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DICIONARIO
DE POLÍTICA

JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA


CLOVIS LEMA GARCIA
JOSÉ FRAGA TEIXEIRA DE CARVALHO

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T. A. QUEIROZ, EDITOR
São Paulo
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© José Pedro Ga l v~l o de So usa, Clovis Lema Garcia , José Fraga Teixeira de Ca rvalho
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Dados Internaciona is de Catalogação na Publicação ( Cf?)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Sousa, José Ped ro Galvão de, 1912-1992
Dicionário de po lítica / José Pedro Galvão de
Sousa, Clovis Lema Garcia, José Fraga Teixeira de
Carvalho. - São Paulo : TA Queiroz, 1998.
Ao elaborar este dicionário, os autores tiveram em
vista a significação de conceitos fundamentais da lingua-
ISBN 85-7182-071-6
gem política, em perspectiva histórica e filosófica. Da his-
1. Política - Dicio nários L Garcia , Clovis Le ma. tória já foi dito que é a política experimental. Quanto à
lI. Carvalho, José Fraga Teixeira de. m. Título.
filosofia, é imprescindível, pois tais conceitos estão relacio-
nados com posições doutrinárias que, por sua vez, pressu-
97-2719 CDD-320.03
põem uma concepção geral do mundo, do homem e da
sociedade CWeltanschauung, no dizer dos alemães). É o
Índices p ara catálogo sistemático:
que faz do saber político um saber arquitetônico, confor-
1. Dicio ná rios: Política 320.03 me a expressão de Aristóteles.
2. Política : Dicionários 320.03
As ideologias e o jargão da propaganda política -
difundido especialmente pelos meios de comunicação de
massa - têm dado margem a equívocos e mentiras. Em
face do confusionismo daí resultante, impõe-se um esforço
de desmitificação e esclarecimento. Eis o propósito com
que se elaborou o presente dicionário.
Para restituir à política a nobreza que levou Jean
Bodin a atribuir-lhe o galardão de "princesa das ciências",
faz-se mister compreendê-la enquanto integra o destino
humano, obedecendo às exigências superiores da ética. Só
assim a verdadeira prudência política voltará a prevalecer
sobre a política transformada em arte de passar rasteira nos
Direitos desta edição reseroados adversários e enganar o próximo com vistas à conquista do
T. A. QUEIROZ, EDITOR, LTDA. poder. Se Carl Ludwig von Haller preconizou a restaura-
Rua Joaquim Floriano, 733 - 9º ção da ciência política, cumpre cuidar de uma restaura-
04534-904 São Paulo, SP
1998 ção da linguagem política, mesmo porque ciência é uma
Impresso no Brasil linguagem bem feita.
... E este livro é uma tentativa de contribuir para que
seja alcançado semelhante objetivo.
F

Quando José Pedro Galvão de Sousa faleceu, em 31 de maio de


1992, fazia doze anos que este Dicionário vinha sendo elaborado
por seus autores. Achavam-se os trabalhos em etapa final de reda-
ção e revisão, quanto ao fundo e quanto à forma, da maior parte
dos verbetes. O desaparecimento do grande jurisfilósofo e politi-
cólogo trouxe óbvias dificuldades para que se mantivesse o ritmo
até então desenvolvido. Ajudou-nos, porém, sobremodo, no pros-
seguimento e conclusão dos trabalhos, o incentivo recebido de sua
viúva, Sra. Alexandra Chequer Galvão de Sousa, que, além do mais,
nos colocou à disposição todo o precioso acervo da biblioteca e os
apontamentos de estudo do inolvidável mestre, possibilitando, as-
sim, fosse levado a bom termo o empreendimento.

Clovis Lema Garcia


José Fraga Teixeira de Carvalho
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!

ABDICAÇÃO a proclamação da república, tivessem sido os


Ato pelo qual o soberano transfere volunta- mesmos.
riamente o poder, em caráter absoluto e defini- V. Renúncia.
tivo, a terceira pessoa, em geral o herdeiro do
trono. Abdicar é ato próprio de quem é rei. ABERTURA
Quem é aspirante ao trono, em abrindo mão Embora o termo possua significados diver-
dessa pretensão, renuncia ao direito de ser rei, sos, relativos a atos e fatos concernentes a
não se podendo dizer que abdica. Por isso que várias espécies de atividades (processuais,
um herdeiro do trono, em renunciando ao di- contábeis, financeiras, administrativas: aber-
reito de ser rei, alcança com esse ato todos os tura de inventário, abertura de livros comer-
seus próprios herdeiros que, por morte do re- ciais, abertura de crédito, abertura de sindi-
nunciante, não podem herdar o que já não exis- cância), cuida-se aqui de seu uso, em translação
te, ou seja, o direito de herdar. semântica, sob três diferentes aspectos: indi-
No Brasil, ficou famosa a abdicação, em 7 vidual, social e político.
de abril de 1831, de D. Pedro I (1798-1834). A Na vida individual, é a capacidade de abrir-
questão sucessória em Portugal, envolvendo sua se à apreciação e possível aceitação de pro-
filha D. Maria da Glória (1819-1853) e D. Miguel posições novas no campo das idéias e da ação.
(1802-1866), irmão de D. Pedro I; as divergên- Com freqüência, porém, caracteriza certo tipo
cias cada vez mais acirradas entre o Imperador de mentalidade, própria de quem se conside-
e o Legislativo a propósito de medidas adotadas ra em disponibilidade permanente e, por isso
pelo imperante sem prévia autorização parla- mesmo, aberto ao acolhimento de tudo quanto
escape a padrões ditados pelo senso comum,
mentar; a livre nomeação de ministros, como
pelo normal-racional, numa constante absor-
permitia a Constituição de 1824 (art. 101, VI),
ção de modas e modismos, cuja razão de ser
contrariando interesses político-partidários, são
reside unicamente na valorização do novo
fatos apontados como causas da abdicação. No
pelo novo.
entanto, as ocorrências da política interna não
Na vida social, consiste em estar aberto a
eram de molde a provocar o desfecho abdi- eventual adoção de esquemas inovadores
catório, pois ofereciam condições de supera- quando capazes de propiciar soluções justas
ção. Tudo indica que prevaleceu o intento do a problemas emergentes. Mais amiúde, no
Imperador de deixar o Brasil para disputar, em entanto, é o uso do termo para exprimir habi-
Portugal, em favor de sua filha, o trono ocupa- tual predisposição a acolher idéias e compor-
do por seu irmão D. Miguel, como salienta o tamentos ditos "avançados". No campo dos
historiador Helio Vianna (1908-1972). costumes, por exemplo, a abertura obedece
Outrossim, não há confundir abdicação com não raro à invocação de uma "moral nova",
afastamento do poder, o que não exclui um fundada no mote de que a verdade e o bem
possível retorno. Quando, em abril de 1931, dependem da opinião de cada um.
na Espanha, Afonso XIII (1886-1941) deixou o Não obstante o fato de, vez ou outra, o
trono - em vista do resultado das eleições termo ser empregado - na vida individual
municipais e da gravidade da situação política ou social - com o sentido de abertura para
- e partiu para o estrangeiro, pretendeu aquele propostas e iniciativas saudáveis, seu uso no
monarca que se tratava de simples afastamen- linguajar comum carrega quase sempre
to, e não de abdicação, embora os efeitos, com conotações de permissivismo. Assim, expres-
ABERTURA -2- ABSOLcmSMO ABSOLcmSMO
ABSOLcmSMO -3-

sões como "espírito aberto", "ambiente social tempos remotos, o absolutismo se manifestara Bártolo de Sassoferrato (1314-1357), na Uni- farçarem essa natureza de raposas, de possuí-
aberto" e outras análogas podem denunciar, no poder total do chefe da tribo, do sumo sa- versidade de Bolonha (a propósito do quod rem perfeitamente a arte de simular e de dissi-
muitas vezes, frouxidão de princípios ou de cerdote, do soberano carismático. No Egito, os principi placuit legis babet vigorem, o que apraz mular. E acrescenta, também, que é preciso que
costumes. faraós ostentavam poderes absolutos de índole ao príncipe tem força de lei), vindo a difundir- tenham o espírito bastante flexível para se vol-
É, porém, na vida política que o termo ga- sacral, e a partir da IV Dinastia, sob o império se também nessa época as idéias de J ohn Wyclif tar em todas as direções, conforme o exijam o
nha maior difusão, para significar, obviamente, de Quéfren, se faziam adorar em vida num (1320-1384) que sustentava (em De dominio sopro e os acidentes da fortuna; que, tanto
o oposto de "fechamento", típico dos regimes
ditatoriais ou totalitários. Sem dúvida, um sis-
culto idêntico ao tributado a Amon ou Ri, deus divino e em De dominio civili) o "direito divi- quanto possível, não se afastem do caminho
do Sol. Também na Assíria e na Babilônia o no dos reis" ou a "monarquia do direito divi- do bem mas que, se necessário, saibam entrar
tema de poder concentracionário e monolítico poder absoluto dos monarcas era uma cons- no". Lançavam-se, desta forma, as primeiras no do mal, pois "os fins justificam os meios"
afronta a reta ordenação das coisas e faz malo- tante, alcançando, por vezes, a divinização. Não bases teóricas do absolutismo monárquico dos (Cap. XVIII).
grar a realização do bem comum. E a saída, a se passou diferentemente no Império Persa, em tempos modernos: uma, de caráter legístico, Ainda no século XVI,Jean Bodin 0529-1596),
abertura apontada, em geral, para uma situa- que o monarca - "Grande Rei", "Rei dos Reis" que teve influência em Portugal e Espanha, em Les six livres de la République (1576), ao
ção tal tem sido o livre jogo dos partidos nas - era um escolhido de Deus, perante o qual, desde o século XV, e outra, de cunho teocrático, empregar pela primeira vez o termo soberania
disputas eleitorais regidas pelo sufrágio univer- por isso mesmo, e a mais ninguém, respondia que foi encampada por Lutero (1483-1546), no em seu sentido moderno, atribui-lhe caráter ab-
sal. Com essas características, a abertura é apre- por seus atos. século XVI, tendo em vista combater a prima- soluto. Mas em Bodin o poder absoluto (origi-
sentada como a única legítima, por ensejar a Entre os gregos, também prevaleceu, nos pri- zia da autoridade do Papa, cuja escolha - se- nário, indivisível, irresponsável) não é poder
participação do povo. Ocorre, porém, que essa meiros tempos de sua história, o poder de ca- gundo WycIif - deriva da vontade dos ho- arbitrário, pois o soberano deve respeitar "as
participação se restringe, a rigor, tão-só ao exer- ráter divino a que sucedera, na época clássica, mens (Colégio dos Cardeais), enquanto o poder leis naturais, a liberdade natural dos súditos e
cício do voto para a escolha de mandatários. A especialmente em Atenas, o governo da Polis do rei vem diretamente de Deus, que, sendo a propriedade de seus bens" (Livro I, Capo VIII,
partir daí se frustra a efetividade dessa partici- mediante a participação dos homens livres autor das leis da hereditariedade, sabe quem De la souveraineté), importando ainda respei-
pação, ante a impossibilidade de controle (politéia: democracia direta), pois eram escra- vai ser rei, e por isso o cumula de dons e ca- tar tanto "as leis que concernem à existência e
institucional do exercício do mandato por par- vos três quartos da população ateniense. Pas- rismas para governar. No absolutismo mo- ao estabelecimento do reino" Cid., ib.) quanto
te dos votantes. A ineficácia dessa participação sados os tempos áureos (século de PéricIes V nárquico de caráter legístico, a vontade do rei os Estados Gerais (Parlamento) e as associa-
meramente eleitoral responde por crises ins- a.C.), e a partir de Alexandre Magno (356-323 é lei (o rei quer, a lei quer); no absolutismo ções intermediárias entre o Estado e os súdi-
titucionais iterativas que acarretam um movi- a.C.), sobreveio nova quadra em que o absolu- monárquico de feição teocrática, a vontade do tos, cuja "autonomia" ficaria, porém, sujeita à
mento pendular entre a anarquia e a ditadura. tismo e a antiga liberdade dos cidadãos dispu- rei é a própria vontade de Deus (o rei qUer, livre vontade do soberano, detentor do mono-
Dimensão de abertura real manifesta-se tavam a prevalência na Polis, dominada pelo Deus quer). pólio das decisões.
quando o Estado se abre à positivação de nor- poder real freqüentemente divinizado. Não obstante as idéias que despontavam para Com Thomas Hobbes (1588-1679), o abso-
mas fundadas no direito natural, resguardan- Em Roma, Caio Júlio César (101-44 a.C.) - justificar o absolutismo, ainda se conservava a lutismo enriqueceu grandemente suas bases
do-se assim os valores inerentes à dignidade culto, sagaz, genial chefe militar - , perceben- noção de um supremo poder limitado pelas doutrinárias. Partindo do "estado de natureza"
humana e reconhecendo-se conseqüentemen- do que as instituições republicanas eram inca- leis morais e pela organicidade social. Assim, do homem, Hobbes visiona esse mesmo ho-
te a estruturação histórico-natural do povo atra- pazes de realizar a aglutinação e a unidade na Inglaterra, John Fortiscue (1394-1476), au- mem numa vida pré-social, entregue à satisfa-
vés de grupos sociais multivariados (famílias política das extensões geográficas conquista- tor do De laudibus legum Angliae, enaltece o ção desaçaimada de todos os seus apetites (jus
entidades profissionais, universidades, etc.), li~ das, converteu a República em Império unitá- estado do seu reino e as instituições do tempo, omnium in omnia, o direito de todos sobre
vremente constituídos, e, por isso mesmo, sus- rio. No sentimento religioso, muito enraizado distinguindo entre o dominium politicum et todas as coisas). Conseqüentemente, a multi-
cetíveis de, mediante o respeito de suas auto- entre o povo, foi buscar forças anímicas favo- regale e o dominium regale. O primeiro é o do plicação da espécie significará a multiplicação
nomias, garantir as liberdades concretas em face ráveis à solidificação de um consensus para im- rei a governar de acordo com leis que ele en- de "lobos" (bomo bomini lupus, o homem lobo
do poder. plantação do novo poder que, com o tempo, contra nos costumes, usos, estatutos e institui- para o homem), a produzir a guerra de todos
acabou sendo divinizado. Com Augusto (63-14 ções do reino, não promanando, pois, de sua contra todos (bel/um omnium contra omnes).
v. Liberalismo - Liberdade - Liberdade abstrata
e liberdades concretas - Participação - Plu- a.C.), estruturado o Império, a pessoa do Im- vontade. O segundo é o do rei governando só Para evitar a autodestruição, os homens devem
ralismo. perador veio a ter culto equiparado ao dos pelo próprio poder, isto é, por uma vontade renunciar aos seus "direitos naturais", à sua li-
deuses. Essa sacralidade conferia força mística incontrastável que contém em si o germe do berdade, pactuando a existência de um sobe-
ABSOLUTISMO ao poder, contribuindo para consolidar a uni- absolutismo. rano de poder ilimitado e onipotente a fim de
dade do Orbis Romanus. O culto ao César só No campo das idéias, o absolutismo en- assegurar a paz entre os indivíduos em guerra
Exercício do poder não limitado por normas controu em 11 principe (escrito em 1513/1514 constante. Esse soberano é o Leviatã. Leviatã
desapareceu quando a doutrina de Cristo con-
de ordem jurídica positiva Clegibus solutus), pre- e publicado postumamente, em 1532), de ou a matéria, a forma e o poder de um Estado
quistou Roma, especialmente a partir de
valecendo, incontrastável, a vontade do sobe- Constantino (282/288-337). Maquiavel (1469-1527), o instrumental aético eclesiástico e civil (1651) é como se denomina
rano. Diz-se geralmente com vistas às monar- de potencialização do poder, ao procIamar-se a obra do autor em que essas idéias são expos-
Na Idade Média, o poder do rei sempre este-
quias, sendo que nos regimes republicanos o ve limitado pelos poderes autônomos dos se- a "razão de Estado" como princípio fundamen- tas. Monstro bíblico, o Leviatã aparece no livro
que corresponde ao absolutismo é de ordiná- nhores feudais, das comunas ou municípios, tal de governo, ao mesmo tempo em que se de Jó: "Não há poder na terra que se lhe com-
rio a ditadura. preceitua a cisão entre a política e a moral, pare" (41.24). Na capa da primeira edição da
das corporações de ofício. A partir, porém, dos
Comumente se considera como "época do séculos XIII/XIV começaram a surgir as teorias como nas passagens em que o autor assegura obra, estampa-se a gravura do Leviatã: um gi-
absolutismo" propriamente dita o período his- do poder absoluto. Assim, ganharam prestígio que os príncipes que melhor souberam agir gante - cujo corpo é composto de um aglo-
tórico que vai dos meados do século XVII até a a~ glosas do direito romano, elaboradas espe- como raposas são os que mais prosperaram, merado de homenzinhos - a empunhar na mão
Revolução I:,rancesa (1789), No entanto, já em cla~ente por Francisco Acúrsio (1185-1263) e sob uma condição, no entanto, a de bem dis- direita uma espada (símbolo do poder tempo-
ABSOLCffJSMO
-4- ABSTENCIONISMO ABSTENCIONISMO -s- ABSTRACIONISMO

raI) .e. na esquerda o báculo (símbolo do poder 5? Com Hegel (1770-1831) atinge-se o paro- da liberdade", conforme Immanuel Kant (1724- ou menor interesse. Em muitos países, as elei-
~splntual). O Leviatã encarna o poder total, XIS~O doutrinário da absolutização do poder, 1804). É o État gendarme que, em nome do ções para os cargos executivos são mais con-
Incorporando a Igreja ao Estado que se torna a pOIS toda a realidade é a encarnação da Idéia:
Igreja do Estado. laissezfaire, laissez passer, exerce simplesmente corridas do gue as disputadas para os cargos
"o racional é real e o real é racional". A história a função de garantir o máximo de liberdade legislativos. E isso típico, por exemplo, nos Es-
. Outro tipo de absolutismo é o que se ma- é o devir da Idéia. A Idéia, o Espírito, se encarna para as atividades individuais. Esse liberalismo tados Unidos, onde, nas eleições para o Con-
nIfesta a partir dos fins do século XVII e é no Estado, que é o Messias, o Enviado, deten- gresso, mais da metade dos eleitores deixa de
absoluto, próprio de uma sociedade conside-
levado a efeito pelos chamados "dés~otas tor do poder absoluto, que se exerce sobre tudo rada mero aglomerado de indivíduos, deu ori- votar. Para evitar o abstencionismo eleitoral
esclarecidos". Nessa altura, as vertentes do e sobre todos. Embora preconizando a monar- gem ao abstencionismo. Mas a liberdade total há legislações que, além da obrigatoriedade d~
amoralismo político (Maquiavel), do centralismo
quia con~tit~cional, Hegel é vertente poderosa gerou força maior em mãos dos mais fortes, voto, estabelecem sanções para os eleitores
da soberania (Bodin), do radicalismo contra- dos totalttansmos modernos, especialmente do faltosos, impondo multa, vedando a obtenção
que passaram a oprimir os mais fracos. Surgia
tua~ista (Hobbes-Rousseau), do jusnaturalismo comunismo e do nazismo. de empréstimos junto a estabelecimentos de
a chamada "questão social" conduzindo à ex-
apnorístico (discípulos de Grócio) do racionalis- crédito oficiais, denegando financiamento para
Se é certo, no entanto, que o totalitarismo ploração do homem pelo homem e ao traba-
mo jurídico (Kant) iriam ter end~sso "esclare-
impl~ca .absolutismo, absolutismo não implica lho tido como mercadoria sujeita à lei da oferta a aquisição de casa própria através de entida-
cido" por pa.rte de déspotas europeus dispos-
t~talttansmo. Na verdade, o absolutismo, espe- e da procura. des que utilizam recursos públicos, etc. Devi-
tos a apadnnhar doutrinas e doutrinadores do às sanções, o percentual de abstenção di-
CIalmente o do Ancien Régime, não exclui a Gerado, assim, o capitalismo liberal, que faz
revolucionários (Diderot, Voltaire, D'Alembert, minui, mas cresce o número de votos nulos e
submissão da vontade do príncipe à lei moral do lucro o fim último da economia, desdobra-
Turgot) empenhados em libertar o povo das em branco, dado que muitos eleitores se limi-
e também o respeito pelas autonomias dos cor- mentos aparentemente inesperados vieram a
trevas do "obscurantismo" e alçá-lo às instân- tam a "quitar o título". Em geral, a abstenção, o
pos" intermediários (corporações, universidades ocorrer. O Estado, diante dos graves proble-
cias do Progresso sob as "luzes" da ciência e voto em branco e o nulo têm sua raiz no de-
a~ton?mas, municípios francos, parlamentos re- mas vividos pelos mais fracos, passou a tomar
da civilização, num plano naturalista, repudian- sencanto do eleitor ante o comportamento ne-
gIonaIS). Ocorre, porém, que tanto este respei- medidas tendentes a atenuar os malefícios do
do toda a concepção transcendente da vida. gligente, displicente ou simplesmente ineficaz
to q~ant~ aquela submissão ficam dependen- individualismo. E, ora gradativamente, ora
P~~a log~ar esse intento, todos os meios eram do representante nas casas legislativas. Como
valtdos. E este o sentido do "despotismo escla- ?o t~o-so da consciência do príncipe, pois abruptamente, entrou a intervir na vida sócio-
IneXIstem meios jurídicos para dar-lhes eficá- econômica. De abstencionista tornou-se inter- nos regimes de massa não existem mecanis-
recido" de Frederico 11, na Prússia (rei, de 1740 mos institucionais que possibilitem quer a arti-
cia. Luís XIV (rei, de 1643-1715), rei absoluto vencionista, chamando a si a solução direta dos
a 1786); Maria Teresa (imperatriz, de 1740 a culação entre os legítimos interesses dos re-
a quem se atribui a famosa frase L 'État c 'es~ problemas ocorrentes. Prescindia-se de uma
1789) eI? José 11 (imperador, de 1780 a 1790),
mo~, .tinha ~erfeita consciência da sua respon- ordenação natural da sociedade, mediante o presentados e a vontade dos representantes,
na Austna; Catarina 11 (imperatriz, de 1762 a quer o controle efetivo do exercício do man-
sabIltdade dIante de Deus, como se vê nas suas reconhecimento e valorização das autonomias
1796), ~a Rússia; D. José I (rei, de 1750 a 1777) dato, o eleitor tende a abster-se, comumente
- domInado pelo Marquês de Pombal-, em Me~?ri~s. E a P~litique tirée des propres paroles sociais, através dos corpos intermediários, que
de I 'Ecnture Saznte (edição póstuma de 1709), os iluministas do século XVIII consideravam cético em relação a uma representação política
Port~gal; D. Carlos 111 (rei, de 1759 a 1788) _ destituída de representatividade.
de Bossuet (I 627-1704), ilustra suficientemen- maléficos, promovendo por isso sua extinção e
domInado por seu ministro Aranda - na
te a questão. Já no tocante ao totalitarismo há submetendo a duras sanções quem ousasse V. Liberalismo - Participação - Representação po-
Espanha; Gustavo 111 (rei, de 1771 a 1792) na
Suécia. ' toda uma montagem estatal em moldes restaurá-los. Em conseqüência, o Estado, qua- lítica.
concentracionários visando a controlar e mani- dro social único, passou a avocar tantas com-
Também no século XVIII, lançavam-se as ABSTRACIONISMO
pular todos os setores da vida do homem e da petências quantas entendesse necessárias a re-
bases doutrinárias do absolutismo democrático
sociedade, a qual fica estritamente submetida solver a "questão social". Veio a expandir-se, Em política, tendência a fazer com que re-
formulado por Jean-Jacques Rousseau (1712-
aos ~ecani~mos "d~ poder político regido por desta forma, a ação estatal, com a diversifica- presentações puramente mentais prevaleçam
1778), no Do contrato social (1762), ao estabe-
um SIstema IdeologICO monolítico. Observe-se ção e a multiplicação do instrumental interven- sobre realidades concretas nas instituições, nas
lecer que a "vontade geral" é o critério supre-
mo ?a verdade (la volonté générale est toujours ademais, que o aparato do Estado sob o Ancie~ cionista, até chegar-se à implantação do dirigis- leis ou nos programas de governo. Nesse sen-
Régime, com os reis absolutistas: tem uma es- mo nas estruturas do poder, que, pelas vias tido, Joaquim Nabuco (1849-1910) refere-se à
drozte, a vont.ade geral é sempre reta). Já ago-
trutura modesta se comparado com o aparato democráticas ou ditatoriais, desembocou no "política silogística", para a qual "a base são as
ra, o absolutIsmo do César transforma-se no
do Estado moderno montado em bases demo- totalitarismo. teses e não os fatos; o material, idéias e não
absolutismo do povo: quod populo placuit legis
cráticas. Abstencionismo é termo usado também para homens; a situação, o mundo e não o país; os
habe~ vigorem, o que apraz ao povo tem força
caracterizar a recusa de participação em ato de habitantes, as gerações futuras e não as atuais"
~e .leI. A vontade do povo soberano é a fonte V. Antigo Regime - Autocracia - Caudilhismo _
natureza política, especialmente no tocante ao (Balmaceda, Companhia Editora Nacional, São
ultIma do poder e da ordem jurídica. Nessa Contrato social - Democracia - Despotismo - Di-
exercício do direito de voto. A abstenção de Paulo, 1937, p. 15). Note-se que a abstração é
perspectiva, tudo o que o povo quer é lícito tadura - Monarquia - Tirania - Totalitarismo.
votantes nos pleitos eleitorais tem sido objeto um processo mental legítimo, que nos faz che-
?es~ parecen?o assim um critério objetivo d~ de avaliação por sociólogos e analistas políti- gar às idéias universais e até permite conhecer
JustIça, que fIca substituído pelas flutuações da ABSTENCIONISMO
cos, que buscam identificar as causas do fenô- melhor e mais profundamente as realidades
vontade popular. "Sob a Revolução caem to- Sistemática neutralidade do Estado em face meno, atribuindo-o à insuficiência cultural de concretas. Donde dizer-se que abstraindo não
dos os poderes, os do rei, da Igreja, dos costu- das atividades dos indivíduos na vida social e certos segmentos sociais, ao pouco interesse se está mentindo (abstrahentium non est men-
mes provinciais, dos parlamentos das econômica. Cumprindo em termos estritos os . dos componentes de determinadas faixas etárias dacium). As figuras geométricas são abstratas,
corporações. Só resta uma autoridade: a a~sem­ frincípios do liberalismo, o Estado restringe-se (os muito velhos e os muito jovens), ao alhea- nem por isso deixando de ter grande significa-
bléia encarregada de fazer as leis. Ela detém o a t~re.fa de pa.~iciar as liberdades, "para que o mento, por vezes, de parcelas do eleitorado ção real e prática. O mesmo ocorre com os
P?der legisl~ti~o no seu absolutismo" (Georges arbItno (Wzlkur) de um possa coexistir com o conceitos de homem, bem, direito, justiça e
feminino. Tem-se verificado, também, que, em
RIpert, Le dechn du droit, LGDJ, Paris, 1949, p. arbítrio (~Vilkür) de outro, segundo a lei geral função de seu objetivo, a eleição desperta maior tantos outros. Aristóteles (384-322 a.C.) explica

"
ABSTRACIONISMO -6-
ABSTRACIONISMO ABSTRACIONISMO -7- ABSTRACIONISMO
genialmente a origem das idéias por via da abs- gem a sistemas de filosofia do direito bem ca-
tração, distinguindo-a da intuição e afastando plantadas, confrontando com o rule of law da estruturar as instituições o fizeram à luz das
racterísticos' quais sejam o normativismo de Inglaterra e dos Estados Unidos o regime ins- idéias francesas e dos modelos anglo-saxônicos,
a hipótese das idéias inatas. Mas o abstracio- Hans Kelsen 0881-1973) e o culturalismo de
nismo é um vício que altera as condições nor- taurado na França, dizia que entre os seus como foi o caso de Rui Barbosa (1849-1923)
Gustav Radbruch 0878-1949). Na oposição do concidadãos o que estava havendo não era o no seu entusiasmo pela obra dos constituciona-
mais do pensamento e faz tomar as abstrações romantismo político ao pensamento iluminista
por realidades concretas. "domínio das leis" e sim o "domínio dos clu- listas norte-americanos. Daí o permanente con-
nota-se o mesmo conflito. Os românticos ale- bes", clubes esses que não passavam de socie- flito entre as fórmulas legais e a maneira de ser
Uma revolução no mundo das idéias, atin- mães exaltavam os valores vitais e procuravam
gindo a própria estrutura da inteligência, ope- dades espalhadas pela França, especialmente e de sentir do povo, constatado pela acuidade
o concreto, repelindo os abstracionismos nos salões da aristocracia parisiense, através sociológica de um Euclides da Cunha (1866-
rou-se com o subjetivismo racionalista e difun- desencarnados da experiência humana, assim
diu-se por efeito da chamada "filosofia das dos quais se propagavam as idéias dos enciclo- 1909) e de um Oliveira Vianna (1883-1951).
devendo entender-se a escola histórica do di- pedistas e outros autores da chamada "filosofia Eis a razão pela qual se pode notar uma discre-
luzes" do século XVIII, muito bem estudada reito.
por Paul Hazard (1878-1944) em duas obras das luzes". Da mesma forma, o governo repre- pância nas transformações do direito público e
Estado de natureza e contrato social, em sentativo, instaurado sob os auspícios de Sieyes do direito privado brasileiros, este último na
capitais: La crise de la conscience européenne Rousseau, são noções destituídas de qualquer
1680-1715 (1935) e La pensée européenne au (1748-1836), longe de ser o governo do "povo linha da formação histórica nacional desde o
fundamento na realidade. Soberania, democra- soberano" pelos seus representantes, estava sen- tempo das Ordenações e enquadrado nos cos-
XVII/hne siecle, de Montaigne à Lessing (3 volu- cia e representação política, além de outras no-
mes), 1943. Essa revolução consistiu essencial- do a expressão da soberania das "sociedades tumes e na mentalidade do povo, enquanto
ções básicas do direito público, são transpor- de pensamento", cujo papel na gênese e no aquele - especialmente o direito constitucio-
mente em separar a inteligência humana do tadas para o plano das quimeras. O Estado
seu objeto natural- o ser - , enclausurando- desenvolvimento da Revolução foi cabalmente nal - tem passado por um suceder de fórmu-
torna-se uma entidade abstrata, uma arquitetu- esclarecido por Augustin Cochin (1876-1916). las legais que mal se consegue aplicar e de
a no círculo fechado de conceitos como sim- ra da inteligência aplicada à vida social, e o
ples produtos da mente de cada um, sem co- No quarto volume do seu Traité de Science instituições não suscetíveis de bom funciona-
próprio homem tende a ser uma abstração. Daí Politique(Paris, LGDJ, 1952), Georges Burdeau mento.
nexão com a realidade. Era um novo modo de o diluir-se a soberania no povo, transformado
pensar, refletindo-se nas concepções jurídicas pondera que a concepção moderna do sistema Foi sobretudo a partir da Constituição de 1891
este numa poeira de indivíduos em lugar da representativo, oriunda da Revolução France- que o abstracionismo constitucionalista ficou
e políticas, que passavam a situar-se num pla- comunidade nacional orgânica, com suas hie-
no de meras abstrações, vindo daí a "política sa, é uma construção política teoricamente per- dominando entre nós. Esmerada técnica jurídi-
rarquias, suas divisões naturais, seus grupos in- feita, mas esbarra fragorosamente na realida- ca é de se notar na primeira Constituição repu-
silogística" da crítica de Nabuco. As idéias po- termediários. O que quer dizer que cada um
líticas da "filosofia das luzes" penetraram nas de. E escreve: "A teoria da representação é uma blicana, mediante fórmulas lapidares e uma pri-
desses indivíduos, na óptica abstracionista, é coisa, o funcionamento do regime representa- morosa redação, devidas a Rui Barbosa. E se
aristocracias e chegaram a ter acolhimento fa- um ser irreal, o Cidadão abstrato e desencar-
vorável por parte dos próprios monarcas, na tivo é outra. Ora, a observação mais rápida da Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente (1804-
nado, átomo solto, fora das comunidades nas vida política interna dos Estados representati- 1878), ao analisar a Constituição do Império do
época do "despotismo esclarecido", mas foi com quais concretamente um homem vive, pensa,
a Revolução Francesa (1789) que verdadeira- vos desde fins do século XIX prova que entre a Brasil, saudava-a, no livro que escreveu para
trabalha, tem seus interesses e está ligado a teoria e o fato o divórcio se veio acentuando comentá-la, com aquelas palavras finais - Esto
mente se corporificaram. Daí por diante, insti- outros por laços de solidariedade. Uma com-
tuições pré-fabricadas pela razão eram impos- cada vez mais" (obra e volume citados, p. 244). perpetua! -, a mesma ilusão de estarem diante
pleta desagregação: a inteligência apartada do Das assembléias representativas - acrescenta de uma obra definitiva e intangível foi a dos
tas em nome do povo por minorias dirigentes, seu objeto, o homem segregado da sociedade,
segundo o padrão dos modelos revolucioná- - está ausente "o povo real, com seus mati- primeiros exegetas da Constituição de 1891 ou
a legislação desvinculada do direito histórico. zes, suas oposições, seus interesses divergen- a dos professores que, de suas cátedras, lhe
rios da França, como aconteceu nas Cortes de Tudo isto como resultado daquele duplo con-
Cá diz (1812), na Constituinte de Lisboa (1820- tes" (p. 251). Aliás, neste sentido, é muito sig- enalteciam a perfeição formal. Isto não impe-
flito entre o abstrato e o concreto e entre o nificativo o ocorrido com o próprio Sieyes, autor diu que, mal promulgada a Constituição, fosse
1822) e nas assembléias congêneres de outros espírito e a vida.
países do Velho e do Novo Mundo. Marcel De da famosa brochura Qu 'est-ce que le Tiers État?, desfraldada a bandeira do revisionismo. O pró-
A Declaração dos Direitos do Homem e do e um dos homens de maior influência na Cons- prio Rui fazia ouvir o seu verbo incandescente
Corte (1905-1994) faz ver que, naquela época, Cidadão, de 1789, que serviu de prefácio à
o ser humano foi sujeito, no concernente à vida tituinte francesa da Revolução. Sendo ele natu- para estigmatizar o federalismo desfigurado,
Constituição francesa de 1791, afirmava o prin- ral da Provence, desconhecia totalmente os simétrico, inadequado às condições reais do País
intelectual, a uma profunda mutação, caracte- cípio segundo o qual sem a garantia dos direi-
rizada por dois traços salientes: 1) o predomí- estatutos do Terceiro Estado provençal; queria e que ameaçava tornar-se instrumento de de-
tos e a separação de poderes não há constitui- dar à França uma constituição ou lei geral com sagregação. No volume publica~o no Rio de
nio do abstrato sobre o concreto; 2) a ruptura ção, propondo dessa forma o ideal do Estado
do equilíbrio entre o espírito e a vida (L 'homme desprezo pelos fatos da experiência histórica e Janeiro, em 1924, sob o título A margem da
de direito. Os revolucionários de 1789 foram pela variedade irredutível das condições do país história da República, reunindo expressivos de-
contre lui-même, Nouvelles Éditions Latines, influenciados pela experiência da Inglaterra e
Paris, pp. 251-257). Expressão típica da atitude em suas diferentes regiões. poimentos de juristas, sociólogos, educadores
pelo recente exemplo dos Estados Unidos, O Brasil e todos os países hispano-america- e homens de letras, o então jovem Pontes de
mental abstracionista é a filosofia política de elevando, porém, este exemplo e aquela expe-
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), montada nos sofreram, desde os primórdios da sua orga- Miranda (1892-1979), que se tornaria eminente
riência a um plano de sistematização abstrata nização política de Estados soberanos, as con- constitucionalista, distinguia entre a política do
sobre hipóteses gratuitas e fantasiosas, discre- semelhante ao que já fizera Montesquieu (1689-
pantes da realidade histórica e da própria ra- seqüências desse abstracionismo, vindo até nós empirismo, a do apriorismo e a da ciência, com
1755), ao elaborar a teoria da separação de com as influências recebidas pelos intelectuais estas palavras: "A primeira é feita de fato em
zão. O dissídio maniqueísta entre o espírito e a poderes inspirando-se nas instituições britâni-
vida dá em resultado a antinomia da Razão Pura e dirigentes políticos no contacto com as cor- fato, empiricamente. É a nossa política colonial
cas. Mas La Fayette (1754-1834), que participa- rentes de idéias circulantes na Europa durante e imperial. A segunda, com princípios abstra-
e da Razão Prática em Kant (1724-1804), ra das lutas em prol da independência das co-
dualismo donde procedem as escolas de os anos do iluminismo. Na sua formação dou- tos, do mais requintado racionalismo: para esta,
lônias inglesas da América e por isso mesmo trinária eram homens desenraizados do meio a sociedade pode acompanhar as construções
Marburgo e de Baden, por sua vez dando ori- con~cia bem de perto as instituições ali im- ambie~te em que viviam, e ao tratarem de aprioristas dos homens e tem de amoldar-se a
ACORDO INTERNAGONAL
-9-
ABUSO DE PODER -H- AÇÃODIREIA AÇÃO INDIRETA
infiltrações, subterfúgios de toda sorte e, q~a~­
elas. É a política de parte do Império e da No direito brasileiro, o abuso de poder, quan- ça social". Busca justificativa esse pr?c~s~o ~a to à propaganda, atuação de efeitos subhml:
República. É a retórica, é o sofisma; é a oratória do caracterizado pela ilegalidade de ato de au- alegação de que a ord~m vig~,n~e ~ vI.ole~C1,~ nares. Nas obras de Maquiavel (1469-1527) ha
racionalista e liberal. A terceira procura as leis toridade, pode ser corrigido mediante o habeas institucionalizada") configura a vlolenCla ~- 1 ,
muitas lições de ação indireta.
científicas e por intermédio delas consegue corpus ou o mandado de segurança. que enseja a ação revolucionária, ou s~Ja, .a
atuar" (p. 161). Na verdade, a vida sócio-políti- "violência nº 2", cujos expedientes operaclon~ls V. Ação direta - Fabianismo - Maquiavelismo.
V. Direito de resistência - Tiranicídio.
ca não pode ser enquadrada em leis como as (atentados, execuções, etc.) se estribam na In-
que se formulam no campo das ciências físicas AÇÃO DIRETA vocação até mesmo de uma le?í~ima defes~ ACLAMAÇÃO
contra a agressão de uma ordem Injusta. COnfi- Investidura no poder por manifestação cole-
e naturais ou no das ciências exatas. Mas é fora
de dúvida que o apriorismo ou abstracionismo
Pregada e executada por correntes extremis- gura-se, assim, uma nova moral: ~ m?ral revo- tiva, expressa através de saudações ent~~iásti­
político, a que se referia Pontes de Miranda,
tas, a ação direta usa de métodos violentos, lucionária, para a qual a Revoluçao e o ?e~ e cas e de aplausos, dispensando escruti~IO: O
pretendendo, mediante a implantação de "no- as estruturas vigentes o mal. A fim de ehmlnar mesmo vocábulo também é usado para IndICar
decorre em grande parte das modernas ideo-
logias, cujo impacto se faz sentir sobre homens
vas estruturas", alcançar a transformação do este mal, a ação revolucionária é sempre b~a. a apresentação do novo soberano ao po~o ou
de gabinete, fechados em sua biblioteca e alheios
homem e da sociedade. Greves, sabotagens, Ampara-se a ação direta no mito da r~d:nçao a representantes credenciados ~este a fim de
seqüestros, guerrilhas, são, entre outros, os ins- revolucionária, de que se espera a cnaçao do receber as saudações que manifestam o con-
à realidade, conforme o citado exemplo de Sieyes.
trumentos da ação direta. Essa práxis revoluci- homem novo, a ser produzido pela "conscien- sentimento dos governados. Foi o que ocorreu
Assim foram, no século XVIII, os enciclopedistas.
onária é preferida aos processos legais de atu- tização revolucionária". com D. Pedro I (1798-1834), em seguida à pro-
Infensos à aceitação da natureza das coisas -
ação porque dela se esperam resultados mais clamação da Independência. ,
as quais, para eles, se transmudam nas idéias e
rápidos. Sabem, porém, os "verdadeiros revo- V. Ação indireta - Agit-Prop - Agitação - Ati~is­
nelas se desvanecem - têm a mente moldada mo _ Conscientização - Revolução - Subversao. Os historiadores ainda se referem a aclama-
lucionários", que a ação direta não deve ex- ção, em 1641, de Amador Bueno - para fazê-
por um subjetivismo incompatível com o co-
cluir, sempre que possível, a simultaneidade lo Rei dos Paulistas - ocasião em que houve
nhecimento baseado na observação dos fatos e AÇÃO INDIRETA
com a indireta, pois o instrumental da legalida- manifestação popular com essa finalidade mas
na experiência histórica, sem esquemas pre- B. H. Liddel Hart (1895-1970), oficial da ati-
de democrática propicia condições de utiliza- sem o desfecho pretendido.
concebidos. Bem o contrário disto é o que cos- va na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e
ção não raro eficiente, na linha da Revolução, A questão dinástica surgida em portugal ~o~
tuma passar-se com os homens afeitos à reali- posteriormente analista. de ~s:u~tos bélicos nos
mesmo quando existe expressiva maioria não- a morte de D. Sebastião (1554-1578), em Afn-
dade das coisas, habituados a observar, induzir, mais importantes jornais bntanlcos, fez ~e.r qu:
revolucionária no âmbito parlamentar. Confor- ca na batalha de Alcácer-Quibir (1578), e o
abstrair, deduzir, generalizar, e dotados de um a ação indireta, na estratégia e na arte mlhtar, e
me recomendação do XX Congresso do Parti- c~rto reinado (1578-1580) do Cardeal D.
bom senso natural que os intelectuais desen- do Comunista da União Soviética (PCUS), em o caminho mais indicado para se vencer nas
raizados perdem quase por completo. Henrique (1512-1580), levou o Clero e o Povo
1956, para que a via legal da Revolução tenha guerras. Suas lições foram muit? bem aprovei-
à aclamação de D. António, Prior do Crato
V. Despotismo esclarecido - Enciclopedismo - êxito, é preciso promover movimentos de pres- tadas, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
(1531-1595), como rei de portugal, não se con-
Idealismo filosófico - Idealismo utópico e idea- são das "bases", com algum ingrediente de rei- notadamente pelos generais Rommel (1891-
cretizando, porém, a coroação, pelo fato de
lismo orgânico - Ideologia - Iluminismo - Libe- vindicação justa, tendente a provocar o ali- 1944) e Patton (1885-1945), expressões da
Felipe II de Espanha (1527-1598) ter feito va-
ralismo - Socialismo - Utopia. ciamento e a mobilização das massas populares máxima relevância no exército alemão e no
ler, pelas armas, seus direitos à sucessão, que
- tudo isso acompanhado de orquestração norte-americano, respectivamente. Ao contrá-
ABUSO DE PODER superavam os dos demais pretendentes, como
condicionante através dos meios de comunica- rio da ação frontal, que vai direta ao inimigo_ e
Ato de autoridade competente que ultrapas- ção - , a fim de chegar à instrumentalização visa sobrepujá-lo totalmente desde logo, ~ açao foi reconhecido pelas Cortes de Tomar.
sa os limites a ela juridicamente atribuídos (ex- revolucionária do órgão legislativo (Parlamen- indireta usa de processos táticos que nao po-
ACORDO - v. Tratado.
cesso de poder) ou contraria as finalidades as- to, Congresso). Tais movimentos, organizados nham em risco os recursos disponíveis para o
sinadas ao ato praticado (desvio de poder). e conduzidos por grupos ostensivos ou ocultos ataque e possam exercer efeitos psicológicos
no ânimo do adversário, provocando desgas- ACORDO INTERNACIONAL
No exercício das funções públicas, a autori- (células), terão em mira a escalada do poder,
dade deve praticar atos administrativos, vincu- pela via parlamentar, como aconteceu com a tes sucessivos e assim debilitando-o. Tal foi a Contrato celebrado entre Estados, com a fi-
lados ou discricionários. Quaisquer que sejam implantação do comunismo na Tcheco- tática de Fábio Máximo, o Cunctator ou Con- nalidade de criar, modificar ou extinguir direi-
os atos a praticar-se, têm sua forma e fina lida- Eslováquia (1948). Lênin (1870-1924), em sua temporizador (275-203 a.C.), na segunda g~e:­ tos, no âmbito das relações internacionais. Os
de preceituadas no ordenamento jurídico. O obra A doença infantil do "esquerdismo" no ra púnica, submetendo o general cartaglnes acordantes atuam por representantes
ultra passamento formal, quando a autoridade comunismo, previne: "Os revolucionários que Aníbal (247-183 a.C.) a uma série de escara- credenciados. No entanto, uma vez assinado, o
vai além do que suas atribuições permitiriam, não sabem combinar as formas de luta ile- muças que o desnorteavam. Aliás, o aband?no acordo só se tomará obrigatório se ratificado
ou o desvio de finalidade, quando se pratica o gais com todas (o grifo é do próprio Lênin) as dessa tática, que vinha sendo bem sucedld~, pelos órgãos competentes dos ~stad~s envol-
ato, formalmente correto, com motivações dis- formas de luta legais são revolucionários su- deu em resultado um grande desastre, humi- vidos na avença. Segundo o artigo 5- da Con-
tintas das preceituadas pelo direito, invalidam mamente maus." As circunstâncias é que dita- lhante para o exército romano, quando da ba- venção Pan-Americana de 1928, "os trat~?os
o ato praticado, tomando-o ilícito e arbitrário. rão o tipo de luta a ser adotado. A ação direta, talha travada na planície de Cannes. Do nome não são obrigatórios senão depois de ratifICa-
O abuso de poder ou de autoridade, portan- no entanto, permanecerá sempre a linha mes- de Fábio Máximo vem a denominação do mo- dos pelos Estados contratant~s". O.s acordos
to, poderá configurar-se como excesso de po- tra do processo revolucionário - que deve vimento fabiano, na Inglaterra, desde fins do poderão ser bilaterais ou mult~laterals, com ou
der, com infringência à forma estabelecida pelo muito de seus esquemas táticos e estratégicos século passado, na propagação do so~ialismo sem prazo de vigência determinado e de natu-
direito, ou desvio de finalidade, com a oblite- às páginas de Réflexions sur la violence, de e em meio à confrontação dos partidos. O reza vária quanto aos assuntos neles versados.
ração ideológica do ato praticado, tal como exi- Georges Sorel (1847-1922) - porque conside- fabianismo tornou-se método bem característi- V. Concordata - Convenção - Tratado.
gido pelo direito. rado mais eficaz para levar a efeito a "mudan- co da ação indireta na política, por meio de

"
ADMINISTRAÇÃO PÚBliCA -10- AGm4ÇÃO AGITAÇÃO -11- AGITAÇÃO

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA dem e dos valores que a sustentam, com vistas discórdias, tumultos, convulsões, tudo quase origens terem sido desveladas por Augustin
Complexo de órgãos do Estado, que exer- à pretendida dominação, à implantação de sis- sempre conduzido por agentes devidamente Cochin (1876-1916) em La Révolution et la libre
cem funções destinadas a executar as decisões temas ideológicos ou à mera consecução de industriados. As agitações - tanto as de rua pensée, Les sociétés de pensée et la démocratie
concernentes à prestação de serviços de inte- fins escusos. Os "agentes provocadores" atuam quanto as de assembléias, especialmente nos modernee La Révolution en Bretagne. Em 1789,
resse geral. no todo social e nos mais variados setores, por tempos modernos - configuram comumente quando a agitação verbal de caráter político-
Adstritos à responsabilidade legal e técnica, vezes em sincronia: nos sindicatos e nas uni- "desordens organizadas", que obedecem a co- ideológico cumpria meio século, chegava-se à
os atos administrativos manifestam-se através versidades, nas entidades de classe e nas socie- mandos aparelhados. agitação revolucionária propriamente dita. Fe-
de uma organização funcional hierarquizada. dades culturais, nos grupos artísticos e nas as- Já ao tempo de Cromwell (1599-1658), de- nômenos como o "grande medo" (la grande
A administração pública atua sob várias for- sociações religiosas, nos órgãos públicos e nas nominavam-se "agitadores" os puritanos con- peur) - que "no mesmo dia e na mesma hora"
mas: a) administração centralizada ou direta, organizações privadas. Ocorre, até mesmo, que, chavados com elementos do exército inglês que se alastrou misteriosamente pela França intei-
em que o poder público dirige e controla a não raro, esses núcleos acabam, eles próprios, reclamavam reformas políticas radicais. Mas é ra, numa época ainda secularmente distante dos
prestação de serviços por seus próprios órgãos; convertidos em "agentes provocadores" quan- a partir da Revolução Francesa (1789) que a passos mais incipientes da moderna tecnologia
b) administração descentralizada ou indireta, do manipulados por oligarquias ativistas, que agitação assume caráter típico e bem definido. de comunicações - banham-se, hoje, de luz
em que o poder público institui, por lei, uma neles se instalam, servindo-se das vias regula- Dado que a agitação exterior freqüentemente é meridiana no quadro dos acontecimentos de
entidade, que, embora integrada no aparelha- mentares formais e explorando-lhes de modo mero prolongamento da desordem dos espíri- então. Esse "grande medo" (medo dos magotes
mento do Estado, é dotada de regime autôno- especial a projeção e o prestígio para mais facil- tos, e estes, desde a segunda década do século de salteadores que, dizia-se, estavam agindo
mo, para o exercício de certas atividades e a mente ilaquear a boa fé geral, e assim conferir XVIII, vinham sendo trabalhados, na França, no país todo), de um lado encolhia os espíritos,
prestação de determinada categoria de servi- visos de seriedade e validade à agitação no pela subversão ideológica que punha abaixo tolhendo as resistências à marcha da Revolu-
ços. É o caso das autarquias. Ocorre ainda a âmbito da sociedade global. Incluem-se, aliás, os princípios mais sagrados, não foi difícil, à ção, e, de outro, estimulava a organização de
descentralização quando o poder público de- na estratégia dos "agentes provocadores", es- altura de 1789, levar a conturbação à rua. A bandos de aventureiros para a prática de toda
lega a execução de determinados serviços. É o quemas de execução multiforme, suscetíveis de prolongada estiagem dos anos 70 do século sorte de tropelias. A agitação, desta forma, com-
que acontece com as entidades paraestatais produzir o dessoramento dos costumes e a cor- XVIII, que trouxe grandes dificuldades ao ho- punha a cena para o triunfo da Revolução, que
(sociedades de economia mista, fundações) e rosão social: drogando-se as mentes, corrom- mem do campo, a carência de matéria-prima não pretendia mera mudança de regime, mas
com as empresas concessionárias de serviços pendo-se as consciências, desfi brando-se os (em especial o algodão, que a guerra da inde- visava especialmente à destruição de valores
públicos. caracteres, anestesiando-se as vontades, amor- pendência dos Estados Unidos impedia de im- transcendentes e de tudo quanto tivesse funda-
Distingue-se a descentralização .da descon- tecendo-se ou desmoralizando-se as iniciativas portar para as fábricas de tecidos) a inquietar a mento na ordem natural das coisas, para, em
centração, pois que esta se faz dentro da pró- sadias, tudo isso para levar ao descrédito os burguesia urbana, enriquecida na indústria e seguida, implantar em seu lugar os contravalores
pria entidade, objetivando maior eficiência valores permanentes da vida humana e fazê- no comércio, e agora descontente com a retração de uma ordem nova, criada ex nihilopela von-
operacional. los derruir. Presentemente, chega-se a esses re- dos lucros, o deficit público cada vez maior, tade do homem.
A descentralização administrativa pode veri- sultados com maior facilidade e eficácia instru- tudo isso, de per si, não oferecia condições Na atualidade, a agitação alcança maior efi-
ficar-se na própria organização do Estado. Na mentalizando-se os meios de comunicação, os bastantes para provocar a derrubada das insti- cácia com os meios de comunicação utilizados
estrutura do EstadO Federal, a descentralização quais, nas mãos ardilosas dos "agentes provo- tuições, mas levava água para o moinho das com requintada habilidade. Mesmo porque agi-
territorial envolve a repartição de competên- cadores", vêm a desenvolver, aberta ou sub- idéias revolucionárias que há muito vinham agi- tação e propaganda se conjuminam necessaria-
cias relativas a atividades e serviços públicos repticiamente, extenso processo de desagrega- tando os espíritos ("A Revolução está feita nos
ção social, que ganha aceleração por força das mente para lograr a manipulação revolucioná-
afetos exclusivamente ou à União, ou aos Esta- espíritos", proclamava Roland (1734-1793), ria de grandes massas. Feita antes dos avanços
dos-membros, ou aos Municípios. Há, porém, transmissões instantâneas e massivas, monta- ministro de Luís XVI, rei de França de 1774 a
das com os requintes de induzimento da pro- da tecnologia de comunicação, cai presente-
Estados unitários em que a descentralização 1793) e se difundiam extensamente em publi- mente por terra a afirmativa de Lênin (1870-
administrativa tem, às vezes, maior expressão paganda moderna, mediante a deformação da cações de toda ordem, desde a emproada e
realidade, a desinformação, a gênese de es- 1924) de que "o propagandista trabalha com a
do que em algumas federações, dado que, ne- ardilosa Encyclopédie até panfletos de baixa a palavra impressa; o agitador trabalha com a
les, regiões, províncias ou municípios detêm tímulos e incitações capazes de aguilhoar os extração. Respondiam em máxima parte por
instintos e acirrar paixões, desencadeando e palavra viva". Propaganda e agitação em sim-
amplas competências, como é o caso da essa agitação ideológica as sociétés de pensée, biose eficaz estão na raiz dos movimentos e
Espanha e da Itália. Por isso, não há que esta- alastrando comportamentos anti-sociais, con- os ativíssimos "clubes" (Salon desArts, Assemblée
ducentes à convulsão e à desordem. Arquiteto regimes revolucionários modernos. A implan-
belecer vinculação automática entre Federação Militaire, Club des Colons, Club de Valois, Societé tação dos Estados totalitários, em nosso tempo,
e descentralização. Tanto que a ex-URSS, orga- da discórdia, o "agente provocador" é hábil e Olympique, etc.) que integravam ampla e efi-
dúplice na forma de agir. Sabe escolher o sempre contou, entre outras condicionantes, com
nizada sob a forma federativa de Estado, teve ciente rede de sociedades secretas aplicadas ao
momento próprio de açular com a voz untuosa duas prioritárias: a propaganda de efeito hip-
sempre uma administração ultracentralizada. fomento da Revolução. Essa organização sub-
e aliciante da serpente bíblica, que anuncia e nótico e a agitação de fundo ideológico,
v. Autarquia - Centralização - Descentralização terrânea se irradiava por todo o território fran- incrementada com instrumental específico: gre-
promete a efetivação da utopia (eritis sicut dii, cês e se articulava até mesmo com figuras ínti-
- Estado Federal- Estado Unitário. sereis como deuses), ou com o grito luciferino ves, boicotes, etc. Goebbels (1897-1945), o mago
mas do poder real, em mãos de um Luís XVI da propaganda nazista, e Lênin, o estrategista
AGENTE PROVOCADOR de revolta e ódio (non serviam, não servirei). que, junto de si, já não contava com quase nin-
V. Agitação - Agit-Prop - Ativismo.
da agitação comunista, são figuras representa-
Quem instiga ou fomenta a animadversão, guém de confiança e nem mesmo reunia con- tivas de manipulação desses componentes dos
mediante palavras e atos, buscando fazer dições de decidir. Explica-se assim a simultanei-
AGITAÇÃO totalitarismos modernos.
eclodir, num agrupamento ou no meio social dade das agitações e ações revolucionárias,
em geral, dissenções e antagonismos propícios Perturbação social e/ou política, em geral ori- detonadas e alimentadas a partir das sombras, e V. Agente provocador -Agit-Prop - Ativismo - Mi-
ao comprometimento ou à destruição da or- gi~ria de incitações verbais, que desencadeiam aparentemente incompreensíveis antes de suas diacracia - Propaganda política - Revolução.
AGII-PROP -12- AGREGADO AGREGADO -13- ALIANÇA

AGIT-PROP (1732-1799), quando Basílio, personagem hipó- tente no simples agregado. Distingue-se tam- Naqueles países que adotam o sistema parla-
crita, diz: Calomniez, calomniez, il en restera bém das categorias sociais, qualificadas por mentarista de governo, recorre-se a esse expe-
Sigla por que era conhecida a secção dos alguns de "classes lógicas". Assim, o público diente quando nenhum dos partidos, isolada-
partidos comunistas de obediência soviética toujours quelque chose, dito que alguns têm
atribuído indevidamente a Voltaire (1694-1778). que comparece a uma competição esportiva mente, tem maioria absoluta no Parlamento
dedicada à agitação ·e à propaganda (Otadel forma um agregado; as equipes que a dispu- para formar o Gabinete apenas com seus mem-
Aguitatsi i Propagandi). Para os marxistas, a V. Agente provocador - Agitação - Ativismo - Pro- tam são grupos, geralmente organizados em bros e assim garantir o apoio necessário à ins-
propaganda consiste na explicação do regime paganda política. clubes ou seleções; e os que se dedicam, por talação e ao exercício do governo. Neste caso,
político adverso, a partir de uma óptica favorá- amadorismo ou por profissão, a determinado somente a aliança partidária tomará possível a
vel à ideologia comunista, e a agitação é o apelo AGNOSTICISMO maioria indispensável à formação do governo,
esporte, pertencem a uma categoria. As cate-
dirigido a determinados grupos com a finalida- Termo procedente do grego gnosis (conhe- gorias sociais constituem conjunto de indiví- cuja duração, em geral, é precária, devido às
de de fazê-los partícipes, conscientemente ou cimento), precedido do prefixo de negação a, duos de qualidades comuns ou que exercem divergências que vêm a surgir entre os parti-
não, do revolucionarismo marxista. Há quem empregado pela primeira vez pelo naturalista atividades e funções pelas quais se aproximam, dos coligados, em razão de conflitos de inte-
considere que a propaganda visa a alvo indivi- britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895) cabendo ser classificados em grupos e também resses ou de orientações político-programáticas
dualizado, distinguindo-se da agitação, que se para significar "não conhecimento". Depois subgrupos. Exemplos dos mais variados pode- ou político-ideológicas. Daí o rompimento da
caracterizaria por escopo mais amplo. De ou- dele, Leslie Stephen (1832-1904), influenciado riam ser trazidos para ilustrar o conceito: cate- aliança, gerando instabilidade governamental
tro ângulo, a propaganda tem, sobretudo, fina- pelo utilitarismo e pelo evolucionismo da filo- gorias étnicas, categorias econômicas (com vá- crônica. São inúmeros os exemplos a respeito,
lidades teóricas imediatas, embora objetivando sofia inglesa do seu tempo, escreveu uma apo- rias subdivisões, compreendendo as categorias podendo ser lembrados os casos de Portugal,
resultados práticos mediatos, ao passo que a logia do agnóstico (AnAgnostic'sApology), cuja profissionais), categorias hierárquicas, catego- que durante os 15 primeiros anos da república
agitação tem um sentido mobilizador para a publicação, antes de formar volume à parte, rias militares, categorias esportivas, categorias (1910-1925) teve 46 gabinetes; da França, que
ação. A propaganda é ideológica quando pre- saiu na revista Fortnightly , em 1876. Para o de artistas (com as mais diversas modalidades: de 1946 a 1958 teve 24 gabinetes; da Itália,
ga o conteúdo genérico do marxismo, sendo agnosticismo, o conhecimento só é válido pintores, ~scultores, arquitetos, músicos, ato- que de 1946 a 1995 teve mais de 50 gabinetes.
política quando tem em vista objetivos concre- quando restrito aos fatos da realidade e às ci- res, etc.). A categoria, assim entendida, distin- No tocante às relações internacionais, a alian-
tos, para os quais os comunistas busquem alia- ências experimentais, sendo impossível à inte- guindo-a da classe, no sentido estrito desta ça é o compromisso que assumem dois ou mais
dos de ocasião. Para a tarefa de atingir seus ligência humana alcançar o supra-sensível e o palavra, dão alguns a denominação de "classe Estados, mediante a fixação de condições para
objetivos revolucionários, os comunistas sem- transcendente. Excedendo tais limites acaba lógica". Clero, nobreza e povo - os estamentos a realização de fins de interesse comum, quanto
pre se aplicaram em adestrar técnicos em pro- caindo em fantasias e quimeras; donde' a rejei- da sociedade medieval - eram categorias so- à assistência recíproca de natureza política,
paganda e agitação, tendo-os como instrumen- ção da metafísica e da teologia. ciais, que não correspondem exatamente ao que econômica, militar. As alianças podem ser de-
tos de alta importância, utilizados peJo partido Ao que pondera Michele Federico Sciacca se entende hoje por classe, conceito este que fensivas, ofensivas, defensivo-ofensivas, eco-
para a conquista do poder. E assim vinha a (1908-1975) que, se a física e as ciências natu- passou a adquirir uma conotação sobretudo nômico-assistenciais, e têm tido larga utiliza-
ocorrer, quer infiltrando técnicos do Agit-Prop rais têm obviamente por objeto os fenômenos, econômica, e muito menos corresponde à ma- ção ao longo da história. Mesmo depois do
nos meios de comunicação, nos meios operá- partir daí para dizer que toda outra ciência, neira marxista de encarar as classes como con- aparecimento de organismos internacionais-
rios, sindicais, estudantis, etc., quer adotando inclusive a filosofia, deva reduzir-se a esse juntos em oposição dialética e em perpétua luta. como a Sociedade das Nações e a Organiza-
o sistema da desinformação orquestrada. Na modelo, não está demonstrado e é uma afir- Massa e povo diferenciam-se precisamente ção das Nações Unidas, criadas para solucio-
execução dessa tarefa, os comunistas sempre mação arbitrária (Enciclopedia Filosofica, Cen- pelo caráter orgânico deste (multiplicidade de nar por meios pacíficos as questões entre Es-
demonstraram extrema habilidade, alcançando grupos sociais) e por ser a massa simples agre- tados - subsistem as alianças bilaterais e
tro de Gallarate, v. "Agnosticismo").
grande vantagem na arte de convencer e mo- gado informe (multidão atomizada de indiví- multilaterais, especialmente objetivando a se-
O agnosticismo acompanha a secularização
bilizar. George Orwell, pseudônimo de Eric duos). Aplicando os mesmos conceitos, impor- gurança, o equilíbrio de poder ou a assistên-
das sociedades ocidentais operada desde a Re-
Blair (1903-1950), famoso autor inglês de Ani- ta não confundir os agregados animais com uma cia econômica no âmbito regional ou mundi-
volução Francesa (1789). Estudando as con-
mal Farm e Nineteen-Eighty-Four (ambas formação propriamente social. Movidos pelo al. Entre outras, destacam-se as seguintes
dições sociais e políticas do alto capitalismo
traduzidas no Brasil sob os títulos de A revolu- alianças na história dos países: a Santa Aliança
(Hochkapitalismus) , Werner Sombart (1863- instinto e operando de forma necessária, os
ção dos bichos e 1984), mostra a função da (1815), reunindo a Áustria, a Prússia e a Rússia;
1941) aponta dois traços dominantes no Estado animais gregários não colaboram voluntaria-
propaganda e da agitação no preparo da revo- a Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, Argenti-
moderno: 1) Estado naturalista-secularizado; 2) mente entre si e não têm consciência do fim a
lução comunista e na conservação do statu quo na e Uruguai na Guerra do Paraguai (1865-
Estado individualista -atomístico-nominalista. que são conduzidos pelo determinismo da natu-
quando de sua implantação, e também ao falar 1870); a Aliança para o Progresso (1961), pro-
Naturalismo e secularização têm por pressu- reza, razão pela qual é inadequada a expres-
das reedições expurgadas dos livros e das re- movida pelo presidente Kennedy, para
posto filosófico o agnosticismo. Daí resultam são "sociedades de animais", a não ser quan-
vistas, onde não se encontram personagens e implementação de recursos aos países hispano-
o laicismo e a neutralidade ética do Estado. do empregada por analogia metafórica.
fatos históricos conhecidos de muitos, preten- americanos. Posteriormente, a Organização do
dendo-se, assim, que com a propagação de V. Laicismo - Naturalismo - Secularização. V. Classes sociais - Grupos intermediários - Mas- Tratado do Atlântico Norte (1951) tornou-se
mentiras, insistentemente repetidas, elas aca- sa - Povo - Sociedade. uma reformulação do Tratado do Atlântico
AGREGADO Norte (1949), que - agrupando de início paí-
bem tornando-se "verdades". A missão funda- ALIANÇA
mental dos comunistas integrantes do Agit-Prop Pluralidade de indivíduos reunidos por apro- ses da Europa Ocidental, comprometidos num
sempre consistiu em explorar diuturnamente ximação física e sem relações conscientes de No âmbito interno, coligação de partidos vi- pacto de ajuda mútua para a eventualidade de
as falhas e contradições de fato existentes, e uns com outros. Difere, pois, de um grupo so- sando a somar votos para a eleição de candi- agressão procedente dos países do Leste eu-
propagar, como existentes, aquelas que não cial orgânico, porque neste os membros que o datos comuns. Além dessa aliança eleitoral, ou ropeu - se viu ampliado com adesões de fora
existiam, em tudo lembrando a célebre passa- constituem colaboram para um fim comum e a independentemente dela, outras poderão ocor- do mundo europeu, devido à planetarização
gem do Barbeiro de Sevilha de Beaumarchais vida associativa tem uma estabilidade inexis- rer nos âmbitos parlamentar e governamental. dos conflitos armados .
...
ALIBNAÇÃO -14-
AMERICANISMO -15- AMER1CAN WAY OF UFE

