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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS X

PATRÍCIA DIAS TAVARES

RUTH VIEIRA COSTA

SIMÁRIA CARNEIRO DE SOUZA ROCHA

CLARICE LISPECTOR EM A HORA DA ESTRELA:


UMA PRESENÇA FEMININA NA ESCRITA DO
CÂNONE LITERÁRIO

TEIXEIRA DE FREITAS

2009
1

PATRÍCIA DIAS TAVARES

RUTH VIEIRA COSTA

SIMÁRIA CARNEIRO DE SOUZA ROCHA

CLARICE LISPECTOR EM A HORA DA ESTRELA:


UMA PRESENÇA FEMININA NA ESCRITA DO
CÂNONE LITERÁRIO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Departamento de
Educação do Campus X da Universidade
do Estado da Bahia - UNEB, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Licenciatura em Letras Vernáculas.

Orientadora: Profª. Esp. Arolda Maria da


Silva Figuerêdo

TEIXEIRA DE FREITAS

2009
2

FICHA CATALOGRÁFICA

Elaboração: Biblioteca de Teixeira de Freitas – Campus X

Tavares, Patrícia Dias.


Clarice Lispector em a Hora da Estrela: uma presença feminina na escrita do cânone
literário. / Patrícia Dias Tavares, Ruth Vieira Costa e Simária Carneiro de Souza Rocha. –
Teixeira de Freitas – BA, 2009.
72f.

Orientadora: Prof.ª Esp. Arolda Maria da Silva Figuerêdo.


Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Universidade do Estado da Bahia
Departamento de Educação, Campus X, 2009.
Contém referências.

1. Cânones da literatura. 2. Lispector, Clarice 1925 – 1977. I. Figuerêdo, Arolda Maria da


Silva. II. Costa, Ruth Vieira. III. Rocha, Simária Carneiro de Souza. IV. Universidade do
Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus X

CDD: 809
3

PATRÍCIA DIAS TAVARES

RUTH VIEIRA COSTA

SIMÁRIA CARNEIRO DE SOUZA ROCHA

CLARICE LISPECTOR EM A HORA DA ESTRELA: UMA


PRESENÇA FEMININA NA ESCRITA DO CÂNONE
LITERÁRIO

Aprovado em 05 de Maio de 2009.

Conceito:__________________

COMISSÃO EXAMINADORA

______________________________________________
Profª. Esp. Arolda Maria da Silva Figuerêdo (Orientadora)
Universidade do Estado da Bahia – UNEB CAMPUS X

______________________________________________
Profª. Esp. Karina Lima Sales
Universidade do Estado da Bahia – UNEB CAMPUS X

______________________________________________
Prof. Msc. Valdi Nunes dos Santos
Universidade do Estado da Bahia – UNEB CAMPUS X
4

Dedicamos esta pesquisa a Clarice


Lispector, mulher cuja experiência
feminina literária, reflete nossa herança,
descendência, ascendência, parecença e
pertencimento a uma linhagem de
mulheres escritoras e leitoras de
escritoras. Assim, tomamos sua escrita
como empréstimo para iniciar uma nova
tradição, a tradição contemporânea de
linhagem feminina.
5

AGRADECIMENTOS

Foram muitos os que nos ajudaram a concluir este trabalho, por isso, nossos
sinceros agradecimentos...

A DEUS por seu dom inefável, pela oportunidade que se abriu e por nos dar força e
determinação, tornando-nos vencedoras e capazes de realizarmos os nossos
objetivos.

Aos nossos queridos FAMILIARES, Ana Quaresma Tavares (avó-mãe) e José


Quaresma Tavares (pai - in memory); Rutiléia Santos (mãe) e Ronaldo Reis (pai),
Edinalva Marques Carneiro (mãe) e João do Reizo de Souza (pai), que nos
educaram para a vida com a lição fundamental de que a força de vontade e a
perseverança são os segredos das grandes vitórias. E aos irmãos Aline, Érica e
Ronaldo pelo apoio e carinho.

Aos nossos AMORES Igor Soares Nery; Anerlei Barbosa e Josirlei da Cruz Rocha,
por ter compartilhado todas as nossas emoções, o estresse, a ausência, o choro,
mas principalmente, as nossas conquistas e alegrias.

A nossa querida ORIENTADORA Profª. Esp. Arolda Maria da Silva Figuerêdo por
todo o conhecimento que compartilhou conosco, pelas excelentes supervisões e
orientação, pelo incentivo, simpatia e presteza no auxílio às atividades e discussões
sobre o andamento deste Trabalho de Conclusão de Curso.

A nossa REVISORA Helânia Thomazine P. Veronez, sem a qual nosso Trabalho de


Conclusão de Curso não teria a mesma qualidade.

A CORDENADORA do Curso de Letras Josinéa Amparo Rocha Cristal, por sua


vocação inequívoca, por não poupar esforços como interlocutora dos alunos e por
suprir eventuais falhas e lacunas.
6

Aos SUPERVISORES DE ESTÁGIO pelo espírito inovador e empreendedor na


tarefa de multiplicar seus conhecimentos e pela disciplina ao nos ensinar a
importância do trabalho em grupo.

A todos os nossos MESTRES, em especial Profª. Msc. Guilhermina Elisa Bessa da


Costa, Profª. Msc. Ivana Teixeira Figueiredo Gund e Prof. Msc. Valci Vieira dos
Santos pela dedicação e empenho nesta jornada de viagens ao mundo do
conhecimento e que nos ensinaram a essência do saber.

Aos demais idealizadores, coordenadores e funcionários da UNIVERSIDADE DO


ESTADO DA BAHIA – UNEB CAMPUS X, por prestarem um serviço de qualidade e
eficiência aos alunos da universidade.

Não queríamos deixar também de mencionar o espírito colaborativo de muitos


COLEGAS, com quem tivemos todo o prazer em trocar experiências e saberes
díspares, expressar opiniões diversas sobre os assuntos em causa e atualizar
conhecimentos no campo da educação e da vida.

Finalmente, e não menos importante, um agradecimento à DIREÇÃO da UNEB


CAMPUS X, que nos capacitou de tal forma, que hoje estamos preparados para
enfrentar o duro e difícil mercado de trabalho e para que possamos ser bons
profissionais daqui para frente.

A todos que contribuíram para a realização desse sonho, queremos que saibam que
somos eternamente agradecidas e que vocês são tinta dourada no livro de nossas
vidas.

Obrigada!

Patrícia Dias Tavares


Ruth Vieira Costa
Simária Carneiro de Souza Rocha
7

“Nasci para escrever. [...] Cada livro meu é uma


estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me
renovar toda à medida que o tempo passa é o que
eu chamo de viver e escrever”.

Clarice Lispector
8

RESUMO

O processo de formação do cânone é parte dos interesses de um sistema literário


tradicional, que, por sua vez, é resultado das práticas de dominação social. A visão
de que a autoria feminina ainda não conquistou o mesmo nível de aceitação que a
masculina no campo literário acadêmico, enfatiza a possibilidade de o conhecimento
despertar um desejo de mudança que resulte no crescimento e ascensão da mulher
na participação social, literária e científica. Essa luta feminina por um espaço de
igualdade, desperta um desejo de independência, autonomia, identidade resgatada
pela expressão de idéias e atitudes. Nessa análise, é possível que a inserção da
mulher no campo literário como cânone, torne-se cada vez mais concorrente,
aceitável e adquirido, perpassando a tradição falocêntrica do olhar do homem sobre
a mulher, para um olhar feminino. Deseja-se, através deste estudo, proclamar uma
das mulheres que conseguiu transgredir o papel que era imposto a mulher e deveria
obrigatoriamente ser aceito. O trabalho toma como corpus a escritora Clarice
Lispector, em sua obra A hora da estrela, e tem como alvo evidenciar na obra da
autora, por meio de um estudo que engloba preceitos literários, as características
mais marcantes da escrita feminina e o reconhecimento e aceitação da mesma na
academia como escritora canônica. Para abarcar a temática em estudo, servimo-nos
de teóricos importantes na área de pesquisa sobre a autoria feminina como cânone
literário, tais como: Nádia Battella Gotlib (1995), Perrone-Moisés (2003), Simone de
Beauvoir (1990), Yudith Rosenbaum (2002), entre outros renomados pesquisadores,
que nos deram uma visão embasada no conhecimento acadêmico.

Palavras-chave: Cânone. Literatura Feminina. Clarice Lispector. A hora da Estrela.


9

ABSTRACT

The process of formation of the canon is part of the interests of a literary tradition,
which in turn is a result of practices of social domination. The view that female
authors have not gained the same level of acceptance that the male in the academic
literature, emphasizes the possibility of knowledge awakening a desire for change
that results in growth and rising participation of women in social, literary and
scientific. This is a space for female equality, awakens a desire for independence,
autonomy, identity rescued by the expression of ideas and attitudes. In this analysis,
it is possible that the inclusion of women in the literary canon as it becomes
increasingly competitor, and acquired acceptable, falocêntrica permeated the
tradition of the gaze of the man on the woman, looking for a female. Want it, through
this study, women who proclaim a break has the role that the woman was required
and should necessarily be accepted. The work takes as its corpus the writer Clarice
Lispector, in his work The time of the star, and aims to highlight work of the author,
through a study that encompasses literary precepts, the most striking features of
feminist writing and recognition and acceptance of in the same academy as
canonical writer. To cover the subject under study, servimo us in the important area
of theoretical research on the authorship and female literary canon, such as Nadia
Battelle Gotlib (1995), Perrone-Moisés (2003), Simone de Beauvoir (1990), Yudith
Rosenbaum (2002), among other renowned researchers, we have a vision based on
academic knowledge.

Keywords: Canon. Women Literature. Clarice Lispector. The time of the Star.
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Nádia Batella (lançamento do livro fotobiografia de Clarice Lispector).....17


Figura 2 – Clarice Lispector (montagem fotográfica).................................................34
Figura 3 – Clarice Lispector........................................................................................51
11

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.................................................................................................12

CAPÍTULO I
1 UMA LEITURA SOBRE A FORMAÇÃO DO CÂNONE LITERÁRIO E A
INSERÇÃO DA MULHER..........................................................................................18
1.1 A Escrita Feminina no Contexto Político-Social..............................................23
1.1.1 Temas e gêneros literários de abordagem feminina........................................26

CAPÍTULO II
2 CLARICE: A TRADUÇÃO DE UMA VIDA ENTRE OS LIMITES DO
HISTÓRICO E O FICCIONAL....................................................................................35
2.1 Dimensão Reflexiva no Trajeto Literário de Clarice Lispector.........................41
2.2 Clarice Lispector Sob a Ótica da Crítica..........................................................47

CAPÍTULO III
3 CARACTERÍSTICAS DA ESCRITA DE CLARICE LISPECTOR NA OBRA “A
HORA DA ESTRELA”...............................................................................................52
3.1 O Estar no Mundo Através da Epifania...........................................................58
3.2 A Construção da Metalinguagem na Obra......................................................66

CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................70

REFERÊNCIAS...............................................................................................73
12

INTRODUÇÃO

Falar sobre como é formado o cânone literário é aproximar-se dos estudos sobre as
práticas de dominação social em que interessa apenas o que historicamente sempre
teve voz nas decisões sociais. Essa discussão é marcada pela teoria dos gêneros,
em detrimento da memória social dominante, cujo os que vivem em segundo plano
na sociedade, não têm vez.

Nesse estudo, a escrita feminina, por um longo período na história da humanidade,


foi negada e excluída, assim, o ato criador, a expressão das idéias e a produção
literária, muitas vezes eram esquecidos nas gavetas ou na memória das mulheres
que tentaram romper esse sistema e foram ocultadas pela tradição. Mas a mulher
passou por uma evolução da sua vivência na sociedade e também na consciência
crítica sobre si mesma, que a fez sobrepor-se à soberania falocêntrica e ganhar
espaço no que rege as hierarquias culturais, artísticas e intelectuais.

Para uma compreensão profunda da literatura feminina, é preciso refletir sobre o que
a diferencia da literatura masculina. Um eu-lírico feminino, por exemplo, construído e
produzido por um registro masculino, não coincide com a mulher e sua realidade, é o
mero produto de um sonho alheio. É um objeto de desejo que irá se corporificar no
texto. Dessa forma, não há a presença da voz feminina, a figura da mulher como
personagem irá apenas repetir o discurso masculino do qual não é sujeito. Na
escrita feminina, a mulher passa a ser sujeito de sua fala e a expressar seus
desejos. Cogita-se a presença de uma linguagem feminina, que é, de fato, uma
linguagem singular, às vezes, indizível, que busca sempre resgatar o que há por
detrás das palavras.

Essa luta por igualdade desperta um desejo de independência e autonomia. Dessa


forma, pode ser possível a inserção da mulher no campo literário como cânone,
tornando cada vez mais aceitável e adquirido, perpassando a tradição falocêntrica
do olhar do homem sobre a mulher, para um olhar feminino. A escrita aqui tomada
como objeto de estudo será marcada pelo envolvimento da mulher como escritora
que por sua vez sofreu e ainda sofre sérios preconceitos.
13

Este viés da escrita feminina que será adotado aqui se justifica por estar em perfeita
consonância com o objeto a ser analisado, que serão confrontados com a visão
psicanalítica dos comandos que regem os discursos literários femininos. Para
contemplar a temática em estudo, o trabalho toma como corpus a escritora Clarice
Lispector em sua obra A hora da estrela, e tem como alvo evidenciar na obra, por
meio de um estudo que engloba preceitos literários, as características mais
marcantes da escrita feminina e o reconhecimento e aceitação da mesma na
academia como escritora canônica. A exemplo de tantas outras mulheres escritoras
que transgrediram o silêncio, Clarice soube escrever sobre "inscrever" o feminino em
seus textos a partir de uma linguagem literária inusitada e transgressora.

Dentro da perspectiva investigativa da figura feminina no contexto de autoria literária


observa-se a reduzida propensão de mulheres como cânones ao gênero masculino.
Contudo, novas questões necessitam ser levantadas antes que se busque uma
resposta para essa indagação inicial. Seria a mulher estigmatizada pela condição
feminina de uma sociedade falocêntrica que, superando os preconceitos de gênero
nas relações sociais, teria um lugar importante na revisão científica literária em que
são omitidas? Nessa situação, o olhar da mulher que escreve estaria distante do
conhecimento científico? Por outro lado, enquanto a crítica social do pensamento
excludente enaltece o cânone masculino, a mulher está se aprimorando na busca de
um lugar de posição competitiva no campo literário?

Portanto, no âmbito das situações aqui apresentadas, buscar-se-á desvendar os


problemas supracitados propondo uma análise aprofundada sobre a temática em
estudo por meio de Clarice Lispector, em sua obra A hora da estrela. A visão de que
a autoria feminina ainda não conquistou o mesmo nível de aceitação que a
masculina no campo literário acadêmico, enfatiza a possibilidade de o conhecimento
despertar um desejo de mudança que resulte no crescimento e ascensão da mulher
na participação social, literária e científica.

A metodologia utilizada para a realização deste estudo será a pesquisa bibliográfica


exploratória, buscando nas literaturas fundamentação teórica que abarque a
temática, visando uma explanação clara e objetiva em que estarão contidos registros
de todas as possíveis respostas às inquietações a cerca deste assunto.
14

Os objetivos que nortearam essa pesquisa foram: investigar a figura feminina na


escrita literária, em especial Clarice Lispector na obra A hora da estrela; analisar o
espaço de autoria da escrita feminina como cânone literário; investigar aspectos de
contraposição dos gêneros na obra; avaliar alguns aspectos da construção literária
feminina e, identificar algumas características da escrita de Clarice Lispector na obra
A hora da Estrela.

O que determinou a escolha desta temática foi o interesse em compreender como,


quando e por quais meios a mulher adentrou no espaço canônico literário que até
então era tão fechado para a expressividade feminina. Motivação que nos levou a
olhar para um dos nomes mais importantes da literatura: Clarice Lispector, escritora
que demanda muito estudo, mas cada estudo é apenas uma raiz de uma grande
árvore que tem dado frutos para novas pesquisas e encorajado muitas mulheres a
expressar seus talentos literários.

Falar sobre a escrita feminina como cânone exige uma preparação eficiente na área
de literatura, preparação cuja Universidade tem como um papel a cumprir. A
Universidade é um dos espaços mais privilegiados de convivência, por onde
transitam (ou deveriam transitar) as pessoas com o maior potencial para favorecer o
desenvolvimento humano e científico-tecnológico. Assim, a universidade tem um
papel primordial no processo de desenvolvimento humano, porque ela prepara,
primordialmente, a geração profissional de hoje para cuidar de uma geração ainda
não nascida.

