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ANDREAS J.

KÕSTENBERGER

CONVITE A
NTERPRETAÇÃO

BÍBLICA
A tríade
hermenêutica
história, literatura e teologia

VIDA NOVA
O grande mérito desta obra de Kõstenberger e Patterson é sua apresentação
tridimensional da interpretação bíblica. Acertadamente, o livro se concentra
na história, na literatura e na teologia da Bíblia — o que os autores chamam de
tríade hermenêutica. Podemos chamar de hermenêutica em 3D real. O cordão
hermenêutico de três dobras não se rompe facilmente, mas sua compreensão se
torna fácil com este manual introdutório. Outro mérito é o alerta dos autores de
que interpretar a Bíblia não diz respeito apenas à aplicação de um método, mas se
trata de uma virtude: a humildade sincera perante o texto divino é tão importante
quanto qualquer procedimento intelectual.
Kevin J. Vanhoozer,
professor da cátedra Blanchard de Teologia, Wheaton College Graduate School

Estou tomado de profunda admiração. Aprendi muito com esse livro dinâmico.
Trata-se de uma obra de grande clareza e que resume os melhores princípios
de hermenêutica geral e de interpretação bíblica. Os alunos dos professores
Kõstenberger e Patterson, bem como seus leitores, são privilegiados de ter esse
manual tão erudito e perspicaz.
’ E. D. Hirsch, Jr.,
professor emérito de Educação e Humanidades, University of Virginia, e
fundador da Core Knowledge Foundation

Alguns temas são leitura obrigatória para os que levam a sério o estudo da Bíblia
— entre esses, a hermenêutica está em primeiro lugar. Alguns livros são leitura
obrigatória dentro de determinado tema — a obra de Andreas Kõstenberger
sobre hermenêutica é um desses. Trata-se de um livro claro, conciso e, ao mesmo
tempo, profundo, que consegue abranger a maioria das áreas necessárias. Por tudo
isso, ele é um guia inestimável para o estudante que caminha pelo labirinto de
questões que compõem a tarefa de interpretar a Bíblia, permitindo-lhe preencher
a lacuna entre compreender textos bíblicos em seu ambiente cultural original e
demonstrar a pertinência desses textos para os leitores modernos. Recomendo-o
entusiasticamente.
Grant Osborne,
professor de Novo Testamento, Trinity Evangelical Divinity School

Convite à Interpretação Bíblica está destinado a se tornar o livro-texto padrão de


faculdades e seminários em breve. Trata-se da melhor obra disponível na área
de hermenêutica bíblica. É abrangente em seu escopo e profundo em todos os
pontos necessários - além de muito bem escrito! Sem dúvida será meu texto de
apoio para ensinar hermenêutica bíblica.
Daniel L. Akin,
diretor e professor de Homilética e Teologia, Southeastern Baptist Theological
Seminary

Andreas Kõstenberger e Richard Patterson, dois brilhantes e experientes intér­


pretes das Sagradas Escrituras, produziram uma obra de primeira grandeza sobre
hermenêutica bíblica. Com abordagem peculiar, cujo foco é a “tríade herme­
nêutica”, esta magnífica publicação tem abrangência enciclopédica, organização
magistral e uma competente ênfase pedagógica. As análises claras de cada capítulo,
seguidas de bibliografias úteis e informativas, farão deste livro um valioso recurso
para estudantes, intelectuais e pastores nos próximos anos. Estou de fato muito
entusiasmado com o lançamento de Convite à Interpretação Bíblica.
David S. Dockery,
professor de Visão de Mundo e Tradição Cristã; diretor, Union University

Estou muito impressionado. Esta introdução à hermenêutica abrange todas as


bases — todas mesmo. Este livro deixará o leitor bem preparado para a tarefa da
interpretação séria.
Tremper Longman,
professor da cátedra Robert H. Gundry de Estudos Bíblicos, Westmont College

A presente introdução à hermenêutica se destaca por vários motivos: leva


plenamente em consideração a singular autoria divina da Bíblia; é clara, agra­
dável e sólida no aspecto doutrinário; atende ao estado espiritual do intérprete;
dá orientações detalhadas para o entendimento do ambiente histórico, das
características literárias e lingüísticas e do significado teológico de cada texto;
tem autoria conjunta de um professor de Antigo Testamento e um de Novo
Testamento; e enfatiza que a interpretação correta tem de culminar em aplicação
para a vida. Um livro excelente e que será amplamente utilizado como manual
padrão por muitos anos.
Wayne Grudem,
professor pesquisador de Teologia e Estudos Bíblicos, Phoenix Seminary
Este livro de interpretação bíblica combina a formação em exegese com um
conhecimento fundamental de hermenêutica. Incentiva a análise atenta de questões
históricas, literárias e teológicas. No que diz respeito à história, apresenta tabelas
cronológicas extremamente úteis e muita informação sobre a história cultural. Seu
foco literário inclui cânon, gênero e estilo. O aspecto teológico inclui a aplicação.
O gênero é importantíssimo. Por isso, no Antigo Testamento, distinguem-se narrativa,
poesia e sabedoria; no Novo, é feita a distinção entre parábolas, epístolas e apocalíptica.
A obra explica detalhadamente por que a interpretação responsável exige trabalho
árduo e laborioso. O livro foi escrito com muito bom senso, prudência e amor
pelas Escrituras. Recomendo-o, sobretudo, a estudantes, professores e também aos
pastores, pois ajuda todos nós a usarmos a Bíblia de maneira responsável e produtiva.
Anthony C. Thiselton,
professor de Teologia Cristã, University of Nottingham

Uma tarefa importante — talvez a principal — da hermenêutica é esclarecer o


significado dos textos. Esta obra de Kõstenberger e Patterson não apenas tem êxito
em elucidar os princípios e os métodos fundamentais da hermenêutica bíblica, mas
também é um modelo de como escrever um livro. Sua concepção, organização,
desenvolvimento sistemático e aplicações se unem para fazer desta obra a melhor
contribuição do gênero para a pesquisa bíblica. A linguagem é leve e despojada do
impenetrável “academiquês”. Tanto leigos quanto intelectuais encontrarão neste
livro um tesouro de prática hermenêutica saudável e sensata.
Eugene H. Merrill,
professor emérito de Estudos do Antigo Testamento, Dallas Theological Seminary

Não se deixe enganar pelo título; este não é um típico manual de hermenêutica.
Você, leitor, tem em mãos uma obra minuciosa que reúne, num só volume, os
subsídios para todo o processo exegético e se destina aos mais competentes alunos
de seminário, pastores e mestres. Além disso, o compêndio abrange, em detalhes,
tanto os tópicos introdutórios quanto os mais avançados; interage não só com
os estudos acadêmicos clássicos, mas também com os mais recentes. Particular­
mente notáveis e úteis são as exposições sobre a cronologia do Antigo Testamento,
a interpretação de Apocalipse, a análise do discurso, as falácias gramaticais, a
teologia bíblica e o método homilético. Recomendo com grande entusiasmo.
Craig L. Blomberg,
professor emérito de Novo Testamento, Denver Seminary
Esta é uma obra completa, clara e bem escrita, que aborda os princípios de
interpretação bíblica para a Bíblia inteira. Pode ser utilizada como excelente livro
didático, tanto em um curso avançado de hermenêutica, de nível universitário,
quanto em um curso introdutório da disciplina, em nível de seminário. Será tam­
bém de grande utilidade para os pastores, que nela encontram uma visão geral
dos princípios interpretativos para as diferentes partes da Bíblia sobre as quais
preparam seus sermões. O último capítulo é um precioso recurso para pastores e
seminaristas, pois aplica a abordagem interpretativa do livro ao ofício da pregação.
Os autores afirmam com propriedade que a hermenêutica deve ser enxergada
através da lente triádica formada por história, literatura e teologia. O livro não se
propõe a ser um compêndio teórico de hermenêutica, mas sim um guia prático
qualificado para interpretar os diferentes tipos de literatura que se encontram na
Bíblia. Por isso, cada capítulo termina com uma passagem em que os princípios
ali examinados são aplicados e ilustrados, seguida de Questões para aprofundar
o estudo e de importantes recursos bibliográficos pertinentes ao capítulo. Esta
obra é uma das melhores introduções gerais à interpretação da Bíblia na língua
vernácula e uma das mais completas que já li. Ao mesmo tempo que dá atenção
aos detalhes do método interpretativo, o livro reflete uma firme convicção na
veracidade absoluta da Escritura.
Gregory K. Beale,
professor de Novo Testamento e Teologia Bíblica,
Westminster Theological Seminary

O Convite à Interpretação Bíblica, de Kõstenberger, é isso mesmo — um precioso


convite para nos comprometermos com as Escrituras como a Palavra de Deus,
fazendo uso apropriado de todas as ferramentas disponíveis. Sua abordagem
triádica é nova e felizmente não reducionista. É uma obra abrangente e sinto­
nizada com as tendências acadêmicas contemporâneas e, ao mesmo tempo,
escrita e produzida de modo muito acessível a estudantes, pastores e professores.
Altamente recomendada.
Craig Bartholomew,
professor de Religião e Teologia, Redeemer University College

Na dança do trio história, literatura e teologia, enquanto os três elementos se


deslocam pela pista da interpretação bíblica, Kõstenberger e Patterson se sobressaem
na seleção e apresentação clara de enorme quantidade de material que abrange um
extenso leque de disciplinas correlatas. Escrito em estilo compreensível, o livro é,
ao mesmo tempo, acessível e amplo, prático e informado sobre os estudos contem­
porâneos acerca dessas questões difíceis. Das particularidades da gramática grega
e da análise do discurso a introduções proveitosas sobre o cânon, a teologia bíblica
e a aplicação adequada, encontram-se aqui orientações bem-vindas e confiáveis,
práticas adequadas e ferramentas necessárias para tratar o texto bíblico com a devida
responsabilidade e atitude espiritual reverente. Estou impressionado e mal consigo
esperar que o livro esteja nas mãos de meus alunos, que encontrarão nele um vasto
e precioso recurso, que irá orientá-los durante vários anos.
George H. Guthrie,
professor da cátedra Benjamin W. Perry de Bíblia, Union University

Convite à Interpretação Bíblica aborda a hermenêutica bíblica de uma forma


erudita, profunda e reverente para com as Escrituras, assentando os fundamen­
tos para a genuína pregação expositiva. De acordo com a “tríade hermenêutica”,
que contempla o ambiente histórico-cultural, os aspectos literários e a men­
sagem teológica do texto pregado, o livro fornece um tratamento equilibrado,
mesmo quando investiga a maioria dos temas discutidos na hermenêutica bíblica
contemporânea. Apoiado numa boa pesquisa, a obra é bem documentada, bem
escrita, bem ilustrada e clara. De fácil uso pelos alunos, este manual não é apenas
um excelente texto de hermenêutica bíblica para um seminário, mas também é
útií para o estudo independente. Recomendo-o com entusiasmo a todos os que
desejam pregar e ensinar a Palavra fiel e corretamente.
Sidney Greidanus,
professor emérito de Pregação, Calvin Theological Seminary

Temos aqui de fato um convite entusiasmado a interpretar a Bíblia de modo


responsável, apaixonado e prático. Mostrando aos leitores como investigar o
contexto, a literatura e a teologia dos livros bíblicos, os autores fornecem um
guia para todas as fases da interpretação. A obra culmina com instruções parti­
cularmente úteis sobre como passar do estudo do texto à elaboração do sermão.
Os principiantes não devem desanimar diante do tamanho do volume. Embora
seja abrangente em extensão e alcance, o estilo de escrita e os auxílios práticos no
final de cada capítulo garantem que os conceitos transmitidos sejam facilmente
compreendidos até por leigos no assunto. Se os estudiosos das Escrituras estão
procurando um livro único a que possam recorrer para obter ajuda prática na
interpretação, este é o livro que devem adquirir. Agradeço à editora por publicar
essa obra para nós.
Daniel I. Block,
professor da cátedra Gunther H. Knoedler de Antigo Testamento, Wheaton
College

Este livro concentra uma mina de sabedoria de dois autores experientes cujo
conhecimento abarca os dois Testamentos. Os capítulos são atuais sem sucum­
bir à moda. Cuidou-se tanto da teoria quanto da prática da interpretação das
Escrituras, obrigatórias em vista do título. Contudo, o elemento novo deste volume
é pelo menos duplo: 1) privilegia abertamente a visão de que as Escrituras são um
registro da história que produziu literatura, que, por sua vez, transmite a teologia
de importância redentora eterna; 2) encontra equilíbrio entre os três elementos
com estilo agradável e cativante. Nenhum livro sobre o assunto consegue dar
conta de tudo. Este, porém, é um recurso didático inigualável que defende a sua
posição em prol de uma leitura triádica num nível que não é nem excessivamente
elementar nem utopicamente avançado. Convite à Interpretação Bíblica vai ajudar
a aprimorar o ensino dessa disciplina e atrair os alunos para a aventura de navegar
pelas águas da hermenêutica.
Robert W. Yarbrough,
professor de Novo Testamento, Covenant Theological Seminary

O campo da interpretação e hermenêutica bíblica é vasto e complicado. Portanto,


não se pode culpar os leigos no assunto por acharem que ela transforma qualquer
aspiração de ler, entender e pregar a Bíblia num esforço praticamente inútil. Por
isso, como amador que sou, fico feliz de poder recomendar este novo livro de
Andreas Kõstenberger e Richard Patterson. Em capítulos profundos, mas escritos
de forma clara, os autores guiam o leitor pelo bosque cerrado da teoria. Ainda
assim, nunca se desviam da tarefa principal de comunicar o conhecimento e as
técnicas que tornam a Bíblia mais compreensível e, acima de tudo, mais fácil
de pregar. Todos — desde o mais modesto leitor da Bíblia até o pregador mais
capacitado — encontrarão neste livro conhecimentos úteis e elementos que os
ajudarão a desvendar ainda mais as riquezas da Palavra de Deus para sua vida e
seu ministério. Um livro para professores e alunos.
Carl Trueman,
Decano, Westminster Theological Seminary
Organizado como manual para seminário, este livro é um tratado com excelente
pesquisa e máxima atualidade sobre o método e as disciplinas — históricas e
canônicas, literárias e lingüísticas, teológicas e aplicativas — da interpretação bí­
blica sólida. É um excelente recurso. Merece um lugar na estante de todo pregador.
J. I. Packer,
professor da cátedra Lord of Governors de Teologia, Regent College

Temos aqui a solução para o estudante que quer os resultados do estudo acadêmico
sólido na área da hermenêutica sem ter de passar por todos os debates filosófi­
cos que agora dominam a área. Para o estudante de teologia (e o leitor zeloso da
Bíblia) Kõstenberger e Patterson elaboraram e organizaram de forma lógica um
guia abrangente, mas não complicado, para interpretar as Escrituras. Este livro
não apenas provê um excelente curso básico de hermenêutica, mas também serve
de precioso e prático manual de consulta para estudantes, mestres e pregadores
da Palavra de Deus.
Graeme Goldsworthy,
professor visitante de Hermenêutica, Moore College

Andreas Kõstenberger e Richard Patterson produziram uma introdução à


hermenêutica bíblica ao mesmo tempo abrangente e acessível, repleta de exemplos
úteis do processo exegético. Abordando a Bíblia com a “tríade” hermenêutica,
constituída de história, literatura e teologia, os autores levam em consideração
a natureza das Escrituras como discurso divino proferido por meio de autores
humanos, utilizando-se de diversos gêneros, culturas, ambientes e línguas, inte­
grados ao longo da história. O trabalho de pesquisa é muito bom, a obra é bem
organizada e bem escrita. É um excelente texto para seminários e cursos univer­
sitários de interpretação bíblica.
Mark L. Strauss,
professor de Novo Testamento, Bethel Seminary San Diego

Visto que as Escrituras são a Palavra de Deus, é imperativo que a interpretemos


com fidelidade e precisão. Kõstenberger e Patterson fizeram uma obra abrangente,
repleta de sabedoria e bom senso, que dá aos leitores a proficiência para serem
intérpretes hábeis das Escrituras. Os autores não apenas explicam as regras da
hermenêutica, mas também fornecem muitos exemplos úteis, de modo que o
leitor também assimila uma dose considerável de teologia bíblica neste inesti­
mável livro didático.
Thomas R. Schreiner,
professor da cátedra James Buchanan Harrison de Interpretação do Novo
Testamento, Southern Baptist Theological Seminary

É importante entender o que este livro não é. Apesar do tamanho, ele não é um
guia exaustivo de hermenêutica avançada. Antes, o tamanho se deve ao fato de
se tratar de uma introdução aprofundada e diligente, com muitos exemplos, aos
elementos (geralmente) baseados no senso comum que fazem parte da interpre­
tação bíblica fiel. O estudo passo a passo é mecânico demais, se alguém pensa
que, na vida real, essas seqüências garantem uma compreensão precisa e amadu­
recida do que a Bíblia diz; mas será uma enorme ajuda para os que estão dando
os primeiros passos rumo à identificação dos muitos elementos que compõem o
juízo interpretativo correto.
D. A. Carson,
professor e pesquisador de Novo Téstamento, Trinity Evangelical Divinity School

A interpretação bíblica é uma área de estudo muito ampla e de equilíbrio delica­


do. Este volume, repleto de explicações, quadros, diagramas, questionários para
aprofundar o estudo, exercícios e exemplos de exegese de diversas passagens,
reflete essa realidade. Kõstenberger e Patterson constroem o tratamento do
assunto sobre a convicção de que as Escrituras servem para nossa instrução, e a
tríade hermenêutica, formada por história, literatura e teologia, fornece a estru­
tura funcional para alcançar esse objetivo. Obviamente elaborada com base nos
muitos anos de experiência docente dos autores, esta obra é, de fato, um Convite
para que mestres, pregadores e diligentes estudantes das Escrituras desfrutem de
um generoso banquete de entendimento da Bíblia.
C. Hasself-Bullock,
professor emérito da cátedra Franklin S. Dyrness de Estudos Bíblicos,
Wheaton College

Kõstenberger e Patterson compuseram uma obra notável sobre interpretação


bíblica. O livro abrange três áreas importantes da interpretação: o contexto histó­
rico da revelação de Deus, os aspectos literários do texto e a natureza teológica da
comunicação de Deus para nós. A observação desses três aspectos abre o mundo
das Escrituras. Os autores fornecem inúmeros exemplos e incentivos para que
o leitor penetre no texto. Trata-se de um livro que todos os estudantes da
Bíblia gostarão de ler para encontrar a Deus de uma nova maneira, mediante sua
Palavra escrita.
Willem A. VanGemeren,
professor de Antigo Testamento, Trinity Evangelical Divinity School

Este livro é mais um presente de um dos meus estudiosos da Bíblia favoritos.


Pode haver algo mais importante do que aprender a interpretar e aplicar a Bíblia
corretamente?
Pastor Mark Driscoll,
Mars Hill Church, The Resurgence, Rede de Plantação de Igrejas Atos 29

A tarefa de interpretar a Palavra do Senhor é arriscada, e tem sido assim desde


que nossos ancestrais primevos aceitaram a orientação hermenêutica de um
demônio. Este livro, escrito por dois dos mais importantes estudiosos da Bíblia
no cristianismo atual, é um guia firme e seguro pelos caminhos mais difíceis da
leitura, interpretação e comunicação da Bíblia. Leia-o e se prepare para ouvir mais
uma vez o Espírito falando nas Escrituras.
Russel D. Moore,
decano, Southern Baptist Theological Seminary

Temos aqui um livro de hermenêutica especialmente voltado para a instrução dos


alunos nos fundamentos da interpretação da Bíblia. Ele evita a discussão filosófica
e carregada de jargões na relação entre o leitor e o texto. Antes, apresenta ao aluno
um método objetivo para descobrir o que um texto significa. Apesar disso, não é
apenas um manual “prático”; ele demonstra que cada texto bíblico deve ser lido
como uma amostra do mundo bíblico, não apenas como palavras e frases a serem
analisadas. Um texto deve ser analisado por uma espécie de triangulação, que o
enxerga no seu contexto histórico, literário e teológico. Isso, por sua vez, permite
que o aluno compreenda o sentido histórico, literário e teológico do texto. No
percurso, Kõstenberger e Patterson apresentam aos alunos uma introdução com­
pleta, mas concisa, aos conceitos que compõem o mundo da hermenêutica bíblica.
Duane Garretl,
professor da cátedra John R. Sampey de Interpretação do Antigo Testamento,
Southern Baptist Theological Seminary
Convite à Interpretação Bíblica tem tudo para se tornar o novo manual de herme­
nêutica padrão para seminários e faculdades evangélicas. Kõstenberger e Patterson
guiam com fidelidade os leitores através do terreno vasto e diversificado do cânon
bíblico. Com perícia, eles proveem os leitores de todas as ferramentas históricas,
literárias e teológicas necessárias para a tarefa da exegese, como parte da jornada
interpretativa. No percurso, eles mostram indicadores pertinentes e, vez por outra,
fazem uma parada para se aprofundar no texto com percepções apuradas. Come­
çam com o amplo espectro do cânon e, de forma brilhante, entremeiam questões
de hermenêutica geral e especial, enquanto constroem uma teoria hermenêutica
robusta. Este compêndio de hermenêutica concorre com as respeitadas obras de
Fee e Stuart ou de Duvall e Hays, ou quem sabe as supere.
Alan S. Bandy,
professor assistente da cátedra Rowena R. Strickland de Novo Testamento,
Oklahoma Baptist University

Os autores nos brindam com um tesouro de informações, métodos, procedimentos


e reflexões que vão ajudar qualquer pessoa que queira ler a Bíblia com zelo e se
aprofundar em suas riquezas. Provido de muitos exemplos e advertências, o livro
conduz os leitores com bom senso durante a tarefa de interpretação, sob a tutela
atenta de Kõstenberger e Pattersom moldada por seus longos anos de experiência.
John H. Walton,
professor de Antigo Testamento, Wheaton College

Hermenêutica é sem dúvida uma disciplina difícil de ensinar. Kõstenberger e


Patterson tornaram essa tarefa um pouco mais fácil com seu surpreendente livro
didático sobre a matéria. O método claro e objetivo que os autores usam para
interpretar a Bíblia tem por base a “tríade hermenêutica”, que estuda as Escrituras
da perspectiva de seu contexto histórico, seus traços literários e lingüísticos e de
sua mensagem teológica. Fácil de consultar e rico em exemplos, Convite à Inter­
pretação Bíblica vai ajudar os estudantes de teologia a serem melhores intérpretes
da Bíblia. Uma excelente obra!
Terry L. Wilder,
professor de Novo Testamento, Southwestern Baptist Theological Seminary

Bem concebido e bem escrito, este livro apresenta conceitos introdutórios e avan­
çados de um modo sistemático, o que o torna adequado para uso de seminaristas e
universitários. Os autores são veteranos estudiosos dignos de confiança e mestres
do ensino. Recomendo-o com entusiasmo a professores, alunos, pastores e leigos
que ensinam na igreja.
Paul House,
professor de Teologia e Antigo Testamento, Beeson Divinity School

Convite à Interpretação Bíblica é uma contribuição bem-vinda para aqueles que


procuram ir além dos “fundamentos” da hermenêutica, dedicando-se a um estudo
mais reflexivo do texto bíblico. Sua ênfase na “tríade hermenêutica”, constituída de
história, literatura e teologia, resulta numa abordagem abrangente da interpretação
bíblica que praticamente não deixa nenhum tópico de fora. O livro fornece uma
ampla bibliografia e orienta os alunos a criar sua própria biblioteca bíblica e teológica.
Por fim, Kõstenberger e Patterson insistem em que o exegeta passe da interpretação
para a aplicação e a proclamação — uma boa lembrança de que a hermenêutica
nunca deve ser um fim em si mesma, mas uma ferramenta para transformar a vida.
Bryan Beyer,
professor de Antigo Testamento, Columbia International University

Em Convite à Interpretação Bíblica, Andreas Kõstenberger e Richard Patterson


condensam seus muitos anos de ensino de hermenêutica num manual de interpre­
tação interessante e fiel. A tarefa de elaborar um livro didático do qual se pudesse
extrair o máximo em sala de aula certamente exigiu muita reflexão. Minhas boas-
vindas a este excelente livro.
Robert L. Plummer,
professor adjunto de Interpretação do Novo Testamento, Southern Baptist
Theological Seminary

Os manuais de hermenêutica às vezes ocultam ao invés de revelar o significado da


Bíblia. Convite à Interpretação Bíblica esclarece brilhantemente as Escrituras, dando
a devida atenção a seus horizontes histórico, literário e teológico. O livro é perspi­
caz, abrangente e escrito com muita clareza. Tenho certeza de que este livro será
um texto padrão para muitas universidades, seminários e faculdades de teologia.
Heath Thomas,
professor assistente de Antigo Testamento e Hebraico, Southeastern Baptist
Theological Seminary; pesquisador em Estudos do Antigo Testamento, The
Paideia Centre for Public Theology
O grego e o hebraico são ferramentas de valor inestimável para a exegese.
Entretanto, sem uma abordagem equilibrada, embasada e coerente da interpreta­
ção das Escrituras, o uso dessas ferramentas pode se transformar em pretexto para
a eisegese, ao invés da exegese. Desse modo, o texto passa a ser tudo aquilo que
o leitor deseja que ele signifique, e as línguas bíblicas podem ser extremamente
mal empregadas. Kõstenberger e Patterson elaboraram uma extraordinária obra,
que aproveita os conceitos acadêmicos de livros de hermenêutica avançada e os
simplifica para que o seminarista dedicado (e mesmo o aluno de graduação) possa
entender. Os autores expõem os conceitos difíceis de modo claro para a exegese
séria e eficaz. Este livro deve ser amplamente adotado nos cursos de interpretação
bíblica de seminários e bacharelados. Recomendo entusiasticamente.
David A. Croteau,
professor adjunto de Estudos Bíblicos, Liberty University

Kõstenberger e Patterson nos deram um método hermenêutico bem acabado,


confiável e inteligente. Tal método explica com clareza os aspectos histórico, lite­
rário e teológico. Trata-se evidentemente do resultado de anos de estudo zeloso
e aprofundado. Tanto estudantes quanto pastores encontrarão neste livro um
tesouro de sabedoria e conhecimento. Kõstenberger e Patterson nos convidam a
estudar a Bíblia, e nossa melhor decisão é aceitar o convite.
Benjamin L. Merkle,
professor adjunto de Novo Testamento e Grego, Southeastern
Baptist Theological Seminary

Combinando clareza e elegância, precisão e sensibilidade pastoral, Kõstenberger e


Patterson nos brindaram com uma introdução à interpretação bíblica que é firme
na convicção, sem ser estridente no tom. A tríade hermenêutica constituída por
história, texto e teologia, apresentada de uma maneira que se desloca do contex­
to maior (cânon) para as especificidades (palavras), presumindo assim, desde o
início, uma narrativa coerente, unificada e divinamente determinada, alcançará seu
objetivo — produzir obreiros que não têm de que se envergonhar, que manejam
bem a palavra da verdade.
Dane Ortlund,
editor-chefe, Crossway Books
Nas páginas deste livro, o leitor encontrará uma impressionante cobertura de
fontes primárias e secundárias relacionadas à interpretação da Bíblia, o compro­
misso idôneo com assuntos pertinentes à tarefa hermenêutica e um pacote de fácil
utilização pelo aluno e muito prático para o professor. Essa investigação fiel da
tríade hermenêutica, composta de história, literatura e teologia, merece ser lida
por todos e aproveitada em todos os seus recursos.
Jim Hamilton,
professor adjunto de Novo Testamento, Southern Baptist Theological Seminary

História bíblica, introdução ao Antigo e ao Novo Testamento, análise literária de


gênero e forma, método lingüístico, teologia bíblica e aplicação à vida atual —
Kõstenberger e Patterson oferecem ao estudante evangélico iniciante tudo isso
num único manual competente, conservador e orientado pelo contexto em todas
as partes. Mostrando a relação crucial entre história, texto e teologia, o trabalho
dos autores fornece um ponto de partida firme e seguro para que o estudante se
lance pela primeira vez ao estudo das Escrituras!
Scott Hafemann,
professor emérito da cátedra Mary F. Rockefeller de Novo Testamento,
Gordon-Conwell Theological Seminary
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Kõstenberger, Andreas J.

Convite à interpretação bíblica: a tríade hermenêutica/Andreas


J. Kõstenberger, Richard D. Patterson; tradução de Daniel H. Kroker,
MarcusThroup, Thom as de Lima. - São Paulo: Vida Nova, 2015.
800 p.

Bibliografia.
ISB N 978-85-275-0582-6
Título original: Invitation to Biblical Interpretation: Exploring
the Hermeneutical T riaJ o f History, Literature, an d Theology

1. Bíblia - Interpretação 2. Hermenêutica I. Título. II. Oatterson,


Richard D . III. Kroker, Daniel H. IV. Throup, Marcus Lima,
Thom as de

14-0427 C D D 220.601

Índice para catálogo sistemático:


1. Bíblia —Interpretação
ANDREAS J. KÕSTENBERGER

RICHARD D. PATTERSON

CONVITE À
INTERPRETAÇÃO

BÍBLICA
A tríade
hermenêutica
| história, literatura e teologia |

Tradução
Daniel Hubert Kroker (páginas iniciais, capítulos 2 -4 , 6, 7 e 10)
Thom as de Lima (capítulos 1,5,8, 9 e 11)
M arcusThroup (capítulos 12-16, páginas finais)

VIDA NOVA
Copyright ©2011, de Andreas Kõstenberger e Richard D. Patterson
Título original: Invitation to Biblical Interpretation: Exploring the Hermeneutical
triad o f History, Literature, and Theology, traduzido da edição publicada pela K regel
P u b l i c a t i o n s , uma divisão de K r e g e l I n c . (Grand Rapids, Michigan, e u a ).

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


S o c i e d a d e R e l i g i o s a E d i ç õ e s V id a N o v a ,
Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970
www.vidanova.com.br |vidanova@vidanova.com.br

1.* edição: 2015

Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em


citações breves, com indicação da fonte.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Todas as citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Século 21 (A21),


salvo indicação em contrário.

Su p e r v is ã o E d it o r ia l
Marisa K. A. de Siqueira Lopes
C o o r d e n a ç ã o E d it o r ia l
Daniel de Oliveira
Fabiano Silveira Medeiros
E d iç ã o de t ex to

Lucília Marques
Wilson Ferraz de Almeida
C o p id e s q u e
Lenita Ananias
R e v is ã o de P ro va s
Gustavo N. Bonifácio
Rosa M. Ferreira
Pa d r o n i z a ç ã o
Curtis A. Kregness
Josemar de Souza Pinto
Rosa M. Ferreira
Tatiane Souza
C oorden ação de Produção
S é r g io S iq u e ir a M o u r a

D ia g r a m a ç ã o

L u c in a D i Io r io

C a pa
OM Designers Gráficos
A todos os intérpretes fiéis da palavra de
Deus, Agostinho, Lutero, Calvino, Schlatter,
e aos nossos colegas e alunos, que se
esforçam para dar o melhor de si no estudo,
a fim de se apresentarem aprovados por
Deus, manejando bem a palavra da verdade
(2Tm 2.15).
SUMÁRIO

Prefácio...........................................................................................................................21
Nota pessoal aos professores, alunos e leitores.......................................................... 23
Esboço detalhado.......................................................................................................... 31
Abreviaturas................................................................................................................. 49

PREPARAÇÃO: O QUEM, O PORQUÊ E O COMO DA INTERPRETAÇÃO


Capítulo 1: Bem-vindo à tríade hermenêutica: história, literatura
e teologia................................................................................................57

INTERPRETAÇÃO: A TRÍADE HERMENÊUTICA


P r im e ir a p a r t e — O c o n t e x t o d a s E s c r it u r a s : h is t ó r ia

Capítulo 2: Apresentando o cenário: o contexto histórico-cultural............. 93

S e g u n d a p a r t e — O f o c o d a s E s c r it u r a s : l it e r a t u r a

Un i d a d e i : o c â n o n

Capítulo 3: O cânon do Antigo Testamento: a Lei, os Profetas e


os Escritos............................................................................................. 149
Capítulo 4: O cânon do Novo Testamento: os Evangelhos, Atos,
as Epístolas e Apocalipse.................................................................. 199

U n id a d e 2: g ê n e r o
Capítulo 5: Uma boa história: a narrativa histórica do Antigo Testamento.225
Capítulo 6: A palavra do sábio: poesia e sabedoria.......................................... 251
Capítulo 7: De volta para o futuro: profecia...................................................... 301
Capítulo 8: Ouvindo as boas-novas: a narrativa histórica do
Novo Testamento (os Evangelhos e Atos)..................................... 343
Capítulo 9: Um chamado ao discernimento: parábolas.................................. 393
Capítulo 10: Como manda a carta: as epístolas................................................ 423
Capítulo 11: Visões do fim: literatura apocalíptica (o Apocalipse)..............479

Un id a d e 3 : l in g u a g e m

Capítulo 12: A importância do contexto: gramática, sintaxe e discurso ....535


Capítulo 13: O significado das palavras: lingüística, semântica e
falácias exegéticas.............................................................................579
Capítulo 14: Um modo de falar: interpretação da linguagem figurada..... 615

T e r c e ir a p a r t e — O a l v o : t e o l o g ia
Capítulo 15: Como fazer a associação: extraindo nossa teologia
da Bíblia.............................................................................................643

APLICAÇÃO E PROCLAMAÇÃO: A PALAVRA DE DEUS GANHA VIDA


Capítulo 16: Pés no chão: utilizando as ferramentas, pregando e
aplicando a Palavra......................................................................... 675

Montando uma biblioteca de estudos bíblicos........................................................749


Glossário......................................................................................................................775
índice de assuntos....................................................................................................... 791
PREFÁCIO

E
screver um texto de hermenêutica não é tarefa simples. Tendo ministrado
cursos de interpretação bíblica em nível de graduação, mestrado e dou­
torado durante muitos anos, podemos testemunhar que hermenêutica é
um dos temas mais difíceis de ensinar — mas também um dos mais importantes.
O presente livro é dedicado a todos aqueles que estudam as Escrituras com serie­
dade e estão dispostos a fazer o que for preciso — até aprender as línguas bíblicas,
se Deus der oportunidade — para compreender a Palavra de Deus e ensiná-la a
outros com fidelidade.
Agradecemos todo o apoio e carinho de nossas respectivas esposas, Margaret e
Ann, enquanto escrevíamos o livro. Elas têm permanecido ao nosso lado fielmente
durante vários anos. A elas, a nossa gratidão! Agradecemos também aos alunos que
suportaram com paciência vários estágios de esboços e versões quase finais deste
manuscrito. Seus comentários e sugestões melhoraram o livro, que esperamos, seja
ainda mais útil para as novas gerações de estudantes. Também somos gratos a Jim
Weaver, da Kregel Publications, por autorizar a obra.
Eu, Andreas Kõstenberger, gostaria também de expressar minha gratidão a
meu estimado colega e amigo Dick Patterson, por embarcar comigo na aventura
de escrever este texto. Eu não poderia querer um colaborador melhor, proficiente
e ao mesmo tempo comprometido com a análise dos aspectos histórico, literário e
teológico das Escrituras. Foi um enorme privilégio trabalhar com você, Dick, e seu
saber maduro é um exemplo admirável para outros imitarem.
Tenho também uma dívida de gratidão para com aqueles que, pela instrução
e pelo exemplo, ensinaram-me a interpretar a Bíblia: meu primeiro professor de
hermenêutica, Robertson McQuilkin; meu instrutor de exegese em grego, William
Larkin; meu professor de hermenêutica avançada, Grant Osborne; e meu orien­
tador de doutorado, D. A. Carson. Embora eu mesmo tenha decidido que rumo
tomar, o fato de ter me apoiado nos ombros desses gigantes espirituais permitiu-me
enxergar mais longe do que se não tivesse essa base. The Hermeneutical Spiral, de
Grant Osborne,1 e Exegetical Fallacies, de D. A. Carson,2 sobretudo, causaram um
impacto permanente em mim, e em muitos aspectos este volume representa uma
homenagem à influência desses homens na minha formação.
Eu, Dick Patterson, quero agradecer a meu notável e respeitado colega e amigo,
Andreas Kõstenberger, por sua visão, direção e dedicação à conclusão deste texto.
Tirei muito proveito da interação com os frutos de seu compromisso com o saber
acadêmico e foi um prazer colaborar com ele em nosso interesse mútuo pela “tríade
hermenêutica”. Foi um privilégio ser convidado para servir com você, Andreas. Sua
ampla experiência e o compromisso com Cristo estabeleceram um alto padrão para
todos nós seguirmos.
Gostaria também de agradecer ao excelente corpo docente de pós-graduação
da UCLA (Universidade da Califórnia) por suas contribuições à minha formação,
em meus primeiros anos, em especial a Giorgio Buccellati e ao meu querido mentor
e professor de grego e teologia, Marchant King. Cada um deles não só transmitiu
conhecimentos essenciais, mas também compartilhou comigo o amor pela matéria
que ensinava e a própria vida. Agradeço ainda as contribuições de muitos colegas
da Evangelical Theological Society, cujo compromisso com Cristo e sua Palavra
tem me servido de exemplo motivador para fazer da Palavra de Deus o manual da
minha vida (Sl 119.111).
Por fim, nós dois gostaríamos de expressar nossa gratidão a Liz Mburu, Corin
Mihaila e Alan Bandy, que escreveram com muita competência os primeiros es­
boços dos capítulos sobre os Evangelhos e as parábolas, as Epístolas e o material
apocalíptico. Michael Travers redigiu um excelente primeiro esboço do capítulo
sobre linguagem figurada, e Scott Kellum esboçou o último capítulo sobre aplicação
(agradecimentos especiais a Scott, que fez isso em prazo muito curto e com esmero).
Chip McDaniel contribuiu com material sobre o estudo de palavras hebraicas, e
Mark Catlin contribuiu para o capítulo sobre o contexto histórico. Mark também
se empenhou e preparou com competência os índices. John Burkett, o diretor de
nosso centro de redação, gentilmente leu todo o manuscrito e fez várias sugestões
úteis para melhorar o texto.
Soli Deo gloria.

‘Edição em português: A Espiral Hermenêutica: uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica


(São Paulo: Vida Nova, 2009).
2Edição em português: Os Perigos da Interpretação Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2001).
NOTA PESSOAL AOS PROFESSORES,
ALUNOS E LEITORES

E
ste livro procura ensinar um método simples para interpretar a Bíblia.
Esse método implica preparação, interpretação e aplicação. O método de
interpretação se constrói com base na tríade hermenêutica, que consiste
em história, literatura e teologia. Basicamente, nossa proposta central é: dada uma
passagem das Escrituras, você deverá estudar o ambiente histórico, o contexto
literário e a mensagem teológica. Antes de falar mais um pouco a respeito da tríade
hermenêutica e de como ela funciona na prática, talvez seja útil explicar como
este texto se relaciona com os textos de hermenêutica anteriores.
Esta é, no mínimo, a terceira figura geométrica usada no contexto da herme­
nêutica. A primeira foi o círculo hermenêutico (a noção de que a compreensão de um
texto no todo fornece a estrutura adequada para compreender as partes individuais
e vice-versa). Depois veio a espiral hermenêutica (a noção de que “a interpretação
bíblica implica uma espiral do texto para o contexto, de seu significado original
para sua contextualização ou significado na igreja de hoje”).1 Agora, finalmente,
vem a tríade hermenêutica: a proposta de que a história, a literatura e a teologia
fornecem a estrutura adequada para a interpretação bíblica.
Apesar de ser uma terminologia nova — até onde eu saiba, sou o primeiro a
usar o termo “tríade hermenêutica” —, a prática concreta de estudar as Escrituras
pela ótica da história, da literatura e da teologia certamente não é. Pelo contrário, o
número de estudiosos que discutem o estudo das Escrituras dessa perspectiva é cada
vez maior. Tremper Longman e Raymond Dillard, por exemplo, em Introduction

'Definição da p. 22 do livro The Hermeneutical Spiral.


to the Old Testament,2estudam regularmente um dado livro do Antigo Testamento
sob as rubricas de “Contexto Histórico”, “Análise Literária” e “Mensagem Teológica”.
O mais notável talvez seja N. T. Wright, que em vários de seus escritos, entre eles
The New Testament and the People ofG od [O Novo Testamento e o Povo de Deus],
usa essa classificação.
De fato, Wright é um mestre nisso. Em suas duas obras sobre Jesus e Paulo,
ele fundamenta seu estudo em extensa pesquisa histórica sobre o judaísmo do
Segundo Templo e do primeiro século. Também fala sempre da “história de Israel”
e da “história cristã”, agregando uma enorme quantidade de reflexões de estudos
literários recentes; acima de tudo, porém, Wright prioriza a teologia, buscando
discernir, em seu estudo, a mensagem divina dos aspectos histórico e literário do
texto bíblico. Nesse modo de conceber a tarefa hermenêutica, somos completamente
solidários com Wright (apesar de divergirmos em alguns detalhes interpretativos!).
Também concordamos com Wright em que o realismo crítico (a noção de que os
textos podem representar e representam corretamente os objetos, propriedades e
eventos externos) é a melhor maneira de captar a essência da abordagem que se
deve usar no estudo bíblico.
Kevin Vanhoozer, na influente obra The Drama o f Doctrine [O Drama da
Doutrina], escreve; “Primeiro, a fim de fazer justiça a esses textos, precisamos
abordá-los em diferentes níveis: histórico, literário e teológico”. Em muitos aspectos,
o presente manual representa uma concretização bíblico-teológica da proposta de
Vanhoozer da “abordagem canônico-linguística”. Assim, ao falarmos de uma tríade
hermenêutica, estamos recorrendo a uma teoria e prática interpretativa consagrada.
Essas três propostas — o círculo hermenêutico, a espiral hermenêutica e a tría­
de hermenêutica — não são mutuamente excludentes, nem uma é necessariamente
superior às outras. Na verdade, cada figura geométrica comunica uma percepção
legítima. O círculo hermenêutico cria o importantíssimo princípio interpretativo
de compreender cada parte das Escrituras em relação a toda a mensagem bíblica.
A espiral hermenêutica sublinha a importância de transportar o texto antigo para o
ambiente cultural de hoje. Sem aplicação, a interpretação não está completa. A tría­
de hermenêutica, por sua vez, indica a estrutura triádica da tarefa interpretativa,
observando que o intérprete da Bíblia se defronta com três realidades inescapáveis:
a história, o texto (i. e., a literatura) e a teologia (revelação divina). Deus se revelou
na história, e os textos bíblicos exigem interpretação especializada, com atenção

2Edição em português: Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2005).
prudente à localização canônica, às características de gênero e aos aspectos lin­
güísticos (entre eles o significado de palavras e as relações gramaticais) do texto.
Ao começar com o contexto maior ou categoria mais ampla, o cânon, passando
para o gênero (ainda uma categoria muito ampla) e finalmente para o estudo de
uma unidade literária concreta em seu contexto discursivo (com atenção especial às
palavras específicas empregadas), nosso método incorpora o princípio de interpretar
as partes (palavras) em relação ao todo (cânon e gênero). Fazendo todo o percurso
a partir da história (a fundamentação histórico-cultural de determinada passa­
gem bíblica) até a aplicação para os dias atuais (o último capítulo de nosso livro),
atendemos à maior preocupação dos proponentes da espiral hermenêutica — de
que a interpretação não está completa enquanto não aplicamos nossas descobertas
interpretativas à nossa própria vida e à de nossa congregação.
Dito isso, observe-se que há uma diferença acentuada entre o fluxo adotado
em nosso livro e o procedimento convencional. Muitos livros — The Hermeneutical
Spiral [A Espiral Hermenêutica] é um exemplo típico — passam da hermenêutica
geral à especial, com base na premissa de que, sendo um produto da comunicação
humana, a Bíblia deve ser interpretada como qualquer outro texto de comunicação
humana: estudo das palavras, análise da sintaxe, exame do contexto histórico e assim
por diante (hermenêutica geral). Em seguida, passam à hermenêutica especial:
estudo dos vários gêneros bíblicos, tanto do aspecto literário quanto do teológico.
Neste livro, viramos a opinião geral de cabeça para baixo: ao invés de passar da
hermenêutica geral à especial, passamos da especial à geral. Ao fazer isso, estamos
nos baseando na enorme quantidade de estudos recentes acerca da importância do
cânon, da teologia, da metanarrativa e das Escrituras como “teodrama”. (Também
seguimos o princípio hermenêutico elementar, mencionado antes, de interpretar
as partes à luz do todo.)
Por conseguinte, não começamos com as palavras; começamos com o cânon.
É assim que interpretaríamos também, por exemplo, uma peça de Shakespeare.
Não analisamos apenas as palavras de determinada frase; primeiro procuramos
aprender mais sobre Shakespeare, seu ambiente histórico-cultural, a época em
que ele escreveu, pesquisando suas principais obras, e assim por diante, antes de
finalmente nos decidirmos por uma peça em particular. Mesmo nesse momento
podemos ler um bom resumo antes de enfim começar a ler a peça. Se nos depa­
ramos com uma palavra desconhecida, não paramos de ler, porque estamos mais
preocupados em seguir o fluxo geral do que em identificar significados de palavras
individuais. Portanto, não começamos pela análise dos detalhes do texto bíblico
(estudo de palavras); começamos pelo todo (o cânon).
Além disso, não começamos fingindo que a Bíblia é semelhante a qualquer
outro livro, porque não acreditamos que seja. Antes, nosso propósito aqui não é
estudar qualquer forma de comunicação humana; nossa meta é estudar a Bíblia — a
inerrante e inspirada Palavra de Deus. Em última análise, este é o cânon de Deus,
transmitido em gêneros planejados por Deus, e a comunicação dos discursos de Deus
por intermédio das palavras de Deus (sem, obviamente, negar a instrumentalidade,
o estilo e a autoria humanos). Por isso, não deixamos para apresentar a noção de
que a Bíblia é “especial” em algum momento posterior no processo interpretativo
(como se ela não fosse importante nos estágios iniciais da hermenêutica geral), mas
a colocamos na frente e no centro da organização do livro.
Já outros livros, tais como o clássico How to Study the Biblefor Ali Its Worth,
de Gordon Fee e Douglas Stuart,3saltam praticamente direto para a interpretação
dos diferentes gêneros das Escrituras, algo que, com toda razão, ocupa uma parte
central em qualquer método hermenêutico de interpretação das Escrituras e tam­
bém ocupa uma grande e fundamental parcela do presente volume. Grasping Gods
Word [Compreendendo a Palavra de Deus], outro livro didático muito conhecido,
de autoria de J. Scott Duvall e J. Daniel Hays, usa a metáfora da jornada interpre­
tativa e adota uma abordagem mais pragmática e mais didática, começando com a
identificação de frases, parágrafos e discursos antes de tratar do contexto histórico
e literário e do estudo de palavras e finalmente passar para a aplicação. Somente
depois disso os gêneros específicos do Novo Testamento e depois do Antigo Testa­
mento são estudados (uma ordem bem idiossincrática).
Em nosso livro, também usamos a metáfora de uma jornada interpretativa
através do cenário canônico. Entretanto, unimos nossos esforços no sentido de
alicerçar nossa proposta de método interpretativo na teoria hermenêutica de for­
ma mais rigorosa, especificamente quanto à importância do cânon e do gênero e à
primazia das considerações especiais sobre as gerais, na interpretação das Escritu­
ras. Não que palavras e gramática não sejam importantes — elas são. É mais uma
questão de determinar qual a estrutura própria para a interpretação — o cânon e
o gênero ou as palavras isoladas e a gramática — e de como traduzir melhor nossa
escolha em um determinado método interpretativo. Nesse aspecto, diferentemente da

3Edição em português: Entendes o que Lês? Um Guia para Entender a Bíblia com Auxílio da
Exegese e da Hermenêutica, 3.ed. rev. e ampl. (São Paulo: Vida Nova, 2011).
obra The Hermeneutical Spiral [A Espiral Hermenêutica], que passa do estudo das
palavras à sintaxe, preferimos passar do discurso bíblico (capítulo 12) para o estu­
do de palavras individuais — o estudo do campo semântico (capítulo 13) —, com
base na premissa lingüística comum de que o contexto discursivo é fundamental
para se determinar o significado das palavras. Feita essa comparação com outros
métodos e apresentada essa brevíssima fundamentação de nosso método próprio,
vamos agora definir a tríade hermenêutica mais detalhadamente.
O primeiro elemento da tríade hermenêutica é a história. O estudo do contexto
histórico nos fornece uma base adequada, visto que toda Escritura está enraizada
na história real. Deus se revelou na história, e as línguas e os gêneros em que Deus
decidiu se revelar refletem o contexto histórico.
Em segundo lugar, vem a literatura. Estudar o contexto literário é o foco do
estudo da Bíblia, uma vez que as Escrituras são uma obra literária, um texto que tem
três componentes principais: 1) cânon; 2) gênero; e 3) línguas. Ao estudar o aspecto
literário das Escrituras, localizamos o lugar de uma passagem no cânon, identificamos
seu gênero e a interpretamos de acordo com suas características de gênero, fazendo
justiça à linguagem empregada (o que em geral implica esboçar a passagem para
identificar seu fluxo de pensamento e realizar um estudo relevante das palavras).
Em terceiro lugar está o ápice da interpretação bíblica: a teologia. Embora a
mensagem bíblica esteja fundamentada na história e seja comunicada por meio
da literatura, estudar a teologia de uma dada passagem das Escrituras é o objetivo
principal da interpretação, visto que, como mencionado, as Escrituras são acima
de tudo a revelação ou manifestação de Deus a nós.
Portanto, o método de sete componentes que estamos propondo pode ser
esboçado deste modo:

Passo 1: Preparação
Passo 2: História
Passo 3: Literatura: Cânon
Passo 4: Literatura: Gênero
Passo 4: Literatura: Linguagem
Passo 6: Teologia
Passo 7: Aplicação e proclamação

Em termos sucintos, a interpretação começa com o intérprete. Isso exige pre­


paração do coração. Para ter êxito, a tarefa interpretativa também exige um método
apropriado. Dependendo da tarefa à mão, o método que estamos propondo tem a
maior simplicidade possível e a maior complexidade necessária. Além de começar
com o intérprete, a interpretação também termina com o intérprete. Portanto, apesar
de tecnicamente não fazer parte da interpretação, a aplicação é absolutamente im­
prescindível. Além disso, uma vez que o intérprete compreendeu e aplicou a Palavra
de Deus corretamente, ele não para por aí, mas a ensina ou prega a outros (2Tm 2.2).
Testamos os conteúdos deste livro durante anos, em vários contextos. Quere­
mos ajudar os professores na sala de aula, de modo que no início de cada capítulo
incluímos um quadro simples da tríade hermenêutica que informa aos leitores
exatamente onde eles estão no processo de sete passos mencionado.
Um professor que trabalhe com um semestre de quatorze semanas talvez queira
combinar os capítulos 3 e 4 (sobre o cânon do Antigo e do Novo Testamento) e/
ou os capítulos 12 e 13 (sobre o contexto discursivo e o significado das palavras),
embora isso provavelmente não seja o ideal, visto que esses capítulos são carrega­
dos de conteúdo importante e também demandam que os alunos pratiquem o que
aprenderam. Outra opção talvez seja o instrutor pedir que os alunos leiam simul­
taneamente o capítulo 14, sobre linguagem figurada, e o capítulo 6, sobre poesia,
ou o capítulo 11, sobre literatura apocalíptica.
Basicamente, os professores usarão o primeiro período de aulas para apresen­
tar aos alunos o método do livro (construído com base na tríade hermenêutica).
O segundo período de aulas será dedicado ao contexto histórico-cultural (capítulo
2), seguido por duas aulas sobre o cânon do Antigo e do Novo Testamento (capí­
tulos 3 e 4). Desse modo, os alunos primeiro adquirem compreensão do enredo
bíblico geral e seu desenvolvimento histórico antes de mergulharem nos detalhes
da exegese. Isso também garante que, como mencionado, eles interpretem as partes
(a passagem específica) em relação ao todo (o drama das Escrituras e sua estrutura
redentora e histórico-salvífica).
A maior parte do semestre será ocupada com o estudo dos vários gêneros das
Escrituras, em ordem canônica: narrativa histórica do Antigo Testamento, poesia e
sabedoria, profecia, narrativa histórica do Novo Testamento (Evangelhos e Atos),
parábolas, epístolas e literatura apocalíptica (Apocalipse), que é o conteúdo dos
capítulos 5—11. Acreditamos que esse sej a o bloco mais adequado para ser estudado
após a visão geral do cânon, apresentada nos capítulos 3 e 4.
Depois disso, os alunos aprenderão mais especificamente a ler uma passagem
em seu contexto discursivo maior (capítulo 12), a realizar um estudo de palavras,
ou melhor, de campo semântico, para evitar as falácias exegéticas mais comuns
(capítulo 13), e a interpretar linguagem figurada (capítulo 14). O livro culmina
com um capítulo sobre teologia bíblica (capítulo 15) e outro sobre aplicação pessoal
(capítulo 16), que inclui seções práticas sobre como usar as ferramentas de estudo
da Bíblia e passar do texto ao sermão, gênero por gênero.
Mais um comentário: alguns professores estão acostumados a apresentar o
estudo de palavras e a diagramação sintática já no início do processo. Se esse for
o caso, não há problema. Pode-se começar com os capítulos 12 e 13 — ou com
os capítulos 1 e 2, e depois continuar imediatamente com os capítulos 12 e 13.
Os capítulos deste livro são bem independentes, embora nós os tenhamos dispos­
to na ordem que nos pareceu melhor, do ponto de vista intuitivo e metodológico.
Os professores e os alunos podem reorganizar os capítulos da forma que desejarem.
O importante não é tanto a ordem exata dos sete passos, mas que, no fim, se faça
justiça ao estudo e à aplicação de uma passagem específica.
Finalmente, perguntas, comentários e sugestões de como melhorar nosso
trabalho serão bem-vindos; gostaríamos muito de ouvir os usuários deste livro.
Quem sabe, se o livro satisfizer uma necessidade e for bem recebido, poderá até
haver uma segunda (e terceira, e quarta) edição, à qual ficaremos contentes de
incorporar as sugestões úteis para tornar o livro ainda melhor e mais útil para
professores e alunos. Entre em contacto conosco pelo endereço akostenberger@
sebts.edu ou profpatterson@frontier.com. Também gostaríamos de incentivar o
uso dos recursos disponíveis no site da Kregel: www.kregeldigitaleditions.com.
Ali os leitores encontrarão um plano de curso, questionários de fixação dos capí­
tulos e apresentação de slides no formato PowerPoint (também postados em www.
biblicalfoundations.org).
Ao longo do livro, usamos a metáfora do nosso método — a tríade hermenêu­
tica — para servir de bússola para nossa jornada interpretativa através do cenário
canônico. Agradecemos aos leitores por se juntarem a nós nesta estimulante jornada
de descoberta e vivificante aventura. Que Deus abençoe ricamente a todos quantos
o servem e estudam sua Palavra.
Seus conservos,
Andreas Kõstenberger e Dick Patterson
ESBOÇO DETALHADO

PREPARAÇÃO: O QUEM, O PORQUÊ E O COMO DA INTERPRETAÇÃO

Capítulo 1
Bem-vindo à tríade hermenêutica: história, literatura e teologia
A. Capítulo 1: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução
D. A necessidade de uma interpretação bíblica proficiente
E. O preço da interpretação bíblica malfeita
F. As características do intérprete da Bíblia
G. Propósito e estrutura deste livro
H. A história da interpretação bíblica e a tríade hermenêutica
1. O Antigo Testamento, Jesus e a igreja primitiva
2. Os pais apostólicos e os apologistas
3. As escolas de Alexandria e Antioquia
4. Jerônimo e Agostinho
5. O período medieval
6. A Reforma e o Iluminismo
7. O período moderno
I. A tríade hermenêutica
J. Diretrizes para interpretar a Bíblia: método geral
K. Palavras-chave
L. Questões para aprofundar o estudo
M. Exercícios
N. Bibliografia do capítulo
IN T ER PR ETA Ç Ã O : A T R ÍA D E H E R M E N Ê U T IC A

P r i m e i r a Pa r t e — O co ntexto d a s E s c r it u r a s : h is t ó r i a

C apítu lo 2
A presen tando o cenário: o contexto histórico-cu ltural
A. Capítulo 2: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução: história e hermenêutica
D. Cronologia
1. Período do Antigo Testamento
a. Período primitivo
b. Período patriarcal
c. Do Êxodo à monarquia unida
d. Monarquia dividida
e. Exílio e retorno
2. Período do Segundo Templo
a. Períodos babilônio e persa
b. Período helenístico
c. Período macabeu
d. Período romano
3. Período do Novo Testamento
a. Jesus
b. Igreja primitiva e Paulo
c. Restante do Novo Testamento
E. Arqueologia
1. Antigo Testamento
2. Novo Testamento
E Contexto histórico-cultural
1. Fontes primárias
a. Literatura do antigo Oriente Próximo
b. Apócrifos do Antigo e do Novo Testamento
c. Pseudepígrafos do Antigo Testamento
d. Manuscritos do Mar Morto
e. Outras fontes primárias relevantes
2. Fontes secundárias
G. Conclusão
H. Amostra de exegese (Antigo Testamento): IReis 17—18
I. Amostra de exegese (Novo Testamento): Lucas 2.1-20
J. Diretrizes para interpretar o contexto histórico-cultural
K. Palavras-chave
L. Questões para aprofundar o estudo
M. Exercícios
N. Bibliografia do capítulo

S e g u n d a Pa r t e — O f o c o d a s E s c r i t u r a s : l i t e r a t u r a

U n i d a d e 1: O C â n o n
C apítu lo 3
O cânon do Antigo Testamento: a Lei, os Profetas e os Escritos
A. Capítulo 3: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução
D. Cânon e interpretação canônica
1. Cânon
2. Interpretação canônica
E. Lei
1. Tipos de lei
2. Expressões referentes à Lei
3. Transmissão da Lei
4. Aplicabilidade da Lei
5. Diretrizes para aplicar a Lei do Antigo Testamento
F. O Êxodo
1. O cenário do Êxodo
2. Transmissão do relato do Êxodo
3. O clímax do Êxodo na nova aliança
4. Aplicabilidade do Êxodo
5. Diretrizes para compreender o Êxodo
G. Aliança
1. Tipos de aliança
2. Série de alianças principais culminando na Nova Aliança
3. Aplicabilidade das alianças
4. Diretrizes para compreender as alianças do Antigo Testamento
H. Harmonizando os temas do Antigo Testamento
1. O domínio de Deus e o conceito de Messias
2. Relação de Deus e do Messias com a Lei, o Êxodo e as alianças
3. Papel do Messias na nova aliança
4. Relação do messianismo do Antigo Testamento com o Novo Testamento
5. Justiça e fé
I. Diretrizes para compreender a relevância do messianismo
J. Palavras-chave
K. Questões para aprofundar o estudo
L. Exercícios
M. Bibliografia do capítulo

Capítulo 4
O cânon do Novo Testamento: os Evangelhos, Atos, as Epístolas e Apocalipse
A. Capítulo 4: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução
D. Cânon do Novo Testamento
E. Os Evangelhos e o evangelho
F. O livro de Atos e a igreja primitiva
G. Epístolas, Cristo e as igrejas
H. O Apocalipse e a revelação do Verbo
I. Conclusão
J. Diretrizes para interpretar o cânon do Novo Testamento
K. Palavras-chave
L. Questões para aprofundar o estudo
M. Exercícios
N. Bibliografia do capítulo

Un id a d e 2 : G ê n e r o
Capítulo 5
Uma boa história: a narrativa histórica do Antigo Testamento
A. Capítulo 5: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza da narrativa bíblica
D. Modos da narrativa histórica do Antigo Testamento
1. Contos (estórias)
2. Narrações
3. Relatos
E. Elementos da narrativa histórica do Antigo Testamento
1. Elementos externos
2. Elementos internos
a. Ambiente
b. Enredo
c. Caracterização
E Estilo de narrativa
1. Repetição
2. Realce
3. Ironia
4. Sátira
G. Amostra de exegese: IReis 19
1. Introdução
2. História
3. Literatura
4. Teologia
H. Diretrizes para interpretar as narrativas históricas do Antigo Testamento
I. Palavras-chave
J. Questões para aprofundar o estudo
K. Exercícios
L. Bibliografia do capítulo

Capítulo 6
A palavra do sábio: poesia e sabedoria
A. Capítulo 6: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza e características da poesia bíblica
1. Paralelismo
a. Paralelismo sinônimo
b. Paralelismo antitético
c. Paralelismo progressivo
2. Concisão
3. Concretude
4. Imagística
D. Poesia no Novo Testamento
E. Recursos estruturais na poesia bíblica
1. Blocos estruturais
2. Indicadores estruturais
3. Estrutura quiástica
4. Estrutura bipartida
E Recursos estilísticos na poesia bíblica
G. Literatura de sabedoria
1. A natureza da sabedoria
2. Provérbios
3. Eclesiastes
4. Jó
5. Sabedoria em outras partes do Antigo Testamento
6. Sabedoria no Novo Testamento
H. Amostra de exegese: o livro de Jó
1. Introdução
2. História
3. Literatura
4. Teologia
I. Diretrizes para interpretar a poesia bíblica
J. Diretrizes para interpretar a literatura de sabedoria
K. Palavras-chave
L. Questões para aprofundar o estudo
M. Exercícios
N. Bibliografia do capítulo

Capítulo 7
De volta para o futuro: profecia
A. Capítulo 7: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza da profecia
D. Subgêneros de profecia
1. Anúncios de juízo
a. Características gerais
b. Oráculos de “ais”
c. Lamento
d. Processo de aliança
2. Oráculos de salvação
a. Promessa de livramento
b. Oráculos do reino
c. Apocalíptica
3. Relatos instrutivos
a. Debate
b. Discursos de exortação/advertência
c. Sátira
d. Máximas de sabedoria
e. Narrativas proféticas
4. Subgêneros variados
a. Relatos de visões/sonhos
b. Cânticos/hinos proféticos
c. Orações proféticas
d. Cartas proféticas
E. Profecia fora dos livros proféticos do Antigo Testamento
1. No Antigo Testamento
2. No Novo Testamento
F. Amostra de exegese: o livro de Naum
1. Introdução
2. História
3. Literatura
4. Teologia
G. Diretrizes para interpretar profecia
H. Palavras-chave
I. Questões para aprofundar o estudo
J. Exercícios
K. Bibliografia do capítulo

Capítulo 8
Ouvindo as boas-novas: a narrativa histórica do Novo Testamento
(os Evangelhos e Atos)
A. Capítulo 8: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza dos Evangelhos
D. Gênero dos Evangelhos e de Atos
E. Origens dos Evangelhos
1. Por que quatro Evangelhos?
2. O estudo crítico dos Evangelhos
3. João e os Sinóticos
4. A confiabilidade histórica dos Evangelhos
F. Princípios hermenêuticos gerais
1. Características dos Evangelhos
2. Contexto histórico
3. Contexto literário
a. Elementos externos
i. Autor
ii. Narrador
iii. Leitor
b. Elementos internos
i. Ambiente
ii. Enredo
iii. Caracterização de personagens
iv. Estilo
v. Tempo narrativo
4. Cronologia e organização
a. Mateus
b. Marcos
c. Lucas/Atos
d. João
5. Estrutura
a. Mateus
b. Marcos
c. Lucas/Atos
d. João
G. Amostra de exegese: Marcos 15.33-41
1. História
2. Literatura
3. Teologia
H. Diretrizes para interpretar os Evangelhos e Atos
I. Palavras-chave
J. Questões para aprofundar o estudo
K. Exercícios
L. Bibliografia do capítulo

Capítulo 9
Um chamando ao discernimento: parábolas
A. Capítulo 9: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Estilo do ensino de Jesus
D. Parábolas de Jesus
1. Definição e propósito das parábolas
a. Definição de parábola
b. Propósito das parábolas
2. História da interpretação das parábolas
a. Primeiros pais da igreja (100-500)
b. Idade Média (500-1500)
c. Reforma (1500-1800)
d. Período moderno (1800-presente)
3. Para uma interpretação correta das parábolas
4. As parábolas de Jesus nos Evangelhos Sinóticos
5. Antecedentes e paralelos judaicos
6. A história da salvação e o Sitz im Leben Jesu
7. Características das parábolas
E. Diretrizes para interpretar as parábolas
E Palavras-chave
G. Questões para aprofundar o estudo
H. Exercícios
I. Bibliografia do capítulo

Capítulo 10
Como manda a carta: as epístolas
A. Capítulo 10: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. As epístolas do Novo Testamento e a epistolografia antiga
1. Introdução
2. Abertura
3. Corpo
4. Encerramento
5. Tipos de cartas
6. A redação das cartas
7. Pseudonímia e alonimia
8. Conclusão
D. Epístolas do Novo Testamento e crítica retórica
1. Introdução: tipos de retórica e provas retóricas
2. Comunicação escrita versus comunicação oral na Antiguidade
3. Conclusão
E. Epístolas paulinas
1. O uso que Paulo faz do Antigo Testamento
2. O uso que Paulo faz de tradições cristãs
a. Credos ou hinos
b. Códigos domésticos
c. Lemas
d. Listas de vícios e virtudes
E Epístolas gerais
1. Hebreus
a. O caráter oral da epístola aos hebreus
b. Estrutura literária de Hebreus
c. Característica atípica: a ausência de uma introdução epistolar formal
2. Tiago
a. Natureza judeo-cristã da epístola de Tiago
b. Jesus como fonte
3. Epístolas de Judas e de Pedro
a. Relação entre Judas e 2Pedro
b. Suposta pseudonímia de 2Pedro
4. Epístolas joaninas
a. Natureza oral de ljoão
b. Estrutura literária de ljoão
c. Característica atípica: a ausência de uma introdução epistolar formal
em ljoão
G. Questões hermenêuticas gerais
1. Ocasionalidade e normatividade
2. Outras questões na interpretação das epístolas
H. Amostra de exegese: Romanos 7.13-25
1. Introdução
2. História
3. Literatura
4. Teologia
I. Diretrizes para interpretar as epístolas
J. Palavras-chave
K. Questões para aprofundar o estudo
L. Exercícios
M. Bibliografia do capítulo

Capítulo 11
Visões do fim: literatura apocalíptica (o Apocalipse)
A. Capítulo 11: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução e definição de (gênero) apocalíptico
1. Introdução
2. Definição de (gênero) apocalíptico
D. Principais abordagens interpretativas no estudo do livro de Apocalipse
1. Preterista
2. Historicista
3. Idealista
4. Futurista
E. Panorama histórico
1. Tipo de perseguição
2. Culto ao imperador
3. O mito do Nero redivivus
F. Aspectos literários
1. Característica literárias gerais
a. Gênero
b. Ambiente
c. Estrutura narrativa
d. Caracterização de personagens
e. Marcadores de transição secundários
f. As séries de setes e as relações entre os setes
g. Interlúdios
2. Características literárias especiais
a. Análise e interpretação das alusões ao Antigo Testamento
b. Tipos de linguagem figurada
c. A natureza simbólica do Apocalipse
d. Interpretação dos símbolos em Apocalipse
3. Estrutura
a. Esboço 1
b. Esboço 2
G. Amostra de exegese: Apocalipse 11.1-13
1. História
2. Literatura
3. Teologia
H. Diretrizes para interpretar a literatura apocalíptica
I. Palavras-chave
J. Questões para aprofundar o estudo
K. Exercícios
L. Bibliografia do capítulo

Un i d a d e 3 : L i n g u a g e m
Capítulo 12
A importância do contexto: gramática, sintaxe e discurso
A. Capítulo 12: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Definição dos termos: gramática, sintaxe e discurso
1. Discurso
2. Mais definições
D. Fundamentos gramaticais: rudimentos de grego e hebraico bíblicos
1. Introdução
2. Características básicas do grego do Novo Testamento
a. Sistema verbal
b. O artigo grego
c. O caso genitivo
d. O particípio grego
E. Ordem das palavras e estrutura da frase: rudimentos de sintaxe grega
1. Ordem das palavras
2. Aspectos sintáticos principais
3. Estrutura da frase
a. Assíndeto
b. Parêntese
c. Anacoluto
F. Análise do discurso: visão geral do método
1. Principais etapas da análise do discurso
a. Características de limites
b. Coesão
c. Relações
d. Proeminência
e. Situação
2. Amostra de análise do discurso: João 2.1-11
G. Análise do discurso: exemplos específicos
1. Identificação da macroestrutura: nível 1
2. Identificação da macroestrutura: nível 2
3. Identificação da microestrutura: nível 3
4. Identificação da microestrutura: nível 4
H. Análise de discurso: seguindo o fluxo de pensamento
I. Diretrizes para elaborar o esboço de um livro da Bíblia ou de uma unidade
interpretativa
J. Palavras-chave
K. Questões para aprofundar o estudo
L. Exercícios
M. Bibliografia do capítulo

Capítulo 13
O significado das palavras: lingüística, semântica e falácias exegéticas
A. Capítulo 13: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Lingüística: a natureza do estudo das línguas
D. Semântica: a ciência que identifica os significados das palavras
E. Contexto e discurso: interpretando as partes à luz do todo
F. Do estudo das palavras ao estudo do campo semântico: um caminho ainda
mais excelente
G. Falácias exegéticas: armadilhas a serem evitadas na identificação dos sig­
nificados das palavras
1. Falácia 1: falácia etimológica ou da raiz
2. Falácia 2: emprego incorreto de significado posterior ou anterior (ana­
cronismo semântico ou obsolescência semântica)
3. Falácia 3: emprego de significados ou material informativo desconhe­
cidos ou improváveis
4. Falácia 4: interpretação equivocada da gramática ou da sintaxe hebraica
ou grega
5. Falácia 5: uso equivocado de supostos paralelos
6. Falácia 6: associação equivocada entre vocabulário utilizado e men­
talidade
7. Falácia 7: pressupostos falsos acerca do significado técnico
8. Falácia 8: distinções errôneas entre sinônimos
9. Falácia 9: uso seletivo ou preconceituoso das evidências
10. Falácia 10: disjunções ou restrições semânticas injustificadas (inclusive
a transferência ilegítima da totalidade)
11. Falácia 11: negligência injustificada de características distintivas ou de
estilo pessoal
12. Falácia 12: ligação equivocada do sentido com a referência
H. Conclusão
I. Diretrizes para identificar os significados das palavras nas Escrituras
J. Palavras-chave
K. Questões para aprofundar o estudo
L. Exercícios
M. Bibliografia do capítulo

Capítulo 14
Um modo de falar: interpretação da linguagem figurada
A. Capítulo 14: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza e características das figuras de linguagem
1. Introdução
2. Como as figuras de linguagem funcionam
3. Figuras de linguagem e significado
4. Figuras de linguagem e contextos
5. Figuras de linguagem e o inexprimível
D. Problemas na interpretação das figuras de linguagem na Bíblia
1. Figuras de linguagem e sentido literal
2. Veículo e teor no significado
3. Conotações e denotações
4. A participação ativa do leitor
5. Contexto
6. Figuras de linguagem e explicações proposicionais
Tipos de figuras de linguagem na Bíblia
1. Antropomorfismo
2. Eufemismo
3. Hipocatástase
4. Imagem
5. Metáfora
6. Metonímia
F. Amostra de exegese: salmo 18
1. História
2. Linguagem
3. Teologia
G. Diretrizes para interpretar as figuras de linguagem na Bíblia
H. Palavras-chave
I. Questões para aprofundar o estudo
J. Exercícios
K. Bibliografia do capítulo

T e r c e i r a Pa r t e : O a l v o : t e o l o g i a

Capítulo 15
Como fazer a associação: extraindo nossa teologia da Bíblia
A. Capítulo 15: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Natureza da teologia bíblica
D. Problemas da teologia bíblica
E. Método da teologia bíblica
F. História da teologia bíblica
G. Enfoques da teologia do Novo Testamento
H. Uso do Antigo Testamento no Novo
I. Amostra de exegese: João 12.37-41
J. Diretrizes para estudar teologia bíblica
K. Diretrizes para estudar o uso do Antigo Testamento no Novo
L. Palavras-chave
M. Questões para aprofundar o estudo
N. Exercícios
O. Bibliografia do capítulo

APLICAÇÃO E PROCLAMAÇÃO: A PALAVRA DE DEUS GANHA VIDA

Capítulo 16
Pés no chão: utilizando as ferramentas, pregando e aplicando a Palavra
A. Capítulo 16: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução
D. Preparo para o estudo
1. Organização do tempo
2. Recursos
a. Traduções da Bíblia
b. Ferramentas lingüísticas
i. Gramáticas de hebraico e de grego
ii. Léxicos
iii. Concordâncias de um idioma específico
iv. Dicionários teológicos/exegéticos
v. Enciclopédias/dicionários bíblicos
vi. Atlas bíblicos
vii. Introduções ao Antigo e ao Novo Testamento
viii. Tabelas
ix. Comentários
x. Teologias sistemáticas e teologias bíblicas
xi. Ferramentas para o comunicador
c. Recursos eletrônicos
E. Do estudo ao sermão
1. Narrativas do Antigo Testamento
a. Principais erros
b. Pregação das narrativas do Antigo Testamento
c. Estudo/sermão sobre IReis 17— 19
2. Narrativas do Novo Testamento (Evangelhos e Atos)
a. Principais erros
b. Pregação das narrativas do Novo Testamento
c. Estudo/sermão sobre Lucas 8.22-25
3. Gêneros especiais nas narrativas
a. Discursos (falas)/diálogos
b. Estudo/sermão sobre João 2.23—3.21
c. Parábolas
i. Principais erros
ii. Pregação das parábolas
iii. Estudo/sermão sobre Lucas 15
4. Literatura não narrativa
a. Literatura poética
i. Principais erros
ii. Pregar os salmos
iii. Estudo/sermão sobre o salmo 66
b. Literatura de sabedoria
i. Principais erros
ii. Pregando Provérbios
iii. Estudo/sermão sobre Provérbios 22.6-16
c. Profecia
i. Principais erros
ii. Pregar a profecia do Antigo Testamento
iii. Estudo/sermão sobre Miqueias 6.1-13
5. Literatura apocalíptica
a. Principais erros
b. Pregar o Apocalipse
c. Estudo/sermão sobre Apocalipse 1.9-20
6. Literatura exortativa e expositiva (epístolas e discursos)
a. Principais erros
b. Pregar literatura exortativa e expositiva
c. Estudo/sermão sobre ljoão 1.5-9
E Aplicação
1. O alicerce
2. Complicações
G. Diretrizes para a aplicação
1. Passos da aplicação
2. Estudo/sermão sobre Filipenses 1.12-18
H. Conclusão
I. Palavras-chave
J. Questões para aprofundar o estudo
K. Exercícios
L. Bibliografia do capítulo
ABREVIATURAS

Versões da Bíblia
TM Texto Massorético
LXX Septuaginta

Traduções da Bíblia
ARA Almeida Revista e Atualizada
ARC Almeida Revista e Corrigida
ESV English Standard Version
HCSB Holman Christian Standard Bible
NIV New International Version
NVI Nova Versão Internacional

Obras patrísticas e medievais


Eusébio, Hist. Eccl. Eusébio, Historia Ecclesiastica
Nicolau de Lira, In Gal. Nicolau de Lira, Sobre Gaiatas

Periódicos
AASOR Annual o f the American Schools o f Oriental Research
AUSS Andrews University Seminary Studies
BA Biblical Archaeologist
BAR Biblical Archaeology Review
BASOR Bulletin o fth e American Schools o f Oriental Research
Bib Sac Bibliotheca Sacra
BBR Bulletin fo r Biblical Research
CJ Classical Journal
CTR Criswell Theological Review
EvQ Evangelical Quarterly
HTR Harvard Theological Review
Int Interpretation
IBS Irish Biblical Studies
JAOS Journal o f the American Oriental Society
JBL Journal o f Biblical Literature
JETS Journal o fth e Evangelical Theological Society
JNES Journal ofN ear Eastern Studies
JSNT Journal fo r the Study o fth e New Testament
JSOT Journal fo r the Study o fth e Old Testament
LW Living Word
NovT Novum Testamentum
NTS New Testament Studies
ST Studia Theologica
TJ Trinity Journal
TynBul Tyndale Bulletin
VT Vetus Testamentum
WTJ Westminster Theological Journal
W Word and World
ZAG Zeitschriftfür Alte Geschichte

Séries e obras de consulta


AB Assyriologische Bibliothek
AGJU Arbeiten zur Geschichte des antiken Judentums und des
Urchristentums
BDAG Greek-English Lexicon o f the New Testament and Other Early
Christian Literature
BDB A Hebrew and English Lexicon o f the Old Testament
BDF A Greek Grammar ofthe New Testament and Other Early Christian
Literature
BECNT Baker Exegetical Commentary on the New Testament
BTNT Biblical Theology of the New Testament
BZAW Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft
CBET Contributions to Biblical Exegesis and Theology
CRINT Compendia rerum iudaicarum ad Novum Testamentum
DJG Dictionary o f Jesus and the Gospels
FRLANT Forschungen zur Religion und Literatur des Alten und Neuen
Testaments
HALOT The Hebrew and Aramaic Lexicon o f the Old Testament
ICC International Criticai Commentary
JSNTSupp Journal for the Study of the New Testament Supplement Series
JSOTSupp Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series
LEC Library of Early Christianity
LNT Library of New Testament Studies
MNTC Moffatt New Testament Commentary
NAC New American Commentary
NIBC New International Biblical Commentary
NICNT New International Commentary on the New Testament
NICOT New International Commentary on the Old Testament
NIDNTT New International Dictionary o f New Testament Theology
NIGTC New International Greek Testament Commentary
NIVAC NIV Application Commentary
NSBT New Studies in Biblical Theology
NTOA Novum Testamentum et Orbis Antiquus
OBO Orbis biblicus et orientalis
OTL Old Testament Library
PNTC Pillar New Testament Commentary
SAHS Scripture and Hermeneutics Series
SacPag Sacra Pagina
SBLDS Society of Biblical Literature Dissertation Series
SBLSS Society of Biblical Literature Supplement Series
SNTSMS Society for New Testament Studies Monograph Series
SBT Studies in Biblical Theology
STL Studies in Theological Interpretation
TB Theologische Bücherei: Neudrucke und Berichte aus dem 20.
Jahrhundert
TDNT Theological Dictionary o f the New Testament
TDOT Theological Dictionary o f the Old Testament
TNTC Tyndale New Testament Commentaries
WBC Word Biblical Commentary
WUNT Wissenschaítliche Untersuchungen zum Neuen Testament
O QUEM, O PORQUÊ E O COMO
DA INTCHPRETAÇÃO
A. Capítulo 1: objetivos

8. Esboço do capítuto

C, Introdução

0. A necessidade de uma interpretação bíbika proficiente

E. O preço da interpretação bíblica malfeita

F. As características do intérprete da 8fbUa

G. Propósito e estrutura deste livro

H. A história da interpretação bíblica e a tríade hermenêutica

I. A tríade hermenêutica

J. Diretrizes para interpretar a Bíblia: método geral

K. Palavras-chave

L Questões para aprofundar o estudo

M. Exercícios

N. Bibliografia do capítulo
TEOLOGIA
Capítulo 1

BEM-VINDO À TRÍADE HERMENÊUTICA:


HISTÓRIA, LITERATURA E TEOLOGIA

INTRODUÇÃO
enha! Pode entrar! E, por favor, permaneça por um tempo! Sinta-se em

V casa e adquira as habilidades fundamentais para a compreensão do livro


mais importante que jamais foi escrito: as Sagradas Escrituras. O livro em
suas mãos o ajudará a desenvolver habilidades fundamentais para a interpretação
do texto bíblico. Convidamos você a engajar-se na jornada da sã interpre­
tação bíblica, ou — como ela também é chamada — da “hermenêutica”.1 Como
na parábola de Jesus sobre a festa de casamento, este convite se dirige a todos os
que têm ouvidos para ouvir. E, como na parábola, as regras não são estabelecidas
pelos convidados, mas por aquele que faz o convite e pelo livro a ser interpretado.
Em nossa jornada para entender a Bíblia, autor, texto e leitor desempenham
papéis fundamentais.2 Todo documento tem um autor, e o texto é moldado pela

‘“Hermenêutica” se refere ao estudo dos princípios metodológicos de interpretação de um


texto, em particular o texto bíblico. O termo deriva do nome do deus grego Hermes, arauto e
mensageiro dos outros deuses. Constam do seu currículo habilidades relacionadas ao comércio,
às viagens, à invenção e à eloqüência. O termo “hermenêutica” foi usado por Aristóteles em sua
obra Peri Hermeneias, uma das mais antigas obras filosóficas remanescentes da tradição ocidental
que tratam da relação entre linguagem e lógica.
2Veja esp. Grant R. Osborne, The Hermeneutical Spiral: A Comprehensive Introduction to Biblical
Interpretation, 2. ed. (Downers Grove: InterVarsity, 2006), apêndices 1 e 2 [edição em português: A
Espiral Hermenêutica: uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica (São Paulo, Vida Nova: 2009)].
intenção desse autor. É essa intenção autoral que devemos buscar recuperar. O texto
não está “simplesmente ali”, para ser interpretado da maneira que o leitor preferir.
Quando minha mulher fala comigo, seria ousadia de minha parte dar às palavras
dela meu sentido favorito. As regras da boa comunicação exigem que eu busque
entender o sentido que ela desejou transmitir com as palavras que usou.
Depreende-se que o texto das Escrituras, do mesmo modo, não é neutro,
isto é, passível de uma grande variedade de interpretações, todas reivindicando
ser uma leitura igualmente válida de determinada passagem (segundo a proposta
de diversas abordagens pós-modernas da interpretação bíblica que dão primazia
à reação do leitor).3 O texto não é, tampouco, autônomo; isto é, não é uma lei em
si, como se existisse à parte do autor que o concebeu (perspectiva sustentada por
várias abordagens interpretativas de caráter narrativo ou literário).4O texto é, antes,
um produto planejado e moldado por um autor particular e exige, nesse sentido,
uma interpretação cuidadosa e respeitosa.
Há, por conseguinte, um aspecto ético importante na interpretação. Temos de
exercê-la com responsabilidade, demonstrando respeito, tanto pelo texto quanto
pelo autor.5 Não pode haver nenhuma desculpa para a arrogância interpretativa
que eleva o leitor acima de ambos. A “regra de ouro” da interpretação exige que
tratemos qualquer texto ou autor com a mesma cortesia com que desejamos ver
tratados nossos próprios escritos e afirmações. Isso implica respeitar não só a inten­
ção dos autores humanos das Escrituras, mas também, em última análise, o próprio
Deus, que decidiu se revelar, por meio do seu Santo Espírito, nessas Escrituras.6
O respeito pelo autor supremo e pelos autores humanos da Bíblia é o alicerce
deste livro. Temos o compromisso de levar a sério o texto bíblico e de praticar a herme­
nêutica de ouvidos abertos — uma hermenêutica atenta e perceptiva.7 Levaremos
em conta, na nossa interpretação das Escrituras, o contexto histórico concernente a

3A abordagem clássica da validade da interpretação que afirma a primazia da intenção autoral


está no livro de E. D. Hirsch Validity in Interpretation (New Haven: Yale University, 1973).
4Veja Kevin J. Vanhoozer, “A Lamp in the Labyrinth: The Hermeneutics of‘Aesthetic Theology’”,
TJ 8 (1987), p. 25-56.
5Veja esp. Kevin J. Vanhoozer, Is There a Meaning in This Text? The Bible, the Reader, an d the
Morality ofL iterary Knowledge (Grand Rapids: Zondervan, 1998) [edição em português: Há um
Significado Neste Texto?Interpretação Bíblica, os Enfoques Contemporâneos (São Paulo: Vida, 2010)].
6Para uma abordagem introdutória ao assunto, veja “The Nature and Scope of Scripture”, Cap.
1, in: Andreas J. Kõstenberger, L. Scott Kellum e Charles L. Quarles, The Cradle, the Cross, an d the
Crown: An Introduction to the New Testament (Nashville: B&H, 2009). [A ser publicado em breve
por Vida Nova],
7Máxima proposta pelo teólogo Adolf Schlatter (veja adiante).
cada passagem e atentaremos às palavras, frases e discursos específicos de cada livro.
Desejamos ponderar com cuidado a teologia da própria Bíblia e interpretar suas partes
à luz do todo canônico.8Finalmente, ao interpretar os livros bíblicos, procederemos
de acordo com a estrutura peculiar ao gênero a que cada um deles pertence.
Por que devemos gastar o tempo e a energia necessários para aprender a
interpretar a Escritura corretamente? Em primeiro lugar, desejamos fazer isso
porque estamos em busca da verdade e porque sabemos que, enquanto o erro nos
escraviza, a verdade nos liberta.9 Muitas seitas se originaram de interpretações
equivocadas da Bíblia.10 Temos, contudo, uma motivação ainda maior: o que nos
impele a empreender esta jornada pela sã interpretação bíblica é o nosso amor a
Deus, à sua Palavra e a seu povo.11 Se eu e você de fato amamos a Deus, desejamos
conhecê-lo melhor, e isso exige que estudemos sua Palavra com seriedade.
Na condição de pessoas que buscam a verdade e amam a Deus e ao próximo,
portanto, principiamos nossa busca da verdade revelada e da sabedoria bíblica como
se partíssemos numa expedição para minerar ouro e pedras preciosas.12 Somos
estimulados pela convicção de que a Palavra de Deus é o maior tesouro que existe;
desejamos extrair do texto bíblico até o último grão de sentido que consigamos
recuperar, não importando quanto esforço ou estudo isso nos custe. Na busca da
verdade divina revelada, estamos dispostos a pagar qualquer preço para ouvir o que
Deus tem a nos dizer em sua Palavra e por meio dela e para proclamar a outros sua
mensagem vivificante, de um modo autêntico e fiel.

8Esses componentes da interpretação bíblica apropriada são a espinha dorsal deste livro.
9Como Jesus disse àqueles que desejavam segui-lo: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis
verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.31,32).
10Uma ótima ferramenta mais recente para aprofundar esse tema é Ted Cabal, org„ The Apolo-
getics Study Bible (Nashville: B&H, 2007). Veja também Gleason L. Archer, New International
Encyclopedia o f Bible Difficulties (Grand Rapids: Zondervan, 1982) [edição em português: Enciclo­
pédia de Dificuldades Bíblicas (São Paulo: Vida, 1998)]; Walter C. Kaiser Jr. et al., Hard Sayings o f
the Bible (Downers Grove: InterVarsity, 1996); e o volume a ser publicado Holman Apologetics Bible
Commentary (Nashville: B&H).
“Veja nesse contexto a defesa que N. T. Wright faz de uma “hermenêutica do amor”, em The New
Testament and the People ofG od (Minneapolis: Fortress, 1992). Assim como o amor “confirma a reali­
dade e a alteridade do amado”, em vez de tentar “reduzir o amado a algo que se encaixe nos termos
daquele que ama”, a hermenêutica do amor “defende que o texto pode ser ouvido em seus próprios
termos, sem ser reduzido à escala do que o leitor pode ou não entender naquele momento” (p. 64).
12Veja as parábolas de Jesus sobre o tesouro e a pérola escondidos (Mt 13.44-46), bem como sua
declaração: “Por isso, todo escriba que aprendeu sobre o reino do céu é semelhante a um chefe de
família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13.52). Veja também Salmos 9 e 119 e a
descrição da sabedoria em Provérbios 1—9.
A NECESSIDADE DE UMA INTERPRETAÇÃO
BÍBLICA PROFICIENTE
“Procura”, escreveu Paulo em sua última missiva ao seu principal discípulo,
“apresentar-te aprovado diante de Deus, como obreiro que não tem de que se
envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Num tempo em
que enfrentamos uma enxurrada de informações e com dificuldade conseguimos
nos manter atualizados e estabelecer prioridades, essa mensagem de Paulo põe em
evidência qual deve ser nosso principal objeto de estudo: as Escrituras, “a palavra
da verdade”. Como Pedro, devemos dizer: “Senhor, para quem iremos? Tu tens
as palavras de vida eterna” (Jo 6.68). Nossa motivação deve ser a fome e a sede
de justiça (Mt 5.6); devemos ansiar pela palavra de Deus, que é “viva e eficaz”, e
transformadora (Hb 4.12).
Para nos aprofundarmos ainda mais nas palavras de Paulo a Timóteo, preci­
samos trabalhar com afinco na interpretação das Escrituras. Temos de “procurar
ser aprovados” como “obreiros”. A interpretação bíblica é de fato um trabalho duro.
Quem deseja manejar a Palavra de Deus com maestria deve ser como o aprendiz de
um mestre artesão medieval. Com o tempo e a prática, o aprendiz adquire habilidade
no manejo de muitas ferramentas. Da mesma forma, o intérprete da Bíblia precisa
saber quais ferramentas interpretativas usar e como usá-las. É isso que significa ser
um obreiro que “maneja bem a palavra da verdade”.
Embora a analogia entre o artesanato e a interpretação bíblica venha bem a
calhar, trata-se de uma figura menor ilustrando uma realidade maior. Se é impor­
tante que os artesãos sejam hábeis no manejo de suas ferramentas, quanto mais
importante é que os chamados a manejar a “palavra da verdade” de Deus o façam
com todo o cuidado e perícia possíveis. Nessa incumbência não se admite nenhum
trabalho desmazelado. Tudo deve ser feito na ordem certa e na proporção adequa­
da, visando a um produto final que agrade àquele que comissionou o trabalho.
As informações do ambiente histórico-cultural, o sentido das palavras, o contexto
das passagens e muitos outros fatores devem ser analisados criteriosamente para
se chegar uma interpretação válida.
Além disso, nenhum trabalhador age sem considerar a aprovação daquele que o
incumbiu da tarefa. E, no caso da interpretação bíblica, prestaremos contas a ninguém
menos que o próprio Deus. É a aprovação dele que buscamos, pois, quando ele nos
aprova, nenhuma outra aprovação ou desaprovação interessa. Nosso amor a Deus e
nossa convicção de que não devemos poupar esforço algum para compreender sua
Palavra o mais precisamente possível são nossos mais poderosos motivos para essa
jornada interpretativa. Nossa esperança é que, findo o trajeto, ouçamos as palavras
divinas: “Muito bem, servo bom e fiel [...] participa da alegria do teu senhor!”.

