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Família e Cárcere – Os efeitos da punição sobre a unidade familiar

e a necessidade de inclusão

Zé Colmeia

RESUMO

Gerando danos psíquicos e emocionais, a prisão submete o condenado a malefícios que não

se limitam à privação de liberdade. Não obstante, devido ao princípio da personalidade da

pena, positivado constitucionalmente, os prejuízos teriam de se restringir ao apenado, e essa

limitação não se verifica no plano fático. Por mais que não haja incidência direta da sanção

sobre terceiros, alguns de seus efeitos negativos transcendem o condenado. E dentre os

lesados se destacam os familiares do detento, cuja vivência passa a ser marcada pelo

distanciamento, pela precariedade social, e pela estigmatização. São abaladas suas relações

afetivas e suas possibilidades de inclusão. Faz-se essencial, assim, a adoção de medidas

capazes de reduzir a problemática, situando-se nesse rol o acompanhamento dos familiares de

presos e a conscientização, dentro e fora das grades, da importância da família.

1. INTRODUÇÃO

Ato cujo extremismo se compara ao das guerras, conforme

definição de Tobias BARRETO 1 , a pena privativa de liberdade corresponde ao

mais acentuado gravame a que em um Estado Democrático de Direito o

indivíduo pode ser submetido. Sua aplicação tem de ser subsidiária e sua

intervenção mínima, caracterizando-se como ultima ratio estatal 2 . Aculturando

e desculturando o condenado, nos dizeres de Alessandro BARATTA 3 , serve o

1
BARRETO, Tobias. Estudos de Direito. Rio de Janeiro: Laemmert. 1892. p.56.
2
Nas palavras de FRAGOSO, “só deve o Estado intervir com a sanção jurídico-penal quando
não existam outros remédios jurídicos, ou seja, quando não bastarem as sanções jurídicas do
direito privado. A pena é ultima ratio do sistema”. FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito
Penal. Rio de Janeiro: Forense, 2003. p.346.
3
No espaço prisional o indivíduo passa por uma “desculturação”, correspondente à abdicação
dos valores de normas de convivência social predominantes fora do cárcere. A esta se soma
cárcere à perpetuação da exclusão. Essencial, desta feita, é a cautela em seu

uso, vez que os prejuízos que ocasiona ao apenado são inevitáveis.

4
Pela leitura doutrinária já dedicada à matéria , não restam

dúvidas de que o aprisionamento traz consigo malefícios que não se findarão


5
com o termo final da punição. Em verdade, pode-se afirmar que o estigma

decorrente da sanção penal constituirá marca da qual o recluso jamais

conseguirá se ver imune. Aos olhos da sociedade, excludente como descrito


6
por Jock YOUNG , deixará de ser observado como cidadão na acepção

integral do termo. Suas características positivas serão suprimidas em favor de

um único fator: o de ser ex-presidiário. Por mais que entre nós seja vedada a

privação de liberdade perpétua, a este efeito que lhe é reflexo a perpetuidade é

indelével.

Tendo em relevo o supracitado cenário, nota-se que o

aprisionamento, acentuadamente lesivo ao apenado durante o cárcere, segue

punindo após findada a reclusão. Sua adoção corresponde à escolha política

que, acertada ou não, traz consigo destacado ônus. Feições mais graves toma

a problemática, todavia, se observamos que o dano trazido pela privação de

liberdade enseja punição para quem em nada colaborou com o delito. Não

uma “aculturação”, cuja ocorrência decorre do aprendizado de preceitos e normas inerentes à


(sobre)vivência do lado de dentro dos muros das prisões. Cita-se BARATTA, Alessandro.
Criminologia crítica e crítica do direito penal. Trad. Juarez Cirino dos Santos. Rio de Janeiro:
Freitas Bastos, 1999. p.184.
4
Neste sentido, exemplificativamente, ZIMRING, Franklin E. HAWKINS, Gordon. Crime is Not
the Problem: Lethal Violence in América. Nova Iorque: University of Oxford Press, 2007;
RUSCHE, George. KIRCHHEIMER, Otto. Punição e estrutura social. 2.ed. Rio de Janeiro:
Revan, 2004; CARVALHO, Salo de. Pena e garantias. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 2003.
5
A noção do “estigma”, e sua incidência em decorrência da privação de liberdade, será melhor
abordada em ponto subseqüente do presente ensaio.
6
Expõe YOUNG que, em espaços sociais passíveis de caracterização como excludentes,
comum é a abordagem da criminalidade tal qual representasse mazela exclusivamente
emanada das classes inferiores, acentuando o caráter de intolerância dos que, por
pertencerem à classe diversa, de sua comissão se julgam imunes. Conceituação que,
inegavelmente, parece se adequar de modo irreparável ao cenário que entre nós se faz
presente em tempos atuais. YOUNG, Jock. A Sociedade Excludente: Exclusão Social,
criminalidade e diferença na modernidade recente. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro:
Revan, 2002. p.22-28.
obstante, tal translação punitiva é amplamente verificada na prática, sendo

evidente que, ao menos um grupo, é punido mesmo sem ser condenado. Está-

se a falar dos familiares dos encarcerados. É ao exame dos efeitos que sobre

eles se põem devido à condenação que se dedica o presente ensaio.

Analisando a relação entre os condenados, seus familiares e o

tempo de cárcere, propõe-se o estudo, primeiramente, a tracejar breves

delineamentos acerca da idéia de individualidade da sanção penal, e sua real

aplicabilidade material. Posteriormente, será objeto de análise a série de

conseqüências da punição que incide sobre a família dos condenados,

perscrutando se a sanção efetivamente é capaz de constituir mal a quem se

situa do lado externo das grades. Formulado o diagnóstico, poder-se-á, nos

momentos últimos do trabalho, adotar viés propositivo a respeito de medidas

aptas a atenuarem as mazelas impostas aos familiares do apenado.

2. O PRINCÍPIO DA PERSONALIDADE DA PENA

Consoante exposto, a pena corresponde a um mal 7 . Sem óbice

de não ser escopo do exame analisar o acerto da adoção da privação de

liberdade como meio punitivo, demonstram-se inquestionáveis os impactos

negativos que ela traz ao condenado. Tal cenário, em verdade, sequer poderia
8
ser diverso, vez que não há razões (aparentes) para a opção estatal pelo

7
Perspectiva que serve de alicerce à concepção absolutista da punição, apresentada por
HEGEL e KANT e positivada, ao lado do discurso prevencionista, no art.59 de nosso Código
Penal, cujo texto dispõe que o juiz estabelecerá a pena “conforme seja necessário e suficiente
para reprovação e prevenção do crime” (grifou-se). Quanto às teorias absolutistas, e sua
incoerência com o Estado Democrático de Direito, cita-se FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão –
Teoria Geral do Garantismo. Trad. Ana Paula Zomer, Fauzi Hassan Choukr, Juarez Tavares e
Luiz Flávio Gomes. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002,
8
Abre-se nota porque, em atenção ao pensamento de Juarez Cirino dos Santos, pode-se
identificar na privação de liberdade, para além de finalidades aparentes, objetivos ocultos. Em
sucinto exame, seria escopo declarado do Direito Penal a proteção de bens jurídicos, de
cárcere que divirjam da oferta de resposta à prática de conduta tipificada como

crime. Sob tal ótica, apenas poderia sofrer com a punição, e efetivamente

deveria fazê-lo, o responsável pela comissão do delito. Esta não-transcedência

da sanção corresponde àquilo que doutrinariamente se fez chamar de

“princípio da personalidade da pena”, diretriz que, em um Estado Democrático

de Direito, é inarredável ao Direito Penal.

