante às condições do
“direito de ser votado”, ou seja, tratam dos elegíveis e dos
eleitos.

Os Direitos Políticos também podem ser classificados como


Positivos ou Negativos. Os primeiros referem-se às normas que
regulam a participação dos indivíduos no processo eleitoral, sob
o ponto de vista tanto do eleitor quanto do elegível, vinculando-
se à capacidade eleitoral ativa e passiva; os segundos retratam
as normas que impedem a atuação no processo político eleitoral,
focando-se nas inelegibilidades.

Você vai acompanhar, na sequência, os principais pontos


apresentados por Masson (2013) no tocante aos Direitos Políticos
Positivos e aos Direitos Políticos Negativos.

264
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Direitos Políticos Positivos


Os Direitos Políticos Positivos traduzem normas relacionadas com
a participação do cidadão na vida pública estatal, no tocante ao
direito de votar (ativo) e de ser votado (passivo). Tal liberdade se
aplica por intermédio dos seguintes instrumentos:

a. Soberania popular

É exercida pelo sufrágio universal, além de mecanismos como a


ação popular, plebiscitos e referendos, e a iniciativa popular para
projetos de lei.

A soberania tem como características básicas, o fato de ser una,


ou seja, representa o único poder soberano no Estado; indivisível,
na medida em que não pode ser fracionada, como ocorre com as
funções dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; inalienável,
dado que é intransferível; e imprescritível, já que perene.

b. Direito de sufrágio

Constitui a essência dos direitos políticos, e suas principais


características você já conhece desde a Unidade 5 do Livro da
Disciplina, quando tratamos da Democracia Representativa. Vale
acrescentar que o sufrágio não se confunde com o voto, que nada
mais é que a forma de instrumentalização do direito de sufrágio.

c. Direito de voto e escrutínio

As principais características do voto, segundo expressa a


Constituição Federal de 1988, não podem ser reduzidas ou abolidas,
representando cláusulas pétreas. Neste sentido, o voto é direto
(os governantes são eleitos diretamente pelos cidadãos); secreto
(realizado em cabine privativa); periódico (para permitir um rodízio
democrático); e universal (todos os cidadãos têm o direito e o dever
do voto).

265
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Outras características não representam cláusulas pétreas, ou seja,


podem ser alteradas por Emenda Constitucional. São elas: o voto é
obrigatório (há que se certificar a presença e a marcação de cédula
eleitoral); personalíssimo (sendo proibido o voto por procuração
ou correspondência); e livre (o eleitor é livre para votar em quem
desejar).

d. Ação popular e Iniciativa popular

Ambas representam instrumentos de manifestação da soberania


popular, vinculadas ao modelo de Democracia Semidireta, que você
conheceu também na Unidade 5. O primeiro está relacionado com
a tutela do patrimônio público (material e imaterial), mediante a
solicitação de reparação de ato lesivo cometido contra o Estado.

O segundo representa uma via para a apresentação de projeto de lei


de origem popular ao Legislativo – seja na esfera federal, estadual
ou municipal –, a quem cabe discutir e legislar em torno do tema
proposto, sendo necessária a subscrição de um número mínimo do
eleitorado.

e. Plebiscito e Referendo

Também vinculados ao modelo de Democracia Semidireta, ambos


representam mecanismos de consulta popular em torno de
questões de natureza constitucional, legislativa ou administrativa,
autorizados mediante decreto legislativo, que então notifica a
Justiça Eleitoral para as providências necessárias.

O plebiscito ocorre antes do ato legislativo ou administrativo, de


modo a orientar a estruturação do mesmo; já o referendo ocorre no
momento posterior ao ato legislativo, com o objetivo de ratificar ou
rejeitar a proposta apresentada pelo Poder Público.

266
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

f. Alistabilidade ou capacidade eleitoral ativa

Se você é um eleitor, já sabe que para exercer o direito de votar são


requeridas algumas condições. O primeiro aspecto é o alistamento
junto à Justiça Eleitoral para obtenção do Título de Eleitor.

Um segundo ponto é que o voto é restrito aos cidadãos brasileiros


(natos e naturalizados), exceção concedida aos portugueses com
residência permanente no Brasil, os quais detêm a condição de
“quase nacionalidade”, mediante o requerimento de equiparação de
direitos. Também os militares em cumprimento do serviço militar
obrigatório, denominados “conscritos”, não podem se alistar na
Justiça eleitoral.

g. Elegibilidade ou capacidade eleitoral passiva

Refere-se ao direito do cidadão de se eleger para ocupar um


cargo eletivo, sendo também exigidas uma série de condições,
relacionadas com: ser de nacionalidade brasileira; estar no pleno
exercício dos direitos políticos, sem qualquer impedimento legal;
estar devidamente alistado como eleitor na Justiça Eleitoral; estar
domiciliado no local pelo qual se candidata, o que é comprovado
mediante vínculo patrimonial, afetivo, profissional, comercial ou
funcional; ter idade mínima (variável conforme o cargo); e ter filiação
partidária há pelo menos um ano, não sendo admitida candidatura
avulsa, à exceção de militares que, não podendo se filiar, podem
requerer simples registro de candidatura após validação em
convenção partidária.

Os Direitos políticos negativos


Os Direitos Políticos Negativos referem-se às normas impeditivas
de participação no processo político e também nos órgãos
governamentais, traduzidas pela inelegibilidade (perda da
capacidade eleitoral passiva) e pela perda ou suspensão dos
direitos políticos (perda da capacidade eleitoral ativa e passiva).

267
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que a cassação dos direitos políticos por perseguição


ideológica, típica do período da ditadura, é vedada pela Constituição
de 1988.

a. Inelegibilidade

Nesse caso, o cidadão se vê suprimido do direito de ser eleito para


qualquer função eletiva, podendo a inelegibilidade ser classificada
segundo dois critérios:

• Origem: podem ser inelegibilidades cominadas, quando


decorrentes de ações proibidas pelo ordenamento jurídico;
ou inelegibilidades inatas, quando desvinculadas da
conduta específica do cidadão.

• Duração da supressão: podem ser inelegibilidades


permanentes, caso em que se configura a perda dos
direitos políticos; ou inelegibilidades temporárias, quando
vinculadas a aspectos circunstanciais e transitórios.

268
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Quanto à sua natureza, as inelegibilidades podem ser de dois tipos:

• Absolutas: impedimento de candidatura a qualquer cargo


público, persistindo até o encerramento da causa que o
originou, sendo aplicável aos estrangeiros, conscritos e
analfabetos.

• Relativas: impedimento de candidatura a determinados


cargos públicos, em razão de motivos funcionais, tais
como a segunda reeleição consecutiva de Presidente
da República, Governadores e Prefeitos; e o pleito a um
outro cargo de forma concomitante, sendo necessária a
desincompatibilização com seis meses de antecedência,
exceção concedida ao Chefe do Executivo, que não precisa
renunciar ao seu mandato para concorrer à reeleição;
motivos de casamento, parentesco ou afinidade, incidente
sob os cônjuges e parentes do Chefe do Executivo;
condição militar, ficando estabelecido o afastamento do
militar da atividade se tiver menos de dez anos de serviço,
ou a sua inatividade, se tiver mais de dez anos de serviço;
e previsões em Lei Complementar, que poderá dispor sobre
outros casos de inelegibilidade relativa.

b. Perda de direitos políticos

Traduz a retirada definitiva e permanente dos direitos políticos,


mediante o cancelamento da naturalização do indivíduo em razão
de uma ação nociva cometida contra o interesse nacional. O
brasileiro, nato ou naturalizado, poderá perder os direitos políticos
também em razão da obtenção voluntária de outra nacionalidade
fora dos casos excepcionados pela Constituição.

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unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. Suspensão dos direitos políticos

Implica em perda apenas temporária dos direitos políticos, em


face de incapacitação civil absoluta; de condenação criminal com
trânsito em julgado; de recusa do cumprimento de uma obrigação
de imposição geral ou prestação alternativa; de condenação por
improbidade administrativa.

Por fim, destaca-se a possibilidade, conferida pela Constituição


Federal, da ação de impugnação de mandato eletivo, em função da
ocorrência de fraude, corrupção ou abuso do poder econômico.

Outro aspecto de suma importância, relacionada com o processo


eleitoral, diz respeito ao princípio da anterioridade, que é uma
cláusula pétrea, segundo o qual a lei somente poderá ser aplicada
às eleições após um ano da sua vigência. O propósito da lei é
proporcionar segurança jurídica, evitando que o casuísmo possa
deturpar o processo eleitoral em curso.

Os Direitos Políticos, somando-se aos outros importantes Direitos


e Garantias Fundamentais detalhados na Unidade 6 (Individuais
e Coletivos, além dos Sociais), preconizados pelo Direito
Constitucional, constituem um referencial da maior importância
para o exercício da cidadania, aplicando-se a todos os campos da
vida social.

270
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os Partidos Políticos
Ao se tratar dos Direitos Políticos, há que se mencionar o
dispositivo constitucional previsto no Art. 17 do Título II - Capítulo
V da Constituição Federal, relacionado com os Partidos Políticos,
definidos como:

[...] agrupamentos voluntários de indivíduos que


comungam de semelhantes pontos de vista políticos e
pretendem fazer prevalecer suas ideias para conquistar
o poder, ou ao menos inspirar as decisões políticas.
(MASSON, 2013).

Os Partidos Políticos, na visão de Silva (2005), deveriam ser


enquadrados como uma categoria de Direitos Políticos Positivos,
embora a Constituição não os reconheça como tal.

Já tendo sido retratados na Unidade 5, os Partidos Políticos


são caracterizados como pessoas jurídicas de Direito Privado,
gozando de autonomia em relação ao Poder Público. Constituem
um mecanismo de manifestação da soberania popular, mediante a
assimilação das vontades e preferências populares, representando
a âncora do regime democrático representativo.

