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lismo, a colonialidade e o patriarcado em todas as suas expressões. Por isso,


pode e deve ser reproduzida para ler em qualquer lugar, discutir em grupo, pro-
mover oficinas, citações acadêmicas, rodas de conversas e fazer impressões
para fortalecer o seu rolê anarquista / hacklab ou hackspace / banquinha de zi-
nes / coletivo. Compartilhar não é crime. Pirataria é multiplicação.

A Ideologia Californiana
The Californian Ideology, por Richard Barbrook e Andy
Cameron, publicado na revista Mute, Vol 1, Nº3 em 1º de
Setembro de 1995.
http://metamute.org/editorial/articles/californian-ideology
Traduzido por Marcelo Träsel (trasel.com.br), publicado em
http://cibercultura.fortunecity.ws/vol2/idcal.html
Apresentação, introdução e revisão de Leonardo Foletto
Capa e diagramação por Vertov Rox.

Editora Monstro dos Mares


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BaixaCultura
Laboratório de documentação, pesquisa,
formação e experimentação em cultura livre.
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Introdução

Em setembro de 1995, a internet comercial estreava no Bra-


sil, Mark Zuckerberg ia a escola primária em White Plains (interior
do Estado de Nova York, nos EUA) aos 11 anos, Larry Page e Ser-
gey Bin se conheciam na pós-graduação em computação em Stan-
ford (na Califórnia) e começavam a trabalhar na ideia do Page
Rank que originaria o Google três anos depois, e Richard Barbook
e Andy Cameron, então membros do Hypermedia Research Centre
na Universidade de Westminster, em Londres, publicavam um en-
saio chamado “A Ideologia Californiana” na Mute Magazine, revis-
ta inglesa nascida um ano antes que se propunha a cobrir cibercul-
tura, práticas artísticas, net-art, autonomia e política radical. O tex-
to logo circularia por listas de e-mails, entre elas a então nascente e
até hoje existente Nettime, e seria considerada uma das primeiras
críticas ao neoliberalismo agressivo do Vale do Silício.
No ensaio, Barbrook e Cameron definiam a tal ideologia
como uma improvável mescla das atitudes boêmias e antiauto -
ritárias da contracultura da costa oeste dos EUA com o utopis-
mo tecnológico e o liberalismo econômico. Dessa mistura hip-
pie com yuppie nasceria o espírito das empresas .com do Vale
do Silício, que passaram a alimentar a ideia de que todos po-
dem ser “hip and rich” – para isso basta acreditar em seu traba-
lho e ter fé que as novas tecnologias de informação vão eman -
cipar o ser humano ampliando a liberdade de cada um e reduzir
o poder do estado burocrático.

5
Na época, a ideologia californiana era bem representada
por empresas como a Apple e a revista Wired e entusiasmava a
todos que estavam por perto desse cenário – nerds de computado-
res, slackers, capitalistas inovadores, ativistas sociais, acadêmicos
“da moda”, burocratas futuristas e políticos oportunistas, como
escrevem os autores no ensaio. Também: como resistir a um co-
quetel que unia as premonições tecnológicas de McLuhan de uma
aldeia global tecnológica com as potencialidades de emancipação
individual a partir da digitalização do conhecimento?

A explosão da bolha especulativa das empresas de internet


no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre onde
esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideolo-
gia californiana persistiu e se espalhou com a ajuda do Google, Fa-
cebook, Apple, Amazon e vários outros dos gigantes do Silício que
hoje fazem parte da nossa vida cotidiana. A ideia de um mundo
pós-industrial baseada na economia do conhecimento, em que a di-
gitalização das informações impulsionaria o crescimento e a cria-
ção de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas em
prol de indivíduos conectados em comunidades digitais, prosperou.
E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.

Será então que, 20 anos depois, é possível dizer que a ideo-


logia californiana venceu? Para discutir essa e outras questões é
que Barbrook lançou em 2015, junto do Institute of Network Cul-
tures, sediado na Holanda, o livro “The Internet Revolution: From
Dot-com Capitalism to Cybernetica Communism”. Na introdução
especialmente escrita para este 20º aniversário do ensaio, o autor
inglês faz um balanço de como os “capitalistas hippies” mudaram o
Vale do Silício (e o mundo) e de como sua ideologia, num mundo
cada vez mais social e digital, ainda é um assunto relevante a se

6
discutir. Como McLuhan tinha insistido, a provocação teórica cria
compreensão política, explica o editor do livro, professor e pesqui-
sador de mídia digital Geert Lovink.

A visão do livro lançado em 2015 e do texto original 20 anos


antes não é favorável à ideologia californiana. Em dado momento do
ensaio original, os autores relatam que o pensamento oriundo dessa
ideologia é o de que as estruturas sociais, políticas e legais serão
substituídas por interações autônomas entre pessoas e os softwares –
e que o “grande governo” não deve atrapalhar os “empreendedores
engenhosos” do mundo digital. O texto tem uma posição crítica a
esta postura, dizendo que ela rejeita noções de comunidade e de pro-
gresso social e dá importância somente para uma posição guiada por
um “fatalismo tecnológico e econômico”.

Barbrook e Cameron dizem que a construção exclusivamente


privada e corporativa do ciberespaço poderia promover a fragmenta-
ção da sociedade e a criação de mais desigualdade social e racial. Um
trecho: “Os moradores de áreas pobres da cidade podem ser excluídos
dos novos serviços online por falta de dinheiro. Em contraste, yuppies
e seus filhos podem brincar de ser ciberpunks em um mundo virtual
sem ter de encontrar qualquer de seus vizinhos empobrecidos”.

Anos depois, o documentarista Adam Curtis criticaria a ideo-


logia californiana, que ainda é predominante no imaginário das em-
presas de tecnologia (não só do Vale do Silício), na parte 1 e 2 do
documentário “Tudo Vigiado por Máquinas de Adorável Graça”. Ele
traz para o debate a escritora Ayn Rand e sua filosofia objetivista,
que influenciou a ideologia californiana (e muitos empresários do
Vale do Silício) com a ideia de que os seres humanos se encontrari-
am sozinhos no universo e que deveriam se liberar de todas as for-
mas de controle político e religioso, vivendo apenas guiados por

7
seus desejos egoístas. O casamento entre a teoria de Ayn e a crença
no poder das máquinas produziria a ilusão de uma sociedade que
prescindia, entre outras coisas, de políticos e que se autogovernava e
se autorregulava com a ajuda dos computadores.

A ideologia californiana está presente hoje como base filosófi-


ca para, por exemplo, ações de vigilância em massa como as da
NSA. A internet é a ferramenta de controle dos sonhos, em que tudo
é registrado e deixa rastro (que alguns apagam, mas a maioria não),
um cenário perfeito para que agências de vigilância, em nome da se-
gurança, e com a ajuda dos computadores, possam vasculhar a vida
de todos. A ideologia está presente também quando Mark Zucker-
berg fala de uma internet onde o padrão é ser sociável – de preferên-
cia, que seja sociável numa ferramenta privada de um empresário do
Vale do Silício como ele, que gaste bastante tempo nela e que produ-
za muitos dados nesse período. E é esse pensamento moldado na en-
solarada Califórnia que está por trás, mais uma vez, quando uma em-
presa privada ganha tanto poder que passa a fornecer serviços como
o recente caso do Internet.org e do Project Loon, iniciativas do Fa-
cebook e do Google, respectivamente, que buscam oferecer acesso à
internet de forma gratuita, a partir de satélites ou balões, para lugares
remotos como algumas regiões da África e Ásia. É a promessa de
emancipação do ser humano a partir da tecnologia e do acesso à in-
ternet – desde que uma internet editada e controlada por grandes em-
presas que capitalizam com o tempo gasto das pessoas em suas pla-
taformas e com os dados que nelas deixam.

Quando falamos, no BaixaCultura, do fim da privacidade, ci-


tamos o diálogo do livro de ficção “O Círculo”, de Dave Eggers,
que também ilustra a aplicação prática – e extrema – da ideologia
californiana hoje. Um mundo onde tudo deve ser compartilhado,

8
em que sonegar qualquer informação a outros pode ser encarado
como “roubar o meu semelhante”, em que a vida privada é um
roubo, é um mundo onde sistemas informáticos estão a organizar e
governar a sociedade a partir de critérios supostamente objetivos.
Um mundo onde a ideologia californiana é a dominante, especial-
mente nas decisões relacionadas às tecnologias digitais.

O ensaio foi apontado à época por pessoas ligadas ao Vale


do Silício como um trabalho de esquerdistas, o que realmente é:
Barbrook, em especial, é leitor de Marx, Hegel e escreveu um livro
chamado “Cybercomunism: How the americans are supersending
capitalism in cyberspace”. Lovink, na apresentação de “The Inter-
net Revolution: From Dot-com Capitalism to Cybernetica Commu-
nism”, diz que a Ideologia Californiana é um dos primeiros textos
de uma corrente de pensamento chamada de net-criticism, que
pode ser posicionada na encruzilhada entre as artes visuais, movi-
mentos sociais, cultura pop, e pesquisa acadêmica, com intenção
interdisciplinar de tanto interferir quanto contribuir para o desen-
volvimento das novas mídias, como Lovink explica na sua obra
“Dynamics of Critical Intrernet Culture 1994-2001”.

É uma corrente de pensamento que se situa como uma ter-


ceira via, entre, de um lado, uma posição ligada a uma certa es-
querda que critica a internet por ela ter seu desenvolvimento basea-
do numa expansão do domínio dos EUA em relação ao seu poder
cultural e econômico. E, de outro lado, justamente o da ideologia
californiana, que tem a internet como viabilização de um novo mo-
delo de negócios e como realização de uma profecia indicativa da
aldeia global congregada, como defende, entre outros, John Perry
Barlow na conhecida “Declaração de Independência do Ciberespa-
ço”, escrita um ano depois, em 1996.

