Você está na página 1de 92

TEOLOGIA PASTORAL II: CATEQUESE

CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD


Teologia Pastoral II: Catequese – Prof. Dr. Vicente Paulo Alves.

Olá! Meu nome é Vicente Paulo Alves, sou graduado em Filosofia


e Teologia, especialista em Avaliação e Planejamento em
Educação, Mestre em Teologia Dogmática pela Pontifícia
Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Ciências da
Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Sou professor
na Educação Superior há mais 25 anos e trabalho nos cursos de
Filosofia, Teologia e Ciências da Religião. Coloco-me à disposição
para contribuir com todos vocês, alunos da EaD, para uma
aprendizagem significativa.
e-mail: vicente.claretiano@gmail.com.

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação


Vicente Paulo Alves

TEOLOGIA PASTORAL II: CATEQUESE

Batatais
Claretiano
2014
  © Ação Educacional Claretiana, 2013 – Batatais (SP)
  Versão: ago./2014

  A477t
  253
 
Alves, Vicente Paulo
Teologia Pastoral II - catequese / Vicente Paulo Alves – Batatais, SP :
Claretiano, 2014.
  92 p.

ISBN: 978-85-8377-163-0

1. Catequese. 2. Missão. 3. Evangelização. 4. Igreja. 5. Responsabilidade


Eclesial. I. Teologia Pastoral II - catequese.
.

          
  
 
 

CDD 253

Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional


Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves

Preparação Revisão
Aline de Fátima Guedes Cecília Beatriz Alves Teixeira
Camila Maria Nardi Matos Felipe Aleixo
Carolina de Andrade Baviera Filipi Andrade de Deus Silveira
Cátia Aparecida Ribeiro Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz
Dandara Louise Vieira Matavelli Rafael Antonio Morotti
Elaine Aparecida de Lima Moraes Rodrigo Ferreira Daverni
Josiane Marchiori Martins Sônia Galindo Melo
Talita Cristina Bartolomeu
Lidiane Maria Magalini
Vanessa Vergani Machado
Luciana A. Mani Adami
Luciana dos Santos Sançana de Melo
Projeto gráfico, diagramação e capa
Patrícia Alves Veronez Montera Eduardo de Oliveira Azevedo
Raquel Baptista Meneses Frata Joice Cristina Micai
Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Lúcia Maria de Sousa Ferrão
Simone Rodrigues de Oliveira Luis Antônio Guimarães Toloi
Raphael Fantacini de Oliveira
Bibliotecária Tamires Botta Murakami de Souza
Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11 Wagner Segato dos Santos

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer
forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na
web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do
autor e da Ação Educacional Claretiana.

Claretiano - Centro Universitário


Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo – Batatais SP – CEP 14.300-000
cead@claretiano.edu.br
Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006
www.claretianobt.com.br

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação


SUMÁRIO

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 7
2 ORIENTAÇÕES PARA ESTUDO.............................................................................. 11
3 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 18
4 E-REFERÊNCIAS................................................................................................... 18

Unidade  1 – O PROBLEMA DA CATEQUESE COMO MISSÃO E


EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA: O COMPROMISSO E A
RESPONSABILIDADE ECLESIAL
1 OBJETIVOS.......................................................................................................... 19
2 CONTEÚDOS....................................................................................................... 19
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE..................................................... 20
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................... 23
5 LUZES E SOMBRAS DA CATEQUESE..................................................................... 25
6 O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS COMO MISSÃO E EVANGELIZAÇÃO
TRANSFORMADORA NA IGREJA.......................................................................... 37
7 FORMAÇÃO CATEQUÉTICA E MISSIONÁRIA........................................................ 44
8 CATEQUESE, COMPROMISSO E RESPONSABILIDADE.......................................... 48
9 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................. 52
10 CONSIDERAÇÕES................................................................................................. 52
11 E-REFERÊNCIAS................................................................................................... 53
12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 56

Unidade  2 – A IGREJA MISSIONÁRIA DO PAI, NO ENCONTRO DE TODOS


OS POVOS E CULTURAS NA TRANSIÇÃO DA MISSÃO AD
GENTES PARA A MISSÃO INCULTURADA
1 OBJETIVOS........................................................................................................... 57
2 CONTEÚDOS........................................................................................................ 57
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE..................................................... 58
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................... 59
5 IGREJA MISSIONÁRIA DO PAI, NO ENCONTRO DAS CULTURAS........................... 61
6 TRANSIÇÃO DA MISSÃO AD GENTES PARA A MISSÃO INCULTURADA............... 68
7 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................. 71
8 CONSIDERAÇÕES................................................................................................. 71
9 E-REFERÊNCIAS................................................................................................... 73
10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 74
Unidade  3 – A TEOLOGIA DA MISSÃO HODIERNA E O DESAFIO DE
EVANGELIZAR O UNIVERSO URBANO
1 OBJETIVOS........................................................................................................... 75
2 CONTEÚDOS........................................................................................................ 75
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE..................................................... 75
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................... 77
5 TEOLOGIA DA MISSÃO HODIERNA...................................................................... 79
6 EVANGELIZAR O UNIVERSO URBANO.................................................................. 84
7 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................. 88
8 CONSIDERAÇÕES................................................................................................. 89
9 E-REFERÊNCIAS................................................................................................... 90
10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................... 91
Caderno de
Referência de
Conteúdo

CRC

1. INTRODUÇÃO
Bem-vindo(a)!
Neste acolhimento inicial, que faz introdução ao tema que
nos cabe aqui estudar, disponibilizado para você no formato de
hipertexto, dentro do ambiente virtual de Educação a Distância
(EaD), temos como objetivo geral analisar o papel essencial da mis-
são e da Catequese, bem como o sentido dessas duas dimensões
para a caminhada da Igreja.
Ao iniciar este estudo, deixe de lado uma possível e pretensa
autossuficiência de que já conhece o tema da Catequese e que
lhe é familiar, simplesmente porque já participou de grupos de Ca-
tequese ou é originário de um algum movimento eclesial que se
fundamenta nela.
O seu conhecimento teórico poderá ajudá-lo na interação
com seus colegas e na prática pastoral, cuja realidade é mais exi-
8 © Teologia Pastoral II: Catequese

gente ainda do que a reflexão teológica. Fundamentalmente, pre-


cisamos deixar Deus agir em nós e em nossa prática catequética,
para que nossos recursos materiais e nossa prática pedagógica,
junto à gestão de pessoas, alcancem o êxito de termos cristãos
mais conscientes e sabedores do grande chamado que a Trindade
nos faz: sermos filhos no Filho.
Em seguida, sempre devemos nos perguntar pelos motivos
que nos fazem agir nessa ou naquela direção, visando ao constan-
te aperfeiçoamento e melhoria do nosso programa de evangeliza-
ção permanente.
Neste Caderno de Referência de Conteúdo (CRC), o objetivo
é oferecer uma reflexão criteriosa sobre a missão e a Catequese
como atividades essenciais de nossa comunidade eclesial, que
perduram no tempo e têm compromissos com as gerações futuras
de anúncio alegre da redenção de Cristo na história, a favor de
todos os seres humanos (querigma ou kerigma).
Como vimos em Teologia Pastoral I, "a Teologia Pastoral tem
como foco a missão da Igreja no mundo aqui e agora, que se ins-
pira na Trindade, no discernimento da vontade de Deus por meio
dos ‘sinais dos tempos’ (que é ‘alma’ de toda abordagem teológica
e pastoral)". Viveremos intensamente esse processo catequético
dentro da Igreja, à medida que nos entregarmos de "corpo e alma"
à causa do Evangelho, sentindo-nos membros atuantes da Igreja
(universal e local), que cumpre o mandato de Cristo: "Ide e evan-
gelizai todos os povos" (Mc 16,15).
A Catequese desenvolveu uma reflexão teológica e um cará-
ter didático-pedagógico de forma espetacular nesses últimos 50
anos, os quais não podem ser relegados a um voo panorâmico,
sem a abordagem de seus principais temas e dilemas.
Neste CRC, destacaremos alguns assuntos, assim dispostos:
• Na Unidade 1, veremos a Catequese e a missão como
ações de evangelização inicial e como atitudes permanen-
© Caderno de Referência de Conteúdo 9

tes da Igreja (a formação catequética e missionária para o


compromisso e a responsabilidade eclesial).
• Na Unidade 2, trataremos da Igreja missionária do Pai,
no encontro de todos os povos e culturas na transição da
missão ad gentes para a missão inculturada.
• Na Unidade 3, faremos uma análise da Teologia da Missão
hodierna e o desafio de evangelizar o universo urbano.
Ao abordar o tema da Catequese, apresentamos os princi-
pais conceitos:
1) compartilhar o conhecimento;
2) compromisso e responsabilidade eclesial;
3) inculturação;
4) Reino de Deus.
Esses conceitos são importantes para se compreender a Ca-
tequese e o seu relacionamento com a missão eclesial de evan-
gelizar, partindo dos principais documentos da Igreja Universal,
latino-americana, caribenha e da CNBB. Além desses documentos,
quando for o caso, estudaremos sobre o pensamento dos princi-
pais teólogos que trataram desses temas relacionados com a Cate-
quese, a missão e a evangelização.
Os princípios básicos que norteiam este Caderno de Referên-
cia de Conteúdo serão os de refletir sobre os caminhos da salva-
ção pela Trindade, revelados em Jesus Cristo pelo Espírito Santo
na Igreja, mostrando que o planejamento pastoral é uma das me-
lhores formas de alcançar êxito nas atividades empreendidas, e,
ao mesmo tempo, adquirindo-se uma aprendizagem gradual, in-
dagativa, conflitiva e temática, quando se conhecem as diferentes
correntes teológicas pastorais.
Para aprofundar os temas tratados neste CRC, sugerimos a
leitura do texto a seguir, no qual o autor apresenta os principais
temas da ciência catequética.

Claretiano - Centro Universitário


10 © Teologia Pastoral II: Catequese

REFLEXÕES SOBRE ALGUMAS LINHAS PARA UMA "NOVA


EVANGELIZAÇÃO"––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Para onde vai a catequese atual? (...) indicamos (abaixo) algumas linhas de
força surgidas nestes anos, na perspectiva da preparação para o terceiro milênio
cristão, sintetizadas em cinco notas:
(1) Uma catequese da comunidade
(...) se reconhece à comunidade eclesial um papel determinante na educação
para a fé. A comunidade faz catequese, em primeiro lugar, pelo que é e vive.
A Igreja não pode deixar de evangelizar e catequizar, pois é a sua missão
específica. Na comunidade cristã, todos, por força do batismo, são responsáveis
pelo Evangelho. (...) A Igreja sempre se serviu e ainda hoje continua a servir-se
de agentes para levar a alegre mensagem cristã e para catequizar, isto é, os
catequistas, verdadeiros educadores da fé. É tarefa da Igreja cuidar da formação
espiritual, bíblico-teológica e pedagógico-didática dos catequistas.
(2) Uma catequese para o amadurecimento da fé
O objetivo da catequese é o amadurecimento da fé. (...) A catequese não é
transmissão da doutrina cristã, mas é adesão a Cristo, amadurecimento de uma
mentalidade de fé, aprofundamento da mensagem cristã, iniciação à vida eclesial.
(...) Atualmente, não basta um só método para chegar a esse amadurecimento
da fé, mas é necessária uma pluralidade de itinerários de fé.
(3) Uma catequese para todas as idades da vida
A palavra de Deus é para todos, e, na Igreja, todos devem alimentar-se dela e
crescer na fé. Por isso, a catequese não é um serviço dirigido exclusivamente às
crianças, mas a todas as idades e, de modo mais pleno, aos adultos; deve ser
uma caminhada permanente para todos os cristãos. (...)
(4) Uma catequese de rosto local
A catequese, promovida pelos movimentos catequéticos espalhados pelas várias
nações, foi pouco a pouco assumindo um rosto local (...).
(5) Uma catequese evangelizadora
Atualmente, a catequese parece assumir uma nota comum a todos os ambientes:
a exigência de ter uma função mais evangelizadora e de se colocar em perspectiva
missionária (BOLLIN; GASPARINI, 1998, p. 243-244).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Depois dessas palavras de introdução ao tema da Cateque-


se, disponibilizamos, a seguir, no tópico Orientações para estudo,
sugestões que podem motivá-lo ao estudo, isto é, algumas dicas e
possíveis estratégias de aprendizagem que, certamente, darão a
você força para continuar perseverante na leitura do CRC.
Desejamos a você sucesso em seus estudos e pesquisas,
bem como nas interatividades e atividades!
© Caderno de Referência de Conteúdo 11

2. ORIENTAÇÕES PARA ESTUDO

Abordagem Geral
Aqui, você entrará em contato com os assuntos principais
deste conteúdo de forma breve e geral e terá oportunidade de
aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. Desse
modo, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento
básico necessário a partir do qual você possa construir um referen-
cial teórico com base sólida — científica e cultural — para que, no
futuro exercício de sua profissão, você a exerça com competência
cognitiva, ética e responsabilidade social.
Para seu estudo de Teologia Pastoral II, é muito importan-
te que você tenha assimilado o conceito de compromisso e res-
ponsabilidade eclesial, pois é por meio dele que se realiza uma
evangelização comprometida com o ser humano, criatura divina,
razão pela qual a Igreja chama todos os seus fiéis a dedicar-se inte-
gralmente ao processo missionário de ensinar e dar a conhecer o
projeto trinitário de salvação. Realizando o trabalho evangelizador
e missionário, estamos anunciando o Reino de Deus, uma ideia tão
cara na pregação de Cristo, que o fazia passar por todas as aldeias
do seu tempo.
Tal ação pastoral não pode deixar de levar em conta o seu
processo de inculturação, isto é, de adaptação à linguagem e à
compreensão dos destinatários, de modo que sua adesão ao Evan-
gelho seja consciente e amorosa. Por fim, outra competência re-
querida para esse estudo é a de que se compartilhe o conhecimen-
to, pois "não se coloca um candeeiro debaixo da cama, mas no
alto, para iluminar a todos" (Mt 4,21).
Esperamos que você aceite este desafio e venha conosco fa-
zer essa experiência fabulosa de aprofundar seus conhecimentos a
respeito da Catequese, da atividade missionária e evangelizadora
da Igreja! Um forte abraço e bons estudos!

Claretiano - Centro Universitário


12 © Teologia Pastoral II: Catequese

Glossário de Conceitos
O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rápi-
da e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom
domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de co-
nhecimento dos temas tratados em Teologia Pastoral II: Cateque-
se. Veja, a seguir, a definição dos principais conceitos:
1) Compartilhar o conhecimento: num mundo tão mar-
cado pelas redes sociais, pela busca de dividir conhe-
cimentos, sentimentos e esperanças, a Catequese não
poderia deixar também de partilhar o que ensina com as
pessoas a quem se quer bem. Sob a óptica da amizade,
o conteúdo da Catequese é uma grande riqueza que se
deseja ardentemente partilhar com os demais.
2) Compromisso e responsabilidade eclesial: a missão
cristã não se refere apenas ao ensino de uma doutrina,
mas, sobretudo, tem uma dimensão prática na constru-
ção do Reino de Deus, que toma como ponto de par-
tida os valores do compromisso e da responsabilidade
eclesial, enquanto transforma o mundo em que vivemos
num mundo melhor e mais justo. O Evangelho deve ser
como o fermento que faz a massa crescer, atuando de
forma positiva no meio da sociedade e da Igreja, bem
como mostrando que a Catequese também está presen-
te na vida das pessoas.
3) Inculturação: a Catequese utiliza a linguagem própria de
cada cultura, adaptando-a conforme as circunstâncias,
os momentos e as idades dos catequizandos, havendo
a consciência de que essa inculturação é uma fidelidade
à mensagem eterna e sempre renovada do anúncio de
Cristo. O trabalho de adequação do Evangelho às realida-
des dos catequizandos é árduo, necessitando ser acom-
panhado pelo grupo de catequistas, para que o processo
não desvie de sua fidelidade à mensagem cristã.
4) Reino de Deus: é o conteúdo do anúncio que Jesus re-
alizava de cidade em cidade, na busca de um reinado
marcado pela justiça, pelo amor e pela paz. A Catequese,
a missão e a evangelização ligam-se a esse anúncio, uma
vez que comprometem os catequizandos na construção
© Caderno de Referência de Conteúdo 13

desse Reino, por meio dos princípios fundamentais do


cristianismo, ou seja, pela entrega amorosa e sem reser-
vas de Deus Pai aos seres humanos, por meio da morte e
da ressurreição de Cristo, na unidade do Espírito Santo.

Esquema dos Conceitos-chave


Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais
importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um
Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você
mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o
seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o
seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas
próprias percepções.
É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos
Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en-
tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais
complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você
na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de
ensino.
Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-
-se que, por meio da organização das ideias e dos princípios em
esquemas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu co-
nhecimento de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pe-
dagógicos significativos no seu processo de ensino e aprendiza-
gem.
Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es-
colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas
em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda,
na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es-
tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos
conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim,
novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem
pontos de ancoragem.

Claretiano - Centro Universitário


14 © Teologia Pastoral II: Catequese

Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape-


nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci-
so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure
como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con-
siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais
de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei-
tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez
que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog-
nitivas, outros serão também relembrados.
Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é você
o principal agente da construção do próprio conhecimento, por
meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações internas
e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por objetivo tor-
nar significativa a sua aprendizagem, transformando o seu conhe-
cimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja, estabele-
cendo uma relação entre aquilo que você acabou de conhecer com
o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo (adaptado do
site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/edutools/mapascon-
ceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em: 16 nov. 2011).
Como poderá observar, esse Esquema oferecerá a você,
como dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos
mais importantes deste estudo. Ao segui-lo, será possível transitar
entre os principais conceitos e descobrir o caminho para construir
o seu processo de ensino-aprendizagem. Por exemplo, o conceito
de inculturação implica o domínio das exigências da responsabi-
lidade e do compromisso eclesial, bem como a necessidade de
compartilhar o conhecimento, para que o Reino de Deus se difun-
da cada vez mais entre os seres humanos. Não havendo o domí-
nio conceitual desse processo explicitado pelo Esquema, pode-se
ter uma visão desfocada da temática da Catequese proposta neste
CRC.
© Caderno de Referência de Conteúdo 15

O QUE É MISSÃO?
Missão

POR QUE EVANGELIZAR? Igreja
Trinitária A QUEM CATEQUIZAR?

