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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

3VAFAZPUB
3ª Vara da Fazenda Pública do DF

Número do processo: 0702592-52.2020.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO POPULAR (66) - Anulação (10423)

AUTOR: ELIZETE SOARES DA SILVA

RÉU: BRB BANCO DE BRASILIA SA, CONFEDERACAO NACIONAL DO COMERCIO DE BENS,


SERVICOS E TURISMO - CNC, DISTRITO FEDERAL, PAULO HENRIQUE BEZERRA
RODRIGUES COSTA

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Vistos etc.

Trata-se a presente demanda de Ação Popular proposta por ELIZETE SOARES DA SILVA em face
do DISTRITO FEDERAL, do BANCO DE BRASÍLIA-BRB, da CONFEDERAÇÃO NACIONAL
DO COMÉRCIO-CNC, e do Senhor Presidente do BRB, PAULO HENRIQUE BEZERRA
RODRIGUES COSTA, buscando provimento judicial, via tutela de urgência, para que se determine
imediatamente a suspensão de contrato de locação firmado sem a observação do processo licitatório,
tendo como valor da causa o importe de R$ 276.000.000,00 (duzentos e setenta e seis milhões de reais).

A distribuição desta demanda se deu, aleatoriamente, por sorteio, no dia 13/04/2020, às 13h07min,
conforme registrado no ID nº 61022584, não tendo o sistema apresentado nenhuma associação/prevenção
a outro processo, já distribuído.

Determinei então a prévia oitiva do Distrito Federal (art.5º, §1º da Lei da Ação Popular) e do BRB –
Banco de Brasília, no prazo de 72h, acerca do pedido Liminar, em analogia ao art. 2° da Lei n° 8.437/92,
tendo me reservado à apreciação do pleito liminar após a apresentação das informações. Na mesma
ocasião, "ad cautelam", suspendi todos os atos administrativos a serem praticados visando a concretização
do contrato de locação das duas torres do complexo CNC (Confederação Nacional do Comércio),
inclusive com efeitos "ex tunc", se já praticados, retornando ao “status quo ante” (STJ – Resp
1278809/MS e AResp 141.597/MA). Determinei a citação de todos os réus (ID n° 61024274).

Em seguida, no dia seguinte, em 14/4/2020, avisado por minha assessoria, por ter verificado a distribuição
de outras ações populares com o mesmo objeto, determinei à parte autora e ao seu Advogado
informassem o motivo para a reiteração das demandas (ID n° 61102794).

Número do documento: 20052213175722100000060679640


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20052213175722100000060679640
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 22/05/2020 13:17:57 Num. 63716084 - Pág. 1
Após a oitiva das partes e parecer do Ministério Público, além de diligências realizadas no curso da lide,
acolhi a preliminar levantada pelo MPe extingui o processo sem resolução do mérito, pela litispendência,
ex vi do art. 485, V, do CPC (IDs 62202912 e 62203232), no dia 30/04/2020, revogando a decisão
proferida com esteio no poder geral de cautela que suspendia os efeitos do contrato de locação, como
predito.

Sobreveio então recurso de Apelação da parte autora (ID n.º 63068266), postulando seja reconsiderada a
sentença deste juízo (§7º do art. 485 do CPC), para que: a) confirme a prevenção antes anunciada; b) ou
decline da competência para a 5ª Vara de Fazenda Pública do DF, nos termos do art. 286, II, do CPC; e c)
caso assim não proceda, sejam os autos remetidos ao Eg. TJDFT em sede de Apelação.

Proferi em seguida a decisão de ID nº 63100914 e, com fulcro no art. 10 do CPC, facultei aos réus se
manifestassem sobre o pedido de retratação da sentença feito pela parte autora em sede de recurso de
Apelação, no prazo de 48h.

O BRB e CNC se manifestaram pela manutenção da sentença ora apelada, protestando pelo não
cabimento do pedido de retratação postulado pela parte autora (IDs nºs 63317542 e 63260485).

Na mesma ocasião, ou seja, no dia 18/05/2020, o BRB opôs Exceção de Impedimento e de Suspeição
deste Juiz, em segredo de Justiça (ID nº 63317527), cuja peça veio acompanhada de nova Procuração
outorgada em 13/04/2020 pelo Sr. Diretor-Presidente do BRB à nova Diretora Jurídica (ID nº 63317528).

