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Educação Emocional

& Teatro de Bonecos


DIÁLOGOS ENTRE ARTE E NEUROCIÊNCIA

DORYS CALVERT
Limbiseen
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Bem-vindo ao Limbiseen!

Olá!

É um prazer poder compartilhar contigo minha experiência no campo do teatro e

da neurociência através deste e-book. Cabe ressaltar, no entanto, que esta não

é uma obra acadêmica, mas um instrumento de divulgação do meu trabalho e

uma ferramenta para ajudar outros profissionais na criação de estratégias de

educação emocional utilizando esta arte milenar que é o teatro. A opção de não

assumir aqui um compromisso com a Academia permitiu-me adotar um

vocabulário mais solto, mais afetivo e construir uma narrativa mais preocupada

com a eficácia da comunicação do que com os rigores acadêmicos.

Embora eu tenha uma formação bastante eclética, o amor pelo teatro e pela

pesquisa teatral constitui o pilar de sustentação de toda a minha atuação

profissional, tanto no campo artístico e pedagógico como no terapêutico. O

teatro sempre se apresentou para mim como um potente instrumento de

transformação humana, de modo que todas as minhas formações, tanto na área

de ciências humanas (psicologia) como na de ciências da vida (odontologia)

dialogaram (e ainda dialogam!) com minhas pesquisas no campo teatral. Não foi

à toa que o tema de minha Tese de Doutorado surgiu durante um curso de pós-

graduação em odontologia! Há dez anos, em uma aula sobre neurofisiologia, fui

"apresentada" ao trabalho de Antonio Damásio, um dos maiores especialistas em

neurociência das emoções no cenário contemporâneo mundial. Desde então,

passei a buscar no conhecimento neurocientífico possíveis respostas para tantas

questões que povoavam minha mente de atriz, pedagoga teatral e de

profissional no campo da saúde. E hoje venho dividir aqui com você boa parte

dos frutos colhidos nessa trajetória!

O Limbiseen é um centro de pesquisa artístico-científico interdisciplinar que une

prática teatral, conhecimento neurocientífico e tecnologia de biofeedback.

Temos duas frentes principais de trabalho: o Treinamento Emocional Integrado


para Performers (TEIP) e a pesquisa sobre Educação Emocional & Teatro de

Bonecos. O P'tit Limbiseen (Pequeno Limbiseen) é um nome carinhoso que

encontrei para nossa atuação junto ao público infantil.

Limbiseen é uma palavra de origem finlandesa que faz referência ao sistema

límbico, isto é, ao cérebro emocional. As emoções formam o eixo central de

todas as nossas atividades. E é também com emoção que escrevo agora essas

linhas. Espero, sinceramente, que você possa encontrar neste material uma

ferramenta para se emocionar e emocionar outras pessoas... E educar com

emoção... E assim podermos construir um mundo com mais afeto, empatia,

inclusão e solidariedade.
SUMÁRIO

CAPÍTULO 1
Fundamentação teórico-prática

Neuroplasticidade: “Você é as suas sinapses"

O Cérebro Mágico: nosso primeiro terapeuta

Neurônios-espelho e comunicação emocional

CAPÍTULO 2
As emoções humanas

Definição e função das emoções

Os componentes das emoções

CAPÍTULO 3
Eficácia teatral e neuroeducação

Por uma educação do sensível

Efeitos terapêuticos da prática teatral

CAPÍTULO 4
Oficinas de criação

Explorando as emoções

Definindo o avatar

Fabricação e manipulação dos bonecos

Fabricação do teatro

CAPÍTULO 5
 

 Preparação psicofísica e jogo teatral

Relaxamento, consciência corporal e neutralização emocional

Treinamento respiratório

Aquecimento vocal e articulação

Improvisação com bonecos

A relação em cena

BIBLIOGRAFIA
CAPÍTULO 1
Fundamentação teórico-prática

Neuroplasticidade: "Você é as suas sinapses!"

Apesar do tom pra lá de reducionista desta frase, de autoria do neurocientista


especialista no estudo das emoções Joseph Ledoux, a verdade é que pesquisas
focadas na neuroplasticidade vem demonstrando cada vez mais a correlação
entre a experiência vivida e a modificação de nossa (micro)estrutura cerebral. O
avanço do conhecimento nesta área vem impactando de forma significativa a
compreensão do comportamento, de distúrbios psicopatológicos e também dos
processos de aprendizagem. E este é um dos pontos que mais nos interessam
aqui: o surgimento de uma nova área de pesquisa denominada neuroeducação.

Antes de abordarmos as possíveis aplicações da neuroplasticidade no campo da


educação, cabe primeiramente definir este conceito. A neuroplasticidade, como o
próprio nome indica, se refere à função plástica do sistema nervoso, ou seja, sua
capacidade de sofrer modificações estruturais. Tais modificações podem ocorrer
de duas formas: a primeira, dita quantitativa, concerne o aumento do número de
novas conexões entre as células nervosas, seja através da geração de novos
neurônios (neurogênese) ou através da ramificação dos dendritos, estruturas da
célula nervosa que se conectam com outras células, transmitindo, através da
conexão sináptica, uma dada informação. Ao gerar novas espinhas dentríticas, o
cérebro garante uma maior quantidade de sinapses, aumentando assim a
quantidade de liberação de neurotransmissores para outras células e,
consequentemente, a eficácia da transmissão da informação.

Já a segunda forma conhecida de modificação da rede neural é de caráter


qualitativo. Isto significa que uma célula pode aumentar o a duração de um sinal,
neural, isto é, melhorar a sua comunicação com outra célula do sistema nervoso.
Não vamos entrar aqui nos detalhes da complexa dinâmica bioquímica da
neuroplasticidade, mas é importante ter em mente que a plasticidade cerebral é
um fenômeno extremamente potente e que vem, cada vez mais, apontando para
novas possibilidades terapêuticas, reabilitadoras e pedagógicas.
Sabe-se também que, embora existam janelas (faixas etárias) mais propícias aos
movimentos de transformação da estrutura cerebral, a neuroplasticidade pode
ser vista como uma nova esperança, uma vez que a ideia de que nascemos com
uma quantidade pré-determinada de neurônios e que estes que se deterioram
com o tempo já não mais corresponde a uma verdade científica.

Mas o que leva o cérebro a gatilhar os


processos neuroplásticos? Estudos
indicam que o sistema nervoso é capaz de
modificar sua estrutura a partir de três
situações ou eventos principais: lesão do
tecido nervoso (danificação de neurônios),
estimulação sensorial e/ou cognitiva e, por
último, experiências individuais, que
podem ser internas (inerentes ao sujeito)
ou externas (relacionadas ao meio
ambiente). Segundo o neurocientista
Roberto Lent, a neuroplasticidade é uma
"incrível e dinâmica capacidade de
mudança do cérebro, ao receber
influências e informações do ambiente
(inclusive do seu microambiente interno)".

Um mundo do possibilidades está se abrindo para o desenvolvimento de


estratégias de reabilitação física e cognitiva a partir da noção de plasticidade
neuronal. Do mesmo modo, a comunidade "psi" também vem estabelecendo um
novo diálogo com a neurociência após o boom proporcionado pelo conhecimento
neuroplástico. Um bom exemplo disso é a criação de uma nova área de estudo,
chamada neuropsicanálise. Outros pesquisadores se interessaram pelo poder
transformador das práticas contemplativas e a literatura especializada já oferece
inúmeros exemplos de modificação da estrutura cerebral provocada pela
meditação. Também no campo artístico, estudos vêm demonstrando relações
explícitas entre o ato de tocar um instrumento, por exemplo, e o aumento de
conexões neuronais em determinadas zonas cerebrais. Também já evidenciaram
o poder da imaginação na aceleração de processos de aprendizagem.

Podemos então afirmar que o conhecimento neurocientífico rompeu com as


paredes dos laboratórios para abordar questões mais complexas do cenário
humano, como a criatividade e a espiritualidade, por exemplo, sempre com o
objetivo de resolver o chamado body-mind problem. A interdisciplinaridade vem,
deste modo, se desenvolvendo de modo bastante positivo: médicos, psicólogos,
artistas, mestres espirituais, físicos, antropólogos, entre outros, estão cada vez
mais abertos ao diálogo e dispostos a construir uma visão múltipla e integrada do
ser humano.

Poderíamos descrever aqui variadas formas de aplicação do conhecimento


neuroplástico nos mais diversos campos de atuação. No entanto, no contexto do
presente texto, o mais importante é colocar em evidência os benefícios que a
neurociência vem trazendo para a área da educação. O neurocientista Roberto
Lent, que há algum tempo vem investindo neste diálogo entre a pedagogia e a
neurociência, chama atenção para a importância da atividade física, do sono, da
repetição (relembrança do conteúdo) e das emoções para a ativação dos
processos neuroplásticos. Sabe-se que a atividade física é indutora de formação
de novos neurônios (neurogênese). Sobre o sono, Lent afirma que "o
desempenho humano em diferentes tarefas cognitivas é melhor após o sono,
assim como as competências socioemocionais como a inspiração e a criatividade."
Acrescento a esta lista o fato da neuroplasticidade necessitar de um nível de
atenção elevado para se manifestar, além de uma alimentação equilibrada.

No que concerne as emoções, pesquisas já demonstraram que, quando o


aprendizado vem acompanhado de emoções de valência positiva, a assimilação
daquilo que o sujeito está aprendendo é mais eficaz. Além disso, o estresse está
intimamente associado à produção de cortisol, hormônio que tem a capacidade
de destruir a célula nervosa. Neste sentido, o papel do educador é de crucial
importância, pois já não basta a criação de estratégias pedagógicas sofisticadas. É
preciso uma tomada de consciência sobre a importância do afeto e da ludicidade
no cenário escolar, além da garantia de um ambiente emocionalmente positivo,
sem estresses. Bulllying, assédios, broncas, desqualificação do aluno, punições,
tudo isso apenas favorece a produção de cortisol e o gatilho de emoções de
valência negativa.

O trabalho de educação emocional através da criação e manipulação de bonecos


reúne uma série de fatores que são facilitadores da neuroplasticidade. Além do
prazer associado a uma tarefa extremamente lúdica e de forte caráter sensorial, a
criação de bonecos solicita da criança um esforço cognitivo, aumentando sua
capacidade atentiva. Além de oferecer um escape estético para suas próprias
ebulições internas, o trabalho manual, artístico e relacional proporcionado pelo
teatro abre espaço para o desenvolvimento de novas formas de ser, de estar e de
se relacionar com o outro e com o mundo. A arte é fundamental ao ser humano e
deveria ter a sua justa valorização no ambiente escolar e terapêutico.
O Cérebro Mágico: nosso primeiro terapeuta

Vigostski, em seu livro Imaginação e Criação na Infância, diz que "a imaginação,
base de toda atividade criadora, manifesta-se, sem dúvida, em todos os campos
da vida cultural, tornando também possível a criação artística, a científica e a
técnica." Mas podemos ir além e dizer que a imaginação é uma atividade
encarnada e com função adaptativa, ou seja, de encontrar um equilíbrio psicfísico.
Esta é a visão de um neurocientista francês, Rolland Jouvent, criador do incrível
conceito de "Cérebro Mágico".

O Cérebro Mágico, tal como descrito por Jouvent,  é responsável pela nossa
capacidade de produzir prazer psíquico e deve ser considerado nosso primeiro
terapeuta. Quem nunca entrou no mundo maravilhoso do devaneio quando em
situação desagradável como, por exemplo, uma reunião chata de trabalho? Quem
nunca sentiu prazer ao imaginar o encontro com uma pessoa amada? Assim,
pode-ser dizer que o Cérebro Mágico representa nossa capacidade de criar uma
realidade à parte, mais prazerosa, uma espécie de auto-recompensa, um banho
de dopamina! Sim, estamos aqui tratando do trabalho conjunto realizado entre o
neocórtex e o sistema de recompensa (circuito cerebral do prazer). E a nossa
imaginação, motor por excelência do Cérebro Mágico, é uma atividade encarnada
e de potencial comprovado, inclusive, nos processos de aprendizado.
De acordo com outro neurocientista
francês, Marc Jeannerod, o ato de imaginar
mobiliza grupos de células nervosas que
também se ativam quando realizam de fato
a mesma atividade imaginada. As
implicações dessas evidências científicas são
enormes para quem trabalha com arte-
educação ou arte-terapia. Imaginar é ver. 
Imaginar é fazer. Imaginar é operar
modificações estruturais em nossa rede
neural. Resumindo, a imaginação é um
instrumento real e objetivo de
transformação!