O PREÇO DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA MALFEITA


Não só há excelentes recompensas para a interpretação bíblica fiel, como também há
um preço considerável a pagar quando esse trabalho não é realizado com a devida
diligência. Esse custo também é mencionado em 2Timóteo 2.15. Quem se recusa a
adquirir as habilidades necessárias para interpretar as Escrituras com precisão, vai
encolher-se de vergonha diante do juízo de Deus. A interpretação bíblica indevida
corresponde ao artesanato malfeito, seja por falta de habilidade, seja por falta de
zelo. Na área da hermenêutica, a má interpretação resulta em falácias que advêm
de práticas como negligenciar o contexto, usar versículos isolados para provar uma
proposição, fazer eisegese do texto (atribuir à passagem bíblica o sentido que se
deseja em vez de extrair dela, mediante estudo cuidadoso, o sentido adequado), uso
impróprio de informações de pano de fundo e outras falhas semelhantes.13
A Escritura está repleta de exemplos de pessoas que falharam na tarefa da
interpretação bíblica e foram severamente castigadas por isso, porque esse erro
não só trouxe ruína para essas pessoas, mas também aos que foram ensinados e
influenciados por elas. Nos versículos imediatamente seguintes a 2Timóteo 2.15, o
apóstolo cita dois indivíduos desse tipo, Himeneu e Fileto. De acordo com Paulo,
esses homens “se desviaram da verdade”,14“afirmando que a ressurreição já aconte­
ceu” (2Tm 2.17,18). Como Paulo observou, esses falsos mestres “perverteram a fé
de alguns” (2Tm 2.18). É interessante notar que Himeneu já havia sido mencionado
na Primeira Carta de Paulo a Timóteo, na qual o apóstolo escreve que entregara
esse homem a Satanás para que aprendesse a não blasfemar (lTm 1.20). Contudo,
infelizmente, ele continuou pervertendo e distorcendo a palavra da verdade.
Com isso aprendemos, entre outras coisas, que a interpretação bíblica não é
um trabalho individualista. Ocorre, antes, na comunidade dos cristãos, e o malogro
ou o êxito nesse empreendimento afeta não só o intérprete, mas também outros
cristãos. Observe que, como muitas vezes ocorre nas seitas — em última análise
inspiradas por Satanás, o maior pervertedor das Escrituras (v. Gn 3.1-5) —, há um
grão de verdade na afirmação de que “a ressurreição já aconteceu”. Cristo de fato

13Veja a discussão sobre falácias exegéticas no cap. 13.


I4Cp. esse versículo com a referência à “palavra da verdade” em 2Timóteo 2.15.
ressuscitou dos mortos como “o primeiro entre os que faleceram” (ICo 15.20),
e todos os cristãos podem ter a expectativa de serem ressuscitados no futuro
(ICo 15.51-53; lTs 4.14-18).
A Bíblia, porém, deixa claro que essa ressurreição é um acontecimento futuro,
e dizer que “a ressurreição já aconteceu” sugere que a ressurreição dos mortos se
restringe ao aspecto espiritual, sendo assim totalmente transferida para o presente.
Isso se assemelha mais com a noção grega de imortalidade da alma do que com o
ensinamento bíblico da ressurreição do corpo. O problema de Himeneu e Fileto,
portanto, parece ter sido a indevida imposição de suas concepções filosóficas e
culturais helenísticas ao texto das Escrituras, o que resultou numa “escatologia
ultrarrealizada”, que não reconhece a realidade futura da ressurreição corpórea dos
cristãos, segundo o modelo da ressurreição de Cristo.15
Esse breve exemplo mostra que os intérpretes do texto bíblico estão incumbidos
de uma tarefa sagrada: manejar as Escrituras com apuro. A eles foi confiado um
objeto sagrado, a Palavra da verdade de Deus; e a fidelidade ou infidelidade deles
resultará na aprovação divina ou em vergonha pessoal. A Palavra de Deus exige
o melhor que temos a oferecer, porque em última análise não se trata de palavra
humana, mas da Palavra de Deus. Isso quer dizer que nossa missão interpretativa
deve se alicerçar em uma doutrina robusta da revelação bíblica e estima elevada
pelas Escrituras — como Jesus ensinou, as Escrituras são “a palavra de Deus”, que
“não pode ser anulada” (Jo 10.35). Embora seja transmitida por meios humanos,
com linguagem e formas de pensamento humanos, elas são, em última análise, fruto
de inspiração divina e, portanto, completamente dignas de confiança.

AS c a r a c t e r ís t ic a s d o in t e r p r e t e d a b í b l i a
Em vez de adotarmos uma posição crítica em relação à Bíblia, devemos, isto sim,
nos submeter a ela como nossa autoridade final em todas as áreas da vida. Uma
qualidade essencial que o intérprete do texto bíblico deve ter, portanto, é a humil­
dade. Como Adolf Schlatter observou décadas atrás, temos de nos colocar “abaixo”

15Evidentemente, a apresentação que fiz desse assunto é bastante básica. Para discussões mais
detalhadas das questões mais complexas envolvidas na interpretação de 2Timóteo 2.17,18 e dessa
heresia em particular, veja esp. George W. Knight, Commentary on the Pastoral Epistles, NIGTC
(Grand Rapids: Eerdmans, 1992), p. 413-4; William D. Mounce, Pastoral Epistles, WBC 46 (Nashville:
Thomas Nelson, 2000), p. 527-8; I. Howard Marshall, The Pastoral Epistles, ICC (Edinburgh: T & T
Clark, 1999), p. 750-4 (esta obra apresenta mais referências bibliográficas).
das Escrituras, em vez de afirmar arrogantemente o nosso direito de criticá-las à
luz de nossos pressupostos e preferências modernas ou pós-modernas.16 Em vez
de aceitarmos apenas os ensinamentos que consideramos aceitáveis, segundo as
sensibilidades contemporâneas, temos de estar preparados para conformar nossos
pressupostos e preferências aos ensinamentos das Escrituras e agir de acordo com
eles. Devemos nos aproximar das Escrituras dispostos a obedecer ao que elas dizem.
Parte dessa humildade consiste em reconhecer nossa finitude e a necessidade
que temos de instrução e correção. Como Paulo escreve em sua última carta a
Timóteo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para
repreender, para corrigir, para instruir em justiça; a fim de que o homem de Deus
tenha capacidade e pleno preparo para realizar toda boa obra” (2Tm 3.16,17). A
instrução apropriada e a devida correção, quando necessária, são oferecidas, portanto,
pelas próprias Escrituras. No entanto, Deus pode optar por administrá-las por meio
daqueles que as interpretam corretamente e as ensinam aos outros (cf. 2Tm 2.2).
Note também que a interpretação bíblica não é um fim em si mesma. Con­
tudo, a competência interpretativa capacita o intérprete para “toda boa obra”
(2Tm 3.17; cf. Ef 2.10). Não se trata de uma tarefa exclusivamente ou mesmo acima
de tudo acadêmica; a interpretação bíblica é dever de todo cristão. Conquanto seja
verdade que Deus concedeu à igreja alguns indivíduos cuja função é servir como
mestres e pastores (Ef 4.11), ele espera que todo cristão avance para a maturidade
espiritual (Cl 1.28,29). Por isso, todos nós devemos assumir a responsabilidade
por nosso crescimento espiritual e fazer todo esforço possível para evoluir na
capacidade de manejar a Palavra de Deus, de forma precisa e com destreza cada
vez maior (2Pe 3.17,18).
Outro requisito essencial para o intérprete da Bíblia é ouvir atentamente
a Palavra e estudá-la de modo perspicaz. É isso que Adolf Schlatter chama de
“hermenêutica da percepção”. Num tempo em que ouvir é, em grande parte, uma
arte perdida, e muitos chegam às Escrituras com o propósito principal de validar
suas próprias conclusões predeterminadas, esse lembrete é mais que necessário.
Schlatter observa que “não é a teologia do próprio intérprete nem a de sua igreja
e de seu tempo que devem ser examinadas, mas sim a teologia manifestada pelo
próprio Novo Testamento”.17Ele continua:

16Veja o caso contado em Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle, the Cross, and the
Crown, p. 52.
I7AdoIf Schlatter, The History o f the Christ, trad. Andreas J. Kõstenberger (Grand Rapids: Baker,
1997), p. 18 (grifo no original).
É o objetivo histórico que deve reger nosso trabalho conceituai de forma exclusiva
e completa, estendendo nossas faculdades perceptivas até o limite. Afastamo-nos
decididamente de nós mesmos e do nosso tempo e nos voltamos para o que se
encontrava nos homens por cujo intermédio a igreja veio a existir. Nosso prin­
cipal interesse deve ser o pensamento como foi concebido por eles, e a verdade que
era válida para eles. Queremos ver e alcançar um entendimento exaustivo do que
aconteceu na história e existiu em outro tempo. Essa é a disposição interior da qual
depende o sucesso do nosso trabalho, o compromisso que deve ser constantemente
renovado à medida que o trabalho avança.18

Nas palavras de Tiago, e seguindo a sabedoria do Antigo Testamento, o intér­


prete deve ser “pronto a ouvir” e “tardio para falar” (Tg 1.19). Como observou o
antigo pregador:

Sê reverente quando fores à casa de Deus. É melhor aproximar-se para ouvir do


que fazer como os tolos, que oferecem sacrifícios sem saber que agem mal. Não te
precipites com a boca, nem seja o teu coração impulsivo para fazer promessa alguma
na presença de Deus; porque Deus está no céu, e tu estás na terra; portanto, sejam
poucas as tuas palavras (Ec 5.1,2).

O contrário dessa atitude, lamentavelmente, é muito mais comum: as pessoas


não raro se apressam a exprimir suas opiniões, mas demoram a ouvir a verdadeira
Palavra de Deus. Ouvir as Escrituras exige disciplina, domínio próprio, sabedoria
e amor a Deus.
O último conjunto de atributos desejáveis (essenciais, na verdade) para
o intérprete do texto bíblico: ele deve ser regenerado (isto é, ter experimentado o
renascimento espiritual), cheio do Espírito e por ele guiado.19O papel do Espírito na
interpretação bíblica merece uma abordagem mais extensa,20 mas, para começar,
leia o tratamento conciso que Paulo dá ao tema em ICoríntios 2.10b-15:

18Ibidem.
19Quanto ao papel da fé na interpretação, veja Gerhard Maier, Biblical Hermeneutics, trad. Robert
W. Yarbrough (Wheaton: Crossway, 1995), cap. 11.
20Para uma abordagem representativa dessa questão, veja Daniel P. Fuller, “The Holy Spirits
Role in Biblical Interpretation”, in: W. Ward Gasque e William LaSor, orgs., Scripture, Tradition,
and Interpretation (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 189-98. Veja também Roy B. Zuck, Basic
Bible Interpretation: A Practical Guide to Discovering Biblical Truth (Colorado Springs: David C.
Cook, 1991), p. 22-6 [edição em português: A Interpretação Bíblica: Meios de Descobrir a Verdade
da Bíblia (São Paulo: Vida Nova, 1994)].
Pois o Espírito examina todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. Pois, quem
conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim tam ­
bém ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus. [...] O homem
natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode
entendê-las, pois se compreendem espiritualmente. Mas aquele que é espiritual com ­
preende todas as coisas, ao passo que ele mesmo não é compreendido por ninguém.

Embora Paulo tenha escrito essas palavras para abordar uma questão espe­
cífica da igreja de Corinto de que não podemos tratar inteiramente agora,21 suas
observações também são muito relevantes para todos nós que empreendemos a
jornada interpretativa. Se não temos o Espírito — ou se temos o Espírito, mas não
o ouvimos e não dependemos dele para que nos ilumine espiritualmente quando
lemos a Palavra de Deus —, nossas interpretações sempre deixarão a desejar. Só
o intérprete que depende do Espírito Santo na busca interpretativa poderá ser
bem-sucedido em discernir a revelação especial de Deus, discernida pelo Espírito.
Caso um intérprete de fato careça de fé e do Espírito Santo, e mesmo assim
entenda um pouco da mensagem das Escrituras, a ele faltará a estrutura, a motivação
e o entendimento espirituais para compreender determinada passagem no contexto
geral da Bíblia. Não só isso, ele também não será capaz de praticar o que a Escritura
exige dele, porque só a regeneração e o Espírito Santo o capacitam para isso. Por
essa razão, qualquer um que deseje sinceramente entender a Bíblia vai querer ter
certeza de que é o tipo de pessoa que pode receber as palavras da verdade de Deus.22

PROPÓSITO E ESTRUTURA DESTE LIVRO


O que fundamenta o projeto deste livro é a convicção de que quem deseja ter êxito
na tarefa da interpretação bíblica deve proceder dentro de um padrão interpretativo
apropriado, isto é, a tríade hermenêutica, que consiste nos três elementos que o
intérprete deve considerar no estudo de qualquer passagem bíblica, não importa
qual seja o gênero: o contexto histórico do livro (cap. 2), sua dimensão literária
(caps. 3-14) e sua mensagem teológica (cap. 15).23Como o cristianismo é uma reli­

21Para abordagens competentes e representativas da questão, veja David E. Garland, 1 Corinthians,


BECNT (Grand Rapids: Baker, 2003), p. 90-103; Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians,
NICNT (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 97-120.
“ Quanto à preparação espiritual para a tarefa sagrada de interpretar as Escrituras, é uma boa
ideia meditar em passagens como Salmos 1, 8, 9 ,1 9 ,1 3 9 ou Isaías 57.15; 66.1,2.
23Pode-se definir tríade como a união ou o grupo de três elementos, como um acorde de três notas,
por exemplo. No nosso caso, a expressão “tríade hermenêutica” chama a atenção para a estrutura
gião histórica, e todos os textos se inserem em circunstâncias históricas e culturais
específicas, é importante fundamentar nossa interpretação das Escrituras em um
estudo cuidadoso do ambiente histórico pertinente. Uma vez que as Escrituras
constituem um texto de literatura, a maior parte do trabalho interpretativo implica
analisar detidamente os vários aspectos literários e lingüísticos do material bíblico.
Por fim, sendo as Escrituras não apenas uma obra de literatura, mas sobretudo a
revelação de Deus inspirada e revestida de autoridade, o objetivo e o fim da interpre­
tação é a teologia. Empregar a tríade hermenêutica como bússola nessa jornada de
interpretação da Bíblia garante que os que a estudam não se desviem do caminho.
O intérprete da Bíblia, quando começa a investigação de determinado texto
bíblico, primeiro informa-se a respeito de seu contexto histórico (estudando o que
em geral se denominam “questões introdutórias”). Tendo fundamentado seu estudo
no contexto histórico e cultural da vida cotidiana do mundo bíblico, ele agora se
volta para o cenário canônico a fim de situar a passagem bíblica que está inter­
pretando em seu devido contexto soteriológico-histórico. Em seguida, examina o
gênero literário da passagem. Ele deve imaginar os diferentes gêneros encontrados
ao longo da Escritura como se fossem aspectos topográficos, como vales, cordilheiras
ou planícies, cada paisagem exibindo características próprias e exigindo diferentes
estratégias de exploração. Finalmente, ele observará mais de perto os aspectos lin­
güísticos específicos do texto — levando em conta o contexto discursivo maior, o
sentido de palavras importantes e a linguagem figurada, quando necessário.
Será de bom proveito ter alguns mapas para essa jornada, um para cada tipo
de terreno encontrado: no Antigo Testamento, narrativa histórica (cap. 5), poesia
e sabedoria (cap. 6) e profecia (cap. 7); no Novo Testamento, narrativa (os Evange­
lhos e Atos; cap. 8), parábolas (cap. 9), epístolas (cap. 10) e literatura apocalíptica
(cap. 11). A tríade hermenêutica, portanto, servirá de método geral para o estudo
de qualquer passagem bíblica. Com isso, o aprendiz da interpretação bíblica estará
no caminho certo para se tornar um trabalhador habilidoso, que não tem do que se
envergonhar, já que adquiriu as habilidades necessárias para manejar bem a Palavra
de Deus. Antes de prosseguir, portanto, apresentaremos a tríade hermenêutica, que
consiste em história, literatura e teologia — nossa bússola nesta jornada —, e uma
breve recapitulação da história da interpretação bíblica.

triádica da interpretação bíblica, que consiste no estudo da história, da linguagem e da teologia.


A HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA E A
TRÍADE HERMENÊUTICA
Na prática interpretativa, o intérprete da Escritura depara-se com três realida­
des inevitáveis: 1) a realidade da história ou, mais especificamente, da história
da salvação, isto é, o fato de que a revelação de Deus aos seres humanos, que é
transmitida pelos textos bíblicos, ocorreu dentro do contínuo espaço-tempo no
qual nós nos encontramos. O texto das Escrituras, afinal de contas, não surgiu
num vácuo, mas foi escrito por pessoas com crenças, convicções e experiências
específicas; 2) a existência de textos que contêm essa revelação e que precisam
ser interpretados (literatura); por fim, mas não menos importante, 3) a realidade
do próprio Deus e sua revelação nas Escrituras (teologia). Essas três realidades
compõem a tríade hermenêutica.

TEOLOGIA

HISTÓRIA LITERATURA

1.1. A tríade hermenêutica24

Essencialmente, portanto, a tarefa do intérprete consiste em analisar cada um


dos aspectos principais da tríade hermenêutica com o devido equilíbrio, sendo os
dois primeiros elementos — história e literatura — a base, e a teologia, o vértice.
Ainda que discernir a mensagem espiritual das Escrituras — a teologia — seja o

24Se tomarmos a palavra “theology” (termo do inglês que significa “teologia”), podemos contar
com um recurso mnemônico: “THeoLogy”. As letras em destaque nos lembram dos três elementos
da tríade hermenêutica: teologia, história e literatura. Se incluirmos ainda gênero, cânon e linguagem
(veja adiante), a palavra passa a ser “THeoLoGiCaL” (termo do inglês que significa “teológico”), nos
lembrando de que devemos levar em consideração Teologia, História e Literatura, que envolvem
Gênero, Cânon e Linguagem.
objetivo final da interpretação bíblica, estudar o pano de fundo histórico-cultural
de cada texto e ter a devida compreensão de seus aspectos literários é essencial.
Contudo, como mostrará o breve resumo a seguir, a história da interpretação
demonstra que os intérpretes bíblicos nem sempre tiveram êxito em dar a devida
atenção a cada um desses três elementos.25

O Antigo Testamento, Jesus e a igreja primitiva


Os exemplos mais antigos de hermenêutica bíblica se encontram na própria
Escritura. Certos autores posteriores do Antigo Testamento, por exemplo, fazem
referência a temas mais antigos das Escrituras, desenvolvendo-os.26 Também há
exemplos abundantes de interpretação bíblica no judaísmo, que incluem a litera­
tura sectária encontrada em Qumran (os Manuscritos do Mar Morto).27 O Novo
Testamento contém copiosas referências a passagens do Antigo Testamento, tanto
em citações explícitas quanto em alusões e ecos.28 Embora haja alguma variedade
na maneira que os autores bíblicos posteriores se apropriaram dos textos mais
antigos — como cumprimento de promessas, tipologia, analogia e, em raros casos,
alegoria29 —, o que todas essas referências têm em comum são basicamente dois
elementos: 1) o reconhecimento da autoria dúplice, isto é, do fato de que por trás
de qualquer autor humano da Escritura está o autor divino, o próprio Deus; e 2)
o respeito pela intenção original desses autores, divino e humano, no processo
da interpretação e aplicação da passagem.
O primeiro desses elementos está associado a importantes doutrinas bíblicas,
como a revelação, a inspiração e a inerrância da Escritura, doutrinas que fluem

25Aconselho a leitura do cap. 1 de Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle, the Cross, and the
Crown, que fornecerá ao leitor uma excelente estrutura para o estudo das Escrituras, considerando
as questões essenciais de cânon, transmissão textual, tradução e inspiração.
“ Veja esp. D. A. Carson e H. G. M. Williamson, It Is Written: Scripture Citing Scripture
(Cambridge: Cambridge University Press, 1988). Veja também Michael Fishbane, BiblicalInterpre-
tation in Ancient Israel (Oxford: Clarendon, 1984).
27Esse é um vasto campo de estudos. Para uma visão geral e bibliografia, veja Kõstenberger, Kellum
e Quarles, The Cradle, the Cross, and the Crown, cap. 2. Veja também Richard N. Longenecker, Biblical
Exegesis in the Apostolic Period, 2. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), cap. 1.
2SVeja esp. G. K. Beale e D. A. Carson, orgs., Commentary on the New Testament Use o ft h e
Old Testament (Grand Rapids: Baker, 2008) [edição em português: Comentário do Uso do Antigo
Testamento no Novo Testamento (São Paulo, Vida Nova: 2014)]; Longenecker, Biblical Exegesis in
the Apostolic Period. Veja tb. R. T. France, Jesus and the Old Testament (London: Tyndale, 1971);
Richard B. Hays, Echoes o f Scripture in the Letters ofP aul (New Haven: Yale University Press, 1989).
29Veja David L. Baker, Two Testaments, One Bible, 3. ed. (Downers Grove: InterVarsity, 2010).
claramente do testemunho da própria Bíblia e estão implícitas no uso que Jesus,
Paulo e a igreja primitiva fazem do texto bíblico.30 O segundo elemento envolve
questões intricadas quanto ao uso que o Novo Testamento faz do Antigo; nós nos
ocuparemos desse assunto em mais detalhes num capítulo posterior.31
A esses dois elementos podemos acrescentar um terceiro, de importância
suprema: a promessa da vinda do Messias no Antigo Testamento e o axioma
hermenêutico que sustenta todo o Novo Testamento, a saber, Jesus de Nazaré foi
esse Messias — Jesus, que nasceu de uma virgem, viveu sem pecado e reuniu os
Doze como sua nova comunidade messiânica; Jesus, que morreu, foi sepultado e
ressuscitou dos mortos no terceiro dia; Jesus, que foi exaltado, ascendeu ao Pai, agora
dirige a missão da igreja por meio do seu Espírito e um dia voltará para reunir o
seu povo e julgar o mundo incrédulo, inaugurando o estado eterno.32

Os pais apostólicos e os apologistas


Os pais apostólicos — entre eles Clemente de Roma (morto em 101 d.C.), Inácio
(35-110 d.C.) e Policarpo (69-155 d.C.), além de escritos como a Didaquê e O pastor
de Hermas — basearam-se nesses precedentes bíblicos e afirmaram que o Messias
predito no Antigo Testamento enfim viera na pessoa de Jesus de Nazaré.33 Os
apologistas — Justino Mártir (100-165 d.C.), Ireneu (c. 130-200 d.C.) e Tertuliano
(c. 160-225 d.C.) defenderam o cristianismo contra romanos pagãos, judeus não
messiânicos e cristãos sectários ou hereges, como Marcião, que procurava opor
o Deus do Antigo Testamento ao do Novo. Basicamente, esses primeiros defensores
da fé cristã sustentavam que ambos os Testamentos uniam-se em torno de Cristo,
que era o seu centro, e que toda a Escritura devia ser interpretada dentro de um
enquadramento cristológico geral. A interpretação bíblica nesse período apre­
senta uma gama ampla de abordagens, que vai da interpretação literal à tipológica

“Veja Norman L. Geisler, org., Inerrancy (Grand Rapids: Zondervan, 1980) [edição em português:
A Inerrância da Bíblia (São Paulo: Vida, 2003)], esp. o ensaio de Paul Feinberg; D. A. Carson e John
D. Woodbridge, orgs., Scripture and Truth (Grand Rapids: Zondervan, 1983), esp. o ensaio de Wayne
Grudem; D. A. Carson, Collected Writings on Scripture (Wheaton: Crossway, 2010), que faz referência
a uma obra em dois volumes a ser publicada pela Eerdmans, por ora intitulada The Scripture Project.
“ Capitulo 15: Como fazer a associação: extraindo nossa teologia da Bíblia.
i2Veja esp. a breve abordagem do cânon nos caps. 3 e 4.
"Quanto à exegese patrística, cf. esp. Charles Kannengiesser, Handbook o f Patristic Exegesis,
2 vols. (Leiden/Boston: Brill, 2004). Veja também os ensaios pertinentes em Alan J. Hauser e
Duane F. Watson, orgs., A History o f Biblical Interpretation, vol. 1: The Ancient Period (Grand Rapids:
Eerdmans, 2003).
(correspondência histórica entre um tipo e um antítipo), passando pela interpreta­
ção midráshica (como a encontrada em um midrash — comentário) e a alegórica.

As escolas de Alexandria e Antioquia


O proponente mais notável da escola de Alexandria — um grande centro de estu­
dos na Antiguidade, localizado no Egito — foi o pai da igreja Orígenes (185-253
d.C.). Como diretor da escola catequética de Alexandria, Orígenes foi o principal
responsável pelo florescimento do método alegórico de interpretação bíblica. Esse
pai da igreja dirigia-se sobretudo aos gentios que tinham interesse pela filosofia.
Visando demonstrar a supremacia do cristianismo, ele tentou mostrar que Cristo
era a suprema fonte humana e religiosa de conhecimento. Segundo Orígenes, o
próprio Cristo falara no Antigo Testamento, cuja mensagem prenunciara o me­
lhor da filosofia grega. Outro autor alexandrino, Clemente (c. 150-215 d.C.), fazia
distinção entre os elementos histórico e teológico (espiritual; Stromateis Livro I,
cap. 28). Embora reconhecesse a natureza histórica das narrativas mosaicas, ele
extraía delas interpretações “espiritualizantes” (e.g., Stromateis Livro I, cap. 21).34
A escola exegética de Antioquia, representada por Teófilo, que veio a ser bispo
dessa cidade por volta de 169 d.C., e mais tarde por João Crisóstomo (354-407 d.C.),
diferia nitidamente da abordagem alexandrina. Aliás, o contraste entre essas duas
escolas explica algumas das questões mais fundamentais da interpretação bíblica.
Essencialmente, a diferença entre elas girava em torno do modo como elas tratavam
o aspecto histórico do texto bíblico. Enquanto a escola alexandrina recorria a leituras
alegóricas, nas quais o sentido histórico ficava em segundo plano em relação ao
sentido espiritual que o intérprete via em determinado personagem ou aconteci­
mento do Antigo Testamento, os antioquenos procediam segundo a convicção de
que o principal nível de exegese era o histórico.
Em decorrência disso, enquanto a escola alexandrina deixava de lado o sentido
histórico literal quando este conflitava com a sensibilidade moral ou intelectual do
intérprete, a escola antioquena se comprometia em interpretar, sempre que possí­
vel, os textos bíblicos de forma literal. Ao mesmo tempo, porém, os antioquenos
abriam espaço para um sentido mais pleno, além do histórico, no caso de profecias
e salmos messiânicos. Em sua austeridade interpretativa e na primazia que davam

34Veja Klein, Blomberg e Hubbard (p. 38-9), os quais indicam que, assim como Filo, Clemente
acreditava que as Escrituras tinham um sentido duplo: “Assim como o ser humano, elas têm um
sentido corpóreo (literal) e um sentido da alma (espiritual) escondido sob o sentido literal” (p. 38).
aos níveis histórico e gramatical da interpretação bíblica, a escola de Antioquia foi
uma importante precursora da abordagem interpretativa histórico-gramatical, que
se propagou no tempo da Reforma.

Jerônimo e Agostinho
O grande erudito Jerônimo (347-420 d.C.) foi o responsável pela tradução da
Bíblia para o latim, a versão chamada comumente de Vulgata, que reinou supre­
ma na igreja como a tradução oficial das Escrituras durante o milênio seguinte.
Tendo vivido em Antioquia de forma intermitente, Jerônimo passou os últimos
35 anos de sua vida em Belém (386-420 d.C.). Em certo sentido, combinou os
melhores aspectos das escolas alexandrina e antioquena. Por um lado, “deixou
claro para os seus sucessores que o Antigo Testamento era um livro oriental,
escrito numa língua oriental e ambientado no passado oriental. Ao mesmo
tempo, ele expressava de modo apaixonado a convicção de que a vinda de Jesus
atestava que o Antigo Testamento é um livro de iluminação e esperança para
toda a humanidade”.35
O pai da igreja Agostinho (354-430 d.C.) se notabilizou principalmente por
sua obra-prima teológica, A Cidade de Deus. Nessa obra de referência, escrita pouco
depois do saque de Roma pelos godos, em 410 d.C., Agostinho respondeu à crítica
pagã de seu tempo segundo a qual a queda de Roma resultara da aceitação do cris­
tianismo por essa cidade e do abandono de seu antigo panteão de deuses. Em sua
exposição sobre a cidade terrena e a celeste, Agostinho mantém o mais profundo
respeito pela historicidade dos acontecimentos registrados no Antigo Testamento.
Como a cidade de Deus na terra, a igreja ainda contém tanto elementos bons
como maus, situação que só será sanada na segunda vinda de Cristo. Embora haja
exemplos de interpretações espiritualizantes em Agostinho, “o que impressiona em
A Cidade de Deus é o fato de que a obra consiste em um esforço de levar o Antigo
Testamento a sério em seu aspecto histórico e de refletir como a história secular e
a sagrada devem ser interpretadas uma em relação à outra”.36Jerônimo e Agostinho
foram figuras portentosas da interpretação bíblica e, ao menos pelos seiscentos anos
seguintes, nenhum outro intérprete os haveria de superar.

35John Rogerson, “The Old Testament”, in: The History o f Christian Theology, vol. 2: The Study
and Use o f the Bible, John Rogerson, Christopher Rowland e Barnabas Lindars (Grand Rapids:
Eerdmans, 1988), p. 46.
36Ibidem, p. 52.
O período medieval
Nos séculos que se seguiram, os quais testemunharam as contribuições de Cirilo
de Alexandria (arcebispo dessa cidade, 412-444 d.C.), de Gregório Magno (papa,
590-604 d.C.) e de Beda, o Venerável (c. 672-735 d.C.), entre outros, as interpreta­
ções alegóricas e místicas do Antigo Testamento alcançaram seu apogeu. Durante
o restante da Idade Média, no entanto, renovou-se o interesse pela interpretação
histórica das Escrituras. Esse fato se evidencia particularmente na escola da abadia
de São Vítor, em Paris. Entre seus proponentes estão Hugo, que lecionou em São
Vítor de 1125 até morrer, em 1142, e seu aluno André, que também lecionou nessa
abadia até 1147, voltando a dar aulas ali de 1155 até 1163. Tanto Hugo quanto
André buscavam sobretudo o sentido histórico e literal do texto bíblico.
Embora o método remonte pelo menos a João Cassiano (360-435 d.C.),37 a
exegese medieval é conhecida sobretudo pelo método que consiste em procurar
identificar o sentido quádruplo das Escrituras: 1) literal (ou histórico), 2) alegórico
(ou espiritual), 3) tropológico (ou moral) e 4) anagógico (ou futuro; do grego
anagogê, “levando a”). Nicolau de Lira (1270-1340) cita de modo memorável, por
volta de 1330, o seguinte dístico (máxima expressa em dois versos):

A letra ensina os acontecim entos; a alegoria, no que você deve crer;


O sentido moral, o que deve fazer; a anagogia, aquilo pelo que esperar.38

O sentido literal é o sentido histórico-gramatical. O sentido alegórico (inclu­


sive a tipologia) é o sentido espiritual que se considera haver sob a superfície do
texto. O sentido tropológico diz respeito às lições morais que podem ser extraídas
das Escrituras. Por fim, o sentido anagógico refere-se às possíveis implicações de
determinada passagem em relação ao fim dos tempos.
Alguns intérpretes medievais, como o há pouco mencionado Hugo de São Vítor,
enfatizavam o sentido literal das passagens bíblicas; já outros, como Bernardo de

37“A Jerusalém una pode ser entendida de quatro maneiras diferentes: no sentido histórico, como
a cidade dos judeus; no sentido alegórico, como a igreja de Cristo; no sentido anagógico, como a
cidade celestial de Deus, a qual ‘é a nossa mãe’ (G1 4.26); e no sentido tropológico, como a alma
humana.” John Cassian [João Cassiano], Conferences, trad. Colm Luibheid(NewYork: Paulist, 1985),
p. 160. Veja também, da mesma corrente, Agostinho, De Genesi a d litteram 1.1.
38No original latino: Littera gesta docet, quid credas allegoria, Moralis quid agas, quo tendas
anagogia. Nicolau de Lira, In Gal. 4, 3 (Bíblia de Douai, 6, Anvers [1634], p. 506), apud Henri de
Lubac, M edieval Exegesis, vol. 1: The Four Senses o f Scripture, trad. Mark Sebanc (Grand Rapids:
Eerdmans, 1998), p. 1. Crê-se que o ditado se originou com Agostinho da Dácia (Dinamarca), em
seu texto Rotulus pugillaris (1206).
Claraval (1090-1153), privilegiavam uma interpretação mais espiritual. Houve outros
ainda, como Tomás de Aquino (1225-1274), que procuraram manter em tensão esses
aspectos.39 Em muitos casos, porém, os quatro sentidos eram afirmados uns ao lado
dos outros e considerados maneiras viáveis, ainda que diversas, de procurar entender
o sentido das Escrituras. Sendo assim, à medida que a preocupação com a intenção
do autor era relegada ao segundo plano e o modo de pensar do próprio intérprete
passava a dominar a atividade da interpretação bíblica, o sentido textual das Escrituras
começou a ser progressivamente obscurecido e a leitura contextual da Bíblia deu lugar
a uma espécie de misticismo, que considerava o texto um mero ponto de partida para
alvos mais elevados, mais “sublimes”, para o progresso espiritual do próprio intérprete.

A Reforma e o lluminismo
A interpretação bíblica no começo do século 16, às vésperas da Reforma, ainda
era na maior parte dominada pela noção de um sentido quádruplo das Escritu­
ras. O sentido literal era o histórico, que contava a relação de Deus com Israel e
a igreja. Já o sentido espiritual implicava relacionar a mensagem bíblica a Cristo,
com os intérpretes buscando extrair dela aplicações morais para a vida cotidiana
do povo. Os grandes reformadores, Martinho Lutero e João Calvino, atuaram no
início do renascimento dos estudos clássicos, do qual a erudição de Erasmo de
Roterdã (1466/69-1536) foi um modelo.40
Lutero (1483-1546) é reconhecido por insistir no princípio da sola scriptura
(expressão latina que nomeia a doutrina da suficiência das Escrituras), em oposição
à prática católico-romana de dar à tradição da igreja um papel igual em importância
(se não maior) ao da Bíblia. Lutero também defendia a ideia de que a própria Bíblia
é a sua melhor intérprete (Scriptura sui interpres)-, em outras palavras, para ele, o
estudo das Escrituras tinha precedência sobre os comentários patrísticos e a autori­
dade eclesiástica. O reformador também rejeitava a interpretação alegórica medieval,
afirmando, com Aquino, que as Escrituras tinham um sentido essencial: o histórico.41
Assim, com essa abordagem distinta de Lutero, o sentido quádruplo busca­
do na interpretação medieval desmoronava: “Se havia um sentido literal que se
referia a Cristo, não havia necessidade de sentidos espirituais para encontrá-lo no

"'Rogerson, “Old Testament”, p. 70-3.


“ Klein, Blomberg e Hubbard citam o famoso ditado do século 16: “Erasmo pôs o ovo e Lutero
o chocou” em Introduction to Biblical Interpretation, p. 47.
41Ao mesmo tempo, Lutero adotou a interpretação tipológica encontrada no Novo Testamento.
Veja Klein, Blomberg e Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation, p. 47.
texto”.42 No Antigo Testamento, Lutero descobriu um rico repositório de histórias
de fé capaz de instruir os cristãos na conduta da vida cristã. Ao mesmo tempo,
o reformador fazia distinção entre a lei e o evangelho, sustentando que a lei do
Antigo Testamento, como lei, não era normativa para os cristãos. Ao interpretar
os profetas, Lutero afirmava o sentido literal em que determinado texto se refere
a Cristo. Também observou que, como o Espírito Santo guia o intérprete, a inter­
pretação resultante é uma interpretação devidamente “espiritual”.
Calvino (1509-1564), por sua vez, era de inclinação mais sistemática que
Lutero. Além disso, mostrava maior preocupação em estabelecer o sentido do texto
com o auxílio do conhecimento secular. Ao mesmo tempo, como no caso de Lutero,
a principal preocupação de Calvino era com o sentido literal e histórico do texto.
Ele também declarava a existência de um elemento subjetivo na interpretação,
“o testemunho interno do Espírito Santo”.43 Dentro dessa estrutura, a interpreta­
ção do reformador era cristológica. Ele via a diferença entre os dois Testamentos
como de natureza principalmente administrativa: o Antigo permanecia incompleto
e dependente da revelação do Novo. A lei, para Calvino, principalmente os Dez
Mandamentos, continua sendo relevante, porque está de acordo com a lei natural.
No Iluminismo, os intérpretes da Bíblia tornaram-se cada vez mais céticos em
relação aos elementos sobrenaturais da Escritura, como, por exemplo, os milagres
realizados por Moisés e Jesus.44 A própria possibilidade de haver milagres era cada
vez mais submetida ao questionamento da razão humana, e o antissobrenaturalismo
predominava em grande parte do cenário cultural da época. A nova visão da ciência
levou à interpretação do relato da Criação e dos milagres como “mitos”. Isso incluía
a ressurreição de Jesus, apesar de Paulo e outros autores do Novo Testamento terem
deixado claro que a ressurreição é essencial à fé cristã. Essa mentalidade racionalista
deu origem a um nítido ceticismo em relação às informações da Escritura e levou ao
desenvolvimento do método histórico-crítico de interpretação do texto bíblico, que con­
tém uma série de diferentes critérios para avaliar a historicidade dos textos da Bíblia.45

“ Rogerson, “Old Testament”, p. 78.


43Para fontes contextuais, veja Klein, Blomberg e Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation,
p. 48, nota 106.
41Para um excelente registro desse desenvolvimento, veja William Baird, History ofN ew Testament
Research, vol. 1: From Deism to Tübingen (Minneapolis: Fortress, 1992).
45Veja Edgar Krentz, The Historical-Critical Method, Guides to Biblical Scholarship (Philadelphia:
Fortress, 1975); Roy Harrisville e Walter Sundberg, The Bible in M odem Culture: Theology and
Historical-Critical Method from Spinoza to Kàsemann (Grand Rapids: Eerdmans, 1995). Para uma
crítica, veja Gerhard Maier, The End o fth e Historical-Critical Method. trad. Edwin W. Leverenz e
Rudolph F. Norden (St. Louis: Concordia, 1977).
O período moderno
Uma abordagem interpretativa mais detalhada prenunciou a ascensão da crítica
histórica, começando com Richard Simon (1638-1712), sacerdote católico romano
tido por muitos como o “pai da crítica bíblica”, passando por F. C. Baur (1792 -1860),
o líder da escola de Tübingen, por Julius Wellhausen (1844-1918), o principal
defensor da hipótese documentária da composição do Pentateuco (ao propor
fontes designadas por ele como “J” [Javista], “E” [Eloísta], “D” [Deuteronomista]
e “P” [Sacerdotal]), e chegando à escola da “história das religiões” e às várias
buscas pelo Jesus histórico.46
Talvez a figura mais importante na interpretação bíblica do período moderno
seja o teólogo e filósofo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834), tido por
muitos como o pai da hermenêutica moderna.47 Baseado em sua convicção de que
a fé religiosa está enraizada no sentimento que o indivíduo tem de sua dependência
de Deus, Schleiermacher argumentava que a interpretação consistia tanto no aspecto
objetivo quanto no subjetivo; além do aspecto gramatical do texto bíblico também
havia, segundo ele, o psicológico. O aspecto objetivo da interpretação consistia em
estudar a mensagem explícita do texto transmitida pelas palavras, pela estrutura das
frases e assim por diante. Já o aspecto subjetivo consistia em tentar reconstruir a psique
do autor no momento em que produziu o texto. Contudo, o conceito de intenção
autoral de Schleiermacher não tem nenhum crédito entre os estudiosos atuais, porque
o único acesso ao estado de espírito de determinado autor é o próprio texto que ele
escreveu. Isto posto, é muito importante procurar determinar o sentido pretendido
por um autor mediante o estudo cuidadoso do texto. Na verdade, quando se exclui
a intenção do autor, é praticamente impossível obter uma interpretação confiável.48
Após Schleiermacher, a moderna interpretação histórico-crítica da Bíblia
passou a ser cada vez mais caracterizada por um viés antissobrenatural e pelo ce­
ticismo histórico por parte da maioria de seus proponentes.49 Lamentavelmente,

46Quanto a essa última questão, veja o resumo conciso em Kõstenberger, Kellum e Quarles,
Cradle, the Cross, an d the Crown, p. 111-6.
47Veja, e.g., Osborne, Hermeneutical Spiral, p. 468.
48Para discussões proveitosas a esse respeito, veja Robert H. Stein, “The Benefits of an Author-
-Oriented Approach to Hermeneutics”, JETS 44 (2001), p. 451-66; Jerry Vines e David Allen,
“Hermeneutics, Exegesis and Proclamation”, CTR 1 (1987), p. 309-34 (ambos os artigos estão
também disponíveis online).
49Para estudos sobre a história da hermenêutica, veja Anthony C. Thiselton, The Two Horizons
(Grand Rapids: Eerdmans, 1979); idem, Hermeneutics: An Introduction (Grand Rapids: Eerdmans,
2009); Klein, Blomberg e Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation, cap. 2; Osborne, H erm e­
neutical Spiral, apêndices 1 e 2 (só o período moderno, começando com Schleiermacher).
essa atitude negativa e crítica em relação às Escrituras, graças à sua tendência de
neutralizar as noções de revelação, inspiração e autoridade bíblicas, minou a cre­
dibilidade do registro das Escrituras.50 Para a maioria dos proponentes do método
histórico-crítico, o aspecto histórico foi desassociado do texto bíblico, e a questão de
saber se determinado acontecimento narrado na Bíblia ocorreu de fato passou a ser
a única preocupação desses estudiosos.51 Sendo assim, determinar a historicidade
das narrativas bíblicas substituiu a tarefa de estudar o próprio texto das Escrituras,
uma mudança de foco que Hans Frei registra de maneira competente em Eclipse
o f Biblical Narrative.52Nesse processo, o “método histórico-crítico”, ao dar atenção
demasiada ao aspecto histórico do texto, negligenciou o devido compromisso com
os aspectos literário e teológico da Bíblia.
Na esteira do livro de Frei, contudo, o pêndulo oscilou para o outro extremo.
O ceticismo crescente em relação à historicidade dos acontecimentos narrados na
Bíblia levou a um estudo meramente literário da Escritura, como se ela fosse um
livro como outro qualquer.53Nessa abordagem — que Kevin Vanhoozer adequada­
mente rotulou de “teologia estética” —, os intérpretes da Escritura se concentraram
estritamente nos diferentes aspectos literários do texto bíblico, excluindo o aspecto
histórico do escopo de sua pesquisa.54 O conhecimento bíblico reduziu-se à crítica
narrativa ou a várias outras formas de crítica literária; e, embora esse método tenha
rendido insights literários interessantes, o aspecto histórico da Bíblia foi injustamen­
te desprezado, o que resultou, mais uma vez, numa interpretação desequilibrada.
O pós-modernismo acirrou essa “guinada estética” sofrida pelos estudos bíblicos
ao questionar a própria noção de história objetiva e considerar a ideia da “verdade”
uma mera convenção humana sem nenhuma correspondência com os fatos e a

50Mas veja também as críticas competentes a essas tendências por parte de estudiosos norte­
-americanos como B. B. Warfield, W. H. Green, W. J. Beecher e outros. Veja Klein, Blomberg e
Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation, p. 54.
51É comum os estudiosos do Jesus histórico separarem o “Jesus da história” (i.e., Jesus durante
seu ministério terreno) do “Cristo da fé” (o Jesus em quem os primeiros cristãos creram), como
se esses dois aspectos de Jesus fossem necessariamente diferentes e conflitantes. Nesse contexto,
falou-se muitas vezes na “fé pascoal” dos seguidores de Jesus, alegando-se que sua fé os levou a
atribuir aspectos a Jesus que ele nunca afirmou possuir durante seu ministério na terra. Veja, e.g.,
Martin Káhler, The So-Called Historical Jesus and the Historie, Biblical Christ, trad. Carl E. Braaten,
(Philadelphia: Fortress, 1964 [1896]).
52Hans W. Frei, The Eclipse o f Biblical Narrative (New Haven: Yale University Press, 1974).
53Veja novamente Baird, History o f Research, vol. 1, para um relato completo das raízes históricas
desse fenômeno.
54Vanhoozer, “Lamp in the Labyrinth”. Veja também Andreas J. Kõstenberger, “Aesthetic Theology —
Blessingor Curse? An Assessment of Narrative Hermeneutics”, Faith &Mission, 15/2 (1988), p. 27-44.
realidade.55 Abordagens como a que privilegia a reação do leitor e o desconstruti-
vismo deixaram de lado a intenção autoral, sustentando que o sentido do texto é
determinado subjetivamente pelo leitor, ou negaram por completo a possibilidade
de uma noção estável de significado, o que resultou numa pluralidade de teologias
e leituras sem nenhum padrão objetivo para determinar qual é a mais apropriada
entre diferentes interpretações.56
Outras abordagens abandonaram a questão da historicidade, mas continuaram
preocupadas com a teologia, enveredando pelo existencialismo ou por outras corren­
tes.57Os seguidores dessa escola de pensamento defendiam que a verdade teológica
não depende da veracidade das descrições e narrativas dos diferentes fenômenos e
acontecimentos que o texto bíblico apresenta. A ressurreição foi redefinida como
uma experiência existencial de uma nova vida, uma experiência pessoal alcançada
por meio da fé e independente da ressurreição histórica de Jesus. A regeneração
que se segue à fé em Cristo foi redefinida como resultado de um encontro existen­
cial com Deus ocasionado pela leitura das Escrituras, e assim por diante. Esses são
exemplos de abordagens teológicas errôneas que foram edificadas sobre o alicerce
do aspecto histórico da Bíblia. Ainda que a teologia, como já dissemos, mereça ser
considerada o auge da interpretação bíblica, ela tem de ser elaborada sobre uma
apropriada compreensão dos aspectos histórico, lingüístico e literário da Escritura;
de outra maneira, não lograremos alcançar uma interpretação legítima e equilibrada
do texto bíblico.58 Isso, por sua vez, nos traz de volta à tríade hermenêutica.

55Sobre essa questão, veja Andreas J. Kõstenberger, org., W hatever H appened to Truth?
(Wheaton: Crossway, 2005), em particular a crítica aguda ao pós-modernismo feita por J. P. Moreland.
Veja também D. A. Carson, The Gagging o f God: Christianity Confronts Pluralism (Grand Rapids
Zondervan, 1996) [edição em português: O Deus Amordaçado: o Cristianismo Confronta o Plura­
lismo (São Paulo: Shedd, 2013)].
56Veja esp. Osborne, Hermeneutícal Spiral, apêndices 1 e 2; Hirsch, Validity in Interpretation.
57Veja, e.g., a tentativa do teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884-1976) de “desmitologizar as
Escrituras” para salvar uma suposta essência existencialista da mensagem cristã que tivesse um
apelo para as pessoas da atualidade. Veja Rudolf Bultmann, New Testament Mythology and Other
Basic Writings, Schubert M. Ogden, org. (Philadelphia: Fortress, 1984); Karl Jaspers e Rudolf
Bultmann, Myth & Christianity: An Inquiry into The Possibility ofReligion without Myth (Amherst:
Prometheus, 2005).
“Um desdobramento mais promissor (ainda que não sem alguns problemas) é o movimento
que defende a volta à interpretação teológica das Escrituras. Veja esp. Daniel J. Treier, Introducing
Theological Interpretation o f Scripture: Recovering a Christian Practice (Grand Rapids: Baker, 2008);
Kevin J. Vanhoozer, org., Dictionary fo r Theological Interpretation o f the Bible (Grand Rapids:
Baker, 2005). Veja também a breve abordagem inicial ao tema na seção introdutória de Andreas J.
Kõstenberger, “Of Professors and Madmen: Currents in Contemporary New Testament Scholarship”,
Faith & Mission 23/2 (2006), p. 3-18.
A TRÍADE HERMENÊUTICA
Um estudo das Escrituras à altura desse objetivo terá de apresentar um equilíbrio
apropriado entre história, literatura e teologia. Como Charles Scobie obser­
vou com propriedade: “Em grande parte da crítica literária contemporânea, o
estudo histórico do autor original do texto foi abandonado por não ser conside­
rado relevante”. Scobie prossegue afirmando que, no estudo da Bíblia, abandonar
o estudo do contexto histórico “constituiria um desastre de primeira grandeza,
porque deixaria o intérprete à deriva num mar de subjetividade”.59
É por essa razão que a tríade hermenêutica, que inclui o estudo do contexto
histórico das passagens bíblicas, é um guia eficiente para dominar as competências
gerais necessárias à interpretação bíblica, bem como para orientar o intérprete
quanto às regras especiais do estudo de cada gênero bíblico. Em vez de se oporem
umas às outras, história, literatura e teologia têm cada uma lugar essencial no estudo
da Palavra sagrada.
Ao estudar qualquer passagem bíblica, o intérprete deve atentar para os
seguintes elementos: 1) o contexto histórico; 2) o contexto literário (inclusive
questões como cânon, gênero e língua); e 3) a mensagem teológica, isto é, o que a
passagem ensina sobre Deus, Cristo, a salvação e a necessidade de responder com
fé aos ensinamentos da Bíblia.
A interpretação da Escritura, por sua vez, não é um fim em si, mas um meio
cujo fim é a aplicação das verdades bíblicas à nossa vida. Saber usar os devidos
recursos e ferramentas de interpretação e encontrar um caminho que leve do texto
ao sermão, seja qual for o gênero bíblico abordado, são habilidades essenciais. Desse
modo, a sã interpretação torna-se o alicerce sólido para a proclamação da verdade
bíblica e sua aplicação à nossa vida.
A partir das afirmações acima, deriva-se naturalmente um método para a
interpretação e aplicação de qualquer passagem das Escrituras. O domínio da
utilização desse método permitirá que o intérprete desenvolva uma série de habi­
lidades cruciais, entre elas o seguinte conjunto de competências interpretativas e
comunicativas:

1. consciência histórico-cultural;
2. consciência do cânon bíblico;
3. sensibilidade aos diferentes gêneros literários da Bíblia;

“ Charles H. H. Scobie, The Ways ofO u r God: An Approach to Biblical Theology (Grand Rapids:
Eerdmans, 2003), p. 33.
4. competência literária e lingüística;
5. noção firme e domínio crescente da teologia bíblica; e
6. habilidade de aplicar e proclamar as passagens de qualquer gênero bíblico.

TEOLOGIA

HISTÓRIA LITERATURA

CÂNON GÊNERO LINGUAGEM


A n tigo Testam ento Narrativa histórica d o AT Contexto discursivo
N o vo Testam ento Poesia e sabedoria Significado das palavras
Profecia Lin gu age m figurada
Narrativa histórica d o NT
Parábolas
Epístolas
Literatura apocalíptica

1.2. A tríade hermenêutica em detalhes

Vale a pena adquirir e aperfeiçoar essas habilidades. Isso trará glória a Deus e
excelentes bênçãos ao estudante da Bíblia, que estenderá essas bênçãos também ao
povo de Deus. Com esse fim em mente, as “Diretrizes para interpretação da Bíblia:
método geral”, delineadas a seguir numa tabela e numa lista passo a passo, serão
seguidas ao longo deste livro.60

“ Uma obra excelente que fundamenta a pregação bíblica nos três elementos que constituem a
tríade hermenêutica (história, literatura e teologia), é Sidney Greidanus, The M odem Preacher and
the Ancient Text: Interpreting and Preaching Biblical Literature (Grand Rapids: Eerdmans, 1988)
[edição em português: O Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo (São Paulo: Cultura Cristã, 2011) ].
1.3. Diretrizes para interpretação da Bíblia: método geral
I. PREPARAÇÃO

Prepare-se para a tarefa da interpretação bíblica identificando de antemão seus


pressupostos pessoais. Ore a Deus a fim de que ele abra sua mente para que
você possa entender as Escrituras. Desempenhe essa tarefa usando um método
adequado para a interpretação bíblica: a tríade hermenêutica.

II. INTERPRETAÇÃO
1. Determine o contexto histórico da passagem e identifique os aspectos
importantes do panorama cultural (história).

2. Situe a passagem no contexto canônico maior da Escritura como um todo


(literatura/cânon).

3. Identifique o gênero literário da passagem e leia-a usando os princípios


interpretativos apropriados (literatura/gênero).

4. Leia a passagem inteira com atenção, buscando entendê-la em seu contexto


discursivo maior e, se possível, fazendo uma análise completa do discurso
(literatura/linguagem/contexto discursivo).

5. Faça um estudo de campo semântico de qualquer termo que lhe parecer


significativo na passagem (literatura/linguagem/sentido das palavras).

6. Identifique as figuras de linguagem da passagem, se houver, e leia-as segundo


os devidos princípios de interpretação (literatura/linguagem figurada).

7. Identifique o(s) tema(s) teológico(s) principal(is) da passagem e determine a


contribuição do texto para o entendimento do caráter e do plano de Deus em
relação ao modo em que ele lida com seu povo (teologia).

III. APLICAÇÃO E PROCLAMAÇÃO


Avalie a relevância da passagem para os nossos dias e aplique-a corretamente à
sua vida e à vida da igreja de hoje.
dupla autoria. A autoria tanto humana quanto divina das Escrituras.

eisegese. Ler no texto um sentido pessoaf preferido.

escola alexandrina. Abordagem interpretativa que preferia a interpretação


alegórica à histórica.

escola antioquena. Abordagem interpretativa que preferia a interpretação


histórica à alegórica.

exegese. Extrair do próprio texto a sua interpretação.

hermenêutica. Disciplina que trata da teoria e da prática corretas de


interpretação textual

hermenêutica da percepção. Abordagem interpretativa que valoriza a escuta


atenta do texto.

método histórico-crítico. Abordagem interpretativa cuja principal preocupação


é avaliar a historicidade dos acontecimentos registrados na Escritura, com
resultados em geral negativos.

S c rip tu ra su iin te rp re s. Máxima da Reforma segundo a qual não há melhor


intérprete da Escritura do que a própria Escritura.

sentido quádruplo das Escrituras. Método de exegese medieval que procurava


no texto bíblico os sentidos literal, alegórico, tropológico e anagógico.

teologia estética. O estudo meramente literário das Escrituras.


1. Por que é tão importante interpretar as Escrituras fielmente? Justifique sua
resposta com referências bíblicas.

2. Cite algumas conseqüências de uma interpretação irresponsável da Bíblia.


Justifique sua resposta com referências bíbKcas.

3. Cite ao menos três características que o intérprete da Bíblia deve ter. Justifique
sua resposta com um texto bíblico.

4. Quais são as três realidades com que o intérprete bíblico se depara e de que
maneira elas formam a "tríade hermenêutica*?

5. O que acontece quando os intérpretes negligenciam uni ou dois elementos


quaisquer dessa tríade? Ilustre sua resposta com exemplos da história da
interpretação bíblica. ...
1. Dê exemplos tirados da Bíblia e de sua experiência pessoal que ilustrem os
benefícios de uma interpretação bíblica correta e/ou o custo da interpretação
bíblica equivocada.

2. Construa uma tabela que resuma a história da interpretação bíblica, incluindo


as principais escolas ou intérpretes individuais, as respectivas datas e as
características pertinentes a cada escola ou intérprete. Se possível, suplemente
as informações fornecidas neste capítulo com sua pesquisa individual.

3. Discorra sobre a importância de cada um dos elementos da tríade


hermenêutica — história, literatura e teologia — , bem como do cânon, do
gênero e da linguagem. Mostre que privilegiar um ou outro elemento da
tríade em detrimento dos demais resulta numa interpretação desequilibrada
e aponte como isso pode distorcer a compreensão correta do texto bíblico.

4. Pondere e comente em detalhes cada uma das seguintes competências que o


bom intérprete deve ter: consciência histórico-cultural, consciência do cânon,
sensibilidade quanto ao gênero, competência lingüística e literária, bom
conhecimento de teologia bíblica e aptidão para aplicar e comunicar a
verdade bíblica.
Carson, D. A. Exegetical Fallacies. 2.éd. Grand Rapids: Baker, 1996.
____ .Os Perigos dá Interpretação Bíblica. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2001. Tradução de:
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Klein, William W. Handbook for Personal Bible Study: Enriching Your Experience with God's
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A TRÍADE HERMENÊUTICA
O CONTEXTO DAS ESCRITURAS:
HISTÓRIA
1. Levar o aluno a compreender a importância decisiva de conhecer o contexto
histórico-cultural de uma passagem bíblica.

2. Dar certeza ao aluno da confiabilidade do registro bíblico.

3. Dirigir a atenção do aluno para a necessidade de identificar o propósito do


autor no que diz respeito aos detalhes particulares que ele decidiu registrar.

4. Fornecer um conjunto de diretrizes de interpretação para aplicar os princípios


contidos nos dados histórico-culturais da Bíblia aos problemas sociais e
políticos do mundo atual.
A. Capítulo 2: objetivos
B. Esboço do capítulo
C. Introdução: História e hermenêutica
D. Cronologia
1. Período do Antigo Testamento
a. Período primitivo
b. Período patriarcal ......
c. Do Êxodo à monarquiaunida
d. Monarquia dividida
e. Exílio e retorno
2. Período do Segundo Templo
a. Períodos babilônio e persa
b. Período heienístko
c. Período macabeu
d. Período romano
3. Período do Novo Testamento
a. Jesus
b. A igreja primitiva e Paulo
c. Restante do Novo Testamento
Arqueologia
1. Antigo Testamento
2. Novo Testamento
! r F- Contexto histórico-cultural
lf; 1. Fontes primárias
a. Literatura do antigo Oriente Próximo
b. Apócrifos do Antigo e do Novo Testamento
c. Pseudepfgrafòs do Antigo Testamento
d Manuscritos do Mar Morto
e. Outras fontes primárias relevantes
2. Fontes secundárias
Conclusão
Amostra de exegese (AntigoTestamento) iReis 17— 18

Ef
pTi-'
m > R»
Amostra de exegese (Novo Testamento) Lucas 2.1-20
Diretrizes para interpretar o contexto histórico-cultural
Palàvrás-chave
m t. Questões para aprofundar o estudo
|"M. Exercidos
Bibliografia do capítulo
fe *
TEOLOGIA
Capítulo 2

APRESENTANDO O CENÁRIO: O
CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

INTRODUÇÃO: HISTÓRIA E HERMENÊUTICA

P
ara que a interpretação das Escrituras tenha um fundamento seguro, é
imprescindível estudar o contexto histórico de uma passagem bíblica,
incluindo quaisquer características culturais do contexto. De igual modo,
o conhecimento do contexto histórico e cultural é imperativo para a aplicação da
mensagem da Escritura. J. Scott Duvall e J. Daniel Hays apresentam bem a questão:

Visto que vivemos num contexto muito diferente, precisam os recuperar o signifi­
cado original pretendido por Deus, refletido no texto e emoldurado pelo contexto
histórico-cultural antigo. Ao compreendermos o texto no contexto original, podemos
aplicá-lo à nossa vida de m odo que seja igualmente relevante.1

Enfatizar a importância das informações históricas não significa, obviamente,


que toda informação contextual disponível será pertinente para a interpretação de
determinada passagem. A relevância de uma informação contextual precisa ser
pesada e avaliada com cautela. Sem dúvida, as informações do contexto nunca de­
vem ser mais importantes do que aquilo que está sendo afirmado explicitamente no
texto. Na verdade, a falta de discernimento na seleção de informações contextuais
tem levado alguns a menosprezar completamente o uso de informações histórico-
-culturais na interpretação do texto bíblico (certamente, uma reação exagerada).

1J. Scott Duvall e J. Daniel Hays, Crasping Gods Word, 2. ed. (Grand Rapids: Zondervan, 2005), p. 100.
Para nossos presentes propósitos, a questão hermenêutica mais importante
refere-se à relação entre história e literatura, o primeiro e o segundo elementos da
tríade hermenêutica. No grego e hebraico antigos, literatura é um conceito que
remete imediatamente à noção de textos, diferentemente do que ocorre em nosso
entendimento atual dessa palavra, com seu desenvolvimento histórico e cultural
particular. Esses textos antigos não apenas exigem a tradução para uma língua
que se compreenda hoje (como o português), mas também o estudo de aspectos
histórico-culturais neles embutidos, visto que as línguas bíblicas e outros elementos
da cultura e história da Bíblia estão inextricavelmente entrelaçados.
De fato, em geral se reconhece que é de suma importância estudar as Escrituras
no contexto apropriado e que esse contexto, por sua vez, corretamente concebido,
consiste em facetas históricas e literárias. Sendo assim, não é preciso justificar a
necessidade de pesquisa histórica competente como parte do processo interpre­
tativo. É suficiente dizer que essa necessidade salienta a importância de obras de
consulta especializadas, tais como Bíblias de estudo, introduções ao Antigo e ao
Novo Testamento, comentários e outras obras de referência consagradas.
Entretanto, a reputação da pesquisa histórica foi manchada pelos adeptos do
método histórico-crítico, o qual é amplamente embasado num viés antissobrena-
turalista, que difama constantemente a historicidade de grande parte do material
bíblico.2 Como reação aos excessos do método histórico-crítico, alguns têm defen­
dido uma leitura estritamente literária das Escrituras, deixando de lado a questão
do referencial histórico.3 Embora supere a dificuldade de supostas discrepâncias
históricas, esse método proposto também não é isento de problemas, porque rompe
indevidamente o nexo essencial (na verdade, inevitável) entres os textos bíblicos e
seu contexto histórico-cultural.4

2Veja William Baird, The History ofN ew Testament Research, 2 vols. (Minneapolis: Fortress, 1992,
2002). Veja também Eta Linnemann, Historical Criticism ofth e Bible: Methodology or Ideology?, trad.
Robert W. Yarbrough (Grand Rapids: Baker, 1990) [edição em português; Crítica Histórica da Bíblia
(São Paulo: Cultura Cristã, 2009)].
3Hans W. Frei, The Eclipse o f Biblical Narrative: A Study in Eighteenth and Nineteenth Century
Hermeneutics (New Haven: Yale University, 1980).
4Para uma narrativa cronológica extremamente útil das questões concernentes ao movimento
do autor ao texto e ao leitor na área da hermenêutica, veja Grant R. Osborne, “Appendix 1: The
Problem of Meaning: The Issues” e “Appendix 2: The Problem of Meaning: Toward a Solution”, in:
The Hermeneutical Spiral: A Comprehensive Introduction to Biblical Interpretation, 2 ed. (Downers
Grove, IL: InterVarsity, 2006), p. 465-521 [edição em português: A Espiral Hermenêutica (São
Paulo: Vida Nova, 2009)].
Contribuindo para a depreciação da análise dos dados históricos, os pós-
-modernos acreditam que escrever história imparcial e objetiva é impossível.
A visão da história como fatos que “realmente aconteceram” foi substituída pela
concepção de que toda historiografia é inevitavelmente subjetiva. Além disso, os
críticos pós-modernos em geral fazem a acusação de que grande parte da história
é escrita pelos que prevaleceram em sua luta por poder e autoridade. Por isso,
esses registros históricos são muitas vezes considerados ferramentas de opressão
manejadas pelos poderosos contra os destituídos de direitos. Nesse contexto, toda
historiografia, incluindo os registros bíblicos, é encarada com suspeita, e o resultado
disso é o ceticismo generalizado.5
Apesar das concepções dos pós-modernos, a história permanece inabalável e
não pode ser ignorada. Afinal, o cristianismo é uma religião histórica fundamentada
em um fato histórico: a ressurreição de Jesus Cristo (v. esp. os comentários de Paulo
em ICo 15). Se a ressurreição de Jesus não ocorreu na história, nós não estamos
salvos, mas permanecemos em nossos pecados (ICo 15.16-19). Num memorável
debate nas páginas do Trinity Journal, Carl F. F. Henry e Hans Frei trataram exata­
mente desse problema, e Frei, que propunha um enfoque prioritário no texto, em
detrimento da história, para a interpretação das Escrituras, achou difícil afirmar
de forma inequívoca que Jesus ressuscitou dos mortos não apenas textualmente,
mas historicamente,6
Isso mostra quão importante é não separar indevidamente os aspectos histórico
e literário da Escritura, mas mantê-los em equilíbrio apropriado, o que faz parte
da tríade hermenêutica adotada no presente livro. O próprio fato de que a tríade
consiste em história, literatura e teologia mostra a necessidade de que a pesquisa
histórica seja equilibrada pelo foco adequado no texto (literatura) e de que se con­
ceda atenção suficiente à teologia (i.e., a autorrevelação de Deus no texto sagrado,
historicamente firmada). O estudante da Bíblia deve evitar tanto os excessos do

'Entre as análises úteis sobre o pós-modernismo se incluem D. A. Carson, The Gagging o f God:
Christianity Confronts Pluralism (Grand Rapids: Zondervan, 1996) [edição em português: O Deus
Amordaçado: o Cristianismo Confronta o Pluralismo (São Paulo: Shedd, 2013)]; J. P. Moreland,
“Truth, Contemporary Philosophy, and the Postmodern Turn”, in: Andreas J. Kõstenberger, ed.,
Whatever Happened to Truth? (Wheaton, IL: Crossway, 2005), p. 75-92; Millard J. Erickson, Truth
orConsequences: The Promise andPerils ofPostmodernism (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2001),
t a r l F. H. Henry, “Narrative Theology: An Evangelical Appraisal”, T f 8/1 (1987), p. 3-19 e Hans
Frei, “Response to ‘Narrative Theology: An Evangelical Appraisal’”, TJ 8/1 (1987), p. 21-4. Veja
Umbém Kevin J. Vanhoozer, “A Lamp in the Labyrinth: The Hermeneutics of ‘Aesthetic’ Theology”,
17 8/1 (1987), p. 25-56; Andreas J. Kõstenberger, “Aesthetic Theology—Blessing or Curse? An
Assessment of Narrative Hermeneutics”, Faith &M ission 15/2 (1998), p. 27-44.
método histórico-crítico quanto os reducionismos de abordagens literárias abso­
lutas, que se colocam contra a pesquisa histórica.

CRONOLOGIA
A leitura da Bíblia revela a enorme distância cronológica entre os acontecimentos
nela registrados e os nossos dias; em suas páginas encontram-se não apenas fatos
muito antigos, mas também costumes bastante diferentes dos atuais. A fim de com­
preender seu significado, é necessário entender as pessoas, os eventos e os costumes
apresentados na Bíblia em seu próprio ambiente histórico.7O restante deste capítulo
oferece visões gerais de cronologia e arqueologia bíblicas e pesquisa sobre o contexto
histórico-cultural, começando com um quadro histórico geral para interpretar o
texto bíblico empregando a cronologia bíblica.8

Período do Antigo Testamento


Pelas informações internas da Bíblia, podemos determinar datas para a cronologia
do Antigo Testamento. Uma passagem fundamental é IReis 6.1, que menciona o
quarto ano do reinado de Salomão, situando-o em 480 anos depois do Êxodo.9 A
correlação de informações de fontes externas com o registro bíblico situa essa data
em 987 a.C.10 Utilizando outras informações bíblicas, podemos determinar uma

7Entre as melhores fontes estão John Walton, org. Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Com­
mentary: Old Testament, 5 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 2009); e Clinton Arnold, org. Zondervan
Illustrated Bible Backgrounds Commentary: New Testament, 4 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 2001).
Veja também excelentes Bíblias de estudo, tais como a NIVStudy Bible [edição em português: Bíblia
de Estudo N VI (São Paulo: Vida, 2003)], a ESVStudy Bible e a HCSB Study Bible.
8Para uma pesquisa proveitosa e mais detalhada da história bíblica, veja “Biblical History”, de
P. E. Satterthwaite, in: T. Desmond Alexander e Brian S. Rosner, orgs., New Dictionary o f Biblical
Theology: Exploring the Unity & Diversity o f Scripture (Leicester: InterVarsity, 2000), p. 43-5 [edição
em português: Novo Dicionário de Teologia Bíblica (São Paulo: Vida, 2009)].
9A seguinte visão geral se concentra nas informações internas para estabelecer um enquadramen­
to da cronologia bíblica. Externamente, o quadro cronológico para o antigo Oriente Próximo foi
bem determinado com dados de duas fontes: 1) o Cânon de Ptolomeu, geógrafo grego, que lista os
nomes dos reis da Babilônia de 747 a.C ao segundo século d.C.; 2) um registro dos nomes daqueles
que ocuparam o cargo de limmu (ou epônimo) na antiga Assíria.
10J. Barton Payne, “Chronology of the Old Testament”, in: Merrill C. Tenney e Moisés Silva, orgs.,
The Zondervan Pictorial Encyclopedia ofth e Bible, 5 vols., ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan, 2009),
p. 1.846-65; Richard D. Patterson, “The Divided Monarchy: Sources, Approaches and Historicity”,
in: David M. Howard Jr. e Michael A. Grisanti, orgs., Giving the Sense: Understanding and Using
Old Testament Historical Texts (Grand Rapids: Kregel, 2003), p. 182-3.
cronologia geral bem estabelecida para o Antigo Testamento, que se estende do
nascimento de Abraão, em 2166 a.C., ao fim do período veterotestamentário, na
última década do quinto século a.C. Uma cronologia correta, portanto, provê ao
intérprete o quadro necessário para entender determinada passagem do Antigo
Testamento em seu contexto histórico.11

P er ío d o pr im itiv o

O período primitivo abrange o intervalo de tempo registrado entre Gênesis


1—11, que se estende desde a Criação até o nascimento de Abraão. Ainda que não
possamos determinar com precisão nenhuma das datas desse período, Gênesis
1— 11 é uma parte fundamental da história bíblica, pois não reflete apenas reali­
dades textuais, mas também realidades históricas que serviram para configurar
o mundo presente. O mundo em que vivemos é o mesmo que Deus criou como
sendo muito bom, o qual foi corrompido pela Queda e no qual Deus estabeleceu
sua aliança com Noé e fez sua promessa a Abraão. Se tudo isso não é realidade
histórica, então a fé cristã é tão somente uma entre muitas concepções mitológicas
do mundo. A verdadeira fé está enraizada num texto que não revela apenas uma
realidade literária, mas também a realidade histórica.
As realidades históricas são comunicadas por meio de um texto, o qual, por
sua própria natureza, é seletivo no que registra. Por essa razão, não existe uma
história completa de todos os acontecimentos. Antes, os autores bíblicos registra­
ram os fatos históricos mais significativos para que se compreenda quem é Deus,
o que ele está realizando no mundo e o que ele convoca a humanidade a fazer em
resposta a ele. Desse modo, o texto bíblico fornece o enquadramento interpretativo
para compreender a história humana. Além disso, o enredo bíblico se concentra
particularmente na história da salvação, isto é, no relato da missão de Deus ao
realizar seu plano de redenção para a humanidade pecadora no Messias e por
intermédio dele. Esta seção sobre cronologia busca compreender essa história tal
como apresentada no texto bíblico.

“ Mais informações vêm das fontes mesopotâmicas e egípcias, como anais reais, listas de reis e his­
tórias que detalham acontecimentos específicos entre potências políticas, que podem ser encontradas
em: James H. Breasted, org., Ancient Records ofEgypt, 5 vols. (London: Histories &MysteriesofMan,
1988); William W. Hallo e K. Lawson Younger Jr., The Context o f Scripture, 3 vols. (Leiden: Brill, 1997,
2000, 2002); David D. Luckenbill, Ancient Records o f Assyria and Babylonia, 2 vols. (Chicago: Uni­
versity of Chicago Press, 1926); James B. Pritchard, org. Ancient Near Eastern Texts, 3. ed. (Prínceton:
Princeton University Press, 1969); Kenton L. Sparks, Ancient Texts fo r the Study o f the Hebrew Bible:
A Guide to the Background Literature (Peabody, MA: Hendrickson, 2005).
Embora Gênesis 1 e 2, na qualidade de narrativa de como Deus, o Criador,
deu origem ao universo, seja, sem dúvida, uma parte fundamental do propósito
do autor, essa narrativa se insere no contexto maior do objetivo dos cinco livros de
Moisés (o Pentateuco) como um todo. Sendo assim, o propósito maior dessa nar­
rativa é demonstrar a Israel que seu Deus da aliança, Yahweh, também é o Criador
de todo o universo. Nesse contexto, situar a criação do mundo num ponto exato do
tempo no passado é secundário em relação a compreender a narrativa da Criação
no contexto em que foi originalmente escrita, a saber, os estágios iniciais de Israel se
constituindo como nação, como parte de sua relação com Yahweh, o Criador e Deus
que firmara sua aliança primeiro com Noé, depois com Abraão e então com Moisés.
Logo depois da Criação vem a queda da humanidade no pecado. Apesar de
Deus ter criado “boas” todas as coisas, o pecado de Adão traz a morte para toda a
criação. Deus, contudo, imediatamente anuncia a possibilidade de vencer a morte
e restaurar todas as coisas por intermédio da semente prometida, um filho de Eva
que acabaria com o poder do pecado (Gn 3.15). Apesar da promessa de Deus de
encerrar o reino do pecado esmagando a cabeça da serpente, esse período primitivo
demonstra que a humanidade entrou numa espiral descendente, até que “o Se n h o r
viu que a maldade do homem na terra era grande e que toda a imaginação dos
pensamentos de seu coração era continuamente má” (Gn 6.5).
Em meio a este mundo de pecado, Deus mantém um remanescente de pessoas
que são fiéis a ele. Na narrativa do Dilúvio, toda carne é destruída, exceto a família
de Noé (Gn 6—9); portanto, a promessa da semente continua. Depois do Dilúvio,
a aliança com Noé confirma que Deus sustentará o ciclo natural a fim de preparar
um firme terreno para a redenção de todas as coisas pela prometida semente (Gn 9).
O relato da torre de Babel serve para mostrar a necessidade da redenção de todas
as nações (Gn 11). A resposta para a situação da criação e o livramento das nações
virá por meio da aliança de Deus com Abraão.

P eríodo patriarcal

A maior parte do período patriarcal situa-se na era arqueológica conhecida como


Idade do Bronze Média (c. 2000-1660 a.C.).12 Na literatura bíblica, o período
patriarcal começa em Gênesis 12, com o chamado de Deus a Abrão e sua aliança

12Há evidências consideráveis de que os nomes dos patriarcas não são míticos, lendários nem
inventados. Em vez disso, eles são bem comprovados pela literatura extrabíblica do período, como
os textos de Tell Ebla e as tábuas de Tell Mar. Veja Kenneth A. Kitchen, The Bible in Its World
(Downers Grove: InterVarsity, 1978), p. 68.
com ele, prosseguindo ao longo da vida de Abraão, Isaque, Jacó e José até o fim
de Gênesis (2092-1877/6 a.C.). Grande parte da literatura bíblica, incluindo o
material que abrange o período patriarcal, foi escrita para demonstrar a fidelidade
de Deus às promessas que ele fez a Abr(a)ão em Gênesis 12,15 e 17.
O povo hebreu, e, portanto, as promessas da aliança de Deus e a libertação de
tudo que Deus havia criado, enfrentou um grande desafio com a escravidão do povo
mo Egito (1876-1447 a.C.). O livro de Êxodo começa com os hebreus tornando-se
tão numerosos que o faraó egípcio decreta a matança de todas as crianças do sexo
masculino recém-nascidas e, assim, a promessa da semente é ameaçada. Entretanto,
“ouvindo os gemidos deles, Deus lembrou-se da sua aliança com Abraão, com
Isaque e com Jacó” (Êx 2.24).

Do ÊXODO À MONARQUIA UNIDA


No Êxodo do povo hebreu do Egito, indiscutivelmente o mais importante acon­
tecimento para a formação da nação de Israel (1447/6 a.C.),13 Deus relembra sua
aliança com Abraão. Com essa libertação e a aliança mosaica estabelecida no Sinai,
Deus dá origem a Israel, uma nação separada para ele. Deus então se mantém
às suas promessas da aliança ao conduzir o povo na travessia do Jordão para
ocupar a terra que ele prometera aos antepassados de Israel (1407/6 a.C.).14A isso
se segue o período dos juizes, quando Deus continuamente levanta líderes para
conduzir Israel de volta à fidelidade para com a aliança (1367-1064 a.C.).15 Em
seguida, tem início a monarquia unida com a unção de Saul como rei (1044 a.C.).

“ Para um debate a respeito da data do Êxodo bíblico, veja John J. Bimson, Redacting the Exodus
mml Conquest (Sheffield: University of Sheffield, 1981); Ralph K. Hawkins, “Propositions for Evan-
y * r a l Acceptance of a Late Date Exodus Conquest: Biblical Data and the Royal Scarabs from Mt.
BmT, JETS 50 (2007), p. 31-46; James K. Hoffmeier, Israel in Egypt (New York: Oxford University
f t e s , 1996), p. 164-98; idem, “What is the Biblical Date for the Exodus? A Response to Bryant
Wood”, JETS 50 (2007), p. 225-47; Kenneth A. Kitchen, On the Reliability o f the Old Testament
fGrand Rapids: Eerdmans, 2003), p. 65-79; Carl G. Rasmussen, “Conquest, Infiltration, Revolt, or
Scsettlement”, in; Giving the Sense, p. 143-59; William H. Shea, “lh e Date ofthe Exodus”, in: Giving
ÉÊt Sense, p. 236-55; Bryant G. Wood, “The Rise and Fali of the 13th-Century-Conquest Theory”,
JETS 48 (2005), p. 475-88; idem, “The Biblical Date for the Exodus is 1446 BC: A Response to James
Hoflmeier”, JETS 50 (2006), p. 164-98.
“Bryant G. Wood, “The Rise and Fali ofthe 13th-Century-Conquest Theory”, JETS 48/3 (2005), p. 488.
“ Para detalhes, veja John J. Bimson, Redating the Exodus and Conquest (Sheffield: University of
Sheffield, 1981), p. 223; Eugene H. Merrill, Kingdom ofPriests (Grand Rapids: Baker, 1987), p. 141-88
[edição em português: História de Israel no Antigo Testamento: o Reino de Sacerdotes que Deus
Colocou entre as Nações (Rio de Janeiro: CPAD, 2001)]; Andrew E. Steinmann, “The Mysterious
Nnmbers of the Book of Judges”, JETS 48/3 (2005), p. 491-500.
Esse período consiste nos reinados de Saul, Davi e Salomão. No que diz respeito
à literatura bíblica, esse período revelou-se importante, pois nele vicejaram o
livro de Salmos e a literatura de sabedoria, de tal modo que Davi e Salomão se
tornaram, respectivamente, o salmista arquetípico e a personificação da sabedoria.
O período da monarquia unida também se revelou importante com respeito
às promessas da aliança de Deus. Deus fez uma aliança com Davi, afirmando:

Quando os teus dias se com pletarem e descansares com teus pais, providenciarei
um sucessor da tua descendência, que procederá de ti; e estabelecerei o reino dele.
Ele edificará uma casa ao meu nome, e para sempre estabelecerei o trono do seu
reino (2Sm 7.12,13).

Essa aliança com Davi manteve a fidelidade de Deus a suas alianças anteriores,
especificando que a semente prometida, o Messias de Deus, viria na linhagem de Davi
e por meio dela (v. Mt 1.1-17). Posteriormente, Salomão constrói o Templo como o
local que Deus havia escolhido para fazer ali habitar seu nome (957 a.C.). Após a
morte de Salomão, a nação se divide em Reino do Norte (Israel) e Reino do Sul (Judá).

M onarquia dividida

A época da monarquia dividida vai desde a morte de Salomão até o colapso do Reino
do Norte e do Reino do Sul em 722 a.C. e 586 a.C., respectivamente. Esse é um
período intenso na história do antigo Oriente Próximo, que presencia a ascensão
do Império Neoassírio (745-612 a.C.), do Império Neobabilônico (ou Caldeu)
(629-539 a.C.) e o breve renascimento do Egito (644-525 a.C.). A localização de
Israel no meio dessas potências concorrentes é fonte de constante pressão sobre
os dois reinos. Essa pressão fará com que Israel e Judá violem a aliança, apostatem
e passem a adorar outros deuses. Violar a aliança, por sua vez, implica que Israel
e Judá incorram na maldição da aliança mosaica — o exílio da Terra Prometida
(586-516 a.C.).

E xílio e retorno

Como já foi dito, o Reino do Norte (Israel) é levado ao exílio pelos assírios em
722 a.C., e o Reino do Sul (Judá) tem o mesmo destino, sucumbindo ao cativeiro
babilônico. Se o Êxodo é um acontecimento paradigmático da redenção, o Exílio é
o paradigma do julgamento. Embora tenha sido a infidelidade de Israel — não de
Deus — que tenha resultado em julgamento divino, no exílio os judeus questionam
a fidelidade de Deus à sua aliança. Deus havia prometido que Israel permaneceria
na terra para sempre, que o nome dele habitaria o Templo indefinidamente, que
o trono seria ocupado para sempre por um filho de Davi e que todas as nações
seriam abençoadas por meio de Israel. Todavia, outras nações levaram Israel cativo
e destruíram o Templo. Não obstante, apesar de Israel ter deixado de cumprir sua
parte na aliança, Deus se mostrou fiel.
No devido tempo, Deus chama o rei persa Ciro para derrotar os babilônios que
haviam capturado Israel (Is 44.24—45.7). O rei então publica um decreto que ordena
a recondução do povo à Terra Prometida (586 a.C.). Depois disso, o povo começa a
reconstruir o Templo em 536 a.C. Sob o ministério de Esdras e Neemias, a reconstru­
ção do Templo termina em 516 a.C. Deus prova sua fidelidade, e o povo é trazido de
volta do Exílio. Apesar de reconstruído, o novo Templo não é tão glorioso quanto o
de Salomão, nem a glória de Deus desceu para ratificar ali sua presença novamente.
O cumprimento por parte de Deus de suas promessas aguarda um tempo futuro.

2.1. CRONOLOGIA DA BÍBLIA: 2167-430 a.C.


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TEXTO BfBLICO

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|P ^ Í0 4 4 Samuel 1bdinuel7.2
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ÍjS^10Q4 1Samuel 10; cf. Atos 13.21
£gg££71 . Davi 25amuel 5.5
||#931 Salomão lReis 11.42
- (J ........ -■ t-
<8* Divisão do reino IReis 12.19
, ,1
Exílio assírio 2Reis 17.6
- - - - -1-‘ , ]
Primeira deportação pafa a Babilônia Daniel 1
3*■
Período do Segundo Templo
Os estudantes das Escrituras não devem ignorar o período intertestamentário, i.e.,
como ele é mais comumente chamado na atualidade, o período do Segundo Templo
(que designa o intervalo de tempo entre o término da reconstrução do Templo, em
516 a.C., após o retorno do Exílio, e sua destruição pelos romanos em 70 d.C.).16 O
mundo dos Evangelhos é muito diferente daquele observado no fim do Antigo Testa­
mento. Muita coisa aconteceu, e esse período de transição é atestado não pelo registro
bíblico, mas por literatura extrabíblica (i.e., uma variedade de material apócrifo e
pseudepigráfico, tal como 1 e 2Macabeus). Por isso, encontramos nos Evangelhos
várias seitas judaicas — os fariseus, os saduceus, os herodianos e os zelotes — cujas
raízes se encontram nos acontecimentos que ocorreram nos séculos precedentes à
vinda de Cristo, a maior parte na Revolta dos Macabeus e no período que a seguiu.

lóO espaço a seguir permite apenas um panorama abreviado das origens e crenças fundamentais
desses grupos e da história do período do Segundo Templo. Para um tratamento mais detalhado
da história, literatura e teologia do período do Segundo Templo, veja Andreas J. Kõstenberger, L.
Scott Kellum e Charles L. Quarles, The Cradle, the Cross, and the Crown: An Introduction to the New
Testament (Nashville: B&H, 2009), cap. 2. Veja também Michael E Stone, org., Jewish Writings ofth e
Second Temple Period, CRINT (Minneapolis: Augsburg, 1984); Larry R. Helyer, Exploring Jewish
Literature o fth e Second Temple Period (Downers Grove: InterVarsity, 2002); James C. VanderKam,
An Introduction to Early Judaism (Grand Rapids: Eerdmans, 2001).
P eríodos babilônio e persa

O acontecimento de proporções cataclísmicas que ocorreu perto do fim da história


do Antigo Testamento foi o cativeiro babilônio do povo de Deus, Israel. Apesar do
retorno de um pequeno remanescente a Jerusalém, essa deportação resultou na
perda de Israel de sua condição de nação independente e na sujeição ao domínio
de uma seqüência ininterrupta de impérios. Os babilônios (Nabucodonosor)
haviam tomado o controle do Egito na famosa Batalha de Carquemis, no Eufrates,
em 605 a.C. (Jr 46.2). No ano 539 a.C., Dario, o Medo, tomou o poder (Dn 5.30),
sendo logo em seguida substituído pelo persa Ciro, o qual em 538 proclamou um
decreto permitindo que os judeus regressassem. Os anos subsequentes presen­
ciaram a reconstrução do Templo e o retorno de Esdras e Neemias a Jerusalém,
bem como suas reformas religiosas.

P eríodo helen ístico

Em 333 a.C., os gregos (sob o comando de Alexandre, o Grande) assumiram o


domínio do mundo na batalha de Isso. A conquista da Palestina por Alexandre no
ano seguinte (332) teve um impacto de longo alcance sobre os judeus em virtude
da política alexandrina de helenização, isto é, a difusão da língua e da cultura
grega. Muito tempo depois de os gregos terem sido derrotados pelos romanos, o
domínio da cultura grega continuou. Os romanos adotaram o panteão grego (toda
a variedade de deuses) em sua essência. A tradução grega do Antigo Testamento, a
Septuaginta ( l x x ) , feita no século terceiro a.C., passou a ser a versão usada pelos
primeiros cristãos e a mais citada pelos autores do Novo Testamento (cf. Carta de
Aristeias). O Novo Testamento seria escrito não em hebraico nem em aramaico,
mas em grego. Alguns discípulos de Jesus, como Filipe e André, embora fossem da
Galileia, tinham nomes gregos. Até o nome do conselho administrativo judaico,
“Sanedrim”, é uma transliteração da palavra grega para “reunião”.
Depois da morte de Alexandre, em 323 a.C., seu império foi dividido, resul­
tando em duas grandes dinastias: os ptolomeus, no Egito, e os selêucidas, na
Mesopotâmia e na Síria. Depois de um século de luta entre esses dois impérios
pelo controle da Palestina, os selêucidas (Antíoco) conquistaram o poder em 198
a.C. As tensões ocasionadas por essa dominação atingiram o ápice no reinado de
Antíoco Epifânio IV (175-164 a.C.), cujo programa radical de helenização culminou
na instalação de uma estátua de Zeus e no sacrifício de um porco no santuário de
Jerusalém, um ato que provocou a indignação judaica e incitou a resistência nacional
liderada por Matatias e seus cinco filhos, Judas (Macabeu; 166-60 a.C.), Jônatas
(160-143 a.C.), Simão, João e Eleazar, conhecidos como macabeus ou asmoneus.

P e r ío d o m a c a b e u

A Revolta dos Macabeus teve êxito em revogar a política de Antíoco. O Templo foi
novamente dedicado em 164 a.C. (a Festa da Dedicação; v. Jo 10.22) e em 142 a.C.
Judá se tornou independente e continuou assim até que os romanos conquistaram
a Palestina sob a liderança de Pompeu, em 63 a.C. O segundo século a.C. foi um
período de considerável agitação na vida judaica. O nacionalismo se alastrava,
e assim surgiram alguns movimentos cuja existência se estendeu até a época de
Jesus, tais como os saduceus (aristocracia) e os fariseus (reformadores religiosos,
perseguidos por Alexandre Janeu, que reinou de 103 a 76 a.C.). Do mesmo modo,
a comunidade do mar Morto surgiu na metade do segundo século a.C., rejeitando
o que considerava o corrupto sacerdócio de Jerusalém (liderado pelo “Sacerdote
ímpio”; e.g., lQpHab 11.2-8) e reunindo-se em torno do enigmático “Mestre da
Justiça” (e.g., 1QS 1.5-l l ) . 17

2 .2 . C R O N O L O G IA D A B ÍB L IA : 3 3 3 a .C .- 3 7 D .C .

P É S S O A / A C O N T E C IM E N T O f ■■' ■ 'w 3 M P o fttk n c m " ■

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1 7 5 - 6 4 a .C . .A n t ío c o E p ifâ n io lV g o v e r n a " A b o m in a ç â o a s s o la d o r a *

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17Para um panorama útil, veja James C. VanderKam, The D ead Sea Scrolls Today (Grand Rapids:
Eerdmans, 1994), p. 100-4 [edição em português: Os Manuscritos do M ar Morto Hoje (Rio de
Janeiro: Objetiva, 1995)].
2.2. CRONOLOGIA DA BÍBLIA: 333 a.C .37 D.C. (Cont.)
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...

