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Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura

MARIA FIRMINA DOS REIS E A EVOLUÇÃO DE


UMA INTELECTUALNEGRA NO SÉCULO XIX

Zélia M. Bora1

Como atestam os estudos sociológicos da literatura brasileira nos


finais do século XIX e começo do século XX2, o cânone da literatura brasilei-
ra foi firmado sob uma tradição social diante da qual predominou a atuação
de uma intelectualidade masculina, “branca” e pertencente a grupos eco-
nomicamente privilegiados da sociedade brasileira. Frequentemente, per-
tenciam a esses grupos jovens aspirantes a carreiras políticas ou a cargos
de destaque no serviço público. O século XIX notabilizou-se pelos esforços
empreendidos por esses grupos em prol da consolidação de um modelo po-
lítico, econômico e literário baseado na absorção das ideias europeias e na
necessidade de redefinição dos valores autóctones, através dos quais se
procurava superar o primeiro pela afirmação problemática do segundo3, ob-
jetivando a criação da chamada literatura nacional.

Esses membros normalmente pertenciam a famílias abastadas, com-


postas por donos de terras que firmaram a sua riqueza graças ao monopólio
oferecido pelo tráfico de escravos como uma marca indelével de uma burgue-
sia incipiente em vias de construção de um bizarro conceito de modernidade.
Em nossa sociedade, a concepção de modernidade estabelecia-se, portanto,
entre as tensões em favor da manutenção da escravidão e a sua abolição.
Esses impasses políticos tiveram profundas repercussões na formação de
uma nova classe social de pessoas livres4, que não possuíam escravos e nem
dependiam da manutenção da escravidão para a sua sobrevivência econô-
mica. Esse estrato era composto também por pessoas brancas e mestiças
que emergiam como um grupo culturalmente independente, muito embora

1  Professora de Literatura Brasileira, na Universidade Federal da Paraiba, João Pessoa.


2  Refiro-me em especial à produção de Silvio Romero em: História da Literatura Brasileira.
Livraria José Olympio 5ª.ed. 1953
3  Um dos aspectos mais controvertidos da adequação do projeto Romântico no Brasil,
encontra-se na nacionalização dos contos, canções e crenças populares, como aspectos do
caráter nacional, enquanto seus sujeitos eram discriminados.
4  Termo que designa negros nascidos livres, ou a segunda geração de libertos no século
XIX.
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necessitasse da política de favores que caracterizava as relações sociais na


sociedade brasileira no Império e na República Velha.

Para tentar se discutir a emergência de uma intelectual negra no


Brasil do século XIX, dentro desse cenário quase exclusivista, faz-se neces-
sário ir-se além do parâmetro dominação versus opressão, comumente uti-
lizado para se caracterizar, de forma generalizada, as relações de gênero,
classe e raça na sociedade patriarcal. Assim, antes de aferirmos a situação
específica de Maria Firmino dos Reis, consideramos pelo menos dois as-
pectos essenciais ao entendimento da questão: o que significava ser uma
intelectual brasileira negra no século XIX e como se definiu seu papel social
diante de uma sociedade escravagista e em vias de modernização.

Enquanto na Europa do século XIX, proclamava-se um sentimento


de profunda rebeldia e inconformismo, patenteado pelo espírito romântico,
no Brasil foi criado um Romantismo sob um ideário nacional revestido por
uma conjuntura social que dava aos grupos interessados nos debates inte-
lectuais europeus a convicção de que estavam sendo lançados, no Brasil, os
fundamentos de nossa vida intelectual, já que tal estética, de acordo com
Silvio Romero, consistiu-se na “introdução do princípio da relatividade nas
produções literárias”; e no “constante apelo para o regime da historicidade
na evolução da vida poética e artística” (...). O eminente crítico acreditava
ainda que o romantismo era “a literatura do presente e do futuro”, possi-
velmente por incorporar uma série de aspirações político-sociais capazes
de representar as aspirações nacionais naquele momento. (Romero, p.860).
Da presente afirmação, pode-se inferir que ser um intelectual brasileiro no
século XIX significava estar em sintonia com as ideias estéticas e sociais
do Romantismo europeu do ponto de vista da filosofia, da crítica histórica,
da política e das artes, especialmente, da literatura. Se os parâmetros em
discussão podem ser generalizados como expressões da gênese de nossa
literatura, pode-se dizer também que, no Maranhão (terra nativa da escri-
tora) e antiga comarca do Grão Pará, a evolução da literatura obedeceu às
dinâmicas bem mais complexas relacionadas à história política e intelectual
da província.