Em relação às artes cênicas, podemos já inferir o valor inestimável da imaginação


e da atuação do sistema de recompensa para a concretização de um projeto
artístico, pedagógico e/ou terapêutico. A atuação do Cérebro Mágico, aliado ao
poder integrador proporcionado pela prática teatral, faz desta modalidade
artística uma infinita fonte de prazer e de aprendizado sobre novas possibilidades
comportamentais. Há, no meio teatral, um jargão que diz que "o teatro é uma
cachaça". Uma forma popular de dizer que fazer teatro torna-se uma necessidade,
mas uma necessidade comandada pelo prazer - sustentado por toda uma série de
reações bioquímicas - que o indivíduo sente quando está completamente imerso
nessa outra realidade de natureza quimérica. O teatro, ao produzir sensação de
bem-estar, planta aquela sementinha do "eu quero mais". Eu diria então que o
teatro é uma dopamina! A consumir sem moderação!
Neurônios-espelho e comunicação emocional

A descoberta dos neurônios-espelho abriu um campo de novas possibilidades para


a compreensão dos mecanismos de aprendizagem por imitação e também do
fenômeno emocional. Basicamente, os neurônios-espelho, descobertos em 1996
pelo neurocientista italiano Giacomo Rizzolatti, são uma classe de células nervosas
com propriedades visuo-motoras que garantem a compreensão direta - sem a
mediação das instâncias cognitivas - de ações e comportamentos. Seria mais ou
menos uma espécie de comunicação cérebro-cérebro, um diálogo compartilhado
no nível neurobiológico, sem a interferência de pensamentos ou qualquer outra
forma de análise cognitiva da situação vivenciada.

Sob o ponto de vista do estudo das emoções, os neurônios-espelho também


permitem uma compreensão direta do estado emocional do outro e estaria na
base do que chamamos de empatia. Outras pesquisas apontam possíveis
"defeitos" neste grupo de células em pessoas do Transtorno do Espectro Autista,
explicando assim as dificuldades destes indivíduos no reconhecimento das
emoções. Dentro deste contexto, a educação emocional através do teatro (com ou
sem bonecos!) representa uma ferramenta de extremo valor não somente no
campo educacional, mas também no domínio da psicoterapia.

Um outro aspecto também relacionado com os neurônios-espelho diz respeito à


capacidade humana para a imitação. Estudos indicam a participação deste grupo
de células nervosas na pré-disposição para o aprendizado por imitação. Exemplo
disto é a habilidade de recém-nascidos de interagirem rapidamente com rostos que
habitam seu campo visual, imitando mímicas faciais (fazer careta, abrir a boca...).
Agora, se a imitação é um dom natural sustentado por um sistema neurobiológico,
reflita sobre o poder da prática teatral para o desenvolvimento humano!

De fato, a arte teatral tem por origem a prática de rituais, forma estético-religiosa
de natureza extremamente complexa e na qual a imitação (de deuses, de animais,
de entidades...) desempenha um papel de destaque. Neste ponto, gostaria de
lembrar que em sua obra mais recente - A estranha ordem das coisas: As origens
biológicas dos sentimentos e da cultura - Antonio Damasio diz:

"Os seres humanos, em sua necessidade de lidar com


o coração em conflito, em seu desejo de conciliar as
contradições advindas do sofrimento, do medo e da
raiva com a busca do bem-estar, entregaram-se a
conjeturas e deslumbramentos, descobrindo, assim,
como fazer música, dança pintura e literatura."

Com esssa afirmação, Damasio chama atenção para dois aspectos fundamentais
da prática artística, cujas dimensões neurobiológicas são agora compreendidas: a
necessidade de expressão criativa e de busca do equilíbrio psicofísico
(homeostasia). Pense agora no valor adaptativo e terapêutico da prática teatral,
cujo valor homeostático (ou integrativo) é máximo pelo simples fato de mobilizar
todas as faculdades humanas (motricidade, cognição, emoção, percepção
sensorial, atenção, memória, fala, expressão verbal e não verbal etc.)... Ainda
podemos ir além em defesa do uso do teatro como instrumento de educação
emocional: a imaginação, recurso fundador de toda prática artística, também
possui por substrato biológico os neurônios-espelho. Segundo Marc Jeannerod,
que em 1994 já havia demonstrado que a imaginação e a execução de um mesmo
ato motor possuem um mesmo substrato neural, fala da importância da
representação motora interna para explicar os mecanismos de aprendizagem
vinculados ao sistema de neurônios-espelho. Como já havia afirmado
anteriormente, imaginar é uma atividade encarnada, imaginar é ver, imaginar é
fazer! Desta constatação podemos então deduzir as inúmeras vantagens do teatro
para a criação de estratégias lúdicas de educação emocional, favorecendo a
construção de um mundo com mais empatia, mais respeito e mais inclusão.

Agora vamos imaginar o que acontece no caso do trabalho com teatro de


bonecos, considerando todas as suas etapas, indo da imaginação do avatar
(personagem) até a sua manipulação dentro de um espaço cênico. Em sua fase
inicial, a atividade imaginativa é formalizada através do desenho, mobilizando
diversos conteúdos internos e estimulando a capacidade criativa. Se o instrutor
solicitar que este avatar expresse alguma emoção, podemos dizer que o
personagem será fruto de uma história pessoal, de uma experiência vivida, de um
dado biográfico singular. A simples escolha de uma emoção para o avatar em
construção já é bastante significativa do ponto de vista subjetivo e afetivo. Mas o
instrutor pode ir além e pedir que esta emoção esteja associada a um contexto,
que tenha um motivo: "Por que teu avatar está com medo?" Tal escolha também
já é justificativa para discussão sobre o significado e função das emoções: "O que
você entende por medo? Por que nós sentimos medo? E por aí vai...
Na segunda etapa, a construção do boneco propriamente dita, são inúmeras as
potencialidades da criança que entram em ação: estamos falando não somente de
imaginação e de criatividade, mas também de propriocepção, de concentração, de
organização dos conteúdos subjetivos associados ao avatar, de valorização
pessoal, de aumento de autoestima, de prazer estético, de desenvolvimento
motor, para citar os mais evidentes. 

Na terceira etapa do trabalho, que pode ser realizada individualmente ou em


grupo, o que prevalece é a relação. Explico. Ao improvisar uma cena, por exemplo,
a criança vai estabelecer uma relação com o boneco, que se tornará uma
extensão do seu "eu". Emprestará sua voz, sua subjetividade, seu afeto para fazer
o boneco se expressar. Mas, através da atuação boneco-boneco, também entrará
em relação com o outro, com que dividirá o espaço cênico. E, além disso, há
também a relação boneco-manipulador-espectador, o que torna o jogo cênico em
palco para uma complexa e incrível aventura no campo estético, espacial e
emocional. Voltaremos a falar sobre este tema no Capítulo 5, onde você também
encontrará dicas sobre o preparo psicofísico para o jogo cênico e como realizar a 
improvisação com bonecos. Por ora, estou apenas apontando os inúmeros
benefícios do uso do teatro de bonecos como instrumento de educação
emocional da criança.
CAPÍTULO 2
As emoções humanas

Definição e função das emoções

Todos nós sabemos, em maior ou menor grau, o que é uma emoção. Ao longo da
história ocidental, várias foram as tentativas de explicar o fenômeno emocional,
partindo da teoria humoral de Hipócrates, na Grécia Antiga, até o advento do
estudo científico das emoções, iniciado por Duchenne de Bologne, inspirador de
Charles Darwin. Fato é que, desde o final do século XIX, o olhar acadêmico sobre
as emoções sofreu uma bifurcação: de um lado, as correntes "psi", a partir dos
escritos de Freud, buscaram explicações para os eventos emocionais apartadas
da biologia. Por outro lado, com William James e seu famoso artigo What is an
emotion?, e seguindo a trilha do evolucionismo, aquilo que viria a se desenvolver
como a neurociência das emoções deu sua largada inicial. Hoje, com o
cruzamento das diferentes disciplinas, de diferentes áreas do saber, vemos brotar
uma crítica ao modelo dualista consolidado por René Descartes. Graças à
valorização da interdisciplinaridade - que inclui também a participação do saber
oriental - estamos sendo testemunhas do surgimento de uma nova corrente de
pensamento que tem por proposta uma visão mais sensível, integrativa e
inclusiva da condição humana.

Nas fotos ao lado, vemos


Duchenne de Boulogne aplicando
uma pequena descarga elétrica
(totalmente indolor) em seu
voluntário visando identificar os
músculos envolvidos na expressão
facial de diversas emoções. O
resultado deste incrível trabalho
está disponível no link a seguir:
https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bp
t6k5699210s.texteImage
Em um estudo realizado em 1981, Kleinginna & Kleinginna analisaram 92
diferentes definições da palavra emoção e produziram um resumo que abarcou
as diversas fontes pesquisadas:

« As emoções são o resultado da interação de fatores subjetivos e


objetivos, realizados por sistemas neuronais ou endócrinos,
podendo: a) induzir experiências tais como o sentimento de vigília, de
prazer ou de desprazer; b) gerar processos cognitivos tais como
reorientações pertinentes no plano perceptivo, avaliações,
categorizações; c) ativar ajustamentos fisiológicos globais; d) induzir
comportamentos que são, geralmente, expressivos, dirigidos a um
objetivo e adaptativos. » (Tradução minha)

Em primeiro lugar, o que salta aos olhos é a complexidade da definição proposta.


E não poderia ser diferente. As emoções são respostas multimodais, contendo
elementos de natureza fisiológica, comportamental, cognitiva/perceptiva e
expressiva. São também respostas motivadas por processos adaptativos. o que
equivale dizer que o fenômeno emocional possui valor homeostático (equilíbrio).
Assim, pode-se dizer que as emoções não são genuinamente ruins (apesar de
muitas delas serem percebidas negativamente pelo indivíduo), mas mecanismos
necessários - e úteis! - à sobrevivência e à perpetuação das espécies.

Os componentes das emoções

Para facilitar o entendimento, podemos dizer que toda emoção possui quatro
componentes: componente fisiológico; componente expressivo; componente
comportamental e componente cognitivo (ou subjetivo). Abordarei cada um
desses componentes individualmente, mas por mera questão didática,
procurando sempre lembrar que uma emoção verdadeira jamais se apresenta
apenas sob a ótica de apenas um ou dois desses componentes.

Respostas

Fisiológicas

Respostas Respostas
Emoção
Cognitivas Expressivas

Respostas

Comportamentais
Respostas Fisiológicas

Imagine que você está caminhando tranquilamente em uma floresta e, de


repente, algo em forma de uma cobra cai do alto bem na sua frente. Muito
provavelmente, como mecanismo de preparação para a sobrevivência, você
sentirá teu coração disparar, sua respiração se intensificar, suas pupilas
aumentarão, teus olhos ficarão arregalados e teu corpo (sim, teu corpo!) dará um
pulo para trás. Na sequência, você se dará conta de que foi apenas um galho que
caiu da árvore. Após o tratamento cognitivo da situação vivida, você já estará
sentindo um alívio e o coração já começará a se acalmar. Foi apenas um alarme
falso. Um susto, talvez.

Observe que, de maneira muito rápida e absolutamente involuntária, o corpo


nesta situação simulada começou a se expressar e a se preparar para uma
possível fuga. Vemos, aqui, um pequeno exemplo da função adaptativa da
emoção e da busca da tão almejada homeostasia. As manifestações fisiológicas,
aqui bem exemplificadas, são acionadas de forma absolutamente automática e
não consciente, tudo para aumentar as chances de sobrevivência. Nestes
momentos, não há tempo a perder! Pupila dilatada, coração bombando com
força, tremores, sudorese, boca seca, todas esses eventos constituem, no caso
apresentado, a assinatura fisiológica do medo.

