Você está na página 1de 5

14 QUARTO MODELO (AÇÃO PEDINDO AUTORIZAÇÃO PARA FAZER ABORTO

LEGAL)

Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito da __ Vara do Júri da Comarca de Mogi


das Cruzes, São Paulo.

N. DA B. R., brasileira, solteira, desempregada, portadora do RG


00.000.000-SSP/SP e do CPF 000.000.000-00, titular do e-mail nbr@gsa.com.br, e L. S.,
brasileiro, solteiro, auxiliar de escritório, portador do RG 00.000.000-SSP/SP e do CPF
000.000.000-00 (fone: 00-00000-0000), titular do e-mail ls@gsa.com.br, residentes e
domiciliados na Rua Capitão Leôncio Aroche de Toledo, nº 00, Mogilar, cidade de Mogi das
Cruzes-SP, CEP 00000-000, por seu Advogado que esta subscreve (mandato incluso), com
escritório na Rua Adelino Torquato, nº 00, Centro, cidade de Mogi das Cruzes-SP, CEP 00000-
000, onde recebe intimações (e-mail: gediel@gsa.com.br), vêm à presença de Vossa Excelência
requerer alvará para aborto eugênico, observando-se o procedimento previsto nos arts. 719 a
725 do Código de Processo Civil, pelos motivos de fato e de direito que a seguir expõem:

Dos fatos:

Os requerentes vivem em união estável há aproximadamente 9 (nove) anos;


desta união adveio ao casal duas filhas, quais sejam: B. S., nascida em 00.00.0000; A. C. S.,
nascida em 00.00.0000.

Há alguns meses, o casal recebeu a feliz notícia de que a requerente “N”


estava grávida novamente.

Feitos os exames iniciais, detectou-se que se tratava de gêmeos, contudo um


dos fetos não evoluiu.

Durante o quarto mês de gestação foi realizado um exame de ultrassom que


detectou, infelizmente, que o feto apresentava problemas de má-formação.

Com escopo de apurar-se a natureza dos problemas, a mãe foi encaminhada


para Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Naquela instituição, a mãe foi examinada por equipe médica que, após a
realização de vários exames, concluiu que o feto apresentava “um quadro de CARDIOPATIA
COMPLEXA, PROVÁVEL AGENESIA RENAL BILATERAL, IMAGEM CÍSTICA EM
REGIÃO SACRAL FETAL COM TRAVES DE PERMEIO QUE PODE CORRESPONDER A
TERATOMA SACROCOCCÍGEO. DEMAIS ESTRUTURAS FETAIS NÃO AVALIADAS
DEVIDO À AUSÊNCIA DE LÍQUIDO AMNIÓTICO (ANIDRAMNIO).”
Diante deste quadro, a equipe firmou declaração, com firma reconhecida
(original anexo), no seguinte sentido: “FRENTE A ESSES ACHADOS O PROGNÓSTICO É
INCOMPATÍVEL COM VIDA EXTRAUTERINA (LETAL)”. Declarou, ainda, a equipe médica:
“As anomalias acima mencionadas são seguramente incompatíveis com a vida extrauterina. Caso
a gestação venha a prosseguir, todos os dados da literatura médica apontam para morte do recém-
nascido após o parto.”

Quanto à situação pessoal da gestante, declarou a equipe médica: “A


paciente encontra-se extremamente angustiada em face da situação sem prognóstico, mas
mantém sua capacidade de crítica e decisão.”

Diante deste INFELIZ quadro, a mãe, que está sofrendo muito, decidiu
procurar o Poder Judiciário a fim de obter autorização para realizar o conhecido “aborto
eugênico” (interrupção da gravidez), que será realizado pela equipe médica do Hospital das
Clínicas.

O pai e companheiro CONCORDA e APOIA a decisão da gestante.

Em síntese, estes os fatos.

Da competência da Vara do Tribunal do Júri:

Diante deste INFELIZ quadro, a mãe, que está sofrendo muito, decidiu
procurar o Poder Judiciário a fim de obter autorização para realizar o conhecido “aborto
eugênico” (interrupção da gravidez), que será realizado pela equipe médica do Hospital das
Clínicas.

O artigo 5º, inciso XXXVIII, alínea d, da Constituição Federal normatiza


que “é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: a
competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida”.

Ao requerer o presente alvará judicial, inegável que os requerentes buscam a


exclusão, por analogia com as hipóteses do aborto legal (art. 128, CP), da ilicitude do aborto
eugênico. Sendo assim, nada mais natural de que dirijam o pedido ao Juízo Criminal, mais
especificamente ao Juiz do Tribunal do Júri.

Neste sentido a jurisprudência do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de


São Paulo:

CONFLITO NEGATIVO – Pedido de autorização judicial, para aborto de feto


anencefálico – Divergência de competência entre o Juízo Cível e o Juízo da Vara
do Júri – Discussão que, sem dúvida, diz respeito a direitos fundamentais: direito
à dignidade e à saúde da gestante e direito à vida (ainda que inviável) do nascituro
– Hipótese em que a avaliação recairá sobre a exclusão da tipicidade prevista no
artigo 124 do C. Penal – Competência do Juízo do Júri, para apreciação dos
crimes dolosos contra a vida – Previsão do art. 5º, inciso XXXVIII, alínea d, da
Constituição Federal – Conflito procedente – Competência do Juízo suscitante.
(TJSP – Conflito de Jurisdição nº 1707240000 – Rel. Des. Maria Olívia Alves – j.
30/3/2009).
Do Mérito:

O art. 128 do Código Penal normatiza que não se pune o aborto realizado
para salvar a vida da gestante (“aborto necessário”), ou quando a gravidez resultou de estupro
(“aborto sentimental”).