9
A construção desta terceira via teria como função, segundo
Lovink, “observar a maneira com que os desenvolvedores e as pri-
meiras comunidades de usuários tentaram conquistar e então mode-
lar o rápido crescimento e mutação do ambiente da internet, apoi-
ando alguns dos valores libertários (anti-censura), mas criticando
outros (populismo do mercado neoliberal)”. Ganhou força em mea-
dos dos 1990, no desenvolvimento da net-art, do hackativismo e
dos festivais de mídia tática, inclusive no Brasil, e tem como ques-
tão importante a criação de uma infraestrutura de rede independen-
te de grandes empresas, além de proteger certas liberdades da inter-
net e a privacidade a partir de técnicas antivigilância. O net-criciti-
cism ainda está presente hoje, por exemplo, na postura de Julian
Assange, criador do Wikileaks, dos criptopunks, de uma certa linha
da cultura hacker europeia e latino-americana, que vê a ética
hacker como atitude desviante de revolta e inovação criativa em
face aos sistemas de controle com os quais se opõe; na filosofia
original do software livre e na defesa dos direitos humanos na in-
ternet – os chamados direitos digitais. Mas sobre o net-criticism e o
pensamento tecnopolítico falamos em outro momento. Boa leitura!

Leonardo Foletto,
Editor do BaixaCultura
Inverno de 2018

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A Ideologia Californiana

Richard Barbook e Andy Cameron (in memoriam)


“Não mentir sobre o futuro é impossível,
e pode-se mentir sobre ele à vontade”

Enquanto a represa se rompe…


No fim do século XX, a longamente anunciada convergência
da mídia, computação e telecomunicações em hipermídia está final-
mente acontecendo1. Mais uma vez, a implacável caminhada do ca-
pitalismo rumo à diversificação e intensificação das forças criativas
do trabalho humano está prestes a transformar qualitativamente o
modo como trabalhamos, interagimos e a vida de uma maneira geral.
Integrando-se diferentes tecnologias por meio de protocolos comuns,
está-se criando algo que é mais do que a soma de suas partes. Quan-
do a habilidade de produzir e receber quantidades ilimitadas de in-
formação sob qualquer forma é combinada com o alcance das redes
telefônicas globais, as formas existentes de trabalho e lazer podem
ser fundamentalmente transformadas. Novas indústrias irão nascer e
as atuais favoritas do mercado de ações sumirão do mapa. Em tais
momentos de profunda mudança social, qualquer um que possa ofe-
recer uma explicação simples do que está acontecendo será ouvido

1 Por mais de 25 anos, os experts vêm predizendo a chegada iminente da


era da informação. Ver TOURAINE, Alain. La Societé post-industrielle.
Paris: Éditions Denoäl, 1969; BRZEZINSKI, Zbigniew. Beetween Two
Ages: America's Role in the Technetronic Era. New York: Viking Press,
1970; BELL, Daniel. The Coming of the Post-Industrial Society. New
York: Basic Books, 1973; TOFFLER, Alvin. The Third Wave. London:
Pan, 1980; NORA, Simon, MINC, Alain. The Computerisation of
Society. Cambridge Massachussets: MIT Press, 1980; e DE SOLA
POOL, Ithiel. Technologies of Freedom. Harvard: Belknap Press, 1983.

11
com grande interesse. Nesta conjuntura decisiva, uma estranha alian-
ça de escritores, hackers, capitalistas e artistas da costa oeste dos
EUA teve sucesso em definir uma ortodoxia heterogênea para a era
da informação vindoura: a Ideologia Californiana.
Esta nova fé emergiu de uma bizarra fusão da boemia cultural
de São Francisco com as indústrias de alta tecnologia do Vale do Silí-
cio. Promovida em revistas, livros, programas de televisão, páginas da
rede, grupos de notícias e conferências via Internet, a Ideologia Cali-
forniana promiscuamente combina o espírito desgarrado dos hippies e
o zelo empreendedor dos yuppies. Este amálgama de opostos foi atin-
gido através de uma profunda fé no potencial emancipador das novas
tecnologias da informação. Na utopia digital, todos vão ser ligados e
também ricos. Não surpreendentemente, esta visão otimista do futuro
foi entusiasticamente abraçada por nerds de computador, estudantes
desertores, capitalistas inovadores, ativistas sociais, acadêmicos liga-
dos às últimas tendências, burocratas futuristas e políticos oportunistas
por todos os EUA. Enquanto o recente relatório de uma Comissão da
União Europeia recomenda seguir o modelo californiano de “livre
mercado” para construir a “superestrada da informação”, artistas de
vanguarda e acadêmicos imitam avidamente os filósofos “pós-huma-
nos” do culto Extropianoi da costa oeste2. Sem rivais óbvios, o triunfo
da Ideologia Californiana parece completo.
O amplo apelo destes ideólogos da costa oeste não é sim-
plesmente resultado de seu otimismo infeccioso. Acima de tudo,
eles são defensores apaixonados do que parece uma forma de po-
lítica impecavelmente libertária – eles querem que as tecnologias
da informação sejam usadas para criar uma nova “democracia jef-
fersoniana”, em que todos os indivíduos serão capazes de se ex-
pressar livremente dentro do ciberespaço 3. No entanto, ao defender
2 Ver BANGEMANN, Martin. Europe and the Global Information
Society. Bruxelas: 1994; e os resumos da programação da Virtual
Futures Conference, da Universidade Warwick.
3 KAPOR, Mitch. Where is the Digital Highway Really Heading?.
Wired, jul/ago 1993

12
este ideal aparentemente admirável, estes tecno fomentadores estão
ao mesmo tempo reproduzindo algumas das características mais
atávicas da sociedade americana, em especial aquelas derivadas da
amarga herança da escravatura. Sua visão utópica da Califórnia de-
pende de uma cegueira voluntária frente a outras – e muito menos
positivas – características da vida na costa oeste: racismo, pobreza
e degradação do meio ambiente 4. Ironicamente, no passado não
muito distante, os intelectuais e artistas da Bay Area estavam apai-
xonadamente preocupados com estes problemas.

Ronald Reagan contra os hippies

Em 15 de maio de 1969, o governador Ronald Reagan or-


denou à polícia – portando armas – que fizesse um ataque surpre-
sa matinal aos manifestantes hippies que haviam ocupado Peo-
ple's Park, perto do campus Berkeley da Universidade da Califór-
nia. Durante a batalha subsequente, um homem foi baleado e
morto e 128 outras pessoas precisaram de tratamento hospitalar 5.
Naquele dia, o mundo “careta” e a contracultura pareceram ser
implacavelmente opostos. De um lado das barricadas, o governa-
dor Reagan e seus seguidores defendiam a iniciativa privada ir-
restrita e a invasão do Vietnã. Do outro lado, os hippies lutavam
por uma revolução social em casa e se opunham à expansão im-
perialista pelo mundo. No ano do ataque surpresa em People's
Park, parecia que a escolha histórica entre estas duas versões
opostas do futuro da América só poderia estabelecer-se através do

4 Ver DAVIS, Mike. City of Quartz. London: Verso, 1990; WALKER,


Richard. California rages Against the Dying of the Light. New Left
Review, jan/fev 1995; e os discos de Ice T, Snoop Dog, Dr. Dre, Ice
Cube, NWA e muitos outros rappers da costa oeste.
5 KATSIAFICAS, George. The Imagination of the New Left: a global
analysis of 1968. Boston: South End Press, p.124,1987.

13
conflito violento. Como Jerry Rubin, um dos líderes hippies, dis -
se na época: “nossa busca por aventura e heroísmo nos leva para
fora da América, para uma vida de auto-criação e rebelião. Em
resposta, a América está pronta para nos destruir…” 6
Durante os anos 60, radicais da Bay Area espalharam a apa-
rência política e o estilo cultural dos movimentos da Nova Esquer-
da mundo afora. Rompendo com a política estreita do pós-guerra,
lançaram campanhas contra o militarismo, o racismo, a discrimina-
ção sexual, a homofobia, o consumismo inconsciente e contra a po-
luição. Em lugar da tradicional hierarquia rígida da esquerda, cria-
ram estruturas coletivas e democráticas que supostamente prefigu-
ravam a sociedade libertária do futuro. Acima de tudo, a Nova Es-
querda californiana combinou luta política com rebelião cultural.
Diferentemente de seus pais, os hippies se recusavam a conformar-
se às rígidas convenções sociais impostas ao “homem organização”
pelos militares, universidades, corporações e mesmo partidos po-
líticos de esquerda. Ao contrário, eles declaravam abertamente sua
rejeição ao mundo careta pelas roupas casuais, promiscuidade se-
xual, música alta e drogas recreativas7.
Os hippies radicais eram liberais no sentido social da palavra.
Eles defendiam ideais progressistas, universais e racionais, como a
democracia, tolerância, auto satisfação e justiça social. Encorajados
por mais de vinte anos de crescimento econômico, eles acreditavam
que a história estava a seu lado. Nos romances de ficção científica,

6 RUBIN, Jerry. An Emergency Letter to my Brothers and Sisters in the


Movement. In: STANSILL, Peter, MAIROWITZ, David Zane (org).
BAMN: Outlaw Manifestos and Ephemera 1965-70. London:
Penguin, p. 244, 1971.
7 Sobre o papel chave desempenhado pela cultura popular na identidade
da Nova Esquerda americana, ver KATSIAFICAS, George. The
Imagination of the New Left: a global analysis of 1968. Boston: South
End Press, 1987; e REICH, Charles. The Greening America. New
York: Random House, 1970. Para uma descrição da vida dos
trabalhadores de escritório nos anos 50 na América, ver WHYTE,
William. The Organization Man. New York: Simon & Schuster, 1956

14
eles sonhavam com a “ecotopia”: uma Califórnia futurista onde car-
ros haviam desaparecido, a produção industrial era ecologicamente
viável, as relações entre os sexos eram igualitárias e o cotidiano era
vivido em grupos comunitários8. Para alguns hippies, esta visão só
poderia se realizar pela rejeição do progresso científico como um
falso Deus e pelo retorno à natureza. Outros, em contraste, acredita-
vam que o progresso tecnológico inevitavelmente tornaria seus prin-
cípios libertários em fatos sociais. Mais importante, influenciados
pelas teorias de Marshall McLuhan, estes tecnófilos pensavam que a
convergência da mídia, da computação e das telecomunicações cria-
ria inevitavelmente a ágora eletrônica – um lugar virtual onde todos
poderiam expressar sua opinião sem medo de censura9. Apesar de
ser um professor de inglês de meia-idade, McLuhan predicava a
mensagem radical de que a força do grande capital e do governo hi-
pertrofiado seria logo derrubada pelos efeitos intrinsecamente refor-
çadores do indivíduo das novas tecnologias.
“Mídia eletrônica (…) abolir a dimensão
espacial (…) Pela eletricidade, nós retornamos
às relações cara-a-cara em todos os lugares, na
mesma escala das menores aldeias. É uma
relação profunda, e sem a delegação de funções
ou poderes (…) O diálogo supera a palestra10.”