Nesse sentido, este estudo ajudará na construção profissional da área de literatura


proporcionando maior desenvolvimento educativo e possibilitando a cada graduando
interagir com o campo de atuação, exercitando a autonomia e a reflexão crítica a
partir dos conhecimentos acadêmicos. Espera-se que este estudo adquira um
caráter de contribuição e que abra brechas para novos estudos tanto no campo
acadêmico quanto no social, para que a sociedade (professores, alunos e leitores)
possam desfrutar das grandiosas contribuições clariceanas.

Descrever, analisar e discutir sobre como apresentar uma temática desta


complexidade não é fácil, mas colocaremos os estudos e análises presentes de
15

forma organizada em capítulos e tópicos sequencialmente. Assim, os capítulos que


irão compor esta pesquisa far-se-á em três partes. O primeiro capítulo abarcará uma
leitura sobre o processo de formação do cânone literário e como a mulher abriu
caminho para a aceitação canônica implantando na sociedade a evolução da
consciência crítica. Para contemplar esta primeira parte serão usados os
conhecimentos adquiridos através dos pesquisadores literários Leila Perrone-Moisés
(2003) e Graça Paulino (2004).

Far-se-á uma análise acerca da escrita feminina no contexto político-social; como


era a vida social, política e econômica da mulher durante alguns séculos; como era a
recepção da escrita feminina na sociedade e de que forma a mulher foi conseguindo
introduzir suas leituras e escritas em uma sociedade ao qual a mulher não tinha
espaço para manifestar-se artística ou intelectualmente. Para esta análise será
utilizado como fundamentação teórica Simone de Beauvoir (1990), Rita Terezinha
Shimidt in Márcia Navarro (1995) e Virgínia Wollf (1985).

Ainda neste capítulo se pesquisará quais os temas e os gêneros literários que


inicialmente as mulheres abordaram e que faz da escrita feminina uma escrita
literária, e também como a mulher rompeu o silêncio ao buscar formas de expressão
e encontrou nos gêneros o espaço necessário para expressar sua subjetividade.
Neste capítulo os teóricos que irão compor a gama de conhecimentos serão Luiza
Lobo (1997), Lilian Maria de Lacerda (2002) e Yudith Rosenbaum (2002).

O segundo capítulo compreenderá alguns aspectos sobre a vida de Clarice Lispector


como filha, mulher, esposa, mãe e escritora em suas várias características, desde
seu nascimento até seu último dia em vida. Os teóricos que serão utilizados são:
Nádia Battella (1995), Yudith Rosenbaum (2002) e Adriana Lunardi (2002).

Também far-se-á uma breve abordagem sobre o trajeto literário de Clarice Lispector,
suas produções em contos, crônicas, romances, escritos diversos e entrevistas que
marcaram sua vida e carreira literária. Neste subcapítulo Nádia Battella (1995),
Yudith Rosenbaum (2002) e Samira Campedelli e Benjamin Abdala Jr. (1981)
compõem o arcabouço teórico.
16

Para finalizar este capítulo far-se-á uma abordagem sobre o que diz a crítica em
relação a Clarice Lispector, suas obras e também como ela se posiciona diante da
crítica. Este estudo irá compor uma gama de teóricos, entre eles Adriana Lunardi
(2002), Nádia Battella (1995), Olga de Sá (2000) e outros grandes nomes da crítica
literária.

O terceiro capítulo, e talvez o mais importante, pois revela os traços e estilos


literários de Clarice Lispector, compreenderá uma análise das características da
escrita clariceana na obra A hora da estrela, um romance publicado em 1977, ano
de sua morte. Entre as características que se buscará na obra é importante ressaltar
o processo epifânico da autora e a metalinguagem, existentes na obra. Para versar
este estudo Olga de Sá (2000), Cândida Vilares Gancho (2006), entre outras
personalidades irão compor o embasamento teórico para análise dos objetivos
propostos.
17

CAPÍTULO I

UMA LEITURA SOBRE O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO


CÂNONE LITERÁRIO FEMININO
18

1 UMA LEITURA SOBRE O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO


CÂNONE LITERÁRIO FEMININO

“Lutaria por todas as 'colegas' submetidas ao autoritarismo de


regimes [...] mas não pelas mulheres escritoras. [...] nossa luta
é com a gente mesma. [...] A questão não é ser “minoria”. É
escrever bem. [...] Não penso em obter aprovação masculina,
ou feminina. Escrever é o que eu sou. E eu sou uma mulher”.
Christiane Tassis

A formação do cânone sempre foi constituída por um sistema tradicional, resultado


de práticas correspondentes a uma hierarquia de gêneros pertencentes a uma única
base filosófica e sociológica, cuja distribuição desigual dos poderes revela as
disparidades entre o que é de autoria feminina ou masculina.

Essa discussão dos gêneros em relação à formação do cânone literário tem sido
marcada pela desconstrução das hierarquias dominantes que regem as decisões
sociais, políticas, econômicas, culturais e literárias.

A transformação social iniciada por alguns pós-modernistas que almejam


desconstruir o discurso falocêntrico e as relações de poder na sociedade devido ao
descaso e desqualificação do sexo feminino enquanto sujeito de suas ações e
produtora de conhecimento significativo, remonta aos anos de 1960 e 1970,
segundo Helena Confortin (2003), período de ampliação de novos caminhos
literários e quebra da ideologia das diferenças.

Nesse processo, a escrita feminina posiciona-se timidamente diante dos cânones


literários, com isso Ferreira (1996) deixa uma mensagem às mulheres escritoras a
fim de que possam ser vozes para que outras mulheres tomem posse da palavra:

[...] as lembranças destas mulheres ainda não são história; tem que se
tornar história ao se constituírem memória compartilhada e para que haja a
possibilidade e a vontade de escuta [...] para que essas mulheres
construam sua memória enquanto sujeito histórico e por meio dos
testemunhos, reconstruam sua identidade [...] (FERREIRA apud REIS,
1999, p. 119).

O resgate da identidade da mulher na literatura, de seu trabalho legitimado e


apreciado como produção científica, artística e literária e a sua aceitação como
cânone, se encontra como minoria, pois as mulheres que alcançaram o
19

reconhecimento foram estigmatizadas enquanto comportamento que divergia de um


padrão, um estigma social e moral determinado pelo pensamento masculino, é o que
nos diz Confortim (2003).

Não se quer dizer que anteriormente as mulheres estivessem ausentes da


produção científica, mas se elas ali figuravam era, geralmente como
‘estudos de minorias’ [...] um ‘grupo desviante’ eram referidas porque se
entendia que seu comportamento se distanciava, divergia do modelo geral,
o gênero masculino como base para elaboração da regra. (CONFORTIM,
2003, p. 110).

Para refletir sobre o processo de canonização literária é necessário analisar que


existe uma luta ideológica sobre a idéia de o cânone ser protegido por um esquema
tradicional, esquema que sustenta uma unilateralidade social que não permite
adentrar no mundo elitizado a voz dos grupos socialmente discriminados.

Tentar romper os discursos sustentados pela tradição, nos quais a mulher fica em
segundo plano social é adentrar no universo de poder dominante e inferir nos
discursos que regem o saber sobre a literatura. A crítica feminista que preza pelas
vozes da mulher na literatura e na cultura em geral, propõe-se a denunciar essa
ideologia patriarcal e trabalha no sentido de desconstruir a oposição homem/mulher,
entendida no mesmo sentido que a relação dominador/dominada. Nessa discussão
acerca do cânone literário, Perrone-Moisés (2003) faz uma conceituação etimológica
da palavra cânone:

A palavra cânone vem do grego Kanón, através do latim Canon, e


significava ‘regra’. Com o passar do tempo, a palavra adquiriu o sentido
específico de conjunto de textos autorizados, exatos, modelares. No que se
refere a Bíblia, o cânone é o conjunto de textos considerados autênticos
pelas autoridades religiosas. (PERRONE-MOISÉS, 2003, p. 61).

A autora menciona que semelhantemente a igreja católica utilizou esse termo para
designar uma lista de santos e uma seleção de livros reconhecidos como dignos de
autoridade. Como se observa, a origem do termo cânone revela um processo de
exclusões do que não serve para ler ou do que não deve ser lido.

Perrone-Moisés (2003) afirma que a palavra cânone no sentido de relação de


escritores, ocorreu pela primeira vez na Idade Média com Dante e autores latinos,
gregos e árabes selecionados por ele para bella scuola. Essa pretensão a
20

universalidade do cânone passa a ser contestada no século XVIII, assim o juízo


estético deixa de ser universal e os clássicos perdem a condição de modelo
tradicional absoluto e eterno. (PERRONE-MOISÉS, 2003).

De acordo com os estudos que Mirele Jacomel1 fez sobre Perrone-Moisés (2003),
este explica o cânone moderno a partir da teoria kantiana em que o juízo estético
parte do princípio do consentimento ao qual uma obra ou escritor torna-se modelo
devido a maior aceitação e a sociedade é assujeitada ao discurso dominante que lhe
faz calar a voz ‘consentindo’ as decisões.

Para desarticular o discurso dominante do cânone literário surge o multiculturalismo


por meio dos Estudos Culturais. Paulino (2004) afirma que o questionamento sobre
os cânones literários compôs o quadro da discussão de valores que se expandiram
a partir dos anos de 1970 através dos Estudos Culturais que dialogando com a
teoria crítica da cultura procura valorizar os grupos sociais discriminados, entre eles,
a mulher.

Para contrapor-se a um direcionamento de elites intelectuais e/ou


econômicos, os Estudos Culturais, dialogando com a teoria crítica da cultura
da primeira metade do século, sem, todavia, dicotomizar as produções
simbólicas em boas ou más, trabalhou no sentido de valorizar as camadas e
os grupos sociais perseguidos ou discriminados. Fortaleceu-se, então, na
área de ciências humanas, a focalização prioritária dos negros, das
mulheres, dos miseráveis, dos homossexuais, dos loucos. (PAULINO, 2004,
p. 47-48).

Nesse sentido, a história cultural muda seu ponto de vista, permitindo abordagens
dos que são estigmatizados pela sociedade e denunciando os preconceitos, assim,
os cânones estéticos são colocados em questionamento pelos pesquisadores.

Segundo Graça Paulino (2004), um dos mais polêmicos críticos contemporâneos,


Harold Bloom, assegura que toda grande obra constitui uma “desleitura” da tradição,
ou seja, uma leitura forte e aprofundada: “escrever bem literatura seria apenas
mostrar-se capaz de ‘desler’ a tradição literária”. (BLOOM apud PAULINO, 2004, p.
50).

1
Mirele Carolina Werneque Jacomel é mestranda em Letras/Universidade Estadual de Maringá.
21

Na década de 80 do século XX surgiu a revisão ética da antologia oficial produzindo


uma confusão epistemológica no quadro escolar de Letras e uma polêmica interna
no campo da crítica da cultura e das teorias literárias. Entram em cena novos
cânones multiculturalistas de significação, entre eles escritoras femininas.

Nesse processo, os cânones estéticos foram negados, a ponto de alguns


pesquisadores, em nome de uma suposta pós-modernidade, tratarem do
mesmo modo, como se iguais fossem, romances de Graciliano Ramos e de
uma quase desconhecida romancista brasileira como Marilene Felinto, por
exemplo. Meros documentos culturais se tornaram todos os textos literários,
sendo ignorados os critérios de qualidade, tanto de construção quanto de
significação. (PAULINO, 2004, p. 51).

Essa fenda aberta deixada pela chegada dos Estudos Culturais à academia e,
especificamente aos departamentos de Literatura estimulou a cultura de massa e a
tornou apta a disputar forças com a cultura elitista. Por meio dessa abertura no
campo literário, a autoria feminina passa atualmente por um processo de
conscientização. Por alguns poucos e recentes anos, a mulher pouco escreveu e
sempre com ressentimentos devido a simbologia masculina que a reprimia, porém,
após reflexões sobre esta prática, a mulher procura recuperar o passado anulado
pela tradição e mostra uma literatura feminina cheia de significações. (PAULINO,
2004).

Segundo Novaes Coelho (1989), esse fenômeno correu tanto na escrita feminina
quanto na escrita masculina, provocando o início de uma conscientização no campo
literário masculino em relação a presença feminina na escrita literária.

Esse fenômeno é idêntico, tanto para a literatura feita pelos homens, como
por aquela feita pelas mulheres. Entretanto, há, na literatura feminina atual,
algo mais, algo essencial dentro das transformações em processo no ser
humano e na sociedade, e que podemos definir como a busca da Nova
mulher. Ou, em outras palavras, a busca do feminino autêntico, pressentido
para além dos destroços da ‘imagem tradicional da mulher’, patente na crise
em processo de nossos tempos. (COELHO apud PATRASSO e GRANT,
2007, p. 141).

A evolução da consciência crítica da mulher em relação a si mesma e ao tempo em


que vive, fundamenta-se na visão sociológica sobre as relações de poder. Superar a
imagem tradicional da mulher e recuperar a voz exigiu das escritoras a concentração
sobre si mesma propondo a construção de uma literatura sem discriminações, num
22

universo sem privilégios unilaterais. Vera Lúcia Pires2 (2003), analisando o papel
que as mulheres desempenham na transformação do imaginário feminino, ao falar
sobre a escritora italiana Natália Ginzburg, ratifica a iniciativa precursora da autora
ao dizer:

[...] as mulheres aprenderam a criticar a simbologia tradicional, que lhe era


atribuída, conferindo-lhes novos sentidos. E, se tanto a imagem quanto a
linguagem produzem significados que estruturam as nossas identidades, foi
cultivando novas atitudes [...], assim como ocupando novos espaços e
posições sociais, que as mulheres construíram novas imagens de si,
começando a transformar o imaginário tradicional [...] (PIRES apud
ALMEIDA, p. 90).

A formação do cânone foi uma das formas que a crítica literária encontrou para
assegurar o poder na sociedade, dessa forma, ler obras que valorizem a mulher e os
grupos marginalizados socialmente é criticar as convenções culturais que regem a
nossa sociedade e questionar os pilares que sustentam a história da literatura
tradicional. Portanto, negar a participação da mulher na sociedade é negar a própria
história, é falsificar uma verdade que ficou oculta durante muito tempo e que agora
toma força para reerguer o processo de identidade, resistência e existência feminina.

É nesse processo evolutivo que a mulher vem ganhando espaço na sociedade e


abrindo caminho no campo da escrita literária. Uma conquista que envolve
identidade e linguagem, incentivada pela sede de autonomia, igualdade e
reconhecimento de suas produções. Esse espaço aberto nos deixou Clarice
Lispector, com sua literatura inovadora e transgressora da tradição narrativa. Ela nos
permite caminhos para uma nova linhagem, uma escrita autônoma, feminina e
merecedora de reconhecimento e canonização.

2
. Apud Márcia Almeida. O esvaziamento dos papéis gendrados como estratégia de crítica social. p. 90. in:
www.ppgletras.ufjf.br/profs/textos/textoma1.pdf (ensaio literário).
23

1.1 A Escrita Feminina no Contexto Político-Social

“Os escritos de uma mulher são sempre femininos. Não pode


deixar de sê-lo. Quanto melhor, mais feminino; a única
dificuldade é definir o que entendemos por feminino”
Virgínia Woolf

Procurar textos escritos pelo sexo feminino numa sociedade machista e falocêntrica
é uma atividade árdua, pois durante muito tempo foi negado à mulher o direito de
desfrutar de algumas atividades que eram aceitáveis apenas ao homem como o
domínio do corpo, o direito à voz e voto e principalmente o direito de expressar seus
pensamentos e sentimentos em textos literários.

Isso porque os principais interesses da mulher deveriam estar voltados para o


espaço privado do lar, e o casamento era a sua principal conquista tal como a
maternidade, como afirma Simone de Beauvoir:

[...] Admite-se unanimemente que a conquista de um marido - em certos


casos de um protetor - é para ela o mais importante dos empreendimentos...
ela se libertará do lar paterno, do domínio materno e abrirá futuro para si,
não através de uma conquista ativa e sim entregando-se passiva e dócil nas
mãos de um novo senhor. (BEAUVOIR, 1990, p.67).