Reino de Deus Compromisso e


Inculturação
responsabilidade
eclesial
Compartilhar o
conhecimento

Amizade Transformar
Sacrifício

Amor Entrega
O mundo As pessoas

Diálogo com o
Vaticano II – mundo (Gaudium
Antecedentes Lumen Gentium et Spes)

Missão (Ad
gentes)
Evangelizar
Reflexões teológicas Catequese
(Evangelii
Renovada
Nuntiandi)

Missão Encontro com Evangelizar o


hodierna as culturas universo urbano

Demais documentos
da CNBB

Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave do Caderno de Referência de Conteúdo de Teologia


Pastoral II: Catequese.

O Esquema dos Conceitos-chave é mais um dos recursos de


aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no ambien-
te virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como

Claretiano - Centro Universitário


16 © Teologia Pastoral II: Catequese

àqueles relacionados às atividades didático-pedagógicas realiza-


das presencialmente no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD,
deve valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio co-
nhecimento.

Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem
ser de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertati-
vas.
Responder, discutir e comentar essas questões, bem como
relacioná-las com o anúncio do Reino de Deus pode ser uma forma
de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a resolução
de questões pertinentes ao assunto tratado, você estará se prepa-
rando para a avaliação final, que será dissertativa. Além disso, essa
é uma maneira privilegiada de você testar seus conhecimentos e
adquirir uma formação sólida para a sua prática profissional.

As questões de múltipla escolha são as que têm como resposta


apenas uma alternativa correta. Por sua vez, entendem-se por
questões abertas objetivas as que se referem aos conteúdos
matemáticos ou àqueles que exigem uma resposta determinada,
inalterada. Já as questões abertas dissertativas obtêm por
resposta uma interpretação pessoal sobre o tema tratado; por isso,
normalmente, não há nada relacionado a elas no item Gabarito.
Você pode comentar suas respostas com o seu tutor ou com seus
colegas de turma.

Bibliografia Básica
É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus es-
tudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as bibliogra-
fias apresentadas no Plano de Ensino e no item Orientações para o
estudo da unidade.
© Caderno de Referência de Conteúdo 17

Figuras (ilustrações, quadros...)


Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte-
grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustra-
tivas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no
texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os con-
teúdos, pois relacionar aquilo que está no campo visual com o con-
ceitual faz parte de uma boa formação intelectual.

Dicas (motivacionais)
Este estudo convida você a olhar, de forma mais apurada,
a Educação como processo de emancipação do ser humano. É
importante que você se atente às explicações teóricas, práticas e
científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem
como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com-
partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite-se
descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a
notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, portanto,
uma capacidade que nos impele à maturidade.
Você, como aluno do curso de Bacharelado em Teologia na
modalidade EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e
consistente. Para isso, você contará com a ajuda do tutor a dis-
tância, do tutor presencial e, sobretudo, da interação com seus
colegas. Sugerimos, pois, que organize bem o seu tempo e realize
as atividades nas datas estipuladas.
É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em
seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-
rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ-
ções científicas.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discu-
ta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoau-
las.

Claretiano - Centro Universitário


18 © Teologia Pastoral II: Catequese

No final de cada unidade, você encontrará algumas questões


autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os
conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos
para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas,
pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure-
cimento intelectual.
Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na
modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando
sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a
este Caderno de Referência de Conteúdo, entre em contato com
seu tutor. Ele estará pronto para ajudar você.

3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBERICH, E. Catequese evangelizadora: manual de catequética fundamental. São Paulo:
Salesiana, 2004.
BOLLIN, A.; GASPARINI, F. A catequese na vida da Igreja: notas de história. São Paulo:
Paulinas, 1998.
BOSCH, D. A missão transformada: mudanças de paradigmas na Teologia da Missão. 2.
ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

4. E-REFERÊNCIAS
BRUSTOLIN, L. Fórum da Igreja Católica no RS, set. 2007. Desafios para a catequese,
hoje. Disponível em: <http://www.catedraldecaxias.org.br/documentos/
desafiosparaacatequese.doc>. Acesso em: 13 ago. 2013.
CNBB. A catequese renovada: orientações e conteúdo — Doc. 26 (1983). Disponível
em: <http://www.diocese-braga.pt/catequese/sim/biblioteca/publicacoes_online/385/
catequese_renovada.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2013.
______. Diretório nacional de catequese. Doc. n. 84. São Paulo: Paulinas, 2007.
Disponível em: <http://catequistabr.dominiotemporario.com/doc/Diretorio_nacional_
de_catequese_84.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2013.
EAD
O Problema da Catequese
como Missão e
Evangelização na Igreja:
o Compromisso e a
Responsabilidade
Eclesial 1
1. OBJETIVOS
• Compreender a Catequese e a missão como ações de
evangelização inicial e como atitudes permanentes da
Igreja.
• Conhecer o anúncio do Reino de Deus como missão e
evangelização transformadora na Igreja.
• Valorizar a formação catequética e missionária dos cris-
tãos.
• Interpretar fatos relevantes da Catequese para o compro-
misso e a responsabilidade eclesial.

2. CONTEÚDOS
• Luzes e sombras da Catequese.
• O anúncio do Reino de Deus como missão e evangelização
transformadora na Igreja.
20 © Teologia Pastoral II: Catequese

• Formação catequética e missionária.


• Catequese, compromisso e responsabilidade.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Procure ter bem claro em sua mente o significado dos
conceitos explicitados no Glossário e as respectivas li-
gações do Esquema dos Conceitos-Chave. Eles podem
ajudá-lo no estudo de todas as unidades deste CRC. Cer-
tamente isso poderá facilitar sua aprendizagem e melho-
rar seu desempenho.
2) Lembre-se de que estamos partindo de uma concepção
de Catequese e de missão que não é exclusiva e defi-
nitiva, porque há muitas outras correntes catequéticas,
impossíveis de serem tratadas todas aqui. Apresentare-
mos algumas delas, mas será de sua responsabilidade a
pesquisa em livros e na Internet das outras correntes ca-
tequéticas. Se encontrar algo interessante, disponibilize
tal informação para seus colegas na Lista, uma vez que
você é o protagonista do seu processo educativo.
3) Estude os documentos do Vaticano II (especialmente Lu-
men Gentium, Gaudium et Spes, Dei Verbum e Ad Gen-
tes), os documentos dos Sínodos dos Bispos (particular-
mente a Evangelii Nuntiandi e a Catechesi Tradendae),
das Assembleias Gerais do Episcopado Latino-America-
no (Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida) e da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre
a evangelização, a missão e a Catequese, para que você
compreenda como foram concebidos tais termos, diante
do desafio de evangelizar os novos tempos. Descubra as
propostas essenciais presentes nesses documentos ecle-
siais. Com base nessa pesquisa, levante alguns questio-
namentos: quando concluir o bacharelado de Teologia,
de que forma agirei na Catequese? Qual será a minha
contribuição para a evangelização e a missão eclesial?
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 21

4) Compare a bibliografia indicada, que o ajuda a aprofun-


dar seus horizontes teórico-práticos, com o material di-
dático e discuta a unidade com seus colegas e tutor.
5) Até o momento, procuramos mostrar a multiplicidade
de visão sobre a Catequese. Leia o texto de Solange Ma-
ria do Carmo, intitulado Catequese hoje: limites e ten-
dências; ele pode ajudá-lo a compreender melhor os de-
safios da Catequese enfrentados atualmente. Disponível
em: <http://www.catequesehoje.org.br/index.php/
outro-olhar/catequese-e-modernidade/114-catequese-
-hoje-limites-e-tendencias>. Acesso em: 29 jul. 2013.
6) Conheça um pouco da história da Catequese no Brasil,
a fim de ajudá-lo neste estudo. Para saber mais sobre o
tema, acesse os sites indicados a seguir:
a) A história da Catequese no Brasil. Disponível em:
<http://www.artigonal.com/religiao-artigos/a-his-
toria-da-catequese-no-brasil-709653.html>. Acesso
em: 29 jul. 2013.
b) O blog "Fortalecendo a nossa fé" traz a história geral
da Catequese. Disponível em: <http://fortalecendo-
anossafe.blogspot.com.br/2007/09/histria-da-cate-
quese.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
c) O site "Catequese católica" traz alguns artigos de
bispos e teólogos brasileiros que escrevem sobre a
Catequese de uma forma clara e objetiva. Disponí-
vel em: <http:/catequisar.com.br>. Acesso em: 29
jul. 2013.
d) O portal da Catequese, de origem portuguesa, está
no Facebook, disponível em: <http://pt-br.facebook.
com/ABCdaCatequese>. Acesso em: 29 jul. 2013.
e) Dois documentos importantes da CNBB sobre a Ca-
tequese estão disponíveis on-line:
• Catequese renovada orientações e conteúdo
(1983) — Doc. 26. Disponível em: <http://www.
diocese-braga.pt/catequese/sim/biblioteca/pu-
blicacoes_online/385/catequese_renovada.pdf>.
Acesso em: 29 jul. 2013;

Claretiano - Centro Universitário


22 © Teologia Pastoral II: Catequese

• Diretório nacional de catequese (2005) — Doc.


84. Disponível em: <http://catequistabr.dominio-
temporario.com/doc/Diretorio_nacional_de_ca-
tequese_84.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2013.
7) Para aprofundar ainda mais seus conhecimentos sobre o
catecismo solicitado pelo Concílio de Trento e o catecismo
holandês, acesse o site sugerido. Disponível em: <http://
www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/290312-
-W3Y7ZhdqZbh.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2013.
8) Aproveitando a riqueza proporcionada pelas tecnolo-
gias, fruto desse mundo contraditório, poderíamos su-
gerir dois vídeos formativos sobre a Catequese que nos
fazem refletir sobre como poderíamos usar melhor es-
sas tecnologias da comunicação e informação:
a) Dia dos catequistas: mensagem da CNBB. Brasil,
2010. Disponível em: <http://youtube/0RdizIGZBjk>.
Acesso em: 29 jul. 2013.
b) Formación de catequistas. Disponível em: <http://
youtube/nAPX5Ehk7YM>. Acesso em: 29 jul. 2013.
9) Dedique-se alguns minutos a ler o artigo de Luiz Alves de
Lima, Ano catequético nacional e novos paradigmas da
Catequese: apresentação do Diretório Nacional de Ca-
tequese, publicado na Revista Perspectiva Teológica, v.
41, n. 115, p. 413-430, set. 2009. Disponível em: <http://
www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/ar-
ticle/view/87/135>. Acesso em: 29 jul. 2013.
10) Você pode também embasar melhor seus conhecimen-
tos sobre o panorama da Catequese sob a influência do
Concílio Vaticano II, baixando o texto Panorama da cate-
quese, nos 40 anos do Concílio Vaticano II, de Israel José
Nery, publicado na Revista Perspectiva Teológica, v. 37,
n. 103, p. 381-397, 2005. Disponível em: <http://www.
faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/
view/379/719>. Acesso em: 29 jul. 2013.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 23

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Ao iniciarmos esta Unidade 1, devemos ressaltar o valor da
Catequese e da missão como ações da evangelização inicial na
Igreja, sendo atitudes permanentes das quais ela não pode abrir
mão, pois estão inseridas na missão evangelizadora como ativida-
de de iniciação à fé.
A Catequese, a missão e a evangelização têm realizado
grandes avanços na Igreja nesses últimos 50 anos. Sabemos que
os passos já dados por elas pela renovação foram significativos,
mas ainda há vários outros em direção a uma Catequese, missão
e evangelização autênticas, educadoras e significativas para a vida
das pessoas e da Igreja.
Seguindo essa linha de pensamento, você deve ter percebi-
do que temos muitos desafios pela frente, começando pelos ques-
tionamentos básicos para contextualizar sua aprendizagem. Você
já parou para pensar nessas três perguntas conceituais fundamen-
tais, que podem mudar o jeito de fazer o seu trabalho pastoral?
• O que é missão?
• Por que evangelizar?
• A quem catequizar?
Temos consciência de que o mundo mudou e de que o Evan-
gelho já não permeia toda a sociedade como o fazia no período
da cristandade (Idade Média). Para enfrentar essa nova realidade,
nossa abordagem também precisa ser diferente: não basta mais
que a Catequese (a missão e a evangelização) seja doutrinal, mas
precisa ter como referencial a Bíblia como texto principal, os mo-
mentos celebrativos, o princípio de interação fé e vida, o valor e a
importância da caminhada da comunidade de fé como ambiente e
conteúdo de educação da fé. Para Magalhães (2013), é esse novo
dinamismo missionário evangelizador que deve adquirir as carac-
terísticas de um real processo de iniciação à fé.

Claretiano - Centro Universitário


24 © Teologia Pastoral II: Catequese

Para que você compreenda melhor as ideias expostas, leia o


texto a seguir:

Catequese Renovada––––––––––––––––––––––––––––––––––
[...] O documento Catequese renovada da CNBB mudou os paradigmas
da catequese no Brasil. As principais características, entre outras, desse
documento e de sua práxis posterior podem ser assim apontadas: a) Catequese
como processo de iniciação à vida de fé: é o deslocamento de uma catequese
simplesmente doutrinal para um modelo mais experiencial, e da catequese
das crianças para a catequese com adultos [...]; b) Iniciação à vida de fé em
comunidade: conforme a pedagogia de Deus, que se revela no dia a dia das
pessoas que vivem em comunidade [...]; c) Processo permanente de educação
da fé: se a catequese é o momento da iniciação à fé, a formação cristã se prolonga
pela vida inteira [...]; d) Catequese cristocêntrica: conduz ao centro do Evangelho
(querigma), à conversão, à opção por Jesus Cristo que nos revela o Pai, no
Espírito Santo (dimensão trinitária), e ao seu seguimento [...]; e) Ministério da
Palavra: a catequese é considerada anúncio da Palavra de Deus, a serviço da
qual se coloca [...]. Confira as demais características no Diretório Nacional de
Catequese (CNBB, 2005, n. 84) [...].
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Figura 1 A Catequese e a Palavra de Deus.

Nesta unidade, daremos enfoque à Catequese (Figura 1),


perpassando, em alguns momentos, pela evangelização; deixare-
mos a missão para ser tratada nas próximas unidades.
Abordaremos aqui os problemas que a Catequese enfren-
ta atualmente, mas, também, as grandes oportunidades que se
descortinam diante de nós, se fizermos um excelente trabalho de
evangelização. As sombras que pairam sobre a Catequese, ao lon-
go da nossa caminhada, não podem nos assustar, mas nos motivar
para o trabalho pastoral.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 25

A Catequese e a evangelização precisam ser transformado-


ras na Igreja, no seu peregrinar e dialogar com o mundo. Para isso,
é preciso formar os cristãos para o desafio catequético e evangeli-
zador. Ao destacar a Catequese como compromisso e responsabi-
lidade eclesial, devemos reafirmar que ela não pode se restringir
à transmissão da doutrina, mas precisa ser vivenciada e praticada,
mudando a forma de visão do mundo e de se comprometer com
ele.

5. LUZES E SOMBRAS DA CATEQUESE


Há momentos em que muitos cristãos desanimam diante das
dificuldades encontradas ao exercer suas atividades pastorais, par-
ticularmente quando se deparam com um público que não quer
fortalecer a fé, que não aceita ser também alvo da evangelização e
da Catequese. Há inclusive aqueles que se perguntam se realmen-
te a Catequese ainda funciona hoje e qual seu futuro para a Igreja.
O teólogo Wolfgang Gruen (2004), (Figura 2), alemão de ori-
gem, mas radicado no Brasil há muitos anos e que já publicou di-
versos livros e artigos na área da Catequese, acredita que:
nas últimas décadas, por exemplo, eclodiu a "revolução informáti-
ca", com um mosaico paradoxal de mudanças sem igual, em todas
as áreas. Não é só o cenário que está em constantes mudanças: o
próprio nosso olhar não pára de mudar. Nas incessantes interações
com tantas outras áreas — heterogêneas, complexas — sentimos
necessidade de rigorosa revisão geral, também da área do cultivo
da fé: natureza, objetivos, limites, conteúdo/métodos, conclusões.
É a crise das epistemologias que bate à porta também da Catequé-
tica [...].

Claretiano - Centro Universitário


26 © Teologia Pastoral II: Catequese

Figura 2 Pe. Wolfgang Gruen.

Com uma proposta de abertura a essas possíveis mudanças,


o Concílio Vaticano II incrementou na vida da Igreja, nesses últimos
tempos, o problema da Catequese, mesmo que seus documentos
não tenham tratado direta e explicitamente desse tema, mas a sua
influência no campo catequético foi determinante e profunda.
Conforme afirma Alberich (2004, p. 35-36), (Figura 3), o pen-
samento conciliar marcou de forma decisiva a identidade da Cate-
quese. Vejamos:
[...] seu objeto ou conteúdo (a palavra de Deus, sendo a catequese
anúncio e serviço da palavra), seu sujeito (o ser humano crente,
pois a catequese se define como educação da fé) e o pólo institu-
cional (a Igreja, dado que a catequese é obra e expressão da Igreja).
Basta pensar nos grandes documentos conciliares que se referem
a essas três realidades fundamentais: a palavra, a fé e a Igreja [...].

Figura 3 O teólogo Emílio Alberich.

Precisamos, então, empreender uma reflexão sobre a iden-


tidade e as tarefas da Catequese hoje, partindo da observação
atenta da situação concreta, para não ficarmos distantes dos pro-
blemas e dos desafios que são lançados constantemente. Em ou-
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 27

tras palavras, ao percebermos as sombras, podemos lançar luzes,


desenhando um futuro para a Catequese, e não correndo o risco
de falar uma linguagem incompreensível daquela que nossos cate-
quizandos usam no dia a dia.
Com o Vaticano II, a história da Catequese ficou marcada
com o fim do período dos catecismos e da memorização para a
transmissão cristã, que tanto impulsionou a educação da fé desde
as determinações do Concílio de Trento (Figura 4); a Catequese
foi reconduzida à sua fonte inicial, que é a palavra de Deus, da
qual parte toda educação da fé, toda atitude existencial e global
do ser humano, posicionando-se dentro do projeto trinitário de
uma Igreja em comunhão e participação.

Figura 4 Concílio de Trento.

No empenho de reformar os inúmeros problemas internos


que estavam disseminados por toda a Igreja, salvo algumas exce-
ções, o Concílio de Trento "decidiu que seus padres, para dar con-
ta de toda uma revitalização de seu poder, tinham que ser instru-
ídos, melhor preparados para continuar seu magistério junto aos

Claretiano - Centro Universitário


28 © Teologia Pastoral II: Catequese

católicos" (COSTA; MARTINS, 2010, p. 86), por meio da publicação


do Catechismus Romanus ou Catecismo do Santo Concílio Tridenti-
no, realizado pelo papa São Pio V (1566-1572).
A Igreja não havia fechado os olhos para os problemas:
[...] que foram potencializados pelo advento das igrejas protestan-
tes oriundas das reformas religiosas do século XVI. Em contraposi-
ção aos pontos que foram objeto de rompimento das novas religi-
ões cristãs, a Igreja Romana reafirmou a sua hierarquia, reafirmou o
comando absoluto do papa, reafirmou todos os sacramentos como
substanciais à vida dos cristãos, reafirmou, em síntese, sua teolo-
gia que fora inicialmente formalizada na Idade Média [...] (COSTA;
MARTINS, 2010, p. 86).