Algumas características importantes dos Partidos Políticos devem


ser ressaltadas, segundo aponta Bonavides (2000):

• São um instrumento de intermediação entre o cidadão e o


Estado;

• Têm uma visão global, de interesse geral, apresentando


programas formais e de conhecimento público;

• Buscam interferir nas decisões de Governo em prol das


suas respectivas representações;

• Têm caráter permanente, visando à conquista do poder


hegemônico.

271
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

No entanto, o que se observa na prática é uma grande debilidade


do sistema político-partidário, configurando uma crise de
representação política não apenas no Brasil, mas também em
nível mundial, o que fragiliza o exercício da Cidadania e a própria
Democracia.

Um dos aspectos que traduzem essa debilidade diz respeito


às altas e históricas taxas de alienação e volatilidade eleitoral,
resultado da descrença e desconfiança dos cidadãos em relação à
eficácia e à integridade do processo político. O resultado é a cisão
entre os representantes políticos e seus representados, levando
ao afastamento dos cidadãos da vida política da qual deveriam
participar ativamente.

Observa-se que, no Brasil, a atuação dos Partidos Políticos como


instrumentos de representação política vem sendo duramente
criticada, sendo apontada como ineficaz em razão de variados
fatores, notadamente a cultura política do País e aspectos de
natureza institucional, tais como o sistema eleitoral proporcional,
lista aberta de candidatos, dentre outros aspectos.

Avaliações recentes apontam que um dos maiores desafios que


se colocam à estrutura político-partidária do País, na atualidade,
diz respeito à sua excessiva fragmentação, o que impacta
negativamente a governabilidade dada a dificuldade de formação de
consensos, em que pesem as coligações e alianças estabelecidas
com os Governos.

Via de regra, os Partidos Políticos brasileiros têm se revelado


inconsistentes do ponto de vista ideológico, resultando em pouca
ou nenhuma identificação com os eleitores, tornando o processo
político cada vez mais personalista.

272
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

No tocante à questão primordial da Cidadania, há que se discutir


o papel dos indivíduos que elegem, via sufrágio, os representantes
que deverão exercer transitoriamente o poder em seu nome,
deliberando sobre as questões públicas de interesse da sociedade.

Segundo Carneiro e Moisés (2014), os cidadãos usualmente guiam


as suas escolhas eleitorais pela mídia e segundo as estratégias
dos Partidos Políticos e respectivos candidatos. Questiona-se,
a partir dos métodos empregados, a legitimidade de tais atores
enquanto representantes dos diversificados e complexos interesses
e demandas da sociedade civil brasileira, que não consegue se
manifestar em sua amplitude e de forma adequada.

A crise de representação política em torno dos Partidos Políticos,


observada em nível mundial, induz a análise em torno de
formas alternativas a tais institutos. De fato, ao longo do tempo,
foram desenvolvidos outros formatos com feições singulares,
preconizando uma ligação mais direta entre representantes e
representados, além de maior autenticidade e espontaneidade do
processo.

São eles a Representação Profissional, a Representação Corporativa


e a Representação Institucional. Entenda, a seguir, as principais
características de cada um dos modelos.

a. Representação Profissional: tem origem ainda no século


XIX, com os movimentos sociais do proletariado que, ao
unir suas forças, aumentava as chances de sucesso nas
demandas sociais, dando origem ao movimento sindical.
O sindicalismo desdobrou-se em duas vertentes, uma
revolucionária, de natureza radical e imediatista, e outra
reformista, mais receptiva à negociação e à melhoria
progressiva das condições de trabalho.

273
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Já no início do século XX, consolidou-se a liberdade de


associação profissional, amparada por poder normativo.
No entanto, uma série de dificuldades relacionadas com
a delimitação clara dos interesses profissionais (que por
vezes se confundem com os direitos sociais mais amplos
de responsabilidade do Estado), além da grande diversidade
de profissões, dentre outros, contribuíram para que o
sistema não prosperasse como meio de representação
política.

b. Representação Corporativa: também produto do século


XX, foi concebida em oposição à representação política,
realçando a distinção entre as diversas categorias de
indivíduos (ou corporações) que, sendo formadas de forma
natural e espontânea, exercem funções bem específicas na
sociedade. Não se restringem ao campo econômico (como
no caso das representações profissionais), podendo ser de
natureza social e cultural, a exemplo da igreja, do exército,
da magistratura, dentre outras.

No entanto, o modelo acabou revelando-se antidemocrático,


na medida em que prevê a possibilidade de disciplinamento
por parte do Estado, tirando o seu caráter de naturalidade
e espontaneidade. O resultado foi o seu desuso crescente
como instrumento de representação política.

274
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

c. Representação Institucional: diz respeito a ideias e


interesses que, materializando-se no meio social e
contando com um expressivo número de adeptos, acabam
se transformando em instituições, sejam elas de natureza
política, profissional ou corporativa.

Visualize então essas instituições, organizadas como um


órgão governamental de abrangência local, com poder
executivo e legislativo, atuando de forma normativa. A
reunião dessas instituições locais, em nível regional, dá
origem às instituições regionais, geridas por representantes
eleitos, e assim sucessivamente, até o nível de instituições
de interesse nacional, com seus respectivos representantes.
Este formato configura um governo de três níveis, havendo
a flexibilidade para a incorporação de novas instituições
ao sistema sempre que necessário, em função da própria
dinâmica social.

Nenhum dos três modelos ganhou expressão, restringindo-se


a experiências isoladas ou temporais, permanecendo o Partido
Político como o principal sistema de representação adotado nos
países democráticos.

Leia atentamente o texto jornalístico a seguir indicado, relacionado com

a aplicação prática dos conceitos de Cidadania pela sociedade civil em

parceria com o Poder Público: “Projeto treina moradores de rua para

serem pesquisadores da vida sem teto”.

Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/09/

projeto-treina-moradores-de-rua-como-pesquisadores-da-vida-sem-

teto-3417.html. Acesso em: 17 fev. 2016.

275
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Reflita sobre as seguintes questões:

• Quais são os aspetos que qualificam o Projeto abordado como

uma ação de Cidadania?

• Quais são os elementos psicossociais que caracterizam a

ambiência retratada pela reportagem, e como eles afetam o

exercício da Cidadania e da Democracia no País?

Revisão
Reveja os principais pontos tratados nesta Unidade, relacionados
com a questão da Cidadania e dos Direitos Políticos a ela
associados.

• O tema da Cidadania está vinculado ao conceito de Povo,


que se distingue dos conceitos usuais de Nação, que
reporta à noção de comunidade, e de População, que traduz
um aspecto meramente numérico e demográfico.

• Foi apenas no Estado Moderno que se deu a consolidação


do conceito de Povo (destacado nos textos constitucionais
a partir do século XVIII, sob o impulso do Iluminismo).
Embora o Povo seja uma entidade abstrata, sua concepção
tem conotação jurídica, o que lhe confere concretude. Daí
seguiu-se a generalização da designação de cidadão,
culminando na afirmação da cidadania em termos jurídicos.

• O conceito de Povo incorpora duas dimensões: uma


subjetiva, em que os indivíduos se vinculam ao Estado
em uma relação de coordenação (“sujeitos de direitos”); e
outra objetiva, em que os indivíduos se vinculam ao Estado
em uma relação de subordinação (“sujeitos de deveres”).

276
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• A designação de cidadãos é extensiva a todos indivíduos


que integram o Povo, em relação jurídica com o Estado.
Mas há uma categoria especial de indivíduos que possui a
chamada cidadania ativa, exercendo atribuições próprias
do Estado.

• Segundo o Direito brasileiro, Cidadão é o indivíduo titular


dos direitos políticos de votar e ser votado. Os Direitos
de Cidadania são adquiridos via alistamento eleitoral, de
iniciativa dos próprios indivíduos.

• Os Direitos de Nacionalidade são essenciais para a


configuração da cidadania. No Direito Constitucional
brasileiro, os termos Nacionalidade e Cidadanias
distinguem-se da seguinte forma: nacional é o brasileiro
nato ou naturalizado, vinculado ao território brasileiro;
cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos e
participante da vida do Estado.

• A sobrevivência do Estado Democrático de Direito vincula-


se à revisão do modelo de distribuição e proteção dos
direitos fundamentais dos indivíduos, garantindo a
dignidade da sua existência e a sua capacidade de integrar
de forma proativa o processo político-decisório do País, o
que se viabiliza por intermédio da Cidadania.

• Os Direitos Políticos traduzem um conjunto de normas que


regulam a atuação da soberania popular, representando um
desdobramento do princípio constitucional da democracia
brasileira. São eles que conferem aos cidadãos a
prerrogativa de votar e de ser votado, ou seja, da Cidadania.

277
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Os Direitos Políticos podem ser classificados como


Positivos (normas que regulam a participação no processo
eleitoral, no tocante à capacidade eleitoral ativa e passiva);
ou Negativos (normas que impedem a atuação no processo
político eleitoral, focadas nas inelegibilidades).

• Os Partidos Políticos deveriam ser enquadrados como


uma categoria de Direitos Políticos Positivos, embora
a Constituição não os reconheça como tal. Eles estão
no centro de uma grave crise mundial de representação
política, inerente ao modelo de Democracia Representativa.

• Para saber mais sobre os seus Direitos de Cidadania, consulte

o site do Instituto Millenium. Disponível em: <http://www.

institutomillenium.org.br/pagina-da-cidadania/>. Acesso em: 17

fev. 2016.

• Consulte também o site e-cidadania do Senado Federal. Disponível

em: <http://www12.senado.gov.br/ecidadania/principalideia>.

