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Silveira, S. T. Martins, P. & Burity, P. K. M. C. G. Jung e Educação: aproximações e contribuições da tipologia


junguiana para o processo educativo

C. G. Jung e Educação: aproximações e contribuições da tipologia


junguiana para o processo educativo

C. G. Jung and Education: approaching and contributions of the jungian


typology to the educational process

C. G. Jung y Educación: aproximaciones y contribuciones de la tipología


junguiana para el proceso educativo

Suely Teodora da Silveira1

Priscila Martins2

Paula Krempel Marques Burity3

Resumo

Neste artigo, buscou-se compreender a concepção de Educação para C. G. Jung e suas possíveis
contribuições para o processo educativo, principalmente no tocante à sua teoria dos tipos psicológicos.
Embora tenham sido orientados para o trabalho psicoterapêutico, os resultados apontaram que a
Psicologia Analítica traz pressupostos relevantes que podem ser aplicados à educação. Os resultados,
também, demonstraram a importância da escola na formação da consciência individual, por ser o
primeiro espaço que a criança frequenta fora do ambiente familiar. O processo transferencial e as
interferências dos conteúdos inconscientes envolvidos na relação educador-aluno sugere a necessidade
de atuação sobre a personalidade do educador, no sentido de desenvolver não somente o aspecto
cognitivo, mas, principalmente, a afetividade e a sensibilidade, a fim de evitar influências negativas na
transmissão do conhecimento. A teoria dos tipos psicológicos contribui para pensar as diferenças
individuais, ao considerar as variadas formas de cognição, adaptação e percepção do mundo.

Palavras-chave: Psicologia Analítica. Educação. Tipos psicológicos.

Abstract

In this article, we try to understand the conception of Education for C. G. Jung and his possible
contributions to the educational process, especially his theory about psychological types. The results
pointed out, although it was oriented to psychotherapeutic work, Analytical Psychology provides
relevant assumptions that can be applied to education. The results demonstrated the importance of the
school in the formation of individual consciousness, since it is the first space that the child attends
outside the family environment. The transfer process and the interferences of the unconscious contents
involved in the educator-student relationship suggest the need to act on the personality of the educator,
seeking to develop not only the cognitive aspect, but mainly the affectivity and sensitivity, in order to
avoid influences in the transmission of the knowledge. The theory of psychological types contributes to
the thinking of individual differences, considering the different forms of cognition, adaptation and
perception of the world.

1
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
2
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
3
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3397
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Silveira, S. T. Martins, P. & Burity, P. K. M. C. G. Jung e Educação: aproximações e contribuições da tipologia


junguiana para o processo educativo

Keywords: Analytical Psychology. Education. Psychological TYPES.

Resumen

En este artículo, se buscó comprender la concepción de Educación para C. Jung y sus posibles
contribuciones al proceso educativo, principalmente en lo que se refiere a su teoría sobre los tipos
psicológicos. Los resultados apuntan, aunque se ha orientado al trabajo psicoterapéutico, la Psicología
Analítica proporciona presupuestos relevantes que pueden aplicarse a la educación. Los resultados
demostraron la importancia de la escuela en la formación de la conciencia individual, por ser el primer
espacio que el niño frecuenta fuera del ambiente familiar. El proceso transferencial y las interferencias
de los contenidos inconscientes involucrados en la relación educador-alumno sugiere la necesidad de
actuación sobre la personalidad del educador, en el sentido de desarrollar, no sólo el aspecto cognitivo,
sino, principalmente la afectividad y la sensibilidad, a fin de evitar influencias negativas en la
transmisión del conocimiento. La teoría de los tipos psicológicos contribuye a pensar las diferencias
individuales, al considerar las diferentes formas de cognición, adaptación y percepción del mundo.

Palabras clave: Psicología Analítica. Educación. Tipos psicológicos.

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Introdução aspecto fundamental de assistência ao