Nascrmento de Cristo

P eríodo romano

Após a conquista da Palestina por Pompeu, em 63 a.C., houve uma série de governan­
tes locais encarregados das províncias da Palestina. Herodes, o Grande, governava
a região quando Jesus nasceu, em 5 a.C.; pouco depois ele morreu (4 a.C.) e foi
sucedido por Arquelau. Na época de Jesus, Herodes Antipas governava a Galileia
(Mc 6.14; Lc 13.31,32). O grande imperador Augusto (31 a.C.-14 d.C.) governou
num período áureo de paz (a Pax Romana) e prosperidade (bem como de aumento
da corrupção e da decadência), o que proporcionou um profundo contraponto para
o humilde nascimento de Cristo (Lc 2.1). Quando João Batista e Jesus iniciaram
seus respectivos ministérios, o governo havia passado ao imperador Tibério (14-37
<LC; cf. Lc 3.1), que ainda estava no comando na época da crucificação de Jesus,
na primavera de 33, com Pôncio Pilatos como procurador ou pretor da Judeia.18

Período do Novo Testamento


J esus
Para interpretar o Novo Testamento, será útil uma breve análise e visão geral de
sua cronologia básica. De especial importância são a datação da vida de Jesus (em

“Como comprova a famosa “Inscrição de Pilatos” (veja adiante). Para uma análise útil da data
da crucificação de Jesus, veja The ESV Study Bible (Wheaton: Crossway, 2008), p. 1809-10. Veja
também a análise mais adiante.
particular, de sua crucificação), da vida de Paulo e de acontecimentos correlatos.
As duas principais questões relativas à cronologia da vida de Jesus dizem respeito
à datação de seu nascimento e de sua morte.19
Quanto a seu nascimento, o mais provável é que tenha ocorrido em dezembro
de 5 a.C.20 A morte de Herodes em 4 a.C. é o terminus ad quem (a data mais recente
possível) dessa estimativa. Contudo, um erro no cálculo da contagem de tempo,
ocorrido na Idade Média, é responsável pelo fato de o ano 1 do nosso calendário
não coincidir com o nascimento de Jesus, como seria de esperar.

2.3. CRONOLOGIA DA VIDA DE JESUS

ioíéfc, A f í t i i i

Iníctodo ministério tte 29 d.C. Lucas 3.1 1 parais.


- A

* ■»

Em seu Evangelho, Lucas (3.1) escreve que João Batista iniciou seu ministério
no décimo quinto ano do reinado de Tibério César (14-37 d.C.), o que situa o começo

19Para uma análise mais completa, veja o cap. 3 em Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle,
the Cross, and the Crown.
20Cf. Paul L. Maier, “The Date of the Nativity and the Chronology of Jesus’ Life”, in: J. Vardaman
e E. M. Yamauchi, orgs., Chronos, Kairos, Christos: Nativity and Chronological Studies Presented to
Jack Finegan (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1989), p. 113-30.
dos ministérios de João Batista e de Jesus em 29 d.C.21 Se Jesus nasceu em 5 a.C.,
de estaria então com 33 anos de idade, o que concorda bem com a declaração de
Lucas 3.23, de que Jesus tinha “cerca de trinta anos” quando iniciou seu ministério.
O ano 29 para o início do ministério de Jesus, por sua vez, exige o ano 33
para a crucificação, visto que os Evangelhos registram a participação de Jesus em
até quatro Páscoas (três das quais são mencionadas em João; v. a tabela anterior).
Desse modo, entre as duas principais possibilidades sugeridas para a datação do
ministério de Jesus, 26-30 ou 29-33, a última é a preferível.22

A IGREJA PRIMITIVA E PAULO


O livro de Atos, tanto no aspecto histórico quanto no canônico, proporciona
orna maravilhosa transição entre a vida de Jesus (os Evangelhos) e as epístolas do
Novo Testamento, sobretudo as treze cartas de Paulo. A tabela a seguir representa
uma tentativa de construir uma cronologia paulina com base no livro de Atos,
nas epístolas do apóstolo e em dados extrabíblicos,23 constituindo uma eficiente
ferramenta para interpretar as cartas de Paulo em seu próprio contexto histórico.

J’Cf. Harold Hoehner, Chronological Aspects ofthe Life ofChrist (Grand Rapids: Zondervan, 1977),
p. 31-7 e B. Messner, “ In the Fifteenth Year Reconsidered: A Study of Luke 3:1”, Stone-Campbell
fou m al 1 (1998), p. 201-11, em referência aos historiadores romanos Tácito (An, 4.4) e Suetônio
(Hftério, 73), que datam o início do reinado de Tibério em 14 d.C. (a data precisa é 19 de agosto,
dia da morte do imperador Augusto).
“ Veja esp. Hoehner, Chronological Aspects; idem, “Chronology”, DJG, p. 118-22; C .). Humphreys
tW . G. Waddington, “The Jewish Calendar, a Lunar Eclipse, and the Date of Christs Crucifixion”,
TynBul43 (1992), p. 331-51, esp. p. 335.
“ Para uma análise mais completa, veja o cap. 9 de Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle,
the Cross, and the Crown.
2.4. CRONOLOGIA DA VIDA E DAS CARTAS DE PAULO (Cont.)

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De Anttoqufa a Corinto
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(enviadas a partir de Corinto)
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Ato* 19—21 ■
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1C m M u .T iu ts de oesar" Atos 19.10
2CorinUps {enviada a flwtird* 5< 53/54 2Corintios 2.4; 7.8

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2.4. CRONOLOGIA DA VIDA E DAS CARTAS DE PAULO (Cont.)

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P^h>deJe»ii5«lém

R estante d o N o v o T est a m en t o

As duas tabelas anteriores apresentam informações sobre Jesus e os Evangelhos,


o livro de Atos e as epístolas de Paulo (deve-se acrescentar que o mais provável é
que os Evangelhos Sinóticos tenham sido escritos antes da destruição do Templo
no ano 70 d.C., enquanto o Evangelho de João data muito provavelmente dos
jd o s 80 ou início dos 90). Também é necessário ter em mente um quadro para o
restante dos livros do Novo Testamento.24
A Carta de Tiago, uma obra judeo-cristã escrita por um dos meios-irmãos de
)esus, o líder da igreja de Jerusalém, foi redigida provavelmente por volta da época
do Concilio de Jerusalém, no início da década de cinqüenta, no primeiro século.
A Epístola de Judas, de autoria do irmão de Tiago e meio-irmão de Jesus, também
pode datar dos anos 50. Esta, por sua vez, foi provavelmente usada por Pedro em
2Pedro 2, o que faz supor datas nos anos 60 para as duas cartas de Pedro.
É quase certo que o livro de Hebreus tenha sido escrito antes da destruição
do Templo de Jerusalém, na década de setenta do primeiro século. É difícil ima­
ginar por que o autor não mencionaria a destruição do Templo se ela já tivesse
ocorrido na época da escrita, visto que isso teria fornecido um forte apoio para sua

24Para uma análise de questões introdutórias a todos os livros do Novo Testamento, veja D. A.
Carson e Douglas J. Moo, An Introduction to the New Testament, ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan,
2005) [edição em português: Introdução ao Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1997)]; e
Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle, the Cross, and the Crown.
argumentação de que o judaísmo antigo agora havia sido superado — e cumprido
— em Jesus e na fé cristã.
O corpus joanino, por fim, consiste no Evangelho de João, nas três cartas a ele
atribuídas e no livro de Apocalipse, muito provavelmente agrupados nessa ordem
entre as décadas de oitenta e noventa, com o Apocalipse encerrando todo o cânon
das Escrituras. Desse modo, o quadro canônico para a interpretação do Novo
Testamento estende-se dos Evangelhos, passando pela narrativa histórica de Atos
e pelas epístolas até chegar ao fechamento com o Apocalipse.25

ARQUEOLOGIA
Antigo Testamento
A arqueologia tem aumentado continuamente o entendimento da história e da cul­
tura do antigo Oriente Próximo, começando com a decifração da Pedra de Roseta
no século 19. Essa extraordinária descoberta providenciou a chave para o idioma do
Egito Antigo e proporcionou o impulso para que se continuasse a desemaranhar os
fios entrelaçados da história dessa região. O espaço aqui disponível não permite uma
catalogação de todos os trabalhos pioneiros na arqueologia do Oriente Próximo, mas
faz-se necessária uma menção especial a Sir Flinders Petrie, cujas escavações em Tell
el Hesi (cerca de 24 km a nordeste de Gaza) lançaram o alicerce de todas as escavações
arqueológicas posteriores. Com base nas várias descobertas importantes do início do
século 20, a busca pelo conhecimento do antigo Oriente Próximo floresceu entre as
duas guerras mundiais. Desde então, um progresso continua ocorrendo regularmente,
com a contribuição de estudiosos de muitos países para essa disciplina.26
Embora um grande número de tells, ou montes constituídos de detritos de
assentamentos anteriores, permaneça total ou parcialmente ainda sem escavação, a
arqueologia contribuiu de forma considerável para o entendimento do registro bíblico.
Em alguns casos, as Escrituras do Antigo Testamento são confirmadas pela arqueologia.
Em outros, novas informações trazem luz a pontos de difícil entendimento, enquanto,
ainda em outros casos, as informações bíblicas são complementadas por constantes
descobertas. Algumas dessas descobertas arqueológicas foram mencionadas anterior­
mente no estudo do período patriarcal, da época do Êxodo e do período dos juizes.27

25Veja o cap. 11.


“ As descobertas contemporâneas estão regularmente disponíveis nos principais periódicos,
como o AASOR, BA, BAR, BASOR, o Near East Archaeological Society Bulletin (NEASB) e Artifax.
27Veja ainda os vários artigos excelentes sobre esses períodos de Richard Averbeck, Carl Rasmussen,
Mark Rooker, William Shea e Bryant Wood em Giving the Sense, p. 115-59, 217-99.
No que diz respeito ao período da monarquia unida, a descrição bíblica do
lan p lo de Salomão encontra confirmação na escavação de templos dispostos de
■raeira semelhante na antiga Síria-Palestina. Mais informações relacionadas às
jüvidades de construção de Salomão vêm das escavações em Hazor, Megido e Gezer.
Nesses locais, as fortificações e atividades de construção de Salomão envolviam
■■nos de alvenaria em casamatas, obra de cantaria e portões com seis câmaras, três
é t cada lado. Esse tipo de construção, típica da era salomônica, ilustra a precisão
4o registro bíblico, em IReis 9.15, atestando que foi Salomão quem construiu os
■uros ao redor dessas cidades.28
Com respeito à época da monarquia dividida, numerosas descobertas auxiliam
ao entendimento mais completo do registro bíblico desse período (931-841 a.C.).
f b primeira parte desse período, o faraó Sheshonq I, da vigésima segunda dinastia
4o Egito (Sisaque, na Bíblia) invade Israel (lRs 14.25,26). O relato do próprio
Sheshonq foi encontrado no grande templo de Karnak. Nesse relato, ele lista mais
é t 150 cidades palestinas que atacou e espoliou.29
No período médio da história do Antigo Testamento (841-640 a.C.), o rei
assírio Salmaneser III (859-835 a.C.) registra em seu conhecido Obelisco Negro
a capitulação do rei Jeú de Israel: “O tributo de Jeú, filho de Onri”. Essa informa­
ção complementa aquela que o registro bíblico fornece a respeito do reinado de
Jeú (2Rs 9.1 —10.36). O conhecido relato do cerco de Jerusalém pelo rei assírio
Senaqueribe, em que ele perdeu 185 mil homens por causa da intervenção do
Senhor (2Rs 19.35,36), também se situa nesse período. A versão de Senaqueribe
desse acontecimento na sua terceira campanha tenta pintar um quadro mais positivo,
afirmando que Ezequias lhe pagou um pesado tributo para fazê-lo sair de Jerusalém.30
A respeito de Ezequias, Senaqueribe declara: “Quanto a Ezequias, o judeu [...] A ele,
como um pássaro engaiolado, em Jerusalém, sua cidade real, eu tranquei”.31
Um dos problemas mais intrigantes referentes à queda do Reino do Norte
diz respeito à identidade de “Sô, rei do Egito” (2Rs 17.4). Pelo fato de não haver
nenhum faraó listado com esse nome, alguns propuseram que o relato bíblico é

a IReis 9.15: “O rei Salomão impôs trabalhos forçados a fim de edificar o templo do S e n h o r ,
o seu próprio palácio, o Milo, e o muro de Jerusalém, assim como Hazor, Megido e Gezer”. Veja
ainda Hoerth, Archaeology, p. 281-8.
” Veja Breasted, org., Ancient Records ofEgypt, 4, p. 348-55. Veja também William Petrie, Egypt
and Israel (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 1911) e esp. Hoerth, Archaeology,
pL 300-2.
"Veja Luckenbill, Ancient Records ofA ssyria an d Babylonia, 2, p. 120-1.
31Ibidem, 2, p. 143.
impreciso ou está errado.32 Apresentaram-se algumas sugestões para harmonizar
o relato bíblico com os dados egípcios.33 A. R. Green, por exemplo, equiparou o
“Sô” mencionado na Bíblia a um certo faraó Piankhy da vigésima quinta dinastia
do Egito, cujo crescente poder pode ter chamado a atenção do rei Oseias de Israel,
que, por isso, enviou “mensageiros” a ele buscando uma possível ajuda contra os
assírios.34 A proposta de Green, como a de alguns outros, demonstra o valor da
pesquisa arqueológica e histórica e mostra que os estudiosos não devem desconsi­
derar o relato bíblico tão apressadamente.
Outro exemplo é a menção de Daniel ao rei Belsazar da Babilônia (Dn 5).
Gerações anteriores consideravam esse fato como um dos erros mais óbvios da
Bíblia, pois os historiadores antigos mencionavam Nabonido como o último so­
berano da Babilônia. Entretanto, informações posteriores, descobertas em tábuas
de argila babilônicas, provaram não somente a existência de Belsazar, mas também
indicaram que Nabonido, seu pai, ausentava-se da Babilônia por longos períodos e
deixava os negócios do Estado sob os cuidados de Belsazar. Hoje, a negação crítica
da existência de Belsazar praticamente desapareceu.
A confirmação do registro bíblico do terceiro período (640-586 a.C.), referente
à narrativa do cativeiro de Daniel em poder do rei Nabucodonosor II da Babilônia,
em 605 a.C., provém das crônicas babilônicas. Nesse ano, depois de derrotar os
assírios e os egípcios em Carquemis, Nabucodonosor marchou rumo ao oeste, mas,
por causa da morte de seu pai, Nabopolassar, ele retornou à Babilônia para proteger
o trono. Depois disso, reuniu suas tropas outra vez e marchou “sem resistência pela
terra de Hatti”.35Essas datas se harmonizam com os relatos bíblicos de Daniel 1.1,2
e 2Crônicas 36.6,7.36

32Veja G. H. Jones, 1 and 2 Kings, New Century Biblical Commentary (Grand Rapids: Eerdmans,
1984), 2, p. 546-7; D. B. Redford, “Studies in Relations Between Palestine and Egypt During the
First Millennium B.C.”, JAOS 93 (1973), p. 3-17.
33Veja, por exemplo, Kenneth A. Kitchen, The Third Intermediate Period in Egypt (Warminster,
England: Aris & Phillips, 1973), p. 371-6; H. Goedicke, “The End of So, King of Egypt”, BASOR 17
(1963), p. 64-6; J. Day, “The Problem o f ‘So, King of Egypt’ in 2 Kings xvii.4” Vetus Testamentum
42 (1992), p. 289-301.
34A. R. Green, “The Identity of King So of Egypt: An Alternate Interpretation", JNES 52 (1993),
p. 99-108.
35Veja Donald J. Wiseman, org., Chronicles o f the Chaldaean Kings (London: Trustees of the
British Museum, 1956), p. 69.
36Esdarecimento sobre o avanço babilônico contra Judá em 598-597 a.C. também pode ser en­
contrado nos Óstracos de Laquis, que detalham o avanço dos babilônios ao sul em direção a Judá,
e nas crônicas babilônicas que relatam acontecimentos relativos ao fim progressivo de Judá no final
do sétimo século e a (segunda) deportação de Jerusalém em 597 a.C.
Os exemplos há pouco mencionados são apenas uma breve amostra dos mui­
tos casos em que o registro bíblico foi verificado, esclarecido ou complementado
pda pá do arqueólogo. Por isso, um bom intérprete leva em consideração os dados
arqueológicos ao observar o aspecto histórico da tríade hermenêutica.

Movo Testamento
Em anos recentes, a arqueologia tem dado uma contribuição significativa para o
melhor conhecimento das várias características geográficas e topográficas do Novo
Testamento, e temos à disposição informações arqueológicas detalhadas acerca de
muitos locais mencionados no Novo Testamento.37 Esta seção trata brevemente
de questões históricas, culturais e arqueológicas para a interpretação do Novo
Testamento relativas à vida de Jesus, de Paulo e aos escritos neotestamentários.38
Charlesworth alista o que ele considera as sete contribuições mais importantes
feitas pela arqueologia para a pesquisa sobre Jesus:

1. evidências arqueológicas de que Jesus foi crucificado sobre a rocha que


agora se vê no interior da Basílica do Santo Sepulcro;
2. os restos de um homem crucificado chamado Jehohanan;39
3. o pretório, a residência oficial do governador romano: a casa de Pilatos
ficava provavelmente na cidade alta, não na Fortaleza Antônia;
4. o tanque de Betesda, mencionado em João 5.2-9;40

^Veja esp. “Archeology and Geography”, DJG, p. 33-46; E. Stern, org., The New Encyclopedia o f
A nhaeological Excavations in the Holy Land, 4 vols. (New York/London: Simon & Schuster, 1993);
E. M. Meyers, org., The Oxford Encyclopedia o f Archaeology in the Near East, 5 vols. (New York/
Oxford: Oxford University, 1997); A. Negev e S. Gibson, orgs., Archaeological Encyclopedia o fth e
Hofy Land, ed. rev. (New York/London: Continuum, 2001). Veja também “Archaeology and the
BMe”, in: ESV Study Bible, p. 2591-4.
MA própria existência de Jesus é inquestionavelmente atestada por testemunhas em geral hostis
à Sé cristã. O historiador romano Suetônio se refere à expulsão dos judeus por Cláudio por causa
de distúrbios relacionados a “Chrestus” (i.e., Jesus; Cláudio, 25.4; cf. At 18.2). Outro historiador
nxnano, Tácito, escreve que “Christus, de quem o nome [cristãos] teve origem, sofreu a pena capital
ao reinado de Tibério, nas mãos de um de nossos procuradores, Pôncio Pilatos” (Annals 15.44).
fosefo, historiador judeu, refere-se ao julgamento de “Tiago, o irmão de Jesus, que era chamado o
Cristo” (Ant, 20.9.1, § 200-3). O Talmude Babilônico declara: “Na véspera da Páscoa, Yeshu [Jesus]
fci pendurado” (b. Sanh., 43a).
^Estima-se que o homem tinha entre 24 e 28 anos; seus restos datam aproximadamente da
época de Jesus e foram encontrados em Jerusalém em 1968. Cf. James H. Charlesworth, “Jesus and
lehohanan: An Archaeological Note on Crucifixion”, Expository Times. 84 (1972-1973), p. 147-50.
"Cf. esp. Urban C. von Wahlde, “Archaeology and Johrís Gospel”, in: James H. Charlesworth,
org., Jesus and Archaeology (Grand Rapids: Eerdmans, 2006), p. 560-66.
5. o monte do Templo: estruturas monumentais anteriores ao ano 70 d.C.,
localizadas na parte sul do muro do Templo;
6. os muros e portões de Jerusalém;
7. sinagogas anteriores ao ano 70 em Gamla e Massada, e o Herodium, e
possivelmente em Jericó.41

A essas, podemos acrescentar a inscrição de Pilatos (“Pôncio Pilatos, pretor


da Judeia) descoberta em 1961 na Cesareia Marítima;42as tumbas de Anás e Caifás,
e o ossuário de Caifás (que exibe o nome José Caifás);43 o ossuário de Tiago (que
exibe a inscrição “Tiago, filho de José, irmão de Jesus”);44e o grafite de Alexamenos
(“Alexamenos adora seu deus”).45Embora os arqueólogos nem sempre concordem na
interpretação das descobertas arqueológicas e na relação delas com Jesus, nenhuma
descoberta contradisse quaisquer informações relativas a Jesus apresentadas nos
Evangelhos canônicos.
Em relação a Paulo e aos escritos do Novo Testamento, grandes escavações
foram realizadas em muitas das cidades onde Paulo ministrou e onde a missão
cristã primitiva se desenvolveu. Entre elas, há locais importantes como Éfeso e
Corinto, por exemplo.46 Particularmente importante é a inscrição de Gálio, que
nos permite datar o governo de Gálio na província da Acaia entre o verão de 51 e
o verão de 52. É mais provável, portanto, que os judeus tenham apresentado acusa­
ções contra Paulo no verão ou outono do ano 51, de acordo com Atos 18.12. Com
o ministério de Paulo em Corinto abrangendo o período de 18 meses (At 18.11) e

41Cf. James H. Charlesworth, “Jesus Research and Archaeology: A New Perspective”, in: Jesus and
Archaeology, p. 27-37, em referência a idem, Jesus within Judaism: N ew Lightfrom ExcitingArchaeo-
logical Discoveries, ABRL 1 (Garden City: Doubleday, 1988), que lista mais descobertas em Nazaré,
Caná, Betsaida, o Barco da Galileia, Cesareia Marítima, Jerusalém, a casa de Pedro em Cafarnaum
(?) e Séforis. Veja também muitos outros artigos em Jesus an d Archaeology.
42Cf. Andreas J. Kõstenberger, John, ZIBBC 2.165.
43Cf. Zvi Greenhut, “Burial Cave of the Caiaphas family” e Ronny Reich, “Caiaphas Name
Inscribed on Bone Boxes”, Biblical Archaeology Review 18 (1992), p. 28-36, 38-44, 76.
“^Entretanto, a autenticidade da inscrição é debatida. Estão seguros a respeito dela Hershel
Shanks e Ben Witherington, in: The Brother o f Jesus (San Francisco: HarperSanFrancisco, 2003)
[edição em português: O Irm ão de Jesus (São Paulo: Hagnos, 2008)]; mais cauteloso é Craig A.
Evans, em Jesus and the Ossuaries (Waco: Baylor University, 2003); cético é Charlesworth, in: Jesus
and Archaeology, p. 48.
45Cf. Everett Ferguson, Backgrounds o f Early Christianity, 2. ed. (Grand Rapids: Eerdmans,
1993), p. 560-1.
“ Sobre Éfeso, veja Helmut Koester, org„ Ephesos: Metropolis o fA sia (Valley Forge, PA: Trinity,
1995); Peter Scherrer et al., orgs., Ephesus: The New Guide, ed. rev., trad. Lionel Bier e George M.
Luxon (Selçuk: Õsterreichisches Archãologisches Institut, 2000); sobre Corinto, veja David E.
Garland, 1 Corinthians, BECNT (Grand Rapids: Baker, 2003), p. 1-13.
sua partida da cidade em algum momento depois do incidente de Gálio, pode-se
datar a chegada de Paulo a Corinto no início dos anos 50. Desse modo, a inscrição
de Gálio, como uma das poucas datas razoavelmente estabelecidas na história do
Novo Testamento, fornece suporte para uma cronologia absoluta da vida, das cartas
e do ministério de Paulo.47

CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL
Fazer justiça ao aspecto histórico das Escrituras implica não apenas um estudo
atento da cronologia e da arqueologia, mas também envolve sensibilidade a vários
aspectos do texto bíblico relacionados ao contexto histórico-cultural. Por exem­
plo, a discussão de Paulo acerca das divisões na igreja coríntia em ICoríntios
1—4 se baseia consideravelmente em escolas retóricas e conceitos de liderança
greco-romanos do primeiro século. A compreensão das referências de Paulo à
riqueza e à prosperidade, assim como à imoralidade sexual, na mesma carta se
toma muito mais clara quando se entende que Corinto era uma próspera cidade
portuária onde a imoralidade sexual se alastrava.
Considere-se o Evangelho de João, por exemplo. Entre muitos outros aspectos
do contexto histórico-cultural, o relato de João inclui um casamento (Jo 2.1-12) e um
funeral (Jo 11.1-44).48 Os casamentos judaicos eram ocasiões sociais importantes.
As festas em geral duravam sete dias, e a família do noivo era responsável por suprir
os convidados durante as celebrações. Caná ficava a cerca de quinze quilômetros de
Nazaré, onde Jesus cresceu, o que pode explicar por que Maria, a mãe de Jesus, e o
próprio Jesus foram convidados para o casamento. Se Maria era amiga da família

47Veja a cronologia de Paulo mencionada anteriormente. Veja também Ferguson, Backgrounds,


p. 549-50. Outro artefato que corrobora as informações do Novo Testamento é a inscrição de Erasto,
que diz: “Erasto, em troca de sua magistratura, construiu [o pavimento] à sua própria custa”, e que a
maioria acredita que se refere à pessoa mencionada por Paulo em Romanos 16.23 como o oikonomos
da cidade (magistrado?; veja também 2Tm 4.20; At 19.22; para uma discussão proveitosa, veja
Gaiiand, 1 Corinthians, 11—12). Muitas outras informações concernentes a funcionários do governo
romano mencionados no livro de Atos e a uma variedade de outros dados históricos e culturais
mencionados nas cartas do Novo Testamento também são esclarecidas por dados extrabíblicos (veja
esp. o Zondervan lllustrated Bible Backgrounds Commentary) e a literatura de comentários perti­
nentes, assim como várias obras de consulta mencionadas na bibliografia no final deste capítulo).
Outra fascinante área de estudo é a de moedas que ilustram o contexto do cristianismo primitivo.
Veja Jon Yonge Akerman, Numismatic Illustrations o fth e New Testament (Chicago: Argonaut, 1966);
R. S. Yeoman, Moneys o fth e Bible (Racine, WI: Whitman, 1961).
“ Para análise mais detalhada do contexto histórico-cultural de João 2.1-12 e 11.1 -44, veja Andreas
J. Kõstenberger, John, ZIBBC 2.23-7, p. 106-13.
do noivo, isso também pode explicar por que ela interveio quando o vinho havia
acabado; ela tentou livrar seus amigos do constrangimento social que resultava de
não conseguir prover o vinho para os convidados do casamento. Desse modo, a
essência do dilema que se apresenta a Jesus é mais bem compreendida quando se
conhecem os costumes da cerimônia judaica de casamento. O mesmo se pode dizer
do funeral de Lázaro, em que vemos Maria “sentada” na casa (11.20), de acordo
com o costume do luto por um ente querido.
Grant Osborne presta um proveitoso serviço ao examinar as áreas de pesquisa
envolvidas no estudo do contexto histórico-cultural. Entre elas estão geografia,
política, economia, forças armadas e guerra, além de vários costumes religiosos e
práticas culturais.49 Sem a presença desse contexto histórico-cultural por trás de
um determinado livro das Escrituras, seu estudo quase sempre será incompleto
e superficial. Por essa razão é importante que os estudantes estejam familiarizados
com a enorme quantidade de fontes primárias e secundárias disponíveis para a
investigação do contexto histórico-cultural do Antigo e do Novo Testamentos.

Fontes primárias
O lugar de honra com respeito às fontes primárias para o estudo bíblico pertence
aos próprios documentos bíblicos. O Antigo e o Novo Testamentos muitas vezes
contêm referências à conjuntura histórica de determinada passagem. O livro
de Ester, por exemplo, começa com a seguinte introdução: “Aconteceu nos dias
de Xerxes, que reinou sobre cento e vinte e sete províncias, desde a índia até a
Etiópia. Quando Xerxes reinava em seu trono na cidadela de Susã, aconteceu, no
terceiro ano de seu reinado, que ele deu um banquete a todos os seus príncipes e
oficiais. Assim, estavam diante dele os poderosos da Pérsia e da Média, os nobres
e os príncipes das províncias” (Et 1.1-3). Ao fornecer esse contexto histórico para
a história de Ester, o autor bíblico mostra empenho em situar essa história no
período seguinte aos exílios assírio e babilônico.
Também há algumas fontes extrabíblicas bem interessantes que confirmam
e complementam as informações fornecidas no livro bíblico de Ester. Uma dessas
fontes é o historiador grego Heródoto (490-425 a.C.), que definiu Xerxes como
um “monarca mal-humorado, impaciente e com interesse especial por mulheres”.50

■^Osborne, Hermeneutical Spiral, p. 161-7.


50Tremper Longman e Raymond B. Dillard, An Introduction to the Old Testament, 2. ed. (Grand
Rapids: Zondervan, 2007), p. 216 [edição em português: Introdução ao Antigo Testamento (São
Paulo: Vida Nova, 2005)], com referência a Edwin Yamauchi, “The Archaeological Background of
Esther”, BibSac 137 (1980), p. 104.
isso mostra que, embora os documentos bíblicos devam permanecer primários,
as informações extrabíblicas podem ser usadas conjuntamente e contribuem
para ilustrar de forma proveitosa aspectos da história bíblica que talvez sejam
subjacentes ao contexto e tenham sido considerados óbvios pelo autor bíblico.
Há muitas fontes primárias relevantes para o estudo do contexto histórico-
-cultural das Escrituras,51 e o estudante da Bíblia não precisa se matricular num
cnrso de ugarítico nem se tornar especialista em línguas antigas do Oriente Próximo,
porque a maioria das boas Bíblias de estudo, dos comentários e das ferramentas
de consulta já fornece as informações importantes do contexto histórico-cultural
das fontes primárias. Entretanto, uma visão geral das fontes primárias aumenta o
«conhecimento dos tipos de fontes disponíveis para esclarecer o contexto histórico-
-cultural dos livros do Antigo e do Novo Testamento.

L itera tu ra do a n t ig o O rien t e P r ó x im o

Se a intenção do autor é o núcleo do significado, então compreender o contexto em


que o autor escreveu seu texto é da máxima importância. Visto que a literatura nasce
dentro de uma cultura, bem como forma e molda essa cultura, procurar compreender
* cultura antiga por meio de sua literatura e, por sua vez, a literatura por meio de
n cultura é imprescindível. A literatura do antigo Oriente Próximo dá acesso ao
contexto cultural em que os autores bíblicos escreveram o Antigo Testamento. Sem
dúvida, esse acesso é limitado e imperfeito, mas a abundância de literatura do antigo
Oriente Próximo à disposição permite esse acesso mesmo assim.52 Os intérpretes
fiéis da Bíblia precisam esgotar todos os meios possíveis para compreender o que
Deus comunica na Escritura por meio do autor humano a seus leitores originais.
De fato, abusos ocorreram, sobretudo na área dos estudos do contexto do Antigo
Testamento. Esses abusos, entretanto, não representam interpretações fiéis e diligentes
c não devem nos afastar de procurar compreender o antigo mundo das Escrituras.
De leis a profecias e de provérbios a narrativas históricas, os textos do an­
tigo Oriente Próximo contêm praticamente todo gênero de literatura do Antigo

Parte do estudo a seguir é adaptada de Kõstenberger, Kellum e Quarles, The Cradle, the Cross,
mmd the Crown, p. 81-4.
i=Os dois textos padrão para ler fontes primárias do antigo Oriente Próximo são Hallo e Younger,
Ccntext o f Scripture; e Pritchard, Ancient Near Eastern Texts. Para fontes que contêm textos e análise
desses textos, veja Bill T. Arnold e Bryan E. Beyer, orgs., Readingsfrom the Ancient Near East: Primary
Sm aeesfor Old Testament Study (Grand Rapids: Baker Academic, 2002); Jeffrey J. Niehaus, Ancient
S ta r Eastern Themes in Biblical Theology (Grand Rapids: Kregel, 2008); Sparks, Ancient Texts fo r the
Study o fth e Hebrew Bible; e John H. Walton, Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament:
t^roducing the Conceptual World o fth e Hebrew Bible (Grand Rapids: Baker Academic, 2006).
Testamento, como mostra a breve relação a seguir. Esses textos, que abrangem mais
de dois milênios, provêm de todo o antigo Oriente Próximo, como Egito, Mesopo-
tâmia, Anatólia e Pérsia, em línguas tais como ugarítico, acádio, sumério, hitita e
egípcio. Os assiriólogos, egiptólogos e muitos outros estudiosos têm realizado um
trabalho considerável para tornar muitos desses textos acessíveis tanto ao leigo
quanto ao acadêmico. Embora não seja possível aqui uma lista completa de todos
os textos do antigo Oriente, o que vem a seguir são alguns textos fundamentais
para compreender o Antigo Testamento e uma lista de recursos para aprofundar o
estudo dos textos antigos e, portanto, do contexto das Escrituras.53

O Pentateuco
Criação
• Enuma Elish
• Atrahasis

Dilúvio
• Gilgamesh

Códigos jurídicos
• Código de Hamurábi
• Leis hititas

Alianças/Tratados
• Celebração de alianças e tratados em Mari
• Tratado entre Mursilis e Dupp-Teshub

Textos cultuais
•Ritual do rei substituto
•Instruções para os oficiantes de culto e funcionários do templo
• Festival de Ano-Novo na Babilônia

Livros históricos
Registros de reis da Mesopotâmia
•Tiglate-Pileser III
• Senaqueribe
• Cilindro de Ciro

53Essa lista segue a estrutura fornecida por Arnold e Beyer em Readings from the Ancient Near
East, que classifica eficientemente os textos do antigo Oriente Próximo em relação aos análogos
bíblicos. Outras classificações sem dúvida são possíveis. Para uma classificação dos textos de acordo
com seus gêneros do antigo Oriente Próximo, veja as fontes listadas anteriormente.
• Crônicas e outras listas historiográficas
• Rol de reis sumérios
• Crônicas babilônicas

Outras inscrições hebraicas


• Inscrição do túnel de Siloé

Livros poéticos
Literatura de sabedoria
• Teodiceia babilônica
• Instruções de Merikare
• Instruções de Amenemope
• Hinos e orações
• Hino a Enlil
• Oração a Ishtar
• Salmo a Marduque

Livros proféticos
Profecias
• Profecia de Mari
• Profecia de Marduque

Lamentações
• Lamentação pela destruição de Ur
• Apócrifos do Antigo e do Novo Testamento

A pó crifo s do A ntigo e do Novo T estamento


Apalavra grega “apocrypha” originalmente significava “coisas que estão ocultas”.54
Adesignação “apócrifos” também pode referir-se à natureza misteriosa ou esotérica
dealgtins conteúdos desses livros ou à sua natureza herética ou espúria (ou ambas),
la tre os escritos que compõem os apócrifos do Antigo Testamento incluídos
■essa categoria, há vários gêneros diferentes:

1. livros históricos (lEsdras, 1 e 2Macabeus);


2. romances moralistas (Tobias, Judite, Susana, Bel e o dragão);

David A. de Silva, “Apocrypha and Pseudepigrapha”, in: Craig A. Evans e Stanley E. Porter,
m ^ ,D ictio n a ry ofN ew TestamentBackground: A Compendium ofContemporaryBiblicalScholarship
BDWmers Grove: InterVarsity, 2000), p. 58; veja todo o verbete nas p. 58-64, inclusive as referências
KBfiográficas extras [edição em português: D icionário Teológico do Novo Testamento (São Paulo:
U f a Nova, 2012) p. 114-122).
3. literatura de sabedoria ou devocional (Sabedoria de Salomão; Eclesiástico;
Oração de Manasses; Oração de Azarias; Cântico dos três jovens);
4. cartas pseudônimas (Epístola de Jeremias);
5. literatura apocalíptica (2Esdras).

Com exceção de 2Esdras, esses escritos são encontrados na Septuaginta.


Os apócrifos também estão incluídos na Vulgata (a tradução latina da Bíblia pre­
parada no século quarto por Jerônimo) tanto como parte do Antigo Testamento
como em apêndice, mas que não fazem parte das Escrituras canônicas.55 Por causa
de sua inclusão na Vulgata, os livros apócrifos eram considerados parte das Escri­
turas pela igreja medieval. Em 1546, o Concilio de Trento os declarou canônicos,
exceto 1 e 2Esdras e a Oração de Manasses.56
À parte os apócrifos veterotestamentários do período do Segundo Templo,
também há apócrifos do Novo Testamento que apareceram no século segundo e nos
subsequentes da era cristã e consistiam em falsos Evangelhos, Atos e Apocalipses.57
Muitos desses escritos têm em comum a motivação subjacente de preencher as
lacunas percebidas nas Escrituras, muitas vezes resultando em ensino heterodoxo

55Somos gratos a Bruce M. Metzger pelo panorama a seguir, “Introduction to the Apocrypha”,
in: Bruce M. Metzger, org., The Oxford Annotated Apocrypha, ed. rev. e exp. (New York: Oxford
University Press, 1977), p. xi-xxii. Veja também Craig A. Evans, Ancient Texts fo r New Testament
Studies: A Guide to the Background Literature (Peabody, MA: Hendrickson, 2005), p. 1-8.
“ Sobre questões relacionadas à canonicidade dos escritos apócrifos e pseudepígrafos do Antigo
Testamento, veja Norman L. Geisler e William E. Nix, A General Introduction to the Bible, ed. rev.
e exp. (Chicago: Moody, 1986), cap. 15 [edição em português: Introdução Bíblica: Como a Bíblia
Chegou Até Nós (São Paulo: Vida, 1997)].
57Veja esp. J. K. Elliott, The Apocryphal New Testament (New York: Oxford Univ. Press, 2005); e
William Schneemelcher, org., New Testament Apocrypha. 2 vols., trad. R. McL. Wilson (Louisville/
London: Westminster John Knox, 2003). Contrariamente a Bart D. Ehrman, Lost Scriptures (New
York: Oxford University, 2005) [edição em português: Evangelhos Perdidos (Rio de Janeiro: Record,
2008)] e Lost Christianities (New York: Oxford Univ. Press, 2005), que seguiu Walter Bauer,
Rechtglaubigkeit und Ketzerei im ãltesten Christentum (Tübingen: Mohr, 1934); Robert A. Kraft e
Gerhard Krodel, orgs., ET Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity (Philadelphia: Fortress,
1971), os apócrifos do Novo Testamento não foram colocados junto com os livros canônicos do Novo
Testamento e somente mais tarde desqualificados pela igreja católica primitiva. Veja esp. Darrell L.
Bock, The Missing Gospels: Unearthing the Truth Behind Alternative Christianities (Nashville: Nelson,
2006) [edição em português: Oi Evangelhos Perdidos: a Verdade por trás dos Textos que Não Entraram
na Bíblia (São Paulo: Thomas Nelson, 2007)]; Craig A. Blaising, “Faithfulness: A Prescription for
Theology”, JETS 49 (2006), p. 6-9; Paul Trebilco, “Christian Communities in Western Asia Minor
into the Early Second Century: Ignatius and Others as Witnesses against Bauer”, JETS 49 (2006),
p. 17-44; Andreas J. Kõstenberger e Michael J. Kruger, The Heresy o f Orthodoxy: How Contemporary
Cultures Fascination with Diversity Has Reshaped Our Understanding o f Early Christianity (Wheaton:
Crossway, 2010) [edição em português: A Heresia da Ortodoxia (São Paulo: Vida Nova, 2014)].
(falso) . Esse é o caso tanto dos textos comumente agrupados como Livros Apócrifos
quanto de outras literaturas judaicas do segundo período reunidas sob a rubrica
amorfa de Pseudepígrafos.58

PSEUDEPÍGRAFOS DO ANTIGO TESTAMENTO


Entre os pseudepígrafos (depseudos, “falso”, egrapheirt, “escrever”), encontram-se
os seguintes tipos de literatura:

1. literatura apocalíptica e relacionada (J e 2Enoque„ 2 e 3Apocalipse de


Baruque, 4Esdras, Oráculos Sibilinos);
2. testamentos {Testamentos dos Doze Patriarcas);
3. epístola pseudônima (Carta de Aristeias);
4. sabedoria e literatura devocional (Salmos de Salomão; Odes de Salomão;
Salmo 151);
5. expansões de material do Antigo Testamento (Livro dos Jubileus; José e
Asenate; Janes e Jambres; Testamento de Moisés; Martírio de Isaías e As­
censão de Isaías);
6. romances religiosos e tratados filosóficos (3 a 4Macabeus).59

A avaliação da literatura do Segundo Templo tem sido diversamente positiva


e negativa. Do lado positivo, as informações históricas fornecidas por livros como
IMacabeus constituem uma fonte indispensável para esse período particular da
história judaica. Além disso, ainda que não sejam inspirados nem revestidos de
autoridade, muitos desses escritos refletem as diversas convicções religiosas do povo

*Veja James H. Charlesworth, org., The Old Testament Pseudepigrapha, 2 vols. (Garden City,
SY: Doubleday, 1983,1985); Bruce N. Fisk, “Rewritten Bible in Pseudepigrapha and Qumran”, in:
Dictionary ofN ew Testament Background, p. 947-53.
®Entre os recursos úteis sobre o conteúdo da literatura apócrifa e pseudepigráfica estão as obras
Mguintes. Sobre os Apócrifos, veja as introduções em Metzger, Annotated Apocrypha; cf. Evans,
âmrient Texts fo r New Testament Studies, cap. 1; David A. de Silva, Introducing the Apocrypha:
Btasage, Context, and Signifxcance (Grand Rapids: Baker, 2002). Sobre os pseudepígrafos, veja as
írtroduções em Charlesworth, Old Testament Pseudepigrapha; Evans, Ancient Textsfo r New Testament
StÊKÜes, cap. 2. Sobre os dois, veja Michael E. Stone, org., Jewish Writings o f the Second Temple
fbriod, CRINT 2 (Assen: Van Gorcum/Philadelphia: Fortress, 1984); George W. E. Nickelsburg,
Irm ish Literature Between the Bible and the Mishnah (Philadelphia: Fortress, 1981); Emil Schürer,
Wbe History o f the Jewish People in the Age o f Jesus Christ (175 BC—A.D. 135), rev. e org. por Geza
fcrn e s, Fergus Millar e Matthew Black, 3 vols. em 4 (Edinburgh: T&T Clark, 1973, 1979, 1986,
■M7), 3.1; deSilva, “Apocrypha and Pseudepigrapha”; e as seções pertinentes em Larry R. Helyer,
ÍM fhning Jewish Literature o f the Second Temple Period: A Guide fo r New Testament Students
CDowners Grove, IL: InterVarsity, 2002).
judeu no período intertestamentário e, assim, fornecem informações contextuais
úteis para o estudo do Novo Testamento.
Do lado negativo, estudiosos ressaltam que parte do ensino desses escritos é
heterodoxa, isto é, não está em conformidade com a doutrina afirmada nos livros
canônicos. Por exemplo, 2Macabeus ensina a orar pelos mortos, e Tobias contém
elementos de magia e sincretismo. Isso demanda discernimento e uma clara de­
marcação entre o Antigo Testamento e os escritos apócrifos e pseudepigráficos.60
Nesse aspecto, é interessante observar que a Epístola de Judas, no Novo Testamento,
refere-se a alguns escritos pseudepigráficos, sobretudo lEnoque.

M a n u s c r i t o s d o M a r M o r t o

A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto constituiu o principal achado ar­


queológico para os estudos bíblicos no século 20.61 Entre os textos de Qumran
há tanto manuscritos bíblicos, que são anteriores aos manuscritos mais antigos
do Antigo Testamento previamente existentes, e escritos sectários. Entre os pri­
meiros estão todos os livros do Antigo Testamento exceto o de Ester, e entre os
últimos se encontram escritos como o Documento de Damasco (CD); Preceitos
da Comunidade ou Manual de Disciplina (1QS); Hinos de Ação de Graças (1QH);
Manuscrito da Guerra (1QM); Comentário (Pésher) de Habacuque (lQpHab) e o
Pergaminho do Templo (llQTemple).62 Os documentos bíblicos descobertos em
Qumran, entre eles o famoso pergaminho de Isaías, proveram os estudiosos de
textos antigos das Escrituras hebraicas, o que lhes permitiu avançar na determi­
nação do texto original de passagens específicas do Antigo Testamento.

“ Veja Kõstenberger, Kellum e Quarles, Cradle, the Cross, an d the Crown, cap. 1.
61Veja esp. John C. Trever, The D ead Sea Scrolls: A Personal Account (Grand Rapids: Eerdmans,
1977). Entre outras obras úteis estão Geza Vermes, The Dead Sea Scrolls: Qumran in Perspective, ed.
rev. (Philadelphia: Fortress, 1977); James C. VanderKam, The D ead Sea Scrolls Today (Grand Rapids:
Eerdmans, 1994); Florentino Garcia Martinez e Julio Trebolle Barrera, The People o f the D ead Sea
Scrolls: Their Writings, Beliefs and Practices, trad. Wilfred G. E. Watson (Leiden: Brill, 1995); os
fragmentos selecionados em Barrett, New Testament Background, cap. 9; e Michael O. Wise, “Dead
Sea Scrolls; General Introduction”, in: Dictionary ofN ew Testament Background, p. 252-66.
“Veja Florentino Garcia Martinez, The D ead Sea Scrolls Study Edition, 2 vols. (Grand Rapids:
Eerdmans, 2000); James C. VanderKam, An Introduction to Early Judaism (Grand Rapids: Eerdmans,
2000); Lawrence H. Schiffman e James C. VanderKam, orgs., Encyclopedia o ft h e D ead Sea Scrolls,
2 vols. (Oxford: University Press, 2000); James H. Charlesworth, org., The Bible and the D ead Sea
Scrolls, 3 vols. (Waco: Baylor Univ. Press, 2006); Robert A. Kugler e Eileen M. Schuller, The Dead
Sea Scrolls at Fifty (Atlanta: Scholars Press, 1999); Schürer, History o fth e Jewish People, p. 380-469;
Evans, Ancient Textsfor New Testament Studies, cap. 3; e verbetes relevantes em Dictionary ofN ew
Testament Background.
Além disso, os Manuscritos do Mar Morto fornecem um vislumbre fascinante
da vida de uma seita judaica que muito provavelmente surgiu no período macabeu,
por volta da metade do segundo século a.C., e continuou até a primeira revolta
judaica em 66-73 d.C.63 A identidade exata do grupo responsável pela literatura de
Qumran permanece incerta. O mais provável é que o estímulo original para a saída
do grupo de Jerusalém e o afastamento para a região do mar Morto tenha sido a
corrupção do sacerdócio de Jerusalém no período macabeu. É provável que o sumo
sacerdote judaico seja mencionado na literatura de Qumran como o “Sacerdote
ímpio” em oposição ao “Mestre da Justiça” (v. lQpHab 1.13; 2.2; 8.7; 11.4,5), que,
presume-se, foi o fundador da comunidade.64
É importante observar que os Manuscritos do Mar Morto não retratam o
judaísmo oficial nem atitudes judaicas desse período. Essa comunidade isolada
era uma seita que se definia como contrária às autoridades oficiais de Jerusalém e
estabeleceu suas próprias práticas comunitárias e religiosas. Essas práticas incluíam
um método particular de interpretar as Escrituras, o método pésher, que se apro­
priava do material bíblico referente à situação contemporânea da comunidade (e.g.,
o Pésher de Habacuque).65 Também não há referência ao Novo Testamento nem
a Jesus nos Manuscritos do Mar Morto. Desse modo, devem-se considerar esses
documentos escritos judaicos, e não cristãos.66
A postura crítica da comunidade em relação ao sacerdócio corrupto de
Jerusalém, desse modo, fornece um antecedente para o questionamento feito
por Jesus em seu ministério da corrupção do ritual do Templo em Jerusalém
(Mt 21.12-17; Jo 2.12-22). O uso das Escrituras pela comunidade também constitui
um fascinante precedente da autoidentificação de João Batista como “a voz do que
dama no deserto” (cf. Is 40.30). A comunidade do mar Morto se apropriou da
mesma passagem para referir-se a si mesma.67A comunidade e os documentos de

“Veja Kõstenberger, Kellum e Quarles, Cradle, the Cross, and the Crown, p. 70-3.
“ Como mencionado antes, Shürer (The History o f the Jewish People in the Age o f Jesus Christ,
toI. 2, p. 587), por exemplo, dá a entender que o sumo sacerdote Jônatas era a pessoa chamada de
o “Sacerdote ímpio” nos Manuscritos do Mar Morto.
“ Veja Richard N. Longenecker, Biblical Exegesis in the Apostolic Period, 2. ed. (Grand Rapids:
Eerdmans, 1999), p. 24-30.
“ Ao contrário de afirmações equivocadas de tabloides e da literatura popular, como Dan Brown
(The Da Vinci Code [New York: Doubleday, 2003], p. 245) [edição em português: O Código Da Vinci
(Rio de Janeiro: Sextante, 2004)], que afirmou que os Manuscritos do Mar Morto estão entre “os
■ais antigos registros cristãos”.
67Veja Andreas J. Kõstenberger, “John”, in: G. K. Beale e D. A. Carson, orgs., Commentary on the
New Testament Use o fth e Old Testament (Grand Rapids: Baker, 2007), p. 421,425-8.
Qumran proporcionam um bom quadro para compreender aspectos do Antigo
e do Novo Testamento.68

O u t r a s f o n t e s p r i m á r i a s r e l e v a n t e s

Além das fontes primárias mencionadas há pouco, existem alguns outros recur­
sos contextuais relevantes para estudos do Antigo e do Novo Testamento. Entre
eles, a literatura rabínica (que inclui a Mishná, os Talmudes e a Toseftá), o filósofo
helenístico Filo, o historiador judeu Josefo, os targuns (paráfrases aramaicas do
Antigo Testamento), os apócrifos do Novo Testamento e fontes greco-romanas.
Há algumas bibliografias úteis e compilações de fontes primárias disponíveis
que tornam esses recursos mais acessíveis ao estudante diligente das Escrituras.69

F o n t e s s e c u n d á r i a s

O intérprete inquisitivo das Escrituras conta hoje em dia com uma abundância de
fontes secundárias à sua disposição. As melhores Bíblias de estudo, como a ESV
Study Bible, a N IV Study Bible [Bíblia de Estudo NVI] ou a HCSB Study Bible, para
citar apenas algumas, são quase sempre um ótimo ponto de partida. Também há
vários comentários introdutórios especializados disponíveis com informações
contextuais específicas em estilo acessível, como o Zondervan Illustrated Bible
Backgrounds Commentary, que abrange tanto o Antigo como o Novo Testamento.
Uma excelente fonte secundária muitas vezes é uma boa introdução ao Anti­
go ou ao Novo Testamento, como a de Longmann e Dillard (Introdução ao Antigo
Testamento, São Paulo: Vida Nova) ou de Hill e Walton para o Antigo Testamento
e a de Kõstenberger, Kellum e Quarles ou a de Carson e Moo para o Novo Testa­
mento (Introdução ao Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova). Além disso, será
de grande ajuda aos estudantes consultar comentários de primeira classe, que,
além das análises exegéticas, também abrangem o material relevante do contexto
histórico-cultural.

68Veja James H. Charlesworth, org., John and the D ead Sea Scrolls (New York: Crossroad, 1990);
Kugler e Schuller, Dead Sea Scrolls at Fifty-, Charlesworth, Bible and the D ead Sea Scrolls; e as pro­
veitosas análises em Evans, Ancient Texts fo r New Testament Studies, p. 3-6.
69Veja esp. David W. Chapman e Andreas J. Kõstenberger, “Jewish Intertestamental and Early
Rabbinic Literature: An Annotated Bibliographic Resource”, JETS 43 (2000), p. 577-618 (também
disponível online em: < http://www.biblicalfoundations.org>); veja também Barrett, New Testament
Background-, Sparks, Ancient Texts fo r the Study o fth e Hebrew Bible; Evans, Ancient Texts fo r New
Testament Studies.
Com respeito ao uso do Antigo Testamento pelo Novo, o Commentary on the
New Testament Use ofthe Old Testament, organizado por G. K. Beale e D. A. Carson,
merece lugar de honra.70 Entre outros tipos de fontes secundárias encontram-se
atlas bíblicos, enciclopédias e dicionários bíblicos, histórias do Antigo e do Novo
Testamento e estudos especiais da vida e cultura na antiguidade. Cada vez mais, há
também muitas informações convenientemente disponíveis na internet. Veja o apên­
dice deste volume e outras compilações semelhantes de boas fontes de contexto.71

CONCLUSÃO
O cristianismo é uma religião histórica, e a Escritura pressupõe que Deus se re­
velou na história humana. Isso requer que os estudantes da Bíblia sejam sensíveis
a fatores históricos, tanto a seqüência cronológica como os costumes histórico-
-culturais que tenham relação com a interpretação bíblica. Muitas ferramentas úteis
podem auxiliar nesse propósito, desde comentários técnicos a manuais bíblicos
até o gênero mais recente de comentários do contexto bíblico.72
Embora estudar os costumes histórico-culturais seja muito importante,
com frequência o estudante da Bíblia se defronta com a importante questão da
relatividade cultural versus a normatividade. Como é que o intérprete moderno
deve compreender e aplicar as prescrições bíblicas dadas no contexto de normas
sociais que podem não estar mais em vigor? Grant Osborne registra o seguinte
comentário proveitoso quando define a tarefa do intérprete de avaliar o contexto
histórico-cultural antigo:

Portanto, a tarefa do receptor no contexto cultural moderno é recapturar o quadro


total da conjuntura em que o autor sacro se comunicou e transferir essa mensa­
gem para nossa época. Os aspectos culturais pressupostos na passagem ajudam o

'“Edição em português: Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (São


Pmlo: Vida Nova, 2014).
‘‘Veja, e.g., Duvall e Hays, Grasping G ods Word, p. 107-16; Kõstenberger, Kellum e Quarles,
Cradle, the Cross, and the Crown, p. 97-9; Osborne, Hermeneutical Spiral, p. 167-73. Veja também
Antold e Beyer, Readings from the Ancient Near East-, Walter A. Elwell e Robert W. Yarbrough,
«cgs., Readings from the First-Century World (Grand Rapids: Baker, 1998); Ferguson, Backgrounds.
"^Como ponto de partida, veja a bibliografia no final deste capítulo. Veja também as listas de fontes
■ecomendadas postadas em: < http://www.biblicalfoundations.org>. Uma área do contexto bíblico
não se deve ignorar é o estudo de moedas antigas. Veja esp. David Hendin, Guide to Biblical
Caõis,5. ed. (New York: Amphora, 2001); Yaakov Meshorer, A Treasury o f Jewish Coins (New York:
Anophora, 2001); Kenneth Bressett, Money o fth e Bible (Atlanta: Whitman, 2007).
intérprete a passar das palavras à mensagem por detrás delas, compreendida pelos
leitores originais, mas oculta ao leitor moderno.73

O estudante pode muito bem perguntar: “Esses costumes tinham de ser


obrigatórios para sempre ou não?”.74 A resposta nem sempre é imediatamente evi­
dente e muitas vezes há certa diversidade de opiniões entre os intérpretes bíblicos.
Sugerimos que o estudante siga estas três diretrizes gerais:

1. Algumas questões culturais mencionadas no Antigo Testamento evidente­


mente se aplicam de modo restrito a esse período e não se repetem no Novo
Testamento. Por exemplo, de acordo com o livro de Hebreus, entre esses
costumes se encontram todo o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento
e o sacerdócio levítico, os quais tiveram cumprimento em Cristo.
2. Algumas normas culturais se repetem posteriormente na Bíblia e, por­
tanto, continuam sendo válidas. Os Dez Mandamentos, por exemplo,
repetem-se no Novo Testamento (exceto o mandamento do sábado) e
por essa razão continuam sendo aplicáveis, embora sejam aprofundados
pelo Novo Testamento. Pense também nos repetidos mandamentos do
Antigo Testamento que ordenam o cuidado para com os pobres. No tem­
po da colheita, os hebreus deviam deixar parte do cereal para os pobres
respigarem (Lv 23.22). Do mesmo modo, o Novo Testamento conclama
os cristãos a prover para os necessitados (e.g., ICo 16.1; lTm 5.3).
3. Em muitos casos, os costumes bíblicos contêm um princípio subjacente
fundamental que permanece aplicável até hoje. O costume bíblico de dar
um beijo como saudação convencional, por exemplo (v., e.g., Gn 33.4;
2Sm 19.39; Lc 7.45; Rm 16.16), pode encontrar aplicação no atual aperto
de mão ou abraço. Nesses casos, procuramos discernir e aplicar o princípio
subjacente envolvido na expressão cultural.

AMOSTRA DE EXEGESE (ANTIGO TESTAMENTO):


1REIS 17— 18
O texto de IReis 17—18 conta uma das histórias mais conhecidas e cativantes
de toda a Escritura. Yahweh e seu profeta Elias confrontam Baal e seus profetas.

73Osborne, Hermeneutical Spiral, p. 166.


74Além desses comentários, veja a análise mais detalhada de questões concernentes à aplicação
no cap. 16.
Antes do capítulo 17, Acabe se torna rei de Israel após a morte de Onri e “fez o
que era mau perante o S e n h o r , mais do que todos os [reis] que o antecederam”
(lRs 16.30). Acabe se casa com Jezabel, filha do rei dos sidônios, e assim começou
a “cultuar Baal e a adorá-lo. Ele levantou um altar a Baal no templo de Baal que
construíra em Samaria” (lR s 16.31,32). O grande confronto entre Yahweh e Baal
ocorre na ocasião em que Acabe traz o disseminado culto a Baal para Israel depois
de ter-se casado com Jezabel, uma sidônia. Nosso entendimento do conflito entre
Yahweh e Baal é consideravelmente aprofundado quando compreendemos Baal
em seu contexto do antigo Oriente Próximo.
A passagem de IReis 17.1 define a base para o restante da narrativa:

Elias, o tesbita, que habitava em Gileade, disse a Acabe: Tão certo como vive o
S e n h o r , Deus de Israel, a quem sirvo, nestes anos não haverá orvalho nem chuva,

senão por meio da minha palavra.

A mensagem essencial das palavras de Elias parece evidente: Deus está vivo
e ele cumprirá sua palavra. Entretanto, compreender o contexto histórico-cultural
enriquece o significado da passagem. A declaração de Elias não se refere apenas à
identidade de Yahweh, mas também trata de modo muito incisivo da natureza de Baal.
Baal era um proeminente deus da tempestade no antigo Oriente Próximo
e na Fenícia, em particular.75 Assim, a promessa de que não haveria chuva senão
pelo poder de Yahweh não era uma promessa arbitrária para mostrar o poder de
Yahweh em geral, mas uma declaração mais direta referente ao poder de Yahweh
sobre Baal. Como deus da tempestade, Baal deve ser capaz de fazer chover e, assim,
produzir vida, a despeito da declaração de Elias. Há textos ugaríticos que apoiam
a existência de correlação entre Baal como o deus da tempestade e a afirmação de
Elias de que não haveria chuva nem orvalho.

Há sete anos Baal está ausente,


Oito, o Cavaleiro das Nuvens
Nem chuva, nem orvalho
Nenhum turbilhão das profundezas,
Nenhuma voz de saudação vinda de Baal.76

75Paul R. House, 1, 2 Kings, NAC (Nashville: Broadman & Holman, 1995), p. 215.
76Leah Bronner, The Stories o f Elijah and Elisha: Ai Polemics Against B aal Worship, Pretória
Oriental Series, A. Van Selms, org., vol. VI (Leiden: Brill, 1968), p. 68.
Nesse texto, a ausência de Baal provoca falta de chuva (“nem chuva”) e de
orvalho (“nem orvalho”). A omissão de Baal se deve à sua morte. O deus Mot,
palavra cujo significado é “morte”, consome Baal, matando-o. Enquanto Baal está
morto, não há chuva e, portanto, não há vida. O retorno da chuva significaria que
Baal reviveu. Por isso, depois que Mot mata Baal, El anseia pelo retorno de Baal
para que a terra traga vida mais uma vez:

Que dos céus chova óleo,


Os uádis se encham de mel,
Então eu saberei que B[aal], o mais poderoso, vive,
O Príncipe, o Senhor da Terra está vivo.77

A seca significa a morte de Baal. O retorno da chuva implica em que Baal está
vivo novamente.
À luz desses textos, IReis 17.1 adquire nova importância. A afirmação de Elias
não é simplesmente uma declaração do poder de Yahweh, mas também um ques­
tionamento direto do poder de Baal. No meio da seca que virá, Yahweh continuará
vivo, mas Baal estará morto. Como se verá na seqüência da narrativa, Baal não
provê chuva nem vida; Yahweh provê. Somente Yahweh, o Criador e Sustentador,
dá a provisão certa e necessária a suas criaturas.
A provisão de Yahweh para Elias durante a seca (lRs 17.2-24), portanto,
adquire importância nova. Yahweh ordena que Elias vá à ravina de Querite, onde
o profeta beberá do riacho, e corvos o alimentarão. Yahweh controla a natureza.
Depois que o riacho seca, Yahweh ordena que Elias vá a Sarepta de Sidom. Não se
deve deixar de observar o fato de que Yahweh ordena a Elias ir a Sarepta de Sidom.
Jezabel, por meio de quem a adoração a Baal entrou em Israel pelo casamento com
Acabe, é filha de Etbaal, rei dos sidônios. Elias entra em Sarepta, o próprio centro
do baalismo. Yahweh confrontará Baal no território do próprio Baal. A história
prossegue e demonstra que Yahweh é o Deus da vida e reina sobre toda a criação,
ao passo que Baal está de fato morto, sem esperança de retorno.
Sarepta é um lugar cheio de morte. A seca tomou conta da terra. Elias encontra
uma viúva, cuja vida é marcada pela morte. Quando Elias a encontra, ela não tem
comida e está preparando sua última refeição antes de morrer. Enquanto Elias está
com a viúva, o filho dela morre. Na terra de Baal, a morte reina. Porém, Yahweh,

77Simon B. Parker, org., Ugaritic Narrative Poetry, SBL Writingsfrom the Ancient World 9 (Atlanta:
Scholars, 1997), p. 157.
que vive e dá vida, provê a vida a Elias por meio da viúva. Yahweh continua pro­
vendo miraculosamente o alimento para Elias, a viúva e o filho dela com apenas
um pouquinho de farinha e de óleo. Yahweh ressuscita o menino por intermédio
de Elias. Na morte de Baal, Yahweh dá vida. A vida de Yahweh alude à morte de
Baal com a declaração da viúva no versículo 12: “Tão certo como vive o S e n h o r ” ;
e a de Elias, no versículo 23: “Aqui está! Teu filho está vivo”. Considerada à luz da
crença cananeia de que a morte de Baal causou a presente seca, a história não trata
apenas da capacidade de Yahweh de oferecer provisão em tempos difíceis. Essa
história declara algo muito mais forte: Baal está morto; Yahweh vive.
Compreender a história desse modo retira o suspense da luta final entre
Yahweh e Baal no monte Carmelo. O confronto começou em IReis 17.1, e o ve­
redicto já fora proferido. A angustiante expectativa é substituída pela confiança e
pela fé em Deus. À medida que a narrativa prossegue rumo à exposição pública
da superioridade de Yahweh, o leitor não deve se surpreender com a fé e a con­
fiança de Elias em Deus. Yahweh já se mostrara fiel à sua palavra e superior a Baal.
A compreensão plena da confrontação que começa em IReis 17.1, entretanto, só é
possível com o conhecimento do contexto histórico-cultural. Contudo, o contexto
histórico oferece ainda mais para a compreensão da presente passagem.
Maior clareza e entendimento a respeito dos eventos no monte Carmelo resul­
tam quando o relato é compreendido em seu contexto histórico-cultural. O desafio
que Elias propõe deve ter soado muitíssimo conveniente para os adoradores de Baal,
porque cai como uma luva para os poderes de Baal. Como deus da tempestade,
Baal podia enviar fogo do céu (raios) para atear fogo ao altar construído por seus
profetas. Enquanto os profetas de Baal clamam a ele, invocando-o para despertar e
enviar fogo ao altar que eles haviam construído, Elias parece zombar das tentativas
desses profetas, ridicularizando o “deus” deles. Elias pode estar ridicularizando o
deus deles, mas o texto bíblico não indica que os profetas de Baal se opuseram a essa
zombaria. George Saint-Laurent propõe que, embora os profetas tenham parecido
ridículos, “Elias tem bons motivos para se referir a Baal como ‘pré-ocupado’ em
termos do ciclo de Baal, que descreve um deus muito ocupado de fato, preocupado
com uma enorme variedade de problemas”.78 Saint-Laurent mostra que no ciclo de
Baal, Anate não consegue encontrar Baal em casa quando este sai para caçar e que

78George E. Saint-Laurent, “Light from Ras Shamra on Elijahs Ordeal upon Mount Carmel”, in:
Carl D. Evans, William W. Hallo e John B. White, orgs., Scripture in Context: Essays on the Comparative
Method (Pittsburgh: Pickwick, 1980), p. 132-3.
os deuses cananeus realmente dormem e precisam ser despertados.79 Mais uma
vez, as palavras de Elias não são arbitrariamente zombadoras, mas concebidas para
revelar intencional e claramente que Deus está acima de Baal.
Além disso, o fato de os profetas de Baal se ferirem também é uma prática
confirmada no ciclo de Baal. Quando os deuses El e Anate descobrem que Baal está
morto, eles também se cortam:

Então o Benevolente El, o Início,


Desce de seu trono, senta-se no escabelo
[E] do escabelo, senta-se na terra.
Ele despeja poeira sobre a cabeça em sinal de luto,
Pó na coroa para se lamentar;
Como vestimenta, ele se cobre com pano de saco.

Com uma pedra, ele esfrega a pele,


Faz dois cortes com uma lâmina.
Mutila bochechas e queixo,
Faz um sulco em todo o braço.

Ara o peito como a um jardim,


Como a um vale, entalha as costas.

Levanta sua voz e brada:


“Baal está morto! O que será dos povos?
O Filho de Dagom! O que será das multidões?
Após Baal descerei ao Inferno”.

Então Anate sai para caçar,


Em cada montanha no coração da terra,
Em cada monte [no cora]ção dos campos.

Chega às agrad[áveis terras d] o interior,


Ao belo campo d[o Reino] da Morte;
Ela encontr[a] Baal caí [do em te]rra.

[Como vestimenta] ela se cobre com [pano de] saco,


Com uma pedra ela esfrega a pele,
Faz dois [cor]tes [com uma lâmina].

79Ibidem, p. 133.
Ela mutila bochechas e pescoço,
[Faz um sulco] em todo o braço.

Ela ara o peito como a um jardim,


Como a um vale, entalha as costas:

“Baal está morto! O que será dos povos?


O Filho de Dagom! O que será das multidões?
Após Baal nós desceremos ao Inferno”.80

A morte de Baal gera mais morte, um dos temas de IReis 17—18. Obviamente,
em absoluto contraste com as medíocres tentativas dos profetas de Baal de ressuscitar
seu deus morto, Elias invoca aquele que vive. Yahweh responde imediatamente a
fim de mostrar que é o único Deus verdadeiro. Uma vez que Yahweh demonstra
publicamente a sua superioridade, traz chuva para mostrar que não só é superior
a Baal, mas também que Baal não é deus coisa nenhuma. Yahweh, não Baal, é o
Senhor de toda a criação e o Deus da vida. Yahweh reina na vida, ao passo que a
morte reina sobre Baal.

AMOSTRA DE EXEGESE (NOVO TESTAMENTO):


LUCAS 2.1-20
O conhecido relato do nascimento de Jesus no Evangelho de Lucas é um excelente
exemplo da importância de estudar o ambiente histórico e cultural da Escritura.
O texto começa referindo-se a um decreto publicado por César Augusto. Lucas
situa deliberadamente o nascimento de Cristo no reinado do imperador romano.81
A pesquisa histórica revela que Augusto (31 a.C.-14 d.C.) foi o primeiro e (creem
muitos) o maior imperador romano. Ele presidiu o que comumente se chama de a
“Idade de Ouro” de Roma e se orgulhava de ter inaugurado uma era de paz, a chama­
da pax romana (“paz romana”). Augusto foi deificado após sua morte, e há moedas
que se referem a ele como Divifilius (“Filho da divindade” ou “Filho divino”).82

“ Parker, Ugaritic Narrative Poetry, p. 149-51.


81Veja também Lucas 3.1-3, em que o início dos ministérios públicos de João Batista e de Jesus
são situados no “décimo quinto ano do reinado de Tibério César” (v. 1), imperador que sucedeu
Augusto e que reinou de 14-37 d.C.
82Para mais informações, veja Ferguson, Backgrounds, p. 25-30. Na p. 198, Ferguson observa que
“desde a época de Tibério os templos eram dedicados ao divinizado Augusto”. Veja também Werner
Eck, The Age ofAugustus, trad. Deborah Lucas Schneider (Oxford: Blackwell, 2003).
Essas evidências históricas são muito importantes para uma leitura criteriosa
da narrativa do nascimento de Jesus por Lucas em conformidade com sua inten­
ção autoral. É praticamente certo que Lucas, ao situar o nascimento de Jesus sob
a égide do reinado de Augusto, procurou estabelecer uma comparação e mostrar
o contraste entre Augusto, o imperador romano, de um lado, e Cristo, o Messias
judaico, do outro. Jesus também veio para trazer “paz na terra entre os homens”,
de acordo com a proclamação dos anjos (Lc 2.14). Enquanto Augusto governava
sobre “o mundo inteiro” (v. 1), as boas-novas dos anjos eram para “todo o povo”
(v. 10). Jesus, diferentemente de Augusto, era de fato o “Filho de Deus”. Até o termo
“Salvador” pode invocar a linguagem imperial romana, segundo a qual o imperador
era considerado “salvador” de seu povo.
Outro dado histórico interessante fornecido por Lucas é que o censo
mencionado na passagem foi o “primeiro recenseamento”, “feito quando Quiri-
no era governador da Síria” (v. 2). De acordo com historiadores antigos, Quirino
era procurador para a Síria em 6-9 d.C., depois que Arquelau, o filho de Herodes,
o Grande, foi exonerado do ofício (Josefo, Ant., 1 8 .1 .1 ,2 , § 1 - 1 1 ; cf. Tácito, Anais,
2 .3 0 ; 3 .2 2 ,2 3 ,4 8 ; Estrabão, Geografia, 12.6.5). Visto que Jesus nasceu no reinado de
Herodes, o Grande (que, de acordo com fontes seguras, morreu em 4 a.C.), alguns
dizem que Lucas deve estar errado. Entretanto, é bastante provável que as evidências
disponíveis sejam muito limitadas para tirar conclusões firmes. À luz da precisão
extraordinária de Lucas onde outras fontes podem confirmar suas informações, é
provável que o censo tenha sido realizado antes de Quirino se tornar governador
(uma possível interpretação do advérbio traduzido por “primeiro” na A21) ou que
Quirino já ocupasse algum tipo de posto de governo antes de assumir oficialmente
sua função em 6 d.C.83
Entre algumas complexidades da reconstrução histórica, não se deve deixar
passar a observação mais importante que Lucas faz na narrativa do nascimento de
Jesus: Deus soberana e providencialmente usou o decreto do imperador romano
para deslocar os pais de Jesus, o Messias, de Nazaré na Galileia até Belém na Judeia,
o lugar onde, de acordo com a profecia do Antigo Testamento, o Messias iria nascer
(Mq 5.2; cf. Mt 2.6). Isso talvez seja uma das mais profundas ironias de toda a história
humana: o decreto do imperador romano realizou a vontade de Deus, fazendo que

83Veja “Sidebar 3.1: Luke and Quirinius”, in: Andreas J. Kõstenberger; L. Scott Kellum; Charles
L. Quarles, The Cradle, the Cross, and the Crown: An Introduction to the New Testament (Nashville:
B&H, 2009); Darrell L. Bock, “Excursus2: TheCensus of Quirinius (2:1-2)”, in: Idem, Luke 1:1—9:50,
BECNT (Grand Rapids: Baker, 1994), p. 903-9.
Jesus nascesse em Belém, a “Cidade de Davi” (v. 4,11).84O enredo central da grande
metanarrativa da Escritura — a vinda do prometido Messias de Deus para prover
salvação do pecado e da morte — portanto, tem seu auge no decreto do imperador
e no subsequente nascimento de Jesus na cidade de Davi.85
Mesmo esse breve esboço dos antecedentes históricos do relato que Lucas faz
do nascimento de Jesus mostra a recompensa considerável que têm aqueles que
pesquisam com diligência o ambiente histórico de qualquer narrativa das Escritu­
ras. Além disso, a narrativa de Lucas que envolve o nascimento de Jesus também é
rica em detalhes culturais que precisam ser estudados com atenção. Para começar,
os pais de Jesus, José e Maria, foram de Nazaré a Belém. Como qualquer bom mapa
da Terra Santa indica, a distância entre essas duas cidades, em linha reta, é de cerca
de 95 quilômetros. Se, como era o costume, José e Maria não viajaram pela rota mais
direta, através da Samaria, mas viajaram a leste do rio Jordão, a distância seria mais
próxima de 145 ou 160 quilômetros. Viajar uma distância grande como essa teria sido
uma grande dificuldade para uma mulher no estado de Maria, no fim da gravidez.
A referência a Jesus como o “primogênito” de Maria, no versículo 7, também
evoca um costume cultural judaico. Darrel Bock propõe cinco possíveis interpre­
tações, observando que “é provável tratar-se de uma referência aos direitos gerais
de Jesus como primogênito” (v. esp. v. 23,24).86 Naturalmente, o relato bíblico
também indica que Jesus era literalmente o primogênito, no sentido de que Maria,
depois de Jesus, teve ainda outros filhos (cf. Mt 12.46,47; Lc 8.19,20). O versículo
7 também contém outras três expressões importantes que são consideravelmente
esclarecidas pela pesquisa do contexto histórico: 1) Maria envolvendo Jesus “em
panos”; 2) colocando Jesus “em uma manjedoura” (cf. tb. o v. 16, em que isso se
torna um importante aspecto de identificação para os pastores); e 3) a afirmação
de que “não havia lugar para eles na hospedaria”.
Os panos usados para envolver refletem o costume judaico de “pegar faixas
de tecido e enrolá-las na criança para manter os membros retos”.87 A manjedoura
provavelmente era um cocho para animais, o que dá a entender que Jesus nas­
ceu em algum tipo de abrigo para animais. Podia ser um estábulo ou talvez uma

84Veja também referência à salvação vir da “descendência de seu servo Davi” no cântico de
Zacarias em 1.69.
“ Davi, por sua vez, foi o destinatário original da promessa de Deus de que ele estabeleceria seu
reino para sempre (2Sm 7.12,13).
“ Bock, Luke 1:1—9:50, p. 207.
87Bock (ibidem), em referência a outras fontes.
gruta.88 Mas como entender a referência de Lucas à hospedaria? O texto de Lucas
2.11 emprega o mesmo termo para se referir a um quarto de hóspedes numa casa,
ao mesmo tempo que se encontra um termo relacionado na “Parábola do Bom
Samaritano” em 10.34, o qual denota uma hospedaria formal. Visto que, diferen­
temente de 10.34, Lucas não menciona nenhum dono ou gerente de hospedaria na
narrativa do nascimento, talvez a referência no versículo 7 seja a “algum tipo de
sala de recepção numa residência particular ou alguma espécie de abrigo público”.89
Visto que não havia lugar ali, os pais de Jesus procuraram abrigo em outro lugar. O
que todos esses detalhes contextuais têm em comum é que em conjunto eles indi­
cam as circunstâncias humildes do nascimento de Jesus. Em conformidade com a
ênfase constante de Lucas na pobreza e humildade, o evangelista mostra que Jesus
se humilhou para dar salvação aos pecadores (v. esp. 19.7; cf. Fp 2.5-8).90
A pesquisa histórica atenta e o conhecimento de costumes culturais antigos
são apoios indispensáveis para interpretar determinada passagem das Escrituras
em conformidade com seu contexto original e a mensagem pretendida pelo autor.
Embora os primeiros leitores de Lucas talvez tivessem mais conhecimento de algu­
mas informações do que os leitores atuais, todos aqueles que querem compreender
as Escrituras têm de se empenhar para se apresentar aprovados, aptos na pesquisa
e no manejo correto da palavra de Deus (2Tm 2.15). Os detalhes específicos,
obviamente, variam de acordo com a passagem em particular, mas na maior parte
das vezes a pesquisa histórica é essencial para compreender o significado pleno
pretendido pelo autor do texto bíblico. Felizmente, há muitas fontes úteis, sejam
elas Bíblias de estudo, bons comentários ou outras obras de consulta, para nos
auxiliar nessa tarefa.91

88Veja a análise em ibidem, p. 208.


89Ibidem.
90Veja “Table 6.3: Jesus and the Lowly in Lukes Gospel”, in: Kõstenberger, Kellum, Quarles,
Cradle, the Cross, and the Crown, p. 286.
<í'Vcja a bibliografia do capítulo e o apêndice no final deste volume.
Apresentando o cenário: o contexto histórico-cultural 135
1. Qua* é a importàrçcia de estudar o contexto Mstdrtéô-cürtural«le uma
passagem espeeíftca das Escrituras e come,o estudado contexto histórico-
cultural se encaixa na abordagem genft adotwfe neste fivto?

2. todos concordam que a veracid ade das Escrituras é confirmada pelas


informações do contexto histórico-cutturat? Corno voès àvafó a Confiabilidade
do registrobíbfiçO? í,' - ...........■ -

3. ■
Por que é importante identificar.a crp q ç^ M õ s ^ Ç f^ ip en to s
daAntigo Testament»? - . - ' ' ' ^

4. Quais são algumas das principais datasqúefianwt«»n trni quadio^eral para


o estudo do Antigo Testarnen^Lfilatoda *-S|jres*fiíâçÃo d» cronologia do

q penpdo dosjufees, o início da monarquia israelita e os exílios

* 5. Como é possfvel (teternitnar a data do Início do ministério de Jesus t»a da


crucificação? Quais sío » opções e quais são as datas mais prováveis?

6. Quais são as principais datas pertinentes ao livro de Atos e ao ministério de


. Pauto, inclusive de suai cartas? Por que é bom conhecer èssa cfònólogtè geraI
pãií intèrpretãr esíès partes das Escritürss?^' 1 ’ v. .......

7. Quais s£o as descobertas matsiinportanlvs^iwcfMKiboiarB* veracidade


dos registros do Antigo * do NôVçTestaimento^ canç^ aunteptanossa
confiança ng fidedignidMie das €scrifyfa$? _

- 8. Qu«ús ãs tiltreCrlEiK'iMrtir^mâs^«^ai|9^iéw^p«4A^piBii^«ei^^iÉ!liiÀ nSãs


* b MBiKAflhnisconco-cuiturais
intormacoes Ifc*fejiA J fllA n Ia ^ pwWHn®
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t. Anãljse 2Rels.V7.1
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2. Usando osdadostla , t „
os das descobertas arç^tenfa^iatfdfrjwrfcHfo, analise lReb&t£-19l£nv<)ue
essas evidências coríw iri& n,è$c&$!ÍC£*n ou complemér^sm ófièti^b&fcco?
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. Musêunv1S5Ã. *
O FOCO DAS ESCRITURAS:
LITERATURA
1. A p re se n ta r ao e stu d a n te três te m a s fundam entais, q u e fo rn e ce m um a
orientação correta para a Lei, o s Profetas e o s Escritos d o A n t ig o Testam ento.

2. A p re se n ta r a o e stud ante a natureza e o p o n to cu lm in a n te da Lei na


n o v a aliança.

3. A p re se n ta r a o e stud ante o co n ce ito d e re d en ção n o a co n te cim e n to d o Ê xo d o


e sua con trib u içã o para a n ova aliança.

4. A p re se n ta r ao e stud ante a relação D e u s-h o m e m nas alianças d o A n tig o


Testam ento e o p o n to cu lm in ante d as alianças na n ova aliança.

5. C apacitar o e stud ante a c o m p re e n d e r o g o v e rn o so b e ra n o de D e u s e m relação


ao povo, na é poca d o A n tig o Testam ento, e a im p ortância da p ro m e ssa de um
M e ssia s v in d o u ro e sua relação co m a n o v a aliança.

6. Fornecer a o e stud ante um a perspectiva d o A n t ig o Testam ento q u e o prepare


para c o m p re e n d e r a revelação d o N o v o Testam ento.
A. C a p ítu lo 3: objetivos
B. E sb o ç o d o capítulo
C. In tro d u çã o
D. C â n o n e interpretação ca n ô n ic a
1. C a n o n
2. Interpretação can ônica
E. Lei
1. T ip o s d e lei
2. E xp re ssõe s referentes à Lei
3. T ra n sm issão da Lei
4. Ap lica b ilid a de d a Lei
5. Diretrizes para aplicar a Lei d a A n t ig o Testam ento
F. O Ê xo d o
1 .0 cenário d o Êxo d o
2. T ra n sm issão d o relato d o Ê x o d o .
3 . 0 clím ax d o Ê xo d o na nova aliança '
4. A p licab ilid ade d o Êxo d o
5. Diretrizes para c o m p re e n d e r o Ê xo d o -
G. Aliança ....
1. T ip o s d e aliança
2. Série d e alianças p rincipais cu lm in a n d o na N o va Aliança
3. A p lica b ilid a de d as alianças ...............
4. Diretrizes para c o m p re e n d e r as alianças d o A n tig o Testam ento
H. H a rm o n iz a n d o o s te m a s d o A n t ig o Testam ento
1 . 0 d o m ín io d e D e u s e o con ce ito d e M e s s ia s ........
2. Relação d e D e u s e d o M e ssia s co m a Lei, o Ê xo d o e as alianças ....
3. Papel d o M e ssia s na n o v a aliança ..........
.... 4. Relação d o m e ssia n ism o d o A n t ig o T estam ento co m o N o v o T estam ento
5. Justiça e fé ‘ .
6. Diretrizes para co m p re e d e r a relevância d o m e ssia n ism o
I. P alavras-chave -
J. Q u e stõ e s para a p ro fu n d a r o e stu d o
K. Exercícios
L. Bibliografia d o cap ítu lo .
TEO LO G IA

HISTÓRIA ♦ LIT E R A T U R A S

W- CAN ON GÊNERO LINGUAGEM


A n tig o Testam ento Narrativa histórica do AT Contexto discursivo
N ovo Testamento Poesia e sabedoria Significado das palavras
Profecia Linguagem figurada
Narrativa histórica do NT
Parábolas
Epístolas
Literatura apocalíptica
Capítulo 3

O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO:


A LEI, OS PROFETAS E OS ESCRITOS

INTRODUÇÃO
gora que fundamentamos adequadamente nosso estudo das Escrituras

A investigando seu ambiente histórico, estamos prontos para iniciar o es­


tudo do segundo elemento da tríade hermenêutica: a literatura, o foco
principal de nossa jornada interpretativa. Em conformidade com o princípio
hermenêutico fundamental de interpretar as partes à luz do todo, procederemos
da estrutura canônica maior para o gênero literário e daí para as característi­
cas lingüísticas de várias passagens das Escrituras. Como nos lembrou Kevin
Vanhoozer, o cânon bíblico é um todo coerente, um “teodrama”.1N. T. Wright,
do mesmo modo, chamou atenção para a função importante do enredo global
das Escrituras na interpretação das passagens individuais.2 Fora do âmbito cris­
tão, os pós-modernistas têm enfatizado a importância de metanarrativas e da
cosmovisão.3Por esse motivo devemos adquirir uma boa compreensão do enredo
bíblico como um todo antes de examinar características de gênero e aspectos
lingüísticos específicos de um texto das Escrituras em particular.

'Kevin J. Vanhoozer, The Drama o f Doctrine: A Canonical-Linguistic Approach to Christian


Theology (Louisville: Westminster John Knox, 2005).
2N. T. Wright, The New Testament and the People o fG o d (Minneapolis: Fortress, 1992).
3Veja a excelente abordagem de D. A. Carson em The Gagging o f God: Christianity Confronts
Pluralism (Grand Rapids: Zondervan, 1996) [edição em português: O Deus A m ordaçado: o
Cristianismo Confronta o Pluralismo (São Paulo: Shedd, 2013)].
Este capítulo estuda as três grandes divisões da revelação do Antigo Testa­
mento: a Lei, os Profetas e os Escritos. O próximo capítulo examinará o panorama
canônico do Novo Testamento. Os textos reunidos na Lei, nos Profetas e nos
Escritos formam o cânon do Antigo Testamento. A palavra cânon deriva em última
análise de uma raiz hebraica, qãneh, que significa “cana (ou junco)”. Como alguns
juncos eram usados como vara de medida, essa variação acabou fazendo parte do
significado da palavra grega kanõn, denotando “padrão”. Com o tempo, a palavra
foi usada para referir-se a um grupo de livros que eram julgados por determinados
padrões e considerados revestidos de autoridade.
Embora o cânon do Antigo Testamento tenha-se desenvolvido gradualmente
por mais de um milênio, quando se concluíam os livros individuais, muitas vezes
eles eram imediatamente reconhecidos e aceitos como revestidos de autoridade
divina (e.g., Êx24.3,4,7; Dt 4.1,2; 31.9-11,24-26; Js 1.7-9; 8.35). Repetidas vezes, os
profetas afirmavam que haviam recebido uma revelação divina e declaravam que
falavam da parte do Senhor (e.g., lRs 17.13,14; Is 1.1; 6.1-13; Jr 1.4-19; Ez2.1—3.4;
Jn 1.1; 3.1; Hc 1.1; Zc 1.1; Ml 1.1; etc.). Muitos reconheciam o caráter de autoridade
dos livros do Antigo Testamento (lRs 16.34; 2Rs 14.6,25; 23.1-3; Ed 5.1,2; Ne 9.30;
Is 34.16; Dn 9.2), entre eles Jesus (Mt 5.17-20; 23.34,35), os apóstolos (e.g., At 2.17-21,
25,26,34,35; Rm 1.2,3; 11.2; 2Pe 1.19-21) e outras pessoas do Novo Testamento (e.g.,
Lc 1.1-4; 24.27,32,45; Hb 2.6-9; 5.5,6; 8.8-12; etc.).
Além disso, a análise e a pesquisa histórica atentas demonstram que, em
cada etapa de sua formação, o Antigo Testamento representa exatamente a área e
o período de que está tratando. Sua veracidade, no caso de dados que podem ser
verificados, indica mais uma vez que, quando ele afirma ser a palavra do Senhor,
pode-se acreditar no Antigo Testamento. Também é interessante observar que ex­
pressões como “assim diz o Senhor” e “Deus/o Senhor disse” ocorrem milhares de
vezes. Acrescentando a isso o fato de que indivíduos que respondem positivamente
aos ensinos e preceitos da Bíblia experimentam uma condição espiritual que muda
a vida, vemos que os livros canônicos do Antigo Testamento transcendem a mera
invenção humana.
Em tudo o que faremos a seguir, portanto, caminharemos no firme alicerce de
que os livros canônicos do Antigo Testamento são o que afirmam ser — a revelação
autorizada de Deus à humanidade conforme divulgada mediante instrumentos
humanos escolhidos. De fato, o próprio Deus é o fator unificador fundamental do
Antigo Testamento. Desde o primeiro versículo (Gn 1.1) até o último das Escri­
turas judaicas (2Cr 36.23), o Antigo Testamento fala de Deus como o Criador e
Governante soberano de todas as coisas. A narrativa inicial em Gênesis fala sobre
a queda da humanidade e a provisão de Deus para nossa redenção, baseada no
princípio de sacrifício substitutivo (Gn 3.21; 22.8-14). O livro de Gênesis também
contém a promessa da consumação da história da terra em um Redentor vitorioso
vindouro (Gn 3.15; 49.10). Essas verdades da queda da humanidade e da redenção
divina guiarão nosso percurso interpretativo pela revelação do Antigo Testamento,
mas o entendimento do cânon e da interpretação canônica cria a estrutura inter-
pretativa adequada para a nossa análise temática.

CÂNON E INTERPRETAÇÃO CANÔNICA


Cânon
Para interpretar o Antigo Testamento, é bom adquirir uma compreensão básica
do cânon e da interpretação canônica do Antigo Testamento. Há pelo menos duas
razões para isso. Em primeiro lugar, é necessário compreender as complexidades
do termo “cânon” corretamente ao interpretar o Antigo Testamento. Em segundo
lugar, a ideia de interpretação “canônica” obteve ampla aceitação entre os estu­
diosos e deve ser entendida corretamente para seu êxito na interpretação bíblica.
Conforme mencionado anteriormente, “cânon” é o termo que se usa para
definir o conjunto de livros do Antigo Testamento revestidos de autoridade, de
Gênesis a Malaquias. Em geral se define “cânon” simplesmente como uma lista
de livros autorizados. Essa ideia, porém, pode dar a entender que o “cânon” é uma
lista arbitrária de livros com a qual se concordou e que se compilou em algum
momento do segundo século d.C. Na verdade, entretanto, o cânon do Antigo
Testamento é muito mais do que uma mera lista de livros. O cânon representa um
conjunto de textos que influenciaram uns aos outros na formação e no desenvol­
vimento de todo o conjunto. Em outras palavras, certos livros foram recebidos
de uma forma particular por outros e, por sua vez, devem ser modelo de como
devemos ler esses outros livros.
Alguns exemplos explicam o que se quer dizer com cânon. Um deles se encon­
tra no livro de Deuteronômio. As leis de liderança de Deuteronômio 16.18-20 e
17.1—18.22 preparam o terreno para o modo como os leitores devem avaliar os
líderes de Israel em Josué—Reis. Isso porque o autor de Josué a Reis parece ter
conhecimento de Deuteronômio e é guiado e teologicamente limitado pela teologia
de Deuteronômio. Desse modo, o livro de Deuteronômio estabelece uma norma
que molda tanto a redação como a avaliação do restante de Josué a Reis. Outro
exemplo é a relação entre 1—2Reis e 1—2Crônicas. Essas duas histórias de Israel
são semelhantes em certos pontos, o que indica que o autor de Crônicas conhece o
livro de Reis e se orienta por ele. Ainda assim, Crônicas também toma seu próprio
rumo em determinados momentos, tomando por base a mensagem teológica de
Reis e construindo a sua própria.
Isso mostra que o cânon do Antigo Testamento não é uma lista arbitrária de
livros agrupados e definidos de modo aleatório. Na verdade, os autores bíblicos
eram constantemente influenciados e limitados pela Palavra de Deus no processo
de elaboração de todo o conjunto do Antigo Testamento. A ideia de que o cânon
é tão somente uma lista de livros na verdade menospreza o modo como certos
livros influenciaram outros; antes, o cânon é uma entidade que demonstra essa
interdependência e lógica intratextuais.
Do ponto de vista interpretativo, isso significa que o leitor deve aprender a
ler o Antigo Testamento à luz do Antigo Testamento. Um modo bastante útil de
começar esse processo de leitura é habituar-se com os primeiros e fundamentais
cinco livros do Antigo Testamento (o Pentateuco) e procurar a terminologia, as
expressões idiomáticas e as figuras de linguagem contidas nesse conjunto quando
as encontrar nas outras porções do Antigo Testamento. Depois você estará apto a
avançar para o restante do Antigo Testamento e investigar outras maneiras em que
o Antigo Testamento depende do Antigo Testamento e é moldado por ele (como a
influência do livro de Reis sobre o de Crônicas).
Além da complexidade do termo cânon, o intérprete também precisa ter co­
nhecimento da variedade e da organização dos livros no cânon cristão do Antigo
Testamento. Os intérpretes do Antigo Testamento devem conhecer as duas versões
principais: o testemunho hebraico antigo, que é representado pela divisão tripartida
de Lei {Tora), Profetas (Neviim) e Escritos (Kethuvim), e a tradução grega dos origi­
nais hebraicos. A versão hebraica é representada em sua forma mais completa no que
se costuma chamar de t m {Texto massorético), enquanto a versão grega é encontrada
no que comumente se chama de l x x (Septuaginta), embora esses termos possam
ser enganosos. Os leitores devem consultar algumas fontes especializadas citadas
adiante. É importante considerar que, no sentido estrito, o termo “Septuaginta” se
aplica apenas à tradução grega original do Pentateuco.4Os demais livros devem ser
identificados como traduções “gregas antigas”. A natureza da técnica de tradução
(se mais literal ou perifrástica) varia de livro para livro e deve ser avaliada assim.

