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Sobre Feminismo para os 99%

Joênia Wapichana

O século XXI será feminino.


Por enquanto, ainda é um século em que o patriarcalismo, a apartação e a
desigualdade imperam. É um século de múltiplas crises: social, econômica,
política, ética, ambiental, cultural, de identidade, de pertencimento, de escolha
e de falta de escolhas. Mas o tamanho do problema, a soma das interações das
crises múltiplas que assolam o planeta, não pode nos paralisar.

As autoras deste Manifesto consideram que o capitalismo está na base de todas


essas crises. E para solucionar uma crise múltipla são necessárias múltiplas
formas de enfrentamentos, próprias para cada local, cada cultura, cada situação.
Embora cada avanço seja uma vitória, a chave é a coordenação dos esforços, a
articulação das lutas, para que vitórias não se anulem.
Nem a direita nem as esquerdas respondem ao desafio das diversidades, sejam
elas sociais, sejam naturais – sexuais, culturais, étnicas, de biomas, de aspirações
ou visões de mundo. Precisamos ir além das dicotomias, de um mundo
dividido em apenas duas opções.

As relações de poder precisam ser revistas, subvertidas, transformadas – sejam


elas entre homens e mulheres, entre seres humanos de culturas e origens
diferentes, entre seres humanos e o planeta, entre os donos do capital e dos
meios de produção e os que entram com sua força de trabalho e de reprodução
social, ou que trazem à humanidade cultura e criatividade. Assim, é
fundamental um olhar específico de inclusão dos segmentos invisíveis nos
espaços de poder – um olhar que abarque e seja abarcado pelos Povos
Indígenas. O que queremos é um convívio sem dominante e nem dominado,
com complementação e nunca exploração, cultivando relações colaborativas,
coletivas, reestruturando a noção de poder e direcionando nosso pensamento
para a igualdade – política, econômica e social.

É na busca dessa transformação que se situa o Manifesto do Feminismo para os


99%, um grito feminista libertário, anticapitalista, complexo e em construção.
Para criarmos um presente e um futuro livres e acolhedores para todos os seres
vivos, o século XXI deve ser feminino e feminista, disso não tenho dúvida!
Sobre Feminismo para os 99%
Talíria Petrone

Nenhum momento poderia ser mais propício para o lançamento deste livro,
escrito pelas companheiras Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser.
É um manifesto, uma provocação, um chamado à luta feminista anticapitalista,
ecossocialista, antirracista, internacionalista. Este manifesto é um instrumento
a serviço das lutas das mulheres que sofrem cotidianamente no corpo a barbárie
que sustenta o capitalismo.

Da nossa radicalidade depende a própria sobrevivência e a dignidade dos 99%


dos quais fazemos parte. Não nos calaremos. Temos lado. Não vamos arredar o
pé das ruas.
Sobre Feminismo para os 99%
Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Nancy Fraser

O que nos dá coragem para embarcar neste projeto é a nova onda de ativismo
feminista combativo. Este não é um feminismo corporativo, que se mostrou
tão desastroso para as mulheres da classe trabalhadora, nem é o “feminismo de
microcrédito”, que alega “empoderar” mulheres do Sul global ao emprestar-lhes
montantes irrisórios de dinheiro. Em vez disso, o que nos traz esperança são as
greves feministas feitas por mulheres em 2017 e 2018. São essas greves e os
movimentos cada vez mais coordenados que estão se desenvolvendo em torno
delas que inspiraram inicialmente – e agora corporificam – um feminismo para
os 99%.
Para o coletivo Combahee River, que anteviu o percurso desde cedo, e para as
grevistas feministas polonesas e argentinas, que estão abrindo novos caminhos
hoje.
Sumário

Prefácio à edição brasileira Talíria Petrone

Encruzilhada

Tese 1: Uma nova onda feminista está reinventando a greve.

Tese 2: O feminismo liberal está falido. É hora de superá-lo.

Tese 3: Precisamos de um feminismo anticapitalista – um feminismo para os


99%.
Tese 4: Vivemos uma crise da sociedade como um todo – e sua causa originária
é o capitalismo.

Tese 5: A opressão de gênero nas sociedades capitalistas está enraizada na


subordinação da reprodução social à produção que visa ao lucro. Queremos
subverter as coisas na direção certa.

Tese 6: A violência de gênero assume muitas formas, sempre enredadas nas


relações sociais capitalistas. Prometemos combater todas elas.

Tese 7: O capitalismo tenta regular a sexualidade. Nós queremos libertá-la.

Tese 8: O capitalismo nasceu da violência racista e colonial. O feminismo para


os 99% é antirracista e anti-imperialista.
Tese 9: Lutando para reverter a destruição da Terra pelo capital, o feminismo
para os 99% é ecossocialista.

Tese 10: O capitalismo é incompatível com a verdadeira democracia e a paz.


Nossa resposta é o internacionalismo feminista.
Tese 11: O feminismo para os 99% convoca todos os movimentos radicais a se
unir em uma insurgência anticapitalista comum.

Posfácio
Começando pelo meio
Conceituando novamente o capitalismo e suas crises
O que é reprodução social?
Crise da reprodução social
A política do feminismo para os 99%

Sobre as autoras
Prefácio à edição brasileira
Talíria Petrone

A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da
fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. [...] Eu escrevia as peças e
apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me: – É pena você ser preta. Esquecendo eles que
eu adoro minha pele negra e meu cabelo rústico. [...] Se é que existe reincarnações, eu quero voltar
sempre preta.

Carolina Maria de Jesus,


Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina torna menos difícil a tarefa de escrever este prefácio em um momento


que exige de nós, mulheres feministas e anticapitalistas, tanta responsabilidade.
Mulher, negra, favelada, mãe de três filhos criados sem pai presente, como
tantas mulheres brasileiras, Carolina foi uma das maiores escritoras do Brasil.
No entanto, suas obras raramente são estudadas na escola, sua história
raramente é contada e sua resistência é silenciada. Carolina é exemplo da
urgência de reflexões, necessariamente articuladas, sobre raça, sexo, gênero e
classe. Eu mesma conheci Carolina muito depois de formada professora, ao
mesmo tempo que se deu a consolidação da minha identidade negra – que
também chegou tão tardiamente. Carolina de Jesus diz muito de um
feminismo profundamente necessário. Mulheres como ela não podem ficar fora
do nosso feminismo.
O feminismo é uma urgência no mundo. O feminismo é uma urgência na
América Latina. O feminismo é uma urgência no Brasil. Mas é preciso afirmar
que nem todo feminismo liberta, emancipa, acolhe o conjunto de mulheres
que carregam tantas dores nas costas. E não é possível que nosso feminismo
deixe corpos pelo caminho. Não há liberdade possível se a maioria das
mulheres não couber nela. É disso que trata este potente e necessário manifesto
escrito por Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser. Da maioria das
mulheres. Das 99%.

Nosso feminismo é sobre mulheres como Dona Nininha. Chefe de família,


arrimo de filhos e netos, trabalhou a vida inteira como trabalhadora doméstica
para construir a casa onde viveu com a família numa favela em Niterói, região
metropolitana do Rio de Janeiro. A chuva fez desabar um trecho da escadaria
de acesso ao morro e sua casa foi atingida pelos escombros, pela lama e pelo
perigo de desmoronamento. Dona Nininha morreu de desgosto, com
depressão, vinte quilos mais magra, cerca de um ano depois de ter lutado
incessantemente por uma obra emergencial em sua comunidade, obra que
nunca chegou a ver. Mulher, negra, favelada, Dona Nininha não suportou o
desprezo do Estado por sua vida e a de seus familiares. Nosso feminismo não
pode ignorar que no Brasil 34,5% da população urbana vive em assentamentos
precários, sendo a maioria de mulheres e negras que estão à frente desses lares.
Nosso feminismo precisa enfrentar a pobreza. A pobreza no Brasil é feminina e
negra. O feminismo das 99% é anticapitalista.

Nosso feminismo é sobre mulheres como Joselita. No dia 28 de novembro de


2015, 111 balas foram disparadas por policiais em um único veículo. Cinco
jovens foram assassinados na tragédia conhecida como Chacina de Costa
Barros, ocorrida no subúrbio do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Joselita,
mãe de Roberto, um dos jovens assassinados, faleceu com diagnóstico de
anemia e pneumonia. Segundo a família, foi tristeza. Mulher, negra, pobre,
mãe. Nosso feminismo não pode ignorar que no Brasil mais de 30 mil jovens
são assassinados por ano. Mais de 70% deles são negros e pobres. As mães têm
sua vida e alegria interrompidas. Nosso feminismo é necessariamente contra a
militarização da vida e o genocídio dos corpos negros, filhos de mulheres
negras, que tombam, em especial, pelas mãos do Estado. O feminismo das
99% é antirracista.

Nosso feminismo é sobre mulheres indígenas, caiçaras, camponesas,


ribeirinhas, quilombolas e não pode ignorar que o Brasil é o país que mais
assassina defensores de direitos humanos do mundo, em especial ligados à luta
pelo território e pela justiça ambiental. Nosso feminismo anda de mãos dadas
com mulheres como Sônia, atropelada por um caminhão madeireiro, no
Maranhão, por lutar contra práticas ilegais de extração de madeira no território
do seu povo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, 157 pessoas foram
assassinadas nas últimas três décadas apenas no Estado do Maranhão em
conflitos no campo. Nosso feminismo não pode prescindir de lutar pelo bem
viver, pela justiça ecológica e pela superação da separação, que remete aos
tempos coloniais no Sul global, entre homens, mulheres e natureza. No país
em que a maior parte dos alimentos é envenenada, em que a soberania e
saberes dos povos tradicionais são aniquilados, é preciso afirmar que nosso
feminismo é indissociável da perspectiva ecológica do bem viver. O feminismo
das 99% é ecossocialista.

Nosso feminismo é sobre Luana, mulher, negra, periférica e lésbica, espancada


e morta porque se recusou a ser revistada por policiais homens, no Estado de
São Paulo. É sobre as tantas transexuais e travestis assassinadas, a maioria negra,
pobre, sem direito à vida, no país recorde de assassinatos de pessoas transexuais
e onde se mata e estupra “corretivamente” mulheres lésbicas e se nega o direito
de bissexuais amarem. O feminismo das 99% é antiLGBTfóbico.

Nosso feminismo é sobre as trabalhadoras domésticas. Aqui no Brasil, apenas


em 2015 os direitos básicos, como férias remuneradas, foram estendidos às
trabalhadoras domésticas. No país que ainda tem “quartinho de empregada”,
não é possível um feminismo que não enfrente radicalmente, frontalmente, a
exploração daquelas, majoritariamente negras, que no silêncio dos lares ricos
brasileiros experimentam no corpo uma nova forma de escravidão. O
feminismo das 99% articula necessariamente raça e etnia, gênero e classe.

Este manifesto é carregado de necessárias provocações. Vivemos nos últimos


anos uma nova primavera feminista, que exige que a gente se debruce sobre os
rumos da nossa luta. Com quais mulheres os feminismos diversos dialogam?
Que mulheres estão convencidas sobre a importância do feminismo? De que
mulheres tratam os feminismos? Quais mulheres seguem ainda guetificadas e
marginalizadas nos feminismos? O feminismo das 99% não prescinde desses
questionamentos, justamente porque reconhece sua urgência.

E nosso feminismo só será mesmo urgente se for por inteiro palpável e real
para a maioria das mulheres brasileiras e do mundo. Se for popular e
verdadeiramente emancipador. Esse precisa ser um compromisso teórico,
político e prático do feminismo para as 99%. Esse manifesto é um chamado
para um feminismo vivo e pela vida, pela dignidade, pela felicidade da maioria
das mulheres.

A formação da sociedade brasileira foi marcada por desigualdades sociais,


étnico-raciais e de gênero que permanecem muito presentes. Nos mais de
trezentos anos de escravidão, o predomínio de uma elite agrária, proprietária e
branca como grupo social dominante produziu profundas violências para as
mulheres e especialmente para as mulheres negras e indígenas. O
patriarcalismo e a escravidão são constitutivos da sociabilidade burguesa,
possuindo expressões específicas em lugares como o Brasil e outros territórios
colonizados.

A consolidação do sistema capitalista no mundo está imbricada com a invasão


e a dominação dos territórios latino-americanos e a imposição ao mundo de
um modelo de ser humano universal moderno que corresponde, na prática, ao
homem, branco, patriarcal, heterossexual, cristão, proprietário. Um modelo
que deixa de fora diversas faces e sujeitos, em especial as mulheres. O
feminismo das 99% não se furta do esforço de romper com essa lógica
colonizadora.

Até mesmo porque, mesmo com o fim histórico da colonização, esse modelo


de “universalidade” persiste. Os grupos sociais que assumiram o poder nos
processos de independência latino-americanos representavam, em geral, a
minoria branca e proprietária da sociedade. Se o regime colonial foi rompido,
não houve ruptura com as relações coloniais de poder. E por isso nosso
feminismo também precisa questionar fortemente a concepção universalista de
mulher.
Para as mulheres negras e indígenas, a realidade brasileira e latino-americana
em geral é de segregação e marginalização. No Brasil, o avanço do agronegócio
e do modelo extrativista da monocultura, somado a uma série de retrocessos na
luta pela demarcação das terras indígenas e quilombolas, mostra a necessidade
de o nosso feminismo incorporar a luta por um outro modelo de
desenvolvimento que enfrente a predatória lógica produtivista e de
expropriação da terra e do território de povos originários, tão parte do modelo
colonial que sustenta o capitalismo. A lógica militarizada de vida que mata e
encarcera corpos de homens e mulheres negros e pobres, a submissão de
pessoas negras, em especial mulheres, aos trabalhos mais precários, à
informalidade e à pobreza precisam ser enfrentadas pelo feminismo das 99%.

Este livro será para nós instrumento de resistência a tudo que nos explora e
oprime. O capitalismo é a barbárie. Transforma tudo em mercadoria: corpos,
talentos, fé, trabalho, amor, desejos, mulheres. Não nos serve, por isso, o
feminismo neoliberal que não tem como horizonte a superação, por exemplo,
da exploração de trabalhadoras domésticas, de mulheres como Dona Nininha.
Por isso, o feminismo das 99% é radicalmente anticapitalista. Do mesmo
modo, é preciso reconhecer que muitas das formulações anticapitalistas não
partem de uma classe trabalhadora concreta: mulher, negra, indígena, vivendo
em territórios militarizados e com seus povos perseguidos.

Este manifesto chega às nossas mãos no momento de uma esticada crise do


capitalismo que precisa ser mais debatida e mais bem compreendida em suas
contradições. Pois é justamente nesta fase de crise que se acentuam a
desigualdade e a concentração de renda, com os ricos cada vez mais ricos e os
pobres cada vez mais pobres. Em todo o mundo, observa-se um giro do
neoliberalismo para um novo período marcado por práticas de selvageria do
mercado e de ascensão de governos comprometidos com a sanha desse projeto
do capital de recuperação das antigas margens de lucro. O cenário da crise tem
se mostrado propício à retomada de projetos políticos em diversos países, do
primeiro mundo e periféricos, alinhados com um neofascismo a serviço do
capital.

A urgência do feminismo para os 99% se potencializa neste momento de crise


do capitalismo e ascensão internacional da extrema direita. O contexto
internacional apresenta o avanço de um reacionarismo perigoso, que ganha
força em países europeus como a França, em que Marine Le Pen, da Frente
Nacional, teve relevância na campanha eleitoral no último ano. Nos Estados
Unidos, o presidente eleito pelo Partido Republicano em 2016, Donald
Trump, não faz quaisquer restrições em suas posições e declarações racistas,
xenófobas, machistas. Na Argentina, o atual presidente Mauricio Macri,
embora muito associado a uma direita mais liberal, tem fortes características
xenófobas. No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro e o crescimento de um setor
de extrema direita, que se apropria de desigualdades e opressões históricas,
enraizadas no imaginário social, torna a luta feminista mais que necessária.
(Nesse sentido, o caso do Brasil é emblemático: nas eleições de 2018, vira
presidente um ex-militar apoiado pela indústria do armamento, igrejas
fundamentalistas, latifundiários… E por um tal movimento integralista de
ideário francamente nazifascista. O novo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro,
assumiu com um discurso abertamente retrógrado, contra o “politicamente
correto” e com medidas iniciais que ameaçam direta e concretamente mulheres,
negros, indígenas, pessoas com deficiência, animais e a floresta amazônica. No
país onde são negras 70% das mais de 60 mil pessoas assassinadas por ano e
onde pelo menos uma pessoa trans é assassinada por dia, Bolsonaro acaba de
autorizar a compra de até quatro armas por indivíduo. Só nos primeiros 11
dias de 2019, foram assassinadas 33 mulheres no Brasil; somadas às 17 que
sobreviveram a tentativas de feminicídio nesse mesmo período, dá uma média
de 5 casos a cada 24 horas. O horizonte é sombriamente ameaçador e exige um
novo patamar de organização da luta de resistência.)

Nosso feminismo das 99% é internacionalista.


Nenhum momento poderia ser mais propício para o lançamento deste livro,
escrito pelas companheiras Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser.
É um manifesto, uma provocação, um chamado à luta feminista anticapitalista,
ecossocialista, antirracista, internacionalista.

O feminismo que nos interessa é o feminismo compromissado com o direito à


vida, com o bem viver, com a liberdade caracterizada pela responsabilidade
com o outro e com a natureza. Porque nem todo feminismo serve a todas as
mulheres, à humanidade, ao planeta. Precisamos avançar contra o feminismo
do 1% que detém mais da metade da riqueza deste mundo às custas da
exploração e da opressão da maioria.

Este manifesto é um instrumento a serviço das lutas das mulheres que sofrem
cotidianamente no corpo a barbárie que sustenta o capitalismo. Da nossa
radicalidade depende a própria sobrevivência e a dignidade dos 99% dos quais
fazemos parte. Não nos calaremos. Temos lado. Não vamos arredar o pé das
ruas.

Se este manifesto é planetário, como um dia foi o Manifesto de Marx e de


Engels, também, como aquele, é revolucionário. Propõe as mulheres como
protagonistas de uma luta pela derrubada do capitalismo para a ascensão de um
modelo pautado pela igualdade entre gêneros, raça e classe.
Se este prefácio se inicia com uma homenagem à Carolina de Jesus, nada mais
justo e bonito que termine em memória de Marielle Franco. Se estivesse viva, a
feminista e vereadora do Rio de Janeiro, mulher, negra, socialista, que amava
mulheres, favelada, que carregava no seu corpo esse feminismo que queremos e
estamos construindo, seria, certamente, parte, com entusiasmo, deste
documento. Marielle encarnava no seu corpo, na sua história e nas suas lutas as
pautas desse movimento feminista das 99%, internacionalista, anticapitalista e
antirracista. Em vida, Marielle nunca se ausentou de um ato feminista sequer
contra os golpes políticos, contra os cortes de direitos, contra o genocídio
negro, pela descriminalização do aborto, pela vida das mulheres. Não por acaso
foi assassinada, com quatro tiros nesse corpo socialista e libertário, um ano
antes do lançamento deste livro, em 14 de março de 2018. Embora as
investigações ainda não tenham sido concluídas, é possível afirmar que
tramaram e executaram o plano de sua morte, em conluio, políticos e agentes
do Estado envolvidos em milícias para-estatais. Mataram o seu corpo. O seu
espírito de luta, não.