Acesso em: 17fev. 2016.

• Para saber mais sobre a evolução histórica da Cidadania no

Brasil, leia o livro de José Murilo de Carvalho, intitulado Cidadania

no Brasil – O longo caminho, da Editora Civilização Brasileira,

2008.

278
unidade 7
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

279
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Cidadania e
Desigualdade
Social

Introdução

A globalização, fenômeno que vem reconfigurando a sociedade


contemporânea desde o final do século XX, trouxe fortes implicações
sobre a dinâmica social e cultural dos Estados nacionais, sobretudo
no tocante aos chamados “países periféricos”.

• Etnia, Gênero
O resultado tem sido o aguçamento das desigualdades entre as e Performances
nações e internamente em cada país em paralelo a um processo de Identitárias
fragmentação cultural: • Cidadania
e Direitos
Um tipo diferente de mudança estrutural está Humanos no
transformando as paisagens culturais, está
Brasil
transformando as sociedades modernas no final do
século XX e início do século XXI. Isso está fragmentando
as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade,
etnia, raça e nacionalidade, que no passado nos haviam
fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais.
Estas transformações estão também alterando nossas
identidades pessoais, abalando a ideia que temos de
nós próprios como sujeitos integrados (HALL, 1997
citado por SPAREMBERGER; COLAÇO, 2008, p. 721).

A perda das identidades culturais e consequentes contradições vêm


suscitando fortes reações para a sua superação e reconfiguração, em
um processo de articulação permanente entre o “global” e o “local”.

Neste contexto, grupos sociais historicamente marginalizados


frente ao progresso socioeconômico e político, seja do ponto de

280
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

vista da etnia, gênero, raça, religião ou qualquer outra circunstância,


lutam cada vez mais pela afirmação das suas identidades, ou do
seu “direito de existência” no âmbito da sociedade.

Esses grupos sociais, designados como “minorias”, são


usualmente desprovidos de voz ou representação na sociedade.
Sua classificação não é tarefa trivial, considerando os aspectos
objetivos vinculados à sua delimitação, e também face às
implicações sociopolíticas do seu reconhecimento, incluindo a
especificação dos mecanismos de proteção que dela decorrem, à
luz de dispositivos constitucionais e infraconstitucionais.

Neste contexto, vamos discutir nesta unidade as características


básicas das minorias, seus dispositivos legais e papel na sociedade.
Como pano de fundo, os princípios da liberdade e da igualdade
social tão caros à democracia e à doutrina dos direitos humanos e
fundamentais para o exercício da cidadania.

Tenha uma boa leitura!

281
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Etnia, Gênero e
Performances
Identitárias
A discussão em torno da etnia, gênero e performances identitárias
revela algumas importantes nuances. O primeiro aspecto a ser
considerado diz respeito à usual confusão em torno da conceituação
de etnia, frequentemente confundida com raça, outro conceito
revestido de grande polêmica.

Silva e Silva (2006) apontam que, em meados do século XVIII,


prevalecia a hipótese racial poligenista (ou racialismo), enfatizando
a coexistência de diferentes raças humanas que justificariam a
adoção de um sistema de valoração universal.

A classificação apresentada em 1758 pelo botânico sueco Carolus


Linnaeus, subdividindo a raça humana em cinco grupos é bastante
emblemática, incluindo características físicas e morais que
deixaram marcas profundas no imaginário popular. Segundo Santos
et al. (2010), a taxonomia desenvolvida pelo proeminente naturalista
enfatizava os seguintes grupos:

• americano: vermelho, de mau temperamento e subjugável;

• europeu: branco, sério e forte;

• asiático: amarelo, melancólico, ganancioso;

• africano: preto, impassível, preguiçoso;

• monstruoso: sem conotação geográfica, relativo a tipos


reais sem enquadramento nas categorias anteriores.

Já em 1775, a classificação foi revista pelo sucessor de Linnaeus,


firmando-se em: europeu; asiático do leste e parte da América do
Norte; australiano; africano; restantes do Novo Mundo. Mais uma
atualização, em 1795, apontou cinco variedades raciais: caucasiano,

282
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

mongol, etíope, americano e malaio.

Ainda segundo os autores, a designação formal de raça foi utilizada


pela primeira vez em 1790, quando o censo americano classificou
a população em homens brancos livres, mulheres brancas livres e
outros, incluindo nativos e escravos.

A teoria evolucionista de Charles Darwin, publicada em 1859, foi


um marco no contexto do racialismo, quando se firmou a noção de
diversidade de raças humanas, bem como a ideia de superioridade
de determinadas raças.

Daí resultaram os pressupostos da “eugenia”, termo criado pelo


antropólogo Francis Galton em 1883 para designar a ciência do
melhoramento genético  voltado para a seleção dos melhores
indivíduos representantes da raça humana. O propósito da eugenia
era garantir a “pureza” e a qualificação superior da raça humana
atribuindo, à época, base científica ao racismo.

Segundo os eugenistas, a raça superior, eleita pela seleção natural


darwinista, era a raça branca ou caucasóide, mas não toda ela:
os germânicos eram considerados superiores aos judeus e aos
eslavos, por exemplo. As raças inferiores deveriam ser subjugadas
ou eliminadas, sendo esse último apelo particularmente defendido e
adotado pelo partido nazista alemão durante a 2ª

Guerra Mundial, redundando na maior “carnificina” da história


moderna da humanidade.

O racismo não se confunde com o racialismo: o primeiro denota o

preconceito contra raças consideradas inferiores; o segundo diz respeito à

poligenia, vinculada à tese de existência de raças humanas diferenciadas,

sem conotação racista.

283
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Santos et al. (2010) aponta que, já em 1916, difundiu-se um curioso


critério de classificação de raças, trazido pelo eugenista americano
Madison Grant: do cruzamento de um branco com um negro, o
descendente é negro; do cruzamento de um branco com um índio o
descendente é índio; do cruzamento de um europeu com um judeu,
o descente é judeu; e assim por diante.

O conceito evoluiu para a “Teoria da Hipodescendência” formulada


pelo antropólogo norte-americano Marvin Harris, enfatizando-
se que do cruzamento de duas raças diferentes o descendente é
classificado na raça biológica ou socialmente “inferior”. A teoria é
também conhecida, segundo o conceito racial americano, como
&quot;regra de uma gota&quot;, em uma alusão ao fato de que, se
uma pessoa apresenta herança africana, ainda que mínima (uma
mera gota de sangue), ela é social e legalmente enquadrada como
negra, ainda que a sua aparência seja distinta desta caracterização.

Diante do que foi até aqui exposto, qual é a diferença entre raça e
etnia, e qual é a importância das respectivas especificações?

O termo “raça” suscita grande polêmica, sendo usualmente empregado


para designar um grupo de pessoas com características morfológicas
(físicas) homogêneas. Ocorre que, em se tratando dos seres humanos,
o conceito não se sustenta, na medida em que os atributos que
aparentemente diferenciam as pessoas, tais como a cor da pele, textura
dos cabelos, conformação facial e cranial, ancestralidade e genética,
não têm significância estatística para respaldar uma tipificação
científica do ponto de vista do genoma humano.

Raça não é um conceito científico, havendo um “amplo consenso entre

antropólogos e geneticistas humanos de que, do ponto de vista biológico,

raças humanas não existem” (SANTOS et al., 2010, p.121).

284
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O apelo à especificação de raças, assim, atende a outros critérios


de natureza sociopolítica, com implicações diretas na estrutura e no
exercício do poder hegemônico.

Já o conceito de etnia, segundo Santos et al. (2010), traduz uma


noção pluralista da identidade dos indivíduos, com base em
aspectos vinculados não apenas à aparência física, mas também
à cultura, parentesco, religião, idioma, território compartilhado e
nacionalidade.

O que se observa, na prática, é a crescente utilização do critério


étnico-racial para a classificação dos indivíduos no âmbito das
ciências sociais, orientando inclusive as pesquisas censitárias em
torno das populações.

Segundo Silva e Silva (2006), o termo “etnia” foi cunhado no século


XIX pelo antropólogo e eugenista francês Georges Vacher de
Lapouge, englobando um conjunto de características culturais não
contempladas pelo conceito convencional de raça.

O conceito traduz uma construção artificial, na medida em se


apoia na verificação de costumes compartilhados e na crença dos
componentes dos grupos na existência de uma origem comum
(seja ela comprovada ou não), o que os aproxima e também os
distingue de outros grupos culturais.

Vale destacar a diferenciação entre os conceitos de etnia e grupos


étnicos que, para serem considerados como tais, deve refletir
uma interação entre os seus membros. Assim, um grupo étnico
pode ser considerado como “[...] um conjunto de indivíduos que
apresenta uma interação entre todos os seus membros, além das
características gerais da etnia” (SILVA; SILVA, 2006, s/p).

Outro importante conceito no âmbito da antropologia social


diz respeito à etnicidade, caracterizada pelo sentimento de
pertencimento a um grupo étnico exclusivo. A etnicidade, neste

285
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

sentido, se vincula à noção de identidade.

A afirmação étnica dos grupos sociais vem resultando no


crescimento das suas demandas sociopolíticas, fundamentados na
crença de uma identidade comum que os legitima.

A crescente identificação de grupos étnicos é ambígua quanto aos

seus impactos na sociedade. A face positiva, vinculada à construção

de identidades e sentimento de pertença, tem sido frequentemente

contraposta pelo acirramento do etnocentrismo, caracterizado pela reação

da sociedade que, compartilhando hábitos e características prepoderantes,

responde de forma negativa e preconceituosa às diferenças culturais no

seu entorno, dando voz ao racismo.