Ao se referir à situação da literatura maranhense no século XIX, o


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crítico José Veríssimo faz determinadas observações importantes para o


entendimento do cenário histórico em que Maria Firmino dos Reis viveu e
escreveu. Em posição particularmente diferente das demais colônias, desde
1624, o Maranhão foi elevado à categoria de Estado, separado do Brasil. Pela
sua própria localização geográfica, aproximava-se muito mais da metrópole
do que o Brasil5. Esse fato inusitado pressupunha uma profunda diferença
na maneira através da qual os intelectuais maranhenses viam-se em relação
aos demais intelectuais de outras regiões. Esses homens não só sentiam-se
intelectualmente à frente dos demais, mas também procuravam elevar, ao
máximo, a sua proximidade à metrópole e manterem acesos os vínculos po-
líticos que pudessem garantir-lhes o acesso pessoal a uma vida intelectual e
política. As alianças políticas entre os intelectuais maranhenses e a metró-
pole consolidaram-se, ainda mais, quando o rei concedeu aos “cidadãos” de
São Luís e de Belém do Grão Pará privilégios não conferidos a outras provín-
cias, como, por exemplo, títulos de nobreza. Era uma estratégia colonial que
viria “substituir” a odiosa marca de pureza sanguínea enfatizada em outras
partes da Europa. Por outro lado, as grandes extensões de terras e territó-
rios nas mãos de poucos fazia dessa geografia um espaço marcado pela
intensa exploração da mão de obra escrava negra e indígena, demarcando,
hierarquicamente, as diferenças entre os descendentes de portugueses e
o restante da população. Pelas próprias estratégias de exclusão exercidas
pelo colonialismo, determinantes como raça, língua e cultura tornaram-se
fatores importantes na constituição das identidades locais. De acordo com
Veríssimo, na sociedade maranhense, podia-se verificar naquela época, as
formas mais enraizadas de racismo, com a predominância do português ou
dos seus descendentes predominando socialmente(Veríssimo, p.251)

A afirmativa, em questão, permite uma série de inferências a res-


peito dos egressos afro-brasileiros ao mundo substancioso e gotejante das
letras, especialmente quando se enuncia a relação entre raça e classe so-
cial. Tal relação sugere uma série de dificuldades de ordem pessoal e social
à evolução social desses indivíduos, muito embora a legislação do Império
assegurasse o acesso à escolarização, “contemplando setores desfavoreci-

5  Veríssimo, José. O grupo Maranhense. In: História da Literatura Brasileira de Bento Teixeira
(1601) a Machado de Assis (1908). Letras e Letras. São Paulo, 1998 p.p 249-263
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dos socialmente, denominados à época, “todas as classes de cidadãos.”6.


A opção comumente acessível a homens, mulheres negras, mulatos(as) e
mestiços(as) pobres, era indubitavelmente o autodidatismo que contrasta-
va com a autoridade pré-determinada e reconhecida de orientação euro-
peia ou arraigada à tradição jesuíta. Diferenciada das demais províncias, os
intelectuais pertencentes ao Maranhão, por sua vez, lutavam para superar a
sua própria exclusão colonial, através da luta pela implantação da impren-
sa como um meio de difusão política e literária7. Como se pode observar, a
evolução de uma intelectual negra poderia ser preenchida por intermédio
de diferentes vertentes. Enquanto um grupo procurava manter as suas afi-
nidades intelectuais com os grupos hegemônicos, os quais se autodenomi-
navam representativos das letras nacionais, outros procuram alternativas
que lhes possibilitassem romper o anonimato pela escrita, embora oriunda
das margens.

