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24/02/13 Folha de S.

Paulo - O antipoder das massas - 19/09/2004

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São Paulo, domingo, 19 de setembro de 2004

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O ANTIPODER DAS MASSAS


O CIENTISTA POLÍTICO JOHN HOLLOWAY
DEFENDE QUE A ESQUERDA PRECISA
ABANDONAR CONCEITOS TRADICIONAIS, COMO
NACIONALISMO, E CONSTRUIR UMA
ALTERNATIVA À SUJEIÇÃO DO ESTADO AO
CAPITAL

Claudia Antunes
da Sucursal do Rio

O cientista político irlandês John Holloway, ex-professor da


Universidade de Edimburgo, ligou-se teoricamente ao movimento
zapatista ao mudar-se no início dos anos 90 para o México,
onde dá aulas na Universidade Autônoma de Puebla. Seu livro
"Mudar o Mundo sem Tomar o Poder" (ed. Boitempo), de
2002, é um manifesto contra a institucionalização das lutas
sociais e fez sucesso entre ativistas antiglobalização.
No debate aberto entre militantes e pensadores da esquerda pelo
livro "Império" [Record], de Michael Hardt e Antonio Negri, que
saúda a suposta superação dos Estados nacionais, Holloway, 57,
se alinha entre os defensores de que se deixe de lado, por inútil,
a meta de conquista do Estado. Ele advoga a formação de um
"antipoder" desvinculado do capitalismo e independente de suas
crises.
Não se trata de aproveitar "brechas" do sistema, alega, mas de
recusar sua lógica e de construir uma alternativa no dia-a-dia,
uma busca que seria representada por movimentos como o
zapatismo, os piqueteiros argentinos e os sem-terra do Brasil.
Em entrevista ao Mais!, Holloway defende que o nacionalismo
não tem mais nenhum papel positivo a desempenhar e aponta o
governo de Luiz Inácio Lula da Silva como demonstração disso:
"Não tenho dúvida de que Lula poderia ter adotado políticas
mais radicais, mas ele não poderia ter alcançado muito".

O sr. afirma que o neoliberalismo reforçou a característica


repressiva dos Estados. O Estado ainda tem algum papel
positivo a desempenhar em países como Brasil e México?
Talvez possamos relacionar essa questão ao caso particular do
Brasil. Para milhões, não apenas no Brasil mas em todo mundo,
Lula representava uma grande esperança: finalmente havia um
governo que tomaria posição contra o neoliberalismo. Lula era a
grande esperança dos reformistas radicais do mundo todo. Onde
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grande esperança dos reformistas S.Paulo - O
doantipoder
mundodas massas
todo. - 19/09/2004
Onde
está essa esperança agora? Está claro que ela foi absolutamente
estilhaçada. Uma questão importante para o Brasil e para o
mundo é: como interpretar esse desapontamento? É um fracasso
pessoal de Lula e do PT? Ou ilustra uma verdade mais profunda,
a de que é impossível para os Estados tomarem posição contra o
neoliberalismo? Se tomarmos a primeira interpretação,
concluímos que, da próxima vez, devemos eleger um líder mais
forte ou formar um partido novo e mais puro.
Se tomarmos a segunda interpretação, concluímos que o Estado
não é e não pode ser uma forma adequada de organizar a luta
contra o neoliberalismo e devemos olhar para outras formas de
ação. Minha visão pessoal é a segunda. Não tenho dúvida de
que Lula poderia ter adotado políticas mais radicais, mas ele não
poderia ter alcançado muito. O Estado, como forma de
organização, está tão fortemente integrado nas relações sociais
do capitalismo que é impossível que tome outra forma que não a
de executor de interesses do capital.