E este livro, de certo modo, é um manifesto que honra Marielle e todas as


mulheres que como ela têm ido às ruas para tentar salvar a humanidade e o
planeta. Marielle sempre citava a mensagem ubuntu “eu sou porque nós
somos”. Essa frase tem tudo a ver com a luta a que nos convoca este manifesto:
mulheres de todo o mundo, uni-vos!
UM MANIFESTO
Encruzilhada

Na primavera de 2018, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg,


disse ao mundo que “estaríamos em uma situação muito melhor se metade dos
países e das empresas fosse administrada por mulheres e metade de todos os
lares fosse administrada por homens” e que “não deveríamos ficar satisfeitas até
atingirmos esse objetivo”. Líder expoente do feminismo corporativo, Sandberg
já havia obtido renome (e dinheiro) ao exortar mulheres executivas a “fazer
acontecer” [lean in] em reuniões de diretoria. Na condição de ex-chefe de
gabinete do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Larry Summers –
homem que suprimiu a regulamentação a Wall Street –, ela não tinha receio de
dar às mulheres o conselho de que o sucesso conquistado por meio de uma
atitude firme no mundo dos negócios era o caminho mais fácil para a
igualdade de gênero.

Naquela mesma primavera, uma combativa greve feminista parou a Espanha.


Com a adesão de mais de 5 milhões de participantes à marcha, as
organizadoras da huelga feminista de 24 horas exigiam “uma sociedade livre da
opressão sexista, da exploração e da violência […] por rebelião e luta contra a
aliança entre o patriarcado e o capitalismo que nos quer obedientes, submissas
e caladas”. Enquanto o sol se punha em Madri e Barcelona, as grevistas
feministas anunciavam ao mundo: “Em 8 de março, cruzaremos os braços,
interrompe[ndo] todas as atividades produtivas e reprodutivas”, declarando que
não “aceitariam condições de trabalho piores nem receber menos do que os
homens pelo mesmo trabalho”.

Essas duas vozes representam vertentes opostas para o movimento feminista.


De um lado, Sandberg e sua laia veem o feminismo como serviçal do
capitalismo. Querem um mundo onde a tarefa de administrar a exploração no
local de trabalho e a opressão no todo social seja compartilhada igualmente por
homens e mulheres da classe dominante. Esta é uma visão notável da
dominação com oportunidades iguais: aquela que pede que pessoas comuns, em
nome do feminismo, sejam gratas por ser uma mulher, não um homem, a
desmantelar seu sindicato, a ordenar que um drone mate seu pai ou sua mãe ou
a trancar seus filhos em uma jaula na fronteira. Em nítida contraposição ao
feminismo liberal de Sandberg, as organizadoras da huelga feminista insistem
em pôr fim ao capitalismo: o sistema que cria o chefe, produz as fronteiras
nacionais e fabrica os drones que as vigiam.

Confrontadas com essas duas visões de feminismo, nos encontramos em uma


encruzilhada, e, dependendo de nossa escolha, há dois horizontes para a
humanidade. Um caminho conduz a um planeta arrasado, no qual a vida
humana é depauperada a ponto de se tornar irreconhecível – se é que ela
permanece possível. O outro aponta para um tipo de mundo que sempre
figurou nos sonhos mais elevados: um mundo justo cuja riqueza e os recursos
naturais sejam compartilhados por todos e onde a igualdade e a liberdade sejam
premissas, não aspirações.

O contraste não poderia ser mais extremo. No entanto, o que torna a escolha
urgente para nós neste momento é a ausência de qualquer caminho
intermediário viável. Devemos a escassez de alternativas ao neoliberalismo: essa
forma extremamente predatória e financeirizada do capitalismo que imperou
mundo afora pelos últimos quarenta anos. Após ter envenenado a atmosfera,
ridicularizado toda intenção de governo democrático, distendido nossas
capacidades sociais ao ponto de ruptura e piorado as condições de vida em
geral para a vasta maioria das pessoas, essa versão do capitalismo ampliou as
perdas de todas as lutas sociais, transformando esforços sensatos por reformas
modestas em batalhas campais por sobrevivência. Sob tais condições, o tempo
de ficar em cima do muro passou, e as feministas devem assumir uma posição:
continuaremos a buscar “oportunidades iguais de dominação” enquanto o
planeta queima? Ou vamos voltar a imaginar a justiça de gênero em um
modelo anticapitalista – aquele que conduz para além da crise atual, para uma
nova sociedade?

Este manifesto é um guia para o segundo caminho, uma rota que julgamos
tanto necessária quanto factível. Um feminismo anticapitalista se tornou
imaginável na atualidade, em parte porque, ao redor do mundo, a credibilidade
política das elites está desmoronando. As perdas incluem não apenas os
partidos de centro-esquerda e de centro-direita que promoveram o
neoliberalismo – agora restos desprezados do que foram no passado –, mas
também suas aliadas feministas ao estilo Sandberg, cujo verniz “progressista”
perdeu o brilho. O feminismo liberal enfrentou sua grande derrota na eleição
presidencial de 2016 nos Estados Unidos, quando a tão alardeada candidatura
de Hillary Clinton não conseguiu entusiasmar as eleitoras. E por um bom
motivo: Clinton personificou a dissociação cada vez mais profunda entre a
ascensão de mulheres da elite a altos cargos e as melhorias na vida da vasta
maioria.

A derrota de Clinton é nosso sinal de alerta. Ao expor a falência do feminismo


liberal, ela criou uma abertura para sua contestação pela esquerda. No vácuo
produzido pelo declínio do liberalismo, temos a oportunidade de construir
outro feminismo: um feminismo que traz uma definição diferente do que
conta como questão feminista, uma orientação de classe diferente, um éthos
diferente – radical e transformador.

Este manifesto é nossa iniciativa para promover esse “outro” feminismo. Não
escrevemos para delinear uma utopia imaginada, mas para assinalar a via a ser
percorrida a fim de alcançar uma sociedade justa. Nosso objetivo é explicar por
que as feministas devem escolher o caminho das greves feministas, por que
devemos nos unir a outros movimentos anticapitalistas e contrários ao sistema,
por que nosso movimento deve se tornar um feminismo para os 99%. Apenas
dessa forma – pela associação com ativistas antirracistas, ambientalistas e pelos
direitos trabalhistas e de imigrantes – o feminismo pode se mostrar à altura dos
desafios atuais. Pela rejeição decidida do dogma de “fazer acontecer” e do
feminismo para o 1%, nosso feminismo pode se tornar um raio de esperança
para todas as outras pessoas.

O que nos dá coragem para embarcar nesse projeto é a nova onda de ativismo
feminista combativo. Este não é um feminismo corporativo, que se mostrou
tão desastroso para as mulheres da classe trabalhadora e agora sofre uma
hemorragia de credibilidade, nem é o “feminismo de microcrédito”, que alega
“empoderar” mulheres do Sul global ao emprestar-lhes montantes irrisórios de
dinheiro. Em vez disso, o que nos traz esperança são as greves feministas feitas
por mulheres em 2017 e 2018. São essas greves e os movimentos cada vez mais
coordenados que estão se desenvolvendo em torno delas que inspiraram
inicialmente – e agora corporificam – um feminismo para os 99%.
Tese 1: Uma nova onda feminista está
reinventando a greve.

O recente movimento grevista feminista começou na Polônia, em outubro de


2016, quando mais de 100 mil mulheres organizaram paralisações e marchas
em oposição à proibição do aborto no país. No fim do mês, a ressurgência
dessa recusa radical já havia atravessado o oceano e chegado à Argentina, onde
mulheres grevistas enfrentaram o perverso assassinato de Lucía Pérez com o
grito combativo “Ni una menos”, que logo se espalhou por países como Itália,
Espanha, Brasil, Turquia, Peru, Estados Unidos, México, Chile e dezenas de
outros. A partir das ruas, o movimento cresceu em locais de trabalho e escolas,
tomando conta da indústria do entretenimento, da mídia e da política. Ao
longo dos últimos dois anos, seus lemas repercutiram intensamente pelo globo:
#NosotrasParamos, #WeStrike, #VivasNosQueremos, #NiUnaMenos,
#TimesUp, #Feminism4the99. No início uma marola, depois uma onda, então
uma enorme corrente: um novo movimento feminista global que pode adquirir
força suficiente para romper alianças vigentes e alterar o mapa político.
O que havia sido uma série de ações nacionais se tornou um movimento
transnacional em 8 de março de 2017, quando organizadoras de todo o globo
decidiram entrar em greve juntas. Com esse golpe corajoso, elas politizaram
novamente o Dia Internacional das Mulheres. Colocando de lado as
quinquilharias cafonas da despolitização – as flores, os cartões e as mensagens
de felicitação –, as grevistas restabeleceram as raízes históricas quase esquecidas
dessa data: a classe trabalhadora e o feminismo socialista. Suas ações evocam o
espírito de mobilização das mulheres da classe trabalhadora do início do século
XX – de forma pragmática, greves e manifestações em massa, na maioria
conduzidas por mulheres imigrantes e judias nos Estados Unidos, que
inspiraram as socialistas estadunidenses a organizar o primeiro Dia Nacional da
Mulher e as socialistas alemãs Luise Zietz e Clara Zetkin a convocar um Dia
Internacional das Mulheres da Classe Trabalhadora.

Reanimando aquele espírito combativo, as greves feministas de hoje estão


recuperando nossas raízes nas lutas históricas pelos direitos da classe
trabalhadora e pela justiça social. Unindo mulheres separadas por oceanos,
montanhas e continentes, bem como por fronteiras, cercas de arame farpado e
muros, elas dão um novo significado ao lema “Solidariedade é nossa arma”.
Abrindo caminho em meio ao isolamento dos muros internos e simbólicos, as
greves demonstram o enorme potencial político do poder das mulheres: o poder
daquelas cujo trabalho remunerado e não remunerado sustenta o mundo.
Isso, no entanto, não é tudo: esse movimento emergente inventou novas formas
de greve e impregnou o modelo da greve em si com um novo tipo de política. Ao
conjugar a paralisação do trabalho com marchas, manifestações, fechamento de
pequenos comércios, bloqueios e boicotes, o movimento está renovando o
repertório de ações de greve, amplo no passado, mas drasticamente reduzido
por uma ofensiva neoliberal de décadas de duração. Ao mesmo tempo, essa
nova onda democratiza as greves e expande sua abrangência – acima de tudo,
por ampliar a própria ideia do que é considerado “trabalho”. Recusando-se a
limitar essa categoria ao trabalho assalariado, o ativismo das mulheres grevistas
também bate em retirada do trabalho doméstico, do sexo e dos sorrisos. Ao
tornar visível o papel indispensável desempenhado pelo trabalho determinado pelo
gênero e não remunerado na sociedade capitalista, esse ativismo chama atenção
para atividades das quais o capital se beneficia, mas pelas quais não paga. E, no
que diz respeito a trabalho remunerado, as grevistas adotam uma visão
abrangente sobre o que é considerado questão trabalhista. Longe de se
concentrar apenas em salários e jornadas, elas também têm como alvo o assédio
e a agressão sexual, as barreiras à justiça reprodutiva e a repressão ao direito de
greve.

Como consequência, a nova onda feminista tem potencial para superar a


oposição obstinada e dissociadora entre “política identitária” e “política de
classe”. Desvelando a unidade entre “local de trabalho” e “vida privada”, essa
onda se recusa a limitar suas lutas a um desses espaços. E, ao redefinir o que é
considerado “trabalho” e quem é considerado “trabalhador”, rejeita a
subvalorização estrutural do trabalho – tanto remunerado como não
remunerado – das mulheres no capitalismo. No geral, o feminismo das
grevistas antecipa a possibilidade de uma fase nova e sem precedentes da luta
de classes: feminista, internacionalista, ambientalista e antirracista.

Essa intervenção é oportuna. A militância das mulheres grevistas irrompeu em


um momento em que sindicatos anteriormente poderosos, baseados na
produção fabril, foram bastante enfraquecidos. Para revitalizar a luta de classes,
as ativistas se voltaram para outra arena: a agressão neoliberal ao sistema de
saúde, à educação, às pensões e à habitação. Ao atingir essa outra ponta das
quatro décadas de ataque do capital contra as condições de vida da classe
trabalhadora e da classe média, elas exercitaram suas visões sobre trabalhos e
serviços que são necessários para sustentar seres humanos e comunidades
sociais. É aqui, na esfera da “reprodução social”, que hoje encontramos muitas
das mais combativas greves e resistências. Da onda grevista de professoras e
professores nos Estados Unidos à luta contra a privatização da água na Irlanda
e às greves de dalits coletores e coletoras de lixo na Índia – todas conduzidas e
impulsionadas por mulheres –, a classe trabalhadora está se revoltando contra o
ataque do capital à reprodução social. Embora não formalmente afiliadas ao
movimento da Greve Internacional de Mulheres, essas greves têm muito em
comum com ele. Também elas valorizam o trabalho necessário para reproduzir
nossa vida ao mesmo tempo que se opõem a sua exploração; também elas
combinam reivindicações salariais e relativas aos locais de trabalho com
reivindicações de aumento de gastos públicos em serviços sociais.
Além disso, em países como Argentina, Espanha e Itália, o feminismo da greve
de mulheres atraiu um amplo apoio de forças que se opõem à austeridade. Não
apenas mulheres e pessoas que não se alinham à conformidade de gênero, mas
também homens, se uniram às grandes manifestações do movimento contra a
retirada de fundos para escolas, saúde pública, habitação, transporte e
proteções ambientais. Assim, por meio da oposição ao ataque do capital
financeiro a esses “bens públicos”, as greves feministas estão se tornando o
catalisador e o modelo para iniciativas abrangentes a defender nossas
comunidades.

Em resumo, a nova onda de ativismo feminista combativo está redescobrindo a


ideia do impossível, reivindicando tanto pão como rosas: o pão que décadas de
neoliberalismo tiraram de nossas mesas, mas também a beleza que nutre nosso
espírito por meio da euforia da rebelião.
Tese 2: O feminismo liberal está falido. É hora
de superá-lo.

A grande mídia continua a equiparar o feminismo, em si, com o feminismo


liberal. Longe de oferecer uma solução, contudo, o feminismo liberal é parte do
problema. Centrado no Norte global, entre a camada gerencial-profissional, ele
está voltado para a “imposição” e a “quebra do telhado de vidro”. Dedicado a
permitir que um pequeno número de mulheres privilegiadas escale a hierarquia
corporativa e os escalões das Forças Armadas, esse feminismo propõe uma visão
de igualdade baseada no mercado, que se harmoniza perfeitamente com o
entusiasmo corporativo vigente pela “diversidade”. Embora condene a
“discriminação” e defenda a “liberdade de escolha”, o feminismo liberal se
recusa firmemente a tratar das restrições socioeconômicas que tornam a
liberdade e o empoderamento impossíveis para uma ampla maioria de
mulheres. Seu verdadeiro objetivo não é igualdade, mas meritocracia. Em vez
de buscar abolir a hierarquia social, visa a “diversificá-la”, “empoderando”
mulheres “talentosas” para ascender ao topo. Ao tratar as mulheres como
“grupo sub-representado”, suas proponentes buscam garantir que algumas
poucas almas privilegiadas alcancem cargos e salários iguais aos dos homens de
sua própria classe. Por definição, as principais beneficiárias são aquelas que já
contam com consideráveis vantagens sociais, culturais e econômicas. Todas as
demais permanecem presas no porão.
Completamente compatível com a crescente desigualdade, o feminismo liberal
terceiriza a opressão. Permite que mulheres em postos profissionais-gerenciais
façam acontecer precisamente por possibilitar que elas se apoiem sobre mulheres
imigrantes mal remuneradas a quem subcontratam para realizar o papel de
cuidadoras e o trabalho doméstico. Insensível à classe e à etnia, esse feminismo
vincula nossa causa ao elitismo e ao individualismo. Apresentando o feminismo
como movimento “independente”, ele nos associa a políticas que prejudicam a
maioria e nos isolam das lutas que se opõem a essas políticas. Em resumo, o
feminismo liberal difama o feminismo.

O éthos do feminismo liberal encontra-se não apenas com as convenções


corporativas, mas também com as correntes supostamente “transgressoras” da
cultura neoliberal. Seu caso de amor com o avanço individual permeia
igualmente o mundo das celebridades das mídias sociais, que também
confunde feminismo com ascensão de mulheres enquanto indivíduos. Nesse
mundo, o “feminismo” corre o risco de se tornar uma hashtag do momento e
um veículo de autopromoção, menos aplicado a libertar a maioria do que a
promover a minoria.
Então, em geral, o feminismo liberal oferece o álibi perfeito para o
neoliberalismo. Ocultando políticas regressivas sob uma aura de emancipação,
ele permite que as forças que sustentam o capital global retratem a si mesmas
como “progressistas”. Aliado ao sistema financeiro global nos Estados Unidos,
ao mesmo tempo que oferece cobertura à islamofobia na Europa, este é o
feminismo das fêmeas detentoras de poder: gurus corporativas que pregam o
“faça acontecer”, burocratas do sexo feminino que impulsionam os ajustes
estruturais e o microcrédito no Sul global, políticas profissionais que vestem
terninhos e cobram cachês de seis dígitos para dar palestras para Wall Street.

Nossa resposta ao feminismo do faça acontecer é o feminismo impeça que


aconteça. Não temos interesse em quebrar o telhado de vidro enquanto
deixamos que a ampla maioria limpe os cacos. Longe de celebrar as CEOs que
ocupam os escritórios mais luxuosos, queremos nos livrar de CEOs e de
escritórios luxuosos.
Tese 3: Precisamos de um feminismo
anticapitalista – um feminismo para os 99%.

O feminismo que temos em mente reconhece que deve responder a uma crise
de proporções monumentais: padrões de vida em queda livre e desastre
ecológico iminente; guerras desenfreadas e desapropriação intensificada;
migrações em massa enfrentadas com arame farpado; racismo e xenofobia
encorajados; e revogação de direitos – tanto sociais como políticos – duramente
conquistados...