4Para uma análise, veja Karen Jobes e Moisés Silva, Invitation to the Septuagint (Grand Rapids:
Baker, 2000).
Os dois testemunhos textuais têm seus desafios, e para aprofundar a pesquisa sobre
o assunto é necessário consultar os recursos de estudo disponíveis.5
Para nossos propósitos, será suficiente observar diferenças entre as duas versões
principais. Na versão hebraica, a Torá contém os cinco primeiros livros do Antigo
Testamento, a saber, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A divisão
Neviim contém Josué, Juizes, 1—2Samuel, 1—2Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e os
Profetas Menores (também chamados de o Livro dos Doze: Oseias, Joel, Amós, Obadias,
Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).
E, finalmente, Kethuvim contém Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute,
Lamentações de Jeremias, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e 1—2Crônicas.
Os manuscritos gregos remanescentes, porém, são organizados de modos
diferentes e convergem com o hebraico ou deste divergem, dependendo de qual ma­
nuscrito principal se está lendo. Três importantes versões gregas principais do Antigo
Testamento são o Códice Vaticano ( b ) , o Códice Sinaítico (x) e o Códice Alexandrino
í a ) . 6 Em todos esses manuscritos gregos, a ordem inicial é coerente com o hebraico

'Gênesis—Deuteronômio). Também em A , b e x o que vem em seguida deve ser


interpretado como um intervalo de livros históricos (Josué—Crônicas, com alguns
outros livros intercalados em b e x ). Depois desses livros históricos vêm os livros
poéticos (Salmos—Jó) em b , mas a e x continuam com os livros proféticos (Profetas
Menores ou Livro dos Doze —Ezequiel). Por fim, b conclui com os livros proféticos,
enquanto a e x terminam com os livros poéticos (como a ordem hebraica).7
As diferenças e semelhanças entre a ordem hebraica e a grega devem ser leva­
das em consideração, mas não superestimadas. É necessário lembrar que os autores
do Novo Testamento pareciam ter conhecimento tanto da versão grega como da
hebraica do Antigo Testamento. Desse modo, seria uma boa ideia pelo menos ter
ciência dessas duas versões. Apesar das diferenças nas versões, a ordem Lei, Profetas
e Escritos parece ser bem antiga e provavelmente seja a disposição que Jesus e os
apóstolos conheciam (cf. Lc 24.44). Diga-se de passagem, parece que a e x preferem
essa disposição, mas não se deve valorizar demais esse ponto.

5Ernst Wurthwein, The Text ofth e Old Testament: An Introduction to the Biblia Hebraica, 2. ed.
Grand Rapids: Eerdmans, 1994) [edição em português: O Texto do Antigo Testamento (Barueri,
são Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013)]; Emmanuel Tov, Textual Criticism o ft h e Hebrew
Bible, 2. ed. rev. (Minneapolis: Augsburg Fortress, 2001); Karen Jobes e Moisés Silva, Invitation to
:he Septuagint (Grand Rapids: Baker, 2000); N. F. Marcos, The Septuagint in Context: Introduction
:o the Greek Version ofth e Bible (Atlanta: Society o f Biblical Literature, 2009).
6Para outras versões importantes, veja Jobes e Silva, Invitation to the Septuagint.
7Para um bom estudo das ordens, veja Greg Goswell, “The order o f the Books o f the Hebrew
3ible”, JETS 51 (2008), p. 673-88; idem, “The order o fthe Books in the Greek Old Testament”, JETS
32 (2009), p. 449-68.
Interpretação canônica
Depois de tratar da ideia de cânon, agora é possível analisar brevemente a questão
da interpretação canônica. Desde a obra de Brevard Childs, interpretação canôni­
ca significa uma abordagem que investiga e avalia a própria natureza do Antigo
Testamento como Escrituras Sagradas da igreja e um texto vivo e ativo que fala
a cada nova geração.8 Para Childs, isso significa examinar os textos bíblicos de
uma forma mais ampla:

1. Restaurando o melhor texto de determinados livros (pela crítica textual).


2. Avaliando o desenvolvimento do texto até a “forma final” do livro ou do
bloco de textos (avaliar o desenvolvimento gradual de, digamos, Salmos
ou o do Livro dos Doze).
3. Avaliando a natureza da “forma final” do livro ou do bloco de material —
por que está organizado da forma que está (e.g., por que Salmos 1—2 foi
colocado no início do Saltério) e o que essa organização significa do ponto
de vista teológico. Em outras palavras, Childs não está interessado unica­
mente nas “partes” de determinado material (i.e., apenas Salmos 1—2), mas,
sim, em como cada uma das partes funciona no conjunto para produzir a
contextura e mensagem teológicas de todo o livro (o livro de Salmos).
4. Avaliando o modo em que o cânon do Antigo Testamento restringe e abre
horizontes teológicos para interpretação nas tradições textuais grega e
hebraica (como já comentamos aqui brevemente).
5. Relacionando o Antigo e o Novo Testamento como testemunhos distintos,
mas unificados, de Deus em Cristo Jesus.9

Na prática, Childs foi o mais importante defensor desse enfoque, e Christopher


Seitz, entre outros, deu continuidade a seu trabalho.10A abordagem de Childs, em
particular, não deve ser confundida com nenhum “método crítico”, como a crítica

8Veja esp. Brevard S. Childs, “An Interview with Brevard S. Childs”. Disponível em: <http://www.
philosophy-religion.org/bible/childs-interview.htm>.
9Brevard Childs, “The Canon in Recent Biblical Studies: Reflections on an Era”, Pro Ecclesia 14/1
(2005), p. 26-45. Veja também as proveitosas análises de Anthony Thiselton em “Introduction: canon,
community, and theological construction” e de Christopher Seitz em “The Canonical Approach and
Theological Interpretation”, in: Craig Bartholomew et al., orgs., Canon and Biblical Interpretation,
SAHS 7 (Grand Rapids: Zondervan, 2006), p. 1-32, 58-110.
“ Christopher R. Seitz, Prophecy and Hermeneutics: Toward a New Introduction to the Prophets,
STL (Grand Rapids: Baker, 2007); idem, The Goodly Fellowship o fth e Prophets: The Achievement o f
Association in Canon Formation (Grand Rapids: Baker, 2009).
da redação ou a crítica da forma. A interpretação canônica traduz-se no esforço
sincero de ouvir o modo como Deus fala ao seu povo no texto da Escritura e por
meio desse texto, na medida em que ele dá testemunho de Deus em Cristo. Não se
trata de método (ainda que talvez se baseie no trabalho da crítica histórica), mas
de uma prática de leitura teológica.
Childs e Seitz entendem a interpretação canônica de uma forma diferente de
outros. Por exemplo, a abordagem de Sanders da interpretação canônica observa
o modo como o cânon cria e autoriza comunidades de fé, ao que Childs responde
que essa forma de examinar o Antigo Testamento é por demais antropocêntríca,
quando as Escrituras necessitam de uma prática de leitura teocêntrica, que reconheça
o Antigo Testamento como a revelação de Deus.11Ainda assim, Childs confirma a
importância das comunidades que recebem essa revelação.
Além disso, a abordagem de John Sailhamer se baseia na abordagem canônica
de Childs, mas deve ser identificada como “composicional” em vez de canônica
no sentido de Childs. Sailhamer observa a configuração final do texto — isto é, o
modo como grandes blocos de texto (tais como o Pentateuco) foram reunidos ou
compostos — com pouco interesse na história da elaboração do texto e nas co­
munidades de leitores que de fato o teriam recebido.12A abordagem de Sailhamer
não teve tanta influência quanto a de Childs, em parte talvez porque se aproxime
de uma versão da Nova Crítica, que dissocia a historicidade do texto de seu autor
e leitores originais. Essa ausência de rigor histórico distancia a abordagem dele
do entendimento de Childs acerca da interpretação canônica, que é mais robusta
porque analisa corretamente o contexto histórico e a estrutura teológica maior do
Antigo Testamento como Escritura.13
Tanto a história da elaboração como as comunidades de leitores continuam
sendo cruciais para o entendimento que Seitz e Childs têm da interpretação canô­
nica, como se pode perceber nos comentários de Childs sobre Êxodo e Isaías e nos

“ Veja James A. Sanders, Canon and Community: A Guide to Canonical Criticism (Philadelphia:
Fortress, 1984); Childs, “Canon”, p. 31-4.
i2John H. Sailhamer, The Meaning o fth e Pentateuch (Downers Grove: InterVarsity, 2009); idem,
Introduction to Old Testament Theology: A Canonical Approach (Grand Rapids: Zondervan, 1995);
idem, The Pentateuch asN arrative (Grand Rapids: Zondervan, 1992). Entretanto, é demasiado res­
tritivo minimizar a importância das informações do contexto histórico ao interpretar as Escrituras.
Veja mais comentários a seguir.
13Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress, 1979),
p. 75-83; idem, Introduction to Old Testament Theology in a Canonical Context (Philadelphia:
Fortress, 1985), p. 1-19.
comentários de Seitz sobre Isaías.14Assim, apesar de estarem relacionados à versão
de Childs da interpretação canônica, as obras de Sanders e Sailhamer permanecem
distintas e exibem tendências das quais o trabalho de Childs diverge.
Por que a interpretação canônica é importante para ler e compreender a
Bíblia? Em primeiro lugar, ela reconhece que o Antigo Testamento, em particular,
é um conjunto de textos que abrange um período de 700 a 1000 anos de história,
no que diz respeito à formação do texto. Desde o período de Moisés a Esdras, o
Antigo Testamento foi construído de modos particulares e não se pode dizer que
foi reunido de uma só vez no período pós-exílico (i.e., depois de 539 a.C.). A inter­
pretação canônica leva em consideração essa história da formação textual, mas não
para por aí. A formação textual é entendida como testemunho do próprio Deus e
de sua revelação na Escritura e através dela. Não se pode parar de interpretar em,
por exemplo, Salmos 1 ou 2, porque esses salmos foram incorporados a outros
que compõem a série do livro do Saltério com um propósito teológico específico.
A interpretação canônica permite que o intérprete faça perguntas sobre o texto,
relacionando a parte ao todo de modo refinado. Afasta o intérprete de práticas de
leitura ingênuas e permite que se leia com os contornos do próprio texto para ouvir
a mensagem de Deus mais claramente.
Como exemplo da abordagem da interpretação canônica, Christopher Seitz, em
sua pesquisa no Livro dos Doze, observa que cada livro individualmente, de Oseias
a Malaquias, continua sendo importante por si mesmo e deve ser interpretado como
tal. Isso significa que o intérprete presta atenção à história do texto, ao seu propósito
teológico, aos seus temas teológicos específicos e assim por diante; mas, ao fazer isso,
o intérprete percebe que uma série de características vincula esses livros entre si.
Seitz aqui se beneficia de pesquisa anterior, que descobriu que esses elemen­
tos de ligação são vínculos temáticos, “ganchos” e alusões intertextuais. Embora
tenham sido propostos outros,15 o vínculo temático mais proeminente em todo o

I4Idem, Exodus , O TL (Louisville: Westminster John Knox, 2004 [1974]); idem, Isaiah, OTL
(Louisville: W estminster John Knox, 2001); Christopher R. Seitz, Isaiah 1-39, Interpretation
(Louisville: John Knox, 1989); idem, “Isaiah 4 0 -6 6 ”, in: Leander Keck, org., New Interpreters Bible
(Nashville: Abingdon, 2001).
15Observe: a) tema do pecado-punição-restauração (Paul House, The Unity o f the Twelve, JSOT-
Sup 77 [Sheffield: Sheffield Academic Press, 1990]); b) um conjunto diversificado de temas: aliança/
eleição, fidelidade/infidelidade, fertilidade/infertilidade, desviar-se/retornar, justiça e misericórdia de
Deus, reino de Deus, Templo/Sião, nações como inimigos/aliados (Terence Collins, “The Scroll ofthe
Twelve”, in: idem, The Mantle ofElijah, BS 20 [Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993], p. 65). Os
“temas” identificados por Collins, entretanto, tendem à categoria literária de motivo em vez de tema.
Livro dos Doze é o “Dia do S e n h o r ”. Pode-se ver essa expressão de modo destacado
em Oseias 9.5; Joel 3.4; Amós 5.18-20; Obadias 15; Miqueias 2.4; Habacuque 3.16;
Sofonias 1.7-16; Ageu 2.23; Zacarias 14.1; e Malaquias 4.1.16Outra possível ligação
temática é o “retorno” {sub). Esse termo ocorre com destaque ao longo de alguns
livros: Oseias 3.5; 5.4; 6.1,2,11; 7.10; 8.13; 9.3; 11.5; 12.6; 14.1,2; Joel 2.12,13; 3.1,4,7;
Amós 4.6,8-11; 9.11; Obadias 15; Miqueias 2.8; 4.8; 5.3; Naum2.2; Sofonias 2.7,10;
3.20; Zacarias 1.3,16; 4.1; 8.3; 9.12; 10.6,9; e Malaquias 3.7. Alguns desses exemplos
indicam o sentido de sub como “restaurar”, enquanto outros indicam o sentido de
súb como “retornar/voltar”.
Além disso, há uma série de outros elementos em que se pode identificar
uma coerência estrutural entre os Doze, além da temática. Em primeiro lugar,
como há muito tempo já se reconheceu, existe repetição proposital de “cadeias de
palavras-chave” que estabelecem vínculo entre livros: Oseias 14.2//Joel 2.12; Joel
4.16//Amós 1.2; Amós 9.12//Obadias 19; Obadias l//Jonas (mensageiro às nações);
lonas 4.2//Miqueias 7.18,19//Naum 1.2,3; Naum 1.1//Habacuque 1.1; Habacuque
2.20//Sofonias 1.7;17 assim como Sofonias 3.20//Ageu 1.2,4 (na repetição da pa­
lavra “tempo”).18 Essas cadeias de palavras-chave podem indicar que o Livro dos
Doze está organizado de forma que cada parte deva ser lida com conhecimento e
compreensão do todo.
Outro aspecto que indica a leitura em conjunto dos Doze é a repetição de
txodo 34.6,7:

S e n h o r , S e n h o r , D e u s m is e r ic o r d io s o e c o m p a s s iv o , ta r d io e m ir a r -s e e c h e io d e

b o n d a d e e d e f i d e l id a d e ; q u e u s a d e b o n d a d e c o m m i lh a r e s ; q u e p e r d o a a m a l d a d e ,

a tr a n s g re s s ã o e o p e c a d o ; q u e d e m a n e ir a a lg u m a c o n s id e r a in o c e n te q u e m é c u l­

p a d o ; q u e c a s t i g a o p e c a d o d o s p a is n o s f i l h o s e n o s f i l h o s d o s f i l h o s , a té a t e r c e i r a

e q u a r ta g e ra çã o .

Esse texto, como observa Raymond C. van Leeuwen, “contém uma elaboração
áo nome yh w h que expressa os atributos antagônicos de misericórdia e justiça

:6David L. Petersen, “A Book o f the Twelve?” in: James D. Nogalski; Marvin A. Sweeney, orgs.,
\eadingand Hearing the Book o fth e Twelve, SBLSS 15 (Atlanta: SBL, 2000), p. 8-10.
I7Veja Aaron Schart, “Reconstructing the Redaction History o f the Twelve Prophets”, in: Reading
*nd Hearing the B ook o fth e Twelve, p. 34-48, esp. 35-6.
18James Nogalski, Literary Precursors to the B ook o f the Twelve, BZAW 217 (B erlin: de
Gruyter, 1993), p. 215; idem, Redactional Processes in the B ook o fth e Twelve, BZAW 218 (Berlin:
ie Gruyter, 1993).
punitiva”.19 A repetição desse texto ao longo do conjunto dos Doze se evidencia
em citação ou em jogo de palavras extraído dessa passagem: Oseias 1.6 (a miseri­
córdia de Deus não mais em vigor mediante jogo de palavras); Joel 2.13 (recorda
os versículos como chamado ao arrependimento por causa da compaixão de
Deus); Jonas 3.9; 4.2 (cita o versículo como um tipo de lamento pela compaixão
de Deus); Miqueias 7.18-20 (cita os versículos para mostrar a compaixão de Deus);
Naum 1.2,3a. À luz dessas características vinculativas, Seitz afirma que o Livro
dos Doze — considerando cada livro individualmente e como um todo — é muito
importante e deve ser estudado cuidadosamente. Os livros individuais devem ser con­
siderados com atenção e interpretados individualmente. Ainda assim, como um todo,
o Livro dos Doze continua coerente e ensina algumas lições teológicas importantes:

1. A história de Deus é um todo organizado de modo providencial, uma vez


que diferentes livros de diferentes períodos de tempo funcionam juntos para
revelar Deus agindo soberanamente para realizar seus propósitos na história.
2. As nações têm lugar diferente, porém análogo, e não são de forma alguma
ignoradas na economia de Deus.
3. Há muitos exemplos de obediência (Joel, Habacuque e Jonas) que ensinam
sobre a fé em Deus em períodos de dificuldade e a virtude da oração fiel.
4. Os temas teológicos, como o “Dia do Senhor”, são relacionados do ponto
de vista histórico, mas excedem esses limites históricos uma vez que se
relacionam uns com os outros nos Profetas Menores, que agem como uma
lente pela qual se percebe o foco teológico desses temas.
5. Deus é mostrado como justo e paciente na história, mas o chamado de Deus
ao arrependimento e à fé é essencial para compreender sua divindade. Isso
se demonstra nas alusões a Êxodo 34 ao longo do Livro dos Doze.20

Desse modo, da perspectiva canônica, os Doze dão uma mensagem no nível


micro e macroteológico. Os dois níveis devem ser adotados e abordados para o
entendimento pleno da Palavra de Deus. A questão é o equilíbrio — a interpre­
tação adequada observa os dois níveis de um modo que trate e incorpore o pleno
testemunho do Antigo Testamento canônico.

19Raymond C. van Leeuwen, “Scribal W isdom and Theodicy in the Book o f the Twelve”, in: Leo
Perdue; B. B. Scott; W. J. Wiseman, orgs., In Search o f Wisdom: Essays in M emory ofjohn G. Gammie
(Louisville: Westminster John Knox, 1993), p. 32.
Seitz, Prophecy and Hermeneutics, p. 189-219, esp. 214-6.
Há vários modos de fazer isso. Observar os temas teológicos é um deles e ga­
nhará espaço neste capítulo, particularmente os temas essenciais da Lei, do Êxodo,
da aliança e outros temas afins. Outro modo de tratar dos dois níveis é observar
a linguagem característica que aparece em grupos de texto. Já demos exemplos
disso na análise de Deuteronômio e Josué—Reis, de um lado, e na rica interação
de linguagem no Livro dos Doze, de outro. A questão central é que a interpretação
canônica coerente observa as particularidades do texto em níveis menores e maiores
do próprio texto e permite que o texto molde a interpretação, e não o contrário.

LEI
Quando o intérprete chega ao conjunto de livros que vai de Êxodo a Deuteronômio,
precisa lembrar que a palavra traduzida por “lei” (hebr. tôrâ) basicamente significa
“instrução”. A Torá hebraica compõe-se dos livros de Gênesis a Deuteronômio e
também é conhecida como os cinco livros de Moisés. Gênesis, desse modo, fornece
um pano de fundo narrativo não apenas para os quatro livros seguintes, mas sua
mensagem é fundamental para todo o Antigo Testamento.
Três temas principais constituem os focos do Antigo Testamento: a lei de Deus,
o Êxodo e a aliança. Esses três conceitos principais incluem os princípios da justiça
(lei), da redenção (Êxodo) e da relação do fiel com Deus (aliança). Na verdade, são
esses três temas que Deus reúne no monte Sinai (Êx 19.3-6) e depois Moisés incumbe
os israelitas de lembrar e passar adiante para as gerações posteriores (Dt 6.4-12).
Moisés assim os resume:

No futuro, quando teu filho te perguntar: Que significam os testemunhos, estatutos e


preceitos que o S e n h o r , nosso Deus, vos ordenou? Responderás a teu filho: Éramos
escravos do faraó no Egito, mas o S e n h o r nos tirou de lá com mão poderosa; e,
diante dos nossos olhos, o S e n h o r fez sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra
o Egito, contra o faraó e contra toda a sua casa; e nos tirou de lá para nos estabelecer
e nos dar a terra que havia prometido a nossos pais com juramento. O S e n h o r nos
ordenou que obedecêssemos a todos esses estatutos, que temêssemos o S e n h o r ,
nosso Deus, para o nosso bem em todo o tempo, para que ele nos preservasse em
vida, como estamos hoje. Nossa justiça será cumprir com cuidado todos esses
mandamentos diante do S e n h o r , nosso Deus, como ele nos ordenou (Dt 6.20-25).

Obedecendo a esses mandamentos, Israel iria desfrutar “um relaciona­


mento verdadeiro e pessoal com o Deus da aliança [...] que não seria somente
uma realidade espiritual, mas também seria visto na vida de cada indivíduo do
povo de Deus”.21
A aplicabilidade da lei do Antigo Testamento aos cristãos do Novo Testamento
é uma das questões mais controversas na teologia bíblica. Perguntas como “A lei
do Antigo Testamento ainda está em vigor?” e “Que parte dessa lei, se é que existe
alguma, ainda é obrigatória para os cristãos?” continuam incomodando os cristãos
de hoje. Começaremos a tratar dessas questões examinando o ambiente das leis do
Antigo Testamento.

Tipos de lei
As leis do Antigo Testamento abrangem praticamente todo aspecto da conduta
humana. Por exemplo, as várias leis referentes a questões como a necessidade de
classes especiais na sociedade (e.g., Êx 22.22-24; Lv 19.9,10,33,34; Dt 23.15,16);
negócios financeiros (e.g., Dt 23.19-21); agricultura (e.g., Êx 23.9,10; Lv 25.1-24);
e direitos de terra e propriedade (e.g., Dt 19.14; 25.5-10). Também havia leis de
natureza religiosa ou cerimonial, tais como regulamentos relativos ao sábado
(e.g., Êx 31.12-17); às ofertas de sacrifício (Lv 1—7); às festas fixas (Nm 28.11-15;
Dt 16.1-15); e aos locais de adoração (Dt 12.1-14). Além disso, havia leis que dis­
ciplinavam a vida privada das pessoas (e.g., Lv 12— 15; Dt 12.15; 14.2-21). Todas
essas leis tinham o propósito de lembrar os hebreus de que eles eram um povo
especialmente escolhido por Deus e tinham sido chamados para ser o povo de
Deus santo, justo e moralmente responsável (Dt 14.1,2).
Tradicionalmente, alguns classificam essas leis quanto a seu caráter moral, civil
ou cerimonial. Outros as classificam em leis com base em precedentes legais (leis
casuísticas) ou leis que prescrevem normas morais e religiosas absolutas para o bom
funcionamento da sociedade (leis apodícticas). A dificuldade de atribuir leis particu­
lares a categorias específicas fez com que os estudiosos pensassem numa abordagem
alternativa. Cada vez mais, começa-se a considerar as leis do Antigo Testamento em
relação ao contexto narrativo em que elas se encontram. Desse modo, Watts assinala:
“O contexto narrativo da lei do Pentateuco confirma que a Torá deve ser lida como
um todo e em ordem. Diferentemente da lei, a narrativa convida, quase impõe, uma
estratégia de leitura seqüencial, de começar pelo início e ler o texto em ordem até o fim”.22

2lPeter C. Craigie, The Book o f Deuteronomy, N ICOT (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 175.
[Edição em português: Deuteronômio (São Paulo: Cultura Cristã, 2013).]
22James W Watts, Reading Law: The Rhetorical Shaping o f the Pentateuch (Sheffield: Sheffield
Academic, 1999), p. 29.
Portanto, em vez de ler as leis do Antigo Testamento para decidir a que cate­
goria elas pertencem ou quais dessas leis são normas absolutas e universalmente
obrigatórias ou quais são ética e historicamente restritas a Israel, o intérprete atento
deve considerá-las parte da narrativa maior em que elas se encontram (Êx 12.1;
Dt 34.12). Além do mais, Duvall e Hays observam: “A Lei não é apresentada por si
mesma como uma espécie de código universal atemporal. Antes, ela se apresenta
como parte da narrativa teológica que conta que Deus libertou Israel do Egito e o
estabeleceu na Terra Prometida como seu povo”.23Portanto, todas as leis devem ser
tratadas como a expressão da vontade e dos padrões morais elevados de um Deus
soberano e santo. Destinam-se a um povo redimido, escolhido especialmente para
representá-lo e refletir seu caráter no modo de viver (Lv 19.1). Além disso, o contexto
narrativo delas as coloca em justaposição com nossos outros dois temas centrais, o
acontecimento do Êxodo e as cláusulas da aliança (cf. Êx 19.1-6).

Expressões referentes à Lei


A Lei de Israel era conhecida por várias expressões diferentes, tais como: “lei do
Senhor” (Êx 13.9); “livro da lei de Deus” (Js 24.26); “lei de Moisés” (2Rs 23.25);
“livro da lei de Moisés” (2Rs 14.6); “lei que Moisés apresentou” (Dt 4.44); “livro
da lei” (Dt 31.26); e “a lei” (Êx 24.12) ou “esta lei” (Dt 31.9). Seja qual for o ter­
mo exato, os ensinamentos da Lei deviam ser lidos regularmente, obedecidos e
transmitidos aos filhos (Dt 31.10-13; Js 1.6-9).

Transmissão da Lei
As Escrituras do Antigo Testamento assinalam que a Lei era lida e transmitida
àqueles que permaneciam fiéis ao Senhor e ao espírito da Lei (e.g., Js 8.31-35;
2Rs 23.1 -3,24,25; Ed 8.1 -3; Ne 9.6-15). Em conseqüência, a importância da Lei (assim
como do Êxodo e da aliança) é enfatizada nos escritos poéticos (e.g., SI 78; 119).
Observe, por exemplo, os seguintes textos:

A l e i d o S e n h o r é p e r f e i t a e r e s t a u r a a a l m a ; o t e s t e m u n h o d o S e n h o r é f ie l e d á
s a b e d o r i a a o s s i m p l e s (S I 1 9 .7 ) .

Onde não há profecia, o povo se corrompe, mas quem obedece à lei é bem-aventurado
(Pv 29.18).

23J. Scott Duvall e J. Daniel Hays, Grasping God’s Word, 2. ed. (Grand Rapids: Zondervan, 2005),
p. 320.
Os profetas também ressaltaram a importância de lembrar-se da Lei e guar­
dá-la, assim como o perigo de transgredi-la (e.g., Is 42.20-25; Jr 7.21-24; Os 8.12;
Am 2.4). É Jeremias, porém, quem resume tanto a importância da Lei quanto sua
relação com os outros dois temas básicos do Antigo Testamento:

Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o S e n h o r :
Porei a minha lei na sua mente e a escreverei no seu coração. Eu serei o seu Deus, e
eles serão o meu povo. E não ensinarão mais cada um a seu próximo, nem cada um
a seu irmão, dizendo: Conhecei o S e n h o r ; porque todos m e conhecerão, do mais
pobre ao mais rico, diz o S e n h o r (Jr 3 1.33-34).

Nesse texto, Jeremias profetiza que, embora a Torá tenha continuidade no fu­
turo, suas disposições serão escritas no coração, e não mais serão como um código
jurídico externo. Além disso, Jeremias dá a entender que o que era exclusivo para
Israel será universalmente disponível nesse momento; haverá uma intimidade de
comunhão sem precedentes em épocas anteriores.24Visto que isso é uma realidade
interna, e não externa, Jeremias deixa claro que estão sendo considerados aqui os
princípios teológicos inerentes às leis específicas.

Aplicabilidade da Lei
Sem dúvida, a Lei foi concebida originalmente para Israel. Entretanto, a consciência
de que seus princípios teológicos e morais estão incorporados na nova aliança põe
a aplicabilidade da lei na perspectiva certa, pois Cristo, o mediador da nova aliança,
mais tarde ressaltou a importância dos princípios da lei para a vida do crente. Além
disso, é ele que dá aos cristãos a capacidade de obedecer e aplicar a lei de acordo
com os termos da revelação do Novo Testamento. Contudo, ainda que a antiga lei
mosaica tenha sido superada por uma nova aliança (cf. Jr 31.31-34; Ez 37.24-28;
com G1 2.15,16), os princípios teológicos e morais a ela subjacentes são eternos e
continuam em vigor (cf. Mt 5.17). Como observam Klein, Blomberg e Hubbard:

Em primeiro lugar, acreditamos que Deus a concebeu [a Lei] para servir de paradig­
m a de princípios éticos, morais e teológicos [...]. Em segundo lugar, para interpretar
a Lei corretamente o estudante precisa descobrir a verdade eterna que ela comunica.25

24Veja mais em Walter C. Kaiser Jr., Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan,
1978), p. 231-5 [edição em português: Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2009)].
25William W. Klein; Craig L. Blomberg; Robert L. Hubbard Jr., Introduction to Biblical Interpre-
tation, ed. rev. (Nashville: Thomas Nelson, 2004), p. 345-6.
Desse modo, a aplicabilidade da lei para os cristãos é intermediada pela luz da
nova aliança estabelecida por Cristo.
É importante observar que, onde o Novo Testamento trata de leis específicas
do Antigo Testamento, elas devem receber consideração especial. Um exemplo
disso são os Dez Mandamentos. Apesar de terem sido escritos especificamente para
Israel, os princípios teológicos que eles contêm estão implícitos em textos anteriores
à revelação do monte Sinai e se encontram em várias partes no Novo Testamento.
Observe a tabela a seguir com textos pertinentes escolhidos:

.1. OS DEZ MANDAMENTOS E OS PRINCÍPIOS A ELES SUBJACENTES

MANDAMENTOS PRINCÍPIOS

EXOOO DEUTERONÔMIO PRÉ-SINAI NOVO TESTAMENTO

Éx 20.2-6 Dt5.7 Gn 17.1; Êx 3.14 At 14.10-15; IC o 8.4

Éx 20.4-6 Dt 8 --1 0 Gn 35.3,4 2C 0 6.16; 1Jo 5.20,21

Êx 20.7 D t 5.11 ! Gn 24.3 M t b.5-13

Éx 20.8-11 I D t 5.12,13 ' Gn 2.2,3 1C0 16.2 ■


1
\ ' ' ' l
Êx 20.12 . j D t 5 ; i6 - 1 Gn 46.29; 50.1-5 M t 19.18; Ef 6.1-3

Êx 20.13 Dt 5.17 1 Gn 4.6-12,15; 9.5,6 M t I9.19;^m 13.9

•Éx 20.14 : D t 5.18 Gn 39.9 í Mt 19.18; Rm 13.9

Êx 20.15 D t 5.19 - ; : Gn 27.36; 31.7 ! M t 19.18; Rm 13.9; tf 4.28

Êx 20.16 Dt 5.20 ! Gn 39.16-18 M t 19.18; r^ni 13.9;


; Tg 4.11,12
. ... .
. .. .1
Êx 20.17 Dt 5.21 Gn 26.10 Rm 7.7: 13.9,10

Mesmo aqui, assim como em outros lugares, devem-se enxergar os ensinos


inerentes à lei do Antigo Testamento através das lentes da revelação do Novo Testa­
mento. É importante que o estudante das Escrituras compreenda que toda a Bíblia,
inclusive a lei do Antigo Testamento, tem muito que nos ensinar a respeito da vida
cristã. De fato, “o material jurídico do Antigo Testamento contém ricos princípios
e lições para a vida que ainda são pertinentes quando interpretados por meio do
ensino do Novo Testamento”.26

26Duvall e Hays, Grasping Gods Word, p. 324.


1. C o m o em q u a lq u e r texto bíblico o u p assa ge m , verifique o q u e a lei significava
para se u s leitores e o u vin te s originais.

2. Verifique os p rin cíp ios te o ló g ic o s e m orais inerentes à lei específica.

3. Verifique se a lei foi co m e n tad a p o r Jesus ou pelos autores d o N o v o


Testam ento. Se sim, c o m o a lei foi m odificada (e.g., o sá b a d o versus o
culto d e d o m in g o )?

4. C o n sid e ra n d o a in te n ção m oral o u te o ló gica fu n d a m e n ta l da lei e süa


aplicação n o N o v o T estam ento (se houver), verifique em q u e essa lei se aplica
à cultura da é poca (e.g., as q u e stõ e s da escravidão, as práticas comerciais, a
vestim enta d a mulher, etc.),

5. Faça u m a aplicação p essoa l adeq uada, co n fia n d o na direção d o


Espírito Santo.27

O ÊXODO
Quando nos referimos ao Êxodo como parte de um acontecimento, estamos en­
fatizando que a libertação de Israel do jugo do Egito foi apenas a primeira parte
de todo um movimento que conduziu o povo de Deus do Egito à Terra Prometida
(Êx 3.16,17). Vamos rastrear não apenas a história desse evento, mas também a
transmissão do relato do Êxodo nos livros do Antigo Testamento, observando em
particular sua inclusão nos detalhes da nova aliança.

O cenário do Êxodo
O Êxodo de Israel do Egito constitui o ponto culminante da luta entre Moisés e
o faraó egípcio (Êx 3.1— 12.36). O registro da libertação de Israel do Egito é feito
numa narrativa bem estruturada que relata os vários estágios da jornada de Israel:
do Egito a Sucote (Êx Í2.37— 13.19); daí à travessia do mar Vermelho (ou mar
dos Juncos) (Êx 13.20— 15.21); prosseguindo para o oásis em Elim (Êx 15.22-27);

27Veja a boa análise em R oyB. Zuck, Basic Bible Interpretation (Wheaton: Victor, 1991), p. 279-92
[edição em português: A Interpretação Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 1994)].
para o deserto de Sim (Êx 16.1-36); paraRefidim (Êx 17.1— 18.27); e continuando
até o monte Sinai (Êx 19.1,2).
O registro dos fatos ocorridos no acampamento diante do monte Sinai
(Êx 19.3—Nm 10.10) constitui um episódio fundamental da'narrativa do Êxodo,
pois foi ali que as cláusulas da lei foram entregues a Israel (cf. Êx 20.1-17). Porém,
como já foi comentado, o Êxodo não se completaria enquanto Deus não conduzisse
seu povo pelo deserto e o fizesse entrar na Terra Prometida (Nm 10.11—Js 21.43).
Toda a narrativa, portanto, termina somente quando Israel entra na terra de Canaã
e toma posse dela.
É importante notar que a efetiva libertação de Israel do Egito e os detalhes
relativos a seu assentamento na Terra Prometida fazem parte de uma grande nar­
rativa que relata atos da graça de Deus em favor de seu povo. Observe os seguintes
textos básicos:

Eu desci para livrá-lo dos egípcios e levá-lo daquela terra para uma terra boa e
espaçosa, uma terra que dá leite e m e l... (Ê x 3.8).

Também quando o S e n h o r te houver feito entrar na terra dos cananeus, e a tiver


dado a ti, conforme jurou a ti e a teus pais (Ê x 13.11).

Nenhuma palavra falhou de todas as boas coisas que o S e n h o r prometera à casa


de Israel! Tudo se cumpriu! (Js 21.45).

Em vez de considerar a Lei e o Êxodo como relatos isolados que foram reunidos
em alguma data posterior, entender os dois como parte de uma narrativa completa
permite ao intérprete perceber a importância de cada um, bem como compreen­
der que o valor da narrativa inteira é maior do que a soma das partes individuais.
Os estudantes perspicazes certamente já notaram que as particularidades relativas
ao ato da aliança de Deus também pertencem à história da outorga da Lei, que,
por sua vez, faz parte do registro do Êxodo (cf. Êx 19.1-6). Vamos investigar esse
aspecto da narrativa ainda neste capítulo.

Transmissão do relato do Êxodo


Vários aspectos da narrativa do Êxodo chegaram até nós em lembranças indivi­
duais registradas no Antigo Testamento como parte do cânon completo. Desse
modo, podem-se recolher detalhes de passagens tais como: Êxodo 15.1-18,21;
Deuteronômio 33.2; Juizes 5.4,5; Salmos 18.7-15 (cf. 2Sm 22.8-16); 68.5-7; 77.16-20;
114.5,6; e Habacuque 3.3-15. A antiguidade desses textos é comprovada pelo fato
de que todos eles são relatados em poesia hebraica antiga. Nesses textos se chama
atenção especial para a provisão divina da vitória de Israel sobre os egípcios no
mar Vermelho (ou dos Juncos) e a bem-sucedida travessia do rio Jordão (e.g.,
Êx 15.1-18,21; SI 77.16-20; Hc 3.3-15).
Deus instruiu o povo de que os detalhes específicos da história do Êxodo do
Egito tinham de ser lembrados, comemorados e transmitidos às gerações posterio­
res (cf. Êx 13.1-13). Observe o lugar da Páscoa como parte da história do Êxodo;

E, no futuro, quando teu filho te perguntar: Que significa isso? Responderás: O


S e n h o r nos tirou do Egito, da casa da escravidão, com m ão forte. E aconteceu que,
insistindo o faraó em não nos deixar sair, o S e n h o r matou todos os primogênitos
na terra do Egito, tanto dos homens com o dos animais; por isso sacrifico ao S e n h o r
todos os primeiros animais machos a saírem do ventre, e resgato todo primogênito
de meus filhos. E isso te servirá de sinal na tua m ão e de símbolo entre os teus olhos,
porque o S e n h o r nos tirou do Egito com m ão forte ( Ê x 13.14-16).

Muitos autores posteriores também comentaram a libertação que Deus pro­


videnciou para seu povo no Êxodo, algumas vezes como mero fato histórico (e.g.,
Nm 1.1; Js 24.5-13) e outras vezes como testemunho da ingratidão e infidelidade
do povo (e.g., Nm 21.5; Os 11.2,3; Mq 6.1-5), pelo que o juízo de Deus certamente
viria (e.g., Am 2.6-16). Em algumas ocasiões, o Senhor chamou atenção para o
Êxodo ao transmitir cláusulas específicas da Lei a seu povo (e.g., Lv 23.43; 24.54,55).
A recordação do Êxodo também serviu de fonte de instrução espiritual em várias
questões (e.g., Dt 6.20-25) assim como de intimação para viver corretamente perante
o Senhor (e.g., Dt 6.2-12; ISm 12.6-8).
Os crentes judeus fiéis a Deus sempre se lembravam da provisão divina no
Êxodo em seus louvores (e.g., SI 66.3-6; 114; 135.8,9) e orações a Deus (2Sm 7.23;
Is 63.7-15). Observem-se, por exemplo, as palavras de louvor de Habacuque quando
introduz seus poemas referentes ao Êxodo:

S e n h o r , eu ouvi a tua fama e temi! Ó S e n h o r , aviva a tua obra no decorrer dos


anos; faz que ela seja conhecida no decorrer dos anos; na tua ira, lembra-te da
misericórdia (H c 3.2).

Infelizmente, o Êxodo também era lembrado em advertências ao povo acerca do


juízo iminente por sua incapacidade de se lembrarem das libertações divinas passadas
e dabondade de Deus para com eles (e.g., Jr 2.5-9; 7.21-29; 11.14-17). Entretanto, Deus
garantiu a seu povo que, depois do julgamento anunciado — que viria na forma de
expulsão da Terra Prometida por meio do cativeiro — se houvesse arrependimento
humilde e rendição a Deus, haveria a restauração ao favor de Deus e o retorno à terra
f e.g., Is. 61.1-4; Jr 16.14,15; Ez 20.32-38). Desse modo, o tema do Êxodo passa a ser
uma mensagem de consolo e esperança para o povo de Deus (e.g., Is 40.1).
Uma das passagens mais interessantes em que se menciona o Êxodo é
Jeremias 32. Embora fosse a véspera da queda de Jerusalém diante do rei neobabilônio
Nabucodonosor, Deus instruiu Jeremias a comprar o campo que pertencia a seu pri­
mo Hanameel (Jr 32.8). Depois de ter feito isso (v. 8-15,25), Jeremias orou ao Senhor
ív. 16-19), especialmente recordando a poderosa obra de Deus no Êxodo (v. 20-22)
e a subsequente infidelidade do povo que estava prestes a causar seu cativeiro
i v. 23,24). Deus confirmou a Jeremias sua intenção de castigar o povo (v. 26-35), mas
também indicou uma esperança melhor — a restauração de um povo arrependido e
temente a Deus à Terra Prometida (v. 36-39). Juntamente com essa esperança, Deus
garantiu a Jeremias que no futuro faria uma nova aliança com seu povo.

Farei com eles uma aliança eterna: não deixarei de fazer-lhes o bem e porei o meu
temor no seu coração, para que nunca se afastem de mim. Eu me alegrarei, fazendo-lhes
o bem. E os plantarei com firmeza nesta terra, com toda a minha fidelidade e
dedicação (Jr 32.40,41).

O clímax do Êxodo na nova aliança


Como acabamos de ver, assim como a Lei, o Êxodo encontra seu ponto culminante
na nova aliança (Jr 31.31-37). Embora tenha havido êxodos nos tempos históri­
cos veterotestamentários (Ed 1.1—2.70; 8.31-36), a ideia do Êxodo ligado à nova
aliança implica um futuro êxodo, em maior escala, do povo de Deus partindo do
mundo inteiro. O cenário temporal é escatológico. Com efeito, será um êxodo
ainda maior do que o original.

Portanto, diz o S e n h o r , virão dias em que não mais se dirá: Juro pelo S e n h o r , que
tirou os israelitas da terra do Egito; mas: Juro pelo S e n h o r , que tirou e trouxe os
descendentes da casa de Israel da terra do norte, e de todas as terras para onde
os havia expulsado para habitarem em sua terra (Jr 23.7,8).

Isso implicará a libertação do povo de Deus desde todas as nações.


Não temas, porque eu sou contigo. Trarei a tua descendência desde o oriente e te
ajuntarei desde o ocidente. Direi ao norte: Dá; e ao sul: Não retenhas. Trazei meus
filhos de longe, e minhas filhas, das extremidades da terra; todo que é chamado pelo
meu nome, que criei para minha glória e que formei e fiz (Is 43.5-7).

O próprio Deus irá adiante deles e proverá para eles (Is 43.16-21; 52.12). Seu
povo resgatado retornará cantando (Is 35.10) para desfrutar contentamento eter­
no em plena comunhão com o Senhor, na antiga terra da promessa (Is 65.17-25).
O povo restaurado, fiel e abençoado será como uma avenida que levará todos os
povos em direção à salvação:

Também te porei para luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade
da terra (Is 49.6).

Desse modo, o tema do Êxodo encontra seu pleno significado na união com
a nova aliança.

Aplicabilidade do Êxodo
O primeiro Êxodo dá testemunho do poder redentor de Deus. No Êxodo, Deus,
o Redentor de Israel, traz seu povo para si. O que foi vivido por toda a nação
também foi experimentado por grande número de crentes fiéis a Deus, como
Moisés, Arão, Josué e Calebe. De fato, o Êxodo dá testemunho tanto da soberania
quanto da redenção de Deus. No aspecto teológico, o Êxodo simboliza a verdade da
graça redentora de Deus.28Essa verdade tem implicações teológicas, não somente
para o tema do Êxodo, mas também para o nosso ponto de vista sobre a lei, visto
que, como foi assinalado anteriormente, a lei se destina especificamente ao povo
redimido de Deus. Além disso, uma vez que o Êxodo tem seu ponto culminante
na nova aliança, a disponibilidade da redenção de Deus agora adquire proporções
universais. Por estar profundamente ligado com a nova aliança, o Êxodo prepara
os leitores da Escritura para a mensagem de redenção do Novo Testamento, pela
qual todas as pessoas podem experimentar o êxodo do domínio do pecado e das
trevas e entrar no domínio da luz e da graça salvadora de Deus.

... dando graças ao Pai, que vos capacitou a participar da herança dos santos na luz.
Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho
amado, em quem temos a redenção, isto é, o perdão dos pecados (Cl 1.12-14).

28Veja a boa e didática análise de Geerhardus Vos Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans,
1954), p. 127-9 [edição em português: Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos (São Paulo:
Cultura Cristã, 2010)].
Como F. F. Bruce observa: “[O] Êxodo dá ao restante do registro bíblico uma
forma de linguagem e figuras para comunicar a mensagem da salvação”.29
A mensagem de esperança do Êxodo, portanto, encontra sua realização defi­
nitiva na entrada em vigor da nova aliança mediada por Jesus Cristo (Mt 26.27-29;
2Co 3.6; Hb 8). Como veremos no capítulo seguinte, o tema do Êxodo se refletirá
em muitas mensagens do Novo Testamento e somente atingirá seu objetivo final
na era escatológica, como refletido no simbolismo e na linguagem figurada do
Apocalipse (e.g., Ap 14.1-5).

1. Exam in e a história d a libertação d e Israel d o Egito à luz cia narrativa total d o


e ve n to d o Êxodo.

2. O b se rv e a tra n sm issã o d o Ê xo d o e seu a u g e na nova aliança. ...............

3. O b se rv e a im p ortância d o Ê x o d o n o s e n sin o s inerentes à Lei e à estrutura da


aliança d o A n t ig o Testam ento.

4. O b se rv e o p rincípio te o ló g ic o subjacente à red enção d o Ê xo d o e su a ................


im p ortância para a n ova aliança.

5. O b se rv e a im p ortâ ncia d o a co n te cim e n to d o Ê x o d o e m su a ligação ...............


p ro fu n d a co m a nova aliança c o m o u m a p reparação para a revelação d o ............
N o v o Testam ento.

6. A p liq u e os princípios inerentes a o Ê x o d o à m e n sa g e m cristã e à


re spo n sab ilidad e m issionária de to d o s o s cristãos.

ALIANÇA
O conceito de aliança é bem antigo no antigo Oriente Próximo; remonta a quase
cinco milênios.30É inextricavelmente ligado à necessidade de elaboração de contratos

29F. F. Bruce, This is That: The New Testament Development ofSom e Old Testament Themes (Exeter:
Paternoster, 1968), p. 32.
30O estudo clássico da aliança na teologia do Antigo Testamento pode ser visto em Walter
Eichrodt, Theology ofthe Old Testament, trad. J. A. Baker (Philadelphia: Westminster, 1961) [edição
em português: Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Hagnos, 2005)].
e ao direito. Da Suméria, na Mesopotâmia, a Ebla, no oeste do Crescente Fértil, e
do terceiro milênio ao primeiro milênio a.C., foram encontrados milhares desses
documentos em vários formatos.31 Por esses dados, podemos observar a variedade
de detalhes que fazem parte desses escritos nas culturas individuais e ao longo de
um período de tempo consideravelmente longo. Pesquisas cuidadosas revelam
que hoje é possível situar com segurança as alianças bíblicas em relação ao seu
contexto cultural mais próximo e sua época específica. Por conseguinte, pode-se
concluir que “as formas de tratado combinam com as épocas em que a Bíblia situa
as narrativas. Em resumo, essa tipologia de tratados fornece material factual que
fundamenta com ampla base a cronologia bíblica”.32

Tipos de aliança
As informações adquiridas na pesquisa histórica nos permitem separar dois
tipos básicos de tratados com ramificações importantes para sua interpretação
nas convenções de aliança do Antigo Testamento.33 Antes de nos voltarmos para
o estudo desses dois tipos, é bom lembrar que o conceito de aliança já existe (mas
não plenamente desenvolvido como tal) no relacionamento inicial do povo com
Deus. Depois de colocar o primeiro homem no jardim do Éden, o Deus soberano
informou a Adão as condições associadas à vida no jardim e à maldição/penalidade
por transgredir as condições da vida na aliança.

Então o S e n h o r Deus ordenou ao homem: Podes com er livremente de qualquer


árvore do jardim, mas não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal;
porque no dia em que dela comeres, com certeza m orrerás (Gn 2.16,17).

Embora Deus fosse um soberano benigno na sua relação com Adão, é claro
que o homem devia aprender sobre assuntos de fé, fidelidade e obediência com um

31Para excelentes análises a respeito de realização de alianças e tratados, veja Kenneth A. Kitchen,
Ancient Orient and the Old Testament (Chicago: InterVarsity, 1966), p. 90-102; The Bible in Its World
(Downers Grove: InterVarsity, 1977), p. 79-85; “The Patriarchal Age: Myth or Mystery?”, BAR 21/2
(1995), p. 52-6; On the Reliability ofth e Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2003), p. 283-307;
Meredith Kline, Treaty o fth e Great King (Grand Rapids: Eerdmans, 1963); idem, The Structure o f
Biblical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972).
32Kitchen, “Patriarchal Age”, p. 56. .
33Também se deve observar que, embora não haja evidências de nenhum tratado/aliança ple­
namente desenvolvido entre pares no Antigo Testamento (em que participantes iguais concordam
com certas condições), o conceito pode ser observado em vários acordos de alianças registrados
em textos bíblicos (e.g., Gn 21.27; 31.43-54; ISm 20.3-17).
teste simples de seu caráter e de sua vontade. Com a incapacidade do primeiro casal
humano de cumprir o acordo, foram impostas maldições específicas associadas à
penalidade prescrita (Gn 3.14-19).
O primeiro dos dois tipos predominantes de aliança é conhecido como tratado
de suserania. Nesse tratado, a parte que decreta impõe condições da aliança sobre
o estado vassalo. Alguns elementos são constantes nessa forma:

1. um título/preâmbulo nomeando as partes envolvidas;


2. um prólogo histórico traçando relações passadas entre as partes contratantes;
3. as condições básicas que o Estado vassalo deve cumprir;
4. uma declaração a respeito do depósito da aliança em um lugar apropriado,
assim como a leitura periódica da aliança;
5. uma lista das testemunhas que presenciam a celebração do pacto/aliança;
6. as sanções que a parte superior imporá, entre elas a revogação da aliança,
caso o vassalo deixe de cumprir suas condições.

Esse tipo de tratado/aliança também continha uma lista de bênçãos e maldições


que acompanhavam a ratificação e o cumprimento da aliança pelo Estado vassalo.
O tratado de suserania é encontrado no Antigo Testamento associado com a
aliança sinaítica (ou mosaica) e sua renovação em Deuteronômio e em Josué 24.
A passagem de Êxodo 20 começa com um preâmbulo claro e um prólogo histórico:

Eu sou o S e n h o r teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão


( Ê x 2 0 .2 ) .

As cláusulas essenciais seguem-se nos Dez Mandamentos (Êx20.3-17). Outras


cláusulas específicas podem ser vistas nas várias leis mencionadas anteriormente
neste capítulo. A cláusula da leitura periódica pode ser vista quando Moisés lê o
livro da aliança para o povo (Êx 24.7). Do mesmo modo, as bênçãos e maldições
ligadas à aliança encontram-se em Levítico 26.3-43.
Muitos estudiosos mostraram que o exemplo mais plenamente desenvolvido
de um tratado de suserania pode ser observado no livro de Deuteronômio. Aqui a
maioria dos elementos da aliança está claramente presente:

1. preâmbulo (1.1-5);
2. prólogo histórico (1.6—3.29);
3. cláusulas básicas (4.1— 11.32) e específicas (12.1—26.19);
4. sanções (conseqüências) da aliança na forma de bênçãos e maldições
(cap. 28);
5. instruções a respeito da leitura e do depósito da aliança (31.9-13,24-26;
cf. 32.44-47);
6. declarações referentes às testemunhas da aliança (31.19-22; 32.1-43).

O pacto do Sinai foi evidentemente renovado em ocasiões posteriores, como


no monte Ebal, onde mais uma vez se leram as palavras da aliança em voz alta,
(Js 8.30-35) e em Siquém (Js 24.1-27). No último caso, a maioria dos elementos
da aliança está presente: 1) preâmbulo (v. 1,2a); 2) prólogo histórico (v. 2b -13); 3)
cláusulas (v. 14,15); promulgação e depósito da aliança (v. 21,25,26); 4) bênçãos
e maldições (v. 19,20); testemunhas (v. 22,27). A passagem também contém um
exemplo de juramento de aliança (v. 14-18). Ainda mais tarde, Josias dirigiu o povo
num período de renovação da aliança em que à leitura pública da aliança seguiram-se
a promulgação da aliança e os juramentos (2Rs 23.1-3).
É fundamental para o intérprete das alianças do tipo tratado de suserania
compreender que todas as alianças desse tipo retratam Deus como o soberano regu-
lamentador da aliança. A aliança também era condicional, sua continuidade assim
como as bênçãos e maldições incluídas dependiam da reação e da obediência do
povo às condições da aliança. É importante também perceber que o Deus soberano
que selou a aliança não era um déspota dominador, mas um Senhor generoso que
estava provendo um meio de abençoar seu povo. O cumprimento das condições
da aliança não era somente para a glória de Deus e para testemunho de sua graça
redentora, mas também visava ao bem do povo (Êx 19.4-6; cf. Dt 5.23-33).
O pleno entendimento da natureza e das provisões do tratado/aliança de
suserania permitirá compreender a diferença entre esse tipo de aliança e o outro
tipo maior que Deus fez com seu povo: o tratado de concessão régia. Pesquisa
recente, relacionada a formas de alianças e tratados no antigo Oriente Próximo,
distinguiu dois tipos de concessões régias.34No primeiro tipo, quase sempre um rei
benevolente concedia de graça certos privilégios ou benefícios ao vassalo ou servo,

34Exemplos notáveis podem ser encontrados nos excelentes estudos de G ordonjohnston: “The
‘Unconditional’ & ‘Conditional’ Passages in the A braham ic Covenant in the L ig ht o f A ncient
N ear Eastern Royal Land Grants & Grant Treaties” (artigo apresentado ao Pentateuch Study
Group Section, National M eeting o f the Society o f Biblical Literature, B oston, 2008); idem,
“‘U nconditional’ and ‘Conditional’ Features o f the Davidic Covenant in the L ig ht o f Ancient
N ear Eastern Grants and Grant Treaties” (artigo apresentado ao H istorical Literature Study
Group, Annual M eeting o f the Evangelical T heological Society, Providence, 2008).
pelo serviço fiel e leal. No segundo tipo, que se pode chamar de reconfirmação de
aliança/pacto/concessão feita pelo rei ou seu sucessor, a manutenção do cumpri­
mento das cláusulas era obrigatória para a concessão permanecer em vigor a fim
de ser benéfica ao beneficiário e/ou seus herdeiros. Como veremos, alguns efeitos
da diferença entre esses dois tipos de concessão régia podem ser observados nas
alianças do Antigo Testamento. Uma aliança de concessão régia tradicionalmente
continha os seguintes elementos:

1. um preâmbulo mencionando as partes envolvidas;


2. uma declaração das provisões ou promessas da aliança;
3. determinadas cláusulas para o pleno usufruto dos benefícios da aliança;
4. um registro do decreto da aliança e/ou juramentos realizados ao pôr a
aliança em vigor; a celebração da aliança também podia ser acompanhada
de um sinal.

Nas páginas do Antigo Testamento se encontram alguns exemplos de concessão


régia. A primeira ocorre no trato de Deus com Noé (Gn 9.1-17). Na aliança com
Noé, observamos os seguintes elementos típicos:

1. um preâmbulo que fala a respeito da concessão de Deus a Noé e seus filhos


(Gn 9.1a);
2. as provisões e promessas de Deus para eles (v. lb-3,7);
3. as cláusulas estabelecidas (v. 4-6);
4. promulgação da aliança (v. 8-1 la) juntamente com um juramento divino
(v. 11b);
5. o sinal do arco-íris, que acompanhou a aliança (v. 12-17).

Embora a concessão tenha sido feita a Noé e seus filhos, as provisões amplas
e perpétuas da aliança indicam que Noé e seus filhos eram meros representantes
de uma humanidade que deveria reconhecer, valorizar e desfrutar as bênçãos de
um Deus gracioso (v. 17b). As cláusulas deixavam claro que mesmo que os benefi­
ciários deixassem de se apropriar da bondade de Deus e desfrutá-la, o Senhor não
revogaria os termos da aliança (cf. v. 11-17).
É fundamental que o intérprete compreenda a diferença essencial entre os
tipos de aliança de suserania (condicional) e de concessão régia (incondicional),
pois somente assim passará a compreender as provisões e promessas por demais
excelentes que Deus concedeu aos seus.
Outra distinção formal entre esses dois tipos de aliança se encontra na formu­
lação usada em cada um deles. No tipo tratado de suserania, a formulação habitual
é “cortar uma aliança” (e.g., Dt 5.3 no original), enquanto que no tipo concessão
régia encontram-se normalmente verbos como “firmar/estabelecer/confirmar/fazer”
uma aliança (e.g., Gn 9.12,17; 17.2).
Embora alguns tenham proposto que a aliança abraâmica era de natureza
condicional, as evidências indicam fortemente que ela era incondicional, do tipo
concessão régia. As promessas graciosas de Deus a Abraão foram usufruídas antes
mesmo de qualquer acordo formal de aliança (Gn 12.2,3). Além disso, a alian­
ça formal foi prevista na promessa que Deus fizera a Abraão, de dar a terra de
Canaã a ele e seus descendentes como posse eterna (Gn 12.6,7; 13.14-17), uma
promessa que foi confirmada depois com um sinal de aliança (Gn 15.17-19).
É em Gênesis 17, entretanto, que encontramos os plenos privilégios de aliança
formal que o Senhor conferiu a Abraão. Nesse texto podemos ver elementos típicos
do tipo concessão régia: 1) participantes da aliança (v. Ia); 2) promulgação da aliança
(v. 2,7); 3) promessas/provisões da aliança (v. 5-8); 4) cláusulas (v. lb,9a); e 5) um sinal
triplo que implicou a mudança do nome de Abrão e de Sarai para Abraão e Sara, o rito
da circuncisão (v. 9b-14) e a promessa de um filho na velhice deles. Deus também se
comprometeu com Abraão mediante dois fatos imutáveis: a teofania (Gn 15.17) e sua
palavra solene — o “eu farei” do capítulo 17. As promessas a Abraão foram renovadas
por causa de sua obediência ao mandamento de Deus (Gn 22.15-18).
Pode-se encontrar outro exemplo de concessão régia em 2Samuel 7.8-16
(cf. lC r 17.7-14). Mais uma vez encontramos evidências claras dos elementos da
realização da aliança de concessão régia: 1) participantes da aliança (v. 8,11); 2)
preâmbulo (v. 8,9); 3) provisões/promessas (v. 8-10,12-14a,15,16); 4) promulgação
da aliança (v. 11); e 5) cláusulas (v. 14b). Mais uma vez, as provisões são garantidas
pela promessa imutável do próprio Deus. Como observaremos a seguir, as promessas
a Davi são reiteradas e ampliadas por vários profetas de Deus.
Sem dúvida, a maior de todas as alianças de concessão régia é a nova aliança
(Jr 31.31-37). Aqui vemos os elementos típicos inerentes a essas alianças: 1) as
partes envolvidas (v. 31); 2) as provisões da aliança (v. 32-34); 3) promulgação da
aliança (v. 33); e 4) um sinal da aliança (v. 35-37). As condições ou provisões da nova
aliança são repetidas em Jeremias 32.36-44, em que Jeremias fora anteriormente
instruído a representar um sinal da credibilidade das boas intenções de Deus para
com seu povo mediante a compra do campo de seu primo às vésperas do cativeiro
de Jerusalém (Jr 32.6-15).
Como observamos antes, o ponto culminante da Lei e do Êxodo também
ocorre na nova aliança, um acordo que junta o tipo de aliança de suserania com o
de concessão régia.

Série de alianças principais culminando na Nova Aliança


Tanto a aliança de suserania como a de concessão régia tinham propósitos especí­
ficos para Israel, porém é a última que dirige particularmente nossa atenção para
o destaque principal do cânon completo do Antigo Testamento, pois as alianças
de concessão régia contêm as promessas incondicionais e graciosas do Senhor
para os crentes de todas as épocas. Deus prometeu nunca mais enviar um dilúvio
universal sobre a terra, conforme se deu na aliança com Noé. Pela importância
que essa aliança e suas provisões têm, a aliança de concessão régia é um fio de
ouro que une e costura todo o tecido bíblico. Isso se encontra nas revelações
progressivas da aliança abraâmica, davídica e da nova aliança, pois com elas Deus
revelou graciosamente promessas cada vez maiores.
Quando Deus instruiu Abrão a sair de sua terra e partir para a terra que ele
lhe mostraria, o Senhor lhe prometeu grandes bênçãos, com as quais todos os
povos acabariam por ser abençoados (Gn 12.1-3). Em encontros posteriores, o
Senhor concedeu a Abrão e seus descendentes a terra de Canaã como propriedade
perpétua (Gn 12.6,7; 13.14-17). Abrão continuou demonstrando sua fé e fidelida­
de a Deus pelo constante crescimento espiritual em suas práticas de adoração em
cada estágio de seu relacionamento cada vez mais forte com o Senhor (Gn 12.8,9;
13.18; 22.13,14). Portanto, quando o Senhor prometeu ao idoso Abrão um filho e
herdeiro que se transformaria num grande número de descendentes (Gn 15.1-5), é
típico do ser humano ler: “E Abrão creu no Se n h o r ; e o S e n h o r atribuiu-lhe isso
como justiça” (Gn 15.6). Como Allen P. Ross bem observa: “Abrão tomou a Palavra
do Senhor por confiável e verdadeira e agiu de acordo com ela; em conseqüência
o Senhor declarou Abrão justo e, portanto, aceitável”.35 Essa promessa a Abraão
foi reforçada posteriormente por uma teofania, que serviu de sinal de garantia do
cumprimento da Palavra de Deus (Gn 15.17-21).

35Allen P. Ross, Creation and Blessing (Grand Rapids: Baker, 1988), p. 3 1 0 .0 exemplo de Abraão
de viver sua comunhão ativa com o Deus vivo subjaz à máxima profética em Habacuque 2.4, que é
comentada por Paulo (Rm 1.17; G13.11) epelo autor de Hebreus (10.35-39). A força do texto grego
nas cartas de Paulo sublinha o fato de que os que são justificados pela fé são os que encontram e
experimentam a vida verdadeira. Veja ainda, Richard D. Patterson, Nahum, Habakkuk, Zephaniah
i Chicago: Moody, 1991), p. 219-23; ed. reimpr. Biblical Studies Press, 2003, p. 200-3.
Nos detalhes da aliança de Gênesis 17, entretanto, podem-se ver elementos
de condicionalidade, pois é estipulado que Abraão deve continuar sendo fiel a
Yahweh, assim como também seus herdeiros têm de permanecer fiéis (v. 2,9).
Além do mais, o rito de circuncisão era obrigatório para todos os membros do
sexo masculino (v. 10,11). Por isso, alguns propuseram que Gênesis 17 é um
exemplo do segundo tipo de acordo de concessão régia. Não se deve esquecer,
porém, que as promessas nos detalhes originais da aliança abraâmica não foram
feitas por um governante terreno, mas por Deus, cuja palavra e fidelidade são
infalíveis (SI 100.5; 119.89,90).36 De fato, o Senhor garante a Abraão que a alian­
ça que está firmando com ele é uma “aliança contigo e tua descendência, como
aliança perpétua em suas futuras gerações, para ser o teu Deus e o Deus da tua
descendência” (Gn 17.7). Não só a terra de Canaã pertenceria à família de Abraão,
mas a bênção de Deus sobre Abraão também seria benéfica a muitos povos (cf.
Gn 12.2; 22.17,18). Como bem observa Kaiser: “O [...] ponto culminante da
promessa era que Abraão e cada descendente na sucessão da promessa seriam a
fonte de bênção: na verdade, eles seriam a pedra de toque das bênçãos a todos
os outros povos”.37Ainda que alguns descendentes fossem excluídos das bênçãos
da aliança (Gn 17.14), ela permaneceria inviolável.38
O fato de que a aliança abraâmica continuou por meio dos herdeiros de
Abraão é evidente de imediato, pois Deus prometeu que a aliança seria transmitida
diretamente a Isaque (Gn 17.19). Isso, por sua vez, vem a ser um tema fundamental
encontrado em muitas partes no Antigo Testamento. De fato, o Deus de Abraão se
torna o Deus de Isaque (Gn 26.1-6) e o Deus de Isaque e Abraão torna-se o Deus
de Jacó (Gn 28.10-15; 31.42; 32.9). Depois disso, as promessas inerentes à aliança
abraâmica seriam simbolizadas pela frase: “O Deus de Abraão, o Deus de Isaque e
o Deus de Jacó” (Gn 50.24; Êx 3.6,15,18; 4.5; 6.8; 32.15; Lv 26.42; Dt 6.10; 9.5; 30.20;
34.4; lRs 18.36; 2Rs 13.23; SI 105.8-11; Jr 33.26).
É imperativo, portanto, que o intérprete enxergue tanto a perpetuidade quanto
a inviolabilidade da aliança abraâmica, pois sua lembrança continuou até os dias
do Novo Testamento, onde aplicações de seus outros benefícios foram feitas por

36Veja as análises completas em David Noel Freedman, “Divine Com m itm ent and Human
Obligation”, Int 18 (1964), p. 419-31; Bruce K. Waltke, “The Phenomenon o f Conditionality within
Unconditional Covenants”, in: Avraham Gileadi, org., Israels Apostasy and Restoration (Grand
Rapids: Baker, 1988), p. 123-39.
37Walter C. Kaiser Jr., Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978), p. 91.
38Como observaremos a seguir, a mesma condição é encontrada na aliança davídica.
Jesus (Mt 22.32); pela virgem Maria (Lc 1.55); por Zacarias, pai de João Batista
(Lc 1.72-75); por Estêvão (At 7.30-32); e por Paulo (G13.29).
Conquanto a aliança abraâmica devesse permanecer em vigor para sempre, ela
foi representada num herdeiro determinado — o rei Davi (2Sm 7.11 -16; 1Cr 17.10-14).
Por meio do profeta Natã, Deus transmitiu palavras de garantia que fazem lembrar
a aliança abraâmica, de que ele estabeleceria o reino e a linhagem de Davi como
realidade eterna (2Sm 7.16). Ao fazer isso, o Senhor declara que o herdeiro de Davi
desfrutaria uma relação filial com Deus.
Que Davi entendeu que sua aliança com Deus se estenderia pelo futuro é
evidente na sua reação à promessa de Deus: “Falaste sobre a família do teu servo
para tempos distantes” (2Sm 7.19; cf. v. 27 -2 9 ). Davi acrescenta: “e isto é instrução
para todos os homens, ó S e n h o r Deus” (v. 19b; ARA). Nesse sentido, Kaiser assi­
nala oito casos de construções de frase comuns à aliança abraâmica e à davídica
e, em seguida, propõe que esta última é uma “Carta magna para a humanidade”.39
Parece que Davi concorda com essa ideia, pois, numa ocasião posterior, ele declara
entender que a aliança é eterna:

Não é assim a minha casa para com Deus?


Porque estabeleceu comigo uma aliança eterna,
em tudo bem ordenada e segura (2Sm 23.5).

O salmista também reconhece a perpetuidade da aliança davídica ao citar


Deus dizendo:

Eu o conservarei para sempre no meu amor,


e minha aliança com ele perm anecerá firme.
Farei sua descendência subsistir para sempre,
e o seu trono, enquanto existirem os céus [...].

Jurei por minha santidade um a vez e para sempre;


não mentirei a Davi.
Sua descendência subsistirá para sempre,
e seu trono será como o sol diante de mim;
será estabelecido para sempre, com o a lua, e ficará firme enquanto durar o céu
(Sl 89.28,29,35-37).

39Kaiser, Old Testament Theology, p. 152-5.


Assim como na aliança abraâmica, os benefícios da aliança davídica podiam
ser perdidos, porém a aliança em si permaneceria em vigor (SI 89.30-34). Muitos
dos herdeiros reais de Davi fracassariam, assim como a nação que eles governavam
fracassaria, mas no fim a promessa divina prevaleceria. Parece, portanto, que, de
acordo com uma antiga promessa, Deus proveria um herdeiro real pela linhagem
de Judá (Gn 49.10), filho de Jacó e um descendente da linhagem de Abraão. As pro­
messas e provisões da aliança abraâmica, desse modo, encontram uma nítida relação
com a aliança davídica. Como observamos, a aliança abraâmica permanecia em
vigor, mas essa disposição a ela acrescentada constituiu um elo claro com a aliança
davídica. Como Kaiser observa: “Assim, o antigo plano de Deus continuaria, só que
agora ele envolveria um rei e um reino. Essa bênção também envolveria o futuro
de toda a humanidade”.40
A antiga aliança abraâmica, agora transmitida por meio da linhagem de Davi,
o herdeiro de Judá, ainda seria profundamente ligada com outra aliança que inclui­
ria tudo e todos. Vimos anteriormente que os temas da Lei e do Êxodo atingem o
ponto culminante na nova aliança (Jr 31.31-37). O intérprete perspicaz talvez tenha
notado que esses temas também foram relacionados anteriormente com o tema da
aliança (e.g., Êx 19.3-6; Dt 6.1-22). É importante observar que a libertação de Israel
do Egito e a subsequente promulgação da aliança/Lei mosaica estão implicitamente
ligadas à aliança abraâmica na expressão “casa de Jacó” (Êx 19.3). Portanto, não é de
admirar que todos os temas que estudamos antes apareçam juntos numa grandiosa
nova aliança.
A nova aliança, porém, não se restringe a Jeremias 31.31-37. Além da aplica­
bilidade de Jeremias 32 às provisões da nova aliança, há outras passagens que dão
mais informações.41Em Jeremias 33.14-26, as promessas do Senhor na nova aliança
incluem as condições e provisões da aliança davídica, em palavras que lembram a
perpetuidade encontrada em Jeremias 31.35-37:

Assim diz o S e n h o r : Se a minha aliança com o dia e com a noite não valesse mais,
e se eu não tivesse determinado as leis que governam o céu e a terra, então poderia
rejeitar a descendência de Jacó e de meu servo Davi, não escolhendo alguém da
sua descendência para governar a descendência de Abraão, Isaque e Jacó. Porque
mudarei o seu destino e terei compaixão deles (Jr 33.25,26).

40Ibidem, p. 155.
41Aaron Kligerman, em Old Testament Messianic Prophecy (Grand Rapids: Zondervan, 1957),
p. 83, observa que “Isaias se refere à nova aliança nada menos que sete vezes”.
Aqui vemos a amplificação das profecias de Jeremias 32, que mencionavam o
retorno de um povo em um novo Êxodo como parte das garantias na nova aliança
(cf. Jr 32.36-41; 33.6-9). Também vemos a combinação das promessas na nova
aliança com as alianças celebradas com Abraão e Davi. ■
Ezequiel, do mesmo modo, profetiza a respeito de um novo Êxodo para o povo
de Deus (Ez 34.11-14) e a respeito do papel do herdeiro de Davi (v. 22-24), assim
como sobre o estabelecimento de uma nova aliança com Israel (v. 25-30). Deus
promete que juntamente com a nova aliança com Israel ele concederá “um coração
novo e porei um espírito novo dentro de vós” (Ez 36.26) a fim de que o povo possa
cumprir suas leis (v. 27-29; cf. Jr 31.33,34). Tudo isso aparece junto com mais clareza
em Ezequiel 37. Nessa passagem, Ezequiel profetiza que nos dias da nova aliança
haverá um novo Êxodo (v. 21) e o retorno à terra (v. 22,23) em cumprimento às
promessas da aliança abraâmica (v. 25). Além disso, como na aliança davídica, o
herdeiro de Davi governará sobre o povo de Deus (v. 24,25), e eles “guardarão os
meus estatutos e obedecerão a eles” (v. 24). Então eles desfrutarão eterna alegria
de vida e adoração na presença de Deus para sempre (v. 26,27).
Assim como a Lei e o Êxodo têm seu ponto culminante na nova aliança,
o mesmo acontece com o conceito de aliança. Não apenas a aliança abraâmica
permanece em vigor com suas provisões de bênçãos para todo o povo de Deus,
mas também os princípios da aliança do Sinai sobreviverão no coração dos crentes
redimidos da nova aliança (Ez 37.21-23). De acordo com as provisões da aliança
davídica, o povo de Deus mais uma vez viverá na terra, como foi prometido na
aliança abraâmica, em que o rei herdeiro de Davi governa (v. 25). A nova aliança
também é chamada de uma “aliança de paz” (Is 54.10; Ez 34.25). De acordo com
o nome, será uma época de grande paz universal (cf. Is 2.2-4; Ez 37.26) e segurança
(Ez 34.27), quando o povo de Deus viverá em comunhão com Deus (Jr 31.34;
Ez 37.23) e desfrutará suas bênçãos (Is 61.8,9) para sempre (Ez 27.26). Vemos aqui a
consumação do plano de Deus para a humanidade conforme foi expresso na aliança
abraâmica (Gn 12.3).
Na verdade, então, a nova aliança é a pedra angular colocada no topo de todas
as alianças anteriores, assim como o ápice das disposições da Lei e o princípio de
redenção intrínseco ao acontecimento do Êxodo. Entretanto, mesmo aqui, como
veremos adiante, há mais aspectos que precisam ser examinados, que farão da nova
aliança o ponto de acesso para a revelação do Novo Testamento.
3.2. PRINCIPAIS ALIANÇAS DA BÍBLIA

ALIANÇA FUNÇÃO TIPO CONTEÚDO

C om N oe Universal Concessão réqia Não mais haverá


dilúvio universal

Abraâmica Fundam ental C oncessão régia Terra, descendência,


bencao

Mosa,c» i Tratado de i Bcnçaos o


I suserania : m aldições

Real, messiânica C oncessão régia | Baseada na aliança


D " ' dlCa abraâmica

C m in a ç â o C oncessão régia Predita pelos


profetas

Aplicabilidade das alianças


Qual é exatamente a importância das alianças para os crentes de hoje? Os princípios
teológicos subjacentes à lei encontrada na aliança mosaica (ou do Sinai) ainda
têm validade nos dias de hoje. Isso porque foram transmitidos por meio da nova
aliança aos ensinos do Novo Testamento. Além do mais, Jesus declarou que veio
para cumprir a lei (Mt 5.17). Com isso quis dizer que nele mesmo a lei e a aliança
mosaicas encontram seu significado pleno. Esses princípios, portanto, tornam-se
realidade porque os cristãos de hoje foram unidos com Cristo, o que os capacita,
pelo poder do Cristo que neles habita, a viver de acordo com os padrões eternos
de Deus (cf. Jo 17.22,23; G12.20; Cl 1.27).
No que diz respeito às alianças de concessão régia, todas as pessoas desfru­
tam as provisões da aliança com Noé, porque podem ter certeza de que Deus não
permitirá que nenhum dilúvio universal inunde a terra novamente. A aliança
abraâmica permanece em vigor e foi incorporada à nova aliança; o mesmo se aplica
à aliança davídica. Logo, tanto a aliança abraâmica como a davídica encontram o
desenvolvimento e a culminação na nova aliança graças ao plano de Deus, que foi
progressivamente revelado ao longo dos séculos.
É a nova aliança, portanto, que reúne as provisões essenciais das alianças
anteriores, incorporando suas vigas mestras na sua construção final. A nova alian­
ça já está em vigor por causa da obra consumada de Jesus Cristo (Mt 26.27-29;
2Co 3.6; Hb 8). Isso não significa, porém, que todas as condições da nova aliança
se cumpriram completamente. Antes, algumas provisões, como a do governo do
herdeiro de Davi sobre o Israel restaurado, permanecem sem cumprimento. Portanto,
podemos pensar que a nova aliança se cumpriu na revelação do Novo Testamento
no sentido de ter se tornado mais plena, ainda que nem todas as suas provisões
tenham-se cumprido completamente ou sido concluídas. Com base na proposta
de George Ladd, R. T. France compreendeu o sentido disso ao categorizar como
“cumprimento sem consumação” uma predição da nova aliança que é designada
como “cumprida” no Novo Testamento.42A questão central, portanto, é que Cristo
entendia que as estipulações do Novo Testamento estavam se cumprindo por meio
de seu ministério, que por sua vez dava início aos últimos dias (cf. lTm 4.1,2;
Hb 1.1,2; lPe 1.18-20; ljo 2.18).
Em todos os sentidos, portanto, a mensagem das alianças se aplica à vida cristã,
pois ela nos lembra da necessidade do serviço fiel e obediente (cf. Gn 22.15-18) e
da necessidade de viver de todo o coração uma vida santa e reta (Gn 17.1; Lv 19.1;
Dt 5.6-21; 6.1-3) perante o Senhor (1 Rs 2.1-4). Visto que estão incorporadas na
nova aliança, as promessas, provisões e verdades teológicas inerentes às alianças
encontram sua aplicabilidade mais completa nas provisões de Cristo para o cristão
(Gl 2.20). As bênçãos que o cristão desfruta agora, assim como as que anseia alcançar
na culminação da era escatológica, também devem servir de imperativo missionário
para falar do evangelho a um mundo necessitado e perdido (2Co 5.16-20).

1. Verifique se a aliança em análise é co n d icio n al o u incondicional.

2. O b se rv e as p rincipais p ro v isõ e s da aliança.

3. Preste a tenção especial na revelação p rog re ssiva d a s alianças incondicionais,


...s o b re tu d o as q u e foram firm adas co m A b ra ã o e Davi, co n fo rm e in corpo ra d as
... na n o v a aliança.

4. Analise o p apel d a n ova aliança c o m o p reparação para o N o v o Testamento.

5. Faça aplicações a d e q u a d a s d o s p rincíp ios te o ló g ic o s d a s alianças á vida


cristã atual. ................

42Veja R. T. France, Jesus and the Old Testament (London: Tyndale, 1971), p. 162.
HARMONIZANDO OS TEMAS DO ANTIGO TESTAMENTO
O domínio de Deus e o conceito de Messias
Apesar de termos esboçado três temas principais que servem de importantes focos
para compreender a revelação do Antigo Testamento, não se deve esquecer que a
figura e a força mais importante no Antigo Testamento é Deus. Da mesma forma
que é Criador e Governante da natureza, como Jó reconheceu há muito tempo
(Jó 38—41; cf. SI 104.1 -30), Deus também é o Soberano da história da humanidade
e aquele que a conduz para a consumação final (Is 46.10).
Um corolário dessa verdade é o tema do plano de Deus mediado por seu
Ungido, o Messias vindouro. Embora a presença de temas messiânicos tenha sido
assunto de muito debate, concordamos com a tradição judaica em que, na época do
Antigo Testamento, havia uma mensagem em expansão a respeito de um Messias.43
Por certo a referência de Daniel ao Messias como o Príncipe (Dn 9.25) demonstra
que realmente existia o conceito messiânico perto do fim do cânon do Antigo Tes­
tamento. Na verdade, a esperança de um rei vindouro que libertaria Israel de seus
inimigos e fundaria um reino sobre o qual governaria com justiça percorre o Antigo
Testamento e mostra uma esperança cada vez mais intensa em Israel. Certamente,
no antigo Israel ungiam-se reis (2Sm 5.6), sacerdotes (Êx 29.7; Lv 7.36) e profetas
(lRs 19.16), mas “o principal elemento do conceito do Messias no a t é o do rei”.44
Embora muitos tenham tentado demonstrar que a origem da ideia de um rei
ungido em Israel encontra-se em nações vizinhas (cf. Dt 17.14), a existência do
conceito de uma monarquia real desde o período primitivo da história de Israel
(Gn 49.10) e a persistência e o progresso desse"conceito ao longo da história da
nação merecem uma compreensão melhor. Desse modo, Van Groningen observa:
“Em resumo, a revelação messiânica está no próprio cerne da revelação de Deus
na aliança. É o fio condutor do registro escrito dessa revelação da relação pactuai
entre o Deus soberano e seus vice-regentes criados, redimidos e restaurados”.45

43E.g., S. H. Levey, The Messiah: An Aramaic Interpretation, The Messianic Exegesis ofth e Targum,
Monographs o f the Hebrew Union College 2 (Cincinnati: Hebrew Union College Press, 1974);
Herbert W. Bateman IV, Gordon H. Johnston e Darrell L. Bock, Jesus the Messiah (Grand Rapids:
Kregel, 2011).
44James Crichton, “Messiah”, in: James Orr, org., The International Standard Bible Encyclopedia
(Grand Rapids: Eerdmans, 1952), p. 2040.
45Gerard Van Groningen, Messianic Revelation in the Old Testament (Grand Rapids: Baker,
1990), p. 72. [Edição em português: Revelação Messiânica no Antigo Testamento (São Paulo: Cultura
Cristã, 1995).]
Se, pois, o ideal messiânico faz parte do plano de Deus para a realização da
história da Terra, é de se esperar que esse plano seja revelado gradativamente.
Apesar de nem sempre a palavra “Messias” estar presente, esse conceito pode ser
encontrado nos primórdios da história humana. Desse modo, há muito tempo se
compreende Gênesis 3.15 como uma profecia protomessiânica:

Porei inimizade entre ti e a mulher,


entre a tua descendência e a descendência dela;
esta te ferirá a cabeça,
e tu lhe ferirás o calcanhar.

Kenneth Mathews observa: “Nossa passagem possibilita a reflexão madura que


indica Cristo como o vindicador da mulher (cf. Rm 16.20). Pode haver uma alusão
a nossa passagem em Gálatas 4.4, que se refere ao Filho de Deus como nascido de
mulher’. Mais precisamente, Paulo identificou Cristo como o ‘descendente5que, em
última análise, tinha-se em mente na promessa de bênção a Abraão (G1 3.16); e a
descendência de fiéis de Abraão inclui a igreja (Rm 4.13,16-18; G13.8)”.4SO conceito
inicial de um rei/governante vindouro também ocorre em Números 24.17:

Eu o vejo, mas não agora.


Eu o contemplo, mas não de perto.
Virá uma estrela de Jacó,
de Israel se levantará um cetro...

Em outra passagem antiga, o rei devia ser aquele que Deus escolhesse (Dt 17.15).
O papel de um rei/Messias vindouro passou a ser tema proeminente no
primeiro milênio a.C. Encontra-se em muitos salmos (e.g., Sl 2.2,4-7; 89.20-37;
110.1,2)47 e sobretudo nos profetas (e.g., Is 7.13-17; 9.6,7; 11.1-9; 41.8-20; 42.1-7;
52.13—53.12; 61.1-3; Jr 23.5-7; 33.15-18; Ez 34.20-31; 37.20-28; Dn 7.13,14; 9.25,26;
Zc 12.10-14). Dar a Deus o seu lugar legítimo nas Escrituras é fundamental para
a interpretação correta. Enxergar seu plano de fazer convergir todas as coisas em
seu enviado, o Messias, não é imprescindível somente para compreender o Antigo
Testamento, mas também para considerar o Antigo Testamento a preparação para
a revelação do Novo Testamento.

"“■Kenneth A. Mathews, Genesis 1-11:26, NAC (Nashville: B&H, 1996), p. 247-8.


47Veja Gerald H. Wilson, “Psalms and Psalter: Paradigm for Biblical Theology”, in: Scott J. Hafemann,
org., Biblical Theology: Retrospect and Prospect (Downers Grove: InterVarsity, 2002), p. 100-10.
Relação de Deus e do Messias com a Lei, o Êxodo e as alianças
A presença do Senhor permeia o Antigo Testamento. Ê ele que também é o so­
berano Governante e Supervisor providencial dos temas da Lei, do Êxodo e das
alianças no Antigo Testamento. Desse modo, o Senhor é o autor da Lei, que ele
planejou não apenas para a regulação ordenada da sociedade, mas também para o
bem de cada indivíduo da humanidade (Êx 19.5; 20.22—23.19; Nm 27.1—30.16;
Dt 5.32—6.2; 6.3—30.10).
Deus também é o autor da redenção do homem. Ele não só providenciou os
primeiros meios para libertar do pecado a humanidade caída e restaurá-la à graça
de Deus (Gn 3.21; cf. 4.2-4; 8.20-22), mas também a continuidade da comunhão
com ele por meio do sistema sacrificial, conforme especificado particularmente
na legislação levítica. Como Redentor de Israel, Deus libertou seu povo do Egito
(Êx 19.4; 20.2); conduziu-o najornada do Egito a Canaã (e.g., Êx 40.36-38; Nm 10.11;
33.50; Js 1.1—3.17); e o estabeleceu na Terra Prometida (Js 21.43-45). Deus não
só foi o libertador nacional de Israel, mas também o Redentor de cada israelita fiel
(cf. Jó 19.23-27; Jr 31.31-34).
Foi Deus quem criou e firmou as alianças com seu povo, quer na forma de
uma aliança condicional (Êx 19.3; Dt 6.13-25), quer como concessão incondicional
gratuita e perpétua (e.g., Gn 9.12-17; 17.1-8; 2Sm 7.11-16; SI 89.27-37; Is 54.10;
Jr 31.31-37; 33.13-22; Ez 34.23-31; 37.20-27).
Um aspecto importante da relação de aliança de Deus com Israel é a pessoa do
Messias. O cumprimento das promessas inerentes à aliança abraâmica expandida
na profecia sobre a linhagem de Judá (Gn 49.10) ficou identificado com mais clareza
na forma da aliança davídica. O herdeiro de Davi par excellence é que assumiria,
como o Servo do Senhor, o trono do reino prometido (Jr 23.5-7). Como o rei vin­
douro profetizado (cf. Gn 49.10 com Ez 21.27), ele também será a figura central da
nova aliança, mediante a qual se realizará o plano secular de Deus de instaurar paz
e justiça eternas (Is 11.1-9; Jr 33.15,16; Ez 34.25-31; 37.22-28; Mq 4.1-5).