A influência histórica do primeiro grupo de românticos maranhenses


inicia-se em 1836 e estende-se por um quarto de século (Veríssimo, p.185).
O mais talentoso desses homens, apontado pela crítica, foi o maranhense
Gonçalves Dias (1823-1864). A ascensão do jovem Gonçalves Dias ao ce-
nário nacional atraiu, naturalmente, a atenção da crítica sobre a produção
literária maranhense, um fato que inspirou posteriormente o aparecimen-
to de outros jovens. Por volta de 1860, o Maranhão recebera a alcunha de
Atenas brasileira. Dessa maneira, diante de um cenário intelectual promis-
sor, homens e mulheres de cor, dentre elas Maria Firmino dos Reis que, na
época, tinha trinta e cinco anos, procuravam se vincular às ideias estéticas
e políticas da época, sobretudo acerca da Abolição da Escravatura. Sobre
a abolição e o papel desempenhado pelo homem livre, o romance Úrsula
(1859) “inventa” a si própria e o outro como sujeitos nacionais8. Oriunda das

6  Veja-se Mariléia dos Santos Cruz. A Educação dos negros na sociedade escravista no
Maranhão Provincial. In: Outros Tempos , vol 6, #8, dez. 2009 Dossiê Escravidão.Disponível em
http://www.outrostempos.uema.br/vol.6.8.pdf/Marileia_Cruz.pdf 10 de agosto de 2011.
7  Veja-se Ricardo André Ferreira Martins. Breve panorama histórico da imprensa literária no
Maranhão oitocentista. Animus: Revista interamericana de comunicação midiática. V.18, jul-
dez 2010. Disponível em http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/animus/article/
viewFile/2442/1474 09 de Agosto de 2011
8  Zélia M. Bora. A Diaspora Afro-brasileira em Ursula, de Maria Firmino dos Reis. Revista del
Cesla #9 Centro de Estudios Latino-Americanos Universidade de Varsovia. Warszawa, 2006.
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massas, mas não exatamente escrevendo explicitamente para elas, após


a abolição, Maria Firmina prossegue em sua militância ideológica como
professora, enquanto busca, principalmente, a poesia como uma forma
de expressão estética e relacionada à fusão do eu e do outro, da arte, da
ideologia e da vida, respectivamente. Como uma intelectual de cor, viveu
o senso de exclusão simbólica, sob o determinismo torturante da cor, em
uma sociedade em que, comumente, exerciam-se formas de um mecenato
perverso, que lhe dificultou um reconhecimento pleno por parte dos meios
nacionais metropolitanos.

À medida em que o tempo passava, tornou-se praticamente impos-


sível negar-lhe a vocação artística como escritora, graças ao seu talento
pessoal e a influência de certas circunstâncias históricas e políticas que lhe
permitiram o exercício de uma posição intelectual marginal, como convinha
às escritoras e poetas. As incursões pela prosa e depois pela poesia carac-
terizaram-se como veículos de expressão estética e também como parte de
uma identidade intelectual, tangenciada ainda como uma mulher de cor e
abolicionista. De um modo geral, a primeira geração de românticos distin-
gue-se, na opinião de José Veríssimo, “pela versatilidade dos talentos, va-
riedade da obra e propósito patriótico de sua atividade mental” (Veríssimo,
p.186). Esses aspectos, apontados por Veríssimo, sobre a primeira geração
de românticos, dão origem à formação de um cânone literário através das
publicações da revista O Parnaso Brasileiro (1829), patrocinadas pelo Insti-
tuto Histórico, Geográfico e Etnográfico. Esse aspecto não só servirá para
nivelar os conteúdos das publicações, mas também garantir a uniformidade
do grupo de colaboradores, criando definitivamente o perfil do homem das
Letras, como um determinante comum da psique nacional, especialmen-
te representada, na época, por Gonçalves Dias que veio a ser considerado
pela crítica: o primeiro grande poeta do Brasil 9 e consolidador da tendência
indianista nas letras nacionais.

Não raro, dada à diversidade da população afro-descendente, era


facultado o acesso esporádico de alguns sujeitos ao convívio dos grupos
intelectualmente privilegiados. Embora haja um consenso geral sobre a atu-

9  Citação de José Veríssimo em História da Literatura Brasileira, p. 242.


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ação social do intelectual romântico em reescrever o nacional como evi-


dência da inserção do mesmo no projeto de construção da nação, outras
veiculações podem ser estabelecidas quando, por exemplo, considera-se a
correlação entre o papel social que Maria Firmina dos Reis desempenhou
como intelectual romântica, sua obra e a sua posição como mulher de cor.
Enquanto grupos intelectuais majoritários adequavam-se às influências es-
téticas e políticas exercidas pela corte portuguesa no Rio de Janeiro, outros,
como foi o caso da escritora em questão, criavam as suas “próprias leis” de
ação e criação estética, ampliando, dessa maneira, a complexidade da defi-
nição do que seria uma intelectual negra no Brasil durante o século XIX.