2.1 Intranscedência da Punição e Estado Democrático de Direito

Pode-se afirmar, preliminarmente, que participação democrática e

sanção penal correspondem a elementos que, em um Estado tido de Direito,

caminham lado a lado 9 . Nesse diapasão, quanto mais acentuada for a inclusão

dos indivíduos menor serão os índices de delitos cometidos, vez que ao menos

aqueles que decorrem da exclusão social, notadamente os crimes contra o

patrimônio, poderão ser reduzidos. No mesmo sentido, faz-se factível afirmar

que o maior desenvolvimento da Democracia trará consigo, necessariamente, a

essencialidade de que sejam menos atingidos os direitos de quem que tem sua

liberdade privada. A axiologia constitucional do Direito Penal minimiza o

impacto negativo da punição.

maneira subsidiária, fragmentária, proporcional e neutra. Seus objetivos reais, todavia,


culminariam na garantia de manutenção do status quo; das desigualdades existentes entre as
distintas classes sociais e da exploração das parcelas subalternas da sociedade. Cita-se.
CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC; Lumen Juris.2006.
9
E diversa não poderia ser a engrenagem, vez que a sanção penal traz consigo malefícios
cujas conseqüências invariavelmente se responsabilizam por afastar o indivíduo do núcleo
social, subtraindo sua relevância para a comunidade e furtando sua possibilidade de
participação na tomada de decisões. Representa, em suma, sua exclusão, não condizendo
com o pensamento inclusivo que contemporaneamente deve reger o espaço democrático.
Sobre a idéia de “democracia inclusiva”, FOTOPOULOS, Takis. Towards An Inclusive
Democracy: The Crisis of the Growth Economy and the Need for a New Liberatory Project.
Londres; Nova Iorque: Cassell, 1997. Obra disponibilizada, também, eletronicamente, junto ao
sítio http://www.inclusivedemocracy.org/fotopoulos/english/brbooks/brtid/brtid.htm.
Firmada tal premissa, percebe-se que a engrenagem penal deve

ser lida, em um Estado verdadeiramente Democrático, sob as lentes do


10
respeito à dignidade humana . Não acidental, em decorrência, é que se tenha

desenvolvido no seio de entes assim formatados a idéia de “personalidade da

pena”. Se, em um passado não tão longínquo, a condenação poderia

transcender o responsável pelo delito, atingindo diretamente aqueles que se


11
situavam em seu entorno , com a evolução da ciência penal à luz dos direitos

fundamentais tal prerrogativa não mais subsiste. À punição não cabe

transcender a pessoa do acusado, sob pena de serem desvirtuadas, inclusive,

as finalidades que lhe são oficialmente imputadas.

12
Em conformidade ao disposto legalmente , bem como ao

pensamento utilitarista que alicerçou a “teoria da pena”, a punição teria como

elementos justificadores a prevenção de novos delitos e a retribuição do mal


13
cometido . Aceito referido discurso, percebe-se que o “princípio da

10
Não se pretende, como comumente feito, tomar a “dignidade da pessoa humana” como
panacéia, sob pena de esvaziar seu verdadeiro conteúdo. É essencial, entretanto, reconhecer
que a positivação do citado axioma como cerne do Diploma Constitucional de 1988 torna
imperativo que à suas balizas se adéqüem as diversas esferas jurídico-normativas. E o Direito
Penal não representa exceção a esta regra.
11
Em tempos não tão errantes, a punição decorrente da infração penal atingia frontalmente
quem não coincidia com o responsável pelo delito, mas fazia parte de seu convívio. A punição
a si aplicada, era objeto de extensão a seus familiares ou à sua comunidade, importando, por
consequência, em sanção incidente sobre um grupo por mais que correlata à conduta de um
indivíduo. Cite-se SHECAIRA, Sérgio Salomão; CORRÊA JR., Alceu. Teoria da pena. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002. p.79.
12
Vide nota 07.
13
Direcionando nossos olhares à teoria clássica da pena, de modo a refutar os ideários críticos
atualmente preponderantes a seu respeito, poder-se-ia afirmar, em linhas gerais, que a punição
seria justificada por deter finalidades que, de um lado, convergiriam com a prevenção contra a
comissão de novos delitos, e, de outro, representariam a retribuição punitiva ao apenado
devido ao crime cometido. No âmbito da punição como prevenção, quatro seriam as principais
correntes ideológicas, passíveis de divisão em dois subgrupos. Para o primeiro, focado na
crença de que a punição poderia representar prevenção de novos delitos por parte de toda a
comunidade, ofertando-lhe caráter geral, o cárcere, intimidando a coletividade (prevenção geral
negativa) ou reforçando a confiança no ordenamento normativo (prevenção geral positiva),
seria capaz de desencorajar a prática de crimes por parte de todos. Já o segundo grupo, cujo
ideário indica que os efeitos da punição incidiriam especificamente sobre o condenado,
oscilaria entre as afirmações de que a sanção obstaculizaria a reincidência por ressocializar o
apenado (prevenção especial positiva) ou impediria a comissão de novos delitos por isolar o
delinqüente (prevenção especial negativa). Passível de nota que nenhuma das citadas
teorizações se demonstra compatível com a aplicação direta da sanção penal para além do
personalidade da pena” sequer representa criação decorrente de pensamento

crítico ou voltado à estruturação de um direito penal mínimo, ainda que a eles

seja compatível. Sua aceitação, na realidade, é inafastável da própria

concepção iluminista da punição.

Sem prejuízo de não representar tendência recente, porém, o

“princípio da personalidade da pena”, cujo conteúdo veda a transposição da

sanção penal para além do condenado, constitui estrutura basilar à sistemática

penal que se proponha harmônica aos corolários democráticos. Não por acaso,

é destacada sua positivação no texto constitucional de 1988, cujo art.5º,

inc.XLV, determina que:

Art.5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção

de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros

e aos estrangeiros residentes no País a

inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à

igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos

seguintes:

(...)

