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MULHERES TECENDO A MEMÓRIA:


BENZENDURA E TRADIÇÃO NO OFÍCIO DAS ESTEREIRAS

Ane Luíse Silva Mecenas


Universidade Federal da Paraíba – UFPB
Magno Francisco de Jesus Santos
Universidade Federal de Serjipe – UFS

Resumo
Um segredo perpetuado pela oralidade. Mãos ágeis amarrando conhecimento, vozes
trêmulas desabafando os dissabores e saberes transmitidos de geração a geração.
Mulheres anônimas que desafiam a tradição, mantendo o lar com o suor de seu ofício.
Respeito sacralizante sobre a natureza. São as famigeradas estereiras, trabalhadoras do
universo rural, que nas horas vagas cumprem a missão de rezar os enfermos da
localidade. Diante da possibilidade de estudos de novos sujeitos da história,
consubstanciada pela renovação da História Cultural, temos objeto de reflexão o
acoplamento de tarefas de duas mulheres do agreste sergipano. Sob a perspectiva
metodológica da história oral, temos como propósito analisar a transmissão dos saberes
tradicionais dessas mulheres de Itabaiana, enfatizando a consonância com o liame entre
a arte de fazer esteiras e o ofício das benzeduras. Com esse enfoque torna-se possível
perceber que atividades do universo religioso se aproximam das atividades cotidianas, a
partir da cosmovisão sacralizante do entorno sócio-natural. No modo de sentir e
perceber a realidade de nossas personagens há uma inequívoca proximidade entre a
prática da benzedura e a produção de esteiras. Portanto, são duas mulheres que buscam
conciliar a arte de fazer com a arte de curar, tecidas pela trama da memória.

Palavras-chave: Memória. Tradição. Mulheres. Oralidade.

Introdução
Com dois te botaram, com três Jesus Cristo tira”. Com essas palavras mágicas é
iniciado um dos mais disseminados rituais do catolicismo popular no município de
Itabaiana. Trata-se do ritual das rezadeiras. A prática de curar males humanos por meio
de orações e elementos da natureza é de origem remota. Ao longo da história diversos
povos de épocas e localidades distintas buscaram o restabelecimento da saúde física ou
mental através da manipulação de tais práticas.
 

Em Itabaiana, a origem do ritual das rezadeiras é desconhecida, caracterizando o


fato folclórico. A tradição remota é passada oralmente de geração para geração,
propiciando não só a perpetualização dos saberes, como também o enriquecimento do
ritual, devido as contínuas trocas culturais. É provável que na sociedade itabaianense de
outrora, o deficitário atendimento médico e espiritual, respectivamente por parte dos
médicos e do clero, tenha contribuído de forma decisiva para a disseminação e
legitimação das práticas dos rezadores. Também contribuiu para a propagação do
fenômeno o forte sentimento de religiosidade associado ao vasto imaginário da
sociedade nos períodos colonial e imperial. De uma forma ou de outra o ritual foi
incorporado pela sociedade, passando a ser uma necessidade. Com isso, mesmo nos dias
atuais, caracterizados pela suposta e polêmica “sociedade secularizada”, as rezadeiras
permanecem com suas inaudíveis orações, balançando seus ramos, expurgando os males
que tanto atormentam sua fiel clientela. As rezadeiras constituem um fenômeno atual,
intrínseco aos nossos dias e que precisa ser mais bem estudado.
Neste artigo temos o propósito de compreender o referido fenômeno no município
de Itabaiana, nos detendo mais especificamente no âmbito rural. Assim buscaremos
fazer uma discussão sobre as relações de poder presentes no universo simbólico que
circunda o ritual. A explanação está dividida em quatro momentos. No primeiro,
abordamos sobre “As rezadeiras e o seu mundo”, destacando aspectos dos perfis dos
rezadores e de sua clientela, do mesmo modo que descreveremos o espaço físico e o
imaginário que os circundam, ou seja, o mundo das rezadeiras.
No segundo momento enfocamos a simbologia do ritual, buscando compreender
os principais elementos simbólicos presentes no ato de rezar, nas orações e nos
mecanismos legitimadores de tais orações. Analisamos no terceiro tópico as rezadeiras
inseridas no campo religioso em Itabaiana considerando os mecanismos de inclusão e
legitimação no campo, as disputas internas pelo melhor posicionamento e acúmulo de
capital simbólico, quase nunca convertido em capital cultural. Por fim, enfocamos os
elementos de controle presentes no ritual, a casa e o corpo como formas passíveis de
manipulação na micro-física do poder.
 