8 No romance best-seller da metade dos anos 70, a metade norte da


costa oeste separa-se do resto dos EUA, para formar uma utopia
hippie. Ver CALLENBACH, Ernest. Ecotopia. New York: Bantam,
1975. Esta idealização da vida comunitária californiana pode ser
encontrada também em BRUNNER, John. The Shockwave Rider.
London: Methuen, 1975; e mesmo em trabalhos posteriores, como em
ROBINSON, Kim Stanley. Pacific Edge. London: Grafton, 1990.
9 Para uma análise das tentativas de criação da democracia direta através
da mídia, ver BARBROOK, Richard. Media Freedom: the contradictions
of communications in the age of modernity. London: Pluto, 1995.
10 MCLUHAN, Marshall. Understanding Media. London: Routledge
& Kegan Paul, p. 255-6, 1964. Ver também MCLUHAN,
Marshall, FIORE, Quentin. The Medium is the Massage. London:
Penguin, 1967; e STERN, Gerald Emanuel (org). McLuhan: Hot &
Coll. London: Penguin, 1968

15
Encorajados pelas predições de McLuhan, os radicais da
costa oeste se envolveram no desenvolvimento de novas tecnologi-
as da informação para a imprensa alternativa, rádios comunitárias,
clubes de computadores caseiros e colecionadores de vídeo. Estes
ativistas da mídia comunitária acreditavam estar na linha de frente
da luta pela construção de uma nova América. A criação da ágora
eletrônica era o primeiro passo no sentido de implementar a demo-
cracia direta em todas as instituições sociais 11. A batalha podia ser
dura, mas a “ecotopia” estava quase palpável.

O Surgimento da “Classe Virtual”

Quem poderia prever que, menos de 30 anos depois da bata-


lha de People's Park, caretas e hippies criariam juntos a Ideologia
Californiana? Quem pensaria que uma mistura tão contraditória de
determinismo tecnológico e individualismo libertário se tornaria a
ortodoxia híbrida da era da informação? E quem suspeitaria que
enquanto a tecnologia e a liberdade eram adoradas mais e mais, fi-
caria menos e menos possível dizer qualquer coisa sensata a respei-
to da sociedade em que eram aplicadas?
A Ideologia Californiana retira sua popularidade da própria
ambiguidade de seus preceitos. Nas últimas décadas, o trabalho
desbravador dos ativistas da mídia comunitária foi grandemente re-
cuperado pelas indústrias de alta tecnologia e mídia. Apesar de as
companhias deste setor poderem mecanizar e subcontratar muito de
suas necessidades de mão de obra, elas continuam dependentes de
pessoas chave que possam pesquisar e criar produtos originais, de
softwares e chips de computador a livros e programas de televisão.
Junto com alguns empreendedores de alta tecnologia, estes traba-
lhadores especializados formam a assim chamada “classe virtual”:
“… a tecno-intelligentsia dos cientistas da cognição, engenheiros,
11 DOWNING, John. Radical Media. Boston: South End Press, 1984.

16
cientistas da computação, criadores de jogos eletrônicos e todos os
outros especialistas em comunicação…”12. Incapazes de submetê-los
à disciplina da linha de produção, ou substituí-los por máquinas, os
gerentes organizaram estes trabalhadores intelectuais através de con-
tratos temporários. Como a “aristocracia trabalhista” do último sécu-
lo, o pessoal de alto escalão na mídia, computação e indústrias de te-
lecomunicações experimenta as recompensas e inseguranças do mer-
cado. Por um lado, estes artesãos hi-tech não apenas tendem a ser
bem pagos, mas também possuem considerável autonomia sobre seu
ritmo de trabalho e local de emprego. Como resultado, a fronteira
cultural entre o hippie e o “homem organização” tornou-se bastante
vaga. Porém, por outro lado, estes trabalhadores estão presos pelos
termos de seus contratos e não têm garantia de emprego continuado.
Sem o tempo livre dos hippies, o trabalho em si tornou-se o principal
caminho de autossatisfação para boa parte da “classe virtual”13.

12 KROKER, Arthur, WEINSTEIN, Michael A. Data Trash: the theory of the


virtual class. Montreal: New World Perspectives, p. 15, 1994. Esta análise
segue aquela dos futurologistas que pensaram que os "trabalhadores do
conhecimento" eram embriões de uma nova classe dominante: BELL,
Daniel. The Coming of the Post-Industrial Society. New York: Basic
Books, 1973. E economistas acreditam que "analistas simbólicos" se
tornarão a parte dominante da força de trabalho sob um capitalismo
globalizado: REICH, Robert. The Work of Nations: a blueprint for the
future. London: Simon & Schuster, 1991. Em contraste, nos anos 60,
alguns teóricos da Nova Esquerda acreditavam que estes trabalhadores
técnico-científicos estavam liderando a luta pela libertação social, através
de ocupações de fábricas e demandas por autogestão: MALLET, Serge.
The New Working Class. Nottingham: Spokesman Books, 1975.
13 Para uma descrição do contrato de trabalho no Vale do Silício, ver HAYES,
Dennis. Behind the Silicon Curtain. London: Free Association Books,
1989. Para um tratamento ficcional do mesmo assunto, ver COUPLAND,
Douglas. Microserfs. London: Flamingo, 1995. Para mais exames teóricos
da organização do trabalho pós-fordista, ver LIPIETZ, Alain. L'Audace ou
l'Enlisement. Paris: Éditions La Découverte, 1984; LIPIETZ, Alain.
Mirages and Miracles. London: Verso, 1987; CORIAT, Benjamin. L'Atelier
et le Robot. Paris: Christian Bourgois Éditeur, 1990; e NEGRI, Toni.
Revolution Retrieved: selected writings on Marx, Keynes, capitalist crisis
& new social subjects 1967-83. London: Red Notes, 1988.

17
A Ideologia Californiana oferece uma maneira de se enten-
der a realidade vivida por estes artesãos da alta tecnologia. Por um
lado, estes trabalhadores essenciais são parte privilegiada da mão
de obra. Por outro, são herdeiros das ideias radicais dos ativistas da
mídia comunitária. A Ideologia Californiana, assim, simultanea-
mente reflete as disciplinas da economia de mercado e as liberda-
des do artesanato hippie. Esse híbrido bizarro só é possível através
de uma crença quase universal no determinismo tecnológico. Já
desde os anos 60, os liberais – no sentido social da palavra – espe-
ravam que as novas tecnologias da informação fossem realizar seus
ideais. Respondendo ao desafio da Nova Esquerda, a Nova Direita
ressuscitou uma forma antiga de liberalismo: liberalismo econômi-
co14. Em lugar da liberdade coletiva visada pelos radicais hippies,
eles defendiam a liberdade dos indivíduos no mercado. Mesmo es-
tes conservadores não conseguiam resistir ao fascínio das novas
tecnologias da informação. Nos anos 60, as predições de McLu-
han eram reinterpretadas como publicidade das novas formas de
mídia, computação e telecomunicações sendo desenvolvidas
pelo setor privado. Dos anos 70 em diante, Toffler, De Sola Pool
e outros gurus tentaram provar que o advento da hipermídia para-
doxalmente envolveria um retorno ao liberalismo do passado 15.
Esta retro utopia ecoou as predições de Asimov, Heinlein e outros
14 Há uma considerável confusão política e semântica quanto ao
significado de “liberalismo”, nos dois lados do Atlântico. Os
americanos, por exemplo, utilizam liberalismo para descrever
quaisquer políticas que por acaso sejam apoiadas pelo – supostamente
à esquerda do centro – Partido Democrata. Entretanto, como Lipset
demonstra, este sentido estreito da palavra esconde a quase universal
aceitação do liberalismo em seu sentido clássico nos EUA. Como ele
diz: “estes valores [liberais] eram evidentes no século XX pelo fato
de que (…) os EUA não apenas não tinham um partido socialista
viável, mas também nunca desenvolveram um partido Conservador
ou Tory no estilo Bretão ou Europeu”. Ver LIPSET, Seymor Martin.
American Exceptionalism: a double-edged sword. New York: W. W.
Norton, p. 31-2, 1996. A convergência da Nova Esquerda e da Nova
Direita em torno da Ideologia Californiana, portanto, é um exemplo
específico do consenso mais amplo em torno do liberalismo anti-
estatista enquanto discurso político nos EUA.

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escritores de ficção científica chauvinistas, cujos mundos futuros sem-
pre eram cheios de mercadores espaciais, vendedores vaselina, cientis-
tas geniais, capitães piratas e outros individualistas rudes16. O caminho
do progresso tecnológico não levava sempre à “ecotopia” - ele pode-
ria, ao contrário, levar de volta à América dos Pais Fundadores.