Aspiramos a enfrentar esses desafios. Evitando medidas parciais, o feminismo


que vislumbramos tem como objetivo atacar as raízes capitalistas da barbárie
metastática. Recusando-se a sacrificar o bem-estar da maioria a fim de proteger
a liberdade da minoria, ele luta pelas necessidades e pelos direitos da maioria –
das mulheres pobres e da classe trabalhadora, das mulheres racializadas e das
migrantes, das mulheres queer, das trans e das mulheres com deficiência, das
mulheres encorajadas a enxergar a si mesmas como integrantes da “classe
média” enquanto o capital as explora. E isso não é tudo. Esse feminismo não se
limita às “questões das mulheres” como tem sido tradicionalmente definido.
Defendendo todas as pessoas que são exploradas, dominadas e oprimidas, ele
tem como objetivo se tornar uma fonte de esperança para a humanidade. É por
isso que o chamamos feminismo para os 99%.
Inspirado pela nova onda de greves de mulheres, o feminismo para os 99% está
emergindo do cadinho da experiência prática, tanto quanto possível
influenciada pela reflexão teórica. Enquanto o neoliberalismo remodela a
opressão de gênero diante de nossos olhos, vemos que a única maneira de as
mulheres e as pessoas não alinhadas à conformidade de gênero atualizarem os
direitos que têm no papel ou que ainda podem conquistar é transformando o
sistema social subjacente que oculta nossos direitos. O aborto legal, em si, faz
pouco pelas mulheres pobres e da classe trabalhadora que não têm nem
recursos para pagar por ele nem acesso a clínicas que o realizam. Em vez disso,
a justiça reprodutiva exige assistência à saúde gratuita, universal e não lucrativa,
bem como o fim de práticas racistas e eugenistas na profissão médica. Da
mesma maneira, para as mulheres pobres e da classe trabalhadora, a igualdade
salarial pode significar apenas igualdade na miséria, a menos que venha com
empregos que paguem pisos salariais generosos, com direitos trabalhistas
substanciais, que possam ser reivindicados, e com uma nova organização do
trabalho doméstico e do trabalho de cuidado. Então, as leis que criminalizam a
violência de gênero também são uma farsa cruel se fazem vista grossa ao
sexismo e ao racismo estruturais dos sistemas de justiça criminal, deixando
intactos a brutalidade policial, o encarceramento em massa, as ameaças de
deportação, as intervenções militares, o assédio e o abuso nos locais de
trabalho. Por fim, a emancipação legal permanece uma casca oca se não inclui
serviços públicos, programas sociais de habitação e recursos financeiros para
garantir que as mulheres abandonem a violência doméstica e no local de
trabalho.

Dessas e de outras maneiras, o feminismo para os 99% busca uma


transformação social profunda e de longo alcance. Em outras palavras, é por
isso que não pode ser um movimento separatista. Propomos, ao contrário,
participar de todo movimento que combate a favor dos 99%, seja lutando por
justiça ambiental, educação gratuita de alta qualidade, serviços públicos
amplos, habitação de baixo custo, direitos trabalhistas, sistema de saúde
gratuito e universal, seja batalhando por um mundo sem racismo nem guerra.
É apenas ao se aliar a esses movimentos que conquistamos poder e visão para
desmantelar as relações sociais e as instituições que nos oprimem.

O feminismo para os 99% abarca a luta de classes e o combate ao racismo


institucional. Concentra os interesses das mulheres da classe trabalhadora de
todos os tipos: racializadas, migrantes ou brancas; cis, trans ou não alinhadas à
conformidade de gênero; que se ocupam da casa ou são trabalhadoras sexuais;
remuneradas por hora, semana, mês ou nunca remuneradas; desempregadas ou
subempregadas; jovens ou idosas. Incondicionalmente internacionalista, esse
feminismo se opõe firmemente ao imperialismo e à guerra. O feminismo para os
99% não é apenas antineoliberal, mas também anticapitalista.
Tese 4: Vivemos uma crise da sociedade como
um todo – e sua causa originária é o
capitalismo.

Para analistas convencionais, 2007-2008 marcou o início da pior crise


financeira desde os anos 1930. Embora até certo ponto correta, essa
compreensão da atual situação é ainda muito limitada. Vivemos uma crise da
sociedade como um todo. Absolutamente não restrita ao setor financeiro, é ao
mesmo tempo uma crise da economia, da ecologia, da política e do “cuidado”.
Uma crise generalizada de toda uma forma de organização social, que está na
base do capitalismo – em especial da forma brutalmente predatória do
capitalismo que vivemos hoje: globalizado, financeirizado, neoliberal.

O capitalismo produz tais crises periodicamente – e por motivos que não são
acidentais. O sistema não apenas vive da exploração do trabalho assalariado; ele
também vive à custa da natureza, dos bens públicos e do trabalho não
remunerado que reproduz os seres humanos e as comunidades. Baseado na
busca incansável pelo lucro ilimitado, o capital se expande servindo-se de todas
essas coisas sem pagar por sua substituição (exceto se é obrigado a fazer isso).
Preparado por sua própria lógica para degradar a natureza, instrumentalizar os
poderes públicos e recrutar o trabalho não remunerado do cuidado, o capital
desestabiliza periodicamente as próprias condições das quais ele – e o resto de
nós – depende para sobreviver. A crise está entranhada em seu DNA.

A atual crise do capitalismo é especialmente severa. Quatro décadas de


neoliberalismo derrubaram os salários, enfraqueceram os direitos trabalhistas,
devastaram o meio ambiente e usurparam as energias disponíveis para sustentar
famílias e comunidades – tudo isso enquanto os tentáculos do sistema
financeiro se espalhavam pelo tecido social. Não é de admirar, portanto, que as
massas por todo o mundo agora digam “Basta!”. Abertas a pensar de forma não
convencional, elas estão rejeitando os partidos políticos estabelecidos e o senso
comum neoliberal sobre a “competição do livre mercado”, a “economia do
gotejamento”, a “flexibilidade do mercado de trabalho” e a “dívida
insustentável”. O resultado é um imenso vácuo de liderança e organização – e
uma sensação crescente de que alguém deve ceder.
O feminismo para os 99% está entre as forças sociais que se lançaram nessa
brecha. Nós, entretanto, não dominamos o terreno. Em vez disso,
compartilhamos o palco com diversos péssimos atores. Por toda parte,
movimentos arrivistas de direita prometem melhorar a situação das famílias da
etnicidade, da nacionalidade e da religião “certas” colocando fim no “livre
mercado”, reduzindo a imigração e restringindo os direitos de mulheres, de
pessoas de grupos étnicos minoritários e LGBTQ+. Enquanto isso, do outro
lado, as correntes dominantes “da resistência progressista” propõem uma
agenda igualmente repugnante. Em seus esforços para restaurar a situação
anterior, partidários do sistema financeiro global esperam convencer feministas,
antirracistas e ambientalistas a estreitar fileiras com seus “protetores” neoliberais
e a abandonar projetos de transformação social mais ambiciosos e igualitários.
As feministas para os 99% recusam essa proposta. Rejeitando não apenas o
populismo reacionário, mas também seus oponentes progressistas neoliberais,
pretendemos identificar e confrontar diretamente a verdadeira origem da crise e da
miséria, que é o capitalismo.
Em outras palavras, para nós, a crise não é simplesmente uma época de
sofrimento – menos ainda mero impasse na obtenção de lucros. É também, e
fundamentalmente, um momento de despertar político e uma oportunidade de
transformação social. Em tempos de crise, as massas críticas da população
retiram seu apoio a quem detém o poder. Rejeitando a política conservadora,
buscam novas ideias, organizações e alianças. Em tais situações, as questões
candentes são: quem vai guiar o processo de transformação social? Segundo o
interesse de quem? E com que fim?

Esse tipo de processo, pelo qual a crise generalizada conduz à reorganização


social, ocorreu muitas vezes na história moderna – sobretudo em benefício do
capital. Buscando restaurar a lucratividade, seus paladinos reinventaram o
capitalismo repetidas vezes – não apenas reconfigurando a economia oficial,
mas também a política, a reprodução social e nossa relação com a natureza não
humana. Ao fazer isso, eles reorganizaram não apenas a exploração de classe,
como também a opressão racial e de gênero, muitas vezes se apropriando de
energias rebeldes (incluindo energias feministas) para projetos que beneficiam
predominantemente o 1%.

Esse processo será repetido hoje? Historicamente, o 1% sempre foi indiferente


aos interesses da sociedade ou da maioria. Hoje, porém, ele é especialmente
perigoso. Em sua busca obstinada por lucros de curto prazo, ele falha não
apenas ao avaliar a profundidade da crise, mas também a ameaça que ela
representa, no longo prazo, à saúde do sistema capitalista em si: prefere
perfurar em busca de petróleo agora a garantir as condições ecológicas para os
próprios lucros futuros!

Como resultado, a crise que enfrentamos ameaça o que conhecemos por vida. A
luta para superar a crise faz as mais fundamentais perguntas de organização
social: onde vamos traçar a linha que delimita economia e sociedade, sociedade
e natureza, produção e reprodução, trabalho e família? Como vamos usar o
excedente social que produzimos coletivamente? E quem, exatamente, decidirá
essas questões? Será que aqueles que buscam lucros vão conseguir transformar
as contradições sociais do capitalismo em novas oportunidades para acumular
riqueza privada? Será que vão cooptar as tendências importantes da rebelião
feminista, ao mesmo tempo que reorganizam a hierarquia de gênero? Ou será
que um levante em massa contra o capital será finalmente “o ato pelo qual a
raça humana, viajando em um trem desgovernado, aciona a parada de
emergência”? Nesse caso, será que as feministas estarão na dianteira desse
levante?

Se pudermos opinar a esse respeito, a resposta à última pergunta será “sim”.


Tese 5: A opressão de gênero nas sociedades
capitalistas está enraizada na subordinação da
reprodução social à produção que visa ao lucro.
Queremos subverter as coisas na direção certa.

Muitas pessoas sabem que as sociedades capitalistas são, por definição,


sociedades de classes que permitem a uma pequena minoria acumular lucros
privados por meio da exploração de um grupo muito maior, que deve trabalhar
por salários. O que é menos amplamente compreendido é que sociedades
capitalistas também são, por definição, a origem da opressão de gênero. Longe de
ser acidental, o sexismo está entranhado em sua própria estrutura.

O capitalismo certamente não inventou a subordinação das mulheres. Esta


existiu sob diversas formas em todas as sociedades de classe anteriores. O
capitalismo, porém, estabeleceu outros modelos, notadamente “modernos”, de
sexismo, sustentados pelas novas estruturas institucionais. Seu movimento
fundamental foi separar a produção de pessoas da obtenção de lucro, atribuir o
primeiro trabalho às mulheres e subordiná-lo ao segundo. Com esse golpe, o
capitalismo reinventou a opressão das mulheres e, ao mesmo tempo, virou o
mundo de cabeça para baixo.
A perversidade se torna nítida quando relembramos o quanto o trabalho de
produção de pessoas é, na verdade, vital e complexo. Essa atividade não apenas
cria e mantém a vida no sentido biológico, ela também cria e mantém nossa
capacidade de trabalhar – ou o que Marx chamou de “força de trabalho”. E isso
significa moldar as pessoas com atitudes, disposições e valores, habilidades,
competências e qualificações “certas”. Em resumo, o trabalho de produção de
pessoas supre algumas das precondições – materiais, sociais e culturais –
fundamentais para a sociedade humana em geral e para a produção capitalista
em particular. Sem ele, nem a vida nem a força de trabalho estariam
encarnadas nos seres humanos.

Chamamos esse amplo corpo de atividade vital de reprodução social.

Nas sociedades capitalistas, o papel de fundamental importância da reprodução


social é encoberto e renegado. Longe de ser valorizada por si mesma, a
produção de pessoas é tratada como mero meio para gerar lucro. Como o
capital evita pagar por esse trabalho, na medida do possível, ao mesmo tempo
que trata o dinheiro como essência e finalidade supremas, ele relega quem
realiza o trabalho de reprodução social a uma posição de subordinação – não
apenas para os proprietários do capital, mas também para trabalhadores e
trabalhadoras com maior remuneração, que podem descarregar suas
responsabilidades em relação a esse trabalho sobre outras pessoas.

Essas “outras pessoas” são, em grande medida, do sexo feminino. Pois, na


sociedade capitalista, a organização da reprodução social se baseia no gênero: ela
depende dos papéis de gênero e entrincheira-se na opressão de gênero. A
reprodução social é, portanto, uma questão feminista. No entanto, é permeada,
em todos os pontos, pelas diferenças de gênero, raça, sexualidade e
nacionalidade. Um feminismo voltado para a resolução da crise atual deve
compreender a reprodução social através de uma lente que também engloba, e
relaciona, todos esses eixos de dominação.
Sociedades capitalistas sempre instituíram uma divisão racial do trabalho
reprodutivo. Quer por meio da escravidão e do colonialismo, quer pelo
apartheid ou pelo neoimperialismo, esse sistema forçou mulheres racializadas a
fornecer esse trabalho de graça – ou a um custo muito baixo – para suas
“irmãs” de etnicidade majoritária ou brancas. Forçadas a cuidar das crianças e
da casa de suas patroas ou empregadoras, elas tiveram de lutar ainda mais para
cuidar da própria vida. Além disso, historicamente, as sociedades capitalistas
tentaram alistar o trabalho de reprodução social das mulheres a serviço do
binarismo de gênero e da heteronormatividade. Encorajaram mães, professoras
e médicas, entre outras, a garantir que as crianças fossem rigidamente
conformadas como meninas-cis e meninos-cis e como heterossexuais. Portanto,
os Estados modernos com frequência tentaram instrumentalizar o trabalho de
produção de pessoas para projetos nacionais e imperiais. Incentivavam os
nascimentos do tipo “certo” enquanto desencorajavam aqueles do tipo
“errado”, desenharam políticas de educação e família para produzir não apenas
“pessoas”, mas (por exemplo) “alemães”, “italianos” ou “estadunidenses”, que
podem ser convocados a se sacrificar pela nação quando necessário. Enfim, o
atributo classista da reprodução social é fundamental. O esperado de mães e
escolas da classe trabalhadora era preparar as crianças para viverem como
“trabalhadoras e trabalhadores” perfeitos: obedientes, deferentes para com
chefes, preparados para aceitar “seu posto” e tolerar a exploração. Essas pressões
nunca funcionaram perfeitamente – na verdade, até mesmo fracassaram, por
vezes de forma espetacular. E algumas delas estão se atenuando hoje. Ainda
assim, a reprodução social se encontra profundamente entrelaçada à dominação
– e com a luta contra ela.
Uma vez que compreendemos a centralidade da reprodução social na sociedade
capitalista, não podemos mais encarar de modo habitual a classe.
Contrariamente ao entendimento tradicional, o que produz a classe na
sociedade capitalista não são apenas as relações que diretamente exploram a
“mão de obra”, mas também as relações que a geram e a repõem. Tampouco a
classe trabalhadora global é composta exclusivamente de pessoas que trabalham
por salários nas fábricas e nas minas. Igualmente fundamentais são aquelas que
trabalham no campo e nas residências particulares; em escritórios, hotéis e
restaurantes; em hospitais, creches e escolas; no setor público e na sociedade
civil; o precariado, as pessoas desempregadas e aquelas que não recebem
remuneração em troca de seu trabalho. Longe de estar restrita a homens
brancos heterossexuais, em cuja imagem ainda é muito frequentemente
fantasiada, a maior parte da classe trabalhadora global é constituída de
imigrantes, pessoas racializadas, mulheres – tanto cis como trans – e pessoas
com diferentes capacidades, cujas necessidades e os desejos são renegados ou
deturpados pelo capitalismo.

Essa lente também expande nossa visão da luta de classes. Sem estar voltada
exclusivamente a ganhos econômicos no ambiente de trabalho, como contratos
justos ou salário mínimo, ocorre em diversos terrenos sociais e não apenas por
meio de sindicatos e organizações oficiais de trabalhadores. Para nós, o ponto
crítico e a chave para compreender o presente é que a luta de classes inclui
batalhas em torno da reprodução social: por sistema de saúde universal e
educação gratuita, por justiça ambiental e acesso a energia limpa, por habitação
e transporte público. Para isso, são igualmente primordiais as lutas políticas
pela libertação das mulheres, contra o racismo, a xenofobia, a guerra e o
colonialismo.

Tais conflitos sempre foram fundamentais para a sociedade capitalista, que se


vale do trabalho reprodutivo, ao mesmo tempo que renega seu valor. As lutas
da reprodução social, porém, são especialmente explosivas hoje. Enquanto o
neoliberalismo exige mais horas de trabalho remunerado por unidade familiar e
menos suporte estatal à assistência social, ele pressiona até o limite famílias,
comunidades e (acima de tudo) mulheres. Sob essas condições de expropriação
universal, as lutas em torno da reprodução social ocuparam o centro do palco.
Agora formam a linha de frente de projetos com potencial de alterar a
sociedade por completo.
Tese 6: A violência de gênero assume muitas
formas, sempre enredadas nas relações sociais
capitalistas. Prometemos combater todas elas.

Profissionais da área de pesquisa estimam que, em termos globais, mais de uma


a cada três mulheres vivenciou alguma forma de violência de gênero ao longo
da vida. Muitos dos perpetradores são parceiros íntimos, responsáveis por 38%
dos assassinatos de mulheres. Podendo ser física, emocional, sexual ou todas
elas, a violência por parceiros íntimos acontece em toda a sociedade capitalista
– em todo país, toda classe e todo grupo étnico-racial. Longe de ser acidental,
ela está enraizada na estrutura institucional básica da sociedade capitalista...