As rezadeiras e seu mundo


O fenômeno das rezadeiras está incluído no conjunto de práticas denominado
“catolicismo popular”, ou seja, aquelas práticas que são questionadas ou ignoradas pelo
clero oficial. Esta divisão estabelecida tem caráter arbitrário, pois devemos levar em
consideração a impossibilidade em se definir um limite entre as práticas do catolicismo
oficial e do popular. O limite entre ambas é sempre flexível, provisório, devido ao
incessante processo de circularidade cultural. Seguindo os aportes teóricos de Pierre
Bourdieu, o catolicismo popular e o oficial seriam dois sub-campos pertencentes a um
campo maior e mais abrangente: o campo religioso.
Embora o fenômeno seja mais conhecido como rezadeiras, o ritual é exercido
tanto por homens, como por mulheres. Entre os rezadores estudados, quantitativamente
a diferença foi ínfima, insignificante. Observamos o ritual de treze (13) rezadores, dos
quais seis (06) eram do sexo masculino e sete (07) do feminino. No tocante à faixa
etária, todos os rezadores observados estavam com idade igual ou superior a sessenta
(60) anos, ou seja, o ritual aparenta ser uma atividade desempenhada exclusivamente
por pessoas da terceira idade. Outro aspecto comum que pôde ser constatado é em
relação à escolaridade. Todos os rezadores são desconhecedores das letras, são
analfabetos. Esse é um dado revelador, pois constitui um forte indício explicativo das
formas de transmissão dos saberes e do aspecto mnemônico do ritual preso
exclusivamente à oralidade.
Devido a faixa etária relativamente avançada, todos os rezadores atualmente estão
aposentados. Mesmo assim, eles continuam desempenhando suas atividades econômicas
voltadas para a agricultura, pecuária e artesanato em palhas. Algumas das rezadeiras,
porém, já desempenharam outra importante função nos povoados de Itabaiana: eram
parteiras. Essa atividade hoje praticamente não é mais exercida pelas rezadeiras. Elas
perderam a legitimidade na execução dos partos.
Em relação à religiosidade, a priore todos os rezadores atestam ser adeptos do
catolicismo, embora a grande maioria não participe assiduamente das celebrações
religiosas. Dos treze sujeitos observados, apenas um tem uma participação mais ativa
nas atividades da igreja, sendo considerado pela comunidade um beato.
 