XLV – nenhuma pena passará da pessoa do

condenado, podendo a obrigação de reparar o dano

e a decretação do perdimento de bens ser, nos

termos da lei, estendidas aos sucessores e contra

eles executadas, até o limite do valor do patrimônio

transferido.

condenado. Não oferecem guarita, assim, a pensamento que não releve a personalidade da
punição.
Endossa-se, assim, o compromisso do constituinte com a
14
valorização da cidadania e com a concretização da carga principiológica

fundamental. É inadmissível que em um Estado Democrático de Direito a

personalidade da pena não seja salvaguardada.

2.2 É possível conceber o princípio no plano prático?

A personalidade da pena, dado o exposto, é elemento inarredável

à estruturação de uma engrenagem penal minimamente democrática,

representando medida provida de coerência lógica ao balizamento

constitucional do ordenamento jurídico. Sob tal enfoque, demonstra-se

perceptível o porquê da Constituição Federal de 1988, tida cidadã, ter se

preocupado em expressar claramente que a pena deve se limitar à pessoa do

condenado. Postura diversa seria amplamente desarmônica às demais metas e


15
diretrizes postas por nossa Carta Magna .

O estudo crítico, todavia, imprescinde de observação que rompa


16
com a face visível do plano teórico . Em outros termos, sua análise depende

de exame vinculado à realidade, confrontando o previamente teorizado com o

14
Com base na evolução histórica traçada Douglas Bonaldi MARANHÃO, pode-se afirmar que
se é verdade que a positivação do princípio no ordenamento brasileiro não é recente,
encontrando dispositivo voltado à sua tutela já na Constituição Política do Império do Brasil de
1824 (art.179, inc.XX), também o é que jamais lhe foi dado tom tão claro quanto aquele
ofertado pela Constituição Federal de 1988. Compromissada com os direitos fundamentais,
ofereceu a carta constitucional vigente, em harmonia plena aos seus objetivos, patamar
destacado à personalidade da pena. MARANHÃO, Douglas Bonaldi. Princípios da
Personalidade e da Individualização da Pena no Direito Penal Moderno. Disponível em
http://www.docstoc.com/docs/25011373/PRINC?PIOS-DA-PERSONALIDADE-E-DA
INDIVIDUALIZA??O-DA-PENA-NO/ (acesso em 15/04/2010).
15
Nunca é demais lembrar que o constituinte de 1988 consagrou ser fundamento da República
Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana (art.1º, inc.III), imputando-lhe como
objetivo fundamental a construção de “uma sociedade livre, justa e solidária” (art.3º, inc.I).
16
Sobre o desvelamento a que o pensamento crítico deve conduzir, cita-se QUINNEY, Richard.
O controle do crime na sociedade capitalista: uma filosofia crítica da ordem legal. In,
Criminologia Crítica. Org. TAYLOR, Ian. WALTON, Paul. YOUNG, Jock. Trad. Juarez Cirino
dos Santos e Sérgio Tancredo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1980. p.232-235.
que de material há. E, formulada leitura dotada de tais moldes, possível se faz

atingir conclusão que não apenas preocupa, como torna imperativa a procura

por medidas capazes de suavizar suas conseqüências: a personalidade da

pena, compreendida de modo amplo, é estranha à privação de liberdade,

sendo por ela inalcançável. Explica-se.

Sem óbice de estar constitucionalmente positivada, a

personalidade da pena, para sua compreensão global, tem de ser encarada

sob dois diversos aspectos. O primeiro deles, correspondente à sua

interpretação restrita, limita-se à afirmação de que a punição estatal, por

representar resposta a ato subjetivo, não poderia transpor diretamente o

responsável por sua execução. Não obstante, desatenta à realidade é a crença

segundo a qual o princípio estaria adstrito a este fator. A ele, deve ser

acrescido um segundo aspecto, de maior amplitude. Trata-se da possibilidade

de que a sanção, mesmo sem incidir de modo direto sobre quem com o

condenado não se confunde, dê vazão a efeitos que a ele não se limitam,

gerando malefícios a terceiros. Apenas compreendida esta distinção, pode-se

notar que, e por mais que a personalidade da pena em sua leitura estrita seja

normativamente assegurada, sua acepção ampla está longe de ser

satisfatoriamente controlada.

Se é verdade que à luz do ordenamento vigente em território

nacional não há possibilidade da sanção penal ser aplicada diretamente para

além do condenado, também o é que pouco se faz para obstar que as

conseqüências da punição atinjam quem com o delito não colaborou. Nesse

ponto, deve-se perceber que o cárcere, ainda que tenha como expressão

primeira o fato de privar o apenado de sua liberdade, também priva a


comunidade do convívio com o ora recluso, e institui estigma que, por vezes,

ao preso não se limita.

Desnecessário se faz raciocínio complexo para concluir que

aqueles que têm com o detento contato mais próximo são, por mais que não de
17
maneira direta, punidos pelo aprisionamento . A personalidade da pena, em

decorrência, não é tutelada em sua plenitude, sendo incapaz de evitar dano

que toma feições vultosas em um nicho determinado e específico, qual seja, a

família do condenado.

3. A FAMÍLIA DO CONDENADO E SUA DESINTEGRAÇÃO

É possível afirmar, peremptoriamente, que se a privação de


18
liberdade não mais pode subtrair do indivíduo que sua livre locomoção ,

sendo a ela vedado incidir para além da pessoa do condenado, tanto uma

quanto a outra restrição são violadas se analisamos a prisão a partir das

relações familiares. Não parece sujeito a dúvidas que, em um primeiro

momento, os laços matrimoniais são enfraquecidos pela imposição do cárcere

a um dos cônjuges. O distanciamento trazido pela reclusão constitui barreira

evidentemente prejudicial à relação. Por outro lado, mas representando vetor

não menos dramático, responsabiliza-se o aprisionamento por ferir seriamente


19
as relações de paternidade/maternidade e filiação . Ônus cuja seqüela, por

vezes, é irreparável.

17
A punição, aqui, deve ser compreendida em sua feição mais ampla, leitura que compreende
não ser ela, materialmente, limitada à condenação judicial.
18
CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. p. 458.
19
Aqui, valiosa contribuição, passível de citação, é SIMMONS, Charlene Wear. Children of
incarcerated parents. Sacramento: California Research Bureau, 2000.
Insuficiente fosse a perda de contato com o recluso, deve-se

destacar que seus familiares não raramente são alcançados pelo mesmo

encobrimento que sobre ele, visto pela sociedade como não mais que um
20
“criminoso”, insiste em pairar . O tratamento que lhes é dispensado,

desatento à desestruturação familiar a que são submetidos, demonstra-se

impregnado de preconceito. Amplia-se a exclusão de quem, como regra, já era


21
previamente excluído .