V. Acordo internacional - Pacto social - Tratado. pectativa da felicidade eterna como lenitivo para liberdade em detrimento da autoridade pon-
AMERICANISMO
as injustiças terrenas, donde a expressão "a re- tifícia e do magistério da Igreja, substituindo-
ALIANÇA INTERNACIONAL - v. Aliança. ligião é o ópio do povo"), a política (o poder, Termo de diversas conotações. Pode significar
o movimento de confraternização e entendi- se este pela inspiração do Espírito Santo rece-
mero instrumento de domínio das classes infe- bida diretamente pelos fiéis; 3) apoteose das
ALIANÇA PARTIDÁRIA - v. Aliança. riores) e a social (as classes são marginalizadas mento entre os povos do continente america-
no; ou dizer respeito aos estudos arqueológicos, virtudes naturais da vida ativa, sem apreço à
por efeito do domínio das mais fortes). Tal é a graça divina e com desprezo pela vida con-
ALIENAÇÃO situação da sociedade capitalista, na qual se etnográficos e históricos das civilizações des-
ses mesmos povos, incluindo-se as culturas pré- templativa e por virtudes como a humildade, a
Compreendendo um sentido jurídico (trans- configura a oposição dialética entre senhor e renúncia e a obediência, consideradas incom-
ferência de direitos) e empregado na medicina escravo. A única maneira de fazer desaparecer colombianas; ou ainda a estudos lingüísticos
e literários. Além disso, tem um sentido estri- patíveis com os tempos de hoje.
(enfermidade mental), o termo também se usa a alienação econômica consiste em extinguir a
em linguagem filosófica e na das ciências so- tamente político e também um sentido religio- V. Hispano-americanismo - Modernismo - Pan-
propriedade privada, pois assim tudo vem a
ciais. As cláusulas do "contrato social", na con- so, que nos interessam de modo especial. americanismo - Progressismo.
ser de todos, desaparecendo a~ classes domi-
cepção de Rousseau (1712-1778), reduzem-se nantes e as classes dominadas. E o ideal comu- Grande tem sido a influência dos Estados
Unidos sobre todo o continente, do rio Grande AMERICAN W A Y OF LIFE
a uma só: "a alienação total de cada associado nista da sociedade sem classes, suprimindo-se
com todos os seus direitos a toda a comunida- os "fetiches" do capital e da propriedade, que para baixo. Escudando-se na doutrina Monroe, Estilo de vida generalizado nos Estados Uni-
de" (Du contrat social, I, VI). Hegel (1770- o governo daquele país sentiu-se investido de dos da América, que se manifesta por atitudes
esmagam o humano. Entretanto, no regime
1831) aprofundou o conceito, na Fenomeno- uma espécie de missão protetora em relação e modos de falar, a que vai dando ampla difu-
soviético - o primeiro a aplicar os princípios
logia do Espírito, e, antes disso, nos escritos aos demais povos, cuja independência os cons- são, no mundo todo, a propaganda, especial-
do marxismo - , o que se viu, com a transfe-
juvenis sobre a alienação humana (Verausse- tituía em novos Estados soberanos. Na presi- mente pelos meios de comunicação de massa.
rência dos bens de produção para a coletivida-
rung, Entfremduni). A partir de Marx (1818- dência de James Monroe (1758-1831), prolon- Aí se refletem o capitalismo e o consumismo
de gerida pelo Estado, foi a formação de um
1883), vários enfoques tem recebido o tema da gada por sua reeleição, foi formulada, em da civilização norte-americana. A Estátua da
Estado totalitário, realizando o que estava pre- mensagem anual ao Congresso (2 de dezem-
alienação, quer sob o prisma da economia, quer Liberdade é o símbolo dessa civilização, e po-
nunciado no Contrato social de Rousseau, me- bro de 1823), aquela doutrina, cuja elaboração
sob o da antropologia. Às interpretações do liticamente o American way of life identifica-se
diante a total alienação do indivíduo à coleti- havia sido inspirada pelo secretário de Estado com a liberdade e a democracia, revestidas de
marxismo-Ieninismo dos primeiros tempos, su- vidade. Tudo veio a pertencer ao Estado, e a
cederam-se as dos revisionistas do marxismo John Quincy Adams (1767-1848) e que conti- um cunho messiânico, que remonta aos Pilgrim
liberdade pessoal do homem acabou alienada nha um programa de política exterior. Suas ra- Fathers (Pais Peregrinos), quando, fugindo à
na Polônia, na Hungria, na Tcheco-Eslováquia, a esse Patrão único e exclusivo, que, por uma
na Iugoslávia. Com a problemática .da mesma zões imediatas foram as tentativas da Rússia, intolerância religiosa da Inglaterra e da velha
nova classe (altos funcionários, dirigentes do então senhora do Alasca, de interditar a nave- Europa, vieram eles construir uma Nova Jeru-
questão preocuparam-se o belga Henri de Man partido, técnicos e chefes militares), exerce
(1885-1953), o italiano Antonio Gramsci (1891- gação nas costas do Noroeste americano, e a salém em um Mundo Novo destinado a um
domínio absoluto. Aliás, a Enciclopédia Filosó- ameaça de intervenção das potências da Santa Homem Novo. A democracia assume desde
1937) e os franceses J.-P. Sartre (1905-1980) e fica, publicação oficial da Rússia soviética
Merleau-Ponty (1908-1961), entre tantos outros. Aliança para sufocar os movimentos de inde- então proporções maiores que a de um regime
(Filosofskaja Enciklopedija) , no volume IV pendência das antigas colônias espanholas. Com político. Adquire um sentido ideológico e mes-
Ao versarem o assunto, alguns têm conjugado (1967), reconhece que também a sociedade o correr do tempo, logo se verificou que a fór- mo religioso. É uma religião secularizada, que
marxismo e freudismo, tendo em vista a socialista contém "diferentes formas de aliena- mula de Monroe - "a América para os ameri- tem seus dogmas e sua Arca Santa. Nesta se
desalienação do instinto sexual. Perspectiva ção (teoria e prática do culto à personalidade, canos" - na verdade escondia a intenção real acham guardadas a Declaração da Independên-
muito diferente, à luz de um existencialismo resíduos burocráticos e religiosos, etc.)". Não do imperialismo ianque: "a América para os cia a Carta dos Direitos e a Constituição. O
cristão, é a de Gabriel Marcel (1889-1973), em
Être et Avoir. A idéia marxista de alienação
foram, pois, apenas os dissidentes soviéticos norte-americanos". Foi o que demonstraram, pr~sidente Woodrow Wilson (1856-1924) foi o
que apontaram na ex-URSS e noutros países entre outros, o grande escritor brasileiro Eduar- oráculo dessa ideologia perante a Europa, ao
penetrou nos estudos teológicos, entre os pro- comunistas fenômenos de alienação. O do Prado (1860-1901) e o renomado historiador término da Primeira Guerra Mundial (1914-
testantes e entre os chamados católicos pro- proselitismo marxista veio a exercer-se pelo mexicano Carlos Pereyra, escrevendo A ilusão 1918), nela se inspirando os seus 14 Pontos
gressistas, fornecendo subsídios à "teologia da mundo com forte poder alienante, manifesta- americana e El mito de Monroe, respectiva- para a paz mundial e para a reorganização eu-
libertação" amplamente difundida nos países do, por exemplo, pelo terrorismo cultural nas mente. O mesmo termo "americanismo" foi em- ropéia. Alguns anos passados, a palavra oracu-
hispano-americanos, inclusive no Brasil. universidades e outros meios intelectuais, e pela pregado por Leão XIII (Papa, de 1878 a 1903) lar seria a do presidente Franklin Delano
O que Marx escreveu sobre alienação acha- atuação de efeitos subliminares nos meios de na carta Testem benevolentiae, dirigida ao car- Roosevelt (1882-1945) em face da Segunda
se esparso na sua obra, tendo os trabalhos da
comunicação de massa. Na medida em que do- deal Gibbons (1834-1931), onde foram expos- Guerra Mundial (1939-1945), em seguida à qual
primeira fase, só publicados muitos anos de-
minou sutilmente muitas inteligências, criando tas e reprovadas certas idéias do sistema assim o domínio das esquerdas no mundo, com sua
pois de sua morte, contribuído para melhor denominado e que reapareceram com mais vi-
para si mesma um clima de receptividade, a hostilidade ao capitalismo americano, não im-
esclarecimento dessa teoria. A seu ver, o ho- gor no modernismo, condenado por São Pio X
ideologia marxista faz jus à expressão de pediu que o American way of life continuasse
mem, nas condições em que tem vivido, não (Papa, de 1903 a 1914), e no progressismo que
Raymond Aron (1905-1983), qualificando-a de a ter livre curso, facilitado pela ajuda econômi-
pode dispor livremente de sua pessoa, da na- se lhe seguiu. Leão XIII quis advertir os católi- ca dos Estados Unidos aos países da Europa
opium des intellectuels.
tureza' da cultura, da arte, dos prazeres, em cos norte-americanos em face de tendências em fase de reconstrução (Plano Marshall). De-
virtude da própria estrutura social, que o torna, V. Comunismo - Conscientização - Contrato so- manifestadas entre eles, que difundiam, além pois da queda do muro de Berlim (1989), com
assim, um alienado de si mesmo. Da alienação cial- Ideologia - Liberdade - Marxismo - Teolo- de outros, os seguintes erros: 1) acomodação o declínio do marxismo e o desmoronamento
econômica, resultante da transferência do fruto gia da Libertação -Totalitarismo. da Igreja à civilização atual levada ao extremo do mundo soviético (1991), até mesmo os '
do trabalho do operário para o patrão, derivam de afetar pontos fundamentais da doutrina ca- países do Leste europeu se abriram à influên-
as demais alienações: a religiosa (com a ex- ALZAMIENTO - v. Direito de resistência.
tólica, para atrair os dissidentes; 2) exagerada cia americana.
"
AMliRICAN JJI4YOE DEE -16- AMliRICAN JJI4YOEDEE AMBRICAN JJI4YOE DEE -17- AMIGO-INIMIGO

Esse estilo de vida, embora fundamentalmen- escritas, cuja perdurabilidade contrasta com as Observa Thomas Molnar que, mais do que Carl Schmitt ter-se pronunciado contra aspec-
te individualista, se encaminha para o coleti- que têm sido adotadas quer nos demais países pelos produtos e moda, os Estados Unidos têm tos fundamentais do regime hitlerista como o
vismo, como, com grande senso de antecipa- do continente, quer no Velho Mundo. O ideário exportado sua mentalidade e sua psicologia. totalitarismo e o racismo materialista. Quanto à
ção histórica, anunciou Alexis de Tocqueville dos Founding Fathers (Pais Fundadores) - Além das modas, padrões de conduta de pro- referida distinção "amigo-inimigo", desde logo
(1805-1859), quando deu a conhecer aos euro- dotados de sabedoria prática e senso político cedência americana são aceitos pelo grande se nota que a ênfase é dada ao "inimigo", assu-
peus do seu tempo as instituições e os costu- - forneceu o modelo até hoje seguido. O bom público e freqüentemente adotados mesmo por mindo a política um cunho marcado pela hos-
mes dos Estados Unidos, no famoso livro De la êxito alcançado teve a favorecê-lo condições adversários ideológicos do capitalismo ianque. tilidade entre os que dela participam. A idéia
démocratie en Amérique. Concebe-se a socie- históricas propícias: as antigas colônias, uma Este foi o caso dos estudantes contestatários de guerra acha-se, assim, implícita na política,
dade ao modo de uma grande empresa, em vez independentes, reuniram-se a princípio de Nanterre e da Sorbonne, em 1968, imitan- e a guerra, mais do que a "continuação da po-
que tudo deve ser estandardizado. O impor- numa Confederação e logo organizaram o Es- do os de Berkeley, da Columbia University e lítica por outros meios" - segundo a famosa
tante para cada um é saber como vencer na tado federal, sendo respeitadas as particulari- do Kent State College, em seus movimentos fórmula de Clausewitz (1780-1831) - , surge
vida, o que equivale a ser bem sucedido nos dades locais das unidades componentes, às insurrecionais. Acontece que "o American way como desenvolvimento lógico da política, sua
negócios, e as mesmas regras são dadas para quais era reconhecida ampla autonomia; e, além of li/e não está ligado a uma classe ou catego- culminação. Aliás, o próprio Schmitt reconhe-
todos porque devem servir para qualquer um. disso, foram mantidas instituições jurídicas tra- ria social, mas afeta a sociedade inteira, ou ce que só na guerra o agrupamento político,
Tudo é uma questão de business, mesmo no dicionais oriundas da Inglaterra. melhor, cria uma entidade sociológica nova, o em função do amigo e do inimigo, alcança sua
plano cultural; assim, as universidades são O prestígio das instituições norte-americanas public, entidade homogeneizada, amorfa, última conseqüência. Descortina, na esfera da
conduzidas empresarialmente, razão pela qual entre os intelectuais e os dirigentes dos demais niveladora das condições" (op. cit., p. 8). Se a ação política, a mesma perspectiva de Hobbes
sua direção não pertence ao corpo professo- países da América, na época da independên- França, no século XVIII, exerceu grande in- (1588-1679), que vê no homem "um lobo para
ral, mas a um grupo de administradores, busi- cia, levou-os a elaborar constituições calcadas fluência cultural e política na Europa, e o mes- outro homem" (homo homini lupus). No mes-
nessmen. A tendência é para a uniformidade, no modelo dos Estados Unidos. Assim foram mo se deu com a Inglaterra no século XIX, aos mo sentido, cumpre lembrar a dialética
na busca do ideal igualitário, tendo em vista estruturados o regime constitucional, o federa- Estados Unidos coube assumir universalmente hegeliana "opressor-oprimido" (ou "senhor-es-
não só a igualdade de oportunidades, mas tam- lismo, a separação de poderes, nos Estados em o lugar desses dois países no século xx. O cravo"), que passou a Marx, inspirando-lhe a
bém a igualdade na maneira de ser e no trato way of li/e americano, a princípio de inspira- teoria da luta de classes. Além disso, o pensa-
que se dividiram os antigos vice-reinos da
ção puritana, tomou outro rumo com o mento de Carl Schmitt enquadra-se perfeitamen-
social. Thomas Molnar, em sugestivo ensaio América Espanhola, o mesmo acontecendo no
- Le modele défiguré. L'Amérique de Toc- permissivismo moral. Daí o unissex, a expres- te na moderna democracia de partidos, sendo
Brasil com a República. Transplantavam-se ins-
são corporal (sensitivity trainin[j), a homosse- estes grupos organizados com vistas à conquista
queville à Carter (PUF, Paris, 1978) - , trans- tituições políticas de um país cujo way of li/e
xualidade apregoada ou oficializada, a legali- do poder e acirrando-se a hostilidade entre eles
creve um trecho do discurso proterido pela não se coadunava com a mentalidade do povo
zação do aborto, os métodos não diretivos no pela influência das ideologias. Daí ter-se dito
advogada Barbara Jordan, em 1976, na Con- que as recebia, nem com sua formação históri-
ensino, a educação sexual, etc. Note-se que o que o regime de partidos equivale à guerra ci-
venção do Partido Democrático, e que começa ca, daí se originando crises sucessivas e fre-
naturalismo pedagógico francês e a psicanálise vil legalizada. Tudo isto, na linha de pensa-
assim: "Somos um povo à procura de sua co- qüentes. Dessa forma se explica a instabilida-
freudiana se aclimataram nos Estados Unidos. mento em que, a partir de Maquiavel (1469-
munidade nacional. Queremos cumprir a pro- de política dos países hispano-americanos,
Essas e outras criações européias foram depois 1527), a política é separada da moral. Chega-se,
messa da América: criar uma sociedade em que incluindo o Brasil, em confronto com os Esta-
reexportadas em versões dotadas de novas ca- deste modo, a uma concepção oposta à de
seremos todos iguais." E entre aplausos estre- dos Unidos. Compreendeu-o, entre outros,
racterísticas. Platão (429-347 a.C.), para quem a política de-
pitosos, a oradora citava as palavras de Abraham Tobias Barreto (1839-1889), ao criticar a ado-
V. Americanismo - Coletivismo - Democracia - ve radicar-se na virtude da justiça, e à de
Lincoln (presidente dos Estados Unidos de 1861 ção de fórmulas da democracia anglo-saxônica
Igualitarismo - Tradição. Aristóteles (384-322 a.C.), ao ver na amizade a
a 1865): "Assim como eu não quereria ser um entre nós, escrevendo que via "o Brasil tornar-
ponte entre a ética e a política, mediante uma
escravo, eu não quereria ser um senhor. Eis a se inglês em assunto de governo, continuando
AMIGO-INIMIGO convergência para o bem, procurado por uma
minha idéia de democracia. Tudo que se afas- porém a ser ele mesmo em religião, ciên- ação em comum. Como nota Ernest Barker, "a
tar daí não é democracia" (op. cit., pp. 125- cia, indústria, comércio e os demais pontos e Nesse binômio, Carl Schmitt (1888-1985) vê
o característico essencial da relação política. A ciência política grega se compôs em termos de
126). A realização de uma igualdade plena im- relações da vida social" (Estudos de Direi- ética" (The Political Thought of Plato and
plica o reforçamento do poder do Estado, como to, Livraria Progresso Editora, Salvador, 1951, seu ver, a distinção propriamente política é entre
amigo e inimigo, a ela se reduzindo, em última Aristotle, Introduction, Dover Publications
Tocqueville havia previsto; e os partidos políti- p.438). Incorporated, New York, s.d., p. 6). Por sua
cos tornam-se mecanismos auxiliares da cen- Nos anos que se seguiram à morte do escri- análise, todos os motivos e ações políticas. Autor
de uma Teoria da Constituição (Verfassun- vez, autores medievais realçam a idéia de "con-
tralização. Ocorre que o nivelamento coletivista tor sergipano, o Brasil foi deixando de ser "ele córdia", devendo a unidade da paz ser, segun-
igualitário não impede que prevaleçam as for- mesmo" não só no concernente ao governo e gslehre), que se tomou clássica, Schmitt adqui-
riu nomeada entre as duas guerras mundiais do Santo Tomás de Aquino (1225?-1274), o "má-
ças do poder econômico, em face das quais a regime político, mas também em muitos "pon- ximo intento dos governantes". Exemplo vivo
igualdade não passa de um ideal utópico. Mas tos e relações da vida social" em que se tem por seus escritos sobre a crise da democracia
parlamentar naqueles anos. Opondo-se ao re- desta concepção foi dado por um soberano
a mentalidade do povo - ou, para ser mais feito sentir a influência do American way of contemporâneo de Santo Tomás, Luís IX (São
preciso, da massa - deve ser formada pelos li/e, penetrando nos costumes e alterando as gime de discussões nos moldes do parlamenta-
Luís, rei de França, de 1226 a 1270). Isto não
slogans e pelas fórmulas do receituário políti- mentalidades, por diversos meios: a propagan- rismo, e julgando-o inviável para enfrentar as
implica a negação da realidade política expressa
co. Uma destas fórmulas é a da definição de da comercial e o cinema; ultimamente, a tele- graves situações políticas de uma conjuntura
pela antítese amigo-inimigo, mas concita à sua
democracia dada por Lincoln: "governo do visão e a música pop. Haja vista a reforma uni- tormentosa, reclamava atuação mais enérgica
superação pela justiça e caridade cristãs.
povo, pelo povo, para o povo". versitária brasileira dos anos 60, modelada em do poder, daí resultando sua concepção do
O "grande ensaio" dos americanos foi a Cons- padrões norte-americanos, com desastrosas "decisionismo", de que acabaram se servindo V. Decisionismo - Partidos políticos - Política
tituição de 1787, a primeira das constituições co~eqüências no ensino superior. adeptos do nacional-socialismo, não obstante - Prudência política.
ANARCO-SINDICAllSMO -18- ANARQUISMO
ANARQUISMO -19- ANARQUISMO

ANARCO-SINDICALISMO que pretendem, é preciso haver normas que ção. Para os anarquistas, cada qual é a lei de si qualquer exploração. É, porém, com Bakunin
Particularidade do anarquismo que se desen- lhes ordenem as ações. A fixação e o cumpri- próprio. Nada é de ninguém, tudo é de todos. que o anarquismo de caráter socialista ganha
volveu na Espanha, aí granjeando numerosos mento das normas implicam a existência de A autoridade política é máquina trituradora da expressão considerável. Filho de um nobre
adeptos. O movimento remonta à Solidaridad quem detenha um poder competente para dar- liberdade; a propriedade, instrumento de ex- russo, educado sob a influência do iluminismo
Obrera, constituída em Barcelona, no ano de lhes vigência e fazê-las respeitadas. Em isso ploração do homem pelo homem, pois gera do século XVIII, seduzido pelo hegelianismo,
1907, pela reunião de sociedades operárias de ocorrendo, tem-se a autoridade. Não houve ja- poder, domínio, opressão; a religião, um viajante inveterado, tribuno agitador, depois
caráter sindical. Dessa organização regional da mais sociedade nenhuma capaz de subsistir agrilhoamento do homem ao poder divino, alie- de preso pela polícia czarista, e escapando ao
Catalunha passou-se posteriormente a uma en- sem essa ordenação. nando-o de si mesmo. Por isso, o poder políti- desterro na Sibéria, foi para a Suíça e logo em
tidade de maior âmbito, a Confederación Na- Quando, porém, se generalizam, ao longo co, a propriedade e a religião devem ser abo- seguida para Nápoles, onde passou alguns
cional deI Trabajo (CNT). Apelando para a ação do tempo, o descumprimento das normas e a lidos, para que o homem, feito medida de todas anos, aí amadurecendo suas idéias filosófico-
direta, tendo por meio principal a greve, recu- desobediência à autoridade, configura-se a anar- as coisas, seja fim de si próprio e plenamente sociais e organizando, em 1864, uma aliança
sava a atuação parlamentar e a colaboração com quia. Rompe-se o princípio de unidade e de senhor de si. A liberdade e a igualdade abso- secreta internacional pela social-democracia.
ordem, convulsionando-se a sociedade. lutas de que cada um deve desfrutar encon- Adepto de um coletivismo anti-autoritário, dá
os intelectuais burgueses, nisto se distinguindo
Várias podem ser as causas da anarquia: uma tram obstáculo na divisão da sociedade em clas- ao anarquismo um corpo de doutrina com in-
do socialismo. Os operários deviam atuar por
ordem institucional inadequada a bem gerir a ses, que permitiu às classes superiores criarem gredientes colhidos no carbonarismo italiano,
si mesmos, sem mediação nenhuma. Houve,
vida sócio-política; uma estrutura organizacional o Estado e o Direito para oprimir as classes nos escritos de Proudhon e no pensamento
em certo momento, um entendimento entre a
que entrava as funções governamentais; uma inferiores. Uma vez suprimidas as classes, de- dos eslavófilos a respeito das condições dos
CNT e a UGT (Unión General de Trabajadores),
autoridade fraca que instiga a ousadia dos ini- saparecerão o Estado e o Direito, e conseqüen- camponeses. Por uma disputa que teve com
entidade socialista, mas depois disso se foi
migos da ordem; uma erosão da coesão social temente cessará a opressão, e os homens go- Karl Marx (1818-1883), no âmbito da Primeira
acentuando o caráter do anarco-sindicalismo
promovida por grupos subversivos; uma dispu- zarão da plenitude da liberdade e da igualdade. Internacional, cinde-se o movimento operário
no sentido da ação direta e com o emprego da
ta pelo poder levada a efeito pelos partidos Tanto para o anarquismo individualista de já alastrado por vários países da Europa. Pre-
violência, em boa parte sob inspiração do mito
com o caráter de "guerra civil branca". William Godwin (1756-1836) e o de Max Stirner valecem os marxistas, chamados "socialistas
soreliano da greve geral. Reprimido durante a
Se, entre os gregos, a anarquia tinha uma - pseudônimo do filósofo alemão Johann autoritários", sobre os anarquistas, ditos "fe-
ditadura de Primo de Rivera (1870-1930), logo
significação meramente negativa (oposição à Kaspar Schmidt (1806-1856) - quanto para o deralistas" ou "libertários". Os marxistas, reve-
depois desta (1923-1930) o movimento tomou
sociedade politicamente organizada), nos tem- anarquismo socialista de Proudhon (1809-1865) rentes ao materialismo histórico, sustentam a
grande impulso, constituindo-se nupla das for- pos modernos - com as teorias sobre o "esta-
ças de grande atuação na Segunda República, e o de Bakunin (1814-1876), todos os meca- necessidade e conveniência de utilização dos
do de natureza" do homem - passou a assu- nismos componentes da estrutura opressiva do instrumentos do Estado burguês (regime de
implantada em 1931. Nos anos da guerra civil mir um sentido positivo, como expressão de poder devem ser extintos, especialmente o Es- partidos, processo eleitoral, atividade parla-
(1936-1939), seus sequazes, nas regiões indus- uma sociedade sem Estado e até sem nenhuma tado. Como a liberdade é a única lei do mentar, etc.) para alcançar o poder, impor a
triais catalã e basca, ou nas zonas rurais da autoridade. Esse é o ideal dos anarquistas, em anarquismo, tudo quanto se lhe opõe é um ditadura do proletariado e fazer surgir a socie-
Andaluzia e do Levante, formavam ponderável suas várias concepções e nas correntes políti- mal: governo, leis, tribunais, forças armadas, dade comunista. Orientação diversa é a dos
contingente, cuja eficiência foi comprometida cas que delas se originaram. Acontece, porém, polícia, etc.; se bem que Proudhon e outros anarquistas, que propõem a "ação direta" e o
pelas dissensões, sobretudo a partir de 1937, que esse "estado de natureza", ao invés de con- admitam a organização econômica para subs- uso da violência contra quaisquer formas de
com socialistas, comunistas e anarquistas da duzir à felicidade visionada por Rousseau (1712- tituir o governo e o Estado numa forma poder: resistência às leis, afronta às autorida-
FAI (Federación Anarquista Ibérica), chegan- 1778), em que os homens se autogovernam, cooperativista. Também é um mal qualquer des, atentados contra governantes, greve pela
do até a confrontações violentas. Vitoriosas as acaba produzindo efeito diverso, ou seja, faz greve, boicotes generalizados e outras mani-
compromisso que implique limitação da au-
armas nacionais, e durante o governo de Fran- surgir o homo homini lupus, o homem lobo tonomia absoluta da vontade nas relações festações tendentes a convulsionar a vida so-
co, todas estas correntes da esquerda radical para o homem, e o conseqüente bellum humanas. Por isso, é inadmissível a família, sen- cial e desacreditar o princípio de ordem. Não
desapareceram do cenário político, voltando omnium contra omnes, a guerra de todos con- do o amor livre uma conseqüência das pre- obstante o fato de os governos de alguns pa-
algumas a se reconstituir com a "abertura de- tra todos, que Hobbes (1588-1679) e a política missas anarquistas. Pelas mesmas razões, não íses mais afetados pela violência anarquista te-
mocrática" que se seguiu à morte do Caudilho moderna fazem cessar sob o guante do Leviatã. existem pátrias, só existe o mundo. rem tomado as medidas repressivas cabíveis,
(1975). Anarquistas e anarco-sindicalistas, po- Desta forma, a anarquia acaba gerando a dita- Em Qu 'est-ce que la propriété?, Proudhon a onda subversiva intentava pelo menos fazer
rém, não reapareceram com o vigor doutros dura, o despotismo, o totalitarismo. Assim ocor- emprega o termo "anarquia", generalizando-se a "propaganda pelos fatos". Desta maneira, as
tempos. re porque não se afronta impunemente a natu- daí por diante as expressões "anarquismo" e idéias anarquistas, que já haviam conseguido
V. Anarquismo - Comunismo - Greve - Socia- reza humana e a natureza das coisas. Já o dissera "anarquistas", mas o libertarismo inerente a tal certa difusão entre os intelectuais, lograram
lismo. Pascal (1623-1662): qui veutfaire I'ange,fait la concepção já tivera adeptos na Grécia antiga, também cativar consideráveis parcelas do
bête. com Zenão de Citio (336/335-264 a.C.); na Ida- operariado, vítima, no século passado e prin-
ANARQUIA V. Anarco-sindicalismo - Anarquismo. de Média, com algumas seitas heréticas; e no cípios deste, das iniqüidades sócio-econômi-
século XVI, em meio à revolta dos campone- cas trazidas pela aplicação dos princípios da
Palavra de origem grega que, etimologica-
ANARQUISMO ses provocada pelos anabatistas de Tomás Revolução Francesa (1789).
mente, significa "ausência de autoridade" (de
Münzer (1489-1525). Proudhon afirma, peremp- Quando da revolução comunista de 1917 na
a, prefixo que indica ausência, e arché, princí- Concepção que - exaltando uma liberda- Rússia, o escritor anarquista Kropotkin (1842-
tório, que a propriedade é um roubo, e propõe
pio, origem, fundamento, poder, autoridade). de total, com o autogoverno do indivíduo - 1921), que, preso, se evadiu, e, tendo estado
uma sociedade sem classes, pluralista, autoges-
As pessoas agrupam-se com vistas à realiza- preconiza a supressão da autoridade e das leis, tionária, em que os trabalhadores, mediante na Inglaterra, na Suíça e na França, países de
ção de um·' objetivo comum. Para alcançar o be~ como a socialização dos bens de produ- contratos acertados entre si, fiquem isentos de onde foi expulso, após mais de uma detenção,
ANTAGONISMO -21- ANTICLERlCAUSMO
ANARQUISMO -20- ANISTIA

voltou à sua terra de origem, ocasião em que e a rebeldia contra as pressões "estruturais" da tia é irrevogável, enquanto o indulto pode ser maoísmo como subsistentes mesmo após a re-
se reconciliaram anarquistas e marxistas. Du- revogado. A anistia procede, em geral, de ato volução socialista, sendo que somente com esta
sociedade atual (consumismo, burocratismo,
rou pouco, porém, esta recomposição. Logo legislativo, cujo caráter é abstrato e genérico. podem ser resolvidas as contradições antagô-
etc.), como se verificou nas revoltas de 1968,
mais, Kropotkin acusaria os bolchevistas de O indulto decorre sempre de procedimento nicas.
dos estudantes de Nanterre e Paris. Herbert
terem enterrado a revolução. Anarquistas fo- administrativo, contemplando nominalmente os Originariamente, o marxismo identificava,
Marcuse (1898-1979), nutrido, em seus estu-
ram perseguidos e mortos em grande número, beneficiários. O princípio da irrecusabilidade além do antagonismo social, um antagonismo
dos de filosofia, pelo idealismo germânico e
sendo até mesmo destruída a sede do seu par- da anistia só admite exceção quando, concedi- natural, o relativo às forças da natureza (movi-
pelo moderno existencialismo, conjugando o
tido em Moscou, tudo a mando de Trotski da esta sob condição, o beneficiário não acei- mentos de atração e repulsão, ligação e dissocia-
marxismo com o freudismo, e desde 1934 ra-
(1879-1940). Num congresso internacional rea- ta satisfazer o encargo. Da graça, distingue-se a ção dos átomos, positividade e negatividade
dicado nos Estados Unidos, onde foi profes-
lizado em Berlim, no ano de 1922, os anarquis- anistia, pois a graça é medida de caráter indivi- elétrica, etc.). Modernamente, entretanto, a dia-
sor universitário, tomou-se o principal teórico
tas lançaram uma declaração de princípios dual, enquanto a anistia tem caráter coletivo. A lética da natureza foi considerada uma sobre-
da revolta estudantil. A seu ver, a sociedade
anarco-sindicalista, proclamando o sindicato graça não apaga o crime, só alcança a execu- vivência do animismo primitivo.
industrial avançada - quer capitalista, quer
como associação livre, tendo por objetivo o ção da pena, e pode ser revogada; supõe, ou- A constatação de que, mesmo após a im-
comunista - é essencialmente repressiva, sub-
combate à autoridade e à propriedade, ao mes- trossim, a existência de condenação transitada plantação do socialismo e a instauração de com-
mete o indivíduo aos imperativos do rendi-
mo tempo em que rejeitavam e condenavam o em julgado. plexo aparelho repressivo, persistiam interes-
mento, da produção e do consumo, anulando
leninismo e a ditadura do proletariado. Funda- Os defensores do direito de graça - e, em ses sociais diversos dos desejos do partido
a personalidade de cada um. A revolução, nos
ram-se' depois disso, entidades anarco-sindi- especial, da anistia, como medida de cunho único, fez com que se elaborasse a tese das
moldes clássicos do marxismo, não tem mais
calistas em alguns países. Na Espanha, durante eminentemente político - costumam apontar contradições não antagônicas. O critério distin-
condições de êxito, e deve ser superada por
a segunda república, adquiriram destaque a CNT seu caráter humanitário. Os adversários, porém, tivo entre contradições antagônicas e não an-
uma contestação mais radical, com vistas a
(Confederación Nacional deI Trabajo, anarco- lastimam que esse humanitarismo configure tagônicas está em que as primeiras ocorrem
chegar a uma sociedade em que possam os
sindicalista) e a FAI (Federación Anarquista notória injustiça, sem contar o quanto de arbi- em países ainda não submetidos ao aparelho
homens entregar-se ao prazer e à satisfação repressivo socialista. Com a revolução socialis-
Ibérica). Ambas dominaram especialmente na trário se esconde na dispensa da aplicação da
dos instintos fundamentais. Essas idéias acham- lei. Se, de um lado, há quem observe que a ta, porém, a divergência dos interesses sociais
Catalunha e no Aragão, tanto assim que a As- se expostas em Razão e Revolução e Eros e Ci-
sociação Internacional dos Trabalhadores trans- anistia procura demonstrar a temperança do ante a vontade do partido único, instalado no
vilização, além de outros escritos preconizan- poder público, de outro, tem-se considerado a poder, já não é, evidentemente, solucionada
feriu sua sede de Berlim para Barcelona. Nesta do a contestação anarquista libertária levada às
cidade, durante a guerra civil (1936-1939), hou- anistia como atestado de pusilanimidade e ter- por uma nova revolução marxista, mas, sim,
últimas conseqüências. giversação. Há mesmo quem faça notar que a pela conservação, mediante a força militar, das
ve sérias divergências entre anarquistas e co-
munistas, que degeneraram em conflitos vio- v. Ação direta - Anarco-sindicalismo - Comu- anistia supõe tanta arbitrariedade quanto a con- realizações socialistas (exemplos: Hungria, 1956;
lentos. O anarquismo perdeu sua antiga nismo - Contestação - Greve - Liberalismo - Re- denação sem o exercício do direito de defesa: Tcheco-Eslováquia, 1968; Afeganistão, 1980).
expressão depois da Segunda Guerra Mundial volução - Socialismo. enquanto a condenação atinge o direito indivi- A persistência de forças sociais opostas à re-
(1939-1945), sendo que resquícios da Associa- dual, a anistia contraria a justiça legal. volução socialista tem sido explicada como "so-
ANISTIA Numa época em que as revoluções ainda não brevivência do espírito reacionário". Quando
ção Internacional dos Trabalhadores subsisti-
ram no México. Extinção da punibilidade de atos definidos haviam atingido todo o caráter de Revolução se cumpriam vinte e um anos da tomada do
No Brasil, houve uma ou outra manifestação como crimes, fazendo desaparecer a própria - Revolução Mundial, patrocinada por solertes poder, em Cuba, pelo ditador Fidel Castro,
de anarquismo individual ou em grupos restri- figura delituosa. Originário do grego, o termo conexões ideológicas e municiada por super- ocorrida em 1959, a invasão de dez mil cuba-
tos. Lembre-se José Oiticica (1882-1957), pro- anistia significa esquecimento de certos tipos potências - a anistia veio a ser usada no Bra- nos na embaixada do Peru, para fugir ao regi-
fessor de renome no campo lingüístico-filoló- de infrações, em geral de natureza política. A sil como instrumento de pacificação e restaura- me socialista, demonstra que estas forças sociais
gico, que publicou Princípios efins do programa concessão de anistia é ato de soberania do Es- ção da ordem. Foi assim com a anistia concedida são mais difundidas do que, desde logo, se
comunista-anarquista e A doutrina anarquis- tado que, em dadas circunstâncias e condições, aos envolvidos tanto na "revolta dos liberais" poderia imaginar. É assim que também se ex-
ta ao alcance de todos. Em São Paulo, anar- busca, por esse meio, o desarmamento dos es- (1842) quanto na "revolta praieira" (1848-1850), plica e justifica a construção, em 1961, pelos
quistas espanhóis e italianos promoveram as píritos e a reintegração dos punidos à norma- sem esquecer a que favoreceu a recomposição comunistas, do chamado "muro da vergonha",
primeiras greves operárias, reprimidas pela po- lidade da vida social. O chamado direito de da unidade nacional, ao reincorporar à comu- em Berlim, e que acabou desmantelado em
lícia, nas duas primeiras décadas deste século. graça, em sentido genérico, contempla três fi- nidade brasileira os gaúchos da "Revolução Far- 1989, desmoronando, também, logo depois, o
Da década de sessenta em diante, e no cli- guras específicas: a graça em sentido estrito, o roupilha", que consumiu 10 anos de lutas (1835- império soviético (1991).
ma da guerra subversiva próprio dos anos que indulto e a anistia. Distingue-se a anistia das 1845), e chegou ao separatismo, com a chamada
"República de Piratini" (1836-1845), valendo v. Amigo-inimigo - Luta de classes.
se seguiram à Segunda Guerra Mundial, reponta demais espécies do direito de graça. A anistia
o anarquismo em novas modalidades. Impreg- atinge especialmente os crimes políticos, en- lembrar o papel desempenhado pelo marechal
ANTICLERICALISMO
nando sobretudo a mentalidade dos jovens, quanto o indulto se dirige ao crime comum Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias
(muito embora haja casos de anistia de crimi- (1803-1880), nessa faina pacificadora. Hostilidade contra o clero católico, manifes-
exterioriza-se numa escala cromática que vai
de comportamentos permissivistas a movimen- nosos comuns). O indulto não extingue o cri- tada pela propagação de idéias, por polêmicas
ANTAGONISMO virulentas, por agressões e mesmo pela perse-
tos contestatários, chegando por vezes a práti- me, simplesmente impede a execução da pena,
cas terroristas. Essa face nova do anarquismo pois supõe sempre sentença condenatória com No pensamento marxista, irredutibilidade de guição sistemática procedente do poder públi-
tem oscilado entre a insurreição contra a auto- trânsito em julgado; já a anistia alcança o cri- forças sociais contraditórias, cuja superação só co ou de grupos sectários.
ridade e a lei em si mesmas ("é proibido proi- me, antes, durante ou depois do processo pe- pode advir pela via revolucionária. Há, porém, Pródromos do anticlericalismo aparecem nos
bir" , "recusa~o-nos a qualquer alinhamento") nal~u seja, com ou sem condenação. A anis- contradições não antagônicas, entendidas pelo últimos séculos da Idade Média, quando os
ANI1CLERICALlSMO -22- ANI1CLERICALlSMO ANTICLERICAIJSMO -23- ANI1COLON1ALlSMO

albigenses e valdenses começaram a denun- princípios da "ordem moral" foram frustrados, licas e contra o clero, cujas pregações eram ANTICOLONIALISMO
ciar abusos de sacerdotes e da alta direção da do que resultou a sua renúncia. Daí por diante, atrulhadas para que nelas não se atacassem
Igreja, seguindo-se as críticas desabridas ao mais forte se tomou a influência maçônica nos ~s chamados "velhos católicos", que se opu- O movimento para obter a independência
imediata de países da África e da Ásia que
monacato, na época da Renascença - por governos franceses, herdeiros da Revolução de nham às decisões do Concílio Vatican~ ~ (.1870) vinham sendo colonizados por potências eu-
exemplo, as de Erasmo (1467-1536) em face 1789, cujo espírito fundamentalmente anticristão principalmente à infalibilidade ponuficIa. Na
de episódios negativos da vida monástica - e neles prevaleceu. Jules Ferry (1832-1893), mi- ~tália em meio às lutas pela unidade política, ropéias tomou grande incremento depois da
Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e
os ataques violentos de Lutero (1483-1546), nistro da Instrução Pública e depois presiden- que ievava à negação da soberania temporal
principalmente depois da Segunda (1939-1945),
reiterados pelas diversas seitas protestantes. te do Conselho, iniciado na loja La Clemente do Papa, leis contra o clero foram promulgadas
no Piemonte, e os carbonários, como os ma- revigorando-se consideravelmente com a Con-
Só a partir do século XVIII, e especialmente Amitié, foi o campeão do laicismo no ensino e ferência de Bandung (1955). Não se limitou a
depois da Revolução Francesa (1789), o anticle- a ele se deve o decreto de 29 de março de 1880 çons da França, fomentavam o anticlericalismo,
unidos para apoiar Cavour (1815-1861), fazen- ser a expressão das aspirações de povos em-
ricalismo veio a assumir cunho específico de contra as congregações religiosas. O anticleri- penhados em se libertar dos vínculos coloniais,
movimento anti-religioso, chegando a ser, nas calismo galicano havia tentado subordinar a do ressoar o slogan "a Igreja livre no Estado
livre". Com a ocupação de Roma pelas tropas mas assumiu feição nitidamente ideológica, sob
mais radicais manifestações, materialista e ateu. Igreja ao Estado; agora, o objetivo era mais a influência do comunismo internacional.
amplo, pois se tratava de afastar completamen- italianas (1870), o Papa deixou-se ficar no
Difundido na França pelas "sociedades de pen- No século XVIII, desponta esse anticolo-
te a Igreja da vida pública, impedindo-a de Vaticano, prisioneiro voluntário, si:ua~ão esta
samento" e pelas lojas maçônicas, daí se espa- nialismo ideológico, sobretudo com Volta ire
exercer qualquer atuação relativa à formação a que o Tratado de Latrão (1929) pos fIm, sen-
lhou por outros países, com o respaldo ideoló- (1694-1778), Raynal (1713-1796) e Rousseau
intelectual e moral da infância e da juventude. do fixados os limites territoriais da Cidade do
gico que lhe fornecia o filosofismo iluminista, (1712-1778). Voltaire, no seu furor contra o cris-
Tudo isso contribuiu para o clima de apoio de Vaticano e reconhecida a sua independência.
com a Enciclopédia, e com autores, como Vol- No México - onde as primeiras leis anticle- tianismo, procurava denegrir a ação da Igreja,
taire (1694-1778), de poderosa influência. grande parte do clero, quando da questão
ricais datam de 1873, por iniciativa dos liberais voltando-se com ódio contra a atividade mis-
Preparou esse surto, o galicanismo do Anti- Dreyfus (1894-1906), à direita nacionalista,
-, sangrenta perseguição religiosa ~oi defla- sionária, portadora dos princípios da Fé entre
go Regime (preconizando uma Igreja francesa empenhada numa campanha anti-republicana,
grada, na presidência de Plutarco Eha~ ~alles os povos em estado de colonização. Raynal,
ou "galicana", independente da de Roma), sus- antimaçônica e anti-semita. Recrudesceu, en-
(1877-1946), chegando o Governo a prOIbIr atos tendo deixado a Companhia de Jesus em que
tentado por numerosos adeptos na burguesia tão, o anticlericalismo, nos ministérios dirigi-
de culto, no período de 1926 a 1929, quando professara, e sendo expulso da comunidade dos
parlamentar jansenista (o jansenismo teve gran- dos por Waldeck-Rousseau (1846-1904) e por
as violências se extremaram, tendo havido nu- padres de São Sulpício, com os quais fora con-
de expansão no século XVII, com idéias vin- seu sucessor, Émile Combes (1835-1921), este
merosos mártires e levantando-se os cristeros, viver, ligou-se aos enciclopedistas e escreveu
das do protestantismo, e se caracterizou por muito mais radical, tendo em poucos dias su-
numa insurreição armada em defesa da fé e da uma História filosófica e política dos estabele-
uma concepção pessimista da naturéZa huma- primido mais de 2.500 escolas confessionais.
liberdade. cimentos e do comércio dos europeus nas duas
na e da predestinação, tendo sido condenado Além de todas as congregações religiosas te-
Mas foi na Espanha que o anticlericalismo se Índias. Nessa obra multiplicou objurgatórias
em várias bulas pontifícias, o que suscitou uma rem sido proibidas de ensinar, aboliu-se a Con-
manifestou com o máximo furor: despontou na contra o que considerava fanatismo católico nas
reação contra a autoridade da Sé Apostólica). cordata, e a 9 de dezembro de 1905 foi pro-
revolução liberal de 1820; teve em Francisco terras de missão, fazendo coro à "lenda negra"
mulgada pelo Senado a lei de separação da
A Revolução Francesa veio estabelecer oficial- Ferrer (1859-1909) um de seus mais atuantes dirigida contra a Espanha. Finalmente, Rousseau,
Igreja e do Estado (note-se que a preferência
mente a Igreja não mais submissa ao Pontífice promotores, com a campanha pelo en~in~ lei- ao exaltar o homem no estado de natureza e
de Combes parece ter sido o regime de união,
Romano, mas ao próprio Estado, mediante a go e racionalista, em Barcelona; e aungIu o ao difundir o mito do bon sauvage (o bom sel-
para que o Estado pudesse controlar a Igreja).
Constituição Civil do Clero (12 de julho de clímax na Segunda República, proclamada em vagem), antecipava-se aos que se opõem à
Paralelamente a essa política extremadamente
1790), precedida de um decreto pelo qual eram 1931. As massas populares foram então açula- evangelização e a toda espécie de colonização
laicista do governo, vinha ganhando terreno
confiscados os bens da Igreja (2 de novembro das, promovendo-se o incêndio de igrejas e civilizadora sob o pretexto de respeito à cultu-
entre os intelectuais a mentalidade anticlerical,
de 1789). Introduzia-se assim o anticlericalismo conventos, sob as vistas complacentes e mes- ra original dos indígenas, o que, aliás, é de
assestando-se baterias contra o Syllabus de Pio
na política oficial da França, sendo seus efeitos mo a conivência do Governo da Frente Popu- justiça, mas não deve levar a respeitar tan:bém
IX (1864) - documento em que o Pontífice
suspensos pela Concordata de 1801 - concluí- lar, conjugando-se, naquele país, a aç~o da ma= crendices e superstições, e os costumes barba-
condenava o liberalismo e outros erros moder-
da por Napoleão Bonaparte (1769-1821) com çonaria e a do comunismo internac~ona~,,, daI ros e depravados que eles possam ter. Daí re-
nos - e sendo exaltada a Revolução Francesa resultando uma situação que tornou InevItavel
Pio VII (Papa, de 1800 a 1821) - , mas voltan- e denegrida a Idade Média na qual se fazia ver sulta um anticolonialismo que nega a legitimi-
do a manifestar-se com a revolução de 1830 e a guerra civil de 1936. . . . dade de uma ação civilizadora superior, como
uma época de trevas sob o domínio obscuran- Finalmente, cumpre registrar o anUclencahs-
sobretudo na 111 República, em seguida às elei- tista do clero. Nisto se destacaram o historia- foi a dos gregos e romanos na Antigüidade,
ções de 1877. Punha-se em prática, já agora, mo e as perseguições religiosas dos regimes transmitindo a outros povos a cultura que ha-
dor Jules Michelet (1798-1871) e o pedagogo totalitários na Rússia comunista, na Alemanha
um anticlericalismo legal. Era o tempo em que Edgar Quinet (1803-1875), enquanto Jean Macé viam atingido. Mais ainda, vai-se até mesmo à
Gambetta (1818-1882) apostrofava da tribuna nazista e, depois da Segunda Guerra Mundial contestação do ideal missionário, que põe em
(1815-1894) fundava a Liga do Ensino, preco- (1939-1945), na República Popular da China e
parlamentar: Le cléricalisme, voilà l'ennemi!("O nizando a escola leiga obrigatória. prática a recomendação de Cristo aos ~pósto­
clericalismo, eis o inimigo!"). Aquelas eleições no Vietnã, e ainda, embora com dosada viru- los: "Ide e ensinai a todas as gentes, bauzando-
Por outros países também se alastrou o anti- lência, nos países satélites da URSS, onde se
haviam assinalado a derrota dos conservado- clericalismo. Assim, na Alemanha, Bismarck as em nome do Pai e do Filho e do Espírito
efetuaram prisões e torturas de bispos e sacer- Santo, e ensinando-as a observar todos os man-
res e dos que esperavam a restauração da mo- (1815-1898), chefe do Governo, chamado o dotes bem como o fechamento de escolas ca- damentos que vos dei" (Mt 28, 19-20). Dessa
narquia, sendo de notar que ocupava a presi- "chanceler de ferro", entrou em luta com os tólicas na Iugoslávia, na Hungria e na Tcheco- forma, o anticolonialismo excede os limites de
dência da República o marechal Mac-Mahon católicos, durante a campanha da Kulturkampf Eslováquia. um justo protesto contra a exploração de po-
(1808-1893), pessoalmente legitimista, cujos ("luta pela cultura"), de 1871 a 1878; medidas
esforços em prol de uma política baseada nos repressivas foram tomadas contra escolas cató- V. Clericalismo - Maçonaria - Revolução Francesa. vos mais fracos e os maus tratos muitas vezes

"
-25- ANTICOMUNISMO
ANTICOLONlALISMO -24 - ANTICOMUNISMO ANTICOMUNISMO

justiça social: a difusão da pequ~na e ~édia co ditado pela conjuntura. Não é por outro motivo
a eles infligidos pelos colonizadores, para se Depois da Segunda Guerra Mundial mais inten-
propriedade, a elevação do padrao de vlda, o que o comunismo e os socialismos, em muitas
tomar uma bandeira de combate contra a ex- so ainda se tornou no mundo todo o anti-
pansão dos ideais da civilização cristã, ou seja, incentivo ao associativismo, etc. No entanto, oportunidades, costumam ser companheiros de
colonialismo, tal como o entenderam sempre
na expressão de Camões, a dilatação da Fé e os comunistas, sendo o seu proselitismo imen- assinala a crônica das atividades comunistas que, viagem.
do Império (Lusíadas, Canto I, 2). a despeito do muito que se faça nesse campo, Em nome do pluralismo, tem-se atribuído o
samente favorecido pelos meios de comunica-
Reduzido era o âmbito de influência de a ação corrosiva dos agentes "vermelhos" sem- epíteto de reacionária a qualquer ação ou opi-
ção de massa por eles dominados ou sob sua
Raynal e dos enciclopedistas, com os seus es- pre diligenciou novos meios e modos de atuar, nião anticomunista. E, quando se trata de movi-
influência preponderante.
critos, se comparado com a propagação do explorando outros pontos fracos ou fomenta.n- mentos anticomunistas organizados, além de
V. Agitação - Colonização - Colonialismo - Nacio- do conflitos diversos a fim de chegar aos obJe- reacionários, ganham o apodo de fascista ou
anticolonialismo ideológico nos meados do
nalismo - Negritude. nazista. Incoerente, porém, é um pluralismo
século XX. Como nota o almirante Paul Auphan, tivos desejados.
na Histoire de la décolonisation (Paris, Éditions Também o livre jogo político - amparado que destitui de legitimidade tais movimentos.
ANTI COMUNISMO Argumentar que essa ilegitimidade decorre do
France-Empire, 1975), aqueles autores escre- nos princípios da liberal-democracia - é usual-
viam tranqüilamente ao pé do fogo e para um Procedimento que, sob várias formas, se opõe mente apontado como o melhor antídoto para fato de, pelo menos, fascistas e nazistas não
número relativamente restrito de leitores, não à ideologia comunista. o comunismo. Os liberal-democratas apreciam admitirem o pluralismo, é objeção que pode
obstante o sucesso editorial alcançado; ao pas- O combate ao comunismo veio a desenvol- declarar-se ao mesmo tempo não comunistas e ser levantada também em relação ao próprio
so que, por meio de uma organização de esca- ver-se ao longo do tempo por razões e modos "antianticomunistas". Argumentam que, estan- comunismo. Daí por que um anticomunismo
la planetária, cada vez mais poderosa, os co- diversos. Assim, na área capitalista, a oposição do na legalidade, o partido comunista deverá coerente vai à raiz do sistema, e fulmina o co-
munistas, logo após a Primeira Guerra Mundial, ao comunismo se baseia, em geral, na defesa "mostrar as cartas", tomando-se alvo de con- munismo por ser "intrinsecamente mau", não
põem em ação as suas idéias com a dinâmica da economia de mercado. É motivo este de frontação e, quiçá, de suplantação. Tem-se vis- deixando de o ser ainda que triunfe pela via
revolucionária de Lênin (1870-1924) quando pouca solidez, tanto é verdade que países de to, porém, que, legalizado, nem por isso o par- democrática da vontade da maioria. Isto por-
atacava o imperialismo colonialista, dizendo velhas estruturas socialistas - como a antiga tido deixa de desenvolver atividades clandestinas, que é próprio do comunismo subverter o fun-
estar neste a "última etapa do capitalismo". União Soviética e a República Popular da Chi- cuja eficácia se torna maior por contar com as do do ser humano e de toda a ordem criada,
Dizia, também: "é preciso envolver, isolar e na - abriram suas portas a empresas multina- facilidades de acesso aos órgãos do poder e a constituindo, na verdade, verdadeira rebelião
arruinar a Europa, fazendo-a perder a África". cionais, que passaram a conviver tranqüilamen- possibilidade de infiltração de seus membros do homem contra Deus. Esta razão maior da
O importante órgão da União Soviética, Pravda, te com o sistema. Como o "capital não tem em outros partidos, permitindo-se-Ihes assim agir luta contra o comunismo torna falsos ou ilusó-
em 5 de junho de 1924, declara: "As colônias pátria", chegou-se a preconizar até mesmo uma com maior desenvoltura. Além do mais, é pre- rios os anticomunismos que a desprezam. Fal-
são um dos principais recursos do capitalismo simbiose dos dois sistemas. Nesse sentido, a ciso não desprezar a eventualidade de uma vi- sos o anticomunismo fascista, o nazista, o social-
europeu. Apelemos, pois, na nossa luta de produção em massa e em série do moderno tória eleitoral do partido. Ungida pela "legitimi- democrata, etc., porque buscam estas ideologias
morte contra o capitalismo, para a revolta co- processo industrial faz certos capitalistas "pro- dade democrática", essa conquista do poder assegurar, cada qual a seu modo, a própria via
lonial em socorro do proletariado. Proletários gressistas" acalentarem o sonho de uma socie- ter-se-á por incontestável, pois a vontade da de manipulação total da vida humana. Ilusórios
da Europa, mais atenção às questões coloniais! dade comunista quiçá autogestionária, de igual- maioria é sempre tida por "infalível" e "intocável" . os anticomunismos de individualistas, hedonis-
Mais energia no trabalho revolucionário nas dade planificada. A informatização alastrante E, ainda que as forças comunistas não alcan- tas, libertários, etc., porque perseguem um ego-
colônias!" O almirante Paul Auphan, na obra da vida humana em todos os campos leva a cem o poder pela via eleitoral, obviamente te- centrismo vital.
citada, faz notar que a revolução comunista, visionar a materialização desse sonho. rão na legalização do partido um fator podero- Sem esquecer o comunismo chinês (nutrido
herdeira da Revolução Francesa (1789), atua Vulgar, outrossim, é a assertiva de que no so de influência para produzir no ambiente social pelos investimentos de países e empresas capi-
mediante "a lenta intoxicação das almas, a combate à miséria está a forma mais eficaz de a saturação comunistizante ou a talistas) e não obstante a queda do ramo so-
domesticação dos homens pela supressão do vencer o comunismo, tido como simples pro- "conscientização" propícia e acelerar o proces- viético do comunismo internacional (não, as-
direito de propriedade, a materialização impes- duto daquela. E forjou-se o slogan: "acabar com so revolucionário. sim, a queda do "ideário socialista", como fez
soal da existência, a supressão de toda raiz a miséria é acabar com o comunismo". É indis- Os socialismos de todos os matizes - desde questão de proclamar Mikhail Gorbachev, em
cristã na vida". E acrescenta: "Entre as duas putável a necessidade de real empenho para a social-democracia até o incongruente "socia- discurso ao plenário do 19º Congresso Interna-
guerras, a maioria dos Estados europeus bem eliminar a miséria, não apenas porque esta ins- lismo cristão" - por vezes podem vir a osten- cional Socialista, realizado em Berlim, em 16
percebe o perigo. Alguns reagem, mas se vêem tiga fácil e hábil instrumentalização revolucio- tar, em geral por oportunismo eleiçoeiro, cer-
de setembro de 1992), não há perder de vista
embargados pela sua maneira de entender a nária, mas especialmente porque afronta a dig- tos pregões anticomunistas, que, além de débeis,
um comunismo mais perigoso: aquele que se
democracia, da qual fazem um absoluto. Ou- nidade humana. Registra, porém, a história do são inconseqüentes. Porque, no caso, a diver-
insinua nos costumes, no estilo de vida, nas
tros se desviam em direções aberrantes, como comunismo internacional que seu domínio veio gência é simplesmente de método. Se tais cor-
manifestações artísticas e culturais, nas insti-
o nazismo ou o fascismo" (pp. 86-87). Após a a ocorrer freqüentes vezes em regiões desen- rentes não perfilham a via revolucionária estri-
tuições, tudo isso condicionado através dos
implantação do regime soviético, foi criada em volvidas, não devendo esquecer-se ademais o ta, pretendem, contudo, chegar pela "evolução"
aos mesmos objetivos: a secularização da vida saturantes meios de comunicação, e a produ-
Moscou uma Universidade dos Trabalhadores fato de que suas fileiras sempre contaram com zir a marxistização dos espíritos. Esse comu-
do Oriente, onde se formaram numerosos agi- grande número de líderes e mentores intelec- humana, a estatização dos meios de produção,
dos transportes, da educação, etc. Pelas vias nismo difuso ganha a intimidade da vida so-
tadores que se puseram à frente dos movimen- tuais endinheirados. cial mina a moral da família, esvazia de energias
tos de libertação em seus países, aí aplicando Nessa linha de raciocínio, costuma-se apon- legais, através de votações democráticas, os
socialismos pretendem alcançar os mesmos in- vit;is os grupos naturais, enfraquece e destrói
as idéias marxistas. O mesmo se deu com estu- tar a injustiça social como outro fator causante
tentos do comunismo. Por isso que eventual as solidariedades orgânicas, intentando romper
dantes chegados a Moscou das colônias africa- do comunismo, pretendendo-se, então, que,
anticomunismo de um coerente socialismo de- as barreiras mais resistentes à sua implantação
nas e preparados, segundo os mesmos princí- com sua extinção, se frustre a ameaça comu-
mocrático não passa de mero expediente táti~ na sociedade, a ser moldada não necessaria-
pios, para:, ser os líderes da descolonização. n:~ta. Por certo, é indescurável a promoção da
AN71FASCISMO -26- AN71GO REGIME AN71GO REGIME
ANTIGO REGIME -27-
mente no antigo padrão soviético ou no pa- trotskistas, socialistas de vários matizes anar-
drão chinês. sociedade medieval, bem marcantes na Espanha assinava com os representantes do país uma
quistas, anarco-sindicalistas e liberais. '
Para esse comunismo difuso, há um único e mais frágeis em Portugal, e cedendo ao ím- capitulação cujo artigo primeiro estava redigi-
Já antes da guerra da Espanha, a da Etiópia
antídoto eficaz: a preservação ou vertebração peto da modernidade, na Europa continental do nos seguintes termos: "Todas as coisas con-
(1935-1936) - seguida da ocupação deste país tinuarão no Franco Condado no mesmo estado
dos valores inerentes à dignidade humana, fun- transpirenaica e na Inglaterra. Os contornos do
pela Itália fascista - dera origem a um surto em que se encontram presentemente, quanto a
dada na origem e natureza do próprio homem chamado Antigo Regime delineiam-se melhor
de antifascismo. Uma publicação da época, Espoir privilégios, franquias e imunidades". Verdade é
e no seu destino transcendente. nos séculos XVII e XVIII, revelando-se, então,
français, fazia notar que se tratava de um um mundo que, se, por um lado, está ligado à que logo os habitantes dos novos territórios ane-
V. Comunismo - Marxismo - Social-democracia antifascismo belicoso, dominando esquerdas e sociedade medieval, à sua estrutura, aos seus xados ao reino de França haveriam de sentir a
- Socialismo. extremas esquerdas, infiltrado nos setores mode- ideais, por outro, se antecipa ao que será a diferença entre o novo regime, muito mais
rados e não admitindo nenhum entendimento Europa depois da Revolução Francesa. Desta centralizador, e o que havia sido a dominação
ANTIFASCISMO com os Estados totalitários, o que seria trair a Revolução escreve Alexis de Tocqueville (1805- espanhola dos tempos de Felipe 11 (rei, de 1556
Se o fascismo é um fenômeno político pró- causa da liberdade e da democracia. Era o tem- 1859) que ela "não teve somente por objeto a 1598), respeitador das franquias e liberdades
prio da Itália, o antifascismo também o deveria po da Frente Popular, quando mesmo aqueles mudar um governo antigo, mas abolir a forma locais no regime de autonomias próprio da mo-
ser pela feição e pelas proporções que assu- que haviam sido até então pacifistas à outrance, antiga da sociedade", razão pela qual investiu narquia federativa das Espanhas. Mas de qual-
miu naquele país. Entretanto, com o baldão de como Léon Blum (1872-1950), passaram a acei- contra todos os poderes estabelecidos, arrui- quer modo persistiam formas de descentraliza-
fascistas começaram a ser designados regimes, tar não só a guerra defensiva, mas também a nou todas as influências reconhecidas, apagou ção social que desapareceram depois da
doutrinas e movimentos diferentes, mas englo- repressiva, tendo em mira as potências fascis- as tradições, remodelou os costumes e os usos, Revolução, principalmente com o impulso para
bados sob as etiquetas de ditadura, totalitaris- tas. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e e esvaziou de certa maneira o espírito humano a centralização estatal dado por Napoleão (im-
mo ou simplesmente direita, tendo por deno- os anos que se seguiram não fizeram mais do de todas as idéias sobre as quais estavam fun- perador, de 1804 a 1815). O Antigo Regime era
minador comum o combate à democracia liberal que acentuar esse estado de espírito, fomenta- dados até então o respeito e a obediência centralizador, como seria, muito mais ainda, o
e sobretudo ao comunismo. O salazarismo em do especialmente pelo comunismo internacio- (L 'Ancien Régime et la Révolution, I, 2). Nesta Estado moderno depois da Revolução France-
Portugal, o franquismo na Espanha, o peronismo nal. É sempre a mesma tônica' antifascismo maneira de ser da sociedade civil, refletia-se sa; nele, a despeito disso, se conservavam ins-
na Argentina, o rexismo na Bélgica, o integralis- expressão de uma cruzada pela's democracia~ ainda, em grande parte, durante os anos do tituições mediante as quais era mantida ampla
mo no Brasil, além de outros, caíram debaixo contra o totalitarismo, não obstante seu coman- chamado Antigo Regime, o espírito da civiliza- descentralização social, como nos tempos da
de tais etiquetas, sendo que o nacional-socia- do tenha por muito tempo pertencido à Rússia ção medieval. monarquia limitada, que o havia precedido. Este
lismo, na Alemanha, foi a expressão mais radi- soviética, isto é, uma potência totalitária. Nes- No concernente, porém, ao Estado, houve último aspecto justifica a conclusão do histo-
cal desse posicionamento que se queria abran- sas alternativas reflete-se o irracionalismo polí- modificações sensíveis, a preludiarem a orga- riador Pierre Gaxotte (1895-1982): "O reino é
ger com o rótulo de "fascismo". tico de nossa época, de que é exemplo típico o nização política decorrente dos princípios da uno pela pessoa do soberano e múltiplo pelas
Daí generalizar-se pelo mundo todo uma fato ocorrido durante a rebelião estudantil de Revolução. Neste sentido, o mesmo Tocqueville, suas instituições" (La Révolution Française, ch.
campanha antifascista, cuja bandeira se 1968 em Paris, quando um jovem, que tentava nessa sua obra clássica, fornece elementos para I, "L'Ancien Régime").
desfraldava em defesa da democracia. Note-se atirar alguém pela janela, ao ser advertido de os que sustentam a tese de estar a Revolução Enquanto o rei concentra maior soma de po-
que o nazismo alemão, apesar de todas as suas que estava lidando com uma criatura humana por assim dizer incubada no Antigo Regime. deres, multiplicando-se suas atribuições, a no-
implicações contra o comunismo, não impe- retrucou: "Não é um homem, é um fascista" (C~ Há, sem dúvida, diferenças profundas, mas há breza vai perdendo a função social de servir
diu a aliança da Alemanha hitlerista e da Rússia n'est pas un homme, c'est unfasciste). pontos de aproximação incontestáveis. Cum- (da qual se originou o aforismo noblesse oblige)
soviética com o pacto Ribbentrop-Molotov V. Anticomunismo - Direitas e Esquerdas - Fas- pre notar que o Estado moderno, centralizador e há nobres que se transferem para a corte, aí
(1938), de que resultou a partilha da Polônia cismo - Pacifismo - Totalitarismo. e burocrático, tendendo a sufocar a esponta- levando uma vida fácil e fútil, afastados de suas
entre o Reich e a URSS. Aliás, o nacional-socia- neidade das autonomias sociais, se veio consti- terras, onde antes estavam sempre em contacto
lismo, pela sua própria ideologia, de cunho ANTIGO REGIME tuindo desde a Renascença, e a própria expres- com os camponeses e os artesãos. Versailles
acentuadamente coletivista e totalitário, muito Expressão usada principalmente na França são -stato- foi empregada, com o significado torna-se um pólo de atração, a nobreza cortesã
se aproximava de certas concepções do comu- (Ancien Régime) para designar o período histó- de sociedade política organizada, pela primei- não é sequer pálida imagem do que fora a aris-
nismo soviético. Em sentido contrário, Oliveira rico que precedeu a Revolução de 1789. Se o ra vez, por Maquiavel (1469-1527) em IIPrinci- tocracia como poder militar, emparelhando-se
Salazar (1889-1970) profligou o totalitarismo, seu termo final está, assim, nitidamente assina- pe. Ao lado da "razão de Estado" maquiavélica, com a nobreza da toga, constituída por bur-
sendo assim mesmo o Estado Novo em Portu- lado, o mesmo não se pode dizer do seu iní- o direito romano na interpretação dos legistas gueses nobilitados, como Colbert (1619-1683),
gal - obra principalmente sua - acoimado cio. Não se trata apenas de uma sucessão cro- e o novo conceito de soberania, elaborado por o Controlador das Finanças de Luís XIV, e ou-
de fascista. Tornou-se, destarte, o antifascismo nológica, mas sobretudo da maneira de ser da Bodin (1529-1596), serviram de subsídios ideo- tros tantos, que fazem concorrência à nobreza
expressão da cruzada democrática contra o to- sociedade e de sua estruturação política. Trans- lógicos para o absolutismo nascente. Mas a da espada e se destacam na administração pú-
talitarismo, que se preconizou sobretudo por formações - nos costumes, nas instituições e monarquia limitada dos tempos medievais - blica. Começa a ascensão da burguesia, cujo
ocasião da organização das Frentes Populares nas próprias idéias - faziam-se sentir desde a do feudalismo, das corporações, das comunas triunfo a Revolução de 1789 assinalará.
na França e na Espanha, alcançando grande os últimos séculos da Idade Média; foram-se - deixara seus traços. E quando a monarquia O último século do Antigo Regime é aquele
repercussão mundial com a guerra espanhola acentuando cada vez mais, a partir dos Desco- absoluta, na França, atinge o ponto culminan- que, não só cronologicamente, mas também
de 1936. Em meio a tal confusão, o antifascismo brimentos marítimos, da Renascença e do pro- te, no reinado de Luís XIV (rei, de 1643 a 1715), quanto à formação das mentalidades, mais o
era um movimento heterogêneo, e em seu nome testantismo, sem que, no entanto, houvesse uma vemos que ainda subsistem algumas autono- aproxima do mundo que vai surgir com a Re-
se reuniam, nas Brigadas Internacionais da ruptura na continuidade histórica, prevalecen- mias daquelas que haviam sido tão florescen- volução. É o século do iluminismo, da revolu-
tes e vigorosas outrora. Assim, em 1668, de- ção intelectual que precede a revolução políti-
Espanha, comunistas de obediência soviética ' d~ por isso mesmo, certas características da
"
pois da conquista do Franco Condado, Luís XIV ca, do despotismo esclarecido e da imensa rede
ANI'lGO REGIME -28- ANI'l-sEMJT]SMO -29- ANTI-SEMlTISMO
ANTI-SEMmSMO