Como os rezadores pertencem aos segmentos populares, suas moradias são


caracterizadas pela simplicidade, pequenas construções de alvenaria e taipa localizadas
nos redutos periféricos que circundam o povoado. Essas construções podem ser vistas
como pequenos espaços sacralizados, portais entre a ordem cósmica sacralizante e a
realidade caótica e profana do cotidiano vivenciada pela população. As casas seriam
então, as portas de ligação entre dois mundos totalmente distintos, mas intrinsecamente
interligados por se completarem. No interior das casas podem ser encontrados
elementos que sugerem a sacralização, como os inúmeros quadros e imagens de santos
de devoção. É instigante observar a elevada quantidade desses tipos de representações,
que em muitos casos estão acrescidas de várias fitas amarradas. Entre as devoções mais
encontradas podemos destacar a de Senhor dos Passos, Nossa Senhora da Conceição,
Nossa Senhora do Bom Parto, Nossa Senhora do Desterro e São Jorge. Todos esses
santos pertencem ao grupo das devoções populares. Além de ser uma valiosa fonte para
o estudo das devoções populares, as imagens são forte indício para o estudo das rezas,
haja vista que há uma proximidade entre os atributos do santo e a benesse almejada.
Contudo, o mundo das rezadeiras não fica restrito aos cômodos de suas moradias.
Elas extrapolam para o universo imaginário. A ritualística das rezas é cercada por
misticismo, lendas e superstições. Em muitos casos as rezadeiras passam a ser difusoras
das lendas, seja na exposição de relatos de pessoas conhecidas ou experiências
vivenciadas, seja na tentativa de legitimar suas rezas. São vários os testemunhos das
mais mirabolantes aparições, variando de santos a demônios e seus respectivos agentes.
As lendas difundidas pelas rezadeiras têm duas funções bem definidas: a primeira,
comum ao universo lendário, é de amedrontar, dar o exemplo, testemunhar a punição
dos que ousaram quebrar as regras cotidianas. A segunda função está ligada
intrinsecamente à busca de legitimação das rezas e é um tanto complexa. Trata-se dos
depoimentos sobre a origem das respectivas orações. Na maioria dos casos a origem
está nos primeiros anos do cristianismo, com narrativas sobre Jesus e seus apóstolos. É
o que pode ser observado no seguinte relato:

Quando Jesus andava no mundo pediu rancho numa casa velha a um


casal. Eles iam comer tatu e o homem falou para que a mulher
 

oferecesse ao velhinho um pedaço de carne e a mulher fez foi


expulsar Jesus de sua casa e foi comer o tatu com o marido. Quando
estava comendo a mulher engasgou-se com um osso do tatu e o
marido foi pedir ajuda ao homem que sua mulher havia expulsado.
Quando encontrou o homem, que era Jesus e lhe pediu ajuda, Cristo
falou: osso de tatu suba ou desça; casa velha, esteira rota, bom
homem, má mulher. Tais palavras fizeram com que o engasgo
descesse (MARIETINHA, 2002).

Este relato explicita bem a busca pela legitimação das rezas. O poder de cura da
oração está no fato dela ter sido possivelmente deixada por Cristo durante suas andanças
pela terra. Mais do que uma lição de moral, com a punição da mulher má, avarenta, o
episódio constata que no universo imaginativo das rezas o fundador do cristianismo não
teria deixado somente a doutrina oficial, mas também as práticas populares. Esta
pequena lenda representa um caso de releitura das práticas religiosas, uma espécie de
evangelho da tradição oral. A origem da maior parte das rezas é vinculada aos anos
apostólicos, na qual teriam sido difundidas por Jesus ou por seus seguidores. Esse é o
caso de rezas como Murcha Folha (origem associada a São Paulo e São Pedro) e Sol e
Sereno (atrelada a Jesus e São José). Vejamos o discurso construído nesta oração:
Ia Jesus e José em uma grande romaria,
Dizia Jesus a José: vamos
Dizia José a Jesus: não posso
Dizia Jesus a José que ia curar e rezar
De sol e sereno, pontada, resta lua, (...)
(NITA, 2002).

A pequena oração acima citada é reveladora. Com linguagem direta trata os


personagens de forma coloquial, sem as formalidades comumente presentes nestas
situações (ausência de termos como Nosso Senhor e São). Além disso, Jesus é
apresentado em uma situação cotidiana comum ao catolicismo popular. Ele aparece em
uma romaria. É nesta ocasião em que o Jesus mais humanizado do que o normal
anuncia a sua missão: rezar e curar. Deste modo, o discurso da referente oração
intrinsecamente está afirmando que as rezadeiras estão dando continuidade à missão de
Cristo, são seguidoras de Jesus assim como os apóstolos foram. Nada mais legitimador
do que isso.
Contudo, os mistérios das rezas não ficam restritos à origem das orações. Eles
também estão presentes na transmissão dos saberes. Os saberes são perpetuados
 