Múltiplos, pois, são os efeitos negativos da prisão que atingem os

familiares do condenado. Diversas são suas ordens, gerando mazelas que vão

desde o abalo anímico dos indivíduos até a deturpação de suas relações


22
sociais. O prejuízo não se finda na questão financeira , por mais que também

a atinja. O déficit orçamentário pelo qual passa a família do apenado devido ao

encarceramento, em tempo, é o aspecto da problemática que em território

brasileiro foi objeto de maior preocupação estatal, ocasionando a instituição do

chamado “auxílio-reclusão”, a cujo respeito é válido traçar breves observações.

3.1 O “auxílio-reclusão” e sua insuficiência

20
Esse processo de “encobrimento” do condenado deve ser compreendido no significado
ofertado ao verbo, para outros fins, por Enrique Dussel, vale dizer, o indivíduo sobre o qual
recaísse a condenação penal seria conduzido à crença de que é inferior, devendo, por
consequência, ser expiado. Sua realidade pouco importará, sendo impositivo que ceda lugar
àquela que sobre si se intente impor. Cita-se, DUSSEL, Enrique. 1492: O Encobrimento do
outro: a origem do mito da modernidade: Conferências de Frankfurt. Trad. Jaime A. Clasen.
Petrópolis: Vozes, 1993.
21
Tal afirmação se faz possível pois, inegavelmente, a seletividade punitiva, tônica do Direito
Penal, não é aleatória. Nesse sentido, e conforme nos é demonstrado por Löic Wacquant, a
punição é direcionada aos pobres, por razões de causa e efeito aptas a formularem mecanismo
autopoiético de repressão social. Sucintamente, pode-se dizer que a punição do pobre
responsabiliza-se pela gestão da própria pobreza. WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova
gestão da miséria nos Estados Unidos. 3.ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
22
TRAVIS, Jeremy. MCBRIDE, Elizabeth Cincotta. SOLOMON, Amy L. Families Left Behind:
The Hidden Costs of Incarceration and Reentry. p.2-4. Disponível eletronicamente no sítio
virtual www.urban.org/uploadedpdf/310882_families_left_behind.pdf. (acesso em 27/04/2010).
Em conformidade ao destacado, o prejuízo financeiro, mesmo

sem ser o único dos malefícios trazidos pelo aprisionamento aos familiares do

condenado, situa-se inegavelmente no rol de conseqüências negativas

ensejadas pelo cárcere a terceiros. Se a família é privada de indivíduo que em

sua organização-orçamentária ocupava papel central, desvela-se óbvio que os

seus demais componentes são tolhidos do aporte necessário ao cumprimento

de seus direitos e à satisfação de suas necessidades.

Tal perspectiva, que por si só já deveria despertar preocupação, é

agravada de modo substancial se considerarmos que dentro da seletividade

penal a regra é que o aprisionamento atinja justamente aqueles que já se


23
encontravam em posição de pobreza . Observa-se que as famílias

submetidas ao déficit pecuniário decorrente do cárcere, em sua maior parte, já

se viam marcadas pela dificuldade orçamentária antes mesmo da condenação.

A prisão, porém, reforça a problemática pré-existente, conferindo-lhe feições

trágicas.

Ciente do entrave financeiro que o encarceramento gera aos

familiares dos detentos, o Ministério da Previdência Social vem

sucessivamente regulamentando o chamado “auxílio-reclusão”, o qual, não


24
obstante criado pela Lei Orgânica da Previdência Social (3.807/60) , e

23
Conforme destacado na nota retro, a punição é seletiva, e a seletividade em nada é
randômica. Aqui, é merecedor de citação BATISTA, Nilo. Punidos e mal pagos : violência,
justiça, segurança pública e direitos humanos no Brasil de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 1990.
24
“Art. 43. Aos beneficiários do segurado, detento ou recluso, que não perceba qualquer
espécie de remuneração da emprêsa, e que houver realizado no mínimo 12 (doze)
contribuições mensais, a previdência social prestará auxílio-reclusão na forma dos arts. 37, 38,
39 e 40, desta lei.
§1º O processo de auxílio-reclusão será instruído com certidão do despacho da prisão
preventiva ou sentença condenatória.
§2º O pagamento da pensão será mantido enquanto durar a reclusão ou detenção do segurado
o que será comprovado por meio de atestados trimestrais firmados por autoridade competente.
25
regulado pela Lei 8.213/91 , apenas em tempos recentes recebeu maior
26
ênfase, devido à série de portarias ministeriais voltadas ao seu regramento .

Tratar-se-ia, conforme definição do órgão, de “um benefício devido aos

dependentes do segurado recolhido à prisão, durante o período em que estiver


27
preso sob regime fechado ou semi-aberto” , pressupondo, assim, tanto a

qualidade de segurado quanto a existência de dependentes. Sua concessão,

com efeito, representa medida amplamente compatível com as próprias


28
diretrizes institucionais justificadoras da existência da Previdência Social .

Sem prejuízo de sua relevância para o abrandamento dos

prejuízos trazidos aos familiares do apenado, entretanto, a escassa divulgação

do benefício torna sua utilidade, em uma visão macro, diminuta. O

desconhecimento que a seu respeito impera faz com que uma parcela ínfima

da população carcerária brasileira veja seus familiares beneficiados pelo


29
proveito . A medida não apenas é insuficiente para mitigar os malefícios

impostos aos familiares dos presos, vez que eles não se limitam à questão

financeira, como mesmo nesse aspecto é incapaz de ofertar amparo à maior

parte da massa prisional entre nós existente.

25
Art. 80. O auxílio-reclusão será devido, nas mesmas condições da pensão por morte, aos
dependentes do segurado recolhido à prisão, que não receber remuneração da empresa nem
estiver em gozo de auxílio-doença, de aposentadoria ou de abono de permanência em serviço.
Parágrafo único. O requerimento do auxílio-reclusão deverá ser instruído com certidão do
efetivo recolhimento à prisão, sendo obrigatória, para a manutenção do benefício, a
apresentação de declaração de permanência na condição de presidiário.
26
A mais recente delas, a Portaria nº 333 de 29/06/2010, apresentou um rol de benefícios
previdenciários cujos valores teriam de ser reajustados, inserindo na lista o auxílio-reclusão.
27
Disponível em http://www.previdenciasocial.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22. (Acesso
em 05/05/2010).
28
Conforme o art.1º da Lei 8.13/91, constitui finalidade da Previdência Social “assegurar aos
seus beneficiários meios indispensáveis de manutenção, por motivo de incapacidade,
desemprego involuntário, idade avançada, tempo de serviço, encargos familiares e prisão ou
morte daqueles de quem dependiam economicamente.” (grifou-se).
29
Estima-se, com fundamento em pesquisa realizada em tempos recentes pelo instituto
Transparência Brasil, entidade do terceiro setor, que apenas cerca de 5% dos indivíduos
encarcerados em território nacional possui dependentes que se beneficiam do auxílio-reclusão.
3.2 O distanciamento e seus malefícios

O cárcere, por sua própria formatação, apresenta como efeito

imediato e, em uma visão prima facie, inevitável o afastamento. Fere-se, assim,

o que de mais elementar há nas relações familiares, matrimoniais ou parentais:

o convívio. Com a prisão vem o distanciamento. Elimina-se de maneira quase

integral o convívio entre o condenado e sua família, fator que traz decorrências

prejudiciais a ambos os pólos. Priva-se mais que a liberdade.