de lojas maçônicas e sociedades de pensamen- dor Funck-Brentano (1862-1947): "A França era vista marranos (judeus) e mouriscos (muçulma- da raça ariana sobre a semita. Com os anos da
to estendidas pela França e pelos outros países uma federação de mil e urna repúblicas, cujo nos). República de Weimar, a preponderância
da Europa. Estes elementos se conjugam para único vínculo era o respeito de todos os cida- No ambiente protestante de alguns países alcançada pelos judeus suscitou reação e deu
as grandes transformações que se vão seguir e dãos pela coroa. De um golpe, a coroa foi jo- europeus - não obstante o anti-semitismo de ensejo a condições propícias ao triunfo do na-
começam a fazer sentir o seu efeito na socieda- gada por terra. E, por toda a Nação, foi a de- Lutero (1483-1546) - os judeus tiveram opor- cional-socialismo de Adolf Hitler (1889-1945),
de do Antigo Regime. As idéias da "filosofia sordem, o sobressalto. Todos os excessos se tunidade para atuar nas finanças e na diploma- que fez deflagrar violentíssimo anti-semitismo,
das luzes" - de onde brotarão os princípios tornaram possíveis, faltando os meios para cia, como se deu nos Estados Alemães, sendo visando à extirpação total da raça hebraica. Mein
da Revolução - são propagadas por aquelas reprimi-los. O devotamento ao rei era, no Anti- que a Holanda, pela sua hostilidade à Espanha, Kampf (Minha Luta), livro de Hitler que teve
lojas e sociedades na aristocracia; conquistam go Regime, o segredo de todo o governo, toda recebia os refugiados israelitas vindos da pe- 906 edições até 1944, difundiu largamente o
alguns monarcas - os "déspotas esclarecidos" a administração, toda a vida nacional. E foi as- nínsula hispânica e lhes proporcionava um re- anti-semitisrno. A maior comunidade judaica
- e chegam a penetrar no Clero, já infiltrado sim (por faltar esse devotamento) que se tor- gime de igualdade política negada alh~res. do mundo é a dos Estados Unidos, onde tem
de jansenismo e de galicanismo, heresias que naram necessárias a dominação do terror e a Com a Revolução de 1789, em que os Judeus havido manifestações anti-semitas de pouca
fazem perder a fidelidade a Roma. Esta crise obra legislativa de Napoleão" (La Bastille et ses tiveram grande influência através da maçona- monta, sendo de lembrar o livro O judeu in-
religiosa se dá na França, mas noutros países a secrets, Tallandier, Paris, pp. 282-283). ria, foi-lhes estendida a garantia dos direitos ternacional de Henry Ford (1853-1947), o fa-
quebra da unidade espiritual é ainda mais pro- assegurada aos cidadãos franceses. Este novo moso expoente da indústria automobilística, li-
funda em conseqüência do protestantismo e V. Absolutismo - Centralização - Despotismo
status, concedido também por outros gover- vro esse traduzido no Brasil e editado pela Livraria
do regalismo (ingerência do poder real no go- esclarecido - Iluminismo - Revolução Francesa.
nos, permitiu-lhes influir sempre mais na vida do Globo de Porto Alegre em 1931. A década
verno da Igreja e no seu ensino), nisto se dife- política, econômica e cultural. Novas manifes- de 30 registrou no Brasil um despontar de anti-
renciando nitidamente, o Antigo Regime, da ANTI-SEMITISMO
tações de anti-semitismo apareceram então, semitismo, que foi de breve duração, tendo o
Cristandade medieval. Sentimento hostil em relação aos judeus, que como se deu na Rússia, na Polônia, no Império escritor Gustavo Barroso (1888-1958), líder
O Antigo Regime viu florescer o classicismo, se tem exteriorizado, ao longo da história, de Austro-Húngaro, na Romênia e no Império Tur- integralista , versado aspectos da questão nos
o gosto pelos modelos antigos, gregos e roma- diversos modos. No mundo antigo, dispersan- co. Na Rússia, desencadearam-se com violên- livros Brasil Colônia de Banqueiros e História
nos, que despertara na Renascença, e que nos do-se por várias províncias do Império Roma- cia os pogroms ou massacres populares. Em Secreta do Brasil, além de uma edição comentada
séculos seguintes começou a ter grande influên- no, antes mesmo da destruição de Jerusalém vários países aos judeus se acusava de susten- dos controvertidos Protocolos dos Sábios de Sião
cia no ensino ministrado pelos colégios. Isto se por Tito (70 d.C.), os judeus entraram em con- tarem o capitalismo internacional e também, (1936). Mais persistentes, na mesma linha de
manifesta nas letras, nas artes e nos domínios flito com algumas populações. Dada a liberda- paradoxalmente, de fomentarem revoltas na pensamento, têm sido autores argentinos e
do pensamento. Perde-se assim o vjgor da for- de aos cristãos pelo Edito de Milão (313), estes classe operária. mexicanos.
mação cristã - não obstante esta se encontre trataram de se defender dos que haviam sido Desde os últimos anos do século XIX, as ten- A perseguição hitlerista, confinando judeus
em alguns dos grandes clássicos, como Corneille os seus primeiros perseguidores desde o tem- dências anti-semitas na França foram acentua- em campos de concentração, recorrendo à cri-
(1606-1684) - , e as mentalidades vão-se im- po do protomártir Santo Estêvão e da conver- das pelo nacionalismo, sendo que, entre os minosa prática da esterilização, fazendo-os
pregnando de um naturalismo, em certo senti- são de São Paulo (século 1). Os cristãos viam católicos, elas derivavam principalmente das morrer em fornos crematórios só pelo fato de
do mais acentuado que o dos clássicos antigos, diante de si o povo deicida, que, rejeitando a relações dos judeus com a Maçonaria e de sua terem nas veias sangue semita, tudo isso en-
que viviam num ambiente sacralizado pelos Cristo e esperando ainda o Messias, seguia o política anticlerical. Devem ainda ser levados cheu de horror o mundo e provocou uma deci-
deuses e pelos mitos, ao passo que os clássi- Antigo Testamento com os comentários rabí- em conta escândalos financeiros, como o fa- dida repulsa ao anti-semitismo. Vencida que
cos modernos seguem padrões racionalistas. nicos reunidos no Talmud, nas suas duas reda- moso caso do canal do Panamá, com a partici- foi a Alemanha nazista, na Segunda Guerra
Assim se foi preparando a secularização da ções, a de Jerusalém e a de Babilônia. Este pação de elementos israelitas. Edouard Drumont Mundial (1939-1945), os judeus, antes vítimas
sociedade, operada após a Revolução, e con- livro lhes fornecia uma dupla norma de (1841-1917), autor de um livro de grande re- de furor persecutório, passaram a desfrutar de
tribuindo para o fortalecimento do poder do moralidade: a que se aplicava às relações dos percussão, La France juive, fundava em 1892 o situação das mais favoráveis, sendo recebidos
Estado e o crescimento de suas atribuições, uma judeus entre eles mesmos e a concernente às jornal anti-semita La Libre Parole. Mas foi so- com simpatia em muitos ambientes, o que lhes
vez emancipado o poder político da submis- relações dos judeus com os goim, ou pratican- bretudo o alfaire Dreyfus, de 1894 a 1906, que veio dar oportunidade para galgar novamente
são a uma ordem transcendente. Além disso o tes de outros cultos. Assim, os judeus, que logo provocou forte surto de anti-semitismo. O ca- posições de influência. Assim, o anti-semitismo
espírito clássico, propenso à regularidade,' à começaram a destacar-se nas atividades comer- pitão Alfred Dreyfus (1859-1935), de uma fa- de Hitler redundava, no pós-guerra, em efeitos
uniformização e às grandes sínteses, favorecia ciais e, mais tarde, nas bancárias, praticavam a mília alsaciana de origem israelita, condenado exatamente contrários aos visados pelos de-
as construções teóricas afastadas da história e usura com os cristãos. Daí resultou, como de- por espionagem e transmissão de segredos de sígnios que o haviam suscitado. Acresce que
do direito costumeiro. Eis por que Taine (1828- fesa e reação, uma primeira manifestação de Estado ao governo alemão, veio a ser posterior- os judeus conseguiram também realizar o al-
1893), em Les origines de la France contempo- anti-semitismo entre os povos da Cristandade. mente inocentado; mas o rumoroso processo e mejado sonho de retorno à Palestina de seus
raine, ao condenar o apriorismo político das Na Idade Média, os judeus eram segregados sua revisão acenderam polêmicas e dividiram antepassados, sendo aí restabelecido, em 1948,
concepções de 89, estende sua crítica ao espí- das populações das cidades onde residiam, sen- a França em dois campos ante uma questão o Estado de Israel, sob o patrocínio da ONU.
rito clássico, racionalista e centralizador, domi- do confinados nos bairros chamados ghettos e que transcendia a da responsabilidade pessoal Era o triunfo do sionismo, com a criação do lar
nante na época de Luís XIV. sujeitos a usar um traje distintivo. De alguns do acusado para implicar uma tomada de posi- nacional preconizado pela Declaração Balfour
Quanto à centralização estatal, importa ob- países foram expulsos, como ocorreu na Espa- ção em face do destino nacional. em 1917. Mas o despojamento das populações
servar que cresceu muito na França depois da nha, onde o Tribunal do Santo Ofício, reorga- Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), árabes, radicadas na parte da Palestina que veio
Revolução, sendo que a sociedade do Antigo nizado por iniciativa dos Reis Católicos, na Alemanha, que sofria as conseqüências da a formar o Estado judeu, fez surgir uma série
Regime conservava ainda uma estrutura des- Fernando e Isabel (séculos XV e XVI), se desti- derrota, propagou-se o anti-semitismo de ins- de problemas com as nações vizinhas, dando
centralizada, assim posta em foco pelo historia- nav\. a manter a unidade religiosa, tendo em piração racista, apregoando-se a superioridade origem a conflitos bélicos, a guerras civis e ao
APAKIHEID
-31-
ANTROPOCENTRISMO -30- APARELHO APARELHO

que os direitos de todos fossem exercitados em


ativos, mais determinados, mais hábeis, mais obs-
terrorismo. Dessa forma, entre os povos árabes homem é a medida de todas as coisas". Mo- separado. Para esse fim, o governo sul-africa-
tinados, mais astutos, mais ousados, mais ex-
se difundiu o anti-sionismo. Por sua vez, a Rús- dernamente, essa "medida" variará conforme no promulgou vários diplomas legais: Bantu 's
perientes, mais carismáticos, mais demagogos,
sia soviética veio a assumir a posição contra o as concepções do homem que as filosofias, as Education Act (lei do ensino banto), Native
mais endinheirados. Esse grupo converte-se ra-
sionismo, procurando, na sua expansão impe- doutrinas e as ideologias virão a formular, se- Urban Areas Amendment Act (lei das zonas
pidamente em oligarquia, cujo poder decide e
rialista, tirar partido da aliança com os povos jam elas positivistas, iluministas, marxistas ou urbanas nativas), Prohibition of Interdicts Act
comanda, seleciona e discrimina candidatos. Na
árabes. Note-se que, naquele país, os judeus, quaisquer outras. Nelas, de alguma forma e (lei de defesa das interdições), Group Areas Act
verdade, o aparelho, embora ostensivamente a
vítimas dos grandes pogroms do início do sécu- embora sob ângulos diversos, o homem é sem- (lei das zonas dos grupos étnicos), Criminal
lo, se haviam beneficiado com a revolução de serviço do partido, está permanentemente sob
pre o pólo central de tudo, princípio e fim de Procedure Act (lei de procedimento criminal) e
1917 (em que tiveram participação decisiva) e, o domínio de um grupo oligárquico - hoje,
si mesmo. Daí a idéia de uma independência Passport Regulations Act (lei de regulamenta-
com a implantação do bolchevismo, vieram a um, outro, amanhã - , conforme a força pre-
absoluta do homem, inteiramente desvinculado ção dos passaportes). Essa legislação vinha
por isso mesmo, de qualquer ordem moral co~
ocupar postos importantes de direção do novo dominante dentre as facções intrapartidárias em
impedir que brancos e não brancos tivessem
regime; nos primeiros anos, a quase totalidade fundamento transcendente. Foi esse antropo- luta. vida em comum, existindo escolas para bran-
da alta administração soviética era constituída O aparelho comunista, que funciona nos
centrismo que inspirou muitos humanistas da cos e escolas para não brancos, o mesmo acon-
por judeus, entre os quais Trotski (1877-1940), países não dominados pelo comunismo, pos- tecendo com hospitais, lojas, meios de trans-
Renascença européia, caracterizada por Jacob
cujo verdadeiro nome era Bronstein e que rom- sui características próprias e tem por finalidade porte, áreas residenciais, etc. 87% da área
Burckhardt (1818-1897), em sua obra clássica
peu com Stálin (1879-1953), sendo assassinado a agitação das massas operárias com vistas à geográfica do país foi reservada aos brancos e
sobre a cultura da Renascença na Itália - Die
no México. A ditadura stalinista, que promoveu escalada do poder. Sendo profissionais da Re- 130/0 aos não brancos, habitantes das regiões
Kultur der Renaissance in Italien - como a
"exaltação do indivíduo". Na filosofi~ moder-
muitos expurgos, voltou-se também contra os volução, seus componentes, por atuarem em bantos (os bantus homelands, também conhe-
israelitas, ao mesmo tempo em que episódios tempo integral, são remunerados pelo Partido, cidos por bantustan). Os não brancos só ti-
na, essa tendência encontrou um suporte
ocasionais de anti-semitismo indicavam que este estão sujeitos a uma disciplina rígida e condu- nham direitos políticos dentro dessas áreas que
metafísico no subjetivismo idealista a partir de
tendia a recrudescer em países da Europa ori- zem com pertinácia a tarefa de doutrinação e lhes estavam reservadas (os homelands).
Descartes (1596-1650), culminando em Kant
ental, onde tinha muitas raízes históricas. Anti- adestramento das bases e sua expansão. Uma Nos anos 70, a República da África do Sul
(1724-1804), e tendo profundos reflexos nas
semitismo e anti-sionismo, embora coexistam vez tomado o poder, o aparelho do Partido concedeu aos habitantes dos homelands o di-
ideologias políticas.
em alguns dos que os professam, não se con- Comunista transforma-se em uma nova classe reito de se tornarem independentes, podendo
V. Humanismo - Pessoa. dirigente, que tem nas mãos os órgãos do Esta-
fundem, mesmo porque os árabes, entre os quais se organizar com governo autônomo, tanto sob
está a força anti-sionista mais atuante e agressi- do, a chefia das repartições e empresas, a dire- o aspecto legislativo quanto administrativo.
APARELHO ção da política, da economia, da cultura, e dos
va, são semitas. Cumpre também nã.o confun- Aqueles 130/0 da área geográfica do país foram
dir o anti-semitismo político ou de Estado com Quadro de pessoal que, no âmbito dos par- demais setores da sociedade. Na ex-URSS, como divididos em 10 territórios, correspondentes a
o racial. Casos há, no entanto, em que ambos tidos, se dedica profissionalmente às ativida- de resto nos outros países comunistas todos, a 10 "nações". Três deles - o Transkei, o Bophu-
estão juntos, como ocorreu na Alemanha de des destes, dinamizando-lhes a organização classe dominante sempre foi o aparelho do thatswana, o Venda - usaram do direito à in-
Hitler. interna e implementando-lhes a ação prose- Partido e do governo. dependência (que, no entanto, não foi reco-
Assinale-se, por fim, que, em 25 de março litista. Na democracia de massas, o aparelho é V. Nomenklatura - Nova classe - Oligarquia nhecida por nenhum país do mundo, à exceção
de 1928, num decreto do Santo Ofício, a Igreja o motor que movimenta o processo de alicia- da África do Sul), recusando-se os demais sete
- Partidocracia.
condenou odium illud quod vulgo "antisemi- mento de eleitores, utilizando os mais variados a proceder da mesma forma. Os bantos - que
tismi" nomine nunc significari solet, aquele recursos a fim de somar votos. Para funcionar APARTHEID vivem, na sua quase totalidade, em primitivíssimo
ódio que vulgarmente se costuma agora desig- a contento, o aparelho deve contar com inte- estado tribal, nas regiões reservadas - , pobres
nar pela expressão "anti-semitismo". Também grantes aplicados ao trabalho em regime de Palavra oriunda do africâner-língua fala-
da pelos africânders(descendentes dos bôeres, de recursos, diferentemente dos 870/0 das áreas
a Declaração Nostra Aetate, do Concílio dedicação exclusiva e estritamente obedientes restantes do território sul-africano, extremamente
Vaticano II, promulgada em 28 de outubro de a esquemas e normas estabelecidos. Em vista basicamente holandeses), na África do Sul - ,
ricas em ouro e diamante, além de altamente
1965, descartando a justificativa religiosa para disso, impôs-se a necessidade de profissionalizar que significa separação e caracteriza a política
o anti-semitismo, proclama o seguinte: "Embo- a atividade partidária, cuja eficácia também veio segregacionista praticada naquele país. Ao industrializadas, tendo expressão política qua-
empregar esse termo, quando das eleições de se nula, acabavam formando mero estoque de
ra as autoridades dos judeus com seus segui- a exigir a implantação de uma estrutura buro-
dores tenham urdido a morte de Cristo (cf. J o crática sólida dentro das agremiações políticas. 1948, que o tornaram vitorioso, o Africander mão-de-obra para as atividades econômicas da
19, 6), no entanto, o que em sua paixão foi Toda essa montagem fez surgir a máquina par- Nationalist party propôs a adoção da política República.
do apartheid, que veio a implantar, e se define Segundo alguns, o apartheid veio a ocorrer
feito não pode ser imputado nem indistinta- tidária, que ganha dinamismo na razão direta menos por razões de caráter racial, em sentido
mente a todos os judeus que então viviam, dos meios que tem à disposição. Nesse senti- como "desenvolvimento separado das raças".
nem aos judeus de hoje" (nº 4). do, as modernas técnicas de propaganda - Na África do Sul, há cerca de 30 milhões de estrito, do que por força dos grandes desníveis
habitantes, 750/0 dos quais são negros, 150/0 bran- culturais entre nativos e europeus, que se fo-
v. Maçonaria - Racismo. cujos instrumentos os expertos sabem manejar
cos, 70/0 mestiços e 30/0 indianos. Segundo a ram cristalizando desde a mística segregacionista
com extrema habilidade - realizam o trabalho pregada pelos protestantes holandeses. Dife-
ANTROPOCENTRISMO filosofia de governo do Partido Nacionalista, a
de condicionar ou induzir a opinião dos eleito-
política do apartheid objetivava "o desenvolvi- rentemente da ação civilizadora e, por isso mes-
mento paralelo e simultâneo de cada grupo mo, a~similadora, de portugueses ~ espanhóis,
Concepção de vida em que o homem é con- res, que, concomitantemente, são trabalhados
siderado o centro do universo, não só pela sua mais de perto pelo corpo a corpo da captação
étnico, sem interferências e sem conflitos", pois em todas as partes do mundo, na Africa do Sul
dignidade pessoal mas especialmente como das vontades, promovido pelo aparelho. Em sempre se fecharam drasticamente os canais
os diferentes grupos raciais "devem evoluir na
causa final de todas as coisas. geral, o aparelho é domin~do por pequeno gru- de comunicação inter-racial, mediante instru-
sua própria esfera". Pretendia-se, desta forma,
Já no sécul? V a.C., Protágoras dizia que "o po, tntro ·do partido. E o grupo dos mais
APÁT.R11JA -32- APODOS POÚl1COS BRASILEIROS APODOS POÚl1COS BRASILEIROS -33- APODOS POÚl1COS BRASILEIROS

mentos legais rígidos, avessos a qualquer pos- trono do Brasil. Por isso, também eram conhe- JUjuba, em Niterói. Daí a origem do nome. caso, é ser equilibrista.
sibilidade integracionista. cidos como restauradores, defendendo essa idéia LUZIA PELEGO
A partir de 1986, ante a pressão internacio- especialmente no jornal "O Caramuru", donde Alcunha lançada sobre os liberais extrema- Alcunha aplicada a figuras ligadas ao Minis-
nal e os ensaios de convulsão interna, começa- se originou a adoção da alcunha. dos que, rebelando-se nos começos do Segun- tério do Trabalho ou aos meios empresariais,
ram a ser revogadas as leis discriminatórias. O No Rio Grande do Sul, os republicanos de do Reinado (1840-1889), foram derrotados pelo que atuam nos sindicatos de trabalhadores vi-
regime segregacionista chegou ao fim em 1991, 1835 (Guerra dos Farrapos) denominavam então Barão de Caxias (1803-1880) em comba- sando a proteger interesses políticos ou patro-
quando foram abolidas as últimas leis do caramurus, por extensão, as forças legais do tes havidos na localidade de Santa Luzia do nais. Em sentido próprio, pelego é a manta de
apartheid. Mas só em 8 de maio de 1996, foi Império que os combatiam. Rio das Velhas, Minas Gerais, em 1842. couro e pêlo de carneiro com que o cavaleiro
aprovada a nova Constituição do país, que pôs Caramuru foi a alcunha que os índios tupi- amacia a sela. Na vida sindical, o pelego tam-
MARAGATO
fim definitivamente ao regime racista. Uma nova I}ambás deram ao náufrago português Diogo bém "amacia" o comportamento e decisões da
África do Sul, doravante, deverá enfrentar gran- Alcunha dos que, no Rio Grande do Sul, for-
Alvares que, em 1510, alcançou o litoral da entidade.
des escolhos, para encontrar os caminhos da Bahia. Em língua tupi, o termo significa "filho mavam nas fileiras dos revolucionários que, na
PICAPAU
paz interna, especialmente no que se refere à do trovão" ou "dragão do mar". Revolução Federalista (1893-1895), lutavam
Alcunha que, no Rio Grande do Sul, os mara-
fonnação de uma nação a ser integrada por CARCOMIDO
contra as forças de Júlio de Castilhos (1860-
gatos aplicavam aos governistas. Vindos do
negros, divididos em várias tribos, e brancos, 1903). Maragato passou a ser sinônimo de fede-
Alcunha depreciativa aplicada pelos revolu- Uruguai, ao cruzarem a fronteira, os maragatos
minados por bolsões de extremistas ou separa- ralista. Os federalistas estavam sob a liderança
cionários de 1930 aos políticos da República portavam um distintivo em que, fazendo alu-
tistas, sem esquecer os mulatos e os indianos. de Gaspar da Silveira Martins (1834-1901). Nos
Velha (1889-1930), período em que as oligar- são ao tempo que permaneceram no estran-
Soma-se a isso a tendência à adoção de fórmu- habitantes da comarca de Maragatería, na pro-
quias do Partido Republicano dominavam, geiro, havia a seguinte divisa: "sete meses de
las políticas abstratas, vazadas em utopismos víncia de León, Espanha, se encontram as ori-
incontrastáveis, o cenário político brasileiro, ausência; picapaus, tenham paciência ... "
ideológicos e fomentadoras de crises e colap- gens do contingente de maragatos que, emi-
manipulando as eleições, feitas a "bico de pena" POIACA
sos institucionais. grados para o Uruguai, se localizaram na cidade
- as famigeradas "atas falsas" - , com o voto Alcunha dada à Constituição brasileira de
de San José, onde a denominação prevalece.
V. Negritude - Racismo. a descoberto, o eleitorado fantasma, os "cur- 1937 por ter-se inspirado na Constituição da
Quando os federalistas, refugiados no Uruguai,
rais eleitorais", o "voto de cabresto". Quando, Polônia dos tempos do Marechal Pilsudzki
APÁTRIDA invadiram o Rio Grande do Sul, em 1893, in-
a despeito de todos esses estratagemas e frau- (1867-1935). Pontes de Miranda (1892-1979),
corporaram às suas forças um grupo de uru-
Aquele que não tem nacionalidade, seja por- des, os resultados das urnas não satisfaziam os nos seus Comentários à Constituição, realça a
guaios' originários daquela região. Eram os
que, naturalizando-se, perdeu a de origem, e, interesses da oligarquia dominante, recorria-se semelhança de ambas em alguns pontos, parti-
maragatos, que se destacaram pela valentia.
depois, acabou privado da adquirida,·seja por- ao expediente da "verificação de poderes", me- cularmente no tocante à separação de poderes
Maragato acabou por se denominar todo parti-
que, em virtude de punição, teve decretada a diante o qual a Câmara e o Senado apreciavam e à delegação da função legislativa.
cipante da revolução federalista de 1893. Aos
perda de sua nacionalidade, sem que isso cor- a validade ou não da apuração dos votos em SAQUAREMA
maragatos se devem a bombacha, o lenço ver-
responda à aquisição de outra. tal ou qual distrito eleitoral, como autorizava Alcunha pela qual eram conhecidos os mem-
expressamente o parágrafo único do art. 18 da melho, o colete, o barbicacho, próprios da indu-
V. Nacionalidade. bros do Partido Conservador, durante o Impé-
Constituição de 1891. Era este o momento de mentária gaúcha.
Mais tarde, também os integrantes da Alian- rio. A origem do apelido prende-se ao fato de
APODOS POLÍTICOS BRASILEIROS efetuar a "degola" de mandatários desafinados o Visconde de Itaboraí (1802-1872), prestigio-
com o poder oligárquico que, desde 1889, co- ça Libertadora (1923), chefiada por Assis Brasil
A história e a vida do povo brasileiro, na sua so líder conservador, possuir uma propriedade
mandava a política brasileira, fazendo valer (1857-1938), em oposição ao governo estadual
trajetória, registram episódios, em que, por ve- rural, a fazenda Monte Alegre, no município
invariavelmente a própria vontade no Legisla- de Borges de Medeiros (1863-1961), denomi-
zes, as partes envolvidas ou as circunstâncias fluminense de Saquarema. Tornou-se famoso
tivo e no Executivo. navam-se maragatos.
ocorrentes acabam marcadas por uma palavra, o dito inspirado pela ausência de diferencia-
FARRAPO MARMI1EIRO ção programática dos partidos Conservador e
um apodo, que as tipifica de forma indelével. Termo na verdade cunhado por partidários
Alcunha depreciativa que os imperiais - as Liberal: "Nada mais parecido com um saqua-
Aqui registramos alguns desses apodos que de Getúlio Vargas (1883-1954), mas cuja cria-
forças do exército leais ao Império - aplica- rema do que um luzia quando no poder."
costumam aparecer nas páginas da história ção foi atribuída a Eduardo Gomes (1896-1981),
política e social do País. vam aos republicanos gaúchos que participa- XIITA
vam da Guerra dos Farrapos, de que resultou a adversário daquele na campanha eleitoral para Alcunha aplicada inicialmente a grupos radi-
CARAMUJO a presidência da República, em .1950, a fim de
República de Piratini (1835-1845). A alcunha cais do PMDB (Partido do Movimento Demo-
Alcunha pela qual - durante as Regências - que retratava o aspecto carente do soldado incompatibilizá-lo com os trabalhadores, alvo crático Brasileiro) e, depois, a facções do PT
Trinas (1831-1835) - era conhecido o parla- rebelde, quase sempre sem farda - acabou do epíteto, dado o fato de comparecerem ao (Partido dos Trabalhadores) que, à semelhan-
mentar que, na hora de se definir, faltava às tornando-se legenda honrosa, dada a bravura trabalho portando suas refeições em marmitas. ça da facção islâmica denominada xiita (xia
sessões. dos combatentes. Esse lance demagógico - como tantos que significa partido, cisão), são useiros e vezeiros
CARAMURU jURUjUBA ocorrem em época de eleições - influiu deci- em adotar conduta de renitente confronto.
Alcunha que, durante a Regência Trina Per- Alcunha pela qual eram conhecidos, duran- sivamente no resultado do pleito. XIMANGO
manente (1831-1835), era aplicada a integran- te o período regencial (1831-1840), os compo- MAROMBISTA Também com a grafia chimango, era a alcu-
te do grupo político chefiado por José Bonifácio nentes do grupo político que reivindicava a Alcunha pela qual - durante as regências nha aplicada aos liberais moderados por parte
de Andrada e Silva (1763-1838), que, depois implantação no país de uma estrutura federalista trinas (1831-1835) - era conhecido o político de seus adversários, os caramurus (restaurado-
da abdicação (1831) de D. Pedro I (imperador, radical. Num dos levantes desencadeados, esse que não se definia nem pelos moderados nem res) e os jurujubas (federalistas extremados).
de 1822 a 1831), pretendia o retorno deste ao
,
grupo foi arrebanhar reforços na praia de Ju- pelos exaltados. Marombar é equilibrar-se; no Nas revoluções de 1923/1926, no Rio Grande
APOUTICISMO -34- APRISMO -3)- ARBITRAGEM INTERNACIONAL
APRISMO

do Sul, os soldados das forças legais e os civis frágio universal. Esse irrealismo radical, versas nações indígenas, não obstante seus di- excomunhão, o interdito e o "desligamento de
favoráveis ao governo também eram apelida- institucionalizado na representação política ferentes estágios culturais, configurados em fidelidade" - de grande eficácia na época.
dos de ximangos. moderna, desencoraja a participação efetiva e várias manifestações: incaísmo (Peru), caribismo Em 1493, quando Cristóvão Colombo (1451-
necessária, além de fomentar e expandir a po- (Venezuela), aztequismo (México), siboneyísmo 1506) retornou de sua famosa viagem, supon-
APOLITICISMO (Antilhas), araucanismo (Chile), :tc.. Desta for-
liticagem pelo fato de proporCIonar ampla aber- do ter encontrado um novo caminho marítimo
Alheamento ao mundo da política, ditado por tura a aventureiros, oportunistas e carreiristas. ma, o aprismo buscava a prevalencla ~as c?n: para as Índias, acenderam-se as disputas entre
razões diversas: ignorância, indiferença, como-
V. Democracia - Participação - Representação cepções indigenistas so~r~ a ~~ncepç~~ cnsta Portugal e Espanha sobre os direitos às terras
dismo, inapetência, ceticismo, entre outras. Há política. da vida, trazida pelos mlSSlonanos catohcos, e deparadas no "mar Oceano". Pela bula Inter
aqueles que se marginalizam da vida política cuja suplantação era esperada.. . coetera, a segunda, emitida por Alexandre VI
ou, simplesmente, das coisas da política, por APRISMO Por sua postura ideológica, o apnsmo atralU (Papa, de 1492 a 1503), alteravam-se, em favor
desconhecimento maior ou menor de tudo adeptos liberal-progressistas (espe.cialmente os da Espanha, os termos da primeira Inter coetera,
Movimento político e cultural de raízes po-
quanto envolve a coisa pública. Em geral, são pu lista e indigenista, criado em 1924, no Peru, fascinados pelas idéias rousseaunlanas do bon pela qual Calisto IH (Papa, de 1~5? ~ ~458),
desinformados, involuntariamente ou não. Dis- por Víctor Raul Haya de la Torre (1898-1979), sauvage) e marxistas (dado o caráter de ant~­ concedera, em 1456, a Portugal a )unsdlçao so-
tinguem-se dos indiferentes, que se situam numa que o liderou enquanto viveu, tendo tido difu- gonização da práxis aprista: .an.tii~nque, antt- bre as ilhas do Oceano, as zonas desde os ca-
posição abstencionista em relação a tudo quanto são em alguns países centro-sul-americanos. O hispânico, acristão, senão antlCr~stao). Acabou bos Bojador e Não, por toda a Guiné, e, alé~,
não lhes afete os interesses meramente aprismo - termo derivado da sigla APRA - por ganhar mais terreno, no apn~mo, o ~e~s~­ "até os Indos". Discordou Portugal dessa decl-
privatísticos. O indiferente é irmão gêmeo do Alianza Popular Revolucionaria Americana- mento marxista, cuja interpretaçao da hlstona
são e, de seguida, foi editada a terceira Inter
comodista, que aborrece qualquer ruptura com da América foi endossada expressamente por
funda suas idéias no indigenismo, considerado coetera, chamada "bula da partição", que divi-
o egocentrismo. E, se indispensável for, essa Haya de la Torre, conforme artigos publicados
expressão da autêntica cultura americana, ela- dia as "ilhas e terras firmes achadas e por achar,
ruptura, imposta pelas circunstâncias, será tão em 1949, 1951 e 1954, na revista Cuadernos
borada pelo ameríndio autóctone, ou seja, o descobertas ou por descobrir", mediante "uma
ocasional quanto possível, e destinada simples- homem pré-colombiano, ou o que dele subsis-
Americanos. Para os indigenistas, os europeus
linha desde o Pólo Ártico, a saber do Setentrião,
mente a proteger de ameaças ou salvar de aten- são meros exploradores dos índios ou mest~­
te tanto nas comunidades indígenas quanto fora até ao Pólo Antártico, a saber o Meio-Dia", c. .. )
tados o conforto de um estilo de vida aburgue- delas. Haya de la Torre e seus adeptos empre- ços. A doutrina aprista pretendia levar o C~){~tt­
nente à implantação de uma estrutura SOCIO- "a qual linha dista de qualquer das ilhas que
sado. Não é este o caso do inapetente, que gam o termo indoamérica para caracterizar a
política confederativa, i~formada ~el? vulgarmente são chamadas dos Açores e Ca?o
pode até tomar conhecimento da vida política, interpretação cultural da América, baseada
indigenismo, reinterpretado a luz do~ ~nn~l­ Verde cem léguas para o Ocidente e o MelO-
mas carece de disposição ou paladar para qual- exclusivamente no índio, ou que considera tão-
pios marxistas e a desembocar na soclahzaçao Dia", ficando a parte ocidental para a Espan.ha
quer atitude participativa. Há, porém, um somente a primazia do índio sobre quaisquer
dos meios de produção. e a oriental para Portugal. Inconformado, aln-
apoliticismo de outra natureza: o que deflui da outras etnias, especialmente as não-autóctones.
Mais forte no Peru - ao contrário do ocorri- da com os termos dessa bula, Portugal protes-
repugnância e conclui no ceticismo. Repugnân-
cia que deita raízes nas proverbiais imposturas
Essa interpretação conclui que o índio é o ver-
do no Paraguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, to~ energicamente junto à Santa Sé e à Espanh~.
dadeiro americano, sendo estrangeiros não só Sobrevieram novas negociações, que conclul-
do farisaísmo partidário, na renitente demago- todos quantos entraram no continente desde Equador e Guatemala, onde ~e:e c.ert~ .per:e-
gia das campanhas eleitorais, no domínio tração mas nenhuma força pohttca slgnlflcattva ram no Tratado de Tordesilhas, de 7 de junho
as Descobertas mas também os seus descen- de 1494, pelo qual se fixou "a partição ~o .mar
oligárquico das facções políticas, no grotesco dentes. Dentre os estrangeiros, os norte-ameri- - o aprismo, já bastante desfigurado, só em
espetáculo da manipulação das massas pelos 1986 logrou atingir o poder, embora, para tan- Oceano" mediante o traçado de um mendlano
canos vieram a constituir, prioritariamente, o demarcatório a 370 léguas a oeste de Cabo
experts da propaganda, no maquiavelismo en- alvo da oposição radical dos apristas, devido to, utilizasse, ao longo do tempo e indiferente-
cruado dos governos partidocráticos. Tudo isso mente, a via eleitoral ou expedientes golpistas. Verde. Por força desse Tratado, referendado
quer ao caráter dominador do capitalismo ian-
conduz ao ceticismo, gerado não apenas por Presentemente, a APRA está reduzida a uma pela Santa Sé somente em 1506, asse.g~~avam­
que, quer ao American way of life impingido se os direitos de Portugal sobre o terntono bra-
costumeiro esvaziamento ético da atividade po- por forma multivariada. entre as várias correntes partidárias do Peru.
lítico-partidária, mas fundamentalmente deriva- V. Nacionalismo. sileiro, antes mesmo da descoberta "oficial" do
No indigenismo, o aprismo encontrou um
do do fato de todo esse processo fundar-se Brasil.
arsenal de mitos muito eficazes para alimentar
numa filosofia política divorciada da realidade ARBITRAGEM INTERNACIONAL Quando da Primeira Conferência de Paz, reu-
o poder de fogo na luta contra o ianquismo,
da vida humana em sociedade. É insuscetível Forma de apreciação de litígio entre Estados nida em Haia, em 1899, pretendeu-se, sem
apontado como arquiinimigo, dada sua extre-
de despertar a consciência do bem comum uma que, de comum acordo, escolhem um árbitr~ êxito, que a arbitragem internacional fosse ado-
ma influência em todos os setores. Por sua pró-
ordem política em que as pessoas se vêem à ou tribunal arbitral, para dizer com quem esta tada como procedimento obrigatório. Não obs-
pria índole, o ianquismo vinha despertar um
mercê de mitos ideológicos ou do jogo de in- o direito, sujeitando-se as partes ao veredicto tante isso, criou-se, na ocasião, uma Corte Per-
sentimento geral de repulsa, apto a ser instru-
teresses rasteiros, de modo especial no tocante mentalizado na aglutinação e fortalecimento das que for proferido. Em compromisso. escrito, ?S manente de Arbitragem, composta de juristas
a um sistema de representação estruturalmente massas indígenas. A catálise das forças indíge- Estados litigantes caracterizam o objeto da dls- preeminentes, cabendo a cada p~í~ indicar qua-
alienado de suas vidas e do seu dia-a-dia, má- nas, mediante o combate ao ianquismo, permi- córdia definem a competência do árbitro es- tro, dentre os quais os Estados httgantes esco-
xime quanto ao contexto familiar e profissio- tia conduzir a desdobramentos subseqüentes a colhid~ discriminam as normas procedimentais lheriam livremente os árbitros. Já na Segunda
nal. Convocadas periodicamente para votar, estratégia do plano de ação aprista, em relação e prom~tem acatar a decisão final. .,. . Conferência de Paz, realizada em 1907, em Haia,
devem escolher representantes Ontrapartidaria- ao objetivo a alcançar: a restauração atualizada O arbitramento era usual na Idade Medla, onde se destacou a figura de Rui Barbosa (1849-
mente já escolhidos) de uma sociedade anôni- da forma de vida pré-colombiana, cujo substrato quando as nações constituíam ares publica ch~­ 1923) ao sustentar a tese da igualdade entre as
ma, supostamente formada tão-só de indiví- reside no naturalismo indígena. Esse substrato tia na, e o Papa julgava os litígios entre os relS naçõ~s, viu-se frustrada a tentativa de instituir-
duos, que não' passam de meras unidades naturalista - em que pese o culto de grande cristãos. O desrespeito à decisão papal acar- se um tribunal permanente de arbitragem, que
numéricas, sujeitas à aritmética abstrata do su- número de mitos - sempre foi comum às di- retava sanções canônico-jurídicas - como a substituiria a livre escolha dos árbitros, como
"
ARBITRAGEM INTERNACIONAL -36- ARISTOCRACIA ARISTOCRACIA -37- ARISTOCRACIA

anteriormente ficara estabelecido. mas a tirania, a oligarquia e a demagogia, de- mo ideal utópico de plena igualdade e da des- camponeses que os cercavam, o povo estives-
Durante o Império, foi adotado o princípio turpações da monarquia, da aristocracia e da truição dos valores hierárquicos, os regimes se sempre ao lado dos nobres e se levantasse
da arbitragem para resolver a Questão Christie, democracia. Aliás, em Aristóteles, democracia comunistas trouxeram como conseqüência o em defesa dos seus privilégios, suprimidos em
surgida com a Inglaterra, e decidida em favor significa a corrupção da Politéia, termo por ele aparecimento de oligarquias burocráticas. Na Paris pelas leis revolucionárias. O que engran-
do Brasil pelo Rei Leopoldo I, da Bélgica, em usado para designar o regime popular. Dão-se Iugoslávia, por exemplo, demonstrou-o o ex- decia os fidalgos de outrora era a nobreza de
1863. Inscrito, depois, nas constituições re- esses desvios quando o poder, em vez de ser vice-presidente da República Milovan Djilas espírito e de sentimentos, que, uma vez perdi-
publicanas, esse princípio foi aplicado para exercido para o bem comum, é utilizado para 0911-1995), que posteriormente rompeu com da, acarretou, como conseqüência, a odiosidade
deslindar a Questão do Amapá, havida com a proveito dos governantes. Legitimamente, pois, o Partido Comunista. Seu livro A Nova Classe contra os privilégios. Estes haviam tido o reco-
França, em 1900, a propósito de limites com a aristocracia tem o sentido de governo em mãos (957) tornou-se mundialmente conhecido, e nhecimento jurídico de uma situação de fato,
Guiana Francesa, sentenciando a favor do Bra- de uma elite dirigente capacitada a promover o um fenômeno análogo ao que aí é descrito estabelecida pelos costumes e tradições, e vi-
sil o Presidente da Suíça, Walter Hauser. Tam- bem da coletividade. Requerem-se dos gover- ocorreu na Rússia soviética com a formação da nham favorecer o desempenho de uma função
bém a Questão de Palmas, havida com a Ar- nantes conhecimentos que os habilitem e a vir- Nomenklatura, título, aliás, da obra de autoria social relevante. Privilégios, além da Nobreza
gentina, em 1895, no tocante a limites, foi julgada tude indispensável para o bom exercício de suas de Michael S. Smolenski. As aristocracias legiti- e do Clero, tinha-os também o povo, antes da
favoravelmente ao Brasil pelo Presidente funções. A este ideal deve corresponder um mam-se pelo mérito que lhes dá origem, con- centralização monárquica da época do absolu-
Cleveland, dos Estados Unidos. Outro litígio, a grupo de homens capacitados, cuja formação solidam-se no regime de privilégios e duram tismo, quer no regime das comunas, com as
Questão do Pirara, referente a limites com a pessoal e experiência se vão transmitindo aos graças à transmissão hereditária. O mérito de- suas franquias, quer no das corporações de ofí-
Guiana Inglesa, em 1904, foi decidido em fa- que serão os seus continuadores, evitando-se corre dos serviços prestados e torna a aristocra- cio, com a regulamentação da liberdade de tra-
vor da Inglaterra pelo Rei da Itália, Vittorio assim as improvisações, os arrivismos e o pre- cia uma classe aberta e não uma casta fechada. balho. Os privilégios da aristocracia eram trans-
Emanuelle 111. domínio de grupos cujos objetivos sejam in- Assim, na sociedade feudal, a nobreza tinha mitidos por via de hereditariedade, assim como
Em 1985, Argentina e Chile resolveram a dis- compatíveis com o bem comum. A competên- por fundamento a posse da terra e o serviço a propriedade territorial e os títulos nobiliár-
puta relativa ao Canal de Beagle mediante o cia dos governantes é condição para o bom das armas. Nobre era o senhor que exercia quicos. Quanto a estes, cumpre lembrar uma
juízo arbitral do Papa João Paulo 11, deslindan- funcionamento de qualquer regime; sem uma poderes quase soberanos nos limites de sua exceção, a do Império do Brasil, no qual os
do-se desta forma a questão que chegara à beira elite dirigente, estável e devidamente institu- propriedade territorial, assegurando a ordem, títulos não eram herdados. Quanto à base
do conflito armado. cionalizada, a democracia cai nas mãos dos ig- protegendo os seus subordinados e distribuin- fundiária da nobreza, as cidades italianas da
V. Acordo Internacional- Tratado. norantes, dos corruptos e dos manipuladores da do a justiça; e ele era também o cavaleiro, de- Idade Média e da Renascença, no seu patricia do
opinião pública, e a monarquia se torna realeza vendo servir ao Rei, à Pátria e à Igreja, e pres- local, apresentam aspecto diferente da aristo-
ARISTOCRACIA absoluta, facilmente degenerando em tirania. tar socorro aos desvalidos. Noblesse oblige era cracia constituída nos quadros do feudalismo.
Em todos os povos a história registra a exis- a expressão bem adequada para mostrar a razão Em Veneza, república aristocrática, os nobres
Tem sido considerada como forma de gover- não eram necessariamente senhores de terras
tência de classes, entre as quais adquire noto- de ser da nobreza. Quando os nobres perde-
no ou regime político e como tipo de orga- e exerciam atividades comerciais e armatoriais
riedade e ascendência social a dos que vêm a ram o espírito da cavalaria - e conseqüente-
nização social. A expressão vem do grego que a nobreza de origens feudais considerava
constituir a aristocracia ou, na expressão dos mente da missão que lhes cabia - , abandona-
áristos (o melhor) e Aristóteles (384-322 a.C.) a um desdouro. Os títulos obedeciam a certa gra-
romanos, a nobreza (nobilitas, de nobilis, bem ram suas terras e ensarilharam as armas. Com a
empregava para designar o governo dos mais conhecido, notório). Desde os chátrias, na Ín- duação, conforme critério adotado por vários
descristianização das mentalidades e dos cos-
capazes, voltado para o bem da comunidade. dia, e os eupátridas, em Atenas, até aos patrícios países. Remontam aos tempos do Império Ro-
tumes, os nobres deixaram de servir e passa-
Trata-se, pois, de um regime em que o poder mano e aos primórdios da Europa cristã, no
em Roma - com a nobreza senatorial, a eqües- ram a servir-se dos seus títulos, afastando-se do
pertence a uma elite dirigente, aplicando-se o tre e, na última fase do Império, a dos altos encontro entre Roma e os povos germânicos,
povo e indo desfrutar o ócio e os prazeres da
termo para indicar uma classe social privile- funcionários do Estado - ou dos senhores feu- dos quais procedem usanças e instituições pró-
vida de uma corte mundanizada. Alguns deles
giada e dominante, quer pelo status, quer por dais na Europa medieval, a constituição das prias do regime feudal. Esses títulos, a princí-
acolhiam freneticamente as idéias do iluminismo
exercer exclusiva ou preferentemente as altas aristocracias sempre refletiu a condição real do pio, relacionavam-se com funções de respon-
do século XVIII e chegavam mesmo a ingres-
funções do governo, da administração e da homem na vida das sociedades. Aqueles que sabilidade na organização e na defesa da
sar em lojas maçônicas, sem perceber que as-
hierarquia militar. sociedade. Assim, conde tem sua origem no
se distinguem pelo seu saber, pelo espírito de sim estavam contribuindo para cavar a própria
Entre os antigos, além de Platão (429-347 a.C.) iniciativa nas atividades econômicas ou pela comes civitatis (guardião da cidade); imperial
ruína, advinda com a Revolução de 1789. Note-
e Aristóteles, Heródoto (484?-425? a.C.) e Políbio bravura nos combates, prestam serviços à co- marquês, na autoridade constituída para a guar-
se que, na França do Ancien Régime, a "nobre-
(205?-125? a.C.) classificaram a aristocracia en- letividade e exercem influência marcante nos da das fronteiras ou marcas (na Alemanha,
za da espada", decadente, era ofuscada por
tre as formas de governo, ou, na linguagem negócios públicos, em tempos de paz e de novos aristocratas de destacada atuação, ma- Markgra/J; duque, no dux, a quem era confia-
aristotélica, modalidades de "constituição" de guerra, situando-se com isso em posição de gistrados e altos funcionários (donde a "nobre- do o governo das províncias do Império (pos-
um povo. Preconizaram a distinção entre tais destaque. Querendo nivelar a todos e abolir a za da toga"), prefeitos e escabinos das cidades teriormente, o senhor de vastos domínios, como,
formas segundo o número dos que exercem o nobreza, o igualitarismo oriundo da Revolução ("nobreza de campanário"), financistas (nobi- na França, os ducados de Normandia, Aquitânia,
poder: um, alguns ou muitos (monarquia, aris- Francesa (1789) deu margem à formação de Borgonha e Bretanha). Perduraram as denomi-
litados pelo monarca). Distanciando-se das clas-
tocracia e democracia, respectivamente). Não aristocracias espúrias, em que a continuidade nações, sendo mais tarde usadas pelos monar-
ses populares, os nobres deixavam-nas à mercê
se tratava apenas de um critério numérico, pois de uma tradição originada do mérito cedeu lu- cas nas cartas de nobilitação.
da propaganda revolucionária, que as lançaria
também eram levadas em conta as qualidades gar a um novo privilégio, que vinha substituir contra a corte. Muito significativo que, justa- V. Cavalaria - Classes sociais - Feudalismo - For-
que deve ter o governo; donde, outra distinção o do sangue: o privilégio do dinheiro. Assim, mente na Vendéia, onde os antigos senhores mas de governo - Nomenklatura - Nova Classe
importante que faziam, entre as formas puras e as oligarquias financeiras começaram a preva-
as desviadas ou corrompidas, sendo estas últi-
,
1ecer nas democracias modernas. Com o mes-
mantinham as tradições, continuando a viver
em suas terras, em relações cordiais com os
- Regime político - Títulos nobiliárquicos.
ARMISTlClO -38- AKI'B POLlrICA AKI'B POLlrICA -39- ASILO, DIRBlTO DE

ARMISTÍCIO fazer para ter um procedimento acertado. Com Tendo em vista a aglutinação de elementos a imunidade do local. A partir da Renascença,
Suspensão de hostilidades entre beligeran- isso, não exterioriza a sua ação em algo que é favoráveis e a defesa contra os hostis ("amigo- quando se inaugurou a época do absolutismo
tes, com prazo marcado. Geralmente precede produzido ou transformado, como se dá no caso inimigo"), cabe dizer que a arte política é "uma monárquico, os reis, não querendo ver o pró-
da ação transitiva. técnica de adição das forças humanas pela reu- prio poder desfalcado de prerrogativas, decre-
a um tratado de paz. Pode ser geral ou parcial.
Os romanos usaram a expressão jurisprudên- nião das vontades", consoante a caracteriza taram a extinção do "asilo religioso", que, no
Se parcial, se confunde com a simples suspen-
cia para designar a ciência do direito. Ora, as·· Bertrand de Jouvenel ("L'essence du politique", entanto, subsistiu em Portugal, incluindo o
são de armas. Entretanto, abrange um tempo
sim como há uma prudência legislativa e uma in Revue Française de Science Politique, vol. 11, ultramar, até o século XVIII. Em algumas con-
maior e, além disso, a suspensão de armas lo-
prudência judicante, há também a prudência nº 4, outubro-dezembro, 1952). Pondera o au- cordatas, a imunidade das igrejas foi reco-
caliza-se num ponto em que os exércitos com-
política dos homens de governo. O legislador tor que a técnica de adição alcança significado nhecida, como nas celebradas com a Lituânia
batentes estão frente a frente, para atender a
deve elaborar leis justas e que possam ser cum- maior quando, mais do que uma colaboração (1922), Polônia (1925), Itália (1929) e Espanha
determinados fins: uma conferência, remoção
pridas, adequadas às condições do povo e às passageira, tem em vista determinado estado (1953).
de feridos, sepultamento de mortos ou expec-
circunstâncias de tempo e lugar. Com isso já de coisas à base de um agrupamento perma- O "asilo territorial" , conhecido, também, des-
tativa de ordens para evacuar uma praça. Quanto
está entrando no campo da prudência política, nente. Passa-se, assim, de uma técnica simples- de a Grécia antiga, consiste no abrigo que um
ao armistício geral, por sua vez, pode ser assi-
da qual dependem não só as medidas concre- mente aditiva para uma técnica agregativa. Em país concede a refugiados estrangeiros que
milado à trégua. Segundo Lafayette Rodrigues
tas tomadas pelos governantes e administrado- exemplo corriqueiro: o jovem que promove um venham a cruzar suas fronteiras. Esse tipo de
Pereira, ele "tem por objeto a cessação de to-
res, mas também as diretrizes para a boa orga- jogo ou uma competição esportiva adiciona asilo é freqüente na história dos povos. Pre-
das as hostilidades de parte a parte sem limites sentemente, a Declaração Universal dos Direi-
de lugar e sem exceção de forças de mar e de nização do Estado. companheiros; o que organiza uma equipe
Cumpre levar em conta, porém, que a políti- agrega-os. Aliciados os adeptos - objetivo tos do Homem, da ONU, que data de 1948,
terra: produz de fato a suspensão da guerra, estabelece no item I, do artigo 14, que, "em
como luta material, mas a deixa subsistindo ca, além de ter por objeto uma atividade pru- colimado pela propaganda - , para que estes
dencial, compreende também um aspecto ar- entrem em ação conjugadamente é preciso que caso de perseguição, toda pessoa tem o direito
como estado jurídico; cria uma paz temporária de procurar asilo e dele desfrutar, em qualquer
ou provisória, mas não põe termo à guerra, tístico. Erro seria fazer da política mera arte, haja um dux, isto é, condutor, líder (de duco,
separada da moral, cujas normas superiores são ducere: conduzir). Para dar estabilidade, para país". No entanto, ressalva o item 11 desse mes-
porque continuam por decidir as questões ou mo dispositivo que "esse direito não poderá ser
litígios que determinaram o recurso às armas" aplicadas às particularidades do agir humano regê-la, surge o rex, aquele que detém o poder
pela prudência; a política, então, se reduziria à e exerce a autoridade. O primeiro arrasta uma invocado em caso de perseguição legitimamente
(Princípios de Direito Internacional, § 392). O motivada por crimes de direito comum, ou por
arte de conquistar o poder e nele manter-se, corrente de vontades por ele mesmo suscitada
armistício é um acordo militar de cunho políti- atos contrários aos objetivos e princípios das
bem como de levar de vencida os adversários ou que ele já encontrou; o segundo institucio-
co, que mais se acentua no armistício geral, o Nações Unidas." Desta forma, o fugitivo não
na confrontação "amigo-inimigo" pela qual Carl naliza, o que supõe qualidades de um bom
que, por isso mesmo, resulta de umà delibera- pode considerar como desacatamento automá-
Schmitt (1888-1985) a caracteriza. Entretanto, organizador. O dualismo dux-rex é esclarecido
ção do poder soberano. Para concluir o armis- tico o direito garantido no citado item I, pois a
importa reconhecer que existe uma arte políti- com valiosos subsídios numa importante obra
tício, os chefes militares devem estar munidos concessão ou não do asilo pretendido depen-
ca. Isto porque a ação política é uma ação de de pesquisa por G. Dumezil (Mitra-Varuna,
de poderes especiais. No caso de armistício derá, sempre - como, aliás, tem aconteci-
tipo transitivo, atuando sobre vontades huma- essai sur deux représentations européennes de
parcial, entende-se que os comandantes-em- do - , das conveniências do Estado asilante.
nas e visando movê-las em vista de determina- la souveraineté, Bibliotheque de l'École des
chefe das tropas em operação estão investidos Este, ao conceder o asilo, geralmente fixa nor-
dos objetivos. Essas vontades ou o conjunto de Hautes Études, Paris, 1940).
de tais poderes. mas de conduta para o asilado, o qual, vindo a
vontades que formam a comunidade política,
V. Guerra - Tratado. eis a matéria sobre a qual se exerce a ação po- V. Ação direta - Ação indireta - Ciência política desobedecê-las, poderá ter o asilo cassado e
lítica. Não se trata de matéria inerte, inteira e - Maquiavelismo - Política - Prudência política. ser expulso do país asilante.
ARTE POLÍTICA Denomina-se "asilo neutro" o que é dispen-
passivamente sujeita à ação do agente, como o
Sendo uma ciência prática, isto é, ordenada ASILO, DIREITO DE sado por um Estado neutro a contingentes mi-
mármore que o escultor transforma ao cinzelar
à ação, e tendo por objeto a atividade humana uma estátua. Há um encontro de vontades entre Tanto na antiguidade grega quanto na roma- litares de um dos beligerantes, que atravessem
social em relação ao bem comum, a política o agente e o paciente, uma certa colaboração. na, usava-se o termo asilo - originário do gre- suas fronteiras para não cair prisioneiros de
enquadra-se nos domínios da prudência. Esta A autoridade sempre requer, dos súditos ou go: asylon, "que é sagrado, imune" - para sig- forças militares adversárias.
é a reta razão no agir hunlano, conforme clás- dos cidadãos, um mínimo de consenso e acata- nificar a proteção que, em seus templos, os Muito freqüente, especialnlente nos países
sica definição, que a distingue da arte, que é a mento, quer se trate de um rei legítimo, de um deuses asseguravam aos delinqüentes procura- das Américas do Sul e Central, é o "asilo em
reta razão nofazeras coisas. Quando os filóso- chefe carismático ou de um presidente da re- dos pela Justiça, ou às pessoas sujeitas a perse- território ficto": edifício-sede de representações
fos escolásticos, servindo-se desse critério, di- pública. É certo, entretanto, que nas sociedades guição de qualquer natureza. Com o advento diplomáticas ou residência do embaixador, na-
ferenciavam a prudência da arte, faziam ver de massa os indivíduos se tornam meramente do Cristianismo, esse "asilo religioso" foi reco- vios de guerra, aeronaves militares, acampa-
que esta (artes mecânicas e belas artes) tem passivos quando têm a mente mediatizada pe- nhecido pelos reis, para certas igrejas, em cujo mentos de tropas em operações de guerra, ba-
em vista uma ação transitiva, atingindo sempre los processos tecnológicos de propaganda. A recinto não podiam penetrar nem os agentes ses militares de um país situadas em outro.
algo de exterior em relação ao agente (assim, manipulação da opinião pública feita sem es- públicos para prender criminosos nem tercei- Dentre os mencionados, o "asilo diplomático"
o marceneiro faz um armário, e o escultor, uma crúpulos é uma corrupção da política; e assim ros em busca de refugiados por razões várias, é o mais comum, e consiste na proteção que o
estátua), ao passo que a prudência diz respeito uma atividade nobilíssima do homem se torna como dívidas, etc. Durante a Idade Média, po- diplomata concede a refugiados políticos, quer
a uma ação imanente, tendo seu fim próprio a mais ignóbil. Temos, então, a politicagem e rém, o "asilo religioso" veio a sofrer restrições na própria residência, quer na sede da embai-
no sujeito que a pratica. Um homem prudente, não mais a verdadeira arte política, subordina- ditadas pela natureza de certos delitos, como a xada. Embora tenha profundas raízes no Direi-
ao agir, delibera em face das circunstâncias, da à lei moral e vivificada pela virtude da pru- heresia, a profanação, o rapto, cujos autores to Internacional Americano, o direito de asilo
pesa os prós e os contras, julga o que deve dência. não podiam acoitar-se nos templos invocando já era conhecido, desde o século XVI, na dou-