majoritariamente por meio da oralidade, principalmente de pai para filho ou de avô para
neto. No entanto, em alguns casos, o despertar do rezador para o universo da reza ocorre
de forma miraculosa ou mesmo mirabolante. É o caso de um dos rezadores abordados,
que teria aprendido suas orações por inspiração divina. Diante de uma dificuldade
financeira aprofundada por problemas de saúde o rezador pediu em oração uma benção
de Deus. No dia seguinte teria acordado sabendo da reza que levaria a cura. A partir
deste dia, o simples agricultor que nunca tinha rezado tornou-se um dos mais
privilegiados rezadores da zona rural itabaianense. O aspecto pitoresco de seu ritual vai
além. O mistério é um ingrediente presente em diferentes momentos como na busca de
água em lugares remotos para preparação das garrafadas e o fato de só lembrar das rezas
no momento do ritual, caso o doente sofra de mal espiritual. Podemos dizer se tratar de
um verdadeiro universo místico, cercado de mistérios.

A simbologia do ritual
O ritual da reza possui uma rica simbologia. Para poder detectá-la é preciso buscar
nos meandros do ritual os indícios muitas vezes negligenciados, desprezados pelos
olhares frios da ciência. Por este motivo a análise não se deteve ao volume de
informações obtidas por meio das entrevistas, mas buscou-se ampliar o leque
documental a partir da observação minuciosa do fenômeno estudado. Detalhes
reveladores só puderam ser detectados graças à assídua convivência com alguns dos
rezadores. À priore, as rezas podem ser classificadas em três grupos, de acordo com a
sua finalidade. São elas: para curar humanos, curar animais e controlar de fenômenos da
natureza.
As do primeiro grupo são mais populares, destacando-se a de olhado, quebrante,
murcha folha, engasgo, carne quebrada, dor de dente, pontada, sol e sereno, dona do
corpo, fogo selvagem, espinhela caída, nervo rendito, cobreiro brabo e ar de congestão
(malvada, passageira ou vento mau). O ritual destas rezas é repleto de coibições,
detalhes que buscam no plano simbólico garantir a cura do mal. Tudo inicia com a
escolha do horário. Cada reza possui um horário específico para ser realizada. No
 

entanto, o ritual nunca deve ocorrer antes das seis e depois das dezoito horas. A
proficiência das rezas durante a noite é quase nula.
Outro detalhe aparentemente irrelevante é a escolha de um elemento da natureza
para ser usado durante a reza. A função desse elemento é mediar o exorcismo dos males
atormentadores. Para cada oração existe um elemento natural diferente. Assim, para
olhado usam-se três ramos de vassourinhas; malvada, a mesma quantidade de pinhão
roxo; cobreiro brabo e fogo selvagem, caule de mandioca; carne vermelha, barro;
murcha folha, cebola vermelha. Tais elementos possuem funções estratégicas na
realização do ritual, pois representam a abertura para o universo sagrado, o elo entre a
realidade caótica e a ordem cósmica. O que constata essa hipótese é fato de se usar três
ramos. O número três representa, no plano simbólico, a Santíssima Trindade. Ela
também está presente na abertura do ritual, momento no qual o rezador invoca: com
dois te botaram, com três Jesus Cristo tira. Neste caso, dois indica os olhos que
provocaram o olhado, enquanto três reforça a idéia da Trindade Santa. Entretanto, essa
simples frase tem muito mais a revelar. Ela demonstra o que podemos chamar
provisoriamente de “circulação de energias simbólicas”, tendo em vista que o ritual da
reza ocorre de forma triangular. De um lado está o rezado, atormentado por algum mal,
seja de natureza física, seja espiritual. No ângulo oposto está o rezador, portador dos
instrumentos de cura (rezas, elementos naturais, chás e fé). Entre eles e ao mesmo
tempo acima dos mesmos, está o elemento natural, sacralizado e representando as forças
da Santíssima Trindade. Então o ritual pode ser assim observado:
Elemento Natural