Argumenta, para tanto, na seara do impedimento e com base no artigo 144, inciso III, do CPC, ter
tomado ciência que este Magistrado é ex-cônjuge e parente por afinidade de 2º grau (mãe de seus dois
filhos) de sua recém-empossada Diretora Jurídica, Dra. Hellen Falcão de Carvalho, tendo tomado posse
em 04.03.2020.

Com relação à suspeição, diz consubstanciar o vínculo na comum criação e educação dos filhos,
ressaltando a necessidade de tomarem decisões a eles relacionadas, com esteio no art. 145, inciso I, do
CPC.

Ainda, alega manter uma relação de credora/gestora de pensão alimentícia paga aos filhos por este
Magistrado, a configurar suspeição, nos termos do art. 145, inciso III, do CPC, colacionando, ao final,
jurisprudência criminal do TJMT.

Pleiteia, ao final: a) o reconhecimento do impedimento e da suspeição deste Magistrado e a remessa dos


autos ao seu substituto legal, nos termos do §1º do art. 146 do Código de Processo Civil; b)
alternativamente, caso não reconheça o impedimento e/ou a suspeição, a remessa dos autos apartados ao
Egrégio Tribunal de Justiça do Distrito Federal, nos termos do §2º do art. 146 do Código de Processo
Civil.

Relatei o que importa para o julgamento do presente incidente. Decido.

Inicialmente, cabe mencionar que a distribuição da presente ação popular ocorreu aleatoriamente, por
sorteio, no dia 13/04/2020, às 13h07min, conforme registrado pelo sistema e no ID nº 61022584.
Naquele momento, no sistema do PJE não constou qualquer outro processo associado a fim de se apreciar
a eventual litispendência ou prevenção.

De plano, saliento que não tenho amizade nem inimizade seja com ambas as partes ou com seus ilustres
Advogados (as).

Pois bem. Argui o BRB exceção de impedimento e suspeição, nos termos do art. 144, inciso III e art. 145,
I e III, ambos do CPC, por ser este Magistrado ex-cônjuge e pai dos dois filhos da sua Diretora Jurídica.

Número do documento: 20052213175722100000060679640


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O Código de Processo Civil estabelece hipóteses nas quais a imparcialidade do julgador estará maculada,
permitindo seja afastado da causa por lhe faltar pressuposto processual subjetivo, porquanto a arguição de
impedimento e suspeição se referem à pessoa do juiz, não do juízo. Passo a analisá-las separadamente.

DO IMPEDIMENTO

Pertinente ao impedimento, consoante entendimento pacífico, tratam-se de presunções legais de


parcialidade, quer dizer, o legislador estabeleceu de forma objetiva situações nas quais, acaso
configuradas, o magistrado seria considerado imparcial, a atrair a sua incompetência para processar e
julgar a lide.

Na situação em apreciação, segundo a tese defendida pelo BRB, este Magistrado estaria impedido para
processar e julgar o processo, em razão da relação outrora estabelecida com a Diretora Jurídica do Banco,
Dra. Hellen Falcão de Carvalho, sua ex-cônjuge e, por terem 2 filhos em comum, seria minha parente por
afinidade de 2º grau. Para tanto, indica como fundamento da sua arguição o art. 144, III, do CPC, a saber:

Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo:

[...]

III - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério
Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou
colateral, até o terceiro grau, inclusive;

[...]

Raciocínio equivocado, data máxima vênia. De sabença ser assente na doutrina e jurisprudência que as
hipóteses de impedimento são de direito estrito, não se admitindo, por isso, aplicação analógica e nem
interpretação extensiva. Ou seja, envolvem fatos ou situações objetivas, como o parentesco com uma das
partes, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, portanto, seu rol é taxativo, não exemplificativo.

Nessa linha, obviamente que não existe qualquer parentesco, seja em linha reta, ou colateral, ou por
consanguinidade ou afinidade entre este Magistrado e sua ex-cônjuge, da qual encontra-se
divorciado desde abril de 2008, ou seja, 12 (doze) anos já se passaram. O juiz está casado com outra
pessoa há 6 (seis) anos e tem 2 (dois) filhos com sua atual esposa. A lei civil não prescreve isso que
defende o BRB. Portanto, o pleito fere o princípio da legalidade estrita.

No ponto, necessário salientar que a Carta Magna dispõe que o casamento civil pode ser dissolvido pelo
divórcio (art. 226, §6º), sendo no mesmo sentido a previsão insculpida no art. 1.571, IV, do CC[1]. Isto é,
o divórcio rompe a sociedade conjugal, extinguindo o vínculo matrimonial existente entre as partes, a
comprovar a ausência de parentesco por afinidade entre este Magistrado e a il. Advogada citada,
ex-cônjuge.