A imagem da mãe-esposa, dona de casa como a principal e mais importante função


da mulher correspondia àquilo que era imposto pela sociedade machista. Ao homem
cabe o espaço público da produção, das grandes decisões e do poder, à mulher
pertence o domínio da casa e o espaço privado do mundo doméstico. E no espaço
literário não foi diferente ela sempre foi útil ao homem como sua coadjuvante,
complemento e até musa, mas nunca como criadora e autora de suas aspirações.
Para Rita Terezinha Shimidt:

A experiência feminina sempre foi vista como menos importante no espaço


da cultura e da literatura e, de modo geral, foi excluída do discurso do
conhecimento onde a esfera do pessoal, tradicionalmente codificada como
relativo ao feminino, foi sistematicamente desvalorizada por essa mesma
razão. Na impossibilidade de reconhecer-se numa tradição literária, em que
as limitações impostas pelas imagens literárias lhe apontavam o papel de
musa ou criatura, o que as excluíam automaticamente do processo de
criação, as escritoras, especialmente as do século 19, tiveram que lutar
contra as incertezas, ansiedades e inseguranças tanto ao seu papel de
autora, quanto à sua autoridade discursiva para afirmar e representar
determinadas realidades, ausentes ou falseadas no espelho que a cultura
lhe apresentava. (SHIMIDT in NAVARRO, 1995, p. 185).
24

À figura feminina sempre foi atribuído o papel “inferior” na sociedade. Quando se


pensa na escrita produzida pelo sexo feminino, pensa-se com indiferença, pois a
sociedade não lhe abria espaço no campo literário como abria aos homens. Elas
não tinham nenhum tipo de apoio, como afirma Virgínia Woolf:

A indiferença que alguns homens de gênio tiveram que suportar, não era,
no caso da mulher, indiferença, mas, sim, hostilidade. O mundo não lhe
dizia como a eles: escreva, se quiser. Não faz nenhuma diferença para mim.
O mundo dizia numa gargalhada: ‘escrever?’ e que há de bom em você
escrever? (WOOLF, 1985, p. 69).

A mulher foi considerada durante muito tempo um ser incapaz de escrever e


segundo Woolf (1985), a mulher, portanto, que nascesse com a veia poética era
uma mulher infeliz, uma mulher em conflito consigo mesma, pois os seus próprios
instintos conflitavam com a indisposição de ânimo necessária para libertar tudo o
que há no cérebro. Woolf ainda afirma que havia uma enorme maioria de opiniões
masculinas no sentido de que nada se poderia esperar das mulheres,
intelectualmente falando. Grande parte das mulheres cresceu ouvindo aquela
afirmativa: você não pode fazer isto, você não pode fazer aquilo, e isto, para a
autora, deve ter reduzido a vitalidade e influído profundamente em seu trabalho.

Pois é um enigma perene, afirma Wirgínia Woolf (1985) a razão porque nenhuma
mulher escreveu uma só palavra daquela extraordinária literatura, quando um em
cada dez homens, parece, era dotado para a canção ou o soneto.

Mesmo excluída do espaço cultural, algumas mulheres participaram da história da


literatura e segundo Luíza Lobo3 (1997), a principal transformação porque passou a
literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua liberdade
e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira
como também e nas últimas décadas aceitação da mulher como participante da
literatura se faz cada vez mais presente na sociedade. Shimidt reafirma esta
aceitação da escrita feminina:

Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto sobre mulheres e literatura


quanto na última década, fato inusitado no contexto de uma história literária
e tradição crítica de mais de dois mil anos, história essa construída e

3
Professora de Pós-graduação e de Literatura comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal do
Rio de Janeiro – UFRJ, autora de livros e traduções.
25

constituída por um corpus de textos canonizados e escrito no registro do


masculino. (SHIMIDT in NAVARRO, 1995, p. 187).

Mesmo sendo um grupo minoritário, lentamente, a mulher vem conquistando seu


espaço como escritora em uma sociedade indiscutivelmente falocêntrica e tornando-
se independente do homem em sua escrita literária.

Sabe-se que muitas mulheres: filhas, mães, esposas ou amantes com insaciável
desejo de se tornarem escritoras escreveram à sombra de grandes homens e se
deixaram sufocar por essa sombra. Segundo Neuma Aguiar (1997), as relações
familiares, hierarquizadas e funcionais, não incentivavam o surgimento de um outro
escritor na família, principalmente se a concorrência vinha de mulher. Segundo ela
não é por acaso que algumas só se sabe que foi “irmã de Balzac”, “esposa de
Musset”, “mãe de Lamartine” e mal se conhece seus nomes e seus escritos.

É bastante evidente que mesmo no século XIX a mulher não era incentivada a
nenhuma atividade autônoma, era submetida à vontade dos pais até que se
casasse, passando assim os direitos ao marido.

Hoje as mulheres desfrutam de maior liberdade e por causa de suas lutas e


conquistas como o direito à educação superior, a votar e ser votada, a exercer
profissões remuneradas, de escrever, ser valorizada e reconhecida por isso; obteve
o direito de autonomia sobre o seu próprio corpo: a escolha da vida sexual, ao
controle da fecundidade e a não ter mais só e obrigatoriamente a função de ser mãe,
mas de poder dedicar-se ao trabalho na área e atividade de sua escolha, inclusive
na área literária, antes permitido apenas aos homens.
26

1.1.1 Temas e gêneros literários de abordagem feminina

“Agora me aceito escritora. Demorei tantos anos para descobrir


minha forma de expressão [...] Uma procura torturada, quase
obsessiva, que melhorou muito depois de ter me tornado
escritora”.
Raquel Jardim. Cheiros e ruídos (1976)

Assim como Raquel Jardim, contista, romancista, memorialista, cronista, crítica, e


diplomada em direito, muitas mulheres ousaram superar o imperialismo da camada
social falocêntrica dominante e adentrar no mundo da escrita literária, mas essa
atitude moderna em que a mulher se insere durante muito tempo não saiu do
anonimato.

De acordo com Lívia de Freitas Reis (1999), até metade do século XX existia a
noção de que os textos escritos por homens eram mais qualificados que os das
mulheres, isso por que a literatura não era vista como uma atividade humana, mas
sim como uma das diferenças entre o ser homem e o ser mulher.

Apoiada em uma lista de livros femininos, diários, memórias, autobiografias e


romances memorialistas, Lilian Maria Lacerda (2002) manifesta-se em desabafo com
relação as escritoras que não foram reconhecidas pelos cânones literários ou pelos
críticos editorias e comerciais que envolvem a economia política por detrás dos livros
excluindo a voz feminina das seleções editoriais. Ela assegura que no passado boa
parte da escrita feminina não saiu do anonimato e por isso, toda documentação
sobre o mundo da mulher caiu em descrédito.

Refiro-me, a exemplo, aos cadernos de anotação cotidiana, aos diários


íntimos, à correspondência familiar, às cartas de amor, aos papéis avulsos
que continham notas pessoais ou ‘ensaios’ de poesias, romances, contos
ou memórias que jamais foram ao prelo. (LACERDA, 2002, p. 19).

Pode-se considerar que todas essas documentações caíram em descrédito por não
terem sido consideradas como fonte histórica ou herança literária, assim, esse
caráter feminino em confessar sua vida privada de forma informal, presente em
muitos desses escritos, determinou o desprestígio documental e textual que,
27

Lacerda (2002) assegura terem sido queimados, guardados ou deteriorados pela


ação do tempo e do esquecimento.

Rompendo o silêncio ao buscar formas de expressão, a mulher encontrou nos


gêneros de fronteira o espaço necessário para conquistar voz e letra e expressar
sua subjetividade. Segundo Reis (1999), a mulher irá com o seu autoditarismo
aprender as formas literárias dos livros lidos da juventude e apropriar-se delas na
produção de sua literatura, toda via em suas narrativas, ela aceita os modelos
literários estabelecidos, não se dobra a eles, passando a imprimir, em seus textos,
alternativas para as mulheres de seu tempo.

Neste “outro” lugar a mulher escreveu cartas, diários, histórias do cotidiano


banal de suas vidas. Ao contrário do homem, a mulher ao aparentemente
não tinha nada de extraordinário para contar, mas ela contou. E, ao contar,
contou histórias, autobiografias, biografias, testemunhos. (REIS, 1999,
p.115).

Reis aqui nos relata, de forma clara, que essa mulher que ousa escrever conta fatos
que não representam grandes feitos, por que para o cânone e para os homens não
interessava as experiências do dia a dia de pessoas que viveram ou vivem em
segundo plano na sociedade, os componentes desses relatos era exatamente o que
era permitido a elas viverem, logo era o que lhes era possível escrever.

Essa difícil definição que envolve a escrita autobiográfica ou memorialista implica o


lugar discursivo da mulher em relação ao homem. Enquanto o homem era
reconhecido como cânone literário, a mulher cabia essa reconstrução de sua
memória, quase como um pedido de licença ou desculpas ao abrir o discurso
narrativo, pois as memórias quando publicadas parecem incorporar um acordo entre
a autora e editor como se elas buscassem apoio em estratégias discursivas que
poderiam atenuar os comentários críticos. (LACERDA, 2002). Nessa discussão,
Beauvoir (1990) diz que existem algumas evidências etnográficas de que em
algumas culturas as mulheres desenvolveram uma forma de comunicação particular
em razão de sua necessidade de resistir ao silêncio imposto na vida pública.

Assim, os textos evidenciam o lugar da escrita e a função memorialista e as


narradoras assumem, implícita ou explicitamente, um tom documental e arquivista
28

associando à experiência pessoal aos acontecimentos do passado e do presente.


Desse modo, reencenam a organização da vida familiar e do trabalho, o espaço
social e cultural da época a que estavam inseridas, ao qual a voz enunciadora oscila
entre a denúncia e a subserviência ao poder patriarcal que engendra certas relações
sociais e de gêneros. É o que revela Maria Eugênia Torres Ribeiro de Castro (1975)
em sua obra Reminiscências:

[...] Escrevo e, não tendo mais o que dizer, deixo a pena para ganhar ou
perder alguns tentos no jogo do solo. [...] se tento escrever para matar o
tempo, chamam-me romântica, louca, dizendo ser mania do século os
jovens terem pretensões a poetas e romancistas. Que fazer? Curvar a
cabeça ao jugo do mundo, e procurar ser boa despenseira, boa costureira e
ver se arranjo marido para ter casa a governar e quem pague as contas das
modistas. Pobre e torpe realidade! (CASTRO apud LACERDA, 2002, p. 22).

A proposta literária memorialística permite a interlocução da escritora com o público


leitor frente aos fatos que assistiu e participou como espectadora, com isso, os
depoimentos e testemunhos evidenciam a escrita com pretensão em dar
autenticidade sobre o vivido e experimentado. Assim os segredos guardados no
escaninho da memória revelam algumas passagens importantes da experiência
feminina no uso público da escrita.

O reconhecimento de que outras mulheres enfrentaram dificuldades para poder criar


e escrever, e que seus textos se assemelham, nos temas e nas formas, aos textos
contemporâneos, principalmente no que se refere à indagação crucial sobre uma
identidade própria e autônoma, cria um entendimento de que o resgate e a releitura
das autoras e seus pares estabelece uma interlocução entre elas, uma verdadeira
conexão. E a identificação entre as vozes do presente e do passado se estabelece a
partir de um sentimento de afinidade comum, referente aos desejos e obstáculos
que todas elas enfrentaram quando decidiram escrever.

Hoje não se tem dado nada de notável, que mereça registro. Eu é que
deixei o meu trabalho de costura para vir rabiscar estas linhas; sempre
predomina em mim a cega paixão pela escrita, que me faz parecer
romântica; parecer, digo, porque não desejava que os demais dessem por
isso. Porém a ti, meu querido livrinho, mundo confidente de minhas penas e
alegrias, a ti direi que sou, e muito. (CASTRO apud LACERDA, 2002, p. 21-
22).
29

Pode-se perceber que a mulher tem na escrita uma espécie de confidência, nesse
processo ela revela ao papel o que mais ninguém revelaria, isso por que eram
obrigadas a viver em um padrão, um tipo de vida para o qual foram destinadas.
Pode-se ver que o discurso da mulher internaliza o código de comportamento
exigido, o que pela ideologia dominante limita a sua liberdade, talvez seja por esse
motivo que a maioria dos trabalhos femininos sejam autobiografias. Historicamente
as declarações e testemunhos daqueles que nunca puderam falar surgem em
momentos de fragilidade e crise, tempos de guerra, revoluções e ditaduras, é no
momento de profundas mudanças sociais que do silêncio emerge vozes que contam
suas experiências.

De acordo com Reis (1999), as histórias de vida narradas e os testemunhos são, por
natureza, autobiografias nas quais não há coincidência entre o sujeito do enunciado
e o da enunciação, o sujeito é único, enquanto que no testemunho ocorre uma
duplicidade de sujeitos em função da dupla autoria. Devido à sua preocupação com
a originalidade e literariedade, as autobiografias recorrem à ficção, e isso não
constitui um fato raro.

O espaço letrado, ao abrir espaço para as narrativas testemunho, deixa ver


sintomas de que a crise dos gêneros é uma característica da produção
textual do fim do século.Os paradigmas existentes já não são suficientes
para representar vozes que sempre habitaram o silêncio. (REIS, 1999,
p.116).

As formas que eram utilizadas para moldar a escrita já não são mais capazes de
satisfazer as necessidades e aos avanços do mundo literário, agora a mulher quer
ter direito de escrever algo novo, não só autobiografias. Passa-se então a haver uma
adequação do universo da escrita feminina ao romance psicológico, tão praticado
durante décadas, mas que não conseguiu esboçar uma reflexão mais depurada dos
fenômenos literários e de sua relação com a história social da mulher.

Como afirma Luíza Lobo (1997), posteriormente a narrativa feminina começa


caminhar também para a execução de romances históricos e sobre os quais se
discutem questões de grande relevância política e econômica e cultural, como Maria
Firmina dos Reis cujos Cantos (1872) trazem inúmeros poemas patriotas e
abolicionistas; Raquel de Queiróz que sempre será lembrada pelo seu primeiro
30

romance O quinze (1930) onde relata os problemas e a situação de pobreza atávica


oriundos das constantes secas e imigrações dos povos interioranos para as capitais
do Nordeste, num interminável ciclo.

Hoje as autoras, em especial as brasileiras, introduzem suas vozes em todos os


registros da vida intelectual. As escritoras passaram a expressar suas realidades
psicológicas, interiorizadas, filosóficas, introvertidas e dessa forma, superaram o
estágio em que repetiam o estilo dos homens. Segundo Luíza Lobo (1997), essas
autoras modernistas, pós-modernistas e contemporâneas, Cecília Meireles, Clarice
Lispector, Adélia Prado, Lygia Fagundes Teles, Helena Parente, entre outras, são
algumas das que tem buscado na escrita do excluso penetrar no mundo acadêmico
literário mostrando coragem para romper estruturas da sociedade falocêntrica e
patriarcal e expressar na literatura, através de um texto realista, linear e autoritário,
tão bem aceito pelas obras dirigidas ao sucesso editorial.

Nos interstícios entre biografia e autobiografia, disputados pela literatura, o


testemunho aviva o debate sobre os gêneros e abre radicalmente um novo espaço
na prosa e na poesia para os silenciados. Assim afirma Luiza Lobo, no ensaio A
literatura de autoria feminina na América Latina.

A prosa e a poesia que tentam apresentar uma mulher ousada,


independente, não vitimizada pela sociedade patriarcal, na verdade
constituem uma tentativa de criar uma nova expressão rebelde ou
autoassertativa da mulher – enquanto grupo não passivo, e como uma
alteridade na sociedade pós-moderna. (LOBO, 1997, p. 20).

Em meio a um turbilhão de textos guardados ou des-cobertos pela poeira do


esquecimento destinada as mulheres, é no memorial que seus talentos, sonhos e
anseios a escrita podem ser compreendidos como uma história passada a limpo ou
um acerto de contas.