Rezador Rezado
O triângulo acima revela os nuances da circulação de energias simbólicas. Ao
iniciar o ritual, o rezador exerce seu poder diretamente sobre o rezado. Ao mesmo
tempo, o elemento age sobre o rezado na exorcização do mal. Este acaba sendo
 

absorvido pelo elemento natural, que como conseqüência acaba murchando. Para que
ocorra exorcização plenamente é preciso que o elemento esteja em estado “puro”, ou
seja, sem ter sido benzido ou possuir sementes. Caso ele contenha alguma impureza, o
mal exorcizado pode passar diretamente para o rezador, sendo afetado com os sintomas
retirados do rezado. Nesta situação, o elemento natural pode ser visto como o
intermediador na circulação de energias simbólicas. Mas afinal, o que é a circulação de
energias simbólicas?
Circulação de energias simbólicas é um conceito em formação e pode ser
entendido como a troca recíproca de energias. É a transferência ininterrupta de energias
entre rezador, rezado e os elementos naturais. As energias simbólicas podem ser vistas
como forças simbólicas que podem ser transmitidas ou expurgadas. Em síntese, energias
simbólicas são tanto os males que atormentam os rezados, como as forças exorcizadoras
usadas pelo rezador durante o ritual.
Outro grupo de rezas existente no municio de Itabaiana é o de cura de animais. A
existência desse tipo de oração pode ser visto como uma evidência do modo de vida do
homem do campo, voltado para as atividades agropastoris. As principais rezas para
animais conhecidas em Itabaiana são a de cura de pasto, bicheira (também chamada de
palavra ou bicheira de rastro) e reza de gato (consiste apenas em cruzar a vassoura em
forma de cruz por três vezes, pelo fato do gato ser visto como animal amaldiçoado). É
proeminente o fato de poucos rezadores executarem o ritual de cura de animais e mesmo
quando realiza, restringe-se a reza do gato e, no máximo, a bicheira de rastro. A cura de
pasto é um ritual escasso no município serrano, correndo sérios riscos de ser extinto.
Um dos possíveis motivos da exclusão deste ritual do certame de orações dos
rezadores itabaianenses está na nomenclatura da reza. O fato de ser chamada por cura de
pasto faz com que a reza seja atrelada à outra categoria de religiosidade popular, a dos
curadores. Rezadores e curadores disputam a mesma parcela da clientela e isso faz com
um grupo busque distanciar-se do outro.
Esta evidência é plausível, mas não é suficiente para explicar o progressivo
desaparecimento de uma prática religiosa, pois estaríamos sendo reducionistas. Não
devemos esquecer que a reza de cura de pasto integra o grupo das orações sigilosas. Isto
 

pode está contribuindo para o desaparecimento desta prática ritualística. De fato, a