Papel do Messias na nova aliança


O plano de Deus de governar por intermédio do Messias é um aspecto importante
da nova aliança. Como vimos, os temas da Lei, do Êxodo e da nova aliança atin­
gem o apogeu na nova aliança. Também observamos que o Messias prometido
desempenha o papel principal na realização da nova aliança. Logo, é de se esperar
que ele tenha alguma relação com os temas que nela atingem o ponto culminante.
A Lei prescrevia como uma pessoa tinha de viver perante um Deus santo. No
Messias vindouro, as pessoas encontrariam o exemplo supremo de vida piedosa
i Is 42.1-7). Os meios para alcançar uma relação correta com Deus, simbolizados no
sistema sacrificial, adquirem poder de fato no Messias, o mediador da nova aliança.
Vern Poythress defende a tese de que o sistema sacrificial era apenas uma sombra
da realidade do Messias vindouro, Jesus Cristo:

A própria sombra não era a realidade, mas um indicador de Cristo, que é a realidade.
Entretanto, a sombra também se assemelhava à realidade. E a sombra inclusive fazia
valer a realidade para as pessoas do Antigo Testamento. Quando olhavam adiante
através das sombras, almejando algo melhor, elas se apossavam das promessas de
Deus de que ele enviaria o Messias. As promessas foram feitas não só por palavras,
mas também por meio de símbolos, com a própria organização do tabernáculo e
seus sacrifícios.48

Um exemplo é o simbolismo do Dia da Expiação, por meio do qual os pecados


áe Israel podiam ser confessados e perdoados (Lv 16.1). O ritual relacionado ao
Dia da Expiação exigia dois bodes. Um era sacrificado como “oferta pelo pecado”
Lv 16.15). Depois, Arão devia pôr as mãos sobre a cabeça do bode vivo e “confessa[r]
íobre ele todas as culpas, transgressões e pecados dos israelitas. Ele os porá sobre
a cabeça do bode...” (v. 21). O bode era enviado para o deserto, simbolizando a re­
moção do pecado do povo: “Assim como o sacrifício do primeiro bode significava
o meio de reconciliação com Deus, isto é, a morte e a aspersão do sangue de uma
oferta vicária, também a expulsão do segundo bode simbolizava o efeito da expiação
na remoção do pecado da presença de um Deus santo. Juntos, esses dois aspectos da
oíerta pelo pecado indicam o pleno significado da expiação”.49Aquilo que a prática
de culto do Dia da Expiação simbolizava havia de se realizar no Messias, o mediador
da nova aliança; pois ele sofreria a morte pelo pecado do povo (Is 52.13—53.12),
mas seria vitorioso sobre ela (SI 16.8-11; cf. At 2.25-35; Os 13.14).
O Êxodo de Israel do Egito demonstrou que somente o próprio Deus podia
realizar a libertação do povo. O Israel impotente precisava de um redentor. Sua
dbertação na noite da Páscoa era, portanto, evidência do poder e da graça soberana
de Deus. Como vimos, o princípio teológico subjacente ao evento do Êxodo é a

^Vern S. Poythress, The Shadow ofC hrist in the Law ofM oses (Phillipsburg, NJ: Presbyterian &
Xeformed, 1991), p. 11.
49Charles R. Erdman, The Book ofLeviticus (New York: Revell, 1951), p. 75.
redenção. Quando Israel vivia em escravidão no Egito, foi Deus que redimiu seu
povo e o trouxe para si. Essa realidade era comemorada na observância da Páscoa.
Aqui também o tema do Messias encontra seu cumprimento definitivo. “A obser­
vância da Páscoa no Antigo Testamento não lembrava fatos passados, remetendo
a uma libertação do cativeiro anterior, mas apontava também para o futuro, para
a vinda do Cordeiro de Deus, que libertaria Israel da escravidão do pecado [...].
Do mesmo modo que a Páscoa conduziu um povo escravizado a uma nova vida de
liberdade e descanso, também Cristo previu que, mediante sua morte, os cristãos
seriam conduzidos a uma nova vida de paz e descanso.”50
Enfatizamos repetidas vezes o significado principal da nova aliança como o
auge da Lei e do Êxodo. O mesmo se aplica às alianças de Deus com Israel. Aqui
novamente se pode perceber a importância da obra redentora de Deus, pois, de
acordo com as condições da nova aliança, o Senhor mais uma vez redimirá seu
povo da escravidão em terras estrangeiras (cf. Is 61.3,11,12). O papel do Messias é
particularmente significativo aqui. Ele, que estava destinado a ser o restaurador de
Israel (Is 49.5), se tornaria seu Redentor. A respeito dele, se profetiza:

O Espírito do Senhor Deus está sobre mim,


porque o S e n h o r me ungiu
para pregar boas novas aos oprimidos;
enviou-me a restaurar os de coração abatido,
a proclamar liberdade aos cativos e a
pôr os presos em liberdade;
a proclamar o ano aceitável do S e n h o r
e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar que se dê [...]
vestes de louvor em vez de espírito angustiado aos que choram em Sião (Is 61.1-3).51

De acordo com as condições da nova aliança, portanto, o Messias é um Reden­


tor real. Ele vai restaurar e confortar seu povo, vai derrotar todos os seus adversários
(Zc 14.1-5) e estabelecer seu reino universal (Dn 7.13,14; cf. SI 2.7-9; 110.1,2).
Assim, é importante que o intérprete bíblico observe que seu ponto de partida
é fundamental para a compreensão das Escrituras. Quando tratamos a Bíblia como a
revelação autêntica e fidedigna de Deus e fazemos da manifestação de Deus mediante

50J. Dwight Pentecost, The Words and Works o f Jesus Christ (Grand Rapids: Zondervan, 1981),
p. 425. Sem dúvida, não é coincidência nenhuma que o sacrifício expiatório de Jesus tenha ocorrido
no auge da temporada da Páscoa (Lc 22.7,8; IC o 5.7).
51Observe a aplicação que Cristo faz de Isaías 61.1,2a a seu ministério terreno (Lc 4.18,19).
sua pessoa e suas obras o aspecto central de nossa pesquisa, estamos em condições
de compreender seu plano geral dos séculos.52É dando a Deus seu legítimo lugar de
soberania que muitos textos de outro modo difíceis adquirem a perspectiva correta.
Ao invés de trilhar o caminho escuro da dúvida, como os críticos tantas vezes fazem,
podemos avaliar um dado texto à luz dos planos de Deus.

Relação do messianismo do Antigo Testamento


com o Novo Testamento
O ápice do plano de Deus para a consumação da história da terra, tal qual figura
na nova aliança, cuja figura central é o Messias, fornece a perspectiva suprema
para entender a revelação do Novo Testamento. A pessoa e a obra do Messias,
conforme os termos da nova aliança, é que preparam os leitores do Novo Testa­
mento para a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
O Novo Testamento declara que Jesus é o Messias há muito esperado. Isso se
vê já no começo. Assim, o anjo anunciou à virgem Maria que Jesus “reinará eterna­
mente sobre a descendência de Jacó, e seu reino não terá fim” (Lc 1.33). Zacarias,
o pai de João Batista, declarou que Deus “nos fez surgir uma salvação poderosa
na descendência de seu servo Davi [...] para ser misericordioso com nossos pais
e lembrar-se da sua santa aliança e do juramento que fez a Abraão, nosso pai”
Lc 1.69-73). A revelação subsequente do Novo Testamento reforça esse entendi­
mento repetidamente (e.g., Jo 1.41; Ap 11.15). Cristo é de fato a figura central da
revelação do Novo Testamento em cumprimento do plano de Deus para a redenção
e o bem-estar eterno da humanidade, assim como a consumação de todas as coisas
Cl 1.15-20). Como o autor de Hebreus declara:

No passado, por meio dos profetas, Deus falou aos pais muitas vezes e de muitas
maneiras; nestes últimos dias, porém, ele nos falou pelo Filho, a quem designou
herdeiro de todas as coisas e por meio de quem também fez o universo. Ele é o
resplendor da sua glória e a representação exata do seu Ser, sustentando todas as
coisas pela palavra do seu poder e tendo feito a purificação dos pecados, assentou-se
à direita da Majestade nas alturas (Hb 1.1-3).

De acordo com a profetizada promessa da nova aliança de que haveria uma


realidade interna que garantiria o conhecimento de Deus e a conduta correta perante

s2Vem S. Poythress, em Goã-Centereã Biblical Interpretation (Phillipsburg: Presbyterían & Re-


rormed, 1999), p. 10, observa: “As pessoas podem fazer todo tipo de coisa descabida com a Bíblia,
raas, se quisermos ter proveito espiritual, precisamos aceitar o que o próprio Deus exige”.
ele, os cristãos do Novo Testamento foram conduzidos à união viva com o Cristo
ressurreto (G12.20; Ez 2.19-22). “O cristão está em Cristo’ porque está unido com
ele pela fé; e por meio dessa união com ele, o cristão compartilha de seu poder
salvador e se coloca debaixo de sua autoridade soberana [...] Assim, pode-se dizer
tanto que Cristo está nos cristãos como que eles estão em Cristo”.53
Assim como os que entraram numa nova relação nos termos da nova aliança,
os cristãos de hoje têm a dupla garantia de que, pelo fato de terem os princípios
da lei de Deus gravados dentro deles (Jr 31.33,34) e porque Cristo, em quem a Lei
se cumpre, uniu-os com ele, são capazes de viver de acordo com os princípios dos
altos padrões morais de Deus. Além disso, como os que estão unidos com Cristo,
eles têm o privilégio de ser embaixadores para os que ainda estão na escravidão
do pecado (2Co 5.17-21). Como discípulos de Cristo, a quem ele enviou e comis­
sionou para transmitir a mensagem da redenção (Jo 20.21,22), temos de ir e fazer
“discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). E assim como fizeram os primeiros dis­
cípulos de Jesus, nós também temos der ir no poder do Espírito Santo (IC o 2.1-5,
12,13; 2Co 3.1-6; cf. Ez 36.26).

Justiça e fé
Uma importante diretriz para nos guiar na leitura correta do Antigo Testamento
hoje é o estudo do modo como os próprios autores do Novo Testamento liam as
Escrituras hebraicas. Se queremos ser bíblicos em nossa prática hermenêutica, não
há lugar melhor para examinar do que a abordagem dos próprios autores bíbli­
cos. Quando fazemos isso, descobrimos, como já foi mencionado, a importância
dos conceitos veterotestamentários da Lei, do Êxodo e da aliança, bem como a
relação que esses conceitos mantêm com a expectativa de um Messias, cumprida
na pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo.
Em particular, nota-se que os autores do Novo Testamento centraram sua ex­
posição do evangelho na explicação do que é necessário para se obter a justificação
por meio da fé. Em nenhum lugar isso é mais claro do que no prefácio de Paulo
à sua Epístola aos Romanos, onde o apóstolo se refere, já no início, ao “evangelho
de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras,

53I. Howard Marshall, The Work ofC hrist (Grand Rapids: Zondervan, 1969), p. 85-6. Proveitosas
exposições da doutrina da união com Cristo podem ser vistas em A. H. Strong, Systematic Theology
(Philadelphia: Judson, 1954), p. 793-809 [edição em português: Teologia Sistemática de Strong (São
Paulo: Hagnos, 2003)]; Wayne Grudem, Systematic Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1994),
p. 840-50 [edição em português: Teologia Sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2003)].
acerca de seu Filho, [...] Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.1-4). Além disso, no
âm do prefácio, Paulo cita especificamente o profeta Habacuque: “Pois a justiça de
Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé”
Rm 1.17; cf. Hc 2.4). .
Desse modo, Paulo encontrou a essência de seu evangelho — que na verdade
era o evangelho áe Deus — já revelada e proclamada nas Escrituras proféticas do
Antigo Testamento. A justiça — a conduta reta perante Deus — veio por meio da fé
'sem a lei”, realidade “atestada pela Lei e pelos Profetas” (Rm 3.21). Voltando ainda
mais atrás do que o livro de Habacuque, Paulo encontrou já na Lei o evangelho
da justiça mediante a fé — no primeiro livro do Pentateuco, o Gênesis: “Que diz
a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído como justiça” (Rm 4.3;
veja também G1 3.6; cf. Gn 15.6). Portanto, Paulo afirmava com ênfase que a Lei e
os Profetas concordam: só se pode atingir a conduta reta perante Deus mediante
a fé, não por obras humanas.
Essa fé, de forma significativa, deve dirigir-se ao Messias de Deus, Jesus Cristo.
Corretamente compreendida, a Lei apontava para ele. Em vez de ser uma simples
coleção de exigências jurídicas, o objetivo fundamental da Lei era profético. Assim,
não apenas os Profetas, mas também a Lei previa a vinda do Messias e a redenção
que seu sacrifício expiatório substitutivo proveria. Como Paulo escreve:

... a justiça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo para todos os que creem; pois
não há distinção. Porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus; sendo
justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção que há em Cristo
Jesus, a quem Deus ofereceu como sacrifício propiciatório, por meio da fé, pelo seu
sangue, para demonstração da sua justiça (Rm 3.22-25).

A provisão de salvação para a humanidade no sacrifício expiatório de seu


Filho e por meio dele permite, por sua vez, que Deus seja justo e justifique os que
não tinham justiça em si próprios: ele fez isso “para demonstração da sua justiça
no tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem
ré em Jesus” (Rm 3.26). A necessidade de salvação mediante a fé em Cristo, sem
nenhuma obra humana, também une o povo escolhido de Deus, Israel, e os não
iudeus (gentios): “Porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”.
Assim, o terreno está preparado para a criação, em Cristo, de um novo corpo de
fiéis, a igreja, constituído de cristãos judeus e gentios, uma entidade que Paulo em
outros lugares chama de “o corpo de Cristo” (veja, e.g., Ef 3.6; 5.23,29,30).
Verifique q u ais as p a ssa g e n s q u e tèm aplicabilidade m essiânica. Procure a
te rm in ologia pertinente ou a presença d e vín cu lo s tem áticos co m referências
bíblicas a o M essias.

Avalie a co n trib u içã o da p a ssa g e m para o p la n o d e D e u s em relacáo á vind a d o


M essias, d c a co rd o co m os te rm o s da nova aliança.

O b se rv e as form as características d o m inistério d o M e ssia s e co m p a re -a s com


o m inistério terreno d c Jesus.

Evite a tentação d o excesso d e zelo e m encontrar a presença p ré-encarnada


de Cristo n o A n tig o Testam ento, com o, por exem plo, em to d o lugar em q ue
ocorre a e xp re ssão "o anjo d o Senhor".
acontecimento do Êxodo. D etalhes históricos so b re a libertação divina d o s
h e b reu s d o Egito, sua direção p o r D e u s através d o d ese rto e p or fim a entrada
na Terra Prom etida.

aliança. A c o rd o entre d u a s partes q u e sc apresenta c o m o a vo n ta d e ou intenções


d e u m su p e rio r para co m um inferior o u c o m o um tratado entre iguais.

cânon do Antigo Testamento. C o rp o d e textos re co n h e cid o s c o m o reflexo da


in spiracao e da au to rida d e divinas.

Lei. Na Bíblia, um a e xp re ssã o da vo n ta d e e d o s p ad rõ e s m orais de D e u s para a


co n d u ta h u m a n a transm itida c o m o material d e instrução.

Messias. O p ro m e tid o representante u n g id o de D e u s q u e devia libertar seu p o v o


e go v e rn a r c o m o rei n o e sta d o final da Terra.

nova aliança. N as profecias d o A n t ig o Testam ento, a co n ce ssã o futura de


b ê n ç ã o s d e D e u s a seu p o v o re d im id o na Terra Prom etida. ■

tratado de concessão régia. Privilégios o u benefícios co n c e d id o s p o r u m rei a


u m va ssa lo o u se rvo e m re co n h e cim e n to p o r seu serviço fiel e leal.

tratado de suserania. A c o rd o p elo qual a parte q u e decreta im p õ e co n d icó e s de


aliança a um vassalo.
1. Q u a is sã o as três partes da revelação d o A n tig o Testam e n to?

2. G ê ne sis co n té m a história principal d a s Escrituras c o m o u m todo. Q ual e essa


história qu e se d e v e ter se m p re em m ente na interpretação d e toda a revelação
d o A n t ig o Testam ento?

3. Q uais sa o o s trés g ra n d e s tem as q u e con stitu e m u foco p iin cip al d o A n tig o


T e sta m e n to? Q u e p rincípios esse s te m as co n tê m ?

4. Q u a is sã o o s m o d o s tradicionais d e classificar as leis? Elabore u m a form a


m elh or d e conceituar a Lei, liga n d o-a a o s d o is o u tro s te m as centrais d o
A n t ig o Testam ento.

5. C o m o Jerem ias 31.31-34 n o s ajuda a c o m p re e n d e r q u e a Lei, a pesar de


conter p rin cípios externos a serem ob e de cid os, co n té m p rin cípios te o ló gicos
m ais p ro fu n d o s?

6. Q ual é o p rincípio subjacente a d e te rm in a d o m a n d a m e n to listado corn o um


d o s D e z M a n d a m e n to s?

7. Q u a is sã o as diretrizes para a aplicação da Lei d o A n tig o Testam e n to?

8. C o m o o tem a d o Êxo d o se inclui na n ova aliança?

9. Q u a is são as diretrizes para a c o m p re e n sã o d o Ê x o d o ?

10. C o m o se p o d e m e sbo ça r as relações entre as diversas alianças?

11. Q u a is sã o as diretrizes para c o m p re e n d e r as alianças d o A n t ig o T e s t a m e n t o ? .

12. Q u a is são o s te m as in te grad ore s da revelação d o A n t ig o Testam e n to?


Explique a im p ortância deles, d a n d o a tenção especial a o papel d o M e ssia s
n a interpretação da Bíblia c o m o um todo. ...
1. C o m o se ob se rvo u , o c o d ig o juríd ico d o A n tig o Testam ento tinha o objetivo
d e fazer co m q u e o p o v o e sc o lh id o e re d im id o de D e u s se le m brasse de q u e
eles d eviam ser u m p o v o santo, ju sto e m ora lm e n te re spon sáve l perante Deus.
Alem disso, essas leis d eviam ser tratadas c o m o e xp re ssão d o s altos p adrões
m orais d o D e u s so b e ra n o e santo d e Israel. C o m base n e sse s princípios,
escreva u m a breve e xp o siçã o d e D e u te ro n ô m io 6.1-9, p a ssa g e m q u o contém
o c o n h e c id o shem á d e Israel.

2. Verifique a aplicabilidade d o s d o is p rim eiros m a n d a m e n to s e m É x o d o 20.2-6


na vid a cristã. Q u e o u tro tem a bíblico ta m b é m é d e im p ortân cia fundam ental,
co n sid e ra d o n o am b iente e n o contexto d o s m a n d a m e n to s o rig in a is?

3. C o m o se d e m on strou , o tem a d o Ê xo d o é d e im p ortân cia fu nd a m e n ta l


para o d e se n vo lv im e n to e a c o m p re e n sã o da revelação bíblica. Explique a
aplicabilidade d esse tem a a co n d uta e á experiência d o cristão perante Deus.
Q u e atributo p roe m in e n te d e D e u s é central na narrativa d o Ê x o d o oriqinal >:
em su as e xp re ssõ e s p oste rio re s?

4. Identifique as diferenças básicas entre u m tratado d e suserania e u m de


co n ce ssã o régia. Em q u e essa inform ação é im p ortan te para o e n te n d im e n to
da aprese n tação bíblica d a s alianças?

5. C o m b ase nas in form açõe s deste capítulo, analise a im p ortância da nova


aliança para o s te m as b ásico s d o A n t ig o Testam ento: Lei, Ê xo d o e aliança.
C o m o isso se aplica à vid a cristã regular?

õ. Identifique os versículos e/ou p a ssa ge n s principais em cada u m a d as seções d o


A n tig o Testam ento — Torá, Profetas e Escritos — a respeito da vinda d o Messias.

7. Escreva um breve re su m o d o papel d o M e ssia s em cada u m d o s te m a s básicos


d o A n tig o Testam ento: Lei, Ê x o d o e aliança. C o m o tu d o isso se relaciona
co m a revelação d o N o v o T estam ento a respeito d e Je sus Cristo e co m a vida
cristã vib ran te ?

8. Exp liq ue as ram ificações d o s e n sin o s d e Paulo relativos ao e v a n g e lh o


e às d ou trin as da justiça e da fé.
Beckwith. RogerT."Thc Canon o fth e OldTesLament."ln: Comfort, Philip Wesloy, org. The
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vol. 66, 2004, p. 25-47.
1. Familiarizar o e stud ante co m as várias teorias acerca d o câ n o n d o
N o v o Testam ento.

2. Ajud ar os e stud ante s a avaliar a p o sica o relativa d o s Evan ge lh os, de ALos,


das Cartas e d o A p o ca lip se n o câ n o n d o N o v o Testam ento.

3. Fornecer um a sintest' da te o lo gia d o N o v o Testam ento fo c a n d o no


c u m p rim e n to da profecia bíblica em Cristo o analisar ou tro s tem as
im p ortan te s d o N o v o Testam ento.

4. Prover um a estrutura para a interpretaçao de p a ssa g e n s ind ivid u a is d o N o v o


Testam ento, d a n d o ao e stu d an te a p erce pcao d o todo, a luz d o qual se p ossa
interpretar q u a lq u e r u m a d as partes.

5. D e m o n stra r a relaçao h a rm o n io sa entre o s três e le m e ntos da tríade


herm enêutica — historia, literatura e teologia — na interpretação bíblica.

6. Form ar no e stud ante a co n viccã o de q u e há um a u n id a d e teológica


fu nd am e n tal em m eio à d ive rsid ade d o te ste m u n h o d o s autores bíblicos.
A. C a p ítu lo 4: objetivos

B. E sb o ç o d o capítulo

C. Intro d u çã o

D. C â n o n d o N o v o Testam ento

E. O s E v a n g e lh o s e o e v a n g e lh o

F. G livro de A to s e a igreja prim itiva

G. Epístolas, C risto e as igrejas

H. A p o c a lip se e a revelação d o V e rb o

I. C o n clu sã o

J. Diretrizes para interpretar o câ n o n d o N o v o Testam ento

K. Palavras-chave

L. Q u e stõ e s para a p rofu n d a r o e stu d o

M. Exercícios

N. Bibliografia d o capítulo
TEO LO G IA

HISTORIA ♦ L IT E R A T U R A S

* - CANON GENERO LINGUAGEM


A n tigo Testamento Narrativa histórica do AT Contexto discursivo
<•“ N o v o Testam ento Poesia e sabedoria Significado das palavras
Profecia Linguagem figurada
Narrativa histórica do NT
Parábolas
Epístolas
Leitura apocalíptica
Capítulo 4

O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO:


OS EVANGELHOS, ATOS, AS
EPÍSTOLAS E APOCALIPSE

IN T R O D U Ç Ã O
f| 1 1 ntão ele lhes disse: Ó tolos, que demorais a crer no coração em tudo
rH que os profetas disseram! Acaso o Cristo não tinha de sofrer essas
A J coisas e entrar na sua glória? E, começando por Moisés e todos os
profetas, explicou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras [...]. E
disseram uns aos outros: Acaso o nosso coração não ardia pelo caminho, quando
ele nos falava e nos abria as Escrituras?" (Lc 24.25-27,32).

Depois lhes disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: Era
necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na Lei de Moisés,
nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as
Escrituras, e disse-lhes: Está escrito que o Cristo sofreria, e ao terceiro dia ressuscita­
ria dentre os mortos; e que em seu nome se pregaria o arrependimento para perdão
dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas
dessas coisas. Envio sobre vós a promessa de meu Pai. Mas ficai na cidade, até que
do alto sejais revestidos de poder (Lc 24.44-49; cf. At 1.4-8).

Essas passagens provenientes de Lucas, o teólogo neotestamentário histórico-


-salvífico por excelência, fazem um resumo da teologia da Bíblia: Cristo, o Messias,
do qual “todas” as Escrituras falam, isto é, todas as principais divisões canônicas do
Antigo Testamento, é apresentado como alguém que haveria de sofrer e ressuscitar
no terceiro dia, profecias que se cumpriram na pessoa do Senhor Jesus Cristo, o
qual, por sua vez, enviou o Espírito Santo do Pai para que seus discípulos servissem
de testemunhas do território judaico aos territórios gentios, até os confins da terra.
Eis o núcleo da teologia do Antigo Testamento — a mensagem acerca do Cristo — e
aqui está o núcleo da teologia do Novo Testamento: o cumprimento da mensagem
do Antigo Testamento acerca do Cristo em Jesus de Nazaré, o Filho de Deus.1
As diversas partes do cânon cristão são todas coesas e contribuem para o propósito
geral de mostrar o cumprimento da esperança e da mensagem do Antigo Testamento
em Cristo: os Evangelhos narram a vida de Jesus de Nazaré, concentrando o relato
em sua morte e ressurreição; o livro de Atos continua essa narrativa, mostrando o que
Jesus continuou realizando na missão da igreja primitiva e por meio dela (a dedução
de At 1.1); as Epístolas são documentos que consubstanciam o cumprimento do que
Cristo predisse: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (ou, talvez de modo mais
preciso, “minha comunidade messiânica”, Mt 16.18); e o Apocalipse conclui o cânon
com um glorioso ponto de exclamação, voltando todos os olhos para o retorno triun­
fante do Cordeiro de Deus — transformado no Leão de Judá —, que julga o mundo e
reúne os eleitos para permanecerem com ele no céu para sempre.
No entanto, o fato de que, corretamente compreendido, Cristo é o centro de
toda a Escritura não significa que todos os capítulos e todos os versículos da Bíblia
estejam estritamente centrados em Cristo como se todo versículo bíblico devesse
ser lido através do filtro messiânico em sentido absoluto.2 Temos de tomar cuidado
com uma teologia demasiadamente simplista que encontra Cristo, de modo um
tanto anacrônico, em trechos do Antigo Testamento, o que implicaria em algumas
distorções e artifícios hermenêuticos graves. Tampouco o fato de Cristo ser o centro
unificador das Escrituras indica que os autores bíblicos são completamente uniformes
na apresentação de sua vinda (os Evangelhos) nem das implicações que a envolvem
(as Epístolas). Nessa unidade, encontramos de forma bem clara uma revigorante e
estimulante diversidade que reflete as várias personalidades, os vários pontos de vista e
as perspectivas teológicas dos respectivos autores do Novo Testamento.3Isso também

'Para uma abordagem proveitosa nessa linha, veja Kevin J. Vanhoozer, The Drama ofDoctrine:
A Canonical-Linguistic Approach to Christian Theology (Louisville: Westminster John Knox, 2005).
2Veja sobre isso o estudo a respeito do Messias no capítulo anterior.
3Sobre unidade e diversidade no Novo Testamento, veja esp. Andreas J. Kõstenberger, “Diversity
and Unity in the New Testament”, in: Scott J. Hafemann, org., Biblical Theology: Retrospect &
Prospect (Downers Grove: InterVarsity, 2002), p. 144-58; David Wenham, “Appendix: Unity and
não significa que devamos colocar Jesus em competição com a Bíblia e afirmar que é
ele e não ela que está no centro. Afinal, antes de mais nada, é somente por meio das
Escrituras que conhecemos Jesus, e ele mesmo afirmou que elas testemunham dele,
além de ter declarado que elas não podem ser anuladas (Jo 10.35).4
No presente capítulo, não podemos — nem precisamos — investigar o Novo
Testamento detalhadamente em cada um de seus aspectos em particular. Isso seria
tentar escrever uma teologia completa do Novo Testamento, o que obviamente está
fora do escopo desta obra.5 Em lugar disso, o propósito da abordagem a seguir é
dar uma estrutura geral que sirva de ponto de referência para a interpretação de
passagens bíblicas específicas. No capítulo anterior, estabelecemos o fundamento
para este capítulo, examinando o panorama da teologia do Antigo Testamento.
O presente capítulo continua de onde o anterior parou e se propõe a examinar o
panorama canônico da teologia do Novo Testamento. Depois de alguns comentários
introdutórios sobre o cânon do Novo Testamento propriamente dito, trataremos,
em seqüência, dos Evangelhos e o evangelho; do livro de Atos e a igreja primitiva;
das Epístolas, Cristo e as igrejas; e do Apocalipse e a revelação da Palavra.

CÂN ON DO NOVO TESTA M EN TO


lá no início de nosso breve estudo, o atual formato do cânon do Novo Testamento
deve ser examinado mais detidamente.6 O cânon do Novo Testamento primeiro

Diversity in the New Testament”, in: George E. Ladd, A Theology o f the New Testament, ed. rev.
Grand Rapids: Eerdmans, 1993), p. 684-719 [edição em português: Teologia do Novo Testamento
São Paulo: Hagnos, 2003)].
4Veja o blog“Jesus and the Bible”, em resposta a Daniel B. Wallace. Disponível em: <http://www.
biblicalfoundations.org>.
5Para tentativas recentes, veja Frank Thielman, Theology ofthe New Testament (Grand Rapids: Zon-
dervan, 2005) [edição em português: Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Shedd, 2007)]; I. Howard
Marshall, New Testament Theology (Downers Grove: InterVarsity, 2004) [edição em português: Teologia
do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2007)]; Thomas R. Schreiner, New Testament Theology:
Magnifying God in Christ (Grand Rapids: Baker, 2008). Também são úteis as obras: George E. Ladd,
A Theology ofth e New Testament; Adolf Schlatter, New Testament Theology, 2 vols.; The History ofthe
Christ (Grand Rapids: Baker, 1997); idem, The Theology ofth e Apostles (Grand Rapids: Baker, 1999).
6Para análises detalhadas, veja Andreas J. Kõstenberger, L. Scott Kellum e Charles L. Quarles, The
Cradle, the Cross, and the Crown: An Introduction to the New Testament (Nashville: B&H, 2009), cap. 1,
esp. p. 2-31; F. F. Bruce, The Canon ofScripture (Downers Grove: InterVarsity, 1988) [edição em português:
O Cânon das Escrituras (São Paulo: Hagnos, 2011)]; Bruce M. Metzger, The Canon o f the New Testament:
bs Origin, Development, and Significance (Oxford: Oxford University Press, 1987); Lee M. McDonald,
The Formation ofChristian Biblical Canon, ed. rev. e exp. (Peabody: Hendrickson, 1996); Paul D. Wegner,
The Journeyfrom Texts to Translations (Grand Rapids: Baker, 1999); Greg Goswell, “The Order of the
Books of the New Testament”, JETS 53 (2010), p. 225-41, com referências bibliográficas adicionais.
apresenta os Evangelhos ou, mais especificamente, quatro documentos que narram
o único evangelho de acordo com quatro testemunhas: Mateus, Marcos, Lucas e
João.7 Contudo, não se deve entender a seqüência necessariamente como uma in­
dicação da ordem cronológica de escrita.8O mais provável é que se tenha escolhido
o Evangelho de Mateus como o primeiro porque ele começa com a genealogia de
Jesus Cristo e, desse modo, o livro proporciona uma transição adequada do fim do
Antigo Testamento e uma introdução apropriada à história do Novo Testamento,
que é essencialmente a história do Senhor Jesus Cristo.9
O Evangelho de João pode ter sido colocado em último lugar na seqüência
dos quatro Evangelhos porque é quase certo que foi o último deles a ser escrito.
Desse modo, ele está interposto entre os dois escritos de Lucas incluídos no Novo
Testamento, o Evangelho de Lucas e o livro de Atos. Em conjunto, os quatro Evan­
gelhos — ou o evangelho, de acordo com essas quatro testemunhas — contribuem
para o cânon do Novo Testamento com seu próprio fundamento, a narrativa do
nascimento, da vida, do ministério, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo.
Como entende Adolf Schlatter, concebe-se corretamente a estória (ou história; a
palavra alemã Geschichte pode ter ambos os significados) acerca de Jesus Cristo
como “O fundamento da teologia do Novo Testamento”.10
Alguns, entre eles Rudolf Bultmann, convictos de que o “Jesus da história”
(Jesus como realmente viveu na terra) e o “Cristo da fé” (o Jesus em quem a igreja
primitiva cria e a respeito de quem escreveu) são figuras inteiramente diferen­
tes, alegaram que Jesus Cristo deve ser considerado um mero pressuposto, não

7As tentativas recentes de expandir o Novo Testamento para incluir outros Evangelhos, com o o
Evangelho de Tomé (a saber, TheFive Gospels [Os cinco evangelhos] do Jesus Seminar; cf. o romance
popular O Código Da Vinci), são equivocadas. Veja Michael Green, The Books the Church Suppressed
(Grand Rapids: Kregel, 2006); J. Ed Komoszewski et al., Reinventing Jesus (Grand Rapids: Kregel,
2006); Darrell L. Bock, The Missing Gospels (Nashville: Thomas Nelson, 2006) [edição em português:
Os Evangelhos Perdidos (São Paulo: Thomas Nelson, 2007)]; Andreas J. Kõstenberger, The Da Vinci
Code: Is Christianity True? (Wake Forest, NC: SEBTS, 2006).
8Observe também a chamada ordem “ocidental” (encontrada no códices Beza e Washingtoniano e
no códice Chester Beatty conhecido c o m o <})45), que agrupa os Evangelhos nesta seqüência: Mateus,
João, Lucas e Marcos, talvez na tentativa de conceder lugar de honra aos Evangelhos atribuídos aos
apóstolos. Veja Goswell, “Order o f the Books o f the New Testament”, p. 229, nota 23.
9Observe que o Evangelho de Lucas também inclui uma genealogia de Jesus Cristo, mas não
no início do livro (cf. Lc 3.23-38). Goswell, referindo-se a Trobisch, em “Order o f the Books o f the
New Testament” (p. 228, nota 21), curiosamente dá a entender que, do ponto de vista canônico, a
menção de Lucas às experiências anteriores de se escrever um relato do que Jesus disse e fez pode
ser entendida como referência aos Evangelhos de Mateus e Marcos.
“ Veja o subtítulo de sua obra The History o fth e Christ.
propriamente uma parte da teologia do Novo Testamento. Muito mais provável é,
entretanto, que o ensino da igreja primitiva — na verdade, o ensino dos apóstolos —
esteja inextricavelmente ancorado no ensino e na vida do chamado “Jesus histórico”.
De fato, foi o ensino e a ressurreição de Jesus que geraram o que se chamou de “fé
pascal”, isto é, o reconhecimento auxiliado pelo Espírito de que a própria pessoa
de Jesus é o Messias predito no Antigo Testamento.
Esse reconhecimento, por sua vez, explica bem a presença do livro de Atos no
cânon do Novo Testamento logo em seguida aos quatro Evangelhos, uma vez que
o livro de Atos apresenta a missão de Jesus continuada na igreja e, por meio dela,
no poder do Espírito Santo (At 1.1; cf. Jo 14— 16). De acordo com Lucas—Atos,
não há, portanto, nenhuma dicotomia bultmanniana entre o Jesus histórico e o
Cristo da fé. Antes, Lucas—Atos conserva a unidade histórico-salvífica essencial
entre a missão consumada de Cristo e a missão da igreja iniciada no Pentecostes,
continuada através do livro e até os dias de hoje.11 Atos, portanto, mostra que
houve continuidade entre Jesus e a igreja primitiva e que aquilo que começou com
a vida de um pregador galileu itinerante, crucificado fora da cidade de Jerusalém,
veio a ser uma religião mundial que alcançou os limites da terra então conhecida,
representada pela capital do império mundial, Roma.
A narrativa da expansão do cristianismo no livro de Atos, por sua vez, resu­
me e fornece a estrutura para as Epístolas que vêm em seguida no cânon do Novo
Testamento. Pedro, Paulo, João e Tiago, todos autores de cartas do Novo Testamento,
figuram no livro de Atos, que assim fornece o contexto de vida (ou talvez melhor,
contexto ministerial) dos últimos escritos do Novo Testamento. O ministério de
Paulo é predominante na última metade do livro de Atos, que relata a fundação de
algumas congregações locais estratégicas pela atividade missionária de Paulo. As
cartas a essas mesmas congregações constituem a espinha dorsal do corpus paulino
no Novo Testamento. Especificamente, trata-se das epístolas de Paulo aos Gálatas,
aos Tessalonicenses, aos Coríntios e aos Efésios (porém, não Romanos nem
Colossenses, igrejas que Paulo não plantou), assim como suas cartas a Timóteo (porém,
aão Tito nem Filemom, homens não mencionados em Atos). Também são incluídas
uma epístola de Tiago, duas de Pedro e três de João (porém, não Hebreus, cujo autor
e desconhecido, nem a epístola de Judas, o irmão menos conhecido de Tiago).12

:lPara um estudo completo da teologia bíblica da missão, veja Andreas J. Kõstenberger e Peter T.
CfBrien, Salvation to the Ends o fth e Earth, NSBT 11 (Downers Grove: InterVarsity, 2002).
-Para uma análise completa do contexto histórico, aspectos literários e principais temas teológicos
em cada um desses livros, veja Kõstenberger, Kellum e Quarles, Cradle, the Cross, and the Crown.
Foi esse foco nos apóstolos como os representantes nomeados de Jesus que
se mostrou decisivo no reconhecimento do cânon do Novo Testamento pela igre­
ja. Mateus e João foram aceitos por causa da autoria apostólica, Marcos e Lucas
(assim como Atos) por causa da relação de seus autores com apóstolos destacados
(Pedro e Paulo, respectivamente). As cartas de Paulo foram aceitas com base em seu
ofício apostólico (assim como Hebreus, possivelmente por causa de sua suposta e
geralmente aceita autoria paulina). Outras epístolas foram as de Pedro e as de João,
mais a de Tiago e a de Judas devido à relação de meios-irmãos destes dois com
Jesus e, no caso de Tiago, seu papel de líder da igreja de Jerusalém no Concilio de
Jerusalém (At 15; G12). A apostolicidade e, por extensão, a “regra de fé” (a regula
fidei, i.e., o ensino dos apóstolos) era o critério mais importante, uma vez que a
igreja reconhecia a inspiração divina e a autoridade sobrenatural dos vários livros
que passaram a compor o cânon do Novo Testamento.
Isso também se aplica ao último livro do Novo Testamento, o Apocalipse,
que dá a entender que é de João, “o vidente”, que a igreja primitiva considerava
ser ninguém menos que João, o apóstolo (do Evangelho), e João, “o presbítero”
(das Epístolas). Assim como os Evangelhos em geral e o Evangelho de Mateus em
particular constituem uma introdução adequada à história de Jesus, o livro de
Apocalipse também estabelece uma conclusão apropriada, descrevendo de fato
o retorno glorioso de Jesus (sua “segunda vinda”, também chamada de parousia
[“vinda”] ou epiphaneia [“revelação”] no Novo Testamento). O retorno de Jesus,
seguido de seu julgamento do mundo e a reunião dos eleitos (a comunidade da
aliança) para estarem com ele para sempre no céu são uma conclusão apropriada
do enredo da história bíblica, que começa com a Criação e a Queda e termina com
a nova criação e a restauração de todas as coisas em Cristo.13
Esse resumo da natureza coerente do cânon do Novo Testamento e das inter-
-relações das várias partes que o constituem é válido sejam quais forem os meios
específicos em que o cânon do Novo Testamento em geral confirmado hoje veio
a ser oficial e amplamente reconhecido. Tradicionalmente, o processo canônico
tem sido concebido como um processo gradativo que culminou no século quarto.
Também há evidências de uma compilação mais antiga dos livros canônicos do

13Sobre o tema da “nova criação” no Novo Testamento, veja esp. Gregory Beale, “The New Tes­
tament and New Creation”, in: Hafemann, Biblical Theology, p. 159-73; veja também, do mesmo
autor, “The Eschatological Conception o f New Testament Theology”, in: Kent E. Brower e Mark
W. Elliott, orgs., Eschatology in Bible & Theology (Downers Grove: InterVarsity, 1999), p. 11-52 e
The Temple and the Churchs Mission, NSBT 17 (Downers Grove: InterVarsity, 2004; porém, não
apoiamos todas as suas interpretações).
Novo Testamento.14Em sua forma atual e final, o cânon do Novo Testamento, com
seus 27 livros, constitui um todo unificado e coerente que serve como o apropria­
do quadro geral de referência para a interpretação de passagens individuais do
Novo Testamento.15 .

OS EV A N G ELH O S E O EVA N G ELH O


Como se mencionou, os quatro Evangelhos bíblicos apresentam o único evangelho
da salvação em Jesus Cristo, segundo quatro testemunhas importantes: Mateus,
Marcos, Lucas e João.16 Goldsworthy faz a útil observação de que os quatro Evan­
gelhos situam a origem da missão de Jesus já no início das Escrituras hebraicas
(i.e., o Antigo Testamento).17Isso tem importantes implicações canônicas. Analise
o modo em que os quatro Evangelhos começam:
Mateus 1.1: Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão...
Marcos 1.1,2: Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Con­
forme está escrito no profeta Isaías...
Lucas 1.1-4 refere-se a relatos anteriores da vida de Jesus e relaciona a vinda
de Jesus a Davi e Abraão (Lc 1.27,54,55).
João 1.1-3: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo
era Deus [...]. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele...

14David Trobisch, em The First Edition ofthe New Testament (Oxford/New York: Oxford University
Press, 2000), propõe que um círculo editorial do segundo século tenha sido responsável por uma
"edição canônica” de 27 livros comumente considerados integrantes do Novo Testamento. Como
prova, Trobisch cita a evidência da presença generalizada dos chamados nomina sacra, isto é, palavras
abreviadas usadas para a divindade, e o uso quase universal do códex em lugar do pergaminho.
Ele também observa a ordem uniforme dos primeiros códices escriturísticos — Evangelhos, Atos,
Epístolas Paulinas (incluindo Hebreus) e Apocalipse — e a uniformidade dos títulos de livros
individuais. Note, porém, a crítica a respeito da tese de Trobisch por Andreas J. Kõstenberger:
■“I Suppose’ ( oim ai ): The Conclusion o f Johns Gospel in Its Literary and Historical Context”, in:
P. J. Williams, et al., org., The New Testament in Its First Century Setting (Grand Rapids: Eerdmans,
2004), p. 8 0 -1 , n. 31.
15Para um estudo aprofundado do cânon do Novo Testamento, veja Kõstenberger, Kellum e
Quarles, Cradle, the Cross, and the Crown, cap. 1.
I6Cf. Martin Hengel, The Four Gospels and the One Gospel o f Jesus Christ (Valley Forge, PA: Trinity
Press International, 2000). Sobre o evangelho, veja também Andreas J. Kõstenberger, “The Gospel
for Ali Nations”, in: Christopher W. Morgan e Robert A. Peterson, orgs., Faith Comes by Hearing:
A Response to Inclusivism (Downers Grove: InterVarsity, 2009), p. 201-19. Veja também a análise
do “Evangelho quádruplo” em Goswell, "Order o f the Books o f the New Testament”.
17Cf. Graeme Goldsworthy, According to Plan: The Unfolding Revelation o f God in the Bible
Leicester, UK: InterVarsity, 1991), p. 107-9.
Desse modo, Mateus começa pela árvore genealógica de Jesus, com Abraão,
Davi e o Exílio como os pontos mais importantes, nos quais Abraão e Davi são
os principais destinatários das promessas de Deus, e o Exílio marca a incapaci­
dade de Israel de receber as bênçãos associadas a essas promessas. Marcos situa a
vinda de João Batista, o precursor de Jesus, na mensagem profética de Isaías e de
Malaquias. João é o mensageiro designado por Deus e cumpridor das Escrituras que
prepara o caminho para Jesus, o Messias. Semelhante a Mateus, Lucas, do mesmo
modo, ancora a vinda de Jesus nas promessas do Antigo Testamento feitas a Abraão
e Davi; o Batista está relacionado a Elias (Lc 1.17). João, por fim, remonta à criação
por meio do Verbo pré-encarnado, Jesus Cristo.
O mesmo entendimento se aplica à primeira epístola e primeira carta de Paulo
no cânon do Novo Testamento, o livro de Romanos. Nela Paulo fala do “evangelho
de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras,
acerca de seu Filho, que, humanamente, nasceu da descendência de Davi, e com
poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição
dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.1-4). A importante observa­
ção de Paulo é que o evangelho não era uma novidade recente, mas, sim, já havia
sido prometido antes, por meio dos profetas, nas Escrituras do Antigo Testamento.
Também o Apocalipse apresenta Cristo de acordo com as personagens e a
linguagem figurada do Antigo Testamento (e.g., Ap 1.17—3.22).
Quando lemos os Evangelhos, a centralidade de Jesus nos chama a atenção, em
particular sua crucificação e ressurreição.18 Os quatro Evangelhos culminam com
a narrativa da Paixão, e todos combinam e cooperam em apresentar o sacrifício de
Jesus como substitutivo e expiatório. Assim, os Evangelhos constituem o quadro
perfeito para a declaração de Paulo em ICoríntios:

Porque primeiro vos entreguei o que também recebi: Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras; e foi sepultado; e ressuscitou ao terceiro dia, segundo
as Escrituras (IC o 15.3,4).

O que se destaca nos quatro Evangelhos não é aquilo em que a igreja cria
sobre Jesus, mas, sim, a pessoa do próprio Jesus — sua presença majestosa nos qua­
tro Evangelhos.19 Não somente Jesus é chamado de Deus (Jo 1.1,18; 20.28; Fp 2.6;

I8Cf. D. A. Carson, The Gagging o f God: Christianity Confronts Pluralism (Grand Rapids:
Zondervan, 1996), p. 257-64. [Edição em português: O Deus Amordaçado: o Cristianismo Confronta
o Pluralismo (São Paulo: Shedd, 2013).]
19Ibidem, p. 257.
Tt 3.4,5), mas também Paulo e Pedro aplicam a Jesus, sem titubear, referências do Antigo
Testamento a Yahweh. O autor de Hebreus afirma que Jesus não somente é a revelação
final de Deus, mas também a representação exata de seu ser (Hb 1.1-3).
Com respeito à mensagem de Jesus, pelo menos nos Evangelhos Sinóticos, o tema
predominante é o do reino de Deus (Mc 1.15; cf. os capítulos das parábolas do reino
em Mateus e Lucas). O reino de Deus, em conformidade com as promessas divinas
a Davi (e.g., 2Sm 7.14), representa o cumprimento das antigas promessas vetero-
testamentárias a Israel. “Reino” também transmite a noção do reinado ou governo
de Deus sobre seu povo e, em Jesus, o reino de Deus já está presente (Lc 17.21).20
Os Evangelhos não só proveem o complemento do Antigo Testamento como
:ambém constituem o fundamento do cânon do Novo Testamento. Os quatro tomam
seu ponto de partida consciente das Escrituras hebraicas e dos atos de Deus na his­
toria e suas promessas a seus servos escolhidos.21 Por sua vez, eles constituem uma
rente abundante de informações da qual a igreja primitiva, Paulo e outros autores
do Novo Testamento extraíram sua formulação do evangelho cristão (esp. Rm 1.2-4;
ICo 15.3,4).22 O livro de Apocalipse, por fim, mostra que o reino do mundo agora
rassou a ser o reino do Cristo de Deus (Ap 11.15).

O L IV R O D E A TO S E A IG R E JA PR IM ITIV A
0 livro de Atos não somente mantém importantes ligações com o Evangelho de
Lucas (cf. At 1), mas também se fundamenta, de modo significativo, na narrativa
da missão de Jesus nos quatro Evangelhos e lhe dá continuidade (cf. Jo 21.25 e
Aí 1.1). Desse modo, em sua inclusão canônica e localização estratégica, o livro de

-Ibidem , p. 260-3.
-A lém disso, é possível que o cânon do Novo Testamento apresente uma estrutura paralela ao
ã a o n do Antigo Testamento, “de modo que os Evangelhos correspondam ao Pentateuco; Atos, aos
livros Históricos; as Epístolas, aos Livros Poéticos, e Apocalipse, aos Livros Proféticos” (Goswell,
“Order o f the Books of the New Testament” p. 225-6). Desse modo, o Pentateuco inclui uma biografia
ü Moisés enquanto os Evangelhos (mais o “quinto” livro, Atos) contêm a biografia de Jesus. Veja
rambém Christopher R. Seitz, que dá a entender que a estrutura de três partes da Bíblia hebraica
nduenciou o formato do cânon do Novo Testamento (The Goodly Fellowship o fth e Prophets: The
hievement o f Association in Canon Formation [Grand Rapids: Baker, 2009], p. 103).
-C om o Robert W Wall afirma, os Evangelhos são o “subtexto de todos os livros seguintes no
Sovo Testamento” (“The Significance o f a Canonical Perspective o f the Churchs Scripture”, in: L.
>L McDonald e J. A. Sanders, orgs., The Canon Debate [Peabody, MA: Hendrickson, 2002], p. 536).
Veia também Eugene E. Lemcio, “The Gospels withm the New Testament Canon”, in: Craig Bartho-
fltoew et al., orgs., Canon and Biblical Interpretation, Scripture and Hermeneutics 7 (Grand Rapids:
Zondervan, 2006), p. 123-45.
Atos registra a importante informação de que a vida e a missão da igreja primitiva
se ancoram na vida e na missão do próprio Jesus Cristo. Assim, os vários comis­
sionamentos de Jesus a seus discípulos, registrados nos Evangelhos (Mt 28.18-20;
Lc 24.46-49; Jo 20.21,22), resultam naturalmente na busca da igreja primitiva
do cumprimento de sua missão (cf. esp. Lc 24.46-53 e At 1.1-11). Esse aspecto
também é parte integrante da estrutura do Evangelho de João, que mostra Jesus
prevendo seu estado elevado com Deus depois da crucificação e ressurreição (sua
“glorificação”) e, por isso, falando a seus discípulos sobre a missão deles dali em
diante (o Discurso de Despedida [Jo 13— 17]).23
Os aportes mais importantes da teologia do Novo Testamento fornecidos pelo
livro de Atos em nível canônico são os seguintes: Primeiro, a missão da igreja é dirigi­
da pelo poder do Espírito Santo a partir de sua vinda no Pentecostes (At 2). Embora
os Evangelhos se refiram muitas vezes ao Espírito Santo, sobretudo o Evangelho de
Lucas, essas referências se concentram exclusivamente em Jesus como o Messias
ungido pelo Espírito (e.g., Lc 4.18,19, cit. Is 60.1,2) ou preveem seu futuro minis­
tério nos discípulos de Jesus e por intermédio deles (e.g. Jo 7.37-39; 14.16-18,26;
15.26,27; 16.7-15; 20.22). O livro de Atos dos Apóstolos na realidade é o livro dos
Atos do Espírito Santo (cf. At 1.2,5,8 etc.).
Em segundo lugar, o livro de Atos também marca um novo tipo de relação
que se mantém entre os cristãos e Jesus. Em vez de temer a Deus (Pai) como os
fiéis do Antigo Testamento faziam e em vez de deixar literalmente seu ambiente
familiar e seguir a Jesus no seu ministério terreno, como seus primeiros seguidores,
os crentes da era da igreja mantêm uma relação orgânica e imprescindível com
Deus Pai e Jesus no Espírito Santo e por meio dele (observe o aspecto trinitário; a
esse respeito, veja Jo 14 e 15).
Essa situação, por sua vez, implica que a igreja ore ao Jesus exaltado para
buscar o cumprimento de sua missão (que continua sendo a missão de Jesus; cf.,
e.g., Jo 14.12,13; At 4.24-31). O fato de Jesus não ter renunciado a seu ministério,
mas tê-lo confiado a seus discípulos mediante a direção da “outra presença auxi­
liadora”, o Espírito Santo, significa que eles devem servir como seus representantes
devidamente comissionados e autorizados — como suas testemunhas (Lc 24.48;
At 1.8; Jo 15.26,27) —, e não exaltar a si mesmos como autores da mensagem do
evangelho nem de fórma alguma se comparar a Jesus.24

23Veja Andreas J. Kõstenberger, John, BECN T (Grand Rapids: Baker, 2004), p. 395-8, 419.
24Essa percepção assinala o peso e os achados da monografia sobre missão, de Andreas J.
Kõstenberger, The Missions o f Jesus and the Disciples According to the Fourth Gospel (Grand Rapids:
Eerdmans, 1998).
Em terceiro lugar, o livro de Atos, antes de tudo, tem a ver com a missão, na
busca irresistível e inexorável dos pecadores perdidos por meio do evangelho do
perdão e salvação no Senhor Jesus Cristo. Desse modo, o livro de Atos marca o
início do cumprimento das palavras de Jesus de que, antes de o fim chegar, é ne­
cessário pregar o evangelho a todas as nações (Mc 13.13 e parais.). De acordo com
as palavras de Jesus e dando início ao cumprimento dessas palavras, Atos narra a
expansão do evangelho a partir de Jerusalém para a Judeia, Samaria e os confins da
terra (At 1.8), culminando na pregação do evangelho por Paulo em Roma, a capital
do império (At 28.30,31).
Isso, por sua vez, ocorreu em cumprimento da visão profética do Antigo
Testamento (At 28.26,27, cit. Is 6.9,10), segundo a qual o evangelho se espalharia
para além de Israel para as nações (cf. Rm 1.16). Esse movimento já é evidente nos
Evangelhos de vários modos:

1. dentro do Evangelho de Mateus, há um movimento partindo dos judeus


para os gentios (cf. Mt 10.6; 15.24; 28.16-20);25
2. partindo de Mateus, que se concentra no cumprimento das previsões mes­
siânicas do Antigo Testamento para Israel, para os Evangelhos de Marcos
e de Lucas, ambos os quais se dirigem a um público basicamente gentio
(quer romanos, no caso de Marcos, quer destinatários mais universalmente
gentios, como no caso de Lucas; observe que o próprio livro de Atos narra
a divulgação e a expansão do evangelho para o mundo não judaico);
3. o Evangelho de João apresenta resumidamente a missão de Jesus aos
judeus, aos samaritanos e ao gentios nos capítulos 2, 3 e 4;
4. de todos os Evangelhos, João talvez seja o mais vivamente concentrado
na natureza universal do evangelho e na exigência unicamente da fé em
Jesus, o Messias, para a salvação (veja, e.g., Jo 3.16);
5. enquanto os quatro Evangelhos apresentam a missão de Jesus restrita a
Israel (exceto quando algum gentio tomava a iniciativa de se aproximar
dele), o livro de Atos mostra que agora, com base na obra de Cristo consu­
mada na cruz e apoiado na justificação de Jesus por Deus na ressurreição, o
evangelho irrompe e se estende para além dos limites judaicos, penetrando
no mundo gentio, em cumprimento da promessa abraâmica (Gn 12.1-3;
cf. Mt 28.16-20); Paulo deixa isso mais explícito quando diz que “não há
judeu nem grego” em Cristo (G1 3.26-28).

“ Kõstenberger e 0 ’Brien, Salvation to the Ends o fth e Earth, cap. 5.


Diante dessas observações, fica claro que, em nível canônico, o livro de Atos
apresenta a igreja primitiva firmemente alicerçada nas Escrituras hebraicas e na
missão do próprio Jesus. Portanto, Atos é uma continuação adequada do enredo
canônico que se estende das promessas de Deus para Abraão, o pai da nação ju ­
daica, a Jesus, a “semente” de Abraão (G1 3.16), e por meio de Jesus para toda a
humanidade, quer judeus, quer gentios, mediante suas testemunhas comissionadas
e autorizadas, a igreja do Novo Testamento.

E P ÍS T O L A S , C R IS T O E A S IG R E JA S
As epístolas do Novo Testamento são documentos vivos do período da missão
da igreja primitiva. Elas possibilitam um vislumbre fascinante da interação entre
os missionários fundadores de igrejas, como Paulo, e a igreja que eles fundaram
(ou, em alguns casos, não).26 Em muitos casos (se não na maioria), o livro de
Atos desse modo fornece o fundamento canônico, histórico e lógico para nossa
leitura das Epístolas, visto que retrata os primeiros dias e anos da igreja, desde seu
princípio, bem como seus retrocessos e êxitos missionários, seguindo um padrão
geográfico que vai de Jerusalém até Roma e apresentando a obra missionária de
Pedro, Paulo e seus companheiros.
O modo em que o livro de Atos serve como base essencial para a leitura das
epístolas do Novo Testamento (sobretudo as de Paulo) pode ser demonstrado na
tabela a seguir:27

4.1. ATOS COMO PANO DE FUNDO DAS EPÍSTOLAS

EVENTO MOTIVADOR EPÍSTOLA DO NOVO


“ TESTAMENTO

14; 16.6 Igrejas fundadas na Galácia i| Gálatas

15 Concilio de Jerusalém Tiago

16.1-5 Paulo e um discípulo cham ad oT im ótco 1 e 2Timótco

16.11-40 Igreja fundada em Filipos j Filipenses

“ Para um bom panorama de informações pertinentes, veja a análise sob o título “The Letters”,
em Goswell, “Order o f the Books o f the New Testament”, p. 235-40.
27Observe que a lista das epístolas do Novo Testamento está na ordem correspondente a Atos, não
necessariamente em ordem de escrita cronológica. Para conhecer a cronologia paulina, veja o cap. 2.
PASSAGEM EVENTO MOTIVADOR EPÍSTOLA DO NOVO
DE ATOS TESTAMENTO

Í7.1-9 Igreja fundada em Tessalômca 1 e 2Tessalonicenscs

18.1-17 Igreja fundada em Corinto 1 e 2Conntios

19; 20.13-38 Igreja fundada em Efeso Efésios

. 28.30,31 Paulo prega o evangelho em Roma Cartas da prisão

Além disso, o livro de Atos também apresenta os ministério de Pedro e João,


que escreveram 1 e 2Pedro e 1, 2 e 3João, respectivamente. Áquila ou outro mem­
bro do círculo paulino é um possível autor do livro de Hebreus, embora isso seja
apenas especulação.
Quanto a uma coleção de cartas paulinas, há algumas evidências no Novo
Testamento de que o corpus paulino tenha se formado muito cedo, mesmo enquanto
as cartas de Paulo ainda estavam sendo escritas (2Pe 3.15,16).28 Não somente isso,
elas eram consideradas da mesma natureza das Escrituras do Antigo Testamento,
assim como os Evangelhos (lTm 5.18 possivelmente cit. Lc 10.7 em combinação com
Dt 24.5). Também há bons motivos para acreditar que Paulo escreveu treze cartas
incluídas no cânon do Novo Testamento: Gálatas; 1 e 2Tessalonicenses; 1 e 2Coríntios;
Romanos; as cartas da prisão (Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom) e as cartas
pastorais (1 e 2Timóteo, Tito), entretanto, provavelmente não o livro de Hebreus.
Na época de Marcião, o corpus paulino consistia em pelo menos dez epístolas
:inclusive uma carta aos laodicenses, possivelmente Efésios) e talvez treze epístolas
íincluindo as pastorais, que Marcião talvez tenha rejeitado).29Isso também é confir­
mado pelo manuscrito em papiro ^>46, que muitos situam por volta do ano 200 d.C.
O Cânon de Muratori, cuja data mais provável situa-se entre 180 e 200 d.C., lista
13 cartas, e no quarto século há consenso de que o corpus paulino consistia em 13
ou 14 cartas (dependendo da autoria de Hebreus). Em relação à ordem, Trobisch

I8Veja, e.g., Jack Finegan, “The Original Form o f the Pauline Collection”, HTR 49 (1956), p. 85-103,
esp. 88-90; David Trobisch, Die Entstehung d er Paulusbriefsammlung, N TOA 10 (Freiburg:
Universitãtsverlag, 1989), p. 14-61.
’9Para o material do presente parágrafo, veja esp. Stanley E. Porter, “W hen and How Was the
Pauline Canon Compiled? An Assessment o f Theories”, in: Ibidem, org., The Pauline Canon (Leiden/
3oston: Brill, 2004), p. 95-127.
propõe que as cartas às congregações foram situadas antes das cartas a indivíduos,
e as cartas à mesma igreja foram mantidas juntas.30 Trobisch também propõe que,
de Romanos a Gálatas, as epístolas podem ter sido reunidas e organizadas pelo pró­
prio Paulo.31 Outra hipótese é que um seguidor próximo, como Timóteo ou Lucas
(cf. Cl 4.14; Fm 24; 2Tm 4.11), pode ter participado da reunião e organização das
cartas paulinas. Isso estabeleceria mais um vínculo entre Paulo e Lucas.
Conquanto o livro de Atos forneça o alicerce para a leitura canônica das epísto­
las do Novo Testamento, estas vão além da simples descrição do progresso da igreja
primitiva. Cada uma dessas cartas nos oferece um relato dos problemas e questões
que determinada igreja enfrentava, além do julgamento dessas questões pelo autor
neotestamentário. Isso talvez seja mais evidente numa carta como ICoríntios, que,
começando no capítulo 7, trata de algumas questões que, pelo visto, os coríntios
pediram que Paulo abordasse (cf. ICo 7.1,25; 8.1; 12.1; 15.1).
Neste ponto, todavia, devemos lembrar que a natureza ocasional das epístolas
do Novo Testamento não necessariamente implica que as conclusões dos autores
neotestamentários em relação a diversas questões tratadas sejam de natureza
meramente temporária. Ao contrário, pela natureza apostólica, muitas delas têm
aplicabilidade permanente, pelo menos no seu aspecto principal (embora às vezes
fatores culturais necessitem da transposição do princípio para um que seja adequado
aos dias de hoje).
Por exemplo, Timóteo pode ter encontrado dificuldades com presbíteros da
igreja de Éfeso (cf., e.g., lTm 5.19-25, que fala de “presbíteros pecadores” no v. 20 e
adverte contra a designação apressada de líderes da igreja, v. 22), mas isso não significa
que os requisitos para os líderes da igreja em ITimóteo 3 também sejam de natureza
temporária. O mais provável é que transcendam a ocasião em que as advertências
foram feitas e se apliquem permanentemente à igreja como declarações apostólicas
inspiradas. Em outros casos, como em ICoríntios 11.2-16, o princípio (liderança
masculina, exposta no v. 3) pode ser de importância permanente enquanto sua ex­
pressão cultural pode estar sujeita a mudanças (i.e., a cobertura da cabeça feminina).

30David Trobisch, Pauis Letter Collection: Tracing the Origins (Minneapolis: Augsburg Fortress,
1994), p. 52-4, 25; sobre isso, cf. o resumo e a crítica em Porter, “Pauline Canon”, p. 113-21. Veja
também Brevard Childs, in: The Churdís Guídefor ReadingPaul: The Canonical Shaping ofthe Pauline
Corpus (Grand Rapids: Eerdmans, 2008), que propôs que o restante do corpus paulino deve ser lido
à luz do ensino maduro de Paulo no livro de Romanos. Childs também argumenta que Romanos e
as Epístolas Pastorais funcionam como os suportes nas extremidades da coleção das cartas, com as
últimas mostrando como as primeiras devem ser lidas como Escritura, p. 164-7.
31Idem ibidem, p. 54. Veja também E. R. Richards, The Secretary in the Letters ofPaul, W U N T
2/42 (Tübingen: M ohr Siebeck, 1991), esp. 1 64-5,187-8, com referência a 2Timóteo 4.13.
As Epístolas neotestamentárias também nos fornecem uma teologia plena­
mente desenvolvida das implicações da obra de Cristo para a vida do cristão, como
o ensino de Paulo da união dos cristãos com Cristo no nível individual e seu ensino
sobre a igreja como o corpo de Cristo em nível coletivo. Além disso, as Epístolas
também contêm muitos outros ensinos que Paulo se empenhou em desenvolver,
entre eles a natureza do corpo da ressurreição (IC o 15.35-58), acontecimentos do
fim dos tempos, como o arrebatamento (lTs 4.13-18), e a relação entre os gentios
e Israel no âmbito histórico-salvífico (Rm 9— 11). Embora algumas vezes Paulo
tenha feito uso do ensino de Jesus, outras vezes ele teve de construir seu próprio
caminho com aplicação messiânica e dirigida pelo Espírito Santo a partir das
Escrituras hebraicas ou de outros meios (cf. ICo 7.10,12).
Portanto, do ponto de vista canônico, as Epístolas se fundamentam nos
Evangelhos e no livro de Atos, e ainda vão além deles. Em Atos, lemos acerca de
Paulo; em suas Epístolas, ouvimos diretamente de Paulo. Nos Evangelhos, por outro
lado, ouvimos de Jesus diretamente; nas Epístolas, ouvimos sobre as ramificações
da obra de Jesus para os crentes. Ambos os enfoques são necessários e comple-
mentares.32 Enfim, na perspectiva canônica, as epístolas do Novo Testamento são
parte essencial das Escrituras inspiradas e da revelação com autoridade divina,
comunicadas, por assim dizer, por intermédio dos autores apostólicos que trataram
de questões práticas nas diversas igrejas sob seus cuidados.33
Do ponto de vista hermenêutico, enquanto o livro de Atos, como narrativa
histórica, conta-nos mais abertamente o que de fato ocorria na igreja primitiva, as
Epístolas, como material didático, concentram-se mais explicitamente no que devia
acontecer na igreja, tanto por declaração direta — por exemplo, “Perdoai-vos uns
aos outros”— como pela análise de um exemplo ou princípio (e.g., ter sensibili­
dade para com outros no caso de comer alimento oferecido aos ídolos, ICo 8; cf.
Rm 14— 15). Isso não significa que as Epístolas tratem de toda situação imaginável.
Antes, os exemplos característicos servem como ilustração de que o Espírito con­
duzia a igreja por meio dos legítimos representantes de Deus lidando com vários
desafios e oportunidades. Dentro desses parâmetros bíblicos, a igreja de hoje deve

32A respeito da relação entre o “Paulo de Atos” e o “Paulo das Epístolas”, veja Kõstenberger,
“Diversity and Unity”, p. 149-50 e a literatura ali citada; veja também a seção sobre supostos desen­
volvimentos em Paulo, p. 151-2.
33Veja também a importante observação de Richard B. Hays, The Faith o f Jesus Christ: The Nar­
rative Substructure o f Galatians 3:1 — 4:11, 2. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 2002), p. 219-20, de
que há uma coerência fundamental de estrutura narrativa entre as cartas de Paulo e os Evangelhos.
aperfeiçoar o discernimento e o julgamento maduro — “a mente de Cristo” — a fim
de compreender qual é a vontade de Deus em qualquer circunstância que enfrente.
Uma última observação diz respeito à contribuição das Epístolas para o cânon
do Novo Testamento. Do mesmo modo em que os Evangelhos se referem à figura
majestosa de Jesus e o livro de Atos registra o que Jesus continuou fazendo a partir
de sua posição exaltada por meio da igreja, no poder do Espírito Santo (At 1.1), nas
Epístolas, igualmente, Cristo está bem no centro. As cartas de Paulo em particular
são ricas em referências a “Cristo”, “Cristo Jesus” e “o Senhor Jesus Cristo”. O co­
mentário de David Wenham expressa isso muito bem: “Em resumo, para Paulo o
cristianismo é Cristo”.34A confissão cristã primitiva mais básica era Christos kyrios,
isto é, “Cristo é Senhor” (e.g., At 2.36; Rm 10.9; Fp 2.11) e Paulo ensinava que “há
um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual todas as coisas existem e por meio de quem
também existimos” (IC o 8.6). Paulo também ensinava que o próprio Jesus, e não
os líderes da igreja, é a cabeça da igreja (Ef 1.22; 4.15; 5.23; Cl 1.18) e que ele deve
ter supremacia em tudo (Cl 1.18).
Logo, Cristo não é somente o pressuposto da teologia do Novo Testamento,
como Bultmann declarou, mas está no próprio núcleo da teologia neotestamentária.
Não há dicotomia entre o Jesus dos Evangelhos e o Cristo das Epístolas. Ao contrário,
há uma unidade essencial entre o Jesus que viveu, morreu e ressuscitou — o Jesus
dos Evangelhos — e o Jesus do evangelho, o chamado “Cristo da fé”, em quem os
cristãos depositaram sua fé.

O A P O C A L IP S E E A R E V E L A Ç Ã O D O V E R B O
Apocalipse, o último livro do cânon do Novo Testamento e do cânon completo
das Escrituras, é a extremidade final dos livros bíblicos, correspondente ao livro
de Gênesis na extremidade inicial do Antigo Testamento. O primeiro livro da
Bíblia nos conta a respeito da Criação (Gn 1—2); o último prevê a nova criação
(Ap 21—22). O primeiro livro fala a respeito da queda da humanidade (Gn 3), o
último, do cancelamento da maldição, do julgamento da humanidade pecadora e
do Diabo, bem como de seus subordinados, e de uma nova humanidade constituída
pelos redimidos de todas as tribos, línguas e nações agora restaurados (Ap 4—5). O
primeiro livro descreve o estado original da humanidade numa relação perfeita com
Deus; o último mostra o culto prestado a Deus e ao Cordeiro, o Senhor Jesus Cristo.

34Wenham, “Unity and Diversity”, p. 711, apud Kõstenberger, “Diversity and unity”, p. 156, nota 46.
Do mesmo modo que no Antigo Testamento (cf. Lc 24.25-27,32,44-49, citado
no início deste capítulo) e como nas outras porções do cânon do Antigo Testamento,
também no livro do Apocalipse Jesus está no centro — como o Cordeiro transformado
em Leão (Ap 4), como o Guerreiro Celestial que derrota a Besta (Ap 19) e, como o Juiz
do fim dos tempos (Ap 20), Jesus domina a cena completamente. No aspecto canônico,
o Apocalipse apresenta a consumação dos séculos e o cumprimento em Cristo do
plano de Deus para a humanidade e o cosmos (cf. Ef 1.10, que fala do propósito de
Deus de “fazer convergir todas as coisas sob uma cabeça [anakephalaioõ ], Cristo”).
Dando continuidade às Epístolas, também o livro de Apocalipse contém sete
epístolas às sete igrejas da Ásia Menor (Ap 2—3), entre elas Éfeso, que também é des­
tinatária de uma das cartas de Paulo. A advertência final contra acrescentar ou retirar
qualquer palavra da profecia do livro se estende no mínimo ao livro do Apocalipse em
seu todo e, no aspecto canônico, muito provavelmente a todo o cânon das Escrituras.
É digno de nota que o mesmo Jesus que os Evangelhos retratam crucificado e
ressurreto, que o livro de Atos mostra incentivando e orientando a missão da igreja
primitiva e que as Epístolas apresentam como Senhor e Cabeça da igreja, no Apocalipse
também é o Vencedor Glorioso que retorna, o Soberano Supremo e Rei (veja esp. Ap
19.16). O Apocalipse mostra Jesus derrotando todas as forças das trevas e inauguran­
do o estado eterno em que não há mais maldição, nem noite, nem morte, nem luto,
nem choro, nem dor, pois a antiga ordem terá passado para sempre (Ap 21.4; 22.3,4).
Também não há mais templo, pois o próprio Deus viverá entre seu povo. “Eles
serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3). Não somente será res­
taurado o Éden, mas o fim será ainda melhor que o início, pois Jesus, o Salvador
encarnado, sofredor, ressurreto e triunfante será adorado e exaltado pelo povo de
Deus por toda a eternidade.
Do ponto de vista histórico-salvífico (veja o tema da aliança, que ecoa no citado
texto, Ap 21.3) assim como no aspecto literário e teológico, o Apocalipse, portanto,
constitui uma conclusão satisfatória para o cânon do Novo Testamento e da Bíblia.
Como toda a Escritura, essa conclusão é centrada em Cristo. O livro também re­
toma e resolve satisfatoriamente as diversas tensões das Escrituras, inclusive a do
sofrimento dos crentes causado pela repressão e perseguição impostas pelo iníquo
e o clamor deles pela vindicação divina. A teodiceia, a defesa do caráter e propósi­
tos justos de Deus, está portanto no núcleo deste último livro das Escrituras,35 que

35Grant R. O sbom e, “Theodicy in the Apocalypse”, TrinJ NS 14/1 (1993), p. 63-77.


em termos escatológicos concretiza a declaração de Paulo de que “Deus estava em
Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo” (2Co 5.19).

CO N CLU SÃ O
O panorama do cânon do Antigo e do Novo Testamento neste capítulo e no anterior
fornece o enquadramento correto para a interpretação bíblica, em harmonia com
o importante princípio de interpretar as partes (i.e, as passagens individuais) à
luz do todo (o ensino total das Escrituras). Com base nesses contornos gerais do
cenário bíblico, vamos nos concentrar nos requisitos especiais necessários para
interpretar os diversos gêneros da Escritura.

1. Relacione a p a ssa g e m q u e voce está e stu d a n d o co m um d o s seguintes:


Evangelhos/Atos, Epístolas ou Apocalipse.

2. C o m p re e n d a a localizacao histórico-salvífica d o livro q u e vo cè está e stud and o:


n o s Evangelhos, o m inistério terreno de Jesus; n o livro de A to s e nas Epístolas,
a era da igreja e a m issã o da igreja primitiva; em Apocalipse, o fim d o s tem pos.

3. O b se rv e co m a te n a io c o m o cada u m a d as respectivas porcoe s d o câ n o n d o


N o v o Testam ento co m p le m e n ta e sup le m e n ta um a a outra e interprete-as na
relação correta entre elas. Por exem plo, q u a n d o e stud ar Filipenses, co n su lte n o
livro d e A to s o relato da fu n d a ç ã o d a igreja de Filipos.

4. O b se rv e q u a lq u e r lim itação q u e surja d as im p o siço e s de dete rm in ad a porcao


d o ca n o n d o N o v o Testam ento. Por exem plo, o b se rve c o m o o p ad rã o de Jesus
de form ar e instruir se us d iscíp u lo s se relaciona co m o e n sin o d e Paulo acerca
da igreja c o m o o co rp o de Cristo, co n stitu íd o d e m e m b ro s in d ivid u a is co m um
conjun to particular de d o n s espirituais.

5. Q u a n d o pertinente, analise atentam ente o u so q u e o N o v o Testam ento faz d o


A n t ig o Testam ento (veja m ais sob re isso n o cap. 15).

6. O b se rv e n ã o só o p ro g re sso histórico d o e n sin o d o N o v o Testam ento, m as


ta m b é m a interconexao tem ática entre p a ssa g e n s sobre to p ic o s se m e lhan te s
o u relacionados, de a co rd o co m o p rin cipio da Reform a d e q u e a Escritura
interpreta a própria Escritura.
arrebatamento. En con tro entre o s crentes viv o s na o ca siã o d o retorno d e Cristo e
seu S e n h o r ressurreto, s e g u n d o IT e ssa lo n ic e n se s 4.13-18.

bultmanniano. D e a co rd o co m o s e n sin o s d e R u d o lf Bultm ann, c o n h e c id o


te ó lo g o a le m ão d o sé cu lo 20.

Discurso de Despedida. Ú ltim o p e río d o d a in strução d e Je su s a se u s discípulos,


co n fo rm e Jo ã o 13— 17, ou, e n te n d id o d e fo rm a m ais restrita, J o ã o 13.31 -1 6 .3 3 .

edição canônica do Novo Testamento. N o ç ã o d e q u e o(s) responsável(is)


pela co m p ila çã o d o s livros d o N o v o Testam ento e m d ete rm in ad a o rd e m
m old ou (aram ) e sse d o c u m e n to de u m m o d o particular.

escatológico. Relativo ao fim d o s tem pos.

estado eterno. Céu.

hermenêutico. Interpretativo. ...........

histórico-salvífico. A c o n te c im e n to s d e a co rd o co m a revelação d o p la n o dc-


red enção de Deus.

n o m in a s a c r a . Palavras abreviadas referentes à d iv in d a d e e m m an u scrito s g re g o s


a n tig o s d o N o v o Testam ento.

p a r excellence. O m e lh o r e xe m p lo possível.

parusia. S e g u n d a vin d a d o S e n h o r Jesus Cristo.

r e g u la fidei. Latim, "regra da fe", isto é, o e n sin o d o s a p ó sto lo s c o m o a n o rm a para


a d ou trin a ortodoxa. ......................

teodiceia. Defesa d o caráter e p ro p ó sito s ju sto s d e Deus.


1. M e n c io n e resum idam ente? c o m o o s Evangelhos, o livro d e Atos, as Epístolas e
o A p o ca lip se sao o cu m p rim e n to d o A n tig o Testam ento n o N o v o co m foco n o
c u m p rim e n to da profecia bíblica em Cristo.

2. O q u e e o c a n o n d o N o v o Testam ento e c o m o elo se fo rm o u ?

3. Q ual a con trib u içã o d o s E v a n g e lh o s para o ca n o n d o N o v o Testam ento


c o m o um to d o ?

4. Q ual a con trib uicão d o livro d e A to s para o ca n o n d o N o v o Testam ento


c o m o um to d o ?

5. Q ual a con trib u ição d as Epístolas para o ca n o n d o N o v o T estam ento


c o m o u m to d o ?

6. Q ual a con trib u icã o d o A p o ca lip se para o ca n o n d o N o v o Testam ento


c o m o um to d o ?

7. C o m e n te sob re a u n id a d e te o ló gica subjacente ao N o v o Testam ento em


m eio à d ive rsid ade d o s autores b íblicos a fim d e ob ter para vocè m e sm o um a
estrutura geral q u e p ossa servir d e p o n to de referencia para a interpretação
de p a ssa g e n s bíblicas.
tanto ao co n te xto original d o A n t ig o Testam ento c o m o ao contexto de Lucas.
M o stre q u e a p a ssa g e m é parte integrante da m e n sa g e m de Isaías e q u e dá
im p orta n te contrib u içã o para a te o lo gia de Lucas.

Relate so b re c o m o o livro de A to s fornece a estrutura básica para as


Epístolas d o N o v o Testam ento. Faça um a linha cro n o lo g ic a q u e integre os
a co n te cim e n tos relatados n o livro d e Atos, a c o m p o siç ã o d a s cartas d o N o v o
Testam ento e outras in fo rm açõe s pertinentes.

Identifique p elo m e n o s tres m o d o s e m q u e o livro de A p o ca lip se se apresenta


c o m o o ápice da m e n sa g e m d o N o v o Testam ento e da Bíblia c o m o um todo.
A n a lise cada u m d e sse s m o d o s d eta lh a d a m en te e dé referencias especificas
d o livro de A p o ca lip se para fu n d a m e n ta r sua resposta.
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o e stu d an te da Escritura a natureza e as m od alid
A n t ig o Testam ento.
A. C a p ítu lo 5: objetivos

B. E sb o ç o d© capítulo

C. Natureza d a narrativa bíblica

D. M o d o s d a narrativa histórica d o A n t ig o Testam ento

1. C o n to s (estórias)

2. N arrações

3. Relatos

E. Elem e nto s d a narrativa histórica d o A n t ig o Testam ento

1. E lem e nto s e xternos

2. Elem e ntos internos

a. A m b ie n te :

b. En re d o ..

c. Caracterização

F. Estilo d e narrativa ■

1. Repetição _

2. Realce

3. Ironia

4. Sátira ........

G. A m o stra d e exegese: 1 Reis 19

1. In tro d uçã o

2. História

3. Literatura

4. Teologia .

H. Diretrizes para interpretar as narrativas históricas d a A n t ig o T estam ento

I, P alavras-chave

J, Q u e stõ e s para a p ro fu n d a r o e stu d o

K. Exercícios

L. Bibliografia d o capítulo
TEOLOGIA

HISTORIA ♦LITERATURAS

CANON «- GENERO LINGUAGEM


Antigo Testamento Narrativa histórica d o AT Contexto discursivo
N ovo Testamento Poesia e sabedoria Significado das palavras
Profecia Linguagem figurada
Narrativa histórica do NT
Parábolas
Epístolas
Leitura apocalíptica
Capítulo 5

UMA BOA HISTÓRIA: A NARRATIVA


HISTÓRICA DO ANTIGO TESTAMENTO

NATUREZA DA NARRATIVA BÍBLICA


gora que já fizemos um reconhecimento do panorama canônico — o teo-

A -drama, a “grande história” ou a metanarrativa das Escrituras —, podemos


olhar ao redor e conhecer mais de perto os diferentes aspectos da topografia
que trilharemos em nossa jornada: os vales, montanhas e planícies, por assim dizer.
Com relação à interpretação das Escrituras, esses gêneros ou tipos de literatura
são: 1) no Antigo Testamento: narrativa histórica, poesia e sabedoria, profecia; 2)
no Novo Testamento: narrativa histórica, parábola, epístola, literatura apocalíptica.
Nossa atenção, agora, volta-se para o que Kevin Vanhoozer chama de “a
semântica da literatura bíblica”, isto é, as características específicas de um dado
gênero da Escritura.1A interpretação dos diferentes gêneros que compõem o texto
das Escrituras já foi comparada ao ato de jogar diferentes tipos de jogos, como, por
exemplo, beisebol, basquete e futebol.2 Seja qual for o jogo, para jogá-lo é preciso
primeiro conhecer suas regras. Se você as desconhece, provavelmente não será

'Kevin J. Vanhoozer, “The Semantics o f Biblical Literature: Truth and Scriptures Diverse Literary
Forms”, in: D. A. Carson e John D. Woodbridge, orgs., Hermeneutics, Authority, and Canon (Grand
Rapids: Zondervan, 1986), p. 49-104.
20 primeiro a popularizar a noção de “jogos de linguagem” foi o filósofo austríaco Ludwig
Wittgenstein em seu livro Philosophicai Investigations, trad. G. E. M. Anscombe (Oxford: Blackwell,
1953) [edição em português: Investigações Filosóficas (Rio de Janeiro: Vozes, 1996)].
capaz de acompanhar uma partida, muito menos participar dela.3 Interpretar os
vários gêneros da Escritura não é muito diferente: para detectar as nuances mais
sutis transmitidas por uma passagem bíblica, é preciso aprender as “regras” que
orientam a interpretação desse determinado gênero literário.
Este capítulo estuda o primeiro gênero encontrado nas Escrituras: a narrativa
do Antigo Testamento. Os capítulos seguintes tratam da interpretação de sabedoria e
de poesia (cap. 6), profecia (cap. 7), narrativa do Novo Testamento (os Evangelhos e
Atos; cap. 8), as parábolas de Jesus (cap. 9), as epístolas do Novo Testamento (cap. 10)
e o gênero apocalíptico (o livro de Apocalipse; cap. 11). Aprender os princípios de
interpretação de cada tipo literário é de valor inestimável, uma vez que se encon­
tram vários tipos de características topográficas em nosso percurso interpretativo.
A narrativa é um gênero literário que combina períodos e parágrafos para
formar discursos, episódios ou cenas. Entender a verdadeira natureza da narrativa é
imprescindível para a precisão da interpretação. O estudo das unidades narrativas
do texto bíblico também é essencial, uma vez que, como assinala Grant Osborne, “os
estudos narrativos reconhecem que o sentido se encontra no texto como um todo, e
não em segmentos isolados”.4Os textos narrativos podem aparecer em três modos
diferentes: conto, narração e relato. Para começar a compreender uma narrativa, o
primeiro passo é entender os diferentes modos em que ela pode ser apresentada.
Na maioria das vezes, as narrativas aparecem na forma de drama, isto é, como
contos que o autor bíblico apresenta com o objetivo de ressaltar a importância de
determinado acontecimento ou série de acontecimentos. Sobre isso, é importante
lembrar que esses contos, por sua vez, costumam encerrar narrações históricas de
falas ou diálogos que compõem as cenas ou episódios, os quais, por sua vez, cons­
tituem o conto completo. Os diálogos, aliás, quase sempre são o ponto central de
uma narrativa.5Além disso, os contos podem conter um ou mais relatos.

3Eu (Andreas Kõstenberger) ainda me lembro de quando assisti ao meu primeiro jogo de
beisebol, aqui nos Estados Unidos, recém-chegado da Áustria, minha terra natal. Desconhecia
completamente as regras desse jogo e nunca tinha sequer visto uma partida. Eu me senti como se
tivesse desembarcado na Lua.
4Grant R. Osborne, The HermeneuticalSpiral, 2. ed. (Downers Grove: InterVarsity, 2006), p. 200.
[Edição em português: A Espiral Hermenêutica: uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica (São
Paulo: Vida Nova, 2009).] Veja também Bar-Efrat, “Some Observations on the Analysis o f Structure
in Biblical Narrative”, V T 30 (1980), p. 156, que analisa as narrativas bíblicas em quatro níveis: o nível
verbal, o nível da técnica narrativa, o nível do mundo da narrativa e o nível do conteúdo conceituai.
5Como Alter observa: “Os autores bíblicos [...] muitas vezes se preocupam menos com as ações em
si do que com a maneira como o personagem reage a elas ou as produz; e o discurso direto é o principal
instrumento para revelar os vários e às vezes sutis tipos de relação que os personagens têm com as ações
em que estão implicados”. Robert Alter, The Art o f Biblical Narrative (New York: Basic Books, 1981),
p. 66. [Edição em português: A Arte da Narrativa Bíblica (São Paulo: Companhia das Letras, 2007)].
MODOS DA NARRATIVA HISTÓRICA
DO ANTIGO TESTAMENTO
Contos (estórias)
Grande parte das informações históricas do Antigo Testamento está contida
em narrativas contadas em forma de conto. Desse modo, ficamos conhecendo
detalhes dos primórdios de Israel, por exemplo, nos contos dos patriarcas de
Gênesis. Com os contos dos vários juizes, aprendemos sobre os acontecimentos
do início da ocupação israelita da Terra Prometida. Informações sobre o esta­
belecimento da monarquia quase sempre são transmitidas nos livros de Samuel
em forma de crônicas referentes às façanhas de Davi, enquanto muitos fatos do
período da monarquia unida e da monarquia dividida são contados na forma de
contos. Tomamos conhecimento, por exemplo, da célebre sabedoria de Salomão
pelos contos registrados em IReis 3 e 10.1-13. A situação do Reino do Norte é
narrada nos contos dos profetas Elias e Eliseu (lRs 17—19; 2Rs 2—8; 13.14-21).
Conquanto as informações históricas se apresentem na forma de conto, isso
não significa que essas informações não sejam factuais. Contos podem ser pura
ficção ou narrativas verdadeiras a respeito de pessoas e acontecimentos reais. Os
contos do Antigo Testamento sem dúvida falam de fatos reais. Tratam “da vida real
e de pessoas reais. As pessoas são complexas, assim como os grandes contos a res­
peito delas”.6Em conseqüência, o intérprete da Bíblia não deve desprezar os grandes
contos do Antigo Testamento como se eles tivessem valor histórico secundário.
Antes, deve atentar para o fato de que em muitos casos esses contos trazem consigo
a narrativa histórica, mesmo ajudando o leitor a enxergar a verdadeira natureza das
condições no contexto mais amplo. Por isso eles são importantes por si mesmos.
Além disso, o intérprete precisa ficar atento para distinguir contos das narrações
e relatos estritamente históricos. Apesar de ocorrerem nesses dois últimos tipos,
muitos dos elementos da narrativa são particularmente proeminentes nos contos.
Um dos principais componentes de muitos contos do Antigo Testamento é o
discurso oral integrado. Grande parte da narrativa patriarcal das aventuras de José,
por exemplo, depende de discursos e diálogos. O relato de José acerca de seus dois
sonhos incita seus irmãos a capturá-lo e vendê-lo para ser escravo no Egito. Vários
detalhes do início da vida de José no Egito giram em torno de discursos e diálogos. O
narrador, em Gênesis 39, dá detalhes da vida social de José como mordomo da casa
de Potifar (v. 1-6). Com o tempo, José passa a enfrentar as investidas da mulher de

6J. Scott Duvall e J. Daniel Hays, Grasping Gods Word, 2. ed. (Grand Rapids: Zondervan, 2005),
p. 320.
Potifar. O diálogo que se segue revela a natureza dos dois personagens — a luxúria
da mulher de Potifar e a pureza de José:

E aconteceu depois dessas coisas que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José
e lhe disse: Deita-te comigo. Mas ele se recusou e disse à mulher do seu senhor:
O meu senhor não se preocupa com o que está sob os meus cuidados na sua casa;
entregou em minhas mãos tudo o que tem. Ninguém é superior a m im nesta casa;
ele não me negou nada, a não ser a ti, porque és a mulher dele. Com o poderia eu
com eter este grande mal e pecar contra Deus? (v. 7-9).

O conto prossegue com a alternância entre as palavras de José e as da mulher


de Potifar. O que ela diz ao marido o obriga a mandar José para o cárcere.
Na prisão, são as conversas de José com os companheiros encarcerados, o co-
peiro e o padeiro, em que ele interpreta os sonhos deles, que acabam fazendo com
que ele seja chamado à presença do faraó. O faraó tivera dois sonhos e não havia
ninguém que os interpretasse. O copeiro, restaurado às graças do rei, de acordo
com a interpretação de seus sonhos pelo hebreu, informa o monarca sobre o dom
de José. Por causa disso, o faraó manda que tirem José da prisão para interpretar
seus sonhos. Mais uma vez, os pontos determinantes da narrativa são comunicados
pelas falas (Gn 41.9-36). A ocasião em que o faraó nomeia José responsável pelos
assuntos econômicos do Egito também é informada pelo discurso direto (v. 37-41).
Depois de registrar devidamente as falas e os discursos dos personagens, o narrador
retoma a narrativa dos acontecimentos posteriores durante a estada de José no Egito.
Embora a estória de José pudesse ter sido contada num texto exclusivamente
narrativo, os discursos e os diálogos não só conferem efeito de drama, como também
permitem entendimento mais profundo do caráter dos personagens. O autor elaborou
o conto de tal modo que os discursos e os diálogos constituem momentos decisivos
da narrativa que os contém. Por essa razão, é de importância crucial que o intérprete
pare e se concentre nos discursos orais contidos na narrativa maior. Fazendo isso,
não só entenderá melhor o caráter das pessoas envolvidas na estória, mas também
será imerso no fluxo e nas ações de todo o contexto. Como assinala Leland Ryken:
“O foco da interpretação de uma narrativa está quase sempre nas cenas dramáticas”.7
Outro elemento freqüente nos contos bíblicos é a descrição. A ênfase aqui é no
cenário da narrativa ou nos personagens envolvidos. Isso inclui descrições dos vários
aspectos do ambiente em que o conto se desenrola e outros indicadores contextuais
que ligam o conto tanto com a narrativa precedente quanto com a que vem em segui­
da. Além disso, os contos bíblicos muitas vezes contêm comentários feitos pelo autor

7Leland Ryken, Words ofDelíght (Grand Rapids: Baker, 1987), p. 44.


bíblico. O narrador dá informações parentéticas visando a esclarecer determinado
elemento do conto ou comenta sobre a importância das ações do personagem ou de
determinado acontecimento. Ao iniciar o conto do levita e de sua concubina, por
exemplo, o narrador revela que “naqueles dias [...] não havia rei em Israel” (Jz 19.1); ou
seja, menciona a situação desordenada então vigente na terra. Do mesmo modo, mais
adiante no mesmo conto ele repete: “Naqueles dias não havia rei em Israel” (Jz 21.25).
Também é interessante notar que vários desses elementos— discurso, diálo­
go, descrição e comentário —, ou mesmo todos eles, podem aparecer num único
contexto. Após a milagrosa travessia de Israel pelo mar Vermelho, por exemplo,
lemos sobre o seguinte episódio (Êx 15.22-24):

Descrição: Depois disso, Moisés fez Israel partir do mar Vermelho, e eles foram
para o deserto de Sur. Caminharam três dias no deserto e não acharam água.
Narrativa: Chegando a Mara, não podiam beber das suas águas, pois eram
amargas;
Comentário: por isso o lugar foi chamado Mara.
Narrativa: E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: O que vamos beber?

Embora nem todos os contextos narrativos contenham todos esses elementos


de conto, é importante que o intérprete reconheça os que estão presentes e saiba
interpretá-los corretamente. Antes de tratar dos elementos internos e externos da
narrativa histórica do Antigo Testamento, vamos nos voltar para um estudo das
narrações e relatos.8

Narrações
Extensas seções da narrativa do Antigo Testamento foram escritas na forma de nar­
rações históricas, entre elas o Pentateuco e os chamados livros históricos (Josué a
Ester). Usando acontecimentos do passado escolhidos como material para elaborar
sua percepção da realidade, o autor os ordena de modo que formem uma história
escrita coerente. No caso do autor bíblico, é claro, ele conta com a orientação e a
iluminação do Espírito Santo na hora de escolher os acontecimentos registrados
e a tradição oral. Além disso, não há dúvida de que parte do texto escrito pelos
autores bíblicos se originou da revelação divina direta.