Nesse acerto de contas com o passado que a portuguesa naturalizada brasileira,


Clotilde do Carmo, em sua obra Aluna do telhado, expressou de forma marcante
grande parte de sua vida sob a vigilância e o autoritarismo de uma sociedade
patriarcal, ao qual lhe negou o direito de estudar, mas que não conseguiu lhe tirar a
vontade de escrever.
31

O futuro é uma miragem, um arco-íris ou uma quimera, ilusão que nunca se


alcança. [...] Talvez achem bobas essas minhas filosofias, mas são coisas
que imagino sem querer. Talvez seja pela força de vontade que tenho de
concluir minha obra antes de ultrapassar o futuro, que agora anda às voltas
com o meu livro, para ver se ele vai ser editado, pois o meu último desejo.
Meu grande pendor pela leitura, me ajudou muito, porque a verdadeira
vocação existia latente dentro de mim. Escrevia a esmo baseada na minha
própria vida. Escrevia sem regras, sem técnicas, sem gramática e sem
conhecimento para tal. Estudei na Academia da Vida, jamais transpus os
portais de uma casa de ensino, levei muitas bombas no curso de minha
vida, agora desabafo nessas linhas os recalques de tempos remotos,
arrastei pela vida afora o desejo de escrever um livro. [...] Agora tenho a
plena convicção de que não foi uma vida inútil, pois plantei uma árvore, tive
um filho e escrevi um livro: E esses são os três valiosos feitos que
enaltecem um coração. Devemos deixar em nosso caminho um testemunho
do que fizemos de bom e isso é um dever de cada um, para que a vida não
pareça amarga e insonsa. Temperemos pois, a nossa vida com flores e
amor, e teremos vontade de contá-la. [...] Amor, Sonho, Romance, Poesia,
Aventuras e Sofrimento. São as seis fragrâncias que exalam em cada época
da nossa vida. Fui escrevendo nas pautas dos meus caminhos; agora juntei
as folhas esparsas e fiz o livro a que já me referi e o meu desejo é poder
publicá-lo, para assim ser um marco no fim da minha estrada. (CARMO
apud LACERDA, 2002, p. 23).

O futuro ao qual Clotilde se refere é justamente a posição da mulher escritora na


sociedade. A vontade de escrever e deixar um testemunho do olhar da mulher e
suas experiências perante a sociedade, foi seu desejo mais profundo, mesmo em
meio as dificuldades que tem uma escritora de publicar seus livros. A vida das
autoras, minuciosamente descritas, surge como um recurso para avivar o interesse
por suas obras.

Assim como Clotilde do Carmo tem-se como exemplo de mulher que rompe esses
padrões transgredindo convenções lingüísticas e literárias, a escritora Clarice
Lispector, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Clarice não
produziu sua autobiografia memorialista, mas deixou suas experiências, suas
sensações em relação à vida e a morte. Utilizou suas sofisticadas leituras para a
criação de um estilo profundamente pessoal de constante questionamento da
existência através da palavra, a partir do ponto de vista existencialista e psicológico,
como se nota no trecho do romance A paixão segundo G. H.

[...] Estou procurando, estou procurando, estou tentando entender.


Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar
com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa
desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me
alguma coisa que eu, pelo fato de não, a saber, como viver, vivi uma outra?
(LISPECTOR, 1986, p.07).
32

Observa-se que apesar da constante busca por novos significados para povoar um
mundo existencialmente insatisfatório e aberto ao questionamento, Clarice, em sua
obra, efetua uma associação entre o eu consciente e o eu inconsciente, sempre se
amparando no significado profundo da palavra.

Esse uso particular da linguagem clariceana põe em destaque a própria palavra


enquanto instrumento mediador entre o sujeito e a realidade circundante, em
detrimento do enredo narrativo. Nesse cenário, afirma Reis (1999), a tessitura da
escrita, o magnetismo da autora canônica e a necessidade de situar as novas vozes
formam uma espécie de tríade a apontar quase que irresistivelmente a
categorização “literatura feminina”.

A linguagem de Clarice é vista como espelho do real em si, a partir do eixo da


verossimilhança a introspecção invade o discurso e a fala do eu desintegra-se ao
ocorrer a identificação entre a subjetividade e a realidade, por meio da linguagem
metafórica.

A realidade é a matéria prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e


como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que não
conhecia, e que instantaneamente reconheço (LISPECTOR apud
ROSENBAUM, 2002 p. 16).

Essa marca clariceana em buscar a realidade por meio da palavra faz da autora uma
inventora de linguagens que desvenda emoções e pensamentos que, segundo
Adriana Lunardi (2002), antes dela não tinham nem nome. É com a ruptura e
transgressão da escrita literária que a ficção feminina no Brasil, após os anos de
1970, tem em Lispector sua referência mais importante e mais recorrente, pois todo
texto ficcional feminino que se caracterizavam por uma dicção introspectiva se vê
nas últimas décadas, imediatamente decorrido de Clarice.

Mesmo sendo mitificada por uns e rejeitada por outros no cenário literário, ao longo
de uma vida com produções de romances, contos, crônicas e livros infantis, de
acordo como Yudith Rosenbaum (2002), Clarice, a mulher escritora resistiu todas as
tentativas de enquadramentos, classificações e definições de suas obras.
33

Por isso, para seguir a linha de discussão do espaço da escrita feminina em que
Clarice Lispector abriu é necessário conhecer essa mulher, mãe e escritora que
Nádia Batella (1995) a classifica como: “Próxima. Distante. Vaidosa. Terna. Sólida.
Lisérgica. Vidente. Visionária. Intuitiva. Advinha. Estrangeira. Enigmática. Simples.
Angustiada. Dramática. Judia. insolúvel.” Esses traços compõem os diferentes perfis
de Clarice, visto por aqueles que tinham contato direto ou indireto com ela e seus
leitores, mas principalmente registrado pela autora supramencionada e Yudith
Rosenbaum (2002).
34

CAPÍTULO II

CLARICE: A TRADUÇÃO DE UMA VIDA ENTRE OS LIMITES


DO HISTÓRICO E O FICCIONAL
35

2 CLARICE: A TRADUÇÃO DE UMA VIDA ENTRE OS LIMITES DO


HISTÓRICO E O FICCIONAL

“Nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa pequena


aldeia chamada Tchechelnik, que não figura no mapa de tão
pequena insignificante [...] Cheguei ao Brasil com apenas dois
meses de idade”
Clarice Lispector

Em 1920, chega a hora do nascimento de uma mulher, cuja história transcreve um


quase indecifrável enredo de realidade e ficção, é a hora de Clarice Lispector, filha
de Pedro Lispector e de Marieta Lispector.

Mas como atestar uma identidade se os documentos oficiais analisados por Nádia
Battellla Gotlib (1995) exemplificam várias versões da certidão de nascimento de
Clarice. Uma delas data 10 de Dezembro de 1920 quando seus pais solicitam ao juiz
do Rio de Janeiro a justificação da idade da filha e a comprovação perante a lei de
sua existência.

A família Lispector veio para o Brasil como imigrante e não tinha documentos oficiais
que comprovasse as certidões de nascimento ou passaportes, porém há vestígios
da identidade de Clarice tirada na Ucrânia e Traduzida por Arthus Gonçalves Filho,
em Recife, quando Clarice é matriculada no Ginásio de Pernambuco e no cartório do
Rio de Janeiro para onde sua família se mudou. Essas informações trazem versões
diferentes ao datar o nascimento de Clarice em 10 de Dezembro de 1920 e a outra
14 de Novembro de 1920, como se a criança fosse registrada antes mesmo de seu
nascimento e ainda sem o nome dos pais (GOTLIB, 1995).

Dentre essas e outras datas, a que vigora é 10 de Dezembro de 1920, mas até
mesmo Clarice adota várias datas como 1921, 1926, 1927, entre outras que se
repetem através dos tempos. Finalmente, em 1970 quando foi indagada sobre sua
verdadeira data de nascimento, Clarice não fez questão de ditar números, afirmando
categoricamente “nasci na Ucrânia. Quando?... não, não quero dizer”. (LISPECTOR
apud GOTLIB, 1995, p. 60). Outros dados também se diferem, a carteira de
identidade para estrangeiro de Clarice traça seu perfil como de cor branca e olhos
36

castanho-claros e em outros registros da mesma época, de olhos verdes. (GOTLIB,


1995).

A história de Clarice não começa somente com seu nascimento, e sim, com a
imigração de sua família da Rússia para a América fugindo da perseguição aos
Judeus após a Revolução Bolchevique de 1917. Seus pais aportaram em Maceió,
onde tinham parentes, em Fevereiro de 1921 com suas três filhas, Elisa, a mais
velha, Tânia, a mais nova, Clarice de apenas dois meses, que nasceu em viagem,
na aldeia de tchechelnik.

Quando pequena Clarice gostava de ouvir histórias e as inventava de forma


fabulosa. Suas histórias não tinham fim, assim ficava fácil continuar ou recomeçar
em um ponto quase impossível. Para esse jogo de oralidade quase que interminável,
ela contava com uma amiga que aprendeu a contar histórias através dela.

Antes dos sete anos eu fabulava. Eu ensinei uma amiga um modo de contar
histórias. Eu contava uma história e quando ficava impossível de continuar,
ela começava. Então ela continuava, e quando chegava em um ponto
impossível [...] eu pegava. [...] E continuava. (LISPECTOR apud GOTLIB,
1995, p. 84).

Depois de quatro anos sua família se muda para Recife onde Clarice passa toda sua
infância, marcada pela pobreza e camuflada pela pureza da inocência de uma
criança que sonhava com o mundo ficcional. Esse é o período em que a pequena
menina é alfabetizada e o contato com a literatura se intensifica.

Quando eu aprendi a ler e escrever, eu devorava os livros! [...] Eu pensava


que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que
era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor. Aí eu disse: eu
também quero. (LISPECTOR apud GOTLIB, 1995, p. 84).

A sua relação com os livros lhe permitiu descobrir a escritora em si, e aos sete anos
de idade, ela começa a mandar contos para a seção infantil do Diário de
Pernambuco, porém esses contos nunca foram a publicação, afirma Nádia Battela
Gotlib:

Ali eram publicadas as melhores histórias enviadas pelas leitoras mirins [...]
As outras crianças eram publicadas e eu não. Logo compreendi por que:
elas contavam histórias, anedotas, acontecimentos. Ao passo que eu
relatava sensações... coisas vagas... Mas sou teimosa e não fiz ao longo de
minha vida senão perseverar na mesma trilha, suprimir os fatos e privilegiar
37

as sensações. Com o risco de não ser publicada. (LISPECTOR apud


GOTLIB, 1995, p. 87-88).

Desde criança Clarice revela seu apego as sensações e traça uma escrita com
recortes fragmentários do real, que como afirma Yudith Rosenbaum (2002, p. 11)
“Não só sua escrita se faz pelo avesso – sendo a escuta do que se cala ou a visão
do que se oculta”. Ela entendeu que a sua forma de escrever é diferente das demais
crianças de sua idade, ainda que não compreendida, Clarice sabe o que quer, a que
veio, por que e para que escreve.

Rosenbaum (2002) assegura que nessa época, sua mãe Marieta, já estava doente,
sofria de uma paralisia progressiva que a tornou inválida, até falecer em 1930.
Clarice não sabia, mas sua mãe também escrevia diários e poemas, que nunca
publicou e que acabaram se perdendo. Na entrevista ao programa na TV Cultura,
realizado a pedido dela em 1977, ela revela ter conhecimento a alguns poucos
meses sobre o fato e com indignação diz ao entrevistador Júlio Lerner: “Eu fiquei
boba”.

Em 1938, quatro anos após sua família se mudar para o Rio de Janeiro, Clarice, por
falta de orientação profissional inicia o curso de Direito na Universidade do Brasil,
onde conhece um colega de turma e futuro embaixador, Maury Gurgel Valente, que
em 1943 casam-se e consequentemente têm no matrimônio os filhos: Pedro, o
primeiro e Paulo, nascido em Washington. Seu casamento durou 15 anos, mas o
romantismo de Clarice e sua ânsia ininterrupta por escrever duraram a sua vida
inteira.

Clarice nunca exerceu o ofício da profissão ao qual se graduou, preferiu a atividade


de jornalista que permeou durante toda sua vida em simultaneidade com a de
escritora. Ela foi uma das primeiras repórteres brasileiras, sendo a única redatora na
Agência Nacional, trabalhou também como repórter no Jornal A Noite, ao lado de
personalidades como Lúcio Cardoso e Antonio Callado e outros intelectuais como
Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e Rubem Braga. Ainda
escrevia para o Correio da Manhã, o Diário da Noite, a revista Manchete, entre
outros periódicos. (ROSENBAUM, 2002).
38

Com a separação, Clarice inicia a retomada de sua vida pessoal e literária, porém
em 1967, de acordo com Rosenbaum (2002), um incêndio causado por um cigarro
aceso e esquecido durante a noite deixa sequelas na mão direita e nas pernas, o
que exigiu várias cirurgias, ainda assim, Clarice continuou escrevendo crônicas para
o Jornal do Brasil até 1973.

Uma imigrante russa, que sempre se sentiu brasileira, como ela mesma afirma: “Sou
brasileira naturalizada, quando por uma questão de meses, poderia ser brasileira
nata” (GOTLIB, 1995, p. 114), nascida européia, criada nordestina, residente carioca
na condição de esposa de diplomata até 1959, Clarice viaja e habita em vários
países como Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. (ROSENBAUM, 2002).

Por esse histórico turístico, Clarice passa a ser mitificada pela língua que fala como
o “sotaque estrangeiro”. Nádia Battella (1995) faz um esclarecimento sobre a língua
da escritora, que segundo ela, Clarice foi marcada por três línguas em sua fala, a
primeira, a língua portuguesa, que foi sua língua materna; a segunda, o russo, língua
dos pais que não foi ensinada aos filhos, pois Clarice e suas irmãs não sabiam
devido seus pais terem aprendido logo o português; e a terceira que não é a língua
de seu país e nem a dos seus pais, mas a língua da própria Clarice, uma língua
presa, causando um defeito de dicção, que ela mesmo afirma: “A minha primeira
língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não, absolutamente [...] eu tenho a
língua presa”. (LISPECTOR apud GOTLIB, 1995, p. 65).

Em novembro de 1977, Clarice soube que sofria de câncer generalizado. No nono


dia do mês seguinte, na véspera de seu aniversário, um dia antes de completar 57
anos, morria em plena atividade literária e gozando do prestígio de ser uma das
mais importantes vozes da literatura brasileira.

Samira Campedelli e Benjamim Abdala Jr. (1981), asseguram que Clarice Lispector
queria ser enterrada no cemitério São João Batista por ser mais próximo do Leme,
bairro onde morava no Rio de Janeiro, porém foi enterrada no cemitério do Caju,
onde por honra recebeu a homenagem da escritora Adriana Lunardi através de um
de seus contos em que relata a morte de Clarice.
39

A autora supramencionada narra a vida de Joana, uma moça que conta sua própria
história e revela seus sentimentos de perda ocasionados por um pai ausente que ela
conhece já adulta, depois da morte de sua mãe. O encontro tardio com o pai se dá
de forma concomitante ao encontro da leitora com sua genealogia mais importante.
A solidão de Clarice dentro de sua família, representado por Joana de forma
ficcional em Perto do coração selvagem, se vê aqui na personagem Joana de
Adriana Lunardi (2002). Quando o pedreiro do cemitério indica o lugar onde está
enterrada Clarice Lispector, perguntando-lhe se ela era alguém da família, a
narradora responde:

[...] Não, não era filha, sobrinha, prima. Nenhum laço de genealogia me
atava a ela, mas a que família eu podia afirmar pertencer? [...] Se eu
quisesse uma família, tinha que criá-la eu mesma. Fazer uma seleção
particular de pessoas e inventar uma afinidade que nos unisse. [...] Clarice
me era muito mais familiar do que qualquer outro ser no mundo. Com ela eu
tinha finalmente uma coisa parecida, uma coisa fundamental. Ela era
alguém que me olhava nos olhos, e nesse olhar estava o segredo que
compartilhávamos. Um segredo que só existia pela cumplicidade de sabê-
lo, como todos os segredos de família. Ela afastava de mim o temor de
enlouquecer só porque aquilo que eu sentia ainda não tinha nome. E me
encorajava a ser o que eu era, a gostar de sê-lo. Assumia a minha
estranheza, apontava-me a beleza que havia nela e, sobretudo, cercava-a
de dignidade. (LUNARDI, 2002, p. 76).

As palavras escritas por Lunardi para revelar com poesia e sensibilidade a morte de
uma ancestral que legitima as expressões artísticas e intelectuais da experiência
feminina literária, reflete na herança, descendência, ascendência, parecença e
pertencimento a uma linhagem de mulheres escritoras e leitoras de escritoras. De
leitora clariceana, Lunardi passa a escritora, tornando-se também uma transgressora
da tradição literária dominante, permitindo a legitimação dessa linhagem de autoria
feminina.

[...] Estou diante do túmulo de Clarice Lispector e essa é a minha história.