"
-41- ASSEMBLÉIA
ASILO, DIRElTO DE -40- ASILO, DIRElTO DE ASILO, DIREI70 DE

trina de tratadistas europeus, que o fundamen- gurava-o, porém, a refugiados políticos. Uma venção de Montevidéu", e, em 1939, no 11 Con- sembléia a decisão pretendida por certo grupo
tam no princípio da extraterritorialidade, a fim outra regulamentação do direito de asilo, de- gresso Sul-Americano de Direito Internacional, ou corrente de idéias.
de legitimar a imunidade penal. Não obstante nominada "Regras de La Paz", foi assinada, em ocorrido no Uruguai - que deu origem ao Na organização política do Estado moderno,
essa antiga elaboração doutrinária, o direito de 1898, na Bolívia, por representantes de países "Tratado de Montevidéu", assinado por Argen- Assembléia é o órgão que reúne os represen-
asilo tem tido aceitação restrita a poucos paí- europeus e americanos. Em 1928, a VI Confe- tina, Bolívia, Paraguai, Peru, Chile e Uruguai tantes da nação ou do povo, da província ou
ses europeus, que o garantem mediante norma rência Pan-americana, que se reuniu em Hava- _ fixaram-se normas tendentes a aperfeiçoar do Estado-membro da federação, para discutir
constitucional expressa. Embora com limitações, na, trouxe aceitação mais ampla do direito de a instituição do asilo. e votar leis, efetuar certa fiscalização dos atos
ou seja, mediante o preenchimento de pré-re- asilo em todo o continente americano. Essa Em 1954, na X Conferência Interamericana, da Administração, debater questões relativas à
quisitos, concedem-no as constituições seguin- Conferência produziu o ato formal denomina- que se reuniu em Caracas, foi celebrada a "Con- vida nacional ou regional. Assembléia Geral é
tes: a da Itália, de 1947, art. 10, a de Portugal, do "Convenção de Asilo", cujo artigo 2º regula venção sobre asilo diplomático", que também como a Constituição brasileira de 1824 deno-
de 1976, art. 22, nº 1, e a da França, de 1946, "o asilo de delinqüentes políticos em legações, estabelece disposições sobre outras modali- mina o conjunto das duas Câmaras (Câmara de
cujo Preâmbulo foi incorporado à de 1958; e, navios de guerra, acampamentos e aeronaves dades de asilo a ser concedido em belonaves, Deputados e Câmara de Senadores ou Sena-
sem restrição condicionante, a Lei Fundamen- militares". Veda o asilo a acusados ou conde- acampamentos de tropas em operações de guer- do), equivalente ao que, sob a República, se
tal da República da Alemanha, de 1949, art. 16, nados por crimes comuns, inclusive os deser- ra e aviões militares. Essa Convenção faculta designa por Congresso Nacional, à semelhança
nº 2, e a do Brasil, de 1988, art. 5º, LII. Reco- tores. Também detalha medidas a serem to- ainda a extensão da imunidade a locais exter- de Congresso (Estados Unidos), Parlamento (In-
nheceram, ainda, o direito de asilo como direi- madas relativamente à pessoa do refugiado, nos à sede ou residência diplomática "quando glaterra), Cortes (Espanha), Dieta (Japão). No
to fundamental do homem, a Convenção de garantindo-lhe a inviolabilidade, quando de sua o número de asilados exceder a capacidade Brasil-Império, o termo Assembléia foi copia-
Genebra de 1951 e o Estatuto da Organização transferência para fora do país. Na ocasião, os normal dos edifícios". Declara, outrossim, que do da França onde, a partir de 1789, o Terceiro
Internacional para os Refugiados (IRO). Ocor- Estados Unidos, ao assinar a Convenção, compete "ao Estado asilante a classificação da Estado se autodenominou Assemblée Nationale
re, porém, que países da Europa e do Oriente apuseram a ressalva de que não reconheciam natureza do delito, e dos motivos da persegui- quando, convocados os Estados Gerais, os dois
Médio, mesmo quando não reconhecem o asi- o "direito de asilo", no âmbito do Direito Inter- ção" (art. 4º ). outros Estados (Clero e Nobreza) se negaram a
lo como direito, admitem-no, em certas circuns- nacional, embora não se recusassem a admitir Atualmente, o direito de asilo vem sofrendo formar juntamente com aquele uma só câmara.
tâncias, por razões humanitárias. Durante as a concessão de asilo naqueles países sujeitos a sérias objeções e limitações em face da expan- A Assembléia pode ser bicameral, como as
guerras carlistas (no século XIX), na Espanha, iterativa instabilidade política e social. Essa são do terrorismo. A Convenção de Tóquio dos exemplos citados acima, ou unicameral,
houve casos de refúgio em edifícios de mis- Convenção foi, porém, omissa quanto a deter- (1963), a de Haia (1970), a de Washington, no como ocorreu sob as Constituições francesas
sões estrangeiras. Também na Guerra Civil minar a que Estado competia caracterizar a quadro da Organização dos Estados America- de 1791, 1848 e 1946.
Espanhola (1936-1939), várias embaixadas con- natureza do delito - comum, ou político - nos (1971), a de Montreal (1971), a da ONU Chamam-se ordinárias as sessões que as as-
cederam asilo a refugiados políticos, quer na- praticado pelo refugiado. Essa omissão veio a (1973) e especialmente a Convenção Européia sembléias realizam durante o ano legislativo, e
cionalistas, quer comunistas. As embaixadas que gerar controvérsias entre Estados quando da para a Repressão do Terrorismo (1977) visa- extraordinárias quando convocadas sessões fora
asilavam nacionalistas eram permanentemente aplicação da norma garantidora do direito de ram à adoção de medidas tendentes a pôr co- do período de funcionamento regular. Os tra-
cercadas pelas milícias rojas, que chegaram a asilo. Nesse sentido, teve grande repercussão bro às práticas terroristas, descaracterizando-as balhos dessas sessões são dirigidos pela Mesa,
violar a imunidade de uma delas, invadindo-a o rumoroso caso do asilo concedido, em 1948, como crimes políticos. que as preside, na forma de um Regimento in-
e massacrando os asilados. Conquistada Madri pela embaixada da Colômbia em Lima, ao che- terno, aprovado pela própria Assembléia, e no
pelas forças nacionalistas, o governo de Fran- V. Terrorismo político.
fe do partido aprista Víctor Raul Haya de la qual se estabelecem as normas relativas às atri-
co (chefe de Estado de 1937 a 1978) concedeu Torre (1898-1979). O governo peruano recu- ASSEMBLÉIA buições da Mesa, à ordem dos trabalhos, ao
salvo-conduto aos rojos asilados, os quais, sob sou o salvo-conduto solicitado, alegando tratar- uso da palavra, à disciplina das discussões, à
proteção diplomática, deixaram a Espanha, por se de um criminoso de direito comum e pedin- Reunião de pessoas para discutir determina-
votação das matérias. As assembléias dividem-
via marítima, com destino a país não fronteiriço. do sua entrega imediata. O governo colombiano dos assuntos e deliberar a respeito.
se em comissões que estudam e dão parecer
Outro caso famoso de asilo diplomático em opôs-se ao pedido, por entender que se tratava Na sociedade em geral, pessoas que exer-
sobre as matérias a serem votadas pelo plená-
país europeu foi o do Cardeal Mindszenty (1892- de refugiado político. A pendência, que durou cem atividades idênticas ou conexas, ou for-
rio. No caso das Assembléias Constituintes, as
1975), Primaz da Hungria, que, quando da re- vários anos, foi submetida ao julgamento da mam agrupamentos específicos, reúnem-se em
assembléia para decidir, mediante a manifesta- comissões temáticas, e respectivas subcomissões,
volução húngara, em 1956, perseguido pelos Corte Internacional de Justiça de Haia, cujo cuidam de assuntos relativos a partes específi-
comunistas, se refugiou na embaixada norte- Acórdão, de 20-XI-1950, primou pela dubieda- ção da vontade da maioria, sobre a adoção de
medidas de interesse comum. É o que ocorre cas da constituição em elaboração (exemplifi-
americana. de: o asilo era considerado ilegal mas a Colôm- cativamente: Comissão de soberania e dos di-
Dado que os países centro-sul-americanos, bia não estava obrigada a entregar o refugiado. entre profissionais de categorias diversas, estu-
dantes, etc. Por este meio, busca-se obter uma reitos do homem, Comissão de organização do
desde a independência, têm sido repetidas ve- E terminava o decisório apelando aos litigantes Estado, Comissão de organização eleitoral, Co-
zes conturbados por revoluções, guerras civis, para que encontrassem uma solução prática, decisão direta dos interessados, procurando frus-
trar eventuais distorções dos órgãos diretores missão do sistema tributário, Comissão da or-
golpes de Estado, sedições, motins, ditaduras, ditada pelo espírito de cortesia e boa vizinhan-
etc., a prática do asilo político, especialmente ça. Não obstante isso, o líder aprista perma- ou representativos, suscetíveis de deliberar em dem econômica, Comissão da ordem social,
em representações diplomáticas, tomou-se cos- neceu ainda longo tempo asilado, só lhe tendo desarmonia com os interesses dos dirigidos ou Comissão da família, educação, cultura, espor-
representados. Existe, porém, a despeito disso, tes, comunicação, ciência e tecnologia, Comis-
tume habitualmente respeitado, antes de lhe sido autorizado viajar para o estrangeiro em
serem fixadas normas reguladoras. Só em 1889, 1954, graças às pressões feitas junto ao governo o risco de a Assembléia ser trabalhada, quando são de sistematização), recebendo propostas de
surgiu a primeira convenção formal sobre o peruano pelo Brasil, Argentina e Chile. não tiranizada, por ativistas, hábeis em condicio- artigos, de emendas, de substitutivos, ou rece-
assunto - o "Tratado de Montevidéu" - que, Em 1933, na VII Conferência Interamericana, nar as vontades dos participantes, levando-os bendo até mesmo capítulos extraídos de um
vedando. o asilo a delinqüentes comuns, asse- ~unida no Uruguai, de que resultou a "Con- a formar maioria que permita obter dessa As- anteprojeto de constituição previamente elabo-
ASSEMBLÉIA -42- ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE ASSEMBLÉIA CONS'ITTUINTE -43- ASSEMBLÉIA CONSTnVINTE

rado, para exame e pareceres, e ulterior enca- pessoas, sem qualquer forma ou figura de juízo,
minhamento a plenário. reunidos em assembléia, exercem esse poder, majoritária investida do poder constituinte, cos-
afora as perseguições e arbitrariedades incontáveis elaborando o texto da constituição. tuma ser fulminada com o anátema de ilegí-
As assembléias, quando integrantes da es- que foram cometidas. Tal como formulado, o poder constituinte é tima.
trutura do Estado, com a função específica de No tocante à ordem internacional, os Esta- originário porque estabelece o ordenamento De outro lado, se considerado ilimitado, o
legislar ordinariamente, além de aprovar proje- dos todos que compõem a Organização das jurídico fundamental por ocasião do surgimento poder constituinte tem a faculdade de editar
tos de leis complementares e emendas consti- Nações Unidas formam em seu âmbito a As- de um novo Estado, ou por força de ruptura qualquer norma, cuja legitimidade decorre tão-
tucionais, também se dividem em comissões sembléia Geral, cuja competência consiste em revolucionária da ordem jurídica anterior, ou somente da vontade da maioria dos represen-
(exemplificativamente: de Constituição e Justi- definir as linhas gerais de ação da entidade. por injunções institucionais, que levam à ela- tantes. A propósito, cabe observar que Sieyes
ça, Finanças, Relações Exteriores, Trabalho e Incumbe à Assembléia fazer aos Estados reco- boração de nova lei suprema para o Estado. - ao expor a teoria do poder constituinte -
Previdência Social, Forças Armadas, Agricultu- mendações concernentes a medidas relacio- Tem os seguintes caracteres o poder constituinte dizendo que esse poder é inerente à nação,
ra, Indústria e Comércio, Viação e Obras Públi-
nadas aos fins da ONU. Cabe-lhe, outrossim, originário: é inicial, ilimitado e incondiciona- assegura que esta "existe antes de tudo, é a
cas, Educação e Cultura, Saúde, Redação das escolher os titulares dos órgãos em que se do. Diz-se inicial, por inexistir qualquer outro origem de tudo, sua vontade é sempre legal, é
Leis), que examinam preliminarmente as propo-
estrutura a Organização e tomar todas as deci- poder acima dele e por decorrerem dele todos a própria lei; antes dela e acima dela somente
situras, dando parecer, antes de serem apre-
sões pertinentes à gestão financeira. No entan- os demais poderes (chamados poderes consti- existe o direito natural" (Qu' est-ce que le Tiers
ciadas pelo plenário.
to, sua competência para apreciação das ques- tuídos). É ilimitado pelo fato de nenhuma res- État?, capo V). Que direito natural é esse? É o
Em algumas federações, como a brasileira,
tões relativas à paz e segurança é restrita. O trição embargar-lhe a ação deliberante, pois a direito natural voluntarista, que dá fundamen-
Assembléia Legislativa é a designação dada ao
órgão que responde prevalentemente por as- soberania desse poder se manifesta para criar to ao caráter ilimitado do poder constituinte,
órgão de representação política de âmbito pro-
suntos dessa natureza é o Conselho de Segu- - e criar ex nihilo - o direito, inexistindo, por pois afirma Sieyes: "De qualquer maneira que
vincial ou estadual, o qual exerce especialmente
rança, constituído de onze membros, cinco dos isso mesmo, norma precedente (direito posto) a nação queira, basta que ela queira. Todas as
a função de elaborar, aprovar e, às vezes, pro-
quais - Estados Unidos, Rússia (ex-União Sovié- que o limite. Aqueles jusnaturalistas que procu- formas são boas e sua vontade é sempre supre-
mulgar normas jurídicas ordinárias, ou aprovar
tica), China, França e Inglaterra - são perma- ram compatibilizar o direito natural clássico com ma" Cid., ib.).
anteprojetos de leis complementares a disposi-
nentes e titulares do direito de veto, sendo os o processo de elaboração das disposições cons- Por fim, o poder constituinte é incondiciona-
ções da constituição estadual, podendo inclusi-
ve efetuar emendas ao texto desta.
restantes eleitos pela Assembléia Geral. Esta se titucionais nos moldes da doutrina do poder do, pois não está sujeito a qualquer limitação
reúne ordinariamente uma vez por ano e ex- constituinte, sustentam que este - embora não material ou formal preestabelecida, que tolha
Governo de Assembléia ou regime de As-
traordinariamente por convocação do secretá- encontre qualquer limite à sua atuação em nor- a produção de normas constitucionais. Verda-
sembléia é o que se exercita quando esse órgão
rio geral. Tratando-se de uma assembléia de mas de direito positivo (que, aliás, ainda não de é que, a este respeito, pode ocorrer, e não
de representação concentra todos os poderes.
Estados, o voto é igualitário e as deliberações existem, pois estão sendo elaboradas) - deve raro ocorre, em paradoxal detrimento dos prin-
A Assembléia, pela maioria dos seus membros,
dão-se por maioria simples, decidindo-se, po- subordinar-se aos princípios do direito natural. cípios doutrinários, a prefixação de pontos
emite decisões soberanas e finais, que são exe-
rém, por maioria qualificada de dois terços, Em razão disso, dizem, o poder constituinte é intocáveis, supostamente essenciais (a pare-
cutadas por comitês organizados pela própria
quando se trata de assuntos de alta importância. autônomo e não ilimitado, como pretendem os cerem até de direito divino), que limitam a
Assembléia. Sob a alegação de que a Assem-
V. Assembléia Constituinte. juspositivistas. Essa postura, porém, não resol- edição de normas, ficando predeterminadas, por
bléia é a expressão mesma da vontade popu-
ve a seguinte questão: que garantia existe de exemplo, a forma de governo (república) e a
lar, essa forma de governar é preconizada por
ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE que a vontade da maioria dos constituintes não forma de Estado (federação), como tem acon-
aqueles que a consideram a mais próxima da
venha a aprovar - como, aliás, tem aprovado tecido no Brasil durante o período republicano.
democracia pura, vale dizer, a mais próxima Órgão que reúne os representantes do povo - normas atentatórias do direito natural? Não São as chamadas "cláusulas pétreas". Ademais
da democracia direta, não obstante a conheci- (ou da nação), eleitos, em geral, por sufrágio existe garantia nenhuma, e o que ocorre é que disso, antes de começar a elaborar a constitui-
da assertiva de Rousseau (1712-1778) de que universal individual, com a finalidade de ela- o direito positivo (jus quia jussum est) se ção propriamente dita, a Assembléia Constituin-
"vontade representada é vontade alienada". O borar e promulgar uma constituição. Esse órgão sobrepõe ao direito natural (jus quia justum te fixa regras de sua própria atuação em um
fascínio desse discurso se esfuma ante a práxis fica investido do poder constituinte, cujo titular est) , transformando-se a fonte formal (vontade Regimento Interno, que lhe condiciona os
desse sistema de governo, que gera facilmente é o "povo soberano" (teoria da soberania do da maioria) em fonte primária do próprio direi- trabalhos, ao estruturar o mecanismo de seu
o domínio tirânico da maioria por minorias povo) ou a "nação soberana" (teoria da sobe- to, pois uma e outra passam a ser uma só e funcionamento (subcomissões, comissões temá-
aguerridas, de extrema habilidade no captar as rania nacional). Segundo os princípios do Esta- mesma coisa. Desta forma, a vontade da maio- ticas, comissão de sistematização, plenário), ao
vontades em meio às manhas e artimanhas do Liberal de Direito, unicamente uma Assem- ria se constitui em ultima ratio a fundamentar definir o critério formal de aprovação das
parlamentares, sem excluir, no momento azado, bléia Constituinte, como a caracterizada acima, a ordem jurídica, sucumbindo o direito natural matérias (maioria simples ou maioria qualifica-
as armadilhas dos tumultos adrede engendra- confere legitimidade à Constituição. Por isso, à força do número. Por isso que o direito da da), etc.
dos e devidamente aparelhados das condições ao inaugurar-se, a partir da Revolução Fran- força, expresso, no caso, na vontade da maio- Como, segundo a doutrina liberal-demo-
necessárias a levar aos fins visados. Exemplo cesa (1789), a era do constitucionalismo, os ria, acaba dominando, pois se verifica a crática, a titularidade do poder constituinte
histórico ilustrativo do que vem a ser esse tipo Estados, na sua quase totalidade, vieram a prevalência absoluta dos princípios do poder pertence ao povo (ou à nação) e nele sempre
de governo tem-se com a vitória da Revolução organizar-se mediante constituições fundadas constituinte sobre os princípios do direito na- permanece, mesmo depois de elaborada a cons-
Francesa (1789), quando, sob o regime de As- no princípio liberal-democrático, expresso, em tural. Daí por que é radical a incompatibilida- tituição, esta ainda poderá ser submetida a re-
sembléia ou de Convenção (1792-1795), os muitas delas, nestes termos: "todo poder ema- de entre o direito natural clássico e a teoria do ferendum, a fim de que o povo manifeste ex-
comitês de Salut Public e de Sureté Générale na do povo e em seu nome é exercido". Desse poder constituinte, elaborada originariamente pressamente a sua vontade, aprovando ou
implantaram o Terror na França, praticando bar- princípio resultou a formulação da doutrina do por Sieyes 0748-1836). Não é outra a razão rejeitando o texto votado. Esse procedimento é
baridades inomináveis, a culminarem com a poder constituinte, cujo titular é o povo (ou a pela qual uma constituição fundada nos princí- consonante com a teoria da soberania do povo
execução n~ guilhotina de grande número de na~o), que o delega a representantes, os quais, pios de justiça, mas não ungida pela vontade (ou da nação), que se funda em dois pressu-
4SSEMBLÉIA CONS11TU1NTE -44- ASSEMBLÉIA CONSTlTUINTE ASSOCIAÇÃO -45- ATElSMO

postos fundamentais: 1) os homens são abso- Ao elaborar-se uma constituição, em geral de certos preceitos) e também contestada por nifestações associativas, não obstante a diver-
lutamente livres, iguais e associais por nature- inclui-se em seu texto disposição que autoriza sidade de formas, dadas as circunstâncias que
alguns autores, já se viabilizou na Suíça, daí
za ("estado de natureza" do homem); e 2) a sua eventual emenda futura. Fica assim instituído envolvem a vida humana e em função, quer da
resultando a constituição de 1874.
sociedade é de origem meramente contratual o poder constituinte derivado (também chama- Dá-se o nome de poder constituinte decor- criatividade própria do homem, quer das pe-
("contrato social"). Em conseqüência, o poder do poder de revisão ou poder de reforma), rente àquele que compete aos Estados-mem- culiaridades de cada época. Já nos tempos
soberano é inerente ao povo e se exprime pela porque procedente do originário, o qual lhe bros da Federação, os quais, mediante as res- modernos, quando o Estado, enfeudado em
"vontade geral", que na prática é a vontade da assinala os limites e a forma de exercício. Va- pectivas Assembléias Estaduais constituintes, ideologismos, arremete contra a ordem natural
maioria. Cabe, por isso, ao povo manifestar-se riam as constituições quanto à fixação do âmbito elaboram as próprias constituições. das coisas e intenta constituir uma "ordem
para sancionar ou rejeitar as normas - e espe- de competência do poder constituinte derivado nova", usando a lei positiva para "revogar" a
cialmente as normas básicas - que vão reger V. Assembléia - Cláusula pétrea - Constituciona-
e quanto ao procedimento revisional. No Bra- lismo - Constituição - Poder constituinte. lei natural - como ocorre a partir da Revolu-
a sua vida. Mesmo porque, segundo J.-J. Rous- sil, quase todas as constituições republicanas ção Francesa (1789), e chega ao extremo, em
seau (1712-1778), "toda lei que o povo direta- têm vedado emendas na vigência do estado de ASSEMBLÉIA GERAL DA ONU -v. Assembléia. nossos dias, sob os Estados totalitários - , a
mente não ratificou é nula e não é uma lei" (Du sítio (Constituições: de 1934, art. 178, § 4º; de existência de associações veio a depender de
contrat social, L. 111, c. XV). 1946, art. 217, § 5º; de 1967, art. 50, § 2º; de ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA - v. Assembléia. permissão, ou não, da lei. Assim, na França, a
Ocorre, por vezes, que um poder constituin- 1969, art. 47, § 2º; de 1988, art. 60, § 1º), bem lei d'Allarde (17-3-1791) extinguiu as entidades
te "heterodoxo" vem a elaborar a constituição, como emendas tendentes a abolir a -federação profissionais, e a lei Chapelier 04-6-1791) proibiu
ASSOCIAÇÃO
dando-lhe vigência. Foi o que aconteceu no e a república (Constituições: de 1891, art. 90, § a constituição de qualquer associação operária,
Brasil quando, dissolvida a Assembléia Consti- Agrupamento de pessoas, livre e formalmente
4º; de 1934, art. 178, § 5º; de 1946, art. 217, § organizado, para a realização de fins comuns. porque atentatória da liberdade individual. Anos
tuinte instalada após a Independência (1822), 6º; de 1967, art. 50, § 1º; de 1969, art. 47, § 1º; depois, o Código Penal francês (1810) prescre-
a tarefa de elaborar a constituição veio a ser Associam-se, as pessoas, por um imperativo da
de 1988, art. 60, § 4º, I, relativo à federação). sociabilidade humana, que se manifesta na or- veu penas severíssimas para os trabalhadores
confiada ao Conselho de Estado, submetendo- Sob o aspecto procedimental, a iniciativa da que se associassem visando à "defesa de seus
se, em seguida, o texto à apreciação das câ- dem concreta mediante operações encadeadas
proposição tem oscilado: ora cabe a uma fra- da inteligência - que vê o fim a atingir - e supostos interesses". Com o correr do tempo,
maras municipais do País, que, à exceção de ção dos membros de qualquer das casas do a realidade das coisas abriu brechas no dogma-
quatro delas, aprovaram o anteprojeto, promul- da vontade - que provê os meios adequados
Congresso (Constituições: de 1891, art. 90, § 1º; à consecução pretendida. A formação de asso- tismo monolítico das estruturas estatais funda-
gado, afinal, em 1824, por D. Pedro I, e que de 1934, art. 178, § 1º; de 1946, art. 217, § 1º; das na democracia individualista, e o que era
vigorou durante 65 anos. ciação ampara-se, assim, no direito natural do
de 1967, art. 50, § 3º; de 1969, art. 47, § 1º; de homem de se agrupar. Por isso, é livre sua or- proibido passou a ser tolerado. Mais tarde, a
A Constituição de 1937 - elaborada pelo 1988, art. 60, § 4º, I, relativo à federação); ora legislação dos países democráticos, ante a in-
jurista mineiro Francisco Campos (1891-1968), ganização, desde que tenha objetivos lícitos.
cabe a uma fração dos Estados-membros pela Desta forma, é legítimo o bem comum de cada surreição dos fatos (sindicalismo revolucio-
então Ministro da Justiça - que estruturou o maioria de votos de cada Assembléia Legislativa nário, etc.), concedeu a "liberdade de associa-
Estado Novo, foi promulgada por Getúlio Vargas associação, respeitado, porém, o bem comum
(Constituições: de 1891, art. 90, § 1º; de 1934, geral que incumbe ao Estado assegurar. A este ção", mas sem reconhecer propriamente o direito
(1883-1954), o qual, até 1945, a cumpriu ape- art. 178, § 1º; de 1946, art. 217, § 1º; de 1967, natural de se associar, tanto assim que a via
sempre caberá a função de fixar normas de
nas em parte, pois veio a exercitar verdadeiro art. 50, § 4º; de 1988, art. 60, 111), ora cabe à democrática é freqüentemente utilizada para que
poder pessoal. Não provindo essa Carta do ordem pública para que as associações, na sua
Câmara dos Deputados (Constituição de 1937, constituição e no desempenho de suas ativi- o Estado absorva muitas autonomias sociais.
poder constituinte clássico, é arrolada entre as art. 174), ora cabe ao presidente da república Essa centralização do poder - não já de índole
chamadas constituições outorgadas. dades, se mantenham dentro dos limites que
(Constituições: de 1937, art. 174; de 1967, art. lhes são próprios. político-administrativa, mas especialmente de
Em 1958, na França, berço da doutrina do 50, 11; de 1969, art. 47, 11; de 1988, art. 60, 11). caráter social- que se desenvolve a despeito
Existem associações da mais variada natureza.
poder constituinte e ao arrepio desta, o ge- Quanto à aprovação das emendas, o quorum da aplicação da teoria da separação de poderes
Há aquelas que atendem a exigências funda-
neral Charles de Gaulle (1890-1970), obtendo tem variado (ou a maioria absoluta ou a maio- - vem se processando com plena observância
mentais da vida humana, como as profissio-
tácito consenso geral, em face do estado de ria de dois terços, ou de três quint~s dos mem- nais, as culturais, as religiosas. Outras respon- das rotinas democráticas. Trata-se de um totali-
anarquia reinante no País (24 governos em 12 bros de cada uma das casas do Congresso), tarismo branco, respaldado em normas legais
dem a inclinações diversas: artísticas, esportivas,
anos), propôs ampla reformulação institucional, exigindo-se, conforme o caso, duas discussões democraticamente votadas, e mediante as quais
recreativas. Essa variedade associativa é típica
designando para esse fim um grupo de asse- sucessivas, ou duas sessões legislativas ordiná- se vão usurpando competências próprias dos
da estrutura naturalmente gru palista da socie-
ssores jurídicos do governo, que elaborou um rias e consecutivas. grupos sociais. De seu lado, obviamente, o Es-
dade. Na medida em que adquire consistência
anteprojeto de constituição. Redigido o Estatu- De país para país, há, porém, grande varia- tado totalitário, a que é inerente toda uma es-
e higidez essa contextura multigrupal, também
to, foram ouvidos o Comité Consultif Constitu- ção quanto às condições para a iniciativa da trutura concentracionária, cerceia qualquer pos-
vai ganhando dinamicidade a vida social, daí
tionnel (composto de 39 membros, parte dos revisão e a forma de aprovação das emendas: sibilidade de existência de associações com
resultando duplo proveito: para as pessoas -
quais nomeados pelo governo) e o Conseil d 'État, em alguns prevalecem exigências mais rigoro- poderes autônomos em face do poder estatal,
que se vêem integradas num ambiente social
que o aprovaram. Em seguida, foi submetido a sas - como é o caso dos Estados Unidos, cuja pois todo direito é direito do Estado.
capaz de despertar-lhes iniciativas, responsa-
referendum popular, que o sancionou por esma- Constituição (1787) sofreu apenas 27 emendas bilidades e convicções próprias - e para a V. Corporações - Corporativismo - Grupos inter-
gadora maioria, em 28 de setembro de 1958, em mais de duzentos anos de vigência - , em sociedade como um todo, que tem, nessas as- mediários - Sindicalismo - Sindicato - Sociedade.
dando vigência à constituição mais duradoura outros, menos rigorosas, como é o caso do Bra- sociações, núcleos de exercício eficaz de auto-
dentre as 16 que a França teve desde 1791. sil, que já teve oito constituições, quase todas ATEÍSMO
nomia que frustra o crescimento massificante
Temos aí três exemplos de ruptura com o com numerosas emendas. A revisão total da do poder do Estado. A negação da existência de Deus - ser pes-
dogmatismo doutrinário, intrínseco à mítica te- constituição, vedad~ pelos Estatutos de alguns Em todos os tempos - porque a sociabili- soal e transcendente - implica necessariamente
oria clássica do poder constituinte. países (nos quais se estabelece a intocabilidade dade humana é de sempre - , ocorreram ma- conseqüências na vida humana, nas relações
"
ATIVISMO
ATElSMO -46- ATElSMO -47-
ATElSMO

sociais e na organização política. Desaparece da lei eterna. Utilitarismo e voluntarismo con- mas possíveis na hipótese ateísta são os valo- seguinte, em artigo publicado no jornal Iskra,
do mundo em que vive o homem o caráter jugam-se para dar ao direito um conteúdo do res e normas puramente subjetivos e conse- de 1º de fevereiro de 1902: "Na Rússia escravi-
religioso e sagrado. É o que ocorre na civiliza- qual tende a desaparecer todo o sentido obje- qüentemente relativos" (p. 198). zada, nós, social-democratas, devemos traba-
ção moderna, desde a Renascença (século XVI) tivo de justiça. Antes mesmo das concepções Por sua vez, a idéia de soberania vinda da lhar para fornecer à classe trabalhadora esses
e sobretudo em seguida à Revolução Francesa positivistas e materialistas negadoras do direito Revolução Francesa implica um pressuposto elementos, isto é, nós devemos empreender a
(1789). Há um contraste pronunciadíssimo en- natural, este havia sofrido deturpação, perden- ateísta, pois consiste em fazer da vontade geral tarefa de realizar a agitação política nos seus
tre o teocentrismo da civilização cristã - orde- do sua fundamentação transcendente, em Deus, do povo a fonte última do direito e do poder múltiplos aspectos. E essa tarefa se impõe prin-
nando toda a vida humana para Deus - e o para ser visto como simples expressão da na- político, negando assim o direi~o natu~a.l, fun- cipalmente nos períodos de efervescência po-
humanismo antropocêntrico da Renascença ini- tureza racional e social do homem. Foi o que damentado na lei eterna, e a ongem d1v1na do lítica. É preciso levar em conta que, em um ano
ciando um processo desagregador dessa civili- ocorreu com a "escola do direito da natureza e poder. Esse ateísmo foi claramente manifesta- de intensa vida política, o proletariado pode
zação, que se veio acentuando com o correr das gentes" dos discípulos de Hugo Grócio do quando os revolucionários franceses ergue- aprender mais, no que se refere à educação
do tempo, até chegar à sociedade materialista (1583-1645). Sendo este autor protestante, não ram um altar à deusa Razão. Prosseguindo na revolucionária, do que em muitos anos de cal-
e tecnocrática do século XX, com o ateísmo se lhe pode evidentemente inculpar de ateís- sua marcha, o movimento revolucionário anti- ma. Nosso dever principal é esclarecer o prole-
teórico dos regimes marxistas, ou o ateísmo mo, mas o fato é que, por sua concepção racio- cristão atingiu, com a implantação do comu- tariado, ampliar e apoiar todos os protestos
prático das sociedades de consumo. nalista, deu margem a uma filosofia do direito nismo na Rússia (1917), sua fase mais aguda. liberais e democratas, mediante a participação
No Dizionario di Política da UTET (em imanentista e naturalista, com a idéia do direi- Aplicando os princípios do marxismo-Ieninismo ativa dos trabalhadores."
tradução portuguesa, Dicionário de Política, to natural independente da lei eterna. A seu _ expressão do materialismo histórico - e Em Que fazer? (1902), livro em que trata,
Editora Universidade de Brasília, 1986), bem ver, o direito natural subsistiria mesmo que Deus com seu ateísmo militante, propagado pelos com grande riqueza de detalhes, das caracte-
observa Guido Verucci que o ateísmo se afir- não existisse (etsi daremus, quod sine summo "Sem Deus", o regime daí decorrente tirou as rísticas da ação revolucionária, Lênin adverte
mou "largamente no mundo moderno e con- scelere dari nequit, non esse Deum, aut non últimas conseqüências de um processo ideoló- sobre a impropriedade de limitar a agitação
temporâneo, quer no plano cultural e filosófi- curari ab eo negotia humana, ainda que admi- gico que, no plano político, recebera impulso política à mera reivindicação de natureza eco-
co, quer no plano político e social. Identificou-se tíssemos, o que sem sumo crime não se pode decisivo com a Revolução de 1789. Na Encíclica nômica e chama atenção para a necessidade
e se afirmou junto com o racionalismo, com o aceitar, não existir Deus ou não serem os ne- DiviniRedemptoris(1937), sobre o comunismo de "organizar denúncias suficientemente am-
subjetivismo, com a exaltação de uma ciência gócios humanos por Ele cuidados. De jure ateu, Pio XI (Papa, de 1922 a 1939) referia-se plas, convincentes e rápidas". Desta forma, o
autônoma de qualquer condicionamento belli ac pacis, proL, 1). A verdade, porém, é aos efeitos dessa militância ateísta nas perse- operariado "saberá organizar hoje um tumulto
metafísico, com uma economia ligada às exi- que, não fundado numa ordem conforme à ra- guições religiosas da Rússia, do México e da contra os censores, amanhã uma manifestação
gências e aos ideais das emergentes classes zão divina, o direito natural se desvanece e sua Espanha, país este onde se extremavam os na frente da casa do governador que tenha su-
burguesas, com um processo de lenta mas pro- força de obrigatoriedade se extingue. Nesse horrores do furor persecutório. A Encíclica era focado um levante dos camponeses, depois de
gressiva laicização da sociedade e do Estado. caso, não há mais obrigação moral, e a obriga- publicada precisamente no segundo ano da amanhã dará uma lição aos policiais de sotaina
Ele, portanto, foi se difundindo e adquirindo ção jurídica fica reduzida a uma imposição do guerra espanhola, que se seguiu aoAlzamiento que desempenham o papel da Santa Inquisição".
considerável relevância social a partir do declí- poder público. Bem o compreendeu Dostoievs- nacional contra o comunismo. Depois da Se- O comunismo internacional e os movimen-
nio da Idade Média e do surgimento da civiliza- ki (1821-1881), ao dizer, em trecho famoso de gunda Guerra Mundial (1939-1945), semelhan- tos de esquerda no mundo todo, embora pau-
ção humanístico-renascentista e, em forma cada Os irmãos Karamazov, que, se Deus não exis- tes perseguições reproduziram-se noutros paí- tando o ativismo pelas diretrizes básicas de Lê-
vez mais ampla, multiforme, explícita e com- te, tudo é permitido. Mas a permissão supõe ses comunistas, principalmente na República nin, enriqueceram o instrumental de agitação
bativa, com o iluminismo" (verbete Ateísmo). quem a conceda, assim como a prescrição ou a Popular da China. e propaganda com técnicas novas. A infiltra-
Com efeito, do "plano cultural e filosófico" proibição requerem uma autoridade que im- V. Agnosticismo - Comunismo - Origem do po- ção saturante dos modernos meios de comuni-
passou o ateísmo para o dos costumes e das ponha uma ou outra. E as permissões humanas der - Racionalismo político. cação de massas proporcionou condicionantes
instituições. Começaram muitos a viver como pressupõem a permissão divina, assim como decisivas da opinião pública, conferindo eleva-
se Deus não existisse, e as más ações, antes as prescrições e as proibições humanas pres- ATIVISMO do grau de eficácia ao processo subversivo.
reconhecidas como pecaminosas - isto é, ofen- supõem respectivamente as prescrições e as Explica-se, assim, o caráter "incontrolável" da
Atividade de agitação e propaganda ideoló-
sivas à lei de Deus - , vieram a encontrar quem proibições divinas. É o que faz ver Georges agitação estudantil dos anos 60 no mundo todo.
gica ou política desenvolvida em diferentes
as justificasse, numa subversão da ética tradi- Kalinowski (L 'impossible métaphysique, Beua- Não foi de outro modo que os Estados Unidos
setores da sociedade. perderam a guerra do Vietnã dentro de casa,
cional e numa visão do mundo em que a ati- chesne, Paris, 1981), assim concluindo: "Por Georges Sorel (1847-1922) talvez tenha sido
vidade humana, deixando de ser orientada para conseguinte, se Deus não existe, não há mais antes de perdê-la na Ásia: o pacifismo paralisa-
o primeiro teórico do ativismo, quando fez a
o divino e o eterno, era dirigida para os bens permissões, como não há prescrições nem proi- ra os espíritos, hipnotizados pelos slogans dos
apologia da ação violenta, em Réflexions sur la
temporais - o prazer, o dinheiro, o poder, a bições. Supomos que esse era exatamente o violence (1908), ao propugnar a violência- ativistas.
utilidade social - como se fossem valores ab- pensamento de Dostoievski. Se esta hipótese Características próprias teve o ativismo re-
especialmente a greve geral - como instru-
solutos. Daí o naturalismo na arte e na literatu- é justa, o grande romancista deveria ter dito que, volucionário que invadiu os campi universitári-
mento de "salvação" da vida política mergu-
ra, o economismo liberal ou socialista reduzin- se Deus não existe, o homem faz o que bem os da América Latina nos anos 60/70. Se os
lhada na corrupção.
do o homem a um animal produtor, a razão de entende, nada sendo ordenado, nem proibido, É porém nos escritos de Lênin (1870-1924) movimentos ativistas de então buscavam moti-
Estado maquiavélica erigida em regra política nem permitido. Em suma, com a morte de Deus, que' se enc~ntram as idéias mais explícitas do vação no combate ao clássico imperialismo
suprema no lugar do "serviço de Deus" a que para usar a linguagem de hoje, todos os valores ativismo. Ao referir-se à passagem do Manifes- yankee, a que se juntavam a encruada corrupção
antes se consagravam os reis nas monarquias e todas as normas objetivas desaparecem. to Comunista (1848), onde se diz que "a pró- da política interna dos países e também as iní-
cristãs, e a ordem jurídica positiva não mais Ficamos para além de todos os valores e de pria burguesia proporciona os elementos para quas condições de vida de ponderáveis parce-
fundamentada na lei natural como expressão toda norma objetiva. Os únicos valores e nor- a educação política do proletariado", expõe o las da população, a meta final apontava para o
...
A11VISMO -48- Aro INSTITUCIONAL AUTARQUIA - 49- AUTOCRACIA

mito igualitarista da sociedade sem classes, cuja vitória. Os chefes da revolução vitoriosa, gra- sobre vários assuntos, editaram-se outros soas de direito público interno por submeter-
concretização era visionada mediante uma luta ças à ação das Forças Armadas e ao apoio ine- dezesseis atos institucionais. Em outubro de 1969, se às leis editadas pela entidade estatal que a
como a encarnada por Che Guevara (1928- quívoco da nação, representam o povo e em estando em recesso o Congresso Nacional, os instituiu, não podendo, a autarquia, legislar.
1967), figura aventurosa e romântica de guerri- seu nome exercem o poder constituinte, de que Ministros Militares, com base no AI-5, promul- Entre as entidades paraestatais e as autarquias
lheiro, fabricada em grande parte pelos meios o povo é o único titular." garam a emenda nº 1 à Constituição de 1967, há diferenças: as autarquias são pessoas de di-
de comunicação e que vinha respaldada ideo- Ao reverenciar a doutrina clássica sobre a alterando vários de seus dispositivos e reito público com função pública típica, en-
logicamente no marxismo, mas era escorada fonte do poder constituinte, a liderança da Re- renumerando-os todos, razão pela qual veio a quanto as paraestatais são de direito privado e
também, e "paradoxalmente", nos recursos pro- volução deu início, nesse preâmbulo, à série considerar-se, essa Emenda, como nova Cons- têm função pública atípica.
piciados por um outro imperialismo, o soviéti- de equívocos que marcaram todo o "processo tituição. A Emenda Constitucional nº 11, apro- V. Administração pública - Autonomia.
co. A força mística da guerrilha impulsionava o revolucionário". Nesse sentido, declarou man-
espírito idealista, e não raro de aventura, de vada em 1978, para vigorar a partir de 1º de
tidos a Constituição de 1946 e o Congresso janeiro de 1979, revogou todos os atos institucio-
diferentes grupos de jovens (universitários, sin- AUTOCRACIA
Nacional, introduzidas naquela algumas modi- nais e os 105 atos complementares, ficando
dicalistas) fascinados pelo ímpeto ideológico- ficações de feitio conjuntural. A liderança re- Governo em que o detentor da autoridade
subversivo posto a serviço da "redenção das plenamente vigente a Constituição de 1969.
volucionária, destituída de doutrina capaz de exerce um poder fundado exclusivamente na
massas". permitir reformular, com base na realidade das V. Constituição - Poder constituinte. própria vontade.
Daí por que, na dialética marxista, a idéia coisas, as instituições, escoimando-as de prin- Na autocracia, o governante detém um po-
está em permanente ação revolucionária, ou, AUTARQUIA der amplo e total, não havendo qualquer limi-
cípios míticos, sempre sustentou a validade
como diz Jean Daujat, "nega, contradiz, muda, destes, não obstante as medidas de exceção Na sua definição nominal etimológica, signi- te jurídico às suas decisões. Tinha esse caráter
toma a História permanente revolução". Por adotadas para corrigir os efeitos mais danosos fica autogoverno e auto-suficiência. Com esse o poder nos impérios orientais, cujos sobera-
isso, a moral marxista é a moral da utilidade do liberalismo. Paradoxalmente, apregoava que sentido encontra-se o termo em Aristóteles. Para nos, dada a influência da helenização, se
revolucionária, vale dizer, as exigências da luta essas medidas objetivavam resguardar referidos designar o autogoverno, os ingleses cunharam autodenominavam Autocratas (o que tem po-
de classes são a norma de moralidade. Esta é a princípios, os quais, aliás, eram diuturnamente a expressão self-government. As sociedades, que der - kratía - em si mesmo - autós). Os
real configuração do ativismo marxista. invocados pelas próprias correntes subversivas, constituem uma pessoa moral, têm o direito de imperadores autocratas da monarquia bizantina,
Não tem esse caráter a luta nobre por Ulna visadas pelas mesmas medidas. Proclamando reger-se a si mesmas, com uma autonomia, no que exerciam um poder simultaneamente reli-
causa justa. Essa luta persistente e sofrida nada iterativamente o caráter inexaurível do poder seu âmbito de ação, que deve ser reconhecida gioso e temporal, quando da cristianização, vi-
possui do ativismo propriamente dito. É a luta constituinte da Revolução, outros atos institucio- pelo Estado. Além disso, provêem ao próprio eram a praticar desenvolta ingerência na vida
regida pela moralidade das açõe~, que não nais foram editados, embora sempre se decla- sustento, dotadas que são de capacidade para da Igreja, chegando a atribuir-se o título de
despreza a moralidade dos meios para justifi- rasse vigente a Constituição. Assim, tanto esta fazê-lo . Donde a noção de autarquia que lhes isapóstolos (iguais aos apóstolos).
car o fim. Por isso, jamais fará da violência um quanto aqueles estiveram continuamente em aplica Enrique Gil Robles (m. em 1908), para Considerando-se sucessores do Império
processo normal e sistemático de ação. igual nível, no quadro da hierarquia das nor- indicar "governo próprio" e também "a suficiên- Bizantino, que desapareceu com a queda de
v. Agente provocador - Agitação - Agit-Prop mas. Daí fluíram freqüentes controvérsias so- cia maior ou menor, porém sempre relativa, Constantinopla (1453), devido à invasão turca,
- Propaganda política - Práxis. bre quais as disposições aplicáveis a fatos com que uma comunidade atende a seus fins e os imperadores russos também se intitulavam
ocorrentes. Procurou-se obviar a perplexidade necessidades, usando meios e recursos pró- Autocratas, além de Czares, com dilatados po-
ATO ou ATA GERAL - v. Tratado. hermenêutica eliminando-se o aranzel de nor- prios" (Tratado de Derecho Político, Salamanca, deres religiosos e temporais, que prevaleceram
mas mediante a elaboração de nova consti- 1899, lª ed., III, I, 2). Para o mesmo autor, a até a implantação da República (1917).
ATO INSTITUCIONAL tuição. Para tanto, a liderança revolucionária soberania, exercida pelo Estado, é o poder de O título de Autocrata, portanto, era de uso
baixou o Ato Institucional nº 4, pelo qual foi império e coordenação, sendo a autarquia o oficial.
Instrumento jurídico que formaliza medida delegado o poder constituinte revolucionário poder inerente aos grupos intermediários, que A transmutação semântica que a palavra au-
de exceção relacionada com a estrutura e o ao Congresso Nacional, que elaborou e promul- formam a sociedade política. tocracia veio a sofrer ocorreu a partir do consti-
funcionamento da sociedade política, e que os gou a Constituição de 1967. Reduziam-se, as- Idêntica expressão tem sido empregada com tucionalismo, na França, nos fins do século
governos revolucionários, auto-investidos do sim, à unidade as normas jurídicas básicas do referência ao Estado dando cobertura a na- XVIII, quando o termo foi empregado com o
poder constituinte, vêm a editar. País. No entanto, nem um ano havia transcorri- cionalismos exagerados. Um regime de plena sentido de absolutismo, despotismo. Uma apli-
No Brasil, em 9 de abril de 1964, os chefes do da vigência dessa Constituição, e a lideran- autarquia econômica seria aquele em que o cação muitas vezes imprópria, quando feita a
das Forças Armadas, com a vitória da Revolu- ça revolucionária já reativava o poder consti- Estado produzisse tudo o que deve ser con- monarcas do Antigo Regime, pois não possuí-
ção de Março, resolveram baixar o Ato Institu- tuinte para editar, em 1968, o Ato Institucional sumido no limite de suas fronteiras, sem ne- am eles poderes ilimitados. Já as ditaduras to-
cional nº 1, em cujo preâmbulo se declara que nº 5, que, a despeito de declarar ainda mantidas cessidade de comércio exterior. Esse o ideal talitárias dos tempos modernos ultrapassam os
"a revolução vitoriosa se investe no exercício a Constituição Federal e as Constituições Esta- de Fichte no seu livro sobre o Estado comer- poderes dos imperadores tanto de Bizâncio
do poder constitucional", acrescentando, adian- duais, delegou amplos poderes ao presidente cial fechado (Der geschlossene Handelstaat) . quanto da Rússia, e ganham uma dimensão real
te: "Assim, a revolução vitoriosa, como o po- da República para decretar o recesso do Con- No direito administrativo, autarquia é pes- em relação ao sentido que os constitucionalistas
der constituinte, se legitima por si mesma. Ela gresso Nacional, das Assembléias Legislativas soa jurídica de direito público interno com fun- do século XVIII conferem à expressão autocra-
destitui o governo anterior e tem a capacidade e Câmaras Municipais, a intervenção nos Esta- ção estatal própria e típica, outorgada pelo ta. Típico, a propósito, é o Führerprinzip (prin-
de constituir o novo governo. Nela se contém dos e Municípios, a suspensão de direitos polí- Estado, e subordinada ao controle do poder a cípio do chefe) formulado na Alemanha nacio-
a força normativa, inerente ao poder constituin- ticos, o estado de sítio, o confisco de bens, a que pertence, embora possua administração e nal-socialista. Também os governos comunistas
te. Ela edita normas jurídicas, sem que nisto suspensão das garantias individuais e do habeas patrimônio próprios. Trata-se de serviço públi- sempre tiveram essas mesmas características
seja limitada pela normatividade anterior à sua corp.;:s, entre outras providências. Dispondo co personificado. Distingue-se das outras pes- autocráticas.
AUTOCRlTICA -')0- AU70DETERMINAÇÃO DOS povos AlJTOGBSTÃO -')1- AUTOGESTÃO

Observa, outrossim, Berdiaeff (1874-1948), científica contrária aos princípios marxistas que tensas pressões e orquestrada propaganda, para os trabalhadores, suprimida a plus-valia, ficas-
no livro Un nouveau Moyen Age, que a concep- na antiga União Soviética se rejeitaram as leis pôr fim ao colonialismo, e que, da forma como sem donos do produto do seu trabalho. Esbar-
ção democrática da "soberania do povo" im- de Mendel sobre a imutabilidade dos genes, ocorreu, acabou produzindo graves conseqüên- rou, porém, a funcionalidade desse sistema nas
plica "autocracia do povo". dado que é isto incompatível com o princípio cias para os destinos do mundo livre: esses exigências da planificação global da economia,
V. Absolutismo - Autoritarismo - Bonapartismo da dialética. O meaculpismo da autocrítica visa novos Estados, em grande número, passaram de mecânica incompatível com a estrutura au-
- Cesarismo - Despotismo - Ditadura - Estratocra- a salvaguardar a pureza dos dogmas marxistas a gravitar na órbita de Moscou ou de Pequim e, togestionária, a qual, por sua vez, ainda estava
cia - Tirania - Totalitarismo. e a mística do partido, cuja infalibilidade deve- ao ingressarem na ONU, tornaram majoritário sujeita aos esquemas monolíticos do partido
ria aproveitar à credibilidade do determinismo o bloco socialista na composição da Assem- único. Por isso que, na Iugoslávia autogestio-
AUTOCRÍTICA histórico e ao triunfo das "verdades ideológicas". bléia Geral. Assim, a descolonização vinha sig- nária, gerentes e técnicos governamentais não
Em linguagem vulgar, é a avaliação do pró- V. Comunismo - Marxismo. nificar o alastramento do mesmo colonialismo deixavam de operar e deliberar superiormente,
prio comportamemto ou das próprias idéias e imperialista que, com virulência, já se implan- nos moldes de um burocratismo decisório em
AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS tara na Europa Oriental, ao abater-se o domí- que a participação dos operários contava muito
atitudes, com caráter de autocensura. Na práxis
marxista, autocrítica é o exercício dialético de Princípio relativo ao direito de cada povo nio soviético sobre vários países, regidos por pouco. Um balanço dos quase quarenta anos
reger-se por si mesmo, mediante organização governos títeres, e onde veleidades de efetiva de democracia autogestionária iugoslava regis-
um membro do partido - manifestado aberta-
mente em reunião deste, de comitê ou de cé- estatal própria. Esse postulado deita raízes nas autodeterminação foram esmagadas pelas ar- trou, ademais, acentuadas diferenças de gan-
lula - ao se auto-acusar de erros cometidos, teorias voluntaristas da Revolução Francesa mas, como aconteceu na Hungria, em 1956, na hos entre categorias diversas de trabalhadores,
apurando-se-Ihes as causas e tomando-se as me- (1789), em que se abebera o "princípio das Tcheco-Eslováquia, em 1968. E tudo sob as vis- além da difusão de práticas empresariais típicas
nacionalidades", sustentado no século passa- tas indiferentes, senão complacentes, da ONU. da economia de mercado, especialmente uma
didas corretivas pertinentes. Esse processo pro-
cura garantir o monolitismo ideológico e a do por Mancini (1817-1888) - "cada Nação V. Colonialismo. obstinada preocupação pelo lucro cada vez
capacitação revolucionária, especialmente me- deve constituir um Estado" - e Bluntschli (1808- maior, até mesmo através de processos mono-
diante a fidelidade irrestrita ao dogmatismo 1881) - "toda Nação é destinada a formar AUTOGESTÃO polistas.
marxista, pois as teorias de Marx-Engels-Lênin um Estado, tem o direito de se organizar em O desmoronamento do comunismo na Euro-
Modalidade de participação dos integrantes
são consideradas imutáveis e indiscutíveis. A Estado". pa Oriental também trouxe à luz a desorganiza-
de uma organização ou coletividade específica
propósito, Lênin sentencia: "O materialismo Figurou a autodeterminação dos povos na ção da economia iugoslava com uma inflação
(empresa, entidade pública, escola) nas deci-
dialético e histórico constitui o fu'ndamento te- proclamação dos "Catorze Pontos" do progra- altíssima, a carência generalizada de bens de
sões gerenciais, tanto sob a forma consultiva
órico do partido marxista e sua aceitação é um ma de paz do Presidente Woodrow Wilson (1856- consumo, o esfacelamento interno e o conflito
quanto deliberativa.
dever para todo lutador ativo de nosso parti- 1924), dos Estados Unidos, quando da Primei- armado entre nacionalidades independentes.
Na autogestão, as decisões devem partir da-
do." E o :xx Congresso do Partido Comunista ra Guerra Mundial (1914-1918), e foi invocado Na Alemanha, a autogestão chama-se co-de-
queles mesmos que as vão executar, sem quais-
da União Soviética, ocorrido em março de 1956, para justificar o desmembramento do império terminação (Mitbestimmun[j) e foi adotada, por
quer intervenções estranhas à vida interna da
deixara determinado o seguinte: "O Congresso austro-húngaro. Depois da Segunda Guerra organização. O modelo autogestionário é consi- força de lei, a partir de 1951, nas indústrias de
do Partido encarrega o Comitê Central de velar Mundial (1939-1945), a Organização das Na- derado fórmula de integração de socialismo e carvão, ferro e aço, nas quais os empregados se
também no futuro pela pureza da doutrina mar- ções Unidas, que inscreveu esse princípio nos democracia, na expectativa de superação do so- fazem representar num Conselho de Empresa,
xista-Ieninista como a menina de seus olhos." artigos 1º e 55 de sua Carta, fomentou-lhe a cialismo burocrático-estatal, especialmente quanto para o qual são eleitos sem interferência do
Funcionando como tribunal de inquisição, o aplicação na Ásia e na África, provocando o à estruturação da vida sócio-econômica. Preten- sindicato. A esse Conselho são submetidos as-
Comitê Central decidia sobre interpretações, surgimento de grande número de Estados, onde de-se suplantar, por esta via, a "problemática do suntos relativos a horário de trabalho, plano de
doutrinas e teorias posteriores à elaboração do antes existiam agrupamentos humanos subme- capitalismo", entendendo-se que, assim, tudo férias, formação profissional, serviço social da
complexo ideológico originário de Marx-Engels- tidos a reais ou supostos regimes coloniais. passa a ser de todos, e nada, de ninguém. Atri- empresa e outros, excluídas, porém, as negocia-
Lênin, condenando heterodoxos e revisionistas, Possuindo, grande parte desses novos Estados, bui-se à autogestão o caráter de comunismo de- ções salariais, de competência exclusiva das
e lançando anátemas a autores que sustentas- população desprovida de condições sociais, mocrático, cujas primeiras germinações se mani- convenções coletivas intersindicais. Também
sem teorias científicas inconciliáveis com o econômicas e culturais adequadas a sustentar a festam na idéia dos "conselhos operários" após nas sociedades anônimas alemãs de maior ex-
marxismo, além de proibi-las. Conhecem-se súbita emancipação, passou a irromper dentro a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). pressão, os Conselhos Administrativos se com-
muitos casos a respeito: como os de Alexandrov, deles freqüente movimento pendular entre a A Iugoslávia foi tida como paradigma do sis- põem, por força de lei, de um terço de repre-
Zdhanov, Vavilov, A. Deborin, P.M. Zukovski, anarquia e a ditadura, o qual veio a ser traba- tema autogestionário, ali introduzido pela pri- sentantes dos empregados, escolhidos sem
B. M. Kedrov, etc. Além do cumprimento de lhado em função do leit motiv marxista relativo meira vez, nos anos 50, nas empresas e nos ingerência sindical. Essa co-determinação, em-
retratações, foram-lhes impostas penas de pri- a "povos dominantes e povos dominados". Ou órgãos estatais. No âmbito empresarial, a au- bora sob a forma consultiva, apresenta um as-
são, inclusive com trabalhos forçados, como se seja, o comunismo internacional entrou a ex- togestão iugoslava tinha em mira alcançar a so- pecto negativo: resulta de imposição legal. Se
deu com Vavilov. Isto sem falar nas humilhações plorar, ostensiva ou sub-repticiamente, a eclosão cialização integral de maneira tal que as deci- de adoção espontânea ou promovida mediante
a que filósofos e cientistas foram submetidos do espírito nacionalista, catalisando ou entro- sões todas relativas ao processo produtivo e incentivos do poder público, tais como os de
quando, em decorrência de estudos e pesqui- nizando lideranças adestradas, instigando ou distributivo se originassem dos trabalhadores. natureza fiscal, e se estruturada através de me-
sas científicas, sustentaram posições contrárias manipulando sedições separatistas e apetre- Toda uma transformação das estruturas sócio- canismos diversificados e de livre escolha, pode
à doutrina marxista, e em razão disso se viram chando de recursos bélicos a maioria dos econômicas estava implicada nesse sistema que, oferecer condições propiciadoras de entendi-
constrangidos a confessar os próprios "erros" e "países novos". Defrontou-se, assim, a política eliminando a propriedade privada mediante a mento entre empresários e empregados. Im-
a inculpar-se de ignorância dos princípios do internacional com uma estranha autodeter- coletivização de cada unidade produtiva, bus- posta, no entanto, a autogestão, com caráter
marxismo-1eninismo. Foi por inexistir verdade m~ação, promovida pela ONU, mediante in- cava fazer com que, pelo autogerenciamento, indiscriminado e obrigatório, especialmente a
AUJ'OGOVERNO -52- AUJ'OGOVERNO AUTOLIMIIAÇÃO DO PODER -53- AUTONOMIA

que deve funcionar sob a forma decisória, conflita reitos, obrigações e franquias de uma coletivi- local depender de recursos oriundos do poder AUTONOMIA
com o direito de propriedade. dade territorial delimitada. O foral consagra um central. Faculdade de auto-reger-se por direito pró-
Países como a Espanha, a França, a Bélgica, direito localista (foraleiro), específico de cada A expansão da competência tributária cen- prio.
a Dinamarca e Portugal, adotam tipos diversos concelho. Por isso, nessa época, não há conce- tralizada vem suscitando, em muitos países, idéia Segundo a concepção kantiana, consiste na
de participação - desempenhados por dele- lho instituição geral, mas concelhos instituições de monopólio da imposição pelo poder cen- liberdade absoluta da pessoa para fixar as pró-
gados sindicais - em assuntos da vida de em- especiais. As normas foraleiras preveniam e evi- tral, que, enquanto fonte arrecadadora única e prias regras de conduta, originando-se assim a
presa, especialmente os ligados às condições tavam abusos por parte da autoridade pública, exclusiva, se limitaria a transferir aos governos autonomia moral, que se funda exclusivamen-
de trabalho e até à gestão. e em geral constituíam mera formalização es- locais quotas determinadas das receitas, fican- te no homem, considerado princípio e fim de
V. Comunismo - Participação - Socialismo. crituraI de costumes secularmente arraigados e do-lhes assegurada apenas a autonomia na si mesmo.
reconhecidos pelo poder central. Tal era a for- aplicação das verbas. Desta forma, o imposto No direito civil, o princípio da autonomia da
AUTOGOVERNO ça dessas instituições em Portugal que se tor- - que se vem constituindo num instrumento vontade - que nada tem a ver com a doutrina
nou usual o Rei aliar-se aos concelhos para fa- eficaz de confisco da propriedade privada - kantiana - é exercitado no quadro de um
Exercício autônomo de atividades jurídico- zer valer a soberania do seu poder perante as torna-se também veículo de destruição das ordenamento jurídico, cujo respeito se impõe
político-administrativas, no âmbito de coletivi- pretensões feudalistas, que ali não chegaram a autonomias locais. à ação livre das pessoas.
dades territoriais, mediante poderes fundados vingar. Os primeiros forais datam de antes da
num direito próprio e com autoridade de livre V. Foral- Fueros - Município. Na organização da sociedade política, depen-
fundação de Portugal (1140), multiplicando-se dendo menos da forma de Estado do que da
escolha dos governados. a partir de então, especialmente nos séculos AUTOLIMITAÇÃO DO PODER filosofia social e política em que se fundam as
Não obstante as injunções históricas vividas XIII e XIV. Também na Espanha tiveram ori-
pela generalidade dos países, é expressão da Princípio que consiste em o Estado impor-se instituições, encontram-se manifestações da au-
gem remota, considerando-se os de Castrojériz a si próprio a limitação de seu poder, através tonomia. Os Estados federais, por sua mesma
ordem natural das coisas a auto-organização (974) e de León (10 17 ou 1024), como os mais
das coletividades locais para atender às neces- de normas constitucionais e da legislação ordi- natureza, estruturam-se, assegurando às suas
antigos. No Brasil, embora desprovidos da sei- unidades componentes - Estados-membros,
sidades de interesse comum. As vicissitudes nária.
va histórica comparável aos da Península, hou- Formulado por Georg Jellinek (1851-1911), províncias, cantões - uma autonomia que se
ocorrentes em cada agrupamento humano no ve os forais de São Salvador, Olinda, São Luís
âmbito de cada povo fazem surgir formas so- esse princípio parte da consideração de que exprime na auto-organização constitucional das
do Maranhão, Belém do Pará, São Sebastião do o Estado, por ser soberano, cria o direito e, unidades federadas, as quais se regerão por
ciais típicas que geram instituições específicas. Rio de Janeiro.
A história da Península Hispânica é rica em portanto, pode autodeterminar-se e auto-obri- um legislativo, um executivo e um judiciário
As autonomias locais peninsulares começa-
exemplos dessa natureza. Em Portugal, os con- ~~~. . próprios, dentro dos limites de sua competên-
ram a esmaecer a partir da influência dos legistas
celhos, que só se configuraram na Idade Mé- A teoria da autolimitação é uma das malS cia superiormente estabelecidos. Terá maior
responsáveis pelos projetos de codificação das
dia, remontam suas origens à pré-história do típicas manifestações do legalismo positiv~st~, amplitude e eficácia essa autonomia, se alimen-
normas jurídicas desde as Ordenações Afonsinas
país. Assembléia deliberativa dos vizinhos (fa- que veio perverter a noção de Estado de dlrel- tada por raízes históricas, mergulhadas em cos-
(1446), subsistindo, porém, muitas dessas au-
mílias) de uma povoação, o concelho elabora to. Esse legalismo, na história das idéias e das tumes sócio-políticos sedimentados através do
tonomias mesmo sob o absolutismo. Foi com a
normas que regem a vida local ao mesmo tem- instituições jurídicas ocidentais, começou com tempo, como acontece nos Estados Unidos e
implantação do Estado liberal que o unifor-
po que decide sobre litígios e administram ser- a influência dos legistas, a serviço da monar- na Suíça. Se resultar de instituições transplan-
mismo jurídico chegou ao auge: o Estado con-
viços e obras "em prol do comum" (abasteci- quia absoluta, fazendo prevalecer sobre a con- tadas, terá precária subsistência, como ocorre
verte-se, então, em fonte única do direito, e
mento, águas, caminhos, etc.). As raízes remotas cepção medieval da "descoberta do direito" a no Brasil. Sob a forma unitária de Estado, tam-
obviamente não há razão de ser para o direito
desse localismo são apontadas por alguns nas idéia da "criação do direito". Era, por um lado, bém podem manifestar-se autonomias, espe-
foraleiro. Na generalidade dos países do mun-
primitivas citânias, por outros nas vilasdo mu- a redução do direito à lei, mas também, por cialmente as de natureza administrativa. Típicos,
do que se miraram nas instituições políticas fran-
nicípio romano, que não destrói o existente mas outro lado, o império da máxima princeps le- a respeito, são os casos da Itália e da Espanha.
cesas a partir de 1789, veio a adotar-se uma
o ordena e aperfeiçoa, valorizando as regiões ordem jurídico-política centralizada, e as auto- gibus solutus. Nesta, a antiga tradição dos fueros retrata até
dominadas para integrá-las no Império. Tercei- Modernamente, como é soberana a vontade mesmo um caráter peculiar, de maior expres-
nomias municipais acabaram substituídas por
ros há que vêem na Reconquista - período governos delegados pelo poder central. do Estado, depende do arbítrio deste dispor são autonômica do que a das unidades inte-
histórico em que os reis cristãos vão recon- A Inglaterra, embora isenta da influência fran- sobre a amplitude de sua ação. "Daí que o Es- grantes do Estado Federal. Já nos Estados to-
quistando aos árabes a Península Hispânica - cesa, viu perder-se, desde o século XIX, a força tado soberano é o único que pode, dentro das talitários, ainda que adotada a forma federativa,
a gênese das autonomias locais, dada a impos- consuetudinária do self-government. O avanço limitações jurídicas que a si mesmo se tenha não há falar em autonomia das unidades com-
sibilidade de incorporação das terras retoma- tecnológico - a partir da Revolução Industrial imposto, ordenar, de maneira plenamente li- ponentes, pois isso equivaleria a comprometer
das sob um poder direto, centrado numa orga- - trouxe exigências cada vez maiores para vre, o campo de sua atividade" (G. Jellinek, o monolitismo da estrutura estatal, que é rigida-
nização unitária. Ocorre, porém, que as raízes a satisfação das populações dos condados e Algemeine Staatslebre, IH, 14, 2). mente resguardada.
multisseculares das citânias e vilas permane- distritos, a que os governos locais estavam in- A soberania assim entendida encerra, na ver- As entidades autárquicas, criadas no âmbito
ceram vivas sob a dominação árabe, e se foram capacitados de dar atendimento cabal (energia dade, um poder ilimitado. Porque, se o Estado das diferentes esferas da administração pública
revitalizando à medida que avançava a Recon- elétrica, vias de transporte, saneamento bási- é a fonte primeira e única do direito, nada im- (central ou federal; estadual, provincial ou
quista. co, etc.). Tais fatores provocaram sucessivas pede que a autolimitação do poder ceda lugar, cantonal; municipal ou comuna I) - como é o
Expressão das autonomias dos concelhos, o intervenções nas áreas de competência dos a qualquer momento, à ilimitação desse mes- caso de institutos de previdência, universida-
fora I ou "carta de foral" era o instrumento governos locais. A escalada desse processo mo poder, ou seja, ao absolutismo. des oficiais, etc. - , por sua natureza específi-
normativo que regulava a vida da povoação, centralizador encontrou fomento no sistema tri- V. Absolutismo - Limitação do poder político ca, gozam de um regime jurídico autônomo.
vale dizer, uma carta de normas que fixava di- butário implantado, que fez a administração - Separação de poderes, Teoria da - Soberania. No entanto, essa autonomia nem sempre tem