8Embora já se tenha aventado a presença de epopeia nas narrativas bíblicas do Êxodo e da vida
de Davi, a questão não é clara. A ideia de que os hebreus tenham contado uma epopeia centrada no
Êxodo do Egito talvez esteja refletida na poesia antiga encontrada em Êxodo 15.1-18 e em Habacuque
3.13-15, assim como em outros fragmentos poéticos espalhados ao longo do Antigo Testamento.
Para maiores detalhes sobre isso, veja Richard D. Patterson e M ichael E. Travers, “Contours o f the
Exodus M otif in Jesus’ Earthly M inistry” W TJ 66 (2004), p. 25-47.
Tremper Longman III observa que os dados históricos registrados na Bíblia
não são apenas informações factuais, mas também têm conteúdo teológico, doxo-
lógico (escrito em última análise por Deus e para a glória dele) e didático (para
ensinar comportamento e conduta corretos). Além disso, são elaborados com beleza
(escritos com o fim de produzir uma obra literária agradável).9Disso resulta uma
narrativa sobre acontecimentos reais que, além de ser informativa, estimula uma rea­
ção correta do leitor. Essa reação é esperada, porque, como Longman assinala, a
narrativa histórica bíblica é mais do que um simples catálogo de fatos e registro
de acontecimentos. Ela é, deliberadamente, uma história teológica. Tome-se como
exemplo o livro de Crônicas: “A perspectiva do cronista reflete a perspectiva de Deus
e a ideologia da Bíblia hebraica, o que faz de Crônicas um comentário teológico da
história israelita”.10 Jacob Licht acrescenta que a história bíblica é essencialmente
“uma história toda ‘sagrada, no sentido de preocupar-se em última análise com os
caminhos de Deus para os homens. Alguns atos divinos, contudo, são percebidos
como realizados pelo trabalho comum de agentes humanos, como reis ou rebeldes”.11
Um exemplo emblemático encontra-se em Josué 24, quando Josué, tendo reu­
nido a liderança e os cidadãos de Israel em Siquém, faz o seu discurso de despedida.
Primeiro ele lembra os acontecimentos germinais da história de Israel, a saber, o
chamado de Abraão, o Êxodo e a travessia do mar Vermelho, as peregrinações no
deserto e a conquista da Terra Prometida (v. 1-13). Josué enfatiza, ao longo dessa
parte do discurso, a liderança soberana e graciosa de Deus e a provisão que fez para
o povo da aliança. Tudo o que ocorreu no passado de Israel foi dirigido por Deus
e, em última análise, foi para a glória divina. A narração é feita em quatro seções
concebidas segundo padrões estéticos (v. 2-4, 5-7, 8-10, 11-13), contendo uma
metáfora (os “vespões”) que fala da derrota contundente que Deus deixou Israel
infligir aos vários povos de Canaã (v. 12).
Depois disso, Josué passa das informações para a motivação. A relação de
Deus com os israelitas deve levá-los a responder com fidelidade ao Senhor, que se
mostrou fiel para com eles.

Agora, temei o S e n h o r e cultuai-o com sinceridade e com verdade; jogai fora os


deuses a que vossos pais cultuaram além do rio e no Egito. Cultuai o S e n h o r . Mas,
se vos parece mal cultuar o S e n h o r , escolhei hoje a quem cultuareis; se os deuses a

9Tremper Longman III, Literary Approaches to Biblical Interpretation (Grand Rapids: Zondervan,
1987), p. 68-71.
10Andrew E. Hi]l, 1 & 2 Chronicles, NIVAC (Grand Rapids: Zondervan, 2003), p. 33.
“ Jacob Licht, Storytelling in the Bible, 2. ed. (Jerusalem: Magnes, 1986), p. 15.
quem vossos pais, que estavam além do rio, cultuavam, ou os deuses dos amorreus,
em cuja terra habitais. Mas eu e minha casa cultuaremos o S e n h o r (v . 14,15).

A narrativa histórica prossegue e registra que o povo respondeu de maneira


favorável ao desafio de Josué (v. 16-24), depois do que ele os dirigiu num ato de
renovação da aliança (v. 25-27).
Os detalhes dessa narrativa histórica pretendem não só registrar a devida res­
posta do povo de Israel nos dias de Josué, mas também buscam ter efeito semelhante
sobre os leitores das Sagradas Escrituras (2Tm 3.16). Assim como Israel era incapaz
de servir ao Senhor por suas próprias forças (Js 24.19,20), também o povo de Deus
de todas as épocas deve ter uma relação genuína com Deus que permita ao Senhor
viver a sua vida por meio deles, para o bem deles e para a glória de Deus. Somente
Deus deve ter o primeiro lugar na vida do crente (Dt 6.4,5; Pv 3.5,6; cf. Mt 22.37-40).
Em suma, a narrativa histórica bíblica é mais que uma narração fiel dos
acontecimentos passados; trata-se de uma apresentação seletiva dos fatos destinada
a apresentar uma avaliação teológica desse registro — uma avaliação que produzirá
uma resposta espiritual e ética adequada da parte do leitor.12O intérprete, portanto,
deve examinar as narrações históricas da Bíblia com o objetivo de manter todas
elas em perspectiva equilibrada.13

Relatos
As narrativas bíblicas também podem conter um relato que fornece informações
de natureza histórica. Os exemplos são abundantes na Escritura. Os homens
enviados a sondar a terra de Canaã, por exemplo, regressaram com o seguinte
relato para Moisés e o povo:

Fomos à terra à qual nos enviaste. Ela, de fato, dá leite e mel; e este é o seu fruto. C on­
tudo o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades são fortificadas e muito
grandes. Vimos também ali os descendentes de Anaque. Os amalequitas habitam
na terra do Neguebe; os heteus, os jebuseus e os amorreus habitam nas montanhas,
e os cananeus habitam junto ao m ar e ao longo do rio Jordão (N m 13.27-29).

12Quanto à seletividade na narrativa bíblica, veja Meir Sternberg, The Poetics o f Biblical Narrative
(Bloomington: Indiana University Press, 1987), p. 186-229.
13Como veremos no capítulo sobre o gênero profético, também se podem encontrar narrativas
históricas nos livros proféticos. Há neles narrativas, aliás, que só se encontram nos livros proféticos.
Acrescente-se que um entendimento dessas narrativas históricas é importante para o estudo das
leis bíblicas que elas encerram. Para mais detalhes nesse sentido, veja Joe M. Sprinkle, “Law and
Narrative in Exodus 19-24”, JETS 47 (2004), p. 235-52.
As narrativas do Antigo Testamento são repletas de vários relatos (e.g.,
2Cr 34.14-18; 2Sm 20.18-23,35-42). No gênero profético, deparamos com um tipo
especial de relato, denominado relato vocacional, que conta o chamado e a comissão
do profeta para o ministério. O Antigo Testamento também contém muitos relatos
de batalha (e.g., Gn 14.1-12; Js 10.1-15; ISm 31.1-7; 2Sm 1.1-10; lRs 22.29-38;
2Rs 25.1-21; etc.). Há também os relatos de recenseamentos (Nm 1.17-46; Nm 26.1-62;
2Sm 24.4-9) e vários outros tipos de relatos (e.g., lRs 6—7; Ed 5.6-17).
Intimamente relacionadas com esses relatos narrativos estão as listas ou róis,
que às vezes aparecem embutidos numa narrativa histórica. Por exemplo, depois
das últimas palavras de Davi (2Sm 23.1-7) e antes da narração da decisão de Davi
de fazer um recenseamento de seus guerreiros (2Sm 24.1,2), há um rol dos homens
poderosos de Davi, acompanhado de relatos de alguns de seus feitos (2Sm 23.8-36).
Notem-se também as listas das tribos de Israel (Gn 35.23-26; Êx 1.1-4), bem como
diversas outras (lC r 6.31-47; 23.1-32; etc.).
Os relatos de visão também são importantes. Embora figurem mais notada-
mente no gênero profético, também são encontrados na literatura narrativa. De
costume, essas visões ocorriam à noite (e.g., Gn 46.2; 2Sm 7.4; Jó 7.13,14; 20.8;
33.15; cf. Dn 7; Mq 3.6), mas não necessariamente (e.g., Ez 8.1-3).14As descrições
de visões assumem importância especial quando contêm palavras de instrução
da parte de Deus para o indivíduo (e.g., Gn 15.1; 46.2; 2Sm 7.4) e são seguidas de
relatos dos destinatários executando a ordem divina. Os relatos de visão, portanto,
não só contêm informações factuais e o efeito que a visão teve sobre seu recipiente,
mas também relatam acontecimentos fundamentais que fazem a narrativa avançar.

ELEMENTOS DA NARRATIVA HISTÓRICA


DO ANTIGO TESTAMENTO
Elementos externos
A análise literária costuma distinguir três elementos externos: autor, narrador e leitor.15
Estudam-se autor e leitor geralmente para determinar se o que está em vista é o autor
ou o leitor, real ou implícito. O autor real é aquele que de fato escreveu a narrativa ou
história. O que sabemos dessa pessoa pela narrativa ou pela história é o que se chama
de “autor implícito”. Logo, podemos não conhecer o autor real nem saber tudo o que
ele próprio sabe sobre a narrativa, mas sabemos o que ele escreveu. Disso tiramos

140 tempo de algumas visões não é dado expressamente (e.g.; Is 6.1; Ez 1.1; 40.2).
15David Howard Jr., An Introduction to the Old Testament Historical Books (Chicago: Moody,
1993), p. 49-55.
certas conclusões sobre o autor real. Como Longman III declara: “O autor implícito
é o autor como seria concebido com base nas inferências a partir do texto”.16
Leitor aqui se refere aos leitores concretos da narrativa; já o “leitor implícito”
é aquele ou aqueles para quem o autor escreveu sua obra. Os leitores podem ser os
destinatários originais, por isso idênticos aos leitores implícitos, ou pode ser qual­
quer pessoa que leia de fato o texto, inclusive o leitor de hoje. É essencial que o
intérprete se situe o máximo possível no mundo do leitor implícito para poder fazer
a transferência correta da aplicação ao seu mundo contemporâneo.
A terceira distinção se dá entre aquele que conta a história (o narrador) e o
narratário — a quem se conta a história. Em algumas composições literárias, o autor
primeiro cria o narrador e este, então, conta a história. Nas narrativas do Antigo
Testamento, contudo, o narrador geralmente é o mesmo que o autor implícito.
O narrador também pode participar da narrativa. Às vezes os acontecimentos
podem ser narrados em primeira pessoa, como em certas passagens de Neemias.
De qualquer modo, o narrador aqui é sempre onisciente, a ponto de poder informar
ao leitor o que os personagens da narrativa estão pensando. No relato do desafio de
Ben-Hadade ao rei Acabe de Israel, por exemplo, ficamos sabendo que o rei arameu
ouviu a resposta proverbial de Acabe ao seu desafio quando “estava bebendo com
os reis nas tendas” (lRs 20.12). O narrador também sabe com certeza os motivos
da queda do Reino do Norte (2Rs 17.7-23). David Howard assinala que “esse nar­
rador onisciente e onipresente é capaz de nos contar os detalhes de uma conversa
que ninguém presenciou, exceto os protagonistas. Encontram-se exemplos disso
em toda parte das narrativas históricas”.17
O narratário também pode fazer parte da narrativa. Isso é particularmente
comum na literatura profética do Antigo Testamento (e.g., extensas passagens de
Obadias e Naum), em que os destinatários são povos estrangeiros, cidadãos ou
cidades. Nesses casos, há uma diferença entre o narratário e o leitor implícito. Em­
bora os narratários sejam os destinatários, os leitores implícitos são o povo de Israel
e/ou de Judá. Na típica narrativa do Antigo Testamento, todavia, não há distinção
entre o leitor implícito e o narratário.
É importante que o estudante entenda essa distinção. Porque passagens proféticas
de fato ocorrem dentro das narrativas históricas. Por exemplo, no registro do cerco de
Jerusalém por Senaqueribe, Isaías envia uma mensagem do Senhor ao rei Ezequias (o
leitor implícito primário), mas que é dirigida ao rei da Assíria (o narratário). Note­
-se, por exemplo, a mensagem do Senhor por intermédio de Isaías em 2Reis 19.22:

“Longman III, Literary Approaches , p. 84.


17Howard, Introduction , p. 50.
A quem afrontaste e blasfemaste?
Contra quem levantaste a voz e ergueste os olhos com arrogância?
Contra o Santo de Israel!

É claro que Senaqueribe jamais leu essas palavras.18


Em resumo, na maioria dos casos dos contos e narrações do Antigo Testa­
mento, o autor implícito e o narrador são a mesma pessoa, e o leitor implícito e o
narratário são idênticos. Como vimos, no entanto, às vezes ocorrem distinções.

Elementos internos
Três elementos internos dão a dinâmica da narrativa: ambiente, enredo e carac­
terização. O ambiente pode incluir local físico, tempo e o panorama cultural da
narrativa. O enredo diz respeito ao ordenamento dos detalhes da narrativa. A carac­
terização, finalmente, refere-se à construção espiritual, moral e psicológica dos
personagens da narrativa, bem como o papel que eles desempenham na história.
Antes de iniciar o exame da narrativa, o intérprete precisa identificar os limites
da narrativa. Nesse sentido, há uma técnica de composição literária semítica que é
importante conhecer. O autor muitas vezes ordena o material de tal modo que, no
final na narrativa, retorna a um tema, assunto ou palavras que mencionou no início.
Essa técnica é conhecida por nomes como “emolduramento” (inglês, bookending) ou
inclusio. Além disso, J. T. Walsh observa que as subunidades dos registros (narrações)
narrativos históricos podem ser organizadas simetricamente como seqüências para­
lelas ou de tal maneira que a atenção se volte para o centro da narração.19
As seqüências paralelas (A B C, A’ B’ C’) promovem o equilíbrio entre as duas
subdivisões e ressaltam a necessidade do exame comparativo dos detalhes. A pas­
sagem de IReis 13.11-34 serve de exemplo. O conto trata do homem de Deus e do
velho profeta, em torno de quem a ação se desenrola. Na primeira parte, o velho
profeta (A) ouve notícias do homem de Deus (v. 11); (B) fala e ordena que seus
filhos selem o jumento (v. 12,13); (C) encontra o homem de Deus e o leva para
casa consigo (v. 14,15); e (D) proclama a mensagem de Deus (v. 20-22), que (E) em
seguida se cumpre (v. 23,24).
Na segunda parte, o velho profeta (A) ouve a notícia da morte do homem
de Deus (v. 25); (B’) fala e faz que seus filhos preparem o jumento (v. 26,27); (C’)
encontra o corpo do homem de Deus e o leva de volta para casa (v. 28-30); e (D’)

18É interessante notar que nesse oráculo divino o Senhor revela conhecer os pensamentos de
Senaqueribe (2Rs 19.23,24).
19Veja Jerome T. Walsh, lKings, Berit Olam (Collegeville: Liturgical Press, 1996), p. xiv.
confirma a mensagem do Senhor (v. 31,32), que (E’) serve de exemplo do pecado
que provocará a ruína da dinastia de Jeroboão I (v. 33,34).
Walsh indica que as narrações históricas que se constroem em torno de um
tema central de determinada narrativa podem ser formados de duas maneiras: por
simetria concêntrica (A B C B’ A^ cf. lRs 17.17-24) ou por simetria quiástica (A B
C C’ B’ A, cf. lRs 12.1-20).20Embora os dois padrões simétricos de Walsh tradicio­
nalmente tenham sido chamados de “quiasmo”, o centro único da estrutura forma
uma articulação que une as duas metades do assunto. Em alguns casos, passa a ser
a principal ênfase da subunidade.

A m b ie n t e
Conhecer o ambiente de uma narrativa é essencial para sua interpretação. O intérprete
deve considerar alguns fatores e se fazer algumas perguntas, como, por exemplo: O
ambiente físico é importante para a ação da história? Sem dúvida é importante no
registro da batalha de Taanaque, o conflito entre o exército hebreu, sob o comando de
Débora e Baraque, e os cananeus, liderados por Sísera (Jz 4—5). Sísera escolheu um
lugar para a batalha na vasta planície oriental de Jezreel (Esdrelom), o que favoreceria
seus carros de ferro (Jz4.12,13). Mas chuvas recentes haviam deixado aquele campo
de batalha enlameado, e as carruagens afundaram no lamaçal, deixando as tropas dos
cananeus praticamente sem ação (Jz 5.19-22). Nesse momento, Baraque desceu com
seu exército do seu ponto privilegiado no monte Tabor e “o S e n h o r derrotou Sísera
[...] com todos os seus carros” (Jz 4.15).21 Aqui o ambiente não só contribui para a
compreensão do conto, como também lhe acrescenta mais intensidade.
O tempo também contribui para a dinâmica da narrativa. Por exemplo, Jacó, já
apreensivo quanto ao seu encontro com Esaú, vê-se sozinho à noite. Na escuridão
total, ele tem um confronto físico com um indivíduo que acaba revelando ser o Anjo
do Senhor (Gn 32.22-24). O ambiente noturno sem dúvida tornou o encontro mais
assustador para Jacó. O leitor atento não deixará de perceber o tom dramático da
passagem. A hora do dia e as condições atmosféricas também desempenham um
papel importante na vitória de Josué contra os gibeonitas (Js 10.12-14).
O conhecimento do panorama cultural é particularmente importante, dada
a grande distância no tempo e nos costumes entre as sociedades antigas e a atual.

20Ibidem.
21Para uma consideração desses eventos, veja Richard D. Patterson, “The Song o f Deborah”, in:
John S. e Paul D. Feinberg, orgs., Tradition and Testament: Essays in Honor o f Charles Lee Feinberg
(Chicago: Moody, 1981), p. 123-60.
Conhecer a cultura da época, portanto, é fundamental na interpretação dos acon­
tecimentos da história de Rute, entre eles o encontro dela à noite, na eira, com Boaz
(cap. 3) e costumes como a realização de negócios na porta da cidade, o resgate de
propriedade e a instituição do levirato (cap. 4).22

E nredo

Com “enredo” queremos dizer o encadeamento dos acontecimentos no conto.


O enredo consiste no arranjo de particularidades por meio das quais a história
tem começo, meio e fim. Cada parte da história contribui para a estrutura do
todo.23 O enredo das histórias bíblicas costuma girar em torno de um conflito
ou de uma contenda (física, psicológica ou espiritual) e suspense (curiosidade,
temor, expectativa ou mistério). O intérprete deve abordar esses elementos com
atenção e perceber as inter-relações entre eles.
As histórias palacianas de Daniel 2—7 são exemplos excelentes. Em cada
um desses capítulos, a história tem um início ou ambiente claro. As complicações
trazem à tona aquilo que só o herói é capaz de resolver. A solução geralmente re­
sulta em recompensas — e tudo isso é testemunho da obra de Deus por meio de
seu(s) servo(s). O capítulo 5 é um bom exemplo. A história começa com Belsazar
oferecendo um grandioso banquete a seus nobres, ocasião em que eles adoram
seus deuses enquanto bebem de cálices tomados do Templo de Jerusalém por
Nabucodonosor II (v. 1-4). A crise surge quando “apareceram uns dedos de mão
humana que escreviam no reboco da parede do palácio real, defronte do castiçal”
(v. 5). O fenômeno causou enorme pânico entre todos os presentes. Não só isso;
a mão escreveu palavras que nenhum dos sábios de Belsazar soube interpretar
(v. 5-9). Nesse ponto, a história atinge um momento decisivo, ou o que os críticos
chamam de “a crise”. A rainha aparece e sugere que se convoque Daniel (v. 10-12),
que logo interpreta a mensagem da parede (v. 13-28). Com o problema resolvido, no
epílogo Daniel recebe sua recompensa e sua interpretação das palavras se cumpre
na queda da Babilônia, naquela mesma noite (v. 29,30).24

22Para um exame mais aprofundado, veja Donald A. Leggett, The Levirate and Goel Institutions
in the Old Testament (Cherry Hill, NJ: Mack, 1974).
23Para mais detalhes, veja G. W. Brandt, “Plot”, in: S. H. Steinberg, org., Cassells Encyclopaedia
o f Literature (London: Cassell & Co., 1953), p. 1.421-3.
24As histórias palacianas de Daniel são de dois tipos: uma disputa em que só o herói é capaz de
resolver problemas aparentemente insolúveis e um conflito no qual a pureza e a espiritualidade do
herói são testadas.
O enredo das narrativas também pode assumir a forma de motivos de enredos
arquetípicos. O enredo arquetípico é aquele que contém aspectos e experiências co­
muns a toda a humanidade. É bom que o intérprete saiba reconhecer alguns desses
arquétipos. Dentre os vários que se podem catalogar na Bíblia, chamamos atenção
para os seguintes: a busca, em que o herói enfrenta muitos obstáculos e provações
antes de alcançar o objetivo desejado ou designado (e.g., Davi); a tragédia, em que as
coisas começam bem, mas em seguida sofrem uma virada para pior até que, enfim, as
dificuldades são superadas e tudo termina com êxito (e.g., Daniel 3,6); e ajornada,
em que o herói enfrenta perigos ao peregrinar de um lugar a outro, perigos esses
que não obstante contribuem para o aperfeiçoamento de seu caráter (e.g., Abraão).25

C a r a c t e r iz a ç ã o

Como demonstra o exemplo de Daniel 5, “a associação íntima entre enredo e


personagem pode ser observada no fato de que é o personagem que gera a ação
que constrói a trama”.26 Contudo, o leitor raramente recebe uma descrição deta­
lhada da plena natureza ou personalidade do personagem. É comum os críticos
literários definirem um personagem como esférico, plano ou um simples agente:
“Um personagem esférico (ou plenamente desenvolvido) tem muitos traços. Ele
se afigura complexo, menos previsível e, portanto, mais real. O personagem plano
tem um único traço e parece unidimensional. O agente, por fim, não tem perso­
nalidade propriamente dita e serve apenas para dar prosseguimento à história”.27
Nas histórias sobre Elias e Acabe, em IReis 18—22, por exemplo, ambos os
personagens podem ser definidos como esféricos, enquanto Jezabel é um persona­
gem plano, e outros são meros agentes (e.g., Obadias). Entretanto, o que se pode
saber das pessoas nas histórias bíblicas é apenas aquilo que o narrador revela a
respeito delas ou das ações que elas praticam.28

25Cumpre notar que entre os arquétipos também pode haver indivíduos com personalidades
específicas, como os heróis ou os vilões. Veja Leland Ryken, How to Read the Bible as Literature
i,Grand Rapids: Zondervan, 1984), p. 187-93. Um desses arquétipos é o do trapaceiro, traço de
personalidade visto no patriarca Jacó. Quanto a isso, veja Richard D. Patterson, “The Old Testament
Use of an Archetype: The Trickster”, JETS 42 (1999), p. 385-94.
26Tremper Longman III, “Biblical Narrative”, in: Leland Ryken e Tremper Longman III, orgs.,
A Complete Literary Guide to the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1993), p. 72.
27Idem, Literary Approaches, p. 91-2.
28Veja Ryken, Words ofDelight, p. 74-81. É importante ter em mente que por trás das narrativas do
Antigo Testamento está o verdadeiro herói de Israel — o próprio Deus. Esse fato não foge à atenção
de Moisés em seu cântico triunfal, em Êxodo 15.1-18. Como Duvall e Hays ( Grasping Gods Word,
p. 322) assinalam: “Ao longo da maior parte da literatura narrativa do Antigo Testamento, Deus é
De modo mais básico, o personagem bíblico normalmente é identificado como
o protagonista, o personagem principal da história (e.g., Elias, Rute); o antagonista,
aquele que se opõe ao protagonista (e.g., Acabe), ou simplesmente um personagem
secundário que serve de contraste, para realçar um personagem principal (e.g.,
Obadias, Jezabel). Certos acontecimentos também podem servir de realce literário
numa história, como a trapaça de Jacó em contraponto com o comportamento
anterior de Esaú (Gn 25, 27). O amor de Davi pelo Senhor serve de contraste a
todos os reis que o sucederam.
A capacidade de reconhecer e usar os elementos narrativos mencionados
não só dá ao intérprete uma compreensão mais profunda dos aspectos intricados
dos registros e histórias hebraicas, mas também permite que ele os comunique
de forma mais expressiva e dramática a seus ouvintes. Tanto o expositor das
Escrituras quanto seus ouvintes ou leitores serão mergulhados no efeito dramático.
Isso pode tornar a narrativa mais realista. Os personagens bíblicos deixam de ser
pessoas mortas há muito tempo ou indivíduos idealizados de uma cultura distante
e muito diferente, e passam a ser pessoas reais cujas experiências, de certa forma,
são comuns a toda a humanidade.

ESTILO DE NARRATIVA
Repetição
As narrativas bíblicas são muitas vezes repletas de diferentes formas de repetição.
Na verdade, aliás, “a repetição talvez seja o elemento estilístico mais presente e
mais amplamente reconhecido das narrativas bíblicas. Deparamos com listas
intermináveis de ações repetidas, nas quais os personagens declaram que eles, ou
outros, pretendem (ou devem) fazer algo e, em seguida, o narrador declara que
eles de fato fizeram isso”.29
Essa repetição pode ser de jogos de palavras ou raízes, palavras-chave, temas,
motivos, diálogos e seqüências de ações repetidas.30 Abigail, por exemplo, confir­
ma que seu marido, Nabal, merece o nome, pois é insensato {nabal-, ISm 25.25).
O tema do terceiro dia como sinal de uma nova ênfase espiritual é comum no
Antigo Testamento (e.g., Êx 19.10-16). O tema da aliança ocorre em toda a Escritu­
ra. Encontra-se, por exemplo, uma série de alianças principais dentro das alianças
incondicionais, principalmente nas alianças com Abraão e Davi incorporadas na

o personagem central. Deus não é indiferente no Antigo Testamento, falando somente na sombra,
por meio do narrador. Ele é um personagem importante na história”.
29Howard, Historical Books, p. 56.
30Para mais detalhes, veja Alter, Biblical Narrative, p. 88-113; Licht, Storytelling, p. 51-95.
nova aliança, confirmada no sangue de Cristo. O Êxodo é outro tema básico comum
a ambos os Testamentos.
Uma característica da narrativa semítica é a repetição de falas ou de diálogos.
Roboão, por exemplo, repete palavra por palavra o conselho dos seus conselheiros
mais jovens (lRs 12.8-14). As seqüências de ações em geral se repetem em grupos
de três. A história da vida de José gira em torno de três sonhos. O Senhor chama
Samuel, que se dirige a Eli, três vezes; só depois disso Eli percebe que Deus estava
falando ao rapaz (ISm 3.1-9). A apostasia de Israel diante dos olhos do Senhor se
repetia com frequência (Jz 3.7,12; 4.1; 6.1; 10.6; 13.1). Entender e trabalhar corre­
tamente com a convenção literária da repetição em geral permite que o intérprete
evite a sugestão dos críticos de que esses casos são fruto da interferência de um editor.

Realce
O narrador muitas vezes chama atenção particular para algum detalhe ou traço
de personalidade de um indivíduo da história. A pureza de José, por exemplo, é
sublinhada em todos os registros históricos de sua vida, assim como a devoção
de Davi a Deus e o compromisso de Daniel com o Senhor. O rei Acabe, por sua
vez, é constantemente retratado como uma pessoa egoísta e até maligna.

Ironia
A ironia diz respeito ao oposto daquilo que se diz ou espera. As narrativas do Antigo
Testamento são repletas de exemplos de ironia.31 A mulher de Jó, por exemplo,
diz a ele, numa tradução literal: “Abençoa a Deus e morre” (Jó 2.9). Na verdade
ela quer dizer: “Por que você não amaldiçoa a Deus e acaba logo com isso?”. De
fato, embora a palavra hebraica signifique literalmente “abençoa”, os tradutores
em unanimidade interpretam o sentido do contexto e a traduzem por “amaldiçoa”.
A expressão, portanto, é tomada como um eufemismo dito em tom de ironia. No
livro de Ester, Hamã é enforcado na forca que ele preparara para Mardoqueu!
Existe também a ironia dramática. Com esse recurso, o narrador transmite ao
leitor uma informação que os personagens da narrativa desconhecem. Essa figura
de linguagem aparece nos dois Testamentos. Ao longo das narrativas históricas
dos livros de Reis, por exemplo, somos informados de que as ostensivas mudanças
no ambiente político entre as nações não eram obra do acaso, mas, sim, contro­
ladas pelo próprio Deus. Apesar de Davi ser movido a fazer o recenseamento de
Israel, ficamos sabendo o que Davi e seus seguidores não sabem: foi Satanás quem

31Veja J. C. L. Gibson, Language and Imagery in the Old Testament (Sheffield: Almond, 1981),
p. 18-20.
na verdade o incitou a fazer isso (lC r 21.1). Em 2Samuel 24.1, também ficamos
sabendo que “o S e n h o r se enfureceu outra vez contra Israel e incitou Davi contra
eles, dizendo: Vai, faze a contagem de Israel e Judá”.32O leitor, portanto, sabe de algo
que nenhum dos participantes do censo sabe: Satanás, com a permissão de Deus
(cf. Jó 1.12; 2.6), é o instigador da decisão de Davi de fazer o censo.
Toda vez que o sentido superficial do texto parece diretamente contrário ao
contexto, podemos desconfiar que o autor pretendia que o leitor entendesse que
ele está recorrendo à ironia.

Sátira
A sátira consiste em procurar demonstrar, por meio do ridículo ou da censura, a
maldade ou a tolice daquilo que se mostra incorreto ou impensado. Por exemplo,
quando conta o duelo entre Davi e Golias, o narrador de Samuel revela que as
provocações do gigante eram equivocadas. O que os deuses e a força superior de
Golias não conseguiram realizar, um pequeno e mal equipado pastorzinho pôde
fazer com a ajuda de Deus. O poderoso guerreiro não só caiu de forma espetacular
com a pedrada, mas também foi decapitado com sua própria espada (ISm 17.41-51)!
A clássica resposta de Acabe às provocações do rei arameu Ben-Hadade
transpira sátira: “Dizei-lhe: Não se gabe quem veste a armadura como aquele que
a tira” (lRs 20.11). Essa resposta insinua que Ben-Hadade não deve jactar-se da
vitória enquanto veste a armadura, já que pode morrer antes de tirá-la. Outro caso
clássico é a conhecida disputa entre Elias e os profetas de Baal no monte Carmelo.
No auge da contenda, quando Baal não atende a seus profetas, Elias os provoca
dizendo: “... ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa
que fazer, ou que esteja em alguma viagem; talvez esteja dormindo e precise que o
acordem” (lRs 18.27).

AMOSTRA DE EXEGESE: 1REIS 19


Introdução
O relato do ministério de Elias em IReis 19.1-18 situa-se dentro do relato maior
do ministério do profeta (lRs 17—19). Essa perícope serve para reunir mais
material a fim de encerrar o registro histórico todo. O autor implícito (ou narrador)

32A aparente contradição nos relatos históricos é uma espada de dois gumes. O orgulho de
Davi foi um meio fácil para Satanás tentá-lo a testar a sua própria grandeza. A falta de fidelidade
verdadeira no povo de Deus seria causa suficiente para Deus permitir que Satanás tentasse Davi.
escreve a passagem inteira para informar aos leitores tanto os grandes momentos
triunfais do profeta quanto suas falhas. Por toda a narrativa, Elias é retratado como
um servo inteiramente humano, que só tem êxito quando Deus está no controle
de sua vida (e.g., lRs 18). Compostos em estilo de narrativa dramática, os capí­
tulos 17 a 19 têm uma estrutura literária inconfundível, elaborada em torno do
enredo do serviço de Elias a Yahweh:

1. prólogo: o chamado de Elias (17.1-6);


2. desenvolvimento: Elias em Sarepta (17.7-24);
3. crise: a mensagem de Elias ao rei Acabe (18.1-19);
4. clímax: Elias contra os profetas de Baal e Aserá (18.20-46);
5. desenlace: a fuga de Elias para Horebe (19.1-18);
6. epílogo: Elias e o chamado de Eliseu (19.19-21).

História
O ministério profético de Elias ocorre nos dias do reinado de Acabe, rei do Reino
do Norte (874-853 a.C.). É um período de intensa seca espiritual, tipificada pela
conduta de Acabe e da rainha Jezabel. O trecho de IReis 19.1-18 se desenrola
numa série de três breves cenas: a ameaça de Jezabel faz Elias fugir (19.1-5a);
embora sinta-se desanimado a ponto de desejar a própria morte, Elias é sustentado
por um anjo que lhe manda seguir adiante (19.5b-8); no monte Horebe, Yahweh
primeiro censura e depois restaura o seu profeta (19.9-18).

Literatura
Quanto à caracterização dos personagens, não há nenhuma dúvida de que o
protagonista é Elias e Jezabel é a antagonista. Com efeito, suas ameaças a Elias e a
resposta do profeta demonstram a personalidade cruel da rainha. Não é de admirar
que o próprio Acabe se sentisse muitas vezes intimidado e certamente corrompido
por ela. Seu casamento com Jezabel, uma princesa sidônia, serviu apenas para
tornar mais profunda a degeneração espiritual de Israel. A conduta e a atitude
constantemente más de Jezabel, portanto, fazem dela um personagem plano.
Servindo de realce literário, o anjo é um contraste expressivo para Elias como
servo do Senhor. O protagonista, Elias, ainda que seja o herói presumido da história,
demonstra um lado muito diferente do seu caráter em relação aos dois capítulos
precedentes. Não se tem mais o servo obediente de Yahweh, que sob a direção de
Deus foi alimentado pelos corvos (17.1-6). Foi-se o homem de fé que supriu as
necessidades da viúva, inclusive a ressuscitação do filho dela (17.7-24). Também
se foi o profeta confiante que instruiu Obadias e o próprio rei (18.1-19) e que, com
destemor e êxito, confrontou os profetas de Baal em Aserá (18.20-46).
Ao invés disso, vemos um Elias temeroso, desiludido, que foge da ira de uma
rainha vingativa e inescrupulosa e, no desespero, anseia pela morte. Talvez ele tivesse
desfrutado os louros do espetáculo por tempo demais. Seja como for, parece que
ele precisa de instrução, estímulo e autoavaliação (19.1 -5a). A seu favor, contudo,
em resposta à instrução, correção e recomissão divina, Elias (19.5b-18) volta ao
serviço ativo no ministério do Senhor (19.19-21).
Ainda que a trama apresente Elias até o desenlace, é Yahweh, em última
análise, o verdadeiro herói da história. É ele que mais uma vez provê o alimento de
seu profeta (19.5b-9) e que, com sua graça, o exorta e restaura ao serviço (19.10-18).
É Yahweh que, com sua soberania, dirige a viagem de Elias a Horebe e lhe renova
a oportunidade de realizar a obra delegada pelo Senhor. É o Senhor, portanto, que
a narrativa destaca de tal maneira que ele é ao mesmo tempo o provedor para as
necessidades de Elias e aquele a quem o profeta deve prestar contas.
Em todo o capítulo 19, o intérprete atento encontrará muitas oportunidades
de apreciar a habilidade do autor de ensinar por meio de alusões. Estudando essa
unidade, ele vai poder compreender o que o narrador quer que seu público específico
entenda. Ele identificará, por exemplo, a evocação de acontecimentos passados da
vida de Elias e dos ancestrais de Israel: no anjo alimentando Elias; na sua jornada
de quarenta dias até o monte Horebe; no refúgio na caverna quando o Senhor trata
pessoalmente com ele; e no seu tríplice recomissionamento ao serviço. O tremor
de terra e o fogo recordam o fenômeno semelhante no monte Sinai. O intérprete
cuidadoso não deixará de perceber o forte contraste entre a resposta espetacular do
Senhor à petição de Elias no monte Carmelo e a posterior fala divina num “mur­
múrio [...] suave” (NVI). O bom intérprete não deixará, tampouco, de atinar com
os fatos pungentes dos diálogos de Elias com o anjo e de sua conversa com Yahweh.

Teologia
Munido dessas informações, o estudante da Escritura entenderá com mais clareza
o fluxo da narrativa e será capaz de fazer aplicações pertinentes dela à vida cristã.
No mínimo, ele se dará conta da mensagem espiritual mais importante desse
episódio: viver para Deus nem sempre ocorre na esfera do extraordinário. Antes,
grande parte do serviço para o Senhor se realiza na esfera das atividades corri­
queiras da vida. Ao cristão cumpre tão somente, no transcorrer cotidiano dos seus
dias, prestar seu serviço ao Senhor em humildade e obediência a seu comando.
1. D e te r m in e o s lim ite s o u fr o n te ir a s d a n a r r a tiv a q u e v o c ê e s tá a b o rd a n d o , se m

d e ix a r d e r e c o n h e c e r s u a s c a r a c t e r ís t ic a s e s tr u tu r a is in te r n a s .

2. Verifique se a narrativa é direta, descritiva, dram ática o u em fo rm a de


com entário. O co n te xto geral e m p re ga a lg u m a c o m b in a ç ã o d e sse s tip o s?

3 . P e r g u n te -s e se e s s a n a r r a tiv a h is tó r ic a fu n c io n a p r in c ip a lm e n te c o m o u m a

n a rra ç ã o o u u m r e la to , o u s e é n a rra d a n a fo rm a d e c o n to . N o c o n te x to g e r a l,

v o c ê n o ta a o c o r rê n c ia d e m a is d e u m a d e s s a s fo rm a s?

4 . P r o c u r e e n t e n d e r o s r e s p e c tiv o s p a p é is d o a u to r, d o le ito r , d o n a rra d o r e d o

n a rra tá rio . T e n te c o lo c a r -s e n o lu g a r d o n a rra tá rio (o u le ito r im p líc ito ).

5 . E x a m in e o c o n t e x t o d a n a r r a tiv a . O q u e e le m e n to s c o m o o s a s p e c to s

g e o g r á fic o , te m p o r a l e c u ltu r a l n a n a r ra tiv a n o s r e v e la m ?

6 . S e a n a r r a tiv a é c o n ta d a e m fo rm a d e c o n to , a te n te p a ra o flu x o d o c o n to .

Id e n tifiq u e o s e le m e n t o s d o e n re d o , c o m o in íc io , m e io , d e s e n la c e , r e s o lu ç ã o

e e p ílo g o . V o c ê c o n s e g u e id e n tific a r n e s s a n a r r a tiv a te m a s d e e n r e d o

a r q u e típ ic o s ? Q u e te m a s e m o tiv o s b íb lic o s s ã o c o n s ta n te s n o c o n te x to

m a is a m p lo ?

7 . Id e n tifiq u e n o s c o n to s o p r o ta g o n is ta , o a n ta g o n is ta e o s p e r s o n a g e n s

s e c u n d á rio s q u e se rv e m d e c o n tra s te p a ra r e a lç a r u m p e r s o n a g e m p r in c ip a l.

8. Saiba valorizar e apreciar o estilo literário d o autor, ate n tan d o para e le m e ntos
c o m o d iálogo, repetição, realce, ironia e sátira.

9 . A o lo n g o d o p r o c e s s o in te r p r e ta tiv o , e m p r e g u e m é to d o s e x e g é tic o s c o r re to s

n a su a in te r p re ta ç ã o , c o n te m p la n d o e le m e n to s c o m o g r a m á tic a , h is tó r ia ,

a s p e c to s lite r á r io s e ê n fa s e s te o ló g ic a s .

1 0 , U sa n d o to d o s e s s e s d a d o s, fa ç a u m a a p lic a ç ã o p e r tin e n te à s itu a ç ã o a tu a l. D e

q u e fo rm a e s s a n a r r a tiv a a f e ta a v id a e s p ir itu a l d o le ito r o u d o o u v in te ?


ambiente. I n f o r m a ç õ e s s o b r e o lu g a r, o te m p o e a s c ir c u n s tâ n c ia s d e

d e te r m in a d o a c o n te c im e n to .

antagonista. A q u e le q u e s e o p o c a o p r o ta g o n is ta .

caracterização. A re p re s e n ta ç a o d e p e r s o n a g e n s m a io re s e m e n o r e s d a n a r r a tiv a .

elementos externos da narrativa. A s p e c to s d e fo ra d a n a r ra tiv a , c o m o a u to r,

n a rra d o r e le ito r .

elementos internos da narrativa. A s p e c to s in e r e n te s à n a r r a tiv a , c o m o

a m b ie n te , e n r e d o e c a ra c te riz a ç ã o d o s p e r s o n a g e n s .

enredo. O rd e n a ç ã o d o s a c o n te c im e n to s d e u m c o n to .

ironia. M u d a n ç a d ra m á tic a d e a c o n te c im e n to q u e q u a s e s e m p re im p lic a u m a

in v e r s ã o d a s e x p e c ta tiv a s .

narração. A p re s e n ta ç ã o d e u m a h is tó r ia q u e in c lu i in t e r p r e t a ç ã o te o ló g ic a .

narrativa. A n a r r a tiv a é u m g ê n e r o lite r á r io q u e c o m b in a p e r ío d o s e p a rá g ra fo s

p a r a fo r m a r d is c u r s o s , e p is ó d io s o u c e n a s .

protagonista. A p e r s o n a g e m p r in c ip a l d e u m c o n to .

realce. T é c n i c a lite r á r ia q u e c o n s is te e m c h a m a r a te n ç ã o p a ra d e te r m in a d o

d e ta lh e d a h is tó r ia .

relato. N a r r a tiv a q u e fo r n e c e in fo rm a ç õ e s h is tó r ic a s .

sátira. T e n t a t i v a d e d e m o n s tr a r p o r m e io d o r id íc u lo o u d a c e n s u ra à m a ld a d e o u

à in s e n s a te z a q u ilo q u e é in c o r r e to o u m a l-in te n c io n a d o .
1. 0 q u e é n a r r a tiv a e q u a is s ã o o s v á rio s tip o s d e n a r r a tiv a ?

2 . C ite a lg u n s e x e m p lo s d e h is tó r ia s , r e g is tr o s h is tó r ic o s e r e la to s d o A n tig o

T e s t a m e n to . D is c o r r a s o b r e c o m o o c o n h e c im e n to d e s s e s s u b g ê n e ro s é

...... i m p o r t a n t e p a ra a in te r p r e ta ç ã o d o te x to b íb lic o . ...............................

3 . Q u a is s ã o o s tr ê s e le m e n to s e x te r n o s e o s tr ê s e le m e n to s in te r n o s d a n a r r a tiv a

b íb lic a ? L is te -o s e d e fin a b re v e m e n te c a d a u m d e le s . ..................

4 . In d iq u e p e lo m e n o s tr ê s c a r a c te r ís tic a s d o e s tilo n a r r a tiv o d a s

n a r r a tiv a s b íb lic a s .

5 . D e q u e m a n e ir a a a m o s tra d e e x e g e s e d e 1 R e is 1 9 a p lic a a s v á ria s

c o n s id e r a ç õ e s s o b r e a n a tu re z a d a n a r r a tiv a p r e s e n te s n e s te c a p ítu lo ?

6 . Q u a is s ã o a s d ir e tr iz e s g e r a is p a r a a in te r p r e ta ç ã o d a n a r ra tiv a h is tó r ic a d o

A n tig o T e s ta m e n to ? ..............................
1. Id e n tifiq u e o s m o d o s b á s ic o s d e n a r r a tiv a . A p liq u e e s s a s in fo rm a ç õ e s à

n a r r a tiv a s o b r e Ja c ó , e m G ê n e s is 3 2 .

2 . A n a lis e o c a p ítu lo 4 d e E s te r, p r im e ir o c o m o u m c o n to e d e p o is c o m o u m a

n a rra ç ã o h is tó r ic a . Q u a is o s r e s u lta d o s e v a lo r e s o b tid o s e m c a d a c a s o ?

3 . D a n ie l 6 c o s tu m a se r c h a m a d o d e u m "c o n to p a la c ia n o ". R e c o n h e c e n d o a

p a s s a g e m c o m o u m a n a rra ç ã o h is tó r ic a g e n u ín a , c o n ta d a n a fo rm a d e u m

c o n to p a la c ia n o , fa le s o b r e o s s e g u in te s a s p e c to s d a p a s s a g e m : a m b ie n te

h is tó r ic o te .g ., lo c a l, t e m p o e p a n o ra m a c u ltu r a l), e n r e d o (c o m in íc io ,

d e s e n v o lv im e n to , c lím a x e d e s e n la c e ) e c a ra c te riz a ç ã o d e p e r s o n a g e n s

(id e n tific a n d o o p r o ta g o n is ta , o a n ta g o n is ta e o s p e r s o n a g e n s s e c u n d á rio s

o u c o a d ju v a n t e s ) .

4 . C o m e n te o u so d a r e p e tiç ã o e d o d e s ta q u e n a s s e g u in te s n a r r a tiv a s :

a . 2 R e is 1

b . 2 R e is 2 .1 -1 8

c . A to s 7

5 . F a le s o b r e o u so d a ir o n ia n a re s p o s ta d e J ó a Z o fa r, e m J ó 1 2 .1 - 1 2 .

6 . Id e n tifiq u e o e le m e n to ir ô n ic o n a p a r á b o la d e Je s u s s o b r e o r ic o in s e n s a to , e m

L u ca s 1 2 .1 3 -2 1 .
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1. F a m ilia r iz a r o e s tu d a n te c o m a n a tu re z a o a s c a ra c te r ís tic a s d a p o e s ia b íb lic a .

2 . F a m ilia r iz a r o e s tu d a n te c o m o s p r in c ip a is p a d r õ e s e s tr u tu r a is d a

p o e s ia b íb lic a .

3. C a p a c ita r o e s tu d a n te a r e c o n h e c e r o s p r in c ip a is r e c u r s o s e s tilís tic o s

e n c o n tr a d o s n a p o e s ia b íb lic a .

F a m ilia r iz a r o e s tu d a n te c o m a n a tu re z a e o s tip o s d e lite r a tu r a d e s a b e d o r ia .

5. P ro p o r te x to s b íb lic o s r e le v a n te s p a ra o e s tu d o d e p o e s ia e s a b e d o r ia .
A . C a p ítu lo 6 : o b je t i v o s

B. E s b o ç o d o c a p ítu lo

C . N a tu re z a e c a r a c te r ís tic a s d a p o e s ia b íb lic a

1 . P a r a le lis m o

a . P a r a le lis m o s in ô n im o

b . P a r a le lis m o a n tité tic o

c . P a r a le lis m o p r o g r e s s iv o

2 . C o n c is ã o

3 . C o n c re tu d e

4 . Im a g ís tic a

D . P o e s ia n o N o v o T e s ta m e n to

E. R e c u r s o s e s tr u tu r a is n a p o e s ia b íb lic a

1. B lo c o s e s tr u tu r a is

2 . In d ic a d o r e s e s tr u tu r a is

3 . E s tr u tu ra q u iá s tic a

4 . E s tru tu ra b ip a r tid a

F. R e c u r s o s e s tilís tic o s n a p o e s ia b íb lic a

G . L ite r a tu r a d e s a b e d o r ia

1. A n a tu re z a d a s a b e d o r ia .........................

2 . P r o v é r b io s

3 . E c le s ia s te s

4 .JÓ

5 . S a b e d o r ia e m o u tra s p a r te s d o A n tig o T e s ta m e n to

6 . S a b e d o r ia n o N o v o T e s ta m e n to

H . A m o s tra d e e x e g e s e : o liv r o d e J ó

1. In tro d u ç ã o

2 . H is tó r ia

3 . L ite r a tu r a

4 . T e o lo g ia

I. D ir e tr iz e s p a ra in te r p r e ta r a p o e s ia b íb lic a

J. D ir e tr iz e s p a r a in te r p r e ta r a lite ra tu r a d e s a b e d o r ia

K. P a la v ra s -c h a v e

L. Q u e s tõ e s p a ra a p ro fu n d a r o e s tu d o

M . E x e r c íc io s

N . .... B i b l i o g r a f i a d o c a p ítu lo
TEO LO G IA

HISTORIA ♦ L IT E R A T U R A S

CANON w GENERO LINGUAGEM


A n tig o T e s t a m e n to N a r r a tiv a h is tó r ic a d o A T C o n te x to d is c u r s iv o

N o v o T e s ta m e n to *■ P o e s ia e s a b e d o r ia S ig n ific a d o d a s p a la v r a s

P r o fe c ia L in g u a g e m fig u r a d a

N a r r a tiv a h is tó r ic a d o N T

P a r á b o la s

E p ís to la s

L ite r a tu r a a p o c a líp t ic a
Capítulo 6

A PALAVRA DO SÁBIO:
POESIA E SABEDORIA

N A T U R EZ A E C A R A C T E R ÍS T IC A S DA P O E S IA B ÍB L IC A

D
epois da narrativa do Antigo Testamento, o próximo gênero que en­
contramos em nosso percurso canônico pelas Escrituras é a poesia ou
sabedoria. Apesar de alguns terem questionado o rigor da classificação
de algum texto bíblico como poesia,1o consenso da maioria é que na Bíblia ocorre,
sim, poesia. Além de uma série de características positivas que distinguem a
poesia da prosa,2 certos atributos importantes que ocorrem com frequência na
prosa raras vezes se encontram na poesia. Entre eles estão principalmente o artigo
definido, a partícula relativa asher e a indicação do objeto direto definido (et).
De fato, os conectivos e as preposições são escassos na poesia. Reconhecendo o
consenso acadêmico a respeito dos parâmetros da poesia bíblica, vamos sugerir
diretrizes para a sua interpretação.

Paralelismo
Diferentemente da prosa, que forma suas frases e parágrafos com base em dis­
cursos, episódios ou cenas da narrativa, a poesia é construída usando versos

'E.g., James L. Kugel, The Idea o f Biblical Poetry (New Haven: Yale University, 1981).
2Veja, e.g., Wilfred G. E. Watson, Classical Hebrew Poetry (Sheffield: University o f Sheffield,
1986), p. 44-62; Robert Lowth, Lectures on the Sacred Poetry o fth e Hebrews (Boston: Crocker &
Brewster, 1829); Michael 0 ’Connor, Hebrew Verse Structure (W inona Lake, IN: Eisenbrauns, 1980).
individuais que comumente se caracterizam pelo uso intenso de imagens e
linguagem figurada. Embora a unidade básica de pensamento continue sendo o
verso individual, a característica mais recorrente na poesia hebraica é a repetição.
Ela pode ser observada sobretudo no uso do paralelismo pelo poeta, a prática de
empregar linguagem semelhante com aproximadamente o mesmo número de pa­
lavras e a mesma extensão, contendo um pensamento, uma frase ou uma ideia
correspondente em versos sucessivos. O paralelismo pode ocorrer em diversos
padrões e ser usado para diferentes propósitos.

P aralelismo sinônimo
O paralelismo mais comum ocorre quando se produz semelhança de pensamento
e expressão em versos paralelos. Contudo, aqui devemos nos precaver contra a
ideia de que o poeta está simplesmente dizendo a mesma coisa de dois modos
diferentes. Por isso, Alter observa com propriedade que, quando ocorre parale­
lismo sinônimo, ganha-se intensificação e realce do sentido para “avançar de um
termo mais comum no primeiro verso para um mais literário ou pomposo no
segundo verso”.3 Observe, por exemplo, Salmos 19.1:

Os céus proclamam a glória de Deus,


e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.

Nesse exemplo, o sujeito e o verbo de cada verso são claramente paralelos com
significados quase sinônimos, mas o objeto do segundo verso ultrapassa o do primeiro.
Os dois versos exibem características esquemáticas deliberadamente semelhantes,
contudo há um progresso claro no segundo. O efeito conjunto dos dois versos produz
uma nova dinâmica para todo o pensamento. Desse modo, os céus dão testemunho não
apenas da glória de Deus, mas também da obra de criação divina, aqui mencionada
antropomorficamente como produção das próprias mãos de Deus.
Inúmeros casos como esse podem ser mencionados. Observe os seguintes
exemplos:

... caiu na armadilha das palavras que você mesmo disse,


está prisioneiro do que falou (Pv 6.2, NVI).

Porque ele a estabeleceu sobre os mares e


firmou-a sobre as correntes (SI 24.2).

3Robert Alter, The Art o f Biblical Poetry (New York: Basic Books, 1985), p. 13.
Nos dois casos, detectamos semelhança de estrutura gramatical e de expres­
são, mas há uma mudança de imagem. No primeiro exemplo, aquele que empenha
sua palavra em favor do outro corre o risco de cair na armadilha das palavras de
sua própria boca. No segundo, a imagem da obra de criação de Deus representada
pelos mares se transfere para a imagem da água em movimento. Analise também
os seguintes versos de Salmos 46.7:

O Se n h o r dos Exércitos está conosco;


o Deus de Jacó é nosso refugio.

O exegeta atento se pergunta: “Que semelhanças e avanços tenho aqui?”. Isso


ilustra a essência do conhecimento de poesia. A poesia exige que o intérprete en­
tre no mundo e na mente do poeta. Fazendo isso, ele reflete sobre as experiências
e o estado de espírito do poeta a fim de compreender o significado e os motivos
do poeta para escolher essas figuras. Refletir sobre Salmos 46.7 traz de imediato à
mente ideias e imagens como a presença, as provisões e a proteção de Deus assim
como passagens bíblicas que refletem o cuidado de Deus pelos seus.
Algumas estruturas paralelas semelhantes se apresentam com inversão de
estrutura gramatical. Podemos chamá-las de paralelismos sinônimos invertidos.
Observe, por exemplo, Salmos 78.10:

Não guardaram a aliança de Deus


e se recusaram a andar na sua lei.

Infelizmente, esses casos nem sempre são evidentes na tradução para línguas
ocidentais modernas. Por isso, aqui o hebraico seria mais bem traduzido por:

Não guardaram a aliança de Deus


e na sua lei se recusaram a andar...

Ao justapor “aliança” e “lei”, o efeito da inversão nos versos paralelos é chamar


atenção para a gravidade do descumprimento deliberado da aliança ao mesmo
tempo em que muda a ideia de conduta pessoal para o da conhecida imagem bíblica
de caminhar (cf. Gn 17.1; Ez 18.9). Em outras passagens, o movimento do primeiro
verso para o segundo pode implicar 1) mudança de uma localização geral para uma
específica (SI 78.43), 2) de um nome de pessoa para sua linhagem patrilinear (Nm
23.18), ou 3) de um nome de pessoa, acrescido de sua linhagem patrilinear, para
uma característica individual específica (Nm 24.3):
... nem de como realizou seus sinais no Egito,
e suas maravilhas no campo de Zoã,
Balaque, levanta-te e ouve;
escuta-me, filho de Zipor
Fala Balaão, filho de Beor;
fala o homem que tem os olhos abertos;

Todos esses exemplos podem ser listados sob o título geral de paralelismo
sinônimo com epíteto no segundo verso.

P aralelismo antitético
Ao invés de semelhança de pensamento, alguns versos paralelos apresentam um
nítido contraste:

A justiça exalta as nações,


mas o pecado é a vergonha dos povos (Pv 14.34).

Além do paralelismo simples em dois versos que acabamos de observar, a oposi­


ção, às vezes, se forma ao longo de vários versos. Observe-se, por exemplo, Isaías 1.3:

O boi conhece o seu proprietário,


e o jumento, o cocho posto pelo seu dono,
mas Israel não tem conhecimento,
o meu povo não entende.

O exemplo contém metáforas incisivas. Ao contrário de animais desprovidos


de inteligência que sabem quem é seu dono e de onde vem seu alimento diário, o
povo de Deus não consegue entender que pertence a Deus e que tudo que tem se
deve a ele.

P aralelismo progressivo
No paralelismo progressivo, o verso (ou versos) subsequente suplementa e/ou
complementa o primeiro verso. O texto de Salmos 57.1 serve de exemplo
representativo:

Compadece-te de mim, ó Deus,


compadece-te de mim,
pois me refugio em ti.
Aqui, o motivo do clamor urgente do salmista se explica claramente no último
verso. Deve-se observar, porém, que uma partícula que denota causa nem sempre
está presente num verso paralelo. Analise Salmos 98.2:

O S e n h o r to r n o u c o n h e c id a s u a sa lv a ç ã o ,

m a n if e s to u s u a ju s t i ç a p e r a n te o s o lh o s d a s n a ç õ e s .

Embora aqui haja semelhança de estrutura, o segundo verso claramente


completa a ideia do primeiro. O salmista aqui toca em duas questões: a libertação
divina do povo de Deus, povo que serve de testemunho da justiça de Deus aos po­
vos vizinhos. O contexto evidencia que os dois grupos estão sendo considerados,
pois o “cântico novo” (v. 1) contém metáforas da libertação divina extraídas de
Êxodo 15.11,12 (“sua mão direita e seu braço santo”), enquanto o versículo 3 come­
mora o amor e a fidelidade da aliança de Deus para com Israel em seu livramento, o
que as nações viram claramente. Do ponto de vista contextual, portanto, o versículo 2
mostra um evidente avanço do pensamento, que só se completa com os dois versos.
Também podem ser distinguidos tipos especiais de paralelismo. No parale­
lismo em escada, versos sucessivos começam com frases semelhantes conduzindo
à conclusão da ideia do primeiro verso.

Cantai u m cântico novo ao Sen h o r,

c a n ta i a o S e n h o r , to d o s o s m o ra d o r e s d a te rra .

Cantai ao Sen h o r, bendizei o seu nome;


dia após dia, proclamai a sua salvação (SI 96.1,2).

Aqui, a repetição do convite para cantar louvor a Deus produz a celebração do


seu nome (seu caráter e sua reputação comprovados) e alcança o ápice no convite
para proclamar os atos de salvação de Deus. Assim, o cântico novo do versículo 1
não só é considerado novo no aspecto temporal, com a passagem de cada dia, mas
também novo no aspecto qualitativo de acordo com as bênçãos constantes de Deus.
Há um tipo de gradualismo conhecido como paralelismo anadiplótico. Nesses
casos, a progressão é facilitada repetindo-se no início do segundo verso as palavras
ou expressões do fim do primeiro. Observe, por exemplo, Salmos 96.12,13:

Então todas as árvores do bosque cantarão de júbilo;


[ c a n t a r ã o d e jú b i l o ] n a p r e s e n ç a d o S e n h o r , p o r q u e e le v e m ,

v e m ju l g a r a t e r r a .
Uma variação desse arranjo é omitir uma das palavras ou expressões de modo
que um único elemento apareça em um dos dois versos, mas deva ser entendido
em ambos. Isso pode ser demonstrado comparando as palavras de Salmos 96.13
com as de Salmos 98.8,9:

Batam palmas os rios;


juntos regozijem-se os montes
d ia n te d o S e n h o r .

Pois ele vem julgar a terra.

Comparando a frase “porque ele vem” em Salmos 96.13 com a de Salmos 98.8,9
(“pois ele vem”), pode-se perceber que sua ocorrência única neste último versículo
tem o propósito de realizar dupla função como uma articulação que conecta dois
versos paralelos. Podemos chamar esse tipo de paralelismo de paralelismo anadi-
plótico com articulação.
Às vezes se indica a progressão empregando uma seqüência numérica conhe­
cida como paralelismo gradual. Nesses casos, o segundo verso contém o próximo
dígito correspondente ou maior. Examine estes dois exemplos:

Há três coisas maravilhosas demais para mim; sim,


quatro que não entendo:
o caminho da águia no ar,
o caminho da cobra no penhasco,
o caminho do navio no mar e
o caminho do homem com uma virgem (Pv 30.18,19).

Saul feriu milhares,


mas Davi dez milhares (ISm 18.7).

Nos dois casos, a seqüência numérica dirige a atenção especialmente para os


elementos indicados pelo número maior. Quando se pretende definir um número
no sentido literal, é sempre o número maior, e os itens em questão são expostos
como no exemplo de Provérbios. Quando não se tem em mente um número no
sentido literal, não se dá mais nenhum detalhe, como na citação de ISamuel 18.
Nos dois casos, a seqüência numérica não somente atrai a atenção do ouvinte ou
leitor, mas também serve de auxílio à memorização.
A progressão também pode ocorrer pelo método formal de começar cada
verso ou conjunto de versos subsequentes com a letra seguinte do alfabeto hebraico.
Um exemplo bem conhecido pode ser encontrado no salmo 119. Entre outros
salmos, temos 25, 34, 37, 111, 112 e o 145. Muitas vezes se observou um acróstico
alfabético incompleto na combinação dos salmos 9 e 10. Os acrósticos servem não
apenas de artifício estilístico e de memorização, mas também convidam o leitor a
analisar o efeito de toda a composição.
Outro tipo de evidente progressão é conhecido tradicionalmente com o para­
lelismo emblemático. Nesse tipo, o paralelismo ocorre mediante uma símile. Deste
modo, Salmos 103.13 diz:

Como um pai se compadece de seus filhos,


a s s im o S e n h o r se c o m p a d e c e d o s q u e o te m e m .

Não só se ilustra o amor de Deus, comparando-o com o de um pai humano,


mas a comparação também estimula um raciocínio a fortiori (do menor para o
maior; lit. “para o mais forte”). Se um pai pode ser compassivo com seus filhos,
quanto mais Deus pode sentir compaixão pelos seus? O efeito produzido em
Salmos 103.13 é sublinhar a ênfase que começou nos versículos 11 e 12. O racio­
cínio a fortiori obviamente também pode ser expresso em estilo paralelo formal:

Se o justo é castigado na terra,


quanto mais o ímpio e o pecador! (Pv 11.31).

Concisão
Uma segunda característica da poesia hebraica é a concisão. Os poetas têm um
jeito de expressar seus pensamentos de modo tão conciso que o resultado é uma
apresentação elegante e sucinta, despida de detalhes desnecessários. Observe o
efeito dramático da descrição de Naum do ataque contra Nínive:

O estalo do chicote!
O e stro n d o d as ro d a s!

O g a l o p e d o s c a v a lo s !

O saltar dos carros!


O c a v a le ir o m o n ta d o ,

a e s p a d a f l a m e ja n t e ,

a lança reluzente! (Na 3.2,3).

Observe também o louvor de Moisés a Yahweh no cântico de vitória depois


da libertação de Israel através das águas do mar Vermelho:
Yahweh é homem de guerra;
Yahweh é o seu nome (Êx 15.3; texto hebraico).

Aqui, a figura do Senhor nos é apresentada em estilo sucinto como um


guerreiro vencedor com a reputação comprovada do Deus soberano em tudo, no
conhecido tema do Nome.

Concretude
Uma terceira característica da poesia é sua natureza concreta. Como Michael
Travers observa, a poesia “permite que o leitor veja, deguste, toque, cheire e ouça
os temas que o poeta retrata”.4 Nesse sentido, a diferença entre prosa e poesia é
acentuada. Esse aspecto pode ser observado no relato duplo da morte de Sísera
pelas mãos de Jael. O relato em prosa detalha a fuga de Sísera do exército israelita;
seu encontro com Jael e a conversa deles; a morte do então exausto comandante do
exército cananeu por Jael; e a subsequente chegada de Baraque, o comandante dos
israelitas que perseguiam o cananeu (Jz 4.17-22). O relato poético, no entanto,
concentra a atenção na morte de Sísera e relata com um toque dramático:

Ele pediu água, ela lhe deu leite;


em taça de príncipes ofereceu-lhe coalhada.
Estendeu a mão para pegar a estaca,
e com a mão direita pegou o martelo dos trabalhadores.
Golpeou Sísera, rachando-lhe a cabeça;
furou e atravessou-lhe as têmporas.
Aos pés dela encurvou-se, caiu e ficou estirado;
aos pés dela encurvou-se e caiu;
onde se encurvou, ali caiu morto (Jz 5.25-27).

Aqui, quase se pode ver Jael pegando a pesada estaca de ferro da tenda,
colocando-a na têmpora de Sísera e cravando-a com o martelo. Jael desferiu o
golpe mortal no poderoso comandante inimigo, que agora jaz morto aos pés de
uma simples mulher queneia. Como caíram os valentes!

Imagística
Uma quarta característica da poesia é a abundância de imagens. Os poetas cos­
tumam pensar mais em imagens que em abstrações. Com uma imagem, o poeta

“Michael Travers, “Poetry”, in: Kevin J. Vanhoozer, org., Dictionary fo r Theological Interpretation
ofth e Bible (Grand Rapids: Baker, 2005), p. 595.
retrata a realidade ou a expressa com termos mais concretos que exigem atenção
e interação cuidadosas do intérprete. Como Tremper Longman III observa: “A
linguagem figurada é um modo conciso de escrever, porque uma imagem não
somente comunica informações, mas também provoca uma reação emocional”.5
A imagística faz uso constante de linguagem figurada. As palavras adquirem
um sentido diferente do seu sentido denotativo. Assim, duas coisas diferentes se
aproximam e se comparam. Empregando linguagem figurada, o poeta não só torna
seu trabalho mais pictórico e mais atraente, mas também convida o leitor a observar
e meditar mais atentamente no que está dizendo. Ao mesmo tempo, a linguagem
ügurada, por ser condensada, permite a expressão mais concisa, que é lembrada
com mais facilidade.
Como se observa no capítulo 5, uma enorme quantidade de figuras ocorre
na poesia bíblica.6 As figuras de comparação, como a metáfora e o símile, são par­
ticularmente abundantes. Desse modo, Cântico dos Cânticos é repleto de imagens
expressas por metáforas e símiles. Observe, por exemplo, os versos a seguir:

Eu sou a rosa de Sarom,


o lírio dos vales.
Como um lírio entre os espinhos,
assim é a minha amada entre as moças (Ct 2.1,2).

Visto que muitos desses casos envolvem a pessoa e a obra de Deus, é importante
que o intérprete perceba a força das figuras empregadas. Observe isto:

O Se n h o r é o meu pastor (S I 23.1).

Assim como o pastor busca o seu rebanho [...]


também buscarei as minhas ovelhas (Ez 34.12).

Ó pastor de Israel, dá ouvidos (SI 80.1).

Por sua vez, Deus é comparado a algo pelo emprego de metáfora, símile e
hipocatástase. Na metáfora, determinado objeto é identificado com outro: O Senhor

3Tremper Longman III, “Psalms”, in: Leland Ryken e Tremper Longman III, orgs., A Complete
Literary Guide to the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1993), p. 251.
6Veja também a extensa apresentação em Roy B. Zuck, Basic Bible Interpretation (Wheaton: Victor,
1991), p. 143-68; E. W. Bullinger, Figures ofSpeech Used in the Bible (London: Eyre & Spottiswoode,
.898; reimpr. Grand Rapids: Baker, 1968).
é um pastor. Pelo símile, um objeto é comparado com outro: o Senhor é (age) como
um pastor. Com a hipocatástase, uma coisa recebe o nome de outra: “Ó pastor”,
“meu pastor”. Em cada caso, o poeta cria uma imagem visual de um pastor e suas
ovelhas. Do mesmo modo que um pastor cuida de seu rebanho, também o Senhor
cuida de seu povo.
Algumas comparações não são tão lisonjeiras, mas ainda assim apresentam
figuras muito expressivas. Observe:

Por acaso sou algum cachorro, para que venhas contra mim com pedaços de pau?
(lS m 17.43).

Como o cão que retorna ao vômito,


assim é o tolo que insiste na insensatez (Pv 26.11).

Cães me rodeiam (SI 22.16).

Mais uma vez, o observador atento perceberá a variação entre as três figuras
mencionadas anteriormente.
O antropomorfismo atribui características ou qualidades humanas a Deus.
Especialmente comuns são as diversas partes do corpo humano, como a face
(Ap 6.16), aboca (Is 1.20), a língua (Is 30.27), os lábios (Jó 11.5), os olhos (SI 33.18),
os ouvidos (SI 71.2), os pés (SI 18.9), as mãos (Is 64.8), os braços (Is 51.5), os dedos
(SI 8.3) e o coração (Jr 31.20).7O antropopatismo atribui emoções humanas a Deus,
como, por exemplo, a compaixão:

Como te abandonaria, ó Efraim?


Como te entregaria, ó Israel?
Como te faria como Admá?
Ou como Zeboim?
O meu coração se comove,
as minhas compaixões despertam todas de uma vez (Os 11.8).

Da mesma forma, muitas vezes Deus é retratado arrependendo-se (Jr 26.3)


ou tendo uma atitude mais branda ao realizar uma ação.

7Veja Richard D. Patterson e M ichael E. Travers, Face to Face with God: Human Images o fG od
in the Bible (Richardson, T X : Biblical Studies Press, 2008).
Mediante o zoomorfismo, atribuem-se características típicas de animais a
Deus. Assim, pode-se comparar o cuidado terno de Deus para com o fiel ao de uma
ave, enquanto seu poder de castigar se compara ao de um leão:

Ele te cobre com suas penas;


tu encontras refúgio debaixo das suas asas (SI 91.4).

Pois serei como um leão para Efraim,


e como um leão forte para a casa de Judá;
eu despedaçarei e irei embora;
eu os arrancarei, e ninguém os livrará (Os 5.14).

O intérprete zeloso da Palavra de Deus precisa dar o salto mental comparativo


necessário e visualizar a descrição do poeta nessas e nas outras figuras detalhadas
no capítulo 5. Saber compreender a natureza das figuras envolvidas no contexto
é fundamental para a interpretação correta. Isso pode até ser um meio de evitar
conclusões teológicas equivocadas. Por exemplo, não saber reconhecer as descrições
antropomórficas de Deus pode fazer com que se veja Deus de forma puramente
física, e não como ele realmente é — um espírito eterno, infinito e perfeito (Jo 4.24).

P O E S IA NO N O V O T E S T A M E N T O
Todos os exemplos anteriores foram retirados do Antigo Testamento. No entanto,
os princípios fundamentais se aplicam em grande parte onde há poesia no Novo
Testamento. É útil lembrarmos que, com a possível exceção de Lucas, os autores
do Novo Testamento foram criados num ambiente judaico. Em relação à poesia,
é provável que eles pensassem de acordo com os exemplos do Antigo Testamento.
Não se percebe isso quando se lê o Novo Testamento, pois as traduções em por­
tuguês muitas vezes não apresentam passagens importantes como poesia.
Por essa razão, as diversas estruturas paralelas que já estudamos podem ser
encontradas no Novo Testamento: 1) sinônimas, 2) antitéticas e 3) progressivas.
Observe os seguintes exemplos:

1) Pedi, e vos será dado;


buscai, e achareis;
batei, e a porta vos será aberta (Mt 7.7).
2) Assim, toda árvore boa produz bons frutos;
porém, a árvore má produz frutos maus (Mt 7.17).

3) Bem-aventurados os misericordiosos,
pois alcançarão misericórdia (Mt 5.7).

Também são encontradas estruturas paralelas como: 1) paralelismo gradual, 2)


paralelismo anadiplótico, e 3) paralelismo emblemático. Observe os seguintes exemplos:

1) Qualquer pessoa que recebe esta criança em meu nome,


a mim me recebe;
e quem me recebe,
recebe aquele que me enviou (Lc 9.48).

2) Se alguém levar para o cativeiro,


para o cativeiro irá;
se alguém matar à espada,
é necessário que seja morto à espada (Ap 13.10).

3) Assim como o Pai me enviou,


também eu vos envio (Jo 20.21).

A poesia também está presente nos louvores sálmicos que envolvem a nativi­
dade (Lc 1.47-55,67-79), em muitas declarações no Novo Testamento (lTm 3.16) e
em muitos hinos e cânticos (Lc 2.14; Ap 11.15; 15.3). Algumas passagens são regis­
tradas como poesia no Novo Testamento (e.g., Fp 2.5-11). Vale a pena observar que
muitas vezes se aventou que aqui é possível detectar um antigo provérbio poético
que Paulo pode ter usado para estruturar todo o seu poema:

Sendo da própria natureza de Deus,


se fez nada;
encontrando-se na forma de um homem,
humilhou a si mesmo (Fp 2.6,8).

A poesia do Novo Testamento também apresenta concisão e concretude.


Observe os seguintes exemplos:

1) Todo homem deve estar pronto a ouvir,


ser tardio para falar e tardio para se irar (Tg 1.19).
Sois semelhantes aos sepulcros caiados,
que por fora parecem belos,
mas por dentro estão cheios de ossos
e de toda imundícia (Mt 23.27).

Podem ser encontradas imagens do início ao fim das páginas do Novo


Testamento, principalmente nas falas de Jesus. Referindo-se a Jesus, Leland Ryken
assinala: “O grande poeta do Novo Testamento obviamente é Jesus. Na verdade,
Jesus é um dos mais célebres poetas do mundo. O estilo de seus sermões e de seus
discursos é essencialmente poético. A linguagem de Jesus é repleta de metáforas e
símiles”.8Isso se vê em seus discursos construídos com base nas declarações “Eu sou”
em João (6.35; 8.12; 9.5; 10.7,11,14; 11.25; 14.6; 15.1). Ryken observa acertadamente
que Jesus “se expressou com imagens, em vez de abstrações teológicas. [...] Para
compreender a mensagem de Jesus nos Evangelhos, precisamos aplicar tudo que
sabemos acerca de como a poesia funciona”.9 De fato, Jesus muitas vezes ensinava
por meio de imagens agradáveis que estimulavam a reflexão.
Compreendendo a natureza poética de passagens pertinentes do Novo Testa­
mento, o intérprete adquire uma nova perspectiva. Até os tratados teológicos ganham
vida com novos aspectos dramáticos de estrutura, visão, som e sensibilidade estilís­
tica. Pense no efeito de ler o conhecido preâmbulo do Evangelho de João (1.1-18)
como uma passagem predominantemente poética que inicia o relato joanino.
De fato, “o prólogo sem dúvida representa uma das mais belas e mais bem elabora­
das porções poéticas de todo o N T”.10 Observamos aqui apenas os versículos 1-5.11

No princípio era o Verbo,


e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele,
e, sem ele, nada do que foi feito existiria.

8Leland Ryken, Words ofL ife (Grand Rapids: Baker, 1987), p. 102.
9Ibidem, p. 103.
“ Andreas J. Kõstenberger, John, BECNT (Grand Rapids: Baker, 2004), p. 19-20.
“ Alguns sugeriram que o prólogo ao Evangelho de João foi extraído de um poema existente (quer
escrito pelo próprio João ou por outra pessoa) no qual João inseriu material narrativo a respeito
do papel de João Batista (v. 6-8,15). Para mais detalhes, veja David L. Barr, New Testament Story
(Belmont, CA: Wadsworth, 1987), p. 242-3.
A vida estava nele
E era a luz dos homens;
A luz resplandece nas trevas,
e as trevas não prevaleceram contra ela.

Considerando nosso estudo das características poéticas e das técnicas semíticas


de composição, que tipos de estruturas paralelas se observam aqui? Que técnicas de
composição se destacam? Qual é o impacto de imagens como vida, luz e trevas? Em
que o fato de compreender a concisão e a concretude ajuda a entender e perceber
com mais profundidade os conceitos teológicos que João está comunicando? Acre­
ditamos que, fazendo perguntas como essas, você adquire uma nova perspectiva e
melhor compreensão da habilidade poética com que João iniciou seu Evangelho.12

R E C U R S O S E S T R U T U R A IS NA P O E S IA B ÍB L IC A
Blocos estruturais
Claramente, o paralelismo é tanto uma característica essencial da poesia bíblica
como uma importante forma estrutural. Aqui, no entanto, estamos pensando nos
blocos estruturais básicos que compõem o poema todo. A estruturação poética
começa com a linha individual conhecida como estíquio, verso ou cólon. Adota­
mos o termo “verso” em nossa análise.
O monástico é uma linha poética individual que não combina rigorosamente
com outro cólon.13 Pode-se usá-lo para iniciar uma unidade ou subunidade de
pensamento. Observe, por exemplo, Salmos 18.1: “Eu te amo, ó Sen h o r, minha
força”. Aqui o testemunho do salmista de seu amor a Deus independe das linhas
poéticas seguintes, embora influencie tudo que tem a dizer em todo o seu salmo
de louvor a Deus. Semelhantemente, Salmos 11.1 começa com a declaração do
salmista de seu amor a Deus, o que, por sua vez, deve ser entendido (embora não
esteja estruturalmente conectado) no restante do salmo.
Um monástico também pode ser encontrado no fim de um salmo. Assim,
o salmo 2 termina com uma única linha final de louvor ao Senhor: “Bem-aven­
turados todos os que confiam nele” (SI 2.12). Por vezes, um monóstico funciona
como aposiopese, ou interrupção súbita no fluxo de pensamento ou estrutura.

12Para análise de todo o prólogo, veja Kõstenberger, John, p. 19-50.


13Para detalhes, veja Wilfred G. E. Watson, Classical Hebrew Poetry (Sheffield-, University of
Sheffield, 1986), p. 12.
Por exemplo, no meio de sua descrição dos preparativos militares escatológicos,
Joel exclama: “Ó Sen h or , faz descer para lá os teus guerreiros” (Jl 3.11). O verso
individual aqui serve não apenas de interrupção súbita na descrição de eventos,
mas também constitui uma apóstrofe, ou uma fala direta a alguém como se ele
estivesse presente. Com uma apóstrofe, não só pessoas, mas também coisas podem
ser abordadas como se estivessem presentes: “Ó terra, terra, terra, ouve a palavra
do Sen h or !” (Jr 22.29).
Uma ideia paralela em dois versos sucessivos é conhecida geralmente como
dístico. Observamos exemplos dessa espécie nas análises anteriores, pois talvez esse
seja o mais comum de todos os recursos estruturais poéticos. Está particularmente
presente na poesia de sabedoria. Atente para o seguinte exemplo:

Minha boca falará com sabedoria;


e a meditação do meu coração trará entendimento (SI 49.3).

O temor do Sen h o r é o princípio do conhecimento.


Os insensatos, porém, desprezam a sabedoria e a instrução (Pv 1.7).

O terceto consiste em três versos que formam uma unidade distinta. Esse tipo
também é extremamente comum na poesia bíblica. Embora os tercetos possam
ocorrer em qualquer parte de um salmo (e.g., SI 10.9), eles muitas vezes se situam
ao início de uma unidade ou subunidade de poesia. Observe os seguintes exemplos:

O Sen h o r é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador;


o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refugio;
o meu escudo, a força da minha salvação e a minha torre de proteção (SI 18.2).

Ó Deus, dá ouvidos à minha oração


e não te escondas da minha súplica.
Atende-me e ouve-me (SI 55.1,2a).

Também se podem encontrar tercetos no fim de uma unidade ou subunidade.


O salmo 16 termina com estas palavras:

Tu me farás conhecer o caminho da vida;


na tua presença há plenitude de alegria;
à tua direita há eterno prazer (SI 16.11).
O salmo 18 finaliza:

Ele dá grande livramento ao seu rei


e usa de fidelidade para com o seu ungido,
para com Davi e sua posteridade, para sempre (SI 18.50).

Às vezes dísticos e tercetos se intercambiam para indicar limites estruturais


de unidades e subunidades de pensamento. No cântico de vitória em duas partes,
de Habacuque (Hc 3.1-7,8-15), a transição entre as duas seções se dá concluindo a
primeira etapa com um terceto mais um dístico e iniciando a segunda seção com
um dístico mais um terceto:

Os montes antigos se destroem,


as velhas colinas se abatem;
o seu andar é assim desde a eternidade.
Vejo as tendas de Cusã em aflição;
as cortinas da terra de Midiã tremem (v. 6,7).
Acaso é contra os rios que o Sen h o r está irado?
É contra os ribeiros a tua ira?
Ou contra o mar o teu furor,
quando andas montado nos teus cavalos,
nos teus carros de vitória? (v. 8).

Habacuque não somente combina seus dois poemas por meio desse padrão
estrutural, mas também assinala a transição para o segundo poema mudando o
padrão das frases para interrogativas.
Quartetos e quintetos são mais raros. Entretanto, pode-se verificar o em­
prego de cada um deles. O salmo 114 é composto de quatro quartetos, enquanto
Salmos 9.13,14 é estruturado com um quinteto.
Na poesia, os diversos tipos de versos se reúnem em unidades maiores. Em­
bora os acadêmicos usem diferentes terminologias, adotaremos aqui as designações
usadas por Watson, que divide o poema todo em unidades sucessivamente menores
conhecidas respectivamente como estância e estrofe.14Caminhando em sentido oposto,
do menor para o maior, os diversos versos analisados anteriormente podem formar
uma estrofe. Uma ou mais estrofes podem constituir uma estância e as estâncias se
combinam para compor todo o poema. Do ponto de vista ideal, os poemas de certa

14Ib id e m , p. 1 3 -4 .
extensão são constituídos de algumas estâncias, que ainda se subdividem em estrofes
que consistem em um ou mais versos. Desse modo, pode-se esquematizar o salmo de
Habacuque mencionado anteriormente (Hc 3.3-15) do seguinte modo:

As diversas estrofes são compostas de linhas poéticas em dísticos e tercetos


que se alternam.

Indicadores estruturais
Uma coisa é ter conhecimento dos blocos estruturais da poesia; outra é reconhe­
cê-los. Ao determinar subunidades distintas de determinada composição poética,
como um salmo, por exemplo, devemos ter em mente as diversas técnicas de
composição mencionadas no capítulo 5, que serão tratadas mais detalhadamente
no capítulo seguinte em conjunto com as diretrizes para interpretar a profecia.
Aqui observamos em particular o emolduramento (ou inclusió) e a costura, ambos
extremamente comuns na poesia bíblica.
A inclusio implica a técnica de, no fim de uma unidade, voltar a um tema,
assunto ou palavra(s) mencionada(as) no início dessa seção. O resultado da inclu­
sio assim constituída é delimitar o materiallntercalado de modo que componha
uma seção individual de pensamento, como se alguém colocasse na estante livros
de uma mesma coleção entre dois suportes. Os poetas às vezes empregam inclusio
para delimitar poemas inteiros. Desse modo, o salmo 103 começa e termina com o
clamor: “Ó minha alma, bendize o S e n h o r ;” ( v . 1 ,2 2 ) . Também podem ser encon­
tradas subunidades individuais. Por exemplo, a profecia de Naum do julgamento
do Senhor contra Nínive é emoldurada pelo tema da perversidade (Na 1.11,15). O
salmista condena a insensatez de acumular riquezas e não viver uma vida piedosa,
empregando palavras que se referem à riqueza (SI 49.16,20).
Os poetas também fazem uso de costura. Com esse termo designamos a prática
do autor de ligar unidades ou subunidades sucessivas de um poema por meio da
repetição de uma palavra, frase ou ideia. Salmos inteiros podem ser unidos no cânon
com esse recurso. Por exemplo, o salmo 135 retoma o tema do louvor e ministério
na casa do Senhor expresso no salmo 134 (cf. SI 134.1 com 135.1,2). Por sua vez, o
salmo 135 prepara o leitor para o salmo 136 com a ênfase na bondade de Deus (cf.
SI 135.3 com SI 136.1). O salmo 135 também serve de articulação (uma terceira
técnica composicional) entre os dois salmos adjacentes.
A costura entre unidades de um poema é muito comum. Podemos tomar
como exemplo o salmo 46. Aqui as palavras “rio” e “correntes” da segunda estância
(v. 4-7) fazem a costura do tema da água (v. 3) na primeira estância (v. 1-3). Do
mesmo modo, a ideia de Deus como refúgio e fortaleza (v. 1) liga ainda mais a ideia
de Deus com seu povo como refúgio (v. 7). Por sua vez, as estâncias dois e três são
interligadas com palavras como “nações” (v. 6, 10) e “refúgio” (v. 7,11) e a ideia do
Senhor todo-poderoso estando “conosco” (v. 7,11).
Observamos acima que o salmo 135 serve de articulação (ou ponte) entre os
salmos 134 e 136. Um único verso também pode ser uma unidade de pensamento
independente que, apesar de constituir uma transição entre duas seções, também
participa em alguma medida das duas que ele liga. Desse modo, Sofonias 3.8 retoma
o tema do julgamento/justiça e as nações (v. 1-7) e prepara o leitor para o tema do
dia escatológico nos versículos 9-20.0 versículo 8 também une a ênfase na cidade de
Jerusalém, comum tanto à seção anterior como à seguinte (cf. v. 1,7 com 11,16). Até os
profetas eram capazes de se expressar em poesia composta com beleza e refinamento.
Também podem ser observados alguns outros indicadores estruturais. Partí­
culas, palavras e expressões introdutórias muitas vezes indicam que o poeta passou
a um tema ou unidade de pensamento novo. No salmo 46, a transição do louvor e
confiança do poeta em Deus nas duas primeiras estâncias para um novo destaque
é assinalada pelo convite “vinde, contemplai as obras do S e n h o r ” (v . 8 ) . Esses con­
vites não são raros (e.g., Sl 34.11; 66.5,16; Is 1.12). Do mesmo modo, as transições
para novas unidades de pensamento se efetuam no salmo 17 pelo repetido pedido
de que sua oração seja ouvida e respondida (v. 6) e sua nova súplica pela liberta­
ção do Senhor, confiante na ação de Deus (v. 13). Muitas vezes os poetas também
começam unidades expressando a condenação do Senhor, usando palavras como
“ai” (e.g., Na 3.1; Hc 2.6,9,12,15; Sf 3.1).
Uma clara mudança de assunto também pode indicar uma nova unidade
poética. Isso é bem comum na literatura. Como ilustração, observe o fluxo de
pensamento no salmo 18. O louvor de Davi a Deus pela resposta do Senhor à sua
súplica por livramento de grande aflição (v. 4-6) é seguido de palavras extraídas do
relato histórico da libertação de Israel no evento do Êxodo (v. 7-15; cf. Êx 15,14-16;
Jz 5.4b,5; SI 68.8,9; 77.16-18; 144.5,6; Hc 3.8-15). Davi em seguida volta a testemu­
nhar o livramento divino de sua imensa angústia (SI 18.16-18). A conclusão é que
o mesmo grande poder que Deus usou para libertar Israel foi exercido em favor de
Davi. Observe que, apesar de haver mudança de assunto em sucessivas unidades de
pensamento, há coerência no quadro geral. O intérprete, portanto, deve procurar
não somente a mudança de ênfases de pensamento e de assunto em seções suces­
sivas, mas também compreender como cada parte contribui para a imagem geral
que o poeta deseja comunicar.
Outro exemplo desse fato é a mudança de assunto feita por Davi no salmo
2. Aqui o salmista desvia sua atenção da atitude reinante de rebeldia das autorida­
des terrenas hostis (v. 1-3) para a reação do Senhor: ele empossou seu próprio rei
(v. 4-6). Em seguida, o salmo registra as palavras desse rei a respeito da promessa de
Deus a ele (v. 7-9). A isso se segue a advertência final do salmista aos rebeldes para que
se rendam aos planos de Deus anunciados para o governo da terra por seu Ungido.
A mudança gramatical também pode indicar o início de uma nova unidade. Em
Sofonias 3 há uma clara variação verbal da repetição das condutas passadas de Deus
para com Israel (v. 6,7) para o versículo de articulação mencionado anteriormente,
que contém um imperativo (v. 8). A isso então se seguem verbos apropriados que
indicam os planos futuros de Deus (v. 9-20). O padrão gramatical às vezes também
indica mudança de assunto. Por exemplo, o salmo 73 começa com a declaração
inicial do salmista de confiança no Senhor (“Certamente”, v. 1), que é seguida por
uma declaração de seus problemas passados (“Quanto a mim”, v. 2). O poeta em
seguida revela a causa de seu problema: o êxito dos ímpios, o que inclui expressões
das ações e atitude deles (introduzidas pela expressão “Por isso”, v. 6,10). O antigo
problema do poeta é aumentado por outra expressão de certeza (“Por certo”) que
expressa seus sentimentos causados pelo êxito dos ímpios apesar da conduta infiel
deles (v. 13-17). A última parte do salmo também mostra um padrão semelhante,
embora não idêntico (v. 18-28).
A mudança estrutural também pode ocorrer com o uso de estribilho. Por
exemplo, observe estas palavras em Salmos 42.5,11:

Por que estás abatida, ó minha alma,


por que te perturbas dentro de mim?
Espera em Deus,
pois ainda o louvarei,
minha salvação e meu Deus.

Esse estribilho duplamente recorrente também aparece em Salmos 43.5.


Junto com outras informações, isso deu a entender a muitos qüe originalmente os
dois salmos eram uma composição só. Entre outros estribilhos poéticos, podemos
observar os seguintes exemplos:

Ó Deus, sê exaltado acima dos céus;


a tua glória esteja sobre toda a terra (SI 57.5,11).

-Esperarei em ti, força minha;


pois Deus é meu alto refúgio (SI 59.9; cf. v. 17).

Estrutura quiástica
Na estrutura quiástica, a segunda metade de uma composição utiliza as mesmas
palavras, os mesmos temas ou assuntos da primeira metade, mas na ordem in­
versa. Muitas vezes essas duas partes se unem em torno de um núcleo comum,
que pode constituir a ideia mais proeminente ou a ênfase pretendida pelo autor.
O quiasmo pode abranger dois, três ou até mais versos. Por exemplo:

A E s p e r a p e lo S e n h o r ;

B anima-te e fortalece teu coração;


A’ espera, pois, pelo S e n h o r (S I 27.14). ~

Composições inteiras também podem ser escritas na forma de um quiasmo.