15 A respeito do sucesso de McLuhan no circuito corporativo festivo,


ver WOLFE, Tom. E se ele estiver certo?. In: The Pumo House Gang.
Londres: Bantam Books, 1968. Sobre o uso de suas idéias por
pensadores conservadores, ver BRZEZINSKI, Zbigniew. Between
Two Ages: America's Role in the Technetronic Era. New York: Viking
Press, 1970; BELL, Daniel. The Coming of the Post-Industrial
Society. New York: Basic Books, 1973; TOFFLER, Alvin. The Third
Wave. London: Pan, 1980; DE SOLA POOL, Ithiel. Technologies of
Freedom. Harvard: Belknap Press, 1983.
16 Machos heróicos são comuns nas histórias de ficção científica
clássicas. Por exemplo D. D. Harriman, em HEINLEIN, Robert. The
Man Who sold the Moon. New York: Signet, 1950; ou os personagens
principais em ASIMOV, Isaac. The Foundation Trilogy. New York:
Gnome Press, 1953; ASIMOV, Isaac. I, Robot. London: Panther,
1968; ASIMOV, Isaac. The Rest of the Robots. London: Panther,
1968. Hagbard Celine – uma versão mais psicodélica deste arquétipo
masculino – é o personagem central em SHEA, Robert, WILSON,
Robert Anton. The Illuminati Trilogy. New York: Dell, 1975. Na
cronologia da “história futura” na folha de rosto do romance de
Heinlein, é predito que, depois de um período de crise social causado
por um rápido avanço tecnológico, a estabilidade seria restaurada nos
anos 1980-90 através de “…uma abertura de novas fronteiras e um
retorno à economia do século XIX”.

19
Ágora Eletrônica ou Mercado Eletrônico?

A ambiguidade da Ideologia Californiana é mais pronunciada


em suas visões contraditórias do futuro digital. O desenvolvimento
da hipermídia é um componente chave do próximo estágio do capi-
talismo. Como Zuboff demonstra, a introdução das tecnologias de
mídia, computação e telecomunicações nas fábricas e nos escritórios
é a culminação de um longo processo de separação da mão de obra
do envolvimento direto na produção17. Nem que seja por razões
competitivas, todas as grandes economias industriais serão forçadas,
mais cedo ou mais tarde, a conectar suas populações para obter os
ganhos de produtividade do trabalho digital. O que é desconhecido é
o impacto social e cultural de permitir às pessoas trocar quantidades
quase ilimitadas de informação em uma escala global. Acima de
tudo, o advento da hipermídia vai realizar as utopias da Nova Es-
querda ou da Nova Direita? Como uma fé híbrida, a Ideologia Cali-
forniana alegremente responde a esta charada acreditando nas duas
visões ao mesmo tempo – e não criticando nenhuma delas.
Por um lado, a pureza anticorporativa da Nova Esquerda foi
preservada pelos defensores da “comunidade virtual”. De acordo
com seu guru, Howard Rheingold, os valores dos baby boomers da
contracultura estão moldando o desenvolvimento das novas tecno-
logias. Como consequência, os ativistas comunitários serão capazes
de usar a hipermídia para substituir o capitalismo corporativo e o go-
verno hipertrofiado por uma economia de dádivas hi tech. Os siste-
mas de grupos de notícias, conferências em tempo real via Rede e
espaços de bate-papo já se baseiam no intercâmbio voluntário de
informação e conhecimento entre seus participantes. Na visão de
Rheingold, os membros da “classe virtual” ainda estão na primeira
17 ZUBOFF, Shoshana. In the Age of the Smart Machine: the future of
work and power. New York: Heinemann, 1988. É claro, esta análise é
derivada de MARX, Karl. Grundrisse. London: Penguin, 1973; e
RESULTS OF the Immediate Process of Production. In: DRAGSTEDT,
Albert (org). Value Studies by Marx. London: New Park, 1976.

20
linha da luta pela libertação social. Apesar do arrebatado envolvi-
mento político e comercial na construção da “superestrada da in-
formação”, a ágora eletrônica vai inevitavelmente triunfar sobre
seus inimigos corporativos e burocráticos18.
Por outro lado, outros ideólogos da costa oeste abraçaram a ide-
ologia laissez-faire de seu ex-inimigo conservador. Por exemplo, a re-
vista Wired – a bíblia mensal da “classe virtual” - reproduziu acritica-
mente os pontos de vista de Newt Gingrich, o líderVer a efusiva entre-
vista com os Tofflers em SCHWARTZ, Peter. Shock Wave (Anti)
Warrior. Wired, Nov., 1993; e, sobre a ambigüidade característica da
revista a respeito do programa político reacionário do Presidente da
Câmara, ver a entrevista adequadamente titulada com Newt Gingrich
em DYSON, Esther. Friend and Foe. Wired, Ago., 1995. republicano
de extrema-direita da Câmara dos Deputados, e dos Tofflers, que são
seus conselheiros íntimos19. Ignorando suas políticas de cortes nos
gastos sociais, a revista fica hipnotizada pelo seu entusiasmo quanto
às possibilidades libertárias oferecidas pelas novas tecnologias da in-
formação. No entanto, apesar de eles emprestarem o determinismo
tecnológico de McLuhan, Gingrich e os Tofflers não são defensores da
ágora eletrônica. Ao contrário, eles afirmam que a convergência da
mídia, computação e telecomunicações vai produzir um mercado ele-
trônico: “no ciberespaço (…), mercado após mercado está sendo
transformado pelo progresso tecnológico de um ‘monopólio natural’
para um em que a competição é a regra”20.

18 Ver RHEINGOLD, Howard. Virtual Communities. London: Secker &


Warburg, 1994; e suas páginas na Internet. (http://www.rheingold.com)
19 Ver a efusiva entrevista com os Tofflers em SCHWARTZ, Peter. Shock
Wave (Anti) Warrior. Wired, Nov., 1993; e, sobre a ambigüidade
característica da revista a respeito do programa político reacionário do
Presidente da Câmara, ver a entrevista adequadamente titulada com Newt
Gingrich em DYSON, Esther. Friend and Foe. Wired, Ago., 1995.
20 THE PROGRESS and Freedom Foundation. Cyberspace and the
American Dream: a magna carta for the knowledge age. p.5.

21
Nesta versão da Ideologia Californiana, é prometida a cada
membro da “classe virtual” a oportunidade de se tornar um em-
preendedor hi-tech de sucesso. As tecnologias da informação,
continua o argumento, dão poder ao indivíduo, aumentam a liber-
dade pessoal e radicalmente reduzem a força do estado-nação. As
estruturas de poder social, político e legal existentes irão murchar,
para serem substituídas por interações irrestritas entre indivíduos
autônomos e seus softwares. Estes McLuhaníacos reestilizados
argumentam vigorosamente que o governo deveria sair da frente
de empreendedores engenhosos, as únicas pessoas ligadas e cora-
josas o suficiente para aceitar riscos. Em vez de regulamentos
contraproducentes, engenheiros visionários estão inventando as
ferramentas necessárias para a criação de um “livre mercado” no
ciberespaço, tais como codificação, dinheiro digital e procedi-
mentos de verificação. Com certeza, tentativas de interferir junto
às propriedades emergentes destas forças tecnológicas e econômi-
cas, particularmente pelo governo, mal repercutem nos que são
tolos o suficiente para desafiar as leis primitivas da natureza. De
acordo com o editor executivo da Wired, a “mão invisível” do
mercado e as forças cegas da evolução darwinista são na verdade
uma e a mesma coisa21. Como nos romances de ficção científica
de Heinlein e Asimov, o caminho rumo ao futuro parece levar de
volta ao passado. A era da informação do século XXI será a reali-
zação dos ideais liberais oitocentistas de Thomas Jefferson: "…a
(…) criação (…) de uma nova civilização, fundamentada nas ver-
dades eternas do Ideal Americano" 22.
21 Ver KELLY, Kevin. Out of Control: the new biology of machines.
London: Fourth State, 1994. Para uma crítica do livro, ver
BARBROOK, Richard. The Pinnochio Theory.
22 PROGRESS AND Freedom Foundation. Cyberspace and the
American Dream: a magna carta for the knowledge age. p.13. Toffler
e seus amigos também proclamam orgulhosamente que: “A América
(...) continua sendo a terra da liberdade individual, e esta liberdade
claramente se estende ao ciberespaço”, na página 6 do mesmo
Cyberspace and the American Dream. Ver também KAPOR, Mitch.
Where is the Digital Highway Really Heading?. Wired, jul/ago, 1993.

22
O Mito do “Livre Mercado”

Seguindo-se à vitória do partido de Gingrich nas eleições


legislativas de 1994, esta versão direitista da Ideologia Californi-
ana está agora em ascendência. Porém, os dogmas sagrados do li-
beralismo econômico são contraditos pela verdadeira história da
hipermídia. Por exemplo, as tecnologias icônicas do computador
e da Rede só puderam ser inventadas com a ajuda de subsídios
massivos do estado e o envolvimento entusiástico de amadores. A
iniciativa privada desempenhou um papel importante, mas apenas
como parte de uma economia mista.
O primeiro computador – o Dispositivo Diferencial – foi
projetado e construído por companhias privadas, mas seu desenvol-
vimento só se tornou possível graças a uma doação de £17470 do
governo britânico, o que era uma pequena fortuna em 1834 23. De
Colossus a EDVAC, das simulações de voo à realidade virtual, o
desenvolvimento da computação dependeu em momentos chave de
esmolas para a pesquisa pública ou de contratos gordos com agên-
cias públicas. A corporação IBM só construiu o primeiro computa-
dor programável digital depois de receber um pedido para fazê-lo
do Departamento de Defesa dos EUA, durante a Guerra da Co-
réia. Desde então, o desenvolvimento de gerações sucessivas de
computadores foi direta ou indiretamente subsidiado pelo orça-
mento de defesa americano24. Assim como uma ajuda do estado, a
evolução da computação também dependeu do envolvimento da

23 Ver SCHAFFER, Simon. Babbage's Intelligence: calculating engines


and the factory system. (http://cci.wmin.ac.uk/schaffer/schaffer01.html)
24 Para um relato de como a falta de intervenção estatal significou a
perda da oportunidade de construir o primeiro computador
eletrônico do mundo para a Alemanha nazista, ver PALFREMAN,
Jonathan; SWADE, Doron. The Dream Machine. London: BBC, p.
32-6, 1991. Em 1941 o comando alemão recusou-se a continuar o
financiamento para Konrad Zuze, pioneiro no uso do código
binário, programas arquivados e portões lógicos.