É importante ressaltar que cada uma das emoções primárias - isto é, as emoções
inatas e universais, presentes em todas as culturas - possuem uma assinatura
fisiológica e expressiva, o que torna mas fácil o estudo das emoções e mais eficaz
o trabalho sobre o fenômeno emocional. De maneira geral, a literatura
especializada reconhece seis emoções primárias: medo, raiva, tristeza, alegria,
aversão e surpresa. Debates recentes vem questionando a surpresa como uma
emoção primária e também propondo o desprezo como uma possibilidade a mais
nesta classificação. Já as emoções secundárias formam-se culturalmente. Como
exemplos temos: vergonha, culpa, etc.
Respostas Expressivas

Imagine agora que você acabou de acordar, abriu a geladeira e pegou um copo de
leite. Ao entrar em contato com o líquido, seu corpo (sim, o seu corpo!) percebeu
que o mesmo estava estragado. Imediatamente você descarta aquele conteúdo,
mas não sem já estar expressando, involuntariamente, o nojo provocado por
aquele estímulo aversivo. Mais uma vez, é a natureza te protegendo, evitando a
ingestão de um alimento potencialmente perigoso para o seu equilíbrio
(homeostasia). Caso houvesse alguém ao teu lado observando a sua reação,
entenderia, imediatamente, a mensagem de alerta que tua expressão facial estava
comunicando: "Não beba isto, não será bom para a sua saúde!". Eis um exemplo
do valor comunicativo das emoções!

Tal como ocorre em relação à fisiologia, as emoções primárias também possuem a


sua assinatura expressiva, como podemos observar na figura abaixo:

Nesta figura podemos identificar diferentes posições das sobrancelhas, diferentes


formas de abertura dos olhos e da boca, diferentes linhas desenhadas no rosto e
na testa. Mas, apesar de serem inatas e universais, tais expressões são passíveis
de modulação. Isto significa que o ser humano pode, através da manipulação
voluntária de determinados grupos musculares, modificar a configuração da
expressão facial e, deste modo, tentar dissimular seu verdadeiro estado afetivo.
Estou me referindo aqui às macroexpressões faciais das emoções primárias.
Acontece, porém, que além das macroexpressões, as emoções primárias também
mobilizam outros grupos musculares que, diferentemente das macroexpressões,
não podem ser acionados através da vontade. As microexpressões são, assim,
detentoras da "verdade emocional" e, por este fato, são muito estudadas por
entidades interessadas na detecção de mentiras. Este jogo entre macro e
microexpressões faciais é o que vai determinar se uma emoção é verdadeira ou
simulada. Fato de extrema importância para certas categorias de profissionais,
como os artistas performáticos.
As microexpressões são manifestações muito rápidas, de modo que sua justa
percepção pode exigir certo treinamento. O estudo científico das emoções vem
avançando consideravelmente e hoje já temos até programas computacionais
capazes de detectar a presença de macro e microexpressões. O uso da tecnologia
em projetos de educação emocional pode ser bastante interessante e gerar
significativa motivação nos alunos, mas exige também uma responsabilidade ética
no seu manuseio. A imagem abaixo ilustra a análise computacional de uma
performance que eu desenvolvi, registrei e analisei durante uma pesquisa sobre
treinamento do ator e neurociência das emoções:

Além das expressões faciais, temos também outras formas de comunicação não-
verbal que sinalizam (e assinam!) diferentes estados emocionais. As posturas
corporais, o grau de tonalidade muscular, o padrão respiratório e as entonações
vocais são também importantes aspectos a serem considerados no estudo das
emoções e também em todo programa de educação emocional que se deseje
implementar.

As expressões das emoções possuem


obviamente um substrato fisiológico. Porém,
estamos aqui falando de fenômenos que podem
ser modulados, isto é, controlados pela volição,
que não estão exclusivamente sob o comando
do sistema nervoso autônomo. E isto é de
extrema importância na medida em que a
execução de um padrão muscular (face e corpo), 
alidada à uma forma específica de respiração é
capaz de induzir respostas emocionais
verdadeiras. Ou seja: através da macroexpressão
podemos chegar às microexpressões das
emoções, mobilizando processos neuroplásticos
que garantirão o aprendizado e a mudança de
padrões comportamentais, cognitivos e afetivos.
Respostas Comportamentais

Quando um determinado estímulo emocionalmente competente, geralmente


vindo do meio ambiente e captado pelo sistema sensorial, chega até nosso
cérebro, uma série de reações bioquímicas são acionadas, gerando respostas
fisiológicas e expressivas. Tudo isso prepara nosso corpo para uma ação. As
respostas comportamentais podem então ser representadas por verbos: correr,
cair, atacar, chorar, rir, abraçar, pular... Tudo aquilo que fazemos em decorrência
destes fenômenos bioquímicos e motores definem o componente
comportamental das emoções.

As respostas comportamentais associadas às emoções não são apenas


consequência passiva dos estados afetivos. É preciso considerar a história de vida
do sujeito, suas vivências positivas e negativas, sua biografia. Se alguns
comportamentos são automáticos e involuntários (experimente, tal como Darwin,
permanecer imóvel diante do ataque de uma cobra, mesmo que você esteja em
situação de proteção), outros podem ser aprendidos e condicionados através da
experiência.

Pelo fato dos componentes das emoções agirem de forma integrada, em espiral,
muitas vezes uma ação pode desencadear respostas emocionais específicas. Isto é
muito usado no teatro através do Método das Ações Físicas, criado pelo
encenador russo Constantin Stanislavski. Partindo da convicção (hoje
questionável!) de que as respostas emocionais não obedecem ao comando
volitivo, Stanislavski orientava seus atores a focarem a atenção e a imaginação nas
ações físicas. As emoções, se surgissem, seriam apenas consequência imprevisível
de tais ações.

Hoje sabemos que, embora o controle das emoções estejam sob o domínio de
forças não conscientes ou implícitos, a execução de padrões respiratórios e
motores (expressões faciais, posturas corporais) são capazes de desencadear
respostas emocionais de maneira rápida e objetiva.
Respostas Cognitivas (ou Subjetivas)

Não é raro uma pessoa falar de sentimento para designar processos emocionais.
No entanto, a partir dos estudos de Antonio Damasio sobre as emoções, a
literatura especializada passou a enfatizar a diferença entre os dois conceitos. Um
sentimento é aquilo que resulta na mente, na subjetividade do indivíduo, a partir
da percepção que ele tem das modificações sofridas em seu corpo quando uma
emoção se manifesta. Ou seja, um sentimento é a avaliação cognitiva dos efeitos
físicos percebidos durante uma emoção.

Para entender melhor a diferença entre emoção e sentimento, darei aqui um


exemplo muito simples. Imagine que você está numa festa e, de repente,
encontra um ex-amor. Neste momento, teu corpo começa a mandar alguns
sinais: papo vai, papo vem e você começa a perceber algumas mudanças em seu
organismo: o coração dispara, a respiração fica ofegante, as pernas tremem, a
boca resseca... A pessoa te cumprimenta com um sorriso. Você fica paralisada,
não sabe o que dizer. Em seguida, pode ser que você pense: "Ainda sinto algo por
essa pessoa". Ou: "Acho que ainda amo essa pessoa." Daí por diante, muitas são
as possibilidades cognitivas e comportamentais. Este pensamento pode, por
exemplo, causar um mal-estar, um sentimento de culpa: "Como posso sentir isso,
sofri tanto!". O fim desta trama, não sabemos. Vai depender de inúmeras
variáveis e da história de vida de cada um.

O importante aqui é chamar atenção para a diferença entre emoção e


sentimento. O sentimento, considerado uma avaliação cognitiva/subjetiva das
mudanças sofridas pelo corpo, é parte constituinte do fenômeno emocional e não
algo distinto ou independente das emoções. E ainda bem! Graças aos
sentimentos podemos desfrutar das maravilhas produzidas pelas artes! Também
é de fundamental importância sublinhar o papel da resposta cognitiva sobre o
destino de uma determinada resposta emocional: dependendo da avaliação
realizada, a emoção pode ser atenuada, intensificada ou completamente
modificada!
Tente agora refletir sobre a importância deste
aspecto das emoções no teatro! Aquilo que os
atores chamam de sub-texto (voz interna do
personagem produzida pelo ator) é um instrumento
de extremo valor para a manutenção da presença
cênica, do seu foco durante uma representação
teatral. Essa voz interna, que pode ser produzida a
partir de dados da própria biografia do ator ou
totalmente criada pelas vias imaginativas, exerce
uma força imensa sobre o trabalho emocional do
artista. Lembre-se: imaginar é ver!

Assim, sempre que o assunto for emoção, procure aborda-la sob estes quatro
enfoques: fisiológico, expressivo, comportamental e cognitivo. Sem esquecer que
todos estes componentes se auto-influenciam em função da complexa rede
neural responsável pela regulação das emoções.
CAPÍTULO 3
Eficácia Teatral e Neuroeducação

Por uma educação do sensível

Neste início de milênio, somos testemunha de um verdadeiro boom do


conhecimento neurocientífico. De fato, com o extraordinário avanço da tecnologia
de neuroimagem, neurocientistas começaram a observar em tempo real o
funcionamento do cérebro, abrindo novas frentes de investigação sobre o
comportamento humano. Pode-se dizer que a neurociência rompeu com as
paredes dos laboratórios para dialogar com outras disciplinas, buscando também
incluir em seus protocolos experimentais questões de maiores complexidade como
a criatividade e a espiritualidade, explicitando um nítido interesse pela superação
do body-mind problem (problema corpo-mente).

Costuma-se citar o nome de René Descartes quando o assunto é dualismo (corpo-


mente, razão-emoção, indivíduo-coletividade etc.). No entanto, o processo de
fragmentação da existência humana tem sua origem na objetificação do corpo na
época da Grécia Antiga. O cartesianismo, aliado à secularização e ao
desenvolvimento da ciência, representou o apogeu da separação entre corpo e
espírito. Isso teve um impacto gritante para o avanço da ciência, que passou a
operar sobre o corpo e as coisas sem a interferência da Igreja. A segmentação do
saber, a corrida pela especialização e a construção do olhar médico focado na
doença em detrimento do sujeito doente e a divisão do aparelho psíquico pela
psicanálise foram algumas das consequências que acabaram reforçando o
pensamento dualista no Ocidente.

Hoje vivemos ainda um outro fenômeno que é o da globalização e a invasão de


dispositivos tecnológicos no cotidiano do indivíduo contemporâneo. Por um lado,
o acesso ao conhecimento se democratizou, vozes caladas começaram a
encontrar ecos, filas dos bancos diminuíram, a comunicação se sofisticou. Por
outro, o uso massivo da tecnologia já está apresentando seus efeitos negativos
sobre a saúde física e mental do usuário: adicção na infância, sedentarismo,
hiperestimulação visual, síndrome do pensamento acelerado, entre outros.

Além disso, percebemos que,


cada vez mais, a máquina
está atuando como
intermediador das relações
humanas. Neste cenário de
muito estímulo visual e
tratamento exagerado de
informações, aquilo que se
conhece como "experiência"
vem perdendo espaço na
vida das pessoas.
A palavra "experiência" vem do latim experiri, que significa provar, experimentar.
O radical periri vem de periculum, que corresponde a perigo. A noção de
experiência, portanto, está associada a uma condição perigosa, um ato de risco,
uma situação ameaçadora. De fato, o medo que decorre da vivência de novas
experiências, do lidar com o que é da ordem do desconhecido, é algo que
compreendemos bem. Ir a um lugar que não conhecemos, falar em público,
encarar uma plateia de teatro, gravar um vídeo são algumas das situações que
podem desencadear o circuito do medo. E este é um fenômeno natural: trata-se
de respostas orgânicas que visam manter a integridade do indivíduo e a
manutenção da espécie. Homeostasia.