Em sentido oposto, o relativismo cultural é uma corrente ideológica que

busca “desmontar” as bases do etnocentrismo, valorizando a diversidade

cultural e preconizando a análise das diferenças observadas entre os

padrões culturais que devem ser respeitadas.

É a partir dessas noções de etnicidade, etnocentrismo e relativismo


cultural que se delineia a discussão em torno das minorias que,
refletindo as etnias antropológicas, serão o foco da discussão a
partir deste ponto.

A Caracterização das Minorias


A polêmica em torno da questão das minorias começa com a sua
própria conceituação, que pode ser vista a partir de dois enfoques,
um quantitativo e outro qualitativo.

De acordo com Monteiro et al. (2015), o enfoque quantitativo é dado


pela abordagem sociológica, segundo a qual, um grupo minoritário
pode ser caracterizado como um grupo social de dimensão inferior
à metade da população, ocupando uma posição privilegiada, neutra
ou marginal no âmbito da sociedade.

286
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O enfoque qualitativo, de natureza antropológica, é o mais aceito,


privilegiando o relacionamento observado entre os subgrupos
sociais em suas relações de dominação e subordinação. Neste
contexto, as minorias são caracterizadas como:

[...] grupos marginalizados no âmbito de uma determinada sociedade,

ainda que eventualmente possam representar uma maioria quantitativa.

(MONTEIRO et al., 2015, s/p).

[...] dispositivos simbólicos com objetivos ético-políticos contra

hegemônicos. São, portanto, grupos marginais ante a ordem jurídico-

social instituída (HERNANDEZ; ACCORSSI; GUARESCHI, 2013, p. 385).

Observa-se, assim, que o conceito de minoria está vinculado a


grupos hipossuficientes, sendo amplo o seu espectro: mulheres,
homossexuais, deficientes, grupos culturais, grupos raciais, grupos
religiosos, grupos sociais desfavorecidos, dentre outros.

Esses grupos são alvo de intolerância e preconceito social,


sendo marginalizados por razões que variam do componente
histórico a circunstâncias de natureza política, relacionados com
a subvalorização cultural, omissão do Estado no tocante às suas
necessidades, deficiências do sistema de representação, dentre
outros. Frequentemente, os seus direitos fundamentais são
desrespeitados, ainda que estejam formalmente amparados pela
lei. Em muitos casos, os grupos nem mesmo têm ciência quanto
aos seus direitos.

Mas a operacionalização do conceito de minorias apresenta


dificuldades, relacionadas com os próprios critérios adotados para
a sua identificação, envolvendo aspectos objetivos e subjetivos.

Segundo Monteiro et al. (2015), os aspectos objetivos dizem


respeito à identificação dos laços étnicos, linguísticos e culturais,
mediante o levantamento de documentos históricos e testemunhos

287
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

pessoais. Os aspectos subjetivos, por sua vez, estão relacionados


com o efetivo reconhecimento das minorias pelo Estado, o que nem
sempre é trivial ou automático.

No outro extremo encontra-se a maioria, formada por estratos


sociais dominantes que, amparados pela ideia (consciente ou não)
de supremacia frente aos demais grupos, buscam afirmar (de forma
ostensiva ou não) a prevalência das suas ideologias e interesses no
âmbito da sociedade.

Os embates de interesses entre a minoria subordinada e a maioria


dominante, bem como os seus resultados na dinâmica social
denotam o grau de maturidade do processo democrático na
sociedade em questão, cabendo aqui uma provocação.

Você viu, na unidade 5, que na democracia representativa a legitimação da

ordem social requer que a vontade da maioria prevaleça sobre a minoria, já

que a unanimidade é impossível de ser alcançada.

Estaria então, o chamado “Princípio da Maioria” que respalda a democracia

representativa, em desacordo com os direitos fundamentais das minorias?

O que dizer sobre a cidadania dos indivíduos que integram os grupos

minoritários marginalizados?

Observa-se que o Princípio da Maioria, embora racional e prático,


contraria o princípio da liberdade (no caso, da minoria), exigindo, em
contrapartida, a adoção de claros e rigorosos critérios para a realização
dos processos de votação por ocasião dos sufrágios eleitorais.

A efetividade de tais critérios, bem como as oportunidades de


representação disponibilizadas às minorias no processo político,
portanto, constituem o cerne da questão. O grande desafio consiste
na consolidação de mecanismos que privilegiem a manifestação
democrática da diversidade e impeçam a imposição de interesses
motivados pela discriminação e preconceitos de qualquer natureza.

288
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Vale ressaltar que os direitos das minorias são respaldados


por dispositivos constitucionais e infraconstitucionais, devendo
ser garantidos e preservados a despeito de qualquer princípio
instrumental vinculado ao modelo de democracia em curso.

Em que pese a posição estruturalmente desprivilegiada das


minorias, é forçoso reconhecer a sua importância na dinâmica
de desenvolvimento da sociedade contemporânea. Moscovici
(2011), em sua “Teoria das Minorias Ativas”, aponta que os grupos
minoritários, ao contrário da visão convencional de hierarquia do
poder (focada na assimetria das relações sociais de dominação/
subordinação), não são meros receptores passivos da influência
exercida pela maioria dominante, submetidos à permanente
ameaça de exclusão social.

Segundo o autor, o controle social exercido pelas maiorias é


frequentemente confrontado pelas minorias face à natural
contraposição de interesses conflitantes, em uma luta simbólica e
comunicativa que traduz um mecanismo de influenciação bilateral,
e não unilateral. Neste sentido, ressalta-se que:

O poder das minorias está, de um lado, na definição


de uma luta, na construção de um espaço de
participação, representação e negociação; de outro,
em sua capacidade de influência social, um processo
contínuo que depende de estilos de comportamentos
consistentes, ou seja, ações que dialoguem
socialmente e manifestem conflitos percebidos
(HERNANDEZ; ACCORSSI; GUARESCHI, 2013, p. 385).

Dessa contraposição de interesses é que resulta a mudança social,


com a emergência de novas representações no campo social e
político, por meio das quais se constroem visões e se materializam
projetos e identidades sociais de importância vital para o debate
democrático na esfera pública.

São dois os fatores chave desse processo de influenciação mútua e

mudança social: a presença do conflito como indutor da transformação

289
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

e o estilo de comportamento dos seus atores, que precisa ser consistente

e coerente em torno de um ponto de vista bem definido e de normas

específicas, de modo a viabilizar a debate construtivo entre os grupos

representativos da sociedade civil.

Os Direitos Humanos das Minorias


A “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, promulgada em
1948, não tratou especificamente das minorias. Segundo aponta
Monteiro et al. (2015), apenas em 1966 a ONU (Organização das
Nações Unidas) abordou o tema, por intermédio do Art. 27 do “Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos”, oportunidade em que foi
imposto o respeito aos grupos minoritários, mas sem apresentar
uma definição clara para o termo “minoria”.

Segundo o autor, a hesitação em torno de uma definição foi


motivada, sobretudo, pelo receio dos Estados Nacionais de que
os instrumentos internacionais de proteção às minorias fossem
utilizados como pretexto para a ingerência sobre assuntos internos,
dentre outros fatores.

Mais tarde, a própria ONU apresentaria uma definição para minoria,


ainda que não consensual:

Um grupo numericamente inferior ao resto da população de um Estado, em

posição não dominante, cujos membros – sendo nacionais desse Estado

– possuem características étnicas, religiosas ou linguísticas diferentes

das do resto da população e demonstre, pelo menos de maneira implícita,

um sentido de solidariedade, dirigido à preservação da sua cultura, de suas

tradições, religião ou língua (MONTEIRO et al., 2015).

Este conceito, focado na dimensão numérica e restrita aos aspectos


étnicos (traços históricos e culturais), linguísticos e religiosos tem
sido alvo de críticas.

290
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

As maiores dificuldades, contudo, residem nos próprios critérios de


identificação das referidas minorias que, conforme já observado,
envolvem aspectos objetivos e subjetivos.

Observa-se que, do ponto de vista dos direitos individuais, o Art. 27


do “Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos” garante aos
indivíduos pertencentes a grupos minoritários o mesmo tratamento
conferido à sociedade como um todo, reconhecendo a existência
dos mesmos e propugnando pela sua proteção.

Os direitos coletivos dos grupos minoritários, por sua vez, têm


sua garantia sujeita ao reconhecimento formal dos subgrupos
sociais, mediante uma análise caso a caso, e estão relacionados
basicamente com:

a. o direito à existência, especificamente no tocante à


prevenção e combate ao genocídio;

b. o direito à identidade, vinculado à sua própria expressão e


às manifestações culturais; e

c. o direito a medidas positivas, incluindo a sua promoção e


proteção por parte do Estado.

Monteiro et al. (2015) destaca os principais tratados internacionais


em torno da questão das minorias. São eles:

• “Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de


Genocídio”, (1948), a partir daí caracterizado como crime
contra o Direito Internacional;

• “Convenção da UNESCO para Eliminação da Discriminação


na Educação” (1960), garantindo os direitos das minorias ao
exercício de atividades educativas que lhe sejam próprias,
no âmbito das escolas;

• ‘Pacem in Terris da Igreja Católica”, proposta pelo Papa


João XXIII (1963), exaltando o papel e a importância das
minorias, bem como caracterizando como grave injustiça

291
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

as atividades hostis praticadas contra grupos minoritários;

• “Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas


as Formas de Discriminação Racial” (1965), motivada
pelo ressurgimento de atividades nazifascistas e do
antissemitismo na Europa;

• “Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos” (1966),


cujo Art. 27 versou sobre a proteção dos direitos das
minorias à identidade cultural, religiosa e linguística,
conforme abordado anteriormente. O Brasil é signatário do
Pacto desde 1992, conferindo ao mesmo o status de norma
constitucional, o que implica dizer que o seu cumprimento
deverá ser observado independentemente da existência de
legislação interna específica;

• “Declaração dos Direitos das Pessoas pertencentes a


Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas”
(1992), explicitando os direitos vinculados ao disposto no
Art. 27 do “Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos”
de 1966. Vale ressaltar que, não sendo um tratado,
tal declaração não possui caráter obrigatório ou força
vinculante junto aos países-membros da ONU, embora
reforce os direitos já instituídos.