'"
AUTONOMIA -'54- AUTORIDADE AUTORIDADE -')5- AUlORIDADE

condições de exerClClO pleno, devido a vin- esses quadros sociais, é uma constante, ao lon- por seu exercício - a independência e a impar- adequadas a que os homens usem da liberdade
culações das entidades com a administração go da história, o fenômeno autoridade, não cialidade necessárias a garantir isenção nas de- para alcançar seus fins. Portanto, longe de se
direta. obstante as formas diversas que assume. Já o cisões de governo. Desta forma, haverá condi- opor, liberdade e autoridade completam-se. Sem
Na generalidade dos países, há comunida- antigo aforismo ubi societas, ibi aucton'tas vi- ções de a autoridade aumentar cada vez mais respeitar a liberdade dos governados, a autori-
des civis básicas - que surgem naturalmente, nha retratar essa realidade, que teorias divor- o bem que dela esperam os governados, como dade deixa de existir, ilegitima-se, toma-se pura
pela multiplicação das famílias - , nas quais a ciadas da verdade das coisas não conseguem indica a própria etimologia: augere (aumentar, expressão da força: será poder, mas nunca au-
gestão da coisa pública se faz para atender a elidir: a inerência da autoridade à sociedade a fazer crescer, desenvolver), daí auctor, aucto- toridade. Também sem autoridade que as pro-
interesses comuns da vida local. São os municí- radicar na inerência da sociabilidade à natu;e- ritas. Ademais, é a busca efetiva e constante teja, as liberdades sucumbem, pois a liberdade
pios. Comunidades naturais, que ao longo do za humana. Demonstram os fatos que é impos- do bem comum, levada a efeito pela verdadei- do mais forte prevalece sobre a do mais fraco,
tempo vão adquirindo uma feição própria, em sível a viabilização da sociedade sem autorida- ra autoridade, que possibilita a obediência, ou o laissez-faire acaba na destruição da liberda-
área geográfica delimitada, os municípios cons- de. As vontades, os esforços, os objetivos, os seja, o cumprimento tranqüilo de suas decisões. de. A autoridade precisa ser forte para proteger
tituem as células vitais da nação. Essa vitalida- interesses multivariados e discrepantes dos com- Ampara-se, essa obediência, em motivos racio- as liberdades, impedindo que a liberdade de
de encontra fomento eficaz na autonomia que ponentes de uma sociedade, frustrariam a con- nais, ditados pela consideração da necessidade alguns destrua a de outros e para não se deixar
garantindo a expansão das atividades l~cais: vivência harmônica e impediriam a consecu- e conveniência da vida em sociedade, cuja or- dominar ou conduzir por um poder mais forte
impulsiona um desenvolvimento nacional or- ção do bem comum, se faltasse um elemento denação é indispensável a um convívio pacífi- que tenha liberdade para fazê-lo.
gânico. unificador e ordenador das partes integrantes co e proveitoso. Os instrumentos coercitivos, Diz-se legítima a autoridade assim caracteri-
Os grupos intermediários - que, situando- do todo. previstos nessa ordenação, embora não consti- zada. Trata-se da legitimidade fundamental,
se entre os indivíduos e o Estado, são em Partindo da observação dos fatos, Aristóteles tuam fonte primária da obediência, destinam- porque vinculada ao fim para o qual existe a au-
número incalculável- formam-se espontanea- (384-322 a.C.) chegará à formulação do princí- se a dar força à lei e a corrigir eventuais ero- toridade. E que pode prevalecer até mesmo em
mente, por força da natural sociabilidade hu- pio de que em toda realidade complexa, com- sões da ordem. A coerção, por isso mesmo, tem situações em que a autoridade - embora não
mana. O direito natural de os homens se as- posta de partes, deve existir um elemento ca- caráter diverso da que é posta como princípio derivada de fonte formal preestabelecida - atua
sociarem faz com que os grupos que se criam paz de assegurar a unidade e coesão entre elas. de sustentação do Estado totalitário, em que continuamente na instância do bem comum. A
também tenham o conseqüente direito de se Verifica-se isso numa variedade sem conta de prevalece a lei da força. É da natureza da auto- legitimidade fundamental justifica uma obe-
~uto-regulamentar, auto-reger, auto-administrar. coisas existentes no universo. O organismo ridade o direito de exigir obediência. Não ha- diência indiscutível conferindo estabilidade ao
E inerente, pois, a esses grupos sociais uma animal, por exemplo, é um todo complexo e verá autoridade se não houver obediência, a exercício da autoridade. Já a legitimidade origi-
autonomia legítima, que o Estado deve reco- subsistente por si mesmo, cuja vida se comuni- qual obviamente implica restrições à liberdade. nária - de que se valem as ideologias para
nhecer e proteger. Essas autonomias sociais - ca às partes que o compõem, enquanto perma- Impossível, porém, será a vida em sociedade dogmatizar como válidas exclusivamente cer-
detentoras de competências exclusivas e a sal- necerem integradas nessa unidade orgânica. Já sem essas limitações. Mesmo porque a utopia tas formas de governo ou determinados regi-
vo de qualquer interferência indébita dos po- no tocante ao grupo social, a unidade que lhe da liberdade absoluta desencadeia, suces- mes políticos - tem importância relevante mas
deres públicos - levaram Vázquez de Mella dá vida decorre da aglutinação de seus mem- sivamente, a ruptura dos vínculos sociais, o relativa, pois configura tão-somente pré-requi-
(1861-1928) a caracterizá-las como a expres- bros, fundada numa ordenação dirigida a um bellum omnium contra omnes (a guerra de to- sitos rituais, tradicional ou consensualmente
são de verdadeira "soberania social". E isto fim comum. Mas, enquanto o organismo animal dos contra todos), os expedientes autoritários aceitos, de assunção ao poder, o qual, no en-
porque os grupos intermediários têm vida pró- forma um todo substancial, o organismo social ou totalitários. Aceitar a autoridade - com os tanto, se se desviar, em seu exercício, da linha
pria, que provém das iniciativas e atividades constitui um todo acidental, em que cada parte benefícios e sacrifícios implicados - é praticar do bem comum, pode levar o seu titular à ile-
de seus membros, cujas liberdades pessoais integrante - o ser humano - tem existência um ato racional totalmente oposto à proposi- gitimidade. É o que ocorre quando, a despeito
encontram, nesse meio ambiente social, con- em si mesma e por si mesma. Na verdade, o ção rousseuniana segundo a qual "o homem de haver legitimidade originária, deixou de existir
dições favoráveis de afirmação e expansão. organismo social não teria condições de sub- nasce livre, mas em toda parte vive agrilhoa- legitimidade fundamental. Desde, porém, que
sistir, dada a complexidade que lhe é pecu- do". Agrilhoado, porque a autoridade tem o ambas - a originária e a fundamental - ve-
V. Autogoverno - Corporações - Descentralização
liar, sem uma unidade de ordem. Por isso a dever de manter a ordem e, para tanto, exigir nham a se conjugar, a autoridade solidifica-se
- Estado Federal - Federalismo - Foral - F ueros
autoridade - princípio de unidade e de ~r­ obediência, que limita a autodeterminação, a no consenso comum, e ganha real estabilidade.
- Grupos intermediários - Sindicato - Subsidia-
dem - é da essência da sociedade e, em últi- liberdade. É o falso antagonismo entre liberda- Outrossim, a hierarquia é pressuposto ne-
riedade, Princípio de.
ma análise, da essência da natureza humana. É de e·autoridade, derivado da concepção de que cessário da autoridade, pois que esta só tem
AUTORIDADE o bem comum - fim visado pela sociedade - o homem é "bom por natureza", razão pela meios de realizar seu fim em função da desi-
que define o caráter essencial da autoridade. qual só deve estar sujeito a uma única regra: a gualdade. Desigualdade entre governantes e
Faculdade de mandar e comandar que se Esta existe e se justifica em função de um bem liberdade total, a permissividade. Por isso, a governados, inerente a qualquer organização
manifesta natural e necessariamente na estru- que transcende os bens individuais. Para se autoridade é considerada em si mesma um mal. sócio-política, mesmo aquelas cobertas pela
turação de todo agrupamento humano, para, efetivar, esse bem reclama a ação de uma auto- Um mal na família, na escola, na sociedade, na retórica do "povo no poder". Essa desigualda-
em nível hierárquico superior, prover os meios ridade que - aparelhada de conhecimento Igreja. É, porém, de senso comum e lição dos de, sempre presente em toda e qualquer forma
adequados à realização de um fim comum. amplo e vivo, no tempo e no espaço, dos pro- fatos que a liberdade e a autoridade pertencem de sociedade, apesar de proclamado seu pere-
O fenômeno autoridade é intrínseco ao fe- blemas da sociedade toda, além de forrada de à ordem da vida humana. É mantendo a justa cimento futuro pelo milenarismo igualitarista,
nômeno sociedade. A vida do homem, desde virtudes morais - a torne inacessível às pre- ordem da sociedade - porque organizada se- conforma-se à reta ordenação das coisas, pois
as origens, sempre se desenvolveu dentro de tensões de interesses particularistas. gundo a natureza humana e a natureza das coisas, somente desta forma há possibilidade de esta-
círculos sociais: a família, a tribo, grupos mul- No âmbito da sociedade política, mais do respeitados os valores transcendentes - que a belecer e fazer cumprir as normas de convi-
tiformes (profissionais, culturais, etc.), o muni- que em qualquer outra, a autoridade deve pos- autoridade encontra a sua razão de ser, com o vência. Assim, exprimindo-se na autoridade, a
cípio, a prov~ncia, o Reino, o Estado. Em todos sui~ por sua origem, por sua investidura e que estarão sendo propiciadas as condições desigualdade nada tem de iníqua, pois, além
AUTORIDADE AUTORITARISMO AVERROISMO -57 - AXIOLOGIA

de decorrer dos imperativos da vida social, Dentre elas, destaque-se a ruptura entre a mo- tal pelo fato de suas decisões dependerem das dade do mundo, a unidade do intelecto agente
encontra justificação na capacidade requerida ral e a política. Uma vez fundada esta no amo- injunções de apetites partidários incontroláveis, e a negação da imortalidade pessoal. O que
superiormente para a utilização diferenciada e ralismo, ficam legitimadas todas as simulações, que arrastam ao desgoverno. Nesse quadro, mais os caracterizou foi a chamada teoria das
eficiente do instrumental de poder necessário dissimulações e aberrações na atividade políti- irrompem com freqüência soluções autoritári- duas verdades, segundo a qual uma proposi-
à instauração e asseguramento de uma ordem ca, pois que "o fim justifica os meios". A "razão as, declaradas umas, camufladas outras com ção pode ser verdadeira em filosofia e falsa em
justa. Daí a afirmação de que a autoridade é de Estado" é outra idéia chave do pensamento uma representação política invertebrada, por- teologia, ou vice-versa.
serviço. A medida desse serviço davam-na os de Maquiavel, que a considera a ultima ratio que congenitamente arrepresentativa. Além de tais posições no campo da filosofia
antigos quando falavam no "duro ofício de rei- da ação governamental, sendo facilmente in- Outrossim, merece atenção especial o fato especulativa, o averroísmo revestiu-se de um
nar", mesmo porque "o rei não é dono da repú- vocável para conferir legitimidade ao arbítrio. de, modernamente, uma tecnocracia autoritá- aspecto político, principalmente na Itália. Teve
blica (res publica) mas o seu primeiro servi- Já em Hobbes (1588-1679), depara-se ampla ria atuar habilmente, em muitos países, sob o em Pádua significação toda especial, destacan-
dor". Como a autoridade existe para servir, na elaboração doutrinária que parte de uma con- pálio de todo o ritual democrático. Esse tipo do-se aí, entre seus adeptos, o médico Pedro
linha do bem comum, perde ela suas bases éti- cepção abstrata (estado de natureza) e pessi- de autoritarismo se exercita, não raro, com ex- Abano (1257-1315) e sobretudo Marsílio de
cas quando utilizada para a satisfação de inte- mista (homo homini lupus, o homem é lobo trema desenvoltura, a despeito dos mecanis- Pádua (1275/1280-1342/1343), que, no Defen-
resses pessoais ou de grupos. A conduta abusiva para o homem) do homem a reclamar um po- mos legais de controle, que, quando não ino- sor Pacis, aplica o dualismo criteriológico, di-
da autoridade pode ensejar a resistência 'dos der total, em mãos do Leviatã, necessário a pre- perantes, registram uma operacionalidade de zendo que, segundo a razão, Deus e a vida
governados, suscetível de alcançar o grau má- venir e reprimir o conflito permanente entre os eficácia duvidosa. futura somente têm uma utilidade sócio-políti-
ximo, consistente na deposição do titular do indivíduos (bel/um omnium contra omnes, a Na ordem institucional do Estado moderno, ca - embora sejam verdades eternas, segundo
poder. Neste caso, estamos diante de um poder guerra de todos contra todos) a fim de assegu- constata-se que o igualitarismo, desierarqui- a fé - e daí deduzindo que a política racional
que perdeu a autoridade. De outro lado, quan- rar a paz pública. O pensamento hobbesiano, zando por princípio a sociedade e reduzindo- deve fazer da religião um instrumentum regni
do a autoridade é indecisa, omissa ou débil, se não nos seus princípios todos, seguramente a à atomização, anula ou enfraquece os pode- e não um fim superior. Dualismo semelhante
provoca o enfraquecimento dos laços de coe- em suas conclusões, aparece em estruturas au- res sociais, cujas autonomias constituem barreiras reaparecerá no pensamento e nas realidades
são social, permite que os mais fortes abusem toritárias da atualidade. Mas é ao paradoxal naturais ao crescimento e abuso de poder. As políticas dos séculos XIX e XX.
de sua liberdade e destruam a liberdade dos Rousseau (1712-1778) que se deve a mais ori- instituições políticas e sociais, que têm por base AXIOLOGIA
mais fracos, dá fomento ao espírito de anarquia ginal contribuição ao autoritarismo - e ao pró- esse igualitarismo, acabam produzindo graves
e esvazia de sentido os deveres sociais. A fra- prio totalitarismo - de nossos dias, a despeito disfunções na vida sócio-política, propiciando Teoria dos valores, no mesmo plano da filo-
queza dessa autoridade arrasta à mesma sorte do proclamado libertarismo das idéias desse a adoção de expedientes autoritários, à seme- sofia moral. Separada da metafísica, a ética foi
os membros da coletividade: "um fraco Rei faz autor. Na verdade, Rousseau converte o poder lhança de cirurgia de emergência cujas conse- reduzida ao subjetivismo de tipo kantiano e ao
fraca a forte gente" (Lusíadas, 111, i38). absoluto do rei em poder absoluto do povo, qüências são imprevisíveis. Instala-se assim o relativismo sociológico dos positivistas. Antes
ao sustentar que a Vontade Geral, expressão da autoritarismo que tanto pode ter feição con- disso, já a política passara a ser concebida num
V. Autoritarismo - Legitimidade - Poder. domínio de plena autonomia, sem relação de
soberania popular, é "sempre reta". Esse abso- juntural quanto estrutural. Quando, porém, essa
lutismo democrático (a força do número) refe- dependência com a ética. É o que se vê em
AUTORIT ARISMO cirurgia não elimina as causas do mal que
renda qualquer regime, como ocorreu com o Maquiavel (1469-1527) e Hobbes (1588-1679).
freqüentemente residem numa filosofia do Es-
Modo de governar em que a autoridade pú- nazismo. Por isso, não é incomum verem-se Em nossos dias a axiologia representa uma re-
tado divorciada da realidade das coisas - , a
blica, por feitio pessoal de quem a exerce ou governos recorrerem à unção do imanentismo ação contra o formalismo da filosofia moral de
moléstia assume caráter crônico e o autorita-
por força do sistema político, concentra pode- democrático para legitimar-lhes o autoritarismo. Kant (1724-1804) e também contra o positivismo,
rismo também. A inexistência de uma reta or-
res de forma anormal e abusiva. Desta forma, a doutrina de Rousseau desem- recorrendo à idéia de valor (axia) para funda-
denação da sociedade responde, então, pela
É indispensável a autoridade à boa ordem boca no autoritarismo e até no totalitarismo mentar os princípios éticos, políticos e jurídi-
fraqueza da autoridade que, paradoxalmente,
da sociedade, mas, quando um decisionismo (embora um e outro se distingam, pois todo cos. É verdade que há uma corrente da axio-
faz surgir o autoritarismo.
exclusivista, servido por copioso instrumental Estado totalitário é necessariamente autoritá- logia, procedente de Windelband (1848-1915)
coercitivo, domina o exercício de suas funções, rio, mas nem todo Estado autoritário é totalitá- V. Absolutismo - Autocracia - Bonapartismo e Rickert (1863-1936), que se insere na linha de
ocorre o autoritarismo. Manifestações deste se rio, dado que o totalitarismo se estrutura num - Cesarismo - Despotismo - Ditadura - Totalita- formalismo do filósofo de Kónigsberg; mas a
encontram em todas as épocas, embora o au- monopólio de poder que encadeia e oprime, rIsmo. "ética material dos valores" de Max Scheler (1874-
toritarismo dos tempos modernos tenha traços buscando realizar a manipulação máxima de 1928), inspirada na fenomenologia, procura um
peculiares, em razão de doutrinas que vieram AVERROÍSMO conteúdo real que dê à ordem moral funda-
toda a vida humana, o que não ocorre no auto-
surgindo a partir da Renascença. Independen- ritarismo). Por outro lado, ainda que levada à Corrente de idéias difundidas nos últimos mento objetivo, repudiando, assim, o empirismo
temente da concepção legística (Escola dos prática, não já através da democracia direta, séculos da Idade Média, chegando até à Re- positivista (ética de base puramente sensível e,
Glosadores, da Universidade de Bolonha, sé- mas da democracia representativa, em que se nascença. Tira seu nome do famoso filósofo portanto, relativista) e o idealismo (ética mera-
culo XIV) e da teocrática ("direito divino dos respeitam seus postulados básicos, a doutrina hispano-árabe Averróis - Ibn Ruschd - (1126- mente formalista). Entretanto, o valor ou é re-
reis", cf. J. Wyclif, século XIV), que levaram à rousseauniana gera instituições desarticuladas 1198), natural de Córdoba. Sua influência ex- conhecido com base ontológica - e, então, se
absolutização do poder do rei, desde o século da realidade, por isso mesmo fomentadoras de cedeu os limites da Espanha muçulmana, ten- reduz ao bem -, ou é expressão de uma essên-
XV identificam-se, em diversos autores, verten- um processo de anarquização da vida sócio- do tido em Paris por acérrimo defensor Siger cia ideal desvinculada do ser, com o que não se
tes diversas para o autoritarismo moderno. política, que favorece simultaneamente a ex- de Brabante (1235-1284), refutado vigorosa- supera nem o idealismo, nem o positivismo.
Maquiavel (1469-1527) sustenta idéias que, pansão de elevadas taxas de corrupção, agra- mente por Santo Tomás de Aquino (1225?-1274). Para Max Scheler, as essências valiosas se ma-
ao longo do tempo, convergindo com outras, vada em geral pela impunidade. Acrescente-se Os averroístas interpretavam, a seu modo, nifestam formalmente na intencionalidade dos
conduzem ao autoritarismo teórico e prático. a isso a fraqueza visceral da ação governamen- Aristóteles (384-322 a.C.), ensinando a eterni- sentimentos espirituais.

"
AXIOLOGIA AXIOLOGIA

Na perspectiva da ética tradicional, uma axiolo- em linguagem escolástica, o bonum para a ratio
gia só se pode entender desde que integrada boni (motivação do bem para o sujeito, relaci-
onamento entre o bem objetivo e o sujeito). O
B
na agatologia (de agathon: bem). Nas modernas
concepções axiológicas há uma confusão entre valor corresponde a uma estimação do sujeito
bem e valor. A propósito, cumpre lembrar a (intelectual ou emotiva): o bem é a própria coisa
explicação de Louis Raeymacker, emPhilosophie estimada, é o ser enquanto apetecível.
de l'être (Louvain, 1946, p. 224): o bem, ou obje- V. Lei eterna - Lei natural - Moralidade dos atos
to positivamente valioso, está para o valor como, humanos.

BACHARELISMO político exornar-se de uma fraseologia altisso-


Influência predominante de certa mentalida- nante, cujos artifícios retóricos servem para
de apriorística, freqüente entre bacharéis em encobrir o vazio do pensamento. Por isso, seu
direito, desde a Independência aos nossos dias, consectário é sempre o formalismo, que, além
na vida cultural, mas especialmente na vida de defraudar os princípios fundamentais do
política do Brasil. O fenômeno, aliás, tem-se direito, deixa de considerar até mesmo, como
verificado também em vários outros países. No é de senso comum, que "a vida transborda do
caso brasileiro, deve-se essa influência ao fato conceito". Configura-se, desta forma, o roman-
de dominar os estudos jurídicos - inicialmen- tismo constitucional, que veio a engendrar uma
chamada "racionalização" do direito público,
te em Portugal, desde os meados do século
tendente a viabilizar os mitos políticos.
XVIII, ganhando intensidade depois, no Brasil,
No Brasil, essa normatização dos mitos tem
ao longo dos séculos XIX e XX - o romantis-
sido uma constante no traçado das linhas bási-
mo jurídico-político. De modo especial no âm-
cas das constituições. O "idealismo utópico" de
bito do direito público, deu-se guarida a todo
que fala F.J. Oliveira Vianna (1883-1951), sem-
um conceptualismo abstracionista grassante
pre presidiu a elaboração dos textos constitu-
desde a Revolução Francesa (1789).
cionais. Assinala esse autor, na mentalidade
O abstracionismo político, fazendo tábua rasa de nossas elites políticas, um permanente "cul-
não apenas do passado mas da própria nature- to das generalidades sonoras" (O idealismo da
za humana e da natureza das coisas, funda-se constituição, Companhia Editora Nacional, São
nas concepções da "bondade natural" e da Paulo, 2ª edição, 1939, p. 80). Mas equivoca-se
associabilidade do homem, de que derivam ne- quando - na mesma linha de alguns intérpre-
cessariamente os dogmas da "liberdade abso- tes do fenômeno (Fernando de Azevedo, Wil-
luta", da "vontade geral sempre reta", da "lei, son Martins) - pretende que uma de suas fon-
expressão da vontade da maioria", que vieram tes principais se situe na estrutura curricular e
a constituir as bases das novas instituições de na orientação do ensino dos jesuítas.
direito público. Partindo, essa dogmática, do O sistema pedagógico dos inacianos, deno-
desprezo total das lições da experiência e da minado Ratio atque Institutio studiorum Socie-
história - commençons par écarter tous les faits, tatis Jesu, conhecido simplificadamente por
comecemos por afastar todos os fatos, são as Ratio studiorum, consistia em três cursos par-
palavras de J.-J. Rousseau (1712-1778), abrin- ciais que, embora distintos, eram dependentes
do sua tese Discours sur l'origine et les uns dos outros, compreendendo o curso de
fondements de l'inégalité parmi les hommes - , Letras ou Línguas, o de Filosofia ou Artes e o
gerou-se o romantismo jurídico-político, que de Teologia. À exceção de Medicina e Leis,
acabou regendo a confecção de instituições em todas as matérias ensinadas nas universidades
desarmonia com a realidade da vida. Ignorava- de então, na Europa, eram também estudadas
se um direito natural intrínseco ao ser do ho- nesses três cursos. O estudo de Filosofia incluía
mem e, portanto, anterior à vontade legiferante, a Matemática, as Ciências Físicas Experimen-
passando-se a construir sistemas de normas tais e a Astronomia, disciplinas estas que eram
ditadas pelo subjetivismo, em que prevalecem ministradas com a abrangência exigida na épo-
o sentimento e o instinto, com olímpico des- ca. No Brasil, o magistério dos jesuítas nada
respeito pela inteligência e pela "verdade das possuía do espírito apriorístico próprio do ba-
coisas". É próprio desse romantismo jurídico- charelismo. Tanto assim que, além de realizar
BACHAREIJSMO -60- BEM COMUM BHMCOMUM -61- BEM COMUM

obras expressivas no campo das Belas Artes - civil da Colônia - o direito vivo dos primeiros os atos humanos referentes ao bem sobrenatu- deve dispor de toda uma aparelhada organiza-
Arquitetura, Escultura, Pintura, Talha, etc. - povoadores e para aqui trazido pelos primei- ral ultrapassam a mera relação de subordina- ção jurídico-político-administrativa apta a diri-
desenvolveram atividades sem conta em ros donatários, apenas formulado de uma ma- ção entre o homem e a sociedade. Outrossim, gir, coordenar, incentivar, prover, corrigir, pu-
vilarejos e fazendas, instalando inúmeros pe- neira mais sistemática e modernizada, liberto importa considerar que a dignidade da nature- nir. Desta maneira, a tranquillitas ordinis, a
quenos núcleos fabris e artesanais, em que se que ficou das emaranhadas confusões das "car- za humana constitui um bem superior ao bem tranqüilidade da ordem, ou seja, a paz, vem a
aplicavam técnicas novas de trabalho. Sem es- tas régias', 'alvarás', 'provisões' e 'leis extrava- da sociedade. No entanto, como bem é tudo converter-se em realidade viva. Para gerar a
quecer, ainda, todo o labor realizado no levan- gantes', que completaram a legislação filipina que apetece à natureza racional do homem e, paz, a ordem deve reger-se por um complexo
tamento e pesquisa concernentes à terra e à e a adaptaram ao nosso meio" COliveira Vianna, sendo próprio do homem a vida em socieda- de normas fundamentadas nos princípios do
gente brasileira, formando imenso acervo, rico Instituições políticas brasileiras, Livraria José de, a realização do fim desta é a consecução direito natural, vale dizer, nos princípios da
em informação sobre Geografia, Cartografia, Olympio Editora, 1949, 2º vol., p. 125). de um bem que interessa a todos, ou seja, o justiça. Em suas múltiplas relações sociais, os
Etnografia, Economia, Vida Social. Isso tudo re- Outros fatores, quando privilegiados para ex- bem comum, que, por sua própria natureza, é homens são sensíveis aos princípios de justiça,
vela espírito objetivo diante das realidades con- plicar o bacharelismo, empalidecem diante do comunicável e participável. Assim, tem todo que é função do Estado fazer valer juntamente
cretas, em total desacordo com o apriorismo fato de que os utopismos ideológicos têm esta- sentido falar-se em primazia do bem comum. com a segurança, tendo em vista garantir a re-
bacharelístico que, sem ofensa à verdade his- do iterativamente na raiz das idéias e do com- Como este só possui conteúdo de verdade se alização de um bem-estar social multiforme,
tórica, não pode ser atribuído aos inacianos portamento de ponderável parcela das elites for realmente um bem humano, fica por isso de natureza quer espiritual, quer material. Esse
senão por conta de ressaibos da velha síndrome políticas brasileiras. Esses utopismos fazem mesmo superada qualquer incompatibilidade bem-estar não compete ao Estado levar a efeito
antijesuítica. Mesmo porque, expulsos do Bra- compreender até mesmo o fascínio pelas solu- entre o primado do bem comum e a dignidade sempre diretamente. A ação dos poderes públi-
sil em meados do século XVIII, ficou o campo ções tecnocráticas, que não passam de uma humana. Até porque a dignidade humana não cos, retamente conduzida, deve ser a de criar
livre para o reformismo pombalino preparar as expectativa romântica em torno da eficiência é um bem particular, mas um bem comum, pois condições para que as atividades dos indiví-
novas gerações, tanto nos "estudos menores" polivalente da técnica. que inerente a todos os homens, sem exclusão duos e dos grupos sociais se desenvolvam de
quanto na Universidade de Coimbra. E foi a de ninguém, ou seja, um bem próprio de todas maneira ampla e multivariada. Assim, tanto no
partir de então que o bacharelismo veio a ger- v. Abstracionismo - Idealismo utópico e idealis-
mo orgânico - Utopia. e de cada uma das pessoas que compõem a campo econômico quanto nos demais setores
minar. sociedade. Tanto isso é verdade que a dignida- da atividade humana, a atuação do Estado deve
Na verdade, a raiz mestra do bacharelismo de do bem comum é decorrência da dignidade consistir na ajuda e complementação das inicia-
BEM COMUM
deriva do romantismo jurídico-político, cujas da pessoa humana. Daí por que negam o bem tivas individuais e grupais. Não poderá o Estado
formulações constitucionais apriorísticas são, na Bonum commune, "bem comum", é expres- comum as formas políticas totalitárias - omitir-se ou abster-se, tal como preceitua o li-
linguagem de Joaquim Nabuco (1849-1910), são latina que Santo Tomás de Aquino CI225?-
larvadas ou manifestas - que o invocam para, beralismo clássico, ao propugnar o individua-
"pura arte de construção no vácuo" CBalmaceda, 1274) emprega em várias passagens de sua obra,
em nome de sua primazia, adotar medidas lismo do laissez-faire, laissez-passer, deixando
Companhia Editora Nacional, 1937, p. 12). A especialmente quando define lei: rationis ordi- que a "concórdia social" venha a derivar da
atentatórias à dignidade da pessoa humana.
propósito, diz F. J. Oliveira Vianna: "Para esses natio ad bonum commune ab eo qui curam Embora se possa falar em bem comum pró- livre concorrência absoluta, dado que, segun-
sonhadores, pôr em letra de forma uma idéia communitatis habet promulgata (Summa prio de cada sociedade, qualquer que seja - do essa concepção, o bem comum é produto
era, de si mesmo, realizá-la. Escrever no papel Theologica, Ia.-I1ae., q. 90, art. 4). O autor dis- a sociedade familiar, a profissional, a esporti- da soma dos bens individuais. De outro lado,
uma Constituição era fazê-la para logo coisa tingue o bem comum e o bem individual, mas va, a cultural-, é mais apropriado o emprego no extremo oposto, também não cabe ao Esta-
viva e atuante: as palavras tinham o poder pondera que, sendo o homem parte da socie- da expressão no tocante ao fim da sociedade do fazer tudo, como é próprio do socialismo, o
mágico de dar realidade e corpo às idéias por dade, participa, por isso mesmo, do bem co- política, a qual, por ter caráter abrangente, re- que o leva a absorver as atividades todas ou
elas representadas" Copo cit., p. 81). De que a mum. E assim é porque quem procura o bem úne em seu âmbito as pessoas todase as socie- em todas intervir sistematicamente, por força
vertente ideológica seja a responsável máxima comum da sociedade, procura também o pró- dades menores todas que a integram. Desta de uma concepção totalizante ou totalitária do
pelo abstracionismo político dominante no prio bem. Não significa isso, porém, que o bem forma, o bem comum pode ser definido como poder, ainda que sob a alegação de pretender
âmbito do direito público brasileiro, o próprio comum resulte da soma dos bens individuais. o conjunto de condições externas adequadas a realizar um bem coletivo, de que defluiria au-
Oliveira Vianna nos oferece cabal demonstra- Na verdade, o bem comum e o bem da pessoa pennitir o pleno desenvolvimento dos homens, tomaticamente a "justiça social", eis que, se-
ção quando observa, significativamente, que coincidem sob o aspecto de bem humano, mas das famílias e dos grupos sociais integrantes da gundo essa ideologia, é considerado bem co-
esse tipo de utopismo deixou de manifestar-se há entre eles uma diferença formal, pois o bem sociedade. mum o próprio bem coletivo posto em termos
na esfera do direito privado. E ficou este alheio comum é a forma de ser do bem humano na A promoção do bem comum que incumbe absolutos. Nem abstencionista, nem interven-
às fantasias do bacharelismo porque os impe- vida social. Uma vez que o homem é parte da ao Estado se manifesta concretamente pelo as- cionista deve ser o Estado a fim de que seja
rativos da vida cotidiana sempre se impuseram sociedade e a parte se ordena ao todo, num seguramento de uma ordem justa na vida so- alcançado o verdadeiro bem comum. Se fun-
com a força própria de seu realismo. "O Códi- primeiro momento se poderia incorrer no equí- cial. Consiste essa ordem em garantir, pela lei dada no respeito à dignidade humana e à or-
go Civil, de Bevilaqua, com efeito, não rom- voco de entender que o bem comum tem pri- e pela força a serviço do direito, a convivência dem natural das coisas, a organização jurídico-
peu com a nossa tradição jurídica, baseada mazia absoluta sobre o bem individual. Escla- pacífica entre as pessoas e os grupos sociais. É política da sociedade tem condições de efetivar
desde o primeiro século, nas Ordenações Filipi- rece, no entanto, Santo Tomás que o homem componente necessário do bem comum públi- a realização do bem comum enquanto bem
nas. O nosso direito-costume, que viemos pra- não se ordena à sociedade política como um co o clima de segurança, que permite ao ho- humano. Daí por que o Estado, na área social,
ticando até o advento do Código Bevilaqua, todo nem com todas as suas coisas CS. Th., Ia.- mem viver tranqüilamente na sociedade. A ga- e como regra, deve ajudar a fazer. Às vezes,
era a mesma velha tradição jurídica, que este I1ae., q. 21, art. 4, ad tertium), observando ain- rantia da paz pública é indispensável a que os também deve fazer, para suprir carências ou
Código consolidou, antecipado pelo labor de da que a subordinação do bem individual ao homens possam organizar livremente a própria corrigir deficiências da iniciativa particular. A
Teixeira de Freitas, Carlos de Carvalho e La- bem comum não se dá senão entre bens do vida. Resulta essa paz da reta ordenação da variabilidade no modo de agir vai depender
fayette. É este Código o mesmo velho direito me.smo gênero. Não é outra a razão pela qual vida social, para cuja concretização o Estado das circunstâncias de tempo e lugar, do grau
"
BEM-ESTAR SOCIAL -62- BlCAMERAUSMO BlCAMERAUSMO -63- BlCAMERAUSMO

de cultura e civilização do meio social, cujas moderno, a qual se foi manifestando à medida res, enquanto a câmara alta é provida de mem- as dificuldades que surgem quando as duas
iniciativas, no entanto, deverão ser sempre pro- que os "problemas sociais" irrompiam, por força bros escolhidos, comumente, atendendo a cri- câmaras divergem sobre a aprovação de um
tegidas e estimuladas, omitindo-se, porém, os da concepção da sociedade como sendo cons- tério paritário. Na Inglaterra, a Câmara dos projeto de lei. Os impasses só se superam me-
poderes públicos, quando elas registrarem vi- tituída somente de indivíduos "absolutamente Lordes é constituída de um número ilimitado diante negociação ou outros expedientes, co-
talidade ou maturidade. O bem comum ditará livres", por isso mesmo à mercê de ambições de membros, havendo entre eles mais de mil mo a apreciação do assunto por comissão mis-
o recuo do Estado, quando conveniente, assim egoísticas a deflagrarem condições aflitivas de "pares temporais" (que alcançam o pariato por ta paritária, formada por membros de ambas as
como determinará a intervenção estatal, quan- vida para a maioria. Desta forma, o Estado, herança ou por nomeação), 11 "lordes judiciais" casas legislativas. Tudo isso acarreta morosi-
do necessária. Em certos casos, essa interven- quadro social único, passou a chamar a si, em (que exercem as funções de juízes de um su- dade nas decisões. Caracteriza-se o bicamera-
ção é um imperativo do interesse geral e visa a máxima parte, a solução dos problemas emer- premo tribunal de apelação do Reino Unido) e lismo imperfeito pela competência exclusiva de
prevenir prejuízos graves à coletividade e, re- gentes, quer mediante intervenção direta, quer 26 "lordes espirituais" (2 arcebispos e 24 bis- uma só câmara para deliberar, cabendo à outra
flexamente, aos próprios particulares. De qual- direcionando medidas. Daí o chamado Welfare pos anglicanos). a faculdade de apresentar sugestões destina-
quer forma, ao objetivar o bem comum, no caso 5tate, o Estado do bem-estar, que pretende dar No sistema bicameral, a competência para a das a corrigir, aditar ou suprimir disposições
social, a ação do Estado deve levar em conta a resposta aos reclamos sociais, em geral, de- elaboração das leis cabe às duas câmaras. Em- constantes do projeto de lei. Peculiar é a fun-
estrutura natural da sociedade, com a multi- sempenhando atividade onipresente. Chega- bora essa competência não mais exista em re- ção da Câmara dos Lordes, na Inglaterra, pois
variedade dos grupos intermediários que a com- se, assim, ao intervencionismo e ao dirigismo lação à Câmara dos Lordes, o sistema bicameral pode opor veto suspensivo a projeto aprovado
põem, respeitando-lhes a autonomia oriunda estatal, que acabaram ocupando o lugar do inglês influiu em sua adoção por outros países. pela Câmara dos Comuns, que, neste caso, fica
do direito natural do homem de se associar, e antigo abstencionismo. Aqueles e este, no en- Ocorreu isso na França, depois de, à época da sujeita a ver reapreciada a matéria. No sistema
buscando desenvolver uma atividade consis- tanto, e paradoxalmente, são irmãos siameses, Revolução (1789), ter-se optado pelo unicame- parlamentarista, cabe em geral exclusivamente
tente em orientar, estimular, coordenar, suprir, porque vinculados à mesma concepção ralismo, mais conforme ao unitarismo da von- à primeira câmara decidir sobre moção de con-
integrar, tudo com vistas a criar condições de atomística da sociedade, que, com base na pro- tade geral de Rousseau (1712-1778), e defendi- fiança com que se afere a responsabilidade do
expansão da vida social em benefício da pes- clamada "libertação total" do homem, o con- do por Sieyes (1748-1836), que o entendia mais Gabinete ou de algum ministro.
soa humana. duziu à servidão estatal. consentâneo com a doutrina da soberania na- Durou 11 anos (1963 a 1974) o sistema
Na configuração do fim da sociedade, tão Numa reta ordenação das coisas, o Estado cional, cuja unidade e indivisibilidade se pre- pentacameral adotado pela Iugoslávia, ao com-
alta é a importância do bem comum que, uma não só não deve omitir-se como também não tendia rompidas com o bicameralismo. A pre- por a Assembléia federal de cinco conselhos:
vez atendidas suas exigências fundamentais, a deve fazer tudo. Cabe-lhe suprir carências e dominância do sistema bicameral na Europa Conselho Federal, Conselho Econômico, Con-
legitimidade do poder adquire justificação ple- corrigir deficiências, ademais de criar condi- deve-se à influência das idéias de Montesquieu selho para a Educação e a Cultura, Conselho
na, independentemente do processo. formal de ções para um desenvolvimento social har- (1689-1755), que, inspirado nas instituições po- para as Questões Sociais e de Saúde e Conse-
investidura do respectivo titular. mônico. E isto porque a primazia da ação no líticas inglesas, via na câmara alta uma válvula lho Político-Organizativo. Essa estrutura com-
V. Grupos intermediários - Subsidiariedade, Prin- âmbito social incumbe aos grupos naturais. A reguladora da atividade legiferante da câmara plexa acabou sendo substituída por uma As-
cípio de - Totalidade, Princípio de. valorização da autonomia desses grupos impli- baixa, quando destituída de moderação e pru- sembléia da República Federativa da Iugoslávia,
ca a própria valorização do homem, e por isso dência. Tentava-se desta forma prevenir ou bicameral, composta do Conselho Federal e do
BEM-ESTAR SOCIAL mesmo é capaz de gerar um verdadeiro "bem- corrigir, quiçá, o despotismo legislativo, as de- Conselho das Repúblicas e das Províncias.
Estado de uma sociedade onde todos usu- estar social", pois que promovido pelas cha- liberações de caráter demagógico ou de feitio Em muitos países, institucionalizou-se, em-
fruem os meios capazes de assegurar-lhes a madas "competências sociais" que, mais do que puramente partidocrático da primeira câmara. bora em dimensão restrita, o princípio da "re-
satisfação das necessidades vitais, participan- ninguém, sabem como e quando realizar o me- Na estrutura do Estado Federal, as duas câ- presentação das competências". Assim, em fun-
do, além disso, dos benefícios da civilização e lhor para prover o necessário, o útil, o conve- maras se destinam a desempenhar papel espe- ção das diversas atividades profissionais, dos
da cultura. No tempo e no espaço, variam, quan- niente. cífico: a câmara baixa reúne a representação interesses econômicos e sociais mais expressi-
titativa e qualitativamente, esses meios, tanto de todo o povo, e a câmara alta, a representa- vos, da necessidade de aproveitar o saber e a
V. Abstencionismo - Bem comum - Estatismo
devido às possibilidades concretas de fazê-los ção dos Estados federados. É assim em países experiência de pessoas qualificadas, criou-se,
- Intervencionismo - Subsidiariedade, Princí-
existir quanto em razão da filosofia de vida pio de. como os Estados Unidos, a Suíça, a República em vários países, simultaneamente com a re-
Federal da Alemanha, o Brasil e outros. Segun- presentação decorrente do sufrágio universal
prevalecente no agrupamento. Múltiplos que
BICAMERALISMO do a doutrina do Estado Federal, a represen- individual, uma forma de representação atenta
são, esses meios vão desde os simplesmente
tação na segunda câmara faz-se por critério a essas realidades, mas tendo um caráter sim-
materiais, como salário justo, alimentação sufi- Sistema de representação política através de paritário, objetivando-se pela paridade contra- plesmente informativo e consultivo. Não
ciente, moradia condigna, assistência médico- dois órgãos: Câmara dos Comuns e Câmara dos balançar o peso da representação dos Estados obstante essa limitação, vinha a reconhecer-se
hospitalar, seguro previdenciário, até àqueles Lordes (Inglaterra), Câmara dos Representantes mais populosos ocorrente na câmara baixa. Em que a representação de base individualista está
que possibilitam ao homem crescente digni- e Senado (Estados Unidos), Bundestag, Câma- relação às competências de uma e outra câma- desarticulada da realidade da vida da socieda-
ficação, por lhe propiciarem razoável disponi- ra Baixa, e Bundesrat, Câmara Alta (República ra' costuma-se denominar o bicameralismo de de. Nesse sentido, a Constituição da República
bilidade de bens culturais e espirituais. Na so- Federal da Alemanha), Câmara dos Deputados perfeito ou imperfeito. Perfeito é o bicamera- de Weimar (1919) instituiu o Conselho Econô-
ciedade atual, observa-se a tendência de fazer e Senado Federal (Brasil). Uma e outra câmara lismo em que ambas as câmaras possuem igual- mico do Reich. Em 1925, a França criou o Con-
derivar exclusivamente dos mecanismos esta- são compostas de forma diversa. De modo ge- dade de competências para elaborar as leis. selho Nacional Econômico. Em 1933, Portugal
tais a produção direta ou indireta dos meios ral, presentemente, a câmara baixa reúne os Imperfeito, quando, cabendo a ambas a facul- instalou a Câmara Corporativa. Em 1937, a Ir-
conducentes ao "bem-estar social". O fato se representantes do povo mediante eleição efe- dade de atuação no processo legislativo, pre- landa fez do Senado um órgão de representa-
explica pelo caráter concentracionário da or- tuada segundo critério majoritário, ou propor- pondera na apreciação final a decisão de uma ção das universidades e das forças econômi-
ganização político-administrativa do Estado cional ao número de habitantes ou de eleito- delas. No bicameralismo perfeito, grandes são cas e sociais expressivas. Tanto na Constituição
"
BIU OF RIGHTS -64- BLOQUEIO -6C;- BOLCHEVISMO
BOIcam

francesa de 1946 quanto na de 1958 se encon- tas de um país com o alto-mar, o que pode a transferência da Corte para o Brasil (1808), gresso do partido reunido em Londres, em
tra a instituição do Conselho Econômico, com- dar-se em relação a navios mercantes sem que que já tinha sido várias vezes planejada em 1903.
posto de representantes de operários, funcio- haja estado de guerra (bloqueio pacífico). Isto outros governos. Pôde ele, assim, manter in- Foi em 1883 que Georghi Pleckhanov (1856-
nários, empresários, agricultores, intelectuais e se verificou quando da questão Christie (1861), cólume sua soberania, ao contrário do ocorri- 1918) fundou o "Grupo para emancipação do
associações familiares. Também a Constituição tendo, então, navios da esquadra britânica blo- do com outros monarcas em face do poder trabalho", que está nas origens do bolchevismo.
italiana (1946) contempla a organização de um queado, por alguns dias, o porto do Rio de napoleônico. São recentes os bloqueio~ a Cuba, O marxismo constituía a base doutrinária des-
Conselho Econômico e Social, cuja existência Janeiro. dominada pela tirania comunista, e à Africa do se grupo, que pregava a revolução a ser efetua-
veio a ocorrer por regulamentação legal em O bloqueio visa a impedir relações comer- Sul, como forma de pressão para abolir-se o da pelas massas operárias. Para levar a efeito a
1957. Embora se trate, nesses casos todos, de ciais e reduzir o antagonista aos seus próprios regime de apartheid. difusão dessas idéias e formar quadros desti-
órgãos destituídos de função deliberativa, re- recursos. Do bloqueio efetivo - mantido por nados à ação revolucionária, criaram-se núcle-
V. Arbitragem internacional - Boicote.
tratam a necessidade de levar para junto do força suficiente para assegurar o isolamento do os social-democratas de operários nas cidades
poder a representação das competências que inimigo - distingue-se o bloqueio fictício ou mais importantes da Rússia. No ano de 1898,
BOICOTE
dinamizam a vida social, ainda que não che- de gabinete (mock blockade), que a Inglaterra realizou-se em Minsk, cidade industrial, o Con-
Expressão que teve origem num movimento gresso para a Fundação do Partido Operário
guem eles a elidir o artificialismo da represen- praticou durante muito tempo.
dos habitantes do Condado de Mayo (Irlanda), Social-Democrata Russo, em que se integraram
tação política com base no sufrágio universal Na Conferência Naval de Londres de 1909
ocorrido no século XIX, em represália contra o os núcleos todos até então organizados. As di-
individual. foi formulada a seguinte definição: "Bloqueio
administrador dos bens do conde de Erne, o vergências doutrinárias manifestadas dentro do
V. Assembléia - Representação política.
é uma operação bélica executada por navios
capitão inglês Charles Cunninghan Boycott, por partido levaram Lênin, em 1900, a lançar o se-
de guerra de um beligerante dispostos de tal
causa de suas demasiadas exigências e do modo manário Iskra (A faísca), o primeiro jornal mar-
BILL OF RIGHTS modo que impeçam o acesso de embarcações
duro de tratar os arrendatários. A população xista russo, que tinha o objetivo de fixar e di-
à costa inimiga, ou a saída". Exercendo-se em
Expressão que, no direito constitucional in- local, revoltada, firmou um acordo, pelo qual fundir a ortodoxia doutrinária. Continuando,
relação aos navios de qualquer país, implica,
glês, caracteriza uma "declaração de direitos". se negava a comprar-lhe os produtos ou a ven- porém, as discordâncias, foi convocado o 2Q
por esta universalidade, restrição ao princípio
Diferentemente do caráter abstrato das "Decla- der-lhe quaisquer bens, recusando-se a traba- Congresso do partido, que inicialmente deve-
geral da liberdade dos neutros.
rações" originárias da Revolução Francesa, o lhar nas terras que ele administrava. Para os ria realizar-se em Bruxelas, e acabou reunin-
Foi objeto de regulamentação pela Declara-
Bill of Rights visava a assegurar os direitos e infratores do acordo foi cominada a mesma do-se em Londres, em 1903. Lênin, que não
ção de Paris (6 de abril de 1856) e pela Decla-
liberdades historicamente vividos pela gente sanção. O administrador viu-se forçado a aban- comparecera ao 1Q Congresso, por ter sido de-
ração de Londres (25 de fevereiro de 1909). As
inglesa, e ameaçados de violação ou já viola- donar o condado. portado, participou do 2Q , cujos 57 membros
duas guerras mundiais, com o surto da aviação
dos pelo exercício abusivo do poder real. Fa- Um jornal de Dublin, em 1880, usou pela aprovaram o programa do partido, por ele apre-
e as modificações das armas e dos processos
moso ficou na história das instituições políticas primeira vez a palavra boycotting, empregada sentado, e contendo dois pontos básicos: a
bélicos, tornaram obsoleta a teoria clássica do
inglesas o Bill ofRights de 1689. Este bill é con- depois correntemente na Inglaterra e nou/tros necessidade da revolução socialista e a implan-
bloqueio consubstanciada em tais documentos.
seqüência da Revolução Gloriosa (1688), que, países. Após a anexação da Bósnia pela Aus- tação da ditadura do proletariado. Unidos pe-
Assim é que surgiu o bloqueio a longa distân-
depondo do trono o último rei da dinastia dos tria (1878), a Turquia opôs-se, em protesto, à los fins visados, divergiram, porém, seus parti-
cia, tendo suscitado, na guerra de 1914, pro-
Stuart, proclamou que o poder real decorre de importação de gêneros austríacos. O boicote cipantes, quanto à organização do partido. Lênin
testo de países neutros. Essa forma de bloqueio,
um pacto com a nação e não do "direito divi- ou boicotagem tem tido também aplicação nou- liderava a facção que defendia uma estrutura
dirigido contra a Alemanha, cobria uma gran-
no". Por isso, o Parlamento impôs como condi- tras áreas que não a econômica. Assim, o Pre- partidária centralizada, comandada por um gru-
de área marítima, obstando o acesso a portos
ção à investidura dos novos monarcas que es- neutros, como os dos países escandinavos; por sidente Carter, dos Estados Unidos, em segui- po de revolucionários profissionais, cujas ativi-
tes aceitassem o Bill of Rights. Entre outras outro lado, não impedia o comércio da Alema- da à ocupação do Afeganistão pela União dades deveriam ser exercidas em tempo inte-
garantias, esse bill estabelece as seguintes: o nha com estes países, deixando, pois, de atin- Soviética (1979), tomou a iniciativa de promo- gral e sob uma disciplina rígida, objetivando a
direito de petição, a imunidade parlamentar, a gir igualmente a todos os neutros. ver o boicote dos Jogos Olímpicos de Moscou conquista do poder. A outra facção era lidera-
obrigatoriedade do consentimento do Parlamen- Bloqueio continental foi o decretado por de 1980, no que foi seguido por vários outros da por Martov e pretendia que o partido reu-
to para lançamento de tributos. Também dei- Napoleão I (1769-1821) contra a Inglaterra, para países, os quais também suspenderam a parti- nisse, além de militantes fiéis, outros mais: os
xou estabelecido que, a partir de então, todos fechar-lhe os portos do continente europeu. cipação de seus atletas. periféricos, atraídos por mera simpatia ou es-
os ingleses, inclusive o rei, ficavam submeti- Começou por ser uma réplica ao bloqueio ma- pírito de colaboração, como no caso da burgue-
dos ao common law, direito comum. rítimo (fictício) do governo inglês contra a Fran- BOLCHEVISMO sia progressista. Postas as proposições a votos,
V. Common law - Constitucionalismo - Consti- ça. Em 1806, depois da vitória de lena e da Doutrina e prática perfilhadas pela ala extre- a de Martov saiu vitoriosa, mas, em seguida,
tuição - Declaração de direitos - Direito natural- ocupação da Prússia, Napoleão deliberou proi- ma-esquerda do Partido Operário Social-Demo- também por decisão da maioria, Lênin conquis-
Estado de direito - Iluminismo - Liberdade abs- bir todo comércio e toda correspondência com crata Russo, que formava a maioria (bólche, em tou o comitê de redação de Iskra e o comitê
trata e liberdades concretas. a Inglaterra. O bloqueio continental teve con- russo, significa mais, bolchistvó, maioria), lide- central do partido, ou seja, os dois instrumen-
sideráveis conseqüências políticas e econômi- rada por Lênin (Vladimir Ilitch Ulianov, alcu- tos mais eficazes das atividades partidárias. Con-
BLOQUEIO cas. Em face das dificuldades econômicas dele nhado Lênin, 1870-1924), em disputa com a sumava-se, então, a divisão da social-democra-
Operação de guerra em virtude da qual se oriundas, o rigor das medidas proibitivas foi minoria (ménche, que significa menos, men- cia russa, fazendo surgir as duas correntes:
isola completamente uma praça forte ou um afrouxando de parte a parte. Em Portugal, so- chistvó, minoria), cujo líder era Martov (Juli Ossi- bolchevistas ou bolcheviques e menchevistas
porto de mar, cortando-se-lhe a comunicação frendo este país dupla pressão - da França e povitch Cederbaum, alcunhado Martov, 1873- ou mencheviques. Pouco depois, em 1904, pro-
com o exterior. Também assim se entende a da Inglaterra - , D. João VI (Príncipe Regente, 1923). A cisão partidária que deu origem a curando desacreditar o "oportunismo" dos
interrupção das comunicações e portos e cos- de 1799 a 1816, e rei, de 1816 a 1826) decidiu bolchevistas e menchevistas ocorreu no con- menchevistas, Lênin publicou o folheto Um
"
BOLCHEVISMO -66-
BONAPAKI1SMO BONAPAK11SMO -67- BURGUESIA
passo para a frente, dois passos para trás. Daí necessidades populares, prometendo terra para
por diante, acentuaram-se entre as duas alas as Presidente da República, nas eleições de de- Trata-se de uma formação social surgida nas
os camponeses, fábricas para os operários, paz zembro de 1848, com larga margem de votos. cidades medievais européias. A expressão "bur-
hostilidades, que, no entanto, chegaram a arre- e liberdade para todos. O quadro era propício
fecer quando da revolução de 1905, cujo Pelo golpe de Estado de 2 de dezembro de guesia" vem de burgo, ou cidade (Burg: forta-
à fermentação revolucionária, que estava em 1851, o Príncipe-presidente assumiu plenos leza ou castelo, cidade fortificada alemã). Nas
insucesso foi atribuído pelos bolchevistas ao curso nos meios operários, camponeses e mili-
precário planejamento tático-estratégico da força poderes, tendo sido dissolvida a Assembléia, suas origens, constituiu-se em face da aristo-
tares, dominados por "conselhos;' (sovietes) es- restabelecido o sufrágio universal e convocado cracia feudal e dos trabalhadores do campo,
dos sovietes sublevados, enquanto os men- palhados por todo o território russo. Nessa al-
chevistas buscavam a explicação do ocorrido um plebiscito. Depois da consagração plebis- estes num regime de servidão. Os senhores
tura (1917), Lênin, já na Rússia, anunciou em citária, veio a Constituição de 14 de janeiro de feudais eram os proprietários das terras, culti-
no caráter prematuro do movimento em face suas Teses de Abril o plano de luta para passar
do estágio incipiente de desenvolvimento da 1852, dando-lhe o mandato presidencial por vadas pelos chamados servos da gleba. Nos
da revolução democrática à revolução socialis- um período de dez anos. Entretanto, procede primeiros séculos da Idade Média desaparece-
Rússia. Ainda em 1905 e a propósito desse acon-
ta. E lançou a palavra de ordem: "Todo o po- ele a um novo plebiscito, em novembro de ra a civilização urbana. A pouco e pouco, em
tecimento, Lênin veio a preconizar em livro, sob
der aos sovietes." O Soviete de São Petersburgo 1852, e faz-se proclamar imperador dos fran- torno ou nas proximidades dos castelos e dos
o título Deux tactiques de la social-démocratie
centralizava o comando dos sovietes todos. A ceses no dia 2 de dezembro do mesmo ano, mosteiros, foram-se formando núcleos de po-
dans la révolution démocratique, a passagem
Rússia passava a ter dois poderes: um em Mos- com o título de Napoleão UI. Logo após a capi- pulação de homens livres, que se entregavam
da revolução democrática burguesa à revolu-
cou, outro em São Petersburgo. A revolução tulação de Sedan, na guerra contra a Prússia à pequena indústria artesanal ou prestavam
ção socialista realizada pelo proletariado. Des-
irrompeu em julho de 1917, e fracassou nova- (1870), implantou-se de novo a República e seus serviços, como domésticos, aos senhores em
de então, houve ensaios de reaproximação entre
mente. Só veio a triunfar em outubro mediante sucessores foram, com o tempo, perdendo o seus castelos, e também às comunidades reli-
bolchevistas e menchevistas. Frustraram-se,
a insurreição militar, que pôs no poder os ensejo de retomar ao poder. giosas nas abadias. Assim surgiram numerosos
porém, pelo fato de os menchevistas aderirem
bolchevistas. Em março de 1918, o Partido Bol- A Napoleão Bonaparte devera-se o resta- povoados, vilas ou burgos, cujos habitantes
à participação nas eleições para a Duma. Essa
chevista transformou-se no Partido Comunista belecimento da ordem na França convulsiona- receberam a denominação de burgueses. A
linha de ação, de feitio social-democrático, que
Russo, mantendo-se, porém, o uso oficial da da e desorganizada pela Revolução. Depois do sociedade medieval viu-se, por tal forma, divi-
tinha em mira chegar ao socialismo pela via da
expressão bolchevista até 1952. Consulado, e sendo já cônsul vitalício, Napoleão dida em três estamentos ou ordens sociais: o
evolução, estava em total desacordo com o bol-
chevismo, que pregava a revolução como via O bolchevismo, tendo sua vertente ideoló- foi proclamado imperador pelo Senado, fazen- clero, a nobreza e o povo das cidades. A vida
única para alcançar o poder e implantar a dita- gica no marxismo, funda-se no materialismo do-se sagrar na catedral de Notre Dame (2 de econômica tornava-se cada vez mais intensa
dura do proletariado. Em razão disso, acaba- dialético e histórico, preconiza a luta de clas- dezembro de 1804). Esta alteração no regime nas comunidades citadinas ou burguesas, onde
ram naufragando as tentativas de reunificação ses, a revolução, a ditadura do proletariado, a não significou um abandono dos princípios da os artífices estavam organizados nas corpo-
das duas correntes que, na Conferência de Pa- socialização integral e absoluta. Oferece uma Revolução de 1789, que, aliás, as conquistas rações de ofício e gozavam de imunidades e
ris, em 1910, se separaram de vez. "visão científica do mundo", centrada na maté- napoleônicas espalharam pela Europa. Eis por franquias. A organização política permitia a
O grupo bolchevista, reunido em Praga, em ria e por isso mesmo incompatível com qual- que, num significado mais amplo, o bonapar- integração de todas as ordens nos órgãos re-
1912, transformou-se no Partido Operário So- quer doutrina diversa e especialmente com a tismo começou a ser considerado, especialmen- presentativos (Cortes, em Portugal e na Espanha;
cial-Democrata Russo, ou seja, o Partido Bol- religião, que proíbe e reprime. Todas as deci- te na literatura socialista, como a cristalização Parlamento, na Inglaterra; Estados Gerais, na
chevista. Nesse mesmo ano, começou a circu- sões são rigidamente centralizadas no partido, de um poder forte e de cunho ditatorial com França; Dieta germânica). A aliança do rei com
lar em São Petersburgo o jornal diário do Partido único intérprete legítimo da doutrina marxista, vistas a preservar os objetivos revolucionários as populações dos "concelhos" (municípios),
Bolchevista: Pravda (A Verdade). Embora pou- além de órgão de direção e controle de quais- por meios autoritários e conservadores. Daí a no apoio prestado por elas ao monarca em luta
co numerosos, eram muito ativos e obstinados quer atividades. O Estado é considerado mero adoção da máscara democrática, estampada no contra os mouros, contribuiu para que, em Por-
os membros do Partido Bolchevista, cujos líde- produto da sociedade de classes, não passan- apelo à vontade do povo, procurando-se legi- tugal, madrugassem as liberdades municipais,
res, procurados pela polícia do Czar, freqüen- do, por isso, de transitório instrumento da eta- timar aquele poder mediante manifestações reconhecidas pelo soberano. O mesmo diga-se
temente viajavam para fora do país, nunca dei- pa socialista, a caminho da sociedade sem plebiscitárias. da Espanha, cujos reinos viam florescer o regi-
xando de atuar a partir de qualquer lugar onde classes. Nesta não haverá dominante nem domi- me de amplas autonomias consagradas pelos
nado, portanto, também não haverá Estado, que
v. Cesarismo - Consulado - Ditadura - Plebis-
fueros. Flandres e a Itália foram, por sua vez,
estivessem. Lênin, por exemplo, entre 1900 e cito.
1917 (excetuando-se o período de 1905/1907, é instrumento de dominação de uma classe so- propícias ao desenvolvimento das comunas.
que passou na Rússia) circulou pela Alemanha, bre as demais. Fiel à cosmovisão marxista, o BUCHA - v. Burschenschaft. Estas tiveram de sustentar na França árduas lu-
França, Inglaterra, Suíça, Tcheco-Eslováquia, Fin- bolchevismo pretendia alcançar o domínio uni- tas pela sua emancipação, até que chegassem
lândia, sempre desenvolvendo atividade polí- versal mediante a revolução mundial. a ter representação política, tal como já lhes
BURGUESIA
tico-ideológica e preparando a revolução na V. Comunismo - Social-democracia - Socialismo.
era dada na península ibérica e na Inglaterra.
Rússia, inclusive angariando, para tanto, recur- Categoria social heterogênea, cabendo dis- Do século XI ao século XIV dá-se, em diversos
sos financeiros junto a banqueiros, como a casa BONAPARTISMO tinguir diferentes estratos: grande, média e pe- países, a expansão e o fortalecimento de um
Kuhn Loeb. A revolução, que fracassara, num quena burguesia. Observa Heinrich A. Winkler duplo movimento: o corporativo e o comunaI.
Em sentido estrito, o apoio dado às preten- que o conceito de "burguesia" não pode ser Esse o quadro social e político em que se deu
primeiro momento (1905), iria triunfar mais sões da família Bonaparte ao trono francês. Sau-
adiante, especialmente porque à fraqueza das interpretado à luz exclusiva de critérios sócio- a formação da burguesia. Cumpre notar que as
dosos das glórias do Império, os bonapartistas econômicos sendo necessário esclarecê-lo populações das cidades não constituíam um
instituições democrático-parlamentares surgidas
das reformas feitas em 1905 viriam juntar-se as
reuniram-se em torno de Luís Napoleão Bona- numa dimen~ão histórica para entender o seu todo homogêneo. Além dos artífices organiza-
parte (imperador dos franceses, de 1852 a 1870), significado específico na análise da sociedade in- dos corporativamente nas respectivas profissões
dificuldades trazidas pela Primeira Guerra Mun- sobrinho de Napoleão I (imperador dos fran-
dial. Os bolchevistas entraram a explorar as reais
,
ceses, de 1804 a 1815), conseguindo elegê-lo
dustrial moderna (Marxismo y democracia - En-
ciclopedia de conceptos básicos, v. "Burguesía").
- pedreiros, carpinteiros, tanoeiros, alfaiates,
sapateiros, ourives, etc. - havia os comercian-