Esse catecismo perdurou na Igreja por mais de quatro sé-


culos e inspirou diversos outros catecismos, inclusive o que sur-
giu imediatamente após o Vaticano II, o famoso Novo catecismo
holandês: a fé para adultos, publicado em 1966 pela Conferência
Episcopal Holandesa, fazendo com que a Santa Sé exigisse a apro-
vação para todo e qualquer catecismo e diretório nacional, além
de instituir uma comissão de teólogos para estudar um catecismo
que pudesse servir a toda Igreja. Esse projeto culminou com a pu-
blicação do Catecismo da Igreja Católica (CIC) em 1992, aprovado
pelo papa João Paulo II.
Ao estarmos atentos aos acontecimentos do mundo, perce-
bemos que nele há novas exigências para se buscar respostas aos
desafios de uma sociedade em profundas mudanças. No entanto,
não há só problemas, mas também há muitas luzes, como aponta
o Diretório geral para a Catequese (VATICANO, 1997, n. 29), (Figu-
ra 5), ao destacar os aspectos positivos da atual situação da Cate-
quese:
1) grande número de catequistas;
2) caráter missionário e catecumenal da ação catequética;
3) incremento da Catequese para adultos;
4) maior densidade e profundidade do pensamento cate-
quético;
5) novas formas de comunidade;
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 29

6) crescente exigência de formação religiosa;


7) novas formas de leitura bíblica etc.

Figura 5 Diretório geral para a Catequese.

No entanto, teólogos, como Alberich (2004, p. 37), mostram


que ainda há sombras que pairam sobre ela, pois "o sistema tradi-
cional da Catequese já não funciona, não produz os frutos espera-
dos", principalmente em razão dos seguintes problemas:
1) Crise e falência do processo tradicional de iniciação cris-
tã e da socialização religiosa na família e na escola. O
Sacramento da Confirmação, infelizmente, é ainda com-
preendido como uma "conclusão" da vida cristã e, de-
pois de sua recepção, "não tem mais nada a aprender
sobre a fé cristã". Parece que ficaram parados no tempo
todos os mecanismos de transmissão da fé e dos valo-
res pelos tradicionais agentes da educação, que eram
a família, a escola e a Igreja. Assim, há poucos agentes
pastorais e catequistas empenhados em usar as "redes
sociais" para divulgar, influenciar e ter como seguidores
um grupo maior de jovens e adolescentes.
2) Algumas iniciativas já têm tido resultados, como a rede
social dos catequistas do Brasil (Figura 6), reunindo as
principais e mais conhecidas redes sociais. A cultura
ambiental e os meios de comunicação social ainda não
assumiram a frente como agentes de socialização, mos-
trando-se emperrados e deficientes.

Claretiano - Centro Universitário


30 © Teologia Pastoral II: Catequese

Figura 6 Rede social dos catequistas do Brasil.

3) Há uma crise na pastoral sacramental, porque a maioria


das pessoas que busca os sacramentos quer apenas um
ritual de passagem ou uma satisfação para responder às
exigências sociais.
4) Percebe-se que ainda perdura a Catequese precária para
adultos. É urgente e primordial que a Catequese favore-
ça o crescimento de uma fé adulta numa Igreja adulta.
Infelizmente, há muitas práticas infantilizadoras da Ca-
tequese, que estão distantes das exigências e das carac-
terísticas da fé adulta do mundo de hoje. Essas práticas
inserem-se em pedagogias impróprias para cada idade
e/ou abordam conteúdos já superados, deixando de tra-
tar dos temas centrais da fé cristã (por exemplo, o amor
de Deus na história humana) e enfocando mais o pecado
e a condenação divina. Os pastores e os fiéis têm medo
de amadurecer e, por isso, preferem refugiar-se na reli-
giosidade dócil e infantil, por ser mais cômoda a todos.
5) Outro aspecto que ainda obnubila a Catequese é a se-
paração entre a fé e a cultura, levando a uma crise da
linguagem catequética (Figura 7). Quem sabe um dia se
consiga desenvolver a capacidade de apresentar a men-
sagem cristã de forma inteligível e significativa para os
homens e as mulheres contemporâneos? Assim, poder-
-se-ia diminuir os problemas da linguagem, facilitando
sua significação para as pessoas.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 31

Figura 7 O difícil diálogo entre fé e cultura.

6) A última sombra que paira sobre a Catequese é a forma-


ção insuficiente dos catequistas, dos agentes pastorais
e dos sacerdotes. No período de formação dos futuros
padres nos seminários e dos catequistas e agentes pas-
torais nas paróquias, essa formação ainda não está ocor-
rendo de maneira adequada, com a profundidade e a
dedicação necessárias.
Na busca de conhecer quem são os responsáveis por esses
problemas, corre-se o risco de polarização de quem é a culpa,
mencionando-se que seja o mundo (a sociedade) ou os destinatá-
rios (jovens, família etc.). Alguns culpam também a própria Igreja,
sua pastoral ou, até mesmo, a renovação catequética pós-conciliar.
Contudo, não se pode responder de forma simplória e direta, por-
que é preciso fazer uma análise mais detalhada e verificar se o
problema refere-se somente ao aspecto catequético ou abrange
muitos outros aspectos e setores da pastoral da Igreja.
Você já parou para pensar nisso? Você tem uma posição com
relação a esse tema? Se você quiser, agora é um excelente mo-
mento para construir seu conhecimento generativo, isto é, o co-
nhecimento que favorece o conhecimento de forma colaborativa,
junto com seu professor/tutor e seus colegas. Então, procure no
debate dos fóruns aprofundar possíveis respostas a esses questio-
namentos!

Claretiano - Centro Universitário


32 © Teologia Pastoral II: Catequese

A crise não está inserida apenas no cristianismo ou na Igreja,


mas "ela faz parte de uma crise muito mais ampla" (VATICANO,
1997, n. 17-23), que é a do mundo, bastante modificado em rela-
ção ao passado. Este vem atravessando muitas transformações de
ordem sociocultural, política e econômica, as quais condicionam
fortemente os processos de socialização religiosa, o que não per-
mite a educação da fé, de maneira sistemática e madura, dificul-
tando o acompanhamento de todas as fases da vida das pessoas.
Acredita-se que há uma crise nas instituições religiosas e das
religiões tradicionais, porque vivemos numa sociedade seculariza-
da, na qual a religião é tida como uma realidade desprezada e sem
valor. O capitalismo e o consumismo, ideologias impregnadas pelo
egoísmo, valorizam demais o ter em detrimento do ser, apregoam
o "prazer" acima de todas as coisas. Assim, nessa sociedade plu-
ralista, a religião é apenas mais uma opção entre tantas outras,
porque há muitos "produtos" no mercado que estão disponíveis
para o "consumo". Apesar dessa visão tão negativa, podem-se en-
contrar ainda aspectos positivos nessa sociedade plural, como a
liberdade religiosa, que deixa as pessoas agirem conforme suas
consciências, sem se atrelarem às tradições ou às autoridades.
Nos censos oficiais divulgados pelo poder público, a cada
década, há notícias de que as grandes religiões tradicionais estão
perdendo credibilidade, em razão também da crise dos sistemas e
das instituições, que parecem pouco merecedores de confiança.
As pessoas não se sentem vinculadas às suas crenças de origem,
pelas quais foram educadas por seus pais, nem possuem vínculos
com as doutrinas ou as declarações do magistério eclesiástico.
Na verdade, a maioria das pessoas querem, simplesmen-
te, seguir "o que acreditam que esteja certo" ou "aquilo que lhes
é conveniente", adotando inclusive posições sincréticas, isto é,
"apanham" as partes "boas" de várias religiões e "montam" a sua
própria, conforme a conveniência, desprezando o que é exigência
de cada religião e os aspectos difíceis do seu seguimento.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 33

Veja a Figura 8, a seguir, que trata do credo do jovem brasi-


leiro.

Figura 8 O credo do jovem brasileiro.

A Catequese tem que enfrentar essas situações, incluindo a


ideia de que a religião é apenas uma experiência efêmera, des-
cartável e passageira: são frequentes as adesões e as convicções
parciais, provisórias e fragmentárias. Como analisa Alberich (2004,
p. 46):
[...] Tem-se medo dos compromissos de longo prazo (casamento),
das verdades e valores definitivos. Prefere-se a opção provisória,
a experimentação, a adesão parcial [...]. Vive-se uma espécie de
"religião à la carte", de religião "faça você mesmo", religião "pa-
tchwork", na qual cada um "prepara a própria sopa religiosa", de
uma maneira fragmentária, desorganizada, muitas vezes contradi-
tória [...].

Para agravar essa situação, há também uma separação en-


tre fé e vida, fé e cultura, caracterizando a religião como algo "in-
-significante", ou seja, muitos cristãos julgam que devem escolher

Claretiano - Centro Universitário


34 © Teologia Pastoral II: Catequese

a vida e a cultura, abandonando a fé, e que a prática da fé se dá


tão somente dentro dos templos religiosos, e não na vida diária.
Finalmente, sabemos que na sociedade midiática a religião
é uma realidade fluida, virtual e fragmentada, que deve ser carac-
terizada como "realidade-espetáculo", na qual o importante são
as emoções, o choro, a expressão exacerbada de sentimentos etc.
Infelizmente, a fé cristã ficou reduzida ao papel de proposta mar-
ginal ineficaz, produto perdido, esmagado pela poderosa máqui-
na socializante e restritiva, diante da qual a experiência religiosa é
insignificante e marginal, ou seja, realidade que não goza de boa
imagem, porque a cultura oferecida pela mídia é da superficialida-
de.
Observe a Figura 9, a seguir, que ilustra a formação de cate-
quistas.

Figura 9 Formação de catequistas.

Com base em todas essas sombras, a Igreja oferece algumas


respostas pastorais, tais como:
1) uma nova evangelização, como opção pastoral prioritá-
ria;
2) o anúncio do Reino de Deus como missão e evangeliza-
ção transformadora na Igreja;
3) uma pastoral missionária ou como passagem de uma
pastoral de conservação para uma pastoral evangeliza-
dora, missionária;
4) uma inculturação da fé, de forma que possa superar a
separação entre fé e cultura;
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 35

5) um planejamento pastoral, para superar a improvisação


e o empirismo ou "achismo".
É preciso ter cuidado ao fazer análise da realidade na qual
estamos inseridos, conforme nos adverte o teólogo G. Adler (1996,
p. 144), pois podemos obter respostas inadequadas, como "a con-
denação inapelável de uma 'cultura de morte', a restauração, a
redução horizontalista, a fuga na pura interioridade" que "têm o
grave defeito, seja de rejeitar a modernidade, seja de contorná-la,
seja de fundir-se nela sem espírito crítico, impelindo a religião para
a esfera do privado". Em outras palavras, pode-se afirmar que são
duas posições insatisfatórias:
• Distância cultural e rotina pastoral: faltam diálogo cultu-
ral, avaliação e planejamento, seguindo as mesmas linhas
de sempre, com costumeiro tom doutrinal e sistemático.
• Demonização do mundo e da cultura: diante da conde-
nação do mundo como perdido, assumem-se posições
fundamentalistas, integristas, inspiradas no saudosismo e
na rigidez doutrinal. As saídas para tais posições estão na
forma de cruzada para converter as pessoas ou na fuga do
mundo, considerado irrecuperável.
Essas atitudes são muito frequentes e aprofundam o fosso
da desconfiança recíproca entre Igreja e mundo moderno, obstá-
culos para os esforços de evangelização.
Veja a representação do Bom Pastor na Figura 10 a seguir.

Claretiano - Centro Universitário


36 © Teologia Pastoral II: Catequese

Figura 10 O Bom Pastor.

A abertura pastoral ao futuro começa no reconhecimento de


que a crise pela qual estamos passando é de ordem cultural. Não
é o cristianismo que está em crise e, sim, sua concreta realização
histórica, que já teve seu tempo e requer transformações. Talvez
caiba aqui uma revisão, em profundidade, da identidade e da mis-
são do cristianismo na nossa sociedade, num novo modelo de cris-
tão, com a renovação da comunidade cristã e novo e convincente
projeto da Igreja.
É preciso também reconhecer que a práxis pastoral das co-
munidades cristãs não acompanhou o ritmo dos tempos, parecen-
do ter estagnado no tempo da cristandade. O mundo atual não
está mais distante do Evangelho do que o de outras épocas, pois
tal fato vem ocorrendo e, provavelmente, se repetirá no futuro.
A proposta da Igreja, em seus diversos documentos gerais,
latino-americanos e caribenhos ou nacionais, nos conclama para
a Catequese em um renovado projeto pastoral de evangelização.
É importante colocá-la dentro de um contexto de projeto pastoral
corajoso e aberto, numa perspectiva de evangelização e de diálogo
cultural. Ela não pode ficar isolada no conjunto da ação pastoral,
uma vez que precisa estar envolvida em uma ação programática e
global a serviço de um projeto pastoral muito mais bem elaborado.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 37

Algumas perguntas insistem em ser realizadas, não querem


calar: "para que Igreja devemos nos encaminhar?"; "O que é pre-
ciso para se ter uma ação ou um testemunho de todos os cristãos,
que permita mudar a situação atual?"; "Como se pode falar de
uma Igreja (ekklesia, que, na origem etimológica, significa "reu-
nião de convocados") a serviço de uma missão?".
Veremos no próximo item o desafio de anunciar o Reino de
Deus como uma ação transformadora da missão e da evangeliza-
ção na Igreja.

6. O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS COMO MISSÃO E


EVANGELIZAÇÃO TRANSFORMADORA NA IGREJA
A expressão "missão transformadora" vem da obra de Bos-
ch (2007), (Figura 11), que mostra as mudanças de paradigma na
Teologia da Missão ao longo da história cristã, cuja característi-
ca essencial foi de ser transformadora. Seguindo algumas de suas
ideias, podemos afirmar que a missão e a evangelização são di-
mensões da fé cristã que se recusa a aceitar a realidade como ela
é, querendo transformá-la em uma nova realidade.

Figura 11 O teólogo David Bosch.

Relembrando um pouco essa história cristã, sabe-se que até


o século 16 o termo "missão" era usado exclusivamente com re-
ferência à doutrina da Santíssima Trindade, ou seja, ao envio do
Filho pelo Pai e do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho. "Os jesuítas
foram os primeiros a usá-lo em termos da difusão da fé cristã en-
tre pessoas" (BOSCH, 2007, p. 17), remetendo-nos à concepção

Claretiano - Centro Universitário


38 © Teologia Pastoral II: Catequese

de expansão colonial do mundo ocidental. Por trás da missão, há


sempre alguém que envia, há pessoas para as quais alguém é en-
viado e uma incumbência, fazendo com que esteja revestido de
autoridade aquele que é enviado para realizar sua missão.
Ao assistir nosso mundo em crise, Bosch (2007) aponta al-
guns fatores que permitiram, também, que a Igreja, a Teologia e a
missão cristã entrassem em crise, como, por exemplo:
1) O avanço da ciência e da tecnologia ocasionou a secu-
larização, fazendo a fé em Deus ser redundante: "por
que voltar-se à religião, se nós mesmos temos formas
e meios de lidar com as exigências da vida moderna?".
2) O cristianismo está lenta e firmemente sendo descris-
tianizado, o que já vem sendo percebido desde 1943,
quando os teólogos Godin e Daniel já chamavam a aten-
ção para tal problema com a publicação do livro França:
um país de missão?. A pergunta não se aplica apenas à
França, mas a cada país com maioria cristã. Então, será
que isso também não poderia ser aplicado ao Brasil?
Ou, indo além: não poderia ser aplicado à sua diocese
ou paróquia? Os dados censitários publicados pelo Ins-
tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nestes
últimos anos, demonstram diminuição significativa par-
ticularmente dos católicos; em contrapartida, há cresci-
mento dos evangélicos e dos chamados "sem religião".
3) O mundo não se divide mais entre "cristãos" e "não cris-
tãos", pois vivemos num mundo religioso plural, onde
cristãos, muçulmanos, budistas e adeptos das demais
religiões convivem cotidianamente (Figura 12). A con-
sequência disso é que os cristãos precisaram reexami-
nar suas concepções marcadas por estereótipos contra
essas religiões, por vezes mais ativas e agressivamente
missionárias do que os cristãos.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 39

Figura 12 Mundo religioso plural.

4) O complexo de culpa diante da escravidão dos africanos


pelo Ocidente fez com que os cristãos se sentissem inca-
pazes de testemunhar sua crença diante das pessoas de
outras convicções.
5) A divisão entre pobres e ricos aprofunda-se cada vez
mais, identificando os ricos como aqueles que profes-
sam a fé cristã e que não querem compartilhar sua fé
com os pobres.
6) A diversidade de teologias, surgida nos últimos anos (li-
bertação, negra, contextual, africana, asiática etc.), cau-
sou o questionamento das bases da Teologia tradicio-
nal, criando profundas incertezas nas igrejas ocidentais,
"até mesmo sobre a validade da missão cristã como tal"
(BOSCH, 2007, p. 20).
Para Bosch (2007), os acontecimentos ao longo da História,
após a Segunda Guerra Mundial e a crise na missão cristã, não
devem ser entendidos como meramente incidentais e reversíveis,
mas precisam ser compreendidos como uma necessidade de mu-
dança de paradigma para a missão, para a Teologia e para o pensa-
mento do mundo inteiro.
Da mesma forma como já houve tantas outras mudanças de
paradigmas no passado, esta também necessita de novas reflexões
e novas atitudes. Podemos afirmar que, ao longo da História, hou-
ve diversas "Teologias da Missão" e que nenhuma delas esgota a
essência daquilo que foi a origem da solicitação de Cristo aos após-
tolos em Mt 28,18-20:

Claretiano - Centro Universitário


40 © Teologia Pastoral II: Catequese

[...] E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda


a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos
tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a
consumação dos séculos [...].

A missão transformadora da Igreja passa pelo anúncio ou


proclamação do Reino de Deus ao mundo, da mesma forma como
Jesus fez em seu ministério público. A expressão "Reino ou Reina-
do de Deus" (em grego, βασιλεία τοῦ θεοῦ, ou Basileia tou Theou)
é o centro da pregação e das ações do ministério de Jesus, figura-
tivamente mostrado em parábolas. Esse Reinado não é entendido
como algo que vai acontecer exclusivamente no futuro, mas que já
começa agora no presente. Para Marcos e Mateus, Jesus inaugura
seu ministério público com um anúncio sobre a proximidade do
Reino de Deus (Mt 1,15; Mt 4,17), como algo totalmente novo,
numa irrupção de uma nova era, de uma nova ordem da vida.