23
cultura faça-você-mesmo. Aliás, o computador pessoal foi inventa-
do por técnicos amadores que queriam construir suas próprias
máquinas baratas. A existência de uma “economia de dádivas” en-
tre os amadores era uma precondição necessária para o subsequen-
te sucesso dos produtos feitos pela Apple e Microsoft. Além do
mais, programas de distribuição gratuita continuam a desempenhar
um papel vital no avanço do design de softwares.
A história da Internet também contradiz os dogmas dos ideó-
logos do “livre mercado”. Nos primeiros vinte anos de sua existên-
cia, o desenvolvimento da Rede foi quase por completo dependente
do tão injuriado governo federal americano. Seja via militares ame-
ricanos ou através das universidades, grandes somas de dólares dos
contribuintes foram usados na construção da infraestrutura da Rede
e para subsidiar os custos pelo uso dos serviços. Ao mesmo tempo,
muitos dos principais programas e aplicativos da Rede foram in-
ventados por amadores ou por profissionais trabalhando em seu
tempo livre. Aliás, o programa MUDii que permite conferências via
Rede em tempo real foi inventado por um grupo de estudantes que
queriam jogar RPGs por uma rede de computadores25.
Uma das coisas mais esquisitas a respeito da corrente de di-
reita da Ideologia Californiana é que a costa oeste mesma é uma
criação da economia mista. Dólares governamentais foram usados
para construir sistemas de irrigação, rodovias, escolas, universida-
des e outros projetos de infraestrutura que fazem a boa vida possí-
vel na Califórnia. No topo destes subsídios públicos, a indústria de
alta tecnologia da costa oeste vem se refestelando no maior barril
de banha da história por décadas. O governo dos EUA derramou
milhões de dólares de impostos na compra de aviões, mísseis,
equipamentos eletrônicos e bombas nucleares de companhias
californianas. Para aqueles que não estavam cegos pelos dog-
mas do “livre mercado”, era óbvio que os americanos sempre

25 RHEINGOLD, Howard. Virtual Communities. London: Secker &


Warburg, 1994.

24
tiveram planejamento estatal: eles apenas o chamam de orça-
mento de defesa 26. Ao mesmo tempo, elementos chave do estilo de
vida da costa oeste vêm de sua longa tradição de boemia cultural.
Apesar de eles terem sido posteriormente comercializados, a mídia
comunitária, a “nova era”, a espiritualidade, o surfe, a comida saudá-
vel, as drogas recreativas, música pop e muitas outras formas de he-
terodoxia cultural emergiram da cena decididamente não-comercial
estabelecida em volta dos campi universitários, comunidades de ar-
tistas e comunas rurais. Sem a sua cultura faça-você-mesmo, os mi-
tos da Califórnia não teriam a ressonância global que têm hoje27.
Todo este financiamento público e envolvimento da comuni-
dade tiveram um efeito enormemente benéfico – apesar de irreco-
nhecido e invalidado – no desenvolvimento do Vale do Silício e de
outras indústrias de alta tecnologia. Empreendedores capitalistas
frequentemente têm um senso inchado de sua própria capacidade
de desenvolver novas ideias e dão pouco reconhecimento às contri-
buições feitas pelo estado, à sua própria mão de obra ou à comuni-
dade em geral. Todo o progresso tecnológico é cumulativo – de-
pende dos resultados de um processo histórico coletivo e deve ser
encarado, ao menos em parte, como uma conquista coletiva. Então,
como em todos os outros países industrializados, os empreendedores

26 Como o Secretário do Trabalho de Clinton diz: “Lembrem-se de que


durante o pós-guerra o Pentágono silenciosamente esteve encarregado
de ajudar as corporações americanas a deslanchar com tecnologias
como motores a jato, turbinas, transistores, circuitos integrados,
novos materiais, lasers e fibras óticas (…) O Pentágono e os 600
laboratórios nacionais que trabalham com ele e com o Departamento
de Energia são a coisa mais próxima que a América tem do famoso
Ministério do Comércio Internacional e Indústria do Japão”. Ver
REICH, Robert. The Work of Nations: a blueprint for the future.
London: Simon & Schuster, p.59, 1991
27 Para um relato de como estas inovações culturais sugiram dos
primórdios da cena do ácido, ver WOLFE, Tom. The Electric Kool-
Aid Acid Test. New York: Bantam Books, 1968. É interessante que
um dos motoristas do famoso ônibus era Stewart Brand, hoje um dos
principais colaboradores da Wired.

25
americanos inevitavelmente apoiaram-se na intervenção estatal e
nas iniciativas faça-você-mesmo para nutrir e desenvolver suas in-
dústrias. Quando companhias japonesas ameaçaram controlar o
mercado americano de microchips, os libertários capitalistas da
computação da Califórnia não tiveram escrúpulos ideológicos
quanto a juntar-se a um cartel custeado pelo estado, organizado
para combater os invasores do leste. Até que os programas da Rede
que permitiam à comunidade a participação no ciberespaço pudessem
ser incluídos, Bill Gates acreditou que a Microsoft não tinha outra op-
ção, senão atrasar o lançamento do Windows 9528. Como em outros
setores da economia moderna, a questão com que a indústria emergen-
te da hipermídia se depara não é se ela vai ser ou não organizada como
uma economia mista, mas que tipo de economia mista será.

Liberdade é Escravidão

Se seus preceitos sagrados são refutadas pela história profa-


na, por que os mitos do “livre mercado” influenciaram tanto os
proponentes da Ideologia Californiana? Vivendo em uma cultura
contratual, os artesãos hi-tech levam uma existência esquizofrêni-
ca. Por um lado, eles não podem desafiar a primazia do mercado
sobre suas vidas. Por outro, eles se ressentem das tentativas, por
parte daqueles investidos de autoridade, de molestar sua autonomia
individual. Misturando a Nova Esquerda e a Nova Direita, a Ideo-
logia Californiana fornece uma resolução mística das atitudes con-
traditórias sustentadas pelos membros da “classe virtual”. Mais de-
cisivamente, o anti-estatismo fornece os meios para reconciliar

28 HAYES, Dennis. Behind the Silicon Curtain. Londres: Free Association


Books, p. 21-2, 1989. Ele aponta que a indústria de computadores
americana foi encorajada pelo Pentágono a formar cartéis contra a
competição estrangeira. Gates admite que apenas recentemente ele
percebeu a “massiva mudança estrutural” sendo causada pela Rede. Ver
THE BILL GATES Column. The Guardian, 20 jul. 1995.

26
ideias radicais e reacionárias sobre o progresso tecnológico.
Enquanto a Nova Esquerda condena o governo por financiar o
complexo industrial-militar, a Nova Direita ataca o estado por in-
terferir na disseminação espontânea das novas tecnologias através
da competição mercadológica. Apesar do papel central desempe-
nhado pela intervenção pública no desenvolvimento da hipermídia,
os ideólogos californianos predicam um sermão anti-estatista de li-
bertarianismo hi-tech: uma gororoba bizarra de anarquismo hippie
e liberalismo econômico engrossada com montes de determinismo
tecnológico. Em vez de compreender o capitalismo realmente exis-
tente, os gurus da Nova Esquerda e da Nova Direita preferem mui-
to mais defender versões rivais de uma “democracia jeffersoniana”
digital. Por sinal, Howard Rheingold, da Nova Esquerda, acredita
que a ágora eletrônica vai permitir aos indivíduos exercitarem o
tipo de liberdade midiática defendido pelos Pais Fundadores. Simi-
larmente, a Nova Direita afirma que a remoção de todos os freios
regulatórios da iniciativa privada vai criar uma liberdade midiática
à altura de uma “democracia jeffersoniana” 29.
O triunfo deste retrofuturismo é o resultado de uma falha na
renovação dos EUA durante o final dos anos 60 e início dos 70. Se-
guindo-se ao confronto em People's Park, a luta entre o esta-
blishment e a contracultura norte-americana entrou em uma espiral
de confrontação violenta. Enquanto os vietnamitas – ao custo de
um enorme sofrimento humano – foram capazes de expelir os inva-
sores americanos de seu país, os hippies e seus aliados no movi-
mento de direitos civis dos negros acabaram sendo esmagados por
uma combinação de repressão estatal e cooptação cultural.

29 Ver as páginas de Howard Rheingold na Rede; e KAPOR, Mitch.


Where is the Digital Highway Really Heading?. Wired, Jul/ago, 1993.
Apesar dos instintos libertários dos dois escritores, sua paixão pela
era dos Pais Fundadores é compartilhada pelas milícias neo-fascistas
e movimentos patrióticos. Ver BERLET, Chip. Armed Militias, Right
Wing Populism & Scapegoating.