deficiência na transmissão dos saberes é um dos principais motivos do desaparecimento
de certas práticas populares. Também não podemos negar o contexto ao qual está
inserido o ritual. A cura de pasto pode está desaparecendo simplesmente pela falta de
uma clientela. Sem cliente, a prática morre. Com efeito, a cura de pasto em Itabaiana
pode está fadada ao fim.
A mesma coisa ocorreu com as rezas do terceiro e último grupo de rezas. Até
meados da década de 1970 havia uma série de orações que objetivavam controlar os
fenômenos da natureza. Tais práticas desapareceram do cotidiano religioso do
município. Rezas para apagar fogo, parar rio cheio e parar trovão foram excluídas do
plantel de orações. Podemos cogitar inúmeras hipóteses para compreender a situação em
que algumas rezas permanecem enquanto outras perecem. Mais uma vez as respostas
são múltiplas e complementares. Apresentamos apenas três hipóteses: na primeira
relacionamos com a dinâmica social, a sociedade transforma-se e muda os seus anseios.
O controle de fenômenos naturais pode ter deixado de ser uma necessidade inerente à
população itabaianense.
A segunda enfatiza a questão do sigilo. As rezas eram vistas como detentoras de
um elevado poder simbólico e por este motivo não podiam ser transmitidas
aleatoriamente. O conhecimento destas rezas estava restrito a poucos rezadores, aqueles
vistos como os “mais sabidos”. Sabemos que os saberes populares são transmitidos de
geração para geração por meio da oralidade. Neste sentido, o segredo característico de
certas orações torna-se um empecilho a sua continuidade. Esta constatação é
razoavelmente plausível.
No entanto, existe outra possibilidade explicativa mais perspicaz. É muito
provável que as rezas para controlar os fenômenos da natureza tenham perdido sua
legitimidade. O descrédito das orações constitui um forte indício do seu
desaparecimento. As crenças e cultos só permanecem enquanto possuem alguma
relevância, um significado. Com isso, a ineficácia ou simplesmente a ausência da
necessidade das rezas pôde ter provocado a redução da clientela, com o conseqüente fim
do ritual.
 

As rezadeiras e o campo religioso de Itabaiana.


As rezadeiras apresentam uma peculiaridade, por estarem inseridas em dois
campos distintos: o religioso e o da saúde. Nos dois campos elas ainda detêm certa
relevância, capital simbólico acumulado, apesar de enfrentarem a concorrência, que
vem usando mecanismos progressivamente para fechar seus campos. Neste estudo,
enfocaremos apenas as nuanças das rezadeiras no campo religioso no município de
Itabaiana.
Campo religioso pode ser entendido como o espaço de forças onde se enfrentam o
corpo de agentes altamente especializados (os sacerdotes), os leigos e o profeta
enquanto encarnação típica do agente inovador e revolucionário que expressa, mediante
um novo discurso e por uma nova prática, os interesses e reivindicações de
determinados grupos sociais (BOURDIEU, 1989). Neste sentido enfocaremos no
momento apenas alguns aspectos da legitimação das rezadeiras no referido campo e o
acúmulo de capital simbólico.
Ao analisarmos o ritual das rezas podemos perceber diversos aspectos que buscam
legitimar as referidas práticas. Um desses mecanismos de legitimação é o mito de
origem das rezas, quase sempre associada ao tempo bíblico. Deste modo, assim como o
catolicismo oficial, as rezadeiras também seriam herdeiras de primeira linhagem da
tradição religiosa deixada por Cristo, ou seja, seriam discípulos e discípulas
divulgadoras das palavras do Salvador. Talvez mais do que isso, se levarmos em
consideração que além de estarem difundindo a tradição deixada por Jesus, as rezadeiras
seguem os passos do mesmo, propiciando curas. Devemos esclarecer que tais curas são
associadas às palavras mágicas deixadas por Cristo e não às rezadeiras, que seriam
apenas intermediadoras da ação divina sobre os homens. Deste modo, observamos que
as rezadeiras explicam a origem de suas orações buscando remetê-las ao tempo bíblico,
mesclando personagens sagrados com populares do cotidiano.
Outro mecanismo legitimador das referidas práticas ocorre com o segredo. O ritual
é permeado pela mística e mistério. A começar pela transmissão dos saberes. Nem todas
as orações são transmitidas aleatoriamente, pois as rezas tidas como “mais fortes” ficam
 

restritas a poucos rezadores, os detentores de maior capital simbólico. Quanto mais