Tinha ido até ali para vê-la, para fazer-me do que gosto, ceder à mínima
manifestação do meu ser difícil, áspero, desesperado. Sobretudo, tinha ido
ali para me filiar. [...] Tiro a pedra do bolso e depois deposito-a na superfície
respingada de luz. Um ritual de que não conheço ao certo o sentido, mas
que tomo de empréstimo para iniciar a tradição de minha linhagem.
(LUNARDI, 2002, p. 77).

O fascínio da literatura é justamente o uso artístico das palavras para expressar o


sentido e o sentimento, um ritual literário e epifânico do ato de escrever que não se
sabe ao certo o sentido, mas que Adriana Lunardi soube representar com precisão,
40

no trecho do conto supracitado, o respeito e admiração por uma das mais


consagradas escritoras contemporâneas, Clarice Lispector.

Esta súmula, que recupera dados dispersados em entrevistas, depoimentos e


pesquisas, trás algo que ultrapassa os meros dados bibliográficos sobre a vida de
Clarice Lispector, os mistérios de uma mulher escritora que constrói e desconstrói o
imaginário de quem a ler.
41

2.1 Dimensão Reflexiva no Trajeto Literário de Clarice Lispector

“Quando eu aprendi a ler e escrever, eu devorava os livros! [...]


Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que
nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu
descobri que era um autor. Aí eu disse: eu também quero”.
Clarice Lispector

Clarice Lispector, em suas obras, transgrediu convenções linguísticas e literárias,


representando uma ruptura com os paradigmas narrativos da estética literária
brasileira, tornando-se assim, um dos nomes que mais se tem repercussão na
literatura canônica feminina brasileira.

Segundo Bailey (2006), Clarice tem tido grande repercussão literária, desde a
América Latina até a Europa e Estados Unidos, aparecendo invariavelmente em
volumes representativos da literatura feminina. À medida que sua fama foi
crescendo como escritora, criou-se em torno dela uma aura de mistério, quase mito,
que parte devido a própria personalidade e gosto pela privacidade da autora.

Os instrumentos de análise da cronologia do trajeto literário de Clarice parte da


abordagem dos romances, contos, crônicas, livros infantis e fragmentos narrativos
variados que correspondem a polissemia característica do contexto dos textos
analisados.

Quando Clarice começou a escrever histórias e percebeu que escrever contos não
estava dando certo, no sentido de ser publicado, ela resolveu fazer uma peça de três
atos com o título Pobre menina rica, era uma história de amor, mas não quis
publicar. Manteve segredo: ”escondi atrás da estante porque tinha vergonha de
escrever” (LISPECTOR apud GOTLIB, 1995, p. 89). Este texto foi perdido ou talvez
até destruído para não ser revelado.

Mas é claro que Clarice haveria de continuar escrevendo, não mais o gênero teatral.
Em 1943 terminou de escrever o romance Perto do Coração Selvagem que publicou
no ano seguinte pela Editora A noite, ano que recebeu o prêmio Graça Aranha pelo
primeiro romance. Campedelli e Abdala jr. (1981), afirmam que Clarice não esperava
42

que fosse um sucesso de público e da crítica e que anos mais tarde ela comentaria
que ao publicar o livro já tinha programado para si “uma dura vida de escritora,
obscura e difícil”. (CAMPEDELLI e ABDALA JR., 1981, p.05).

Perto do Coração selvagem compõe uma narrativa em dois planos que se alternam:
o da infância e o da vida adulta de Joana, montada por flashes. É assim a escrito de
Clarice, as idéias vão surgindo a qualquer hora e em qualquer lugar, foi assim que
encontrou um método de escrever, anotando imediatamente as idéias que surgiam,
por isso, suas obras são consideradas como construções fragmentadas.

Na Europa dedica-se exclusivamente a escrever O lustre, que pública em 1946 pela


Editora Agir, um romance também narrado da infância a vida adulta, em que a
personagem Virgínia aparece sob o signo do mal, a partir de um relacionamento de
caráter incestuoso com o irmão Daniel, com quem mantém um pacto e reuniões
secretas.

Segundo Gotlib (1995), em Berna, cidade que marcou muito a vida da escritora,
escreveu o terceiro romance, A cidade sitiada que publica em 1949. Clarice conta
que este romance foi o que lhe deu mais trabalho, demorou três anos para terminá-
lo, fez mais de vinte cópias e não sabe explicar como o escreveu:

Tudo meio cegamente. Eu elaboro muito inconscientemente. Às vezes,


penso que não estou fazendo nada. Estou só sentada em uma cadeira e
fico. Nem eu mesma sei que estou fazendo alguma coisa. Aí, de repente,
vem uma frase. (LISPECTOR apud GOTLIB, 1995, p. 263).

Ao confirmar as dificuldades para escrever esse livro, tenta encontrar uma


explicação. Um romance denso que trata sobre a formação de uma cidade, a
formação de um ser humano dentro da cidade, uma metamorfose no percurso da
tradição rural para o progresso da civilização.

Pelas dificuldades que teve na construção do terceiro romance, passa a escrever


contos e lança em 1952 seu primeiro livro do gênero. No ano seguinte, quando
nasce o filho Paulo em Washington, começa o quarto romance intitulado Laços de
família, publicado em 1960. Uma coletânea que reúne sete contos inéditos e seis
43

anteriormente publicados. Clarice procura registrar nesses contos o processo de


aprisionamento das pessoas através dos “laços de família”.

Campedelli e Abdala Jr. (1981), asseguram que Clarice ao sair da Europa já havia
escrito algumas notas do romance A maçã no escuro. O livro foi terminado em 1956
e só foi publicado em 1961. Um ano depois, ela recebe o prêmio Carmen Dolores
pelo romance.

De volta ao Brasil definitivamente, morando em um apartamento no Leme, Rio de


Janeiro, suas obras são reeditadas e traduzidas para o inglês, o francês, o alemão, o
tcheco e o espanhol, Clarice torna-se uma escritora admirada pela sua consciência
técnica. (CAMPEDELLI e ABDALA JR.1981).

Em 1964, publica simultaneamente dois livros: A Legião Estrangeira e A Paixão


Segundo G.H. Este é o primeiro escrito em primeira pessoa, uma obra de difícil
classificação: romance, depoimento ou monólogo? A linhagem de personagens
clariceanas em busca do núcleo da existência, nessa obra, prossegue de modo
radical, pois a narradora pratica um difícil e penoso mergulho em si mesma,
buscando uma identidade que justifique as razões de viver, de sentir e de amar. Já A
Legião Estrangeira é uma coletânea de contos e crônicas que apresentam com
persistência a obsessividade constante da autora pela verdade.

Ainda quando morava em Washington, seu filho Paulo de seis anos de idade lhe
pediu para escrever um livro infantil. Emocionada, Clarice se lembra de uns coelhos
que tinha quando criança. A história ganha o título de O mistério do coelho
pensante, que em 1968 recebe o prêmio Calunga da Campanha Nacional da
Criança. Entusiasmada pelas lembranças da infância, escreveu ainda A mulher que
matou os peixes, A vida íntima de Laura (1974) e Quase de verdade (1978).
(CAMPEDELLI e ABDALA JR, 1981).

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres foi publicado em 1969 pela Editora Sabiá
e ganha o prêmio Golfinho de Ouro. O romance é narrado como uma arte de
representar ou expressar o amor e se constrói a partir do movimento das relações
entre as duas pessoas envolvidas nesse jogo amoroso: Ulisses e Lóri.
44

No início da década de 70, a contista retoma a infância, sob a forma de textos


autobiográficos, que publica na coluna do jornal do Brasil e alguns deles saem no
novo volume intitulado Felicidade Clandestina em 1971, uma coletânea de vinte e
cinco contos, reunindo narrativas já publicadas e outras inéditas.

Para escrever Água viva a autora demorou três anos e hesitou em publicá-la, o que
só ocorreu em 1973. Segundo Rosenbaum (2002), Clarice achava-o ruim porque
não tinha história, era uma narrativa independente da fábula ou enredo. Este
romance teria tido dois títulos anteriormente: Atrás do pensamento: Monólogo com a
vida e Objeto Gritante, mas a autora preferiu Água Viva, ou seja, coisa que borbulha.

Classificado como livro de conto, Onde estiveres de noite? (1974), também engloba
reflexões, crônicas e impressões. Neste mesmo ano publica outro volume de contos,
sob encomenda com temática sexual, A via crucis do corpo. Os contos escritos em
três dias abordam sexo e crime de um modo explícito e grotesco, incomum até então
na escrita da autora. Clarice reconhece a concretude dos textos e na explicação que
antecede os contos diz: “Todas as histórias deste livro são contundentes. E quem
mais sofreu fui eu mesma. Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas
histórias a culpa não é minha”. (LISPECTOR, 1991, p. 19).

A essa altura de sua obra, evitar a sofisticação da linguagem, é como libertar-se das
impurezas morais sociais que ela chama de “mundo-cão”. Como a própria autora
afirma: “há hora para tudo. Há também a hora do lixo”. (LISPECTOR, 1991, p. 20).
Continuando sua trajetória literária, em 1975 publica Visão do esplendor, um volume
de crônicos e contos curtos e De corpo inteiro com algumas entrevistas já
publicadas na imprensa.

Os últimos anos de Clarice foi dedicado a escritura de seus livros mais elaborados
como A hora da estrela e Um sopro de vida. Em 1976 recebeu o prêmio do X
Concurso Literário Nacional, em Brasília, pelo conjunto de suas obras. Ainda neste
ano recebeu o convite para representar o Brasil no Congresso Mundial de Bruxaria,
em Bogotá-Colômbia. A sua participação nesse congresso, resumiu-se na leitura do
conto O ovo e a galinha, um conto hermético que ninguém entendeu e ela própria
diz ser um mistério. (CAMPEDELLI e ABDALA JR. 1981).
45

Seu último livro publicado em vida foi A hora da Estrela (1977). Sua escrita foi
simultânea com Um sopro de vida (1978), segundo Rosembaum (2002), a escritora
entregava a amiga Olga Borelli envelopes com trechos dos dois livros que iam sendo
catalogados. Em ambos, a autora interpõe narradores masculinos para contar a
história das mulheres protagonistas, marcada pela temática de morte. Essas
mulheres, macabéa, de A hora da estrela e Ângela, de Um sopro de vida, espelham-
se por contraste: a primeira, pobre, raquítica e semi-analfabeta, era incompetente
para a vida; a segunda era escritora rica, elegante, moradora na zona sul do Rio de
Janeiro. (ROSENBAUM, 2002).

Em suas obras, as mulheres clariceanas são letradas, profissionais bem-sucedidas


voltadas à subjetividade e a solidão, mas A hora da estrela é um marco terminal
dessa sondagem ao feminino. Uma crítica contundente ao social e aos valores
humanos corrompidos pelo afã à riqueza, confere ao seu texto não apenas uma
falsa simplicidade linguística e estilística, Clarice foge ao mimético para representar
o real e criticá-lo. Sua obra é a meditação tensa sobre o tempo e o espaço levados a
seu derradeiro limite.

Dois anos após seu falecimento é publicado A bela e a fera (1979) com alguns dos
primeiros e últimos contos inéditos. Em 1984 é publicado o volume A descoberta do
mundo com várias crônicas lançados no Jornal do Brasil. Sua obra A hora da estrela
serviu de inspiração para cinematurgia em 1985, filme dirigido por Susana Amaral.
Dois anos depois, é publicado Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras
que foram ilustradas no calendário encomendado a Clarice Lispector pela fábrica de
brinquedos Estrela.

Ao elencar o trajeto literário de Clarice Lispector, a partir das datas de publicação,


numa ordem sequencial, na linha do tempo, percebe-se que a autora soube explicar
seu processo de criação e produção, que é um mistério, sem pretensão. As histórias
de Clarice raramente têm enredo, começo, meio e fim, e por isso, muitas vezes ela
chamou atenção para isso, afirmando que, na verdade não era uma escritora, e sim,
uma sentidora, intuitiva, pois usava a palavra para registrar o que sentia através das
impressões.
46

Suas personagens e narradores desenvolvem uma mesma prática: aventuram-se na


imaginação, buscando romper com a barreira da palavra. Por isso aos romances,
contos e crônicas de Clarice foram atribuídos um alto grau de uso da técnica do
fluxo de consciência tornando a autora um dos nomes de referência na literatura
canônica.
47

2.2 Clarice Lispector Sob a Ótica da Crítica

“Clarice veio de um mistério, partiu para outro. Ficamos sem


saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele”.
Carlos Drummond de Andrade

Clarice Lispector é um dos nomes femininos que mais se destacou no campo das
literaturas tanto no Brasil como em outros países. Sua escrita é considerada como
transgressora dos modelos tradicionais do século XX e conquistou a preferência dos
críticos, sendo assim a escritora que mais aparece em estudos literários junto a
outros renomados escritores, como afirma Adriana Lunardi:

Clarice é uma inventora da linguagem. Compôs uma obra de gênio,


desvendando emoções e pensamentos que antes dela não tinham nem
nome. Suas páginas levam a limite a prosa e a poesia, a narrativa e os
gêneros literários, o ser e o não-ser. E é nesse limite que se faz a literatura.
Escrever em língua portuguesa, brasileira, seguindo e rompendo a tradição
de uma literatura que, afinal, ela, Machado de Assis e Rosa inventaram.
(LUNARDI, 2002, p. 77).

Clarice é sem dúvida uma inventora da Linguagem e alguns de seus textos de ficção
têm servido de apoio para obras teatrais e cinematográficas. Dentre estas, o filme de
Susana Amaral lançado em 1986 e baseado no livro homônimo de Clarice Lispector.
Clarice despertou a curiosidade do público e o interesse da crítica, o que implicou,
anos depois de sua morte, em estudos de caráter biográfico, como o livro de Gotlib,
Clarice: uma vida que se conta (1995), o livro de Olga de Sá, A escritura de Clarice
Lispector (2000) entre outros estudos que contribuíram, de certa forma, para a
elevação e revelação das obras clariceanas.

Nascida em 1920 e falecida prematuramente pouco antes de seu quinquagésimo-


sétimo aniversário, em 1977, Clarice Lispector foi uma das poucas mulheres que
conseguiu, até a década de 1970, conquistar o seu espaço como escritora e
reconhecimento por parte da crítica, como afirma Shimidt:

De modo geral, a negação da legitimidade cultural da mulher como sujeito


do discurso exercendo funções de significação e representação foi, no
contexto da literatura brasileira, uma realidade que perdurou até mais ou
menos, a década de 70. Até então, apenas três escritoras tinham recebido o
merecido reconhecimento por parte da crítica: Raquel de Queiroz, Cecília
48

Meireles e Clarice Lispector. As razões determinantes desse,


“esquecimento” são complexas e remetem à própria concepção de
criatividade postulada pela ideologia patriarcal e generalizada sob a forma
de uma premissa básica, a de que os homens criam e a as mulheres
simplesmente procriam. (SHIMIDT in NAVARRO, 1995, p. 184).

Isso não quer dizer que a partir dos anos 70 a escrita feminina teve grande
aceitação pela crítica, mas sem dúvida essa aceitação cresce cada vez mais embora
lentamente. Mas Clarice e sua obra continuam a ser objeto de estudos críticos e
tema de dissertações de mestrado e doutorado.

Segundo Cristina Ferreira Bailey (2006), a vasta e sempre crescente fortuna crítica
clariceana tem se centrado em três pontos principais de análise: a dimensão
filosófico-existencial da obra; a construção formal e o estilo narrativo, ambos
considerados singulares e idiossincráticos; a questão do feminino, suas
personagens mulheres e o caráter feminista explícito ou implícito dos textos. Estes
três aspectos da obra clariceana são com frequência enfocados isoladamente,
preferindo muitos críticos o estudo individual dos livros.

Para ela outros, em especial a partir de meados da década de 1980, procuram


atingir uma visão global da ficção clariceana, já que a dificuldade da linguagem em
Lispector encontra-se profundamente vinculado às preocupações filosóficas
frequentemente vividas por personagens femininos. Este não foi o tema que
seduziu os primeiros críticos, mas sem dúvida foi um dos temas analisados nas
obras Clariceanas por críticos literários.