27
A Ideologia Californiana sintetiza perfeitamente as conse-
quências desta derrota para os membros da “classe virtual”. Apesar
de eles desfrutarem das liberdades culturais conquistadas pelos hip-
pies, a maior parte deles não está mais diretamente envolvida na
luta para construir a “ecotopia”. Em vez de rebelar-se abertamente
contra o sistema, estes artesãos hi-tech agora aceitam que a liberda-
de individual somente pode ser atingida trabalhando-se dentro das
restrições do progresso tecnológico e do “livre mercado”. Em mui-
tos romances ciberpunks, este libertarianismo associal está personi-
ficado na figura central do hacker, que é um indivíduo solitário lu-
tando pela sobrevivência dentro do mundo virtual da informação 30.
A corrente mais à direita dos ideólogos californianos é a que
sai ganhando com esta aceitação acrítica do ideal liberal do indiví-
duo autossuficiente. No folclore americano, a nação foi construída
em cima da selvageria, por indivíduos errantes – os caçadores,
cowboys, pastores e colonos da fronteira. A revolução americana
mesma foi levada a cabo para proteger as liberdades e propriedades
de indivíduos contra leis opressivas e impostos injustos cobrados
por um monarca estrangeiro. Para a Nova Esquerda e a Nova Direi-
ta, os primeiros anos da república americana fornecem um modelo
potente para suas versões rivais da liberdade individual. Porém,
existe uma contradição profunda no centro deste sonho primordial
americano: neste período, os indivíduos só prosperavam através do
sofrimento de outros. Nada esclarece melhor isto do que a vida de
Thomas Jefferson – o ícone principal da Ideologia Californiana.
Thomas Jefferson foi o homem que escreveu o inspirador
chamado para a democracia e a liberdade na Declaração de Inde-
pendência americana e – ao mesmo tempo – tinha como escravos

30 Ver os heróis hackers em GIBSON, William. Neuromancer. London:


Grafton, 1984; GIBSON, William. Count Zero. London: Grafton, 1986;
e GIBSON, William. Mona Lisa Overdrive. London: Grafton, 1989; ou
em STERLING, Bruce (org). Mirrorshades. London: Paladin, 1988.
Um protótipo desta variedade de anti-herói é Deckard, o caçador de
replicantes existencial em Blade Runner, de Ridley Scott.

28
cerca de 200 seres humanos. Como político, ele defendeu o direito
de fazendeiros e artesãos americanos determinarem seus próprios
destinos sem se sujeitarem às restrições da Europa feudal. Como
outros liberais do período, ele pensava que as liberdades políticas
somente poderiam ser protegidas de governos autoritários pela pos-
se universal da propriedade individual privada. Os direitos dos ci-
dadãos eram derivados deste direito natural fundamental. No senti-
do de encorajar a autossuficiência, ele propôs que cada americano
deveria receber ao menos 50 acres de terra para garantir sua inde-
pendência econômica. Porém, enquanto idealizava os pequenos fa-
zendeiros e homens de negócios da fronteira, Jefferson era na ver-
dade um latifundiário da Virgínia vivendo do trabalho de seus es-
cravos. Apesar de a “peculiar instituição” sulista incomodar sua
consciência, ele ainda acreditava que os direitos naturais do ho-
mem incluíam o direito de possuir seres humanos como proprieda-
de privada. Na democracia jeffersoniana, a liberdade dos brancos
se assentava sobre a escravidão dos negros31.
31 De acordo com Miller, Thomas Jefferson acreditava que os negros não
podiam ser membros do contrato social lockeano que ligava os cidadãos da
república americana. “Os direitos do homem (…) enquanto teórica e
idealmente direitos de nascença de cada ser humano, eram aplicados na
prática nos Estados Unidos apenas aos homens brancos: os escravos
negros eram excluídos da consideração porque, mesmo admitidos como
seres humanos, eram também propriedade, e onde os direitos do homem
conflitavam com os direitos da propriedade, a propriedade tinha
precedência”. Ver MILLER, John. The Wolf by the Ears: Thomas
Jefferson and Slavery. New York: Free Press, p. 13, 1977. A oposição de
Jefferson à escravidão era, na melhor das hipóteses, retórica. Em uma carta
de 22 de abril de 1820, ele pouco ingenuamente sugeriu que a melhor
maneira de encorajar a abolição da escravatura seria legalizar a
propriedade privada de seres humanos em todos os estados da União e nos
territórios da fronteira! Ele afirmava que "… sua difusão por uma
superfície maior os faria individualmente mais felizes, e
proporcionalmente facilitaria que a sua emancipação se concretizasse,
dividindo o fardo sobre um número maior de coadjuvantes [i.e.,
proprietários de escravos]". Ver PETERSON, Merril (org). The Portable
Thomas Jefferson. New York: Viking Press, p. 568, 1975. Para uma
descrição da vida em seu latifúndio, ver também WILSTACH, paul.
Jefferson and Monticello. London: William Heinemann, 1925.

29
Em Frente rumo ao Passado
Mesmo com a emancipação dos escravos e as vitórias do movi-
mento de direitos civis, a segregação racial ainda está presente no centro
da política americana – especialmente na costa oeste. Nas eleições de
1994 para o governo da Califórnia, Pete Wilson, o candidato republicano,
venceu por meio de uma perversa campanha anti-imigrantes. Nacional-
mente, o triunfo do Partido Republicano de Gingrich nas eleições legisla-
tivas se baseou na mobilização dos “homens brancos revoltados” contra
uma suposta ameaça dos negros achacadores do sistema de bem-estar so-
cial, imigrantes mexicanos e outras minorias salientes. Estes políticos cei-
faram os benefícios eleitorais da polarização crescente entre a abundante
suburbanidade branca – que na maior parte vota – e os habitantes mais
pobres das zonas centrais, em geral não-brancos – que em sua maioria
não votam32. Apesar de eles guardarem alguns dos ideais hippies, muitos
ideólogos californianos descobriram ser impossível tomar uma posição
clara contra a política divisiva dos republicanos. Isto porque as indústrias
de mídia e alta tecnologia são um elemento chave da coalizão eleitoral da
Nova Direita. Em parte, tanto os capitalistas quanto os seus trabalhadores
bem pagos temem que o conhecimento aberto do financiamento público
de suas companhias justificaria aumentos de impostos, para custear gas-
tos desesperadamente necessários em saúde, proteção ambiental, habita-
ção, transporte público e educação. Mais importante, muitos membros da
“classe virtual” querem ser seduzidos pela retórica libertária e entusiasmo
tecnológico da Nova Direita. Trabalhando para companhias de mídia e
alta tecnologia, eles gostariam de acreditar que o mercado eletrônico
pode de alguma maneira resolver os complicados problemas sociais e
econômicos americanos sem nenhum sacrifício de sua parte. Em meio às
contradições da Ideologia Californiana, Gingrich é – como um colabora-
dor da Wired colocou – ao mesmo tempo seu “amigo e inimigo”33.

32 Sobre a virada à Direita da Califórnia, ver WALKER, Richard. California


rages Against the Dying of the Light. New Left Review, Jan/fev de 1995.
33 DYSON, Esther. Friend and Foe. Wired, Ago., 1995. Esther Dyson colaborou
com os Tofflers na elaboração de Cyberspace and the American Dream, da
The Peace and Progress Foundation, um manifesto futurista feito para
angariar votos para Gingrich entre os membros da “classe virtual”.

30
Nos EUA, uma grande distribuição da riqueza é urgentemen-
te necessária para o bem-estar econômico de longo prazo da maio-
ria da população. Entretanto, isto vai contra os interesses de curto
prazo dos brancos ricos, incluindo muitos membros da “classe vir-
tual”. Em vez de compartilharem com seus vizinhos pobres negros
ou hispânicos, os yuppies se retiram para seus afluentes subúrbios,
protegidos por guardas armados e seguros com seus serviços priva-
dos de previdência social34. Os desvalidos só participam da era da
informação fornecendo mão-de-obra barata e não sindicalizada
para as insalubres fábricas das manufaturas de chips do Vale do Si-
lício35. Mesmo a construção do ciberespaço pode tornar um fator
essencial da fragmentação da sociedade americana em classes anta-
gonistas racialmente determinadas. Já isolados por companhias te-
lefônicas sedentas de lucro, os habitantes das áreas urbanas centrais
pobres são agora ameaçados de exclusão dos novos serviços on-
line pela falta de dinheiro36. Em contraste, membros da “classe vir-
tual” e outros profissionais podem brincar de ser ciberpunks dentro
da hiperrealidade sem ter de encontrar algum de seus vizinhos em-
pobrecidos. Em paralelo às sempre maiores divisões sociais, outro
apartheid está sendo criado entre os “ricos de informação” e os “po-
bres de informação”. Nesta democracia jeffersoniana de alta tecnolo-
gia, a relação entre senhores e escravos resiste sob uma nova forma.

34 Sobre o surgimento dos subúrbios fortificados, ver DAVIS, Mike.


City of Quartz. Londres: Verso, 1990; e DAVIS, Mike. Urban
Control: the ecology of fear. New Jersey: Open Magazine, 1992.
Estes "subúrbios gradeados" fornecem inspiração para o cenário
alienado de muitas histórias de ficção científica ciberpunks, como em
STEPHENSON, Neal. Snow Crash. New York: Roc, 1992.
35 HAYES, Dennis. Behind the Silicon Curtain. London: Free
Association Books, 1989.
36 STUART, Reginald. Hi-Tech Redlining. Utne Reader, n. 68, Mar/abr, 1995.

31
Mestres Ciborgues e Escravos Robôs

O medo da “subclasse” rebelde agora corrompeu o mais fun-


damental dogma da Ideologia Californiana: sua crença no potencial
emancipador das novas tecnologias. Enquanto os proponentes da
ágora eletrônica e do mercado eletrônico prometem libertar os indi-
víduos das hierarquias do estado e monopólios privados, a polari-
zação social da sociedade americana está trazendo para diante uma
visão mais opressiva do futuro digital. As tecnologias da liberdade
estão se tornando os instrumentos da dominação.
Em sua propriedade em Monticello, Jefferson inventou mui-
tas bugigangas espertas para sua casa, como uma bandeja mecânica
para levar a comida da cozinha até a sala de jantar. Mediando o
contato com seus escravos através da tecnologia, este individualista
revolucionário poupou a si mesmo de encarar a realidade de sua
dependência do trabalho forçado de seus companheiros humanos 37.
No final do século XX, a tecnologia está sendo mais uma vez utili-
zada para reforçar a diferença entre os senhores e os escravos.
De acordo com alguns visionários, a busca pela perfeição da
mente, corpo e espírito vai inevitavelmente levar ao surgimento do
“pós-humano”: uma manifestação biotecnológica dos privilégios
sociais da “classe virtual”. Enquanto os hippies enxergavam o auto
desenvolvimento como parte da libertação social, os artesãos hi-
tech da Califórnia contemporânea são mais propensos a procurar
autossatisfação através da terapia, da espiritualidade, dos exercí-
cios ou outras perseguições narcisistas. Seu desejo de escapar para
dentro do subúrbio gradeado do hiper real é apenas um aspecto
desta profunda auto obsessão38. Estimulado por supostos avanços
em “Inteligência Artificial” e ciência médica, o culto Extropiano

37 WILSTACH, Paul. Jefferson and Monticello. London: William


Heinemann, 1925.
38 HAYES, Dennis. Behind the Silicon Curtain. London: Free
Association Books, 1989.