É inequívoco o papel essencial que a presença da figura paterna,


30
ou materna, desempenha no saudável desenvolvimento de seus filhos . De

igual sorte, é incontestável que aos pais representa fator psiquicamente lesivo

ter de se afastar de seus filhos por força da condenação. Perde-se o convívio e

a possibilidade de crescimento pessoal que a ele é inerente. Se os filhos do

encarcerado ainda se situam na infância, em tempo, sequer possuem a

compreensão do porquê lhes é furtada a presença paterna ou materna, mas

pelo estágio de desenvolvimento psíquico e emocional em que se encontram

graças a ela sofrerão seqüelas que podem se tornar irreparáveis. O trauma de

quem cresce sem a presença dos pais é acompanhado em paralelo pelo

trauma daquele que se vê impossibilitado de observar o crescimento de seus

filhos. O sofrimento é bilateral.

A privação de liberdade, igualmente, traz consigo ruptura ao

desenvolvimento salutar das relações matrimoniais ou de companheirismo. Os

laços de afetividade, fatalmente, sofrem abalo em decorrência da perda de

contato. Tendo como base estruturante o convívio, revela-se claro que uma vez

30
Inúmeros são os estudos dos lapsos de desenvolvimento que incidem sobre os filhos de
presos em decorrência do encarceramento, e da distância que lhe é inerente. Devido à base
jurídica que ao presente ensaio é estruturante, não se pretende pormenorizar a série de
conclusões obtidas, mas é possível salientar ser comum a todas elas que, se inexistente o
necessário acompanhamento, as conseqüências negativas são severas.
que ele não se faça presente é imprescindível tentar ofertar à relação novo

alicerce. Sua procura, entretanto, é árdua, pressupondo estímulo que tanto do

lado externo das grades quanto em seu setor interno parece inexistir.

O distanciamento, assim, e por si só, teria como efeito maléfico

direto a desestruturação das relações familiares. Esse prejuízo, porém, não

apenas é objeto de pouca atenção como se vê ampliado por aspectos como a

distância física entre as prisões e os pólos urbanos e as restrições de horários


31
e formas de visitação . Como regra, é escassa a preocupação com a

viabilidade do translado necessário à realização da visita. Por outro lado, mas

na mesma esteira, o ingresso dos familiares de presos nos espaços carcerários

acaba por trazer, dados seus procedimentos, constrangimento a quem não foi
32
condenado . Emblemática, aqui, é a questão da revista íntima, comumente

feita em ocasião desnecessária e de modo degradante.

Parceiro oculto da punição, o distanciamento entre os presos e

seus familiares gera danos acentuados que ao condenado não se limitam. As

restrições de visitação, os procedimentos postos para sua realização e a não

incomum impossibilidade fática em que esbarra fazem com que a privação de

liberdade, para a família do recluso, possa ser abordada como restrição ao

desenvolvimento pleno. Pune-se quem nada fez para ser apenado. E essa

punição ao afastamento não se resume, sendo-lhe acrescido, ainda, fator não

31
Se, conforme exposto, os apenados são em sua maioria oriundos das camadas sociais mais
inferiores, parece suficientemente claro que a imposição de distância acentuada entre a prisão
e os familiares do recluso representa verdadeira inviabilização das visitações, devido aos
custos de deslocamento. Outrossim, as visitas, como regra, tem de se adaptar aos horários
impostos de maneira generalizada, desprezando-se peculiaridades da unidade familiar que
poderiam recomendar parâmetros diversos.
32
Novamente, o preconceito imposto ao encarcerado por conta da condenação, que por si só
já seria reprovável, é estendido aos seus familiares. Em um panorama ideal, a prisão deveria
corresponder à resposta única ao fato delituoso, concentrando integralmente a punição. No
plano fático, o preconceito por si trazido serve como parceiro invisível, e ao condenado não se
limita.
menos doloroso, que emana da comunidade. À família do preso, o tratamento

será marcado pelo estigma e pelo preconceito.

3.3 Da distância ao preconceito

Definido por Erving GOFFMAN como marca que caracteriza o

indivíduo de modo à, simultaneamente, deturpar a imagem que detém de si


33
mesmo e deformar a maneira pela qual é observado pela sociedade , o

estigma representa atalho para a visão preconceituosa. Uma vez submetido ao

processo de estigmatização, o cidadão, aos olhos da comunidade, deixa de se


34
apresentar em seus aspectos positivo . Todos o observam tão-somente pela

lente do fator (tido como) negativo que lhe serve de estigma. A discriminação é

latente.

Pois bem. É indubitável que na sociedade contemporânea o


35
estigma de “criminoso” constitui decorrência lógica da condenação criminal .

Não parece sujeito a questionamentos, nesse sentido, que a visão

majoritariamente destinada ao recluso é provida de feições de preconceito,

justificando, inclusive, a dificuldade fática de se imputar ao cárcere o escopo de


36
ressocialização . Para os fins ora objetivados, todavia, é necessário perceber

33
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Trad.
Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 4.ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988. p.11-13.
34
Idem. p.14.
35
Consoante exposto por Löic Wacquant, os detentos, aos olhos da comunidade, são hoje
concebidos como “o grupo pária entre os párias”, razão pela qual são “vilipendiados e
humilhados impunemente”. A imposição do estigma, e do preconceito que a ele é intrínseco,
leva a punição para esferas que vão além da privação de liberdade. WACQUANT, Löic. Obra
citada. p. 312.
36
Por mais que se encontre abalado no âmbito doutrinário, seja pela crítica ideológica, seja
pelo questionamento de sua eficácia material, o discurso da prisão como forma de
“ressocialização” do apenado mantém-se intacto no senso comum. Proveniente do positivismo
criminológico, e repaginada pela “nova defesa social” de Ancel, a crença no cárcere como
tratamento contrapõe o que a prisão é com aquilo que, em um plano ideal, poderia ser, e seu
manejo serve comumente para mascarar a condenação do indivíduo pelo que é, e não pelo
que fez. Para o presente estudo, todavia, resta salientar que ainda que a viabilidade dos
que o estigma não se limita a quem diretamente o recebe, atingindo também

aqueles que com ele convivem. Trata-se do que GOFFMAN denominou


37
“estigma de cortesia” , o qual se inclui na série de punições a que os

familiares dos encarcerados são submetidos.