Assim, no salmo 70, a oração do salmista por libertação (v. 1,5) delimita um nú­
cleo central em que ele pede a derrota de seus inimigos (v. 2,3) e a bênção de Deus
sobre os justos.
É necessário, entretanto, evitar a tentação de encontrar estruturas quiásticas
em praticamente toda parte. Alguns não mediram esforços para reconstruir com­
posições poéticas formadas a partir da mais tênue evidência, como, por exemplo,
uma única palavra. Na verdade, há evidências do padrão A B A mesmo na mais
antiga literatura do antigo Oriente Próximo, mas isso não serve de pretexto para
encontrar ou criar, com engenhosidade, um quiasmo onde ele não existe.
Estrutura bipartida
Por estrutura bipartida designamos a estruturação feita pelo poeta de seu material
em duas partes, cada uma respondendo à outra de modo semelhante ou corres­
pondente e na mesma ordem básica. Por exemplo, no salmo 135 o convite do
início e o do fim para louvar ao Senhor (v. 1,2,19-21) delimitam uma seção central
composta como poema bipartido. Os versículos 3-18 podem ser esquematizados
em linhas gerais como segue:

6.1. SALMOS 135.3-18

A . Em su a im e n s a b o n d a d e D e u s e s c o lh e u S u a n a tu r e z a im u tá v e l g a r a n te q u e

Isra e l p a ra s e r s e u p o v p (3 -1 2 ) te n h a c o m p a ix ã o p o r s e u p o v o e lh e f a ç a

ju s t iç a (1 3 -1 8 )

1 . D e c la r a ç ã o in tr o d u tó r ia d e lo u v o r p e la D e c la r a ç ã o in tr o d u tó r ia d a fa m a e d a

b o n d a d e d e D eu s p ara c o m se u p o v o im u tá v e l b o n d a d e d e D e u s ( 1 3 ,1 4 )

e s c o l h id o ( 3 ,4 )

2 . R e co rd a çã o d a g ra n d e z a d e D eu s R e p e tiç ã o d a g r a n d e z a d e D e u s e m

a c im a d e to d o s o s d e u s e s / n a tu re z a / c o m p a ra ç ã o c o m o u tro s d e u s e s e se u s

p o v o s (5 -1 2 ) íd o lo s (1 5 -1 8 )

A profecia dupla de Naum da destruição de Nínive mostra um padrão de tema,


desenvolvimento e aplicação em cada uma de suas partes:

6.2. PROFECIA

Declaração da destruição de Nínive Descrição da destruição de Nínive

T e m a : 1 .2 2 .1 ,2

D e s e n v o lv im e n to : 1 .3 -1 0 2 .3 -1 0 ; 3 .1 -7 " -

A p lic a ç ã o : 1 .1 1 -1 5 2 .1 1 -1 3 ; 3 .8 -1 9

Do mesmo modo, pode-se compreender Sofonias como uma composição


bipartida:
P r o n u n c ia m e n t o s c o n t r a a t e r r a ( 1 .2 ,3 ) P r o n u n c ia m e n t o s c o n t r a a s n a ç õ e s ( 2 .4 - 1 5 )

P r o n u n c ia m e n t o s c o n t r a J u d á ( 1 .4 - 6 ) P r o n u n c ia m e n to s c o n tr a Je r u s a lé m ( 3 .1 - 7 )

E x o r t a ç ã o ( 1 .7 - 1 3 ) E x o r t a ç ã o ( 3 .8 )

I n f o r m a ç õ e s ( 1 .1 4 - 1 8 ) I n f o r m a ç õ e s ( 3 .9 - 1 3 )

instruções (2.1-3) I n s tr u ç õ e s ( 3 .1 4 - 2 0 )

Aqui mais uma vez é conveniente uma observação de cautela. O estudante


deve tomar cuidado para não propor estruturas bipartidas se o material não refletir
claramente o esquema pretendido pelo autor.

R E C U R S O S E S T IL ÍS T IC O S NA P O E S IA B ÍB L IC A
Além de características como concisão, concretude e uso habilidoso de imagens
e figuras de linguagem, também há diversas características de estilo. Dois desses
recursos são a rima e o ritmo. Infelizmente, a não ser que se esteja lidando com
o texto original, nem sempre se vê a rima nas traduções bíblicas. Com muita fre­
quência perdemos o belo toque do artista literário. Por exemplo, preste atenção
em Naum 1.15:

Ó Judá, celebra as tuas festas,


Cumpre os teus votos.

As duas palavras hebraicas paralelas traduzidas por “festas” e “votos” termi­


nam em -ayik, mas isso não se vê na tradução em português. Se o objetivo fosse
refletir a forma sonora do Texto Massorético, a passagem em questão teria de ser
traduzida do seguinte modo:

Ó Judá, observa tuas celebrações,


Cumpre tuas sagradas declarações.

Quando pensamos em rima, porém, não devemos imaginar os padrões intrinca­


dos da poesia ocidental. Em geral, a rima hebraica tem por base repetir terminações
semelhantes. Assim, em Isaias 33.22, a repetição quádrupla do sufixo pronominal
pessoal plural -nüé um claro padrão de rima, o que se perde na tradução.
Também não se deve esquecer da rima mais comum que consiste em padrões
de duas palavras, como no conhecido tõhü wãbõhü (sem forma e vazia, Gn 1.2).
Assonância semelhante é bem comum. Observe, por exemplo, Naum 2.10: büqãh
ümèbüqãh ümêbullãqãh. Aqui observamos não apenas um jogo sonoro (assonância),
mas também a aliteração, no emprego repetido de um número restrito de letras
hebraicas. Pode-se representar o efeito do conjunto assim: “destruído, despojado e
desnudado”. Como a assonância, a aliteração também é muito comum no Antigo
Testamento hebraico. Ambos os recursos serviam para facilitar a memorização.
Outro recurso literário da poesia é o uso de sinônimos em linhas poéticas
sucessivas. Por exemplo, observe Habacuque 3.8:

A c a s o é c o n t r a o s r io s q u e o S e n h o r e s tá ira d o ?

É c o n t r a o s r i b e i r o s a t u a ir a ?

O u c o n tr a o m a r o te u fu ro r?

Aqui, três fontes de água são sobrepostas para chamar atenção de forma dra­
mática para os triunfos do Senhor no mar Vermelho e no rio Jordão.
Ê certo que rimas bem desenvolvidas, mais amadurecidas, em estâncias ou
poemas inteiros são raras, se não praticamente ausentes no Antigo Testamento
(embora ocorram na poesia hebraica posterior). O mesmo também ocorre com o
uso dos padrões rítmicos, apesar de muitas tentativas engenhosas de demonstrar
a existência de diversos padrões métricos (que, repetindo, ocorrem na literatura
hebraica posterior). Temos em mente aqui padrões como os que contêm dois tempos,
um longo e um breve: trocaico ( /u), iâmbico (u / ) ou espondaico (uu), e os que
têm três tempos: datílico (/ uu), anapesto (uu /), anfíbraco (u /u) e tríbraco (uuu).15
Uma vez que o leitor de traduções em línguas modernas raramente percebe rima,
assonância e aliteração, o estudante que não tem conhecimento das línguas originais
depende dos comentários que se dão ao trabalho de mostrar essas características.
Ter conhecimento delas, entretanto, é compreender mais plenamente as ênfases, o
ponto de vista e o talento literário do poeta.
Alguns outros recursos poéticos também merecem ser mencionados. O poeta
muitas vezes usa uma ordem de palavras incomum para chamar atenção para um

15Observe que aqui o sinal / representa uma sílaba acentuada e o “u”, uma não acentuada.
item particular. Veja-se, por exemplo, Salmos 63.8. Embora não esteja adequada­
mente traduzido nas versões em português, o poeta expressa seu enorme prazer
devido ao sustento que recebe de Deus colocando o objeto direto “me” como a
primeira palavra da linha paralela do dístico (TM):

Minha alma se apega a ti;


me sustenta tua mão direita.

O efeito é realçar a íntima relação entre Davi e seu Senhor. Pode-se perceber
efeito semelhante em Jeremias 2.13, em que, em versos sucessivos, Jeremias repete
a profunda decepção do Senhor com seu povo incrédulo; “Porque o meu povo
cometeu dois delitos: eles me abandonaram”. Não somente o objeto direto é colo­
cado primeiro na oração por ênfase, mas também o texto original imediatamente
o precede de “meu povo”, como as últimas palavras na oração anterior. O efeito é
justapor “meu povo” e “me”.16
Outro recurso poético é a alusão. Desse modo, na condenação do povo por
seguir ao deus Baal (Jr 2.33), Jeremias mostra que o povo abandonou o verdadeiro
baal (= marido). A metáfora de Yahweh como marido em oposição ao falso deus
Baal constitui uma alusão que pode ser notada no segundo e no terceiro capítulos de
Jeremias (e.g., 2.2,22; 3.14; veja também Jr 31.22). A alusão é comum tanto na prosa
quanto na poesia, mas tem efeito particularmente especial na poesia. Assim, pode-se
perceber uma alusão a Gênesis 49.10 no canto de lamentação de Ezequiel, em que a
expressão “a quem pertence por direito” (Ez 21.27) é uma lembrança da bênção de Jacó
a Judá, que normalmente é traduzida simplesmente por “Silo” (lit. “aquele de quem é”).
Ainda outro recurso poético é a elipse, a supressão de uma palavra presente
apenas em um verso paralelo, embora se deva compreendê-la nos dois. Considere
os seguintes exemplos:

Tocai a corneta em Gibeá,


a trombeta em Ramá (Os 5.8).
Lançou flechas e os dispersou;
raios, e os desbaratou (2Sm 22.15).

Nos dois casos, o verbo do primeiro verso paralelo está ausente no segundo
verso, porém, subentendido nos dois.

16Observe no versículo inteiro o jogo com a ideia da água nas repetidas expressões e palavras:
águas vivas, cisternas e cisternas que não retêm água.
Outros exemplos demonstram ainda outro recurso poético conhecido como
variante de equilíbrio. Nos casos em que não se pode verificar uma variante im­
portante na linha paralela, é costume haver uma ou mais palavras mais longas que
a equivalente na outra linha. Observe os seguintes exemplos:

Deus veio de Temã,


e o Santo, do monte Parã (Hc 3.3).

Balaque trouxe-me de Arã,


o rei de Moabe buscou-me nas montanhas do oriente (Nm 23.7).

Um recurso estilístico conhecido é o uso de pares de palavras fixos.17 Isso


implica a prática de empregar pares de palavras comuns em versos paralelos su­
cessivos. O mais usual é que as palavras empregadas desse modo sejam sinônimas.
Observe os seguintes exemplos:

Que elas estejam sobre a cabeça de José,


sobre o alto da cabeça do que foi separado de seus irmãos (Gn 49.26).

No dia em que estiveste do lado oposto,


quando estranhos levaram os bens dele,
e os estrangeiros entraram pelas suas portas (Ob 11).

Em alguns casos, aproximam-se atividades relacionadas, como na relação


amor e ódio:

Não repreendas o zombador, para que ele não te odeie;


repreende o sábio, pois ele te amará (Pv 9.8).

Em ainda outros, apresenta-se um nome, com o qual se estabelece um paralelo


no segundo verso mediante um epíteto. Observe, por exemplo:

Jurou ao Sen h o r

e fez voto ao Poderoso de Jacó (SI 132.2).

Virá uma estrela de Jacó,


de Israel se levantará um cetro (Nm 24.17).

17Para uma análise do uso de pares de palavras relacionadas na língua semítica do nordeste, veja
Mitchell Dahood, “Ugaritic-Hebrew Parallel Pairs”, in: Loren R. Fisher, org., Ras Shamra Parallels,
vol. 1 (Rome: Pontificium Institutum Biblicum, 1972), p. 71-382.
Apesar de haver muitos exemplos de recursos poéticos no Antigo Testamen­
to, os autores do Novo Testamento usaram alguns desses mesmos recursos para
comunicar suas ideias. Desse modo, Paulo usou rima e pares de palavras no hino
do credo em 1Timóteo 3.16 e assonância e aliteração na exortação de Filipenses
4.4. No título “Rei dos reis e Senhor dos senhores” também se encontram pares de
palavras comuns (lTm 6.15; cf. Ap 19.16). Assim como no Antigo Testamento, o
intérprete perspicaz identificará elementos poéticos no Novo Testamento. Nesse
sentido, podem-se obter informações úteis não apenas com estudos especiais da
literatura do Novo Testamento, mas também nas traduções mais recentes, que muitas
vezes apresentam as passagens pertinentes em formato poético.

LIT E R A T U R A D E S A B E D O R IA
A natureza da sabedoria
Ao tratar da literatura tradicionalmente denominada de sabedoria, o intérprete
primeiro precisa reconhecer e entender sua natureza. Embora os livros em geral
conhecidos como livros de sabedoria sejam Jó, Provérbios e Eclesiastes, pode-se
encontrar literatura de sabedoria tanto no Antigo como no Novo Testamento.
Portanto, é importante reconhecer sabedoria como um gênero e conhecer suas
principais características.
Pode-se passar a compreender o conceito bíblico de sabedoria observando-se
as palavras usadas para expressar sabedoria. Entre os muitos termos bíblicos,
encontram-se especialmente as seguintes palavras hebraicas: binâ (percepção,
insight), haskíl (prudência), tébunnâ (entendimento) e tüshiyâ (engenhosidade). De
capital importância é a noção da competência e aptidão provenientes da virtude
de aplicar a sabedoria divina corretamente. Tanto o hebraico hokmâ como o grego
sophia (sabedoria) expressam essa noção. Os temas comuns na literatura de sabedo­
ria, como piedade genuína, moralidade e modo correto de pensar contribuem com
mais informações. A sabedoria bíblica “procura, em primeiro lugar, dar orientação
para a vida propondo normas de ordem moral e, em segundo lugar, investigar o
sentido da vida mediante reflexão, especulação e debate”.18
Embora a Bíblia reconheça a sabedoria humana, que é tradicional (e.g.,
Jó 15.8-10), e/ou a sabedoria puramente humanística (e.g., Is 29.14; ICo 1.20; 2.6),
a sabedoria genuína tem origem em Deus, o Criador da humanidade (Jó 28.25-28).

18R. B. Y. Scott, The Way o f Wisdom in the Old Testament (New York: Macmillan, 1971), p. 22.
A verdadeira sabedoria humana encontra sua norma na sabedoria com que Deus
criou e controla o Universo (Dt 4.6; Pv 8.22-31). Ela contempla não só o acúmulo de
conhecimento, mas também, acima de tudo, a capacidade de reconhecer como apli­
car os princípios da sabedoria divina a situações específicas (e.g., lRs 3.7-10,16-28;
cf. Dn 5.14). Entre as várias situações, encontram-se a relação com as leis humanas
(cf. Mt 19.1-12), sejam elas normas culturais ou jurídicas, e com o mundo criado,
quer o mundo das criaturas, quer o mundo material (cf. Gn 3.27-30; lRs 4.29-34;
Jó 38—41; Pv 3.19-24).
A origem da sabedoria está no temor do Senhor (SI 111.10; Pv 1.7). Isso im­
plica conhecer a Deus como o Criador e controlador de tudo, aquele que cria e faz
a consumação da história (SI 104.24-32) e aquele com quem todos nós temos de
nos deparar (Ec 12.13,14). Quando esses princípios são ensinados como o segredo
para o viver piedoso, trata-se do gênero literatura de sabedoria. Toda literatura
de sabedoria é de natureza fundamentalmente didática, em que o autor procura
comunicar observações sábias sobre o sentido da vida e a conduta certa necessária
para desfrutar a vida em plenitude.
A literatura de sabedoria pode apresentar-se de muitas formas. Pode conter
preceitos e instruções com o objetivo de aconselhar a viver uma vida bem-sucedida
e feliz. Muitas vezes esses preceitos e instruções são comunicados na forma de
provérbios, às vezes como o ensino de um pai ao filho ou de um mestre a seus dis­
cípulos. Os tratados e ensaios são discursos sobre o sentido da vida. A sabedoria
se expressa na forma de um debate em que se tratam os méritos ou deméritos de
um oponente. Algumas composições de literatura de sabedoria são pessimistas ou
se dedicam a denunciar os males da sociedade. Ainda outros textos de literatura
de sabedoria podem ter a forma de lamento por causa da punição que a sociedade
sofreu pela conduta imoral ou pecaminosa. Muito da literatura de sabedoria se
expressa em imagens, uma vez que as figuras de linguagem servem para instigar o
pensamento e a reflexão sobre a natureza de seu ensino. Na literatura de sabedoria
também se encontram com frequência recursos literários como sátira, sarcasmo,
enigmas, parábolas e alegorias.

Provérbios
Quando pensamos na literatura de sabedoria, imediatamente o livro de Provérbios
nos vem à lembrança. Provérbios são ditos breves e fáceis de memorizar acerca
do verdadeiro estado das coisas, percebido e apreendido pela observação huma­
na ao longo de extensos períodos de experiência. Em relação ao livro bíblico de
Provérbios, isso remete a um apotegma (uma máxima curta, espirituosa e didá­
tica) que tem aceitação entre os que temem ao Senhor.19 A literatura proverbial
aqui encontrada ocorre, portanto, em declarações lapidares, mas também pode
ser encontrada em declarações educativas mais extensas. Ao ler Provérbios, o
intérprete igualmente deve ter em mente os princípios de poesia analisados an­
teriormente neste capítulo.
Os provérbios bíblicos podem ser classificados de vários modos. W. C. McKane
classificou os provérbios do trecho Pv 10.1—22.16 e dos capítulos 25—29 levando
em consideração se eles tratam de sabedoria e vida (A), da sociedade em geral (B)
ou do indivíduo (C).20 O tipo A trata da sabedoria geral destinada a dar sugestões
práticas para uma vida bem-sucedida e harmoniosa. O tipo B revela o comporta­
mento que tem efeito visível na sociedade, enquanto o tipo C apresenta verdades
morais destinadas à piedade e à pureza pessoal como normas para a conduta pessoal.
Embora se possa observar alguma sobreposição na classificação de McKane e suas
observações se restrinjam a seções específicas do livro, suas sugestões realmente
indicam as várias áreas imprescindíveis para viver uma vida de sabedoria, apresen­
tadas num grande número dos provérbios.
Alguns deles podem ser classificados como descritivos ou como prescritivos. Os
provérbios descritivos podem apresentar-se como uma descrição de um estilo de vida:

O preguiçoso diz: Há um leão no caminho;


há um leão nas ruas.
Como a porta gira sobre dobradiças,
assim o preguiçoso se vira na cama.
O preguiçoso leva a mão ao prato
e nem ao menos quer levá-la à boca.
O preguiçoso considera-se mais sábio
do que sete homens que sabem responder bem (Pv 26.13-16).

Às vezes, provérbios como esses adquirem a forma de uma breve descrição,


como na conversa sobre os caminhos exemplares da formiga.

Preguiçoso, vai ter com a formiga,


observa os seus caminhos e sê sábio.

19Bruce Waltke, The Book ofProverbs Chapters 1— 15, N ICO T (Grand Rapids: Eerdmans, 2004),
p. 56. [Edição em português: Provérbios: Caps.l a 15, vol. 1 (São Paulo: Cultura Cristã, 2011)].
20W illiam McKane, Proverbs: A New Approach, OTL (Philadelphia: Westminster, 1970), passim.
Ela, mesmo não tendo chefe,
nem superintendente, nem governante,
faz a provisão do seu mantimento no verão
e ajunta o seu alimento no tempo da colheita (Pv 6.6-8).

Ainda outros provérbios descritivos se estendem em breves narrativas,


como a da mulher adúltera (Pv 7.6-23) ou a da preparação de um banquete pela
sabedoria (9.1-6).
O objetivo dos provérbios prescritivos é motivacional. Os bons padrões e os
bons hábitos têm, portanto, sua própria recompensa:

O t e m o r d o S e n h o r é u m a fo n te d e v id a

que afasta o homem dos laços da morte (Pv 14.27).

Outros provérbios podem ser considerados comparativos ou contrastivos.


Os provérbios comparativos podem declarar que uma coisa é melhor que outra ou
se assemelha a outra. Observe os seguintes exemplos:

Melhor é um bocado seco com tranqüilidade,


do que a casa cheia de banquetes e contendas (Pv 17.1).

Quem se intromete em questão alheia


é como quem pega um cão pelas orelhas (Pv 26.17).

Esses provérbios tentam demonstrar a superioridade de um estilo de vida


sobre outro bem como indicar os benefícios do estilo superior.
Os provérbios contrastivos também indicam uma conduta de vida melhor,
mas fazem isso apresentando cenários diametralmente opostos. Podem aplicar-se
a situações individuais ou coletivas. Observe:

A arrogância só produz conflito,


mas a sabedoria está com os que se aconselham (Pv 13.10).

A justiça exalta as nações,


mas o pecado é a vergonha dos povos (Pv 14.34).

Os provérbios condicionais tratam das conseqüências dos atos de um indiví­


duo. Observe:
O mal não se afastará da casa
do que retribui o bem com o mal (Pv 17.13).

Quem abre uma cova cairá dentro dela,


e a pedra se voltará contra aquele que a rolar (Pv 26.27).

Em alguns casos, esse tipo de provérbio contém um raciocínio afortiori (par­


tindo do menor para o maior).

Se o justo é castigado na terra,


quanto mais o ímpio e o pecador! (Pv 11.31).

Os provérbios áeclarativos destinam-se principalmente a afirmar algo. Observe:

Quem vive isolado busca seu próprio desejo


e insurge-se contra a verdadeira sabedoria (Pv 18.1).

Antes da ruína eleva-se o coração do homem,


e a humildade precede a honra (Pv 18.12).

Embora todos os provérbios ofereçam entendimento para uma vida sábia,


alguns podem ser classificados especificamente como provérbios didáticos. Esses têm
tipicamente uma estrutura específica, com um imperativo acrescido de motivação
e/ou condições relacionadas:

A. Imperativo
1. Único: positivo (3.9), negativo (23.9)
2. Duplo: positivo (4.24), negativo (22.24)
3. Positivo + negativo (1.8; 3.1)
B. Motivação: Razão(ões) do(s) imperativo(s)
1. Via conclusões extraídas de:
a. Experiência (23.20,21)
b. Princípio teológico (3.11,12)
2. Pela confirmação resultante (3.2)
3. Pela descrição de comportamento (1.16,17)
C. Condições relacionadas (3.27-30)

Os provérbios numéricos se estruturam na forma de paralelismo progressivo,


uma característica que vimos antes neste capítulo. Como mais um exemplo, observe
Provérbios 30.15,16: '
Há três coisas que nunca se fartam;
sim, quatro que nunca dizem: Basta!:
a sepultura, o ventre estéril,
a terra que nunca se farta de água,
e o fogo que nunca diz: Basta!

Esse tipo de provérbio normalmente contém observações sábias sobre como


as coisas aparentam ser, às vezes com um toque de sátira, como no exemplo citado
anteriormente de Provérbios 30.18,19. Entre outros exemplos, estão Provérbios
6.6-11; 26.14,15; 30.21-23.
Uma característica curiosa dos provérbios bíblicos é que às vezes parecem
conselhos e observações diretamente contraditórios entre si. Por exemplo, leia
Provérbios 26.4,5:

Não respondas ao insensato de acordo com a sua insensatez,


para que não sejas semelhante a ele.
Responde ao insensato conforme merece a sua insensatez,
para que ele não seja sábio aos próprios olhos.

Todavia, a contradição pode ser mais aparente do que real. Assim, no exemplo
anterior, uma reflexão mais aprofundada deixa claro que não se deve deixar de con­
testar os comentários de um insensato, mas, ao responder-lhe, o que o contesta não
deve rebaixar-se ao nível dele, usando linguagem imprópria ou raciocínio inadequado.
No livro de Provérbios também ocorrem passagens de narrativas curtas. Apesar
de todas elas se destinarem à reflexão sábia, o entendimento delas varia de acordo
com seu propósito. Assim, o relato autobiográfico a respeito da sabedoria (cap. 8)
é de natureza didática, como são também as narrativas didáticas contrastantes re­
ferentes à sabedoria (9.1-12) e à insensatez (9.13-18). Histórias ou vinhetas podem
servir de exemplos, sejam eles positivos (31.10-31) ou negativos (24.30-34). Visto
que pretendem motivar o ouvinte ou leitor à conduta correta, em geral terminam
com uma moral ou lição a ser aprendida.

A beleza é enganosa, e a formosura é vaidade,


m a s a m u lh e r q u e te m e o S e n h o r , e ssa s e r á e lo g ia d a (Pv 3 1 .3 0 ).

Um pouco para dormir, um pouco para cochilar,


um pouco para cruzar os braços em repouso;
assim chegará tua pobreza como um assaltante,
e tua miséria, como um homem armado (Pv 24.33,34).

O intérprete perspicaz certamente observou que os diversos exemplos apre­


sentados antes às vezes podem ser atribuídos a mais de uma classe de provérbios.
Na verdade, nem sempre é possível fazer distinções fixas e imediatas. Devido à
natureza popular de um provérbio, muitas vezes pode-se enxergá-lo por mais de
um ângulo — talvez até intencionalmente. Portanto, é passível de múltiplos enten­
dimentos que servem de diretrizes para a conduta correta e o bem-estar pessoal.
As categorias que acabamos de mencionar não esgotam necessariamente todas
as classes de provérbios. Por exemplo, o livro de Provérbios também contém dita­
dos ampliados (e.g., caps. 30—31). Normalmente esses se destinam a instrução ou
exortação. No entanto, o intérprete cuidadoso irá considerar nossas classificações
gerais úteis para interpretar a coleção de provérbios como um todo.

Eclesiastes
O livro de Eclesiastes fala do valor da sabedoria:

A sabedoria é tão boa como a herança


e beneficia aqueles que veem o sol.
Porque a sabedoria serve de defesa,
assim como o dinheiro serve de defesa,
mas a vantagem da sabedoria é que ela preserva a vida de quem a possui (Ec 7.11,12).21

O tema fundamental do livro é uma busca autobiográfica do bem máximo e


do verdadeiro sentido da vida.
Ao ler Eclesiastes, os intérpretes encontrarão muitos dos mesmos recursos
literários que já apresentamos em nossas análises anteriores. Escrito na maior parte
em poesia, Eclesiastes tem as características comuns da poesia, como os diversos
tipos de paralelismo, assim como concisão, concretude, figuras de linguagem e
muitas metáforas. Suas páginas são repletas de características literárias como poe­
mas líricos (e.g., 3.1-8; 12.1-7) e provérbios (e.g., 7.1,2). Uma característica peculiar
de Eclesiastes é o enfoque duplo do autor na sua busca da realidade definitiva. No
caminho encontramos tanto atitudes positivas como negativas, bem como a tensão

21Tremper Longman III, em The Book o f Ecclesiastes, N IC O T (Grand Rapids: Eerdmans, 1998),
p. 17, chama Eclesiastes de “uma obra estruturada na forma de autobiografia de sabedoria”.
entre observações contrastantes (e.g., 5.10-20). Assim, em 3.19-22 pode-se notar
um tom satírico na conclusão negativa do autor, que depois é seguida de uma
perspectiva mais positiva.

O que acontece com os homens é o mesmo que acontece com os animais; a mesma
coisa acontece para ambos. Assim como um morre, morre também o outro. Todos
têm o mesmo fôlego de vida. O homem não tem vantagem sobre os animais. Tudo
é ilusão. Todos vão para o mesmo lugar; todos são pó e todos retornarão ao pó.
Quem sabe se o espírito do homem vai para cima, e se o espírito do animal desce
para a terra?
Assim, concluí que não há nada melhor para o homem do que desfrutar do seu
trabalho, porque esta é a sua recompensa. Pois quem o levará a ver o que acontecerá
depois que ele se for?

Essa coexistência de enfoques positivos e negativos está de acordo com os


objetivos educativos do autor (e.g., 12.9,10). Como Ryken assinala: “O autor de
Eclesiastes se impôs a tarefa de nos fazer perceber o vazio da vida debaixo do sol e
a atratividade de uma vida preenchida por Deus que produz contentamento com
sua própria sorte terrena”.22
Portanto, o intérprete perspicaz precisa manter a tensão entre as porções
negativas e as positivas até que seja conduzido no fluxo de pensamento do autor
rumo à conclusão final (12.13,14). O julgamento precipitado pode, com muita faci­
lidade, produzir a impressão de que Eclesiastes é essencialmente pessimista e levar
o intérprete a fazer uma aplicação injustificada de determinado texto. A atenção
zelosa tanto ao contexto imediato quanto ao remoto é decisiva para compreender
a mensagem de Eclesiastes.
Uma característica a mais de Eclesiastes é o emprego abundante de repetições,
como a ênfase reiterada na falta de sentido e a expressão “debaixo do sol”. A inserção
de ideias positivas repetidas talvez dê uma chave para a divisão estrutural delineada
pelo autor (e.g., 2.24-26; 5.18-20; 8.15-17; 11.9— 12.8; 12.9-14). Em resumo, em
vez de ficar perplexo com a constante mudança de temas e observações do autor,
a lembrança de que grande parte de Eclesiastes é poesia e a consciência do propó­
sito e da estratégia do autor permitirão ao intérprete desfrutar uma das mais ricas
obras-primas da literatura de sabedoria já escritas.

-Leland Ryken, “Ecclesiastes”, in: Leland Ryken and Tremper Longman III, orgs., A Complete
literary Guide to the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1993), p. 271.

Jó é mais uma obra importante do corpus da literatura de sabedoria bíblica. Em
conformidade com o restante da literatura de sabedoria bíblica, o livro de Jó
examina o papel de Deus nos assuntos humanos. Enquanto o livro de Eclesiastes
se concentra na busca do bem maior, Jó está interessado na suficiência de Deus.
Pode-se confiar nele em todas as situações da vida?
Compreender o tema básico de Jó é essencial para interpretar o livro. Embora
muitos tenham buscado o gênero básico de Jó na teodiceia — justificar os métodos
de Deus — ou tenham sustentado que o livro de Jó está interessado principalmente
na questão de por que os justos sofrem, entender sua intenção fundamental como
uma demonstração da suficiência de um Deus soberano oferece uma perspectiva
equilibrada acerca da mensagem do livro.
Do mesmo modo que Salmos, Provérbios e a maior parte de Eclesiastes, Jó
é composto em poesia. Portanto, o intérprete descobrirá que as conclusões a que
chegamos até aqui no capítulo se aplicarão em grande parte ao livro de Jó. Embora
muitos gêneros estejam presentes no livro, Jó é principalmente um exemplo de lite­
ratura de debate. “Especificamente, ouvimos os extensos diálogos de debate em que
os locutores discutem a causa do sofrimento de Jó”.23 No decorrer do livro, Jó não
somente continua uma discussão dialogando com seus amigos, mas até se queixa
de Deus (e.g., 10.2,3,18; 19.7-12; 23.13-17; 30.19-23). Também é preciso observar
o relato autobiográfico de sua vida antes de sua provação (caps. 29—30).
Nas páginas de Jó, o leitor encontra muitos recursos literários. De menção
especial são os conteúdos sálmicos (e.g., 9.5-10; 12.13-28; 37.21-24), muitos pro­
vérbios (e.g., 5.6; 8.11; 12.11,12, entre outros), sátira mordaz (12.1,2; 17.10) e o uso
abundante de perguntas retóricas. Temas recorrentes (e.g., o tema da chamada/
resposta; 5.1; 13.22; 14.14,15; 19.26,27; 27.9,10) e temas como integridade e justiça
(cerca de cinco dezenas de vezes), o problema do sofrimento e a necessidade de
um intermediário (3.23-25; 5.2; 6.13; 9.32,33; 16.18-21; 19.25,26; 33.26-28) assim
como a esperança da imortalidade (14.14,15; 19.24-27) preenchem as páginas de
Jó. Não se deve deixar passar o amplo uso de metáforas ao longo do livro, inclusive
linguagem mitopoética (linguagem relativa a mito; e.g., 3.8; 5.7; 7.12; 9.8,12-14;
18.13-19; 26.12).24

23W illiam W. Klein, Craig L. Blomberg e Robert L. Hubbard Jr., Introduction to Biblical Interpre-
tation, ed. rev. (Nashville: Thomas Nelson, 2004), p. 393-4.
24Para mais exemplos dos recursos imagéticos e linguagem figurada em Jó, veja “Job”, in: Ryken
e Longman III, orgs., A Complete Literary Guide to the Bible , p. 302.
Como é próprio de uma obra de literatura de sabedoria, o tema da sabedoria
aparece de modo proeminente em todo o livro, seja a tradicional busca humana da
sabedoria (e.g., 8.8-10; 12.12; 15.17-19), a sabedoria adquirida por meio de revelação
especial (e.g., 4.12-21; 33.14-22), a instrução de sabedoria (32.13-22; 33.31-33), a
sabedoria divina (38.36-41) ou mesmo um longo tratado sobre o assunto (cap. 28).
No aspecto estrutural, o livro de Jó é composto com base na experiência de Jó no
sofrimento. O livro tem um enredo linear claro, começando com um prólogo, que
trata das provações de Jó (caps. 1—2). O enredo se desenvolve através da análise
dos motivos da situação de Jó, mediante o lamento do protagonista (cap. 3), seguido
por uma longa seção de diálogo em que Jó participa de uma discussão com seus três
amigos, que aparentemente vieram para o consolar (caps. 4—27). O movimento
em direção à solução do problema de Jó (desenlace) começa com as falas de Jó a
respeito de sua condição (caps. 28—31) e continua quando um jovem chamado
Eliú começa a debater com Jó (caps. 32—37). A resolução ocorre com a chegada
de Deus e sua revelação a Jó do que significa ser Deus (caps. 38—41), quando Jó
reage com arrependimento e é restaurado a uma vida feliz perante Deus (cap. 42).
O fato de Jó ser apresentado como um conto (estória) indica a necessidade
de empregar as características que compõem um conto (estória), como ambiente,
enredo e caracterização. Só depois o intérprete terá compreensão plena do que o
autor está comunicando. Quando tudo isso é levado em consideração, o intérprete
poderá considerar o livro de Jó não apenas uma rica fonte de verdade bíblica, com
conselhos vigorosos para uma vida piedosa, mas também uma obra-prima literária
muito agradável de se ler.

Sabedoria em outras partes do Antigo Testamento


Apesar de, em geral, determinados livros do Antigo Testamento serem classifica­
dos como pertencentes ao gênero de literatura de sabedoria, também podem ser
encontrados exemplos de literatura de sabedoria ao longo de todas as páginas do
Antigo Testamento. Desse modo, pode-se observar sabedoria nas bênçãos dos
patriarcas (e.g., Gn 49.1-27); nos livros históricos (e.g., Jz 5.29,30; 14.14; ISm
10.12; 24.13; 2Sm 12.1-4; lRs 3.16-28; 20.11; 2Rs 14.9); e nos livros proféticos
(e.g., Is 5.1-7; 10.15; 28.24-29; Os 7.8-10; Am 3.3-8; 6.12).
Do mesmo modo, alguns salmos são corretamente definidos como salmos
de sabedoria (e.g., SI 1; 33; 49; 73). Esses salmos exaltam a sabedoria que Deus dá
como a chave para uma vida bem-sucedida diante dos problemas da vida. O tom
desses salmos dirigidos a Deus é declarativo, exortativo e reflexivo. Também se
observa o emprego de provérbios, metáforas e outras figuras de linguagem, bem
como ilustrações da vida e da natureza no intento de fazer com que os ouvintes
do salmista prestem atenção a seu conselho. Os salmos de sabedoria apresentam
temas como a justiça em oposição à iniqüidade; a importância da Palavra de Deus;
o problema da prosperidade dos ímpios; a importância da confiança em Deus, que
resulta numa vida fiel e obediente. Observe, por exemplo, a conclusão do salmista
de um exame da aparente prosperidade dos ímpios em Salmos 73.27,28:

Os que se afastam de ti perecerão;


tu exterminas todos os que se desviam de ti.
Mas, para mim, bom é estar junto a Deus;
ponho minha confiança no S e n h o r Deus,
para proclamar todas as suas obras.

Esses exemplos dão a entender que o intérprete precisa estar atento para
observar e entender as muitas ocorrências de composições de sabedoria ao longo
do Antigo Testamento.

Sabedoria no Novo Testamento


As pessoas da época do Novo Testamento eram herdeiras de uma longa tradição de
sabedoria. Jesus, obviamente, era o mestre sábio por excelência. Suas declarações
muitas vezes continham observações sábias a respeito da vida e da realidade. Desta
maneira, ele contrasta julgamentos e padrões antigos com mais novos e mais sábios
(e.g., Mt 5.21-48; Mc 2.15-17; 8.35,36). Observe, por exemplo, Mateus 5.38-42:

Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não
resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe
também a outra; e ao que quiser levar-te ao tribunal, e tirar-te a túnica, deixa que
leve também a capa; e, se alguém te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois
mil. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.

Os ensinamentos e as parábolas de Jesus (e.g., Mt. 5.13,14; 7.13,14,18; 6.24;


Lc 12.34) muitas vezes se entrelaçam com conteúdo proverbial (e.g., Mt 13.34,35;
Lc 14.11,34; 18.14). Do mesmo modo, as metáforas “Eu sou” de Jesus falam a lin­
guagem de sabedoria (Jo 6.48; 8.12; 10.7,9,11; 11.25; 14.6; 15.1).25

25David L. Barr, em New Testament Story (Belmont, CA: Wadsworth, 1987), p. 246, faz a interes­
sante observação de que “a sabedoria tinha uma longa tradição em Israel antes de João escrever seu
prólogo. Ele faz uso evidente dela ainda que fale de Logos em vez de Sabedoria”.
Pode-se observar literatura de sabedoria nos ensinos (e.g., G1 4.21-31; 6.7;
2Tm 2.11-13), nas parábolas e nos aforismos das Epístolas (e.g., ICo 15.33; Fp 1.21;
lTm 6.10). O livro de Tiago tem muitas marcas da literatura de sabedoria (e.g.,
Tg 1.17,19,22; 2.20-24; 4.13-17; 5.16b).26 Particularmente oportuno é o ensino de
Tiago a respeito da sabedoria (3.13-17), que se encerra com a mensagem: “Quem
entre vós é sábio e tem conhecimento? Mostre suas obras pelo seu bom proce­
dimento, em humildade de sabedoria” (Tg 3.13). Os exemplos que acabamos de
examinar são apenas amostras do uso freqüente de literatura de sabedoria pelos
autores do Novo Testamento.
O intérprete atento deve, portanto, estar alerta à presença de sabedoria não
apenas nos livros de sabedoria do Antigo Testamento, mas igualmente em toda a
Escritura. Isso se aplica sobretudo à sabedoria proverbial. Os provérbios ocorrem em
muitas partes da Bíblia. Leland Ryken sublinha a elevada importância da literatura
proverbial: “O pensamento proverbial nos permite dominar a complexidade da
vida, pondo a experiência humana sob o controle de uma observação que a expli­
que e unifique as muitas experiências semelhantes. Os provérbios são um meio de
organizar o que sabemos ser verdade a respeito da vida”.27

A M O S T R A D E E X E G E S E : O LIV R O D E JÓ
Introdução
A fim de demonstrar o método hermenêutico, o livro de Jó, que é ao mesmo tempo
uma fonte de brilhante poesia e uma composição de literatura de sabedoria, bem
como uma excelente amostra de narrativa, é um bom exemplo. Se antes de mais
nada examinarmos a narrativa toda a fim de determinar o propósito fundamental
e/ou tema central (ou mais de um) do autor, o que se percebe de imediato é que
o livro trata de um grande número de questões, tais como o problema do sofri­
mento e da dor, o problema do mal, as questões da justiça e injustiça, em especial
a justiça divina, e as limitações da sabedoria humana. No entanto, não se pode
afirmar que nenhuma delas constitui o propósito essencial, que é demonstrar que
o Deus soberano é suficiente para todas as circunstâncias da vida. Por conseguinte,
os seres humanos devem ter sempre a devida reverência e confiança nele, que é

-6Veja mais em E. Baasland, “Der Jacobsbrief ais neutestamentliche Weisheitsschrift”, ST 36


1982): p. 119-39.
-7Ryken, Words ofLife, p. 107.
o único perfeito em caráter e em tudo o que faz. Esse propósito é evidente tanto
no nome de Jó (“onde está Deus?”) como na descoberta final de Jó de quem o
Senhor realmente é (42.1-6).

História
Os detalhes específicos do livro de Jó são esclarecidos do modo comum relativo
ao ato de se contar uma história. Qualquer que seja a data em que foi escrita, essa
história de sabedoria se passa no período patriarcal e reflete as normas e práti­
cas sociais comuns desse tempo. No que diz respeito ao ambiente geográfico, a
ação ocorre na terra de Uz, mais provavelmente associada ao norte da Península
Arábica e à terra de Edom.

Literatura
O enredo apresenta o prólogo comum em que se fornece o ambiente de Jó,
apresentam-se as principais personagens e começa a provação de Jó (caps. 1—2).
Como mencionado há pouco, pode-se perceber um indício do problema princi­
pal no próprio nome de Jó, que implica a disponibilidade e suficiência de Deus
para sustentar o protagonista durante sua provação. O enredo se desenvolve
apresentando um diálogo entre Jó e seus três amigos, que discutem os motivos da
condição lastimável de Jó. Em três sessões de discursos (caps. 3—27), a discussão
progride de um debate filosófico que defende as ações de Deus e se encerra com
a acusação direta a Jó com respeito à sua pecaminosidade.
O desenlace da história é alcançado no discurso de Jó em relação à sua sabe­
doria (cap. 28) e na declaração solene de sua inocência diante do que ele considera
a justiça questionável de Deus no seu caso (caps. 29—31). Quando Eliú, o mais
jovem, entra na discussão, ele apresenta não apenas uma repetição e um resumo da
situação do debate, mas também oferece novo rumo, propondo que os problemas
de Jó estão no fato de este sustentar sua própria justiça ao mesmo tempo em que
deixa de reconhecer a integridade essencial de Deus (caps. 32—37).
O enredo referente aos problemas de Jó alcança sua resolução nos discursos
divinos (caps. 38—41) e na reação de Jó a eles (42.1-6). Contudo, em vez de se
concentrar nas questões de justiça e retidão, os discursos divinos se centram na
sábia administração de Deus do universo físico e do mundo animal assim como
seu controle providencial da história humana. Com esses discursos, Jó passa a
compreender tanto a magnanimidade de Deus quanto sua própria finitude. No
governo divino de todas as coisas em perfeita harmonia e justiça, Jó descobre a
suficiência de que precisa para dar direção à sua vida. Quando entrega sua vontade
a Deus e descansa no Senhor com reverente confiança, Jó descobre a solução de seu
problema e a restauração abençoada ao favor de Deus (42.1-17).
A caracterização das personagens da história é bem definida. Deus é visto
como soberano, justo e íntegro e como aquele que estabelece os limites da horrenda
provação de Jó. Satanás, fiel a seu nome, aproveita a ocasião para encontrar defeito
no aparente favoritismo e parcialidade de Deus, bem como uma oportunidade de
pôr à prova o exemplo dado por Deus de homem justo (Jó). Os três amigos de Jó
também revelam qualidades e abordagens distintas com respeito a Jó e sua condi­
ção. Em Elifaz, vemos o racionalista que defende e aplica sabedoria tradicional à
situação de Jó. Bildade se comporta de forma bem semelhante a um autoconstituído
advogado de defesa da causa da justiça de Deus, enquanto Zofar se parece mais com
um promotor designado para acusar Jó. O jovem Eliú, embora se mostre educado
para com os amigos mais velhos, não tem paciência com eles. Visto que eles não
conseguiram chegar à causa original da situação de Jó, ele se compromete a fazê-lo.
Defende a justiça de Deus e afirma que Jó se autoexaltou a ponto de se considerar
mais justo que Deus no que diz respeito à sua causa.
De posse dessas informações, o intérprete pode compreender a lição funda­
mental que se deve aprender na história de Jó: a pessoa sábia se entrega ao soberano,
santo e sábio Senhor do Universo e o considera suficiente para todas as necessida­
des da vida. O intérprete também não deve se esquecer de aplicar corretamente os
princípios hermenêuticos básicos relativos à poesia e à literatura de sabedoria em
cada etapa de sua análise do texto. Por exemplo, os capítulos 4 e 5 contêm o discurso
inicial de Elifaz, o mais eloqüente e talvez o mais respeitado dos três amigos. Suas
observações são repletas da sabedoria tradicional (e.g., 4.7,10,11). Ele afirma ter
recebido uma revelação divina especial (4.12-16). Por isso, ele se julga ainda mais
seguro para dar conselho espiritual a Jó (4.17-21).
Portanto, em 5.1-7 Elifaz dá instruções a Jó. O intérprete imediatamente se
depara com o conhecido tema de súplica e resposta, que em geral expressa a inti­
midade de comunhão que o fiel pode desfrutar com Deus (e.g., Is 65.20), incluindo
especialmente os períodos de provação (e.g., SI 102.1,2). A isso se segue outra
expressão proverbial:

O ressentimento mata o insensato,


e a inveja destrói o tolo (5.2, NVI)
O versículo é digno de nota por seu paralelismo sinônimo (i.e., ressentimen­
to/inveja, insensato/tolo, mata/destrói) e o provérbio declarativo. O intérprete da
Escritura precisa estar atento e levar em consideração os dados desses dois versículos
em sua exegese da passagem.
Na seqüência (v. 3-7), Elifaz aconselha Jó, dizendo-lhe basicamente que nas
vicissitudes várias da vida as pessoas consideram natural ter problemas. No entanto,
ele [Jó] nunca deve assumir atitude negativa, pois isso somente gera mais proble­
mas, tanto para ele quanto para seus próximos. O intérprete cuidadoso também
prestará atenção especial na expressão “faíscas voam para cima”. O termo hebraico
para “faíscas” (lit. “filhos de Resheph”) pode refletir uma alusão mitológica ao deus
cananeu Resheph, o deus da praga ou peste. Como ditado tradicional, a expressão
reforça o fato de que devemos considerar natural encontrar problemas na vida,
inclusive desastres naturais ou pessoais.
Com esses dados à disposição, o intérprete está preparado para a instrução
e o conselho pessoal de Elifaz, em que ele sugere que Jó entenda que está sendo
divinamente disciplinado (v. 18) e deve recorrer a Deus (v. 8,9) e se resolver com
ele (v. 20-26). Se Jó tão somente ouvir e puser em prática o conselho sábio de Elifaz,
ele se sentirá mais tranqüilo.

Teologia
Diversas aplicações pessoais podem ser feitas com base nesses três capítulos. No
mínimo, o intérprete pode aproveitar a sabedoria de grande parte do que Elifaz
comunicou. Contudo, precisa ter conhecimento dos limites da sabedoria tradicio­
nal e saber que nem sempre se pode aplicar essa sabedoria prática e geral a situações
específicas. Elifaz não conhece a verdadeira causa dos problemas de Jó e por isso
devia ter tido prudência ao dar seu conselho. Consolo muitas vezes é melhor do
que conselho. No entanto, sua observação essencial é bem-vinda, e todos podem
segui-la: se enxergarmos as coisas da perspectiva de Deus e confiarmos nele, nós
o consideraremos suficiente em todas as provações da vida.
1. O b se rv a r o u so d e p a r a le lis m o p e lo a u to r d e a c o r d o c o m o tip o c ? m p i e c ja d o .

2 . N o s s a lm o s e n a s c o m p o s iç õ e s p o é tic a s e x te n s a s , íe r to d a a p a s s a g e m .

3 . P r o c u r a r r e c u r s o s e s tr u tu r a is ló g ic o s e fo r m a is .

4 . A p r e n d e r a v a lo r iz a r e e n te n d e r o u so q u e o a u t o r f e z d e fig u r a s d e lin g u a g e m .

5 . P ro cu ra r o te m a u n ifk a d o r d o a u to r e a n a lis a r a te n ta m e n t e o flu x o d e

p e n s a m e n to a o lo n g o d a c o m p o s iç ã o .

6 . U sa n d o p r o c e d im e n to s e x e g é tic o s s ó lid o s r e la tiv o s a o m e io d e e x p re s s ã o

p o é tic o , fa z e r a a p lic a ç ã o a d e q u a d a à s it u a ç ã o a tu a l. A n a lis a r o im p a c to

c a u s a d o p e lo s d e s ta q u e s d o a u t o r n a v id a e s p ir itu a l d o le ito r o u o u v in te .
1. V e r ific a r o p r o p ó s ito c e n tra l d e q u a lq u e r c o m p o s iç ã o d e s a b e d o r ia .

2 . E m P r o v é r b io s , o b s e r v a r o tip o d e p r o v é r b io e o c o n s e lh o e s p e c ífic o d e se u

e n s in a m e n to p a ra u m a v id a p ie d o s a .

3 . A v a lia r a s m á x im a s g e r a is d e P ro v é rb io s à lu z d o a m b ie n te c u ltu r a l a n t ig o d o

p r o v é r b io , a s s im c o m o e m c o m p a ra ç ã o c o m o u tro s e n s in o s b íb lic o s .

4 . N ã o se e s q u e c e r d e q u e o s p r o v é r b io s tê m o o b je t i v o d e s e r d ir e tr iz e s e n e m

s e m p re s e a p lic a m a to d a e q u a lq u e r s itu a ç ã o e c ir c u n s tâ n c ia .

5 . Q u a n d o o p r in c ip a l o b je t i v o d o p r o v é r b io f o r in s tr u ir , d a r e s p e c i a l a t e n ç ã o p a ra

a s v e rd a d e s e n o rm a s m o r a is d e s e u e n s in o . ........

6 . A o lid a r c o m E c le s ia s te s , o in té r p re te d e v e e s ta r e s p e c ia lm e n te a te n to ta n to

a o e n s in o p o s itiv o q u a n to a o n e g a tiv o d o liv r o , e q u i l i b r a n d o o s d o is à lu z d o

p r o p ó s ito c e n tra l d o liv r o .

7 . E m Jó , o in té r p re te p r e c is a e n te n d e r a m e n s a g e m c e n tra l d o liv r o e a v a lia r a

c o n tr ib u iç ã o d e c a d a p a rte p a ra o p r o p ó s ito fu n d a m e n ta l d o liv r o .

8 . E m Jó , o in té r p r e te d e v e to m a r c u id a d o p a ra a p lic a r a s re g ra s d e in te r p r e ta ç ã o

r e la tiv a s a o te x to n a r r a tiv o , c o m o a m b ie n te , e n r e d o e c a ra c te riz a ç ã o d a s

p e r s o n a g e n s . D e v e p r o c u r a r v e r ific a r q u e liç õ e s p o d e m s e r a p r e n d id a s d a

p e r s p e c tiv a d e c a d a p o r ç ã o d o d iá lo g o .

9 . O in té r p re te d e v e e s ta r a te n to p a ra o c o r r ê n c ia s d e s a b e d o r ia a o lo n g o d a s

p á g in a s d a B íb lia . D e v e o b s e r v a r e m e s p e c ia l o s e n s in o s d e Je s u s . É n e c e s s á rio

d a r p a r tic u la r a te n ç ã o à s v e r d a d e s te o ló g ic a s e m o r a is in c o r p o r a d a s e m se u s

e n s in a m e n to s p o r se re m fu n d a m e n ta is p a r a © d e s e n v o lv im e n to d o c a rá te r e

d a c o n d u ta d o c ris tã o . ............

1 0 . E m to d a c o m p o s iç ã o d e s a b e d o r ia , v e r ific a r o p r in c ip a l o b je t i v o d a in s tr u ç ã o .

T er s e m p re o c u id a d o d e a v a liá -la à lu z d a r e v e la ç ã o b íb lic a t o t a l a fim d e

q u e a a p lic a ç ã o c o rre ta d e su a s v e rd a d e s e liç õ e s m o r a is s e ja p e r tin e n te à

r e a lid a d e a tu a l.
aforismo. D ita d o c u r to , e s p ir itu o s o e d id á tic o .

aliteração. S u c e s s ã o d e p a la v r a s q u e c o m e ç a m c o m a m e s m a le tr a .

alusão. P r á t i c a d e e v o c a r o u tra p a s s a g e m m e d ia n te r e fe r ê n c ia v e rb a l o u

c o n c e itu a i, o u r e p e tiç ã o .

antropomorfismo. A tr ib u iç ã o d e c a r a c t e r ís t ic a s o u p r o p r ie d a d e s h u m a n a s a D e u s .

apotegma. D ita d o b re v e , e s p ir itu o s o e d id á tic o ,

assonância. Veja a l i t e r a ç ã o .

concisão. C a r a c te r ís tic a d a p o e s ia h e b r a ic a q u e im p lic a b r e v id a d e d e e x p re ss ã o .

concretude. C a r a c te r ís tic a d a p o e s ia h e b r a ic a q u e im p lic a u m a d e s c r iç ã o v iv id a

q u e a p e la p a ra o s s e n tid o s d o le ito r .

costura. P r á t i c a d o a u to r d e lig a r u n id a d e s o u s u b u n id a d e s s u c e s s iv a s d e u m

p o e m a m e d ia n te a r e p e tiç ã o d e u m a p a la v r a , e x p r e s s ã o o u id e ia .

desenlace. E s c l a r e c i m e n to fin a l o u s o lu ç ã o d e u m e n r e d o n a r r a tiv o o u d ra m á tic o .

dístico. P a r a l e l i s m o d e id e ia e m d u a s lin h a s p o é tic a s s u b s e q u e n te s .

elipse. S u p r e s s ã o d e u m a p a la v r a p r e s e n te e m a p e n a s u m v e rso d o p a r a le lis m o ,

m a s q u e d e v e se r e n te n d id a n o s d o is .

emoiduramento. T é c n i c a d o r e to r n o , n o fim d e u m a u n id a d e , a u m te m a , a s s u n to

o u p a la v r a (s ) m e n c io n a d o s n o in íc io d a q u e la s e ç ã o .

estrutura bipartida. O r g a n iz a ç ã o , p e to p o e ta , d e se u m a te ria l e m d u a s p a rte s ,

c a d a u m a re s p o n d e n d o à o u tra d e m o d o s e m e lh a n te o u c o r re s p o n d e n te e n a

m e s m a o rd e m b á s ic a ( e .g ., S a lm o s 1 3 5 ; M a u m ; S o fo n ia s ).

inclusio. Veja emotduramento.

monóstico. V e rso p o é tic o in d iv id u a l q u e n ã o c o m b in a r ig o r o s a m e n te c o m

o u tro v e rso .
paralelismo. P r á t i c a d e e m p r e g a r lin g u a g e m s e m e lh a n te p a ra e x p re s s a r

p e n s a m e n to s c o r re s p o n d e n te s e m v e r s o s p o é tic o s s u c e s s iv o s

paralelismo anadiplótico com articulação. F o r m a d e p a r a le lis m o q u e c o n e c ta

d o is v e r s o s p a r a le lo s .

paralelismo antitético. D o is v e r s o s p o é tic o s q u e e x p re s s a m a g u d o c o n tra s te .

paralelismo de escada. D o is o u m a is v e r s o s p o é tic o s q u e a p r e s e n ta m

p ro g re s s ã o n a fo r m a d e s e q ü ê n c ia n u m é r ic a .

paralelismo emblemático. D o is v e r s o s p o é t ic o s q u e m o stra m p ro g re s s ã o d e

p e n s a m e n to e n v o lv e n d o s ím ile .

paralelismo progressivo. P e n s a m e n to in ic ia d o n o p r im e ir o v e rso

q u e é c o m p le ta d o p o r u m v e rso s u b s e q u e n te , o q u a l c o m e ç a c o m

e x p re s s ã o s e m e lh a n te .

paralelismo sinônimo. D o is v e r s o s p o é t ic o s q u e c o m u n ic a m s e m e lh a n ç a d e

id e ia e e x p re s s ã o .

provérbio. D e c la ra ç ã o c u r ta e fá c it d e m e m o r iz a r d a v e r d a d e ir a c o n d iç ã o d a s

c o is a s , p e r c e b id a e a p r e n d id a p e la o b s e r v a ç ã o h u m a n a 30 l o n g o d e e x te n s o s

p e r ío d o s d e e x p e r iê n c ia .

quiasmo. R e c u r s o lite r á r io e m q u e a s e g u n d a m e ta d e d e u m a c o m p o s iç ã o

re to m a a s m e s m a s p a la v r a s , o s m e s m o s t e m a s o u m o tiv o s d a p r im e ir a m e ta d e ,

m a s n a o rd e m in v e rs a fo p a d rã o A B B 'A '} .

raciocínio a fortiorí. R a c io c ín io a p a r tir d o m e n o r p a ra o m a io r.

teodiceia. D e fe sa d a ju s t iç a e d o s m é to d o s d e D e u s q u a n d o q u e s tio n a d o s .

tercetó. T r ê s v e r s o s d e p o e s ia q u e c o n s titu e m u m a u n id a d e d is tin ta .

zoomorfismo. A tr ib u iç ã o d e c a r a c te r ís tic a s a n im a is a D e u s.
1. Q u a l é a e s s ê n c ia d o p a r a le lis m o h e b r a ic o e q u a is s ã o o s tr ê s p r in c ip a is tip o s

d e p a r a le lis m o e n c o n tr a d o s n a s p o r ç õ e s p o é t ic a s d o A n tig o T e s ta m e n to ?

2 . Q u a is a s o u t r a s tr ê s c a r a c t e r ís t ic a s d a p o e s ia h e b r a ic a ?

3 . M e n c io n e a lg u n s c o n h e c im e n to s q u e p o d e m a ju d a r a r e c o n h e c e r a e stru tu ra

d e s e ç õ e s e s p e c ífic a s d a p o e s ia h e b r a ic a .

4 . M e n c io n e p e lo m e n o s d u a s o u tr a s c a r a c te r ís tic a s d e e s tilo ú te is n a

in te r p re ta ç ã o d a p o e s ia b íb lic a .

5 . Q u a is s ã o a s d ir e tr iz e s p a ra in te r p r e ta r a p o e s ia b íb lic a ?
1. Id e n tifiq u e o s tip o s d e p a r a le lis m o n o s s e g u in te s s a lm o s :

a . S a lm o 1

fa . S a l m o s 9 6 . 1 - 3 , 7 - 9 , 1 1 - 1 3

2 . Id e n tifiq u e q u a n d o s ê a p lic a m e s ta s c a ra c te r ís tic a s p o é tic a s : r e p e tiç ã o ,

c o n c is ã o , c o n c r e tu d e e lin g u a g e m fig u r a d a n a s s e g u in te s p a s s a g e n s :

a. N a u m 1 .2 -6

b . H a b a c u q u e 3 .8 -1 5

c . S o fo n ia s 3 .1 4 -1 6

d . L u c a s 1 .4 6 -5 3

3 . A n a lis e o c â n t ic o d e M o is é s e m Ê x o d o 1 5 .1 -1 8 e m r e la ç ã o a s e u s b lo c o s

c o n s titu in te s e in d ic a d o r e s e s tr u tu r a is . Q u e v e r s íc u lo s c o n t ê m e x e m p lo s d o s

v á rio s tip o s d e e s tr u tu r a d e v e rs o ? Q u e tip o d e c o s tu ra , a r tic u la ç ã o e v a ria ç õ e s

g r a m a tic a is o u lite r á r ia s s e e v id e n c ia m n o e s tilo d o a u to r?

4 . E m P r o v é r b io s 2 6 , c la s s ifiq u e o s d iv e r s o s tip o s d e p r o v é r b io s q u a n to a se re m

e le s p r in c ip a lm e n te d e s c r itiv o s , p r e s c r itiv o s , c o n tr a s ta n te s , c o n d ic io n a is ,

d e c la r a tiv o s o u d id á tic o s .

5 . E x p re ssõ e s d e s a b e d o r ia p o d e m s e r e n c o n tr a d a s e m m u ita s p a r te s d o A n tig o

T e s t a m e n to . A n a lis e a t e n t a m e n t e o e n s in o d o C o é le t e m E c l e s i a s t e s 3 .1 - 8 e

d e p o is c o m p a r e -o c o m o s s e g u in te s te x to s :

a. Jó 1 5 .3 0 -3 5

b . S a lm o s 3 7 .3 7 -4 0

c. O s e ia s 1 3 .1 2 ,1 3
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S h e ffie ld : JS O T , 1 9 9 4 . -
1. F a m ilia r iz a r o e s tu d a n te c o m a n a tu re z a e a fu n ç ã o d o p ro fe ta .

2 . C a p a c ita r o e s tu d a n te a id e n tific a r o s v á r io s s u b g ê n e r o s c o n tid o s n a p r o fe c ia .

3 . P ro p o r fe rra m e n ta s p a ra d e te r m in a r a e stru tu ra g e ra l d e u m liv r o d e p r o fe c ia ,

b e m c o m o a c o m p o s iç ã o d e su a s u n id a d e s in d iv id u a is .
A . C a p ítu lo 7 : o b je t i v o s

B. E s b o ç o d o c a p ítu lo

C . N a tu r e z a d a p r o fe c ia

D . S u b g ê n e r o s d e p r o fe c ia

1 . A n ú n c io s d e ju íz o

a . C a r a c te r ís tic a s g e r a is

b . O r á c u lo s d e "a is "

c L a m e n to

d . P r o c e s s o d e a lia n ç a

2 . O r á c u lo s d e s a lv a ç ã o

a . P r o m e s s a d e liv r a m e n to

b . O r á c u lo s d o r e in o

c . A p o c a líp tic a

3 . R e la to s in s tr u tiv o s

a . D e b a te

b . D is c u r s o s d e e x o r ta ç ã o / a d v e r tê n c ia

c S á tir a

d . M á x im a s d e s a b e d o r ia

e . N a r r a tiv a s p r o f é tic a s

4. Subgêneros variados
a . R e la to s d e v is õ e s / s o n h o s

b . C â n tic o s / h in o s p r o fé tic o s

c . O r a ç õ e s p r o fé tic a s

d . C a rta s p r o fé tic a s

E. P r o f e c ia fo r a d o s liv r o s p r o f é t ic o s d o A n t ig o T e s t a m e n t o

1. N o A n tig o T e s ta m e n to

2 , N o N o v o T e s ta m e n to

F. A m o s tr a d e e x e g e s e : o liv r o d e N a u m

1. Introdução
2 . H is tó r ia

3 . L ite r a tu r a

4 . T e o lo g ia

G. D ir e tr iz e s p a r a in te r p r e t a r p r o fe c ia

H . P a la v r a s -c h a v e

I, Q u e s tõ e s p a ra a p ro fu n d a r o e stu d o

J. E x e r c íc io s

K. B ib lio g r a fia d o c a p ítu lo


TEOLOGIA

HISTORIA ♦LITERATURAS

CÂNON «- GÊNERO LINGUAGEM


Antigo Testamento Narrativa histórica do AT Contexto discursivo
N ovo Testamento Poesia e sabedoria Significado das palavras
<*• Profecia Linguagem figurada
Narrativa histórica do NT
Parábolas
Epístolas
Leitura apocalíptica
Capítulo 7

DE VOLTA PARA O FUTURO: PROFECIA

N A T U R EZ A D A P R O F E C IA
stamos caminhando bem em nossa jornada interpretativa pelo terreno

E canônico. Já fomos apresentados a sólidos princípios de interpretação


da narrativa histórica do Antigo Testamento, bem como da poesia e da
literatura de sabedoria. A última grande parcela do cânon do Antigo Testamento
é composta de um total de pouco mais de uma dezena e meia de livros proféticos:
os quatro profetas maiores (Isaías, Jeremias/Lamentações, Ezequiel e Daniel) e os
doze chamados “Profetas Menores” (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias,
Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).
Entender profecia, sobretudo os livros proféticos do Antigo Testamento, à
primeira vista parece uma tarefa desanimadora. O leitor de língua portuguesa
depara de imediato com uma literatura que não tem paralelo direto em sua língua.
Além disso, o intérprete é apresentado a uma seleção ampla e aparentemente des­
concertante de material a ser assimilado. Encontra mensagens obscuras a respeito
de povos e lugares com nomes e costumes estranhos. Tem de lidar com textos que
utilizam um rico caleidoscópio de figuras, motivos, temas e símbolos literários.
Embora o intérprete tenha diante de si uma mensagem escrita, em prosa ou em
poesia, o fato de essa mensagem ter sido inicialmente proferida oralmente se reflete
na linguagem exaltada e às vezes apaixonada. Também se observa a urgência no tom
e no tema da mensagem. Por causa disso, alguns chegaram ao ponto de dizer que a
profecia é fundamentalmente poética. D. N. Freedman declara: “A maioria desses
profetas era composta de poetas, e seus oráculos foram proferidos e preservados
em forma poética”.1
Talvez isso seja natural, porque os profetas bíblicos foram pessoas cha­
madas por Deus para proclamar as mensagens dele. Como assinala Robert
Alter: “Visto que a poesia é o nosso melhor modelo humano de comunicação
complexa e rica [...], faz sentido que o discurso divino seja representado em
poesia”.2 De fato, a palavra mais comum para designar “profeta” traz em si o
sentido desse chamado, assim como os termos comuns para designar a tarefa
do profeta enfatizam sua missão de proclamador da mensagem de Deus. Como
observado, a mensagem do profeta era originalmente proferida de forma oral.
Portanto, nós, que agora lemos as mensagens registradas por escrito, temos a
obrigação de tentar ouvir assim como ler o que o profeta disse. Isso implica
o treinamento não apenas dos olhos, mas também dos ouvidos e do coração.
Isso porque entramos no mundo antigo da palavra falada. Algumas profecias
têm até uma ambientação que envolve pessoas e épocas do futuro, segundo a
perspectiva da época do profeta, o que acrescenta mais um aspecto e aumenta a
dificuldade do intérprete, que precisa procurar o significado pleno da passagem
num cumprimento posterior. Algumas profecias até parecem repletas de figuras
e imagens fantásticas e de outro mundo.
Apesar de tudo isso ser muito desafiador para nós, leitores da profecia, a cons­
ciência de que esses profetas eram pessoas reais enviadas por Deus a pessoas de um
mundo real (embora antigo) nos dá a certeza de que entender as mensagens deles
é um objetivo realizável. Na verdade, a palavra profética destinava-se a ser perti­
nente para a vida cotidiana. O que é ainda mais importante, ela era e é a Palavra de
Deus, cujo propósito é instruir as pessoas no que diz respeito à sua natureza e suas
normas para a conduta humana. Portanto, tem aplicação para leitores de todas as
épocas — e nisso reside o papel da hermenêutica. Compreender e comunicar com
eficiência a profecia bíblica são tarefas que têm origem na compreensão essencial
dos princípios pertinentes à interpretação desse gênero desafiador, mas gratificante,
das Escrituras.

'David N. Freedman, “Pottery, Poetry and Prophecy: An Essay on Biblical Poetry”, in: Pottery,
Poetry, and Prophecy (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1980), p. 18.
2Robert Alter, The Art o f Biblical Poetry (New York: Basic Books, 1985), p. 141.
S U B G Ê N E R O S D E P R O F E C IA
O gênero da profecia bíblica é composto de muitos tipos e formas — muito flui­
dos e às vezes superpostos. Portanto, a atribuição de um subgênero específico a
determinada parte da profecia pode não ser absolutamente precisa. Além disso,
uma passagem pode ter mais de um tipo de subgênero e refletir assim mais
de uma intenção do autor. Em todo caso, precisamos determinar o subgênero
principal, partindo da forma e da identificação do propósito principal do autor
em todo o contexto. A comparação com outras profecias de natureza semelhante
também pode ser útil. Esses passos iniciais para abordar uma passagem específica
são indispensáveis, pois, como assinalam Cotterell e Turner: “A identificação do
que consideramos ser o gênero a que determinado texto pertence gera certas
expectativas acerca de como o conteúdo desse texto deve ser compreendido”.3
A maioria dos estudiosos, no entanto, concorda que os dois subgêneros mais
proeminentes de profecia são os que tratam de juízo e salvação. Visto que em nossa
perspectiva a profecia consiste basicamente em proclamação, vamos empregar as
expressões “anúncios de juízo” e “oráculos de salvação”.

Anúncios de juízo
Características gerais
Os anúncios de juízo constituem a maior parte da profecia do Antigo Testamento. A
proclamação de um juízo também pode fazer parte de outros subgêneros que va­
mos estudar. Os anúncios formais de juízo consistem em dois elementos principais:

1. acusação, que declara as imputações de culpa do Senhor pelas quais ele


trará o juízo;
2. anúncio de um juízo específico que será imposto.

O texto de Amós 2.6-16 é um bom exemplo. Aqui o Senhor lista as várias


acusações que tem contra seu povo (v. 6-12) e, em seguida, anuncia a destruição
iminente (v. 13-16). Os anúncios de juízo também podem conter uma convocação
para ouvir a palavra do Senhor (e.g., Am 3.1; 5.1). Observe o exemplo:

3Peter Cotterell e Max Turner, Linguistícs & Biblical Interpretation (Downers Grove: InterVarsity,
1989), p. 99.
Convocação O u vi e sta p a la v r a

Acusação O u v i e sta p a la v r a , v a c a s d e B a s ã , q u e e s t a is n o m o n t e d e

S a m a r ia , q u e o p r im is o s p o b r e s , e s m a g a is o s n e c e s s ita d o s e

d iz e is a o s s e u s s e n h o r e s : T r a z e i-n o s b e b id a s .

Anúncio O Senhor D e u s ju r o u p e la s u a s a n tid a d e q u e v ir ã o d ia s e m q u e

v o s le v a r ã o c o m g a n c h o s e , a s ú ltim a s d e v ó s , c o m a n z ó is .

S a ir e is p e la s b r e c h a s , u m a n a f r e n te d a o u tr a , e s e r e is la n ç a d a s

p a r a H a r m o m , d iz o Senhor (A m 4 .1 -3 ).

Entre outras características, pode haver um apelo ao arrependimento e as


conseqüentes recompensas das bênçãos de Deus. Assim, o profeta Joel advertiu
o povo de sua época de que o presente estado desastroso da terra por causa da
praga dos gafanhotos nada mais era do que um prenúncio de uma invasão da terra
ainda mais grave (1.1—2.11). O profeta, portanto, convocou o povo a arrepender-se
(2.12-14). Em seguida, depois de instar o povo a convocar uma cerimônia formal
de arrependimento e reconsagração ao Senhor (v. 15-17), enumerou as bênçãos
divinas em conseqüência desse gesto (v. 18-27). Esses temas aparecem copiosamente
em todos os profetas quando, diante da ameaça do juízo divino, convocam o povo
de Deus à religião sincera e verdadeira. Duvall e Hays assinalam que as mensagens
proféticas “podem resumir-se em três pontos básicos, cada um com sua respectiva
importância para a mensagem dos profetas:

1. Vocês romperam a aliança; é melhor se arrependerem!


2. Se não se arrependerem, virá o juízo!
3. Contudo, depois do juízo, há esperança de uma gloriosa restauração futura”.4

Os profetas também têm mensagens de juízo para outras nações. Por exemplo,
observe a acusação de Naum contra Nínive, a capital da Assíria:

Ai da cidade de sangue!
Ela está toda cheia de mentiras e de roubo, e não solta a sua presa!

4J . Scott Duvall e J. Daniel Hays, Grasping Gods Word, 2. ed. (Grand Rapids: Zondervan,
2005), p. 373.
Atenção! O estalo do chicote! O estrondo das rodas!
O galope dos cavalos! O saltar dos carros!
O cavaleiro montado, a espada flamejante, a lança reluzente!
A multidão de mortos, o montão de cadáveres, defuntos inumeráveis.
Gente tropeça nos cadáveres;
tudo isso por causa de tantos adultérios da prostituta formosa,
da mestra das feitiçarias,
que vendia nações com sua prostituição,
e famílias com suas feitiçarias (Na 3.1-4).

Naum continua proferindo as mensagens de juízo severo do Senhor contra


a cidade (v. 5-7). As nações estrangeiras são condenadas principalmente por duas
razões: 1) o tratamento que dispensam ao povo de Deus, crime que constituía um
ataque contra o próprio Senhor; e 2) o tratamento desumano para com muitas
outras nações (e.g., Is 14.12-17; Na 3.19).
As profecias relativas às nações estrangeiras muitas vezes eram reunidas em
grandes compilações (e.g., Is 13—23; Jr 46—51; Ez25—32; Am 1.3—2.5; Sf 2.4-15).
Em alguns casos, são organizadas pela localização geográfica em relação à terra de
Israel. Por exemplo, as profecias de Sofonias se deslocam do oeste de Judá (Filístia)
para o leste (Moabe e Amom), depois para o sul e o norte (Cuxe, Assíria). Ezequiel
inverte a ordem de Sofonias, indo do leste (Transjordânia) para o oeste (Filístia) e
depois do norte para o sul (Fenícia, Egito).

O ráculos de " ais "

Um tipo específico de anúncio de juízo são os oráculos de “ais”. Esses oráculos se


compunham tradicionalmente de três elementos:

1. acusação veemente (a declaração dos “ais”);


2. ameaça (os detalhes do juízo vindouro);
3. crítica (o motivo do juízo vindouro).

Podem ser encontrados exemplos típicos em Habacuque 2.6-20. Observe o sar­


casmo inicial de Habacuque contra os caldeus (ou neobabilônios):
Acusação veemente A i d a q u e le q u e a c u m u la o q u e n ã o é seu !

A i d a q u e le q u e s e e n c h e d e b e n s s a q u e a d o s !

A té q u a n d o s e r á a s s im ?

Ameaça N ã o s e le v a n ta r ã o d e r e p e n t e o s te u s c r e d o r e s ?

N ã o d e s p e r ta r ã o o s q u e t e fa r ã o e s t r e m e c e r ? E n tã o s e r v ir á s

d e d e s p o jo p a r a e le s .

Crítica V is to q u e d e s p o ja s t e m u ita s n a ç õ e s ,

o s o u tro s p o v o s te d e s p o ja r ã o ,

p o r c a u sa d o sa n g u e d e rra m a d o

e d a v io lê n c ia c o n tr a a te r r a , c o n tr a a c id a d e

e c o n tr a to d o s o s q u e n e la h a b ita m (H c 2 .6 -8 ).

Esses três elementos não precisam ocorrer na mesma ordem em todos os


casos. Assim, Miqueias anuncia desgraça aos malfeitores da sociedade (Mq 2.1),
apresenta a crítica ou os motivos por que eles precisam ser julgados (v. 2) e depois
anuncia a ameaça do juízo (v. 3-5).

L amento
Outro subgênero é o lamento. Pode-se entender o lamento de dois modos. Por um
lado, é uma oração a Deus (e.g., SI 22; Hc 1—2). Por outro, o lamento constitui
uma declaração de angústia ou lamentação. Este último é o tipo de que tratare­
mos aqui com mais detalhes. Além disso, muitas vezes se encontram lamentos
não somente na literatura profética, mas também nos Salmos e na literatura de
sabedoria, como no livro de Jó, por exemplo.
A passagem de Amós 5.1-17 classifica-se com clareza como lamento (com
base no termo hebraico qinah). Aqui se proclama o juízo de Israel como se já
tivesse acontecido — um fato consumado (v. 1,2). A ameaça de juízo é ampliada
com o vaticínio de como se dará esse juízo (v. 3). Em seguida, vem uma longa lista
de acusações contra o povo de Deus, acusações pelas quais a punição deve vir,
juntamente com um apelo para que haja arrependimento (v. 6-15). O profeta, em
seguida, retorna ao vaticínio do juízo (v. 16,17).
Mais um exemplo clássico de lamento ocorre em Ezequiel 19. Aqui a con­
vocação para o lamento precede um rol de acusações contra a liderança de Judá,
acusações pelas quais viera o juízo. Nesse caso, o juízo não é representado como algo
que certamente ocorrerá no futuro, mas como uma realidade passada que resultou
no sofrimento presente. Mesmo assim, os elementos de acusação e o anúncio de
juízo ainda estão presentes, apesar de já ter passado o juízo.

P rocesso de aliança

Outro tipo de discurso de juízo é o processo jurídico de aliança, em que Deus


intima seu povo a comparecer diante dele por causa de violações da aliança. Esses
anúncios de juízo normalmente contêm a intimação de testemunhas, uma lista
de acusações contra os acusados (acusação) e um anúncio da pena (ou veredito).
O texto de Miqueias 6.1-16 é um excelente exemplo. Aqui, o Senhor abre um pro­
cesso contra seu povo, convocando as montanhas para servirem de testemunha:

Ouvi a g o ra o que d iz o S e n h o r :
Levanta-te, defende a tua causa diante dos montes,
e as montanhas ouçam a tua voz.
Ó montes, e vós, fundamentos perpétuos da terra,
ouvi a acusação do S e n h o r ;
porque o S e n h o r tem uma acusação contra o seu povo
e entrará em juízo contra Israel (Mq 6.1,2).

Ele, então, inicia uma longa lista de acusações contra seu povo, na qual traz à
memória a sua bondade passada para com eles e chama a atenção para a presente
infidelidade desse povo (v. 3-12). Ao fazer isso, ele até inclui um breve diálogo
imaginário em que a suposta reação do povo é apresentada junto com a resposta
de Deus (v. 6,7). Em seguida, vem uma sentença divina do juízo final (v. 13-15),
acompanhada de um resumo da decisão (v. 16):

Porque tendes obedecido aos estatutos de Onri


e a todas as obras da casa de Acabe
e andais nos conselhos deles.
Portanto, farei de vós uma ruína
e d o s v o s s o s h a b ita n te s u m d esp rez o .
Assim trareis sobre vós a vergonha do meu povo.

Oráculos de salvação
O segundo subgênero de profecia mais proeminente ocorre naquelas profecias
que tratam da obra salvífica de Deus. Pode-se observar que, em muitos dos casos
citados aqui, juízo e salvação ocorrem paralelamente. Além disso, muitos deles
tratam do previsto estado final de Israel.

P rom essa de livramento

As profecias de salvação normalmente falam do livramento divino depois de um


período em que se experimentou sua punição. Com frequência se reconhece o se­
guinte ciclo: pecado, juízo [e punição], arrependimento e restauração. Por exemplo,
Ezequiel informa a seus ouvintes que eles sofreram a punição do cativeiro e do Exílio
por causa do pecado de Israel. Apesar disso, Deus iria restaurar seu povo, levando-o
de volta à sua terra e dando-lhe um novo coração para servir ao Senhor (Ez 11.14-21).
Um pouco antes, Jeremias advertiu a respeito da chegada de circunstâncias
desesperadoras (Jr 16.1-9). O castigo vindouro de Deus seria o cativeiro por causa
do longo namoro do povo com práticas pecaminosas (v. 10-13). Não obstante,
havia de vir um tempo em que o castigo terminaria e Deus os restabeleceria na
Terra Prometida:

Portanto, dias virão, diz o S e n h o r , em que não se dirá mais: Vive o S e n h o r , que
trouxe os israelitas da terra do Egito; mas sim: Vive o S e n h o r , que trouxe os israe­
litas da terra do norte e de todas as terras para onde os havia lançado; porque eu os
trarei de volta à terra que dei a seus pais (v. 14,15).

Aqui observamos que a promessa de libertação/salvação é conjugada com o


tema do novo êxodo (cf. Is 43.16-21; 48.20,21). A propósito, deve-se observar que
o êxodo não só é um tema destacado no Antigo Testamento, mas também culmina
num êxodo novo e maior. Assim como na passagem de Jeremias que acabou de ser
citada, pode-se encontrar essa promessa em muitas profecias do Antigo Testamento,
bem como em numerosos textos do Novo Testamento. “Na maioria dos casos em
que há uma referência à experiência do êxodo, fica claro que o Êxodo histórico do
Egito serve como garantia de futuros êxodos. Muitas vezes é difícil saber se um
determinado texto fala de um futuro relativamente próximo ou distante ou dos
dois (e.g., Is 52.4-13). Em geral, a perspectiva se apresenta de tal forma que o futuro
próximo e o distante se misturam (e.g., Is 61.1-3; Ez 20.32-38).”5 Observe-se, por
exemplo, Jeremias 16.14,15:

5Richard D. Patterson e Michael Travers, “Contours o f the Exodus M o tif in Jesus’ Earthly
M inistry”, W TJ66 (2004): p. 25-47.
Portanto, dias virão, diz o Sen h o r, em que não se dirá mais: Vive o Sen h o r, que
trouxe os israelitas da terra do Egito; mas sim: Vive o Se n h o r , que trouxe os israe­
litas da terra do norte e de todas as terras para onde os havia lançado; porque eu os
trarei de volta à terra que dei a seus pais.

O ráculos do reino

Uma grande quantidade de oráculos de salvação aponta para o futuro distante ou


escatológico, entre eles os que apresentam o tema do novo êxodo (e.g., Is 51.4-11;
Jr 23.3-8; Ez 37.18-20). Designamos essas profecias como “oráculos do reino”, pois
tratam do estabelecimento do reino final de Israel. Os oráculos do reino não apenas
se referem à magnífica libertação futura de Israel e seu retorno à sua terra, mas
também contêm um anúncio de juízo universal. Esses juízos muitas vezes tratam
do futuro, de forma que preveem uma série de juízos. O último juízo completa a
série e serve de preparação para a era de bênçãos que finalmente virá.
Esse juízo difere de outros anúncios de juízo porque tem alcance universal e
apresenta aspectos dramáticos, como fenômenos cataclísmicos do mundo natural
e a ampla devastação da terra. O texto de Joel 3.9-21 é exemplo típico desses juízos.
Aqui o profeta proclama a necessidade de que a nação se prepare para a guerra
(v. 9-11). Não é nada menos do que o tempo do grande juízo de Deus sobre as forças
rebeldes da terra (v. 12,13). Com clamor de guerra e pela convulsão da natureza,
Deus libertará seu povo (v. 14-17). Depois disso, habitará em seu meio e trará paz
e prosperidade eternas (v. 18-21).
Outros profetas fazem um retrato semelhante desses formidáveis eventos.
Sofonias chama essa era de o “grande dia do Se n h or ” (Sf 1.14-18). É o tempo do
grande juízo de Deus contra este mundo perverso (Sf 3.8). Ele dará início ao novo
e derradeiro êxodo de seu povo, vai restaurá-lo à sua terra, abençoá-lo e produzir
felicidade eterna:

N a q u e le t e m p o v o s t r a r e i , n a q u e l e t e m p o v o s r e c o l h e r e i ; f a r e i c o m q u e s e ja i s r e c o ­

n h e c id o s e h o n r a d o s e n tr e to d o s o s p o v o s d a te r r a , q u a n d o , d ia n te d o s v o s s o s o lh o s ,

e u t r o u x e r v o s s o s c a t i v o s d e v o l t a , d iz o S e n h o r ( S f 3 . 2 0 ) .

O estudante atento da profecia reconhece os oráculos do reino pela presença


de anúncios de juízo e de promessas de salvação combinados num cenário futuro
e universal. Também reconhece que, às vezes, aspectos do juízo anunciado do
Senhor podem ter cumprimento antecipado em alguma parte de uma série de juízos
futuros de Deus, sem esgotar a profecia toda. Por causa disso, o povo de Deus pode
encontrar aplicações para os vários acontecimentos em relação ao clímax da profecia
inteira na era escatológica. Seja como for, apesar de se aplicarem principalmente
ao futuro distante, os oráculos do reino constituem uma exortação aos cristãos de
todas as épocas para que vivam uma vida santa, aguardando a consumação final
da história terrena que Deus realizará.

A pocalíptica

Os oráculos do reino também chamaram atenção por conterem acontecimentos


dramáticos, que muitas vezes registram fenômenos de dimensões cósmicas acom­
panhados de uma súbita e drástica intervenção divina. Nesses casos, o texto se
parece muito com a literatura apocalíptica, tão proeminente no período posterior
à conclusão do Antigo Testamento.
John Collins propõe a definição clássica de literatura apocalíptica como “gê­
nero de literatura de revelação com uma estrutura narrativa em que a revelação
ao recipiente humano é intermediada por um ser sobrenatural. Essa revelação é,
ao mesmo tempo, temporal, na medida em que prevê a salvação escatológica, e
espacial, na medida em que implica outro mundo, o sobrenatural”.6Entre as muitas
características da literatura apocalíptica, cinco são particularmente freqüentes:

1. Este mundo presente é mau e sem esperança; só pode ser corrigido pela
intervenção divina soberana.
2. O grande problema de todos os tempos é essencialmente a batalha espi­
ritual entre o bem e o mal.
3. A intervenção do Senhor acarretará eventos catastróficos.
4. Depois da ocasião do juízo universal de Deus, uma nova era de paz,
prosperidade e justiça será inaugurada.

A literatura apocalíptica normalmente se apresenta por visões do futuro e


tem imagens vividas, ambientes e cenários fantásticos de outro mundo, além de ser
pródiga no uso de símbolos, bem como de números, cores e animais.7

6John J. Collins, The Apocalyptíc Imaginatíon (New York: Crossroad, 1984), p. 4.


7Veja mais em “Apocalypse, Genre o f” e “Apocalyptíc Visions of the Future”, in: Leland Ryken,
James C. Wilhoit e Tremper Longman III, orgs., Dictionary o f Biblical Imagery (Downers Grove:
InterVarsity, 1998), p. 35-7, 37-8; D. Brent Sandy, Plowshares & Pruning Hooks (Downers Gro­
ve: InterVarsity, 2002), p. 106-11.
Daniel (esp. caps. 7—12) é em geral considerado o livro apocalíptico do a t .
Os apocalipses plenamente desenvolvidos, contudo, surgiram depois da era do
Antigo Testamento. Foram especialmente proeminentes do segundo século a.C.
ao início do segundo século d.C. Ao contrário do modelo da profecia bíblica, os
apocalipses eram escritos em prosa, não em verso. A esta altura, o emprego que
se nota nos apocalipses das características especiais mencionadas há pouco nos
permite pensar na literatura apocalíptica como um gênero literário distinto. Entre
os exemplos representativos estão 1 e 2Enoque, 2 e 3Baruque, 4Esdras e o livro do
Apocalipse, no Novo Testamento.
Estudamos aqui a apocalíptica porque alguns aventaram a hipótese de que,
no Antigo Testamento, ocorrem literatura apocalíptica e apocalipses. Entre as pas­
sagens quase sempre mencionadas estão Isaías 24—27, Ezequiel 38—39, Daniel 7,
|oel 2.28-32; 3.9-17 e Zacarias 1—6; 12— 14.8 Mesmo uma olhada rápida em
alguns desses textos confirma que eles contêm algumas características encontradas
na literatura apocalíptica clássica. As profecias do Antigo Testamento revelam um
aumento progressivo do uso dessas características, sobretudo perto do final do
cânon do Antigo Testamento (e.g., Ez 38—39; Dn 7; Zc 1—6,14). Pode-se concluir,
portanto, que o gênero apocalíptico, baseado em precedentes do Antigo Testamento
e plenamente desenvolvido depois do período do Antigo Testamento, tem em grande
parte origem hebraica. Teve origem nos oráculos do reino do Antigo Testamento.
Por isso, David Aune conclui:

Pelo que se pode ver, a profecia foi absorvida gradativamente pelo gênero apocalíp­
tico. A maior parte das características essenciais do tipo de literatura apocalíptica
que prosperou de 200 a.C. a 100 d.C. tem raízes na literatura judaica dos séculos 6
e 7 a.C. A apocalíptica, portanto, teve uma evolução judaica interna.9

Visto que as Escrituras contêm um apocalipse evidente (o livro de Apocalipse),


assim como passagens que utilizam linguagem apocalíptica tanto no Antigo Testa­
mento (e.g., Dn 7) quanto no Novo (e.g., Mt 24), o estudante de profecia precisa ter
um conhecimento básico da natureza e das características do gênero apocalíptico
para interpretar o texto corretamente. Sugerimos as seguintes diretrizes:

8Observe, contudo, que O. Palmer Robertson, em The Christ ofth e Prophets (Phillipsburg: Pres-
bvterian & Reformed, 2004), p. 446, designa essas passagens como “profecia cataclísmica”.
9David E. Aune, Prophecy in Early Christianity and the Mediterranean World (Grand Rapids:
Eerdmans, 1983), p. 112.
1. Familiarize-se com as características da literatura apocalíptica.
2. Observe a ambientação da passagem, tanto no aspecto histórico quanto
na orientação contextual.
3. Distinga com atenção o uso de símbolos, temas e figuras de linguagem
do sentido literal comum desses elementos.
4. Verifique o propósito do autor ao usar características apocalípticas.
5. Como nos outros tipos de profecia, tente situar-se no ambiente de ora-
lidade daqueles que ouviram a mensagem pela primeira vez. Aborde-o
com toda a sua personalidade: “O leitor precisa estar atento para o efeito
da mensagem, não apenas com a mente e os olhos, mas também com os
ouvidos e o coração”.10
6. Ao ensinar ou pregar a passagem, não se esqueça de ressaltar o conteúdo
espiritual intrínseco da mensagem do texto, sobretudo a solução definitiva
da teleologia divina que a passagem apresenta.
7. Acima de tudo, faça com que a aplicação da passagem seja pertinente à
vida daqueles que você está tentando alcançar.

Relatos instrutivos
Você talvez já tenha notado que nos dois subgêneros analisados quase sempre
havia um elemento de instrução. Aqui novamente observamos que os discursos
proféticos nem sempre têm apenas um aspecto. O profeta de Deus pode entrelaçar
dois ou mais tipos literários para alcançar seus objetivos. Portanto, o estudante
não deve surpreender-se de encontrar diversos tipos inseridos no tipo básico
de profecia que o profeta emprega. Vamos estudar aqui as passagens em que o
conteúdo instrucional é a principal característica e o propósito geral do contexto.

D ebate

Em primeiro lugar, vamos tratar do debate. Os elementos mais comuns das falas
dos debates são: declaração, argumentação e refutação. Dos vários exemplos que se
poderiam citar (e.g., Ez 18; Am 3.3-8), talvez Malaquias seja o mais conhecido por
usar esse recurso literário. Quase toda a sua profecia se apresenta como um debate
entre o Senhor e seu povo. O debate assume a forma de um diálogo imaginário
entre eles. Observe-se a seguinte passagem do primeiro capítulo de Malaquias:

“ Richard D. Patterson, “Old Testament Prophecy”, in: Leland Ryken e Tremper Longman III,
A Complete Literary Guide to the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1993), p. 298.
7.3. DEBATE ■—
Argumentação Ofilh o h o n ra o p a i, e o s e r v o , o s e u s e n h o r . S e e u so u p a i, o n d e e s t á

a m in h a h o n ra ? S e e u so u s e n h o r , o n d e e s t á o t e m o r d e m im ? , d iz o

Senhor d o s E x é r c ito s .

Declaração V ó s, s a c e r d o te s , q u e d e s p r e z a is o m e u n o m e .

Refutação E v ó s p e r g u n ta is : C o m o te m o s d e s p r e z a d o o te u n o m e ? (M f 1 .6 ,7 )

A passagem prossegue com argumentação, refutação e resposta à refutação e


termina com uma lição a ser aprendida: somente sacrifícios puros são aceitáveis e
honrosos para o grande nome de Deus. Observem-se, por exemplo, as palavras do
Senhor por intermédio de seu profeta no versículo 11:

Mas o meu nome é grande entre as nações, do oriente ao ocidente; e em todo lugar
oferecem ao meu nome incenso e uma oferta pura; porque o meu nome é grande
entre as nações, diz o S e n h o r dos Exércitos.

Nessa passagem, o estilo de Malaquias é bem semelhante ao da diatribe greco-


-romana clássica, que Aune define assim:

O estilo dialógico de diatribe faz uso freqüente de oponentes imaginários, objeções


hipotéticas e conclusões inválidas. As perguntas e objeções do oponente imaginário
e a resposta do mestre oscilam entre a censura e a persuasão.11

Em harmonia com essa apresentação, Malaquias muitas vezes utiliza um tom


satírico para alcançar seus objetivos. Vamos falar mais a respeito da sátira numa
análise posterior.