desenvolvimento e ampliação da
A Educação escolar se configura consciência, por oferecer um rico campo de
como um importante aspecto do experimentação. Em seu entendimento, o
desenvolvimento humano, uma vez que, da primeiro ambiente que uma criança
forma como é oferecida, ocupa um tempo encontra fora de casa será a escola, que
considerável na vida das pessoas. No Brasil, desempenhará um papel importante em sua
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação estrutura psicológica. Para ele, se o
(LDB), em seu art. 2º diz que: “a educação processo educacional é efetivo, essa
é direito de todos e dever do Estado e da elaboração é composta de intermediários
família, será promovida e incentivada com inconscientes dos adultos em seu entorno,
a colaboração da sociedade, visando ao em um relacionamento cada vez mais
pleno desenvolvimento da pessoa, seu interdependente.
preparo para o exercício da cidadania e sua Jung (1928a/1972, p. 59) salientou a
qualificação para o trabalho”. No entanto, o importância de o professor compreender
fato é que essa proposta de Educação não seu papel, considerando que
parece ter alcançado seus objetivos. Há
anos essa temática vem sendo debatida, O conhecimento psíquico mais
com mudanças variadas nas legislações, aprofundado, por parte do professor, não
deveria jamais ser descarregado
metodologias e currículos, mas até hoje, de diretamente sobre o aluno, como
maneira geral, ainda não foram encontrados lamentavelmente talvez aconteça. Tal
recursos satisfatórios que proporcionassem conhecimento deve em primeiro lugar
um ensino de qualidade que poderia criar ajudar o professor a conseguir uma atitude
condições para o eficiente desenvolvimento mais compreensiva em relação à vida
psíquica da criança.
das potencialidades humanas.
Assim sendo, neste artigo,
Assim sendo, é fundamental que o
buscaremos contribuir para o debate de
professor tenha um conhecimento amplo
ideias em torno da Educação discutindo a
sobre os estudos relacionados ao
concepção de C. G. Jung sobre o tema e,
desenvolvimento infantil, mas é
principalmente, as possíveis contribuições
imprescindível que se empenhe em seu
que sua tipologia pode oferecer para esse
próprio desenvolvimento. Negar essa
meio. O objetivo principal será buscar
necessidade pode ter consequências
entender como a tipologia junguiana pode
negativas na formação dos alunos. Em seus
colaborar para se pensar as relações no
estudos, Jung (1934/2012) ressalta a
contexto escolar. Discutiremos, também,
importância do processo interativo e
qual seria o papel da Educação para C. G.
relacional para a construção da capacidade
Jung, a importância dos professores no
de simbolização no homem.
processo educativo e como se faz necessário
Jung (1928b/1997) estava
refletir e promover um investimento de
convencido de que a psique é um sistema de
qualidade na formação desses profissionais.
autorregulação que, constantemente, tenta
Como método, foi escolhido o
manter o equilíbrio entre as tendências
levantamento bibliográfico, pesquisando
opostas. Dessa forma, quando se produz
sobre o tema nas obras completas de Jung e
uma polaridade ou unilateralidade no
comentadores.
campo da consciência, o psiquismo
Acreditando que as crianças
inconsciente reage em sonhos ou fantasias
precisam de uma realidade educacional
tentando corrigir o desequilíbrio que está
especial, que seja propícia ao seu
ocorrendo. Dentre vários aspectos desse
desenvolvimento pleno, Jung (1928a/1972)
considera a educação como sendo um

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processo de autorregulação está a dinâmica propicia que suas ideias possam ser
tipológica. utilizadas em diferentes âmbitos, que não
Como aborda Sharp (1987), o somente na psicoterapia. A Educação pode
modelo de tipologia de Jung é parte ser considerada como um desses possíveis
integrante da conceitualização relacionada campos que pode se beneficiar do corpo
ao processo de individuação. A tipologia teórico desenvolvido pelo psiquiatra suíço.
pode ser usada como uma ferramenta para Embora não tenha desenvolvido uma teoria
ajudar um indivíduo a se desenvolver especificamente voltada à educação, para
psicologicamente e tem como foco a relação Teixeira (2006), o pensamento de Jung pode
atitudinal do sujeito, o movimento para o ser adequado à Pedagogia, pois contempla
qual direciona a energia psíquica. tanto o conhecimento da psique individual
O interesse inicial de Jung quanto a participação do indivíduo na
(1921/2013) para seu estudo sobre a coletividade, ou seja, oferece uma visão
tipologia estava em sua incompreensão em ampla das relações que são estabelecidas
relação ao fato de Freud e Adler terem tanto com a subjetividade quanto com o
visões tão diferentes sobre a neurose. Jung mundo exterior.
considerou ambas as opiniões válidas e Uma das dificuldades percebidas no
complementares, concluindo que a maneira modelo de Educação tradicional é a de
diferente de olhar era devido a diferenças contemplar o aluno em sua totalidade,
tipológicas pessoais, que deram origem a valorizando sua subjetividade e
duas atitudes. Dessa maneira, o tipo alcançando-o em seu contexto social e
psicológico tem a ver com os diferentes familiar. Segundo Vergueiro (2009), a
modos de funcionamento e com as Educação ainda disponibiliza conteúdos
possíveis atitudes da consciência em distanciados da realidade dos alunos, o que
relação ao mundo, aos outros e aos objetos. faz com que sejam facilmente esquecidos
É importante lembrar que, de acordo com ou que não se consiga aplicá-los em suas
Jung (1921/2013, p. 521), “A psique vidas cotidianas.
individual não se explica por nenhuma Para Toledo (2010, p. 11),
classificação. Contudo, a compreensão dos
tipos psicológicos abre um caminho para A pedagogia hoje privilegia o pensamento e
melhor entendimento da psicologia humana a percepção e o conceito, em detrimento de
outros aspectos como sentimento e a
em geral”. A tipologia se manifesta sob intuição. O conflito entre pensamento e
algumas características nos alunos, sentimento, entre racional e irracional se
conforme aponta o trabalho de Zacharias intensificou de tal forma que os objetivos
(2006), sendo útil compreender as humanísticos da escola foram superados
categorias de comportamento que pela pretensão de formar seres humanos
racionais e capazes de dominar a
constituem as variáveis tipológicas tecnologia. Domínio este que os distancia
ampliando a condução do processo cada vez mais da sua humanidade,
educacional. produzindo personalidades fragmentadas
que buscam no coletivo (religião, moda,
A concepção de Educação na perspectiva drogas, culto ao corpo) algo que os
complete.
de C. G. Jung
Segundo Byington (2003),
C. G. Jung se ocupou ao longo de
privilegiar o racionalismo na Educação,
sua vida em estudar temas variados, uma
desconsiderando a vivência e a
vez que se interessava, principalmente, pelo
experimentação, faz com que o aprendizado
estudo do psiquismo humano. Esse
seja superficial, não sendo assimilado de
interesse fez com que seus escritos
forma adequada. O estilo de ensino que
versassem sobre diferentes temáticas, o que