Como sabemos, o cenário social do qual ela fazia parte encontrava-


se demarcado por um contexto bastante diversificado no que se refere à
definição da palavra negro. No século XIX, os negros eram diferenciados
pela origem, cor da pele, sexo e trabalho. O mesmo acontecia com mes-
tiços oriundos de uniões legítimas e ilegítimas, segundo a visão da igreja
Católica.10 Essas inúmeras correlações ajudam-nos a entender os artifícios
sociais que dificultaram a unificação do negro enquanto grupo social, po-
lítico. Apesar da complexidade das relações sociais, em torno das quais se
situavam os negros, essas diferenças, a rigor, eram de pouca significação,
uma vez que o poder econômico e a capacidade de barganha, dentro da
sociedade, pertenciam às pessoas que detinham o poder econômico.

Por outro lado, o problema da escravidão, mas do que qualquer


problema social no século XIX, ocupou a vida intelectual brasileira a partir
da década de 1880. Esse fato abriu precedentes para a inclusão de vários
intelectuais, oficialmente, não reconhecidos pelas “crônicas oficiais”, mas
cuja participação foi essencial ao aparecimento de uma nova definição
sobre quem poderia tornar-se um intelectual. De acordo com os depoimentos
biográficos sobre esses homens e mulheres de cor, a grande maioria deles
emerge no cenário nacional como um self made man and woman, sobretudo
quando oriundos de grupos economicamente desfavoráveis. Essa nova
população teve uma grande repercussão na concepção e formação do

10  Mariléia dos Santos Cruz. A educação dos negros na sociedade escravista no Maranhão
Provincial p.113.
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intelectual abolicionista associado a políticos, escritores, jornalistas, à


imprensa e demais instituições.11

Ao contrário dos efeitos sociais e políticos de trabalhadores euro-


peus que demandaram liberdade civil, política, igualdade social e a abolição
do tráfico internacional de escravos, no Brasil, a tensão antiescravista pas-
sou a repercutir “no interior do próprio campo intelectual e político” (...). Essa
repercussão deu-se através de contextos políticos, onde estavam, em ques-
tão, termos como: liberalismo, governo representativo, civilização, progresso,
movimentos sociais, ordem e liberdade. Essas discussões eram motivadas
pela resistência escrava, enquanto eram destruídas as bases do escravismo
colonial e montavam-se as bases de construção do escravismo nacional.12

Dessa maneira, o sentido de tensão antiescravista repercutia de for-


ma praticamente generalizada, especialmente “sobre a resistência escrava
marcada pelo protagonismo do cativo nas suas reações violentas para com
os senhores e outros setores sociais”, especialmente, depois da revolta es-
crava em San Domingo (Haiti), que desmantelou a hegemonia do regime
colonial francês. Pode-se, assim, afirmar-se que o impacto da revolução
negra, no Haiti, produziu um efeito psicológico devastador sobre a mentali-
dade escravista que, não obstante a existência de legislação que facultava
à educação de milhares de pessoas de cor, a realidade da inserção desse
indivíduo ao saber era algo completamente diferente, quando se leva em
consideração o estado de penúria e escassez que a escravidão conferiu a
grande parcela da população, colocando esses indivíduos em uma posição
bastante desfavorável no que se refere à aquisição de saber e, portanto,
afastando-os de uma possível vida intelectual, seja como leitores ou como

11  Em nota explicativa, Ricardo Salles, afirma que, nas primeiras décadas do Império, as
instituições da sociedade civil como a imprensa, as associações e outras organizações ,
colocaram-se muitas vezes, em confronto aberto com Estado . Hierarquização esta que
independia, em alto grau, de quem fosse o governo. Nesse ultimo caso, a dominação
hegemônica estava consolidada no primeiro e assim, vivia-se uma situação de conflito aberto.
Veja se: Abolição da escravidão, classes sociais e intelectuais no Brasil do século XIX. Disponível
em http://www.simposiohegemonia.pro.istituicoes br/15_Salles_Ricardo.pdf. Acesso 12 de
maio de 2011.
12  . VOs termos escravismo colonial e escravismo nacional são baseados nos estudos
de Gramsci e usados por Ricardo Salles para designar as bases contraditórias do nosso
modernismo nacional. Ricardo Salles, Abolição da Escravidão p.12
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escritores. Assim, entende-se que a reivindicação intelectual sobre a liber-


dade dos escravos era principalmente uma reivindicação pela própria so-
brevivência do indivíduo em prol suas necessidades básicas,