Vale a pena destacar, ainda, a “Convenção Internacional de Belém


do Pará”, promovida em 1994 pela OEA (Organização dos Estados
Americanos), que tratou da prevenção, punição e erradicação
da violência contra a mulher. O documento enfatizou a coibição
da violência nos planos físico, sexual e psicológico, cometida no
âmbito da família, da comunidade ou pelo Estado, de forma direta
ou mediante a sua omissão.

A Representação Política das Minorias


Um dos traços mais marcantes do modelo contemporâneo de
democracia representativa é a sua dificuldade para expressar as

292
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

necessidades e interesses dos grupos sociais, que são heterogêneos


e diversificados. Como resultado, é ausente ou insipiente a inserção
destes grupos na estrutura de poder, refletindo uma grave crise de
representação política.

Essa circunstância, em grande parte relacionada com o quadro de


desigualdades socioeconômicas que caracterizam a sociedade
moderna, implica a crescente marginalização dos cidadãos no
processo político.

Vale destacar que há analistas mais otimistas quanto à viabilidade


e pertinência do modelo de representação política vinculado à
democracia representativa. Young (2006) oferece argumentos em
torno da sua compatibilidade com o processo democrático por
intermédio da mediação, sobretudo tratando-se do amplo espectro
de grupos de excluídos: mulheres, minorias raciais, minorias étnicas,
classes desfavorecidas, dentre outros.

A autora aponta que as iniciativas voltadas para a maior inclusão


de grupos sociais marginalizados (sub-representados) têm sido
focadas na política de cotas em listas partidárias, representação
proporcional, cadeiras parlamentares reservadas, delimitação
de distritos eleitorais especiais, participação em conselhos e
comissões, dentre outros. O tema é cercado de controvérsias,
segundo se depreende das várias correntes argumentativas a ele
associadas.

São dois os principais argumentos contrários à representação


especial de grupos: ora enfatizam a lógica identitária, apontando a
importância dos posicionamentos individuais para a definição dos
representantes políticos, sem a mediação de grupos; ora apontam
a representação de grupos como um mecanismo equivocado e
enviesado, desprovido de pertinência e incapaz de promover a
justiça social.

No primeiro caso, a crítica gira em torno de uma suposta

293
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

“substituição” implícita à representação de grupos, onde os


representantes são encarados como substitutos dos seus
representados, assumindo a “identidade” destes últimos.

A essa ideia de “substituição”, no entanto, contrapõe-se a ideia


alternativa de “[...] relacionamento diferenciado entre atores
políticos engajados num processo que se estende no espaço e no
tempo [...] revelando tanto oportunidades quanto riscos políticos”
(YOUNG, 2006, p.142). Esse relacionamento, segundo a autora, se
dá mediante a pluralidade de representações e segundo processos
ativos de autorização e prestação de contas, viabilizando a efetiva
inclusão do eleitorado no debate público.

No segundo caso, os críticos alegam ser desnecessária a


representação de grupos, na medida em que os seus integrantes
apresentam atributos em comum que são inteiramente passíveis de
representação pelos mecanismos convencionais. Isso, no entanto,
está longe da verdade:

Diferenças de raça e de classe perpassam o gênero,


diferenças de gênero e etnia perpassam a religião
e assim por diante. Os membros de um grupo de
gênero, racial, etc. têm histórias de vida que os tornam
muito diferentes entre si, com diferentes interesses e
diferentes posicionamentos ideológicos (YOUNG, 2006,
p.141).

Em suma, ataca-se a própria essência do sistema de representação


de grupos, entendido como um “espelho” do tecido social, o qual
deve refletir a imagem dos grupos à luz dos seus atributos,
observando-se a sua proporção na sociedade.

Os críticos alegam a maior eficácia de representantes selecionados


aleatoriamente no meio social (que por esse meio, manteriam os
atributos dos grupos de origem), em contraposição a representantes
eleitos segundo uma estratificação prévia por grupos. A vantagem
seria a maior diversidade de posicionamentos e de relações entre
representantes e representados, tornando o debate mais rico e
profícuo.

294
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

A favor da representação especial de grupos, destacam-se os


argumentos relacionados com a sua força inclusiva, em meio a
um cenário de interesses divergentes e conflituosos; bem como a
emergência de diferentes perspectivas e posicionamentos trazidos
pelos grupos, influenciando as decisões que, de outra forma,
poderiam ser mais injustas e manipuláveis segundo os interesses
dos grupos poderosos.

Outro argumento favorável diz respeito à noção de autogoverno a


que fazem jus determinadas comunidades tratadas como “Nações”,
a exemplo dos indígenas. Nesse caso, a representação formal de
tais grupos no sistema político é encarada como absolutamente
necessária para a defesa dos seus interesses.

Em suma, o debate não é trivial, mas caminha na direção do


reconhecimento factual das virtudes associadas à representação
de grupos como instrumentos de inclusão política, mesclando-se à
representação política convencional.

Os Instrumentos da Representação de
Grupos
Segundo Young (2006), os instrumentos da representação de
grupos são alvo de contestações e críticas, sendo a sua escolha
influenciada por diversos fatores, como o contexto político, a
dinâmica de fragmentação dos grupos sociais, os processos de
negociação, e também o contexto institucional da representação
em âmbito nacional e regional.

Em que pese a ênfase conferida à atividade legislativa nacional,


em âmbito regional são bastante variados os mecanismos de
representação que podem viabilizar a maior inclusão de grupos
sociais, tais como as comissões e comitês públicos, associações
corporativas e civis, além dos próprios partidos políticos.

São também diversificados os meios empregados nesses

295
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

mecanismos de representação: nomeação de cargos, esquemas


de votação, sorteios, formação de eleitorados por segmentos
socioeconômicos e profissionais, dentre outros.

Alguns dos mecanismos mais usuais de representação de grupos


são apresentados na sequência.

a) Reserva de cadeiras parlamentares

A reserva de cadeiras parlamentares para grupos sociais, no âmbito


de órgãos eletivos, suscita fortes questionamentos em razão do
possível “congelamento” das suas respectivas identidades e das
oportunidades de surgimento de novas representações. Também as
relações com outros grupos sociais podem se degenerar, impactando
negativamente a dinâmica de desenvolvimento da sociedade.

Além disso, a perspectiva de acomodação dos indivíduos no âmbito


dessas representações pode implicar na ineficiência dos processos
de autorização e prestação de contas; na progressiva desconexão
com as bases eleitorais; e em cooptação dos seus membros por
forças externas.

b) Cotas de representação legislativa

Destacam-se também as iniciativas em torno do estabelecimento


de cotas de representação para mulheres, grupos raciais ou grupos
étnicos em convenções partidárias, o que favorece a inserção
efetiva de tais grupos no processo político.

Idealmente, os partidos políticos de fato constituem a melhor forma


de inserção social de grupos na esfera política, mas os meios para a
sua adequada efetivação não são nada triviais.

As dificuldades refletem a contraposição entre o sistema de


voto distrital e suas variações (permeado pelas dificuldades
da delimitação geográfica de distritos) e o sistema de voto

296
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

proporcional, buscando a correspondência entre votos e cadeiras


recebidas pelos partidos em uma dada eleição.

c) Representação institucional

A representação de grupos também pode se dar fora da esfera


legislativa, nas instâncias judiciárias, audiências públicas, comitês,
comissões e processos consultivos, com atribuições específicas de
discussão, elaboração e acompanhamento de políticas públicas.

O importante é que a sociedade civil organizada dispute espaços


crescentes no âmbito da representação política, de modo a explicitar
e materializar os seus interesses no âmbito dos órgãos públicos.

Cidadania e Direitos
Humanos no Brasil
O Tratamento Constitucional das
Minorias
Dentre os quatro objetivos fundamentais do Estado brasileiro,
especificados no Art. 3º da Constituição Federal (Título I – Dos
Princípios Fundamentais), figura o de “Promover o bem de todos,
sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer
outras formas de discriminação” (BRASIL, 1988).

Este texto marca o tom conferido à questão das minorias na “Carta


Constitucional”, retratadas em caráter geral no Art. 5º (Título II - Dos
Direitos e Garantias Fundamentais, Capítulo I - Dos Direitos e Deveres
Individuais e Coletivos), por intermédio dos seguintes incisos:

• inciso VI: trata da liberdade de consciência e de crença,


sendo garantida a proteção aos locais de culto;

297
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• inciso VII: versa sobre a prestação de assistência religiosa


nas entidades civis e militares de internação coletiva;

• inciso VIII: proíbe a privação de direitos em razão de crença


religiosa, filosófica ou política, que inclusive podem ser
invocadas para dispensa de obrigação legal e cumprimento
de prestação alternativa.

Monteiro et al. (2015) aponta dois artigos da Constituição brasileira


mais diretamente relacionados com a questão das minorias,
vinculados ao Título VIII - Da Ordem Social, em seu Capítulo III - Da
Educação, da Cultura e do Desporto:

• Art. 215: o Estado deve garantir a todos (incluindo os


grupos minoritários), os direitos culturais e o acesso às
fontes da cultura nacional, bem como apoiar e valorizar
as manifestações culturais populares, indígenas, afro-
brasileiras e de outros grupos, inclusive com a fixação de
datas comemorativas de alta significação étnica;

• Art. 216: são identificadas como patrimônio cultural


brasileiro, os bens materiais e imateriais vinculados
à memória e à identidade dos grupos formadores da
sociedade brasileira.