t
-69- BUROCRACIA
BURGUESIA -68- BURGUESIA BURGUESIA

púria, a do dinheiro, substituindo a antiga aris- burguês um tipo humano mais do que o repre-
tes e, depois do surto das universidades, apa- assembléias revolucionárias, daria plena con-
receram os "leterados e entendudos" como se sagração a um novo absolutismo: o absolutis- tocracia do sangue e do mérito. O mesmo ocorre sentante de uma classe social. O assunto pres-
nos demais países dominados pela burguesia ta-se a generalizações por vezes não muito fun-
dizia em Portugal dos formados elu' direito e mo democrático. Pleiteando igualdade de di-
tendo à sua frente os magnatas das finanças e dadas. Entretanto, parece certo que ao ideal de
dos físicos ou médicos. À burguesia, que tão reitos, extinguiam-se os privilégios da nobreza;
da indústria, notadamente nos Estados Unidos, "servir" da nobreza medieval- antes das aris-
relevante papel desempenhou na subida ao tro- em nome da liberdade de trabalho, aboliam-se
no português do Mestre de Avis, pertencia o as corporações de ofício. Nessa sociedade livre com os grandes capitalistas e a política econô- tocracias cortesãs decadentes - a burguesia
mica dos trusts (reis do petróleo, do ferro, etc.). veio sobrepor o lucro ou proveito como princi-
Doutor João das Regras (século XIV), cujos ar- e igualitária, em que teoricamente o poder so-
gumentos foram decisivos para a legitimação berano pertencia ao povo - identificado ao A história política da burguesia mostra-nos pal móvel das ações.
de D. João I (rei, de 1385 a 1433), verdadeiras "terceiro estado" - , quem exercia real influên- que, assim como a princípio ela se levantou V. Aristocracia - Capitalismo - Classes sociais
armas dialéticas manejadas com o mesmo ob- cia eram os grupos revolucionários, continuan- contra os privilégios da nobreza, da mesma _ Corporação - Nobreza - Representação.
jetivo pelo qual o Condestável Nun'Álvares do a obra das "sociedades de pensamento" do forma a pequena burguesia veio a reagir pos-
Pereira (1360-1431) desembainhara sua espa- século XVIII, e constituídos por elementos da teriormente contra os novos privilégios decor- BUROCRACIA
da. Magistrados, homens de negócio, banquei- burguesia, entre os quais homens de negócio, rentes dos monopólios industriais e da pode- Todo O complexo quadro de funcionários a
ros diversificam a burguesia e, com o declínio profissionais liberais, funcionários e escritores. rosa influência dos bancos. Da alta burguesia que está afeto o exercício das funções estatais.
da nobreza, atraída pela vida de prazeres da Mas acima de tudo começou a atuar de manei- distinguem-se nitidamente os pequenos indus- Foi em 1745 que Vincent Goumay (1721-
corte, vão ganhando, além da ascensão econô- ra decisiva o poder do dinheiro, reforçado, de- triais e comerciantes, os funcionários públicos 1759), economista fisiocrata, criou o termo bu-
mica, oportunidades políticas. A burguesia re- pois da Revolução, do Império e da Restau- e a maioria dos que exercem profissões libe- rocracia, originário de bureau, que, em fran-
presentava a riqueza mobiliária ante a riqueza ração, pela Monarquia de Julho, chamada a rais. Se no século passado as diferenças entre cês, significa mesa ou escrivaninha (e, por
territorial dos nobres. Mas burgueses enrique- "monarquia burguesa" (1830-1848). Neste re- estes e as classes operárias eram bem acentua- extensão, repartição, escritório), geralmente
cidos começam a adquirir terras de senhores gime, o sistema eleitoral baseava-se no "censo das, tal distância se foi apagando entre os tra- cobertas, à época, com um tecido grosso de
endividados e logram obter títulos de nobreza. alto" e ouvíamos o ministro Guizot (1787-1874) balhadores industriais mais categorizados e uma cor vermelho-escura, chamado bure, burel, de
Sua projeção cresce a olhos vistos, e, desta ca- dirigir a todos o famoso apelo: "Enrichissez- classe média que, por vezes, tende a proleta- que, por translação, procede bureau.
tegoria social, são chamados homens que vão vous." Thiers (1797-1877) e o banqueiro Lafitte rizar-se. O termo burocracia surgiu com uma
luzir na política francesa, como foi o caso de haviam sido os grandes artífices da subida ao Um aspecto importante a ressaltar no domí- conotação pejorativa, pois era usado pelos
Colbert (1619-1683) e Louvois (1639-1691), no trono daquele príncipe, substituindo a dinastia nio adquirido pela burguesia, enquanto as aris- fisiocratas para exprimir e condenar qualquer
reinado de Luís XIV (rei, de 1643 a 1715). É a dos Bourbons pela dos Orléans, na pessoa de tocracias tradicionais se arruinavam, está nas intervenção estatal, incompatível com o libera-
época em que Moliere (1622-1673) escreve a l:uís Filipe (rei, de 1830 a 1845), filho de Philippe transformações do direito. Os legistas, de ori- lismo econômico que pregavam. O sentido
comédia Le bourgeois gentilhomme,·aí traçan- Egalité, que aderira à Revolução e contribuíra, gem burguesa, contribuíram para o absolutis- depreciativo de burocracia está dicionarizado:
do o perfil psicológico do paroenu, a quem se com seu voto, para a morte de Luís XVI (rei, de mo e a centralização, servindo-se de princípios "ingerência abusiva de funcionários em assun-
abriam as portas de influência não só nos ne- 1774 a 1792). A revolução de 1848 e o surto do do direito romano aplicados às monarquias da tos estranhos à competência estatal" (Ency-
gócios, mas também no governo e na adminis- socialismo trouxeram certo pânico aos arraiais época. As reformas legislativas do tempo de clopaedia Britannica); "influência excessiva dos
tração. Assim chegamos ao século XVII, quan- da alta burguesia financeira, mas estes recom- Colbert corresponderam às aspirações da bur-
empregados públicos nos negócios do Estado"
do grande parte dos bens fundiários da antiga puseram suas forças, conseguindo tirar provei- guesia do século de Luís XIV. O constitu-
(Diccionario de la lengua espanola de la Real
aristocracia passou para as mãos dos burgue- to das novas situações políticas. No Segundo cionalismo liberal, a partir da Revolução Fran-
Academia Espanola); "complicação ou moro-
ses, "que se mostravam muito freqüentemente Império, Napoleão 111 (imperador dos france- cesa, e o Código Napoleão - influenciando o
sidade no desempenho do serviço administra-
senhores mais ásperos e mais duros do que os ses, de 1852 a 1870) recebe o apoio de gran- direito civil de outros povos - vinham, por
tivo" (Novo Dicionário da Língua Portuguesa,
nobres" (Michel Mourre, v. "Bourgeoisie", in Dic- des industriais e comerciantes, em troca de fa- sua vez atender a interesses da mesma classe.
de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira). As
tionnaire d'Histoire Universelle). Saint-Simon vores concedidos. Mas é sobretudo depois da Força s~cial não vinculada à terra e precisan-
idéias de complicação e morosidade acompa-
(1760-1825) qualificou de "reinado de vil bur- 111 República que se firman as oligarquias bur- do, para expandir-se, de maior circulação das
nham o sentido vulgar de burocracia, enreda-
guesia" a época de Luís XIV, que fortaleceu o guesas, dominando inteiramente a vida políti- riquezas, a burguesia se empenhava na unifi-
da no formalismo da tramitação dos papéis.
seu poder demitindo de altas funções os no- ca francesa por representantes seus filiados à cação legislativa e no nivelamento político-ad-
A burocracia é fenômeno típico do Estado
bres e enobrecendo elementos de origem bur- maçonaria, e continuando a exercer uma in- ministrativo do país. Manifestaram-se, assim, por
moderno, o qual, por seu feitio centralizador,
guesa, postos ao serviço das ambições absolu- fluência discreta na IV e aberta na V Repúbli- um lado, o individualismo jurídico, favorável à
intervencionista, absorvente, exige uma multi-
tistas do Rei-Sol. Merece especial relevo o ca. Já então vemos a burguesia da classe mé- livre concorrência e ao enriquecimento, e, por
histórico da burguesia na França, porque foi dia em oposição à burguesia das altas finanças, outro lado, a centralização estatal com prejuízo dão de funcionários para atuar em todos os
daí que partiu o seu predomínio político em sendo que, porém, esta última consegue, em das franquias municipais, das autonomias re- setores da vida humana. Paradoxalmente, o
toda a Europa após a Revolução de 1789. De- grande parte, dirigir, segundo seus interesses, gionais e das liberdades corporativas, centrali- Estado liberal- que pretendia garantir o máxi-
pois de haver contribuído para o triunfo do elementos de prestígio daquela classe militan- zação esta posteriormente mais acentuada com mo de liberdade individual com o mínimo de
poder, mediante o abstencionismo do laissez-
absolutismo monárquico, em detrimento da tes nos partidos políticos. Assim se constituí- base na tecnoburocracia.
Sobre o espírito burguês ou a mentalidade faire, laissez-passer - é que se tornou a causa
nobreza, a burguesia gerou em seu seio os en- ram as "dinastias burguesas". Os Rothschild,
ciclopedistas do século XVIII, que solapariam banqueiros israelitas internacionais, cuja fabu- burguesa, desde a sátira de Moliere, têm escri- maior da hipertrofia do poder. Isto porque, ao
to romancistas, psicólogos, sociólogos, historia- negar a natureza social do homem, o individua-
as instituições tradicionais, preparando à reale- losa fortuna vem de um golpe do jogo da Bol-
dores. Merece destaque o ensaio Der Bourgeois lismo deu origem, por força da atomização so-
za um golpe de morte. Com efeito, a Revolu- sa de Londres logo após a batalha de Waterloo,
de Werner Sombart (1863-1941). Aí o grande cial, ao processo de massificação geral, dado
ção Francesa foi obra da burguesia. O "terceiro foram chamados por Jules Guesde "os reis da
estado", exaltado por Sieyes (1748-1836), nas República". Tratava-se de uma aristocracia es- historiador do capitalismo moderno vê no que os indivíduos, entregues a si mesmos, se

"
-71- BURSCHBNSCHAFT
BUROCRACIA -70- BUROCRACIA BUROCRACIA

portiva, etc.), que têm suas competências qua- neral Góes Monteiro (1889-1956), comandante
viram impotentes e inermes em face do Esta- Encontra-se em Max Weber (1864-1920) a
se sempre absorvidas pelo Estado, cuja máquina da II Região Militar, como a "camorra de cima"
do, que passou a concentrar poderes e direitos primeira análise objetiva do fenômeno buro-
burocrática, conseqüentemente, tende a cres- _ começou a ser objeto de referências de es-
antes exercidos autonomamente pelos grupos cracia, assim caracterizado: estrutura hierárqui-
cer sempre mais. critores que trouxeram a público um assunto
componentes da sociedade. A partir daí, o Es- ca, competências funcionais fixadas em normas
mantido durante muito tempo em segredo e
tado veio a crescer cada vez mais, contando regulamentares, profissionalização dos agen- V. N omenklatura - Tecnocracia. do qual se falava até então com muita cautela.
para tanto com a multiplicação dos quadros de tes públicos, disciplina funcional, prática de atos
A propósito, escreve Pedro Brasil Bandecchi:
funcionários sempre em maior número. Sobre sob forma escrita. Denotam essas característi- BURSCHENSCHAFT
essas características do Estado n10derno, Royer- cas que, em princípio, a burocracia se destina "O ingresso na Burschenschaft não depende
Sociedade secreta de estudantes, fundada na da vontade do estudante. O futuro membro
Collard (1763-1845), deputado à Assembléia a atender à necessidade de racionalizar os ser- Alemanha por volta de 1815 e tendo por ponto
Nacional francesa, declarava nos começos do viços públicos. Pretende-se, desta maneira, não dessa sociedade secreta é observado, estuda-
de partida a Universidade de lena. Espalhou- do e, só depois de ter a competente aprovação,
século XIX: "Ali onde somente há indivíduos, só que o público tenha condições de conhecer se por outros centros universitários, reunindo a
todos os assuntos que não são seus, que não a mecânica de tramitação dos papéis, mas tam- é convidado. Dá-se, então, se aceitar, sua inicia-
juventude daquele país, na resistência à inva- ção. Constituía-se, assim, a elite dos estudantes
são assuntos puramente individuais, são assun- bém que os funcionários saibam situar-se nos são francesa. Passou por curiosa metamorfose:
tos públicos, assuntos do Estado. É assim que limites das próprias competências. A despeito e seu número era pequeno, o que justifica a
convocando a mocidade estudantil, durante a projeção que seus membros tiveram na vida
nos convertemos num povo de administrados disso, essa racionalização comumente incorre ocupação napoleônica, e procurando desper- pública, cultural e social do Brasil" (A Bucha,
pelas mãos de funcionários irresponsáveis, cen- em formalismo, que cerceia o espírito de inicia-
tar-lhe os brios patrióticos, tomou-se depois veí- a Maçonaria e o espírito liberal, Livraria Tei-
tralizados eles mesmos no poder, do qual são tiva e obriga a obediência a rotinas cediças,
culo dos princípios da Revolução de 1789, que xeira, São Paulo, 1978, p. 95). Diz ainda o mes-
ministros." Esse Estado de então estava muito que emperram o andamento dos serviços. Ade-
haviam sido propagados por Napoleão (impe- mo autor: "A Burschenschaft tem muita seme-
aquém do Estado de nossos dias, com seu ca- mais, a racionalização só tem condições de efi-
rador dos franceses, de 1804 a 1815). lnseria- lhança com a maçonaria. Sua organização é
ráter amplamente monopolístico, a controlar cácia se os cargos públicos forem providos por
se na linha do pensamento do iluminismo do diferente, embora ambas sejam secretas, filan-
se não a absorver os diferentes setores de ati- funcionários capacitados, mediante seleção por
século XVIII (Aufklãrung) , de tão grande in- trópicas e liberais. Pode-se dizer que é a maço-
vidades, cobertas todas por extensa malha buro- concurso público que permita aferir, com toda
fluência em toda a Europa. Tal influência se naria das faculdades." (op. cit., p. 96) Também
crática. No Estado comunista, chega-se ao auge a isenção, o nível intelectual, a base cultural e
estendeu aos países novos do continente ame- Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1991), na
do controle ou da absorção das atividades, com o estofo moral dos candidatos. Ocorre porém
que, em geral, a política partidária ~ncontr~
ricano, contagiando bacharéis, homens públi- biografia de Rodrigues Alves (1848-1919), re-
uma burocracia onipresente, que é indissociável
cos e até clérigos. portugal e o Brasil recebe- gistra que a Burschenschaft paulista "constituía
da estrutura estatal, não obstante o discurso em meios e modos de frustrar esse procedimento
ram-na através das reformas pombalinas. Assim, uma espécie de grupo destinado a funcionar
contrário de seus teóricos. Lênin (1870-1924) seletivo e engendra formas atípicas de expan-
o ambiente estava preparado para aceitação do na vida pública depois de terminados os estu-
afirmava, pouco depois da vitória da Revolução dir a burocracia com vistas ao fomento do clien-
bolchevista, que, na Rússia, uma nova consciên- liberalismo, ideário difundido pela Burschen- dos". Assinala, nesse sentido, que, na "Bucha",
telismo eleitoral. A partidocracia clientelística
cia proletária destroçaria o aparato burocráti- e o gigantismo do Estado alimentam-se reci- schaft entre os estudantes. "todo o ritual romântico (sic) das sociedades
co, destruindo-o até aos alicerces, e substituin- Uma sociedade semelhante e com o mesmo secretas era rigorosamente observado. Rui, Rio
procamente, razão pela qual, até mesmo quan-
do-o pelo aparato dos próprios trabalhadores. do se intenta a racionalização dos serviços, aca- nome foi fundada na Faculdade de Direito de Branco, Afonso Pena, Venceslau Brás, Artur
A sociedade sem classes traria a morte do Esta- ba-se por multiplicar cargos e funções, cujo São Paulo, em 1831, por Júlio Frank, misterio- Bernardes, nos pináculos das respectivas car-
do, mero instrumento utilizado pelas classes organograma operacional, concebido geralmen- so personagem a quem se atribuía um nome reiras, não desdenhavam de, quando de passa-
privilegiadas para exploração das classes infe- te em esquemas teóricos satisfatórios, se revela suposto e que viera da Alemanha em circunstân- gem por São Paulo, homenagear a velha or-
riores. À medida, porém, que o Estado comu- com freqüência ineficaz quanto aos resultados cias não esclarecidas. De Sorocaba transferiu-
ganização, prestando-se docilmente ao seu
nista foi perseguindo seus objetivos concretos, práticos. E a razão disso reside no desborda- se para São Paulo, lecionando história no curso
cerimonial." (Rodrigues Alves, Livraria José
mediante a concentração dos meios de produ- mento da atividade estatal. Na verdade, se é anexo da referida faculdade, onde até hoje um
Olympio Editora, Rio de Janeiro, voI. I, 1973,
ção em suas mãos, a estrutura burocrática foi- certo que a prestação de serviços pelo Estado, obelisco assinala o sepulcro que lhe foi dado
p. 29). Tal fato confere com o que o autor dis-
se agigantando. E veio a assumir um caráter no âmbito que lhe compete, reclama todo um em pequeno pátio interno. Apresentando-se co-
sera: "foi no meio político que a orientação da
mais rígido e asfixiante do que o da burocra- conjunto de órgãos cujas funções devem ser mo sociedade filantrópica, para ajudar os estu-
Burschenschaft se especializou" (op. cit., p. 28).
cia dos países ocidentais. Já nos anos 30, Trotski exercidas por pessoal habilitado, também é dantes pobres, a "Bucha", como se tornou co-
A este respeito, esclarece ainda: "desde o iní-
(1879-1940) dizia que o socialismo da União verdade que a extrapolação das competências nhecida, exerceu poderosa influência não só
cio, a Burschenschaft paulista (B.P. segundo a
Soviética não era senão um "capitalismo de do Estado moderno decorre de disfunções dos na vida acadêmica, mas ainda na política ex-
sigla dos iniciados) foi liberal, abolicionista e
Estado", e fulminava: "Os meios de produção poderes públicos ao invadir áreas não perten- terna à faculdade, cujas cátedras se tornaram
republicana", havendo "uma relação muito es-
pertencem ao Estado. Mas o Estado pertence, centes à esfera da ação governamental. Por isso praticamente inacessíveis aos não afinados com
treita entre a Burschenschaft paulista e a ideo-
em certa medida, à burocracia" (Die verratene que os males da burocracia estatal são em má- aquela entidade. Por outro lado, os membros
logia republicana" (op. cit., p. 31). Em seu De-
Revolution, Zurich, 1958, p. 242). Posteriormen- xima parte males do próprio Estado, quando da "Bucha" sempre encontraram caminhos aber-
poimento, Carlos Lacerda (1914-1977) refere-se
te, a máquina burocrática da União Soviética fundado numa filosofia política divorciada da tos na advocacia, na organização policial, na
à Burschenschaft como "entidade aparentemen-
veio a alcançar tudo e todos em dimensões ordem social natural. Há demasiada burocracia magistratura e na carreira política, sendo que
também presidentes do Estado de São Paulo, te (sic) filantrópica" que "tomou um matiz libe-
inimagináveis. A organização totalitária em que porque há demasiado Estado. E há demasiado ral e passou a lutar pelas causas liberais na
o Estado comunista se estruturou, afrontando Estado porque não há suficiente sociedade, ou antes da revolução de 1930, pertenceram a essa
sociedade secreta, à qual estiveram vinculados Alemanha" (Editora Nova Fronteira, Rio de Ja-
a natureza humana e a natureza das coisas seja, inexiste o reconhecimento das autonomias neiro, 1978, p. 87). E acrescenta: "Ao que pa-
explica a imensa e poderosa montagem dess~ sociais (famílias e grupos sociais multivariados, certos movimentos como o da Liga Nacionalis-
rece, a influência da Burschenschaft, em São
burocracia. de natureza profissional, cultural, artística, es- ta. Depois de 1930 - e denunciada pelo Ge-

"
BURSCH./lNSCHAFT
-72- BURSCHBNSCHAFT

Paul~) e no Brasil foi de tal ordem que o único


bendo do grupo reunido. A primeira oportuni-
Pr~sldente da República civil , até Washington
dad~, se aceito o convite, seria a direção de
LUI.S~ ~ue não foi da Bucha, parece ter sido
~pltaclo Pessoa, presidente por acidente, pre-
sIdente para evitar o Rui Barbosa. Todos os
demais passaram por ela" Copo cit. , p. 88). Como
em toda sociedade secreta, a "Bucha" também
um Jornal que pretendiam lançar. Naturalmen-
t~ ~edi m~io!es detalhes sobre quem integra-
~a a assoClaçao e sobre a própria entidade, pois
Ja naquela ocasião não gostava de entrar nas
coisas n~ escuro, mas a resposta que recebi,
c
punia eventual infidelidade de seus membros. de que so gradualmente eu seria apresentado
Por exemplo: "O sujeito fazia um concurso para a escalões mais altos, e conheceria a estnItura
pro~otor e não era nomeado. Mas, se o sujei- da associação, provocou minha recusa ao con-
to tinha condições para ser ministro do Su pre- vit~, com grande decepção dos colegas.
mo e era da Burschenschaft, ia ser ministro do Tratava-se, nada mais, nada menos, da fa-
Supremo" Copo cit., p. 89). Desta forma "só fazia mosa Bucha, a sociedade de auxílio mútuo
carreira conforme tivesse ou não u~ enten- CACIQUISMO Espana: urgencia y modo de cambiarIa, Madrid,
formada por Júlio Frank, um século atrás, a
dime~to ~ent~o desse contexto" Copo cit. , p. 89). Expressão usada principalmente por autores 1902, p. 8, volume publicado após um curso
Burschenschajt, que teve poderosa influência
Jose Mlndhn, em Uma vida entre livros: re- espanhóis e hispano-americanos para designar no Ateneo de Madri no ano anterior). Essas
na política brasileira até a Revolução de 30
um fenômeno político ao qual a deturpação do considerações desde logo dão a perceber que
encontros com o tempo (Edusp/ Companhia das mas que com ~ final da Velha República, en~
Letras, São Paulo, 1997, pp. 70/71), conta que, regime representativo deu margem. Asseme- a atuação dos caciques não se fazia sentir ape-
trou em ~ec.adencia. Dizem que os principais
quando cursava a Faculdade de Direito da USP lha-se ao que, na vida política brasileira, rece- nas no concernente às eleições; ela abrangia a
cargos publIcos eram até então preenchidos
rece~:u de um colega o convite "para um~ beu o nome de "coronelismo". Caciques eram esfera administrativa no sentido de arranjar
por indicação da Bucha, e que Arthur Ber-
reu~'l1ao que ele dizia ser muito especial e mui- chefes de tribos indígenas, chamados também, empregos, colocações, favores. Em face do
nardes, por exemplo, teria tido seus estudos
to Interessante, mas que eu deveria manter no Brasil, de morubixabas. Estendeu-se o ter- caciquismo preponderante, os partidos políti-
financiados por ela, e chegado à Presidência
secreta. Fiquei curioso e fui. Encontrei um por sua influência." mo para qualificar pessoas importantes numa cos - no dizer do mesmo autor - não passa-
ambiente meio misterioso, fui muito bem re- Em São Paulo, além da Faculdade de Direi- população, aí exercendo influência bastante vam de facções de caráter acentuadamente
c.ebido: mas tive de prometer que não revela- to, têm as suas "Buchas" a Faculdade de Medi- pronunciada nos assuntos políticos e adminis- pessoal. Por outro lado, os chefetes locais con-
na a nInguém o que ia se passar. Se o revelo cina, a chamada jugenschaft (União da Moci- trativos. Na sua dependência ficam outros ho- tribuíam para a cristalização do regime oligár-
agora, é porque, depois de sessenta anos creio dade), e a Escola Politécnica, a denominada mens que se tornam como que seus vassalos e quico, tomando-se o Parlamento uma farsa, uma
que o segredo já está prescrito ... Foi u~ con- Landmanschaft (Sociedade de pessoas do cam- ajudam a mobilização do eleitorado. O caci- abstração. Se alguns desses dirigentes políticos
vite para integrar uma associação que iria me po ~u do mesmo campo), segundo informa que é um grande cabo eleitoral, mas tem uma por vezes atendiam a interesses reais de seus
oferecer oportunidades atraentes, e assegurar Brastl Bandecchi (op. cit., p. 94). força pessoal que o torna de certo modo inde- apaniguados - mais para distribuir favores a
favoravelmente meu caminho futuro desde pendente no âmbito de sua influência local, fim de obter apoios, e excepcionalmente com
V. Carbonária - Iluminismo - Maçonaria - Rosa-
que eu seguisse a orientação que fos~e rece- cruz. não obstante esteja a serviço de algum chefe o sentido superior do interesse público - , mui-
político mais poderoso e mais próximo da cú- tos correspondiam ao conceito aristotélico de
pula do poder, podendo ele chegar também a oligarquia: "Governo do país por uma minoria
estas alturas. absoluta que procura exclusivamente seu inte-
A democracia representativa, nos países lati- resse pessoal, sacrificando-lhe o bem da co-
nos, tem entrado em conflito com as condições munidade" Copo cit., p. 39).
reais do povo, por teimarem os seus líderes V. Caudilhismo - Coronelismo - Oligarquia - Par-
em aplicar os padrões da democracia anglo- tidos políticos.
saxônia numa sociedade de formação históri-
ca, de costumes e de mentalidades insuscetíveis CAPILARIDADE SOCIAL - v. Circulação das
de se coadunarem ao modelo visado. Isto fa- elites.
voreceu o surto do caciquismo, que, de certo
modo, veio a ser a manifestação de lideranças CAPITALISMO
naturais ante o vazio de instituições aptas a Sistema econômico cujas características resi-
permitir o funcionamento de um regime de base dem na propriedade privada dos meios de pro-
popular autêntica e de elites bem constituídas. dução e no livre jogo da concorrência de mer-
Descrevendo a situação da Espanha, Joaquín cado, objetivando o lucro.
Costa C1845-1911) assim se exprime: "Cada re- Começou a surgir o capitalismo, ou melhor,
gião e cada província se acha dominada por o "espírito do capitalismo", na expressão de
um particular irresponsável, deputado ou não, Werner Sombart (1863-1941), nos fins da Ida-
vulgarmente apodado, nesta relação, de caci- de Média, quando os grandes empórios comer-
que, sem cuja vontade ou beneplácito não se ciais de Gênova e Veneza transformaram o Me-
move uma folha de papel" COligarquía y caci- diterrâneo num centro de operações financeiras
quismo como la forma actual de gobierno de que veio a dominar a Europa toda. Aparece-
CAPlTAllSMO -74 - CAPITALISMO CAPITALISMO -75 - CAPITALISMO

ram, então, as casas bancárias; e o dinheiro, ma, as praças de Londres e Amsterdã transfor- mia de mercado. Desenvolve, também, toda Desta forma, a aplicação dos princípios do
diferentemente do que ocorria na economia maram-se nos maiores centros comerciais e ban- uma apologia da divisão do trabalho, conside- liberalismo acabou dando origem a toda uma
medieval, converteu-se em mercadoria, entran- cários do mundo. rando-a a mola propulsora da produtividade. série de iniqüidades: os salários de fome, o tra-
do a cobrança de juros no mecanismo dos ne- Antes de terminar o século XVIII, já se inau- Ademais, segundo Smith, sendo os homens balho considerado mercadoria sujeita à lei da
gócios. Caracterizou-se esse período por um gurava outra etapa do capitalismo, o capitalis- impulsionados pelo interesse individual, ao oferta e da procura, as excessivas horas de tra-
capitalismo comercial e, em seguida, financei- mo industrial. A produção artesanal cedia lu- desenvolverem suas atividades num quadro de balho diário (de 10 a 16), as péssimas condi-
ro, cuja força se manifestava no empréstimo de gar à industrial, que, com a mecanização, vinha livre concorrência, lograr-se-ia o máximo de ções de higiene do ambiente de trabalho, etc.
grandes somas a reinos europeus. a se realizar em massa e em série por um custo benefício para a coletividade e a conseqüente Vivia-se a exploração do homem pelo homem.
A partir do século XVI, deslocou-se para o menor. Os capitais acumulados e a ampliação harmonia social. David Ricardo (1772-1823), Crescia a proletarização. A concentração de ri-
Atlântico o eixo do comércio mantido com o dos mercados consumidores permitiram inves- John Stuart Mill (1806-1873) e Jean Baptiste Say quezas fazia-se em poucas mãos. Vem a esta-
Oriente pelos armadores genoveses e vene- timentos maciços na implantação de parques (1767-1832) são outras figuras que se desta- dear o privilégio do dinheiro, ostentado pela
zianos. As grandes Descobertas de portugue- manufatureiros, destacando-se nesse sentido as cam no desenvolvimento das idéias do libera- burguesia. A plutocracia tomava o lugar da aris-
ses e espanhóis - com o comércio das especia- indústrias têxteis inglesas. Com a introdução lismo econômico, amplamente dominante no tocracia. A "igualdade de todos perante a lei"
rias da Índia pelas rotas oceânicas e com a da máquina a vapor no processo industrial, ga- século XIX. era desmentida pelos fatos que atestavam uma
exploração das abundantes jazidas aurueras das nhou dimensões inusitadas a escala de produ- Na época, essas idéias encontravam condi- desigualdade entre os homens maior que a
regiões centro-sul-americanas - fizeram sur- ção. Entrava-se na "revolução industrial". Paí- ções políticas extremamente favoráveis à sua existente na Idade Média ou no regime ante-
gir uma economia monetária de grandes pro- ses como Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos implantação, dada a estruturação institucional rior à democracia liberal. Alastrava-se o paupe-
porções. O afluxo monetário, propiciado pelas - sumamente ricos em jazidas de carvão - dos Estados europeus nos princípios do libera- rismo, vale dizer, a miséria estendia-se por con-
riquezas ultramarinas, ocorria numa época (sé- detinham, ao longo do século XIX e nas duas lismo político, difundidos pela Revolução de tingentes enormes da população. Esse quadro
culo XVI) em que o individualismo da Renas- primeiras décadas do século XX, cerca de 800/0 1789. A partir da França, esses princípios tam- de acentuada gravidade veio a produzir crises
cença e do Protestantismo vinha legitimar e da extração dessa matéria-prima destinada ao bém alcançaram as elites dirigentes dos países recorrentes no capitalismo industrial do século
fomentar a mentalidade dinheirística então aquecimento de caldeiras e, depois, aos fornos americanos na época da independência. A or- passado e começos deste. O diagnóstico de Karl
emergente, e ainda às voltas com a condena- das siderúrgicas. Na mesma altura em que o ganização dos Estados nos moldes do liberalis- Marx (1818-1883), em Das Kapital, sobre essa
ção do juro pela doutrina católica. A teologia surto industrial, amparado em sólidos investi- mo político, ou seja, nos quadros da democra- situação toda, causou grande impacto na épo-
calvinista encontrava adeptos fáceis ao assegu- mentos e inovações técnicas de efeito multi- cia liberal, assegurava plena cobertura jurídica ca. E avançava o prognóstico de que a crise do
rar que o bom êxito nos negócios é sinal de plicador, se expandia com grande velocidade, ao capitalismo. Como a liberdade era conside- capitalismo seria a última etapa do processo
salvação eterna. Por isso, para Calvino (1509- o capitalismo veio a contar com um emba- rada um valor supremo e absoluto, apenas ca- sócio-econômico de caráter conflitual, cuja di-
1564), a melhor forma de agradar' a Deus é samento ideológico de caráter específico, que beria à autoridade exercer a função de conciliar nâmica desembocaria no socialismo.
acumular riqueza. O Protestantismo vinha tra- consolidava o individualismo renascentista e as liberdades de uns e outros. Outrossim, ao Os fatos, porém, não se comportaram na li-
zer a "justificação teológica" para a expansão protestante de suas remotas origens: surgia o pretender-se que o homem é um ser moral- nha dessas previsões. O milenarismo do pen-
do espírito de lucro, que encontrou no merca- liberalismo econômico, com a obra de François mente autônomo, não foi difícil transformar o samento marxista impedia de ver que as raízes
do de capitais o meio mais eficaz de sua mani- Quesnay (1694-1771), fundador da fisiocracia. objetivo de lucro, próprio da atividade econô- da crise do capitalismo se alojam em seus fun-
festação prática. Esse monetarismo acabou ge- Quesnay, partindo da concepção do "estado mica no sistema capitalista, num fim em si. Es- damentos ideológicos, ou seja, no liberalismo.
rando a mentalidade que identifica dinheiro com de natureza" anterior à vida social, em que o tava, assim, justificado o amoralismo nos negó- A liberdade absoluta, aplicada às atividades
riqueza. Difundia-se, assim, na vida econômi- homem seria bom e feliz, preconiza, em Ta- cios, especialmente porque nenhum valor econômicas, levara à busca desenfreada do lu-
ca, a busca incontida de lucro como fim em si bleau économique, um regime de ampla liber- transcendente regia superiormente a moralidade cro. Como instrumentos capazes de possibilitar
mesmo. As operações financeiras vinham a ter dade individual, a fim de que prevalecesse o das ações. Instaurava-se, pois, o processo de o enriquecimento, surgiram as sociedades por
preferência sobre as atividades produtivas. O respeito às "leis naturais" na atividade econô- secularização da vida social, e o homem, uma ações, cujo mecanismo operacional, facilitan-
acúmulo de capitais era expressão de riqueza, mica. Daí a conhecida fórmula: laissez-faire, vez cindido, deveria guiar-se ora por uma cons- do a transação expedita de quotas do capital,
uma riqueza não lastreada na produção de bens laissez-passer. Ao Estado incumbiria tão-somen- ciência privada (a das suas convicções "parti- permitia a acumulação dos recursos das em-
e que no mundo dos negócios acabaria ope- te garantir a mais completa liberdade de produ- culares": familiares, religiosas, etc.), ora por uma presas e a aceleração do processo produtivo,
rando um jogo de símbolos: papel-moeda, títu- ção, de trabalho, de concorrência, de comércio. consciência pública (a das suas opções sociais: Com isso, o capitalismo industrial atingia cres-
los de crédito, etc. No fundo, símbolos de ou- Disso resultaria espontaneamente a harmonia políticas, empresariais, etc.). Esse amoralismo cimento desmesurado. Sobrevieram a superpro-
tros símbolos e não de bens produzidos. Os social e a prosperidade geral. Frédéric Bastiat vinha tornar mais penosa a vida dos operários, dução, o fechamento de indústrias, o desem-
grandes recursos propiciados a Portugal e Es- (1801-1850), em Harmonies économiques, prefi- não só por seu caráter próprio, mas também prego. A partir daí o capitalismo liberal foi
panha pelas Descobertas não tiveram uma in- gura as harmonias que decorreriam automati- pelo fato de a legislação da época em alguns desmoronando. Para pôr cobro a abusos, o Es-
corporação vital à economia desses países, camente do livre jogo dos interesses e da con- países (como na França, com as leis d'Allarde tado passou a intervir nas atividades econômi-
especialmente porque, com escassa população formidade com a "ordem natural". e Chapelier, ambas de 1791), em obediência cas. Acionou mecanismos financeiros de índo-
e devendo acudir aos altos custos de manuten- Foi com Adam Smith (1723-1790) que o li- aos cânones do liberalismo, ter abolido as enti- le corretiva. Utilizou o planejamento de feitio
ção das possessões ultramarinas, acabaram ten- beralismo econômico ganhou fundamentação dades profissionais e proibido a formação de indicativo ou não. Criou incentivos para deter-
do de importar quase tudo de que careciam. A teórica mais acabada. Em sua obra clássica An quaisquer outras. Agrupados nessas organiza- minadas atividades. Veio a exercer outras, di-
Inglaterra e a Holanda foram os dois países Inquiry into the Nature and Causes ofthe Wealth ções, os operários encontravam na união a for- retamente, com exclusividade ou em concor-
que mais se beneficiaram dessa situação, dre- of Nations, conhecida em português com o ça necessária para fazer valer seus direitos; rência com o setor privado. Evidentemente, o
nando para suas arcas vultosíssimas massas nome de A riqueza das nações, faz a defesa in- deixando isto de ocorrer, viam-se isolados e risco dessa intervenção estatal está na sua pró-
monetárias em troca de mercadorias. Desta for- transigente da livre concorrência e da econo- inermes em face do patronato. pria força expansiva, especialmente quando
CAPIIAUSMO - 76- CAPIIAUSMO CAPIIAUSMO -77- CARBONÁRlA

ignorado ou desprezado um dinamismo sócio- antigos: em vários países, cresce a participação vantagem, por lhe faltar a retribuição devida. É gritar: "Viva Pio IX".
econômico autônomo e legítimo da sociedade, de parcela ponderável da população no capi- de justiça que a prosperidade da empresa tam- Enquanto isso, Mazzini, em carta de 8 de
escorado no reto exercício das liberdades con- tal das empresas, mediante a aquisição de ações; bém signifique a prosperidade dos emprega- setembro de 1848, dirigida a Pio IX, se derra-
cretas, mas resguardado sempre o bem comum. em outros, ocorre certa participação de empre- dos, cujo salário, além da parte fixa, deve ter mava em blandícias, "encorajando" o Pontífi-
Simultaneamente com tudo isso, o Estado pro- gados nos lucros das empresas, especialmente um acréscimo variável segundo índices de pro- ce: "tende ânimo e confiança em nós" (car-
curou melhorar a situação do operariado, edi- por meio do acionariato; em alguns, desponta dutividade prévia e adequadamente avençados. bonários). E prometia-lhe um "governo único
tando leis sociais reguladoras do contrato de uma incipiente e controvertida cogestão. O des- Ademais, se é certo que a liberdade de empre- em toda a Europa", conforme texto transcrito
trabalho, garantindo remuneração mínima, des- moronamento do capitalismo liberal de an- ender deve ser sempre assegurada, também é por Hugo Wast, pseudônimo de Gustavo Mar-
canso semanal, férias, indenização por despe- tanho, pari passu com o desencanto falimentar indisputável que essa liberdade, se absoluta- tínez Zuviria (1883-1962), em Don Bosco y su
dida sem justa causa. Desta forma, esvaziava- das utopias socialistas, tem levado à busca de como a pretendida pelo liberalismo - acaba tiempo, Ediciones Palabra, Madrid, 1987, p. 148.
se a profecia de Marx, que antevira uma novas formas de vida sócio-econômica que co- tornando-se perniciosa, pois existem valores A linguagem de Mazzini repete, sem ambages,
irreversível acumulação de capital em escala loquem os valores humanos numa escala su- mais altos a ser respeitados e cujo desprezo a do Tentador (Mt 4.9).
cada vez maior, em número cada vez menor perior à dos valores econômicos. vem a criar situações desumanas nas relações Observa Hugo Wast que "em Roma a revo-
de mãos, concomitantemente com a expansão O capitalismo liberal, dando origem à cha- de emprego. Foi o quadro de degradação da lução avançou mais do que em qualquer outra
da massa de operários explorados, perceben- mada questão social, que culminou na explo- dignidade humana no mundo do trabalho que parte, favorecida pelo espírito bondoso do Pon-
do salários aviltantes, o que provocaria inevi- ração do homem pelo homem, fez com que a levou o Magistério da Igreja a condenar o indi- tífice" (op. cit., p. 157). Na verdade, o carbona-
tável explosão social, que os agentes ideológi- Igreja levantasse a voz em defesa da dignidade vidualismo entranhado na concepção do capi- ris mo desenvolveu ampla e intensa atividade
cos se encarregariam de converter em ação humana. E passou a denunciar o capitalismo, talismo liberal, e a insistir, também, no respei- na Itália porque ali estava seu alvo principal:
revolucionária para resgate do operariado es- fundado no liberalismo econômico, cujas ca- to aos princípios da ordem social natural e cristã, "destruir o pontificado, para descristianizar o
magado pelas iniqüidades do sistema capitalista. racterísticas básicas são as seguintes: a proprie- suscetíveis de propiciar a realização de uma con- mundo" (op. cit., p. 93). Para lograr esse fim,
Outros fatores também vieram contribuir para dade privada dos meios de produção, entendida vivência harmônica, como vem tratado exaus- vários foram os meios empregados. Se "não
que o capitalismo assumisse características di- como direito absoluto, a isentar de respon- tivamente nas encíclicas e outros documentos era possível converter o Papa num carbonário,
ferentes. Surgiram novas fontes de energia (pe- sabilidades sociais seus detentores; o lucro, ra- _pontifícios sobre os problemas sociais. havia que fazer, de um carbonário, Papa" (op.
tróleo, eletricidade, etc.), pesquisas científicas zão de ser do desenvolvimento econômico; a V. Bem comum - Corporativismo - Doutrina So- cit., p. 94). "Devemos chegar ao triunfo da idéia
trouxeram inventos revolucionários (automação, livre concorrência: lei maior da economia; o cial da Igreja - Liberalismo - Liberdade - Marxis- revolucionária por meio de um Papa" (op. cit.,
informatização, etc.), a racionalização do pro- trabalho, considerado mercadoria sujeita à lei mo - Subsidiariedade, Princípio de - Socialismo. p. 98), planejavam os carbonários. Para alcan-
cesso de produção e comercialização ganhou da oferta e da procura. A Igreja, que sempre çar esse objetivo, as sociedades secretas infil-
dimensões inusitadas. Especialmente a nature- defendeu a propriedade privada como expres- CARAMUJO - v. Apodos políticos brasileiros. traram-se profundamente em vários reinos -
za expansiva e inovadora da tecnologia aca- são do direito natural de o homem garantir uma o dos Estados Pontifícios, o da Sardenha, o
bou trazendo transformações profundas na vida vida digna, e também as várias manifestações CARAMURU - v. Apodos políticos brasileiros. das Duas Sicílias, o Lombardo Vêneto - e nos
sócio-econômica. As empresas, para acompa- da liberdade (na ordem sócio-econômica: li- ducados de Parma, Módena e Toscana, mani-
nhar o ritmo de desenvolvimento, romperam berdade de trabalhar, empreender, negociar) CARBONÁRIA pulando-os em larga parte e recorrendo até
sua estrutura familiar e fechada, abrindo-se à com vistas à realização de fins humanos, não Sociedade secreta de objetivos político-revo- mesmo a complôs e crimes, em que o estilete
captação de recursos de fora e ampliando a hesitou em condenar referidos princípios, for- lucionários, cujas atividades se caracterizam pela era o instrumento letal preferido, como se deu
participação acionária. O capitalismo financei- mulados em termos atentatórios ao ser do ho- prática da violência. Suas origens ligam-se aos no assassinato de Pellegrino Rossi (1777-1848),
ro passou a predominar. Os bancos entraram a mem e à convivência social pacífica, tanto as- compagnonsdo Franco-Condado da França, sob Chefe do Governo Constitucional dos Estados
desempenhar papel de ponta nesse processo. sim que, levados à prática, se tornaram fonte a denominação de Charbonnerie (século XVIII). Pontifícios.
Apareceram as oligarquias financeiras. Forma- de injustiça e degradação das relações de tra- Alastrou-se à Itália, tendo encontrado em De há muito, eram conhecidos os intentos e
ram-se oligopólios. Essa fase do capitalismo balho. A ruptura entre a ordem econômica e a Mazzini (1805-1871) um adepto extremamente a forma de agir da carbonária. Papas que ante-
motivou maior incremento da legislação social, ordem moral encontrava respaldo nas idéias sectário, com ativa participação nas sedições cederam Pio IX já haviam tomado medidas se-
desempenhando papel importante para tanto a do iluminismo. A autonomia absoluta da von- que culminaram com a implantação da Repú- veras contra essa e outras sociedades secretas
pressão exercida pelos sindicatos, ao mesmo tade individual encorajava a busca desenfrea- blica Romana (1847-1848). que têm, todas, objetivos comuns. Assim, no
tempo em que cresceu sobremodo o número da do lucro. Deixava-se de considerar que, sob As sociedades secretas - a Carbonária à fren- que diz respeito especialmente à carbonária,
de componentes da classe média, ao se multi- uma economia retamente orientada, se produz te - chegaram a antegozar a realização do Pio VII (Papa, de 1800 a 1823) fulminara-a com
plicarem as exigências de especialização para para viver ao invés de se viver para produzir, velho sonho de ver um "Papa carbonário" na a excomunhão, na Bula de 13 de abril de 1821,
desempenho das atividades profissionais. Des- como é típico da economia no capitalismo li- Cátedra de Pedro. Foi com a eleição de Pio IX em que também se lê o seguinte: "Entre outras
ta maneira, em grande número de países, cer- beral, já que neste predomina o "espírito de (Papa, de 1846 a 1878), em cuja bondade pre- seitas é necessário indicar aqui uma sociedade
tas características odiosas do capitalismo do lucro", próprio do homo oeconomicus: a pro- tenderam identificar um "espírito liberal" que, recentemente formada, que se propagou em
século passado e começos deste foram desa- dução dita o consumo; criam-se necessidades de concessão em concessão, poderia ser capaz toda a Itália e em outras nações, e que, embo-
parecendo. Por isso, na segunda metade deste para produzir sempre mais, para lucrar sempre de "apoucar" as verdades da Fé ou "atenuar" ra dividida em vários ramos com distintas de-
século, passou-se a falar em neocapitalismo, já mais. A empresa estruturada nesses moldes se não abolir certos dogmas. Com vistas a isso, nominações, segundo as circunstâncias, é re-
distanciado do velho laissez-faire, laissez-passer. supervaloriza o fator capital em detrimento do pôs-se em prática o conhecido método de "em- almente uma única, tanto pela comunidade de
Outrossim, além da crescente humanização das trabalho humano. É fatal, neste caso, a ocor- briagar de popularidade" a figura que se quer opiniões e de propósitos como por sua consti-
condições de trabalho, fomentada e garantida rência de desequilíbrio entre capital e traba- envolver; no caso, o Papa. Os que conspira- tuição. Geralmente se designa pelo nome de
pela lei, fat?s novos vêm quebrando moldes lho, ficando este em situação de iníqua des- vam eram os mesmos que não cessavam de Sociedade de Carbonários. Afetam eles um
CARISMÁl1CO -78- CARllSMO CARUSMO -79- CARLlSMO

singular respeito e um zelo maravilhoso pela intimamente relacionados nas sociedades pri- sustenta os princípios da monarquia tradicio- vênio de Vergara, pondo término à primeira
religião católica e pela doutrina e pessoa do mitivas e monarquias antigas. A unção real en- nal. Surgiu por ocasião da querela sucessória guerra, até à superioridade de armamento das
Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem, al- tre selvagens do Pacífico e da América dava ocorrida com a morte de Fernando VII (rei, de forças governamentais, com ajuda externa que
gumas vezes, tiveram a criminosa audácia de origem a um poder carismático, sendo que, em 1808 a 1833), quando se agruparam os adeptos faltava aos insurretos.
chamar seu Grão-Mestre e Chefe da Sociedade." certos povos, sob as formas simbólicas da de seu irmão, o infante Carlos María Isidro Quando muitos não acreditavam mais no
Não obstante o conhecimento prévio de to- liturgia, o rei morre como indivíduo e renasce (1788-1855), vendo nele o herdeiro do trono e carlismo, este reaparece com surpreendente
das essas maquinações, Pio IX preferiu enfren- como alma do povo. Na Índia, fazia-se a lustra- contestando os direitos atribuídos a Isabel (1830- vigor, fornecendo numerosos voluntários - os
tar a situação suaviter. Mas, além de ser ção de água perfumada. No Egito, na Babilônia 1904), filha do falecido monarca. Sendo esta requetés - para o alzamiento (levante) de 18
incompreendido, como não poderia deixar de e em Israel, a unção era acompanhada da con- ainda uma criança, ficou sob a regência da mãe, de julho de 1936, início da pugna armada que
ocorrer, acabou alvo de virulenta perseguição, sagração, surgindo a idéia do sacrifício. Nas D. Maria Cristina de Bourbon Parma (1806- durou três anos e na qual as forças nacionais
que o obrigou a deixar Roma para não ser as- origens da monarquia francesa, São Remígio 1878), cercada de políticos liberais e maçons. se impuseram vitoriosamente ao governo re-
sassinado. Simultaneamente adotou providên- (437-533) unge Clóvis (466-511) com o óleo, A favor de D. Carlos alegava-se que em virtude publicano dominado pela maçonaria e pelo
cias enérgicas para pôr cobro à maré montante daí por diante usado na consagração de seus do auto de Felipe V (rei, de 1706 a 1746), de comunismo soviético. Foi a tão mundialmente
da Revolução, como aconteceu com a publica- sucessores. E quando Joana d'Arc (1412-1431) 10 de maio de 1713, com aprovação das Cor- controvertida "guerra civil espanhola", que bem
ção, em 1864, da encíclica Quanta cura, acom- se dirige ao Delfim, para ser reconhecido como tes representativas e anuência do Conselho de pode considerar-se o epílogo das guerras car-
panhada do Syllabus, em que se condenam os o verdadeiro rei de França, durante a guerra Castela, às mulheres só caberia a sucessão do listas, não obstante elementos heterogêneos que
80 principais erros modernos. contra os ingleses, ela lhe diz que, antes de trono não havendo nenhum herdeiro varão, se conjugaram e conduziram o regime instau-
Enquanto isso, alçando a bandeira da unifi- mais nada, vá a Reims a fim de ser ali consagra- de linha reta ou mesmo colateral. Os partidári- rado numa direção ideológica inteiramente
cação italiana, as sociedades secretas buscavam do, como o foi Carlos VII, rei, de 1422 a 1461. os de Isabel apoiavam-se na Pragmática San- destoante dos ideais carlistas. A articulação do
explorar a sensibilidade patriótica do povo, mas A sagração, na catedral de Reims, com o óleo ção dada por Fernando VII, revogando aquele carlismo, nesta nova fase, foi devida sobretudo
tendo como meta final ferir de morte o Papado, da Santa Ampola, era penhor de legitimidade. dispositivo e permitindo a sucessão por via fe- ao chefe-delegado D. Manuel Fal Conde (1894-
que queriam manietado e asfixiado mediante a Com a secularização dos Estados, especial- minina sem as restrições nele estabelecidas. Os 1975), que soube preservar-lhe a unidade, com-
dominação unificadora. mente depois da Revolução Francesa (1789), o carlistas, porém, consideravam este ato desti- prometida por divisões anteriores, e a integri-
Ao assumir caráter internacional, a carbonária carisma foi transferido para uma ordem mera- tuído de valor legal, por não ter procedido con- dade doutrinária, além de lhe dar impulso e
espalhou-se por vários países da Europa e da mente temporal e laicizada. Surgiram, então, os juntamente do Rei e das Cortes, como era de manter entendimentos com os generais Sanjurjo
América. Em Portugal, difundiu-se por muitas grandes chefes, revestidos aos olhos de seus praxe em se tratando das Leis Fundamentais (1872-1936) e Mola (1887-1937), tendo em vis-
cidades e, em estreita ligação com a Maçonaria seguidores de uma aura de singularidade, e do Reino. ta a participação dos requetés, integrantes da
(a loja "Montanha" era composta de maçons que, por vezes, se servem de sua capacidade O pleito dinástico envolvia uma questão de Comunhão Tradicionalista, no movimento ar-
carbonários), desempenhou papel decisivo no de magnetizar as massas para se impor como princípios: de um lado estavam os que queri- mado nacional que se preparava. Registre-se
assalto ao poder, inspirado e articulado pelo super-homens. É o que, aliás, se observa nos am ser fiéis à tradição católica e monárquica que, pela morte de Carlos VII - cujo filho,
Grande Oriente Lusitano, de que resultou a condottieri das cidades italianas ao tempo de da Espanha; de outro, os que aceitavam o libe- Jaime, não contraiu matrimônio - , foi suces-
derrubada da monarquia em 1910. Maquiavel (1469-1527). O mesmo fenômeno, ralismo da Revolução Francesa (1789), inocu- sor seu irmão D. Afonso Carlos (1849-1936),
v. Burschenschaft - Maçonaria - Rosa-cruz. com particularidades locais, é assinalado entre lado na corte de Madri e contra o qual o povo também sem descendência.
os caudilhos hispano-americanos. Acentua-se e espanhol se batera em armas e se levantara em O carlismo como corpo de doutrina veio
CARCOMIDO - v. Apodos políticos brasileiros. atinge o seu clímax com personalidades como 1808 quando da invasão napoleônica (guerra constituindo-se desde os primeiros momentos
Lênin (1870-1924), Stálin (1879-1953), Mussolini da Independência). da divergência entre seus adeptos e os "cris-
CARISMÁTICO (1883-1945), Hitler (1889-1945), Mao Tsé-tung O antagonismo deu origem a três guerras tinos", como eram chamados os partidários de
Diz-se de quem é dotado de um carisma, o (1893-1976). Tornou-se clássica, nos estudos polí- civis: a primeira, a guerra dos sete anos (1833- Isabel II sob a regência de Maria Cristina. Em
que se pode entender em sentido meramente ticos, a divisão tripartida do poder em carismático, 1839), com a legendária figura do general oposição ao liberalismo destes, que prosseguia
teológico, e também com significação política. tradicional e racional ou legal, feita por Max Zumalacárregui (1788-1835) a serviço de Carlos na linha de pensamento vinda das Cortes de
No primeiro sentido, carisma é um dom extra- Weber (1864-1920). A democracia, no enqua- V; a segunda, ou guerra montemolinista, assim Cádiz, onde se elaborara a Constituição de 1812,
ordinário concedido por Deus a alguém para o dramento que lhe é dado pelo moderno Estado chamada porque Carlos VI (1818-1861), filho e os carlistas preconizavam a observância dos
perfeito desempenho de sua missão, tendo em de Direito, corresponde ao tipo de dominação sucessor de Carlos V, tinha o título de conde princípios em que durante séculos se funda-
vista o bem espiritual. São Paulo, no capítulo legal ou racional da classificação weberiana, Montemolín; e a terceira (1872-1876), nos tem- mentara a monarquia na Espanha, ou seja, a
XII da Primeira Epístola aos Coríntios, enume- mas cumpre notar que o princípio da soberania pos de Carlos VII (1848-1909), a personalidade do autêntico tradicionalismo. Essa legitimidade
ra os diversos carismas, entre os quais o poder popular, conforme o sentido ideológico proce- de máxima significação na história do carlismo. histórica era para eles mais importante do que
de curar, a profecia, o discernimento dos espí- dente de Rousseau (1712-1778), implica um Nessas três guerras, os carlistas tiveram consi- a legitimidade estritamente dinástica. Bem lhes
ritos e o dom das línguas. carisma atribuído à massa popular cuja vontade derável apoio popular, principalmente em cabe, pois, o qualificativo de legitimistas e tra-
Na linguagem política, o mesmo termo pas- é tida por fonte infalível do poder e do direito. Navarra e outras regiões do Norte, onde de pai dicionalistas, entendendo-se por tradição não
sou a ser usado para designar atributo inerente v. Legitimidade. a filhos se sucediam os adeptos de D. Carlos, o passado estático, motivando mera restaura-
a personalidades de exceção, ou qualidades empenhados ardorosamente na luta, com suas ção, mas um princípio dinâmico que não des-
peculiares a determinados indivíduos, habili- CARLISMO inseparáveis boinas vermelhas, que se torna- conhece as condições novas da sociedade, é
tando-os a exercer uma liderança com grande Corrente política própria da Espanha que ram insígnias simbólicas. Vários fatores contri- imprescindível elemento do verdadeiro progres-
influência sobre o povo. sempre defendeu a legitimidade dinástica e buíram para o insucesso final, desde a traição so e representa a continuidade entre o passa-
O sentido teológico e o político acham-se sustenta os princípios da monarquia tradicio- do general Maroto (1783-1847), seguida do con- do, o presente e o futuro. A princípio foram
CARllSMO -RO- CARTA CONS11TUCIONAL - Hl- CASTRlSMO