Figura 13 Venha o teu Reino.

Esse Reino permanece dentro da tensão não resolvida en-


tre as dimensões presente e futura do "já" e "ainda não" (Figura
13). Ele chegou, mas ainda virá. Essas palavras, claramente confli-
tuosas, são para nós cristãos um grande embaraço. Ao longo da
história da Igreja, os cristãos tentaram resolver essa tensão, ora
identificando esse Reinado com a jornada espiritual do indivíduo
crente, ora com a Igreja como Reino de Deus na Terra.
Em alguns momentos dessa história, a escatologia foi grada-
tivamente expulsa da corrente principal da vida eclesial ou, como
o fez o teólogo Albert Schweitzer (1952), (Figura 14), na virada do
século 19 para o 20, indo ao extremo oposto e propondo eliminar
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 41

todas as referências ao Reinado de Deus como realidade presen-


te e considerando que Jesus havia proclamado apenas uma vinda
futura do Reino. Jesus haveria provocado a sua própria execução,
acreditando que isso iria precipitar a vinda do seu Reino, o que de
fato não ocorreu.

Figura 14 Capa do livro de Albert Schweitzer: Em busca do Jesus histórico.

Hoje, a maioria dos teólogos concorda que a tensão entre o


"já" e o "ainda não" do Reino de Deus no ministério de Jesus faz
parte da essência de sua pessoa e consciência, não devendo ser
resolvida; é aí, nessa tensão criativa, que a realidade do Reinado
de Deus tem significância para nossa missão contemporânea.
A carta encíclica Redemptoris Missio (RM) de João Paulo II
dedica todo o segundo capítulo a refletir sobre o Reino de Deus,
mostrando que a natureza missionária do ministério de Jesus está
diretamente ligada ao anúncio desse Reino, "preparado já no Anti-
go Testamento, realizado por Cristo e em Cristo, anunciado a todos
os povos pela Igreja, que atua e reza para que ele se realize de
modo perfeito e definitivo" (JOÃO PAULO II, RM, n. 12).
O anúncio de Jesus também é de denúncia e de ataque geral
ao mal em todas as suas manifestações, pois ele chega a todas as

Claretiano - Centro Universitário


42 © Teologia Pastoral II: Catequese

partes onde Jesus supera o poder do mal: a dor, a doença, a mor-


te, a possessão demoníaca, o pecado e a imoralidade pessoal etc.
A afirmação de Jesus é a de que a aflição humana assume muitas
formas e que o poder de Deus acompanha o ser humano em suas
vicissitudes, não o abandonando, mas cuidando dele, como uma
mãe que não esquece seu filho. "Por acaso uma mulher se esque-
cerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho
do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me
esqueceria de ti" (Is 49,15).

Figura 15 Sobreposição de fotos, a partir daquilo que se imagina ser o Reino de Deus.

Jesus realiza seu ministério no meio das pessoas marginali-


zadas, ou seja, aquelas que pertencem à periferia da sociedade.
Ele comunica a possibilidade de vida nova com base na realidade
do amor de Deus. Se Deus se importa com os pardais, como não se
importaria com essas pessoas? Pois até os cabelos da cabeça estão
todos contados (Mt 10,28-31). Esse é o ministério missionário de
Jesus, pois o Reino de Deus, há muito tempo esperado, está sendo
inaugurado entre os humildes e os desprezados. Esse Reino não é
para os que se consideram muito importantes, mas para aqueles
que estão à margem da sociedade, para os que sofrem, para os
coletores de impostos, pecadores, viúvas e crianças (Figura 15).
O ataque ao mal no Reino de Deus manifesta-se, priorita-
riamente, nos milagres e nas curas de Jesus, bem como, de forma
notável, nos exorcismos. Se o Filho do Homem expulsa o demô-
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 43

nio "pelo dedo de Deus" (Lc 11,20) ou "pelo Espírito de Deus" (Mt
12,28), então o Reino de Deus já chegou a vós, afirma Jesus.
Nesse Reino, Jesus não faz diferença entre "salvar do peca-
do" e "salvar da enfermidade física", entre o espiritual e o social
(Figura 16). Não há também diferenças entre "perdoar" e a gama
de acepções, desde a libertação de escravos até o cancelamento
de dívidas monetárias, libertação escatológica e o perdão de pe-
cados.

Figura 16 Jesus salva das enfermidades físicas.

A manifestação do Reinado de Deus em Cristo não nos ajuda


a encontrar o sistema político mais certo ou qual a ordem eco-
nômica ideal. Jesus não tratou da macroestrutura de sua própria
época. Quando o povo tentou fazê-lo rei, ele se retirou (Jo 6,15). A
fé na realidade e a presença do Reinado de Deus assumem a forma
de um movimento de resistência contra o destino, bem como a
manipulação e a exploração por outros.
Podemos afirmar que, no ministério de Jesus, o Reino de
Deus é interpretado como expressão da autoridade solícita de
Deus sobre a totalidade da vida. No entanto, as forças contrárias
continuam sendo uma realidade, deixando-nos tanto impacientes
quanto modestos.

Claretiano - Centro Universitário


44 © Teologia Pastoral II: Catequese

Sabemos que nossa missão não vai introduzir o Reinado de


Deus, porque Jesus também não o fez. Ele inaugurou o Reino, mas
não o levou à consumação. À semelhança dele, somos chamados a
erigir sinais do Reinado último de Deus: o Reinado de Deus irá vir,
mas ao mesmo tempo também já veio.
No n. 26 das Diretrizes gerais da ação evangelizadora (DGAE)
da Igreja no Brasil (2011-2015), da CNBB, há uma citação do docu-
mento de Aparecida (DA n. 370), o qual aponta a conversão pas-
toral como caminho para a ação evangelizadora, que deve incen-
tivar todos os cristãos a ter atitudes e iniciativas de autoavaliação
e coragem de mudar as estruturas pastorais de todos os níveis,
serviços, organismos, movimentos e associações. Há uma grande
necessidade de se viver na Igreja a paixão que norteava a vida de
Jesus, que era o anúncio do Reino de Deus, fonte de graça, da jus-
tiça, da paz e do amor. Em razão desse Reino, Ele deu sua vida.

7. FORMAÇÃO CATEQUÉTICA E MISSIONÁRIA


Como vimos anteriormente, grande responsabilidade cabe
à Catequese, à evangelização e à missão dentro da comunidade
cristã, incluindo todos os seus agentes: os pastores, os religiosos,
os leigos, os pais, os educadores etc. Assim, o catequista, o discí-
pulo missionário, o evangelizador devem encarnar e tornar visí-
vel aquele novo modelo de crente requerido hoje, diante das cir-
cunstâncias religiosas e culturais que se modificaram ao longo dos
anos. Sua espiritualidade deve possuir, em forma adulta, o sensus
ecclesiae, o sentido e a experiência de Igreja, com atitude interio-
rizada de pertença, sensibilidade comunitária e consciência apos-
tólica (VATICANO, 1997, n. 239).
Aquele que se propõe a trabalhar nas sendas do Senhor não
deve admitir mais, atualmente, que se improvisem tais ativida-
des pastorais, nem que estejam embasadas no empirismo ou no
"achismo". Deve-se agir com "profissionalismo", a fim de que se
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 45

adquiram as competências operativas necessárias para o exercício


das tarefas. Os tempos modernos exigem do arauto uma prepara-
ção adequada nos âmbitos da educação, da comunicação, da ani-
mação e do planejamento (Figura 17).

Figura 17 Anúncio do Evangelho no mundo.

O campo da formação hoje deve estar incorporado em toda a


Igreja, da mesma forma como está em organizações humanas, em-
presas, instituições e órgãos públicos. É praticamente impossível
pensar que alguém possa exercer uma função sem estar adequa-
damente preparado para tanto. Os documentos eclesiais reforçam
esse pedido de formação dos seus catequistas, sobretudo diante
da grande explosão de candidatos a catequistas nas paróquias, um
verdadeiro dom do Espírito Santo. Embora haja grandes esforços
para dar formação aos agentes pastorais (catequistas, missioná-
rios, evangelizadores), estamos distantes de atender às exigências
reais da situação, tornando-se uma urgência pastoral.
Algumas experiências exitosas nos enchem de orgulho, pois
há diversas dioceses brasileiras, modelos de formação dos cate-
quistas, como os institutos de ciências religiosas, as escolas para
catequistas, os cursos de formação permanente, enfim, diversas
atividades em nível diocesano e paroquial.
Para o Diretório geral para a Catequese, em sua Parte V, Ca-
pítulo II, é preciso colocar algumas exigências na formação dos ca-
tequistas, principalmente:
1) Planejar e investir em formação, o que faz parte de um
projeto pastoral mais amplo, abrangendo a formação
dos agentes pastorais em geral. É interessante organizar

Claretiano - Centro Universitário


46 © Teologia Pastoral II: Catequese

ciclos de formação que prevejam uma primeira forma-


ção pastoral para todos, e depois, num segundo ciclo, a
formação mais específica (catequistas, animadores litúr-
gicos, agentes sociais etc.).
2) Criar uma "pastoral dos catequistas" (VATICANO, 1997,
n. 233), na qual cada diocese, setor paroquial ou paró-
quia organizem e programem, de forma adequada, esse
trabalho pastoral, que requer um projeto unitário de
discernimento vocacional, de formação e acompanha-
mento, aplicado à pluralidade dos serviços catequéticos
da comunidade cristã, levando em conta a diversidade
de tipos de catequistas (adultos, jovens, família, crianças
etc.) (Figura 18).

Figura 18 Pastoral catequética.

3) Essa formação precisa encarar as coordenadas funda-


mentais de todo seu projeto, como finalidade e obje-
tivos, conteúdos formativos, pedagogia da formação,
técnicas e meios. Tendo em vista o novo perfil de ca-
tequistas, deve-se respeitar a condição de adultos em
formação, ou seja, sua necessidade de autonomia, cor-
responsabilidade e liberdade, evitando o estilo paterna-
lista e clerical das ações pastorais. A formação deverá
estar baseada na corresponsabilidade e na participação,
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 47

levando em conta a experiência e os problemas da vida


do adulto, sem ignorá-los ou deixá-los de lado. "Deseja-
-se uma formação que aponte para o novo modelo de
crente [...], que possa atender às novas exigências da so-
ciedade atual" (ALBERICH, 2004, p. 356).
4) Fortalecer uma pedagogia de formação, como fator de-
cisivo, junto à metodologia de ensino (Figura 19). Um
modelo bastante difundido é o do tipo "divulgação teo-
lógica", que busca assimilar os conteúdos e as informa-
ções teológicas. O primeiro modelo de formação é o de
reprodução ou imitação, com características de "infor-
mação", parecendo ser uma verdadeira "doutrinação".
Já o segundo modelo é do tipo operativo ou "tecnicis-
ta", que procura transmitir um "saber fazer" relacionado
à animação: técnicas de animação, dinâmica de grupo,
competências relacionais etc. É uma formação na linha
do "adestramento", que comunica habilidades de geren-
ciamento e de relações, mas deixa de lado os conteúdos
e os objetivos da ação empreendida. O terceiro modelo
é aquele que atualmente une as duas concepções ante-
riores e parece ser o mais eficaz.

Figura 19 Fortalecer a pedagogia da formação.

Não se pode abrir mão de que essa formação seja global,


isto é, que contemple o ser, o saber e o saber fazer (Delors, 1999).
Além disso, é preciso ter clareza das finalidades e dos objetivos,
da promoção de uma forte identidade cristã no crente (a "espiri-
tualidade" do catequista ou do agente pastoral) e do respeito às
exigências específicas da aprendizagem do adulto.

Claretiano - Centro Universitário


48 © Teologia Pastoral II: Catequese

Finalizando este item, podemos afirmar que a formação ca-


tequética e missionária apresenta as seguintes características:
1) Personalização: significa situar a pessoa no centro da
formação, em uma dinâmica que faça da formação uma
verdadeira "trans-formação", valorizando mais a apren-
dizagem e os relatos ou histórias de vida sobre o ensino.
2) Articulação entre Teologia e Ciências Humanas (VATI-
CANO, 1997, n. 243): particularmente a Antropologia, a
Psicologia e a Sociologia, com atenção especial à forma-
ção pedagógica, articulada com a Teologia.
3) Integração entre teoria e prática (VATICANO, 1997, n.
245): esta pode ser um tirocínio prático, que acompanha
a aprendizagem teórica, como uma reflexão continuada
e sistemática sobre a prática pastoral.
4) Orientação didática da "formação permanente": mais
do que fornecer conhecimentos e habilidades, é preciso
tornar as pessoas capazes de autoformação e de auto-
aprendizagem, "aprendendo a aprender" com relativa
autonomia e criatividade.

8. CATEQUESE, COMPROMISSO E RESPONSABILIDADE


A Catequese tem compromisso e responsabilidade eclesial.
Na verdade, há uma articulação entre as diversas pastorais e a Ca-
tequese, a qual permite haver a noção de pertença à Igreja. Todas
as pastorais, junto à Catequese, não podem ser insensíveis aos
problemas sociais e políticos, nem marginalizar a Doutrina Social
da Igreja, ou desinteressar-se pelos pobres e excluídos, muito me-
nos esquecer a dimensão social da fé e permanecer isoladas espi-
ritualmente.

Quadro explicativo
A Doutrina Social da Igreja (Figura 20) é "o conjunto de escri-
tos e mensagens — cartas, encíclicas, exortações, pronunciamen-
tos, declarações — que compõem o pensamento do magistério ca-
tólico a respeito da chamada ‘questão social’" (GONÇALVES, 2013,
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 49

p. 1). Ela se apoia na Palavra de Deus e em diversos documentos


eclesiais, como a Exortação Pós-Sinodal, de 1971, de Paulo VI, A
justiça no mundo:
[...] A ação pela justiça e a participação na transformação do mun-
do aparecem-nos claramente como uma dimensão constitutiva da
pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer da missão da Igreja,
em prol da redenção e da libertação do gênero humano de todas as
situações opressivas [...] (PAULO VI, 1971, n. 6).

Figura 20 Doutrina social da Igreja: construção da paz e da justiça.

Por dimensão constitutiva entende-se que a ação socio-


-transformadora faz parte inerente do Evangelho, e não é simples-
mente um penduricalho, nem mero desdobramento da fé cristã.
A ação social é um elemento integrante da mensagem evangélica:
não se pode ter uma verdadeira evangelização sem haver um cor-
respondente compromisso de ordem social e política.
A experiência cristã exige o testemunho de obras (Tg 2,17),
a superação da ineficácia das palavras, levando a mais credibili-
dade da palavra eclesial em tarefas promocionais e solidárias das
pessoas necessitadas. A esse termo dá-se o nome de "diaconia",
que é o serviço que a Igreja presta por meio de sua ação pastoral
no mundo.
Por meio da diaconia, há nova consciência eclesial, porque
a Igreja acompanha as profundas transformações da sociedade e

Claretiano - Centro Universitário


50 © Teologia Pastoral II: Catequese

os novos condicionamentos culturais (globalização, consciência


social e política, autonomia do temporal, afirmação dos direitos
humanos, vários movimentos de libertação etc.), que a obrigam
à reavaliação do seu compromisso e de sua responsabilidade no
mundo.
Temos hoje a oportunidade de utilizar novos instrumentos
de análise e de interpretação da realidade, que nos dão uma visão
mais objetiva e aprofundada das situações e dos problemas liga-
dos à pobreza e à justiça. Não há mais o dualismo entre a ordem
"espiritual" e a "temporal", entre sagrado e profano, entre Igreja e
mundo (VATICANO, 1965, n. 42). Já se superou também o dualismo
discriminador entre hierarquia e laicato, que reservava à primeira
a identificação com a Igreja e ao segundo, as tarefas terrenas e
temporais, consideradas de importância secundária.
A promoção integral da pessoa (Figura 21) e a transformação
da sociedade fazem parte essencialmente da missão da Igreja. O
agir eclesial está ligado ao compromisso fundamental do serviço
ao Reino de Deus, que tem entre suas metas a promoção integral
do ser humano e da sociedade.

Figura 21 Promoção integral da pessoa.

O preceito do amor inclui também a atuação no mundo: "o


cristão que negligencia suas tarefas temporais, negligencia seus
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 51

deveres para com o próximo, e também para com o próprio Deus,


e põe em risco sua própria salvação eterna" (VATICANO, 1965, n.
45). Assim, a promoção integral das pessoas e a transformação da
sociedade são partes constitutivas da evangelização, e não se pode
desassociá-las, de maneira que há corresponsabilidade comunitá-
ria da caridade eclesial, a qual não se restringe à iniciativa indivi-
dual ou à boa vontade de alguns cristãos. Ela é tarefa de toda a
comunidade eclesial, à qual cabe a responsabilidade global, e não
apenas àqueles que são dedicados ao trabalho.

Figura 22 Catechesi Tradendae.

Ao terminar este assunto, podemos citar a Catechesi Tra-


dendae (Figura 22) (CT, n. 29) e o DGC (n. 103-104), que reforçam
os compromissos, as responsabilidades eclesiais e sociais da Cate-
quese, basicamente em dois itens:
1) Catequese voltada para a promoção humana e os po-
bres, no interior de uma igreja em estado de serviço à
humanidade, de maneira que "a assunção plena da op-
ção preferencial pelos pobres representa hoje, para a
Catequese, um desafio e um critério de autenticidade"
(ALBERICH, 2004, p. 248).
2) Catequese e educação para o serviço sociocaritativo,
que contempla a educação para a diaconia, enquanto in-
forma, envolve, dá motivações, desenvolve o senso crí-
tico, sugere chaves de interpretação, orientação à ação,
promovendo vocações específicas no âmbito do empe-
nho e do serviço.

Claretiano - Centro Universitário


52 © Teologia Pastoral II: Catequese

9. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Sugerimos que você procure responder, discutir e comentar
as questões a seguir que tratam da temática desenvolvida nesta
unidade, ou seja, o problema da Catequese como missão e evan-
gelização na Igreja: compromisso e responsabilidade eclesial.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
você testar o seu desempenho. Se você encontrar dificuldades em
responder a essas questões, procure revisar os conteúdos estuda-
dos para sanar as suas dúvidas. Esse é o momento ideal para que
você faça uma revisão desta unidade. Lembre-se de que, na Edu-
cação a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma
cooperativa e colaborativa; compartilhe, portanto, as suas desco-
bertas com os seus colegas.
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
1) Quais são as luzes e as sombras que marcam a Catequese, a missão e a evan-
gelização de sua diocese, paróquia e comunidade?