D iscursos de exortação / advertência

Passaremos em seguida à profecia em que ocorre uma exortação ao arrependi­


mento ou a uma reforma. Aqui os ouvintes ou leitores são exortados a seguir o
Senhor e suas normas. Essas mensagens instrucionais costumam iniciar com um

“ David E. Aune, The New Testament in its Literary Environment (Philadelphia: Westminster,
p. 2 0 0 .
1 9 8 9 ),
apelo para que se ouça a palavra do Senhor e contêm um motivo que incentiva
a reação favorável. Esse motivo pode ser positivo (recompensa) ou negativo
(advertência a respeito das conseqüências do estilo de vida atual).
Um exemplo do primeiro caso é a mensagem de exortação aos exilados
transmitida por Isaías (Is 55.1-5):

Apelo Ó v ó s , to d o s o s q u e te n d e s s e d e , v in d e à s á g u a s , e v ó s q u e n ã o

te n d e s d in h e ir o , v in d e , c o m p r a i e c o m e i; v in d e e c o m p r a i v in h o e

le ite , s e m d in h e ir o e s e m c u sto .

Exortação P o r q u e g a s t a is o d in h e ir o n a q u ilo q u e n ã o é p ã o ? £ o p ro d u to

d o v o s s o tr a b a lh o n a q u ilo q u e n ã o p o d e s a tis fa z e r ? O u v i-m e

a te n ta m e n te , c o m e i o q u e é b o m e d e lic ia i-v o s c o m fin a s r e fe iç õ e s .

Apelo In c lin a i o s o u v id o s e v in d e a m im ; o u v i, e a v o s s a a lm a v iv e r á .

Motivo F arei convosco u m a a lia n ç a e te r n a , d a n d o -v o s a s fié is m is e r ic ó r d ia s

p r o m e t id a s a D a v i. (Is 5 5 .1 -3 )

As bênçãos que acompanham essa aliança continuam como mais um incentivo


nos versículos 4 e 5.
Jeremias 44.24-28 serve de exemplo da reação negativa. Porém, a exortação
está implícita na sátira do versículo 25:

7.5. EXORTAÇÃO NEGATIVA


_ '* 1
Apelo O u v i a p a la v r a d o Se n h o r, t o d o o Ju d á , q u e e s ta is n a te r r a d o E gito .

Exortação A s s im fa la o Senhor d o s E x é r c ito s , D e u s d e Is r a e l: V ó s e v o s s a s

m u lh e r e s p r o m e te s te s e c o m a s v o s s a s m ã o s o c u m p r is te s , d iz e n d o :

C e r ta m e n te c u m p r ir e m o s o s v o to s q u e fiz e m o s d e q u e im a r in c e n s o

à r a in h a d o c é u e d e lh e a p r e s e n ta r o fe r ta s d e r ra m a d a s . P o r ta n to ,

c o n firm a i e c u m p ri o s v o s s o s v o to s í O u y i a p a la v r a d o S e n h o r, to d o s

o s d e Ju d á q u e h a b ita is n a te r r a d o E g ito ; J u r o p e lo m e u g ra n d e

n o m e , d iz o S e n h o r, q u e n u n c a m a is s e r á p r o n u n c ia d o o m e u n o m e

p e la b o c a d e n e n h u m h o m e m d e Ju d á e m to d a a te r r a d o E g ito ,

d iz e n d o : C o m o v iv e o Senhor D e u s ! ( J r 4 4 .2 4 ,2 5 ) .
O motivo prossegue numa advertência a respeito das trágicas conseqüências das
práticas cultuais passadas de Israel. O pior de tudo é que os judeus exilados no Egito
morreriam, e haveria apenas um pequeno remanescente que algum dia poderia
voltar a Judá (v. 26-28).
A recompensa e a advertência podem estar presentes num único contexto.
Um exemplo típico é Jeremias 7.2-7a:

7.6. EXORTAÇÃO DE RECOMPENSA E ADVERTÊNCIA ■


Apelo O u v i a p a la v r a d o Se n h o r, to d o s d e Ju d á q u e p a s s a is p o r e s ta s p o r ta s

p a ra a d o ra r o S en h o r. =

Exortação A s s im d iz o Senhor d o s E x é r c ito s , o D e u s d e Is r a e l: E n d ir e ita i o s

v o s s o s c a m i n h o s e a s v o s s a s a ç õ e s , e v o s f a r e i h a b it a r n e s t e lu g a r .

N ã o c o n fie is e m p a la v r a s f a ls a s , d iz e n d o : E s te é o te m p lo d o S e n h o r,
te m p lo d o Se n h o r, te m p lo d o Senhor.

Motivo M a s s e d e fa to e n d ire ita rd e s o s v o s s o s c a m in h o s e a s v o s s a s a ç õ e s ;

s e r e a lm e n t e p r a t ic a r d e s a ju s t i ç a e n t r e u m h o m e m e o s e u p r ó x im o ;

s e n ã o o p r im ir d e s o e s tr a n g e ir o , o ó r fã o e a v iú v a , n e m d e rra m a rd e s

s a n g u e in o c e n t e n e s t e lu g a r , n e m s e g u ir d e s o u tr o s d e u s e s p a ra v o s s o

p r ó p r io m a l, e n t ã o e u v o s fa r e i h a b it a r n e s t e lu g a r, n a te r r a q u e d e i a

v o s s o s p a is d e s d e a a n t ig u id a d e e p ara se m p re .

O discurso seguinte contém instruções a respeito da natureza censurável do


presente comportamento do povo (v. 7 b -ll), juntamente com a advertência de
que Jerusalém não podia esperar sair-se melhor do que Siló, que também já havia
servido de habitação do nome de Deus (v. 12-15). A presença de Deus ali demons­
trou não ser nenhuma garantia de sobrevivência. Por causa dos pecados do povo, o
juízo divino teve que vir. Consequentemente, a presença do Templo em Jerusalém
também não devia ser um mero amuleto. Os habitantes de Jerusalém não deveriam
pensar que podiam continuar com o abominável culto sincrético e ainda assim ter
expectativa de escapar do juízo de Deus.
O intérprete também deve observar que nesses versículos as instruções profé­
ticas e os discursos de juízo são combinados com debate e tom satírico. O objetivo
é motivar o povo ao arrependimento genuíno e à reforma. Essa mistura de recur­
sos literários é bem comum na profecia do Antigo Testamento (e.g., Is 42.18-25;
Ez 18.25-32; Mq 3.1-4). Pode-se acrescentar que as mensagens didáticas de exortação
ou advertência podem dirigir-se a indivíduos e até a reis (Jr 22.1-6). As mensagens
aos falsos profetas (Jr 29.20-23) ou aos sacerdotes decadentes (Am 7.16,17) são
proferidas com fortes palavras de advertência. Aqui, a motivação para se corrigirem
está apenas implícita, na melhor das hipóteses, pois os indivíduos são tão culpados
que tudo indica estarem condenados ao juízo.

S átira
Pode-se considerar que a sátira contém quatro elementos fundamentais:

1. o objeto do ataque - determinada coisa, postura ou pessoa, ou os males


da sociedade em geral;
2. um recurso satírico — que vai desde uma simples metáfora até uma his­
tória completa;
3. o tom satírico — expõe a atitude do autor para com o objeto de seu ataque;
4. a norma satírica — um padrão, declarado ou subentendido, mediante o
qual se aplica a crítica do autor.12

Como acabamos de assinalar, podem-se identificar elementos satíricos em


muitas mensagens proféticas. Isso se aplica sobretudo aos anúncios de juízos e aos
relatos instrutivos. A sátira ocorre em praticamente todo livro profético. Talvez seja
impreciso referir-se à sátira como um subgênero da profecia. A maioria admite que
a sátira formal se originou com os romanos. Contudo, pelo menos um estudioso
aventou a hipótese de que também se pode encontrar sátira formal no livro bíblico
de Jonas.13Não importa se Jonas é ou não considerado “a maior obra-prima satírica da
Bíblia”, o fato é que, sem dúvida, a sátira aparece com destaque no relato da odisséia
espiritual de Jonas (esp. caps. 1 e 4).14
Assim como Jonas, Amós também é repleto de sátira. A sociedade que Amós
condena é “uma sociedade má — uma sociedade que rejeita a verdade, vive no
luxo, participa da exploração de pessoas e perpetua um sistema judiciário corrupto.
A forma do ataque não apenas arrola essas depravações, mas também prevê um
juízo vindouro contra eles”.15 O uso de uma paródia em Amós aumenta ainda mais
o efeito satírico:

12Veja “Satire”, in: Leland Ryken, James C. Wilhoit e Tremper Longman III, orgs., Dictionary <r
Biblical Imagery (Downers Grove: InterVarsity, 1998), p. 762.
13Leland Ryken, Words ofD elight (Grand Rapids: Baker, 1987), p. 337-40.
I4Ibidem, p. 337.
15Ibidem, p. 335.
Assim, de nada adiantará ao ágil tentar fugir, nem o forte usará sua força,
nem o valente salvará sua vida.
O que maneja o arco não ficará em pé,
nem o veloz se livrará,
nem mesmo o cavaleiro; naquele dia,
o m a is c o r a jo s o e n tr e o s g u e r r e ir o s fu g ir á n u , d iz o S e n h o r (Am 2.14-16).

Amós chega a incluir uma nota necrológica do Reino do Norte, antes mesmo
desse reino cair: “A virgem de Israel caiu! Nunca mais se levantará! Está abandonada
na sua terra; ninguém a levantará” (Am 5.2).
Não se deve esquecer também o uso abundante da sátira em Malaquias, em
toda a sua discussão com a sociedade apóstata (e.g., 1.6-14; 2.7-9,13,14,17; 3.13-15).
Em todo caso, a sátira funciona melhor em contextos que tratam do juízo. A presen­
ça ampla da sátira na profecia deve chamar a atenção do intérprete da Bíblia para
a necessidade de entender o propósito desse recurso estilístico a fim de também
compreender todo o vigor do contexto.

M áximas de sabedoria

A instrução também pode adquirir a forma de sabedoria proverbial. Ao criticar a


arrogância da Assíria em pensar que conseguiu expandir seu poderio pelo Oriente
Próximo por sua própria força, Isaías profere o juízo de Deus com um sábio ditado:

Por acaso o machado se gloriará contra quem o utiliza? A serra se exaltará contra
quem a maneja? Como se a vara movesse o que a levanta, ou o bastão erguesse o
que não é madeira! (Is 10.15).

O rei assírio precisava compreender que seu sucesso se devia tão somente ao
poder do Deus de Israel.
Jeremias e Ezequiel censuram seu povo por insinuar que sua punição se deve
aos pecados de seus antepassados, e não aos seus próprios. Por exemplo, Ezequiel
denuncia que o povo andava dizendo: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos
filhos é que ficaram embotados” (Ez 18.2). Além do componente de sabedoria prover­
bial, essa declaração também destila sátira e ironia. Oseias conclui sua profecia com
o desafio para andar perante Deus, usando palavras que lembram Provérbios 10.29:

Quem é sábio para entender essas coisas?


E prudente, para compreendê-las?
Pois o s caminhos do S e n h o r são retos
e os justos andarão por eles;
mas os transgressores neles cairão (Os 14.9).

Assim como em Jeremias 2.18, aqui observamos um reflexo do conhecido


ensino proverbial dos dois caminhos (cf. Pv 4.14-19). O tema dos dois caminhos
passou a ser um motivo bíblico bem conhecido (cf. Dt 30.19; Sl 1) e também era
usado pela seita de Qumran (e.g., 1QS 3.20-22) e pela igreja cristã primitiva (e.g.,
Didaquê, 1—6). Jesus também usou esse tema no ensino acerca da natureza da
vida genuína:

Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz
à perdição, e são muitos os que entram por ela; pois a porta é estreita, e o caminho
que conduz à vida, apertado, e são poucos os que a encontram (Mt 7.13,14).

Os profetas muitas vezes usavam esses ditados sábios em suas admoestações.


Por isso, eles aparecem em exortações e advertências para incentivar o povo de Deus
a viver em retidão e para imprimir neles os perigos da desobediência. Os ímpios
eram advertidos de seu juízo inevitável caso continuassem agindo como agiam.

Narrativas proféticas
Os livros proféticos apresentam vários tipos de narrativa. Eles dão informações
a respeito da vida e da profissão do profeta. Em geral, propõem-se dois tipos. O
primeiro pode ser designado de relatos da vocação (e.g., Jr 1.4-19; Am 7.14-17).
Falam do chamado e da comissão para o ofício profético. Servem para informar
aos ouvintes e lhes garantir que os profetas têm um papel autêntico de ministros
de Deus. A variação no chamado de cada profeta pode servir de modelo para os
servos de Deus ao longo dos séculos, no que diz respeito às diferentes oportuni­
dades disponíveis aos servos do Senhor. O segundo tipo apresenta informações
biográficas (e.g., Jr 26—29; 34—35) e autobiográficas (cf. Ez 24.15-27) do profeta.
Essas informações dão mais esclarecimentos aos servos de Deus quanto ao que
eles podem enfrentar no ministério.
Apesar de seu livro não ser tradicionalmente contado entre os livros proféticos,
o profeta Daniel obviamente tinha o dom de profecia. Os primeiros seis capítulos
do livro informam sobre o cativeiro de Daniel e sua vida numa corte estrangeira.
As narrativas da corte são de dois tipos: 1) a disputa na corte — em que a sabedoria
de Daniel se mostra superior à dos conselheiros do rei (caps. 2 ,4 —5) e 2) o conflito
da corte — em que os três amigos de Daniel mantêm a pureza espiritual diante da
oposição oficial (caps. 3 e 6).16
Podem-se observar três outros tipos de narrativas proféticas. Em algumas
situações, o profeta recebe a ordem de encenar sua mensagem por meio de atos
simbólicos. Isaías, por exemplo, andou despido e descalço durante três anos para
indicar a derrota do Egito e da Etiópia (Is 20); Jeremias caminhava pelas ruas de
Jerusalém com um jugo ao redor do pescoço para simbolizar a conquista babilônica
das nações, Judá entre elas (Jr 27—28). Ezequiel representou vários atos simbóli­
cos (Ez 3.15; 4.1-17; 12.1-70), e Oseias chegou a ser obrigado a se casar com uma
prostituta como parte de seu chamado profético (Os 1—3).
Uma vez ou outra encontramos as chamadas confissões proféticas, em que um
profeta reconhece seus pecados ou os de seu povo. Assim, Daniel ora:

O S e n h o r , Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os


que te amam e guardam os teus mandamentos; pecamos e praticamos o mal, agindo
com impiedade e rebeldia, apartando-nos dos teus preceitos e das tuas normas. Não
demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que falaram em teu nome aos nossos
reis, nossos príncipes e nossos pais, como também a todo o povo da terra (Dn 9.4-6).

Não podem ser esquecidas as narrativas históricas que relatam acontecimentos


públicos extraordinários durante o período do ministério do profeta (e.g., Is 36—39;
Jr 39—44; 52; Ez 24.1,2). Em certo sentido, todas essas narrativas proféticas podem
ser consideradas subtipos de relatos instrutivos destinados a fornecer instruções
espirituais aos servos de Deus.

Subgêneros variados
R elatos de visõ es / sonhos
Ainda resta examinar alguns outros subgêneros. Os relatos de visões registram
ocasiões em que o profeta recebe a mensagem do Senhor numa visão, a qual ele, a
seu turno, deve proclamar a seu povo. Podem-se reconhecer pelo menos três tipos.

1. Já observamos antes que alguns oráculos do reino contêm elementos


que participam consideravelmente dos apocalipses que vieram a ser tão
proeminentes no período posterior ao Antigo Testamento. Nesse caso,

“ Veja Richard D. Patterson, “Holding on to Daniels Court Tales”, JETS 36 (1993), p. 445-54.
os planos de Deus para seu povo e para a história futura da terra são
transmitidos numa visão cheia de simbolismo e, muitas vezes, imagens
fantásticas (e.g., Dn 7).
2. Alguns relatos narrativos de visões tratam de previsões do futuro menos
distante (e.g., Dn 8) e/ou dão instruções muito necessárias para o povo
de Deus (e.g., Zc 1—6). Com base em duas visões, Amós adverte o povo
de sua época a respeito da inevitabilidade do juízo iminente de Deus (Am
7.1-6; 7.7-9). Por uma visão, Jeremias compreende o tratamento que Deus
dispensa a dois grupos de pessoas. Assim como o bom é diferente do mau,
Deus estará com os que forem para o exílio na Babilônia, mas ficará contra
os que permanecerem na terra (Jr 42.7-12).
3. Tanto Isaías (cap. 6) como Ezequiel (caps. 1—3) recebem o chamado ao
ministério profético por meio de uma visão. Algumas visões relatam a
presença de intermediários angelicais (e.g., Dn 8.13-27; Zc 2—6).

C ânticos / hinos proféticos

Muito se tem discutido se a profecia foi em sua maior parte escrita em prosa.17O
que é inegável é que se encontram composições poéticas inconfundíveis nos livros
proféticos (e.g., Is 5.1,2; 12.4-6; 42.10-12; 52.7-10; Jr. 20.13; 31.7; 33.11; Dn 2.20-23;
Am 4.1 -3; 5.8,9). Os cânticos poéticos às vezes constituem extensas porções, como
um capítulo inteiro (e.g., Is 26; Hc 3). Habacuque até inclui um longo trecho que
parece ter sido extraído da literatura épica sobre o Êxodo do Egito (Hc 3.3-15).

O rações proféticas

O terceiro capítulo de Habacuque é tecnicamente chamado de oração, e a subscri­


ção indica que a oração foi composta como música para fins litúrgicos. Podem-se
identificar algumas outras orações nos livros proféticos (e.g., Is 37.14-20; 38.2;
Jr 32.16-25; Dn 9.4-19; Jn 2.1-9).

C artas proféticas

Em alguns casos, temos registros de cartas no corpus profético (e.g., Jr 29.24-28,


29-32). Esses casos precisam ser interpretados de acordo com os princípios
normais da literatura epistolar, além do olhar atento ao conteúdo e ao contexto.

17Veja Freedman, Pottery, Poetry, and Prophecy, p. 17-8.


P R O F E C IA F O R A D O S LIV R O S P R O F É T IC O S
D O A N T IG O T E S T A M E N T O
No Antigo Testamento
Antes de prosseguir e mencionar alguns princípios específicos de interpretação
de profecia, devemos assinalar que se pode encontrar profecia fora dos livros
dos profetas clássicos. De fato, no cânon hebraico, os livros de Josué a Reis são
designados como Profetas Anteriores. Por conseguinte, o intérprete pode esperar
encontrar mensagens proféticas nas páginas desses livros. Fora dos livros profé­
ticos clássicos, encontramos muitos profetas, como, por exemplo, Natã, Elias e
Eliseu. Natã comunicou a Davi que o Senhor iria estabelecer a linhagem de Davi
como uma dinastia real perpétua (2Sm 7.11-16). Elias e Eliseu proferiram muitas
mensagens do Senhor, além de realizar feitos miraculosos.
A profecia era conhecida mesmo antes dos Profetas Anteriores.18 Entre os
muitos exemplos que se podem citar, mencionamos apenas três. Ao abençoar seus
filhos, Jacó profetizou o futuro deles. Sua previsão particularmente conhecida é a
de que “[o] cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de autoridade, de entre seus
pés, até que venha aquele a quem pertence; e os povos obedecerão a ele” (Gn 49.10).
Ezequiel, por sua vez, adaptou esse oráculo, profetizando a respeito do futuro mi­
nistério do Messias (Ez 21.27).
Entre os oráculos de Balaão, em Números 23—24, está a profecia de que “virá
uma estrela de Jacó, de Israel se levantará um cetro” (Nm 24.17). Estudiosos cris­
tãos e judeus entenderam que essa profecia tem implicações messiânicas (Mt 2.2;
Lc 1.78; Ap 22.16). Em Deuteronômio 18, Moisés transmitiu a promessa de Deus
de levantar um profeta que iria proferir as exatas palavras do Senhor (Dt 18.15-18).
Com essa profecia, Moisés previu a vinda de uma série de profetas que culmina­
ria com o Messias, o maior de todos os profetas. A existência dessas e de outras
passagens fora dos livros proféticos clássicos (os chamados Profetas Posteriores)
demonstra que o intérprete deve não só estar ciente da existência delas, mas tam­
bém estar preparado para interpretá-las de acordo com as normas dos subgêneros
e princípios da profecia.

No Novo Testamento
A literatura do Novo Testamento menciona a existência e o ministério de muitos
profetas ou pessoas comprometidas com o ministério profético, ou que comunicam

18Parece que Paulo considera o conjunto das Escrituras hebraicas como “escritos proféticos”
(Rm 1.1,2; 16.25,26; cf. Dn 9.10).
mensagens proféticas. Entre os exemplos, tem-se Isabel (Lc 1.41-45), Zacarias
(Lc 1.67-69), Simeão (Lc 2.25-35), Ana (Lc 2.36-38), Ágabo (At 11.27,28; 13.1;
21.10), Judas e Silas (At 15.32) e as filhas de Filipe (At 21.9). A profecia era consi­
derada um dom importante na igreja primitiva (cf. IC o 12.28; Ef 2.20; 3.5; 4.11).
João Batista era reconhecido como profeta por seus contemporâneos (Mt 11.9;
14.5). Do mesmo modo que os profetas do Antigo Testamento, ele fazia uso de
profecias instrucionais, exortando seus ouvintes a se arrependerem e advertin­
do-os do juízo iminente, caso não fizessem isso (Mt 3.1-12).
Jesus foi o profeta par excellence (Mt 21.10,11; Jo 6.14; 7.40,52; At 3.19-23),
porém suas falas não foram compiladas num livro de profecias. O principal tema
de seus discursos proféticos era seu ensino a respeito do reino, que, segundo ele,
implicava tanto o aspecto presente quanto o futuro. Com sua presença entre o
povo, o reino já estava aqui na terra, mas sua plena realização ainda havia de vir
(Mc 1.15; 8.38; Jo 4.23; 5.24-29; 16.25,26,32).19 Jesus também dava grande desta­
que à universalidade do reino em contraste com a exclusividade absoluta de Israel
(Mt 21.43,44; Lc 12.8-10; Jo 3.14-21). Nisso observamos o cumprimento da antiga
promessa a Abraão (Gn 12.3).
Outro aspecto importante do ensino de Jesus diz respeito à vida no reino
(Mt 5.43,44; Lc 17.33; 22.26,27; Jo 4.23; 12.24,25). Jesus ensinava a necessidade da
integridade fundamental, por isso a necessidade de arrependimento (Mt 5.20,48;
6.33). Quando não havia o arrependimento, o juízo futuro era iminente (Mt 12.26-37).
Nesses ensinos, Jesus às vezes emprega a conhecida “fórmula dos ais”, quando
anuncia o juízo. Por exemplo, na advertência às cidades de Corazim, Betsaida e
Cafarnaum, ele usou os elementos característicos de acusação, crítica e ameaça
(Mt 11.21-24). Assim como as mensagens dos profetas do Antigo Testamento, as
profecias de Jesus também continham elementos de revelação imediata (anúncios
para o presente) e previsão (anúncios para o futuro).
Também da mesma forma que as mensagens dos profetas do Antigo Testa­
mento, o ensino de Jesus a respeito do reino às vezes se concentra na vinda do reino
futuro. De especial importância nesse aspecto é seu discurso do monte das Oliveiras
(Mt 24.3-44; Mc 13; Lc 21.7-33). Nesse discurso, destaca-se a mistura de juízo com
acontecimentos de tipo apocalíptico, como desastres cataclísmicos, guerra mundial,
tribulação terrível e o glorioso retorno de Cristo. Apesar de não se encontrar ali
nenhuma nítida bênção de salvação ou escatológica, como ocorre nos oráculos do

I9Veja esp. a obra clássica de George Eldon Ladd, Jesus and the Kingdom: The Eschatology of
Biblical Realism (Waco, TX: Word, 1969).
Antigo Testamento, podem-se encontrar essas características em outros lugares no
ensino de Jesus (e.g., Mt 11.25-29; 19.28,29; 22.1-14; 25.21; Lc 22.29,30).
Entre seus anúncios de juízo, Jesus também previu a destruição de Jerusalém
(Mt 23.37-39; Lc 13.34,35). Aqui não se encontram somente os elementos comuns
do juízo — pedido/apelo, acusação e anúncio —, pois além disso a profecia tem
a forma de um lamento. Este, claro, é mais um subgênero conhecido de anúncio
de juízo. Deve se observar que Jesus previu seu próprio sofrimento, sua morte e
ressurreição, bem como sua volta (e.g., Mt 16.21-28; Mc 8.31—9.1; Lc 9.22-27).
Nessas previsões, o intérprete pode reconhecer muitos temas do Antigo Testamento,
como o sofrimento do Messias, o motivo do terceiro dia, o aspecto concreto da
ressurreição e a instauração do reino definitivo.
Apesar de não alegar ser um profeta, o apóstolo Paulo também exercia o dom
profético.20Paulo, sem dúvida, sabia que tinha o dom de profecia (e.g., ICo 14.37,38;
2Co 12.9). Em certo sentido, todo o ministério de Paulo foi muito semelhante ao
dos profetas do Antigo Testamento. Logo, ele também se dedicava a advertir e
prever. No que tange à advertência, os escritos de Paulo têm uma forte relação com
os subgêneros didáticos do Antigo Testamento, que enfatizavam a exortação ou a
provisão de segurança. Desse modo, Paulo instruiu os crentes de Roma acerca da
inclusão dos gentios no plano de salvação de Deus (Rm 11.25,26). Algumas vezes,
Paulo proferiu advertências referentes às conseqüências previsíveis da conduta ímpia
(G15.21; lTs 4.2-8). Isso inclui a associação dos cristãos com aqueles cuja conduta
era indisciplinada (2Ts 3.6). Paulo também foi portador de profecia preditiva, pre­
vendo problemas como sua perseguição e seu sofrimento (lTs 3.4), dados acerca
da ressurreição futura dos cristãos (IC o 15.50-57) e as circunstâncias e condições
dos últimos dias (lTm 4.1-5; cf. 2Tm 3.1-9). Diferentemente dos oráculos do reino
de Israel, a ênfase de Paulo não se concentra na nação de Israel.
O intérprete atento reconhecerá que, tanto na advertência quanto na previ­
são, as palavras proféticas de Paulo contêm muitas informações e instruções, que,
em sua maioria visam a animar seus companheiros cristãos. De fato, há um forte
elemento exortativo nos discursos proféticos de Paulo. Podemos acrescentar que,
de modo bem semelhante aos relatos autobiográficos do Antigo Testamento, Paulo
muitas vezes relata ocasiões em que Deus lhe revelou o que o esperava em seu futuro
ministério (e.g., At 18.9,10; 23.11; 27.23,24).

Mpedro às vezes também exibia o dom profético. Por exemplo, cheio do Espírito Santo no Pen-
tecostes ele citou algumas passagens do Antigo Testamento como aplicáveis aos acontecimentos
do Pentecostes. Em vários pontos do livro de Atos se encontram exemplos de discurso profético.
Restam algumas diferenças entre a profecia do Antigo Testamento e a do Novo.
Em primeiro lugar, há um elemento mais universal na profecia do Novo Testamento
do que na profecia do Antigo Testamento.21Observamos esse fenômeno no ensino de
Jesus a respeito do reino, assim como nos ensinos escatológicos de Paulo. Em segundo
lugar, embora tenhamos observado elementos comuns nos gêneros proféticos do
Antigo Testamento e na profecia do Novo Testamento, esta, em geral, é bem menos
estruturada. Em terceiro lugar, fora do ministério de Jesus, é mais difícil identifi­
car os discursos proféticos do Novo Testamento do que seus correspondentes do
Antigo Testamento. Aune propõe três critérios específicos para identificar os casos
de discurso profético: 1) conteúdo que se atribui claramente a um ser sobrenatural;
2) conteúdo preditivo que Paulo não poderia saber por meios comuns; e 3) a presença
de alguma expressão profética identificadora específica.22Em quarto lugar, é preciso
prestar muita atenção para reconhecer as previsões do Antigo Testamento que têm
cumprimento na profecia e nos acontecimentos do Novo Testamento.

A M O S T R A D E E X E G E S E : O L IV R O D E NAUM
Introdução
A título de ilustração, reflita sobre Naum 3.14-19. Essa seção completa a profecia
de Naum, que fala do juízo contra Nínive. Seu gênero relaciona-se ao tema e à
estrutura do texto. Composta em estrutura bipartida, a primeira seção trata do
anúncio da destruição de Nínive (cap. 1). A segunda seção descreve a destruição
profetizada (2.1—3.19). Depois de afirmar que o Deus da justiça certamente punirá
Nínive (e os assírios; 2.1,2), Naum apresenta uma série de oráculos de juízo que
descrevem o juízo contra Nínive (2.3-10; 3.1-7) e apresentam suas conseqüências
para os ninivitas. A cidade outrora orgulhosa está irremediavelmente desacreditada
(2.12-14) e completamente indefesa (3.8-19).
A passagem em análise mostra a condenação final de Nínive, escrita em tom
de sátira mordaz. Por isso, ao abordar essa seção o intérprete deve se lembrar de que
tem de aplicar as normas da composição satírica. Como se observou, o objeto do
ataque satírico é Nínive. A mensagem profética de Naum critica a cidade recorrendo

21Deve-se observar, entretanto, que a mensagem profética do Antigo Testamento frequentemente


se estende também às nações (e.g., Is 13—23; Jr 46— 51; Ez 25—32; Am 1—2; Obadias; Naum),
e as nações constituem um aspecto predominante na esperança messiânica e escatológica (e.g.,
Dn 7.13,14).
22Aune, Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterranean World, p. 247-8.
a ironia, símiles e metáforas. O tom satírico é inteiramente sarcástico, com ênfase
na punição de Nínive por causa de sua crueldade para com outros.

História
No que concerne à conjuntura histórica, a ênfase no colapso de Tebas no contexto
imediato (3.8-13), que pode ser datado com precisão em 663 a.C., parece indicar um
acontecimento recente. Desse modo, levando em conta que a passagem em análise
data da metade do século 7 a.C, ela é mais significativa para os seus leitores origi­
nais. Visto que a profecia de Naum não menciona a guerra civil assíria (648 a.C.), a
data adequada para ela situa-se entre 655-650 a.C. Era a época em que o rei assírio
Assurbanipal ainda comandava suas campanhas militares, e a nação estava no
auge de sua potência. Enquanto isso, Judá sofria muito, tanto externamente, em
conseqüência da constante pressão estrangeira, quanto internamente, por causa do
remado de seu perverso rei Manassés (698/7-640 a.C.). Para o sitiado Reino do Sul, o
fato de que ia ocorrer o humanamente inconcebível constituía um raio de esperança.
O aparentemente invencível agressor assírio em breve receberia o castigo merecido.

Literatura
Nessa condenação final da Nínive assíria, Naum usa algumas figuras de linguagem
para descrever seu fim inevitável. Com pura ironia e símile expressiva, Naum
diz aos ninivitas que se preparem para o cerco vindouro, contudo nenhuma das
providências deles adiantaria. As espadas e as tochas inflamadas do inimigo con­
sumirão a cidade como um bando de gafanhotos devoradores (3.14a-15). Mais
irônico, recorrendo a símiles e metáforas, Naum joga com a ideia de gafanhotos,
lembrando os ninivitas de que a Assíria havia devorado outros para aumentar
sua própria riqueza. Além disso, seus guardas de confiança viriam a ser como
gafanhotos, pois, diante do invasor, fugiriam como gafanhotos que alçam voo
em disparada quando nasce o sol (3.15b-17). O sarcasmo espirituoso de Naum
culmina nos versículos 18 e 19. A liderança de Nínive será semelhante a pastores
ineptos que dormem enquanto suas ovelhas (os cidadãos) se dispersam. Numa
última figura, Naum compara a desgraçada Nínive a uma pessoa com uma ferida
mortal e prevê que todos que ficarem sabendo da queda da cidade se regozijarão
como os que batem palmas, recebendo com alegria notícias auspiciosas.
O cenário da profecia e os fatos da história se combinam para assegurar ao
leitor que essa profecia incondicional visa ao futuro próximo. Com efeito, a orgu­
lhosa Nínive foi derrotada por invasores neobabilônicos em 612 a.C.
Teologia
No aspecto teológico, essa passagem nos lembra de que Deus é soberano sobre
a história política da terra e tratará com justiça todas as nações. Mesmo que o
povo de Deus necessite de correção, somente Deus é seu defensor e sua esperança.
Como aplicação, essa passagem lembra os cristãos de que, por mais difíceis os
períodos e situações que eles enfrentem, o Senhor não obstante está no controle
e realizará tudo para a sua glória e para o bem da humanidade.

A p re n d e m o s q u e a s E s c r itu r a s a p r e s e n t a m u m a g ra n d e v a rie d a d e d e tip o s d e

p r o fe c ia . V im o s q u e o s p ro fe ta s u tiliz a r a m o s d o is m e io s lite r á r io s , p ro sa e v e rso .

T a m b é m o b s e r v a m o s q u e g ê n e ro s d iv e r s o s m u ita s v e z e s a p a r e c e m e m b u tid o s e m

d e te r m in a d a s p r o fe c ia s , c o m o , p o r e x e m p lo , n a r r a tiv a e lite ra tu r a d e s a b e d o r ia . P o r

c o n s e g u in te , o s p r in c íp io s h e r m e n ê u tic o s q u e a p r e n d e m o s c o m r e fe r ê n c ia a e s s e s

g ê n e ro s d e v e m s e r a p lic a d o s q u a n d o e le s o c o r r e r e m e m p a s s a g e n s p r o fé tic a s .T a m ­

b é m n ã o se d e v e m e s q u e c e r a s im p o s iç õ e s e x e g é tic a s c o m u n s c o m o a g r a m á tic a , o

a m b ie n t e h is tó r ic o e c u ltu r a l, o s r e c u r s o s lite r á r io s e a s v e r d a d e s t e o ló g ic a s . A c im a d e

tu d o , o in té r p re te p r e c is a le m b r a r q u e o p a p e l d o p ro fe ta e ra c o m u n ic a r e p r o c la m a r

a m e n s a g e m d o S e n h o r a u m p o v o e s p e c ífic o n u m p e r ío d o e n u m lu g a r p a r tic u la r e s

n a h is tó r ia .

S e m d ú v id a , o le ito r d e h o je n ã o te m a v a n ta g e m d e p o d e r o u v ir lite r a lm e n te

o s d is c u r s o s d o p ro fe ta . P o rta n to , o in té r p r e te p r e c is a d a r o m e lh o r d e si p a r a c o m ­

p r e e n d e r a in te n ç ã o d o p ro fe ta n a e n tre g a d a m e n s a g e m e o e fe ito q u e e la te v e n o s

o u v in te s o r ig in a is :

L e r p r o fe c ia , p o r ta n to , é e n tr a r n o m u n d o d a p a la v r a fa la d a , u m a m e n s a g e m

q u e só s e p o d e c o m p r e e n d e r p le n a m e n te p e lo e n v o lv im e n to in te g r a l d a

p e s s o a . O le ito r p r e c is a e s ta r a te n to a o e fe ito d a m e n s a g e m n ã o a p e n a s n a

m e n te e n o s o lh o s , m a s ta m b é m n o s o u v id o s e n o c o r a ç ã o . 23

23Richard D. Patterson, “Old Testament Prophecy”, in: Leland Ryken e Tremper Longman
III, orgs., A Complete Literary Guide to the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1993), p. 298.
P e lo a s p e c to p o s itiv o , t e m o s a v a n t a g e m d e u m te x to c a n ô n ic o c o m p le to c u jo

o b je t i v o e ra s e r c o m p r e e n d id o e p o s to e m p r á tic a p e la s g e r a ç õ e s s u b s e q u e n te s à s

q u e p r im e ir o o u v ir a m a m e n s a g e m p r o f é tic a . A lé m d is s o , e m a lg u n s c a s o s te m o s

d ia n te d e n ó s a a p lic a ç ã o d e d e te r m in a d o d is c u r s o p r o fé tic o fe ita p o r u m a u to r

p o s te rio r d a s E s c r itu r a s .

A d o ta n d o e s s a s d ir e tr iz e s g e r a is , q u a is s ã o o s p r in c íp io s e s p e c ífic o s q u e d e v e m o s

a p lic a r a d e te r m in a d a p a s s a g e m d e p r o fe c ia ? Q u e p r o c e d im e n to s e m e d id a s e s p e ­

c ífic o s te m o s d e s e g u ir p a ra c o m p re e n d e r e d e p o is e n s in a r o u p r e g a r d e te r m in a d a

p a s s a g e m p r o fé tic a ? S u g e r im o s o s s e g u in t e s p r in c íp io s :

1. 0 e s t u d a n t e d a P a la v r a d e D e u s d e v e e m p e n h a r - s e a o m á x im o p a ra c o m p r e e n d e r a

n a tu re z a e o a lc a n c e d o contexto e m q u e a p a s s a g e m p r o fé tic a d ia n te d e le e s tá s itu a ­

d a . Is s o im p lic a id e n tific a r o s dem arcadores dos limites d o t e x t o . 24 Q u a n t o a l i v r o s m a i s

c u r to s , c o m o a lg u n s d o s P r o fe ta s M e n o r e s , o in té r p r e t e p o d e r e fle tir e tr a ta r a r e la ç ã o

d o te x to e m p a u ta c o m o liv r o p r o f é t ic o in te ir o . C o m r e l a ç ã o a liv r o s p r o f é t ic o s m a io r e s ,

e n t r e ta n t o , is s o é im p r a tic á v e l, n a m e lh o r d a s h ip ó te s e s , e m b o r a o e s t u d a n t e d e v a te r

n o m ín im o u m c o n h e c im e n to e le m e n ta r d o c o n te ú d o d o liv r o in te ir o . O p r o b le m a d e

t r a t a r d e liv r o s m a is lo n g o s é q u e e s t e s c o s t u m a m s e r c o m p ila ç õ e s d e d is c u r s o s c u jo s

lim ite s à s v e z e s s ã o d ifíc e is d e d e te r m in a r . N e s s e c a s o , s e m d ú v id a , s e r á ú til c o n s u l t a r

c o m e n tá r io s e liv r o s d e in tro d u ç ã o b ib lic a c o n fiá v e is .

A lg u m a s o r ie n ta ç õ e s e s tr u tu r a is ta m b é m p o d e m s e r ú te is . P o r e x e m p lo , a s

m e n s a g e n s in d iv id u a is d o s p r o f e ta s m u ita s v e z e s p o d e m s e r id e n tific a d a s p o r títu lo s

e s p e c ífic o s o u p a la v r a s e fr a s e s d e e f e it o q u e in d ic a m o in íc io d e u m a p r o fe c ia . Is s o é

p a r t i c u l a r m e n t e ú til p a r a d e t e r m i n a r o s lim it e s d e o r á c u l o s n a s c o m p i l a ç õ e s p r o f é t ic a s

m a i o r e s ( e . g . , J e r e m i a s ) . 25

A lg u m c o n h e c im e n to d e té c n ic a s d e c o m p o s iç ã o s e m ític a ta m b é m é d e s e ­

já v e l. P o r e x e m p lo , m u ita s v e z e s é p o s s ív e l r e c o n h e c e r o s lim ite s d e d e te r m in a d a

s e ç ã o o b s e r v a n d o o u so q u e o a u to r fa z d e r e c u r s o s d e " e m o ld u r a m e n to ", e m g e ra l

c h a m a d o s d e inclusio o u d e e s tru tu r a d e e n v e lo p a m e n to . N e s s e s c a s o s , n o fim d e

u m a u n id a d e o a u to r r e to r n a a u m te m a , a s s u n to o u a p a la v r a s m e n c io n a d o s n o

in íc io d e u m a s e ç ã o p a ra fo r m a r u m a inclusio. D e s s e m o d o , a m u d e z d e E z e q u ie l

d e lim ita a s p r o fe c ia s d o s c a p ítu lo s 3 a 24. D a m e s m a m a n e ir a , o m in is té r io d e

B a r u q u e , e s c r ib a d e J e r e m i a s , a ju d a a d e te r m in a r o s lim ite s d a s e ç ã o d o s c a p ítu lo s

3 6 a 4 5 , n o liv r o d e Je r e m ia s .

24Veja a discussão pertinente na seção sobre análise do discurso no cap. 12 deste volume.
25Veja, e.g., Richard D . Patterson, “ O f Bookends, Hinges, and Hooks: Literary Clues to the
.Araangement af Jeremiahs Prophecies” WTJ 51 (1989): p. 109-31. ......... ....
U m s e g u n d o re c u rs o d e c o m p o s iç ã o é o a r r a n jo d a s s e ç õ e s d e c o n te ú d o "c o m

b a s e n a a s s o c ia ç ã o d e id e ia s o u p a l a v r a s " . 26 E s s e c o n t e ú d o te m s id o c h a m a d o d iv e r ­

s a m e n te d e e lo , c o n e x ã o , c h a m a d a , c o s tu r a o u g a n c h o . 27 P o r e x e m p l o , o c o n te ú d o

r e la tiv o a o c o n flito d e Je r e m ia s c o m P a su r, o p r in c ip a l s a c e r d o t e d o T e m p lo , s it u a -s e

c o n tig u a m e n te n o s c a p ítu lo s 2 0 e 21 d e Je r e m ia s .

U m a te r c e ir a té c n ic a d e c o m p o s iç ã o é a c o lo c a ç ã o d e c o n te ú d o in d e p e n d e n te

n u m a p o s iç ã o c e n tra l c o m a fin a lid a d e d e q u e e la lig u e d u a s u n id a d e s lite r á r ia s

a d ja c e n t e s e , a s s im , fa ç a p a r te d a s d u a s. P a ru n a k s e r e fe re a e s s a té c n ic a c o m o

"a r tic u la ç ã o ". N e s s e s c a s o s , "a s d u a s u n id a d e s m a io r e s s ã o lig a d a s , n ã o d ir e ta m e n te ,

m a s p o r q u e c a d a u m a s e u n e à a r tic u la ç ã o ". U m a a r tic u la ç ã o p o d e s e r p e q u e n a ,

c o m o u m ú n i c o v e r s íc u l o ( e .g ., S f 3 .8 ) , o u g r a n d e , c o m o u m c a p í t u l o i n t e ir o ( e .g ., J r 2 5 ;

D n 7 ) o u s e q ü ê n c i a s d e c a p ítu lo s (E z 2 5 — 3 2 ).

A d e te r m in a ç ã o d o s lim ite s lite r á r io s d o c o n te x to p e r m itir á q u e o e s t u d a n t e d e

p r o fe c ia is o le o s lim ite s to t a is d e u m a p a s s a g e m e a e n te n d a e m r e la ç ã o a o c o n te x to

c ir c u n d a n te , b e m c o m o , q u e m s a b e , a o liv r o t o d o . F a z e n d o is s o , o in té r p re te p o d e rá

c o m p r e e n d e r m a is p r e c is a m e n te o p r o p ó s ito e a p e r s p e c tiv a b á s ic a d o a u to r n a

p a s s a g e m e m e s t u d o . D e p o is d is s o , p o d e r á p a s s a r p a r a a p r ó x im a e ta p a p re p a ra tó ria .

2. É in d is p e n s á v e l s a b e r a q u e subgênero de profecia p e r te n c e a p a s s a g e m e m q u e s tã o .

C o m o v im o s , c a d a s u b g ê n e r o t e m s e u s p ró p rio s e le m e n to s e c a ra c te r ís tic a s . P o r e s s a

ra z ã o , é fu n d a m e n ta l q u e o in té r p re te a b o rd e u m a d a d a p a s s a g e m d e a c o r d o c o m

o s u b g ê n e ro o u tip o q u e e la a p r e s e n ta . C o m is s o , e le c o n s e g u e tra ta r d a n a tu re z a

d o te x to e s e a p r o fu n d a r m a is n a in te n ç ã o d o a u to r , p o is e s t e c e r ta m e n te tin h a u m a

fin a lid a d e a o u sa r e s s e re c u rs o lite r á r io e s p e c ífic o .

3 . O te r c e ir o p a s s o p a ra a in te r p r e ta ç ã o c o rre ta d iz r e s p e ito a o contexto histórico e


cultural e m q u e a m e n s a g e m fo i e n tr e g u e . É e s s e n c ia l s a b e r p e lo m e n o s a é p o c a d e

q u e s e tr a ta e , s e p o s s ív e l, o a m b ie n te h is tó r ic o . T a m b é m é d e s e já v e l s a b e r q u a n d o

e p o r q u e a m e n s a g e m fo i c o m u n ic a d a , o q u e e sta v a a c o n te c e n d o e m Is ra e l o u e m

Ju d á , o u e m a m b o s e , q u a n d o p e r tin e n t e , o q u e e s t a v a o c o r r e n d o n a s n a ç õ e s v iz in h a s .

P o r e x e m p lo , d e v e -s e in v e s tig a r e x a ta m e n te p o r q u e Jo n a s fo i e n v ia d o a N ín iv e o u

p o r q u e J e r e m ia s fo i c h a m a d o a p r o c la m a r s u a m e n s a g e m a o p o v o d e Ju d á c o m u m a

lin g u a g e m tã o f o r te . A s ó lid a c o m p r e e n s ã o d a s c ir c u n s t â n c ia s h is t ó r ic a s n a A s s ír ia e

n a B a b ilô n ia p e r m itir á q u e o in té r p r e t e e n t e n d a m e lh o r a e s s ê n c ia d e p r o fe c ia s c o m o

a d e N a u m , H a b a c u q u e e S o fo n ia s .

26U. Cassuto, Biblical and Oriental Sttidies, vol. 1 (Jerusalem: Magnes, 1973), p. 228.
27H. Van Dyke Parunak, “Transitional Techniques in the Bible”, JBL 102 (1983), p. 541.
A s q u e s tõ e s c u ltu r a is ta m b é m tê m im p o r tâ n c ia . O e s tu d a n te d e p r o fe c ia q u a s e

s e m p r e p r e c is a a p r e n d e r u m p o u c o a r e s p e ito d a c u ltu r a d o a n tig o O r ie n te P r ó x im o a

fim d e c o m p r e e n d e r c e r to s a c o n t e c im e n to s e o b s e r v a ç õ e s d o s p r o fe ta s . P o r e x e m p lo ,

p o r q u e A m ó s c h a m o u a s m u lh e r e s d e Isra e f d e " v a c a s d e B a s ã " (A m 4 .1 }? Q u a l e ra

a n a tu re z a d a s p r á tic a s p e c a m in o s a s e m B e te i e G ilg a l (A m 4 .4 )? O q u e A m ó s q u e r

d iz e r q u a n d o c h a m a o R e in o d o N o r te d e "v ir g e m d e Is r a e l" (A m 5 .2 )? Q u e c o s t u m e s

e p r á tic a s s o c ia is se d e p r e e n d e m d a s fig u r a s d o fo r n o d o p a d e ir o e d o "b o lo q u e

n ã o fo i v ir a d o ", e m p re g a d a s p o r O s e ia s (O s 7 .6 -8 )? Q u a l e ra a n a tu re z a d o c u lto a

M o lo q u e q u e Je r e m ia s d e n u n c io u (J r 3 2 .3 5 )? M u ita s v e z e s, a c o m p re e n s ã o c o rre ta

d e u m a c u ltu r a a n tig a é u m p a s s o n e c e s s á rio p a ra q u e o in té r p re te fa ç a a a p lic a ç ã o

a d e q u a d a à s o c ie d a d e d e s e u p r ó p rio te m p o . P a ra a p lic a r a d e q u a d a m e n te u m te x to

b íb lic o à s c ir c u n s tâ n c ia s a tu a is , o in té r p r e te n e c e s s ita d e a lg u m c o n h e c im e n to d a

c u ltu r a a n tig a . S u a a p lic a ç ã o s e r á t ã o p r e c is a q u a n to s u a c o m p r e e n s ã o d a c u ltu r a d o

te x to b íb lic o d e q u e e s tá tra ta n d o .

4 . C h e g o u o m o m e n to d e d a r o q u a rto p a sso , q u e é a exegese criteriosa d a p a s s a g e m

e m q u e s t ã o . Is s o s ig n ific a p r e c is ã o n o m a n e jo le x ic a l e s in tá tic o . C a s o o in t é r p r e t e n ã o

le ia o h e b r a ic o , o a r a m a íc o e o g r e g o d o t e x to o r ig in a l q u e e s t á te n ta n d o in te r p re ta r, é

e s s e n c ia l q u e c o n s u lte g r a m á tic a s , lé x ic o s , e s t u d o s d e p a la v r a s e c o m e n tá r io s c o n f iá ­

v e is q u e lh e p e r m ita m t o m a r d e c i s õ e s c o r r e t a s q u a n t o a o s i g n i f i c a d o d a p a s s a g e m . 28

5 . O q u in to p a s s o c o n s is te e m m a is u m a a p r e c ia ç ã o d o s aspectos literários d e u m a

p a s s a g e m . J á m e n c io n a m o s a n e c e s s id a d e d e r e c o n h e c e r o s u b g ê n e r o d e d e te r m in a d a

p a s s a g e m e a p lic a r s e u s p r in c íp io s e a n e c e s s id a d e d e d e te r m in a r o s lim ite s d a se ç ã o .

A q u i n o s r e fe r im o s à n e c e s s id a d e d e c o m p r e e n d e r o u so fr e q ü e n te q u e o p ro fe ta fa z d e

fig u r a s lite r á r ia s , m o tiv o s , s ím b o lo s e t e m a s b íb lic o s a n t e r io r e s . O s e ia s , p o r e x e m p lo , é

u m a r ic a f o n t e d e lin g u a g e m fig u r a d a . E n tre a s m u ita s m e tá fo r a s q u e o c o r r e m e m su a

p r o fe c ia e n c o n tr a m -s e a s d a e s p o s a in fie l, r e la tiv a s a Is r a e l (c a p s . 1 — 3 ), D e u s c o m o o

m a r id o c iu m e n t o ( 2 .2 - 1 3 ) o u p e r d o a d o r ( 3 .1 - 5 ) , o u D e u s c o m o o p a i a te n c io s o e p r e o ­

c u p a d o c o m Is r a e l, s e u filh o ( 1 1 .1 - 3 ) . O Is ra e l e s p ir it u a lm e n te in s e n s ív e l é e q u ip a r a d o

a u m a p a n q u e c a q u e n ã o fo i v ir a d a e n ã o p e r c e b e o fo g o q u e a m e a ç a q u e im á -la ( 7 .8 )

o u é c o m p a ra d o a u m a p o m b a to la q u e v o a d e u m a p o tê n c ia e s tr a n g e ir a a o u tra p a ra

e n c o n tr a r s e g u ra n ç a , e m v e z d e c o n fia r e m D e u s ( 7 .1 1 ) . E s s e t i p o d e lin g u a g e m é m u i­

to c o m u m n o s d is c u r s o s p r o fé tic o s , p o is p e r m itia q u e o s o u v in te s c o m p r e e n d e s s e m

m e lh o r o s p r in c íp io s e s p ir itu a is e a s liç õ e s q u e o p ro fe ta b u sc a v a c o m u n ic a r .

2SUm recurso útil para conhecer erros interpretativos comuns é D. A. Carson, Exegetical Falla­
cies, 2. ed (Grand Rapids: Baker, 1996) [edição em português: Os Perigos da Interpretação Bíblica
(São Paulo: Vida Nova, 2001).]; veja também Robert B. Chisholm Jr., From Exegesis to Exposition,
(Grand Rapids: Baker, 1998) e a discussão sobre falácias exegéticas no cap. 13 deste volume.
■ T am b é m n ã o se d eve deixar passar d e sp e rce b id a a n e ce ssid ad e d e reconhecer
os ca sos e m q u e o profeta aplica u m texto anterior (e.g., a aplicação da Lei m osaica,
4.2,3, p o r Oseias) o u adap ta um texto anterior a u m a nova situação e destaca n o v o s
aspectos. Por exem plo, o b se rve -se o u so qu e S o fo n ia s fa z de Joel 2.1-11, em So fo -
nias 1.14-18, e a adaptação q u e Ezequiel faz d e So fo n ia s 3.3,4, em Ezequiel 22.25-28.:’9

6. C o m o sexto passo, o e stu d an te d eve ficar atento a o contexto teológico. Aqui, é


preciso prestar a tenção especial à perspectiva te o ló gica d o profeta, inclusive e n sin o s
te o ló gico s in stituídos antes da é poca d o profeta. Q u e o s profetas co n h e c iam b em
textos repletos d e ve rdad e te o ló gica fica evidente no fa to d e que; a) ca d a u m d o s D ez
M a n d a m e n to s está p resente n o s escritos proféticos; e b) cada u m a d a s três principais
alianças firm adas a n teriorm ente — abraâm ica, m osaica e d avídica — é m e n c io n a d a
co m certa frequência. D e fato, n u m ca so as três aparecem juntas, e o profeta prevê
a cu lm in a çã o d e las na m agnífica nova aliança (Ez 37.24-28)/° O intérprete precisa
-saber q u a is ve rd a d e s te o ló gica s o profeta defendia e q u e perspectiva ele desejava
com unicar. A c im a d e tudo, o intérprete precisa to m a r c u id a d o para n ã o tra n sp o r sua
própria te o lo gia preconcebida para d entro d o texto. C o m o G rant O sb o rn e sabiam ente
a d ve rte :"M ã o iim ponha seu sistem a te o ló g ic o ao texto [...] u m sistem a q u e se to rn o u
rígid o p o d e levar o intérprete a forçar o texto n u m a direção q u e este n ã o deseja to m a r
e, d e sse m od o, ob struir g ra v e m e n te a b u sca d a v e rd a d e "31

7. O u tro p a sso necessário é d eterm inar se o profeta está vatlcincmdo o u não. C a so


efe esteja, o Intérprete d eve e m p e nh ar-se para co m p re e n d e r a q u e é p o ca o profeta se
refere: ao futuro distante o u próxim o. A lé m disso, precisa investigar se a profecia já se
cu m p riu o u não. A m aioria d as profecias preditivas na ve rda d e trata d o futuro im ediato
ou n ã o m uito distante. Já to m a m o s co n h e c im e n to d e profecias relacionadas a nações
estrangeiras q u a n d o anaíisam os os a n ú n cio s d e juízo. N orm alm ente, ente n d e-se que
essas se referem ao q u e ocorrerá dentro em breve (e.g., a profecia d e O b ad ia s a respeito
de Edom ), O bservem -se, p or exemplo, as profecias a se gu ir referentes à Assíria:

Ó rei da Assíria, teus pastores dorm em;


teus nobres descansam,

2,Para uma boa discussão sobre o tema da exegese bíblica interna, veja Michael Físhbane,
Biblical Interpretation in Ancient Israel (Oxford: Clarendon, 1988); Textand Texture (New York:
Schocken Books, 1979); Walter C. Kaiser Jr., Toward an Exegetical Theology (Grand Rapids:
Baker, 1981), p. 151-2.
MC£ Jeremias 3 1 3 1 -3 4 . Pode-se encontrar uma boa discussão sobre o papel da Lei mosaica
e da aliança nos livros proféticos em Robertson, Christ o f the Prophets.
3IGrant R. O sborne, The Hermeneutical Spiral, 2. ed. (Downers Grove: InterVarsity, 2006),
p. 274. [Edição em português: A Espiral Hermenêutica: uma Nova Abordagem à Interpretação
Bíblica (São Paulo, Vida Nova: 2009)].
teu p o v o está espalhado pelos montes,
se m que n in gu é m os ajunte.
Mão há cura para tua ferida;
tua chaga é grave (Na 3.18,19).

Esta é a cidade alegre,


q u e vivia em segurança,
q ue dizia n o coração:
Eu sou, e fora d e m im não há outra.
C o m o ela se transform ou em ruína,
em toca de anim ais selvagens!
Todo aquele qu e passar por ela zom bará
e sacudirá a m ão (Sf 2.15).

O ca so d e Israel e Jud á é b e m sem elhante, se n ã o h o u v e r a rrep endim ento:

Samaria levará sua culpa sobre sí,


p orq ue se rebelou contra o seu Deus;
cairá pela espada;
seus filhirthos serão despedaçados
e suas mulheres grávidas serão abertas ao m eio (Os 13.16),

A ssim d iz o S en h o r:
Ide às ruas, olhai e
perguntai pelos cam inhos antigos,
qual é o b om caminho, e andai por ele; '
e achareis descanso para vós.
M a s eles disseram: N ão andarem os nele. [...]
Ouve, ó terra!
Trarei castigo sobre este povo,
o próprio fruto dos seus projetos;
porque não estão atentos às m inhas palavras
e rejeitaram a m inha lei (Jr 6.16,19).

Até reis eram advertidos acerca d e seu futuro juízo (Jr 22.1-30). Sa b e m o s q u e todas
essas profecias preditivas ocorreram e assim se cum priram , pois tem os os fatos apurados
d o relato bíblico e da história secular para confirmar. Sa b e m o s q ue a profecia de O seias
se cum priu p orq ue Sam aria ruiu e m 7 2 2 a.C. A profecia de Jerem ias se cum priu co m
a q u e d a de Jerusalém e m 5 8 6 a .C O últim o rei d e Israel foi levado para o cativeiro na
Assíria (cf. A m 7.9 com 2Rs 173,4), e to d a s as profecias a respeito d o s reis de Judá se
cum priram rigorosam ente (cf. Jr 22 com 2Rs 24.1— 25.7). D e p osse dessas informações, é
fácil afirmar qu e um a profecia se cum priu. É preciso cuidado, porém, para não encontrar
su p o sto s cum prim e n to s em circunstâncias históricasq ue ultrapassam os limites da boa
exegese. É m uito fácil e m uito c o m u m interpretar acontecim entos atuais, c o m o fazem
alguns, d e m o d o sensacionalista, q u e excede o contexto bíblico.

O intérprete precisa ter co n hecim e n to d e m ais u m problem a q u e às vezes dificulta


definir se u m a profecia foi cum prida. U m a profecia p o d e ser m eram e nte condicional,
m e sm o se n ã o h o u v e r n e n h u m a oração co ndicio n al n o contexto. Por exem plo, Jo nas
profetizou a "su b v e rsã o "d e N ín iv e d e n tro d e q uaren ta dias (Jn 3.4, ARA). S e g u n d o sua
proclam ação, não havia m eio a lgu m de escapar d o juízo am eaçado. N o entanto, Nínive
foi p o u p a d a p o rq u e se arre p e n de u (Jn 3.5-12). Por certo, se o p o v o não se h o u v e sse
arrependido, N ínive teria sid o destruída, e Jo n as teria ficad o co nte nte (Jn 4.1-3). Po­
rém, a o q u e tu d o indica, J o n a s n ã o e n te n d e u o principal. N ínive fo/"subvertida", m as
n ã o c o m o S o d o m a e G o m o rra (Gn 19.25-28; D t 29.23[22]); sua "su b v e rsã o " consistiu
na tran sform ação de seu p o v o e sua sociedade. N este caso, reconhecer a g a m a de
se n tid o s da palavra hebraica perm ite consid e rar a profecia c u m p rid a d e um m o d o
"condicional — a destruição da cidade ou a com p le ta tran sform ação da sociedade.

O utras profecias condicionais, porém , não são tão facilm ente reconhecíveis. Por
exem plo, Ezequiel profetizou a d estru ição d e Tiro p or N a b u c o d o n o s o r (Ez 26.7-21).
C ontudo, não foi N a b u c o d o n o s o r q u e destruiu Tiro, nem a parte insular nem a região
co ntinental (332 a.C.). M e s m o assim , é ve rd a d e q u e N a b u c o d o n o s o r d e fato sitiou
Tiro p o r m a is o u m e n o s 13 a n o s (586-573 a.C.) se m n a ve rd a d e to m a r a cid ad e p o r
com pleto. A q u e stã o central é q u e h o u v e um a o p o rtu n id a d e d ada p or D e u s para q u e
N a b u c o d o n o s o r cu m p risse a profecia. Se não cum prisse, a tarefa seria d eixada para
outros. N a b u c o d o n o s o r foi, p or assim dizer, o iniciador de u m a lo n ga série d e juízos
contra Tiro (Ez 26.3). P o d e m o s acrescentar que, n o s ca sos d e profecias q u e parecem
n ão ter tid o c u m p rim e n to preciso, d e ve m -se levar em co n sid e ra çã o a sob e ran ia e a
c o m p a ix ã o d e D e u s (Jn 4.2). D e sse m odo, o cu m p rim e n to de u m a profecia às vezes
inclui a lg u m e le m e n to d e re sp o n sa b ilid a d e hum ana, a lg o q u e em ite u m a p e lo aos
q u e precisam prestar con tas d e su a s a çõ e s para q u e se su b m e ta m à Palavra de Deus.

A aparente dem ora n o cum prim e n to d a profecia d e Ezequiel a respeito de Tiro indi­
ca q ue as profecias q u e parecem im inentes podem , na verdade, concretizar-se centenas
d e a n o s d e p o is (cf. 1 Rs 13.1-3 co m 2 R s 23.15,16). Em outros c a so s,o aparente atraso na
realidade se deve a u m a série de eventos q u e acabarão p o r cum prir-se no todo. A s p ro­
fecias a respeito d o dia d o S e n h o r sã o u m exe m p lo característico. D e sse m odo, Sofonias
(T .14-18) previu q u e o "dia d o S e n h o r está p róxim o" (v. 14). O juízo estava próxim o. N o
entanto, na e xp osição d e fatos q u e v e m d e p o is da declaração de Sofonias, o profeta
retrata condições q u e se aplicam a u m juízo universal. Parte da profecia se cum priu na
q u e d a de Jerusalém e m 5 8 6 a.C.; outra parte se cu m p riu na destruição de Jerusalém em
70 d.C.; o restante d o cu m p rim e n to a gu a rd a o fim d o s te m p o s (cf. Z c 14.1,2).

Sem elhantem ente, Joel se refere a o dia d o S e n h o r na praga de ga fan h o to s (Jl 1.15),
na in v a sã o assíria (Jl 2.1-11) e n o fu tu ro e s c a to ló g ic o — t o d o s d e fin id o s c o m o
"p ró x im o s" o u "p e rto d e acontecer". C a d a c u m p rim e n to h istórico d o d ia d o S e n h o r
serve, portanto, d e lem brete e arauto de q u e está v in d o u m tre m e n d o dia d o S e n h o r
co m os eventos qu e ocorrerão na se g u n d a vinda de Cristo (M t 24.15-31; A p 6.17; 16.14).

O s profetas, portanto, tin h a m u m a visã o "te le sco p a d a " e n x e rg a n d o seu te m p o


p resente e o fu tu ro próxim o, a o m e s m o te m p o q u e previam e ve n to s q u e ocorreriam
so m e n te n u m a era vindoura. A lg u m a s expressões, c o m o "n aq ue le d ia" ou "n aq ue le s
d ia s" o u "n o s ú ltim os d ia s" m uitas vezes a ju dam o intérprete a identificar essa era
futura (cf. Is 2.2; 11.10,11; 24.21; Jr 23.5; 31.31; J12.28; 3.1). M e s m o n e sse caso, d eve -se
co n te m p la ra p ossib ilida d e d e q u e o evento profetizado se cu m p ra parcialm ente sem
q u e sua realização se e sgo te p o r com pleto. P or exem plo, Joel profetizou acerca de
e ve n to s re lacion ad os à e spe ra d a era futura (Jl 2.28-32 [3.1-5]} q u e Pedro a ssin a lo u
terem se c u m p rid o n o d ia d e P entecostes (At 2.1 4-21). Todavia, ta m b é m é igu a lm en te
visível q u e o s aco n te cim e n tos m e n c io n a d o s e m A to s 2.14-21 n ã o e sg o ta m to d o s os
detalhes e specificados na profecia d e Joel;

Manifestarei m aravilhas no céu e na terra,


sa ngue e fo g o e colunas de fumaça.
O s o l s e c o n v e rt e rá e m tre vas,
e a lua, e m s a n g u e ,
ante s q u e v e n h a o g ra n d e e
te rrív e l d ia d o S e n h o r.
E to d o aquele q u e invocar o nom e d o S e n h o r será salvo;
p ois o s qu e escaparem
estarão no m onte Sião e em Jerusalém, .
com o o S e n h o r prometeu,
e aqueles que o S e n h o r cham ar
estarão entre os sobreviventes (Jl 2.30,31 [3.3,4J).3:!

Em bo ra seja ve rda d e q u e Joel está u sa n d o m etáforas tradicionais aqui, a per­


sistência dessa im a ge m em c o n te xto s e sca to ló g ic o s revela q u e a lg o extraordinário
re lacio nad o a fe n ô m e n o s naturais vai ocorrer n e sse te m p o futuro. Portanto, o u s o
q u e P ed ra faz da profecia d e Joel indica q u e essa profecia e n co ntro u c u m p rim e n ­
to n o P en te costes, m a s q u e o c u m p r im e n to n ã o s e e s g o t o u c o m e sse fato. A s
profecias d e sse tipo, portanto, sã o co n sid e ra d a s p rofecias de "c u m p rim e n to sem
c o n su m a ç ã o [final]".33 -

31Para um estudo das figuras de linguagem dessa passagem, veja Richard D. Patterson,
“Wonders in the Heavens and on Earth: Apocalyptic Imagery in the Old Testament” JETS
43 (2000): p. 385-403.
33Para uma explicação dessa terminologia, veja R. T. Brance, Jesus and the Old Testament
(London: Tyndale, 1971), p. 160-2.
O u so q u e P ed ro faz da profecia d e Joel indica m ais u m a área co m q u e se
preocupar: a relação da profecia d o A n tig o T estam ento co m o c u m p rim e n to neotes-
tam entário. T o d a s essas profecias d o A n t ig o Testam ento se cu m p riram palavra p or
palavra o u a p e n a s e m parte d o p roce sso d e c u m p rim e n to final? O b se rv a m o s q u e a
citação de Pedro da profecia d e Joel é u m e xe m p lo d o últim o caso. Por o u tro lado,
p o d e -se o b se rva r um p o u c o d o prim eiro ca so e m relação ao m inistério d e Jesus (e.g.,
cf. Is 42.1-4 co m M t 12.17-21; Is 61.1,2 co m Lc 4.18,19). Em m uito s casos, porém , as
citações d o N o v o Testam ento v ã o além d o texto d o A n t ig o Testam ento e enco ntra m
u m cenário n o v o e m ais am plo.

A e xe ge se q u e M a te u s faz d e várias p a ssa g e n s d o A n t ig o T estam ento em su as


"citações de cum prim e n to"(e sp . em M t 1— 4) ilustra u m m é to d o d e e xegese q ue p o d e
ser d o c u m e n ta d o fartam ente n o N o v o Te stam e n to (e.g., cf. M t 26.31 co m Z c 13.7;
A t 15.16,17 co m A m 9.11,12; e H b 8.8-12 c o m Jr 31.31-34). Todavia, o fato d e qu e
o "c u m p rim e n to " d e ssa s p a s s a g e n s ve te rote sta m e ntá ria s relativas a o s p ro p ó sito s
te leo ló gicos de D e u s foi p erce b id o p e lo s a uto re s d o N o v o Testam ento d ivinam e nte
in sp ira d o s não n o s perm ite — a nós, q u e n ã o fo m o s c h a m a d o s para ser in strum e ntos
in sp ira d o s da revelação divina — ler n o s a co n te cim e ntos d e n o s s o te m p o associações
in d e v id a s d e profecias com se u s s u p o st o s cu m p rim e n to s. Q u a lq u e r d e sse s su p o sto s
cu m p rim e n to s d eve ser c o n sid e ra d o conjetural, na m elh or d as hipóteses.

8. T u d o isso n o s tra z a o ú ltim o p asso: p ro c u ra r aplicações pertine n te s d o texto


profético à igreja m od ern a, h Identificação correta d e te m as d e aplicaçã o para a
atualidade d e p e n d e rá d a o b se rva ç ã o atenta d o s p a sso s anteriores. Em to d o caso, o
intérprete d eve le m brarqu e , a pe sa r d e terem s id o escritas há m u ito te m p o e para um
d e te rm in a d o p o v o d e u m a cultura específica, a s profecias bíblicas ainda assim têm
valor para as ge ra çõ e s posteriores. A ssim c o m o to d o s o s ou tro s g ê n e ro s das Escrituras,
a profecia apresenta te m as e p rin cíp io s b íb lico s q u e sã o in fo rm a tivos e im p ortan te s
para a c o m p re e n sã o cristã d e D e u s e, portanto, para o caráter e a co n d u ta pied osos:
"Toda a Escritura é d iv in am e n te in sp ira da e p rove itosa para ensinar, para repreender,
para corrigir, para instruir em justiça; a fim d e q u e o h o m e m de D e u s tenha capacidade
e p le n o prepa ro para realizar to d a b o a o b ra " (2Tm 3.16,17).

Em resum o, o e stu d an te d e v e ficar atento a o s se gu in te s p rin cíp io s o rien ta d o re s


para interpretar a profecia d o A n t ig o Testam ento:

1. Se le cio nar a profecia e d eterm inar o s se u s limites.

2. D e sco b rir o tip o específico d e su b g ê n e ro a q u e a p a ssa g e m p erte n ce e aplicar


as respectivas regras co m atenção. N o c a so d o N o v o Testam ento, é necessário
to m a r cu id ad o para n ã o im p o r o s s u b g ê n e ro s d o A n tigo T e sta m e n to a o contexto
d o N ovoT e stam ento. C o m o vim os, a profecia d o N o v o Testam ento é b em m e n o s
estruturada d o q u e sua correlata d o A n t ig o Testam ento.

3. Investigar o a m b ie n te h istórico e cultural da p assa ge m . Para o N ovoTestam ento,


isso im plica avaliar corretam ente o s d a d o s p ertinentes d o A n t ig o Testamento,
assim c o m o as in fo rm a çõe s extrabíblicas.

4. Interpretar a p a ssa g e m ate n tam e nte co m b ase e m sólid a e x e g e se gram atical.

5. O b se rva r as características literárias d a p a ssa g e m ,a n a lisa n d o o u so q u e o profeta


faz de lin g u a g e m figurada, im agens, m otivos, tem as e sím b olos. Procure verificar
o sig n ifica d o q u e a figura está c o m u n ic a n d o o u o a sp e c to q u e ela q u e r ressaltar.

6. Entender as verdades teológicas q u e a p a ssa ge m transmite. O b se rva r se op rofe ta


se apoia em ve rd a d es te o ló gica s já reveladas o u está a p re se n ta n d o ve rd a d es
novas. N ã o se e sq u e ce r d e q u e a p ersp ectiva profética d e Je su s era vo ltad a
espe cialm en te para o reino d e Deus.

7. Verificar se a profecia se aplica à é p o c a d o profeta o u a u m a é p o c a futura, o u às


duas. N ã o e squ e ce r a diferença entre advertir e prever. O s profetas no rm a lm e n te
e stavam in te re ssad os so b re tu d o n a s co n d içõ e s d e sua p róp ria é p o c a (m as n ã o
n ecessariam ente co m exclusividade).

8. Verificar se a orientação futura d a profecia tem e m m e n te o fu tu ro p ró x im o


o u o futuro m ais distante, seja o p e río d o d o N o v o T e sta m e n to , seja o fim d o s
tem pos. Procurar ta m b é m identificar se a profecia a p re se n ta d a era de natureza
co n d icio n al o u in c o n d ic io n a l

9. N o caso d o N ovoTestam ento, n ã o e sq u e c e rq u e a lg u m a s profecias s e cum priram


parcialm ente, m as e sse c u m p rim e n to n ã o se e s g o t o u n o p e r ío d o neotesta-
m entário. Verificar ta m b é m se a profecia s e cu m p riu literalmente, o u se o au tor
n e ote stam e ntário estava a p lic a n d o a profecia d e form a n ã o literal.

10. Fazer aplicações sensatas da profecia à situação m oderna. O intérprete n ã o deve


esqu e ce r-se de p e rgu n ta r qual o im p a cto d a profecia e m sua vida espiritual ou
na c o n d içã o espiritual d e su a igreja local o u n a igreja c o m o u m todo.
*• PALAVRAS-CHAVE

a n ú n c io d e ju íz o . O rácu lo profético q u e co n té m a d eclaração d e u m a a cu sa çã o e


a p roclam ação d o juízo su b se q u e n te.

a p o c a lip s e . G ê n e ro de literatura c o m estrutura narrativa em q u e u m ser


sobrenatural atua c o m o m e d ia d o r d e u m a revelação a u m d estinatário hum ano,
e x p o n d o u m a realidade transcendental, n o te m p o e n o espaço.

apocalíptica. V isão d e m u n d o q u e p revê a inte rve n ção cu lm in a n te e cataclísm ica


de D e u s na história h u m a n a n o fim d o s tem pos.

d e b a te . Recurso literário q u e trata de determ inado tem a apresentando os diferentes


lados de um a discussão; em geral contém declaração, argum entação e refutação.

d is c u r s o d e e x o r ta ç ã o . M e n s a g e m d e c u n h o d id ático e m q u e o s destinatários
são e xo rta d o s a se g u ir o S e n h o r e su a s norm as.

lamento. Tipo especial d e a n ún cio profético de jurzo, sem elhante a o oráculo de "ais"
e m q u e o profeta lastima as circunstâncias e m q ue está vive nd o o p o v o d e Deus.

narrativa profética. R e gistro d o ch a m ad o, d a vida e d o m inistério d o profeta.

oráculo de"ais". T ip o especial d e a n ú n c io d e juízo q u e e n v o lv e {!) a cu sa çã o


{o p ro n u n c ia m e n to d o s "ais"); (2) am eaça {o s d etalh e s d o juízo vin d ouro);
(3) ce n sura {a ra zã o pela q ual virá o juízo).

oráculo de salvação. Profecia q u e trata da ob ra salvífica d e D eus, co m o ,


p or exem plo, u m a p ro m e ssa d e livram ento, u m o rá cu lo d o reino o u u m
texto apocalíptico.

p r o c e s s o d e a lia n ç a . T ip o d e d iscu rso d e juízo profético em q u e D e u s convoca


seu p o v o a se apresentar perante ele p or ca u sa d e vio la çõ e s d a aliança.

r e la to in s tr u tiv o . F orm a s várias d e material profético, entre elas d eb ate e


d iscu rso s de exortação, sátira e d ita d o s de sabedoria.

s á tir a . Tentativa d e dem onstrar, m ediante zo m b a ria o u ce n su ra ,a m aldad e ou


insensatez d o q u e aparenta ser im p ró p rio o u im p on d e ra do .

visão ou relato de sonho. C a s o e m q u e u m profeta recebe a m e n sa g e m d e D e u s


n u m a visão, q u e ele, p o r su a vez, d e v e procla m a r a seu povo.
■ DAR O ESTUDO

1. Q u a l era a m issã o esse n cial d o s profetas d o A n t ig o T e sta m e n to?

2. Q u ais sã o os d o is p rincipais tip o s d e s u b g ê n e ro s proféticos nas Escrituras?

3. Q u a is são os d ois p rincipais e le m e n to s d o s a n ú n c io s d e ju ízo ?

4. Q u a is sã o a s fo rm a s específicas de a n ú n c io s d e ju ízo ?

5. Q u a is sã o as fo rm as específicas d e orá cu lo s de sa lvação ?

6. Q u a l é a d efinição d e [literatura] apocalíptica e q u a is s ã o se us


p rincipais e le m e n to s?

7. Q u a n d o su rgiu a apocalíptica e q u a is sã o a s p o ssív e is p a ssa g e n s apocalípticas


d o A n t ig o T e sta m e n to?

8. Q u a is sã o as diretrizes para interpretar o te xto apo ca líp tico ?

9. Q u a is sã o o s su b g ê n e ro s d o s relatos p roféticos instrucionais e q u e ou tro s


su b g ê n e ro s e xistem ?

10. Q u e e xe m p lo s de profecia se p o d e m encontrar fora d o s livros p roféticos d o


A n t ig o e d o N o v o Testam e n to?

■11. Q u a is sã o as diretrizes para interpretar profecia?


1. Avalie O se ia s 4.1-6 c o m o u m p o ssív e l a n ú n c io d e juízo q u e ta m b é m co nté m
e le m e n tos d e vio la çã o d a aliança.

2. In d iq u e o s e le m e n tos proféticos típ icos d e a n ú n c io d e ju ízo contra nações


estrangeiras e m Isaías 10.8-19. D iscorra so b re a força d a profecia apresentada
n o s m o ld e s d e u m o rá cu lo d e "ais".

3. A n a lise as características proféticas típicas d e sa lvação co n tid a s n o o rá cu lo d o


reino q u e aparece em Jerem ias 31.31-40.

4. Leia Isaías 24 atentam ente. Q u e ve rsícu los co n tê m características d o


g ê n e ro apo ca líp tico ?

5. C om parand o co m o discurso de Pedro n o Pentecostes {At 2.14-36), considere


Joel 2.28-32 u m exem plo d e profecia q u e se cum priu, m as não se e sgotou
completamente. Q ual o gênero básico qu e m ais s e relaciona co m a profecia d e Joel?

6. C o m p a re Isa ía s 5.1 -7 e 27.2-6 c o m o cânticos proféticos. Q u e diferenças


g e n é ric a s p re d o m in a n te s se p o d e m ob se rva r na m e n sa g e m fu n d a m e n ta l e n o
to m d e cada p a s s a g e m ?

7. Identifique as profecias a se g u ir q u a n to à classificação em: 1) debate;


2) d isc u rso d e exortação; 3) sátira; o u 4) m áxim a s de sabedoria;

a. Isaías 44.13-20
b. Jerem ias 9.23,24
c. Jerem ias 10.23
d. Ezequiel 18.10-20
e. O se ia s 6.1-3
£ Joel 2.12-14
g. M a la q u ia s 2.10-14

8. T o m a n d o a s palavras d e Natã a D a vi e m 2 Sa m ue t 7.11 -16 c o m o u m e x e m p lo


d e profecia, co m p a re a m e n s a g e m d e Natã c o m a d e Ezequiel e m Ezequiel
37.22-28. Q u e gê n e ro (s) profético(s) é (são) m ais a d e q u a d o (s) para classificar as
respectivas p a s s a g e n s?

9. Considere Lucas 17 2 0 -2 7 u m exe m p lo d o s aspectos presente e futuro d o reino d o


Senhor. Q u e gê n e ro s proféticos essenciais estão presentes nas palavras d e Jesus?

10. O capítulo 4 d e H e s sa lo n ic e n se s te m s id o citad o c o m o u m e x e m p lo d o


exercício d o d o m profético de P au lo (cf. I C o 14.37,38). Q u e g ê n e ro profético se
p o d e o b se rv a r n a m e n s a g e m d e P au lo a o s cristão s te ssatonice nse s?
Armerding, Carl E.; W. W ard Gasque, orgs. Dreams, Visiom and Orades. Grand Rapids:
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W estermann, Claus. Basic Forms of Prophetic Speech. C am brkige: Latterworth, 1967.


1. A p re se n ta r ao e stud ante a natureza, o gê n e ro e as o rige n s d o s Evangelhos.

2. D iscutir p rincípios h e rm en ê uticos gerais lig a d o s a o s E v a n g e lh o s e a Atos.

3. D elinear a estrutura geral e a te o lo gia d o s E v a n g e lh o s e de Atos.

4. .F o rn e c e rã o e stu d an te u m co n ju n to d e diretrizes para a interpretação d o s


E v a n g e lh o s e de Atos.
A. Capítulo 8: objetivos
B. Esboço d o capítulo
C. Natureza d o s Evangelhos
D. Gênero d o s Evangelhos e de Atos
E. O rige n s d o s Evangelhos
1. Por q u e quatro Evan ge lh os?
2 .0 estudo crítico d o s Evangelhos
3. João e os Sinóticos
4. A confiabilidade histórica d o s Evangelhos
F. Princípios herm enêuticos gerais
1. Características dos Evangelhos
2. Contexto histórico
3. Contexto literário
a. Elem entos externos
i. A u t o r :
ii. Narrador
iii. Leitor v
b. Elem entos internos
i. Am biente
ii. Enredo
iii. Caracterização de personagens
iv. Estilo .
v. Tem po narrativo
4. Cronologia e organização
a, Mateus
b. M arcos
c Lucas/Atos
d. João
5. Estrutura
a. M ate us
b. M arcos
c. L u c a s / A t o s
d. João
G. Am ostra de exegese: M arcos 15.33-41
1. História
2. L ite ra tu ra
3. Teologia
H. Diretrizes para interpretar os Evangelhos e Atos
1. Palavras-chave
J. Q uestões para aprofundar o estudo
K. Exercícios
L. Bibliografia d o capítulo
TEOLOGIA

HISTÓRIA ♦LITERATURAS

CÂNON «■ GÊNERO LINGUAGEM


Antigo Testamento Narrativa histórica do AT Contexto discursivo
N o vo Testamento Poesia e sabedoria Significado das palavras
Profecia Linguagem figurada
<•“ Narrativa histórica d o N T
Parábolas
Epístolas
Leitura apocalíptica
Capítulo 8

OUVINDO AS BOAS-NOVAS: A NARRATIVA


HISTÓRICA DO NOVO TESTAMENTO
(OS EVANGELHOS E ATOS)

NATUREZA DOS EVANGELHOS

C
ontinuando nossa peregrinação através do cânon bíblico, atravessamos
agora a fronteira que separa o Antigo Testamento do Novo. Os Evangelhos
são os primeiros quatro livros do Novo Testamento e têm o nome dos seus
respectivos autores: Mateus, Marcos, Lucas e João. Embora esses títulos tenham
sido atribuídos aos documentos pela igreja primitiva, provavelmente nas décadas
subsequentes à redação desses textos pelos autores originais, Marcos é o único a
empregar seu próprio nome no texto de seu Evangelho (Mc 1.1). Originalmente,
a palavra “evangelho” — que significa literalmente “boas-novas”, união do prefixo
grego eu-, “bom”, e do substantivo angelion, “novas” ou “mensagem” — era usada
para designar tão somente as proclamações orais, não as escritas.
Como os Evangelhos são narrativas que se concentram na vida e no ministério
terreno de Jesus, os quatro apresentam características em comum tanto na forma
quanto no conteúdo. Por isso, em geral são agrupados no mesmo gênero literário.
O caso de Lucas é especial porque seu Evangelho é parte de uma obra de dois volu­
mes, que consiste no Evangelho e no livro de Atos. A importância de Lucas—Atos
é ainda mais destacada porque, no que diz respeito à extensão, os escritos de Lucas
constituem um quarto de todo o corpus do Novo Testamento.1A seguir, observa­
mos um pouco mais detidamente a natureza, o gênero e as origens dos Evangelhos.
Também vamos adquirir conhecimento dos princípios hermenêuticos pertinentes
e encerrar o capítulo com uma amostra de exegese e algumas diretrizes para inter­
pretar os Evangelhos e o livro de Atos.

GÊNERO DOS EVANGELHOS E DE ATOS


Uma das questões mais importantes no estudo dos Evangelhos é o gênero dos
quatro Evangelhos canônicos. Esses escritos não só têm semelhanças com outros
escritos cristãos primitivos, mas também refletem aspectos do seu ambiente
literário greco-romano. Já em 1915, C. W. Votaw encontrou semelhanças entre
os Evangelhos e a literatura biográfica conhecida do período greco-romano. Ele
propôs que os Evangelhos fossem classificados na categoria de “biografia greco-
-romana” (bios). Em 1923, K. L. Schmidt contestou essa classificação, propondo
que, em vez disso, os Evangelhos fossem classificados como escritos populares,
e não como obras literárias. Schmidt propunha que não se considerassem os
Evangelhos semelhantes à literatura greco-romana, mas, sim, uma forma literária
diferente, um gênero literário inteiramente novo (obras sui generis, “únicas no
seu gênero”).2Desde então, os Evangelhos já foram classificados de várias formas,
como biografias de Jesus, memórias dos apóstolos, aretalogias (série de afirma­
ções que começam com “Eu sou”), comédias, tragédias ou biografias teológicas.
Embora a proposta de Schmidt tenha sido aceita durante um período considerável
de tempo, o gênero mais comumente proposto para os Evangelhos hoje é o de
biografia greco-romana.3
De fato, comparando as características e os aspectos particulares dos Evan­
gelhos e de Atos com a literatura greco-romana, várias semelhanças se revelam.
Por exemplo, o prefácio formal de Lucas (Lc 1.1-4; cf. At 1.1) é bem semelhante
às introduções de obras literárias greco-romanas. Também há semelhanças nos

'Andreas J. Kõstenberger, L. Scott Kellum e Charles L. Quarles, The Cradle, the Cross, and the
Crown: An Introduction to the New Testament (Nashville: B&H, 2009), p. 256.
2D. A. Carson e Douglas J. Moo, An Introduction to the New Testament, ed. rev. (Grand Rapids:
Zondervan, 2005), p. 113, apud K. L. Schmidt, "Die Stellung der Evangelien in der allgemeinen
Literaturgeschichte”, p. 59-60. [Edição em português: Introdução ao Novo Testamento (São Paulo:
Vida Nova, 1997).]
3Cf. Richard A. Burridge, W hatAre the Gospels?, SNTSMS 70 (Cambridge: Cambridge University
Press, 1992; 2. ed., Grand Rapids: Eerdmans, 2004).
destaques temáticos e no conteúdo. As biografias greco-romanas em voga costu­
mavam promover algum herói ou uma pessoa importante. Pode-se dizer que os
Evangelhos, semelhantemente, promovem um “herói”, Jesus Cristo, expondo suas
obras e atividades, e apresentando-o como o Salvador da humanidade. A inclusão
de uma cena de desagravo — no caso dos Evangelhos, as aparições de Jesus após sua
ressurreição — também era um recurso comum na literatura greco-romana.4Além
disso, encontramos semelhanças literárias como o uso de genealogias (Mt 1.1-16;
Lc 3.23-38) e cronologias (Lc 2.1,2; 3.1,2). Por fim, no que tange à técnica narra­
tiva, o estilo incidental ou episódico demonstra grande afinidade com as técnicas
literárias greco-romanas.5Esses aspectos e essas características, assim como outros
semelhantes, talvez sejam um indício de que os Evangelhos e Atos pertençam ao
gênero da biografia greco-romana.6
Apesar dessas semelhanças, porém, há diferenças suficientes para se propor
que os Evangelhos canônicos constituem um gênero singular. Uma objeção comum
à classificação dos Evangelhos como biografias diz respeito à ausência de dados
biográficos exaustivos sobre Jesus. Também se nota a falta de uma ordem crono­
lógica consistente nos quatro Evangelhos. Embora todos eles dediquem espaço
considerável aos dias finais da vida de Jesus, pouco sabemos sobre os acontecimentos
anteriores ao início de seu ministério. Apenas Mateus e Lucas incluem a narrativa
do nascimento do Messias em seus Evangelhos (Mt 1.1-25; Lc 2.1-20); Mateus é o
único a relatar a fuga para o Egito e a posterior volta a Nazaré na infância de Jesus
(Mt 2.13-23); e o incidente do Templo quando Jesus tinha doze anos só é registrado
no Evangelho de Lucas (Lc 2.41-51). À parte esses relatos, pouco se sabe sobre a
vida anterior de Jesus; nem Marcos, nem João apresentam informação alguma sobre
a infância e o início da vida adulta de Jesus. De todo modo, as biografias greco-
-romanas também não forneciam necessariamente detalhes biográficos completos
sobre as personagens de que tratavam. Só eram incluídos no texto os segmentos da
vida do biografado considerados pertinentes à narrativa da sua história.7
Todavia, outras diferenças importantes separam os Evangelhos das biografias
greco-romanas típicas. Dos quatro Evangelhos, só o de Lucas tem um prefácio

4Joel B. Green, Scot McKnight e I. Howard Marshall, orgs., Dictionary o f Jesus and the Gospels
Downers Grove: InterVarsity, 1992), p. 278.
5Ibidem, p. 279.
6Para um comentário do gênero do Evangelho de João, veja Andreas J. Kõstenberger, A Theology
ofjohns Gospel andLetters, BTN T (Grand Rapids: Zondervan, 2009), p. 104-24.
'W illiam W. Klein, Craig. L. Blomberg e Robert L. Hubbard Jr., Introduction to Biblical Interpre-
:ation, ed. rev. (Nashville: Thomas Nelson, 2004), p. 400.
literário formal (ainda que a introdução de João também seja notadamente lite­
rária). Além disso, diferentemente dos seus homólogos greco-romanos, todos os
Evangelhos são formalmente anônimos. Outra diferença importante é o público
visado pelos evangelistas. Os Evangelhos todos, bem como o livro de Atos, foram
escritos para o público cristão. Por isso, essas obras tinham finalidade diferente
em relação à literatura da época e visavam obter uma reação diferente dos leitores.
Afinal, nenhum herói comum pode comparar-se a Jesus Cristo.
Diante dessas semelhanças e diferenças, parece preferível considerar os
Evangelhos e Atos um subgênero da narrativa histórica. Assim como as narrativas
históricas do Antigo Testamento, Atos e os Evangelhos não se limitam a relatar
fatos. Os evangelistas escolheram criteriosamente seu material e o organizaram da
forma que melhor comunicasse a mensagem de Deus. Eles empregaram um foco
cristocêntrico, apresentando um relato teologicamente motivado da vida e da obra
de Jesus bem como dos acontecimentos significativos da vida da igreja primitiva.
Seus relatos representam a atividade salvadora de Deus na história e exigem uma
resposta de fé dos leitores. Na forma em que se apresentam, os Evangelhos e o livro
de Atos têm uma ligação estreita com as formas literárias, o vocabulário e os temas
da narrativa histórica do Antigo Testamento.8
O estilo literário dos quatro Evangelhos e do livro de Atos, por exemplo, é
muito semelhante ao das narrativ