Em um espaço social como o nosso, em que a resposta à


38
criminalidade beira o ódio , a extensão do preconceito aos familiares do

condenado é evidente. Hipócrita ou irreal é a crença segundo a qual, para a

maior parte da população, o rótulo de “filho de preso” não é visto de modo

desfavorável. Não é diversa a situação para o cônjuge do condenado ou

mesmo para o pai que vê seu filho encarcerado. Sua receptividade em meio à

comunidade é obstada, e sua auto-estima frontalmente ferida. Visto pela

sociedade como não mais que o familiar de um detento, impedindo o

reconhecimento de suas qualidades, em nada surpreende que seja essa a

imagem que o próprio indivíduo passa a ter de si. Suas possibilidades de

inclusão, como regra já escassas, são gradativamente tolhidas. Passa-se,

conforme exposto por Salo de CARVALHO, do Estado Providência ao Estado


39
Penitência .

O repúdio ao condenado, ainda que por vezes involuntariamente,

atinge seus familiares. A errônea desvaloração do responsável pelo delito,

desprovida de preocupação com sua cidadania e teleologicamente orientada à

trabalhos de “reeducação” dentro do espaço prisional não raramente vê sua efetividade


esbarrar no preconceito dispensado pela comunidade ao ex-detento. A ressocialização teria de
ser bilateral. Cita-se ANCEL, Marc. A Nova Defesa Social. Rio de Janeiro: Forense, 1979.
Quanto à função ressocializadora, da pena, ainda, CARVALHO, Salo de. Pena e garantias.
37
GOFFMAN, Erving apud SCHILLING, Flávia. MIYASHIRO, Sandra Galdino. Como incluir? O
debate sobre o preconceito e o estigma na atualidade. In. Educação e Pesquisa, São Paulo,
v.34, n.2, maio/ago. 2008. p.248. Na definição das autoras, o “estigma de cortesia “leva o
indivíduo que se relaciona diretamente com o estigmatizado a descobrir que deve sofrer da
maior parte das privações típicas do grupo que assumiu e, além disso, de maneira semelhante
à que ocorre com o estigmatizado, corre o risco de não ser aceito por outros grupos”.
38
YOUNG, Jock. Obra citada. p.35-43
39
CARVALHO, Salo de. Antimanual de Criminologia. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008. p.96.
40
ampliação de seu sofrimento , atinge sua família, sem óbice da positivação

da personalidade da pena. Fica patente a insuficiência do dispositivo

normativo.

Configurado panorama em que apresentadores televisivos se

transvestem de criminólogos e o delito se torna espetáculo, porém, alheia à

ordem do dia é a reflexão sobre as mazelas decorrentes da privação de

liberdade que transcendem o condenado. É natural, por conseguinte, que o

auxílio-reclusão, voltado a amenizar o prejuízo financeiro trazidos às famílias

dos presos, não raramente seja objeto de manifestações que refletem o

preconceito. Alcunhas como “bolsa-bandido” lhe são corriqueiramente

destinadas, esquecendo-se da questão humanitária que compõem seu pano de

fundo para abordá-lo como espécie de premiação ao condenado. Distorce-se a

realidade, destinando ao auxílio, e a quem dele faça proveito, o tom vingativo


41
que dá tônica à nossa sociedade .

Perceptível se faz que aos familiares dos presos há a imposição

de prejuízos providos de diversas feições, e situados em distintas esferas. A

série de aspectos, entretanto, demonstra-se convergente na comprovação de

que a privação da liberdade não pune apenas o condenado, ainda que devesse

fazê-lo. Assim, são essenciais medidas propositivas, vez que o mero

diagnóstico do problema não mais é que o primeiro dos passos para sua

40
ZIMRING, Franklin E. HAWKINS, Gordon. KAMIN, Sam. Punishment and Democracy: Three
Strikes and You’re Out in Califórnia. Oxford: The Oxford University Press, 2001. p.15. No
mesmo sentido, em referência ao sentiment anti-criminoso, ZAFFARONI, Eugenio Raúl. O
inimigo no direito penal. Trad. Sérgio Lamarão. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007
41
SILVA, Samuel Costa da. CASTELO BRANCO, Lúcio de Brito. A Sociedade Civil e a
criminalização do adolescente: violência, pobreza e consumismo capitalista no universo da
delinqüência juvenil. Em www.unieuro.edu.br/downloads_2005/poliarquia_01_003.pdf. (Acesso
em 29/04/2010).
42
resolução. A crítica tem de ser transformadora . E não há transformação sem

perspectivas de mudança.

4. MAIS QUE UMA QUESTÃO TEÓRICA: COMO ATENUAR A PUNIÇÃO DE

QUEM NÃO FOI CONDENADO?

Em harmonia ao exposto, o princípio da personalidade da pena

não pode ser resumido à sua interpretação restrita, devendo ser lido em sua

acepção mais ampla. Ocorre que, conforme destacado, a interpretação

extensiva do citado princípio nos conduz à conclusão de que sua aplicabilidade

plena é incompatível com a privação de liberdade. Em outros termos, pode-se

afirmar que em um sistema penal que adote o cárcere como meio punitivo

ainda que a sanção não transcenda diretamente o condenado seus efeitos o


43
farão . Há indivíduos que se situam fora das grades, mas, de algum modo,

sofrem com os malefícios por ele ensejados. É o caso dos familiares dos

presos.

A inevitabilidade de que haja prejuízos à família do condenado,

porém, não pode ser observada com postura de conformismo. Deve engendrar

pensamento que, reconhecendo a dramaticidade da situação, intua reduzir

seus efeitos. Por mais que soluções infalíveis inexistam, é essencial a procura

por alternativas capazes de mitigar a problemática. E, neste particular, parece

evidente que tem de se destinar atenção àquele que talvez seja o mais

nevrálgico dos aspectos, responsabilizando-se em grande parcela pelos

malefícios: a (não) aceitação.

42
HORHEIMER, Max. Teoria crítica I. São Paulo: Perspectiva, 2008. p.145-148.
43
ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de direito penal brasileiro:
parte geral. 6. ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. p.154.
4.1 Acompanhamento e Inclusão – Uma via de mão dupla

Sem óbice da diversidade de elementos negativos com que se

depara a família do condenado por conta da prisão, parece ser fator comum a

todos a ausência de aceitação, por ela mesma e pela comunidade, da condição

que devido ao cárcere lhe é imposta. E essa relutância, preliminarmente, pode

ser imputada à distorção do status que ao próprio encarcerado é dispensado, e

reforçado devido ao viés punitivo de nossa sociedade. Sua superação, em

consequência, imprescinde de uma cadeia de desmistificações.