do tempo ficou bem claro que, combatendo a turada em famílias e outros muitos grupos so- se usa chamar Carta, porque decretada pelo todoxia soviética, foi-se formando um conjun-
Revolução, rejeitavam tanto a monarquia libe- ciais e históricos. Eis aí, na expressão do Ma- Presidente da República, Getúlio Vargas (1883- to de idéias e práticas - normas de conquista
ralou parlamentar quanto a monarquia abso- nifesto, a "monarquia católica, temperada, fe- 1954), a 10 de novembro daquele ano. e implantação da ditadura marxista - , a que
luta - cuja centralização o liberalismo conti- derativa, hereditária e legítima", distinguindo-se V. Constituição. se denominou "castrismo". Com efeito, de en-
nuou e até acentuou - e reivindicavam o ainda entre a legitimidade de origem, pelo jus- tão aos nossos dias, Fidel Castro percorreu aci-
respeito às liberdades concretas, asseguradas to título da aquisição do poder, e a legitimida- CASTA dentado e tergiversante caminho ideológico do
pelos fueros (foros) das diversas regiões num de de exercício, resultante da atuação do po- Grupo fechado cujos membros estão solidaria- positivismo típico dos fins do século XIX, pas-
sistema que julgavam muito mais eficaz que o der efetivamente ordenado ao bem da mente unidos por laços sociais, religiosos, eco- sando pelo liberalismo dogmático-radical e o
dos textos constitucionais inspirados na ideo- sociedade. nômicos, profissionais, parentais, e corporifica- socialismo auto-intitulado moderado, até atin-
logia de 1789 e proclamadores de uma liberda- dos num mesmo modo de ser e de viver cujo gir a fiel observância da ortodoxia soviética.
de abstrata. É o que já se depreende da Carta v. F ueros - Legitimidade - Liberdade abstrata e Preso e condenado, após a tentativa de golpe
liberdades concretas - Monarquia - Tradição - Tra- exclusivismo, de forte índole etnocêntrica, se
aos Espanhóis da princesa da Beira, D. Maria apóia até mesmo em casamentos endogâmicos. em 1953, Fidel Castro se apresentou como o
dicionalismo.
Teresa de Bragança e Bourbon (1793-1874), herdeiro do pensamento político positivista de
O termo casta - do latim castus, puro - foi
viúva de Carlos V e filha de D. João VI (rei de José Martí, herói da independência cubana.
CARTA CONSTITUCIONAL posto em uso pelos portugueses, depois dos
Portugal, de 1792 a 1826). Nessa carta, datada Anistiado, Castro voluntariamente exilou-se no
Designação freqüentemente aplicâcla a cons- Descobrimentos, para caracterizar uma raça ou
de Baden, 26 de setembro de 1864, declara México, de onde voltou a Cuba para iniciar a
tituições outorgadas, ou seja, aquelas não ori- tribo cujos integrantes se mantêm sem mescla.
que o herdeiro e sucessor de Carlos VI, prínci- guerrilhagem de Sierra Maestra. Foi, então, no
ginárias de votação por assembléias constituin- Na Índia, a casta é designada porvarna(cor,
pe D. João, não podia ser rei da Espanha por ano de 1957, no chamado Manifiestodela Sierra
tes, segundo os padrões da democracia liberal. raça), daí o "culto da cor", a originar um racis-
haver aderido aos princípios do liberalismo, que Fidel Castro, sem negar o evidente caráter
Foi na França que surgiu a designação, quando mo radical. A mitologia hinduísta faz derivar
transferindo-se os direitos para seu filho, que revolucionário de sua guerrilha, se intitulou
Luís XVIII, em 1814, usando de poderes de do corpo de Brama os varnas, conhecidos já
era precisamente Carlos VII, em cuja época o adepto incondicional da via democrática e do
monarca absoluto, outorgou ao país uma cons- na Índia védica (1300 a 600 a.C.). Nessa épo-
tradicionalismo chega à plenitude, com um Estado de Direito. Embora liberal, rompeu com
tituição a que denominou Carta Constitucional. ca, três varnas compunham o sistema etnosso-
pensamento político bem amadurecido, aliás a ortodoxia do liberalismo ao defender a refor-
Esse procedimento foi imitado, pouco de- cial: os brâmanes (sacerdotes), os chátrias
preparado no período anterior ou montemo- ma agrária. Tomando violentamente o poder,
linista. pois, em Portugal. Com a morte de D. João VI (guerreiros) e os vaixiás (agricultores, comer-
em 1959, do qual o ditador não pensaria em
(rei, de 1792 a 1826), a regência proclamou ciantes e pastores). Essas castas constituíam a
Setenta anos depois da Carta da princesa da afastar-se, nem em razão de princípios demo-
Beira, D. Afonso Carlos, estando no exílio e rei, com o nome de D. Pedro IV, o Imperador etnia dos árias, a que vieram opor-se os não-
cráticos, nem em virtude da constituição, Cas-
prevendo o levantamento nacional, dirige ao do Brasil (de 1822 a 1831), D. Pedro I, a des- árias, denominados sudras (servidores depen-
tro, falando em nome de todos os povos da
povo espanhol um manifesto (29 de junho de peito da ilegitimidade de seu direito à Coroa dentes) que formaram a quarta casta. Além das
América Latina, inaugurou a era do antiimpe-
1934), reiterando mais explicitamente os prin- que, segundo as Leis Fundamentais do Reino, castas há também as subcastas, totalizando umas
rialismo (Primera Declaración de La Habana,
cípios esboçados por D. Maria Teresa e com devia caber a seu irmão D. Miguel (1802-1866). e outras cerca de 4.000. Na escala mais baixa
1960). Um ano após, o ditador anunciou a ins-
algumas afirmações que podem ser reduzidas E, em 1826, D. Pedro IV, antes de abdicar do dessa estrutura social se encontram os pá rias,
tauração oficial da revolução socialista, e, em
ao lema carlista: Dios, Patria, Fueros y Rei. Sua trono português, em favor de sua filha D. Ma- ou seja, os não pertencentes a nenhuma casta. 1962, confessou: "Eu sou marxista-Ieninista."
primeira afirmação é a unidade católica, resta- ria da Glória, outorgou a Portugal uma Carta Ao longo do tempo, veio a prevalecer o cará- Do ponto de vista eminentemente ideológi-
belecendo-se a união moral entre a Igreja e o Constitucional, praticamente copiada da Cons- ter profissional para distinguir as castas, em- co, o castrismo aparece como uma versão prá-
Estado, destruída pela República; esta afirma- tituição Brasileira de 1824, que ele, depois de pregando-se, nesse sentido, o termo jati. tica do "gradualismo" de Palmiro Togliatti (1893-
ção opunha-se ao secularismo oriundo da Re- dissolver a tumultuosa constituinte do Império, Não obstante as leis civis conterem normas 1964), cujo único critério de moralidade é a
volução Francesa. A Patria compreende a na- havia outorgado ao Brasil, embora a tivesse contrárias ao sistema de castas, subsistem estas eficácia para a conquista do poder. Explica-se,
ção como caudaloso rio formado pelos afluentes submetido à prévia consideração das câmaras com muita força na vida social indiana. Essa portanto, a razão pela qual Fidel Castro masca-
que são as regiões, conforme a imagem do gran- municipais, que a aprovaram por maioria. Di- força decorre não só de costumes seculares rou seu marxismo-Ieninismo até que, mortos
de tribuno Vázquez de Mella (1861-1926), um ferentemente do que consta da Constituição de fielmente respeitados, mas em especial do ca- impiedosamente os inimigos do regime totali-
dos maiores doutrina dores do carlismo. Os 1824, o preâmbulo da Carta Constitucional por- ráter sacral dos vínculos que ligam seus mem- tário que impôs, presos nos gulags cubanos os
fueros significam o reconhecimento das liber- tuguesa de 1826 consagra a fórmula típica da bros. O hermetismo da casta retrata-se na co- que lograram escapar do paredón, o ditador
dades locais na monarquia descentralizada e outorga, ao dizer: "Faço saber a todos os meus nhecida afirmação de que nela se entra pelo pôde mostrar sua face ideológica verdadeira.
federativa, contra o centralismo liberal. E final- súditos portugueses que sou servido decretar, nascimento e se sai pela morte. Difere o regi- Não fosse o auxílio da costumeira miopia das
mente ao rei é reconhecido o poder de reinar dar e mandar jurar imediatamente pelas três me de casta do de classes, dado que este é democracias liberais, e não se teria consolida-
e governar, que o distingue totalmente da fi- Ordens do Estado, a Carta Constitucional abai- aberto à mobilidade vertical, a permitir o aces- do em Cuba o regime totalitário. No início de
gura do rei na monarquia parlamentar, fican- xo transcrita, a qual d'ora em diante regerá os so das classes inferiores às superiores. suas pregações, Castro exibia um rosário nas
do, entretanto, esse poder limitado pelas auto- meus reinos e domínios ... ". Valha a observa- V. Aristocracia - Burguesia - Circulação das eli- mãos como sinal de suposta fé, obtendo assim
ridades sociais - corporativas e regionais - , ção de que D. Pedro assim agia no ano de tes - Classes sociais. o apoio de ingênuos colaboradores, muito cedo
cujos direitos lhe compete, por juramento, res- 1826, ou seja, quando ainda no exercício do surpreendidos pelo paredón ou pelo gulag.
peitar e proteger; e limitado, também, pelas poder de Imperador do Brasil, o que lhe valeu, CASTRISMO Do ângulo prático, o ditador popularizou a
Cortes do reino, compostas não de partidos em Portugal, o cognome de Dador, pois que a Desde 1953, quando fracassou o assalto de chamada "guerra de guerrilhas", que, aliás, não
políticos, mas de representantes de toda a Na- Carta na verdade foi dada por ele. Fidel Castro ao quartel de Moncada, até à con- foi invenção sua, mas que veio a ser farta e
ção como sociedade orgânica, ou seja, estru- Também à Constituição Brasileira de 1937 solidação do regime cubano nos limites da or- fertilmente empregada contra exércitos regu-
CASulSMO -82- CATOUCISMO UBl1RAL CATOUCISMO UBERAL -83- CATOUCISMO UBERAL

lares. O traço típico, porém, do castrismo mos- amparada na realidade do homem e na reali- Felipe. Ao combater o absolutismo galicano, devem ter autonomia assegurada, mas sim como
trou-se sempre no seu proclamado antiimpe- dade histórico-social do Brasil, fez com que a advogou a união entre "Papa e povo", em subs- separação real entre as duas entidades, que até
rialismo. Pretendidamente terceiro-mundista, chamada Revolução de 64 se tornasse mero tituição à antiga legenda "Papa e Rei". Desen- se deveriam ignorar. Também era absurda a
Castro buscou liderar os denominados "países movimento de força. Como já se diagnosticou, volvendo-se nessa linha, as idéias de Lamennais pretensão de Lamennais de buscar no sufrágio
neutros" no sentido de uma política antioci- os militares "sabiam o que não queriam (sub- conduziram à formulação de uma "religião universal o respaldo para os dogmas da fé cris-
dental, identificada pelo ditador como a políti- versão e corrupção), mas não sabiam o que democrática" centrada no que ele chamava "sen- tã. Visceralmente contrárias à doutrina católi-
ca do antiimperialismo, praticada até mesmo queriam". Apenas atuaram como barreira de so comum", inerente ao povo, considerado de- ca, essas idéias foram condenadas por Gregório
com o envio de forças militares cubanas para contenção, em especial ante a subversão pla- positário das verdades da fé. Quando em 1830 XVI (Papa, de 1831 a 1846), na encíclica Mirari
ajudar a sufocar a resistência dos angolanos, netária, à época, eficientemente aparelhada e já era grande a hostilidade ao governo de Carlos Vos (1832). Lamennais submeteu-se oficialmen-
moçambicanos e afegães ao domínio comu- ativa. Mas, do ponto de vista institucional, não X (rei, de 1824 a 1830), lançou Lamennais um te, mas em cartas dirigia violentos ataques ao
nista de seus países. tiveram como realizar nenhuma obra de pro- movimento que ostentava o slogan "Deus, Igreja Papa. A publicação, em abril de 1834, de mais
fundidade, talvez porque aprisionados às cate- e Liberdade", defendendo a separação entre a um livro de sua autoria, Paroles d'un croyant,
V. Comunismo - Marxismo. que teve grande repercussão, provocou nova
gorias de velhos mitos. E, para resolver os pro- Igreja e o Estado, a liberdade de ensino (então
blemas emergentes, recorreram a casuísmos, em estatizado) e a liberdade de imprensa (subme- condenação pontifícia pela encíclica Singulari
CASUÍSMO
nome de um denominado "poder constituinte tida a controle). Condenavam-se os apoios ile- Nos, em junho do mesmo ano. Lacordaire,
Medidas ou decisões adotadas, no âmbito gítimos à Igreja, cuja separação do Estado era Montalembert e outros acataram a decisão pa-
revolucionário", reativado sempre que fosse
político, visando a contornar dificuldades ou a julgada necessária ao livre exercício de sua pal, mas na prática nem sempre revelaram fi-
conveniente. Daí a edição de 17 atos insti-
atender a interesses mediante a invalidação ou missão, dadas as interferências dos poderes delidade a Roma, ainda que demonstrassem
tucionais e de 105 atos complementares.
alteração de regras gerais aplicáveis a situa- públicos em assuntos religiosos. moderação sob o aspecto doutrinário. Esses
ções ocorrentes. V. Ato Institucional. antigos companheiros de Lamennais acabaram
"A Igreja livre no Estado livre" foi o slogan
O casuísmo procura levar em conta as con- cunhado por Charles Forbes René, Conde de afastando-se dele, que permaneceu insubmisso,
CATEGORIAS SOCIAIS - v. Agregado.
veniências daqueles que encontram nas nor- Montalembert (1810-1871), tendo defendido entrou a destemperar-se e passou a agredir fu-
mas estabelecidas obstáculos às suas pre- essa posição no Congresso de Malines, em 1863. riosamente a autoridade do Papa ao publicar
CATOLICISMO LIBERAL
tensões. Não cabe considerar se se trata de As correntes laicistas - Cavou r (1810-1861) à Les affaires de Rome. Apesar das diligências
pretensões justas ou não. Há rupturas da regra Movimento ideológico-religioso que teve iní- feitas para trazê-lo à razão, manteve-se irre-
cio no século XIX, na França, manifestando-se frente - encamparam essa proposição, tendo
geral que, por vezes, podem até ser necessá- em mira segregar a Igreja de quaisquer ativida- dutível, e foi excomungado. Com a condena-
rias, dado que reclamadas pelo bem comum. também em outros países europeus. Caracteri- ção, o movimento, enquanto tal, desapareceu.
za-se pelo intento de conciliar a Igreja com a des de natureza pública. De outro lado, os ca-
Outras vezes, porém, trata-se de mero oportu- tólicos liberais, conquanto endossassem os prin- A despeito disso, muitas de suas idéias perdu-
nismo, que tem em mira garantir posições par- Revolução, isto é, a doutrina católica com os raram ao longo do tempo, recobrando fôlego
cípios do liberalismo político, repeliam as bases
tidárias ou prevalências ideológicas. princípios do liberalismo. Suas figuras de maior logo depois da morte de Gregório XVI, dado
do liberalismo econômico. Embora combates-
Caso típico de casuísmo foi a proclamação destaque surgiram na França, nos tempos que que Pio IX (Papa, de 1846 a 1878), nos come-
sem eles as idéias de Adam Smith (1723-1790),
da maioridade de D. Pedro II (imperador do se seguiram à Revolução de 1789, cujas idéias ços de seu pontificado, tomou medidas que
Jean Baptiste Say (1767-1832) e outros corifeus
Brasil, de 1840 a 1889), aos 14 anos e 7 meses defendiam. Félicité Robert de Lamennais (1782- mereceram as simpatias dos liberais, tal como
da economia liberal, não chegaram, porém, a
de idade, para o fim de fazê-lo ascender ao 1854) ganhou maior vulto dentre os que esti- a criação de duas câmaras nos Estados Pon-
formular as bases doutrinárias de uma ordem
trono, quando a Constituição prescrevia a ida- veram à frente desse movimento. Teve uma tifícios, uma delas composta de membros es-
social justa, em substituição à estrutura do ca-
de mínima de 18 anos para que isso ocorresse. formação voltaireana e rousseauniana, conver- colhidos por eleição popular. Daí por que Pio
pitalismo liberal, fundado na livre concorrên-
Mas assim se deu porque as Regências (1831- tendo-se ao catolicismo depois de completar cia. A prática da caridade cristã - em que se IX passou até a ser visto como um "Papa libe-
1840), que antecederam a posse do segundo 20 anos, mas conservando as idéias revolucio- destacou Antoine Frédéric Ozanam (1813-1853) ral". Onde havia atitudes conciliadoras, os li-
Imperador, constituíram um período de extre- nárias. Sem ter freqüentado estudos de semi- - era considerada por eles suficiente, por si berais viram mudança de princípios, e procu-
ma agitação partidário-revolucionária, que con- nário e contando tão-só com uma formação mesma, para corrigir os malefícios de um siste- raram explorar as novidades, aproveitando-se
turbou o país de norte a sul (Setembrada, autodidática, foi ordenado sacerdote aos 34 ma divorciado das regras da justiça. dos acontecimentos para chegar aos fins pre-
Novembrada, Abrilada, Cabanagem, Balaiada, anos. De temperamento romântico e estilo cin- L'Avenir era o jornal em que se difundiam as tendidos.
Sabinada, Farroupilha), inclusive com o rompi- tilante, Lamennais começou por combater o idéias do catolicismo liberal. Em sua redação, Ao irromper a Revolução de 1848 - na Fran-
mento da unidade nacional. Tornar o poder racionalismo da época, publicando Réflexions contava, além de Lamennais, com duas outras ça, em Roma e em outros lugares da Europa-
independente e imparcial, ante o sectarismo sur l'état de l'Église en France, obra à qual se figuras de realce nesse movimento: Jean Baptiste estava-se diante de uma reedição atualizada da
desaçaimado das correntes políticas e suas ne- seguiu Essai sur l'indifférence en matiere de Henri Dominique Lacordaire (1802-1861), sa- Revolução de 1789. Pio IX viu logo onde in-
fastas conseqüências, implicava colocar o Bra- religion. Retomando de uma viagem a Roma, cerdote, e Montalembert. tentava chegar o processo revolucionário, que
sil acima da Constituição. E foi o que aconte- desafiou a França galicana ao publicar De la Inicialmente visto com simpatia por Roma, veio a acarretar o assassinato de Pellegrino Rossi
ceu. Perpetrou-se o casuísmo. Benéfico, aliás. Religion considerée dans l'ordre politique et ci- pois o movimento levantara a bandeira da de- (1777-1848), Chefe do Governo Constitucional
Inaugurou-se, a partir de então, o mais longo vil. Quando, em 1829, publicou a obra Des fesa dos direitos da Igreja, com o correr do dos Estados Pontifícios, e desencadeou uma
período de estabilidade política da história bra- progres de la Religion et de la guerre contre tempo foi alvo de suspeição devido ao desdo- perseguição direta contra o Pontífice, obrigan-
sileira. l'Église, estava nascendo o "liberalismo católi- bramento de suas idéias. Assim, a separação do-o a refugiar-se em Gaeta, ante as ameaças
Cometeu-se uma seqüência de casuísmos na co". Apoiou a revolução de 1830, aderindo ao entre a Igreja e o Estado, defendida de forma de morte.
vida política do país, no período de 1964 a credo democrático dos partidários de Luís radical, não era vista como simples distinção Em 1864, Pio IX condenou os 80 principais
1985. A ausência de uma diretriz doutrinária Felipe. Ao combater o absolutismo galicano, entre ambas as instituições, cujas atividades "erros modernos", enunciados no Syllabus, que
CATOLICISMO LIBERAL -84- - 8)-
CATOLICISMO LIBERAL CATOLICISMO LIBERAL CAUDIUlISMO

acompanha a encíclica Quanta cura. Nessa 1914) pelo decreto Lamentabili (3-7-1907) e lado já dava a perceber claramente as tendên- do forte tendência marxista.
época, a Igreja teve em Louis Veuillot (1813- pela encíclica Pascendi (8-9-1907), documen- cias que o levaram, em livros posteriores, a
1883) seu mais intrépido defensor. Em seu jor- V. Democracia cristã - Modernismo - Progres-
tos esses contestados duramente pelos moder- enaltecer a democracia moderna, pela qual se sismo - Relações Igreja-Estado - Revolução Fran-
nal, L'Univers, defendia com firmeza os princí- nistas (Loisy, Tyrrel, Le Roy, Houtin, De Bon- entusiasmara, sobretudo depois de uma viagem
pios da doutrina católica, esgrimindo com os cesa.
nefoy e outros) nas inúmeras publicações que feita aos Estados Unidos. Assim, chegou ao
adversários em estilo primoroso, e mantendo lançaram, manifestando total insubmissão à ponto de ver na Revolução Francesa o "fer- CAUDILHISMO
estrita fidelidade a Roma. Contribuiu podero- autoridade papal. Pio X, visando especialmen- mento do Evangelho". Naquele mesmo ano de
samente para criar um clima propício a que 1936, tinha início a guerra civil espanhola, em Forma de poder político, ditada pelas condi-
te a resguardar o clero futuro da influência
fosse referendada no Concílio Vaticano I (1869- face da qual Maritain tomou posição ao lado ções histórico-culturais de todo ou de parte
modernista, tomou providências quanto à for-
1870) a ortodoxia católica, neutralizando a gran- dos intelectuais franceses que se pronunciavam ponderável de um povo, cujos componentes
mação dos novos sacerdotes e, em 1910, no
de influência, no âmbito conciliar, de Félix publicamente contra os nacionalistas. O filóso- se agrupam em torno de alguém (o caudilho),
Motu proPrio Sacrorum A ntistitum, determinou
Antoine Philibert Dupanloup, bispo de Orléans a obrigatoriedade do juramento antimodernista fo, que outrora combatera os erros do pensa- que lhes encarna a índole, as tendências, as
(1802-1878), e também de Montalembert. Com- por parte dos que se vão ordenar ou dedicar- mento moderno, e suas repercussões na ordem aspirações.
bateram decididamente o catolicismo liberal se ao ensino das verdades da fé. política, vinha agora propor o ideal de uma Em sua origem espanhola, caudillo é pala-
dando apoio a Veuillot, o cardeal Pie (1815~ Ainda em 1910 surgia o Sillon, movimento "nova Cristandade", não de caráter sacral, como vra que significa chefe, chefe militar, cabo de
1880), bispo de Poitiers, e o abade beneditino liderado por Marc Sangnier (1873-1950), que fora a Cristandade medieval, mas adaptada aos guerra. Nos documentos oficiais, o Generalís-
de Solesme, Dom Prosper Guéranger (1805- começou tendo caráter espiritual, objetivando regimes democráticos de nossos dias e ao seu simo Francisco Franco (1892-1975) era deno-
1875), restaurador da vida monástica na França. a vivência individual e coletiva do catolicismo irrestrito pluralismo ideológico, ideal a ser posto minado Chefe do Estado e Caudil/o de Espana,
Com Leão XIII (Papa, de 1878 a 1903), não mas depois enveredou pela política, inclusiv~ em prática numa sociedade leiga "vitalmente guardando assim, o sentido do termo, sua pu-
obstante mantida a fidelidade aos princípios sob a forma de partido. Desde então, o Sillon cristã". Aceitava, assim, os princípios do libera- reza original. Nos países hispânicos da Améri-
expostos nas encíclicas Diuturnum lllud (1881), entrou a sustentar a idéia de que a democracia lismo, embora explicitamente não os defendes- ca, o termo, embora de uso corrente, não teve
lmmortale Dei (1885), Libertas (1888) e outras tem origem no Evangelho, donde a ilação de se. Cumpre lembrar o que dizia Louis Veuillot, a mesma aplicação escorreita e jamais foi usa-
veio a ser aceita a distinção anteriormente ven~ que o cristianismo implica a democracia. Nes- no livro L 'illusion libérale, apontando na secu- do oficialmente. Quase sempre tem conotação
tilada entre tese e hipótese, no sentido de os se sentido, contrariamente à doutrina da Igreja larização da sociedade o "princípio revolucio- depreciativa. O caudilhismo, nesses países, ori-
católicos se utilizarem dos instrumentos insti- (omnis potestas a Deo, todo poder vem de nário por excelência", que resume toda a Re- gina-se, geralmente, em chefias militares, que
tucionais vigentes, embora sem aderir a seus Deus), propugnou que a fonte do poder reside volução e todos os seus princípios. Nos últimos são vistas, por largas parcelas do povo, como
fundamentos ideológicos quando cQntrários à no povo, além de advogar a igualdade das clas- anos -levando vida contemplativa, depois de capazes de corrigir a anarquia política reniten-
doutrina católica. A distinção entre tese e hipó- ses sociais como ideal a ser alcançado. O sil- viúvo - Maritain escreveu Le paysan de la te, gerada por instituições desarticuladas da
tese deu margem a divergências e polêmicas, lonismo era o próprio modernismo sob o as- Garonne, constatando amargurado os devasta- realidade. A expectativa dessa correção volta-
opondo-se aos liberais os defensores da orto- pecto social e político (que reapareceu em dores efeitos do aggiornamento na Igreja Ca- se para figuras dotadas de experimentado sen-
doxia e da doutrina tradicional da Igreja. Os movimentos posteriores da democracia cristã), tólica, depois do Concílio Vaticano lI. Em suas so de ordem e capacidade de decisão (é o caso
últimos faziam ver que os liberais não se limi- tendo sido condenado por Pio X na Carta Apos- páginas, levanta-se decididamente contra o de chefes militares), ou para personagens, com
tavam a reconhecer uma situação de fato, pois tólica Notre Charge Apostolique, de 25 de agos- chamado progressismo, no qual aponta uma ou sem raízes militares, que repontam de
passavam da simples tolerância - admissível, to de 1910. ampliação dos erros do modernismo condena- injunções sócio-políticas e se projetam com um
em certos casos, por razões de prudência - à Nessa época, assumiu grandes proporções, dos por São Pio X, chegando a dizer que o forte poder de imantação de sentimentos e
aceitação, em princípio, dessa situação. Por tal pela influência exercida, quer na França, quer neomodernismo ou progressismo é "tão forte" vontades (Juan Perón, Getúlio Vargas).
forma, a hipótese se transformava em tese. O em muitos outros países, a figura do filósofo que, comparado com o anterior, o de então O caudilhismo é visto, por alguns, como fe-
Papa também condenou o caráter de exclusivi- Jacques Maritain (1881-1973), que muito con- "parece simples resfriado". Era, de certo modo, nômeno próprio das sociedades em que a vida
dade com que alguns defendiam a causa mo- tribuiu para despertar o interesse pela obra de uma retratação, pois suas idéias de uma "nova sócio-econômica é predominantemente rural.
nárquica e aconselhou o ralliement (adesão dos Santo Tomás de Aquino, cujos ensinamentos Cristandade" e de uma sociedade secularizada A isso também se tem acrescentado o subde-
católicos) à República francesa, radicalmente foram muito recomendados por Leão XIII e por "vitalmente cristã" haviam pesado fortemente senvolvimento - especialmente o político -
laicista, e reprovou de forma explícita, como outros papas para restauração e renovação da entre alguns padres conciliares progressistas. de extensas camadas da população dos países
ideologia política, a democracia cristã, reser- filosofia cristã. Maritain, convertido ao catoli- Os católicos liberais opõem-se à doutrina da hispano-americanos, apontado como obstácu-
vando esta última expressão para designar a cismo na sua juventude, escreveu numerosos realeza social de Jesus Cristo, que implica o lo à assimilação do discurso de "idéias políti-
"ação cristã popular". livros de orientação tomista e de crítica à filo- reconhecimento da ordem natural, estabelecida cas evoluídas". Pretende-se, no entanto, que, a
Já nos começos do século XX, o "liberalismo sofia moderna. Aproximou-se da Action Fran- por Deus, como fundamento dos direitos do partir dos meados do século XX, o caudilhismo
católico" retornava com outra roupagem - o çaise, que combatia vigorosamente a república homem, doutrina essa ensinada em vários do- esteja em processo acelerado de desapareci-
modernismo - , que se fundamenta no laicista fundada sobre os princípios de 1789. cumentos pontifícios, principalmente a encíclica mento, devido a vários fatores: a industrializa-
imanentismo, para o qual o homem é a medi- Ao mesmo tempo, escrevia Antimoderne e Trois Quas primas (1925), de Pio XI. Embora não a ção, responsável pela grande concentração
da da verdade. Os erros do passado ganhavam réformateurs, estudando, neste livro, Lutero contestando explicitamente em tese, conside- populacional nos centros urbanos; o progressi-
nova e ampla dimensão: apregoava-se a incon- (1483-1546), Descartes (1596-1650) e Rousseau ravam-na inaplicável mesmo nos países cató- vo condicionamento da mentalidade geral pe-
ciabilidade entre fé e razão, negava-se a divin- (1712-1778); aí analisou a fundo o subjetivismo licos. los meios eletrônicos massivos, especialmente
dade de Cristo, a imutabilidade dos dogmas, a moderno e as origens filosóficas do liberalis- No último quartel do século XX, o pro- a televisão, agente poderoso de transformação
instituição divina da Igreja, etc. Essas idéias mo. Publicando, em 1936, L 'humanisme inté- gressismo católico aparece como herdeiro do dos costumes; a estrutura nacional da organi-
foram condenadas por Pio X (Papa, de 1903 a gral, por um lado condenava o humanismo an- catolicismo liberal e do modernismo, r~gis tran- zação rnilitar. Não obsiante a importância dos
-87 - CAVA.lARlA
CAUDILHISMO -H6- CAVALARIA CAVA.lARlA

cas dessa cerimônia, o aspirante a cavaleiro fazia cobrimentos. O grão-mestrado passou depois
fatores indicados como determinantes da desa- constituições, ou até mesmo por causa deste.
a vigília de armas, passando a noite em oração. para o rei de Portugal, cabendo-lhe a adminis-
gregação do caudilhismo clássico, não se hão V. Caciquismo - Coronelismo - Oligarquia - Par- Só um cavaleiro podia armar outro cavaleiro. tração do Brasil, constituído em patrimônio da
de desprezar outros aspectos que atestam a tidos políticos. Paradigmas de cavaleiro foram Rodrigo Díaz Ordem, cuja cruz vinha estampada nas velas
subsistência do espírito caudilhístico. Primeira-
mente, cabe observar que o caudilho clássico de Bivar, o famoso Cid Campeador (1043-1099); das embarcações portuguesas.
CAVALARIA Teve a cavalaria duas fases distintas, desde
- não aquele aplicado à mera conquista do Godefroy de Bouillon (1061-1100), aclamado
poder para, pura e simplesmente, usufruir-lhe Com a invasão dos sarracenos, que ocupa- rei de Jerusalém, na Primeira Cruzada, recu- a militância cristã dos primeiros tempos até à
as benesses (como ocorreu muitas vezes na Bo- ram a península hispânica a partir do século sando-se a receber uma coroa de ouro onde galanteria dos torneios e das façanhas ofereci-
lívia, Paraguai, Venezuela, etc.) - era consi- VIII e foram detidos em Poitiers (722), a infan- Jesus Cristo, o Rei dos Reis, havia recebido uma das pelos cavaleiros à dama de seus pensa-
derado um corretivo para o abstracionismo das taria, usual entre os povos germânicos, veio a de espinhos; Fernando 111 de Castela, o Rei- mentos. E a literatura acompanha essas épocas
instituições políticas em que vieram a se estru- ser suplantada pela cavalaria, trazida pelos ára- Santo (1200-1252); seu primo Luís IX de Fran- que se sucedem, desde a Chanson de Roland,
turar os países hispano-americanos desde a bes, como principal arma de guerra. Daí por ça (1214-1270), que empreendeu duas cruza- a primeira das canções de gesta francesas, até
Independência. Esses países, tendo adotado for- diante esta passou a constituir uma parte im- das e foi também canonizado; o Condestável ao Don Quijote de la Mancha de Cervantes
mas políticas importadas dos Estados Unidos e portante dos exércitos, mas, além disso, deu Nun'Álvares Pereira (1360-1431), herói da ba- (1547-1616), suma exaltação do sentimento de
da França, formas essas modeladas ou em rea- origem a uma instituição de alto sentido social talha de Aljubarrota (1383); e Bayard, le Cheva- honra, passando por tantos poemas e roman-
lidades históricas diversas (como a norte-ame- e de inspiração religiosa. É o que nos faz ver lier sans peur et sans reproche (1475-1524). ces de cavalaria. Estes vieram a cair em fanta-
ricana) e/ou em idéias abstratas (como as da León Gautier, em obra clássica publicada em Os cavaleiros eram soldados que tinham algo sias que deturpavam o sentido da instituição.
Revolução Francesa), jamais conseguiram es- 1884, La Chevalerie, dizendo o autor que a ca- de monge. E os ideais da cavalaria inspiraram Na sua significação original e autêntica, a
tabelecer um regime de ordem e segurança, valaria é a forma cristã da condição militar e o as Ordens militares, que comprovaram como a cavalaria não se pode compreender senão numa
capaz de propiciar à vida sócio-política condi- cavaleiro é o soldado cristão. espiritualidade ascética e missionária ia pene- época de acendrada fé, como foi a da Cristan-
ções favoráveis a que o povo pudesse alcançar Não podendo abolir a guerra e em face dos trando em todos os estamentos sociais. As pri- dade medieval no seu período mais florescen-
a instância do bem comum. Dada a discrepân- rudes costumes feudais, a Igreja procurou tem- meiras foram as dos Templários e Hospitalários, te. A cavalaria tem um sentido ascético e místi-
cia entre o discurso político e os fatos, entre as perar e enobrecer o mister das armas, daí sur- na Terra Santa, seguindo-se, na Alemanha, a co, que já se nota em Rabano Mauro (780-856),
formas constitucionais e a realidade, entre o gindo a cavalaria, que teve seu esplendor nos Ordem Teutônica. A regra monástica dos cava- para quem o combatente de Cristo, antes de
país legal e o país real, o povo - frustrado séculos XII e XIII. O cavaleiro devia pôr sua leiros do Templo data do Concílio de Troyes enfrentar o inimigo exterior, tem de lutar, no
ante o pregão de vacuidades sonoras - via no força a serviço da Igreja, proteger os fracos e (1128), quando São Bernardo (1091-1153), fi- interior de si mesmo, contra as tentações dia-
caudilho o concreto, ou seja, alguém que lhe os desamparados, socorrer os perseguidos e gura ímpar e preponderante daquela centúria, bólicas e contra os próprios vícios. No século
encarnava as aspirações no tocante à exigên- observar sempre com lealdade e corajosamen- escreveu a célebre epístola Ad milites Templi, XIII, esse mesmo pensamento é o de São Fran-
cia de solução efetiva para problemas sócio- te as normas do código da cavalaria, reduzidas carta constitucional da milícia em apreço. cisco de Assis (1181/1182-1226), com seu fei-
políticos a reclamarem um poder de decisão por Gautier às dez seguintes: Ao fim das cruzadas e ao ter início a grande tio de trovador, e São Domingos (1170-1221),
eficaz. O caudilhismo - a despeito das críti- 1 - crer em tudo o que ensina a Igreja e cum- crise do século XIV a cavalaria entrou em com o espírito de um conquistador espanhol.
cas que lhe são dirigidas - surgia como antí- prir todos os seus mandamentos; declínio. É sabido que a Ordem dos Templários, O primeiro instituiu a Ordem Terceira, para os
doto para o abstracionismo político. De outro 2 - servir à Igreja; para ajudar os cristãos da Terra Santa e susten- leigos, e o segundo idealizou a Militia Christi,
lado, também é temerário afirmar que a indus- 3 - respeitar e defender os fracos; tar a luta contra os muçulmanos, acumulou mui- propagada no norte da Itália por São Pedro de
trialização, os meios de comunicação, a orga- 4 - amar o torrão natal; tas riquezas e se constituiu num grande banco Verona (1205-1252). Reconstituída em 1870,
nização militar centralizada tenham ferido de 5 - não recuar diante do inimigo; de âmbito mundial. Os cavaleiros eram ainda entre os oficiais pontifícios, sob a assistência
morte o caudilhismo. E isto pela simples e boa 6 - fazer aos infiéis guerra sem trégua e sem vassalos da Igreja e soldados de Cristo, mas do Mestre Geral dos Dominicanos e com a apro-
razão de que, perdurando o abstracionismo das mercê; dentre eles houve os que foram perdendo o seu vação de Pio IX (Papa, de 1846 a 1878), a Or-
instituições políticas, persiste sua causa maior. 7 - cumprir exatamente os deveres feudais ideal sob a influência do dinheiro e do poder. dem da Milícia de Jesus Cristo (Militia Christi)
Pouco importa que o caudilhismo passe a não contrários à lei de Deus; O tormentoso caso dos templários, sobre os é hoje associação de direito pontifício, erigida
assumir formas novas, ou, quiçá, refinadas, co- 8 - não mentir e ser fiel à palavra dada; quais vieram a pesar graves acusações - rejei- como tal em 1981. Estende-se por alguns países
mo vem acontecendo. A este propósito, tem 9 - ser magnânimo e generoso para com to- tadas pelo Concílio de Viena, de 1311, como de vários continentes, entre os quais o Brasil.
sido uma constante a evidência de que o elei- dos; totalmente caluniosas - , teve um desfecho trá-
Sobrevive assim o espírito de cavalaria que,
tor faz a escolha de seus candidatos menos vol- 10 - ser, por toda parte e sempre, campeão gico. Na França, Filipe, o Belo (rei, de 1285 a
nos tempos modernos, apesar das influências
tado para as idéias do que para os homens, do Direito e do Bem, contra a Injustiça e o Mal. 1314), ávido por apoderar-se das riquezas da
negativas do protestantismo, do humanismo
especialmente os nimbados de carismas. A ur- Assim, a cavalaria tornava-se "a força arma- Ordem e em meio ao clima de terror suscitado
naturalista e do racionalismo, manifesta a sua
banização (que cria multidões de deracinés) , da a serviço da virtude desarmada". pelos ;eus legistas, processou o Grão-Mestre
força já no século XVI, quando Erasmo (1466/
os meios de comunicação (hábeis em fabricar O jovem que aspirava à cavalaria, e que já Jacques Molay (1243-1314), submetendo-o a
69-1536) escreve o Enchiridion militis chris-
figuras carismáticas), as forças armadas (em tivesse completado quinze anos de idade, pas- torturas e por fim fazendo com que fosse leva-
do à fogueira. Em 1312, Clemente V (Papa, de
tiani. Não é possível esquecer o soldado e ofi-
expectante convocação para o habitual exercí- sava por um período de preparação, sendo-lhe cial Inácio de Loyola (1491-1556), pertencente
cio de um "poder moderador" supraconstitu- conferida a investidura, numa cerimônia espe- 1305 a 1314) pronunciou a dissolução da Or-
dem, cujos bens, em Portugal, foram destina- à antiga nobreza basca, que, depois de sua con-
cional) , compõem todo um cenário propício cial (o adoubement dos franceses, oriundo do versão e do retiro em Manresa, instituiu a Com-
ao desempenho do maquilado caudilhismo atu- dub dos ingleses, que consistia em uma pal- dos à Ordem de Cristo, então fundada e tendo
por Grão-Mestre o Infante D. Henrique (1394- panhia de Jesus, com os traços característicos
al, com seus caudilhos urbanos, ou não tanto, mada na nuca). Antes de se submeter às práti-
1460), o fomentador das navegações e dos des- de uma milícia.
a despeito de todo o "idealismo utópico" das cas dessa cerimônia, o aspirante a cavaleiro fazia

b
CÉLULA -HH- CENTRAliZAÇÃO CENTRALIZAÇÃO -89- CENTRO

lo XVIII e as perturbações políticas desde en- do trabalho político de organização devia ser centralização administrativa pode ou não exis- CENTRO
tão alastradas pelo mundo, até aos dias de hoje, transferido para a célula. Desde então, a célula tir no Estado unitário, pois nele é possível ha-
trouxeram como conseqüência a diminuição Posição de governo, partidos ou correntes
constituiu o instrumento de maior eficácia para ver autoridades locais, cujas atribuições, no
da fé e o esmorecimento do espírito de cavala- políticas que se consideram eqüidistantes da
promover as atividades comunistas mediante entanto, são delegadas pelo poder central. A
ria. Mesmo assim, as motivações do combate direita e da esquerda. O Centro se tem por
o enquadramento de militantes, a propaganda centralização social, que decorre da absorção,
espiritual não desapareceram por completo: moderado, ou seja, o ponto de equilíbrio entre
ideológica, a fermentação ativista, quer pela pelo Estado, de competências inerentes aos o conservadorismo e o revolucionarismo. Como
manifestam-se na resistência à Revolução - agitação aberta, quer pela atuação clandesti- grupos sociais, também pode ou não existir
desde as lutas da Vendéia na França até à guerra lhe é inerente um relativismo de princípio,
na, e tudo em estreita ligação com a seção lo- numa estrutura unitária de Estado. freqüentemente acaba convertendo o equilíbrio
espanhola de 1936 - e no empenho em im- cal do "Partido". A centralização política por vezes constitui
pugnar os erros da sofística moderna. em equilibrismo. Proclama-se reformista, mas
V. Agitação - Agit-Prop. um imperativo de unidade nacional, especial- não encontra dificuldade em endossar a revo-
Nesse sentido, publicações periódicas se di- mente em países de dilatada extensão territorial
fundem e numerosas sociedades se têm for- lução desde que efetuada por vias legais,
CENTRALISMO DEMOCRÁTICO e sempre que a geografia conspire contra essa chanceladas pela vontade da maioria, no qua-
mado. Além da Militia Christi, cumpre lembrar, unidade, como é o caso do Brasil. Neste, des-
a título de exemplo e na recordação daquele A centralização, como forma de organização dro do processo democrático. Embora marca-
de antes da Independência, mas principalmen- do pelo relativismo, que lhe orienta a atuação,
que foi chamado "o cavaleiro da Imaculada", a do Estado, é típica do Estado unitário. Mas não
te depois desta, em face da exarcebação do tem sido tendencialmente de esquerda, pois leva
Milícia da Imaculada fundada pelo franciscano exclusiva. Tanto assim que há Estados federais sectarismo partidário, a centralização política,
Maximiliano Maria Kolbe, martirizado em em que se encontra uma estrutura de poder em alta consideração um nebuloso "movimen-
mantida sob um poder institucionalmente neu- to da História" dinamizado por uma evolução
Auschwitz durante o nazismo (foi morto em 14 mais centralizada do que a dos Estados unitá- tro, como o da monarquia, impediu que a Amé-
de agosto de 1941 e canonizado em 10 de ou- rios. Não se confunde, porém, esse tipo de cen- unidirecional de fundo progressista. No âmbito
rica Portuguesa se fragmentasse, como a Amé- da ação política, especialmente a de caráter
tubro de 1982). tralização com o "centralismo democrático" aqui rica Espanhola, em inúmeras repúblicas.
considerado e que tem um sentido específico. parlamentar, as injunções volta e meia subme-
v. Aristocracia - Cristandade - Feudalismo - Ti- Compatibiliza-se, porém, a centralização po-
tem o Centro a um movimento pendular - ora
tulos nobiliárquicos. Com essa expressão, os partidos comunistas lítica com a descentralização administrativa e a
caracterizam o próprio funcionamento interno, mais à direita, ora mais à esquerda - segundo
descentralização social. A administrativa, por
CÉLULA pretendendo harmonizar centralização e demo- as conveniências de momento e os oportunis-
exigência da própria amplidão do território, a
cracia. As normas que regem a organização mos multiformes, capazes de produzir dividen-
Termo que, em biologia, identifica a unida- fim de que a gestão dos serviços públicos se
interna do partido prevêem eleições para seus dos político-partidários. Esse descompromisso
de fundamental da estrutura dos seres vivos, e faça por autoridades que, pelo fato de estarem
vários cargos, "livre discussão" e votação das confere ao Centro uma disponibilidade perma-
é empregado, por extensão, em outras ciên- em contacto permanente com os problemas lo-
questões a partir dos princípios marxistas e pres- cais, têm condições de, conhecendo-os de viso nente, suscetível de se deixar manipular, direta
cias, como a física (célula fotoeiétrica, célula ou indiretamente, no jogo das circunstâncias,
tação de contas do desempenho das ativida- e de perto, procurar resolvê-los com a rapidez
eletrolítica, etc.). Analogicamente, também no pelas manobras de terceiras e hábeis lideran-
des. No entanto, posto que uma "disciplina de e adequação reclamadas. Já a descentralização
campo das ciências sociais, emprega-se o ter- ças. Presa fácil desse circunstancialismo, o Cen-
ferro", tal como queria Lênin (1870-1924), deve social, expressão da ordem natural das coisas,
mo célula para caracterizar a unidade grupal tro transforma -se habitualmente em centrismo,
dominar os partidos comunistas, a vontade da independe da forma de governo ou de Estado,
originária de todo o organismo social: a famí- ou seja, em sistemática linha auxiliar de quantos,
maioria de seus membros sempre coincide com pois se opera por intermédio dos grupos so-
lia. Comumente, a família é considerada a cel- líderes ou grupos, atuam com clareza de obje-
as ordens emanadas dos escalões superiores. ciais, os quais - em todos os tempos e em
lula mater da sociedade. tivos e determinação estratégica. Esse parado-
Desta forma, o centralismo prevalece sempre, todos os lugares, e por direito próprio, que
E o é, na verdade, pois constitui o núcleo xo deriva do relativismo, intrínseco ao centris-
à semelhança, em certo sentido, do que ocorre cumpre à ordem jurídica estatal reconhecer e
primário vital da sociedade, por ser a família tutelar - devem exercer autonomamente suas mo, e por isso mesmo gerador do ceticismo,
na generalidade dos partidos das democracias
uma sociedade geradora de sociedades. atividades, ou seja, fora do âmbito do Estado, que é o caldo de cultura propício à expansão
ocidentais em que as oligarquias intrapartidárias
Na organização da sociedade política, o mu- embora sob a vigilância deste, com vistas ao dos extremismos.
manipulam e fazem a maioria.
nicípio é verdadeiramente a célula básica da resguardo e asseguramento do bem geral. A Alemanha bismarkiana conheceu o parti-
nação. Forma-se a comunidade municipal pela V. Centralização - Descentralização - Descon- do do Zen tru m, cujos deputados ocupavam a
Quando a centralização é total e absoluta, al-
multiplicação de famílias, que dão origem a centração.
cançando as três esferas aqui consideradas (po- parte central do Reichstag. Era um partido ca-
inumeráveis agrupamentos. Na vitalidade e lítica, administrativa e socia!), configura-se o Estado tólico, tendo em vista assegurar um regime cons-
intensidade do dinamismo da. vida local, a na- CENTRALIZAÇÃO
totalitário, que detém tanto o monopólio do titucional no qual fossem respeitadas as liber-
ção encontra meios de energizar seus grandes Forma de organização do Estado em que o direito quanto o das decisões, em todos os se- dades da Igreja, postas em xeque pela política
planos. poder público soberano concentra atribuições. tores e sobre toda a coletividade: tudo começa do Kulturkampf Graças à habilidade parlamen-
Célula é, também, a designação do núcleo A centralização pode ser de natureza política, e tudo termina no Estado. Nessa estrutura esta- tar de Windthorst (1812-1891), foram revoga-
básico dos partidos comunistas. A célula co- administrativa e social. A centralização política tal totalitária pode ocorrer mera desconcentração das as leis anticatólicas, passando o Zentrum
munista possui de 15 a 20 integrantes e tem a é intrínseca ao Estado unitário, também cha- de funções em que o agente atua em nome do a apoiar Bismarck (1815-1898) contra os socia-
função de atuar dentro de unidades sociais es- mado Estado simples, no qual um único poder poder central, mas não como titular de órgão listas. Durante a república de Weimar, seu lí-
pecíficas (empresas, sindicatos, universidades, político, fundado num único ordenamento ju- dotado de autonomia. Há que observar, po- der, Brüning, foi nomeado Chanceler (cargo que
etc.) e em áreas onde se fixa uma convivência rídico, se exerce sobre todo um povo e todo um rém, que, se todo Estado totalitário é centraliza- exerceu de 1930 a 1932) pelo presidente do
de caráter permanente (quarteirões, conjuntos território. As funções estatais - a legislativa, a do, nem todo Estado centralizado é totalitário. Reich, Marechal Hindenburg (1847-1934).
residenciais, etc.). Em 1924, a 111 Internacional executiva e a judiciária - também se exerci- V. Descentralização - Desconcentração. Brüning procurou deter o surto do nacional-
deixou estabelecido que o centro de gravidade tam dentro de uma estrutura centralizada. Já a socialismo, ao mesmo tempo em que tomava

tr
CESAROPAPISMO - 91- CHAUVINISMO
CESARISMO -90- CESAROPAPISMO

que vivem em estado de graça. Já o arianismo No Império Bizantino, foi grande a ingerên-
medidas financeiras enérgicas mas impopula- leão IH (1808-1873) assumiu o poder, passou
- doutrina herética defendida por Ario (256- cia do poder civil em assuntos eclesiásticos,
res para fazer face à crise econômica. Em maio a exercê-lo mirando-se emJúlio César, de quem
336), sacerdote líbio - negava a divindade de mormente a partir de Justiniano (imperador,
de 1932, deixou a chefia do gabinete, que, en- foi biógrafo entusiasta (Espelho de Césares é o
Cristo, ao afirmar Sua criação no tempo, daí de 527 a 565). Dessas intervenções, grande
tão, o presidente Hindenburg confiou a Hitler título da obra) e seguidor confesso. Foi tam-
resultando que teve princípio, razão pela qual número se fez a pedido das próprias autorida-
(1889-1945), grande adversário de Brüning. bém na França que o termo "cesarismo" veio
não é eterno, não é consubstanciaI ao Pai, por- des religiosas, o que se verificou até a queda
Depois das eleições de 5 de março de 1933 e a difundir-se com a publicação, em Paris, da tanto, não é Deus. O arianismo foi condenado do Império Romano do Oriente (1453). Na Rús-
por instigação de Von Papen (1879-1969), o obra L 'Ere des Césars (1835), escrita por Au- no Sínodo de Alexandria (321) e, depois, no sia, o cesaropapismo bizantino, originário de
Centro deu apoio a Hitler, votando a favor da guste Romieu, que o caracteriza como o po- Concílio de Nicéia (325), que proclamou o fa- Constantinopla, teve grande expressão, espe-
concessão de plenos poderes a este, o que não der de um grande chefe, amparado na força moso "Símbolo" ou "Credo", resumo das ver- cialmente desde Pedro, o Grande (czar, de 1682
impediu que o Führer o dissolvesse. militar e nas manifestações plebiscitárias da dades da Fé Católica. Esse Concílio foi convo- a 1725), detendo, os czares, praticamente, a
Se na Alemanha de Weimar a direita conse- massa popular. Regime autocrático, o cesaris- cado por iniciativa de Constantino. Amplas e chefia da Igreja ortodoxa.
guiu, assim, atrair e por fim destruir o Centro, mo alcança expressões paroxísticas nos totali- profundas foram as conseqüências da atuação Outras versões de cesaropapismo surgiram
na Itália do segundo pós-guerra o Partido De- tarismos modernos. de Constantino em relação à Igreja: liberdade com os cismas e heresias do século XVI. A rup-
mocrata-Cristão, não obstante se tenha apre- V. Absolutismo - Autocracia - Bonapartismo - Des- de pregação do Evangelho, construção de inú- tura de Lutero (1483-1546) com a Igreja e o
sentado nas eleições de 1948 como barreira potismo - Ditadura - Monocracia - Totalitaris- meras igrejas, instituição de foro episcopal pri- endosso dado por ele às idéias de John Wyclif
contra a marcha avassaladora do Partido Co- mo. vativo (episcopalis a udien tia) , isenções tributá- (1320-1384) sobre o "direito divino dos reis",
munista, veio logo a se tomar uma linha auxi- rias, repressão aos hereges e outras medidas atraíram ao protestantismo muitos príncipes
liar da esquerda, tendo o seu centrismo dado CESAROP APISMO importantes. A despeito disso, aspectos nega- alemães, que se viam predestinados ao exercí-
origem à política de centro sinistra. tivos da ação de Constantino decorreram es-
Domínio do poder político sobre a socieda- cio de um poder de índole teocrática, com al-
V. Direitas e Esquerdas. de religiosa, manifestando-se por intervenções pecialmente de interferências na vida da Igre- çada inclusive sobre as próprias igrejas protes-
abusivas em assuntos de competência exclusi- ja, de tal maneira que por ocasião de um Concílio tantes. Esse fato propiciou grande expansão ao
CESARISMO va da Igreja. os padres conciliares chegaram a se denomi- protestantismo.
Sistema de governo com poderes concentra- Titulares do poder civil e do poder eclesiás- nar "bispos de dentro da Igreja", enquanto o Significativa, a respeito, foi a atitude de Hen-
dos numa só pessoa, que os exerce de forma tico, simultaneamente, os imperadores roma- Imperador - que só recebeu o batismo no rique VIII (rei, de 1509 a 1547), da Inglaterra.
absoluta. nos, ao se converterem ao Cristianismo, renun- leito de morte - era chamado "bispo de fora". Rompendo com a Igreja e implantando o an-
Derivado de César, imperador romano (nome ciavam à antiga condição de sumos sacerdotes. Enquanto Constantino via no cisma ariano glicanismo, o rei intitulou-se "único chefe da
adotado nos tempos modernos pelos impera- A despeito disso, houve aqueles que mantive- um fator de desintegração da unidade do Im- igreja da Inglaterra" (1534), ostentando os seus
dores da Alemanha -Kaiser- e da Rússia- ram o costume de interferir nas decisões das pério, seus sucessores - como seu filho Cons- sucessores o mesmo título.
Czar), o termo expressa a idéia de exercício tão autoridades religiosas, quase sempre a pretex- tâncio (imperador, de 337 a 361) - acabaram Manifestações e matizes diversos de cesa-
arbitrário quão astucioso do poder. Assim agiu to de que implicavam questões atinentes tam- dando apoio ao arianismo, não hesitando em ropapismo ou tendências que dele se aproxi-
Júlio César (102-44 a.C.), ao indispor o Senado bém à coisa pública. Esse procedimento era recorrer, para isso, a métodos violentos como mam - tais como o regalismo, o febronianismo,
com o povo romano, conquistando a simpatia admitido sem grande relutância, em razão de o desterro de Libério (Papa, de 352 a 366). Foi o galicanismo, o josefismo - ocorreram em
deste com a construção de obras públicas e a certos benefícios que traziam às atividades da assim que essa heresia veio a ter larga penetra- países católicos ao longo de vários séculos, com
promoção de jogos. Ao longo de seu governo, Igreja. Com o tempo, porém, sobrevieram abu- ção, durante três séculos, em comunidades cris- ênfase maior nos séculos XVII, XVIII e XIX.
em sucessivos e alternados lances de força e sos. tãs, chegando até mesmo a reunir um Sínodo
em Tiro (335), que decidiu pela condenação, V. Febronianismo - Galicanismo - ]osefismo - Re-
habilidade, César - epicurista e generoso (fez Sob o governo de Constantino, o Grande (im- galismo - Relações Igreja-Estado.
erigir um templo a Clem en tia, entidade abstra- perador, de 306 a 337), foi notória essa inge- deposição e desterro de Santo Atanásio, bispo
ta que divinizou) - tornou-se Pontifex Maxi- rência. O Imperador via no Cristianismo um de Alexandria (295-373), intrépido defensor da
ortodoxia. CHAUVINISMO
mus, Pretor, Cônsul e Ditador, temporário ini- fator eficaz de coesão do Império, cujo pro-
A queda do Império Romano do Ocidente Sentimento patriótico exagerado.
cialmente e depois vitalício. Rejeitou a realeza cesso de decadência a religião do Sol não lo-
(476) levou ao mesmo fim o cesaropapismo, Termo derivado do sobrenome do granadeiro
por se considerar superior a ela, embora osten- grava sustar. Sem renunciar ao título de Pontí-
que, no entanto, reapareceu, quase três sécu- francês Nicolas Chauvin, que proclamava des-
tasse insígnias reais, inclusive a púrpura. Foi, fice Máximo da religião oficial, Constantino
los depois, com Carlos Magno (imperador, de medido amor à França, pela qual lutara nos
porém, monocrata e não monarca. Grande chefe publicou, em 313, o Edito de Milão, conceden-
768 a 814), o qual interferiu largamente em campos de batalha, chegando a traduzir em ma-
militar e político, apoiou-se sempre no exérci- do liberdade de culto e restituindo à Igreja os
assuntos da Igreja. Nomeação de bispos, con- nifestações fanáticas seu devotamento a Napo-
to, a cujos componentes favoreceu, e também bens confiscados. Ainda pagão, proclamou-se
vocação de sínodos, reorganização de dioceses, leão Bonaparte (imperador dos franceses, de
na plebe, que sabia lisonjear. protetor da Igreja e, pretendendo defender-lhe
reforma de conventos, até mesmo questões 1804 a 1815), mesmo depois da queda deste.
Nos tempos modernos, o cesarismo ressur- a unidade, interferia em seus assuntos inter-
doutrinárias, tudo era objeto de intervenção do Essa atitude explica a cunhagem do termo chau-
giu sob várias formas e matizes. Na França, em nos. Combateu dois movimentos heréticos: o
Imperador. Comumente, suas interferências se vinisme, para exprimir extremado e exclusivista
fins do século XVIII e no século XIX, expres- donatismo e o arianismo. Chefiado por Donato,
faziam com critério, o que deixou de ocorrer sentimento de amor à própria Pátria, à qual
sou-se no bonapartismo, a partir de Napoleão bispo de Casa Nigra, Numídia, no norte da Áfri-
por parte de seus sucessores. Ao longo da Ida- são atribuídas todas as glórias e grandezas.
I (1769-1821), que se fez coroar "Imperador dos ca, o donatismo pretendia que um sacerdote
de Média, a Igreja foi-se libertando do cesaro- No linguajar brasileiro, é sinônimo, embora
franceses", sendo que à sombra de suas baio- em estado de pecado não podia administrar
papismo, que deixou de existir desde o ponti- imperfeito, de chauvinismo, o termo ufanismo,
netas se espalharam pela Europa os princípios eficazmente os sacramentos, por isso, dizia, a ficado de Inocêncio 111 (Papa, de 1198 a 1216). cujo significado se prende ao tom geral de
da Revolução Francesa (1789). Quando Napo- verdadeira Igreja é formada unicamente pelos
CHEFE DE GOVERNO -92 - ClANCIA POÚTICA
CIDADANIA -93-

exaltação das riquezas e das belezas naturais Também há chefias de governo em esferas bilidade de utilização dos instrumentos proces- cluindo as organizações sociais e propondo-se
do Brasil com que foi escrito o livro Por que inferiores da organização político-administrati- suais de defesa de direitos individuais amea- o estabelecimento da paz, o fortalecimento da
me ufano do meu País, de Afonso Celso de va do Estado. Por exemplo, chefe do governo çados ou violados, pois o risco de abuso de po- democracia e a educação dos cidadãos para o
Assis Figueiredo (1860-1938). A desmedida lou- provincial ou estadual (Governador da Provín- der, embora suscetível de ser grandemente bem público. Essa orientação começou a ga-
vação da potencialidade e dos encantos da ter- cia, Presidente da Província - como no Bra- reduzido numa estruturação orgânica da socie- nhar terreno após a Segunda Guerra Mundial
ra brasileira caracteriza o ufanismo, que alguns sil-Império - ou Governador do Estado) e dade, continuará a existir, ainda que em escala (1939-1945), podendo, em anos mais remotos,
denominam "meufanismo", termo não dicio- chefe do governo municipal (Prefeito). ser apontados como seus precursores, entre
bem menor.
narizado. outros, Graham Wallas, com seu estudo Human
V. Chefe de Estado. Além do mais, cidadão não é apenas o pos-
V. Nacionalismo - Patriotismo. suidor de direitos, mas também o cumpridor Nature and Politics, e Walter Lippmann, no li-
CIDADANIA dos deveres cívicos. Por isso, a verdadeira cida- vro Public Opinion (1912). No plano insti-
CHEFE DE ESTADO tucional, a Political Science dos autores anglo-
Remotamente, o termo origina -se de Civitas, dania requer simultaneidade no gozo dos di-
Titular do poder soberano na organização reitos e no cumprimento dos deveres, uns e saxões corresponde em parte, pela matéria
que entre os romanos significava o Estado-ci-
política de um país. outros inerentes à participação na vida da socie- versada, à Teoria Geral do Estado (Allgemeine
dade, entidade política soberana em que os
A chefia pode ser unipessoal, também cha- dade política. Cidadão incompleto é aquele que Staatslehre) dos alemães, em cuja mesma linha
homens livres, além do status liberta tis, pos-
mada singular, nas formas tanto monárquicas está sempre pronto a exigir respeito a direitos, de orientação metodológica se enquadra a
suíam também o status civitatis, vale dizer, eram
quanto republicanas, ou pluripessoal, também mas tende a ignorar os deveres cujo cumpri- Doutrina do Estado (Dottrina dello Stato) dos
cidadãos romanos, detentores, portanto, do go-
chamada colegial, como ocorre nas repúblicas mento lhe incumbe. italianos, ao Direito Constitucional dos france-
dirigidas por governo colegiado propriamente zo pleno dos direitos civis e políticos.
A rigor, não é outro o sentido que se dá, no ses (Droit Constitutionnel) e ao Direito Polí-
dito (como a Suíça), junta de governo (como V. Bem comum - Declaração de direitos - Direi-
entendimento moderno, a cidadania, que pode tico dos espanhóis (Derecho Político). Mais
não raro acontece após o triunfo de movimen- tos fundamentais - Família - Grupos intermediá- recentemente a ciência política tem sido enri-
to armado), duunvirato ou triunvirato (como ser definida como o conjunto de direitos e obri- rios - Massificação - Solidariedade, Princípio de.
gações existentes entre os indivíduos e o Esta- quecida com ensaios interpretativos dos fatos
no Consulado), diretório, etc. Dependendo da e tendências da política mundial ou de certas
organização política de cada país, variadas são do a que eles pertencem. Assim, a inserção CIÊNCIA POLíTICA
dos indivíduos numa nacionalidade - pelo áreas, por exemplo, as das democracias oci-
as atribuições do Chefe de Estado; desde a sim- Numa significação ampla, abrange a socio- dentais, do mundo comunista, ou do Terceiro
ples representação formal da unidade do Esta- nascimento ou pela naturalização - é pressu- logia política, o estudo das relações internacio- Mundo, ensaios em que se mesclam observa-
do, nos âmbitos externo e interno, até o exer- posto necessário à aquisição dos direitos polí- nais, algumas partes do direito público, ensaios ções no plano das realidades políticas e refle-
cício da atividade governamental. N~sse sentido, ticos que lastreiam a cidadania. de interpretação com caráter de psicologia so- xões filosóficas, ultrapassando a ciência políti-
haverá Chefe de Estado que, ou não intervém Funda -se menos na individualidade do que cial aplicada à política, pesquisas, manejamento ca empírica para penetrar numa análise mais
nas decisões de governo, ou desempenha no individualismo o conceito corrente de cida- de estatísticas e até biografias, sem falar, num profunda dos homens, dos acontecimentos, das
restritas atribuições de natureza política e ad- dania. Tanto assim que a atomização social pre- plano mais alto, da teoria do Estado, de doutri- ideologias e das instituições, sem que faltem,
ministrativa, ou também exerce, cumulativa- side a caracterização atual da sociedade políti- nas e correntes de idéias, da filosofia política e por vezes, previsões e juízos antecipados em
mente, a Chefia de Governo, com a ajuda de ca, considerada mero aglomerado de indivíduos, mesmo da ética em suas implicações no relação a situações futuras, tudo isto com base
ministros de sua livre escolha, desempenhan- de cidadãos abstratos, desintegrados das co- concernente ao poder, às instituições e ao rela- na experiência política atual e na história, que é
do em plenitude a função governativa. munidades em que concretamente vivem. Não cionamento entre os governantes e governa- também uma forma de experiência.
V. Chefe de Governo.
se leva em conta que as defesas naturais do dos. Estritamente falando, assume o caráter de Neste sentido, cumpre lembrar, no século
indivíduo estão primacialmente na família, que ciência,experimental, tendo por objeto a reali- XIX, o nome de Alexis de Tocqueville (1805-
CHEFE DE GOVERNO é a unidade social básica e não o indivíduo. E dade institucional e o procedimento dos políti- 1859), que, por seu livro De la démocratie en
Titular da função do órgão executivo su- é na medida em que a sociedade política se cos. Desta forma tem sido cultivada particular- Amérique, fruto de prolongados estudos e de
perior, que decide e dirige no âmbito político reconhece constituída essencialmente de famí- mente entre os autores ingleses e americanos, percucientes observações pessoais, se tornou
e administrativo, fixando diretrizes e adotando lias e outros grupos sociais, com seus direitos e desde há muito tempo, difundindo-se ultima- . expoente de cientista político na mais alta com-
medidas relativas à vida pública. prerrogativas próprios e intangíveis, em face mente por outros países. Dada essa variedade preensão deste termo. Diga-se o mesmo de Lord
Há sistemas políticos em que a Chefia do do Estado, que este se vê concreta e verdadei- de aspectos na matéria a que se estende, a Bryce (1838-1922), que deixou os memoráveis
Governo e a Chefia do Estado são exercidas ramente limitado no seu poder pelas autono- Encyclopaedia ofthe Social Sciences (Macmillan volumes de 1be American Commonwealth, com
cumulativamente por uma só pessoa, como mias sociais, garantindo-se assim, e em larga Company and The Free Press), no verbete enfoque mais acentuadamente jurídico sobre o
ocorre no Presidencialismo. Em outros siste- parte, a proteção das pessoas e a auto-afirma- "Political Science", diz ser a ciência política uma mesmo tema daquele livro de Tocqueville, isto
mas, existem ambas as chefias distintamente, e ção da sua dignidade. disciplina em busca de sua identidade. Quanto é, as instituições e a vida pública do povo nor-
exercem funções autônomas, como no Parla- Por isso, frágil é o conceito de cidadania que ao comportamento político, estudado como te-americano.
mentarismo, em que o Chefe de Governo é o se baseia tão-somente no relacionamento indi- objeto da ciência política, tem sido também a No Brasil, a ciência política no campo da
Presidente do Conselho de Ministros, também víduo-Estado. A vinculação de cada indivíduo temática das behavioural sciences, expressão história e da sociologia encontra suas primei-
chamado Chefe de Gabinete ou Primeiro-Mi- com a família e o grupo ou grupos em que ele corrente nos Estados Unidos da América desde ras manifestações em nomes expressivos como
nistro. Cabe-lhe desempenhar as atividades go- está naturalmente inserido - pelo estado civil os primórdios da década de 50. Foram estas Tavares Bastos (1839-1875), Joaquim Nabuco
vernamentais, com a colaboração dos minis- e pela profissão - permite-lhe saber-se real- ciências do comportamento precedidas, naquele (1849-1910), Eduardo Prado (1860-1901),
tros e sob a estrita fiscalização do Parlamento, mente integrado na sociedade, portando dig- país, por estudos de uma comissão organizada Alberto Torres (1865-1907), Euclides da Cunha
de cuja confiança depende para manter-se no nidade inalienável e responsabilidade social pela Fundação Ford, tendo em vista o compor- (1866-1909), Oliveira Vianna (1883-1951). Pos-
exercício de suas funções. efetiva. Evidentemente, isto não exclui a possi- tamento individual e as relações humanas, in- teriormente, ela vem a ser cultivada, sobretudo,
ClANCIA POLfrICA -94- CIRCULAÇÃO DAS ElJI'ES
c/RCULOS CONcANrRIcos -95 - CIVIliSMO

na linha metodológica da Political Science dos para chegar ao poder. Marie Kolabinska, discí- A ascensão de nível, na escala social, permite pela união dos cantões, que ficaram caracteri-
americanos, tomando-se objeto de numerosas pula de Pareto, no estudo La circulation des a seleção de talentos autênticos, ou seja, uma zando a Suíça. Nesses e em muitos outros exem-
teses de pós-graduação nas universidades. A élites en Franceaponta uma circulação entre as legítima aristocratização, própria das aspirações plos, dos mais variados, através da história, sem-
este propósito devem ser lembrados os brazi- diferentes categorias da elite governante e uma do espírito humano. Obviamente, nas socieda- pre se manifesta a formação da sociedade política
lianists dos Estados Unidos e alguns autores circulação entre a elite e o restante da popula- des de casta (Índia, sob os brâmanes) ou na- por círculos concêntricos, desde a pequena di-
europeus, multiplicando-se as obras de uns e ção, concluindo que os indivíduos das classes quelas dominadas rigidamente por partidos ou mensão dos municípios ou comunas até à am-
outros, numa demonstração do interesse des- inferiores podem ascender à elite existente, ou, facções de feitio monolítico - quer nos paí- plitude dos reinos, impérios e outros tipos de
pertado mesmo no estrangeiro pelos proble- então, indivíduos das classes inferiores podem ses comunistas (ex-URSS, China, Cuba), quer organização estatal. Esses círculos alargam-se ainda
mas brasileiros. vir a formar novos grupos de elite que visem a nos de sectarismo político-religioso (Irã, sob mais no plano das organizações internacionais.
Elevando-se acima da ciência política mera- derrubar as elites existentes. Khomeini), quer nos de faccionismo oligárqui- É de notar que as afinidades entre os povos,
mente empírica, Eric Voegelin, professor aus- Gaetano Mosca (1848-1941), a princípio sob co-ideológico (México, sob o Partido Revolu- interesses comuns, imperativos de geopolítica
tríaco residente nos Estados Unidos, publicou a influência da análise marxista das classes ("a cionário Institucional, PRI) - não há falar em e de estratégia, os aproximam uns dos outros,
em 1952 1be New Science 01 Politics (A nova história de todas as sociedades até agora co- circulação de elites. Nesses países, uma "dita- levando-os a concluir alianças de natureza cul-
Ciência da Política, traduzida entre nós e nhecidas é a história da luta de classes"), refor- dura legal" garantiu e garante no poder uma tural, econômica ou militar. Verificam-se essas
publicada pela Editora Universidade de Brasília, mula posteriormente o próprio pensamento, "classe dominante" - vale dizer, uma oligar- aproximações em âmbitos mais estreitos ou mais
1979), onde aponta no pensamento especifica- vindo a afirmar que a classe política é influen- quia partidária - absolutamente fechada, ou amplos, sendo freqüentemente ditadas pela vi-
mente moderno uma volta ao imanentismo da ciada e contida por muitas "forças sociais" e melhor, somente aberta a adeptos ou "conver- zinhança. Daí a política dos círculos concêntri-
gnose antiga. A renovação por ele preconizada também pela unidade moral da sociedade toda, tidos". Enquanto na maioria dos países oci- cos, nas relações internacionais, círculos de base
baseia-se na restauração do pensamento clás- assegurada pela lei. Mosca observa, a propósi- dentais, a despeito dos erros e vícios institucio- geográfica e base histórica. No concernente ao
sico, tendo escrito a propósito os volumes de to das classes dirigentes nos sistemas democrá- nais que os permeiam, ocorre maior ou menor Brasil, estes resultam da continentalidade ame-
Order and History, alentado estudo filosófico- ticos, que o representante não é escolhido pe- circulação de elites, embora nem sempre afe- ricana (motivação geográfica) e da filiação cul-
histórico, a partir da revelação mosaica e do los eleitores, e sim, em geral, faz-se escolhido ridas segundo valores dignificantes, nos de- tural ao bloco das nações latinas, especialmente
mundo da polis, no qual destaca a obra de Pla- por eles, ou seus amigos o fazem. Não obstante mais, especialmente nos dominados pelo mar- hispânicas (motivação histórica). Se a conti-
tão e a de Aristóteles. Abre assim perspectivas isso, admite que, por seus representantes, a xismo, uma hermética classe dominante se nentalidade americana vincula o Brasil aos Es-
para uma compreensão em profundidade do maioria pode exercer certa fiscalização dos atos mantém no poder pela força, desmentindo as- tados Unidos - donde a cooperação no pla-
objeto da ciência política. governamentais, assinalando, porém, que não sim a dinâmica da história pretendida pela teo- no econômico (desenvolvimento) e no plano
Politologia ou Politicologia é expressão de raro essa classe se faz eco dos interesses e pro- ria de classes sociais de Marx. militar (defesa) - , essa mesma continentalida-
formação recente para designar os estudos re- pósitos de grupos importantes e influentes da V. Aristocracia - Casta - Classe - Elites dirigentes. de e, além disso, razões substanciais de for-
ferentes a temas políticos. sociedade. Mosca também considera que, em- mação histórico-cultural nos unem aos povos
bora se situe em posição superior, a elite está CÍRCULOS CONCÊNTRICOS vizinhos e irmãos da América do Sul, aos da
V. Conhecimento político - Gnose - História
estreitamente vinculada à sociedade através de América Central e ao México.
- Ideologia - Imanentismo. Dá-se a formação da sociedade política por
uma "subelite", consistente na classe média, No relacionamento do Brasil com a família
um processo de federalismo orgânico, que vem
CIRCULAÇÃO DAS ELITES constituída de intelectuais, cientistas, engenhei- das nações, podem ser traçados os seguintes
indicado por Aristóteles (384-322 a.C.) logo no
ros, profissionais liberais, gerentes, funcioná- círculos concêntricos: a) povos de língua por-
Processo de mobilidade social no sentido início do livro primeiro da Política. A família é
rios públicos categorizados, etc. Essa "subelite" tuguesa; b) povos hispânicos da América e de
vertical, ascendente ou descendente, na escala a primeira das comunidades na vida humana,
vem a abastecer de novos integrantes a "classe outros continentes; c) povos americanos de
hierárquica da sociedade. resultante de um impulso imediato da nature-
dirigente", além de ser um elemento vital no origem anglo-saxônia ou francesa; d) povos da
A expressão foi cunhada por Vilfredo Pareto za, sendo mesmo chamada "célula social". As
governo da sociedade. Pondera Mosca, em Ele- civilização ocidental na Europa, especialmente
(1848-1923), em seu Trattato di Sociologia famílias reúnem-se, formando a aldeia - diz
menti di scienza política (1 ª edição, 1896; 2ª aqueles com os quais o Brasil está ligado pela
Generale (1916/1923), e veio a popularizar-se. Aristóteles - , e as aldeias, num círculo mais
edição revista e aumentada, 1923), que a esta- imigração e pela cultura; e) povos africanos,
Pareto identifica na sociedade uma "elite amplo, constituem a Cidade (Polís). As Cidades
bilidade de qualquer organismo político depen- dada a contribuição da raça negra na formação
governante", que direta ou indiretamente faz gregas eram independentes, cada uma consti-
de do nível de moralidade, inteligência e ativi- da gente brasileira; D povos do Oriente próxi-
atuar o poder político, e uma "elite não-gover- tuindo um Estado, tendo surgido, depois de
dade atingido por este segundo estrato, ou seja, mo e do Oriente médio, devendo ser ressalta-
nante", que, embora não exerça o poder, é com- certo tempo, as anfictionias, a princípio assem-
a "subelite". da a imigração sírio-libanesa; g) povos eslavos:
posta de pessoas competentes. Ambas essas bléias religiosas e depois organizações com
A circulação das elites implica a existência poloneses, ucranianos, lituanos; h) povos do
vínculos econômicos e políticos. Em Roma, a
elites formam o estrato superior da sociedade, de uma capilaridade social que permita a pas- Extremo Oriente: japoneses, chineses, coreanos.
Civitas, equivalente à Polís grega, estendeu o
constituída também de um estrato inferior, a sagem de um a outro nível, segundo os valores V. Comunidade Hispânica - Comunidade Lusíada
seu âmbito, e, pela conquista, formou um gran-
"não-elite". Segundo Pareto, devido ao deficien- que norteiam a organização dos quadros so- - Federalismo - Hispano-americanismo - Ordem
de império, dividido em províncias e outros
te incremento demográfico das classes altas e ciais. A ascensão social fundada na competên- internacional - Pan-americanismo - Sociedade
círculos administrativos. Nos Estados Unidos da
ao aumento relativo das elites, em decorrência cia, no mérito, na capacidade, na idoneidade, política.
América, depois da independência das colô-
do desenvolvimento econômico, produz-se a nas virtudes morais, pode conferir mais solidez nias inglesas, a Constituição de 1787 instituiu o
ascensão de nova elite dirigente. No entanto, à estrutura da sociedade do que o prestígio CIVILISMO
Estado federal, numa sistematização jurídica
essa ascensão também poderá ocorrer quando social alcançado em função de privilégios deri- desse federalismo, abrangendo os Municípios, Concepção que preconiza o exercício do
as elites não-governantes recorrerem a meios vados do poder econômico, da força político- os Estados e a União. Longo processo histórico governo por civis, com exclusão do elemento
eficazes - com ou sem o apoio das massas - partidária, das manipulações da propaganda. explica a formação da Confederação Helvética, militar.
-97- CIVIliZAÇÃO
CIVIliSMO -96- CIVIliZAÇÃO CIVIliZAÇÃO