Em estudo realizado por Olga de Sá (2000), Clarice Lispector não afeiçoava se


manifestar, publicamente sobre o que escreviam a seu respeito. Ao fazê-lo, pela
primeira vez, declarou que necessitava corrigir um detalhe. Dirigia-se ao jornalista
Edgard Pereira que publicara um artigo no suplemento literário de Minas Gerais,
intitulado “Wander e Clarice”. O artigo tece comentários sobre o livro da autora:
Visão do esplendor. Incidentalmente, Edgard Pereira transcreve expressões, que,
retiradas de uma entrevista sucedida no Rio de Janeiro pelas quais se entende que
Clarice escreve em transe. Ela procura desfazer o equívoco, dizendo que, embora a
entrevista tenha sido, de modo geral, fiel, distorceu, nesse ponto suas palavras:
49

Eu não disse isso simplesmente porque não é verdade. Jamais caí em


transe em minha vida. Não psicografo nem “baixa” em mim nenhum pai de
santo. Sou como qualquer outro escritor. Em mim, como em alguns que
também não são apenas “racionalistas”, o processo de gestação se faz sem
demasiada interferência ao raciocínio lógico e quando de repente emerge à
tona da consciência vem em forma do que se chama inspiração. Na
verdade, menos do que muitos escritores que conheço. Quando escrevo, eu
o faço sem procurar circunstâncias especiais, ambiente propício ou mesmo
isolamento. Habituei-me a trabalhar sendo interrompida por telefonemas,
cozinheira e crianças. (LISPECTOR apud SÁ, 2000, p.213).

O método de criação de Clarice Lispector tem sido objeto de muitos comentários por
parte da crítica e da crônica jornalística. Olga de Sá (2000), assegura que essa
lenda de que escrevia em “transe” reforça-se com o fato de ter sido ela a única
escritora brasileira convidada para participar do congresso de Bruxaria, em Bogotá.
A mulher estranha, talvez jamais compreendida em que coexistiam aspectos de
extrema credulidade e sensibilidade. Ela afirma que Clarice dizia-se mágica. Sua
magia, porém, realizava e no jogo da linguagem, na criação de um “logos” pessoal e,
sob certos aspectos fascinantes da escritura.

Segundo Nádia Batella (1995), ao analisar Clarice, Oto Lara Resende, crítico e
grande amigo de Clarice, volta-se para causas mais longínquas na escritora. Ciente
de sua origem russa e judaica reconhece que a vida de Clarice deve ter havido um
choque ou um encontro de culturas, mas que Clarice era uma pessoa diferente. Seu
exílio era de outra natureza. Explica:

Escrevendo ou conversando, vivendo como dona de casa ou como


expoente de nossas letras, ela se deixava conduzir por uma espécie de
compulsiva intuição. Era o seu tanto “adivinha” [...] Clarice é uma aventura
espiritual. Ninguém passa por ela impune. Ela liga e religa o mistério da
vida. E o religioso silêncio da morte. (RESENDE apud GOTLIB, 1995, p.
53).

Como dona de casa, mãe ou participante da literatura, Clarice mostra-se diferente


na sua escrita, mesmo exercendo várias funções ao mesmo tempo e estando em
vários lugares, se valia de uma forte intuição, como afirma o autor acima, religando o
mistério da vida.

Para Massaud Moisés (1994) Clarice representa na atualidade literária brasileira (e


mesmo portuguesa) a ficcionista do tempo por excelência. Ele afirma que para ela, a
preocupação capital do romance (e do conto) reside no criar o tempo, criá-lo
50

aglutinando às personagens. Por isso correspondem suas narrativas a


reconstruções do mundo não em termos de espaço, mas de tempo, como se,
captando o fluxo temporal, pudessem surpreender a face oculta dos seres e da
paisagem circundante.

Clarice com seu estilo inovador e jogo de palavras, com sua linguagem inesperada e
misteriosa consegue conquistar a preferência dos críticos. Ela se destaca em várias
modalidades da escrita como no conto, na narrativa na crônica, sendo esta última,
na opinião de Floriano Tescarolo, onde Clarice se revela como escritora:

Escritora de grande talento, com vários romances e livros publicados, é sem


dúvida na crônica, onde melhor revela a fina sensibilidade e beleza sutil de
sua arte individualista e intimista. (TESCAROLO apud SÁ, 2000, p. 306).

Massaud Moisés ainda fala do tempo não linear que é visto na obra de Clarice, Perto
do coração selvagem e da narrativa que para ele transcorre num plano sobrenatural
e oculto nas relações sociais:

Contrariamente ao romance de tempo linear, em que o enredo, as


personagens e a cenografia desfrutam duma objetividade facilmente
comunicável ao leitor, perto do coração selvagem identifica-se como
romance de introspecção de criação num universo mágico onde se movem
criaturas destituídas de peso, contorno e volume. Nessa obra, tudo se
esfuma ou apenas se delineia precariamente, dado que as personagens e
as cenas vivem envolvidas por uma atmosfera vaporosa e em permanente
dinamismo. Dir-se-ia que a narrativa transcorre num plano sobrenatural, ou
pelo menos colocado “atrás” da superfície visível das pessoas e das
relações sociais. Como se, radiografando um limitado grupo humano, a
romancista mostrasse que as chapas radiográficas apenas contém o
registro de seres incorpóreos, espectrais. Assim é perto do coração
selvagem. (MOISÉS, 1994, p. 222).

Clarice foi uma grande escritora considerada transcendente. Ela rompeu com a
tradição do discurso masculino, revelando o papel e a condição da mulher na
sociedade. Através de Clarice mulheres se acenderam para a criação literária,
encorajando-se assim a publicarem suas produções que antes não eram
reconhecidas.
51

CAPÍTULO III

CARACTERÍSTICAS DA ESCRITA DE CLARICE LISPECTOR


NA OBRA A HORA DA ESTRELA
52

3 CARACTERÍSTICAS DA ESCRITA DE CLARICE LISPECTOR NA


OBRA A HORA DA ESTRELA

“Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada
a ver com a moça, terei de me escrever todo através dela por
entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos
há um sussurro que me impressiona. É o sussurro que me
impressiona”.
Clarice Lispector

A hora da estrela foi o último romance publicado por Clarice Lispector em vida, que
discorre em uma dimensão nitidamente social ao universo ficcional introspectivo da
escritora. Transgredindo a tendência da maioria das obras clariceanas, este
romance é narrado em primeira pessoa e isso confere ao texto um alto grau de
subjetividade.

A narrativa do romance não procura comentar ou ofertar uma declaração, mas


suscitar visões de mente e de vivência a serem dinamizadas. Narrar a história de
Macabéa se faz então, pelo narrar monológico e onisciente, é um ato que resulta na
desconstrução do tradicionalismo literário da narração.

Desde a dedicatória do autor até aos títulos, não só se desarranja a expectativa do


leitor, mas acima de tudo, Clarice assume um novo tipo de engajamento vivido pela
literatura contemporânea, um engajamento que segundo Elaine Aparecida Lima
(2006), suplanta a mimese sem fechar os olhos ao real, que delineia para a literatura
uma função que só dela pode ser: o de desvelar as reservadas minúncias do ser
humano em tempo, espaço e formas que expõe, através que uma perseverante
recorrência, às personagens femininas.

A história que Rodrigo S.M. conta chama atenção pela produção narrativa e pelas
questões de gêneros sociais. A personagem protagonista chama-se Macabéa, e
atende como maca, seu apelido, seu nome é uma alusão aos macabeus,
personagens bíblicos. Uma nordestina vinda do Estado de Alagoas que muda-se
para o Rio de janeiro, onde sustenta o sonho de ser estrela de cinema. Divide um
quarto de pensão com quatro moças que paga trabalhando como datilógrafa.
53

Namora Olímpico de Jesus, nordestino que trabalha como metalúrgico e aspira


ascensão social. No decorrer da narrativa Macabéa perde Olímpico para Glória, sua
única amiga, pois esta possuía os atrativos ambicionados por ele. A hora da estrela
para Macabéa se dá quando é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz.

Analisar esta obra de Clarice e compreendê-la supõe não só a familiaridade com a


leitura como também uma metodologia que auxilie uma abordagem sistematizada
tão importante na análise literária. Cândida Vilares Gancho (2006) afirma que toda
narrativa se estrutura sobre cinco elementos: enredo, personagens, tempo, espaço e
narrador, sem os quais ela não existe.

Sem os fatos não há história, e quem vive os fatos são os personagens,


num determinado tempo e lugar. Mas, para ser prosa de ficção, é
necessária a presença do narrador, pois é ele fundamentalmente quem
caracteriza a narrativa. (GANCHO, 2006, p. 11).

Antes é preciso saber se o romance é real ou fábula, uma história exterior e


explícita? Se o narrador afirma que “a verdade é sempre um contato interior e
inexplicável”: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já
que nunca o vivi? [...] Também sei das coisas por estar vivendo”. (LISPECTOR,
1995, p. 25-26). O grande segredo escondido na narrativa está contido em um dos
títulos “Quanto ao futuro”. Compreende-se uma ficção com focos reais, um projeto
intelectual, literário e social em que Clarice atinge as camadas mais profundas da
mente humana. O seu interesse principal está no estudo da repercussão que os
fatos provocam na mente humana.

O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre


essa moça entre milhares delas. È dever meu, nem que seja de pouca arte,
o de revelar-lhe a vida. Porque há o direito ao grito. Então eu grito.
(LISPECTOR, 1995, 27).

Analisando as personagens, são estes os que aparecem no mundo de Macabéa


(protagonista), como Glória, o namorado Olímpico de Jesus, o patrão Seu
Raimundo, as quatro moças com quem divide o quarto, existe ainda o médico, a
cartomante, o rico ocupante da Mercedes Benz, sem contar que o narrador é um dos
principais personagens, pois ele se desvenda na narrativa como um observador
onisciente identificando sua problemática interior com a de Macabéa.
54

Segundo Olga de Sá (2000) o tempo na obra é cronológico e linear, que embaraça o


narrador, que preferia começar pelo fim: “Só não inicio pelo fim que justifica o
começo como a morte parece dizer sobre a vida, porque preciso registrar fatos
antecedentes”. (LISPECTOR, 1995, p. 16).

O espaço a ser realizada a trama é a cidade grande, espaço social urbano, o Rio de
janeiro. Também é revelado outros ambientes: o quarto barato que divide com as
moças, as ruas, a casa da cartomante, o lugar de trabalho (escritório) e o banheiro,
local com espelho comido por ferrugem que revela a construção de um mundo
pequeno e sem significações para a personagem Macabéa.

O estilo da narrativa é simples e sem artes, o narrador prefere a simplicidade da


escrita aos “termos suculentos”, “adjetivos esplendorosos” e “carnudos
substantivos”, pois a palavra é o seu único material e não a pretende enfeitar. A
palavra é a grande estrela dessa obra, aliado às palavras o narrador coloca que o
seu ofício é retratar a própria vida em fatos e palavras. Mas fatos são como pedras
duras, afirma que precisam ser lapidadas pelo belo através da arte literária. Também
não pretende escrever um melodrama, preferi manter a frieza de um relato. Seu
texto é “uma epifania do ato de escrever”, afirma Olga de Sá (2000), uma agonia de
escrever, de revelar como se fosse quebrar rochas.

As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam


desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso
clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura [...] tentarei
tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola
sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É
uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
(LISPECTOR, 1995, p. 30-31).

O romance representa uma metáfora em relação a palavra, ao silêncio e ao grito de


Macabéa que não faz uso da voz. Dessa forma, o narrador acompanha a
personagem caminhando lado a lado dela durante todo a trajetória e se igualando a
ela quando afirma que o escritor não tem um papel reconhecido, assim como
Macabéa também não é reconhecida pela sociedade. Na fala dele, subentendida
como a de Clarice Lispector, julga o preconceito da escrita feminina considerada
“piegas” pelos escritores da época. Anseio literário feminino disfarçado na fala do
narrador.
55

Esta obra representa uma inovação estilística ao deslocar-se do universo íntimo


para a realidade objetiva, e tocar, desse modo, questões sociais de maneira mais
explícita e declarada, como afirma o narrador-personagem Rodrigo S.M.: “história
exterior e explícita, sim, mas que contém segredos” (LISPECTOR, 1995, p. 27).

No romance Macabéa e Olímpico representam os papéis atribuídos a homens e


mulheres, ao longo da história humana, quando assumem o modelo socialmente
proposto e encarnam um modo de ser e de viver correspondente a lógica da
mentalidade que circulava em meado do século XX. Macabéa é mulher, nordestina,
franzina, medíocre, solitária, submissa, incapaz e virgem. Olímpico é homem,
nordestino (logo, cabra macho ou cabra da peste), esperto, ambicioso e dominador.
Essas características não são dadas por acaso, obedecem uma lógica chão no
social que pisam os personagens.

Macabéa é uma desconhecida de si mesma: “Desculpe mas não acho que sou muito
gente” (p. 64). Macabéa não possui palavras para se expressar e quando fala é com
um pedido de desculpa. Ignorante de sua identidade, ela não se conhece senão de ir
vivendo à toa. Aprendeu a ser assim como é, e se um dia se perguntasse. “quem
sou eu? Cairia estatelada e em cheio no chão” (p. 30). Porém os alicerces que
formaram a base e os tijolos que formaram seu edifício pessoal e sua feminilidade,
não foi ela quem os colocou e os construiu, antes foram postos pelas ideologias
sociais dominadoras que a gestaram, conceberam e ensinaram a seu como é.

[...] Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito para se ajeitar. Só


vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si
em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de
mim, eu sou fora de mim. (LISPECTOR, 1995, p. 39).

A estranheza e a indiferença da personagem Macabéa é observada na sua


personalidade, que não foi ela quem a construiu, pois a ela não foi dada
oportunidade de participar desse processo. Seu mérito está em ser submissa e
obedecer sem questionar, tornando-se mulher, na sociedade falocêntrica, somente
quando se enquadra nos padrões sociais pré-determinados.

Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com
satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-
se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o
papel de ser. (LISPECTOR, 1995, p. 52).
56

Ela vê desfilar nas páginas da vida o discurso que a sociedade falocêntrica produz
sobre a mulher. Sua satisfação está em reproduzir cotidianamente o papel imposto
pelo homem e concretizar, na sua existência insignificante, o projeto identitário
silenciosamente gestado no útero da cultura.

Nas páginas que seguem o romance, o narrador apresenta uma personagem


masculina, que acaba conhecendo Macabéa e torna-se seu namorado. Olímpico é
reúne muitas características do típico “macho nordestino” e traz consigo o padrão da
masculinidade e o mito nordestino “cabra macho”, símbolo da virilidade e da força,
imagem desenhada pela produção cultural desde o começo do século XX.

As diferenças dos papéis sociais e a má distribuição do poder entre os sexos ficam


evidentes na narrativa por aquilo que a personagem masculina tem e a feminina não
tem, ou seja, o difícil. A condição de Macabéa é de viver a margem e manter-se fora
da roda de produção cultural e intelectual que está reservada à hegemonia
masculina. Assim descreve a narrativa clariceana:

Os negócios públicos interessavam Olímpico. Ele adorava ouvir discursos.


[...] – Sou muito inteligente, ainda vou ser deputado.
[...] não é que ele terminou mesmo deputado? E obrigando os outros a
chamarem-no de doutor. Macabéa era na verdade uma figura medieval
enquanto Olímpico de Jesus se julgava peça-chave, dessas que abrem
qualquer porta. Macabéa simplesmente não era técnica, ela era só ela. Não,
não quero ter sentimentalismo e portanto vou cortar o coitado implícito
dessa moça. Mas tenho que anotar que Macabéa nunca recebera uma carta
em sua vida e o telefone do escritório só chamava o chefe e Glória.
(LISPECTOR, 1995, p. 62-63).

A disparidade de lugares e funções sociais fica evidente no trecho acima. Olímpico


se projeta na vida política tornando-se deputado, função que o confere mobilidade e
decisão no espaço público, algo negado a Macabéa. Esse discurso que atravessa as
normas da vida pública e privada perpetua a desigualdade entre os gêneros e funda
uma identidade em que a mulher deve se comportar de maneira amável e obediente,
sem vez nem voz, sem expressão e participação social. Enquanto Olímpico
representante do homem na sociedade tem poder e status, Macabéa, representante
da sociedade feminina trabalha em um escritório e vive confinada a um espaço
estreito e pequeno que o sistema falocêntrica a condenou.
57

Ao contrário de suas outras obras, em que abordava o conjunto de sensações, em A


hora da estrela, Clarice volta o seu olhar para a mulher e a sociedade em que está
inserida, aborda questões sociais que tocam os vários aspectos da condição
humana desempenhados por homens e mulheres que povoaram a região
nordestina.