É necessário, primeiramente, que se compreenda que o

responsável pela execução de determinado crime, uma vez encarcerado, tem o

direito de ver sua condenação adstrita à privação de liberdade. Não pode em

um Estado Democrático de Direito, sob tal enfoque, prosperar Direito Penal


44
similar àquele do Inimigo, pregoado por Günther JAKOBS . Em igual sentido,

situa-se nossa ciência penal em grau evolutivo que impede (ou deveria impedir)
45
quaisquer manifestações do chamado “direito penal do autor” . A punição tem

de ser dada em decorrência de um fato, e não da desvaloração de quem foi por

ele responsável. Firmada essa compreensão, torna-se imperativo que o

condenado seja aceito como cidadão, na totalidade do termo. Não há


46
razoabilidade na subsistência de resquícios de positivismo criminológico .

44
JAKOBS, Günter; CANCIO MELIA, Manuel, Direito Penal do Inimigo, moções e críticas. Org.
e Trad. André Luis Callegari; Nereu José Giacomolli. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005.
45
Teoricamente, a ideia de “Direito Penal do Autor” é contraposta ao chamado “Direito Penal
do Fato”. Naquele, o indivíduo seria condenado por sua própria essência; por aspectos
inerentes à sua personalidade. Já neste último, a punição seria decorrência da prática de uma
conduta contrária ao ordenamento normativo. Em uma frase: à luz do “direito penal do fato” o
indivíduo é punido pelo que fez; no “direito penal do autor”, pelo que é.
46
Sobre o positivismo criminológico, caracterizado pelos pensamentos de Ferri e Lombroso e
responsável pelas idéias de “criminoso nato” e “homem deliquente”, válida é a leitura da já
citada obra CARVALHO, Salo de. Pena e Garantias.
Mencionada premissa, que à luz da Constituição Federal de 1988

é a única aceitável, traz consigo o afastamento do estigma que incide sobre o

prisioneiro, conduzindo à sua aceitação. Desmistificada a figura do “criminoso”,

pode-se observar que o indivíduo não deixou de ser pai, filho, esposa ou

marido para se tornar “delinqüente”. A seus familiares se torna possível

compreender que o cárcere não lhes confere posição de inferioridade, e, para

além, não pode suprimir suas qualidades marcantes. Apenas essa postura é

capaz de assegurar a verdadeira inclusão.

Não há que se falar em inclusão, entretanto, caso inexistentes

esforços a ela orientados. Impõe-se a atuação estatal voltada ao amparo dos

familiares dos presidiários, postura que engloba o auxílio-reclusão (cuja oferta

deve ser ampliada), mas a ele não se limita. É necessário o acompanhamento.

A aceitação imprescinde de compreensão que, como regra, não é instantânea,


47
mas resultado de um processo de esclarecimento . Através dele, faz-se

possível que os impactos negativos da sanção criminal sejam arrefecidos, e os

laços familiares preservados.

Acompanhar para esclarecer. Esclarecer para aceitar. Aceitar

para incluir e reaproximar. Trata-se de caminho já adotado,


48
exemplificativamente, no estado norte-americano do Texas , e de

recomendabilidade ampla para a real concretização dos preceitos de

Democracia e cidadania. Foge-se do abandono, reconhecendo que o

47
SCHILLING, Flávia. MIYASHIRO, Sandra Galdino. Obra citada. p.253.
48
Está-se a falar dos denominados programas de mentoring, verificáveis em diversas
localidades estadunidenses, mas que no Texas tomaram maior proporção, devido à comunhão
de esforços entre o ente estatal e a sociedade civil. Referidas medidas, em linhas gerais,
constituem-se no acompanhamento contínuo dos filhos de encarcerados, garantindo seu
desenvolvimento sadio e, em especial, seu sentimento de inclusão e aceitação. Diversas, em
tempo, são as entidades do setor voluntário que foram objeto de criação nos Estados Unidos
da América do Norte com vistas únicas ao desenvolvimento do mentoring, sendo passível de
nota, para fins exemplificativos, a Amachi Texas Mentoring, cujos trabalhos podem ser
conhecidos através do sítio www.amachi-texas.org.
encarcerado jamais deixou de ser cidadão e atenuando os reflexos negativos

da privação de liberdade sobre si próprio e sobre seus familiares. O

extremismo da prisão faz necessário que seus efeitos sejam combatidos tanto

interna quanto externamente. O apoio proativo à família do condenado é

inafastável.

4.2 Invertendo a lógica – A prisão como elemento de integração familiar

A privação de liberdade, pelos entraves por si trazidos, é capaz

de gerar abalo às relações familiares do recluso, fragilizando-as de maneira

inegável. Trata-se de premissa suficientemente demonstrada, à qual foi

ofertada resposta no tópico precedente. Sem prejuízo de sua veracidade,

todavia, é necessário que a implicação entre o sistema penal e a família do

condenado seja igualmente observada sob ângulo diverso, e que ao

aprisionamento é precedente. É imprescindível a compreensão de que a

desestrutura familiar, por vezes, não é apenas efeito do crime (e do cárcere),

coincidindo, na realidade, com suas causas. E em tais hipóteses a prisão pode

assumir função diametralmente inversa àquela que hoje lhe é dada.

Se, por um lado, é cediço que a família do apenado se vê

desestruturada após a condenação, por outro, deve-se notar que referido abalo

em inúmeras vezes é agravado, e não criado, pelo cárcere. Nessas situações,

o enfraquecimento dos laços familiares, umbilicalmente ligado aos problemas


49
da sociedade hodierna , pode ser visto como elemento motivador da própria

49
Problemas que aumentam de modo gradativo devido à oferta de plano secundário ao ser
humano, direcionando mais atenção ao lucro e ao capital que à cidadania e a dignidade. Neste
sentido, recomenda-se CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas? Neoliberalismo e ordem
global. Trad. Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002; GRAY, John. Falso
Amanhecer: os equívocos do capitalismo global. Trad. Max Altman. Rio de Janeiro: Record,
realização do delito. A ausência de afeto serve de maneira fidedigna à

frustração pessoal. Os parâmetros impostos pelo capital trazem, naturalmente,

cobranças cujo adimplemento pleno não raro se faz inatingível. O sentimento

de opressão deixa de se limitar à esfera exterior do lar. As conseqüências são

trágicas.

A precariedade social, comumente apresentada pela crítica


50
criminológica como causa do delito , pode ser alçada, também, à condição de

responsável por grande parcela dos aspectos que conduzem à degradação

familiar. Nesse sentido, por exemplo, não parece questionável que as drogas e

o alcoolismo, fatores cujos efeitos levam à desagregação da família, são

íntimos à sociedade atualmente verificada, marcada pela opressão. Igualmente

inconteste é a relação entre os citados aspectos e a violência familiar, escala

última da deturpação da relação afetiva.

A criminalidade e a desestruturação familiar passam a

representar, em um ciclo vicioso, faces de uma mesma moeda, atuando a

prisão como um destacado reforço de ambos. É aqui, porém, que a situação

tem de ser invertida, fazendo com que o que serviria ao abalo da família passe

a ser utilizado em prol de sua reparação; da preservação da unidade familiar,

que durante a reclusão, mais do que nunca, apresenta-se imprescindível.