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incita o aluno a decorar os conteúdos imaginação. Naquela época, porém, eram


paralisa o processo criativo, pois parte de apresentados aos alunos modelos que
uma dinâmica na qual o professor apresenta deveriam ser copiados, não havendo espaço
o seu saber como verdade e o aluno somente para suas produções criativas, o que
o absorve. Esse estilo vai de encontro ao colocou um fim em seu curso de desenho.
que se espera que deveria ser a interação Em outro episódio escolar, Jung foi
professor-aluno: uma relação dialética e constrangido perante os colegas por um
construtiva. professor, que duvidou ter sido dele a
Na opinião de Laufer (2015, p. autoria de uma redação. Essas e outras
13311), outro aspecto ao qual Jung atribui situações fizeram com que o início de sua
relevância é o desenvolvimento do processo trajetória escolar fosse marcado por
simbólico. dificuldades, gerando-lhe sintomas que,
inclusive, o levaram a se afastar da escola
Na sua concepção, a psique cria por meio por algum tempo. Somente se dispôs a
de símbolos e essas são formas básicas que retornar quando percebeu a preocupação
tornam possível ao homem organizar suas
experiências e ações. Estes processos
que a situação causava em seu pai em
permitem-lhe assumir sua humanidade por relação ao seu futuro (Jung, 1961/1963).
meio dos elementos inconscientes e Esses fatos apontam como a escola,
responsáveis pela ação e adaptação do já naquele tempo e, infelizmente, ainda
indivíduo no mundo. hoje, pode funcionar como fator de
adoecimento e de restrição de
Na escola tradicional, nota-se que o potencialidades criativas, trazendo
processo simbólico está vinculado, prejuízos para o desenvolvimento da
principalmente, à ideia de desenvolvimento personalidade do aluno. Segundo Silveira
cognitivo. Entretanto, segundo Byington (1981a), pais e mestres precisam estar
(2003, p. 26), “o símbolo estruturante já está atentos para não obstruir o surgimento e
expressando o Self e patrocinando a desenvolvimento das peculiaridades da
formação e a diferenciação da identidade do personalidade na infância e na juventude,
Ego e do Outro a partir da indiferenciação”. pontuando que contribuir para o
Nesse caso, o componente arquetípico do desenvolvimento do indivíduo, em sua
símbolo aponta ser desnecessário orientar o completude como totalidade coesa e única,
ensino exclusivamente pela via racional, é tarefa dos adultos.
podendo ele contribuir naturalmente para o Para Jung (1934/2012), não seria
desenvolvimento do ego por meio das adequado tentar aplicar às crianças o ideal
diversas formas com que a inteligência de educação da personalidade, uma vez que
pode se expressar. isso implica em um trabalho que se
Talvez, por isso, Jung conferia desenvolve ao longo de toda a vida. Antes
grande valor à experiência e seu arcabouço de se querer mudar qualquer coisa nas
teórico foi fundamentado por suas próprias atitudes das crianças, é preciso, em primeiro
vivências e estudos. Em suas memórias, lugar, examinar se não é algo que precisa ser
Jung (1961/1963) menciona um fato que mudado nas atitudes dos adultos.
aconteceu em sua infância e que,
infelizmente, ainda podemos observar O educador não pode contentar-se em ser o
acontecendo em escolas contemporâneas. portador da cultura apenas de modo
Jung (1961/1963) tinha uma inaptidão que passivo, mas deve também desenvolver
o levou a ser expulso das aulas de desenho. ativamente a cultura, e isto por meio da
educação de si próprio. Sua formação não
Embora tivesse habilidades espontâneas deve jamais estacionar, pois de outro modo
para o desenho, somente conseguia começará a corrigir nas crianças os defeitos
desenhar aquilo que surgia de sua

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que não corrigiu em si mesmo. (Jung, transformar em comunicador de certos