Além disso, não se pode confundir o vínculo existente entre este Magistrado e seus filhos, com aquele no
passado estabelecido com a il. Advogada Hellen Falcão de Carvalho. Isso porque, diversamente da
sociedade conjugal – a qual pode ser dissolvida –, é o vínculo parental, porquanto, como sabido, o
divórcio não modificará os direitos e deveres dos pais em relação aos filhos (art. 1579 do CC).

Com efeito, não há adequação do fato ao preceito legal exposto no art. 144, especialmente no seu
inciso III do CPC, não se permitindo fazer uma interpretação extensiva ou criar hipóteses novas de
impedimento não abarcadas estritamente pela lei, tendo em vista o seu teor objetivo.

Número do documento: 20052213175722100000060679640


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Por outro lado, ainda que se considerasse o impedimento como possibilidade de parentesco, como busca o
Banco – ao arrepio do rol taxativo –, o inciso III, do art. 144 é complementado pelos seus §§ 1º e 2º, in
verbis:

“Art. 144 (...)

§ 1º Na hipótese do inciso III, o impedimento só se verifica quando o defensor público, o advogado ou o


membro do Ministério Público já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz.

§ 2º É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento do juiz.”

No caso do §1º, mesmo que houvesse o impedimento, a Advogada não integrava o processo, sendo certo
que a primeira manifestação do BRB foi realizada em 14/04/2020, ID n.º 61142984, assinada
eletronicamente por Rafael Rey Laureto. A procuração, por sua vez, elenca como outorgado o Consultor
Jurídico do BRB o il. Advogado Davi Beltrão de Rossiter Correa (ID nº 61146452). Não há menção ao
nome da il. Advogada Hellen Falcão de Carvalho no rol dos advogados substabelecidos (ID nº
61146452).

Sem mencionar o fato de que este magistrado já havia proferido sentença de extinção em 30/04/2020,
acolhendo as razões do Ministério Público pela ocorrência da litispendência, a fulminar na origem a
demanda. Logo, na ocasião, revoguei a decisão proferida com esteio no poder geral de cautela, a qual
suspendia os efeitos do contrato de locação, objeto da lide.

No entanto, somente após proferir a decisão de ID n.º 63100914, facultando aos réus se manifestassem
sobre o pedido de retratação da sentença feito pela parte autora em sede de recurso de Apelação (§7º do
art. 485 do CPC), com fulcro no seu art. 10 (abertura de contraditório), é que a parte vem alegar
impedimento e suspeição, bem como acostar a procuração e substabelecimentos em referência.

Muito embora tal fato não tenha relevância para justificar qualquer impedimento, data vênia, a pretensão
do BRB em escolher qual processo não quer este juiz processando e julgando, não me parece compatível
com o ordenamento jurídico vigente. A prevalecer tal entendimento, o BRB escolheria o processo em
que este julgador poderia atuar ou não, bastando juntar uma procuração da d. Advogada, violando
o princípio do juiz natural.

Não é outro o entendimento firmado em sede doutrinária:

O §2° do art. 144 reputa ilícita “a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento
do juiz”. O inciso I do § 2º do art. 145 segue na mesma linha, reputando ilegítima a alegação de suspeição
quando ela houver sido provocada por quem a alega. Em ambos os casos, o legislador preocupa-se com a
boa-fé processual.

Considera-se abusivo alegar a suspeição ou o impedimento se eles forem provocados pela parte. A
“indução” da parcialidade é prática frequente no foro. Tem o propósito de burlar a garantia do juiz
natural, com a remessa dos autos ao juiz substituto. A parte que tem esse objetivo passa a praticar atos
temerários no processo, dando motivo a diversas decisões contrárias ao seu interesse. Essa série de
decisões negativas cria um clima de animosidade no processo, sendo o indício de que se precisava para a
arguição da suspeição. Não raro a parte promove uma representação administrativa contra o juiz para, em
seguida, alegar que, em razão disso, o juiz perdeu a sua parcialidade. Em relação ao impedimento, há
quem provoque uma das situações previstas no art. 144 do CPC, contratando, por exemplo, advogado que
é filho do julgador.

Número do documento: 20052213175722100000060679640


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Não se podem tolerar tais condutas. É comportamento desleal, nítido exemplo de abuso de direito
processual, que, se já não estivesse proibido por essas regras, estaria vedado pela cláusula geral de
proteção da boa-fé processual (art. 5º, CPC)[2].