Por mais que não se pretenda no presente exame tecer

avaliações acerca da adoção da privação de liberdade como meio punitivo,

parece possível afirmar que sua aplicação subtrai mais do condenado que sua

1999; e BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As conseqüências Humanas. Trad. Marcos


Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
50
É o defendido pela chamada “criminologia radical”, cujos teóricos, alicerçados em grande
medida pelo pensamento de Alessandro BARATTA, concebem a criminalidade como
consequência da opressão social, à qual o cárcere serviria como reprodução. BARATTA,
Alessandro. Obra citada.
livre locomoção. Furta de sua vida o tempo, noção que deve ser lida objetiva e
51
subjetivamente . Adicionalmente, retira de si seu posto social (e familiar),

impondo-lhe exclusão. A consequência direta é a dor, carecendo de lógica

encarar a prisão como elemento que ao condenado não seja maléfico. O

sofrimento do cárcere, entretanto, pode ser atenuado pelo afeto das relações

familiares, perspectiva que, tanto para o recluso quanto para quem se situa do

lado externo da prisão, demonstra que a família é essencial. A reflexão aponta

para a necessidade de integração.

Desta feita, as mazelas do cárcere, ao mesmo tempo em que

punem, podem oferecer alicerce para que as relações familiares, previamente

deterioradas, fortaleçam-se. A adoção de medidas que conscientizem o

encarcerado da importância de seus familiares e, paralelamente, demonstrem à

família do condenado sua centralidade para atenuar a punição é capaz de

gerar benefícios que não se findam com o término da prisão. A reclusão, sob

esta ótica, pode servir de ponto paradigmático para a reestruturação do corpo


52
familiar que se via abalado .

Reforça-se o papel da família e de seus laços de afetos,


53
reduzindo, inclusive, a reincidência, como exposto por NASSER e VISHER .

Inverte-se a lógica do cárcere, reconhecendo sua negatividade ao condenado,

mas manejando-o sem se despreocupar com a união familiar. Os trabalhos de

educação e conscientização, conforme demonstra a experiência do estado


51
Segmentação traçada por Ana Messuti que nos revela que a sentença judicial quantifica o
tempo do cárcere unicamente em sua feição objetiva. Para mensurar sua face subjetiva,
maleável conforme cada indivíduo, inexistiria método capaz. MESSUTI, Ana. O Tempo como
pena. Trad. Tadeu Antonio Dix Silva; Maria Clara Veronesi de Toledo. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2003. P.33-50.
52
TRAVIS, Jeremy. MCBRIDE, Elizabeth Cincotta. SOLOMON, Amy L. Families Left Behind:
The Hidden Costs of Incarceration and Reentry. Obra citada. p.2.
53
A influência exercida pelo envolvimento familiar dos reclusos na redução da reincidência é
demonstrada em NASSER, Rebecca L. VISHER, Christy A. Family Members’ Experiences with
Inceration and Reentry. Disponível em http://wcr.sonoma.edu/v07n2/20-naser/naser.pdf.
(acesso em 23/04/2010).
54
norte-americano do Oklahoma , cumprem eficaz papel na mitigação do

sofrimento.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A privação de liberdade impõe ao condenado dor que à subtração

da livre locomoção não se resume. É responsável pela sua deformação

psíquica e emocional. Adicionalmente, conforme suficientemente demonstrado,

enseja prejuízos que ao condenado não se limitam. A mera positivação do

princípio da personalidade da pena não é suficiente para que a axiologia que

lhe é inerente, compreendida em sentido amplo, seja materializada. Ainda que

a punição não incida diretamente sobre terceiros, a realidade não oferece

abrigo à crença de que seus efeitos negativos não transcendem o condenado.

E quem mais sofre, por evidente, são aqueles que dele se situam mais

próximos: seus familiares.

Se diversos são os prejuízos trazidos à família do apenado em

decorrência de seu encarceramento, é escassa, todavia, a atenção dedicada à

temática. Insuficientes são as medidas voltadas à resolução das mazelas com

que os familiares dos condenados são obrigados a conviver, as quais

pendulam do estigma ao distanciamento. A ruptura dos laços afetivos perdura

sem que haja a adoção das providências necessárias para seu arrefecimento.

54
Em Oklahoma, a adoção a partir de 2001 de programas educativos no interior dos presídios
voltados à conscientização da necessidade de respeito e afeto no âmbito familiar
(especialmente na esfera marital), bem como da essencialidade da família durante a privação
de liberdade e após seu fim, vem demonstrando resultados extremamente benéficos.
Conjugando forças entre a família e o preso, e propiciando sua aproximação, o projeto cumpre
papel fundamental na preservação dos laços de afeto, representando modelo a ser analisado.
Maiores detalhes a respeito de seus resultados podem ser obtidos em
http://aspe.hhs.gov/hsp/06/OMI/Reintegration/rb.pdf. (acesso em 14/04/2010).
O sofrimento não encontra respostas fáticas e pouco se faz para evitar suas

conseqüências.

É perceptível, assim, a incompatibilidade do cenário face à carga

principiológica que da Constituição Federal de 1988 emana, bem como, e por

consequência, à necessária conformação constitucional da sistemática penal.

Faz-se forçoso que da omissão se passe à atuação proativa. Neste sentido,

expõe-se não apenas necessária, mas urgente, a implementação de medidas

de acompanhamento dos familiares do encarcerado, esclarecendo-os e

propiciando sua inclusão. Por outra vertente, mas com igual

imprescindibilidade, demonstra-se amplamente recomendável a preservação e,

se necessária, a reparação dos laços de afeto entre o encarcerado e sua

família.

A adoção de programas de mentoring similares àqueles

verificáveis nos Estados Unidos da América do Norte, assim como de projetos

sócio-educativos voltados à conscientização dos condenados sobre a

importância do afeto familiar, parece valiosa. Mais que benéficas a ambas as

partes, essas medidas são favoráveis a todos aqueles que vêem na dignidade

humana, em sua totalidade, corolário lógico de nossa República.

Base da formação humana, a unidade familiar sofre ao ver o

cárcere tirar de si um de seus entes. Essa angústia, porém, tem de ser

combatida. Impõe-se sua abordagem crítica, reluzindo a centralidade da família

e, simultaneamente, reconhecendo seu caráter essencial para superação do

cárcere. Trata-se de passo adiante rumo à Democracia, distanciando-se do

punitivismo. Só assim a privação estará mais perto de se resumir à liberdade, e

o princípio da personalidade da pena de tomar feições reais. Tal providência,


por si só, não é o bastante para extinguir as problemáticas de nosso cenário

penal. Mas é um começo, e, em defesa da Constituição, merece ser lembrado.

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