2) De que forma podemos afirmar que há uma relação entre o Reino de Deus
e o anúncio do Evangelho?

3) Como explicar para os catequizandos que o Reino de Deus "já" está presente
entre nós, mas que ele "ainda não" está completamente implantado?

4) Qual o maior desafio para realizar uma formação catequética e missionária


dos catequistas e demais agentes pastorais?

5) Como podem ser exercidos o compromisso e a responsabilidade eclesial


concretamente em sua diocese, paróquia ou comunidade?

10. CONSIDERAÇÕES
Vimos nesta Unidade 1 as ameaças que a Catequese deve
enfrentar no mundo atual e as oportunidades para sua atuação,
ao mesmo tempo em que reforçamos a importância do anúncio do
Reino de Deus, em seguimento à missão transformadora realizada
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 53

por Cristo em seu ministério público. Logo após essas reflexões,


ressaltamos a importância da formação missionária e catequética
de qualidade para os agentes pastorais.
Fator também decisivo no que se refere à evangelização, à
missão e à Catequese é favorecer o compromisso e a responsabi-
lidade eclesial nessa atividade pastoral, objetivando despertar e
fortalecer a fé dos cristãos, à medida que transforma o mundo em
que vivemos.
Ao abordar a dimensão da fé, ressaltamos que ela é um dom
gratuito de Deus concedido aos que creem e precisa ser alimenta-
da pela escuta da Palavra de Deus, que é pronunciada na história
por meio da Catequese e da evangelização. A fé entra pelos ouvi-
dos (fides ex auditu — auditus fides) e realiza-se por meio de um
assentimento pessoal (assensus fidei), do afeto e do amor (afectus
amoris).
Quando há escuta livre e acolhedora por parte dos que cre-
em, estabelece-se assim uma ligação profunda entre a fé ouvida
e a sua compreensão (entre o auditus fides e o intelectus fidei).
Afirmamos que a fé não se reduz à Teologia, nem ela se reduz à
reflexão daquela, uma vez que entre elas há realidade e dimensão
circulante (em Teologia, pericorética), de modo que uma não exis-
ta sem a outra.
A fé é um hábito da mente pela qual a vida eterna começa
em nós, fazendo o intelecto aderir àquilo que não vê (SÃO TOMÁS
DE AQUINO, Suma Teológica II, II, q. 2, a. 1). Graças à fé, somos
impelidos a evangelizar, a realizar a missão de Cristo e a catequizar
todos os cristãos e aqueles que se dispõem a segui-Lo nos seus
ensinamentos.

11. E-REFERÊNCIAS

Lista de figuras
Figura 1 A Cataquese e a Palavra de Deus. Disponível em: <http://kantinhodafe.blogspot.
com.br/2012/07/encontro-de-catequese-crisma.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.

Claretiano - Centro Universitário


54 © Teologia Pastoral II: Catequese

Figura 2 Wolfgang Gruen. Disponível em: <http://www.donbosco.co.uk/dbt/dbt0407/


t0407.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 3 O teólogo Emílio Alberich. Disponível em: < http://catequeticaquilmes.
wordpress.com/author/catequeticaquilmes/page/2/ >. Acesso em: 19 ago. 2013.
Figura 4 Concílio de Trento. Disponível em: < http://perdidanahistoria.blogspot.com.
br/2011/08/trento-o-concilio.html >. Acesso em: 19 ago. 2013.
Figura 5 Diretório geral para a Catequese. Disponível em: <https://www.livrarialoyola.
com.br/detalhes.asp?secao=livros&CodId=1&ProductId=11813&Menu=1>. Acesso em:
29 jul. 2013.
Figura 6 Rede social dos catequistas do Brasil. Disponível em: <http://eu.soucatequista.
com.br/>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 7 O difícil diálogo entre fé e cultura. Disponível em: <http://www.comshalom.org/
blog/carmadelio/tag/fe-e-cultura>. Acesso em: 25 set. 2012.
Figura 8 O credo do jovem brasileiro. Disponível em: <http://www.comshalom.org/blog/
carmadelio/date/2012/03/01>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 9 Formação de catequistas. Disponível em: <http://www.arquidiocesedemaceio.
org.br/noticias/arquidiocese/21>. Acesso em: 25 set. 2012.
Figura 10 O Bom Pastor. Disponível em: <http://seminariodeluz.blogspot.com.
br/2012_04_01_archive.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 11 O teólogo David Bosch. Disponível em: <http://missioblog.blogspot.com.
br/2010/11/definicao-provisoria-de-missao.html>. Acesso em: 25 set. 2012.
Figura 12 Mundo religioso plural. Disponível em: <http://blogdopimentarj.blogspot.com.
br/2011/11/camara-federal-realiza-audiencia.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 13 Venha o teu Reino. Disponível em: <http://simoneramoss.blogspot.com.
br/2010/12/venha-o-teu-reino.html>. Acesso em: 25 set. 2012.
Figura 14 Capa do livro de Albert Schweitzer: Em busca do Jesus histórico. Disponível
em: <http://embuscadojesushistorico.blogspot.com.br/2010/06/em-busca-do-jesus-
historico-por-albert.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 15 Sobreposição de fotos, a partir daquilo que se imagina ser o Reino de Deus.
Disponível em: <http://wrtrindadesanta.blogspot.com.br/2010/09/reflexao-o-reino-
que-voce-pertence.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 16 Jesus salva das enfermidades físicas. Disponível em: <http://www.parsantacruz.
org.br/7%C2%BA-circulo-jesus-desmascara-a-falsidade-do-sistema-opressor/>. Acesso
em: 29 jul. 2013.
Figura 17 Anúncio do Evangelho no mundo. Disponível em: <http://www.catedralvacaria.
org.br/wordpress/provincia-eclesiastica-de-passo-fundo/>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 18 Pastoral catequética. Disponível em: <http://www.arquidiocesesalvador.org.
br/noticias/encontro-de-formacao-para-catequistas-novatos/>. Acesso em: 28 set. 2012.
Figura 19 Fortalecer a pedagogia da formação. Disponível em: <http://
catequesenordeste3.blogspot.com.br/2012/06/iniciacao-crista-o-que-e.html>. Acesso
em: 29 jul. 2013.
© U1 - O Problema da Catequese como Missão e Evangelização na Igreja: o Compromisso e a
Responsabilidade Eclesial 55

Figura 20 Doutrina social da Igreja: construção da paz e da justiça. Disponível em:


<http://entrejovensmundomissao.blogspot.com.br/2011/03/cbjp-oferece-curso-de-
pos-graduacao-em.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 21 Promoção integral da pessoa. Disponível em: <http://painelx.blogspot.com.
br/2010/08/o-ser-humano-integral.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
Figura 22 Catechesi Tradendae. Disponível em: <http://sinebrasil.com.br/loja/>. Acesso
em: 28 set. 2012.

Sites pesquisados
CARMO, S. M. Catequese hoje: limites e tendências. Revista Catequese hoje, Minas
Gerais, jul. 2012. Disponível em: <http://www.catequesehoje.org.br/index.php/outro-
olhar/catequese-e-modernidade/114-catequese-hoje-limites-e-tendencias>. Acesso em
29 jul. 2013.
CNBB. Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015). 3.
ed. Brasília: Edições CNBB, 2011. (Coleção Documentos da CNBB, n. 94). Disponível
em: <http://www.cnbb.org.br/site/publicacoes/documentos-para-downloads/
doc_download/1486-94-diretrizes-gerais-da-acao-evangelizadora-da-igreja-no-
brasil-2011-2015>. Acesso em: 29 jul. 2013.
COSTA, C. J.; MARTINS, F. J. S. Análise histórica, religiosa e educacional sobre o catecismo
do Santo Concílio de Trento. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano
II, n. 6, fev. 2010. Disponível em: <http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf5/texto3.pdf>.
Acesso em: 29 jul. 2013.
DELORS, J. Os quatro pilares da educação. Disponível em: <http://4pilares.net/text-cont/
delors-pilares.htm>. Acesso em 28 set. 2012.
FERREIRA, H. Em busca do Jesus histórico. Comentários à obra de Albert Schweitzer.
Disponível em: <http://embuscadojesushistorico.blogspot.com.br/2010/06/em-busca-
do-jesus-historico-por-albert.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
GONÇALVES, Pe. A. J. Doutrina social da Igreja: história e desafios. Centro Nacional
de Fé e Política Dom Hélder Câmara: Brasília. Disponível em: <http://www.cefep.org.
br/documentos/textoseartigos/politicaevangelhodsi/Doutrina%20Social%20da%20
Igraja%20Historia%20e%20desafios.doc/view>. Acesso em: 29 jul. 2013.
GRUEN, Pe. W. Em foco — formação de catequistas. Revista de Catequese, São Paulo, ano
27, n. 106, abr./jun. 2004. Disponível em: <http://www.pio.unisal.br/revistas_106_em_
foco01.asp>. Acesso em: 29 jul. 2013.
JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio (Sobre a validade permanente do
mandato missionário), 7 dez. 1990. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/
john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_07121990_redemptoris-missio_
po.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
LIMA, L. A. A iniciação cristã ontem e hoje. História e documentação atual sobre a
iniciação Cristã. In: SEMANA BRASILEIRA DE CATEQUESE, 3., 2009, São Paulo. Anais... São
Paulo: CNBB, 2009. p. 1-14. Disponível em: <http://www.cnbb.org.br/site/component/
docman/doc_view/175-a-iniciacao-crista-ontem-e-hoje-luiz-alves>. Acesso em: 29 jul.
2013.

Claretiano - Centro Universitário


56 © Teologia Pastoral II: Catequese

MAGALHÃES, Pe. A. Reflexão de Pe. Almir. Iniciação à vida cristã. Disponível em: <http://
www.icfortaleza.no.comunidades.net/index.php?pagina=1862517983>. Acesso em: 29
jul. 2013.
SOU CATEQUISTA. A rede social dos catequistas do Brasil. Disponível em: <http://
eu.soucatequista.com.br/>. Acesso em: 29 jul. 2013.
STIGAR, R. A história da catequese no Brasil. Artigonal. Disponível em: <http://www.
artigonal.com/religiao-artigos/a-historia-da-catequese-no-brasil-709653.html>. Acesso
em: 29 jul. 2013.
VATICANO. Diretório geral para a Catequese, 15 ago. 1997. Disponível em: <http://
www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_ccatheduc_
doc_17041998_directory-for-catechesis_po.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.
______. Gaudium et Spes, 7 dez. 1965. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/
hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_
po.html>. Acesso em: 29 jul. 2013.

12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALBERICH, E. Catequese evangelizadora: manual de catequética fundamental. São Paulo:
Salesiana, 2004.
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
BOSCH, D. A missão transformada: mudanças de paradigmas na Teologia da missão. 2.
ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007.
CNBB. Diretório nacional de catequese. Brasília: Edições da CNBB, 2005.
DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. Brasília, DF: MEC/Unesco; São Paulo:
Cortez, 1999.
FLORISTÁN, C. Catecumenato, história e pastoral da iniciação. Petrópolis: Vozes, 1995.
GODIN, H.; DANIEL, Y. La France, pays de mission? Paris: CERF, 1950.
JOÃO PAULO II. A catequese hoje – Exortação apostólica Catechesi Tradendae. 12. ed. São
Paulo: Paulinas, 2000.
PAULO VI. A justiça no mundo. (Sínodo dos Bispos de 1971). Petrópolis: Vozes, 1972.
(Documentos Pontifícios, v. 184).
SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2003. v. 2.
SCHWIETZER, A. A busca do Jesus histórico. Um estudo crítico de seu progresso de
Reimarus a Wrede. São Paulo: Novo Século, 2003.
XAVIER, D. J.; SILVA, M. F. (Org.). Pensar a fé teologicamente. São Paulo: Paulinas, 2007.
EAD
A Igreja Missionária
do Pai, no Encontro de
Todos os Povos e Culturas
na Transição da
Missão Ad Gentes
para a Missão
Inculturada 2

1. OBJETIVOS
• Compreender como a Igreja missionária continua a mis-
são trinitária.
• Analisar a inculturação como transição da missão ad gen-
tes para a realidade cultural dos povos.

2. CONTEÚDOS
• Igreja missionária do Pai, no encontro das culturas.
• Transição da missão ad gentes para a missão inculturada.
58 © Teologia Pastoral II: Catequese

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Quando tiver dúvidas ou quiser aprofundar um determi-
nado assunto, pesquise nos livros e sites indicados em
cada unidade, procurando compartilhar as informações
com seus colegas no Fórum ou na Lista. Caso necessário,
seu tutor poderá ajudá-lo nesse trabalho.
2) Um dos temas tratados nesta Unidade 2 refere-se à mis-
são, cujo fundamento é a Trindade, o que nos remete ao
estudo da Teologia Trinitária e da Teologia Pastoral I, as
quais enfocam esse assunto com base em outras pers-
pectivas. Se for o caso, retorne a esses cadernos e reflita:
como posso continuar a obra trinitária em minha comu-
nidade? O que tenho feito para que o Reino de Deus seja
apropriado para todos os membros dessa comunidade?
3) Ao estudar a bibliografia sugerida, procure ampliar seus
horizontes e colocar em prática o que foi pesquisado.
Ao encontrar um material de estudos que não esteja
completo ou seja superficial, discuta esse problema com
seus colegas e tutor.
4) Até o momento, nosso percurso foi marcado pela multi-
plicidade teológica da pastoral. Consulte o texto A índo-
le missionária da Igreja na perspectiva da Conferência
de Aparecida, de Igor Heidrich da Silveira (2008), que
aborda o tema da Igreja missionária, que parte do Pai,
concretiza-se no Filho e continua na obra do Espírito
Santo, de acordo com a Conferência dos bispos latino-
-americanos e caribenhos em Aparecida-SP. Disponível
em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/
graduacao/article/viewFile/5086/3742>. Acesso em: 2 ago.
2013.
5) Na Internet, é possível encontrar alguns vídeos que ilus-
tram a missão ad gentes e a missão inculturada, como
os apresentados a seguir, que lhe permitem aprofundar
o estudado nesta unidade:
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 59

• H2ONEWS. A coexistência das religiões na África. Dis-


ponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=NiF-
-yJT1vh8>. Acesso em: 2 ago. 2013.
6) Vale a pena dedicar alguns minutos para ler o artigo In-
culturação da fé e pluralismo religioso, de Faustino Tei-
xeira, publicado pela RELAMI (Rede Ecumênica Latino-
-Americana de Missiolog@s). Disponível em: <http://
www.missiologia.org.br/cms/UserFiles/cms_artigos_
pdf_45.pdf>. Acesso em: 2 ago. 2013.
7) Se quiser conhecer um pouco mais algumas reflexões so-
bre a Catequese jesuítica, leia o ensaio "Raízes culturais
e religiosas da folkcomunicação no Brasil: heranças da
catequese jesuítica", de Antonio Teixeira, publicado na
Revista Razón y Palabra. Disponível em: <http://www.
razonypalabra.org.mx/anteriores/n60/ateixeira.html>.
Acesso em: 2 ago. 2013.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Quando abordamos a Teologia da Missão ou Missiologia,
precisamos conhecer um pouco mais sobre o seu significado e sua
importância, além das relações que ela mantém com as demais
disciplinas teológicas. Há teólogos que ressaltam esse aspecto re-
lacional, afirmando que:
[...] A Missiologia é a ciência teológica que estuda a realidade mis-
sionária no seu conjunto e nos seus diversos elementos. Em outras
palavras, é a disciplina teológica que se ocupa das missões sob a
luz dos princípios da revelação divina, da doutrina teológica, con-
jugando-se com os tratados mais importantes: a Trindade, a Cris-
tologia, a Eclesiologia [...]. Conta com conhecimentos humanos e
antropológicos e de outros aspectos relacionados, pesquisados,
cientificamente elaborados, sistematizados e, metodologicamente,
apresentados. É decisivo para a Missiologia manter a parceria com
outras disciplinas [...] (PANAZZOLO, 2006, p. 17-18).

Começamos a esquadrinhar em nosso estudo a importân-


cia de fazer ligações da Missiologia com outras disciplinas teoló-
gicas já estudadas, ou que ainda serão vistas ao longo do curso

Claretiano - Centro Universitário


60 © Teologia Pastoral II: Catequese

de bacharelado em Teologia. Estabelecer tais relações entre uma


disciplina e outra é um grande passo para a aprendizagem, para a
assimilação do que se está estudando. Não dá para estudar temas
teológicos de forma isolada, sem conexão ou comunhão entre si.
Aliás, já vimos que esse termo "comunhão" é o fundamento da
vida trinitária, que a missão do Pai dada ao Filho e perpetuada
pelo Espírito Santo encontra sua realização na comunhão com a
Igreja.
A Igreja em comunhão ressalta o encontro com todos os po-
vos e culturas na transição da missão ad gentes para a missão in-
culturada. Não é à toa que Silveira (2008, p. 21), ao mencionar que
os discípulos missionários de Jesus Cristo são sempre discípulos
em comunhão, descobre que essa abordagem foi enfatizada pela
Conferência de Aparecida:
[...] A Igreja, intimamente ligada à Trindade, sacramento da salva-
ção, é enviada em missão a todos para evangelizar os pobres. A
comunhão e a comunicação da vida divina na Trindade, origem da
missão, não somente como fonte e princípio, mas também no sen-
tido que a comunhão e a participação da vida divina pelas criaturas
humanas é o coroamento de toda a obra divina da redenção. A ati-
vidade missionária nasce da própria Igreja [...].

Já tendo visto em Teologia Pastoral I, bem como em Ecle-


siologia, as diversas imagens da Igreja (corpo místico de Cristo,
sacramento de salvação, povo de Deus etc.), veremos aqui, nesta
Unidade 2, a razão de concordarmos com a afirmação de Molt-
mann (1977, p. 7) de que "atualmente, um dos impulsos mais vi-
gorosos para a renovação do conceito teológico de Igreja provém
da teologia da missão".
Nosso estudo será, portanto, tomar a Teologia da Missão
com base na Igreja missionária do Pai, no encontro das culturas,
enquanto realiza a missão entre todos os povos (missão ad gen-
tes). Tendo alcançado as habilidades e as competências no domí-
nio desses conceitos para esta Unidade 2, teremos condições de
estudar, na próxima unidade, a Teologia da Missão hodierna e o
desafio de evangelizar o universo urbano. Então, iniciemos nossas
reflexões dos temas que nos cabem tocar aqui!
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 61

5. IGREJA MISSIONÁRIA DO PAI, NO ENCONTRO DAS


CULTURAS
Como já mencionamos anteriormente, a missão é o "sim" de
Deus ao mundo, uma vez que o mundo é o "teatro" ou "palco" da
atividade divina (Figura 1), que quer estabelecer um diálogo com
o ser humano por meio de ações concretas realizadas ao longo da
história humana, que culmina na intervenção do envio do Filho e
do Espírito Santo para uma comunhão ainda mais plena de Deus
com a humanidade.