1928b/1972, p. 62) conceitos.
Segundo Jung (1928a/2012), a
Segundo Jung (1943/2012), é escola exerce importante papel nesse
fundamental que o professor realize em si processo por ser o primeiro ambiente que a
mesmo e em sua vida aquilo que ensina, criança encontra fora da família, onde será
pois os resultados que alcançar estarão completada a educação dada pelos pais, que
relacionados ao quanto ele estiver costumam ser parciais na educação dos
envolvido na educação de si mesmo. filhos, enquanto a escola é parte do mundo
Seguindo essa ideia, Jung (1928b/2012) onde a criança poderá ir se desprendendo
distinguiu três tipos de Educação, que deles.
podem se aplicar tanto aos pais quanto aos
educadores. De acordo com a verdadeira finalidade da
escola o mais importante não é abarrotar de
1. Educação por meio do exemplo: conhecimentos a cabeça das crianças, mas
a vida dos pais é que educa. A sim contribuir para que elas possam tornar-
se adultos de verdade. O que importa não é
criança identifica-se com o o grau de saber com que a criança termina a
ambiente onde vive e, de modo escola, mas se a escola conseguiu libertar o
especial, com os pais. jovem ser humano de sua identidade com a
2. Educação coletiva: processa-se família e torná-lo consciente de si próprio.
de acordo com regras, princípios e Sem essa consciência de si, a pessoa jamais
saberá o que deseja de verdade, mas
métodos. Normas coletivas são continuará sempre na dependência da
necessárias e parte dos objetivos da família, apenas procurará imitar os outros,
educação é tornar o individuo útil à experimentando o sentimento de estar
sociedade. O perigo dessa educação sendo desconhecida e oprimida pelos
é a rigidez, que pode abafar o outros. (Jung, 1928a/2012, p.65)
desenvolvimento normal das
individualidades. Casos extremos Como personalidade, os professores
podem criar grupos humanos não podem agir de maneira que sucumbam
uniformes, cidadãos idealmente aos alunos. Também, na concepção de Jung,
obedientes, facilmente manejáveis. não podem ser isentados de sua autoridade,
3. Educação individual: nesse caso, o que confere um valor especial ao
as regras, princípios e métodos desenvolvimento da personalidade do
ficarão subordinados ao objetivo educador.
único de permitir a manifestação da
Como personalidade tem, pois o professor
individualidade específica da tarefa difícil, porque se não deve exercer a
criança. Levam-se em conta seus autoridade de modo que subjugue, também
dons especiais e também suas precisa apresentar justamente aquela dose
dificuldades. de autoridade que compete à pessoa adulta
e entendida perante a criança. Tal atitude
não pode ser obtida artificialmente, mesmo
Ao propor essas três formas de com toda boa vontade, mas somente se
educação, Jung (1928a/2012) considera que realiza de modo natural, à medida que o
o mais importante não é o que o educador professor procura simplesmente cumprir
ensina por intermédio da linguagem, mas o seu dever de homem e cidadão. É preciso
seu verdadeiro ensinamento, o que parte de que ele mesmo seja uma pessoa correta e
sadia, o bom exemplo é o melhor método de
sua própria vivência. Por essa razão, ele ensino. (Jung, 1928a/2012, p. 65)
deve ser educado antes de receber
educação, para não correr o risco de se Nem todos têm essa visão e a força
de vontade para atuar sobre sua própria

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personalidade, o que acentua as intelectual, mas, principalmente, no nível


dificuldades na relação ensino- afetivo e emocional.
aprendizagem. Dessas reflexões,
depreende-se que os educadores, assim A sensibilização e o cuidado na formação
como pais e adultos em geral, são chamados profissional
a prestar atenção em suas disposições
psíquicas, a se conhecerem, pois os O trabalho de formação de um
resultados dos métodos educativos profissional, em particular daqueles que
dependem principalmente daqueles que são trabalharão nas áreas da saúde e da
responsáveis em aplicá-los. A Educação, e que vão interagindo
personalidade educacional tornou-se um diretamente com outras pessoas, não pode
ideal de ensino, porque é um processo ser concebido de forma simplista. Formar
gradual de alcançar o potencial inato do um pedagogo ou psicopedagogo, por
desvelamento, descobrindo-se exemplo, precisa ser um processo que
completamente, contrapondo ao homem envolva não apenas as técnicas e
coletivizado promovido pela massificação procedimentos práticos, mas que se atente
geral. também para a pessoa do profissional que
A Pedagogia simbólica junguiana está se formando, sua personalidade e suas
(Byington, 2003) acontece com mais potencialidades.
facilidade no ensino pré-escolar e Para Garcia (1999), o conceito de
fundamental, quando, devido à pouca idade formação é complexo, implica em aspectos
dos alunos, acontece a superposição direta diversificados, mas que precisa considerar
das funções didáticas com as funções como ponto fundamental uma dimensão
parentais, o que propicia aos professores pessoal de desenvolvimento global que se
uma prática lúdica, imaginativa e afetiva, diferencia de concepções eminentemente
permitindo que esses profissionais se técnicas. Ressalta que esse conceito precisa
soltem mais nos níveis subjetivo, intuitivo e estar aliado à vontade de formação, ou seja,
afetivo. Vale ressaltar que esses períodos de o indivíduo em formação precisa estar
ensino são, na maioria das vezes, ativamente envolvido no processo.
ministrados por mulheres, geralmente mais Pereira (2011, p. 99) considera que
abertas ao padrão matriarcal. Enquanto nas educar significa “preparar o ser humano
universidades o ensino adulto ainda está para o mundo, para ser capaz de enfrentar
muito identificado com o padrão patriarcal os desafios e viver no convívio com os
e mostra-se mais racionalista e dissociado outros seres humanos”. Assim sendo, o
do emocional. É importante e necessário educador deve estimular seus educandos a
que se absorvam, em todos os níveis assumir responsabilidade por si mesmos.
educativos, novos métodos com uma noção Educar não pode ser pensado apenas em
simbólica e arquetípica para que se construa termos de intelecto, mas também em termos
uma relação emocional aluno-professor de sensibilidade. A autora pontua que a
participativa e construtivista. universidade precisa propiciar experiências
Para que isso aconteça, é preciso que significativas que impliquem em um
se invista adequadamente na formação dos envolvimento do aluno em seu próprio
professores. O cuidado com a Educação não processo de formação, pois caso não haja
deve ser dedicado somente aos níveis esse envolvimento fica inviabilizado o seu
básicos e fundamentais do ensino, pois é na crescimento e deturpado o verdadeiro
universidade, como espaço múltiplo e de sentido, pois o indivíduo precisa ter
construção de conhecimento, que se deveria formação tanto pessoal quanto profissional.
ter a oportunidade de capacitar Esses apontamentos concordam
profissionais, não somente no nível com o pensamento de Jung (1935/2012),