orações forem do conhecimento do rezador, maior será o seu prestígio na comunidade.
Entre as orações mais poderosas estão a do vento mau e dona do corpo, que são
conhecidas por parcos rezadores. Mesmo os detém este conhecimento nem sempre estão
aptos ou aceitam rezar, alegando o risco de absorverem o mal expurgado. O mistério
não restringe apenas à transmissão dos saberes, ocorre também na realidade ritualística
dos rezadores, com a preparação sigilosa de chás e banhos. Além de reforçar a eficácia
do ritual, esses elementos complementares despertam a mística, pois a água destinada à
preparação destas infusões em alguns casos é retirada de locais específicos, de poços ou
rios sacralizados. Assim, a eficácia das infusões depende de quem e do modo como
prepara e principalmente, da origem do material.
Podemos refletir a questão do segredo por um ângulo diferenciado. Levando-se
em consideração que as rezadeiras estão inseridas no mesmo campo, é relevante
lembrarmos que elas estão disputando entre si um melhor posicionamento no interior
deste campo. Assim como os demais setores sociais, as rezadeiras não estão em
paridade de condições no interior do campo religioso. Existem sujeitos como maior
capital simbólico e outros com menor nível de capital. O acúmulo de capital simbólico
se dá de diferentes formas, estratégias distintas. Nesta corrida, as mulheres parecem
partir em desvantagem. Mesmo o ritual sendo executado majoritariamente pelo sexo
feminino, o prestígio dos rezadores do sexo oposto é superior. Prova disso é a maior
parte das rezas perigosas são realizadas somente por homens. É claro que existem
exceções, mas via de regra, as mulheres rezadeiras são procuras principalmente para as
rezas mais simples, como olhados e quebrantes.
A eficácia das orações, o sexo do rezador e as rezas que este possui em seu
repertório são alguns dos elementos legitimadores, propiciadores de acúmulo de capital
simbólico. É importante frisar um aspecto peculiar das rezadeiras, que é o fato deste
capital simbólico quase nunca ser convertido em capital econômico. Na pesquisa de
campo não encontramos nenhum caso em que há pagamento direto pela execução do
ritual. O que encontramos foram os “agrados”, pequenas retribuições em forma de
alimentos e, em menor proporção, tecidos para uso domestico.
 

A casa e o corpo como instrumentos de poder


Na busca pela eficácia da cura, nenhum elemento do ritual dos rezadores pode ser
negligenciado. O horário, os materiais de cura, a casa e até mesmo o corpo dos
rezadores passam a ser relevantes instrumentos no ritual. Assim, tais aspectos passam a
ser passíveis de manipulação e controle. As restrições, assim como o segredo,
perpassam todo o ritual de cura. Para se tornar possível a compreensão desse universo
simbólico, torna-se eminente a necessidade de penetrar nos mistérios do ritual, buscar
romper com os segredos e tabus que o cercam. Com isso, precisamos apresentar como
se o controle a manipulação das diferentes facetas que perpassam o ritual.
O horário é um dos principais alvos do controle vigente no ritual de cura dos
rezadores. As coibições estão presentes em praticamente todas as rezas. O rezador mais
atento é capaz de dicernir onde e quando deve iniciar o ritual de exorcismo dos males
atormentadores. As palavras mágicas pronunciadas em sussurros, não podem ser
executadas a qualquer momento, sob pena de perder o poder de eficácia. Torna-se
necessário então buscar um horário em que a sacralidade esteja latente. É por esse
motivo que as orações mais sigilosas ou que causam maior constrangimento são
executadas em horários mais específicos, principalmente as seis e dezoito horas. É a
hora sacra por excelência, por ser o momento do terço, da ave-maria. Pela mesma
motivação, deve-se evitar os horários em que o mal circula com maior intensidade.
Dessa forma, rezar no decorrer da noite ou ao meio dia reduz, no plano simbólico,
drasticamente a eficácia de cura. Nesta perspectiva, o rezador que conhecer os segredos
dos horários mais propensos à cura será detentor de maior poder, será guardião do
segredo, ou seja, mais legitimado no campo.
A casa também é passível de manipulação. O ritual não deve ser efetivado em
qualquer ambiente. Para aumentar a eficácia simbólica o rezador deve buscar locais em
que não hajam muitas pessoas circulando. Além disso, deve-se evitar que os curiosos
fiquem sob os arcos e portas da casa, pois podem afetar a circulação de energias
simbólicas. Mas por que os arcos e portas? Qual a simbologia desses elementos
arquitetônicos? Uma resposta plausível é o fato deles representarem a passagem, o
 