A experiência é fruto da interação perceptiva


do sujeito com o meio ambiente. É através dos
sentidos que exploramos e conhecemos o
mundo, que trocamos afeto, que
aprofundamos uma relação, que sentimos
prazer e que podemos apreciar obras de arte. E
é justamente no desejo de resgatar o sentido e
o valor da experiência que uma nova
epistemologia vem, pouco a pouco, disputando
espaço com a velha dicotomia cartesiana: a
educação do sensível.

Calcado em uma visão não reducionista, a educação do sensível considera o ser


humano em sua integralidade - intelecto, emoções, etnia, fisiologia, crenças,
sensorialidade, desejos etc -, tendo por meta a superação da educação bancária
(que prioriza o acúmulo de conhecimento), a prática da transdisciplinaridade e a
consolidação de uma relação não hierarquizada entre o educador e o educando.
E, dentro deste contexto, as artes ocupam evidentemente um lugar de destaque.
Sendo a expressão formal de conteúdos internos, como uma espécie de
organização do caos, a obra de arte reúne em si o visível e o invisível, o profano e
o sagrado, o concreto e o abstrato. Meter as mãos na massa para fazer arte é, no
sentido mais sublime da palavra, uma experiência riquíssima. Não seria exagero
afirmar que a arte é, por assim dizer, o instrumento por excelência da educação
do sensível.
No entanto, é preciso estar atento
para algumas armadilhas. Sabe-se
que o aprendizado é mais eficaz
quando acompanhado de emoções
de valência positiva. Aprendemos
melhor e mais rápido quando o
ambiente é promovedor de bem-
estar e o educador um facilitador do
afeto. Em outras palavras, não basta
fazer arte em sala de aula: é preciso
investir na relação! O foco de
trabalho deve estar no processo de
criação, na condução do programa
pedagógico e não no produto em si.
Um novo campo de pesquisa vem enriquecendo de maneira ímpar o universo
pedagógico. Trata-se da neuroeducação, cujos debates em torno da relação entre
aprendizado, emoção e neuroplasticidade apenas tem contribuído para a
consolidação de formas mais sensíveis do ato de ensinar. Vamos então falar um
pouquinho mais sobre a neurociência aplicada à educação e, mais
especificamente, à educação emocional.

Estudos sobre a neuroplasticidade já evidenciaram alguns fatores que podem ser


facilitadores e/ou entraves aos processos neuroplásticos, o que torna urgente a
discussão em torno daquilo que, no meio educacional, pode contribuir ou não
para o aprendizado. Vale repetir que a neurociência já demonstrou que emoções
de valência negativa, comprometem diretamente o funcionamento das células
nervosas. Lembre: o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, é
extremamente nocivo ao tecido nervoso, podendo levar à destruição de
neurônios. Este fato por si só já deveria engajar mudanças drásticas na formação
de professores e no manejo dos conteúdos em sala de aula. Cada vez mais
ouvimos falar da importância da educação emocional em ambiente escolar e de
desenvolver estratégias de ensino capazes de desenvolver a empatia entre os
alunos e também de promover habilidades socioemocionais, principalmente
quando o assunto são crianças do Transtorno do Espectro Autista. Em suma, faz-
se necessária também a capacitação dos docentes a este respeito. 

Trabalhar as emoções através do teatro de bonecos apresenta, sob o ponto de


vista do fenômeno da neuroplasticidade, diversos benefícios. Primeiramente,
trata-se de uma atividade lúdica e que pode - aliás, deve! - ser feita em grupo. O
prazer sensorial de "colocar a mão na massa", o sentimento de liberdade que o
ato criativo provoca, o prazer de ver o nascimento do avatar em forma
tridimensional, o encanto de enxergar "vida" no boneco, tudo isso é capaz de
gerar emoções de valência positiva, abrindo espaço para processos de
aprendizagem eficazes e duradouros.

Também já foi dito que um dos mais importantes


 
motores da neuroplasticidade é um estado de
atenção significativo. Esta é, sem dúvida, um dos
maiores ganhos do trabalho de confecção de
bonecos. Desenhar, modelar, pintar, observar
detalhes, trabalhar a motricidade fina, todas essas
atividades elevam o grau de atenção da criança.
Consequentemente, o aprendizado em torno das
emoções através dessa prática não poderia ser mais
eficaz! Ao determinar a posição da sobrancelha, o
formato do nariz ou da boca, enfim, ao representar
concretamente uma determinada emoção no avatar,
a criança não somente exercita sua atenção como
vai internalizando as características expressivas das
emoções. E, ao reconhecer a emoção escolhida no
semblante do avatar, abre-se espaço para a
satisfação pessoal, a autoestima, a alegria!
Efeitos terapêuticos da prática teatral

A discussão em torno do poder transformador do teatro é bastante antiga. Basta


lembrar o conceito de catarse cunhado por Aristóteles para explicar os efeitos
emocionais associados à poesia trágica. Também não é à toa que o teatro é
considerado uma potente ferramenta política: Brecht, Piscator, Boal
demonstraram, na teoria e na prática, como o teatro pode induzir mudanças em
padrões de pensamento e de comportamento. Já Artaud, na imersão de seu
próprio sofrimento psíquico, defendeu o teatro como uma prática capaz de
promover a integração do sujeito. E de seus duplos.

A prática teatral também foi


absorvida pelo universo
psicoterapêutico e temos no
psicodrama de Moreno um dos
maiores exemplos disso. Com a
reforma psiquiátrica, o teatro invadiu
o campo da atenção psicossocial.
Muitos trabalhos também relatam os
benefícios do uso desta ferramenta
em presídios e tantos outros
apontam resultados positivos no
tratamento de pessoas autistas.
Inclusive, há ainda quem trabalhe
com a hipótese de que a prática do
teatro é capaz de reativar neurônios-
espelho em indivíduos com
Antonin Artaud
Transtorno do Espectro Autista!.

Basicamente, existem duas vertentes do uso terapêutico do teatro. A primeira


delas parte dos conflitos e/ou questões subjetivas do sujeito e lançam mão da
dramatização destes conteúdos biográficos. O psicodrama é o maior exemplo
desta prática, principalmente depois que a psicanálise desenvolveu o psicodrama
psicanalítico. A segunda forma de uso terapêutico do teatro é representada pelos
defensores do teatroterapia ou dramaterapia. Este é o caso do trabalho realizado
por Sue Jennings, na Inglaterra. Aqui, parte-se do princípio de que a prática teatral,
por seu caráter integrativo, é "naturalmente" terapêutica. Aqui, o teatro não é
visto como uma terapia propriamente dita, mas uma prática estética com efeitos
terapêuticos explícitos na qual os conteúdos internos podem ser elaboradas de
maneira indireta.

Toda obra artística é simbólica, isto é, sua forma é resultado de conteúdos


humanos: desejos, conflitos, pulsões, ideias conscientes e mobilizações do
inconsciente. Apolo e Dionísio. Organização do caos. Expressão visível do invisível,
do indizível. Que estas facetas da existência humana sejam trabalhadas de forma
direta ou indireta através da prática teatral, talvez importe pouco. O fundamental
é o reconhecimento do poder transformador da arte e de sua importância para o
desenvolvimento humano. Na escola, no consultório, na vida.
Abordar o tema das emoções através do teatro de bonecos apresenta algumas
vantagens do ponto de vista da transformação humana. O processo de
elaboração de conteúdos internos é realizado em todas as suas etapas: da
imaginação do avatar (que deve apresentar alguma emoção escolhida
previamente) até a sua manipulação no contexto do jogo cênico (onde o avatar irá
atuar em concordância com a emoção apresentada). A emoção (ou emoções,
dependendo da quantidade de avatares) escolhida, por si só, já é material para a
construção de uma linda ponte entre o mundo interno da criança e o seu boneco.
E assim ocorre durante as diferentes etapas do trabalho: improvisação,
elaboração de dramaturgia, expressão verbal (ou não-verbal!), relação
manipulador-boneco, relação entre manipuladores, e assim por diante.

Historicamente, o teatro foi a primeira


modalidade artística a ser utilizada
explicitamente para fins terapêuticos e não
estéticos. Isto ocorreu no início do século
XIX, quando Marquês de Sade foi convidado
para dirigir espetáculos em um asilo para
doentes mentais. Segundo o arte-terapeuta
francês Jean Pierre Klein, "Sade escolhia
peças [...] e ensaiava com seus atores,
misturando profissionais da cena,
enfermeiros e loucos." Klein ainda afirma
que o uso do teatro fazia parte do que
chamavam na época de tratamento moral e
que preconizava "a comédia como meio de
curar a alienação do espírito". (Tradução
minha).

O uso terapêutico do teatro tem sido objeto de atenção principalmente das


ciências humanas e sociais e raros são os praticantes e/ou teóricos que propõem
uma visão interdisciplinar - unindo ciências da vida, humanas e sociais - sobre os
efeitos transformadores desta arte milenar. Em minha tese de doutorado - "A
experiência teatral como experiência de transformação: teatro e neurociência das
emoções" - procurei contribuir para o preenchimento desta lacuna. Neste
trabalho, identifiquei alguns aspectos transformadores do teatro, que dividirei
aqui agora com você.

Integração psicofísica

Defensores do teatro terapêutico possuem uma visão holística do ser humano e


sustentam que a clínica deve não apenas priorizar o discurso falado, como ocorre
na psicoterapia clássica, mas o corpo em sua totalidade. De fato, um dos maiores
benefícios da prática teatral é a integração psicofísica, isto é, a integração de todas
as potencialidades do sujeito: cognição, emoção, subjetividade, motricidade,
percepção sensorial etc. Este importante aspecto da transformação vinculado à
prática teatral tem correlação direta com aquilo que as ciências da vida chamam
de homeostase: a busca incessante pelo equilíbrio do organismo, aqui
considerado em seu caráter físico e mental, visível e invisível.

Walter Orioli, teatroterapeuta italiano contemporâneo, afirma: "A função


psicossomática do teatro consiste em colocar em jogo o instinto, a emoção, o
sentimento e a razão, ativando uma linguagem global, física, psíquica e mental e
evitando a divisão que muitas vezes se encontra na base de conflitos internos."
(Tradução minha). Serge Minet, teatroterapeuta belga, vai além e diz que "o teatro
desenvolve a função de reintegrar o homem ao cosmos, ao universo." (Tradução
minha). Deste modo, podemos afirmar que fazer teatro é um modo de combater
a fragmentação do ser, o dualismo cartesiano, é se aventurar em uma espécie de
caminho de volta às origens, dilatando daquilo que o filósofo Ken Wilber chama
de "espectro da consciência".

(Re)aprendizado afetivo e comportamental

No teatro, quando o ator se lança na criação de um personagem, todo seu corpo


entra em ação, explorando formas extra-cotidianas de gesticular, de falar, de se
comportar, de comunicar, de sentir e assim por diante. Em outras palavras, o
artista da cena coloca em parênteses seus próprios modelos afetivos e
comportamentais para "dar vida" a um outro ser. E não poderia ser diferente: o
instrumento de trabalho do ator é a sua própria unidade psicossomática, o seu
próprio corpo.

Personagens da Commedia Dell'Arte

Neste processo de construção de um personagem, o ator toma consciência de si,


de seus próprios limites e possibilidades, ao mesmo tempo em que assimila novos
modelos posturais, comportamentais, cognitivos e afetivos. Mas, antes que essa
construção seja possível, faz-se necessário um trabalho de desconstrução (mesmo
que momentaneamente!) de padrões comportamentais já assimilados e
enraizados na organicidade do ator. Ou seja, ele passa por um processo de
descondicionamento, de abrindo espaço para novas formas de pensar, sentir e
agir. Sobre este tema, Minet diz que "o processo de desmecanização é por si só
fonte de enriquecimento pessoal pois ele dilata o repertório de atitudes e de
comportamentos habitualmente utilizados e, por isso, faz crescer a liberdade de
expressão no jogo." (Tradução minha)
É preciso ainda abordar um outro fator de extrema relevância: em sua pesquisa
inicial até a encenação, o artista de teatro repete, repete, repete... Ao repetir
gestos, comportamentos, atuando de acordo com um certo modelo de
pensamento e suscitando novas emoções, o ator está mergulhado em uma
experiência que engaja todas as suas potencialidades. Se pensarmos em termos
de aprendizagem (sim, o ator aprende a agir de uma determinada maneira),
podemos lançar a hipótese sobre os efeitos neuroplásticos deste tipo de
experiência sujeita a inúmeras repetições. Uma hipótese que explica, de maneira
simples e convincente, o poder libertador e transformador da prática teatral.