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que considera o tratamento psicoterapêutico


como um encontro em que ambos, terapeuta Esses tornaram-se ‘professores e nada mais’
e paciente, passam por transformações. e confrontam as crianças ignorantes quase
como inimigos. Queixam-se que estas não
Sendo assim, o terapeuta está em análise sabem nada e não têm vontade de aprender;
tanto quanto a pessoa que está sendo seus nervos ficam à flor da pele com a
atendida, sendo parte integrante do infantilidade e a falta de autocontrole dos
processo e, portanto, também sujeito às alunos. Para esse tipo de professor as
influências transformadoras. Embora o crianças são o Outro, aquilo que ele próprio
não deseja ser jamais; comprazendo-se em
espaço escolar não se configure como um exibir seu poder...
setting terapêutico, podemos aqui traçar um
paralelo com a relação professor-aluno, - Consciente e inconsciente do
concebendo que se trata de um encontro, aluno: em situações pedagógicas
pois ao ensinar o professor também aprende propícias, o aluno vai tornando-se
e, portanto, se transforma, podendo também mais independente, o que
desenvolver sua personalidade. demonstra que seu professor interno
Wendt (2003) e Vergueiro (2009) está se constelando. O aluno
pontuam que a relação professor-aluno é um começa a trazer para seu cotidiano
acontecimento arquetípico, organizado por os ensinamentos recebidos e a
fatores conscientes e inconscientes. contribuir com os demais e até com
Analisando essa relação, Wendt (2003) o professor externo. Sem esse
considera que são estabelecidas contato, o aluno pode se tornar
“conversas”, a saber: infantil, desmotivado e até
destrutivo ou, então, tornar-se
- Consciente do professor para submisso e dependente.
consciente do aluno: a autora chama - Inconsciente do professor e
de “aliança pedagógica”, quando a inconsciente do aluno e vice-versa:
relação pressupõe um contrato no o aluno aprende com a
qual são estabelecidos o programa personalidade do professor, com sua
do curso, avaliação, normas de postura, atuando este como modelo.
conduta, direitos e deveres. O professor em contato com seu
- Consciente e inconsciente do aluno interior ganha mais
professor: contato que deve ser capacidade de aprender, mais
mantido pelo professor com seu entusiasmo, curiosidade, paciência
“aluno” interior. Esse contato e flexibilidade.
possibilita ao professor o desejo de
aprender, se reciclar e exercer a Diante do exposto, fica evidente a
empatia. A falta desse contato faz necessidade de se trazer a discussão a
com que o professor perca sua respeito de uma formação humanizada nas
espontaneidade, entusiasmo, universidades, criando condições para que
curiosidade. Acarreta também uma se consiga formar não apenas técnicos, que
projeção sobre o aluno, que tenderá executem esse ou aquele método, mas
a permanecer numa posição de formar pessoas sensíveis, criativas e
dependência do professor. Nesse capazes de lidar tanto com seus próprios
caso, o professor assume o papel de conteúdos quanto com os conteúdos
quem tudo sabe e o aluno no papel daqueles com quem tiverem a oportunidade
do que não aprende. Torna-se, de estabelecer um bom encontro.
assim, uma relação de poder e de Como exemplo de ensino que leva
disciplina. Segundo Guggenbühl- em consideração a afetividade, temos o
Craig (1994, p. 96),

