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O conto “O Ovo e a Galinha”, de Clarice Lispector, foi publicado pela primeira vez na

coletânea de contos “A Legião Estrangeira”, que teve sua primeira edição em 1964. Em 1975, Clarice
foi convidada a participar do Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, realizado em Bogotá. Em
entrevista à Veja, concedida antes do evento, a escritora disse que pretendia ler o referido conto, que é
entendido por ela como mágico, uma vez que “o ovo é puro, o ovo é branco, o ovo tem um filho”.
Junto com o conto, a autora pretendia ler uma introdução nomeada Literatura e Magia, na qual, em sua
versão original, ela diria que O Ovo e a Galinha era misterioso até para ela e que possuía uma
simbologia secreta. Além disso, a escritora pediria que todos ouvissem a leitura apenas com o
raciocínio, senão tudo escaparia do entendimento. No entanto, em outra introdução preparada por
Clarice, ela aconselharia o contrário: “Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio porque,
se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará do entendimento”. O ponto
comum nas duas introduções é a satisfação que traria à escritora se alguns dos ouvintes conseguissem
sentir o conto. No fim das contas, Clarice desistiu de fazer qualquer introdução e apenas pediu para que
alguém lesse o conto para ela. Em entrevistas, após o evento, “Clarice declara ter tido a impressão de
que a maioria das pessoas não compreendeu nada do que havia sido lido; ressaltando contudo que um
americano ficara tão encantado com o conto que a abordara no final, pedindo-lhe uma cópia.”
Mas o que há de tão mágico no conto? Que já foi inclusive escolhido por ela como um de seus
preferidos, junto com Mineirinho. É um conto narrado em primeira pessoa. A narradora encontra-se
pela manhã na cozinha e avista um ovo. Essa visão é logo substituída pelas mais profundas reflexões.
Em um primeiro momento, reflete acerca da própria possibilidade de visão: “imediamente percebo que
não se pode estar vendo o ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se
torna ter visto um ovo há três milênios.”. O professor de literatura José Miguel Wisnik chega a dizer
que o conto é “um verdadeiro tratado poético do olhar, visão de um ovo arquetípico no ovo doméstico”.
Mas é possível ver o ovo? Ora ela diz que só vê o ovo que já o tiver visto, ora diz que ver o ovo é
impossível. Só as máquinas veem o ovo. O ovo é invisível. Partindo-se do ovo chegamos a Deus, que é
invisível. Possivelmente a autora esteja empregando a palavra ovo preenchida de diferentes
significados, tornando tal palavra confusa ou, no limite, incompreensível.
Ela continua: Não é possível entender o ovo. Entender o ovo denuncia erro por parte de quem
entendeu. Posteriormente ela declara amor ao ovo como alguém que nem sequer sabe que ama outra
coisa. Mas e a galinha? O ovo é a alma da galinha. A galinha é o disfarce do ovo. Ela existe para que o
ovo atravesse os tempos. O ovo é a cruz que a galinha carrega. Ovo é o sonho da galinha. Clarice faz
reflexões também sobre o amor: amor é pobreza. Amor é não ter. Amor é participar um pouquinho
mais. Amor não é prêmio. Amor é desilusão do que se acreditava ser amor. Há uma parte do conto que
parece mostrar um momento no qual a narradora se vê novamente na realidade, na cozinha, e aos
poucos volta a pensar (ou sonhar, pois ela diz que foi se adormecendo) e contemplar o ovo
metafisicamente. Essa transição entre percepção do ovo e reflexões acerca do ovo é nomeado pela
narradora de metamorfose: “De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e
meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora
de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo.
Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi
adormecendo”

Por meio de tais trechos percebe-se que a escritora permite que suas reflexões se substituam
umas às outras. Não há um compromisso com uma organização de ideias ou uma narração linear. Ela
parece realizar uma fiel transcrição de seus pensamentos que se substituem livremente em sua mente. E
cabe ao leitor tentar acompanhar os diversos significados assumidos pela palavra ovo, raciocinando ou
não raciocinando, pois como vimos, parece que nem Lispector conhece o melhor caminho. Talvez
acompanhar sentindo. E se por um lado isso deixa o conto confuso, por outro nos permite entrar no
mais íntimo “eu” da escritora. Um “eu” mágico? Caótico? Talvez uma mistura desses dois elementos e
diversos outros. Talvez essa contemplação tenha atingido um “eu” não conhecido muito bem nem por
Clarice. O que talvez explique o caráter misterioso do conto.
Mas se nos lembrarmos do que a escritora diz sobre o conto no texto Literatura e Magia, além
de misterioso, ele possui uma simbologia secreta. Seria possível atingirmos o mínimo de conhecimento
sobre tal simbologia? A Doutora em literatura Joelma Santana Siqueira consulta o verbete ovo do
Dicionário de Símbolos de Chavelier: “O ovo, considerado como aquele que contém o germe e a partir
do qual se desenvolverá a manifestação, é um símbolo universal e explica-se por si mesmo […] nas
tradições chinesas, antes de qualquer distinção entre o céu e a terra, o próprio caos tinha a aparência de
um ovo de galinha”. Será que isso explicaria o seguinte trecho: “Como a luz da estrela já morta, o ovo
propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo.
A você dedico a primeira vez. Ao ovo dedico a nação chinesa”? Mas mesmo que explique, seria apenas
um feixe de luz nessa escuridão narrada pela autora. Uma escuridão desafiadora, intrigante e talvez até
perigosa. Mas, mesmo assim, é uma honra voarmos junto com os pensamentos dessa brilhante
escritora.