Figura 1 O mundo como teatro ou palco das atividades divinas.

Sabemos que a "missão" é uma categoria que pertence à


Trindade, particularmente à Pessoa de Deus Pai. Dessa forma, po-
demos ver que a missão não tem apenas uma conotação humana
ou é uma tarefa da Igreja, mas é mandato que vem do Pai.
Para Carriker (2009, p. 72):
[...] Esta perspectiva nos guarda contra toda atitude de autossu-
ficiência e independência na tarefa missionária. Se a missão é de
Deus, então é d’Ele que a igreja deve depender na sua participação
na tarefa. Isto implica numa profunda atitude de humildade e de
oração para a capacitação missionária, uma dependência confiante
em Deus [...].

Jesus nos revelou que Deus Pai é Amor (1 Jo 4,8.16), além


de nos revelar que o mistério da comunhão trinitária de Deus tem
como origem a missão. Assim, ele mostrou em sua vida e missão

Claretiano - Centro Universitário


62 © Teologia Pastoral II: Catequese

que a comunhão trinitária é sinônimo de amor, sendo ele mesmo


manifestação e testemunha desse amor intratrinitário. Portanto,
falar de Deus significa falar do amor e da missão, porque Ele é
amor, não pode ser solidão, mas, sim, relação, comunicação, diá-
logo, envio e encontro, pois o amor não se contenta em si mesmo,
mas abre-se aos outros, quer compartilhar a satisfação de amar e
ser amado.
Mesmo que a Aliança entre Deus e os homens tenha sido um
dia rompida pelo pecado, Ele enviou seu Filho e o Espírito Santo
em missão para "costurar" ou refazer em uma Nova Aliança, resta-
belecendo a comunhão com os seres humanos. Essa Nova Aliança
parte também de novos pressupostos, cuja base é o novo manda-
mento do amor, como entrega total e sem reservas ao outro. Esse
é o anúncio da Boa Nova (evangelion) para toda a humanidade,
por meio da qual acontece uma nova criação, em que o amor do
Pai, do Filho e do Espírito Santo renova a vida das criaturas.
A missão do povo de Deus emerge da comunidade de Deus,
Uno e Trino, cujo amor transborda e aponta para a convocação e
o envio de comunidades missionárias que dão testemunho desse
Deus Amor.
Para o CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM),
no Documento de Aparecida (DA, 2007, n. 240), os discípulos che-
gam por meio da experiência, e da verbalização dessa experiência
de sua fé, à prática: "A experiência de um Deus uno e trino, que é
unidade e comunhão inseparável, permite-nos superar o egoísmo
para nos encontrarmos plenamente no serviço para com o outro".
Por meio de nossa prática de solidariedade, o mundo, particular-
mente daqueles que não creem, chega à possibilidade da fé num
Deus Amor e num mundo para todos.
Ressaltemos que a diversidade de Pessoas na Trindade não é
motivo de conflitos, mas é fonte do amor e da vida que se transmi-
te para fora, para a criação e para a humanidade. Assim, a missão
dada ao Filho e ao Espírito Santo pelo Pai faz com que as relações
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 63

trinitárias se tornem "missão de Deus" (missio Dei). Se o pecado


presente na história humana desintegra sua comunhão com a Trin-
dade, então a missão dada pelo Pai faz com que a Igreja seja mis-
sionária, anunciadora da reintegração do ser humano à comunhão
com a Trindade, numa perspectiva histórica e escatológica da vida
plena, que é o Reino.
Podemos novamente mencionar o Documento de Aparecida
(2007, n. 347), que faz uma conexão importante com o texto do
Decreto Ad gentes (AG, n. 2, apud VIER, 1991) do Vaticano II: "A
Igreja peregrina é por sua natureza missionária, pois ela se origina
da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desíg-
nio de Deus Pai".
Carriker (2009) afirma que a pulsação missionária no cris-
tianismo é fruto da vida trinitária revelada aos discípulos. E não
poderia ser diferente, porque os discípulos participam da missão
trinitária, enquanto são conduzidos pelo Espírito Santo e seguido-
res de Jesus Cristo, como testemunhas de sua ressurreição. A mis-
são desses discípulos é evangelizadora, fazendo com que esteja a
serviço da Boa Nova do Reino, ou seja, uma missão comunitária,
integral e comprometida com a realidade dos mais pobres e ne-
cessitados.
O Documento de Aparecida (2007) assume a Teologia da
Missão do Vaticano II, tendo a missão que emerge da comunidade
trinitária e aponta tanto para a convocação quanto para o envio de
comunidades missionárias, isto é, de seus discípulos missionários.
Antes de existir a Igreja ou mesmo a missão, já existia a obra
salvífica de Deus, o seu plano de salvação, que não nos permite su-
bordinar a missão à Igreja, nem mesmo a Igreja à missão, porque
ambas estão inseridas nesse plano de salvação de Deus (a missio
Dei), que se tornou o conceito abrangente que devemos tratar. A
Igreja é a missão, o que significa que não se pode falar de uma

Claretiano - Centro Universitário


64 © Teologia Pastoral II: Catequese

sem falar da outra simultaneamente, uma vez que toda comunida-


de cristã se encontra em uma situação missionária e vive em uma
Igreja que compartilha o amor e seus principais elementos entre
todas as igrejas.
No Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, decla-
rações, há testemunho desse aspecto, na Lumen Gentium (LG, n.
26, apud VIER, 1991): "a Igreja de Cristo está verdadeiramente pre-
sente em todas as legítimas comunidades locais de fiéis" e nessas
Igrejas particulares e por elas "existe" a Igreja Católica una e única
(LG, n. 23, apud VIER, 1991), superando a concepção eclesiológica
do Vaticano I, extremamente centrada no papa e redescobrindo
uma eclesiologia missionária da Igreja local e a instituição de con-
ferências episcopais (LG, n. 37s, apud VIER, 1991).
No mesmo número 2 do Decreto Ad gentes (AG, n. 2, apud
VIER, 1991), que vimos anteriormente, o Vaticano II reforça que "a
Igreja peregrina é missionária por sua ‘natureza’", pois ela existe
ao ser enviada e edificar-se, visando sua missão, de forma que "a
eclesiologia não precede a missiologia" (BOSCH, 2007, p. 447).
Concluindo, com base nessas citações: há dois lados da mes-
ma moeda (Figura 2) ao afirmar-se que a Igreja é essencialmente
missionária e que a missão é essencialmente eclesial, uma vez que
a Igreja e a missão constituem uma unidade desde o início.

Figura 2 Dois lados da mesma moeda.


© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 65

Outro elemento importante a ser discutido sobre a Igreja


missionária do Pai parte da denominação ekklesia, (etimologica-
mente, "chamada para fora"), ou seja, ela é chamada para fora do
mundo, mas, ao mesmo tempo, é enviada de volta para dentro
do mundo: faz parte de sua constituição a característica do "fo-
rasteiro", ser de fora. O povo peregrino precisa basicamente do
apoio para a jornada na qual está em marcha e de um destino ao
fim dela, uma vez que não tem residência fixa aqui na Terra, pois
se trata de uma paroikia (do grego, "uma residência temporária").
O povo de Deus caminha permanentemente para os confins
do mundo e para o fim dos tempos, quando encontrará seu Mes-
tre na Parusia (segunda vinda gloriosa de Cristo). Mesmo que haja
uma grande diferença entre a Igreja e o seu destino (o Reino de
Deus), ela é chamada a encarnar, já no "aqui e agora", algo das
condições que um dia irá prevalecer no Reinado de Deus.
A compreensão do que é missão passou por um processo
evolutivo de mudança de sentido, até chegar à compreensão de
missão de Deus. No início do cristianismo, a missão era compreen-
dida em termos soteriológicos: como salvar os homens da conde-
nação eterna ou fogo eterno (que nos remete à antiga pastoral do
medo (Figura 3), que perdurou por muitos anos entre os cristãos).

Figura 3 O historiador francês Jean Delumeau.

Jean Delumeau–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O historiador francês Jean Delumeau (2003) chamou de "pastoral do medo"
tudo aquilo que consistia em manter vivo um sentimento permanente de pecado,
acompanhado pelo medo da condenação final e, por isso, da necessidade
de obras de expiação. As mulheres andavam vestidas de preto e cobrindo o
corpo inteiro. A revolução cultural libertou dessas coisas que não pertencem ao
Evangelho, mas foram introduzidas na cristandade na Idade Média (COMBLIN,
2007, p. 36-58).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Claretiano - Centro Universitário


66 © Teologia Pastoral II: Catequese

Veja a Figura 4 a seguir.

Figura 4 O teólogo belga, radicado no Brasil, José Comblin.

Logo depois, a missão foi entendida como a forma de apre-


sentar pessoas do Oriente e do Sul às bênçãos e aos privilégios do
Ocidente cristão: isso se deu no Oriente, nas missões realizadas
entre os chineses, japoneses, indianos; e no Hemisfério Sul, por
meio dos padroados portugueses e espanhóis, na "descoberta" da
América e da África.
Em outros momentos, a missão foi vista em categorias ecle-
siásticas: como expansão da Igreja ou de uma confissão específica,
o que também ocorreu no período das grandes "descobertas" ma-
rítimas, do continente americano e africano. O conceito de missão
também passou pela definição em termos de história da salvação,
ou seja, como um processo por meio do qual o mundo seria trans-
formado no Reino de Deus. Não se pode deixar de ressaltar que,
em todos esses casos, houve interação intrínseca entre Cristologia,
Soteriologia e doutrina da Trindade, tal como na Igreja primitiva.
Bosch (2007) admite que a ideia da missio Dei emergiu pela
primeira vez na Conferência Missionária (CoMin), em Willingen
(1952), compreendendo que a missão deriva da própria natureza
de Deus (Figura 5), sendo inserida no contexto da doutrina da Trin-
dade, não da Eclesiologia, nem da Soteriologia. Esse teólogo da
missão concluiu que:
[...] A história do mundo não constitui apenas uma história do mal,
mas também de amor, uma história em que o Reino de Deus está
sendo levado adiante pela obra do Espírito. Assim, em sua ativida-
de missionária, a Igreja se defronta com uma humanidade e um
mundo em que a salvação de Deus já está operando em secreto por
meio do Espírito [...] (BOSCH, 2007, p. 469).
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 67

Figura 5 Das mãos de Deus envia a missão.

Somos remetidos à doutrina clássica da missão de Deus: o


Pai que envia o Filho e que, por sua vez, envia o Espírito Santo. São
eles que enviam a Igreja para dentro do mundo, de forma que a
missão da Igreja não tem vida própria, pois somente pode vir das
mãos do Deus, que a envia, e é denominada verdadeiramente de
"missão", isto é, uma iniciativa missionária que provém de Deus.
Nessa nova visão, a missão não é primordialmente uma ati-
vidade da Igreja, mas um atributo de Deus: Deus é um Deus mis-
sionário. Para Moltmann (1977, p. 64), "não é a Igreja que deve
cumprir uma missão de salvação no mundo; é a missão do Filho
e do Espírito Santo mediante o Pai que inclui a Igreja". Podemos,
então, compreender a missão como um movimento de Deus em
direção ao mundo: a Igreja é um instrumento para essa missão.
Existe Igreja porque existe missão, e não vice-versa. Participar da
missão é participar do movimento do amor de Deus para com as
pessoas, visto que Deus é uma fonte de amor que envia. A missão
é o voltar-se de Deus para o mundo em relação à criação, à conser-
vação, à redenção e à consumação.
Tendo refletido sobre a Igreja missionária que parte da ini-
ciativa trinitária, no encontro das culturas, prosseguimos para o
tema seguinte, o da transição da missão ad gentes para a missão
inculturada.

Claretiano - Centro Universitário


68 © Teologia Pastoral II: Catequese

6. TRANSIÇÃO DA MISSÃO AD GENTES PARA A


MISSÃO INCULTURADA
A missão ad gentes significa que a missão foi dada por Cristo
à sua Igreja para que atingisse "todos os povos" (Mt 28,18). No
entanto, essa evangelização de "todos os povos" passa necessa-
riamente pela inculturação, isto é, por um processo de traduzir a
mensagem cristã de uma roupagem histórico-geográfica (tempo
de Cristo na Palestina antiga, no Oriente Médio) para uma realida-
de concreta e atual. É fazer o que o próprio Jesus fazia ao procla-
mar a sua mensagem em forma de parábolas, adaptando seus en-
sinamentos à cultura agrária e pastoril de sua época: "Quem tem
ouvidos para ouvir, ouça" (Mt 13,9), de forma que Jesus ensinou
várias verdades por meio de parábolas para simplificar o enten-
dimento daqueles que o ouviam. Normalmente, as parábolas re-
presentavam eventos da natureza. No entanto, várias outras eram
uma representação alegórica e hipotética de acontecimentos cor-
riqueiros na vida das pessoas. Exemplos: casamento, trabalho na
lavoura, pastoreio de ovelhas etc. (veja E-Referências).
A fé cristã sempre precisou ser "traduzida" para dentro de
uma cultura, da forma como aconteceu desde o seu início, quando
a Igreja primitiva estendeu-se sobre os mundos judaico-gentílicos
e fez nascer daí um ambiente transcultural. Essa característica de
origem de traduzir a mensagem cristã para uma cultura específica
fez com que a missão inculturada se tornasse um dos padrões em
que o caráter pluriforme do cristianismo contemporâneo se mani-
festasse, a fim de que a fé fosse inculturada na grande variedade
de liturgias e contextos (siríaco, grego, romano, copta, armênio,
etíope, maronita etc.).
A conversão do imperador romano Constantino (272-337
d.C.) (Figura 6) à religião cristã foi um fato importante na história
do cristianismo, mas só depois de sua morte a antiga religião cristã,
que era proibida, tornou-se a religião de Estado, e a Igreja passou a
ser a portadora da cultura. Sua expansão missionária representou
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 69

um movimento dos civilizados para os "selvagens", de uma cultura


"superior" para culturas "inferiores". A missão cristã, então, pres-
supunha a desintegração das culturas em que penetrava.

Figura 6 Imperador romano Constantino (272-337 d.C.).

Quando se iniciou a expansão colonial do Ocidente em gran-


de escala, os cristãos ocidentais não tinham consciência do fato de
que sua Teologia era condicionada pela cultura. No caso das terras
de missão, a estratégia de colocar o Evangelho nas culturas foi de-
nominado de "adaptação" ou "acomodação".

Evangelização na China e na Índia pelos Jesuítas––––––––––


O caso da evangelização na China e na Índia pelos jesuítas é emblemático
e ficou conhecido como a "Controvérsia dos Ritos": uma bula papal de 1744,
Omnium sollicitudinum, proibiu tudo o que poderia ser uma inculturação do
evangelho, a não ser as concessões mais triviais aos costumes locais, e ordenou
um juramento de submissão que deveria ser prestado por todos os missionários;
vetava-se também quaisquer discussões sobre o assunto. Em 1773, os jesuítas
foram suprimidos da China, mas logo depois foram chamados de volta. Somente
em 1814 eles foram restaurados por um decreto papal. Só em 1938 se aboliu o
juramento introduzido em 1744 (BOSCH, 2007, p. 537).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

O surgimento do pensamento antropológico, no século 19,


e do nacionalismo, no Terceiro Mundo, gradualmente desvelou
a relatividade e a contextualidade de todas as culturas, levando
à maturação das Igrejas jovens e a não aceitação de que bastava
apenas uma "acomodação" das culturas ao Evangelho e vice-versa.
Tais acontecimentos prepararam para aquilo que ficou conhecido
como "inculturação", ou seja, o reconhecimento de uma plurali-
dade de teologias, despedindo-se da abordagem eurocêntrica. Na
verdade, a fé cristã precisa ser repensada, reformulada e revivida
em cada cultura humana.

Claretiano - Centro Universitário


70 © Teologia Pastoral II: Catequese

Na inculturação, os dois agentes principais são o Espírito


Santo e a comunidade local, especialmente as pessoas leigas. A
inculturação só é possível se todos praticarem a convivência, ou
seja, a "vida em conjunto". Assim, a inculturação segue o modelo
da encarnação; da mesma forma como o Verbo Divino se encarnou
na pessoa de Jesus Cristo, o Evangelho deve se encarnar na cultu-
ra humana, num movimento duplo, ou seja, ocorrer simultanea-
mente a inculturação do cristianismo e a cristianização da cultura
(Figura 7). Inculturação não quer dizer que a cultura tenha que ser
destruída e algo novo deva ser construído sobre suas ruínas, nem
mesmo que uma cultura específica deva ser meramente endossa-
da ou considerada a forma ideal que assumiu toda a cultura cristã.

Figura 7 A encarnação e a inculturação.

O Ocidente, muitas vezes, domesticou o Evangelho em sua


própria cultura, enquanto o tornava desnecessariamente estra-
nho a outras culturas. Em um sentido muito concreto, porém, o
Evangelho é estranho a qualquer cultura, porque ele sempre cons-
tituirá um sinal de contradição, e não concordará com todos os
elementos de uma determinante cultura.
A inculturação autêntica poderá verdadeiramente ver o Evan-
gelho como libertador da cultura ou pode também tornar o Evan-
gelho um prisioneiro da cultura. A relação entre a mensagem cristã
e a cultura deveria ocorrer de forma criativa e dinâmica, repleta de
surpresas, podendo-se falar também de "interculturação", que é o
intercâmbio entre as culturas, realizada pelas diferentes teologias.
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 71

Cabe o lugar de destaque que a Igreja precisa ocupar para


que todos os cristãos possam se sentir em casa. Se, porém, apenas
nós nos sentimos em casa, ou em nossa Igreja, ou comunidade es-
pecífica, e todas as outras pessoas são excluídas ou mal acolhidas,
ou se sentem completamente alienadas, então algo deu errado no
processo de inculturação e precisa ser revisto, para que realmente
o Evangelho alcance todas as pessoas, conforme o pedido de Cris-
to à Igreja nascente.

7. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
1) Qual a relação entre a Teologia da Missão e a concepção de Igreja em co-
munhão?

2) De que forma passou a ideia de missão na Trindade para a missão que a


Igreja deve executar no mundo?