Esses esforços pela liberdade cativo, caracterizam muito bem a


participação do intelectual livre, de onde é possível entrever-se o papel da
intelectual negra como uma mulher livre e de cor. Esse clima social desa-
gregador, ao qual se refere Salles, desempenhou um papel essencial não
apenas no quadro histórico a que ele menciona, mas também nas próprias
abordagens estéticas sobre o papel do negro, da escravidão e da partici-
pação popular em defesa do escravo, como se pode observar no romance
Úrsula (1859). Enquanto a atuação intelectual das mulheres dava-se pelas
margens, através das quais Maria Firmino dos Reis não foi uma exceção,
sabe-se que a sua luta como intelectual é paradigmática à luta de muitas
mulheres de cor, cuja luta diária, pelo predomínio da escrita, inicia-se pela
superação da domesticidade e, depois, do escrutínio de uma suposta crí-
tica literária, cujas bases segregacionistas estabeleceram-se de forma in-
questionável nas letras nacionais. Assim, delinear uma resposta satisfató-
ria sobre a trajetória intelectual da escritora negra Maria Firmino dos Reis
e o papel social desempenhado por ela, no século XIX, não constitui uma
tarefa fácil de ser formulada, uma vez que a mesma depende de diversos
micro-fatores, cuja interação cria um sentido de identidade social coletiva
e pessoal que circunscreve a vida de cada indivíduo. Diante da conjuntura
histórica do século XIX, a própria palavra negra possui um sentido especí-
fico, relacionando-se, principalmente, ao elemento africano/cativo, sendo
também acompanhada de várias gradações que designavam o lugar do su-
jeito na sociedade.

Como produto de uma miscigenação genética, a miscigenação da


população afro-brasileira no século XIX criou uma série de impasses para os
indivíduos identificados como mulatos, sobretudo por estarem associados à
ilegalidade moral do sexo pecaminoso e ao interdito da mistura das raças. A
pluralidade de posições sociais que caracterizavam a vida de cada “negro”,
na sociedade brasileira do século XIX, permitia, a cada um, um dinamismo
social diferenciado de indivíduo para indivíduo e de homem para mulher, as-
segurando a uns determinadas posições sociais mais privilegiadas sobre os
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demais. Por outro lado, o sentido de termos como instrução e autodidatismo


são elementos muito importantes para identificar-se a trajetória de qualquer
pessoa de cor no século XIX. No Maranhão, durante o século XIX, a popula-
ção parda excedia a população branca e, assim sendo, afrouxaram-se mais
uma vez as rédeas da legislação e grande parte da população teve acesso à
instrução, mas, devido aos mecanismos segregacionistas, a grande maioria
permaneceu sem escolarização e à margem dos benefícios educacionais
extensivos aos indígenas, colonos europeus, colonos cearenses (migrados
em virtude da seca), deficientes auditivos e jovens provenientes de famílias
brancas detentoras de poder aquisitivo.

Beneficiada, de certa maneira, pelo que Thomas Skidmore1 deno-


minou de mulato escape hatch, Maria Firmino dos Reis, provavelmente, teve
acesso às primeiras letras, enfrentando, de forma constrangedora, a ilegi-
timidade do seu nascimento para viver sob a condição de mulata, o que
lhe garantiu uma ligeira vantagem sobre os demais, especialmente, certa
mobilidade social que lhe permitiu acesso à primeira etapa iniciatória à vida
futura como intelectual, a instrução pública. Em um segundo momento,
como mulher, ela rompeu um segundo selo que pôs fim a seu monólogo
de infinitas agonias e tristezas e decidiu tornar-se escritora, pela transposi-
ção da esfera privada para estabelecer-se na pública, negociando, por um
lado, a domesticidade e, por outro, o enfrentamento incessante do imbatível
mundo patriarcal e racista. Finalmente, como mulher, escritora, poeta e pro-
fessora, Maria Firmino define as suas múltiplas identidades, determinadas
por imutáveis fatos da condição humana.

Bibliografia

Thomas Skidmore, Racial Ideas and Social Policy Brazil 1870-1940. In: The Idea of Race
in Latin America 1870-1940. Ed.Richard Graham. University of Texas Press, 1990.