Atriz: Marina Betzler


Preparadora emocional: Dorys Calvert

Imersão no espaço do possível

Um palco vazio. Mil possibilidades. Situação ao mesmo tempo angustiante - medo


do vazio? - mas repleto de uma espécie de esperança: esperança de simplesmente
ser. O espaço cênico é um espaço de natureza quimérica, mágica, lúdica. É um
espaço de liberdade, onde o medo se dissipa, o prazer se multiplica e o humano
se manifesta em toda a sua plenitude. Assim define Minet: "O teatro é o tempo, o
espaço e o lugar onde tudo pode existir, onde os fenômenos mais extraordinários
podem ser produzidos" (Tradução minha). Lugar onde o corpo está receptivo, sem
defesas, sem máscaras nem pudores, pronto para viver experiências iluminadas e
engrandecedoras.
Agora pense no teatro de bonecos, onde
o manipulador tem a opção de não fazer
parte do espaço cênico de maneira
direta, permanecendo atrás de uma
estrutura qualquer. O boneco, neste
caso, torna-se uma extensão do corpo
do manipulador, que pode se expressar
em toda liberdade sem a exposição física
que, muitas vezes, inibe a criança. A
estrutura cênica, seja ela qual for,
funciona como uma espécie de proteção
à integridade física e psicoafetiva do
manipulador. Transferindo seus
conteúdos internos e se relacionando
com outros colegas e também com a
plateia, a criança pode imergir em total
sentimento de segurança neste espaço
subjetivo onde tudo é possível e onde a
magia se concretiza. Os resultados são
realmente impressionantes: minha
experiência em escolas francesas
mostrou que a manipulação dos
bonecos em ambiente seguro e afetuoso
funciona como um verdadeiro
canalizador de emoções, favorecendo o
desenvolvimento da concentração e
proporcionando um sentimento genuíno
de autoestima e satisfação pessoal.

Desenvolvimento da espontaneidade

Ser criativo é, em última instância, ser capaz de responder aos estímulos externos
de modo original, inovador e natural. Ser criativo é, de algum modo, ser plástico,
resiliente, isto é, não sucumbir ao repertório limitado das respostas automáticas
consolidadas pela experiência. Brincar com o boneco, improvisando modos de se
relacionar e criando novas formas de comportamento é uma forma de construir
esta plasticidade. Assim, a busca da espontaneidade e da criatividade são
indissociáveis do processo de reaprendizado, da capacidade de se colocar
disponível, de superar o medo do desconhecido. A prática artística não fica
confinada ao ateliê: a arte é libertadora, é fonte de conhecimento para a vida!

O desenvolvimento da espontaneidade está ligado a um trabalho de desbloqueio


do corpo e da integração psicofísica. No teatro, a dilatação da percepção sensorial,
facilitada pelo trabalho corporal e pela construção de um personagem opera
modificações na autoimagem do ator, na sua percepção do outro e do mundo.
Efeito catártico

Desde a Grécia Antiga, os efeitos do teatro sobre as emoções vem sendo tema de
debates. Ao exteriorizar conteúdos com forte carga emocional, a prática do teatro
permite uma espécie de descarga de "energia psíquica", promovendo a
homeostasia interna. O espaço teatral, esse espaço mágico e de natureza
quimérica, juntamente com o prazer que a representação cênica fornece ao ator,
não apenas atua como protetor da integridade psicofísica do ator, mas também
propicia uma experiência de fusão do ser individual com o coletivo, do homem
com seu universo.

Aqui, é preciso diferenciar emoção real da emoção cênica. Por mais que o ator
seja capaz de expressar emoções de forma completa, isto é, englobando todos os
seus componentes (fisiologia, expressão, comportamento e cognição), vivendo
intensamente no "aqui e agora" da realidade teatral, sua consciência estará
sempre em um estado dilatado. Em outras palavras, atuar é uma prática que exige
do ator a rara habilidade de ser o sujeito da ação e de ter, simultaneamente, a
capacidade de se auto-observar durante a execução de seu trabalho. Stanislavski,
citando um ator italiano, afirma: "O ator vive, chora e ri em cena e, o tempo todo,
está vigiando suas próprias lágrimas e sorrisos. É esta dupla função, este
equilíbrio entre a vida e a atuação que faz sua arte."

A esta dupla capacidade desenvolvida pelo ator, eu acrescentaria a experiência de


prazer. O ator que derrama lágrimas não está sofrendo por isso, muito pelo
contrário, sente um prazer, provavelmente produzido pela produção de dopamina
(lembra do Cérebro Mágico?), que poderíamos chamar de "prazer estético". Para
além dos risos e lágrimas, está a plena consciência que trata-se
permanentemente de um jogo, de uma brincadeira, de uma realidade outra, onde
a palavra de ordem é a alegria. Tal como uma criança que não atende os
chamados de uma mãe para tomar banho, porque não quer abandonar esse
espaço transicional do jogo, produtor de prazer, para o artista da cena atuar se
transforma em uma necessidade vital. Uma brincadeira séria. Mas sobretudo
prazerosa!

No universo do teatro de bonecos,


também é possível constatar a presença
deste fenômeno. Espécie de para-raios
das emoções do manipulador, o boneco
também permite o desenvolvimento
desta dupla percepção do ser que sente e
do ser que se percebe sentindo (no caso,
através do boneco!). Se este boneco está
deliberadamente expressando uma
emoção em seu semblante, construído
pela própria criança, a brincadeira será
ainda mais proveitosa do ponto de vista
da educação emocional. A consumir sem
moderação!
CAPÍTULO 4
Oficinas de criação

Explorando as emoções

Esta primeira etapa é de extrema importância para a posterior confecção do boneco. O


aprendizado sobre as características expressivas das emoções primárias pode ser
realizado de diversas formas. Darei aqui algumas sugestões. 

Uma excelente maneira de iniciar o processo de educação emocional é através de vídeos


que abordam as emoções humanas. E, neste sentido, nada mais lúdico do que o filme
Divertidamente, produzido pela Pixar Animation Studios. Além de fornecer dados sobre as
expressões das emoções, também coloca em evidência a importância de todos os tipos
de emoções primárias para o equilíbrio e o desenvolvimento humano.

Uma segunda sugestão é o treinamento através do desenho, o que pode ser feito
pensando já na criação do avatar. Sugiro aqui um excelente material didático para este
fim: o livro Desenhando as Emoções, publicado de forma independente por Ciências da
Cognição.

Neste livro você encontrará não


apenas uma ótima introdução à
neurociência das emoções, feita com
linguagem simples e de forma
ilustrada, mas também dicas para
desenhar as expressões emocionais.
Os autores colocam em evidência a
importância de assimilar a forma das
sobrancelhas, dos olhos e da boca
para a justa reprodução das
expressões faciais das emoções.
Também oferecem dicas de como o
aprendiz deve ordenar os elementos
constitutivos das expressões faciais
das emoções de acordo com a
anatomia da face.

Uma outra opção bastante interessante e lúdica é a fabricação de um "painel das


emoções", que pode ser feito com diversos tipos de materiais, inclusive reciclados.
Vou oferecer aqui uma demonstração, na qual utilizei os seguintes materiais:

1. Uma superfície plana em MDF redonda


2. Tinta acrílica 
3. Velcro
4. EVA (cores variadas)
5. Folha de Raio X
6. Olhos pré-fabricados (opcional)
Passo 1: Preparo da base do painel.

Aqui estou utilizando uma superfície


sólida, por ser mais duradoura. Mas, na
ausência deste material, você pode fazer
com EVA sobre papelão ou até mesmo
produzir tudo em cartolina, podendo
plastificar depois para aumentar o tempo
útil do material.

Optei aqui pela produção de um nariz


fixo, mas você também pode desenhar
um nariz para cada tipo de emoção.

Passo 2: Confecção dos elementos faciais

Uma boa ideia é pré-confeccionar as formas


das sobrancelhas, olhos e boca em uma folha
de Raio X. Por ser resistente, poderá ser
utilizado repetidas vezes. Além disso, garante
a proporcionalidade de elementos duplos,
como olhos e sobrancelhas. Depois basta
transferir para a folha (EVA, cartolina...) e
recortar.
Passo 3: Posicionamento do vecro

Sugiro o uso do velcro para que o painel possa


permanecer em posição vertical. No entanto, se isto
não for possível, você também pode usar as peças de
cartolina plastificada com um durex. EVA já é um
material mais sensível e pode ser danificado com o
uso repetido do durex (a não ser que também seja
plastificado).

Como a posição das sobrancelhas varia de


forma significativa, é necessário que o velcro da
base possua uma maior superfície. Buscando
dar um toque mais estético à base, passei tinta
no velcro destinado às sobrancelhas.

Passo 4: Retoques finais

Aqui apenas busco dar um pouco mais


de vida à base do painel. Um toque de
verniz dá um brilho todo especial!

Pronto, o Painel das Emoções está concluído! Agora é só partir para a brincadeira!
Com esse dispositivo a criança poderá fazer uma espécie de "quebra-cabeças",
utilizando as peças disponíveis para compor uma emoção no painel. À medida
que as peças vão se "encaixando" e uma dada emoção vai se materializando, a
criança vai aprendendo o valor dos diversos elementos da face na composição de
uma expressão facial.  
Estas são apenas algumas das inúmeras possibilidades de realizar o aprendizado
sobre as expressões faciais das emoções de forma lúdica. Mas é muito importante
que esta etapa seja bem realizada antes da confecção do boneco. Compreender,
por exemplo, que a sobrancelha muda sua configuração, que os dentes à mostra
também têm seu papel na comunicação emocional, que os olhos são,
emocionalmente falando, o "espelho da alma" é fundamental para a posterior
confecção do boneco.

Também é importante que após essas brincadeiras e o treinamento (através de


desenhos, observação, discussão sobre filmes ou imagens, uso do Painel das
Emoções etc.), o instrutor proponha alguma forma de transferir esse
conhecimento para o corpo. Uma sugestão bastante divertida é a adivinhação
através da mímica: a criança escolhe uma emoção e tenta expressá-la através da
manipulação da mímica facial e, porque não, através de alguma ação coerente
com a emoção escolhida. Outro exercício é propor uma frase qualquer e solicitar
que as crianças falem a mesma frase realizando diferentes mímicas faciais, isto é,
dizer uma mesma frase expressando (na voz e no rosto) as diferentes emoções.

Um ensaio fotográfico executando os padrões musculares e expressivos das


emoções primárias também é uma forma da criança exercitar em seu próprio
corpo as formas faciais das expressões, podendo depois verificar em suas
próprias imagens as diferenças na manipulação das sobrancelhas, do olhar, da
boca, etc.
Definindo o avatar

A escolha do avatar é um momento de extrema importância para o processo de


aprendizado emocional. Nesta etapa, a criança escolherá uma emoção para o seu
boneco (caso a opção seja trabalhar com um único avatar). Esta escolha, por si só,
já abre um caminho para a elaboração de conteúdos psicoafetivos do indivíduo.

Proposta um pouco mais complexa e demorada, mas muito rica, é a produção de


mais de um boneco para o mesmo avatar. Neste caso, cria-se um único
personagem, que será representado por diversas emoções (sugiro pelo menos
quatro: alegria, tristeza, dor e medo). Embora seja mais trabalhosa, a técnica do
avatar múltiplo é muito valiosa, pois a criança tem a oportunidade de assimilar de
maneira mais sólida as diferenças objetivas das diferentes emoções primárias
através da construção de várias "cabeças". Além disso, a criança, ao improvisar
uma pequena história com seu avatar, poderá fazê-lo trocar de emoção,
construindo sentidos para inúmeras situações conflituosas e desenvolvendo um
leque de possibilidades comportamentais para lidar com cada uma das emoções
apresentadas pelo boneco.