A violência de gênero que vivenciamos hoje reflete as dinâmicas contraditórias


da família e da vida pessoal na sociedade capitalista. E essas, por sua vez, são
baseadas na inconfundível divisão, pelo sistema, entre a produção de pessoas e
a obtenção de lucro, família e “trabalho”. Um desdobramento fundamental foi
a mudança das famílias estendidas baseadas no parentesco de uma época
anterior – nas quais os homens idosos detinham o poder sobre a vida e a morte
das pessoas que deles dependiam – para a família nuclear heterossexual e
restrita da modernidade capitalista, que conferiu aos homens “humildes” que
comandavam famílias menores um direito atenuado de dominar. Com essa
mudança, o caráter da violência de gênero baseada no parentesco foi
transfigurado. O que no passado era abertamente político se tornou “privado”:
mais informal e “psicológico”, menos “racional” e controlado. Muitas vezes
incitado pelo álcool, a vergonha e a ansiedade em relação à manutenção da
dominação, esse tipo de violência de gênero é encontrado em todos os períodos
do desenvolvimento capitalista. No entanto, torna-se particularmente virulento
e difuso em épocas de crise. Nesses momentos, quando a ansiedade em relação
à própria condição, à precariedade econômica e à incerteza política surge,
também a ordem de gênero parece estremecer. Alguns homens sentem que as
mulheres estão “fora de controle” e a sociedade moderna, com suas novas
liberdades sexuais e fluidez de gênero, está “fora do eixo”. Suas esposas ou
namoradas são “arrogantes”, suas casas, “bagunçadas”, e suas crianças,
“selvagens”. Seus chefes são implacáveis, seus colegas de trabalho são
injustamente favorecidos e seus empregos estão em risco. Sua destreza sexual e
seus poderes de sedução estão em questão. Percebendo sua masculinidade
ameaçada, eles explodem.
Na sociedade capitalista, porém, nem toda violência de gênero assume essa
forma aparentemente “privada”, “irracional”. Outros tipos são muito
“racionais”, testemunhando a instrumentalização da agressão de gênero como
técnica de controle. Exemplos abarcam o estupro de mulheres escravizadas e
colonizadas como arma para aterrorizar comunidades de minorias étnicas e
forçar sua subjugação; o estupro recorrente de mulheres por proxenetas e
traficantes para “domá-las”; e o estupro coordenado e em massa de mulheres do
lado “inimigo” como arma de guerra. Muitas vezes também são instrumentais a
agressão e o assédio sexuais nos ambientes de trabalho, escolas ou clínicas.
Nesses casos, os perpetradores são chefes e supervisores, professores e
orientadores, policiais e agentes policiais, médicos e psiquiatras, locatários e
oficiais do Exército – todos com poder institucional sobre aquelas que acabam
como suas presas. Eles podem requisitar serviços sexuais, então alguns deles
fazem isso. Aqui, a raiz é a vulnerabilidade econômica, profissional, política e
racial das mulheres: nossa dependência do contracheque, da referência, da
disposição do empregador ou do supervisor em não fazer perguntas sobre nossa
situação migratória. O que permite essa violência é um sistema hierárquico de
poder que funde gênero, raça e classe. O que resulta disso é o reforço e a
normatização desse sistema.

Afinal de contas, essas duas formas de violência de gênero – uma privada, outra
pública – não estão tão separadas. Existem casos híbridos, como as subculturas
de adolescentes, fraternidades e atléticas, nas quais homens jovens, dando vazão
à misoginia institucionalizada, rivalizam uns com os outros por prestígio e se
vangloriam de abusar de mulheres. Além disso, algumas formas de violência de
gênero pública e privada formam um círculo vicioso em que se reforçam
mutuamente. Como o capitalismo atribui o trabalho reprodutivo sobretudo às
mulheres, ele restringe nossa capacidade de participar de forma plena, como
iguais, no mundo do “trabalho produtivo”, com o resultado de que a maioria
de nós acaba em empregos sem futuro que não pagam o suficiente para
sustentar uma família. Isso repercute na vida “privada”, nos colocando em
situação desvantajosa, já que nossa menor capacidade de sair de
relacionamentos nos tira o poder nesse âmbito. O primeiro beneficiário de
todo esse arranjo é, sem dúvida, o capital. No entanto, seu impacto é nos
tornar duplamente sujeitas à violação – primeiro, nas mãos de parentes
próximos e nas relações pessoais; segundo, nas mãos de agentes e promotores
do capital.

As respostas feministas convencionais à violência de gênero são compreensíveis,


mas, ainda assim, inadequadas. A resposta mais comum é a reivindicação de
criminalização e punição. Esse “feminismo carcerário”, como tem sido
chamado, aceita como natural precisamente o que deve ser questionado: a
suposição equivocada de que as leis, a polícia e os tribunais mantêm autonomia
suficiente em relação à estrutura de poder capitalista para contestar sua
profunda tendência a gerar a violência de gênero. Na verdade, o sistema de
justiça criminal atinge, de modo desproporcional, homens de grupos étnicos
minoritários pobres e da classe trabalhadora, incluindo imigrantes, enquanto
deixa seus colegas de colarinho branco livres para estuprar e espancar e também
deixa que as mulheres recolham os destroços: percorrendo longas distâncias
para visitar filhos e maridos encarcerados, sustentando sozinhas a família e
lidando com as sequelas legais e burocráticas do aprisionamento. Da mesma
maneira, campanhas de combate ao tráfico e leis contra a “escravidão sexual”
com frequência são usadas para deportar mulheres imigrantes enquanto
estupradores e exploradores permanecem à solta. Ao mesmo tempo, a resposta
carcerária ignora a importância de alternativas para as sobreviventes. Leis
criminalizando o estupro marital ou a agressão no ambiente de trabalho não
vão ajudar as mulheres que não têm outro lugar para ir nem aquelas sem
nenhum meio para chegar lá. Nessas condições, nenhuma feminista, mesmo
com um mínimo de sensibilidade em relação à classe e à raça, endossa uma
resposta carcerária à violência de gênero.

Igualmente inadequadas são as soluções “com base no mercado” oferecidas


pelas feministas burocratas. Do alto luxuoso das instituições do sistema
financeiro global, essas neoliberais progressistas de saias propõem proteger da
violência suas irmãs menos afortunadas do Sul emprestando-lhes pequenas
somas de dinheiro para começarem o próprio negócio. As evidências de que os
microfinanciamentos reduzem de fato a violência ou promovem a
independência das mulheres em relação aos homens são, na melhor das
hipóteses, irregulares. Entretanto, um dos efeitos é cristalino: o
microfinanciamento aumenta a dependência das mulheres em relação a seus
credores. Ao apertar o nó da dívida ao redor do pescoço das mulheres pobres e
da classe trabalhadora, essa abordagem em relação à violência de gênero impõe
sua própria violência.

O feminismo para os 99% rejeita tanto a abordagem carcerária quanto a do


feminismo burocrático em relação à violência de gênero. Sabemos que, no
capitalismo, a violência de gênero não é uma ruptura da ordem regular das
coisas, e sim uma condição sistêmica. Profundamente ancorada na ordem
social, ela não pode ser entendida nem reparada isoladamente em relação ao
complexo mais amplo da violência capitalista: a violência biopolítica das leis
que negam a liberdade reprodutiva; a violência econômica do mercado, do
banco, do senhorio e do agiota; a violência estatal da polícia, dos tribunais e
dos agentes prisionais; a violência transnacional de agentes de fronteira,
regimes de imigração e exércitos imperiais; a violência simbólica da cultura
predominante, que coloniza nossa mente, distorce nosso corpo e silencia nossa
voz; a “lenta” violência ambiental que corrói nossas comunidades e nossos
hábitats.

Essas dinâmicas, embora endêmicas no capitalismo, se expandiram


acentuadamente no atual período de crise. Em nome da “responsabilidade
individual”, o neoliberalismo cortou as verbas públicas de programas sociais.
Em alguns casos, comercializa serviços públicos, transformando-os em um
fluxo de lucro direto; em outros, transfere-os às famílias isoladamente,
forçando-as – e em particular as mulheres – a suportar todo ônus do cuidado.
O resultado é encorajar ainda mais a violência de gênero.

Nos Estados Unidos, a crise no mercado hipotecário atingiu de forma


desproporcional as mulheres de minorias étnicas, que representaram as maiores
taxas de desalojamento e estiveram mais propensas a ser forçadas a escolher
entre não ter onde morar e continuar em relacionamentos abusivos. No Reino
Unido, os detentores do poder reagiram ao colapso financeiro cortando ainda
mais os serviços públicos – acima de tudo, a verba para abrigos para vítimas de
violência doméstica. No Caribe, um aumento no preço de alimentos e
combustíveis coincidiu com o corte das verbas públicas para serviços sociais,
produzindo uma elevação na violência de gênero. Essas medidas foram
acompanhadas da proliferação de propaganda normatizadora e disciplinadora.
Reiteradas advertências para ser uma “boa” esposa ou ter mais filhos logo se
transformaram em justificativas para a violência contra aquelas pessoas que não
conseguem se adaptar aos papéis e às identidades normativos de gênero.

Além disso, hoje, as leis contrárias ao interesse da classe trabalhadora agravam a


violência em setores econômicos que dependem muito das mulheres. Em zonas
de processamento de exportação, como as 3 mil fábricas de montagem no
México, a violência de gênero é amplamente empregada como ferramenta de
disciplina da mão de obra. Nas fábricas, chefes e supervisores usam estupro em
série, ofensas e revistas corporais humilhantes para aumentar a produtividade e
desencorajar a organização trabalhista. Uma vez estabelecidas em uma zona de
processamento de exportação, é apenas questão de tempo até que essas práticas
sejam generalizadas por toda a sociedade – incluindo os lares da classe
trabalhadora.

Nas sociedades capitalistas, portanto, a violência de gênero não é autônoma.


Ao contrário, ela tem raízes profundas em uma ordem social que entrelaça a
subordinação das mulheres à organização do trabalho com base no gênero e à
dinâmica de acumulação de capital. Visto dessa forma, não é surpresa que o
movimento #MeToo tenha começado como protesto contra o abuso no
ambiente de trabalho nem que a primeira declaração de solidariedade com as
mulheres do mercado de entretenimento tenha partido de trabalhadoras rurais
imigrantes da Califórnia: imediatamente, elas reconheceram Harvey Weinstein
não apenas como predador, mas como chefe poderoso, capaz de ditar quem
teria permissão para trabalhar em Hollywood e quem não teria.

A violência, em todas as formas, é parte integrante do funcionamento


cotidiano da sociedade capitalista – pois é apenas por meio de uma mistura de
coerção brutal e consentimento construído que o sistema consegue se sustentar
com perfeição. Uma forma de violência que não pode ser impedida sem
impedir as outras. Prometendo erradicar todas elas, as feministas para os 99%
têm o objetivo de associar a luta contra a violência de gênero ao combate
contra todas as formas de violência na sociedade capitalista e contra o sistema
social que as sustenta.
Tese 7: O capitalismo tenta regular a
sexualidade. Nós queremos libertá-la.

À primeira vista, as lutas sexuais atuais apresentam uma escolha inequívoca. De


um lado, acham-se as forças do reacionarismo sexual; de outro, as do
liberalismo sexual. As forças reacionárias buscam criminalizar práticas sexuais
que alegam violar leis divinas ou valores familiares duradouros. Determinadas a
preservar esses princípios supostamente atemporais, essas forças poderiam
apedrejar “adúlteras”, dar chibatadas em lésbicas ou submeter pessoas gays à
“terapia de conversão”. Em contrapartida, as forças liberais lutam pelos direitos
legais das dissidências e das minorias sexuais. Endossando o reconhecimento de
relacionamentos que no passado foram tabus e de identidades menosprezadas,
elas apoiam a “igualdade matrimonial” e o acesso de pessoas LGBTQ+ a
posições hierárquicas nas Forças Armadas. Enquanto o primeiro lado busca
reabilitar arcaísmos retrógrados – patriarcado, homofobia, repressão sexual –, o
segundo defende a modernidade – liberdade individual, autoexpressão e
diversidade sexual. Como a escolha poderia não ser óbvia?
Na realidade, entretanto, nenhum dos lados é o que parece. Por um lado, o
autoritarismo sexual que encontramos hoje é tudo menos arcaico. Embora
apresentadas como ordens divinas atemporais ou costumes antigos, as
proibições que busca estabelecer são, na verdade, “neotradicionais”: respostas
reativas ao desenvolvimento capitalista, tão modernas quanto aquelas a que se
opõem. De modo similar, os direitos sexuais prometidos pelas oponentes
liberais são concebidos em termos que pressupõem as formas capitalistas da
modernidade; longe de permitir a real libertação, são normatizadoras, estatistas
e consumistas.

Para entender por que isso é assim, consideremos a genealogia dessa oposição.
As sociedades capitalistas sempre tentaram regular a sexualidade, mas os meios
e os métodos para isso variaram historicamente. Nos primórdios do sistema,
antes que as relações capitalistas se estabelecessem de forma patente, cabia às
autoridades preexistentes (em especial igrejas e comunidades) estabelecer e
impor as normas que distinguiam o sexo aceitável do pecaminoso. Depois, à
medida que o capitalismo começou a remodelar toda a sociedade, ele incubou
novas normas e modos de regulação burgueses, incluindo o binarismo de
gênero e a heteronormatividade sancionados pelo Estado. Sem estar confinadas
à metrópole capitalista nem às classes burguesas, essas normas de gênero e
sexualidade “modernas” foram amplamente difundidas, inclusive pela via do
colonialismo e por meio da cultura de massa; e foram amplamente reforçadas
pelo poder estatal administrativo e repressivo, incluindo o critério de direitos à
provisão social baseado na família. Essas normas, contudo, não permaneceram
incontestadas. Ao contrário, não colidiram apenas com os velhos regimes
sexuais, mas também com as ainda recentes aspirações de liberdade sexual, que
encontraram expressão, principalmente, nas cidades, nas subculturas gay e
lésbica e nos enclaves de vanguarda.
Desdobramentos posteriores reestruturaram aquela configuração. Após os anos
1960, a tendência burguesa abrandou enquanto a linha defensora da liberação
transbordou das subculturas que a originaram e se tornou predominante.
Como consequência, facções dominantes de ambas as correntes estão cada vez
mais unidas em um novo projeto: normatizar formas de sexo que no passado
foram tabus no interior de uma zona expandida de regulação estatal e de maneira
favorável ao capital que incentiva o individualismo, a vida doméstica e o consumo
de mercadorias.

O que está por trás dessa nova configuração é uma mudança decisiva na
natureza do capitalismo. Cada vez mais financeirizado e separado da família, o
capital não é mais implacavelmente contrário aos arranjos sexo/gênero queer e
não cis. Nem as grandes corporações insistem mais em uma única forma
normativa de família ou sexo; muitas delas agora estão dispostas a permitir que
um número significativo de funcionários e funcionárias viva fora de famílias
heterossexuais – isto é, desde que cumpram as normas, tanto no local de
trabalho como nas ruas. Também nas atividades comerciais a dissidência sexual
encontra um nicho como fonte de imagens publicitárias sedutoras, linhas de
produtos, mercadorias que promovem um estilo de vida e prazeres prontos
para o consumo. Na sociedade capitalista, o sexo vende – e o neoliberalismo o
comercializa em muitos sabores.
As lutas atuais em torno da sexualidade tomaram o palco em um momento de
imensa fluidez de gênero em meio à juventude e entre movimentos queer e
feministas em expansão. É também uma época de vitórias legais significativas,
incluindo a igualdade de gênero formal, os direitos LGBTQ+ e o casamento
igualitário – todos entronizados na lei em uma lista crescente de países mundo
afora. Essas vitórias são fruto de batalhas acirradas, ao mesmo tempo que
refletem importantes mudanças sociais e culturais associadas ao neoliberalismo.
Ainda assim, são inerentemente frágeis e constantemente ameaçadas. Novos
direitos legais não impedem a agressão contra pessoas LGBTQ+, que
continuam a vivenciar a violência de gênero e sexual, a falta de reconhecimento
simbólico e a discriminação social.

Na verdade, o capitalismo financeirizado está fomentando um retrocesso sexual


de enormes proporções. Não são “apenas” os “incels” que assassinam mulheres
para vingar o “roubo” da sexualidade feminina de seus “legítimos proprietários
masculinos”. Não são “apenas” os reacionários de carteirinha que propõem
proteger “sua” mulher e sua família do individualismo cruel, do consumismo
obtuso e do “vício”. A reação inclui movimentos populistas de direita que
crescem depressa e ganham apoio das massas identificando algumas
desvantagens reais da modernidade capitalista – incluindo seu fracasso em
proteger famílias e comunidades dos estragos do mercado. Entretanto, tanto as
forças neotradicionais quanto as da direita populista deturpam esses
sofrimentos legítimos para fomentar precisamente o tipo de oposição com que
o capital pode arcar muito bem. Têm um estilo de “proteção” que coloca a
culpa na liberdade sexual enquanto encobre a verdadeira fonte de perigo, que é
o capital.

O reacionarismo sexual encontra sua imagem espelhada no liberalismo sexual.


O segundo está vinculado, mesmo nos melhores casos, a políticas que privam a
esmagadora maioria dos pré-requisitos sociais e materiais necessários para
concretizar suas novas liberdades formais – considere-se, por exemplo, como os
Estados que alegam reconhecer os direitos de pessoas trans se negam, ao
mesmo tempo, a custear a transição. O liberalismo sexual também está
vinculado aos regimes regulatórios de base estatal que normatizam e impõem a
família monogâmica, com a qual a conformidade é o preço a pagar pela
aceitação de gays e lésbicas. Embora pareça valorizar a liberdade individual, o
liberalismo sexual não desafia as condições estruturais que incitam a homofobia
e a transfobia, incluindo o papel da família na reprodução social.

Também fora da família o que passa por liberação sexual muitas vezes reutiliza
valores capitalistas. As novas culturas heterossexuais baseadas em relações
sexuais e encontros on-line conclamam as mulheres jovens a ser “donas” de sua
sexualidade, mas continuam a classificá-las pela aparência de acordo com a
determinação dos homens. Encorajando a “domínio sobre o próprio corpo”, os
discursos neoliberais pressionam as garotas a agradar aos rapazes, autorizando o
egoísmo sexual masculino de maneira exemplarmente capitalista.
Da mesma forma, as novas formas de “normalidade gay” pressupõem a
normalidade capitalista. As classes médias gays emergentes são definidas em
muitos países por seu estilo de consumo e seu direito à respeitabilidade. A
aceitação dessa camada social não apenas coexiste com a marginalização e a
repressão duradouras de pessoas queer pobres, em especial de grupos étnicos
minoritários, como participa da “lavagem rosa”, quando as pessoas no poder
citam a aceitação de pessoas gays “sensatas”, “corretas”, para legitimar projetos
imperialistas e neocoloniais. Por exemplo, agências estatais israelenses citam sua
cultura “simpática aos gays” como superior para justificar a submissão dos
“retrógrados e homofóbicos” palestinos. Da mesma maneira, alguns liberais
europeus invocam a própria “tolerância esclarecida” em relação a indivíduos
LGBTQ+ a fim de legitimar a hostilidade em relação a muçulmanos, a qual
eles associam indiscriminadamente ao reacionarismo, embora deem passe livre
em relação a sexo a pessoas não muçulmanas autoritárias.