O Capítulo VII – Da Família, da Criança, do Adolescente, do


Jovem e do Idoso, também traz um importante dispositivo que
respalda o tratamento diferenciado às mulheres, em razão da sua
vulnerabilidade nas relações familiares:

• Art. 226 - § 8º - assegura assistência aos membros da


família, mediante mecanismos para coibir a violência no
âmbito de suas relações.

As normas infraconstitucionais relacionadas com a proteção geral


às minorias, por sua vez, estão contidas em duas Leis:

298
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

a. Lei 7716/89 (ligeiramente alterada pelas Leis 8081 e 9459,


de 1990 e 1997, respectivamente), que criminaliza atos
relacionados ao preconceito ou à discriminação de raça,
cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Constituem violação dos direitos das minorias as seguintes


condutas:

• impedimento de acesso a cargo público;

• negativa de emprego em empresa privada;

• recusa de ingresso de aluno em escola pública ou privada;

• impedimento de acesso a transportes públicos;

• impedimento de casamento ou convivência social;

• incitação à discriminação ou preconceito.

b. Lei 2889/56, relativa a prevenção ao genocídio, traduzido


como a destruição total ou parcial de grupo nacional, étnico,
racial ou religioso. Nesse caso, são condutas passíveis de
punição:

• homicídio praticado contra membros dos grupos;

• lesão à integridade física ou mental dos membros dos


grupos;

• imposição de condições de vida degradantes;

• impedimento de nascimentos no âmbito dos grupos;

• transferência forçada de crianças entre grupos.

A Lei Complementar 75/93, que dispõe sobre a organização,


atribuições e estatuto do Ministério Público da União, também
traz importantes dispositivos relacionados com as competências
da instituição no tratamento das minorias (CAPÍTULO II - Dos
Instrumentos de Atuação):

299
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• Art. 6º - inciso VII: promoção de inquérito civil e ação


civil pública para a  proteção dos interesses individuais
indisponíveis, difusos e coletivos, relativos às comunidades
indígenas, à família, à criança, ao adolescente, ao idoso, às
minorias étnicas e ao consumidor.

Na prática, a proteção legal às minorias ainda é bastante insipiente,


sendo restrita aos índios. As comunidades negras isoladas,
mulheres e, até mesmo os estrangeiros, dispõem de tratamento
legal diferenciado, mas sem a categorização formal de minoria,
embora o sejam de fato.

Os demais grupos eventualmente identificados contam apenas


com os normativos de caráter geral, cabendo interpretação
constitucional quanto à materialização dos seus direitos.

Tratamentos Diferenciados
a. Indígenas

Os direitos dos indígenas estão dispostos no Título VIII – Da Ordem


Social em dois dispositivos: Capítulo III - Da Educação, da Cultura e
do Desporto, e no Capítulo VIII - Dos Índios:

• Art. 210: versa sobre a utilização de línguas maternas e


processos próprios de aprendizagem nas escolas;

• Art. 231 e 232: tratam do reconhecimento da identidade


indígena e seus direitos sobre a terra, que deverão ser
protegidos pelo Estado, contando com a defesa do
Ministério Público Federal.

Deve-se ressaltar, dentre as medidas de proteção aos indígenas, a


criação da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) em 1967, bem como
a elaboração do Estatuto do Índio (Lei 6001/73), cabendo destacar
os seguintes dispositivos:

300
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Art. 6º: trata do respeito aos usos, costumes e tradições das


comunidades indígenas nas relações de família, na ordem de
sucessão, no regime de propriedade e nos atos ou negócios
realizados entre índios;

• Art. 57: autoriza os grupos tribais a sanções penais ou


disciplinares contra os seus membros, de acordo com as
suas próprias instituições, desde que não sejam cruéis ou
infamantes, sendo proibida a pena de morte;

• Art. 58: estabelece como crimes contra os índios e a cultura


indígena os seguintes atos:

• I - escarnecer de cerimônia, rito, uso, costume ou tradição


culturais indígenas, vilipendiá-los ou perturbar, de qualquer
modo, a sua prática;

• II - utilizar o índio ou comunidade indígena como objeto de


propaganda turística ou de exibição para fins lucrativos;

• III - propiciar, por qualquer meio, a aquisição, o uso e a


disseminação de bebidas alcoólicas, nos grupos tribais ou
entre índios não integrados.

b. Comunidades negras isoladas

A Constituição Federal, em seu Art. 68 – Das Disposições


Constitucionais Transitórias, já previa o reconhecimento da
propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes das
comunidades dos quilombos. Mas a regulamentação veio apenas
em 2003, por intermédio do Decreto 4.887/03, que tratou dos
procedimentos para a identificação, reconhecimento, delimitação,
demarcação e titulação das terras ocupadas.

De acordo com o Art.  2 o   do referido  Decreto, consideram-se


remanescentes das comunidades dos quilombos

Os grupos étnico-raciais, segundo critérios de


autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados
de relações territoriais específicas, com presunção de

301
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

ancestralidade negra relacionada com a resistência à


opressão histórica sofrida (BRASIL, 2003).

c. Mulheres

Já as mulheres receberam tratamento diferenciado por intermédio


da Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha. Dispõe o Art.
2º da Lei:

Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia,


orientação sexual, renda, cultura, nível educacional,
idade e religião, goza dos direitos fundamentais
inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas
as oportunidades e facilidades para viver sem
violência, preservar sua saúde física e mental e seu
aperfeiçoamento moral, intelectual e social (BRASIL,
2006).

O dispositivo reconhece implicitamente a incidência de aspectos


histórico- culturais, morais e religiosos vinculados à discriminação
e à submissão da mulher ao homem, configurando-se um desnível
sociocultural e, portanto, uma vulnerabilidade que justifica a
atribuição de direitos diferenciados, sem prejuízo ao princípio
constitucional da isonomia.

Busca-se promover a igualdade substantiva entre homens e


mulheres, especialmente no tocante à vida doméstica, onde
se verificam elevados índices de violência contra a mulher,
independentemente de camada social.

Outro dispositivo de fundamental importância diz respeito à Lei


13.104/15, que tipificou o “feminicídio” como crime hediondo, assim
qualificado, segundo a lei, como o ato de matar uma mulher por
razões da condição de sexo feminino,  quando o crime envolver
violência doméstica e familiar ou for motivado pelo menosprezo ou
discriminação à condição de mulher.

302
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O Direito das Minorias


O direito das minorias está no centro das discussões em torno
da aplicação dos direitos fundamentais, em consonância com os
ideais democráticos estampados na Constituição Federal.

Martins e Mituzani (2011) destacam que, do ponto de vista dos três


Poderes, o atendimento aos preceitos constitucionais vinculados
aos direitos das minorias está mapeado da seguinte forma:

• Poder Legislativo: estabelecimento de regras eleitorais que


promovam a participação de diferentes matizes ideológicos
no processo político- decisório;

• Poder Executivo: adoção de ações afirmativas do Estado


mediante a implementação de políticas públicas voltadas
para o atendimento das necessidades das minorias;

• Poder Judiciário: preservação do processo democrático e


garantia de acesso das minorias aos direitos fundamentais
a que fazem jus, removendo os obstáculos que lhes sejam
apresentados.

É imprescindível a legitimação dos direitos fundamentais das


minorias conferida pelo Judiciário, que deve atuar com isenção e
independência, em que pesem os eventuais ruídos inerentes ao
elevado grau de subjetividade e politicidade que caracterizam a
temática (sobretudo quando não há legislação específica para
regular a matéria), requerendo construções argumentativas bem
fundamentadas.

Observa-se que, nas decisões dos magistrados sobre os direitos


das minorias,

[...] está em jogo o princípio da igualdade, e nele o direito


à diferença, sendo aceitável a discriminação ou para
garantir a liberdade de se manifestar peculiaridades
culturais, ou para diminuir o déficit democrático de
grupos marginalizados historicamente (MARTINS;
MITUZANI, 2011, p. 324).

303
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Os autores afirmam que o Poder Judiciário exerce uma função


contra majoritária ao confrontar os direitos da maioria com os
das minorias, em benefício destas últimas. Em suma, admite-se o
tratamento desigual em circunstâncias desiguais, visando à própria
preservação do próprio Estado Democrático de Direito.

Observa-se que, como categoria jurídica, o conceito de “minoria”


suscita algumas considerações importantes. Em primeiro lugar,
a caracterização de minoria não se vincula ao sujeito, e sim à
relação jurídica entre as partes litigantes, sendo esta uma condição
determinante para a ação judicial. Assim, não basta caracterizar
o sujeito como integrante de um grupo minoritário, é preciso que
a situação levada a juízo justifique a demanda do sujeito por seus
direitos de minoria.

Outro aspecto relevante vinculado à categorização jurídica da


minoria diz respeito à sua dimensão relacional, ou seja, os direitos
de uma minoria só podem ser analisados à luz de uma maioria
pertinente: negros em relação a brancos, judeus em relação a
cristãos, e assim por diante. Quanto maior a expressividade dos
elementos identitários, mais fortes se tornam os argumentos em
torno da generalização das decisões nas demandas judiciais.

É importante ressaltar que as decisões judiciais, respaldadas nos


preceitos constitucionais, se processam independentemente da
vontade ou tempo de resposta dos demais Poderes, usualmente
envoltos em intermináveis e calorosos embates na disputa entre
interesses divergentes e conflitantes.