No contexto da psicoterapia, pude verificar a eficácia desta técnica e a riqueza de


material subjetivo e/ou psicoafetivo que desponta durante o jogo teatral e a
contação de histórias. A representatividade também é de extremo valor, podendo
o terapeuta construir junto com a criança um avatar múltiplo que favoreça a
identificação do pequeno paciente com o boneco.
Fabricação e manipulação dos bonecos

Chegou a hora de colocar as mãos na massa! Nesta seção vou ensinar a fabricar
dois tipos de bonecos para teatro: fantoche de luva e fantoche semi-articulado. Os
materiais utilizados são praticamente os mesmos, o que vai diferenciar é o tipo de
manipulação e a confecção do corpo do boneco. Vamos lá?!

Fantoche de luva

Material:

1. Massa de biscuit
2. Tinta acrílica à base de água
3. Verniz (opcional)
4. Tecido (sugiro feltro, pela maior
durabilidade)
5. Olhos pré-fabricados (opcional)
6. Material para os cabelos (fios em
geral ou palha de aço. Opcional)
7. EVA para confecção de acessórios
(opcional)
8. Papel reciclado (revistas, jornais)
9. Fita crepe
10. Cola
11. Espátulas para modelagem
Passo 1: Criação da base (cabeça)

O fantoche de luva, por ter sua


cabeça manipulada por apenas um
dedo (indicador), não deve ser
pesado. Por isso, seu tamanho
deve ser pequeno, já que a massa
de biscuit não é um material muito
leve (cabeças maiores podem ser
feitas com isopor). Por isso, use
apenas duas folhas de uma revista
(de tamanho padrão), ou o
equivalente em papel jornal. O
primeiro passo é amassar esse
papel com as mãos até criar uma
bolinha.

Em seguida, fixe a forma da


bolinha com papel crepe. Aqui
bastam dois pedaços, colocados
em forma de um "X"

Passo 2: Cobertura da base

Agora pegue uma porção de massa


de biscuit e, com a ajuda de um
objeto de forma cilíndrica, achate o
material, até que o mesmo tenha
aproximadamente 3mm de espessura
Coloque a bolinha de papel no centro
e cubra toda a sua superfície. Você
pode usar um pouco de água para
ajudar a uniformizar a massa e
minimizar pequenos defeitos.
Lembre-se de retirar um pouco de
massa do local onde será inserido o
dedo antes da massa secar!
Passo 3: Modelagem da cabeça

Você pode começar inserindo orelhas ou o


nariz, que servirão de guia para a inserção
dos outros elementos. Para que as peças não
caiam, espalhe bem a massa em todo
perímetro com a ajuda de uma espátula.  

Se você quiser inserir olhos pré-


fabricados, abra um espaço na base
com a espátula e cubra as bordas dos
olhos com um pouco de massa.

Para criar o nariz, faça um pequeno cone e cole na parte


mediana da base, de modo que as narinas fiquem um pouco
abaixo da borda inferior dos olhos. Para fazer as narinas,
basta introduzir uma espátula arredondada e forçar um
pouco lateralmente. O formato do nariz surge feito mágica! 

Como fizemos uma bolinha, será preciso acrescentar um


pouco de massa na parte inferior, para fabricar o queixo
do boneco. Esta manobra também será necessária para a
criação da boca. O mesmo pode ser feito na parte
superiro da cabeça, caso deseje aumentar a testa.

Para criar a forma da boca, basta


introduzir uma espátula e puxar o
canto dos lábios para cima ou
para baixo, de acordo com a
emoção desejada.

As bochechas dão um importante efeito emocional


no boneco. Faça dois pequenos cilindros e cole
prestando atenção no efeito produzido sobre o
olhar. A ponta superior do cilindro deve ser
encaixada no canto do olho. Repare como, No caso
demonstrado, a bochecha "caída" intensificou a
expressão de tristeza.
Passo 4: Criação da luva (corpo do boneco)

Deixe a cabeça do boneco tomar presa (isto


é, espere a massa de biscuit endurecer).
Depois pinte a cabeça.

É hora agora de preparar o material para


fabricar a luva (corpo do boneco). Nesta
etapa, gosto muito de trabalhar com uma
folha de Raio X, pois poderá ser utilizada para
a fabricação de outras luvas, para outros
bonecos. Na falta de Raio X, você pode usar
qualquer folha de papel ou papelão. O efeito
será absolutamente o mesmo.

Coloque sua palma da mão sobre a folha,


distanciando ao máximo o polegar do indicador.
Observe que o desenho foi feito apenas utilizando
esses dois dedos. Para realizar um corte simétrico
do Raio X, ou desenhe a outra metade (aqui usei giz)
ou dobre a folha ao meio antes de realizar o corte.

Pegue agora o tecido e dobre-o, pois assim


podemos cortar a frente e o verso ao mesmo
tempo. Fixe a folha no tecido com alfinetes. 
Não esqueça de estabelecer um local para o
corte da base da luva, para que esta não fique
nem muito curta nem muito longa. Daí é só
cortar seguindo o modelo.  Em seguida corte a
ponta da parte do dedo indicador e cole todas
as bordas, deixando livre apenas a parte
inferior, por onde entrará a mão do
manipulador.
Passo 5: Unindo corpo e cabeça

Depois que a cabeça estiver bem dura,


retire parte do papel que está no seu
interior para dar espaço para o dedo que
irá manipulá-la. Teste com o dedo e retire
o papel até encontrar a estabilidade
necessária à manipulação.

Após ajeitar o papel que sobrou em seu


interior, insira cola na cavidade. Pronto,
agora você já pode introduzir a luva,
podendo usar o próprio dedo ou algum
outro instrumental para fixar bem o
tecido no interior da cabeça.

A partir deste momento, é


hora de usar a imaginação
para criar pequenos
acessórios, acrescentar
enfeites, etc. Você também
pode confeccionar uma
pequena peruca com fios ou
palha de aço. Por fim, passe
uma camada de verniz.
Viva! Seu boneco está pronto!
Fantoche semi-articulado
O fantoche semi-articulado, como o próprio nome indica, possui uma estrutura
extra que permite uma articulação, mesmo que limitada. Embora seja um pouco
mais trabalhosa e demorada, a construção deste boneco é bastante simples. E A
seguir, a lista do material necessário:

1. Massa de biscuit
2. Tinta acrílica à base de água
3. Verniz (opcional)
4. Papel crepom (qualquer cor)
5. Olhos de plástico (opcional)
6. Material para os cabelos (fios em
geral ou palha de aço. Opcional).
7. EVA para confecção de acessórios
(opcional)
8. Papel reciclado (revistas, jornais) ou
pedaços de isopor + saco (papel ou
plástico)
9. Fita crepe
10. Cola
11. Esponja 
12. Arame (25cm)
14. Garrafa pet

Passo 1: Criação da estrutura da cabeça

Neste tipo de boneco, a cabeça ficará


sobre uma base sólida, isto é, uma
garrafa pet. Neste caso, o boneco será
um pouco maior do que o fantoche de
luva. Você poderá fazer a estrutura da
cabeça com papel e fita adesiva ou então
com um saquinho preenchido com
pedaços de isopor. Quanto maior for a
cabeça, mais pesada, de modo que o
isopor é uma boa opção caso se deseje
fazer uma cabeça maior. Os passos para
a construção do avatar e sua emoção
(aplicação da massa de biscuit e
modelagem) são os mesmos já explicados
anteriormente. Apenas é preciso deixar
um orifício em sua parte inferior com um
diâmetro maior para conseguir encaixar a
tampinha da garrafa pet
Passo 2: Confecção da estrutura do corpo

Corte duas tiras de esponja e alguns pedaços


do papel crepom, ainda enrolado. Elimine
também a base da garrafa pet, por onde a
criança introduzirá a mão e o braço para a sua
manipulação

Com algum instrumento de


ponta, realize dois furos nas
laterais superiores da garrafa
pet, na altura da localização
dos braços do boneco. Em
seguida, insira o pedaço de
arame nos dois furos,
atravessando o interior da
garrrafa.

Introduza delicadamente o arame


na esponja, tomando cuidado
para não rasgar a mesma. Vá
tateando para sentir o movimento
do arame até que este saia pela
outra extremidade. Com um
alicate de ponta fina, dobre a
ponta do arame, prendendo-o na
esponja. Antes verifique o
tamanho do braço, pois este pode
ser ajustado com o uso do alicate.

Não se preocupe se, ao reduzir o


tamanho do braço, a esponja ficar
"enrugada". Este detalhe será corrigido
na próxima etapa. Assim deve ficar a
estrutura do corpo do boneco!
Passo 3: Cobertura da estrutura do corpo

Pegue um pedaço cortado do papel crepom,


ainda enrolado, e passe um pouco de cola em
uma de suas extremidades. Pressione esta ponta
do papel sobre a espuma e comece a cobrir a
estrutura do braço. O papel crepom possui uma
certa elasticidade, o que permite arredondar e
modelar a espuma em seu interior. Mas, cuidado:
este papel é extremamente frágil e pode rasgar.
Caso isso aconteça, cole a extremidade cortada e
recomece o processo. Atenção! Não precisa
passar cola em todo o papel, apenas no início e
no fim. Faça várias camadas para criar uma certa
resistência e aumentar a durabilidade.

Esta etapa também pode ser feita com tiras de


papel revista, mas neste caso você necessitará
embeber cada tirinha em uma mistura de cola
branca com água antes da aplicação. Neste caso,
será também necessário cobrir a esponja com
uma fita crepe para arredondá-la. O resultado é
mais resistente, porém o processo é mais longo e
trabalhoso.

Para criar as mãos do boneco, você tem


duas opções. A mais simples é
"estrangular" a extremidade do braço
com um fio resistente, que pode ser nylon
ou fio dental. A segunda opção, mais
trabalhosa, consiste em modelar a mão
com massa de biscuit diretamente sobre
a estrutura coberta de papel. Por conter
cola, a massa irá naturalmente aderir
sobre o papel crepom.

Após cobrir toda a estrutura com papel,


passe cola ou verniz, para criar um todo
homogêneo e aumentar a resistência da
estrutura. Se estiver trabalhando com
papel crepom, realize esta etapa
suavemente para não rasgá-lo.
Assim ficará a estrutura do corpo do
boneco. O sinal está verde para pintar
do teu jeito e/ou inserir roupinhas
(podem ser feitas com papel crepom ou
EVA) e acessórios. Basta dar liberdade à
sua imaginação! Sugiro apenas que,
após a pintura, você acrescente mais
uma camada de cola ou verniz para
aumentar a durabilidade do boneco.

Agora temos que unir a cabeça do


boneco ao seu corpo! Insira a cola no
orifício feito na parte inferior da cabeça
e encaixe-a na tampinha da garrafa
pet. Esta deve estar bem atarraxada
para que a cabeça seja colada na
posição correta em relação ao corpo.

O arame no interior das esponjas permite


criar diferentes posições com os braços do
boneco. Você também pode colar um pedaço
de massa de biscuit no arame, no interior da
garrafa, para fabricar uma alça que permitirá
realizar movimentos dos braço. Outra opção
é utilizar um palito de churrasco aderido à
um dos braços, de modo que o manipulador
possa segurar o boneco com uma das mãos
e movimentar um dos braços do mesmo com
a outra mão. Pronto, o teatro já pode
começar! 
Fabricação do teatro

É muito importante definir o espaço cênico,


mesmo que seja de forma improvisada, na
ausência de uma estrutura própria para a
encenação com teatro de bonecos. Na
verdade, a existência ou não de uma caixa
teatral para a representação importa pouco:
qualquer espaço que seja definido como
cênico irá ser abastecido de magia no
momento do jogo. Veja este exemplo: já
utilizei uma mesa para este fim, e isto jamais
significou um obstáculo para a criação e
para as maravilhas proporcionadas pelo
teatro.