Aliás, a esta é a jurisprudência do col. STJ, firmada desde à época em que estava vigente o Código
anterior, ainda que houvesse parentesco. Transcrevo:

VI. Ingresso superveniente de advogado na ação como causa de impedimento. Decidiu-se, à luz do
parágrafo único do art. 134 do CPC/1973, que “descabe o ingresso do advogado no processo depois
que os respectivos autos foram distribuídos para órgão colegiado de que faça parte magistrado com
o qual o causídico possui relação de parentesco. Caso contrário, estar-se-ia, em tese, legitimando a
criação de impedimento superveniente não aleatório de integrante que, originariamente, já
compunha o órgão competente para o julgamento da questão” (STJ, AgRg nos EDcl no RMS
25.263/AM, rel. Min. Felix Fischer, 5.ª T., j. 07.08.2008). De acordo com o CPC/2015, tal impedimento
“também se verifica no caso de mandato conferido a membro de escritório de advocacia que tenha
em seus quadros advogado que individualmente ostente a condição nele prevista, mesmo que não
intervenha diretamente no processo” (art. 144, § 3.º, do CPC/2015; cf. também art. 144, VIII, do
CPC/2015)[3].

Nesse sentido, também já decidiu o Eg. TJDFT acerca da proibição prevista no do §2º do art. 144
do CPC, vedando a criação de fato superveniente voltado a configurar impedimento, ipsis litteris:

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. INCIDENTE DE IMPEDIMENTO E DE SUSPEIÇÃO. REJEIÇÃO


LIMINAR. AGRAVO INTERNO. PARCIALIDADE NÃO EVIDENCIADA. I. Nos termos do Código
de Processo Civil, a parcialidade do juiz é evidenciada, de forma absoluta, nos casos de impedimento,
previstos no art. 144; e de forma relativa, nas hipóteses de suspeição, descritas no art. 145. II. Nos termos
do § 2º do art. 144 do CPC, a parte não pode criar fato superveniente com o fim de caracterizar
impedimento do juiz. III. A prolação de decisões contrárias aos interesses da parte, nos limites do
exercício da função jurisdicional, sem o uso de expressões efetivamente injuriosas ou que denotem
animosidade ou descaso com a defesa, não fundamentam a arguição de suspeição, pois a parcialidade do
juiz deve ficar clara e inequívoca a partir de circunstâncias ou atos efetivamente comprovados. IV. Não
havendo igualmente qualquer indício de interesse da magistrada na solução da controvérsia, não há falar
em suspeição. V. Assim, à míngua de qualquer outra argumentação hábil a ilidir os fundamentos
expendidos na decisão ora agravada, não se vislumbram razões para alterar o posicionamento. VI.
Negou-se provimento ao agravo interno. (Acórdão 1043854, 07044282220178070000, Relator: JOSÉ
DIVINO, 2ª Câmara Cível, data de julgamento: 28/8/2017, publicado no DJE: 25/9/2017. Pág.: Sem
Página Cadastrada.)

Enfim, se estou impedido nesta causa por conta da substituição do Diretor Jurídico do BRB, passando a
figurar a ex-cônjuge, divorciados há mais de 12 anos, extrai-se também tal consequência para todas as
causas envolvendo o BRB na 3ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal, o que soa absurdo, já que
estou na magistratura há mais de 24 anos e na Fazenda Pública desde que eu era juiz substituto,
somando-se pelo menos uns 10 anos julgando ações do Banco.

DA SUSPEIÇÃO

O BRB arguiu, ainda, a suspeição deste Juiz, apontando o art. 145, I e III, do CPC em amparo ao seu
direito, o qual prediz:

Número do documento: 20052213175722100000060679640


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Art. 145. Há suspeição do juiz:

I – amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados;

[...]

III - quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de
parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive;

[...]

As hipóteses de suspeição, de igual modo, estão elencadas em numerus clausus na legislação processual,
embora para estas seja possível certa elasticidade em sua aplicação, vez que há o emprego de alguns
conceitos jurídicos indeterminados, porquanto diz-se relativas. Contudo, isto não pode significar violação
às regras de competência estabelecidas na Lei, sob pena de violação ao princípio de matriz constitucional
do juiz natural já explicitado (artigo 5º, LIII, da CF). Explico.