Essa circunstância transforma os tribunais em um fórum ideal


para a tratativa dos direitos das minorias, atuando como o “fiel
da balança” do processo democrático quando este chega a um
impasse. A consequência é a crescente judicialização da política de
proteção às minorias que a prática vem comprovando ser de mais
difícil materialização no âmbito do Legislativo e do Executivo.

304
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Uma questão bastante controversa, apontada por Martins e Mituzani


(2011) diz respeito ao sistema de cotas vinculado às políticas
afirmativas do Poder Executivo para o ingresso em universidades e,
sobretudo, no serviço público.

Não havendo legislação própria que regule a matéria (como no


caso dos indígenas, comunidades negras isoladas e mulheres), a
defesa dessas políticas se baseia em argumentações amparadas
pelo princípio constitucional da isonomia e da igualdade em seu
sentido material, bem como por elementos morais e histórico-
culturais que traduzem “dívidas” da sociedade brasileira em
relação a determinados grupos sociais, especialmente os negros,
demandando reparação.

Os argumentos contrários enfatizam os princípios da razoabilidade,


da proporcionalidade e da própria igualdade em seu sentido formal,
que atua como fator limitativo à aplicação do Direito no caso das
políticas afirmativas de reservas de vagas.

Minorias e Desigualdade Social


As desigualdades de gênero, raça e etnia não surgem naturalmente:
elas resultam de uma construção social de sentidos que se
retroalimentam e reforçam o quadro de injustiça social.

A noção de desigualdade, neste sentido, se traduz pela existência de


privilégios na distribuição de bens sociais em uma dada sociedade.
A sua incidência e persistência denotam as falhas do processo
democrático que deveria garantir a igualdade entre os indivíduos,
conforme preconizam os dispositivos constitucionais.

As características básicas da desigualdade são apontadas por


Carvalho (2013):

• é um fenômeno onipresente e de natureza social: atinge todas


as sociedades e decorre de uma criação artificial dos homens;

305
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

• é um fenômeno que adquire diferentes configurações: é


variável segundo o contexto histórico e o tipo de sociedade;

• é um fenômeno que influencia as condições efetivas de


vida dos cidadãos: gera conflitos e contradições no âmbito
da sociedade.

Mas de onde vêm os sentidos socialmente construídos, os quais

perpetuam as desigualdades e reforçam os preconceitos em torno

das minorias? Carvalho (2013) aponta que a família e a escola são as

principais instituições formadoras e propagadoras das normas que regem

as relações sociais. Assim, nelas se formam os discursos e também

por elas passam os elementos da transformação social voltada para a

inclusão das minorias.

As desigualdades impostas às minorias implicam na restrição do

princípio da liberdade positiva, na medida em que parcelas expressivas

da população não dispõem dos recursos necessários à preservação da

sua autonomia e ao exercício da cidadania, seja do ponto de vista social,

econômico ou político.Carvalho (2013) enfatiza que as desigualdades

se manifestam nas oportunidades e no estilo de vida em sociedade,

denotados pelos índices relativos de mortalidade infantil, esperança média

de vida, incidência de doenças, padrão de moradias, acesso ao lazer, dentre

outros aspectos.

A desigualdade social não se confunde com a diferenciação social, sendo

esta última caracterizada pelas “[...] diferenças entre grupos ou categorias

particulares de indivíduos que se constituem como fatos sociais, isto é, as

diferenças tidas como significativas nas relações sociais” (BOTTOMORE,

1996 citado por CARVALHO, 2013, p.19). Essas diferenças estão

relacionadas com o sexo, raças, etnias, faixa etária, aspectos linguísticos e

culturais, classes sociais, categorias profissionais, dentre outros aspectos.

306
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Observa-se que a desigualdade social denota a posição dos indivíduos

em relação à distribuição dos bens na sociedade, no contexto de uma

hierarquia social; a diferenciação social, por sua vez, situa os indivíduos

em grupos sociais específicos, configurando as minorias ou grupos

vulneráveis que, não tendo os seus direitos resguardados, acabam

marginalizados em torno da hierarquia social, requerendo a tutela protetora

do Estado por intermédio de políticas afirmativas.

À tradicional luta pela inclusão social das minorias, vinculada ao princípio

da igualdade, se agrega o não menos importante movimento pelo respeito

às diferenças, vinculado ao princípio da liberdade, de modo a que seja

revertido o quadro de discriminação e de preconceitos que ameaça o

exercício dos direitos fundamentais e compromete o funcionamento do

processo democrático.

A desigualdade racial no Brasil

Por muito tempo, prevaleceu no Brasil uma visão utópica de democracia

racial, sobretudo no tocante aos negros, amparada por estudos da

antropologia social que não reconheciam a existência de conflitos raciais

no Brasil.

Segundo Silva e Costa (2004), essa perspectiva otimista se deve

particularmente às obras do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), que

identificou na miscigenação do povo brasileiro um traço “apaziguador” do

conflito racial.

Suas análises foram complementadas pelo norte-americano Donald

Pierson que, estudando o comportamento da sociedade baiana na década

de 30, concluiu que as dificuldades de integração do negro residiam

não na sua cor, mas na sua condição social vinculada ao histórico de

escravidão, o que tenderia a esvanecer progressivamente com o avanço

da miscigenação.

No entanto, a baixa mobilidade social dos negros ao longo do tempo revela

que o racismo sempre foi uma tônica da sociedade brasileira, embora

não fosse usual a sua manifestação de forma ostensiva. inda segundo os

autores, esse reconhecimento se deve, em grande parte, aos estudos do

sociólogo Oracy Nogueira (1917-1996) que, já em meados da

307
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

década de 50, apontou a cor da pele (incluindo negros e mestiços) como

o fator predominante do preconceito e da exclusão racial no Brasil,

sobrepondo-se à origem biológica ou étnica dos indivíduos.

Neste sentido, o preconceito racial é apontado como:

[...] uma disposição (ou atitude) desfavorável,


culturalmente condicionada, em relação aos
membros de uma população, aos quais se têm como
estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido
a toda ou parte da ascendência que se lhes atribui ou
reconhece (NOGUEIRA, 1955 citado por SILVA; COSTA,
2004, s/p.).

Na visão de Nogueira (1955), o preconceito pode se dar segundo duas

formas: uma vinculada à hipodescendência (genética), típica dos Estados

Unidos; e outra ao fenótipo dos indivíduos (aparência física), típica dos

países latinos.

O primeiro caso traduz um preconceito de origem, implicando a exclusão

social incondicional e permanente dos membros do grupo discriminado;

o segundo caso, em que se enquadra o Brasil, retrata um preconceito

de marca, implicando a preterição, e não a exclusão social, com a

possibilidade da ascensão social de membros do grupo discriminado em

razão da demonstração de certas virtudes intelectuais e de seu eventual

desenvolvimento econômico.

A natureza do preconceito de marca, portanto, é intelectiva e estética, e

remonta ao processo de colonização brasileira:

[...] o colonizador português trouxe consigo um


sistema profundamente hierarquizador que, porém, faz
com que os elementos de pertença de raça “fiquem
apagados” em função de outros critérios hierárquicos,
de classificação social, de posição social e de prestígio.
Portanto, nesse sistema, não haveria necessidade de
uma segregação direta entre negros, brancos, mulatos
e mestiços, já que o próprio sistema hierárquico de
posições sociais no Brasil dá conta de colocar as
diferenças étnico-raciais no “seu lugar” (DAMATTA,
1981 citado por SALAINI, 2013, p.135).

O resultado do mito reinante da democracia racial, que ainda persiste

em grande parte do imaginário popular brasileiro, vem camuflando as

desigualdades sociais latentes na sociedade brasileira, resultando na

308
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

postergação de políticas públicas afirmativas visando à redução do déficit

social da população negra.

As políticas afirmativas em favor das minorias

Segundo Carvalho (2013), a ação afirmativa do Estado, cuja origem

encontra- se nos movimentos de descolonização desencadeados após a

2ª Guerra Mundial, implica a instituição de políticas públicas diferenciadas

em prol de grupos minoritários e segregados no âmbito da sociedade. Tais

políticas caracterizavam-se pela imposição de cotas e outras medidas

visando amenizar as desigualdades sociais no âmbito das Nações recém-

independentes da África e da Ásia.

A intensa luta desencadeada em torno dos direitos civis da comunidade

negra dos Estados Unidos, na década de 1950, levou à incorporação de

vários desses dispositivos, e as demandas logo se espalharam para

outros grupos sociais, como as mulheres, indígenas, deficientes físicos,

homossexuais, imigrantes, dentre outros. A “onda” logo se espalhou pela

Europa e países latino-americanos, sobretudo no tocante à inclusão de

gênero.

Moehlecke (2002) aponta que no Brasil a ação afirmativa é definida,

segundo o “Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da

População Negra”, como uma política que tem por objetivo:

[...] eliminar desigualdades historicamente acumuladas,


garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento,
bem como compensar perdas provocadas pela
discriminação e marginalização, decorrentes de
motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros
(SANTOS, 1999 citado por MOEHLECKE, 2002, p. 201).

Neste sentido, a autora ressalta dois pontos importantes:

a. para auferir os benefícios da ação afirmativa, não basta que


o indivíduo pertença ao grupo discriminado, é preciso que
ele apresente certas qualificações;

b. a ação afirmativa não é necessariamente uma política


compensatória redistributiva, na medida em que não é
possível estabelecer uma relação causal direta entre a carência

socioeconômica do indivíduo e a discriminação social, seja ela

309
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

racial, étnica ou sexual.

Neste sentido, o conceito moderno de ação afirmativa não se atém à

discussão do direito formal, vinculado à identificação e julgamento de

ação discriminatória praticada contra indivíduos em particular, visando

reparação; ele se volta para a identificação de uma situação social

indesejável de âmbito geral. O Estado, ao reconhecê-la, se dispõe a

remediá-la, ou mesmo a prevenir a ocorrência de atitudes discriminatórias

que tal situação social possa vir a suscitar.