Neste e-book vou mostrar para você como construir um teatro com uma caixa de
papelão. A vantagem deste dispositivo é a possibilidade de trabalhar com
diferentes cenários e de equipá-lo comum sistema de iluminação. Vamos lá?!

Material necessário:

1. Caixa de papelão média ou grande (no caso apresentado, foi utilizada a caixa de
um fogão). Também é possível juntar várias folhas de papelão para criar um
dispositivo maior.

2. Papel reciclável. As revistas são ideais por serem mais resistentes, mas também
é possível usar jornal.

3. Cola branca (um frasco grande)

4. Tinta acrílica à base de água

5. Uma vara de madeira, 8cm mais comprida do que a parte mais longa da caixa

6. Elementos opcionais: glitter, lantejoulas, formas coloridas (de plástico), EVA, cola
específica.
Etapa 1: Confecção da estrutura do teatro

Para construir o teatro, em primeiro


lugar corte duas "janelas": uma
anterior, onde o boneco irá atuar, e
outra posterior, onde o
manipulador irá se posicionar. No
caso aqui apresentado, a caixa
poderá permanecer no chão e a
criança ficar em seu interior. Já no
caso de caixas menores, esta
poderá ser colocada sobre uma
mesa. O corte da parte superior
(como apresentado na figura ao
lado) é opcional.

Agora vamos enrijecer a estrutura com


papel, água e cola! Você precisará de
muitas folhas de papel (de preferência
papel de revista e um recipiente
contendo uma mistura homogênea de
cola e água. Embeba cada pedaço de
papel com essa mistura e vá aplicando
sobre toda a superfície da caixa de
papelão, alisando de vez em quando para
eliminar pequenos defeitos. Aconselho
fazer, pelo menos, três camadas de
papel, tanto na parte externa como
interna da caixa. Deixe secar.

Pinte toda a estrutura com tinta acrílica.


Dependendo da cor escolhida, pode ser
necessário realizar 3 ou 4 camadas
(quanto mais clara for a cor, mais camadas
serão necessárias). 

Esta primeira etapa é um pouco


demorada, mas extremamente satisfatória
do ponto de vista sensorial e motor. Além
disso, pode ser feita em grupo e as
crianças simplesmente adoram!
Etapa 2: Criação da estrutura para o cenário

A vara de madeira (pode ser de


metal ou de plástico também)
deve ter o comprimento maior
do que a parte mais larga da
caixa, para que ela possa
atravessá-la e penetrar nos dois
furos realizados em suas partes
laterais (observe o detalhe da
figura abaixo). Para estabilizar a
vara, você pode usar um pedaço
de rolha ou então recortar um
pedaço de isopor. Neste caso,
aconselho passar duas camadas
de cola ou verniz para formar
uma película protetora.

No caso demonstrado, a base para a


criação do cenário foi feita em tecido, o
que demanda mais tempo, material
específico (tinta para tecido, máquina de
costura etc.) e outras habilidades e/ou
competências. Porém, tanto no espaço
escolar como psicoterapêutico, esta
etapa pode ser feita com papel,
otimizando o tempo de trabalho. A
criação do cenário é fonte importante de
conteúdo subjetivo/psicoafetivo e pode
facilmente ser feito com papel, lápis de
cor e/ou cera. Com este dispositivo a
criança, depois que fabricar seu boneco,
poderá contextualizar a sua narrativa,
tornando a experiência teatral e
emocional ainda mais rica!
Etapa 3: Adicionando temas e acessórios

Agora é hora de dar aquele toque final em


sua caixa cênica! Você pode decorar,
pintar, inserir cortina (que também pode
ser confeccionada com papel crepom, que
é bastante maleável!) e até mesmo
iluminar a cena! Para isto, basta uma
pequena lanterna, mesmo de um celular! 

Existem hoje no mercado várias opções


de lâmpadas led multicoloridas que vêm
acompanhadas de controle para a troca
automática das cores. Embora seja bem
mais oneroso, os resultados são
simplesmente encantadores! Esta
pequena lâmpada provoca, através da
mudança de cores, a criação de
ambientes potencialmente emocionais!

Agora o trabalho está completo...


Está tudo pronto para fazer a
magia do teatro começar!
CAPÍTULO 5
Preparação psicofísica e jogo teatral

Relaxamento, consciência corporal e neutralização emocional

Neste início de milênio, com o avanço da tecnologia e da violência urbana, estamos


cada vez mais reclusos e sendo constantemente bombardeados por uma
avalanche de imagens, notícias, sons... Com a atenção exageradamente voltada
para o digital, vivemos uma espécie de incapacidade de viver experiências
verdadeiras. A velocidade com a qual nossa mente é invadida por informações
vindas da manipulação de dispositivos móveis, aliada ao sedentarismo crescente, é
uma das grandes responsáveis pela aceleração da nossa vida mental, podendo
gerar ansiedade, dificuldade de concentração e falta de habilidade de lidar com as
próprias emoções. Parar é preciso! Viver uma experiência requer tempo e uma
disponibilidade sensorial e afetiva para processar as informações que atingem os
nossos sentidos. 

Atualmente, observa-se um crescente interesse pelas práticas contemplativas.


Diversos experimentos neurocientíficos já demonstraram a eficácia da meditação
sobre emoções negativas e sobre a atenção nas tarefas diárias. Tais práticas são
extremamente benéficas no campo da pedagogia teatral. O ator é aquele artista
cuja arte é um eterna sucessão do "aqui e agora", necessitando desenvolver sua
capacidade atentiva para realizar diversas funções no palco: executar a partitura
cênica, escutar seu parceiro de cena, se relacionar com o espectador, gerenciar
suas emoções e seus pensamentos, tomar cuidado para não tropeçar na cortina ou
em um pedaço de fio no chão do palco... O artista de teatro deve possuir uma
"atenção flutuante", para citar o ator e diretor japonês Yoshi Oida - e a meditação
vem se afirmando cada vez mais como uma prática de grande eficácia para este
fim. Por isso, sempre incluo exercícios de meditação e/ou de mindfunlness em
minha prática como pedagoga teatral. E aqui não será diferente!

Práticas contemplativas

Vou dar aqui algumas sugestões de exercícios simples de meditação para realizar
com crianças. Esses exercícios podem ser feitos com a pessoa deitada
(preferencialmente) ou sentada (no chão, sobre almofadas ou em uma cadeira).
Também devem ser feitas de olhos fechados e em ambiente com o mínimo de
estimulação sonora possível. Se possível, utilizar roupas confortáveis, pois o
incômodo físico pode desviar o foco do processo da atenção plena. Também é
muito importante que a criança não aperte os dentes: a boca deve permanecer
fechada, com a língua tocando a parte anterior do palato e com os dentes das
duas arcadas (superior e inferior) sem contato. Esta é a posição de repouso da
mandíbula, cujo músculo elevador (m. Masseter) se contrai facilmente em
momentos de estresse. Sugiro começar com 3 minutos e ir gradualmente
aumentando o tempo. O importante é que a criança possa sentir que conseguiu
realizar o exercício, aumentando sua autoconfiança e autoestima.
Antes de dar início à meditação, é importante que a criança tome consciência de
sua respiração, buscando sempre efetuar a respiração abdominal, mais inferior. A
respiração superior é típica de estados ansiosos e também é menos eficaz para a
oxigenação do organismo (a parte superior dos pulmões é menor). Para esta
tomada de consciência da respiração abdominal, a criança pode, em posição
deitada, deixar uma das mãos sobre o barriga (a outra pode ficar sobre o peito) e
imaginar que tem uma bexiga ali dentro que enche durante a inspiração e esvazia
no ato da expiração. Uma breve pausa respiratória após a expiração também é
bastante eficaz na produção de tranquilidade e bem-estar.

Depois que a criança tomar consciência da respiração inferior, você poderá aplicar
os seguintes exercícios:

1. Pedir para que ela conte mentalmente até cinco durante a inspiração e mais
cinco durante a expiração. O fato de ter que contar canaliza a atenção dela para
este ato. Música relaxante (sugiro com sinos tibetanos!) ajuda neste processo.

2. Colocar uma música calma, de preferência com sons da natureza (água


correndo, pássaros cantando etc.) e solicitar à criança que tente identificar todos
os sons e ruídos que identificarem. Deixo aqui algumas sugestões de músicas
para este fim:

https://www.youtube.com/watch?v=710Dg1jiTuY&t=3277s
https://www.youtube.com/watch?v=fQvwNbj1hiI&t=1689s
https://www.youtube.com/watch?v=NBzBh46lgz8

Relaxamento do Aparelho fono-respiratório

Em momentos de tensão e de ansiedade é muito comum observarmos um


desconforto na região do pescoço e adjacências, em virtude da contração não
consciente de alguns grupos musculares (m. Trapézio, m. Masseter, entre outros).
Por isso, antes de dar início a uma sessão de improvisação com bonecos ou de
contação de histórias, é importante destravar essas regiões físicas. Os exercícios
que vou descrever aqui são bastante simples e muito utilizados por artistas da
cena e também por cantores. Repetir, pelo menos duas vezes cada exercício.
1. Rotação do pescoço: Deixe a cabeça "cair", sem forçar, encostando o queixo na
região peitoral. Inicie a rotação, sempre deixando a força da gravidade atuar
sobre a cabeça e tentando perceber os pontos de tensão do corpo. Quando a
cabeça estiver para trás, é importante deixar a boca aberta, para não forçar a
musculatura envolvida. Quando completar a volta, realizar o movimento no
sentido oposto.

2. "Sim", "Não" e "Talvez": Também são exercícios de rotação do pescoço. O


primeiro reproduz o movimento de dizer "não", com a cabeça. O segundo simula
o movimento de dizer "sim", procurando encostar o queixo no peito e, ao elevar a
cabeça, abrir a boca para não forçar a musculatura, como já referido
anteriormente. No movimento que demonstra o "talvez", a pessoa deixa a cabeça
cair para o lado, como se fosse encostar a orelha no ombro. Lembrando que a
mandíbula deve estar sempre em posição de repouso (os dentes da arcada
superior não devem tocar os da arcada inferior) e que todos esses exercícios
devem ser feitos devagar, com calma, visando também gerar uma consciência
corporal através da identificação dos pontos de tensão e/ou de relaxamento. 

3. Elevação dos ombros: Neste exercício, o comando é levantar os ombros como


se tivesse a intenção de tocar as orelhas. Permanecer uns 5 segundos nesta
posição e depois soltar completamente. 

4. Massagear por alguns minutos o


músculo elevador da mandíbula (m.
Masseter) com a ponta dos dedos. Este
músculo é extremamente potente e está
normalmente envolvido em situações de
tensão e estresse. Talvez você não saiba,
mas o Masséter é o músculo mais forte do
corpo humano! Por isso é fundamental
buscar sempre uma forma de mantê-lo
relaxado em momentos outros que não o
da fala ou mastigação.
Exercícios para desenvolver a consciência corporal

1. Enrolando a coluna: Aqui, o corpo todo entra em ação. Deve ser feito de pé,
com os pés paralelos abertos na distância da bacia, mantendo os joelhos
levemente dobrados. Ombros e braços relaxados, cedendo à força da gravidade
durante todo o exercício. Começar pela cabeça, encostando o queixo no peito e ir
"enrolando" a coluna vertebral bem devagar, "vértebra por vértebra", até chegar
no ponto máximo, respeitando o limite físico de cada um. Com a cabeça
totalmente para baixo e a coluna "enrolada", movimentar delicadamente a bacia,
de um lado para o outro. Cabeça, ombros e braços sem comando, sem tensão,
apenas seguindo o movimento da bacia, como se fosse uma marionete com os
fios relaxados. Essa etapa não deve ser longa. Parar o movimento da bacia e
deixar que os próprios movimentos dos membros encontrem sua posição de
repouso. Retornar a posição inicial, ereta, sendo a cabeça a última a levantar.
Atenção: realizar este retorno bem devagar, para evitar tonteiras.