O resultado é que hoje os movimentos de libertação sexual estão presos entre a


cruz e a espada: um lado quer entregar mulheres e pessoas LGBTQ+ à
dominação religiosa e patriarcal, enquanto o outro nos serviria em uma travessa
para a predação direta do capital. As feministas para os 99% se recusam a jogar
esse jogo. Rejeitando tanto a cooptação neoliberal quanto a homofobia e a
misoginia neotradicionais, queremos reanimar o espírito radical do levante de
Stonewall em 1969 em Nova York, das correntes do feminismo “positivas em
relação ao sexo”, de Alexandra Kollontai a Gales Rubin e da histórica
campanha de apoio de gays e lésbicas à greve de mineiros britânicos de 1984.
Lutamos para libertar a sexualidade não apenas das formas de família
procriadora e normativa, mas também das restrições de gênero, classe e raça e
das deformações do estatismo e do consumismo. Sabemos, entretanto, que,
para concretizar esse sonho, devemos construir uma forma de sociedade nova,
não capitalista, que assegure as bases materiais da liberação sexual, entre elas o
amplo suporte público à reprodução social, redesenhada para uma gama muito
mais ampla de famílias e uniões afetivas.
Tese 8: O capitalismo nasceu da violência
racista e colonial. O feminismo para os 99% é
antirracista e anti-imperialista.

Hoje, como em momentos anteriores de aguda crise capitalista, “raça” se


tornou uma questão candente, inflamada e intensamente contestada.
Encorajado por demagogos que se pretendem defensores da causa das maiorias
ofendidas, certo populismo de direita agressivamente etnonacionalista já não se
limita a “meras” alusões, profere a plenos pulmões brados da supremacia
europeia e branca. Governos de centro covardes se unem a seus congêneres
abertamente racistas para bloquear a entrada de imigrantes e refugiados,
apoderando-se de suas crianças e separando famílias, confinando-as em campos
ou deixando que se afoguem no mar. Enquanto isso, a polícia do Brasil, dos
Estados Unidos e de outros lugares continua a assassinar impunemente pessoas
de grupos étnicos minoritários, enquanto os tribunais as enjaulam por períodos
prolongados em prisões superlotadas e, no caso dos Estados Unidos, lucrativas.

Muitas pessoas ficam escandalizadas com esses desdobramentos, e algumas


tentaram resistir. Ativistas da Alemanha, do Brasil, dos Estados Unidos e de
outros lugares protestaram em massa contra a violência policial racista e as
manifestações de defensores da supremacia branca. Algumas pessoas estão
lutando para dar um novo significado ao termo “abolição”, exigindo o fim do
encarceramento e da eliminação da ICE, agência do governo dos Estados
Unidos responsável por fazer cumprir as restrições à imigração no país. Outras
pessoas escolhem brincar com fogo: são os partidos de correntes de esquerda da
Europa que sugerem “cooptar” a direita opondo-se eles mesmos à imigração.
Nessa situação, as feministas, como todas as outras pessoas, devem assumir um
lado. Entretanto, o histórico feminista ao tratar da raça tem sido, na melhor
das hipóteses, ambivalente. As influentes sufragistas brancas fizeram
reclamações explicitamente racistas depois da Guerra Civil dos Estados Unidos,
quando os homens negros obtiveram o direito ao voto e elas não. No mesmo
período, e por boa parte do século XX, importantes feministas britânicas
defenderam o governo colonial na Índia em áreas “de civilizações” racialmente
codificadas como necessário para “erguer as mulheres pardas de sua condição
simplória”. Mesmo hoje, feministas proeminentes de países europeus justificam
políticas contra pessoas muçulmanas em termos semelhantes.

O histórico entrelaçamento do feminismo com o racismo também assumiu


formas “mais sutis”. Mesmo onde não eram explicitamente racistas, as
feministas liberais e radicais, sem distinção, definiram o “sexismo” e as
“questões de gênero” de um modo que universaliza de forma enganosa a
situação de mulheres brancas, de classe média. Extraindo o gênero da raça (e da
classe), elas priorizaram a necessidade das “mulheres” de escapar da vida
doméstica e “sair para trabalhar” – como se todas nós fôssemos donas de casa
de bairros abastados! Seguindo a mesma lógica, feministas brancas de destaque
nos Estados Unidos insistiram que as mulheres negras só poderiam ser
verdadeiramente feministas se priorizassem e imaginassem uma sororidade pós
e não racial acima da solidariedade antirracista com os homens negros. É
apenas graças a décadas de resistência firme de feministas de grupos étnicos
minoritários que as visões são cada vez mais percebidas por aquilo que são e
acabam sendo rejeitadas por números crescentes de feministas de todas as cores
de pele.
As feministas para os 99% reconhecem abertamente essa vergonhosa história e
estão determinadas a romper com ela. Compreendemos que nada que mereça o
nome de “liberação das mulheres” pode ser alcançado em uma sociedade racista,
imperialista. Ao mesmo tempo, compreendemos que a raiz do problema é o
capitalismo, do qual o racismo e o imperialismo são parte integrante. Esse
sistema social que se orgulha do “trabalho livre” e do “contrato salarial” só pôde
ter início devido à violenta pilhagem colonial e à “caça comercial de peles
negras” na África, seu recrutamento forçado para a escravidão no “Novo
Mundo” e a expropriação de povos indígenas. Longe de ser interrompida
quando o capitalismo decolou, a expropriação baseada na raça de povos
privados de liberdade ou dependentes serviu, desde então, como condição
oculta para possibilitar a exploração lucrativa do “trabalho livre”. A distinção
entre “trabalhadores e trabalhadoras” explorados e os demais, dependentes e
expropriados, assumiu diversas formas ao longo de toda a história do
capitalismo – escravidão, colonialismo, apartheid e divisão internacional do
trabalho – e foi indistinta algumas vezes. Em cada fase, até o presente e
incluindo-o, a expropriação de pessoas racializadas permitiu ao capital
aumentar seus lucros por meio do confisco de recursos naturais e capacidades
humanas por cuja renovação e reprodução ele nada paga. Por razões sistêmicas,
o capitalismo sempre criou classes de seres humanos racializados, que têm sua
pessoa e seu trabalho desvalorizados e submetidos a expropriação. Um
feminismo que é verdadeiramente antirracista e anti-imperialista também deve ser
anticapitalista.

Essa proposição é agora, quando a expropriação racializada avança


potencializada. Ampliando a desapropriação por meio de dívidas, o capitalismo
neoliberal de hoje promove a opressão racial em todo o mundo. No Sul global
“pós-colonial”, o sequestro corporativo de terras movido a dívidas conduz
massas de povos indígenas e tribais para fora de suas áreas – e, em alguns casos,
ao suicídio. Ao mesmo tempo, a “reestruturação” da dívida pública lança a taxa
de juros em relação ao PIB às alturas, forçando Estados supostamente
autônomos a cortar gastos sociais e condenando futuras gerações de
trabalhadores e trabalhadoras do Sul a dedicar uma parcela sempre maior de
seu trabalho ao reembolso dos credores globais. Dessas formas, a expropriação
racializada continua e se entrelaça a um aumento da exploração estimulado
pela transferência de grande parte da produção para o Sul global.
Também no Norte global essa opressão continua visível. Enquanto o trabalho
na área de serviços, mal remunerado e precário, substitui o trabalho industrial
sindicalizado, os salários caem abaixo no mínimo necessário para se levar uma
vida decente, especialmente em empregos nos quais predominam trabalhadores
e trabalhadoras racializados. Essas pessoas não são apenas forçadas a ter vários
empregos e tomar emprestados recursos comprometendo salários futuros a fim
de sobreviver. Elas também são alvo de créditos consignados e de risco,
extremamente expropriadores. O salário social também está em queda, à
medida que os serviços que costumavam ser fornecidos pelo Estado são
deixados a cargo de famílias e comunidades – em outras palavras, sobretudo
das mulheres imigrantes e de minorias. Da mesma forma, a arrecadação fiscal
antes destinada à infraestrutura pública é desviada para o serviço da dívida,
com impactos especialmente desastrosos para as comunidades de minorias
étnicas – segregadas em termos geográficos e por muito tempo privadas de
recursos públicos para escolas e hospitais, habitação e transporte, fornecimento
de ar e água despoluídos. Em todos os níveis e em todas as regiões, o
capitalismo financeiro gera novas ondas de expropriação racializada.

Os efeitos desse esquema em pirâmide global também são marcados pelo


gênero. Hoje, milhões de mulheres negras e imigrantes são empregadas como
cuidadoras e trabalhadoras domésticas. Muitas vezes sem documentação e
distantes da família, elas são simultaneamente exploradas e expropriadas –
forçadas a trabalhos precários e mal remunerados, privadas de direitos e sujeitas
a abusos de todo tipo. Forjada por cadeias globais de cuidado, sua opressão
possibilita melhores condições para as mulheres mais privilegiadas, que evitam
(parte) do trabalho doméstico e perseguem carreiras exigentes. Como é irônico,
portanto, que algumas dessas mulheres privilegiadas invoquem os direitos das
mulheres para dar apoio a campanhas políticas pelo encarceramento de
estupradores negros, perseguição de imigrantes e pessoas de origem
muçulmana e para exigir que mulheres negras e muçulmanas assimilem a
cultura dominante!

A verdade é que o racismo, o imperialismo e o etnonacionalismo são escoras


fundamentais para a misoginia generalizada e o controle dos corpos de todas as
mulheres. Como seu funcionamento fere a todas nós, todas nós precisamos
combatê-lo com unhas e dentes. No entanto, as proclamações abstratas de
sororidade global são contraproducentes. Tratando do que é verdadeiramente o
objetivo de um processo político como se fosse dado desde o princípio, elas
transmitem a falsa impressão de homogeneidade. A verdade é que, embora
todas soframos a opressão misógina na sociedade capitalista, nossa opressão
assume diferentes formas. Nem sempre perceptíveis de imediato, as associações
entre essas formas de opressão devem ser reveladas no âmbito político – isto é,
por meio de esforços conscientes de construção da solidariedade. Apenas dessa
maneira, pela luta na e por meio da diversidade, podemos alcançar o poder
coletivo de que precisamos se temos a esperança de transformar a sociedade.
Tese 9: Lutando para reverter a destruição da
Terra pelo capital, o feminismo para os 99% é
ecossocialista.

A atual crise do capitalismo também é uma crise ecológica. O capitalismo


sempre buscou fortalecer seus lucros se apossando de recursos naturais, aos
quais ele trata como gratuitos e infinitos e os quais quase sempre rouba
diretamente. Preparado, em termos estruturais, para se apropriar da natureza
sem qualquer consideração com a renovação, o capitalismo desestabiliza
periodicamente a própria condição ecológica que o viabiliza – seja pelo
esgotamento do solo e pelo desgaste das riquezas minerais, seja pelo
envenenamento da água e do ar...

Embora a atual crise ecológica não seja a primeira da história do capitalismo,


ela é certamente a mais global e premente até o momento. A mudança
climática que agora ameaça o planeta é resultado direto da ação histórica do
capital de recorrer à energia fossilizada a fim de abastecer as fábricas de
produção industrial em massa, que são sua marca. Não foi a “humanidade” em
geral, mas o capital que fez a extração de sedimentos carbonosos formados ao
longo de centenas de milhares de anos sob a crosta terrestre; e foi o capital que
os consumiu em um piscar de olhos com total descaso em relação à renovação
ou aos impactos da poluição e da emissão de gases do efeito estufa. Mudanças
subsequentes, primeiro do carvão para o petróleo e depois para o faturamento
hidráulico e o gás natural, apenas intensificaram as emissões de carbono, ao
mesmo tempo que descarregaram, de forma desproporcional, os “efeitos
colaterais” nas comunidades pobres, com frequência formadas por grupos
étnicos minoritários, no Norte global e no Sul global.

Se a crise ecológica de hoje está diretamente vinculada ao capitalismo, ela


também reproduz e agrava a opressão das mulheres. As mulheres ocupam as
linhas de frente da atual crise ecológica, constituindo 80% das pessoas
refugiadas em função do clima. No Sul global, elas constituem a vasta maioria
da força de trabalho rural, ao mesmo tempo que carregam a responsabilidade
pela maior parte do trabalho de reprodução social. Devido a seu papel central
em prover alimentação, vestimenta e abrigo para a família, as mulheres
representam parcela descomunal no trabalho de lidar com a seca, a poluição e a
superexploração da terra. De forma semelhante, no Norte global, as mulheres
pobres de grupos étnicos minoritários estão desproporcionalmente vulneráveis.
Sujeitas ao racismo ambiental, elas constituem a espinha dorsal de
comunidades submetidas a enchentes e envenenamento por chumbo.
As mulheres também estão na linha de frente das lutas contra a crescente
catástrofe ecológica. Há décadas, nos Estados Unidos, o grupo militante de
esquerda Women Strike for Peace fez campanhas contra as armas atômicas que
depositaram estrôncio-90 em nossos ossos. Hoje, mulheres lideram a luta da
Water Protectors contra a Dakota Access Pipeline nos Estados Unidos. No
Peru, elas deram início à bem-sucedida batalha da Máxima Acuña contra a
gigantesca mineradora estadunidense Newmont. No norte da Índia, mulheres
garhwali estão lutando contra a construção de três usinas hidrelétricas. Por
todo o globo, mulheres lideram um sem-número de lutas contra a privatização
da água e das sementes e a favor da preservação da biodiversidade e da
agricultura sustentável.
Em todos esses casos, as mulheres moldam formas novas e integradas de luta,
que desafiam a tendência que ambientalistas convencionais têm de formular a
defesa da “natureza” e do bem-estar material das comunidades humanas como
mutuamente opostos. Em sua recusa a separar problemas ecológicos dos
relativos à reprodução social, esses movimentos liderados por mulheres
representam uma poderosa alternativa anticorporativa e anticapitalista aos
projetos “capitalistas verdes” que não fazem nada para impedir o aquecimento
global enquanto enriquecem aqueles que agenciam “licenças para emissão de
gases”, “serviços de ecossistemas”, “compensações de emissão carbono” e
“derivativos ambientais”. Ao contrário desses projetos de “financiamento
verde”, que dissolvem a natureza em um miasma de abstração quantitativa, as
lutas das mulheres se concentram no mundo real, no qual a justiça social, o
bem-estar das comunidades humanas e a sustentabilidade da natureza não
humana estão inseparavelmente associados.

A libertação das mulheres e a preservação de nosso planeta contra o desastre


ecológico andam de mãos dadas – uma com a outra e ambas com a superação
do capitalismo.
Tese 10: O capitalismo é incompatível com a
verdadeira democracia e a paz. Nossa resposta é
o internacionalismo feminista.

A atual crise do capitalismo também é política. Paralisados pelo


congestionamento e atados pelo sistema financeiro global, Estados que, no
passado, alegaram ser democráticos falharam de forma recorrente em enfrentar
problemas prementes, sem falar no interesse público; a maioria deles aposta na
mudança climática e nas reformas financeiras, quando não bloqueia o caminho
para as soluções. Cativos do poder corporativo e enfraquecidos pela dívida, os
governos são cada vez mais vistos por seus governados como serviçais do
capital, que dançam pela música dos bancos centrais e dos investidores
internacionais, dos gigantes da tecnologia da informação, dos magnatas do
setor energético, dos que lucram com as guerras. Surpreende que massas de
pessoas por todo o mundo tenham desistido de partidos e políticos
convencionais que promovem o neoliberalismo, incluindo aqueles da centro-
esquerda?

A crise política está enraizada na estrutura institucional da sociedade


capitalista. Esse sistema separa o “político” do “econômico”, a “violência
legítima” do Estado da “compulsão silenciosa” do mercado. O resultado é
declarar vastas áreas da vida social fora dos limites do controle democrático e
entregá-las à dominação corporativa direta. Em virtude da própria estrutura,
portanto, o capitalismo nos priva da capacidade de decidir de forma coletiva
exatamente o que e quanto produzir, sob qual base energética e por meio de
quais tipos de relações sociais. Ele também nos rouba a capacidade de
determinar como queremos usar o excedente social que produzimos
coletivamente, como queremos nos relacionar com a natureza e as futuras
gerações e como queremos organizar o trabalho de reprodução social e sua
relação com o trabalho de produção. Em suma, o capitalismo é
fundamentalmente antidemocrático.

Ao mesmo tempo, é um sistema que cria necessariamente uma geografia


imperialista do mundo. Autoriza Estados poderosos do Norte global a se
aproveitar dos mais fracos: a drenar seu valor por meio de regimes comerciais
que os atacam e a esmagá-los com dívidas; a ameaçá-los com intervenção
militar e imposição de “ajuda”. O resultado é negar proteção política a grande
parte da população mundial. Aparentemente, as aspirações democráticas de
bilhões de pessoas no Sul global não valem sequer a cooptação. Podem
simplesmente ser ignoradas ou brutalmente reprimidas.
Aqui também, por toda parte, o capital tenta ter tudo. De um lado, ele vive à
custa do poder público, aproveitando-se dos regimes legais que protegem a
propriedade privada e das forças repressivas que eliminam oposição, servindo-
se das infraestruturas necessárias para a acumulação e de agências regulatórias
com a missão de administrar crises. Por outro lado, a sede de lucro
periodicamente incita algumas facções da classe capitalista a se rebelar contra o
poder público, o qual elas acusam de ser inferior aos mercados e planejam
enfraquecer. Quando esses interesses de curto prazo falam mais alto do que a
sobrevivência de longo prazo, o capital assume a forma de um tigre que engole
o próprio rabo. E ameaça destruir as próprias instituições políticas das quais
depende para sobreviver.
A tendência do capitalismo a produzir crises políticas – em operação até nos
momentos mais favoráveis – chegou ao auge. O atual regime neoliberal
controla abertamente não apenas os armamentos militares, mas também a
arma da dívida, enquanto de forma insolente atinge quaisquer poderes públicos
e forças políticas que podem desafiá-lo – por exemplo, anulando eleições e
referendos que rejeitam a austeridade, como na Grécia em 2015, e impedindo
aqueles que podem rejeitá-la, como no Brasil em 2017-2018. Por todo o
mundo, interesses capitalistas dominantes (grandes produtores de frutas,
produtos farmacêuticos, petróleo e armamentos) têm promovido
sistematicamente o autoritarismo e a repressão, golpes de Estado e guerras
imperiais. Refutando diretamente as reivindicações de seus apoiadores, esse
sistema social se revela estruturalmente incompatível com a democracia.