Em nenhuma hipótese, na sua opinião, o nacionalismo pode


ser uma força positiva?
Não, mas depende de como se entende o nacionalismo.
Normalmente ele está ligado a um Estado: a idéia de que os
Estados brasileiro, argentino ou mexicano poderiam levar adiante
políticas diferentes é uma ilusão, mas é mais do que isso. A
própria existência do Estado divide os brasileiros dos argentinos,
os paraguaios dos bolivianos, os franceses dos alemães, e no
último século nada provocou mais mortes do que isso. O
nacionalismo, por mais progressista que reivindique ser, acentua
essas divisões, quando devemos lutar para abolir as fronteiras.
Pode-se argumentar que também há um nacionalismo anti-
Estado, uma luta por autodeterminação. Mas isso não me
convence: se a luta é por autodeterminação, não existe razão
para tomar o Estado como referência.

Como o senhor situa o caso da China?


O nacionalismo não é realmente nacional. Ele pode ser melhor
visto como uma estratégia particular que pode ser adotada no
jogo internacional da competição. Para que tenha alguma chance
de sucesso, em termos capitalistas, precisa ser acompanhado
pela repressão da dissidência interna. O caso da China tem que
ser visto nesse contexto. O capitalismo se tornou mais
competitivo e agressivo nos últimos 20 anos. A maioria dos
países teve mau desempenho nessa situação, mas alguns tiveram
bom desempenho em termos de crescimento econômico. Para
isso, ajuda ter uma força de trabalho disciplinada.
A competição internacional leva os governos a tentarem
estabelecer maior disciplina e a erradicar protestos, a moldar
todas as condições da vida para atrair capital. As políticas
nacionalistas não vão ajudar a salvar a humanidade da
autodestruição: a única esperança é criar uma nova maneira de
fazer as coisas. Essa esperança seria completamente irrealista se
não estivesse tão enraizada nas lutas cotidianas.

Mas, ao contrário do que se podia esperar após os


primeiros protestos antiglobalização, não chegaram a
ocorrer mudanças nas políticas das instituições
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ocorrer mudanças nas políticas das instituições
internacionais e dos governos em geral. Qual a perspectiva
para os movimentos que reivindicam "um outro mundo
possível"?
Não considero surpreendente que não tenha havido nenhuma
mudança importante nas políticas das instituições internacionais,
mas isso não significa que o movimento "altermundialista" esteja
fracassando. Essa falta de resposta é mais um reflexo da
distância cada vez maior entre os Estados e as instituições
políticas e a sociedade. Eles se tornaram instituições muito mais
fechadas, menos reativas a pressões sociais.
Isso se tornou mais óbvio após o 11 de Setembro, mas suas
raízes se encontram na intensificação da competição em anos
recentes. É melhor reconhecer esse distanciamento como uma
oportunidade de virar as costas ao Estado o máximo que
pudermos e desenvolver uma política alternativa. É disso que
trata boa parte do movimento "altermundialista".

Os críticos desse tipo de raciocínio afirmam que ele é


metafísico, que se baseia em uma visão equivocada da
realidade, na qual o que se observa é o aumento da
influência de Estados ou de associações de Estados.
Milhões de outras pessoas já chegaram à conclusão de que
tentar conquistar o poder estatal não é um caminho para mudar o
mundo e nos envolve num tipo de política que é alienadora e
burocrática. A única opção que resta é encontrar outros
caminhos. Isso significa desafiar conceitos tradicionais da
esquerda sobre a realidade da política e mostrar que o realismo é
na verdade totalmente irrealista. Nosso conceito atual do que é a
realidade é parte do mundo que queremos mudar: para mudar o
mundo temos que mudar nosso conceito de realidade. Isso não é
metafísica, mas crítica ou dialética.

Em "Império", Hardt e Negri apontam os imigrantes como


uma espécie de "vanguarda" dos novos cidadãos globais.
Alguém pode estar na vanguarda de uma nova ordem sem
ter consciência disso?
Não descreveria os imigrantes como vanguarda, mas acho que
há algum sentido nessa idéia. Acredito que a experiência da
migração freqüentemente torna a idéia de nacionalismo sem
sentido. Claro que não estou negando que a experiência da
migração é horrível para a maioria das pessoas e que em muitos
casos ela não leva à superação do nacionalismo.

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