O Código de Processo Civil, ao estabelecer as hipóteses de suspeição, pretendeu dar máxima eficácia à
regra que impõe a imparcialidade do julgador, permitindo, inclusive, que o juiz se declare suspeito por
motivo de foro íntimo, sem a necessidade de declinar as suas razões, o que, ao reverso, não pode ser
confundido com a possibilidade de a parte, a depender do seu interesse no feito, escolher o magistrado
que irá analisar o seu processo, como no caso ora em cotejo.

O primeiro argumento da suspeição, baseado no art. 145, I, do CPC, se funda no vínculo consubstanciado
na “comum criação e educação dos filhos”. Ora, o dispositivo elencado diz respeito ao juiz ser amigo
íntimo ou inimigo das partes ou seus advogados. Com efeito, não tenho amizade íntima com a ex-cônjuge,
divorciado há mais de 12 anos e tampouco sou seu inimigo. E das partes e dos demais ils. Advogados
também. Os poucos contatos com a ex-cônjuge só se perfazem muito eventualmente em relação à prole e
somente por e-mail. Não tenho contato com a advogada seja por telefone celular ou whatsapp. Destaco
que nossos filhos têm 15 e 17 anos de idade, e meu contato com eles é direto, não havendo necessidade de
manter qualquer relação de intimidade com a mãe. Inclusive moramos no mesmo bairro, o que facilita a
relação pai e filhos diretamente, haja vista o amplo acesso à minha residência.

Como se vê, não obstante, a jurisprudência colacionada pelo BRB como paradigma de suspeição se refere
a um processo penal no qual a Magistrada estaria julgando criminalmente seu ex-cônjuge. Portanto,
inaplicável, in casu.

O segundo argumento levantadopelo BRB, pela suspeição, com esteio no art. 145, III, do CPC, também é
infundado. Isso porque, ao indicar a existência de relação de credor/devedor entre este Magistrado e a
sua Diretora Jurídica (agora advogada do banco nos autos), por ser esta última responsável pela pensão
alimentícia paga aos meus filhos, não se enquadra juridicamente nas hipóteses de suspeição previstas no
CPC.

Não fosse isso, necessário esclarecer que o mencionado inciso versa sobre a condição de credora e
devedora entre as partes que compõem o processo, nada dispondo em relação ao advogado, o que
revela sua inaplicabilidade à hipótese em apreciação, vez que a il. Advogada Hellen Falcão de Carvalho
não ocupa nenhum dos polos da lide, tratando-se, em verdade, de advogada do BRB, este sim, parte nos
autos.

Ressalto, mais uma vez, quanto à alegada suspeição, evidentemente que este Magistrado não é credor ou
devedor da Advogada – que não é parte –, mas sim há relação obrigacional direta com os filhos advindos
do anterior casamento. Logo, os alimentos despendidos com os filhos não outorgam ao ex-cônjuge
relação de parentesco, amizade íntima ou inimizade, tampouco a faz ocupar a posição de credora, vez que
se destinam à digna sobrevivência dos filhos, tratando-se de direito próprio destes.

Número do documento: 20052213175722100000060679640


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Ademais, mesmo que a advogada fosse parte, em situação versando efetivamente sobre relação de
credor/devedor entre as partes e o Juiz, decidiu o Eg. TJDFT ser imprescindível a demonstração de quebra
da neutralidade jurisdicional, só assim sendo possível o acolhimento da exceção de suspeição. Confira-se:

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. INCIDENTE DE SUSPEIÇÃO. REJEIÇÃO LIMINAR. AGRAVO


INTERNO. PARCIALIDADE NÃO EVIDENCIADA. I. Nos termos do Código de Processo Civil, a
parcialidade do juiz é evidenciada, de forma absoluta, nos casos de impedimento, previstos no art. 144; e
de forma relativa, nas hipóteses de suspeição, descritas no art. 145. II. No caso vertente, é incontroverso
que a magistrada é devedora da aludida empresa, parte interessada no procedimento de origem,
mas não há indício de quebra da neutralidade jurisdicional. III. Assim, à míngua de qualquer outra
argumentação hábil a ilidir os fundamentos expendidos na decisão ora agravada, não se vislumbram
razões para alterar o posicionamento. IV. Negou-se provimento ao agravo interno. (Acórdão 1059878,
20160020491403EXS, Relator: JOSÉ DIVINO, CONSELHO ESPECIAL, data de julgamento:
14/11/2017, publicado no DJE: 20/11/2017. Pág.: 174/175)

Ainda assim, quem atua como parte é a Sociedade de Economia Mista BRB e não a Advogada
Hellen Falcão de Carvalho. Ela não é parte. Cristalinamente inaplicável o dispositivo invocado.