O nível analógico-metafórico da escritura clariceana é submetido a vários


tratamentos críticos, mas é curioso como esta escritura se transfigura em signos que
se movem ao julgamento de verdadeiro ou falso, ou argumentos próprios da
pesquisa metafísica e da função metalinguística que representam o “qualissigno”,
segundo Olga de Sá (2000) o signo da qualidade.

Talvez esta tenha sido a maior contribuição inovadora de Clarice para a literatura
brasileira: a de ter tornado nossa língua mais flexível, mais afinada ao
questionamento metafísico da ficção. A essa contribuição se alinham outras: a
diluição dos gêneros, a estranheza das personagens, a deseroização ou dissolução
do herói em palavra, o desnudamento contínuo do processo narrativo e dos
problemas da ficção, a rarefação do enredo, a quebra do tempo linear e do espaço
físico. (SÁ, 2000).

Todas essas contribuições permitiram que a literatura atual tivesse como objetivo
não mais uma fundação afirmativa ou negativa da realidade exterior, a literatura
busca vê o exterior por meio de suas implicações interiores aos seres humanos.
Assim, nada mais claro do que a ruptura referida à presença de um narrador, que
com suas personagens não possui traços definidos, sendo, portanto, exemplar pela
complexidade da simplicidade, pelo ocultamento explícito da verdade, que fazem do
leitor um ser cada vez mais ativo e, portanto, mais capaz de refletir, de se incomodar
com o enredo e até mesmo libertar-se dos arreios da narrativa alienada.

A narrativa clariceana permite múltiplos olhares, o processo narrativo, a teoria dos


gêneros e a sua contribuição inovadora na literatura brasileira, foram apenas alguns
desses tantos olhares que se pode lançar sobre a obra A hora da estrela.
58

3.1 O Estar no Mundo Através da Epifania

“A literatura deve ter objetivos profundos e universalistas: deve


fazer refletir e questionar sobre um sentido para a vida e,
principalmente, deve interrogar sobre o destino do homem na
vida”.
Clarice Lispector

Segundo Olga Sá (2000), a palavra epifania vem do grego epi: sobre e phaino:
aparecer, brilhar, epipháneia significa manifestação, aparição. Para os hebreus
epifania é o conceito central de seu mundo, que mostra somente algumas
coincidências exteriores com fenômenos semelhantes do mundo pagão ambiente.

Por epifania se entende a irrupção de Deus no mundo, que se verifica


diante dos homens, em formas humanas ou não humanas, com
características naturais ou misteriosas que se manifestam repentinamente e
desaparecem rapidamente. (BAUER apud SÁ, 2000, p.168).

Sá (2000) ainda diz que a epifania constitui-se, uma realidade complexa, onde
podemos percebê-la através dos sentidos, principalmente a visão e a audição.
Pertencendo a palavra à própria natureza de Deus, pois não existem epifanias
mudas, porque os portadores da palavra estão sempre no centro da manifestação
divina, gerando assim esse fenômeno, a salvação, mas para aquele que descrer
atrai sobre si a perdição e o juízo, a exemplo disso pode-se citar o fato bíblico de
Moisés e Faraó, o rei do Egito, onde Deus envia Moisés a Faraó dizer que ele
deveria libertar seu povo, os israelitas, mas Faraó não atende a voz de Deus
levando assim uma série de pragas sobre o Egito, só depois de muita ira divina é
que este resolve atender a voz de Deus libertando não só o povo de Deus, mas
também o seu povo da ira divina. Pode-se ver claramente nesse exemplo essa
manifestação epifânica que Sá nos traz. Mas não se tem a epifania apenas pelo viés
religioso há também a epifania literária, a qual Olga de Sá define assim:

Depois tudo se dissolve sob novos passos. Aquele momento, porém


adquiriu um valor, uma realidade, e a experiência torna-se fim de si mesma
é um momento de êxtase, que gostaríamos de prender entre os dedos.
Vistos sob uma luz instantânea e nova, podemos tentar fixar tintas e cores
estranhas, odores delicados ou as feições de um ser amado. (2000, p. 170).

Falando-se em epifania literária, Massaud Moisés (apud SÁ 2000) diz ser o


momento do enredo que as personagens das obras de Clarice evidenciadas por um
59

momento introspectivo, vive uma transformação em suas vidas, como se acendesse,


naquele momento, diante dos seus olhos uma luz em meio à escuridão.

Para Rosenbaum (2002) uma das principais vertentes que Clarice caminha seria o
caminhar a margem da assombração, do emudecimento, na luta dramática por uma
fala oculta e interdita, que ao se revelar transgride o que queria dizer. Essa vertigem
do silêncio em Clarice é partícipe também de uma intensa autoconsciência reflexiva,
que norteou grande parte da produção literária do século XX.

De acordo com Olga Sá (2000), Clarice procurou produzir uma literatura da


revelação e do milagre, pois o texto seria um produto e afloramento de uma súbita
iluminação desencadeada como que por graça divina, na qual um sentido
transcendental afloraria.

Quando se trata dos protagonistas das histórias de Clarice, entende-se que eles são
forçados a uma dolorosa viagem introspectiva que resultará numa transformação
íntima, de onde emergirão transformados, o turbilhão de sentimentos promovem
uma ruptura com a imagem que traziam de si e da realidade circundante, revelando
a incerteza de sua condição, como afirma Clenir Bellezi de Oliveira em artigo
publicado na Revista Discutindo Literatura:

Clarice revela o que há de realmente vivo sob a superfície do cotidiano. Seu


olhar diabolicamente penetrante fez dela um dos maiores autores intimistas
do século 20. A compreensão de sua obra é um esforço contínuo e cada
vez mais instigante para estudiosos do mundo inteiro que se debruçam
sobre seu mistério. (OLIVEIRA, 2003, p. 39).

Assim as personagens são encontradas em meio a uma crise, sempre pressentida


na narrativa, isso seria literalmente epifania. Várias são as personagens clariceanas
que vivem essas epifanias, porém Macabéa, protagonista do livro A hora da estrela,
ao contrário das demais personagens de Clarice, ela não vive esse momento
epifânico, pois segundo Stephen Hero (2000) a epifania ocorre quando:

É esse o instante que chamo epifania. Constatamos primeiro que o objeto é


uma coisa íntegra, em seguida, que apresenta uma estrutura compósita e
organizada [...] enfim quando as relações entre as partes estão bem
estabelecidas, os pormenores estão conformes à intenção particular,
constatamos que esse objeto é o que é. Sua quidade, de súbito se
desprende, diante de nós do revestimento da aparência. A alma do objeto,
seja ela o mais comum, cuja estrutura é assim demarcada, assume um
60

brilho especial a nossos olhos. O objeto realiza sua epifania. (HERO apud
SÁ, 2000, p. 172).

Ao observar a vida de Macabéa vê-se que ela realmente não se insere neste viés
epifânico, pois Hero (2000) é bem claro quando diz que o objeto, no caso aqui a
pessoa, deve ser íntegro, se olhado o significado da palavra no dicionário Aurélio
ver-se-á que esta traz entre alguns de seus significados a definição de: inteiro,
completo, entre outros, assim logo pode-se confirmar a não inserção de Macabéa
entre os viventes da epifania, pois ela não enxerga-se integralmente, e em nenhum
momento vai ao encontro de si mesma na sua consciência mais profunda:

Quero antes afiançar que essa moça não se conhece se não através de ir
vivendo à toa Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” Cairia
estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” Provoca
necessidade? Quem se indaga é incompleto. (LISPECTOR, 1995, p 29-30).

A pobre moça não possuía a consciência de si, não se enxergava como cidadã,
como mulher e pessoa, e assim vivia à mercê do outro, revelando assim fortes
indícios de opressão. Ela é destituída do poder de comunicação não tendo direito a
fala, ela apenas observa, segundo Clarice, a nordestina possuía forte tendência a
notar coisas pequenas:

E entre as pedras do chão crescia capim, ela o notou porque sempre notava
o que era pequeno e insignificante [...] tinha tendência a notar coisas
pequenas, percebeu que dentro de cada bombom mordido havia um líquido
grosso. Não cobiçou o bombom, pois aprendera que as coisas dos outros
são dos outros (LISPECTOR, 1995, p. 90-92).

Diante dessa grande habilidade, observar coisas pequenas, pergunta-se como


Macabéa não via o que estava diante dela mesma? Dentro dela? Como pode
alguém que se atentar a detalhes tão insignificantes, em coisas, objetos, não notar-
se? Parece que não quisesse ter consciência de si, mas esse processo se dá por
ser Macabéa uma figura limitada, pois ela trata-se de uma personagem possuidora
de pobreza não só material, mas também espiritual: [...] Ele falava coisas grandes,
mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes como ela própria. [...]
(LISPECTOR 1995, p.68). Ela ignora a própria identidade porque não a construiu
não foi lhe dada a oportunidade de participar desse processo.
61

Segundo Sá (2000), Clarice fez da história da alagoana seu canto de cisne, a hora
que precedeu seu instante de fogo, sua hora maior. Alguns críticos dizem ser
Macabéa também a catarse de um passado judeu sofrido, pois na evocação da
cultura hebraica Macabéa lembra macabeus, que foram pessoas que defenderam o
templo do monte Sião contra os gregos e recusaram-se a desobedecer as leis
judaicas. Porém as únicas coisas que aproximam Macabéa desse povo são o
passado sofrido e a semelhança no nome, além disso, nota-se que nada mais, pois
em momento algum ela se rebela ou se defende, pelo contrário seu mérito está em
baixar a cabeça e obedecer resolutamente.

Miserável, despreparada para a vida, Macabéa é o retrato de tantos outros


nordestinos que não tem palavra, ela vive, medita, mas não fala, pois não é dado a
ela o direito à fala, não luta e não reage diante de uma cidade que é contra ela:

[...] limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda
feita contra ela. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido
de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal só tinha até o
terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia copiar
lentamente letra por letra [...] A pessoa de quem vou falar é tão tola que as
vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque
nem ao menos a olham. (LISPECTOR, 1995, p. 29-30).

Macabéa é vista como a estrangeira, a diferente, enfim uma ameaça para os


alicerces da cidade grande ao contrário de Olímpico, que se impõe forçadamente na
sociedade, Macabéa deixa-se levar pelos acontecimentos e pela vida. Pode-se ver a
demarcação dos lugares sociais que ambos ocupam quando Olímpico compara o
nome da Jovem a doença de pele:

E se me permite qual é mesmo a sua graça?


Macabéa.
Maca o que?
Bea, foi ela obrigada a completar.
Me desculpe mas até parece doença, doença de pele. (LISPECTOR, 1995,
p. 59).

Sabe-se que o nome traz consigo uma gama de significados, ele identifica,
distingue, e de certo modo diz quem é o individuo, de onde vem e até mesmo a que
grupo social este pertence, aqui nesse contexto não é diferente, o nome de
Macabéa é associado a uma doença, mas não a qualquer uma, e sim, a de pele.
62

Esta trata-se do maior órgão do corpo humano e também o mais visível, logo as
enfermidades que a atinge ficam bem visíveis, causando ao portador um certo
desconforto, um incômodo. As doenças que atingem a pele alastram-se com muita
rapidez, a depender do caso, podendo afetar o corpo como um todo. O nome de
Macabéa é comparado por seu namorado a uma dessas doenças invasoras desse
órgão tão importante. Essa comparação referente ao nome de Macabéa e a doença
de pele é uma metáfora, se a doença incomoda muito logo podemos compreender
que Macabéa também é causadora de grandes incômodos.

Compreende-se que dentro de uma sociedade que estima os padrões de beleza


uma doença de pele não é aceitável, esta tem que ser exterminada, por não ser
agradável aos olhos, além do alto risco de transmissão, assim o nome Macabéa
pode simbolizar fraqueza e debilidade enquanto o nome de Olímpico é sinônimo de
força que se traduz em dominação, é isso que Olímpico quer para si, quer chegar ao
pódio, e para chegar lá faz-se necessário inserir-se nos padrões dessa sociedade
capitalista, para isso, ele troca a nordestina pela “carioca da gema”, Glória, que
trata-se de material de boa qualidade, possuía pai e mãe, era ambiciosa e tinha um
lugar nesse mundo, ou seja, tinha tudo aquilo que Macabéa não possuía.

A personagem Glória passa então a ser uma ponte de entrada para o Olímpico no
clã da Região Sudeste, uma região de prestígio social e econômico. Por estar
namorando Olímpico, Glória sente-se culpada por ter roubado o namorado da
amiga, e encontra na indicação a Macabéa de uma cartomante, a madame Carlota
que esta já havia procurado para uma consulta, uma das maneiras para amenizar
sua culpa.

A indicação de Glória é atendida por Macabéa, logo no início da consulta a


nordestina se surpreende ao ver que a adivinha se dirigia, dissimuladamente, à ela
com palavras carinhosas “meu benzinho”, “minha queridinha, minha florzinha”,o que
acaba por causar espanto em Macabéa, uma vez que ela não tivera até então
qualquer memória afetiva. A inocente jovem sente pela primeira vez que teria um
futuro: “— Não tenha medo de mim sua coisinha, engraçadinha porque quem está
do meu lado está no mesmo instante ao lado de Jesus”. (LISPECTOR, 1995, p. 91).
A cartomante anuncia a Macabéa a possibilidade de um futuro feliz, a jovem inicia
63

então, o processo de gestação de sua tão preciosa felicidade e parte rumo a seu
grandioso destino:

Macabéa! Tenho grandes noticias para lhe dar! Preste atenção minha flor,
porque é da maior importância o que vou lhe dizer. É coisa muito séria e
muito alegre: sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a
partir do momento em que você sair da minha casa! Você vai se sentir outra
[...] Macabéa nunca tido coragem de ter esperança. Mas agora ouvia a
madama como se ouvisse uma trombeta vinda dos céus – enquanto
suportava uma forte taquicardia. Madama tinha razão: Jesus enfim prestava
atenção nela. Seus olhos estavam arregalados por uma súbita voracidade
pelo futuro (explosão). E eu também estou com esperança enfim.
(LISPECTOR, 1995, p.95).

Diante da triste história a cartomante se compadece da moça e muda-lhe o enredo


da vida, o que gera nela uma espécie de esperança, tendo assim a personagem
uma possibilidade de sair da não pessoa e constituir-se como sujeito possuidor de
uma identidade, mas diante desta ela não sabe o que pensar, o que dizer:

Estava meio bêbada, não sabia o que pensava, parecia que tinham lhe
dado um forte cascudo na cabeça de ralos cabelos, sentia-se desorientada
como se lhe tivesse acontecido uma infelicidade [...] E sentiu de novo que
sua vida já estava melhorando ali mesmo [...] (LISPECTOR, 1995, p.97).

A moça sai da casa da cartomante gerando sonhos, nutrindo-os como se fosse um


filho no ventre de uma mãe, tudo era muito amplo para aquela jovem que até então
só tinha um passado e um presente miserável, agora ela se vê capaz de construir
um futuro, capaz de viver, mas Macabéa é surpreendida pelas predições de
madame Carlota:

[...], pois o carro era de alto luxo [...] batera com a cabeça na quina da
calçada e ficar Cida, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E da
cabeça um fio de sangue vermelho e rico [...] Prestou de repente um pouco
de atenção para si mesma. O que estava acontecendo era um surdo
terremoto? Fixava, só por fixar, o capim. Capim na grande cidade do Rio de
Janeiro. À toa. Quem sabe se Macabéa já teria alguma vez sentido que
também ela era à toa na cidade inconquistável [...] (LISPECTOR, 1995,
p.98-99).

A hora da morte poderia ser o momento em que a personagem conseguisse enfim


descobrir-se, porém ali ao lado da sarjeta e do capim ela mais uma vez esquiva-se
da introspecção, da análise de si. Isso vem comprovar-nos que Macabéa não vive a
epifania por que não assume aquele brilho especial a nossos olhos que diz Hero
(apud SÁ, 2000) fazer parte do momento epifânico.
64

A cena do atropelamento é um momento significante na vida de Macabéa, pela


primeira vez as pessoas passam a notá-la, não por ser ela importante, mas por fazer
parte de uma catástrofe, e diante desse apelo da morte ainda assim ela não
consegue encontrar-se:

Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição


fetal. Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela
vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do
doce nada. Era uma maldita e não sabia agarrava-se a um fiapo de
consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou.
Quem era é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago
de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá. (LISPECTOR, 1995,
p.193).