Outra vez são as mulheres as maiores vítimas da atual crise política do


capitalismo – e elas também são as protagonistas da luta para solucioná-la de
forma emancipatória. Para nós, entretanto, a solução não é apenas colocar mais
mulheres nas cidadelas do poder. Tendo sido excluídas da esfera pública por
muito tempo, precisamos lutar com unhas e dentes para sermos ouvidas a
respeito de temas que têm sido cotidianamente desprezados como “privados”,
como o assédio e a agressão sexual. Ironicamente, entretanto, nossas
reivindicações são muitas vezes repetidas por “progressistas” da elite que dão a
elas uma inflexão favorável ao capital: nos convidam a nos identificarmos e a
votarmos em mulheres que atuam na política, ainda que de forma repulsiva,
que nos pedem para celebrar sua ascensão a cargos de poder – como se isso
favorecesse nossa libertação. No entanto, não há nada de feminista em mulheres
da classe dominante que fazem o trabalho sujo de bombardear o país e apoiar
regimes de apartheid; de respaldar intervenções neocoloniais em nome do
humanitarismo, enquanto permanecem em silêncio a respeito de genocídios
perpetrados por seus próprios governos; de expropriar populações indefesas por
meio de ajustes estruturais, dívidas impostas e austeridade forçada.
Na realidade, em todo o mundo, as mulheres são as primeiras vítimas da
ocupação colonial e da guerra. Elas enfrentam o assédio sistemático, o estupro
político e a escravização, enquanto suportam o assassinato e a mutilação das
pessoas que amam e a destruição de infraestruturas que, antes de mais nada,
lhes permitiam prover a própria subsistência e a de sua família. Nós nos
solidarizamos com essas mulheres – não com as belicistas de saias, que
reivindicam a libertação sexual e de gênero apenas para suas iguais. Para
burocratas estatais e gerentes financeiros, tanto homens quanto mulheres, que
pretendem justificar seu belicismo alegando libertar as mulheres negras de pele
clara e escura, nós dizemos: em nosso nome, não.
Tese 11: O feminismo para os 99% convoca
todos os movimentos radicais a se unir em uma
insurgência anticapitalista comum.

O feminismo para os 99% não opera isolado de outros movimentos de


resistência e rebelião. Não nos isolamos de batalhas contra a mudança climática
ou a exploração no local de trabalho; não somos indiferentes às lutas contra o
racismo institucional e a expropriação. Essas lutas são nossas lutas, parte
integrante do desmantelamento do capitalismo, sem as quais não pode haver o
fim da opressão sexual e de gênero. A conclusão é clara: o feminismo para os
99% deve unir forças com outros movimentos anticapitalistas mundo afora –
com movimentos ambientalista, antirracista, anti-imperialista e LGBTQ+ e
com sindicatos. Devemos nos aliar, acima de tudo, com as correntes
anticapitalistas de esquerda desses movimentos que também defendem os 99%.

Esse caminho nos contrapõe às duas principais opções políticas que o capital
nos oferece agora. Rejeitamos não apenas o populismo reacionário, como o
neoliberalismo progressista. Na verdade, é dissociando essas duas alianças que
pretendemos construir nosso movimento. No caso do neoliberalismo
progressista, temos como objetivo separar a massa das mulheres da classe
trabalhadora, de imigrantes e de grupos étnicos minoritários das feministas do
Faça Acontecer, de antirracistas meritocráticos, de anti-homofóbicos e de
cúmplices do capitalismo verde e da diversidade corporativa, que se
apropriaram das preocupações delas e as sujeitaram em termos favoráveis ao
capitalismo. No que diz respeito ao capitalismo reacionário, temos como
objetivo separar as comunidades da classe trabalhadora das forças que
promovem o militarismo, a xenofobia e o etnonacionalismo, que se apresentam
enganosamente como defensoras do “homem comum”, ao mesmo tempo que,
às escondidas, promovem a plutocracia. Nossa estratégia é atrair frações da
classe trabalhadora desses dois blocos pró-capitalistas. Dessa forma, buscamos
construir uma força anticapitalista ampla e poderosa o suficiente para
transformar a sociedade.

A luta é tanto uma oportunidade como uma escola. Pode transformar aquelas
pessoas que dela participam, desafiando nossos entendimentos anteriores sobre
nós mesmas e reformulando nossas visões de mundo. A luta pode aprofundar
nossa compreensão de nossa própria opressão – o que a causa, quem se
beneficia dela e o que pode ser feito para superá-la. Além disso, pode nos
encorajar a reinterpretar nossos interesses, redefinir nossas esperanças e
expandir nossa acepção do que é possível. Por fim, a experiência de luta pode
nos induzir a repensar quem deve ser considerado aliado e inimigo. Pode
ampliar o círculo de solidariedade entre as pessoas oprimidas e aguçar nosso
antagonismo com nossos opressores.
O modal “pode” é que faz a diferença. Tudo depende de nossa capacidade de
desenvolver uma perspectiva norteadora que não simplesmente celebre nem
brutalmente oblitere as diferenças entre nós. Contrárias às ideologias da
“multiplicidade” em voga, as várias opressões que sofremos não formam uma
pluralidade incipiente e contingente. Embora cada uma tenha as próprias
formas e características, todas estão enraizadas em um único e mesmo sistema
social e são por ele reforçadas. É ao nomear esse sistema como capitalismo e ao
unir forças para combatê-lo que podemos superar da melhor forma as divisões
que o capital cultiva entre nós – divisões de cultura, raça, etnicidade,
diversidade funcional, sexualidade e gênero.

No entanto, devemos compreender o capitalismo da forma correta. Ao


contrário das compreensões estreitas, antiquadas, a força de trabalho assalariada
industrial não é o total da classe trabalhadora; tampouco sua exploração é o
apogeu da dominação capitalista. Insistir em sua primazia não é estimular, e
sim enfraquecer, a solidariedade de classe. Na realidade, a solidariedade de
classe é mais bem promovida por meio do reconhecimento recíproco das
diferenças relevantes entre nós – de nossas situações, nossas experiências e
nossos sofrimentos estruturais díspares; de nossas necessidades, nossos desejos e
nossas reivindicações e das variadas formas organizacionais por meio das quais
podemos melhor alcançá-los. Dessa forma, o feminismo para os 99% busca
superar oposições familiares, obsoletas, entre “política identitária” e “política de
classe”.
Rejeitando a estrutura de soma zero que o capitalismo constrói para nós, o
feminismo para os 99% tem como objetivo unir movimentos existentes e futuros em
uma insurgência global de ampla base. Dotadas da visão de que ele é ao mesmo
tempo feminista, antirracista e anticapitalista, nós nos comprometemos a ser
protagonistas da configuração de nosso futuro.
Posfácio

Começando pelo meio


Escrever um manifesto feminista é tarefa hercúlea. Qualquer pessoa que tente
fazê-lo se baseia em – e se coloca na sombra de – Marx e Engels. O Manifesto
Comunista de 1848 começou com uma frase memorável. “Um espectro ronda a
Europa.” O “espectro”, óbvio, era o comunismo, um projeto revolucionário
que eles retrataram como auge das lutas da classe trabalhadora e viam como
algo em marcha: unificando-se, internacionalizando-se e metamorfoseando-se
em uma força histórica mundial que um dia iria abolir o capitalismo – e, com
ele, toda a exploração, a dominação e a alienação.

Consideramos esse predecessor imensamente inspirador, sobretudo porque


acertadamente identifica o capitalismo como base fundamental da opressão na
sociedade moderna. Ele, no entanto, complica nossa tarefa não apenas porque
o Manifesto Comunista é uma obra-prima literária, difícil de imitar, mas
também porque 2018 não é 1848. É verdade que nós também vivemos em um
mundo de enorme revolta social e política – à qual compreendemos como uma
crise do capitalismo. O mundo de hoje, porém, é muito mais globalizado do
que aquele de Marx e Engels, e as revoltas que o atravessam não estão, de
forma alguma, restritas à Europa. Do mesmo modo, nós encontramos conflitos
em torno de nacionalidade, raça/etnicidade e religião, além daqueles de classe.
Ao mesmo tempo, nosso mundo abrange discrepâncias desconhecidas para
eles: sexualidade, deficiências e ecologia; e suas lutas de gênero têm uma
amplitude e uma intensidade que Marx e Engels dificilmente teriam
imaginado. Confrontadas, como estamos, com um cenário político fraturado e
heterogêneo, não é tão fácil para nós imaginar uma força revolucionária
unificada.

Além disso, como chegamos depois, estamos mais conscientes do que Marx e
Engels poderiam ter estado sobre as muitas maneiras pelas quais os
movimentos emancipatórios podem dar errado. A memória histórica que
herdamos inclui a degeneração da revolução bolchevique no Estado stalinista
absolutista, a capitulação da social-democracia europeia ao nacionalismo e à
guerra e a enorme quantidade de regimes autoritários estabelecidos após as
lutas anticoloniais por todo o Sul global. Para nós, é especialmente importante
a recuperação dos movimentos emancipatórios de nossa época, que se tornaram
aliados das forças que estimularam o neoliberalismo e álibis para elas. Essa
segunda experiência tem sido dolorosa para as feministas de esquerda, já que
testemunhamos as correntes liberais dominantes de nosso movimento
reduzirem nossa causa ao avanço meritocrático de algumas poucas.

Essa história não poderia deixar de moldar nossas expectativas de um modo


diferente daquelas de Marx e Engels, considerando que eles escreviam em uma
era em que o capitalismo ainda era relativamente jovem, e nós enfrentamos um
sistema ardiloso, envelhecido, muito mais competente na cooptação e na
coerção. Além disso, o cenário político de hoje está repleto de armadilhas.
Como explicamos em nosso Manifesto, a armadilha mais perigosa para as
feministas está em pensar que nossas atuais opções políticas são limitadas a
duas: por um lado, a variante “progressista” do neoliberalismo, que propaga
uma versão elitista e corporativa de feminismo para lançar uma camada de
verniz emancipatório para uma agenda predatória e oligárquica; por outro,
uma variante reacionária do neoliberalismo, que segue agenda semelhante,
plutocrática, por outros meios – acionando tropas misóginas e racistas a fim de
lustrar suas credenciais “populistas”. Certamente, essas duas forças não são
idênticas. No entanto, ambas são inimigas mortais de um feminismo
verdadeiramente emancipatório e majoritário. E elas se promovem
mutuamente: o neoliberalismo progressista criou as condições para a ascensão
do populismo reacionário e hoje se coloca como a alternativa confiável a ele.

Nosso Manifesto encarna uma recusa em escolher lados dessa batalha.


Rejeitando um menu que limita nossas escolhas a duas estratégias diferentes
para gerenciar a crise capitalista, nós o escrevemos para impulsionar uma
alternativa a ambos. Comprometidas não apenas em gerenciar a crise
capitalista, mas em solucionar a atual crise, procuramos tornar visíveis e
praticáveis algumas das possibilidades emancipatórias que os atuais
alinhamentos obscurecem. Determinadas a romper a confortável aliança do
feminismo liberal com o capital financeiro, propusemos outro feminismo, um
feminismo para os 99%.

Chegamos a esse projeto depois de trabalharmos juntas na greve de mulheres


de 2017 nos Estados Unidos. Antes disso, cada uma de nós havia escrito
individualmente sobre a relação entre o capitalismo e a opressão de gênero.
Cinzia Arruzza analisara as tensas relações entre feminismo e socialismo, tanto
em termos históricos como teóricos. Tithi Bhattacharya desenvolvera uma
teoria sobre as implicações da reprodução social para os conceitos de classe e
luta de classes. Nancy Fraser trabalhara conceitos ampliados de capitalismo e
crise capitalista, da qual a crise da reprodução social é parte integrante.

Apesar das diferentes ênfases, juntamos forças para escrever este Manifesto
devido a uma compreensão comum da presente conjuntura. Para nós três, este
momento representa um ponto de junção crucial na história do feminismo e
do capitalismo, um ponto de junção que exige, e permite, uma intervenção.
Neste contexto, nossa decisão de escrever um manifesto feminista estava
vinculada a um objetivo político: buscamos efetuar uma operação de resgate e
uma correção de curso – para reorientar as lutas feministas em uma época de
confusão política.

Conceituando novamente o capitalismo e suas crises


A conjuntura a que nosso Manifesto responde é mais entendida como uma
crise. No entanto, não propomos essa palavra no sentido vago e óbvio de que as
coisas vão mal. Embora as calamidades e os sofrimentos atuais sejam terríveis, o
que justifica nosso uso do termo “crise” é algo maior: os inúmeros danos que
vivenciamos hoje não são nem mutuamente desvinculados nem produtos do
acaso. Ao contrário, eles derivam do sistema societal que sustenta todos eles –
um sistema que não os produz acidentalmente, mas como algo habitual, por
meio de sua dinâmica constitutiva.

Nosso Manifesto nomeia esse sistema social de capitalismo e caracteriza a


presente crise como uma crise do capitalismo. Não compreendemos, contudo,
esses termos da maneira usual. Como feministas, reconhecemos que o
capitalismo não é apenas um sistema econômico, e sim algo maior: uma ordem
social institucionalizada que abrange relações aparentemente não econômicas e
práticas que mantêm a economia oficial. Por trás das instituições oficiais do
capitalismo – trabalho assalariado, produção, troca e sistema financeiro – estão
os suportes que lhes são necessários e as condições que as possibilitam: famílias,
comunidades, natureza; Estados territoriais, organizações políticas e sociedades
civis; e, em especial, enormes quantidades e múltiplas formas de trabalho não
assalariado e expropriado, incluindo muito do trabalho de reprodução social,
ainda executado predominantemente por mulheres e muitas vezes sem
compensação. Esses também são elementos constitutivos da sociedade
capitalista – e lugares de luta em seu interior.

Dessa compreensão abrangente de capitalismo segue-se a visão ampla de crise


capitalista de nosso Manifesto. Sem negar sua tendência inerente a gerar
colapsos periódicos no mercado, falências em cadeia e desemprego em massa,
reconhecemos que o capitalismo abriga outras contradições “não econômicas” e
propensões à crise. Contém, por exemplo, uma contradição ecológica: uma
tendência inerente a reduzir a natureza, por um lado, a uma “torneira”
liberando energia e matéria-prima e, por outro, a uma “pia” absorvendo os
resíduos – ambas capacidades de que o capital se apropria gratuitamente, mas
não renova. Como resultado, as sociedades capitalistas são estruturalmente
inclinadas a desestabilizar os hábitats que sustentam as comunidades e os
ecossistemas que sustentam a vida.

Da mesma forma, essa formação social abriga uma contradição política: uma
tendência intrínseca a limitar o campo de ação da política, transferindo
questões fundamentais da vida e da morte ao domínio dos “mercados” e
transformando instituições estatais que deveriam servir ao público em serviçais
do capital. Por razões sistêmicas, portanto, o capitalismo está destinado a
frustrar as aspirações democráticas, a esvaziar direitos, a enfraquecer poderes
públicos e a gerar repressão brutal, guerras intermináveis e crises de
administração governamental.
Por fim, a sociedade capitalista abriga uma contradição de reprodução social:
uma tendência a se apropriar, em benefício do capital, do máximo possível de
trabalho reprodutivo “livre”, sem qualquer preocupação com sua reposição.
Como resultado, isso origina periodicamente uma “crise de cuidado”, que leva
as mulheres à exaustão, destrói famílias e estira as energias sociais até o ponto
de ruptura.

Em outras palavras, em nosso Manifesto, a crise capitalista não é apenas


econômica, mas também ecológica, política e de reprodução social. Em todos
os casos, a raiz é a mesma: o impulso inerente do capital de se aproveitar de
suas próprias condições básicas indispensáveis – pré-requisito por cuja
reprodução ele não tem intenção de pagar. Essas condições incluem a
capacidade da atmosfera para absorver as emissões de carbono; a capacidade do
Estado para defender a propriedade, sufocar a rebelião e salvaguardar o
dinheiro; e, o que é de central importância para nós, o trabalho não
remunerado de formar e sustentar seres humanos. Sem eles, o capital não
poderia explorar “trabalhadores e trabalhadoras” nem ser bem-sucedido em
acumular lucros. No entanto, se ele não consegue sobreviver sem essas
condições básicas, sua lógica também o leva a renegá-las. Se forçados a pagar
pelos custos totais de renovação da natureza, pelo poder público e pela
reprodução social, os lucros do capital definhariam a ponto de desaparecer.
Melhor canibalizar as próprias condições de possibilidade do sistema do que
comprometer a acumulação!

Portanto, é uma premissa de nosso Manifesto que o capitalismo abriga


múltiplas contradições, acima e além daquelas que têm raízes na economia
oficial. Em tempos “normais”, as tendências de crise do sistema se mantêm
mais ou menos latentes, afetando “apenas” aquelas populações consideradas
dispensáveis e sem poder. Estes, contudo, não são tempos normais. Hoje, todas
as contradições do capitalismo alcançaram o ponto de ebulição. Praticamente
ninguém – com a parcial exceção do 1% – escapa dos impactos da
desarticulação política, da precariedade econômica e do esgotamento da
reprodução social. E a mudança climática, obviamente, ameaça destruir a vida
no planeta. Também está crescendo o reconhecimento de que esses
desdobramentos catastróficos estão entrelaçados de maneira tão profunda que
nenhum deles pode ser resolvido separadamente dos demais.

O que é reprodução social?


Nosso Manifesto lida com todas as facetas da presente crise. No entanto, temos
especial interesse no aspecto da reprodução social, que está estruturalmente
ligado à assimetria de gênero. Então, vamos investigar mais a fundo: o que é
exatamente a reprodução social?

Consideremos o caso de “Luo”. Mãe taiwanesa identificada apenas pelo


sobrenome, ela abriu um processo em 2017 contra seu filho, reivindicando
indenização pelo tempo e pelo dinheiro que investira na criação dele. Luo
criou dois filhos como mãe solo, colocando ambos na faculdade de
odontologia. Em troca, esperava que eles cuidassem dela na velhice. Quando
um dos filhos não satisfez suas expectativas, ela o processou. Em um veredicto
inédito, a Suprema Corte de Taiwan ordenou que o filho pagasse à mãe 967
mil dólares como custo de sua “criação”.
O caso de Luo ilustra três aspectos fundamentais da vida sob o capitalismo.
Primeiro, revela um pressuposto universal humano que o capitalismo preferiria
ignorar e tenta esconder: que grandes quantidades de tempo e recursos são
necessárias para dar à luz, cuidar e manter seres humanos. Segundo, enfatiza
que muito do trabalho de criar e/ou manter seres humanos ainda é feito pelas
mulheres em nossa sociedade. Por fim, mostra que, no curso normal das coisas,
a sociedade capitalista não confere nenhum valor a esse trabalho, mesmo
dependendo dele.
O caso de Luo também nos incita a levar em consideração uma quarta
proposição que figura de modo central em nosso Manifesto: que a sociedade
capitalista é composta de dois imperativos inextricavelmente entrelaçados, mas
mutualmente opostos – a necessidade de o sistema se sustentar por meio de seu
processo característico de obtenção de lucro contra a necessidade de os seres
humanos se sustentarem por meio de processos que chamamos de produção de
pessoas. “Reprodução social” diz respeito ao segundo imperativo. Abrange
atividades que sustentam seres humanos como seres sociais corporificados que
precisam não apenas comer e dormir, mas também criar suas crianças, cuidar
de suas famílias e manter suas comunidades, tudo isso enquanto perseguem
esperanças no futuro.