32
fantasia abandonar em conjunto o "wetware iii do estado humano
para se tornarem máquinas vivas39. Igual a Virek e os Tessier-
Ashpools, na literatura sprawliv de Gibson, eles acreditam que o
privilégio social vai mais cedo ou mais tarde dotá-los de imortali-
dade40. Em vez de predizer a emancipação da humanidade, esta for-
ma de determinismo tecnológico pode somente conjeturar um apro-
fundamento da segregação social.
Apesar destas fantasias, os brancos da Califórnia continuam
dependentes de seus colegas humanos de pele mais escura para tra-
balhar em suas fábricas, colher seus cereais, cuidar de suas crianças
e cultivar seus jardins. Após os tumultos de Los Angeles, eles cada
vez mais temem que esta “subclasse” vá um dia exigir sua liberta-
ção. Se escravos humanos não são totalmente confiáveis, então es-
cravos mecânicos terão de ser inventados. A busca pelo Santo Gra-
al da “Inteligência Artificial” revela este desejo pelo Golem – um
forte e leal escravo cuja pele tem a cor da terra e cujas entranhas
são feitas de areia. Como nas histórias de robôs de Asimov, os
tecno-utópicos imaginam ser possível obter mão-de-obra como a
escrava por meio de máquinas inanimadas 41. Porém, apesar de a
tecnologia poder armazenar ou amplificar o trabalho, ela não pode
nunca remover a necessidade de os humanos inventarem, construí-
rem e manterem estas máquinas em primeiro lugar. Trabalho escra-
vo não pode ser obtido sem escravizar alguém.
Por todo o mundo, a Ideologia Californiana foi aceita como
uma forma otimista e emancipadora de determinismo tecnológico. Po-
rém, esta fantasia utópica da costa oeste depende de sua cegueira fren-
te à – e dependência de – polarização social e racial da sociedade em
que nasceu. Apesar de sua retórica radical, a Ideologia Californiana é

39 Para uma exposição de seu retro-futurismo, ver a FAQ Extropiana. (A


página indicada está fora do ar.)
40 GIBSON, William. Neuromancer. London: Grafton, 1984; GIBSON,
William. Count Zero. London: Grafton, 1986.
41 ASIMOV, Isaac. I, Robot. London: Panther, 1968; ASIMOV, Isaac. The
Rest of the Robots. London: Panther, 1968.

33
totalmente pessimista a respeito de mudanças sociais fundamentais.
Diferentemente dos hippies, estes defensores não estão lutando
para criar a “ecotopia”, ou nem mesmo para ajudar a ressuscitar o
New Deal. Em vez disso, o liberalismo social da Nova Esquerda e
o liberalismo econômico da Nova Direita convergiram no sonho
ambíguo de uma “democracia jeffersoniana”. Interpretado genero-
samente, este retro-futurismo poderia ser a visão de uma fronteira
cibernética em que artesãos hi-tech descobrem sua satisfação indi-
vidual ou na ágora eletrônica, ou no mercado eletrônico. Entretan-
to, como o Zeitgeist da “classe virtual”, a Ideologia Californiana é ao
mesmo tempo uma fé exclusiva. Se apenas algumas pessoas podem
ter acesso às novas tecnologias da informação, a “democracia jeffer-
soniana” pode se tornar uma versão de alta tecnologia da economia
de latifúndios do Velho Sul. Refletindo esta profunda ambiguidade,
o determinismo tecnológico da Ideologia Californiana não é sim-
plesmente otimista e emancipador. É simultaneamente uma visão
profundamente pessimista e repressiva do futuro.

34
Existem Alternativas

Apesar de suas profundas contradições, pessoas por todo o


mundo acreditam que a Ideologia Californiana expressa o único ca-
minho adiante para o futuro. Com a cada vez maior globalização da
economia mundial, muitos membros da “classe virtual” na Europa
e Ásia sentem mais afinidade com seus pares californianos do que
com outros trabalhadores de seu próprio país. Mas, na verdade, o
debate nunca foi tão possível ou necessário. A Ideologia California-
na foi desenvolvida por um grupo de pessoas vivendo em um país
específico, com uma mistura particular de escolhas sócio econômi-
cas e tecnológicas. Seu coquetel contraditório e eclético de econo-
mia conservadora e radicalismo hippie reflete a história da costa
oeste – e não o futuro inevitável do resto do mundo. Por sinal, as
assunções antiestatistas dos ideólogos californianos são bem paro-
quiais. Em Cingapura, o governo não apenas está organizando a cons-
trução de uma rede de fibra ótica, mas também está tentando controlar
a adequação ideológica da informação distribuída pela mesma. Pelas
taxas de crescimento muito maiores dos “tigres” asiáticos, o futuro di-
gital não vai necessariamente chegar primeiro na Califórnia42.
Mesmo com as recomendações neoliberais do Relatório Ban-
gemann, a maior parte das autoridades europeias estão determinadas
a se envolver intimamente no desenvolvimento das novas tecnologi-
as da informação. A Minitel – primeira rede on-line de sucesso no
mundo – foi uma criação deliberada do estado francês. Em resposta
a um relatório oficial sobre o impacto potencial da hipermídia, o go-
verno resolveu destinar recursos ao desenvolvimento de tecnologias
de ponta. Em 1981, a France Telecom lançou o sistema Minitel, que
ofereceu uma mistura de informação baseada em texto e utilitários
de comunicação. Como um monopólio, esta companhia estatal de
42 GIBSON, William, SADFORT, Sandy. Disneyland with a Death
Penalty. Wired, Set/out, 1993. Sendo estes artigos um ataque a
Singapura, é irônico que a verdadeira Disneylândia fique na
Califórnia – cujo código penal repressivo inclui a pena de morte!

35
telefone foi capaz de criar uma massa crítica de usuários para seu
sistema on-line pioneiro, distribuindo terminais grátis para qualquer
um que quisesse esquecer as listas telefônicas em papel. Uma vez que
o mercado foi criado, fornecedores comerciais e comunitários pude-
ram encontrar consumidores ou participantes suficientes para prospe-
rar com o sistema. Desde então, milhões de franceses de todos os es-
tratos alegremente reservaram ingressos, bateram papo uns com os
outros e organizaram-se politicamente on-line sem perceber que esta-
vam quebrando os preceitos libertários da Ideologia Californiana43.
Longe de demonizar o estado, a grande maioria da popula-
ção francesa acredita que mais intervenção pública é necessária
para uma sociedade eficiente e saudável 44. Nas recentes eleições
presidenciais, quase todo candidato teve de defender – ao menos
retoricamente – maior intervenção do estado para terminar com a
exclusão social dos desempregados e sem-teto. Ao contrário do
equivalente americano, a revolução francesa passou ao largo do li-
beralismo econômico, rumo à democracia popular. Após a vitória
dos Jacobinos sobre seus oponentes liberais em 1792, a república
democrática da França tornou-se a materialização da “vontade da
maioria”. Sendo assim, acreditava-se que o estado deveria defender
os interesses de todos os cidadãos, em vez de proteger apenas os
direitos dos proprietários individuais. O discurso da política france-
sa permite à ação coletiva do estado mitigar – ou mesmo remover –

43 Sobre o relatório que levou à criação da Minitel, ver NORA, Simon,


MINC, Alain. The Computerisation of Society. Cambridge
Massachussets: MIT Press, 1990. Um relato dos primeiros anos da
Minitel pode ser encontrado em MARCHAND, Michael. The Minitel
Saga: a french sucess history. Paris: Larousse, 1988.
44 Sobre a influência do jacobinismo na concepção francesa dos direitos
democráticos, ver BARBROOK, Richard. Media Freedom: the
contradictions of communications in the age of modernity. London: Pluto,
1995. Alguns economistas franceses acreditam que uma história muito
diferente da Europa criou um modelo específico – e especialmente,
superior – de capitalismo. Ver ALBERT, Michael. Capitalism v.
Capitalism. New York: Four Wall Eight Windows, 1993; e DELMAS,
Philippe. Le Maötre des Horloges. Paris: Éditions Odile Jacob, 1991.

36
os problemas encontrados pela sociedade. Enquanto os ideólogos
californianos tentam ignorar os dólares de contribuintes subsidian-
do o desenvolvimento da hipermídia, o governo francês pode inter-
vir abertamente neste setor da economia.
Mesmo que sua tecnologia esteja defasada, a história da
Minitel claramente refuta os preconceitos anti-estatistas dos ideó-
logos californianos – e do comitê Bangemann. O futuro digital
será um híbrido de intervenção estatal, empreendedorismo capita-
lista e cultura faça-você-mesmo. Decisivamente, se o estado pu-
der fomentar o desenvolvimento da hipermídia, ações conscientes
poderiam também ser tomadas para evitar o surgimento do apar-
theid social entre os “ricos de informação” e os “pobres de infor-
mação”. Não deixando tudo aos caprichos das forças mercadoló-
gicas, a União Europeia e seus estados membros podem assegurar
que todo cidadão tenha a oportunidade de estar conectado à banda
larga de uma rede de fibra ótica ao menor preço possível.
Em primeira instância, este seria um plano muito necessá-
rio de criação de empregos para trabalhadores semi capacitados
em um período de desemprego em massa. Como medida keyne-
siana de emprego, nada bate cavar buracos na estrada e depois
enchê-los de novo 45. Ainda mais importante, a construção de
uma rede de fibra ótica em lares e escritórios poderiam dar a to -
dos acesso a novos serviços on-line e criar uma grande e vibran-
te comunidade de troca de conhecimentos. Os ganhos a longo
prazo para a economia e para a sociedade com a construção da
“Infobahn” seriam imensuráveis. Permitiria à indústria trabalhar
mais eficientemente e comercializar novos produtos. Assegura-
ria que os serviços de educação e informação estivessem dispo-
níveis a todos. Sem dúvida a “Infobahn” vai criar um mercado
de massas para que as empresas privadas possam vender os produtos
45 Como o próprio Keynes diz: "'Cavar buracos no chão', pago pela
poupança, vai aumentar não apenas o emprego, mas os dividendos reais
de bens úteis e serviços". Ver KEYNES, J. M. The General Theory of
Employment, Interest and Money. London: Macmillan, p. 220, 1964.