2. Escaneamento corporal: Posição deitada, com abdômen para cima. Atentar


para a respiração inferior e o relaxamento da mandíbula (dentes superiores não
devem encostar nos inferiores). Neste exercício, solicita-se que a criança contraia,
gradualmente, as musculaturas do corpo, começando pela face. Ir acrescentando:
pescoço, ombros, peitoral, braços, mãos e dedos das mãos, abdômen, quadril,
coxas, perna inteira, pés e dedos dos pés. A cada fase de contração, contar até
três, devagar. Depois relaxar completamente. No último comando, a criança
deverá enrijecer toda a musculatura do corpo, relaxando em seguida. Seria
interessante pedir para a criança observar o estado do corpo antes e depois do
exercício. No final, peça para a criançar ir despertando o corpo até uma longa
espreguiçada!
Treinamento respiratório

Os exercícios que serão descritos a seguir possuem dupla função: treinar a


respiração abdominal, através da consciência da ação do diafragma, e aumentar a
capacidade respiratória para a atuação com os bonecos. Aqui estão:

1. Exercício do "sss, fff, xxx": Posição ereta. Inspirar profundamente, atentando


para a respiração abdominal e observando se não há elevação dos ombros, pois é
indicador de tensão. No momento da expiração, a criança deverá "empurrar" o ar
com a barriga soltando primeiramente o som de "s" até acabar o ar, mas sem
forçar no final. Repetir com "f" e "x".

2. Uma variante deste exercício é soltar o ar de maneira entrecortada e variando o


som de "s", "f" e "x", sempre "empurrando" o ar com a barriga em cada som
emitido.

3. Emitindo som: Neste exercício, peça para que a criança inspire e, ao expirar,
comece a contar até o máximo que conseguir, mas sem forçar no final da
expiração. Pode também pedir para dizer os meses do ano, recitar um poema... O
importante é não perder a consciência da ação do diafragma. Você verá que, com
a repetição desses exercícios, a capacidade respiratória vai aumentando e a
criança conseguirá cada vez mais a aumentar a sua contagem ou o tempo de fala!

Aquecimento vocal e articulação

Quando a criança tem o boneco em mãos e inicia um exercício qualquer de


improvisação, é normal observar um grande entusiasmo e, consequentemente,
um aumento do tom de voz. Também é muito comum ver a criança acelerar a fala
e atropelar o discurso do colega em cena. Por isso tudo é de extrema importância
preparar a voz (além da capacidade de escuta do outro!) da criança antes de se
lançar no mundo quimérico da representação teatral. Vamos lá?

Aquecimento vocal

Existem exercícios muito simples para aquecer a voz antes de iniciar qualquer
forma de trabalho cênico. Tal como o atleta que realiza um aquecimento físico
antes de uma competição, todos os que usam a voz para fins estéticos e/ou
profissionais devem aquecer o aparelho vocal para prevenir danos (rouquidão,
nódulos nas cordas vocais...). Darei aqui algumas dicas de exercícios de
ressonância e emissão de som que são bastante eficazes na realização desde
cuidado.

1. Ressonância com som de "mmm": Este é um excelente exercício para que a


criança tome consciência da localização de sua voz, que jamais deve estar na
garganta. Você pode pedir para que ela coloque uma mão na região oral e outra
no pescoço, explicando que a vibração deve ocorrer majoritariamente na região
oral. Não esquecer de manter ombros e pescoço relaxados durante a inspiração!
2. Ressonância com emissão de som: 
2.1.  "Mmoomm": Variante do primeiro exercício descrito. Começa com "mmm",
em seguida emite a vogal "ooo" por alguns segundos e engata novamente no
"mmm". O resultado é uma sequência ininterrupta do som
"mmmooommmooommmooommm". Sempre finalizar com "mmm" e estar atento
para que o som não permaneça na região da garganta.
2.2. "Miniminimini": Ao iniciar este exercício, permanecer alguns segundos no
"mmm" e depois emitir o "miniminimini" até esgotar a expiração.

Articulação vocal

Os exercícios de articulação também são bastante simples e pode ser bem


divertidos! Veja só:

1 Concurso de caretas: Neste exercício, peça para que as crianças façam vários
tipos de careta, procurando mobilizar ao máximo toda a musculatura da mímica
facial, os olhos e, principalmente, a língua. Além de ser um ótimo meio de preparar
o aparelho motor para a fala, é um jeito lúdico de trabalhar a timidez, a inibição e o
medo da crítica. É importante que o ambiente seja emocionalmente seguro para a
criança, e é papel do instrutor estabelecer uma relação de confiança com os alunos
e também entre os alunos.

2 Frases com careta: Na sequência do exercício 1, peça para que o aluno, por
exemplo, diga: "Olá, meu nome é ... e eu gosto muito de...". O importante é falar a
frase exagerando na articulação, como se estivesse fazendo caretas!

3. Trava-línguas: Você pode encontrar na internet diversos exemplos de trava-


línguas (por exemplo, https://www.todamateria.com.br/trava-linguas/). Em primeiro
lugar, a criança deve decorar o texto e criar mentalmente uma espécie de "frase de
imagens" para facilitar a recitação. Iniciar o exercício falando bem devagar e, aos
poucos, acelerar a emissão da frase. Geralmente, exercícios com trava-línguas são
fonte de muito riso! E rir de si mesmo pode ser muito terapêutico!
Improvisação com bonecos

Quando falamos em improvisação, geralmente as pessoas pensam que é algo que


acontece espontaneamente, sem preparação prévia, sem um roteiro, onde tudo o
que ocorre é fruto de um talento para agir no "aqui e agora" com liberdade total,
de uma capacidade criativa ilimitada, de uma espécie de "geração espontânea".
Não é bem assim. Pense em um músico. Quando ele "improvisa" em um show,
não forma acordes aleatoriamente com seu instrumento... Ele conhece bem a
teoria musical e sabe que, dentro de uma partitura, existem combinações
possíveis de sons e acordes que ele pode utilizar em um improviso. No teatro
também é assim, por mais estranho que possa parecer. A improvisação de
natureza cênica é criada sobre uma estrutura de base, que é o que vai alavancar e
manter a atuação aparentemente espontânea.

Uma das metodologias improvisacionais mais utilizadas no teatro são os jogos


teatrais, desenvolvidos por Viola Spolin. Basicamente, antes de executar um
exercício de improvisação, os jogadores (ou o jogador, se for improvisar sozinho)
devem definir três aspectos estruturais: "quem", "o que" e "onde". Ou seja, deve-
se estabelecer de antemão quem é o personagem (ou os personagens), o que
estão fazendo (qual o conflito? do que se trata? qual o objetivo? etc.) e onde se
encontram (contextualização do jogo: uma escola, uma praça, um hospital etc.).

Como em nossa proposta o boneco será fabricado expressando alguma emoção,


este ponto também deve ser discutido e contextualizado: Qual a emoção do
personagem? Por que ele está se sentindo assim? Como ele agiria dentro do
contexto proposto pela técnica dos jogos teatrais? Você já pode imaginar o
extraordinário material de natureza emocional que poderá surgir! Ao transferir a
emoção para o boneco, a criança encontra uma espécie de proteção em relação à
sua própria subjetividade, mas não deixa de elaborar e evoluir no que tange ao
seu aprendizado no universo das emoções.
Caso você trabalhe com avatar múltiplo, a narrativa do personagem irá prever
mudanças nas emoções, o que tornará o trabalho ainda mais rico. A discussão em
torno da variação emocional, das soluções possíveis para um conflito poderá ser
realizada em grupo na escola ou entre o terapeuta e seu paciente, no caso do
contexto psicoterápico.

No teatro de bonecos, é a voz e o movimento que, aliados à expressão emocional


do boneco, irão produzir uma comunicação emocional coerente. No que diz
respeito à voz, a criança poderá experimentar diversos modos de falar através do
seu boneco, realizando combinações entre o volume (do sussurro ao grito) e a
velocidade da comunicação oral. A "vida do boneco" tem no movimento um
grande aliado e a criança pode também testar posturas expansivas e reclusivas,
movimentos rápidos e lentos, observando os efeitos que a manipulação produzirá
sobre a expressão emocional do boneco. Filmar a atuação da criança pode ser
também um ótimo meio de discussão e de aprendizado sobre as emoções.

Volume, ritmo, entonação, movimento e pausas. Todos esses elementos podem


interferir na expressão emocional do boneco, e a pesquisa em torno dessas
diferentes possibilidades expressivas contribuirá para o seu aprendizado
emocional. Mas há algo ainda mais fundamental: a relação em cena. E é
justamente sobre isso que falaremos a seguir.

A relação em cena

A questão da relação no trabalho com teatro é de importância vital: é justamente


o desenvolvimento da capacidade relacional que permite ao ator manter viva a
sua presença cênica: relação com o texto, com o personagem, com o colega de
cena, com o espaço cênico, com o público, com a câmera! Segundo o o encenador
polonês Jerzy Grotowski a essência do ato teatral se situa no espaço dinâmico das
trocas que ocorrem entre o ator e o espectador durante o "aqui e agora" do
fenômeno cênico. Podemos então refletir sobre o potencial transformador do
teatro a partir da desconstrução dos padrões relacionais adquiridos tanto pelo
ator como pelo espectador. Sendo uma arte da relação, o teatro foca no contato
visual, na escuta do outro, na abertura sensorial, no desenvolvimento da empatia,
e assim por diante.
Se transferirmos esses conceitos para o contexto escolar e/ou psicoterapêutico,
podemos já considerar o boneco como um instrumento facilitador do trabalho
sobre as relações humanas. Manipular um boneco em cena implica numa
contínua sucessão de diversas formas relacionais, a saber: a relação manipulador-
boneco; a relação boneco-boneco; a relação manipulador-boneco-público.

A relação manipulador-boneco supõe um aprendizado motor e também todo um


trabalho de transferência de material humano para o boneco (subjetividade, tom
de voz, reações emocionais, ação física etc.). Ao mesmo tempo em que a criança
desenvolve sua motricidade, também vai aprendendo sobre como expressar a
emoção do boneco através da voz, do movimento e da relação com o outro e com
o público. Tudo isso brincando!

Na relação boneco-boneco, que ocorre durante uma improvisação com mais de


um personagem, a criança tem uma oportunidade única de treinar sua escuta.
Para que haja ordem e compreensão da narrativa que se desenvolve em cena, é
preciso que o manipulador perceba aquilo que o outro boneco está comunicando
de forma verbal e não-verbal. Aprender a escutar - não somente com os ouvidos,
mas também com os sentidos - é o princípio básico para a compreensão do outro
e o desenvolvimento da empatia. O trabalho com bonecos é, desse modo, um
jeito lúdico de ensinar sobre o respeito a inclusão. Inclusão das diferenças, das
emoções, das diversas formas de se comportar.
Por fim, a relação manipulador-boneco-espectador é, obviamente, um pouco mais
complexa e exige um maior esforço cognitivo, afetivo e motor. Em minha prática,
costumo iniciar o trabalho em cena de forma individual, pedindo apenas para que
cada aluno manipule seu boneco e apresente o seu personagem para o público
em primeira pessoa: "Olá, pessoal! Tudo bom? Meu nome é... [nome do
personagem] e estou me sentindo muito triste hoje [caso a emoção tristeza tenha
sido a escolhida para compor o boneco]. Vocês podem me ajudar?..." A
participação dos coleguinhas que formam o público é, em geral, muito
espontânea, e a relação manipulador-boneco-espectador que se estabelece será
mais uma fonte de conteúdos psicoafetivos que poderão ser trabalhados
posteriormente com o grupo.

Você verá que há muitas possibilidades de trabalho com todo esse material para
abordar as emoções de forma pedagógica e prazerosa. Desde que o ambiente
seja habitado com afeto, tolerância, respeito e emoções positivas, o terreno estará
preparado para uma linda imersão no palco das emoções.

No mais, é só dar asas ao seu Cérebro Mágico! Boa diversão!


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