Essas atividades de produção de pessoas ocorrem de uma forma ou de outra em


todas as sociedades. Nas sociedades capitalistas, entretanto, elas também devem
servir a outro mestre – a saber, o capital, que exige que o trabalho de
reprodução social produza e substitua a “força de trabalho”. Empenhado em
garantir para si mesmo um suprimento adequado dessa “mercadoria singular”
ao preço mais baixo possível, o capital despeja o trabalho de reprodução social
sobre mulheres, comunidades e Estados, o tempo todo distorcendo-o em
formas mais convenientes para maximizar seus lucros. Vários ramos da teoria
feminista, incluindo o feminismo marxista, o feminismo socialista e a teoria da
reprodução social, analisaram as contradições entre as tendências de obtenção
de lucro e de produção de pessoas nas sociedades capitalistas, expondo o
impulso inerente ao capital de instrumentalizar a segunda em função da
primeira.
Leitoras e leitores de O capital, de Marx, conhecem a exploração: a injustiça
que o capital inflige a trabalhadoras e trabalhadores assalariados no campo da
produção. Nesse cenário, os trabalhadores e as trabalhadoras devem receber o
suficiente para cobrir suas despesas de sobrevivência, embora, na verdade,
produzam mais. Em poucas palavras, nossos chefes exigem que trabalhemos
mais horas do que o necessário para reproduzir a nós mesmos, a nossas famílias
e às infraestruturas da sociedade. Eles se apropriam do excedente que
produzimos sob a forma de lucro em prol de proprietários e acionistas.
As teóricas da reprodução social não só rejeitam esse quadro, como assinalam
sua incompletude. Como feministas marxistas e socialistas, levantamos algumas
questões incômodas: o que a trabalhadora precisou fazer antes de chegar ao
trabalho? Quem fez seu jantar, arrumou sua cama e aliviou seu estresse para
que ela pudesse voltar ao trabalho após uma jornada fatigante, dia após dia?
Será que alguém fez esse trabalho de produção de pessoas ou foi ela mesma que
o executou – não apenas para si, mas também para os demais membros de sua
família?

Essas perguntas revelam uma verdade que o capitalismo conspira para ocultar:
o trabalho assalariado para a obtenção de lucro não poderia existir sem o
trabalho (na maioria das vezes) não assalariado da produção de pessoas.
Portanto, a instituição capitalista do trabalho assalariado esconde algo além do
mais-valor. Esconde suas marcas de nascença – a mão de obra de reprodução
social que é condição para que ela seja possível. Os processos e as instituições
sociais necessários para os dois tipos de “produção” – das pessoas e dos lucros –,
embora analiticamente distintos, são, ainda assim, mutuamente constitutivos.
Além disso, a distinção entre eles é, em si, um artefato da sociedade capitalista.
Como dissemos, o trabalho de produção de pessoas sempre existiu e sempre foi
associado às mulheres. No entanto, as sociedades antigas não conheciam
divisão nítida entre “produção econômica” e reprodução social. Apenas com o
advento do capitalismo esses dois aspectos da existência social foram
dissociados. A produção foi transferida para fábricas, minas e escritórios, onde
foi considerada “econômica” e remunerada com salários em dinheiro. A
reprodução foi relegada “à família”, onde foi feminizada e sentimentalizada,
definida como “cuidado” em oposição a “trabalho”, realizada por “amor” em
oposição ao dinheiro. Ou assim nos disseram. Na verdade, as sociedades
capitalistas nunca situaram a reprodução social exclusivamente nas residências
particulares, sempre a localizaram em bairros, comunidades de base,
instituições públicas e sociedade civil; e há muito tempo transformaram parte
do trabalho reprodutivo em mercadoria – embora nem de longe tanto quanto
hoje.
No entanto, a divisão entre obtenção de lucros e produção de pessoas aponta
para uma tensão arraigada no cerne da sociedade capitalista. Enquanto o
capital se esforça de forma sistemática para aumentar os lucros, pessoas da
classe trabalhadora se esforçam, no sentido inverso, para levar uma vida
significativa, digna de um ser humano. Esses são objetivos basicamente
irreconciliáveis, pois a parcela de acumulação do capital só pode aumentar à
custa de nossa participação na vida em sociedade. As práticas sociais que
nutrem nossa vida em casa e os serviços sociais que cultivam nossa vida fora de
casa constantemente ameaçam reduzir os lucros. Assim, a motivação financeira
para reduzir aquele custo e a motivação ideológica para minar aqueles esforços
são endêmicas ao sistema como um todo.

Se a narrativa do capitalismo fosse simplesmente aquela em que a obtenção de


lucro subjuga a produção de pessoas, o sistema poderia legitimamente declarar
vitória. A história do capitalismo é, porém, também formada por lutas por
vidas dignas significativas. Não é coincidência que as lutas salariais sejam
muitas vezes referidas como lutas relativas a “ganhar o pão”. Entretanto, é um
erro limitar essas questões a reivindicações sobre o local de trabalho, como os
movimentos operários tradicionais muitas vezes fizeram. Elas ignoram o
relacionamento tempestuoso, instável, entre os salários e a vida em um sistema
em que o capital decreta o primeiro como o único meio para a segunda.
Trabalhadores e trabalhadoras não lutam por salários; aliás, lutam pelo salário
porque querem pão e manteiga. O desejo de se sustentar é a causa, não a
consequência. Assim, as lutas por alimentação, moradia, água, assistência à
saúde ou educação nem sempre são expressas pela forma intermediária que é o
salário – ou seja, demandas por salários mais altos no local de trabalho.
Relembremos, por exemplo, que aquelas duas grandes revoluções da era
moderna, a francesa e a russa, começaram com motins, liderados por mulheres,
por causa do pão.
O verdadeiro objetivo das lutas de reprodução social é estabelecer a primazia da
produção de pessoas sobre a obtenção de lucros. Elas nunca foram apenas por
pão. Por esse motivo, um feminismo para os 99% encarna e encoraja a luta por
pão e rosas.

Crise da reprodução social


Na conjuntura que nosso Manifesto analisa, a reprodução social é o lugar de
uma crise maior. A razão básica, argumentamos, é que o tratamento que o
capitalismo dá à reprodução social é contraditório. Por um lado, o sistema não
pode funcionar sem essa atividade; por outro, ele renega os custos desta última
e confere a ela pouco ou nenhum valor econômico. Isso significa que as
capacidades utilizadas para o trabalho de reprodução social não têm seu valor
reconhecido, são tratadas como “dádivas” gratuitas e inesgotáveis que não
exigem atenção ou renovação. Quando, por acaso, a questão é considerada,
presume-se que sempre haverá energia suficiente para produzir mão de obra e
sustentar as correlações sociais das quais a produção econômica – e, em termos
mais gerais, a sociedade – depende. Na verdade, as capacidades de reprodução
social não são infinitas e podem se esgotar. Quando uma sociedade retira a
sustentação pública à reprodução social e engaja suas principais provedoras em
longas e cansativas horas de trabalho mal remunerado, ela esgota as próprias
capacidades sociais de que depende.

Esta é exatamente nossa situação hoje. A forma atual, neoliberal, de


capitalismo está esgotando sistematicamente nossas capacidades individuais e
coletivas para reconstituir os seres humanos e para sustentar os laços sociais. À
primeira vista, esse regime parece estar destruindo a divisão de gênero entre
mão de obra produtiva e reprodutiva, constitutiva do capitalismo.
Proclamando o novo ideal da “família com dois salários”, o neoliberalismo
recruta mulheres em massa como mão de obra assalariada ao redor do globo.
Esse ideal, no entanto, é uma fraude; e o regime laboral que ele deve legitimar
é tudo menos libertador para as mulheres. O que se apresenta como
emancipação é, na verdade, um sistema de exploração e expropriação
reforçadas. Ao mesmo tempo, é uma engrenagem da aguda crise de reprodução
social.

É verdade, claro, que uma fina camada das mulheres extrai algum ganho do
neoliberalismo quando ingressa em profissões de prestígio e nos patamares mais
baixos da administração corporativa, embora em termos menos favoráveis do
que os disponíveis para os homens da mesma classe. O que aguarda a ampla
maioria, entretanto, é algo diferente: trabalho mal remunerado e precário – em
fábricas, sob péssimas condições, zonas de processamento de exportação,
indústrias de construção de megacidades, corporações agrícolas e no setor de
serviços – onde mulheres pobres, racializadas e imigrantes servem fast-food e
vendem itens baratos em grandes lojas; limpam escritórios, quartos de hotel e
residências particulares; e cuidam de famílias das camadas mais privilegiadas,
muitas vezes longe de casa e abrindo mão da própria família.
Parte desse trabalho comoditiza o trabalho de reprodução que antes era
realizado sem remuneração. Mas se o efeito dessa comoditização turva a divisão
histórica do capitalismo entre produção e reprodução, também é certo que essa
consequência não emancipa as mulheres. Ao contrário, quase todas nós ainda
somos obrigadas a trabalhar “o segundo turno” mesmo quando mais do nosso
tempo e da nossa energia é apropriado pelo capital. E, claro, muito do trabalho
assalariado feminino decididamente não é libertador. Precário e mal
remunerado, sem oferecer acesso a direitos trabalhistas ou benefícios sociais,
não é suficiente para pagar por autonomia, autorrealização ou oportunidade de
adquirir e exercitar habilidades. Em contrapartida, o que esse trabalho oferece
de fato é a vulnerabilidade ao abuso e ao assédio.

Igualmente importante, os salários que recebemos nesse regime são muitas


vezes insuficientes para cobrir os custos de nossa própria reprodução social,
quanto mais aquele de nossas famílias. Acesso a remuneração por outro
membro da família ajuda, claro, mas ainda assim raramente é suficiente. Como
resultado, muitas de nós somos obrigadas a trabalhar em múltiplos
“McEmpregos” [McJobs], percorrendo longas distâncias entre eles em meios de
transporte caros, deteriorados e inseguros. Em comparação com o período
posterior à Segunda Guerra Mundial, o número de horas de trabalho
assalariado por família disparou, reduzindo profundamente o tempo disponível
para nos recarregarmos, cuidarmos de nossa família e nossas amizades, zelar por
nossa casa e nossa comunidade.

Longe de inaugurar uma utopia feminista, portanto, o capitalismo neoliberal,


na verdade, generaliza a exploração. Não apenas homens, mas também
mulheres, agora são forçados a vender sua força de trabalho de modo
fragmentado – e barato – a fim de sobreviver. E isso não é tudo: a exploração,
hoje, se sobrepõe à expropriação. Recusando-se a pagar os custos da própria (e
cada vez mais feminizada) força de trabalho, o capital não está mais satisfeito
em se apropriar “apenas” do mais-valor que trabalhadores e trabalhadoras
produzem além dos próprios meios de subsistência. Além disso, ele agora treina
o corpo, a mente e a família daqueles que explora, extraindo não apenas as
energias excedentes, mas também aquelas que seriam necessárias para a
reposição. Escavando as reservas da reprodução social como fonte adicional de
lucro, ele rói até nossos ossos.

A investida do capital contra a reprodução social também prossegue por meio


da retração dos serviços sociais públicos. Na fase anterior do desenvolvimento
capitalista, social-democrata (ou administrada pelo Estado), as classes
trabalhadoras dos países ricos obtiveram algumas concessões do capital na
forma de apoio estatal à reprodução social: pensões, seguro-desemprego,
salário-família, educação pública gratuita e seguro-saúde. O resultado,
entretanto, não foi uma era dourada; os ganhos conquistados por trabalhadoras
e trabalhadores de etnicidade majoritária no cerne capitalista baseavam-se na
suposição muitas vezes oposta aos fatos da dependência das mulheres por meio
da renda familiar, nas exclusões da seguridade social baseada em raça/etnia, no
critério heteronormativo de elegibilidade para a assistência social e na
expropriação imperial em curso no “Terceiro Mundo”. Ainda assim, essas
concessões ofereciam para algumas pessoas proteção parcial contra a tendência
inerente ao capital de canibalizar a produção social.
O capitalismo neoliberal, financeirizado, é algo completamente diferente.
Longe de empoderar os Estados para estabilizar a reprodução social por meio
de provisões públicas, ele autoriza o capital financeiro a disciplinar Estados e
povos nos interesses imediatos dos investidores privados. Sua arma preferida é a
dívida. O capital financeiro vive da dívida pública, à qual usa para tornar ilegal
até as formas mais brandas de provisão social-democrata, obrigando Estados a
liberalizar suas economias, abrir seus mercados e impor “austeridade” às
populações indefesas. Ao mesmo tempo, amplia o endividamento do consumidor
– das hipotecas de risco aos cartões de crédito e empréstimos estudantis, dos
créditos consignados ao microcrédito –, o qual usa para disciplinar camponeses
e trabalhadores, para mantê-los subservientes à terra e ao emprego e para
garantir que continuarão a comprar sementes geneticamente modificadas e
bens de consumo baratos a níveis muito acima daqueles que seus baixos salários
permitiriam de outra maneira. Das duas formas, o regime acentua a
contradição inerente ao capitalismo entre o imperativo da acumulação e os
requisitos da reprodução social. Exigindo, ao mesmo tempo, um aumento na
jornada de trabalho e a redução dos serviços públicos, o capitalismo exterioriza
o trabalho de cuidado sobre as famílias e as comunidades enquanto reduz a
capacidade de executá-lo.
O resultado é uma mistura insana, especialmente por parte das mulheres, a
forçar as responsabilidades de reprodução social a adentrar os interstícios das
vidas que o capital exige que sejam dedicadas, sobretudo, a sua acumulação.
Em geral, isso significa descarregar o trabalho de cuidado sobre outros menos
privilegiados. A consequência é criar “cadeias globais de cuidado”, à medida
que aquelas pessoas que contam com os meios para isso contratam mulheres
mais pobres, na maioria imigrantes e/ou membros de grupos racializados, para
limpar suas casas e cuidar de suas crianças e seus entes idosos, enquanto elas
mesmas realizam trabalhos mais lucrativos. No entanto, é claro, isso deixa as
cuidadoras mal remuneradas lutando para cumprir as próprias
responsabilidades domésticas e familiares, muitas vezes transferidas a outras
mulheres ainda mais pobres que, por sua vez, devem fazer o mesmo – e assim
indefinidamente, muitas vezes atravessando grandes distâncias.
Essa situação condiz com as estratégias definidas com base no gênero de
Estados pós-coloniais endividados, que têm sido submetidos a “ajustes
estruturais”. Desesperados por recursos em moeda forte, alguns desses Estados
promoveram ativamente a emigração de mulheres para realizar trabalho de
cuidado remunerado no exterior visando às remessas, enquanto outros têm
buscado investimentos estrangeiros diretos por meio da criação de zonas de
processamento de exportações, muitas vezes em indústrias (como as têxteis e de
montagem de eletrônicos) que preferem empregar trabalhadoras mal
remuneradas, que são, então, submetidas a trabalho excessivo e violência
sexual. Em ambos os casos, as capacidades de reprodução social são mais
pressionadas. Longe de preencher a lacuna do cuidado, o efeito final é deslocá-
la: das famílias mais ricas para as mais pobres, do Norte global para o Sul
global. O resultado geral é uma nova, dualizada, organização da reprodução
social, transformada em mercadoria para pessoas que podem pagar por ela e
privatizada para aquelas que não podem, na medida em que algumas pessoas
da segunda categoria fornecem o trabalho de cuidado em troca de (baixos)
salários para as da primeira.

Tudo isso resulta no que algumas pessoas chamam de “crise do cuidado”. Essa
expressão, porém, pode induzir facilmente ao erro, já que, como
argumentamos em nosso Manifesto, esta crise é estrutural – parte essencial da
crise geral e mais ampla do capitalismo contemporâneo. Dada a severidade
deste, não é de admirar que as lutas em torno da reprodução social tenham
explodido nos anos recentes. As feministas do Norte muitas vezes descrevem
seu enfoque como “equilíbrio entre família e trabalho”. No entanto, as lutas em
torno da reprodução social englobam muito mais – incluindo movimentos
comunitários de base popular por habitação, assistência à saúde, segurança
alimentar e uma renda básica incondicional; lutas pelos direitos de imigrantes,
trabalhadoras e trabalhadores domésticos e servidores e servidoras públicos;
campanhas pela sindicalização de quem trabalha no serviço social de clínicas
para pessoas idosas, hospitais e centros infantis que visam ao lucro; e lutas por
serviços públicos, como creches e assistência a pessoas idosas; por uma semana
de trabalho mais curta e por um pagamento justo para as licenças-maternidade
e paternidade. Tomadas em conjunto, essas reivindicações são equivalentes à
demanda por uma forte reorganização da relação entre produção e reprodução:
por arranjos sociais que priorizem a vida das pessoas e os vínculos sociais acima
da produção para o lucro; por um mundo em que pessoas de todos os sexos, as
nacionalidades, as sexualidades e as origens étnicas combinem as atividades de
reprodução social com trabalho seguro, bem remunerado e livre de assédio.