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trabalho de Nise da Silveira, médica quanto ainda se encontra distante o ideal de


brasileira e estudiosa da Psicologia de Jung, uma Educação voltada para o
que também considerava fundamental o desenvolvimento da completude do ser
cuidado com a formação dos monitores, humano. Segundo Lima (2006, p. 85),
valorizando sua sensibilidade e intuição,
pois sabia o quanto isso influenciava no abrir real espaço no seio das práticas
tratamento. Assim, o trabalho do monitor na educativas para a imaginação, a fantasia, os
sonhos, os mitos e a aprendizagem pela
Seção de Terapêutica Ocupacional e vivência demanda um trabalho que, para ser
Reabilitação (STOR) que coordenava não efetivo, precisa passar também pela psique
se constituía em interferir no trabalho do educador. [...] Priorizar o processo de
artístico que as pessoas produziam, mas individuação, de completude humana,
proporcionar a eles um afeto catalisador, como objetivo educacional, mais do que
formar cidadãos úteis, ainda é uma utopia.
entendido como um modo de interação que
possibilita a reorganização psíquica
Tipos psicológicos
(Silveira, 1981b).
Seu trabalho criava um ambiente de
Em 1921, Jung trouxe uma
liberdade protegida, onde o cuidado tornava
contribuição fundamental para o
viável a manifestação das forças
entendimento da tipologia humana ao
autocurativas do psiquismo. Para Castro e
escrever um de seus mais importantes
Lima (2007), o interesse da psiquiatra era
trabalhos, o livro Tipos Psicológicos, fruto
encontrar o doente, estabelecer com ele
de mais de 20 anos de observação e do
algum tipo de vínculo, oferecer o cuidado
exercício da Medicina Psiquiátrica e da
acolhedor e abrir-lhe espaço para que
Psicologia prática. A tipologia é baseada em
pudesse dizer sua verdade. Para Silveira
processos que pertencem a estruturas e
(1979), era preciso observar cada gesto
funções mais básicas e elementares do
como as tarefas eram executadas, pois a
funcionamento psíquico e pode ser
forma como se manipula os materiais
rastreada em quase todas as dimensões
expressivos, como se bate o tear ou até
humanas: adaptação, motivação, relações
mesmo a forma como se parte uma linha de
interpessoais, desempenho profissional,
costura são formas de expressão.
tomada de decisão, resolução de conflitos,
Esse trabalho poderia servir de
fontes de satisfação etc. Portanto, é uma
modelo também na formação de
disposição geral que se observa nos
educadores. Segundo Pereira (2011, p. 82),
indivíduos, como a psique está preparada
“é o cuidado que humaniza, que faz com
para agir ou reagir numa determinada
que surja o ser humano com toda sua
situação. Como coloca Sharp (1997, p. 12),
complexidade, sensibilidade e
“o modelo de Jung diz respeito ao
solidariedade”. Boff (1999) diz que o
movimento da energia psíquica e ao modo
cuidado precisa ser uma atitude de
como cada indivíduo se orienta no mundo,
ocupação, preocupação, responsabilização
habitual ou preferencialmente”.
e envolvimento afetivo com o outro. Nise da
Quando formulou sua teoria dos
Silveira conseguiu aliar conhecimento,
tipos psicológicos, Jung (1921/2013) falou
cuidado e afetividade, provando que o
das atitudes e funções da consciência, em
respeito pela individualidade das pessoas e
que os tipos seriam dimensões psicológicas
o cuidado atento podem ser mais eficazes
que se referem à maneira usual de
que qualquer método que se tenha
funcionamento cognitivo de um indivíduo.
conhecimento para fazer emergir as forças
Messick (1976) define estilos cognitivos
autocurativas do psiquismo.
como atitudes estáveis, preferências ou
Trazendo novamente a discussão
estratégias habituais que determinam como
para o âmbito educacional, percebe-se o