3) Como você pode explicar que há dois lados da mesma moeda, em que a
Igreja se apresenta como missionária, mas ao mesmo tempo a missão é
eclesialmente comprometida?

4) Como ocorre a transição da missão ad gentes para a missão inculturada?

5) Quais os percalços pelos quais a Igreja já passou durante sua história na re-
lação entre Evangelho e cultura, e quais foram as inculturações promissoras?

8. CONSIDERAÇÕES
Ao finalizar esta Unidade 2, podemos afirmar que a missão,
que teve seu início no seio da Trindade, espalhou-se pela Igreja a
todos os povos (ad gentes). Na verdade, a missão envolve a parti-
cipação de todos, isto é, de cada pessoa e de toda a humanidade,
que toma corpo na caminhada para o Reino de Deus. A missão não
pode desembocar num puro pensamento, nem mesmo num puro
ato de fé de uma doutrina revelada.

Claretiano - Centro Universitário


72 © Teologia Pastoral II: Catequese

Vimos que o objetivo da missão transcende a ideia de que


as pessoas e os povos possam apenas reconhecer a verdade da
revelação, mas que é preciso participar de um agir pessoal e cole-
tivo, que faz crescer o Reino de Deus neste mundo, a fim de que o
Reino de Deus torne-se um processo de libertação que procura o
lugar de cada um, de cada comunidade, de cada povo ou de cada
religião, enfim, de toda a humanidade nesse processo.
Cada pessoa e cada povo são chamados a agir de um modo
particular, de forma específica dentro de um processo que não se
repete, mas no qual tudo avança de maneira original. Assim, não
se trata de uma submissão de todas as pessoas e culturas de ma-
neira igual à mesma doutrina. A Teologia da revelação poderia até
ser conveniente para uma Igreja imperial, impositiva, autoritária,
mas é totalmente inadequada para a ideia que a Igreja se faz de si
mesma hoje, de que deve evangelizar com base nas culturas, con-
forme nos ensina o teólogo José Comblin (2013).
Por fim, estudamos a importância de se efetuar uma tran-
sição da missão ad gentes para a missão inculturada. Reforçamos
que a missão da Igreja é decorrente de sua "natureza missionária",
que tem sua origem no envio do Filho e na missão do Espírito San-
to. Portanto, a Teologia da Missão não é uma "disciplina" teológi-
ca entre as demais disciplinas. Como a Teologia Fundamental, ela
rompe as fronteiras disciplinares e perpassa todos os campos da
reflexão teológica.
A Teologia da Missão vem aprendendo a fazer esse "movi-
mento transgressor" das comunidades missionárias para que elas
não vivam para si mesmas, mas que possam olhar e caminhar
além das fronteiras para "convocar e enviar servos e testemunhas
do Reino" até os confins dos tempos. Esse é o nosso desafio, que
se estenderá à próxima unidade, quando estudaremos a Teologia
da Missão hodierna e o desafio de evangelizar o universo urbano.
© U2 - A Igreja Missionária do Pai, no Encontro de Todos os Povos e Culturas na Transição da Missão Ad
Gentes para a Missão Inculturada 73

9. E-REFERÊNCIAS

Lista de figuras
Figura 1 O mundo como teatro ou palco das atividades divinas. Disponível em: <http://
nunesjanilton.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html>. Acesso em: 5 ago.
2013.
Figura 2 Dois lados da mesma moeda. Disponível em: <http://usabilidoido.com.br/
ajax_e_design_de_interacao_dois_lados_da_mesma_moeda.html>. Acesso em:
5 ago. 2013.
Figura 3 O historiador francês Jean Delumeau. Disponível em: <http://pela-positiva.
blogspot.com.br/2011/12/doutrina-do-pecado-original-infetou-o.html>. Acesso
em: 5 ago. 2013.
Figura 4 O teólogo belga, radicado no Brasil, José Comblin. Disponível em: <http://
cnlbsul1.blogspot.com.br/2011/03/faleceu-hoje-pela-manha-jose-comblin.
html>. Acesso em: 5 ago. 2013.
Figura 5 Das mãos de Deus envia a missão. Disponível em: <http://feesperancaeamor.
blogspot.com.br/2011/08/nas-palmas-das-maos-de-deus.html>. Acesso em: 5
ago. 2013.
Figura 6 Imperador romano Constantino (272-337 d.C.). Disponível em: <http://
algarvivo.com/arqueo/romano/imperador-constantino.html>. Acesso em: 5 ago.
2013.
Figura 7 A encarnação e a inculturação. Disponível em: <http://
catequesechamadodedeus.blogspot.com.br/2011_12_01_archive.html>.
Acesso em: 5 ago. 2013.

Sites pesquisados
CARRIKER, T. Teologia da missão. MissioNews. Revista de Missiologia on-line, v. 1, Ano
1, p. 72-88, abr. 2009. Disponível em: <http://missionews.com.br/downloads/Artigo%20
-%20Teologia%20da%20Miss%E3o%20-%20Tim%F3teo%20Carriker.pdf>. Acesso em: 5
ago. 2013.
COMBLIN, J. As grandes incertezas na Igreja atual. Revista Eclesiástica Brasileira – REB, n.
265, p. 36-58, jan. 2007. Disponível em: <http://www.estef.edu.br/zugno/wp-content/
uploads/2011/03/incertezasdaigrejaatualcomblin1.doc>. Acesso em: 5 ago. 2013.
______. Teologia da Missão. Disponível em: <http://www.missiologia.org.br/cms/
ckfinder/userfiles/files/4nucleo.pdf>. Acesso em: 5 ago. 2013.
PORTAL DA BÍBLIA. As palavras de Jesus. Disponível em: <http://www.portaldabiblia.
com/?do=pdj>. Acesso em: 5 ago. 2013.
SILVEIRA, I. H. A índole missionária da Igreja na perspectiva da Conferência de
Aparecida (2008). Monografia (Graduação em Teologia). Faculdade de Teologia –
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS. Porto Alegre. 2008.
Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/graduacao/article/
viewFile/5086/3742>. Acesso em: 5 ago. 2013.

Claretiano - Centro Universitário


74 © Teologia Pastoral II: Catequese

TAQUES JUNIOR, D. V. Catequese básica: adultos — crescimento em Cristo — itinerário da


Fé. São Paulo: Loyola, 2005. Disponível em: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-
BR&lr=lang_pt&id=RJiUTh4UaLsC&oi=fnd&pg=PA7&dq=catequese&ots=4eIxVznZnD&
sig=L-0RhyikbUBBb9lzLf_aUCTl8ZU#v=onepage&q=catequese&f=false>. Acesso em: 5
ago. 2013.

10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AMALADOSS, M. Missão e inculturação. São Paulo: Loyola, 2000.
BOSCH, D. A missão transformadora: mudanças de paradigmas na Teologia da missão. 2.
ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007.
CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida. Texto
conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. São
Paulo: Paulus, 2007.
DELUMEAU, J. O pecado e o medo: a culpabilização no ocidente (séculos 13-18). Bauru:
EDUSC, 2003.
MOLTMANN, J. The church in the power of the spirit: a contribution to messianic
ecclesiology. London: SCM, 1977.
PANAZZOLO, J. Missão para todos: introdução à Missiologia. São Paulo: Paulus, 2006.
SUESS, P. Introdução à Teologia da missão. Convocar e enviar: servos e testemunhas do
Reino. Petrópolis: Vozes, 2007.
VIER, F. (Org.). Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. 21. ed.
Petrópolis: Vozes, 1991.
EAD
A Teologia da Missão
Hodierna e o Desafio
de Evangelizar o
Universo Urbano
3

1. OBJETIVOS
• Compreender como se desenvolveu a Teologia da Missão.
• Analisar os desafios de evangelizar as cidades, com base
em diferentes concepções e experiências de Pastoral Ur-
bana.

2. CONTEÚDOS
• Teologia da Missão hodierna.
• Evangelizar o universo urbano.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
76 © Teologia Pastoral II: Catequese

1) Existem diferentes correntes teológicas da missão ho-


dierna, além daquelas mencionadas neste texto. Procu-
re fazer pesquisas, relacionando-as com as teologias vis-
tas no CRC. Lembre-se de compartilhar o que descobriu
com seus colegas de turma, na "Lista" ou no Fórum.
2) Sobre os desafios da Pastoral Urbana, leia o texto do Pe.
Joel Portella Amado, A paróquia na cidade — ser comu-
nidade hoje: qual o melhor caminho? Alguns desafios
atuais para a evangelização. Disponível em: <http://
www.regiaolapa.org.br/site/?secao=sender&sub=down
loadArquivo&cod=53>. Acesso em: 7 ago. 2013.
3) Alguns vídeos ajudam na reflexão do que se faz pelo
Brasil quanto à Pastoral Urbana e à evangelização dos
jovens. Veja os destacados a seguir:
• SBT BRASIL. Igrejas e a fé sob medida: a reação ca-
tólica, Brasil, 2009. Disponível em: <http://youtube/
IduLDTSWCBs>. Acesso em: 7 ago. 2013.
• BRIGHENTI, A. Pe. Seminário sobre Pastoral Urbana.
Brasil, 2009. Disponível em: <http://www.youtube.
com/watch?v=nYn4wCircnw>. Acesso em: 7 ago.
2013.
4) Abrindo os horizontes para novas perspectivas de tra-
balho de evangelização nas cidades, vale a pena co-
nhecer a experiência relatada no artigo Software para
controle da catequese, de Saymon Dalbem e Viviani
Priscila Piloni Vilhegas, que faz parte do ETIC – Encon-
tro de Iniciação Científica, 2010. Disponível em: <http://
intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/article/
view/2539/2063>. Acesso em: 7 ago. 2013.
5) Se quiser aprofundar-se na questão da Catequese de
adultos, acesse o texto "A contribuição da catequese de
adultos na história da evangelização segundo o DNC", de
Antonio Ferreira Rodrigues e Sérgio Nicolau Engerroff,
publicado na Revista Litterarius, v. 11, n. 1, 2012. Dis-
ponível em: <http://184.173.252.161/~fapas413/index.
php/litterarius/article/view/59/71>. Acesso em: 7 ago.
2013.
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 77

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Estudamos na unidade anterior que a Teologia da Missão se
fundamenta no mistério da Trindade e visa levar a comunidade
humana a viver a plenitude do amor, da solidariedade, da justiça
e da paz, em um mundo cada vez mais globalizado, pluricultural,
pluriétnico e plurirreligioso, com acentuadas mudanças nas rela-
ções entre os povos. Nesse contexto, a Teologia da Missão deve se
sentir provocada a se voltar para os novos desafios que se colocam
à ação evangelizadora, entre eles, evangelizar o mundo atual e,
principalmente, as pessoas que vivem nas grandes cidades, uma
vez que, durante muitos anos, toda a pastoral da Igreja foi essen-
cialmente dirigida às pessoas que viviam na zona rural.

Figura 1 Universalismo da Igreja.

Sabendo-se que o tema do universalismo (Figura 1) é muito


caro à Igreja, e que essa concepção abarca espaço (Pastoral Urba-
na) e tempo (Teologia da Missão hodierna), não se poderia aban-
donar a reflexão teológica sem refletir sobre esses dois aspectos
que nos cabe estudar nesta Unidade 3.
O universalismo da missão dada por Cristo à Igreja
possui consequências desconcertantes para a vida pastoral da Igre-
ja (...). Ser universal, capaz de abranger e de ser expressado por
todas as culturas e por todos os povos, é essencial para o Evange-
lho. A missão da Igreja dada por Deus é a de ir a ‘todas as nações’
(SENIOR; STUHLMÜELLER, 1987, p. 9).

Claretiano - Centro Universitário


78 © Teologia Pastoral II: Catequese

Dessa forma, não podemos deixar de afirmar que os funda-


mentos dessa missão universal estão na Bíblia, que "exprime a rica
experiência de um povo que estava convencido de que nos acon-
tecimentos históricos e nos grandes chefes Deus estava moldando
o seu destino" (SENIOR; STUHLMÜELLER, 1987, p. 9).

Figura 2 Fundamentos bíblicos da missão.

Com base nos fundamentos bíblicos, nascem as várias con-


cepções de "missão" (Figura 2), que também depende dos teólo-
gos ou dos líderes da Igreja e da sua forma de interpretar o dado
bíblico. Alguns afirmam que a "missão" evoca imagens de fazer
apaixonados e, muitas vezes, insensíveis prosélitos. Outros pos-
suem uma visão mais sofisticada de missão, mas hesitam com re-
lação a essa dimensão da vida da Igreja.
O esforço missionário da Igreja sofreu profunda crise em me-
ados do século 20, quando se iniciou a rejeição do colonialismo,
uma nova descoberta do respeito às religiões não cristãs e as mu-
danças nos modelos da Igreja (conforme vistos em Eclesiologia e
em Teologia Pastoral I). Somente nos anos 80 surgiu o sentido da
perspectiva sobre a qual estamos tratando nesta unidade: fazer
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 79

dialogar a cultura com a fé, refletir sobre a importância da Teolo-


gia da Missão hoje e atingir as pessoas que vivem nas cidades, por
meio da Pastoral Urbana.

5. TEOLOGIA DA MISSÃO HODIERNA


Ao mencionarmos a Teologia da Missão hoje, é preciso antes
de tudo afirmar que existe uma profunda dessemelhança entre a
época do Novo Testamento e a nossa, então, não é possível ape-
lar diretamente para as palavras dos autores bíblicos e aplicá-las
à nossa própria situação, como se houvesse entre elas correspon-
dência exata e completa. Deveríamos, portanto, de forma criativa
e responsável, prolongar a lógica do ministério de Jesus e da Igreja
primitiva para nosso próprio tempo e contexto. Dessa forma, po-
deremos abordar a Teologia da Missão hodierna, que é capaz de
inculturar o Evangelho atualmente.
Um dos motivos básicos que nos obriga a fazer tal adequa-
ção está no fato de a fé cristã ser uma fé histórica, que pode ser
adaptada para qualquer tempo, seja do passado, do presente ou
do futuro. Essa realidade se baseia em que Deus comunica sua
revelação às pessoas por intermédio de seres humanos e eventos,
não por meio de proposições abstratas e a-históricas. A fé bíbli-
ca é "encarnacional" (Figura 3), em razão de a realidade de Deus
adentrar os assuntos humanos, seus problemas e suas situações
históricas.

Figura 3 A fé bíblica é "encarnacional".

Claretiano - Centro Universitário


80 © Teologia Pastoral II: Catequese

Infelizmente, sempre houve cristãos (e também teólogos)


que julgavam que sua compreensão de fé era "objetivamente"
exata e deveria ser a única interpretação autêntica do cristianis-
mo. Na verdade, nossos pontos de vista constituem sempre meras
interpretações do que consideramos ser a revelação divina, não
a revelação divina em si mesma, uma vez que essas interpreta-
ções são profundamente configuradas por nossas autocompreen-
sões da revelação divina, situadas historicamente. Assim, é preciso
entender o momento temporal que se vive para poder realizar a
missão, e não trazer do passado fórmulas que deram certo para
aquele determinado tempo e que provavelmente não se adapta-
rão aos tempos atuais.
Parece ser mais uma ilusão acreditar que podemos chegar
até um Evangelho puro, não afetado por quaisquer acréscimos cul-
turais, pois não se pode mencionar Teologia cristã da missão, mas,
sim, "teologias cristãs da missão". Aqui, nos reportamos ao termo
paradigma, um conceito vindo da filosofia da ciência de Thomas
Kuhn (2003). Com base nessa concepção, também houve na Teo-
logia da Missão uma mudança de paradigma, uma vez que cada
época reflete um paradigma teológico profundamente distinto de
qualquer um de seus precedessores.
Para Bosch (2007, p. 229), "em cada era, os cristãos do perío-
do compreenderam e experimentaram sua fé de um modo apenas
parcialmente comensurável com a compreensão e a experiência
dos crentes de outras eras".
O termo paradigma foi cunhado por Thomas Kuhn (2003)
(Figura 4), em sua célebre obra A estrutura das revoluções cientí-
ficas, para explicar que as grandes mudanças na ciência não vie-
ram da continuidade e, sim, das mudanças da forma de conceber
o conhecimento. O termo passou a ser aplicado em todas as áreas
das ciências, inclusive na Teologia, levando em conta "as diferen-
ças significativas entre a Teologia e as ciências naturais" (BOSCH,
2007, p. 232), o que significa que houve mudanças de paradigmas
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 81

também na Teologia e na compreensão de como os cristãos perce-


bem a missão da Igreja nas várias épocas da história do cristianis-
mo (veja E-referências).

Figura 4 Thomas Kuhn.

No caso da Teologia, a questão dos paradigmas difere um


pouco do que há nas ciências, pois na Teologia cristã é possível
haver a convivência de um paradigma novo com um velho, que
pode continuar vivo. Além disso, pode haver reavivamento de um
paradigma anterior, quase esquecido, isto é, o "velho" paradigma
em Teologia, raras vezes, desaparece completamente.
Para o teólogo Hans Küng (1987), o paradigma helenístico
do período patrístico ainda vive em algumas igrejas ortodoxas; o
paradigma católico romano medieval, no tradicionalismo católico
romano contemporâneo; o paradigma da Reforma protestante, no
confessionalismo protestante do século 20, e o paradigma ilumi-
nista, na Teologia liberal.
Em todas as denominações hodiernas, encontramos, lado a
lado, crentes fundamentalistas, conservadores, moderados, libe-
rais e radicais. Torna-se ainda mais complicada a questão, quando
se descobre que as pessoas estão comprometidas com mais de um
paradigma ao mesmo tempo, fazendo com que nossas teologias
sejam parciais e influenciadas cultural e socialmente pelo ambien-
te em que vivemos. Por isso, todo cuidado é pouco, pois em vez
de ver minha própria interpretação como absolutamente correta

Claretiano - Centro Universitário


82 © Teologia Pastoral II: Catequese

e todas as demais, por definição, como errôneas, devo reconhecer


que diferentes interpretações teológicas, incluindo a minha, refle-
tem contextos, perspectivas e vieses distintos.
Para uma pessoa cristã, qualquer mudança de paradigma só
pode ocorrer com base no Evangelho e por causa do Evangelho,
porém jamais contra ele. Ao contrário das ciências naturais, a Te-
ologia se relaciona não só com o presente e o futuro, mas tam-
bém com o passado, a tradição, o testemunho primordial de Deus
aos seres humanos, fazendo com que toda atualização mantenha
grande fidelidade à mensagem proclamada de Cristo e transmitida
à Igreja.
Aliás, a palavra tradição vem do latim traditio, um derivado de
tradere, que significa "entregar, passar adiante"; ou seja, a Tradição
(com T maiúsculo) significa originalmente aquilo que foi entregue
à Igreja e que ela deve manifestar de forma fidedigna.
Outra questão a ser reforçada é que está ficando cada vez
mais evidente que os modernos deuses do Ocidente — ciência,
tecnologia e industrialização — perderam seu fascínio, graças aos
grandes eventos da História mundial: a Primeira e a Segunda Gran-
des Guerras; a Revolução Russa e a Chinesa; os horrores cometi-
dos pelos governos de ideologia nacional-socialista (o fascismo, o
comunismo e o capitalismo); o colapso dos grandes impérios co-
loniais ocidentais; a rápida secularização do Ocidente; o abismo
entre pobres e ricos; o possível desastre ecológico do mundo, tor-
nando o progresso um deus falso.
Essa crise moderna levou muitas pessoas a buscar a religio-
sidade, a espiritualidade e a religião como possíveis respostas às
angústias modernas, o que faz com que haja um campo relativa-
mente propício à evangelização.
É preciso estar atento a algumas informações, como, por
exemplo, o fato de a Igreja não ter mais posição de destaque em
diversos países, mesmo onde ela esteve estabelecida como um fa-
tor poderoso por mais de um milênio, o que, na prática, eliminou
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 83

os privilégios que um cristão teria nesses países. Assim, a missão


de evangelizar pode ter as características de semear a palavra em
um terreno muito pedregoso, ou com espinhos, ou onde os pás-
saros a comeram (Mt 13,1-23): é uma semeadura da palavra de
Deus em um ambiente hostil, a qual devemos estar preparados
para fazê-la (Figura 5).