O “eu sou” no discurso de Macabéa por um instante leva a crer que finalmente ela
tomou consciência de si, mas mais uma vez Macabéa diante dos fatos não
consegue ter uma percepção de uma realidade nova, mesmo que essa seja a morte.
Ela por várias vezes em sua vida pôde, diante dos inúmeros fatos que a atordoaram
ou até mesmo em situações cotidianas, viver uma iluminação súbita da consciência
que abriria seus olhos para um novo horizonte. Sobre a ocorrência desses episódios
Katherine Mansfield (2000) diz:

Todavia, a gente sempre tem esses “lampejos”, em face dos quais tudo o
que possamos ter escrito (o que já escrevemos?) tudo (sim tudo) que
tenhamos lido, empalidece [...] As ondas, enquanto eu ia para casa, à tarde,
e a espuma alta, do jeito como ficava suspensa no ar antes de cair [...] O
que é que acontece naquele momento de suspensão? Ele é eterno.
Naquele momento (o que estou querendo dizer, de fato?) está contida a
vida inteira da alma. Somos arremessados para fora da vida somos
“suspendidos”, e então arremessados de volta para baixo, brilhantes
quebrados cintilando nas rochas, partes da maré enchente e vazante.
(MANSFIELD, 2000, p.1).

Macabéa passou por inúmeros momentos que poderiam lhe proporcionar essa
renovação, mas não foi-lhe permitido saborear as delícias da epifania, encerrando
assim a sua vida, enquanto que o narrador desvenda na narrativa a sua
problemática interior a medida que nos faz conhecer a protagonista, também
conhece a própria identidade: “A ação dessa história terá como resultado minha
transfiguração em outrem e minha materialização enfim em objeto”. (LISPECTOR,
1995, p. 35). No avançar da história ocorrem longas reflexões interrogativas mesmo
quando a narrativa corre mais fluida e entrecortada de diálogos, fragmentados:
65

Mas e eu? Eu que estou contando esta história que nunca me aconteceu e
nem a ninguém que eu conheça? Fico abismado por saber tanto a verdade.
Será que o meu ofício doloroso é o de adivinhar na carne a verdade que
ninguém quer enxergar? [...] (LISPECTOR, 1995, p. 74).

Pode-se ver aqui claramente que o narrador é o sujeito da epifania, ele sim vive a
verdade, a conhece de perto, porém desta ninguém quer saber inclusive Macabéa.
Segundo Sá (2000), o silêncio que ameaça a personagem nada mais é que um
recurso, uma técnica para realçar o imperativo da fala, a necessidade da narrativa
como necessidade do próprio ser. Compreende-se que não foi possível para a
personagem viver essa epifania, pois como foi dito no início do texto não existe as
epifanias mudas. A ausência de voz em Macabéa é um marcador importante e
notório em toda a obra, outro fato que confirma a ausência desse processo epifânico
na vida da nordestina é que a epifania traz salvação, porém em nenhum momento
Macabéa é alcançada por essa graça, pelo contrário, por não viver a epifania ela
atrai sobre si o lado oposto, a perdição do juízo.
66

3.2 A Construção da Metalinguagem na Obra

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso
da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de
uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um
olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros”.
Clarice Lispector

Para Crystal (2000), A linguística, como outras ciências, usa o termo metalinguagem
no sentido de uma linguagem de nível mais alto para descrever um objeto de estudo.
Neste caso, o objeto é a linguagem ou a própria língua, isto é as várias amostras da
língua, as intuições, etc. que constituem nossa experiência linguística. Assim
metalinguagem é quando se usa a língua para explicar a própria língua, como é o
caso da gramática. Clarice faz uso constante deste recurso. Interpelando o leitor e
tornando descontínua a leitura, ela usa a língua para explicar seu próprio texto.
Inaugurando não propriamente um conceito novo, mas uma nova escritura, porque
se esta é original, o seu ponto de vista declarado a respeito do ato criativo é o velho
conceito de inspiração:

Não sigo nenhum plano, nenhuma teoria. Eu trabalho sob inspiração. Não
consigo obedecer planos, assim como não consigo planejar minha vida.
Tudo me vem impulsivo e compulsivo. Brota em mim. Às vezes me
acontece reescrever um texto, não por senso crítico, mas por inspiração,
por sentir que algo não vai bem, para movimentar a coisa de novo. Eu
reivindico para mim o direito de eu ter nascido e me criado e de um dia eu
morrer! Não estou aprendendo lições senão da vida. (LISPECTOR apud SÁ,
2000, p. 212-213).

É a declaração de Clarice. Mas sabe-se que o que constrói o seu modo de escrever
é produto de amadurecida reflexão a respeito da linguagem. Segundo Olga de Sá
(2000), os textos de Clarice, trabalhados por uma ânsia de exprimir a gama
extremamente diferenciada das sensações e da vida, submetem as palavras a uma
constante compressão de sentido, não por força de agentes exteriores, mas pela
própria dinâmica interna de sua escritura.

Voltar o nosso olhar para a sua escrita é associar a palavra à condição humana, e
segundo Sílvia Fernanda Souza (2004), é ultrapassar o limite do imaginário e,
através da palavra, alcançar o introspecto do universo da alma humana. Esta é, para
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Souza, uma faceta que Clarice desvela em suas obras: a preocupação com as
mazelas que avassalam a alma humana.

O uso da metalinguagem em Clarice é tão visível que, em alguns momentos,


esclarece a própria organização de seu universo ficcional e a estrutura ondulante de
sua linguagem. Isso está claro no momento em que Clarice, na voz de Rodrigo,
começa a contar a história de Macabéa e, ao fazê-lo, adia esse momento, colocando
esse processo de adiamento no próprio texto:

Tentarei tirar ouro de carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco
de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem
palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma
pergunta. (LISPECTOR, 1995, p. 31).

Na verdade, ela consegue do carvão tirar o ouro, do nada criar uma história de
denúncia. Clarice mostra em A hora da estrela que o mundo da palavra é uma
possibilidade infinita de aventura, ela destaca a palavra como se esta possuísse um
poder sobrenatural. Para Gotlib (1995), do ponto de vista do gênero literário, há aí
também uma mistura diversificada. É um romance metalinguístico que
sofisticadamente se conta a si mesmo, através do narrador que conta os passos da
criação do seu romance, do caos à delineação progressiva das personagens. Sob
esse aspecto, Clarice-romancista espelha-se em Rodrigo-romancista. Desde o início
sucede-se nesta obra, a reflexão do narrador sobre o ato criador, neste caso, o ato
criador do escritor, uma mistura entre a história de uma sociedade marginalizada, de
Macabéa, do narrador Rodrigo e da própria Clarice:

E Eis que fiquei agora receoso quando pus palavras sobre a nordestina. E a
pergunta é: como escrevo? [...] antecedentes meus do escrever? Sou
homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de
mim de algum modo desonesto. E só mito na hora exata da mentira. Mas
quando escrevo não minto. Que mais! Sim, não tenho classe social,
marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a
média com desconfiança de que possa desequilibrá-la, a baixa nunca vem a
mim. Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam
faíscas e lascas como aços espelhados. (LISPECTOR, 1995, p.33).

Clarice tenta desvendar Rodrigo que tenta desvendar Macabéa, essa coisa tão
aproximada com a miséria e ao mesmo tempo não identificável. O romance parece
ser a própria representação do mundo através de linguagens e narrativas, na voz de
Rodrigo Clarice afirma:
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Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer,
ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás- descubro eu agora-
também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.
Um outro escritor sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher
pode lacrimejar piegas. (LISPECTOR, 1995, p.27-28).

Assim, pode-se inferir que a escritora, se posiciona contra os preconceitos voltados


para o ato criador feminino. Segundo Gotlib, paralelamente a essa história de
violência social e de amor virtual, uma outra acontece: é a historia de dois romances,
por dois protagonistas: Rodrigo diante da repressão ditatorial brasileira que, através
dele, narrador criado pela autora, aí implícita para contar a história de Macabéa;
Clarice, autora e narradora que cria Rodrigo para justamente contar ele essa
história, porque mulher... (pura ironia)... iria “lacrimejar piegas”. Clarice encontra
através do romance a maneira de dar seu “direito ao grito”, um dos subtítulos do
livro:

Devo dizer que essa moça não tem consciência de mim, se tivesse teria
para quem rezar e seria a salvação. Mas eu tenho plena consciência dela:
através dessa jovem dou o meu grito de horror à vida. À vida que tanto amo.
(LISPECTOR, 1995, p.49).

Diante de uma sociedade preconceituosa e elitista na qual as diferenças sociais são


gritantes, Clarice tenta expressar sua indignação com os preconceitos e diferenças
tão fortes na sociedade brasileira. Para Gotlib (1995, p. 472), o romance foi escrito
“em estado de emergência e de calamidade pública”, e por isso o direito ao grito, de
Macabéa e de todos, sem resposta, repercute num apelo tão forte, dirigido ao leitor:
“se houver algum leitor para esta história quero que ele se embeba da jovem assim
como um pano de chão todo encharcado. A moça é uma verdade da qual eu não
queria saber. Não sei a quem acusar, mas deve haver um réu”.

Durante o trajeto narrativo Clarice, na voz de Rodrigo, ela constrói um cenário para
evidenciar a manipulação da mídia e a grande influência dos produtos da cultura
mundial nos modelos culturais e sociais da década de 1970:

E quando acordava? Quando acordava não sabia mais que era. Só depois é
que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de cola-cola.
Só então se vestia da si mesma, passava o resto do dia representado com
obediência o papel de ser. [...] - Você sabia que na rádio relógio disseram
que alguém escreveu um livro chamado ‘Alice no país das maravilhas’ e que
era também um matemático? Falaram também em álgebra. O que é quer
dizer álgebra? [...] – Nessa rádio eles dizem essa coisa de cultura e
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palavras difíceis, por exemplo: o que quer dizer eletrônico? Eu gosto tanto
de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic-tac-tic-tac-tic-tac. A rádio
relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?
[...] Eles disseram que e se devia ter alegria de viver. Então eu tenho.
(LISPECTOR, 1995, p. 66-67).

Nessa citação vemos como Clarice mostra que mesmo o sujeito situado à margem,
discriminado e excluído, está exposto aos produtos que configuram o cenário
cultural de 1970, a exemplo a coca-cola, que mesmo sem ter ciência de sua
composição ou sabor está no topo da preferência nacional. Macabéa representa as
pessoas robotizadas, é uma alegoria nacional, a representante de um povo que se
encontrava enclausurada por uma ditadura que determinava o que assistir, o que
ouvir, o que ler, o que falar, comer e beber, mesmo sem saber ou ter um sentido
para suas escolhas e decisões construindo, assim, uma vida de momentos e
pensamentos episódicos sem ligação com a realidade.

Sob essa mesma ótica Gotlib (1995), afirma que Macabéa consome cultura de
sucata. Assim, decora informações inúteis de almanaque e ouve canções
sentimentais na Rádio Relógio, recorta de jornais velhos anúncios de produtos que
nunca poderá usufruir, os quais coleciona e prega num álbum – o álbum das suas
carências. Este é um cenário presente não apenas em A hora da estrela, mas
também pode se perceber no pano de fundo social e cultural contemporâneo.

Considerando a profundidade da narrativa Clariceana e a grandeza do que procura


expressar, a linguagem empregada pela autora é surpreendentemente simples e
intensamente lírica. Segundo Oliveira (2003), não se trata de uma escritora cuja
leitura solicita um dicionário ao lado. A dificuldade encontrada pelo leitor está
justamente num conteúdo absolutamente complexo que requer mais um repertório
emocional, psicológico, que propriamente uma erudição linguística.

É na linguagem que Clarice transcende seu papel de mulher e escritora. Nessa


escrita tão inovadora e transcendente, Clarice comprova que a escrita feminina não
é inferior à escrita masculina e que as escritoras podem e devem continuar
buscando o seu reconhecimento literário, pois, tal quais os homens, elas são
capazes de produzir, criar e recriar textos em qualquer modalidade.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo da escrita monográfica foi uma tarefa árdua, por se tratar de um


processo longo com grau elevado de dificuldade, o que nos possibilita adquirir um
pouco mais de conhecimento, porém também foi uma tarefa prazerosa, onde as
descobertas e as indagações foram sendo respondidas à medida que o processo de
escrita se concretizava.

Durante esse período, através de um olhar investigativo, fez-se uma análise


aprofundada sobre a temática em estudo por meio de Clarice Lispector, em sua obra
A hora da estrela. Pôde-se confirmar que a autoria feminina está alcançando espaço
no campo literário acadêmico, enfatizou-se a possibilidade de o conhecimento
despertar um desejo de mudança que resultou no crescimento e ascensão da
mulher na participação social, literária e científica. Através do levantamento de
algumas questões percebe-se que a mulher conscientizou-se e tenta agora
recuperar o passado que fora-lhe negado pela tradição e mostrar o valor possui a
literatura feminina.

Através da pesquisa bibliográfica literária de fundamentação teórica foi realizada


uma explanação clara e objetiva dos conteúdos, com a consciência de que todos os
temas abordados não se esgotaram, e por isso cremos que através dessa discussão
outras possam ser iniciadas, pois trata-se de um campo muito rico, muito amplo.

Os objetivos que nortearam essa pesquisa foram cumpridos, em alguns momentos


encontrou-se grande dificuldades em abordar alguns temas, por se tratar de
assuntos que possuem uma pequena repercussão no campo literário.

As expectativas ao longo do projeto monográfico foram se afirmando ao longo da


execução. Os questionamentos e as dificuldades permitiram uma nova análise do
plano que fora traçado no início, isso por se tratar de um objeto de estudo muito
amplo e pouco abordado por teóricos. Esse fato explica-se por que falar sobre
mulheres era assunto para mulheres, o que significa que estas e suas vivências não
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eram interessantes para a história assim encontrou-se pouca literatura que


abordasse temas voltados para a escrita feminina e a mulher em si.

No decorrer da execução muitas outras possibilidades dentro dessa vertente que é a


escrita feminina foi encontrada, mas optou-se por não desviar o foco inicial, pois o
desejo maior foi alcançado através deste estudo: proclamar uma das mulheres que
conseguiu transgredir o papel que lhe era imposto e deveria obrigatoriamente ser
aceito. Essa escrita feminina é dotada de grande singularidade, não só em relação à
temática recorrente, mas notadamente, em relação à linguagem.

Tomou-se como objeto de estudo uma das obras de Clarice Lispector, A hora da
estrela, e teve como objetivo demonstrar algumas das características mais
acentuadas da escrita feminina, o reconhecimento e aceitação da escrita da mulher.

Ao final desse trabalho pôde-se ver que essa pesquisa justifica-se pela imensa
contribuição na vida profissional, pois permitiu adentrar em contato minucioso com o
campo literário e teórico, o que nos torna profissionais melhores, além de
representar um referencial importante para professores e estudantes visto que abre
um leque de opções para o estudo da literatura de uma forma crítica, pois através
desta pôde-se repensar as posturas de exclusão assumidas por alguns grupos
inseridos em nossa sociedade, por que há pouco tempo não se falava em literatura
negra, literatura feminina, enfim, na literatura dos excluídos.

O gênero que aqui foi colocado em estudo, o feminino, ganhou nova performance
tornando-se assim importante não apenas para professores e estudantes, mas
também para a sociedade de forma geral.

Não se pode deixar de citar a enorme contribuição para a nossa vida pessoal,
enquanto mulheres, nos sentimos honradas por fazer parte desse grupo de
mulheres que tiveram acesso a voz, por que as mulheres até algum tempo não tinha
esse direito, pois somente em princípio do século XX estas desfrutam de maior
liberdade para organizar e divulgar suas lutas e conquistas como o direito à
educação superior, a votar e ser votada e exercer profissões remuneradas.
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Tomar posse desses direitos não têm sido tarefa fácil, ser mulher e estudante requer
muito esforço e dedicação, mas ao mesmo tempo é dignificante, pois não são todas
as mulheres que tem acesso à educação superior e ainda mais em uma instituição
pública. No Brasil o ingresso maciço de mulheres na universidade se deu a partir do
momento que elas começaram a reivindicar seu espaço na história, o mundo
acadêmico ganha assim novos contornos. É a realização para todas as mulheres,
pois diante das questões que aqui foram abordadas, pode-se dizer que transcendeu-
se as dificuldades e concretizou-se um grande sonho.

Diante dessa realidade abordada espera-se que outras mulheres e também a


sociedade como um todo desenvolva o olhar crítico sobre a condição feminina para
que mudanças continuem acontecendo, não só a nível cultural, mas também
literário.
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