A política do feminismo para os 99%


A análise anterior inspira o ponto político fundamental de nosso Manifesto: o
feminismo deve estar à altura da atual crise. Como dissemos, esta é uma crise
que o capitalismo pode, na melhor das hipóteses, suplantar, mas não resolver.
Uma solução verdadeira exige nada menos que uma forma totalmente nova de
organização social.
Certamente, nosso Manifesto não prescreve os contornos precisos de uma
alternativa, já que esta última deve emergir no curso da luta para criá-la.
Algumas coisas, contudo, já estão claras. Em contraposição ao feminismo
liberal, o sexismo não pode ser derrotado pela dominação de oportunidades
iguais – nem, em contraposição ao liberalismo comum, pela reforma das leis.
Na mesma linha, e com respeito às compreensões tradicionais do socialismo,
uma ênfase exclusiva na exploração do trabalho assalariado não pode
emancipar as mulheres – nem, aliás, as pessoas trabalhadoras de qualquer
gênero. Também é necessário visar à instrumentalização do trabalho
reprodutivo não assalariado pelo capital, ao qual, em todo caso, a exploração
está vinculada. É necessário, na verdade, superar o vínculo, persistente no
sistema, entre produção e reprodução, seu entrelaçamento de obtenção de
lucro com produção de pessoas e sua subordinação da segunda à primeira. E
isso significa abolir o sistema mais amplo que cria a simbiose entre elas.
Nosso Manifesto identifica o feminismo liberal como obstáculo crucial a esse
projeto emancipatório. Essa corrente alcançou seu predomínio atual ao ter uma
vida mais longa; na verdade, ao reverter o radicalismo feminista do período
anterior. Este último originou-se nos anos 1970 na crista de uma forte onda de
lutas anticoloniais contra a guerra, o racismo e o capitalismo. Participando de
seu espírito revolucionário, questionou toda a base estrutural da ordem
existente. No entanto, quando o radicalismo daquela época declinou, o que
emergiu como hegemônico foi um feminismo despojado de aspirações
utópicas, revolucionárias – um feminismo que refletia e acomodava a cultura
política liberal dominante.
O feminismo liberal não é a história completa, claro. Combativas correntes
feministas antirracistas e anticapitalistas continuaram a existir. As feministas
negras produziram reveladoras análises sobre a intersecção entre a exploração
de classe, o racismo e a opressão de gênero, e recentes teorias materialistas queer
desvelaram importantes elos entre o capitalismo e a reificação opressiva de
identidades sexuais. Coletivos militantes mantiveram seu duro, diário, trabalho
de base, e o feminismo marxista agora passa por uma renovação. Mesmo assim,
a ascensão do neoliberalismo transformou o contexto geral no qual as correntes
radicais tiveram de operar, enfraquecendo todos os movimentos favoráveis à
classe trabalhadora enquanto fortaleciam alternativas propícias às corporações –
entre elas, o feminismo liberal.
Hoje, entretanto, a hegemonia do feminismo liberal começou a se desfazer, e
uma nova onda de radicalismo feminista emergiu dos escombros. Como
observamos em nosso Manifesto, a principal inovação dos movimentos atuais é
a adoção e a reinvenção da greve. Ao fazer greves, as feministas assumiram uma
forma de luta identificada com o movimento de trabalhadores e a
remodelaram. Detendo não apenas o trabalho assalariado, mas também o
trabalho (predominantemente) não remunerado de reprodução social, elas
revelaram o papel fundamental deste último na sociedade capitalista. Ao tornar
visível a força das mulheres, desafiaram a afirmação de sindicatos que se dizem
“donos” da greve. Indicando não estarem dispostas a aceitar a ordem existente,
as feministas grevistas vêm redemocratizando a luta trabalhista, reafirmando o
que deveria ter sido óbvio: as greves pertencem à classe trabalhadora como um
todo, não a uma de suas camadas parciais nem a organizações específicas.
Os efeitos potenciais são de longo alcance. Como observamos em nosso
Manifesto, as greves feministas nos obrigam a repensar o que constitui a classe e
o que vale como luta de classe. Karl Marx teorizou de forma memorável a
classe trabalhadora como “classe universal”. O que ele quis dizer foi que, ao
lutar para superar a própria exploração e a própria dominação, a classe
trabalhadora também estava desafiando o sistema social que oprime a
esmagadora maioria da população do mundo e, com isso, fazendo avançar a
causa da humanidade como tal. Seguidores e seguidoras de Marx, porém, nem
sempre compreenderam que nem a classe trabalhadora nem a humanidade são
uma entidade indiferenciada, homogênea, e que a universalidade não pode ser
alcançada ignorando-se suas diferenças internas. Hoje ainda pagamos o preço
por esses lapsos políticos e intelectuais. Enquanto neoliberais celebram com
cinismo a “diversidade” a fim de embelezar as predações do capital, muitas alas
da esquerda ainda recorrem à velha fórmula que defende que o que nos une é
uma noção abstrata e homogênea de classe e que o feminismo e o antirracismo
só podem nos dividir.
O que está se tornando cada vez mais claro, entretanto, é que o típico retrato
do trabalhador militante como branco e do sexo masculino está extremamente
defasado em relação ao momento – na verdade, desde o princípio ele nunca foi
muito fiel. Como argumentamos em nosso Manifesto, a classe trabalhadora
global de hoje compreende bilhões de mulheres, imigrantes e pessoas de grupos
étnicos minoritários. Sua luta não é apenas no local de trabalho, mas também
gira em torno da reprodução social, dos distúrbios pelo preço dos alimentos,
centrais na Primavera Árabe, dos movimentos contra a gentrificação que
ocuparam a praça Taksim em Istambul e das lutas contra a austeridade e em
defesa da reprodução social que deram vida aos Indignados.
Nosso Manifesto rejeita as duas perspectivas: a do reducionismo de classe de
esquerda, que entende a classe trabalhadora como uma abstração vazia,
homogênea; e a neoliberal progressista, que celebra a diversidade em benefício
próprio. Em vez disso, propusemos um universalismo que adquire sua forma e
seu conteúdo a partir da multiplicidade de lutas vindas de baixo. Sem dúvida,
diferenças, desigualdades e hierarquias que são inerentes às relações sociais
capitalistas dão origem de fato a conflitos de interesse entre as pessoas
oprimidas e exploradas. E, por si só, a proliferação de lutas fragmentárias não
engendrará os tipos de aliança robustos, de ampla base, necessários para
transformar a sociedade. Entretanto, essas alianças se tornarão impossíveis se
não conseguirmos levar nossas diferenças a sério. Longe de propor apagá-las ou
banalizá-las, nosso Manifesto defende que lutemos contra o uso de nossas
diferenças como armas pelo capitalismo. O feminismo para os 99% encarna
essa visão de universalismo: sempre em formação, sempre aberta à
transformação e à contestação e sempre se consolidando novamente por meio
da solidariedade.

O feminismo para os 99% é um feminismo anticapitalista inquieto – que não


pode nunca se satisfazer com equivalência, até que tenhamos igualdade; nunca
satisfeito com direitos legais, até que tenhamos justiça; e nunca satisfeito com a
democracia, até que a liberdade individual seja ajustada na base da liberdade
para todas as pessoas.
Sobre as autoras

Cinzia Arruzza é professora associada de filosofia na New School for Social


Research, na cidade de Nova York. Ela é autora de Dangerous Liaisons: e
Marriages and Divorces of Marxism and Feminism (Merlin Press, 2013) e de A
Wolf in the City: Tyranny and the Tyrant in Plato’s Republic (OUP, 2018). Foi
uma das principais organizadoras da Greve Internacional das Mulheres nos
Estados Unidos e integra o coletivo editorial da Viewpoint Magazine.
Tithi Bhattacharya é professora associada e diretora de estudos globais na
Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos). Ela é autora de e
Sentinels of Culture: Class, Education, and the Colonial Intellectual in Bengal
(OUP, 2005) e editora de Mapping Social Reproduction eory (Pluto Press,
2017). Foi uma das principais organizadoras da Greve Internacional das
Mulheres nos Estados Unidos e integra o coletivo editorial da Viewpoint
Magazine.

Nancy Fraser é professora de filosofia e política na cadeira Henry and Louise


A. Loeb da New School for Social Research, na cidade de Nova York. Ela é
autora, entre outros, de Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism
to Neoliberal Crisis (Verso, 2013) e Capitalism: A Conversation in Critical eory
(Polity, 2018), escrito com Rahel Jaeggi, que será publicado pela Boitempo em
2019. Grande apoiadora da Greve Internacional das Mulheres, cunhou a frase
“feminismo para os 99%”.

Talíria Petrone é deputada federal eleita em 2018 pelo PSOL, professora de


história licenciada da rede pública municipal de ensino do Rio de Janeiro,
mestranda em serviço social na Universidade Federal Fluminense (Uff) com
pesquisa sobre o papel das mulheres nas lutas urbanas. Foi eleita vereadora da
cidade de Niterói, Rio de Janeiro, em 2016, com uma plataforma política
feminista, LGBT, negra e popular.

Joênia Wapichana é deputada federal por Roraima, eleita em 2018. Pertence


ao povo indígena Wapichana, comunidade indígena Truarú, do Estado de
Roraima. Tem mestrado pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos,
que cursou com uma bolsa da fundação Fullbright. Formada em direito pela
Universidade Federal de Roraima, em 1997, é considerada a primeira mulher
indígena graduada em direito e a exercer a profissão em favor dos povos
indígenas. Coordenou o departamento jurídico do Conselho Indígena de
Roraima (CIR) de 1999 a 2018. Em 2018 recebeu o Prêmio das Nações
Unidas de Direitos Humanos.
Peça de divulgação da Paralisação Internacional das
Mulheres (8M) do 8 de Março de 2018 no Brasil.

Este livro foi publicado pela Boitempo e em diversos países por ocasião
do 8 de Março de 2019, Dia Internacional da Mulher – que, desde 2017,
tem sido celebrado com uma greve internacional militante convocada
pelas autoras deste manifesto junto com outras intelectuais e ativistas,
como Angela Davis, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Martín Alcoff e
Rasmea Yousef Odeh.
SBD
© 2019, Boitempo (desta edição)
© 2019, Gius. Laterza & Figli
Todos os direitos reservados
Título original: Feminism for the 99 Percent: a Manifesto
Direção geral
Ivana Jinkings
Edição
Isabella Marcatti
Tradução
Heci Regina Candiani
Preparação
ais Rimkus
Revisão
Carmen T. S. Costa
Coordenação de produção
Livia Campos
Capa
Hallina Beltrão
Diagramação
Antonio Kehl
Equipe de apoio: Ana Carolina Meira, Ana Yumi Kajiki, André Albert, Artur Renzo, Bibiana Leme,
Clarissa Bongiovanni, Eduardo Marques, Elaine Ramos, Frederico Indiani, Heleni Andrade, Ivam
Oliveira, Kim Doria, Luciana Capelli, Marlene Baptista, Maurício Barbosa, Raí Alves, Renato Soares,
Talita Lima, Tulio Candiotto
Versão eletrônica
Produção
Livia Campos
Diagramação
Schäffer Editorial
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

A821f

Arruzza, Cinzia, 1976-


Feminismo para os 99% [recurso eletrônico] : um manifesto / Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya,
Nancy Fraser ; tradução Heci Regina Candiani. - 1. ed. - São Paulo : Boitempo, 2019.
recurso digital
Tradução de: Feminismo for the 99%: a manifesto
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
"Prefácio à edição brasileira de Talíria Petrone"
ISBN 978-85-7559-681-4 (recurso eletrônico)
1. Feminismo. 2. Mulheres - História. 3. Mulheres - Condições sociais - História. 4. Livros
eletrônicos. Bhattacharya, Tithi. II. Fraser, Nancy. III. Candiani, Heci Regina. IV. Título.

CDD: 305.42
19-12021
CDU: 141.72

Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária CRB-7/6439

11/02/2019 18/02/2019
É vedada a reprodução de qualquer parte deste livro sem a expressa autorização da editora.
1ª edição: fevereiro de 2019
BOITEMPO EDITORIAL
www.boitempoeditorial.com.br
www.boitempoeditorial.wordpress.com
www.facebook.com/boitempo
www.twitter.com/editoraboitempo
www.youtube.com/tvboitempo
Jinkings Editores Associados Ltda.
Rua Pereira Leite, 373
05442-000 São Paulo SP
Tel./fax: (11) 3875-7250 / 3872-6869
editor@boitempoeditorial.com.br
Estação Perdido
Miéville, China
9788575594902
610 páginas

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"Com seu novo romance, o colossal, intricado e visceral Estação


Perdido, Miéville se desloca sem esforço entre aqueles que usam as
ferramentas e armas do fantástico para definir e criar a ficção do
século que está por vir." – Neil Gaiman "Não se pode falar sobre
Miéville sem usar a palavra 'brilhante'." – Ursula K. Le Guin O
aclamado romance que consagrou o escritor inglês China Miéville
como um dos maiores nomes da fantasia e da ficção científica
contemporânea. Miéville escreve fantasia, mas suas histórias
passam longe de contos de fadas. Em Estação Perdido, primeiro
livro de uma trilogia que lhe rendeu prêmios como o British Fantasy
(2000) e o Arthur C. Clarke (2001), o leitor é levado para Nova
Crobuzon, no planeta Bas-Lag, uma cidade imaginária cuja
semelhança com o real provoca uma assustadora intuição: a de que
a verdadeira distopia seja o mundo em que vivemos. Com pitadas
de David Cronenberg e Charles Dickens, Bas-Lag é um mundo
habitado por diferentes espécies racionais, dotadas de habilidades
físicas e mágicas, mas ao mesmo tempo preso a uma estrutura
hierárquica bastante rígida e onde os donos do poder têm a última
palavra. Nesse ambiente, Estação Perdido conta a saga de Isaac
Dan der Grimnebulin, excêntrico cientista que divide seu tempo
entre uma pesquisa acadêmica pouco ortodoxa e a paixão
interespécies por uma artista boêmia, a impetuosa Lin, com quem
se relaciona em segredo. Sua rotina será afetada pela inesperada
visita de um garuda chamado Yagharek, um ser meio humano e
meio pássaro que lhe pede ajuda para voltar a voar após ter as asas
cortadas em um julgamento que culminou em seu exílio. Instigado
pelo desafio, Isaac se lança em experimentos energéticos que logo
sairão do controle, colocando em perigo a vida de todos na
tumultuada e corrupta Nova Crobuzon.

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Cabo de guerra
Benedetti, Ivone
9788575594919
306 páginas

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Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, Ivone


Benedetti lança pela Boitempo seu segundo romance, o arrebatador
Cabo de guerra, que invoca fantasmas do passado militar brasileiro
pela perspectiva incômoda de um homem sem convicções
transformado em agente infiltrado. No final da década de 1960, um
rapaz deixa o aconchego da casa materna na Bahia para tentar a
sorte em São Paulo. Em meio à efervescência política da época,
que não fazia parte de seus planos, ele flerta com a militância de
esquerda, vai parar nos porões da ditadura e muda radicalmente de
rumo, selando não apenas seu destino, mas o de muitos de seus
ex-companheiros. Quarenta anos depois, ainda é difícil o balanço:
como decidir entre dois lados, dois polos, duas pontas do cabo de
guerra que lhe ofertaram? E, entre as visões fantasmagóricas que o
assaltam desde criança e a realidade que ele acredita enxergar,
esse protagonista com vocação para coadjuvante se entrega
durante três dias a um estranho acerto de contas com a própria
existência. Assistido por uma irmã devota e rodeado por uma série
de personagens emersos de páginas infelizes, ele chafurda numa
ferida eternamente aberta na história do país. Narradora talentosa,
Ivone Benedetti tem pleno domínio da construção do romance. Num
texto em que nenhum elemento aparece por acaso e no qual, a
cada leitura, uma nova referência se revela, o leitor se vê
completamente envolvido pela história de um protagonista
desprovido de paixões, dono de uma biografia banal e indiferente à
polarização política que tanto marcou a década de 1970 no Brasil.
Essa figura anônima será, nessa ficção histórica, peça fundamental
no desfecho de um trágico enredo. Neste Cabo de guerra, são
inúmeras e incômodas as pontes lançadas entre passado e
presente, entre realidade e invenção. Para mencionar apenas uma,
a abordagem do ato de delação política não poderia ser mais
instigante para a reflexão sobre o Brasil contemporâneo.

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Tempos difíceis
Dickens, Charles
9788575594209
336 páginas

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Neste clássico da literatura, Charles Dickens trata da sociedade


inglesa durante a Revolução Industrial usando como pano de fundo
a fictícia e cinzenta cidade de Coketown e a história de seus
habitantes. Em seu décimo romance, o autor faz uma crítica
profunda às condições de vida dos trabalhadores ingleses em fins
do século XIX, destacando a discrepância entre a pobreza extrema
em que viviam e o conforto proporcionado aos mais ricos da
Inglaterra vitoriana. Simultaneamente, lança seu olhar sagaz e bem
humorado sobre como a dominação social é assegurada por meio
da educação das crianças, com uma compreensão aguda de como
se moldam espíritos desacostumados à contestação e prontos a
obedecer à inescapável massificação de seu corpo e seu espírito.
Acompanhando a trajetória de Thomas Gradgrind, "um homem de
fatos e cálculos", e sua família, o livro satiriza os movimentos
iluminista e positivista e triunfa ao descrever quase que de forma
caricatural a sociedade industrial, transformando a própria estrutura
do romance numa argumentação antiliberal. Por meio de diversas
alegorias, como a escola da cidade, a fábrica e suas chaminés, a
trupe circense do Sr. Sleary e a oposição entre a casa do burguês
Josiah Bounderby e a de seu funcionário Stephen Blackpool, o
resultado é uma crítica à mentalidade capitalista e à exploração da
força de trabalho, imposições que Dickens alertava estarem
destruindo a criatividade humana e a alegria.

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O homem que amava os cachorros
Padura, Leonardo
9788575593622
592 páginas

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Esta premiadíssima e audaciosa obra do cubano Leonardo Padura,


traduzida para vários países (como Espanha, Cuba, Argentina,
Portugal, França, Inglaterra e Alemanha), é e não é uma ficção. A
história é narrada, no ano de 2004, pelo personagem Iván, um
aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e, a partir
de um encontro enigmático com um homem que passeava com
seus cães, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo
Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão
Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra
Civil Espanhola e encarregado de executá-lo. Esse ser obscuro, que
Iván passa a denominar "o homem que amava os cachorros", confia
a ele histórias sobre Mercader, um amigo bastante próximo, de
quem conhece detalhes íntimos. Diante das descobertas, o narrador
reconstrói a trajetória de Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido
como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho
durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após
este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS, e a de
Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta que o matou,
um personagem sem voz na história e que recebeu, como militante
comunista, uma única tarefa: eliminar Trotski. São descritas sua
adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou,
a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade
do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma
história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por
inúmeras mistificações.

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Pssica
Proença, Edyr Augusto
9788575594506
96 páginas

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Após grande sucesso na França - onde teve três livros traduzidos -,


o paraense Edyr Augusto lança um novo romance noir de tirar o
fôlego. Em Pssica, que na gíria regional quer dizer "azar",
"maldição", a narrativa se desdobra em torno do tráfico de mulheres.
Uma adolescente é raptada no centro de Belém do Pará e vendida
como escrava branca para casas de show e prostituição em Caiena.
Um imigrante angolano vai parar em Curralinho, no Marajó, onde
monta uma pequena mercearia, que é atacada por ratos d'água
(ladrões que roubam mercadorias das embarcações, os piratas da
Amazônia) e, em seguida, entra em uma busca frenética para vingar
a esposa assassinada. Entre os assaltantes está um garoto que
logo assumirá a chefia do grupo. Esses três personagens se
encontram em Breves, outra cidade do Marajó, e depois voltam a
estar próximos em Caiena, capital da Guiana Francesa, em uma
vertiginosa jornada de sexo, roubo, garimpo, drogas e assassinatos.

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