Figura 5 A palavra do semeador e os quatro campos onde caiu a semente.

No entanto, nem tudo está perdido: há muitos elementos a


serem valorizados. Ao comentar o papel preponderante da Confe-
rência de Aparecida para a Teologia da Missão, Suess (2007, p. 1)
(Figura 6) ressalta os avanços do Documento de Aparecida (DA),
afirmando que:
[...] Em Aparecida, a missão tornou-se o paradigma-síntese e gran-
de projeto da Igreja latino-americana e caribenha. Paradigma-sín-
tese num duplo sentido: primeiro, assume a caminhada das quatro
Conferências Episcopais Latino-Americanas anteriores, inclusive
Vaticano II (1962-1965), com seus paradigmas de descolonização,
diálogo, opção pelos pobres, Comunidades de Base, libertação,
participação e inculturação; e, segundo, sintetiza as múltiplas pro-
postas do próprio DA sob o prisma da missão [...].

Figura 6 O teólogo Paulo Suess.

Claretiano - Centro Universitário


84 © Teologia Pastoral II: Catequese

O referido teólogo continua:


[...] A perspectiva missionária de Aparecida deu novas luzes para a
Missiologia hodierna, propondo realizar abertura de algumas cla-
reiras, que indicam que os cristãos precisam descobrir sua vocação
missionária, principalmente quando são inseridos na realidade do
mundo, na qual devem experimentar a possibilidade de intervir e
transformar esse mundo. Isso porque os discípulos missionários
devem pensar que a origem da missão está nas relações intratri-
nitárias do amor divino e que esse amor transborda na missão de
Jesus histórico e do Espírito Santo, ou seja, Jesus, conduzido pelo
Espírito Santo, aponta para a convocação e o envio do povo da
Nova Aliança, a Igreja, que nasce na festa de Pentecostes.
Por sua vez, a Igreja, instrumento de salvação, está a serviço do
Reino de Deus, que fornece os parâmetros para as transformações
diárias do mundo. Assim, os discípulos missionários são os sujei-
tos dessa transformação, que, segundo o DA, acontece em círculos
concêntricos da pastoral missionária: na paróquia missionária, na
missão continental e na missão ad gentes, sem esquecer de que
em todos esses âmbitos está presente o diálogo ecumênico e inter-
-religioso [...] (Suess, 2007, p. 4).

Dessa maneira, a Teologia missionária poderá estar sempre


atualizada, dialogando com o mundo e com as pessoas de nosso
tempo.

6. EVANGELIZAR O UNIVERSO URBANO


Evangelizar o universo urbano está ligado ao trabalho reali-
zado pela Pastoral Urbana, que nasceu na América Latina nos anos
60, por meio do esforço da reflexão teológica sobre os problemas
pastorais específicos das grandes cidades.
Na entrevista do Pe. Alberto Antoniazzi (Figura 7), dada
a Matos (2002) à Revista Amaivos, ele estabeleceu como marco
do surgimento da Pastoral Urbana o Encontro promovido pelo
CELAM, em 1965, em Barueri (estado de São Paulo). A Pastoral
Urbana nasceu da consciência da necessidade de evangelização
específica para as grandes cidades, com base no fato de que a ur-
banização vem crescendo rapidamente (há, inclusive, hoje em dia,
algumas "megalópoles") e que a maioria das práticas pastorais da
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 85

Igreja Católica eram inadequadas para essa realidade, porque elas


estavam voltadas ao mundo rural ou às cidades pequenas.

Figura 7 O teólogo Alberto Antoniazzi.

Alberto Antoniazzi–––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Pe. Alberto Antoniazzi (1937-2005), italiano de nascimento, brasileiro de adoção,
é referência quando se fala de Pastoral Urbana, tendo se dedicado às reflexões
teológicas e à implantação da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG). Foi um
teólogo preocupado principalmente com a presença da Igreja no mundo da
cidade de hoje. Procurou desenvolver uma Eclesiologia centrada na missão da
Igreja a partir do conceito de Povo de Deus, que inclui o clero e os leigos. Foi
professor e formador do clero, contribuindo com seus escritos para fortalecer o
ministério ordenado, apoiando-se nas fontes do Novo Testamento e na longa
tradição histórica da Igreja. Preocupa-se, particularmente, com a relevância da
atuação do fiel cristão, tanto no âmbito interno da Igreja quanto na sociedade
(LIBÂNIO, 2004, p. 40-52).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

O trabalho pastoral, nas grandes cidades, precisa atingir tan-


to o centro quanto a periferia, com a devida atenção de que os
problemas da periferia não são os mesmos do centro urbano. Infe-
lizmente, na periferia, encontramos, muitas vezes, uma população
em transição do mundo rural (de onde vem) para a cultura urbana,
que sente saudades do campo e enfrenta dificuldades em se adap-
tar à realidade urbana.
As dificuldades dessa Pastoral (Figura 8) multiplicam-se,
porque a urbanização vem acompanhada de um processo de mo-
dernização que leva ao individualismo e ao enfraquecimento dos
laços comunitários e institucionais. Isso desgasta, também, a ação
pastoral da Igreja (MATOS, 2002).

Claretiano - Centro Universitário


86 © Teologia Pastoral II: Catequese

Figura 8 Pastoral Urbana.

As novas tendências da religiosidade urbana exigem a inver-


são da pastoral tradicional, que permaneceu na Igreja ao longo do
século 20. O foco dessa pastoral era o de manter a reta doutrina,
a liturgia autêntica, a justa disciplina, sem haver nenhuma preocu-
pação com a maneira como as pessoas viviam ou recebiam a ação
pastoral. Para mudar isso, a Pastoral Urbana teve que inverter o
paradigma e partir para a valorização da pessoa, propondo uma
nova experiência cristã em clima de liberdade.
A Pastoral Urbana sabe que sua ação pastoral na cidade não
é fácil, mas a cidade hoje faz crescer a qualidade do catolicismo e
estimula a participação ativa de todos os católicos, de acordo com
o Pe. Antoniazzi, na referida entrevista dada a Matos (2002).
Há uma série de ações pastorais que podem ser realizadas
pelas paróquias nas grandes cidades, como, por exemplo, na bus-
ca de adaptação às exigências da Pastoral Urbana, incentivando
a criação da pastoral da acolhida e dinamizando suas ações, pois
"acolher é evangelizar" (ALVES, 1995).
Ressente-se a falta de uma pastoral mais especializada, que
atinja setores específicos da sociedade ou ambientes da vida das
pessoas na cidade, atendendo com mais rapidez a sua periferia.
Ora, a complexidade da realidade urbana nos estimula a buscar
um "planejamento participativo" (e não somente tecnocrático ou
centralizado), mas algo que estimule a responsabilidade e a criati-
vidade de todos os agentes.
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 87

Gonçalves (2009) vê na cidade o grande desafio para a missão,


sobretudo porque a Igreja se faz num contexto social, embora
tenha suas mazelas, como a pobreza, a segregação do sistema
econômico e dos serviços, a violência que vem da marginalização
social e educacional. Diante dessas realidades, não se pode virar
os olhos, nem fingir que não existem, sem a devida abordagem
pela pastoral e pela Igreja, porque isso faz parte de sua missão.

Informação–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Segundo o site do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME), que se
dedica às missões, hoje a população mundial está concentrada mais na cidade
do que na zonal rural, chegando a ser mais de 50% da população nas cidades. Se
compararmos com o ano de 1950, veremos que aí a população urbana mundial
era de apenas 16%. Em 1900, somente na cidade de Londres havia mais de um
milhão de habitantes e, atualmente, são 405 cidades com mais de um milhão de
habitantes. Também no Brasil a população urbana vem crescendo ano a ano,
conforme se pode ver no quadro a seguir (PIME, 2013) (Figura 9):

Figura 9 Crescimento da população urbana.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

O Censo Demográfico de 2010, realizado pelo IBGE (2011),


mostrou que a população urbana cresceu para 84,35%, e a rural
caiu para 15,65%. Tal fato demonstra, sem desprezar a pastoral
na zona rural, que a população nas cidades precisa mais de nossa
atenção e apoio.

Claretiano - Centro Universitário


88 © Teologia Pastoral II: Catequese

Essa situação causa preocupação porque a maioria das pes-


soas que chegam às cidades não têm quase nenhum estudo (há,
inclusive, diversos casos de analfabetos), nem experiência profis-
sional, fazendo com que aceitem empregos com baixos salários e
submetam-se a subempregos, a trabalhos temporários ou ativida-
des informais para sobreviver, como as de camelô, vendedor am-
bulante etc.
Rendimentos muito baixos podem levar esses trabalhadores
para a periferia, muitas vezes, para loteamentos irregulares, onde
há muita violência e riscos. Geralmente, esses bairros têm infraes-
trutura precária (água tratada e esgoto canalizado), apresentando
várias e diferentes denominações de pequenas igrejas evangélicas,
que acolhem e apoiam tais trabalhadores, nas principais dificulda-
des imediatas, de modo que toda a família se vê obrigada a aban-
donar sua religião de origem.
Talvez, a falta de uma evangelização aprofundada e próxima
da realidade seja uma das razões pelas quais o número de católicos
vem caindo significativamente nos dados censitários (NERI, 2011).
A Pastoral Urbana é um grande desafio para a Igreja, graças
à necessidade de adequar suas pastorais aos elementos próprios
das cidades, na sua organização, nos seus símbolos, nas suas cultu-
ras e nas suas relações. Temos a impressão de que os presbíteros e
os fiéis não estão preparados para as necessárias mudanças signi-
ficativas na liturgia, na forma de administração das paróquias e na
organização das igrejas locais, a fim de que as pessoas que vivem
nas cidades sejam mais bem acolhidas.

7. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 89

1) Diante dos atuais problemas sociais, qual contribuição pode dar a Teologia
da Missão para o mundo contemporâneo?

2) Como podemos pensar hoje na universalidade da mensagem cristã, diante


da consciência do respeito que é preciso ter para com as diferenças étnicas,
culturais e religiosas?

3) De que forma a Pastoral Urbana pode alcançar o homem recém-chegado à


cidade e que se refugiou na periferia das grandes cidades?

4) Qual a proposta que a Teologia contemporânea da missão pode oferecer à


Pastoral Urbana?

5) E o contrário: qual a reflexão que a Pastoral Urbana pode oferecer para o


avanço da Teologia contemporânea da missão?

8. CONSIDERAÇÕES
Ao finalizarmos esta Unidade 3, reforçamos a ideia inicial
da Comunhão Trinitária como o grande paradigma da Missão no
contexto do mundo globalizado, que inspira toda a trajetória da
Igreja e a reflexão teológica acerca da Missiologia. Além disso, a
missão não pode assustar-se diante das dificuldades e dos desafios
de evangelizar o meio urbano, pois para tanto ela foi constituída:
para ir ao encontro das pessoas e anunciar-lhes a boa-nova de Je-
sus Cristo.
Como em todas as situações de evangelização, aqui também
a Igreja não pode ficar indiferente à realidade única da cidade. Sua
presença no meio dessa realidade urbana exige respostas para
novas problemáticas e muita criatividade. Para que isso aconte-
ça com eficácia, é necessário que tanto os sacerdotes, os religio-
sos e as religiosas, quanto os agentes de pastoral de uma mesma
cidade estejam cada vez mais unidos para a realização de ações
conjuntas, inteligentes, criativas, afetivas e efetivas, não definindo
limites, mas, sim, somando forças. A Pastoral Urbana só poderá
avançar quando houver grande comunhão entre os operários do
Senhor que lá trabalham.

Claretiano - Centro Universitário


90 © Teologia Pastoral II: Catequese

9. E-REFERÊNCIAS

Lista de figuras
Figura 1 Universalismo da Igreja. Disponível em: <http://www.pulpitocristao.
com/2011/03/o-que-e-universalismo/>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 2 Fundamentos bíblicos da missão. Disponível em: <http://domdamasceno.
blogspot.com.br/2011_07_01_archive.html>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 3 A fé bíblica é "encarnacional". Disponível em: <http://noticias.gospelmais.com.
br/coreia-do-norte-cristao-refugiado-historia-biblia-escondida-29704.html>. Acesso em:
7 ago. 2013.
Figura 4 Thomas Kuhn. Disponível em: <http://jcie.blogspot.com.br/2011/03/estrutura-
das-revolucoes-cientificas.html>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 5 A palavra do semeador e os quatro campos onde caiu a semente. Disponível
em: <http://amoremensinar.blogspot.com.br/2008/12/atividades-sobre-parabola-do-
semeador.html>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 6 O teólogo Paulo Suess. Disponível em: <http://www.arquidioceserp.org.br/
printed.asp?active_page_id=1163>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 7 O teólogo Alberto Antoniazzi. Disponível em: <http://www.nonprofitonline.it/
default.asp?id=439&id_n=2858>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 8 Pastoral Urbana. Disponível em: <http://foraniadeipanemaonline.blogspot.
com.br/2012/04/evangelizacao-nas-cidades.html>. Acesso em: 7 ago. 2013.
Figura 9 Crescimento da população urbana. PIME. Missão jovem. Disponível em: <http://
www.pime.org.br/missaojovem/mjevanggeralarte.htm>. Acesso em: 7 ago. 2013.

Sites pesquisados
GONÇALVES, A. Uma pastoral integral, igreja-cidade: em diálogo a eclesiologia de Jürgen
Moltmann e a pastoral de José Comblin. Revista eletrônica do núcleo de estudos e
pesquisa do protestantismo da Escola Superior de Teologia (EST), São Leopoldo, RS, v. 19,
p. 93-101, maio/ago. 2009. Disponível em: <http://www3.est.edu.br/nepp/revista/019/
ano08n2_10.pdf>. Acesso em: 7 ago. 2013.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Dados do Censo 2010.
Disponível em: <http://www.censo2010.ibge.gov.br/resultados>. Acesso em: 7 ago.
2013.
JOSÉ, Dc. L. Missiologia: Fundamentos bíblicos da missão. Teologia on line, jan.
2009. Disponível em: <http://teologiaon-line.blogspot.com.br/2009/01/missiologia-
fundamentos-bblicos-da.html>. Acesso em: 7 ago. 2013.
LIBÂNIO, J. B. Alberto Antoniazzi e a Igreja. Horizonte, Belo Horizonte, v. 3, n. 5, p. 40-
52, 2º sem. 2004. Disponível em: <http://www.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_
DSC_NOME_ARQUI20060222093815.pdf>. Acesso em 7 ago. 2013.
MATOS, M. L. G. Entrevista com o Padre Alberto Antoniazzi, do Instituto Nacional de
Pastoral (INP). Revista Amaivos, 2002. Disponível em: <http://amaivos.uol.com.br/
amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=1240&cod_canal=41>. Acesso em: 7 ago.
2013.
© U3 - A Teologia da Missão Hodierna e o Desafio de Evangelizar o Universo Urbano 91

NERI, M. C. Novo mapa das religiões. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas e CPS,
2011. Disponível em: <http://www.cps.fgv.br/cps/bd/rel3/REN_texto_FGV_CPS_Neri.
pdf>. Acesso em: 7 ago. 2013.
PIME – PONTIFÍCIO INSTITUTO DAS MISSÕES EXTERIORES. Arte de evangelizar a cidade.
Jornal Missão Jovem, n. 173, nov. 2002. Disponível em: <http://www.pime.org.br/
missaojovem/mjevanggeralarte.htm>. Acesso em: 7 ago. 2013.
SILVEIRA, R. A. F. Resenha: mudanças de paradigma na Missiologia. Disponível
em: <http://pt.scribd.com/doc/37744356/Resenha-Mudancas-de-Paradigma-na-
Missiologia-Missao-e-Evangelizacao>. Acesso em: 7 ago. 2013.
SUESS, P. Lugar da missão, perspectivas missionárias e compromissos pastorais no
Documento de Aparecida. Revista Missões. Disponível em: <www.revistamissoes.org.
br/hotsites/cam3/downloads/missao_Aparecida_Paulo_Suess.doc>. Acesso em: 7 ago.
2013.

10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALVES, V. P. Acolher é evangelizar. Aparecida: Santuário, 1995.
BOSCH, D. A missão transformadora: mudanças de paradigmas na Teologia da missão. 2.
ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007.
BRIGHENTI, A. A missão evangelizadora no contexto atual. Realidade e desafios a partir
da América latina. São Paulo: Paulinas, 2006.
CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida. Texto
conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. São
Paulo: Paulus, 2007.
HERMANO, R. (Org.). A missão em debate: provocações à luz de Aparecida. São Paulo:
Paulinas, 2010.
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.
KÜNG, H. Theologie im Aufbruch: Eine ökumenische Grundlegung. Munique: Piper, 1987.
LIBÂNIO, J. B. CERIS: Desafios do catolicismo na cidade. Pesquisa em regiões
metropolitanas brasileiras. Rio/São Paulo: CERIS/Paulus, 2002.
SENIOR, D.; STUHLMÜELLER, C. I. Os fundamentos bíblicos da missão. São Paulo: Paulinas,
1987.
SUESS, P. Introdução à Teologia da Missão. Convocar e enviar: servos e testemunhas do
Reino. Petrópolis: Vozes, 2007.

Claretiano - Centro Universitário


Claretiano - Centro Universitário