Pondo uma pá de cal no assunto, o legislador pátrio, tal como o fez quanto ao impedimento nos §§1º e 2º
do art. 144, repetiu a regra no §2º, inciso I, do art. 145 do CPC, ao dispor que será ilegítima a
alegação de suspeição quando houver sido provocada por quem alega.

Percebe-se, com efeito, a tentativa de se criar um fato superveniente, já que o BRB tem vários advogados
no seu corpo jurídico e não havia atuação da il. Advogada em nenhum ato do processo. Também, não
constatei, até o momento, salvo engano, nenhum processo em que esta atua como representante do BRB,
nesta Unidade Jurisdicional.

Colha-se entendimento da doutrina abalizada no tema:

A preocupação da lei com a tutela da moralidade não retira do impedimento e da suspeição, de todo
modo, o seu caráter excepcional. O juiz não deve ser tratado como parcial até que demonstre não ser este
o caso. Ao contrário, presume-se a sua imparcialidade até que o interessado comprove a parcialidade. Ao
intérprete não se permite, assim, criar hipótese nova de impedimento ou suspeição não contemplada
pela lei. (Renato Beneduzzi, Comentários ao Código de Processo Civil, RT, Direção Maronini, Vol II,
pág. 307)

Insta acentuar, insisto, a eficácia externa da decisão sobre suspeição ou impedimento, isso porque, ao
prevalecer a tese ora provocada, seria necessário, por parte deste Eg. Tribunal, indicar um juiz apenas
para julgar as causas da Terceira Vara da Fazenda Pública envolvendo o BRB, porquanto não há
suspeição ou impedimento do Juízo, mas do Juiz. Ou, pior, seria dada uma carta em branco ao BRB, a
violar o princípio do juiz natural, vez que poderia escolher em quais processos lhe seria conveniente ser
processado e julgado por este Magistrado, bastando acostar aos autos procuração da il. Advogada, o que
me parece não só irrazoável, mas incompatível com a regra legal.

Desse modo, forte nas razões de direito, não reconheço da suspeição ou do impedimento apontados,
vez que as hipóteses levantadas não encontram respaldo legal. Portanto, nos termos do art. 313, III, do
CPC, o processo deverá permanecer suspenso até posterior deliberação do Eg. Tribunal de Justiça.

Por fim, ao Cartório Judicial Único para que promova a autuação em apartado da exceção de
suspeição/impedimento (IDs n°s 63317527; 63317528), bem como da presente decisão, devendo juntar
aos autos os documentos a seguir listados:

I - Certidão de Casamento e averbação do divórcio com Hellen Falcão de Carvalho e Certidão de


Casamento com Maria Luísa Pereira dos Santos, ora anexadas.

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II - Petição de ID n.º 61022584, na qual consta o dia e a hora da distribuição da ação.

III - Manifestação Inicial do BRB (ID n° 61142984) e Procuração outorgada (ID n° 61146452).

IV - Sentença de extinção do feito por litispendência e revogação da decisão proferida com esteio no
poder geral de cautela (IDs n°s 52202912 e 62203232).

V - Decisão de ID n° 631000914, intimando os réus a se manifestaram acerca do pedido de retratação.

VI - Procuração e substabelecimentos outorgados à Advogada Hellen Falcão de Carvalho (ID n°


63317528).

Feito isso, remetam-se os autos da Exceção de Impedimento e de Suspeição ao eg. Tribunal de


Justiça, nos termos do art. 146, §1º do CPC; art. 8º, II, da Lei n° 11.697/08 c/c art. 8º, II, do
Regimento Interno deste Tribunal, com as cautelas de estilo.

Intimem-se.

Brasília - DF, 22 de maio de 2020 12:56:51.

JANSEN FIALHO DE ALMEIDA

Juiz de Direito

[1] Art. 1.571. A sociedade conjugal termina:

(...)

IV - pelo divórcio.

[2] DIDIER JR, F. Curso de Direito Processual Civil: Introdução ao Direito Processual Civil. Salvador:
Ed. Jus Podvim, 2019, p. 791.

[3] MEDINA, J. M. G. Código de Processo Civil Comentado. São Paulo: Thomson Reuters Brasil,
2020.

Número do documento: 20052213175722100000060679640


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20052213175722100000060679640
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 22/05/2020 13:17:57 Num. 63716084 - Pág. 8