37
de informação existentes – filmes, programas de televisão, música e
livros – pela Rede. Ao mesmo tempo, uma vez que as pessoas pos-
sam tanto distribuir quanto receber hipermídia, uma mídia comunitá-
ria florescente e grupos de interesse surgirão rápido. Para que tudo
isto aconteça, intervenção coletiva será necessária para assegurar que
todos os cidadãos estejam incluídos no futuro digital.

38
O Renascimento do Moderno

Mesmo não sendo em circunstâncias de sua própria escolha, é


necessário que os europeus afirmem sua própria visão do futuro. Há
caminhos variados rumo à sociedade da informação – e alguns são
mais desejáveis do que outros. Para fazer uma escolha embasada, os
artesãos digitais europeus precisam desenvolver uma análise mais
coerente do impacto da hipermídia do que a que pode ser encontrada
na Ideologia Californiana. Os membros da “classe virtual” europeia
devem criar sua própria identidade distinta. Este entendimento alter-
nativo do futuro passa por uma rejeição de qualquer forma de apar-
theid – tanto dentro quanto fora do ciberespaço. Qualquer projeto
para desenvolver a hipermídia deve assegurar que toda a população
possa ter acesso aos novos serviços on-line. Em lugar do anarquismo
da Nova Esquerda ou da Nova Direita, uma estratégia europeia para
o desenvolvimento das novas tecnologias da informação deve reco-
nhecer abertamente a inevitabilidade de algum tipo de economia
mista – a mistura criativa e antagonista de iniciativas estatais, corpo-
rativas e faça-você-mesmo. A indeterminação do futuro digital é re-
sultado da ubiquidade desta economia mista no mundo moderno.
Ninguém sabe exatamente como serão as forças relativas de cada
componente, mas a ação coletiva pode assegurar que nenhum grupo
social seja deliberadamente excluído do ciberespaço.
Uma estratégia europeia para a era da informação deve tam-
bém celebrar as forças criativas dos artesãos digitais. Porque seu
trabalho não pode ser simplificado ou mecanizado, membros da
“classe virtual” exercem grande controle sobre a sua própria obra.
Em vez de sucumbir ao fatalismo da Ideologia Californiana, nós
deveríamos abraçar as possibilidades prometéicas da hipermídia.
Dentro das limitações de uma economia mista, os artesãos digitais
são capazes de inventar algo totalmente novo – algo não predito
em nenhuma história de ficção científica. Estas formas inovadoras
de conhecimento e comunicação vão copiar os sucessos de outras,

39
incluindo alguns aspectos da Ideologia Californiana. É impossível
agora, para qualquer movimento de emancipação social sério, não
incluir as demandas do feminismo, da cultura de drogas, da libe-
ração gay, da identidade étnica e outras questões levantadas pe-
los radicais da costa oeste. Do mesmo modo, qualquer tentativa
de desenvolver a hipermídia dentro da Europa precisará de algum
zelo empresarial e uma atitude “você quer você pode” da Nova Di-
reita californiana. Mas, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da hi-
permídia significa inovação, criatividade e invenção. Não há prece-
dentes para todos os aspectos do futuro digital.
Como pioneiros do novo, os artesãos digitais precisam reco-
nhecer a si mesmos com a teoria e prática da arte produtiva. Eles
não são apenas funcionários dos outros – ou mesmo candidatos a
empreendedores cibernéticos. Eles são também engenheiros-artis-
tas – os criadores do próximo estágio de modernidade. Repetindo a
experiência dos Saint-Simonistas e Construtivistas, os artesãos di-
gitais podem criar uma nova máquina estética para a era da infor-
mação46. Os músicos têm usado computadores para desenvolver
formas puramente digitais de música, como o jungle e o techno 47.
Artistas interativos têm explorado as potencialidades das tecnologi-
as de CD-ROM, como é mostrado pelo trabalho de Anti-ROM.
O Hypermdia Research Centre construiu experimentalmente um espaço
social virtual chamado J's Joint48. Em cada instância, engenheiros-artistas

46 TAYLOR, Keith (org). Henri Saint-Simon 1760-1825: selected


writings in science, industry and social organisation. London: Croom
Helm, 1975; e BOWLT, John E. Russian Art of the Avant-Garde:
theory and criticism. London: Thames & Hudson, 1976.
47 Como Goldie, um produtor de música jungle, diz: “Nós temos de
levar adiante e pegar os tambores e baixos e forçar e forçar e forçar.
Eu lembro quando eles estavam dizendo que não poderia ser levado
mais além. Foi levado dez vezes mais além desde então…”. Ver
MARCUS, Tony. The War is Over. Mixmag, p. 46, Ago. 1995.
48 Para maiores informações a respeito de Anti-ROM e a J's Joint, ver
suas contribuições para o sítio do Hypermedia Research Centre.
(http://www.hrc.wmin.ac.uk)

40
estão tentando expandir os limites tanto das tecnologias quanto de
sua própria criatividade. Acima de tudo, estas novas formas de ex-
pressão e comunicações estão conectadas a uma cultura mais ampla.
Os desenvolvedores de hipermídia devem reafirmar a possibilidade
de controle racional e consciente sobre a forma do futuro digital. Di-
ferente do elitismo da Ideologia Californiana, os engenheiros-artistas
europeus devem construir um ciberespaço inclusivo e universal.
Agora é a hora para o renascimento da Modernidade.

“As circunstâncias presentes favorecem tornar


a luxúria nacional. A luxúria vai se tornar útil e
moral quando for desfrutada por toda a nação.
A honra e a vantagem de se empregar
diretamente, em arranjos políticos, o progresso
das ciências exatas e das artes nobres (…)
foram reservadas para o nosso século.” 49

49 SAINT-SIMON, Henri. Sketch of the New Political System. In:


TAYLOR, Keith (org). Henri Saint-Simon 1760-1825: selected
writings on science, industry and social organisation. London:
Croom Helm, p. 203, 1975.

41
Richard Barbrook e Andy Cameron são
membros do Hypermedia Research Centre
da Universidade de Westminster, Londres.
Gostaríamos de agradecer a Andrej Ker-
lep, Dick Pountain, Helen Barbrook, Les
Levidow, Jeremy Quinn, Jim McLellan,
John Barker, John Wyver, Rhiannon Pat-
terson e aos membros do HRC pela sua
ajuda na elaboração deste artigo.
i NT. Extropia é um neologismo cunhado por T. O. Morrow a partir do ter-
mo entropia, como uma metáfora, para descrever um conjunto de valores
que negam – mas não são o contrário de – a noção de entropia. O termo
extropia foi aplicado a um grupo de pessoas que tem como objetivo com-
bater a decadência entrópica da sociedade através do aumento da inteli-
gência, expectativa de vida, agudez dos sentidos, refinamento da persona-
lidade e melhora da ordem social. Os extropianos pretendem alcançar
este ideal através de um conjunto de atitudes e valores de cunho humanis-
ta e do uso da tecnologia, inclusive as técnicas que envolvem interferên-
cia direta no organismo humano. No limite, os extropianos pretendem
que o homem alcance a imortalidade e possua poderes sobre-humanos.
ii NT. A sigla MUD significa Multiple User Dungeon. São programas de
computador, geralmente hospedados em redes Telnet de universidades ou
corporações, em que usuários podem se conectar para jogar Role Playing
Games, ou RPG. Em um RPG – que não necessariamente precisa ser jo-
gado em computadores –, cada jogador assume um personagem e explora
um mundo fictício ou baseado em paisagens reais, interagindo com ou-
tros personagens, coletando itens, combatendo monstros e criando seus
próprios espaços de jogo. O primeiro MUD foi criado por Richard Bartle.
iii NT. Wetware é uma expressão derivada de software e hardware, para
designar organismos vivos. (o corpo humano, por exemplo, tem 70%
de água em sua composição.) Os extropianos utilizam um termo aná-
logo aos termos da informática por acreditarem que a mente funciona
como um software, com a diferença de rodar em um organismo, ou
wetware, em vez de em um hardware comum. Um dos principais obje-
tivos extropianos é que os seres humanos possam, através do avanço
tecnológico, descarregar suas mentes em um hardware que misture
partes biológicas e artificiais – como eles mesmos dizem, pós-biológi -
cos – ou totalmente artificial. Daí, abandonar o wetware.
iv NT. Aqui optou-se por manter a expressão em inglês, já que a tradução de
sprawl, “espraiar-se”, não denota o sentido correto. Trata-se de um rótulo
atribuído aos livros de Gibson por David Mead, no estudo Technological
Transfiguration in William Gibson's Sprawl Novels: Neuromancer, Count
Zero, and Mona Lisa Overdrive. O termo sprawl refere-se à maneira como
as cidades se desenvolvem nestes romances. A decadente Cidade Global
não tem fronteiras, tampouco existem marcos de referência, porque a paisa-
gem muda constantemente, devido ao acúmulo de lixo por toda a história
humana. Os planos funcionam mais como redes do que como mapas, os ca-
minhos são definidos por seus transeuntes através das montanhas de entu-
lho. A arquitetura sprawl toma a forma de um hipertexto.

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