Não obstante o Código Penal mencione expressamente apenas estas duas


hipóteses de interrupção legal da gravidez, a jurisprudência, aplicando interpretação analógica in
bonam partem, tem reconhecida uma terceira hipótese; trata-se do “aborto eugênico ou
eugenésico”, possível quando, por meio de exames médicos, constata-se que o feto é portador de
anomalias graves, INCOMPATÍVEIS COM A VIDA EXTRAUTERINA.

Com efeito, se no aborto legal, art. 128 do CP, a Lei com escopo de poupar o
bem-estar psíquico da mãe permite a MORTE DE FETO PERFEITAMENTE SAUDÁVEL,
como poderia o Julgador negar este mesmo direito à gestante de feto inviável, com pouco ou
nenhuma expectativa de sobrevivência.

Na verdade, a melhor doutrina entende que o art. 128 do CP só não prevê


expressamente a hipótese do “aborto eugênico” porque em 1940 não havia ainda a possibilidade
científica de prever-se a má-formação do feto ou a ocorrência de certas doenças, como, por
exemplo, a anencefalia.

Tal entendimento se baseia na simples lógica de que é impensável imaginar-


se que o legislador, com os recursos de que dispomos hoje, obrigaria uma mulher a manter uma
gravidez de um feto inviável. ISSO SERIA O MESMO QUE LEGALIZAR-SE A TORTURA
PELO PRAZO DE NOVE MESES.

O Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, quando do


julgamento da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54, assim se manifestou
sobre o tema: “a gestante convive diuturnamente com a triste realidade e a lembrança
ininterrupta do feito, dentro de si, que nunca poderá se tornar um ser vivo. Se assim é – e
ninguém ousa contestar – trata-se de situação concreta que foge à glosa própria ao aborto – que
conflita com a dignidade humana, a legalidade, a liberdade e autonomia da vontade”.

Neste sentido a jurisprudência:

Habeas Corpus – Interrupção da Gravidez – Feto Portador de Síndrome de


Edwards – Vida Extrauterina Inviável – Risco Eminente à Gestante – Manutenção da Gestação
que pode causar grandes transtornos à saúde física e emocional – Atenção ao Princípio da
Dignidade Humana – ORDEM CONCEDIDA. (TJSP, Habeas Corpus nº 0210254-
34.2012.8.26.0000).

Mandado de segurança. Aborto de indicação “eugênica”. Feto com


Síndrome de Edwards. Interrupção da gravidez requerida pelos pais. Aplicação analógica, nos
termos do art. 4º, da Lei de Introdução ao Código Civil, do art. 128, II, do Código Penal (que,
destinando-se a feto saudável, claramente se aplica, com ainda maior razão, ao caso). Ordem
concedida. (TJSP, Mandado de segurança nº 0162591-89.2012, Relator Des. Francisco Bruno).

EMENTA: AUTORIZAÇÃO JUDICIAL – INTERRUPÇÃO DA


GRAVIDEZ – MÁ-FORMAÇÃO DO FETO – CONSTATAÇÃO TÉCNICA E MÉDICA –
IMPOSSIBILIDADE DE SOBREVIVÊNCIA EXTRAUTERINA. A ausência de previsão
autorizativa para o aborto eugênico no art. 128 do Código Penal não impede que o Judiciário
analise o caso concreto e o resolva à luz do bom senso, da dignidade e da igualdade humana,
preocupando-se com o bem-estar da gestante. Havendo constatação médica de má-formação
irreversível do nascituro, de moléstia incurável e de inviabilidade de vida após o parto, dada a
ausência de previsão legal, pode o Judiciário autorizar a interrupção da gravidez. (TJMG, Ap.
Cível 1.0342.07.087867-9/001 – Ituiutaba, Relator Des. Osmando Almeida, DJ 19/6/2007).

Da Medida Liminar:

Deve ser concedida, em caráter de urgência, tutela para AUTORIZAR a


interrupção da gravidez da requerente “N”, visto que o feto não apresenta, segundo laudo
médico, expectativa de vida extrauterina, SENDO ESTA A VONTADE DA GESTANTE E DE
SEU COMPANHEIRO, genitor do nascituro.

A fumaça do bom direito – fumus boni juris – se traduz em longa e firme


jurisprudência do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo no sentido da legalidade
do chamado “aborto eugênico”.

Já o perigo da demora – periculum in mora – se consubstancia na


necessidade urgente da realização do referido procedimento, visto que a mantença, mesmo que
provisória, da referida gravidez coloca em risco a saúde física e emocional da gestante.

Dos pedidos:

Ante o exposto, requerem:

a) os benefícios da justiça gratuita, uma vez que se declaram pobres no


sentido jurídico do termo;

b) intimação do representante do Ministério Público para intervir no feito;

c) a concessão, in limine litis, de liminar que autorize a interrupção da


gravidez da requerente “N”, expedindo-se, para tanto, o competente alvará;

d) a concessão de alvará autorizando a interrupção de gravidez da requerente


“N”, confirmando-se a liminar.

Provarão o que for necessário, usando de todos os meios permitidos em


direito, especialmente pela juntada de documentos (anexos), perícia social e psicológica e oitiva
de testemunhas.

Dão ao pleito o valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais).

Termos em que

p. deferimento.
Mogi das Cruzes, 00 de fevereiro de 0000.

Gediel Claudino de Araujo Junior


OAB/SP 000.000

Você também pode gostar