portal entre dois cômodos passa a ligar, no plano simbólico, a ligação entre dois
mundos, duas realidades. Na comunicação entre o sagrado e o profano na busca pela
cura do rezado, torna-se necessário afastar os olhares curiosos, que tanto podem impedir
a eficiência da circulação de energias simbólicas, como também podem quebrar com o
segredo ritualístico.
Mas ainda tem outro alvo do controle no ritual das rezas: é o corpo. Na reza o
corpo passa a ser útil e inteligível, ou seja, objeto de poder. Entre os rezadores de
Cajaíba, o controle recai com maior força sobre o corpo feminino. A mulher se torna
passível de manipulação e, ao mesmo tempo, permanece presa ao olhar vigilante da
comunidade. Assim, “o corpo que manipula, se modela, se treina, que obedece, se
torna hábil ou cujas forças se multiplicam” (FOUCAULT, 1995, p.125).
O corpo feminino é moldado em suas ações. Para se tornar rezador é preciso ter
movimentos específicos, manipular ramos segundo as exigências do corpo. Todavia, no
caso das mulheres, o poder de eficácia simbólica de cura está atrelado a outro aspecto
relevante: a menstruação. As mulheres em idade fértil geralmente não são prestigiadas
como rezadeiras. O fluxo menstrual limita o poder de cura. Deste modo, se a menor
pausa representa o fim da fertilidade feminina, para a rezadeira é o sinal de que o seu
poder está fortalecido, igualando-se com os homens em relação ao poder de cura.
Simbolicamente, a decadência do corpo eleva o poder do espírito.
Com isso, podemos dizer que o ritual dos rezadores constituiu um complexo
conjunto de ações punitivas e vigilantes, sob o pretexto de assegurar a eficácia de cura.
A casa, o corpo são controlados e vigiados, manipulados minuciosamente com o
propósito da cura. Portanto, constituem uma micro-física do poder.

Um último olhar...
As rezadeiras em Itabaiana permanecem. Mesmo sofrendo as sanções impostas
pelo campo religioso e da saúde, elas continuam sendo uma das primeiras alternativas
na busca pela saúde ou por um conselho. São elas que estão mais próximas de sua
clientela e disponíveis quase sempre. É difícil para o olhar frio da academia
compreender a permanência desta prática em nossa sociedade cada vez mais laica.
 

Podemos enxergar as rezadeiras enquanto permanência de passado não tão


distante, mas também como uma releitura, ressignificação deste passado para o nosso
tempo, a nova realidade envolvente. Se o ritual das rezadeiras permanece é porque a
sociedade continua necessitando dele. Se o ritual de hoje é destoante do de outrora é
porque o tempo mudou, os anseios da sociedade mudaram.
As rezas executadas possuem uma relevância ainda não descoberta pelos olhares
de nossos historiadores. Elas podem ser vistas como fontes relevantes para o estudo de
nossa sociedade, crenças, imaginário e cotidiano. As vozes presentes nos sussurros
rezados têm muito a nos dizer, por serem oriundas de diferentes épocas. Trata-se de um
eco que une diferentes períodos, passado e presente. O próprio ritual já pode ser visto
como um discurso, com linguagem própria e que tem muito a revelar. Por fim, ao
pronunciar as palavras mágicas “com dois te botaram, com três Jesus Cristo tira”,
podemos observar aspectos que vão além de rezas e galhos, são os sujeitos históricos
inseridos em campo, detentoras de complexo universo simbólico, da eficácia de cura, de
poder.

Referência Bibliográfica

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