Podem-se identificar, neste sentido, três direções possíveis em torno da

ação afirmativa do Estado em prol das minorias: combater a discriminação;

reduzir a desigualdade; e promover a inclusão social das minoras por meio

da valorização da diversidade.

Segundo Piovesan (2008), as políticas afirmativas no Brasil ganharam

respaldo na Lei 9.100/95, denominada “Lei das cotas”, segundo a qual

pelo menos 20% das vagas dos partidos políticos ou coligações devem

ser reservadas para mulheres, posteriormente alterada pela Lei 9.504/97,

estabelecendo um mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas

de cada sexo.

Outro destaque, segundo a autora, é o “Programa Nacional de Direitos

Humanos”, instituído pelo Decreto 1.904/96, que prevê o desenvolvimento

de ações afirmativas para as minorias. Em 2002, foi implementado o

“Programa Nacional de Ações Afirmativas”, contemplando ações voltadas

para as mulheres, afrodescendentes e portadores de deficiência, bem

como o “Programa Diversidade na Universidade”.

Dois marcos especiais devem ser destacados. O primeiro deles está

relacionado com a “Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial”,

instituída em 2003 em reforço às ações afirmativas, paralelamente à

criação da “Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade

Racial”, no mesmo ano.

O segundo diz respeito à instituição do “Estatuto da Igualdade Racial” (Lei

12.288/10) que, de acordo com o documento, é “destinado a garantir à

população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos

310
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação

e às demais formas de intolerância étnica” (BRASIL, 2010).

No entanto, a questão não é pacífica, sendo cinco as grandes controvérsias

que envolvem o tema da ação afirmativa, segundo aponta Piovesan (2008):

1. igualdade formal versus igualdade material: os críticos das

ações afirmativas apontam que elas atentam contra o princípio

da igualdade formal, segundo o qual todos são iguais perante a

lei; os defensores apontam que as ações afirmativas se vinculam

à igualdade substantiva, sendo que os diferentes devem ser

tratados de forma diferenciada;

2. políticas universalistas versus políticas focadas: os críticos

apontam que as ações afirmativas fragilizam as ações

universalistas; os defensores enfatizam a possibilidade de

combinação entre ambos os enfoques;

3. enfoque de classe social versus enfoque racial: os críticos

denunciam o antagonismo existente entre “brancos pobres” e

“afrodescendentes de classe média”; os defensores argumentam

que a dinâmica social envolve um círculo vicioso em que a

exclusão leva à discriminação e a discriminação leva à exclusão;

4. racialização versus integração: os críticos alertam para o risco de

fragmentação da sociedade entre brancos e afrodescendentes,

mediante o reforço conferido ao conceito de raça e etnia; os

defensores alegam que o momento é de reversão histórica,

utilizando-se o conceito, desta vez, em favor das minorias;

5. cota universitária versus meritocracia: os críticos apontam que

o sistema de cotas nas universidades atenta contra a autonomia

universitária e à meritocracia; os defensores enfatizam as

virtudes da diversidade introduzida nas universidades, bem como

a sua democratização.

A questão está posta, e reveste-se da maior gravidade, requerendo uma

reflexão ampla em torno da própria dinâmica de desenvolvimento da

sociedade brasileira.

311
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

Leia atentamente o texto jornalístico que retrata o posicionamento da

relatora especial sobre as questões das minorias da ONU, Rita Izsák, em

sua visita ao Brasil em 2015:

“MINORIAS pedem que promessas de igualdade sejam cumpridas”, diz

especialista de direitos humanos da ONU. Dourados agora. Disponível

em: ;http://www.douradosagora.com.br/brasil-mundo/brasil-minorias-

pedem-que-promessas-de-igualdade-sejam-cumpridas;. Acesso em: 05

mar. 2016.

Reflita sobre as seguintes questões:

A partir da visão apresentada pela relatora da ONU, quais são os pontos

fortes e fracos da política de proteção às minorias no Brasil?

Que aspectos poderiam contribuir para um maior avanço em torno da

efetivação dos direitos das minorias no Brasil?

Revisão
Reveja os principais pontos tratados nesta unidade, relacionados
com a questão da cidadania e desigualdade social, com foco nas
minorias:

• a desigualdade social que caracteriza a moderna sociedade


contemporânea deve ser analisada à luz da discussão em
torno das minorias, para o entendimento em torno dos
conceitos de raça e etnia;

• o termo raça é usualmente empregado para designar


um grupo de pessoas com características morfológicas
(físicas) homogêneas. No entanto, não se trata de conceito
científico, pois os atributos físicos que diferenciam as
pessoas não têm relevância estatística do ponto de vista do

312
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

genoma humano;

• o conceito de etnia traduz uma noção pluralista da


identidade dos indivíduos, com base em aspectos
vinculados não apenas à aparência física, mas também à
cultura, parentesco, religião, idioma, território compartilhado
e nacionalidade. Utiliza-se o critério étnico-racial para a
classificação dos indivíduos no âmbito das ciências sociais;

• a etnicidade, caracterizada pelo sentimento de


pertencimento a um grupo étnico exclusivo, se vincula à
noção de identidade e respalda as demandas sociopolíticas
dos grupos étnicos. Não se confunde com etnocentrismo,
caracterizado pela reação negativa da sociedade em
torno das diferenças culturais no seu entorno, dando voz
ao racismo. No sentido oposto ao etnocentrismo está
o relativismo cultural, corrente ideológica que busca
“desmontar” as bases do etnocentrismo, valorizando a
diversidade cultural;

• a discussão em torno das minorias está relacionada com as


noções de etnicidade, etnocentrismo e relativismo cultural.
Segundo a abordagem mais aceita da antropologia, são
caracterizadas como grupos marginalizados no âmbito
de uma determinada sociedade, ainda que eventualmente
possam representar uma maioria quantitativa;

• os embates de interesses entre a minoria subordinada


e a maioria dominante, bem como os seus resultados na
dinâmica social denotam o grau de maturidade do processo
democrático em uma dada sociedade.
Dessa contraposição de interesses resulta a mudança
social, com a emergência de novas representações no
campo social e político;

• os direitos individuais das minorias têm respaldo no Art.


27 do “Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos”
da ONU, que garante aos indivíduos o mesmo tratamento

313
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

conferido à sociedade como um todo. Os direitos coletivos


também são assegurados, ainda que estejam sujeitos ao
reconhecimento formal pelos Estados Nacionais;

• no tocante à representação política das minorias, as


iniciativas inclusivas têm sido focadas na política de cotas
em listas partidárias, representação proporcional, cadeiras
parlamentares reservadas, delimitação de distritos eleitorais
especiais, participação em conselhos e comissões, dentre
outros. O tema é controverso, mas a discussão aponta
no sentido do reconhecimento das virtudes associadas à
representação de grupos;

• no Brasil, são vários os dispositivos constitucionais e


infraconstitucionais que versam sobre a identificação
e proteção às minorias, embora na prática seus efeitos
nem sempre sejam sentidos. Os mecanismos específicos
se restringem, sobretudo, aos indígenas, mulheres e
comunidades negras isoladas;

• é imprescindível a legitimação dos direitos fundamentais


das minorias conferida pelo Judiciário, que deve atuar com
isenção e independência, em que pesem os eventuais ruídos
inerentes ao elevado grau de subjetividade e politicidade
que caracterizam a temática;

• o Poder Judiciário exerce uma função contra majoritária ao


confrontar os direitos da maioria com os das minorias, em
benefício das últimas, admitindo-se, segundo o princípio da
igualdade material, o tratamento desigual dos indivíduos
em circunstâncias desiguais, visando a própria preservação
do próprio Estado Democrático de Direito;

• as desigualdades de gênero, raça e etnia a que são


submetidas as minorias não surgem naturalmente: elas
resultam de uma construção social de sentidos que se
retroalimentam e reforçam o quadro de injustiça social;

• por muito tempo, prevaleceu no Brasil uma visão utópica

314
unidade 8
FILOSOFIA, ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

de democracia racial, sobretudo no tocante aos negros,


amparada por estudos da antropologia social que
não reconheciam a existência de conflitos raciais no
Brasil. Como resultado, as desigualdades sociais foram
camufladas, resultando na postergação de políticas
públicas afirmativas visando à redução do déficit social da
população negra;

• no tocante às ações afirmativas do Estado em prol das


minorias, três enfoques podem ser adotados: combate à
discriminação; redução da desigualdade; e promoção da
inclusão social por meio da valorização da diversidade.

• Para saber mais sobre as comunidades de quilombolas no Brasil,

acesse o site da ONG “Comissão Pró-Índio” de São Paulo, e

navegue pelo interessante “Mapa das Comunidades Quilombolas

no Brasil”. Disponível em: ;http://www.cpisp.org.br/comunidades/

html/i_brasil.html;. Acesso em: 04 mar. 2016.

• Para acompanhar a evolução das tratativas legais em torno

das minorias no Congresso Nacional, acompanhe o site da

Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). COMISSÃO

DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS (CDHM). Institucional.

Disponível em: ;http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/

comissoes/comissoes-permanentes/cdhm;. Acesso em: 06 mar.

2016.

• Para saber mais sobre as limitações impostas às minorias no

Brasil e as perspectivas quanto à sua superação, leia o livro

indicado: SIQUEIRA, Dirceu Pereira; SILVA, Nilson Tadeu Reis

Campos (Orgs.). Minorias e Grupos Vulneráveis: Reflexões para

uma Tutela Inclusiva. 1. ed. São Paulo: Editora Boreal, 2013.

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