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o indivíduo percebe, recorda, pensa, polo está a função Intuição, que se refere à
aprende e se relaciona com os outros. O informação que vem do intangível, das
estilo cognitivo exerce uma forte influência possibilidades, do prospectivo, do futuro. A
sobre o que se hierarquiza da realidade e na função Pensamento explica, discrimina,
perspectiva do mundo que é construído a classifica e identifica as informações que
partir dessa hierarquização. É uma são adquiridas pela Sensação ou pela
dimensão da personalidade que permite Intuição. A abordagem por meio do
reconhecer o invariante de uma pessoa por Pensamento é essencialmente lógica e
meio de comportamentos muito diferentes. analítica, pois estabelece categorias para
Do ponto de vista junguiano, a poder compreender, mantendo uma lógica e
concepção de personalidade contém uma ordem, enquanto o Sentimento atribui
aspectos conscientes e inconscientes, que se valor. Essas quatro funções assumem
organizam e se desenvolvem a partir de características diferentes, dependendo da
certos padrões dinâmicos. Esses padrões atitude que está associada a elas.
configuram movimentos e processos que O tipo psicológico, diz Jung
tendem à adaptação e à individualização. (1921/2013), é o resultado de uma
Jung (1921/2013) distingue oito unilateralidade do desenvolvimento, que
tipos psicológicos decorrentes da ocorre sempre por meio da diferenciação
articulação das atitudes – Introversão (I) e hierárquica das funções. Essa diferenciação
Extroversão (E), com uma das quatro se dá seguindo certa ordem que está a
funções psicológicas – Sensação (S), serviço da adaptação. Haverá sempre uma
Intuição (N), Pensamento (T) e Sentimento função principal, superior, que pode ser
(F). Tanto as atitudes como as funções se perceptiva ou racional, e uma função
organizam em três pares de polaridades. O auxiliar, que será de natureza oposta à
par I/E refere-se fundamentalmente às principal, ou seja, se a função principal é
diferenças na direção do fluxo de energia perceptiva, Sensação ou Intuição, a auxiliar
para o mundo interno ou externo, será racional, Pensamento ou Sentimento, e
respectivamente. Enquanto na extroversão a vice-versa. Os outros dois polos
energia psíquica está voltada para fora, o permanecerão pouco desenvolvidos e,
que faz com que a pessoa se sinta motivada portanto, inconscientes. A polaridade
pelo externo; na introversão, a energia se oposta à função principal é a menos
volta para o interior, a subjetividade desenvolvida das funções e é denominada
predomina e, ambas, desempenham função função inferior, que também está no
muito importante na adaptação ao mundo. inconsciente. Segundo Von Franz (2016, p.
Na teoria dos tipos psicológicos, as 20), “pode-se dizer que a função inferior
quatro funções se organizam em dois pares sempre faz a ponte para o inconsciente. Ela
de polaridades. A polaridade Sensação é sempre dirigida para o inconsciente e para
(S)/Intuição (N) determina duas maneiras o mundo simbólico”.
diferentes de captar a realidade, como Os termos superior e inferior, neste
funções perceptivas. A polaridade contexto, não implicam um julgamento de
Pensamento (T)/Sentimento (F) caracteriza- valor, pois nenhuma função é melhor ou
se pela avaliação e fornece uma estrutura pior que as demais. A função superior
racional às percepções, constituindo duas chegou a esse estágio pelo seu exercício
maneiras diferentes de processar a frequente, bem como a inferior, pelo
realidade. A função Sensação diz que algo desuso, não teve oportunidade de se
existe, pois se refere à informação recebida desenvolver. Assim, tanto a função inferior
por meio dos cinco órgãos dos sentidos, quanto a segunda função auxiliar, em menor
direciona sua atenção para o mundo grau, segundo Jung (1921/2013),
tangível, sensorial, o presente. No outro permanecem num estado mais ou menos

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primitivo e infantil, muitas vezes apenas em Ao refletirmos sobre o estudo de


parte conscientes ou, ainda, totalmente Jung, pensando nas relações no ambiente da
inconscientes. Jung (1921/2013) entende sala de aula, nos deparamos com um
por função inferior aquela que, no processo modelo educacional que, historicamente,
de desenvolvimento e diferenciação, ficou supervaloriza o pensamento em detrimento
para trás. do sentimento e da intuição, sendo esse um
A experiência mostrou que, devido dos desafios na Educação até hoje. Convém
às adversidades das circunstâncias da vida e ressaltar que, no sistema tipológico, não
exigências sociais, a pessoa diferencie mais existe função melhor que outra, na medida
especificamente uma determinada função, em que cada função é mais indicada para
seja por ser mais condizente com sua determinada situação e todas são
própria natureza, seja por lhe oferecer mais necessárias para a vida, sendo importante
gratificação e meios mais eficientes ao seu que possamos desenvolvê-las da melhor
sucesso social. A função superior virá de um forma possível. Porém, em nossa cultura
dos dois pares de funções racionais ou ocidental, é feita uma leitura distorcida das
irracionais. Naturalmente, a pessoa não funções, pois se confunde pensamento com
dependerá exclusivamente dessa função inteligência, sentimento com
superior, porém utilizará a função auxiliar. sentimentalismo, intuição com
As polaridades nas funções: desorganização e sensação com falta de
imaginação, além de facilitar uma melhor
- Pensamento/Sentimento: são as adaptação dos que apresentam uma atitude
funções de avaliação, fornecem uma extrovertida, com função pensamento
estrutura racional às percepções, (Byington, 2003).
constituindo duas maneiras A formação do professor seria
diferentes de processar a realidade. enriquecida se fizesse parte dos seus
- Sensação/Intuição: duas maneiras aprendizados a identificação de sua
diferentes de captar a realidade, tipologia e da tipologia dos seus alunos.
sendo funções perceptivas. Certamente, observaríamos grandes
mudanças nas relações e desempenho dos
Tipologia junguiana e a relação alunos e de seu trabalho, pois, ao fazê-lo, se
professor-aluno daria conta de que boa parte das
transferências positivas e negativas que
A contribuição de Jung para o recebe de alunos ou até de turmas está
estudo da tipologia está no fato de as relacionada com sua tipologia e muitos
funções estruturantes psicológicas, que problemas de aprendizado também seriam
caracterizam os tipos por ele descritos, selecionados devido à dificuldade dos
serem funções arquetípicas, logo existem diferentes alunos em se adaptar a um único
igualmente em todas as pessoas, embora modelo. O professor não pode ser
cada tipo tenha certa capacidade simplesmente um transmissor de conteúdo
estruturante mais desenvolvida que outras ou achar que está ensinando para alguém
(Byington, 2003). Ao criar sua famosa idêntico a ele (Byington, 2003). Para o
tipologia, Jung não tinha a intenção de ensino se desenvolver, é preciso que seja
classificar os indivíduos, mas, sim, obter estabelecida uma relação transferencial e
uma forma de orientação em meio à enorme que as diferenças sejam respeitadas e
variedade de tipos individuais, contribuindo estimuladas, para que o espaço da sala de
para uma melhor comunicação entre as aula seja um ambiente propício para a
pessoas, já que tipos variados indicam criação e a transformação de professores e
pressupostos diferentes (Saiani, 2002). alunos. Essa condição se faz necessária para
qualquer ambiente que tenha como objetivo

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a Educação, seja no primeiro contato com a a formação dos educadores e que seus
escola, seja na universidade. resultados fossem compartilhados nos
meios acadêmicos.
Considerações finais
Referências
A temática sobre a relação entre
educadores e estudantes tem atraído cada Boff, L. (1999). Saber cuidar: ética do
vez mais o interesse e a atenção de humano – compaixão pela terra.
professores e psicólogos, bem como de Petrópolis: Vozes.
outros acadêmicos, visto que pode interferir Briggs-Myers, I., & Myers, P. (1995). Gifts
positiva ou negativamente na forma como o differing: understanding personality
conhecimento é apreendido. Neste estudo, type. Palo Alto: Davies Black.
buscou-se compreender qual a concepção e Byington, C. A. B. (2003). A construção
importância atribuídas à Educação tendo amorosa do saber: o fundamento e a
como aporte teórico a Psicologia Analítica, finalidade da Pedagogia Simbólica
principalmente no que diz respeito às junguiana. São Paulo: Religare.
relações, que são perpassadas por Castro, E D., & Lima, E. M. F. A. (2007).
influências tanto em nível consciente Resistência, inovação e clínica no
quanto inconsciente. pensar e no agir de Nise da Silveira.
É preciso considerar a relação entre 11(22), 365-376. Interface.
educador e aluno como sendo de caráter Recuperado em 25 setembro, 2018,
dialético, em que ambos têm a oportunidade de
de ensinar e aprender. Embora o contexto http://www.scielo.br/scielo.php?pid=
escolar seja permeado por uma S141432832007000200017&script=s
complexidade de fatores sociais, culturais e ci_abstract&tlng=pt.
subjetivos, acredita-se ser imprescindível Garcia, C. M. (1999). Formação de
uma formação dos profissionais voltada professores para uma mudança
para a afetividade e a sensibilidade, a fim de educativa. Porto: Porto Editora.
contribuir para a criação de um ambiente Guggenbühl-Craig, A. (2008). O abuso do
mais saudável e propício ao poder na psicoterapia e na Medicina,
desenvolvimento integral do ser humano. serviço social, sacerdócio e
Outro ponto importante a ser magistério (R. Gambini, Trad.). São
considerado diz respeito ao conhecimento e Paulo: Paulus. (Originalmente
às diferenças individuais, aspectos que publicado em 1987).
podem ser muito beneficiados pelo estudo Jung, C. G. (1997). Energia psíquica (M. L.
da tipologia junguiana. Jung não pretendeu Appy, Trad.). Petrópolis: Vozes.
fornecer uma tipologia estrita com fins (Originalmente publicado em 1928b).
classificatórios, mas sua tipologia pode ser Jung, C. G. (2012). Da formação da
vista como um prelúdio para o estudo da personalidade. In C. G. Jung. O
personalidade, podendo ser um ponto-chave desenvolvimento da personalidade
na compreensão desse desenvolvimento. (Frei V. do Amaral, Trad.). Petrópolis:
Embora Jung voltasse seus estudos Vozes. (Originalmente publicado em
para o trabalho psicoterapêutico, suas ideias 1934).
mostram-se pertinentes às práticas Jung, C. G. (2012). A importância da
educacionais. Verifica-se, no entanto, que Psicologia Analítica para a Educação.
existem poucos estudos, principalmente de In C. G. Jung. O desenvolvimento da
ordem prática, sobre essa temática. Seria personalidade (Frei V. do Amaral,
interessante que houvesse mais iniciativas Trad.). Petrópolis: Vozes.
nesse sentido, que poderiam contribuir para (Originalmente publicado em 1928a).

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Recebido em: 12/6/2019


Aprovado em: 10/10/2019

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