No Brasil, movimento liderado por Rui ocorre na língua alemã com a palavra Kultur, século XVIII, contra o qual reagiu o napolitano ra sujeitos a análogo processo de nascimento,
Barbosa (1849-1923), ao lançar sua própria designando o que costumamos entender por Giambattista Vico (1668-1740), cuja obra só crescimento e exaustão, mas sem o biologismo
candidatura à presidência da República, em civilização. Dada a afinidade dos conceitos, não depois de sua morte foi devidamente avaliada fundamental do pensador alemão. Toynbee tra-
oposição à do Marechal Hermes da Fonseca admira que variem os critérios para a diferen- no vigoroso pensamento por ele expresso em ça um quadro das civilizações, classificando-as
(1855-1923), feito candidato em razão do de- ciação deles, chegando alguns a propor a equi- Scienza nuova. A seu modo, admite a idéia num total de 23, recusa-se a aceitar o curso
sentendimento das oligarquias políticas de São valência entre ambos. Da idéia de civilização dos ciclos históricos, em culturas ou civiliza- unitário da história no sentido progressista e
Paulo e Minas Gerais quanto à sucessão de como perfeição social, dá-nos exemplo um clás- ções diversas, opondo-se à tese iluminista - dá por objeto do conhecimento histórico duas
Afonso Pena (1847-1909). Sustentava Rui Bar- sico dicionário da língua portuguesa, o de Cal- que será, depois, a evolucionista - do pro- espécies de sociedade: as primitivas e as civili-
bosa que o Exército se equiparava aos demais das Aulete, no verbete Civilização: "Grande gresso retilíneo da humanidade caminhando zadas. A história das civilizações, que se de-
órgãos nacionais, devendo, em conseqüência, perfeição do estado social, que se manifesta sempre para melhor. Ensina, pelo contrário, a senvolvem no mundo entendido como provín-
subordinar-se ao poder civil. Tendo sido um na sabedoria das leis, na brandura dos costu- teoria dos cursos (corsi) e retornos (ricorsi), o cia do reino de Deus, tem profundo significado
dos fomenta dores da insubordinação ao poder mes, na cultura da inteligência e no apuro das que faz lembrar o mito antigo do "eterno retor- para a alma, não sendo possível compreendê-
constituído, quando da Questão Militar (1883- artes e indústrias." no", dos gregos. A seu ver, uma civilização, las senão em perspectiva religiosa.
1887), que acabou instrumentalizada para a Partindo desse mesmo conceito, o historia- atingido o ponto culminante de seu desenvol- A precariedade das civilizações, que em pe-
derrubada do Império, Rui Barbosa tomava -se dor belga Godefroy Kurth (1847-1917), no li- vimento, se desfaz - pela ação daqueles mes- ríodos de esplendor dão a impressão de fada-
agora de apreensões ante a perspectiva de re- vro Les origines de la Civilisation Moderne, faz mos impulsos que lhe vinham dando vida - das a uma permanência perene, não escapou
torno do "espírito militarista" com que se im- ver que, devendo a sociedade contribuir para em novas formas de barbárie. aos antigos, mesmo porque a ilusão progres-
plantara a República, em 1889, e se exerceram o homem alcançar a finalidade em vista da qual Posteriormente, a variedade das civilizações sista não os enganava e eles concebiam a vida
os governos dos marechais Deodoro da Fonse- foi criado, a civilização por excelência é a civi- e seu desenvolvimento cíclico foi objeto da obra dos povos sujeita ao vaivém da história domi-
ca (1827-1892) e Floriano Peixoto (1839-1895). lização cristã, na qual florescem diversas mo- de Oswald Spengler (1880-1936) sobre a deca- nada pela força mítica do "perpétuo retomo".
Daí a Campanha Civilista (1910) em que se dalidades de cultura. Nesse sentido, Donoso dência do Ocidente (Der Untergang des Abend- Disso é exemplo bem sugestivo o relato feito
empenhou mas que não logrou fazê-lo presi- Cortés (1809-1853), em seu famoso Discurso landes). Spengler considera a civilização uma pelo historiador grego Políbio (205?-125? a.C.),
dente. sobre Europa (30-1-1850), afirmou que "toda ci- exteriorização da cultura, sendo esta a subs- que presenciou a destruição de Cartago. Con-
vilização verdadeira vem do cristianismo", idéia tância anímica de um povo. No seu entender, ta-nos ele que, ante o espetáculo da cidade em
CIVILIZAÇÃO que se completa no Ensayo sobre el catolicis- as civilizações nascem, vivem e morrem segun- chamas, o comandante vitorioso, Públio
do um processo natural e fatal. Exaurindo-se a Comélio Cipião Emiliano (185-129 a.C.), en-
Aprimoramento da vida humana em socie- mo, el liberalismo y el socialismo, do mesmo
dade. autor (1851). Aí se mostra como o cristianismo força criadora do povo, a cultura viva (Kultur) quanto os soldados romanos manifestavam o
Os antigos gregos, orgulhosos de" sua civili- é substituída pela civilização (Zivilisation), ca- júbilo pelo triunfo final, mostrava-se conster-
restaurou a ordem, destruída pelo pecado, pos-
zação, consideravam bárbaros os outros povos. racterizada pelo ceticismo, pelo materialismo e nado e derramava lágrimas. Surpreso, pergun-
sibilitando ao homem ordenar a sua inteligên-
Esta consciência da própria superioridade, ti- cia e a sua vontade, estendendo-se esta orde- pelas correntes irracionalistas. Surgem as gran- tou-lhe o historiador por que reagia dessa for-
veram-na também os romanos, cuja Civitas dava nação à família e à sociedade, na devida des cidades, em que os homens se descarac- ma num momento de glória para as armas
ao cidadão (civis) uma posição privilegiada em compreensão dos deveres e dos direitos, com terizam, o estilo se transforma na moda, a ori- romanas, ao que respondeu Cipião, recitando
face dos escravos e dos estrangeiros. Essa po- ginalidade e a autenticidade cedem às cópias e um verso de Homero (séc. VIII a.C.): "Dia virá
a dignificação da autoridade e por um equilí-
sição era assegurada pelo direito próprio da às padronizações, o pensamento se separa da em que hão de ser destruídos Ílion, Príamo e
brio político sem despotismos nem revoluções.
Cidade, o jus civile, isto é, pela ordem jurídica vida, e politicamente prevalece o cesarismo. o povo do belicoso Príamo." Como as glórias
A civilização, assim conceituada, tem, pois, um
estabelecida, que completava o direito natural caráter axiológico e se mede pelas possibilida- Numa larga visão histórica, Spengler estuda a de Tróia haviam passado e ela acabou sendo
e se abria à penetração do direito das gentes, des e condições favoráveis oferecidas ao ho- civilização babilônica, a egípcia, a indiana, a destruída pelos gregos, a grandeza de Roma -
no que este pudesse contribuir para o aperfei- mem para realizar a própria perfeição na bus- chinesa, a da antigüidade clássica greco-roma- cujo expansionismo, uma vez vencido o pode-
çoamento das instituições e a melhor realiza- na (apolínea), a árabe (mágica), a do Ocidente rio cartaginês, levava à constituição de um imen-
ca de sua finalidade transcendente.
ção da justiça. Dessa diferenciação entre o ci- Autores há que dão aos conceitos de cultura (fáustica) e a dos Maias, na América Central. A so império - soçobraria também.
filosofia da história e das civilizações, em Ao estudar as origens da civilização moder-
vis romanus e outros homens, entre o civilizado e civilização outra amplitude, abrangendo po-
e o bárbaro, ou o selvagem, vem o termo "civi- Spengler, é elaborada numa perspectiva natu- na, Godefroy Kurth tem em vista a civilização
vos em estado rudimentar de organização so-
lização", indicando, desde logo, a perfeição de ralista, ao passo que a de Donoso Cortés, como cristã tal como se formou depois que os após-
cial, donde admitirem civilizações primitivas e
um estado social, pois os bárbaros e os selva- anteriores à história. É o que se verifica na também a de Vico, é iluminada pelas realida- tolos e os missionários empreenderam a obra
gens são aqueles que não alcançaram uma es- des sobrenaturais, a exemplo da monumental da evangelização, regenerando a sociedade
moderna etnologia, com a teoria dos ciclos
tabilidade institucional e uma forma de convi- obra de Santo Agostinho (354-430), De Civitate romana e convertendo os povos bárbaros. Foi a
culturais, considerando-se o desenvolvimento
vência que permita a cada um aprimorar a sua Dei. O conceito donosiano acentua a causa for- Cristandade medieval, cuja unidade espiritual
das culturas ou das civilizações num processo
educação e receber uma formação cultural, mal e a causa final da civilização, enquanto o se refletia na organização social e política do
evolutivo comparável ao dos organismos vi-
transmitindo-a aos pósteros. A esta formação vos, com o nascimento, o crescimento, a deca- spengleriano se reduz às causalidades material tempo, a res publica christiana. A perfeição
os gregos chamavam paideia, expressão a que dência e a morte. Com essa variedade cíclica e eficiente. Aproxima-se dos primeiros Arnold social era uma decorrência da plena ordenação
correspondem os termos latinos humanitas e Toynbee (1885-1975), em algumas das consi- do homem para Deus, vindo daí a elevação de
fez-se cair por terra o evolucionismo unilinear:
civilitas. derações expendidas ao longo do seu mais sua vida pessoal, a santificação da vida de famí-
dominante no século passado, que visionava a
Civilização e cultura são idéias entrelaçadas, marcha ascendente da humanidade numa li- importante trabalho, A Study ofHistory (12 vo- lia, o abrandamento dos costumes rudes dos
mas distintas. Verdade é que freqüentemente lumes, 1934-1961), coincidindo com Spengler germanos e a extirpação do paganismo antigo.
nha de progresso indefinido. Aliás, este progres-
uma expressão se emprega pela outra, como quanto à divisão dos povos em ciclos de cultu- Civilização teocêntrica, seus ideais e valores mais
sismo otimista começou com o iluminismo do
CIVIUZAÇÃO -9H- CIVIUZAÇÃO -99- CLASSES SOCIAIS
CIVlUZAÇÃO

altos se manifestavam no pensamento filosófi- Civilização cristã, civilização moderna, civi- que, mais do que uma realidade, veio a ser tas e deixando sem defesa os valores funda-
co, na arte, nas letras, no trabalho profissional. lização ocidental, são, pois, termos que não se uma ideologia, com a qual se tem procurado mentais da civilização que lhes caberia defen-
Era o esplendor do gótico nas catedrais e nas confundem, embora tenham origens comuns. valorizar elementos civilizacionais próprios. A der, haja vista o que ocorreu nas conferências
iluminuras, da Suma Teológica e da Divina A civilização cristã, isto é, inspirada pelos prin- Rússia, simbiose da cultura oriental e da oci- de Yalta (1945) e Helsinque (1973).
Comédia, e eram as confrarias e as corporações cípios do Cristianismo, pode apresentar con- dental, veio a assumir, já à época da existência V. Colonização - Cristandade - Cultura - História
de ofício assegurando a caridade e a justiça nas cretamente modalidades distintas, uma das quais da URSS, uma fisionomia de traços muito se- - Progressismo - Progresso - Terceiro-Mundo -
relações de trabalho. Rompida a unidade es- foi a Cristandade medieval. A civilização mo- melhantes à dos Estados Unidos no concernen- Tradição.
piritual pelo protestantismo e repudiados os derna, em sentido lato, é a que resulta da te ao tecnicismo avassalador e à sociedade de
ideais cristãos da Idade Média pela Renascen- cristianização das sociedades que haviam inte- massas, que Spengler descrevera ao estudar o CIVILIZAÇÃO CRISTÃ - v. Civilização.
ça, voltando-se ao paganismo greco-romano, grado o Império romano e passaram a consti- fenômeno das grandes cidades mundiais.
daí resultou também a dissolução da res publi- tuir novos reinos, na Idade Média, daí derivan- CIVISMO
Fatos históricos de conseqüências decisivas
ca christiana, passando os Estados soberanos a do mais tarde os Estados modernos; em sentido asseguraram a sobrevivência da civilização oci- Numa sociedade política, é a atitude vigilan-
se sobrepor, como unidade política máxima e estrito, é a Europa depois dos tratados de dental, na sua maneira de ser própria e nos te, consciente e permanentemente voltada para
centralizadora, à Cristandade de outrora, o que Westfália e o conjunto de outros povos que seus valores, por vezes periclitantes ante a os superiores interesses da Pátria, cujos valores
se consagrou nos tratados de Westfália (1648). sofreram a influência da cultura européia com iminência do predomínio cultural e político de tudo faz por preservar e enriquecer, mediante
A Cristandade foi, porém, mantida, com as ca- as correntes de idéias que se seguiram ao pro- forças adversas vindas do Oriente. Já no sécu- o cumprimento diuturno das obrigações sociais.
racterísticas dos tempos medievos, na Espanha testantismo, à Renascença e ao racionalismo. lo V a.C., com as guerras médicas, era salva a Quem tem espírito cívico coloca o bem comum
e em Portugal, onde o protestantismo não pe- Quanto à civilização ocidental, que teve ori- acima dos apetites egoísticos, cumpre as pres-
civilização grega, ameaçada pelo império persa.
netrou e onde houve um renascimento de le- gem na Idade Média, distingue-se, em larga crições legais por sabê-las, se justas, instrumen-
Vencendo Marco Antônio (83?-30 a.C.) na ba-
tras e artes sem o retorno ao paganismo antigo, parte, da civilização atual no Ocidente e de to indispensável à reta convivência humana,
talha de Actium (31 a.C.), Otávio garantia a
ao contrário do que se dava nos países de além outras formas de civilização, que apresentam não esmorece na luta pela observância dos
permanência da latinidade essencial à civiliza-
Pireneus. Esta circunstância histórica permitiu a características históricas e culturais próprias, princípios morais, contribui eficazmente para
ção que, das origens etruscas e helênicas, Roma
expansão da Cristandade pelas terras descober- como as civilizações japonesa, chinesa e india- o asseguramento da ordem, dá combate sem
revalorizara, com o seu gênio disciplinador, e
tas e colonizadas por espanhóis e portugueses, na. A civilização ocidental remonta à civiliza- tréguas à corrupção dos costumes, realiza -
transmitiria aos povos do continente europeu.
em obra evangelizadora e civilizadora, dando ção antiga, greco-romana, transfigurada pelo na família, na escola, na Igreja - trabalho pa-
um sentido superior à colonização (expressão Cristianismo. Nos primórdios da Cristandade, a batalha de ciente e perseverante de bem formar as novas
que tem, aliás, as mesmas raízes etimológicas A civilização ocidental, caracterizada por Poitiers (722) salvou-a do islamismo, detendo gerações, mantém constante disposição de ser-
de cultura, ambas procedendo do latim colere, Spengler como "fáustica", teve por centro o o ímpeto dos árabes, que se confinaram na vir, está sempre pronto a colaborar em ativida-
cultivar). Note-se que o Cristianismo não se continente europeu e daí se estendeu pelo península hispânica, sendo daí expulsos após des que solidificam os laços de solidariedade
confunde com a Cristandade, sendo esta um mundo, a partir da época das grandes navega- os quase oito séculos da Reconquista. E em humana, vive e difunde as virtudes sociais
reflexo da religião cristã na ordem temporal. ções e dos descobrimentos marítimos, no sé- 1571, nas águas do Mediterrâneo, prestes a ser enquanto desdobramento das virtudes morais,
Assim, a civilização, em seu sentido mais alto, culo XVI, que é também o século da Renascen- inteiramente dominado pela poderosa armada cujos fundamentos residem em valores eternos.
teve origem na Idade Média, como resultado ça. Vieram em seguida as conquistas no campo turca esta sucumbe ao ser enfrentada pelas Evidentemente, não podem os homens, os
do profundo influxo transformador exercido da ciência e da técnica, levando ao grande de- host~s cristãs, sob o comando de D. João de cives estar forrados de tais e tantas virtudes
pela Igreja sobre as almas e os costumes. Daí senvolvimento industrial, com que alguns paí- Áustria (1545-1578), repelindo-se assim nova sem ~ma consciência bem formada. E os prin-
se expandiu especialmente pelo Novo Mundo, ses europeus, avantajados pelas condições que investida do Islão. Com influências orientais, cípios de uma formação sólida cimentam-se na
implantando-se na América espanhola e no estas circunstâncias lhes proporcionavam, reapareceriam estas ameaças em pleno século infância e na adolescência. Por isso, situa-se na
Brasil, e assim realizando, no dizer de Camões dominaram povos não civilizados ou de civili- xx. Não se trataria, apenas, do "perigo amare- família o núcleo dessa arquitetura, que é com-
(1525-1580), a dilatação da Fé e do Império zações inferiores doutros continentes, estabe- lo", em que alguns viram o poder do Extremo pletada na escola e na Igreja. Se a família fa-
(Lusíadas, Canto I, 2). Sentido bem diferente lecendo colônias na África e na Ásia. A "deca- Oriente levantar-se como prenúncio destrui- lha, fica seriamente comprometida a higidez
começaria a assumir, em lugar da Cristandade, dência do Ocidente" a que se refere Spengler, dor do mundo ocidental, nem tampouco de moral da sociedade. A família doente faz adoe-
a civilização européia marcada pelo princípio cujo livro foi escrito nos tempos da Primeira um retomo das multidões fanatizadas pelo cres- cer a sociedade, e as virtudes cívicas acabam
luterano do livre exame e pelo antropocentrismo Guerra Mundial (1914-1918), mais se acentuou, cente muçulmano, mas de uma nova barbárie, mera retórica.
da Renascença, em conflito com as tradições da em relação aos países da Europa, depois da sob o signo da foice e do martelo, como se viu V. Família - Pátria - Patriotismo.
catolicidade medieval. Estas eram conservadas Segunda Guerra (1939-1945). Os Estados Uni- com a transposição para o Ocidente do totali-
em certos países, principalmente no meio do dos da América assumiram a liderança da civi- tarismo comunista implantado entre os povos CIVITAS - v. Estado-Cidade.
povo simples. Preparado pelo nominalismo do lização ocidental, ao mesmo tempo em que a eslavos dominados por Moscou. Minados pelo
século XIV e pelo protestantismo, o subjetivismo Rússia soviética, ocidentalizada desde o czar espírito da Revolução, cujos nexos ideológi- CLASSES SOCIAIS
da filosofia moderna, a partir de Descartes (1596- Pedro, o Grande (1672-1725), firmava o seu cos se sucederam desde o século XVIII, dando Na antigüidade romana, classis era o termo
1650), abre as portas para uma revolução ideo- poderio, almejando a dominação mundial e origem às concepções totalitárias, os estadis- usado pelos censores, quando do levantamen-
lógica, que se manifestará no século XVIII, pas- subjugando vários povos com o seu imperialis- tas do Ocidente não ofereceram provas de sa- to estatístico da população, para caracterizar
sando da ordem das idéias para a das institui- mo. Entre essas duas potências maiores, países ber enfrentar tais ameaças com a mesma deci- diferentes grupos de pessoas em função da ri-
ções políticas (liberalismo, socialismo) e che- americanos e afro-asiáticos - muitos deles, são dos defensores da Cristandade em Poitiers queza que ostentavam.
gando a penetrar na Igreja (modernismo, progres- antigas colônias, agora Estados independentes e Lepanto. Pelo contrário, chegaram até a fa- A partir do século XVIII, o termo começou a
sismo). - faziam surgir a imagem do Terceiro Mundo, zer concessões ao inimigo, abrindo-lhe as por- ser empregado para identificar classes sociais

b
- 101- CLERICAliSMO
CLASSES SOCIAIS -100- CLASSES SOCIAIS cLÁUSULA PÉTREA

diversas. Adam Smith (1723-1790), David bens de espécies diversas (patrimonial, cultu- _ também é certo que a sociedade existe para individuais, a Constituição de 1988 oferece, no
Ricardo (1772-1825), Karl Marx (1818-1883) fi- ral, espiritual, etc.) possuídos por seus mem- o homem, cuja dimensão integral reclama uma artigo 5º, extenso elenco de normas, todas su-
guram entre os primeiros a fazer uso do termo bros e valorados segundo padrões conceituais estruturação da vida sócio-político-econômica postamente imodificáveis, de que poderão ori-
com esse sentido. A sociologia, desde o século predominantes. Daí deriva a separação entre apoiada em princípios que assegurem o res- ginar-se, entre outros, intrincados problemas
XIX, tem desenvolvido inúmeros estudos so- as classes, produzindo-se o fenômeno da dis- peito, a tutela e a valorização da dignidade de hermenêutica.
bre a estratificação social, procurando fixar os tância entre elas. Quando, no entanto, uma humana. Daí por que o mal não reside na desi- V. Constituição - Declaração de direitos - Demo-
fatores que lhe dão origem. Em toda e qual- política econômica sadia prevalece na socieda- gualdade de classes, que em si mesma não é cracia - Direitos fundamentais - Estado Federal
quer sociedade ocorre o fenômeno da diferen- de e ganham implementação as possibilidades injusta. Tanto mais que a tendência natural do _ Federalismo - Separação de poderes, Teoria da.
ciação de classes, manifestada com base em de expansão material e cultural dos indivíduos, homem é buscar uma vida sempre melhor -
valores de variada natureza. Fatores ligados à as distâncias entre as classes tendem a dimi- econômica, cultural, espiritual - a permitir- CLERICALISMO
economia (riqueza), à profissão (prestígio), à nuir e o processo de capilaridade social se di- lhe elevar-se a níveis cada vez mais dignos na Termo cunhado pelos liberais franceses, no
cultura (maior ou menor), etc. fazem surgir a namiza, permitindo a ascensão das classes sociedade, desde que esta lhe propicie condi- século XIX, tendo em vista combater a influên-
desigualização social, de que decorrem, numa inferiores às superiores. Em contrapartida, au- ções bastantes para tanto. cia ou interferência do poder espiritual - es-
escala vertical, estratos diversificados. Com- mentam as distâncias entre as três classes usual
v. Aristocracia - Burguesia - Casta - Circulação pecialmente a do catolicismo - na vida públi-
põem-se estes de elementos objetivos, comuns e genericamente consideradas - a alta, a mé- ca, com o objetivo último de promover a
das elites - Grupos intermediários - Marxismo
a dada parcela da sociedade, mas diferentes dia e a baixa, não obstante os matizes existen- laicização das instituições. Desde então, come-
- Massa - Povo.
dos encontrados em outras parcelas, que por tes entre elas (daí as subclasses: média alta, çou a gerar-se um crescente anticlericalismo,
sua vez os possuem peculiares, recortando-se média baixa) - quando ocorrem crises econô- CLÁUSULA PÉTREA cuja verdadeira face se revelava não propria-
assim classes sociais específicas. Quando cer- micas pertinazes ou quando a organização só- mente pela denúncia de abusos do clero, mas
tos ritos sociais típicos se cristalizam no âmbito cio-econômica ignora os princípios fundamen- É como se costuma denominar a disposição
contida em certas constituições, visando a tor- por um sectarismo anti-religioso que veio a ser
de cada classe, as pessoas que a integram esta- tais de justiça. Em situações dessa natureza, a notadamente exacerbado na França, durante a
belecem um tipo de convivência marcada por classe média tende à pauperização, e a baixa, à nar intocáveis algumas de suas matérias.
No Brasil, todas as constituições republica- IH República (1870-1940); na Alemanha do
determinados traços exclusivos. Desta forma, miséria. Instalam-se, assim, na sociedade, as Kulturkamp!(1870-1887); no Brasil da "Ques-
cada classe exibe uma subjetividade caracterís- sondições propícias às rebeliões, à revolução. nas anteriores à de 1988, à exceção da de 1937,
estabeleciam norma tornando insuscetível de tão Religiosa" (1872-1875); na Itália da "Ques-
tica, com sinais exteriores próprios, que de- E da história que - com a implantação dos tão Romana" (1898-1929); na Espanha, em dois
nunciam diferenças sócio-culturais no estilo de princípios do individualismo nas estruturas só- deliberação qualquer proposta de emenda
constitucional tendente a abolir a Federação e períodos: 1868-1874, quando da implantação
vida, no nível de educação, na linguagem, a cio-políticas, a partir do século XIX - a vida
a República. A Constituição de 1988, no entan- da I República, e 1931-1936, com a H Repúbli-
produzirem nas pessoas um comportamento dos homens em sociedade acabou ficando à
to, excluiu a República da cláusula pétrea, man- ca, quando os republicanos, além das tropelias
assemelhado, que permite agrupá-las segundo mercê do egocentrismo, tomando os fortes mais
tendo, porém, a Federação e acrescentando o sem conta praticadas contra os católicos, mas-
um padrão equivalente de prestígio social. Mas fortes, num total descaso pelos preceitos mais
voto direto, secreto, universal e periódico; a sacraram numerosos membros do clero; no
ao mesmo tempo que as pessoas de certa clas- comezinhos de justiça. Em razão disso, a luta
separação dos poderes e os direitos e garanti- México, onde o governo Calles (1924-1928)
se descobrem identidades que as interligam, de classes veio a eclodir e a desenvolver-se
desencadeou perseguição religiosa de extremo
processa-se simultânea separação das de ou- estimulada pela práxis marxista que a tem com~ as individuais. A intocabilidade desses vários
tras classes, constituídas por pessoas que regis- único motor da história, em constante movi- pontos converte em dogmas aspectos opináveis furor.
da estrutura e funcionamento do poder, che- No século passado, buscou ressonância o
tram outros tipos de identidade comum. mento, devendo trazer, como resultado final,
gando a lembrar a intangibilidade da vontade grito de Léon Gambetta (1838-1882), na sessão
Várias teorias se têm elaborado sobre as clas- a supressão de todas as classes, ou seja, a so-
do príncipe na monarquia do direito divino. de 4 de maio de 1877 da Assembléia Nacional:
ses sociais. Incorrendo geralmente em unila- ciedade sem classes. Não se compadece, po-
A federação pretendida nunca foi além da Le cléricalisme, voilà l'ennemilCom isso mani-
teralismo ou orientadas segundo perspectivas rém, com os fatos a utopia socialista: em todos
mera existência formal, pois a centralização do festava novo alento o sectarismo anti-religioso
ideológicas, deixam por isso mesmo de ofere- os países em que as doutrinas socialistas foram
poder é uma constante ao longo da história da de raízes racionalistas e iluministas, inaugura-
cer uma explicação objetiva e cabal do fenô- levadas à prática, acabou surgindo sempre uma
república brasileira. Outrossim, para o legisla- do pela Revolução Francesa (1789) e fomenta-
meno. Assim, enquanto Vilfredo Pareto (1848- classe substitutiva das extintas, ou seja, a nova
dor constituinte, inexiste qualquer outra forma do e propagado especialmente pela maçona-
1923) busca num individualismo extremado a classe, com seus privilégios e vantagens.
origem das classes, Karl Marx as faz derivar Sobre o assunto, a doutrina social da Igreja de participação do povo na vida política do ria. Para tanto, dentro dos órgãos do governo,
unicamente da propriedade dos meios de pro- há mais de um século vem ensinando, em su- país senão a efetuada por meio do voto direto, criavam-se e manipulavam-se os instrumentos
dução. Também Max Weber (1864-1920) cir- cessivos e importantes documentos - Rernm secreto, universal e periódico, a despeito das legais de coerção abusiva ou de perseguição
cunscreve a interpretação do fenômeno a novarnm (1891), Quadragesimo anno (1931), frustrações reiteradas que esse processo políti- desabrida. Como não era possível acabar de
determinantes de ordem econômica, enquanto Mater et Magistra (1961), Laborem exercens co tem ocasionado. Já no tocante à separação pronto com a Religião, considerada fenômeno
outros sociólogos, como Pitirim Sorokin (1889- (1981), Sollicitudo rei socialis (1987), Cente- dos poderes, a Constituição de 1988 foi a pri- típico de atraso cultural, intentava-se limitar-
1968) e Georges Gurvitch (1894-1965), pre- simus annus (1991), entre outros - que, quan- meira - das sete constituições republicanas lhe o campo de ação, confinando-a nos tem-
tendem que pela análise desenvolvida sobre do se vai organizar a sociedade, é preciso le- - a torná-la cláusula pétrea, não obstante o plos e nas consciências. Desta forma, espera-
a própria classe se pode esclarecer-lhe a for- var em conta o homem, na sua realidade desmentido dos fatos. Basta considerar que o va-se sua morte por inanição. Daí por que as
mação. ontológica e social, na sua dignidade e no seu Executivo, além de administrar, como lhe com- medidas anti-religiosas não poderiam ser tidas
Um aspecto relevante no estudo do assunto fim transcendente. Porque, se é verdade que pete, vem legislando cada vez mais (decretos- como simples premonição apoiada na consi-
diz respeito ao poder social que se forma nas classes sempre haverá - "pobres sempre os leis, medidas provisórias). Por fim, ao configu- deração de ocorrências verificadas no passado
classes por força da qualidade e quantidade de tereis convosco" (Mt 26,11, Mc 14,7, Jo 12,8) rar como cláusula pétrea os direitos e garantias e cuja avaliação importa ser feita no quadro
-103 - COEXIsrnNClA PAdFlCA
CUBNTELISMO
CLERICAliSMO -102 - CLERICAliSMO

CLIENTELISMO COEXISTÊNCIA PACÍFICA


dos costumes e da mentalidade de então. As zação da missão da Igreja se inclui também a Expressão que caracterizou as relações entre
condições históricas vividas nesses tempos participação dos leigos. É evidente que o mi- Procedimento que visa a aliciar ou a captar
eleitores ou adeptos políticos, mediante aten-os países comunistas e os países ocidentais,
desautorizavam, porém, qualquer paralelismo nistério sacerdotal, derivado diretamente dos depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
com épocas como a de Inocêncio 111 (Papa, de Apóstolos, cabe, por múnus próprio e com ex- dimento imediato ou futuro de seus interesses
pessoais. quando a Guerra Fria perdia intensidade. Os
1198 a 1216), quando, não obstante o reconhe- clusividade, àqueles que receberam poderes dois blocos, mantendo cada qual suas estrutu-
cimento da autonomia dos poderes religioso e especiais para tanto. Mas seria clericalismo não A política de clientela tem um capítulo ex-
ras sócio-políticas, coexistiriam, respeitando-se
pressivo na lauta distribuição de verbas, atra-
civil nas respectivas esferas, as atribuições do admitir que os leigos também são chamados à mutuamente, observadas a não-ingerência nos
poder papal, dada a sua amplitude, permitiam ação apostólica, em razão do batismo, não ca- vés do Orçamento Geral da União, destinadas
negócios internos, a não-agressão e a igualda-
com fins clientelísticos aos redutos eleitorais
ao Pontífice a adoção de medidas de natureza bendo essa função unicamente à hierarquia
de parlamentares mediante emendas à lei or- de recíproca. A política de coexistência pacífi-
política tendentes a assegurar os direitos da eclesiástica. Outrossim, errado seria atribuir a
ca veio a prevalecer, contrariamente ao que
çamentária. Ao longo de sua trajetória históri-
Igreja. Um tal fato, porém, não permite falar-se leigos funções específicas do sacerdócio mi-
ca, essa política veio a incrementar-se de ma-havia sustentado, no passado, Leon Trotski
em teocracia papal, como pretende uma inter- nisterial, independentemente de prévia outor-
neira mais ampla e intensa desde que se (1879-1940), segundo o qual os comunistas
pretação afoita, pois, a rigor, tratava-se de mera ga de mandato, após conveniente e adequado
implantaram as instituições políticas baseadasdeviam envidar todos os esforços para realizar
hierocracia, cujas características retratam o perfil preparo espiritual e cultural.
no individualismo e no partidarismo, vale di-de pronto a revolução mundial. Stálin (1879-
próprio de uma época. Não era por certo esse Clericalismo de outro tipo é o que consiste
zer, no abstracionismo político. O pouco valor1953), mais astuto, entendia diferentemente:
tipo de clericalismo que temiam os liberais. O em servir-se do prestígio da Igreja para propor,
atribuído ao voto, pelo fato de os candidatos antes de levar a efeito o empreendimento re-
que, na verdade, tinham em mira era especial- advogar ou promover soluções para problemas
às câmaras legislativas, uma vez eleitos, não volucionário global, era necessário aparelhar a
mente combater uma cosmovisão centrada em de ordem temporal- sociais, políticos, econô-
poderem ser cobrados, institucionalmente, peloUnião Soviética com o máximo de meios, sufi-
Deus, objetivando substituí-la por uma visão micos - , ultrapassando-se assim pertinentes
cientes para tornar invencível a operação. A
exercício do mandato, leva a converter o sufrá-
antropocêntrica da vida . O domínio do Estado considerações ou advertências sobre princípios
gio em meio de escambo. Os cabos eleitorais orientação de Stálin tem raízes no pensamento
colocava-lhes nas mãos um instrumental eficaz de fé ou de moral neles eventualmente envol-
vidos. A ideologização - ou até a partidarização são, em geral, os agentes dessa intermediação de Lênin (1870-1924), que propugnava a coe-
para levar a efeito esse intento. A legislação,
em que a prestação e a contraprestação se ope-xistência pacífica como "etapa do desenvolvi-
em vários países, veio multiplicando normas - de membros do clero e de conferências epis-
ram. Nessa operação, os votos valem emprego mento histórico", na linha da doutrina marxis-
que cerceavam os direitos da Igreja no tocante copais configura um clericalismo da pior espé-
cie, que é aquele que pretende instrumentalizar público, empréstimos, concessões, ou, até mes-ta. No XX Congresso do Partido Comunista da
à liberdade de culto, à constituição da família,
ao ensino. Não obstante essa animadversão, as consciências incapazes de discernir entre o mo, quantias em dinheiro que, obviamente, não União Soviética, em fevereiro de 1956, foi
tentativas foram feitas para chegar a u~ modus espiritual e o temporal, especialmente quando saem do bolso dos candidatos, mas dos finan- lançada formalmente a teoria da coexistência
vivendi entre ambos os poderes, mas todas este vem sutilmente mesclado com a palavra dadores de candidaturas. Este último expedien-pacífica, com vistas ao triunfo do socialismo
resultaram frustradas. Como as tenazes da per- de Deus e ganha força na aura carismática que sem o recurso às armas.
te, utilizado, usualmente, entre eleitores mais
seguição - velada ou aberta - tendiam ao portam os eclesiásticos. Por razões óbvias, esse pobres, mascara-se, em geral, sob a forma de Perante a opinião pública ocidental, a coe-
estreitamento, a Igreja procurou despertar a cons- tipo de clericalismo - mais voltado para as xistência soava como comportamento civiliza-
remédio, alimento, vestuário, material de cons-
ciência católica para essa problemática toda a coisas do mundo do que para as coisas de Deus do de regimes antagônicos. Já o centro do po-
trução. Existem disposições, na lei eleitoral bra-
fim de se encontrarem meios eficazes de de- - conta, invariavelmente, com a simpatia e sileira, que punem procedimentos dessa natu- der comunista - além de contar com uma
fender os princípios da fé e da moral cristãs devotamento até mesmo daqueles que reza. No período eleitoral, especialmente em anestesiante aura de simpatia que a idéia des-
ameaçados. Nesse sentido foram-se sucedendo propugnam a laicização da sociedade. E assim pertava no Ocidente - tinha na coexistência o
relação aos casos mais gritantes, instauram-se
os documentos pontifícios, que sustentavam e ocorre porque, em geral, esse clericalismo táti- os processos pertinentes. Mas, terminadas as "clima de paz" propício a permitir-lhe tranqüi-
explicitavam pontos fundamentais da doutrina co leva água, por paradoxal que pareça, ao eleições, já não se tem notícia nem do anda- la expansão do complexo industrial-militar so-
católica, com suas necessárias repercussões na moinho de um anticlericalismo estratégico cujo mento, nem da conclusão final desses feitos. viético, sem prejuízo da implementação das
ordem sócio-político-econômica, já então ma- objetivo final é suprimir a hierarquia eclesiásti- De punições, portanto, nem falar. Já o disse atividades de agentes dirigidas ao objetivo fi-
nipulada por extensa modelagem laicizante. As ca. Está nessa linha a pretendida "democratiza- nal de dominação, mediante as chamadas "guer-
famoso político brasileiro: "a lei, ora, a lei. .. " E,
dificuldades não eram pequenas, pois certas ção" da Igreja, a qual, enquanto instituição, se nas eleições seguintes, com a adequada discri-ras de libertação" ou a infiltração nas estrutu-
infidelidades - como as do catolicismo liberal quer ver "reformada", para dar lugar a uma outra ção exigida pelas circunstâncias, retomam-se ras e órgãos de direção dos países ocidentais,
- além de romperem a unidade doutrinária e Igreja em que os sacerdotes sejam escolhidos as mesmas práticas, retorna, fortalecido, o sem excluir a "dialética dos tanques", como
eclesial, ofereciam condições propícias à ex- pelo povo (ou pelas "bases eclesiais"). Neste clientelismo. Até porque sua causa primeira (ose deu na Hungria (1956) e na Tcheco-Eslová-
pansão das "idéias novas", com as quais, aliás, caso, os sacerdotes - e também os bispos, e, artificialismo da representação política), conti-
quia (1968).
se aparentavam. Não se tratava de fomentar por que não, o Papa? - seriam meros delega- nuando a existir, produz os mesmos efeitos, Independentemente do caráter unilinear e
uma aglutinação de forças de caráter monolítico, dos do povo. É a desierarquização total, termo além de outros (abstenção, voto nulo, voto emexclusivista com que o termo foi utilizado pela
mas de fazer com que os católicos, embora atu- final do processo de laicismo desencadeado no branco), todos danosos ao bom atendimento propaganda comunista, a coexistência pacífica
ando sob formas diversas, mantivessem ínte- século XIX, no âmbito da sociedade, e que ora pode derivar de injunções e ser determinada
dos reais e legítimos interesses da sociedade,
gras as verdades básicas da doutrina cristã. se volta para o interior da própria Igreja. Esse que se vê desamparada de uma representação pela conveniência recíproca de países que, em
Modernamente, laicizadas as instituições, for- ideologismo igualitarista faz tábua rasa do ca- função de necessidades prementes, se vêem
política articulada à sua estrutura natural e or-
mas novas de clericalismo vieram a se mani- ráter divino tanto da instituição hierárquica da gânica. obrigados a encontrar um modus vivendi com-
festar. Uma delas, a que entende a Igreja tão-só Igreja quanto do ministério sacerdotal. patível com os próprios interesses, não obstante
V. Corrupção - Fisiologismo - Representação
em função de sua hierarquia eclesiástica. Esse V. Anticlericalismo - Catolicismo liberal - Pro- política. se regerem por sistemas políticos opostos. No
reducionismo esquece ou ignora que na reali- gressismo - Relações Igreja-Estado.
COLETIVISMO -104- COLONlALISMO COLONIAUSMO -105 - COLONIAUSMO

entanto, a mera coexistência pacífica, despida bancos, indústrias, matérias-primas, meios de nível superior o estado das populações subme- repulsa global sob o rótulo infamante de
de engodos ideológicos, tende a assumir uma transporte, etc. Essa coletivização é considera- tidas, como se deu nas Américas com o impé- colonialismo. Na verdade, esta expressão cabe
feição transitória, devido à interdependência da o desfecho necessário da evolução históri- rio português e o espanhol a partir do século perfeitamente para indicar um tipo de coloni-
cada vez maior dos países. Até mesmo porque ca, segundo o determinismo dialético, a con- XVI, tendo por mais alto objetivo a evange- zação mercantilista opressiva, predatória e ex-
a planetarização dos problemas é acicate à co- cluir numa sociedade sem classes. Instrumento lização levada a efeito pelos missionários. Es- ploradora de povos indefesos e subdesenvol-
operação internacional, e o espectro da guerra de aceleração desse processo é a luta de clas- tudando a ética da colonização espanhola no vidos, tendo em vista nada mais do que o
nuclear faz da pedagogia do medo inarredável s~s, "cuj.o l~nce final, pelas vias legais ou pela "século de ouro", Joseph Hõffner faz ver que proveito e as vantagens da metrópole. Por ve-
instrumento de persuasão na busca da segu- vlolenCla, e a apropriação coletiva e conseqüen- essa colonização, estendendo-se até os zes, viu-se o homem branco, julgando-se etni-
rança coletiva e da via pacífica para a solução te produção coletiva. Isto consumado, tudo se primórdios do século XIX, civilizou povos sel- camente superior e portador privilegiado de
?os conflitos, com vistas à convivência, quiçá torna de todos, desaparecendo as classes. vagens ou que viviam em formas sociais gros- uma alta missão histórica, ser levado a despre-
Justa, entre os homens. Foi a partir da concepção individualista do seiras e muitas vezes degradantes, concluindo: zar os indivíduos de outras raças, marginali-
V. Guerra - Pacifismo - Paz. homem, propugnada pelos teóricos da Revolu- "suas realizações, imensas e perenes, continuam zando-os pela segregação ou chegando a
ção Francesa (1789), que se instalou um pro- vivas até hoje" (Colonização e Evangelho, trad. eliminá-los, como se deu com a extirpação dos
COGESTÃO - v. Autogestão. cesso de crise mundial permanente na vida do alemão, Presença Edições, Rio de Janeiro, peles-vermelhas no norte da América. Muito
social, política e econômica. A sociedade veio 3ª edição, 1986, p. 381). Por sua vez, Salvador outro foi, no mesmo continente, o modo pelo
COLETIVISMO a ser considerada como constituída tão-só de de Madariaga, no Cuadro histórico de las Indias qual se processaram as relações de portugue-
Sistema que se caracteriza pela apropriação indivíduos, para os quais o État gendarme deve (Editorial Sudamericana, Buenos Aires), anali- ses e espanhóis com os indígenas, numa políti-
c~letiva dos bens, especialmente os de produ- limitar-se a garantir a "coexistência das liber- sa a organização social e política dos quatro ca de assimilação, da qual se originou a
çao. Pretende-se que, desta forma, as coisas dades". Essa atomização da sociedade foi leva- vice-reinos da Coroa de Castela (Nova Espanha mestiçagem.
todas - bens e serviços - fiquem nas mãos da a efeito com a supressão, por força de lei, ou México, Nova Granada, Peru e Rio da Pra- Colonialismo pode significar também uma
de todos. Esse todos, na verdade, consubstancia- dos grupos intermediários entre o indivíduo e ta), mostrando como a legislação e as institui- colonização de fato, não reconhecida juridica-
se no Estado. Consuma-se, então, a estatização, o Estado. Ficaram os indivíduos entregues a si ções deles asseguravam uma ordem jurídica mente pela comunidade internacional. Assim
de caráter relativo ou absoluto, conforme a mesmos, vale dizer, "livres", e os poderosos, respeitadora da dignidade humana e dos di- foi o domínio econômico da Inglaterra nas áreas
filosofia política implantada. Será parcial o no uso da liberdade absoluta, acabaram por se reitos naturais; havia mesmo um sistema de dos impérios espanhol e português, mais acen-
coletivismo se restrito a certos setores: coleti- tornar mais poderosos. Daí a exploração do garantia de direitos e até de autogoverno, com- tuado ainda depois da independência das na-
vismo pedagógico, em que as atividades educa- homem pelo homem. A única solução para esse provado no regime dos ayuntamientos, das ções americanas. Acompanhando o surto do
cionais são exercidas exclusivamente pelo Es- problema, segundo as doutrinas coletivistas é audiências (tribunais) e dos juízos de residên- capitalismo industrial e bancário, essa mesma
tado, do qual dependem a organização, a a coletivização dos bens de produção. E o i~s­ cia. Donde a tese do historiador argentino Ri- dominação foi sendo exercida pelo imperialis-
supervisão, a direção, o professorado, os pro- trumento dessa coletivização é o Estado. As- cardo Levene, bem expressa no título do livro mo inglês e posteriormente também pelo nor-
gramas, a carga horária, etc.; coletivismo pre- sim, na prática e efetivamente, coletivização e que escreveu a respeito: Las Indias no eran te-americano em escala mundial. Extintos os
videnciário, que monopoliza, em âmbito esta- estatização se identificam, embora, para o mar- colonias (Espasa-Calpe, Col. Austral nº 1.060). sistemas coloniais, depois da Segunda Guerra
tal, a prestação de toda assistência concernente xismo, isso constitua mero estágio evolutivo, O mesmo pode dizer-se do Brasil com relação Mundial (1939-1945), o capitalismo subsistiu,
à seguridade social; coletivismo agrário, que antes de ser atingida a "forma superior do co- a Portugal, cujas leis e instituições se transpu- surgindo já agora sob a forma de um capitalis-
promove a transferência da propriedade da terra letivismo", ou seja, o comunismo. nham para o seu domínio na América, sem um mo de Estado o imperialismo da União So-
para o Estado, e assim por diante. Dificilmen- estatuto colonial que o inferiorizasse juridica- viética, com objetivos econômicos e políticos
V. Comunismo - Estatismo - Socialismo - Totali-
te, porém, se encontrará o coletivismo confi- tarismo. mente. Mais remotamente, a atuação civilizadora concebidos em função de uma ideologia.
nado exclusivamente a um ou outro setor. A de Roma em seu Império preparou a civiliza- O imperialismo ideológico (no caso da URSS:
tendência desse coletivismo setorial é ampliar- COLONIALISMO ção ocidental moderna, herdeira da cultura a marxistização das sociedades) é uma forma
se, ou por influência de ideologias estatistas, greco-romana e transfigurada pelo Cristianis- de colonialismo cultural, devendo entender-se
Nas mais variadas épocas, povos fortes pelo mo. Em todos esses casos, o que vemos é a por este a imposição de idéias, costumes, ma-
ou porque a interdependência dos vários seto- poder militar e pela organização política têm-
res de atividades acaba gerando uma absorção colonização como forma de ação cultural e civi- neiras de ser e até expressões de linguagem,
se expandido em conquistas territoriais, sub- lizadora; isto não exclui os abusos e mesmo espalhadas pelo mundo em detrimento da iden-
estatal em cadeia. Assim tem ocorrido tanto metendo as populações dominadas a um regi-
po~ vias democráticas quanto ditatoriais'. os maus-tratos infligidos aos nativos, provo- tidade cultural e histórica dos povos atingidos.
me de colonização. Assim se engrandecem e cando, por exemplo, no Brasil e na América Assim vão sendo enfraquecidas ou mesmo
E, porém, mediante a propriedade coletiva chegam a formar grandes impérios, como o
dos bens de produção, característica de todos espanhola, desinteligências e atritos das auto- destruídas muitas tradições, alteradas as men-
I~p"ér~o Romano, na antigüidade, e o Império ridades reinóis com os missionários, empenha-o talidades e desfigurado o caráter nacional. Ten-
os socialismos, que o sistema em geral se im- Bntanlco, nos tempos modernos. A potência
planta, utilizando-se de processos diversos: o dos estes em defender a liberdade dos índios. de-se para uma padronização universal e para
colonizadora organiza a administração local e Pelos aspectos positivos, a colonização, ele- um nivelamento coletivista, que se manifestam
do socialismo democrático, que persegue a dirige a economia extrativa e produtiva, tendo
coletivização por meio de legislação aprovada vando o padrão de vida dos povos e favore- de diversos modos, na arquitetura urbana (é o
em vista o proveito que lhe pode vir dos miné- cendo-lhes o desenvolvimento, foi por muito caso de Brasília), na música (haja vista a músi-
pelo voto majoritário dos parlamentares; e o rios e da agricultura. Impondo-se aos habitan- tempo invocada como um penhor de glória. ca pop), no ensino, no comportamento social,
do socialismo marxista que visa ao mesmo fim tes nativos, estes ficam numa posição de inferio- Ultimamente, porém, vista unilateralmente nas etc. Para isso muito têm contribuído os meios
por meio da "ditadura do proletariado". ridade, mas podem vir a beneficiar-se graças à suas lacunas e manchas, e sem o devido cuida- de comunicação de massa, principalmente a
O coletivismo absoluto ou integral manifes- ação civilizadora sobre eles exercida. Impérios do de se distinguir entre os diferentes tipos de televisão, cabendo registrar também a influên-
ta-se pela "propriedade comum" das terras , houve em que os colonizadores elevaram a um colonização, esta passou a ser objeto de uma cia da publicidade comercial. Nesse sentido, o
COLONIAUSMO -106- COLONIZAÇÃO
COLONIZAÇÃO -107 - COLONIZAÇÃO

American way of li/e (concepção e estilo de exemplificar, o que se deu com os ingleses,
da Prata) em que a Coroa de Castela dividiu enclaves europeus na América (p. ex., as
vida dos norte-americanos) vai penetrando em que deixaram sua pátria indo povoar regiões
seus domínios do Novo Mundo. A evangeliza- Guianas). As potências que tinham colônias na
muitos países. As novas gerações vão perdendo da América do Norte. Colônia diz-se também África, quando da Conferência de Berlim (1884-
ção, empreendida pelos missionários, tinha o
a sensibilidade e a afeição pelos valores nacio- de um agrupamento de estrangeiros radicados
apoio do poder civil; a catequese erguia o ní- 1885), procederam a uma repartição do conti-
nais, ao mesmo tempo em que se debilita o em país no qual entram como imigrantes; as- nente africano, tornada sem efeito depois da
vel intelectual das populações indígenas, sen-
patriotismo e ameaça eclipsar-se a própria idéia sim, no Brasil, a colônia italiana, que, antes de Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ocasião
do ministradas ao mesmo tempo as primeiras
de pátria. Daí resulta também a propagação da se destacar na atividade industrial, forneceu letras; na América espanhola, desde o século em que a Alemanha, vencida, perdeu as suas
democracia baseada no sufrágio universal, se- considerável número de trabalhadores para a XVI, isto é, o primeiro século da conquista e colônias. Essa repartição, reconhecida pelos
gundo as concepções da Revolução Francesa atividade agrícola, sendo que o conjunto das povoamento, surgiam as universidades. A mes- quatorze países que participaram da Conferên-
(1789). A ideologia democrática apresenta va- casas onde residiam numa fazenda também ma legislação da metrópole portuguesa, con- cia, visava a garantir as potências continentais
riantes, conforme se trate da influência prepon- recebeu a denominação de colônia. densada nas Ordenações do Reino, era aplica- européias em face do poderio do Império Bri-
derante do capitalismo da economia de merca- O mesmo termo é usado, em acepção mais
da no Brasil sem um estatuto colonial que o tânico, que, aliás, começava a dar sinais do
do ou do capitalismo de Estado próprio dos ampla, com vistas à expansão de uma potência reduzisse a posição de inferioridade jurídica; próximo declínio. Por ações militares e por tra-
países socialistas. Sua origem, como tal, en- imperial, submetendo outros povos com a sua as Leyes de Indias, de Isabel, a Católica (rainha tados foram sendo estabelecidas as colônias
quanto filosofia política, está no iluminismo força militar, governando-os e administrando- de Castela, de 1474 a 1504), asseguravam os africanas, e procurou-se chegar a um modus
do século XVIII; infundiram-na na França as os. A colonização redunda em vantagens para direitos das populações nativas com dispositi- vivendi entre as potências que competiam en-
sociétés de pensée (sociedades de pensamento) a potência dominante, enriquecendo-a, e pode vos que têm suscitado a admiração dos sécu- tre si na conquista e colonização. Com vistas a
e as lojas maçônicas, estas atuando por uma também beneficiar o país reduzido a colônia, los. Tribunais de Justiça aplicavam essa sábia um aproveitamento mais eficaz dos recursos
vasta rede estendida pelos países da Europa, elevando-o a um nível superior de cultura e
legislação; órgãos administrativos adequados naturais dos países dominados, os Estados se
das Américas e mesmo de outros continentes. civilização (a expressão "colônia" é oriunda do
permitiam atender aos interesses das diversas empenhavam numa política nacional adrede
É muito significativo que no Brasil, durante a verbo latino colo, colere, do qual procede tam-
categorias sociais; e as liberdades locais, nos dirigida a esse objetivo, que assim ultrapassava
primeira República (1889-1930), o dia 14 de bém "cultura"). Assim foi, na antigüidade, a
municípios, reproduziam o sistema foraleiro de os limites das companhias e empresas priva-
julho, data simbólica da Revolução Francesa, colonização levada a efeito, na bacia do Medi- Portugal e da Espanha. Finalmente, traço ca- das." Numa visão retrospectiva, a colonização
tenha sido oficialmente declarado feriado na- terrâneo, pelos fenícios, pelos gregos e pelos racterístico da colonização luso-espanhola foi da Africa pode ser considerada em várias eta-
cional. A adoção da democracia de inspiração romanos, estes últimos estendendo-se pelo con- sempre a miscigenação entre colonizadores e pas, a partir, muito remotamente, das levas vin-
iluminista levou ao estabelecimento de regi- tinente europeu, transmitindo às nações da t;ativos, estendendo-se aos negros vindos da das da Índia nas costas do Pacífico, seguidas
mes políticos inadequados às condições reais Europa o legado da cultura clássica e propor- Africa em regime de escravidão, ao contrário pelos árabes ao norte e penetrando também
de cada país e em antagonismo com a sua for- cionando condições que vieram favorecer a ir-
do ocorrido com a segregação racial das colô- no interior da África negra.
mação histórica. Daí crises freqüentes e sem radiação do cristianismo. Ao despontar dos tem- nias inglesas e holandesas, não se devendo O término da guerra de 1914 representou a
solução em povos que foram sofrendo os efei- pos modernos, a história registra a grandiosa esquecer a extirpação dos peles-vermelhas pe- liquidação dos imperialismos da Alemanha e
tos de um colonialismo cultural e deixaram de obra colonizadora de Portugal e da Espanha, los colonizadores da América do Norte. da Turquia, tendo sido os países por uma e
preservar devidamente sua maneira de ser de tendo por ponto de partida a expansão maríti- Quando, depois de Portugal e Espanha, ou- outra colonizados sujeitos a mandatos interna-
pensar e de sentir. Semelhantes influências têm- ma, o périplo africano e o descobrimento da tros países, a partir do século XVII, se entrega- cionais, estipulados no Pacto da Sociedade das
se verificado nos povos não só do continente América. Embora voltada também para objeti- ram à colonização, surgindo novos impérios, Nações, e de vários tipos, conforme a maior ou
americano, que as receberam há mais tempo, vos mercantis, essa obra subordinava-se a fina- prevaleceram nestes, acentuadamente, os pro- menor autonomia concedida (assim, os países
como também do "terceiro mundo" em geral, lidades mais altas, revestindo-se de um sentido
pósitos mercantilistas, havendo exceções, como de mandato da categoria A - Síria Líbano
e ainda da velha Europa, que noutros tempos
até exportava as modas culturais. Depois da
missionário,
to de Almeirim
como se depreende do Regimen-
(1548), outorgado por D. João
a da França, com a idéia de "missão civilizadora" Transjordânia e Palestina - começa~am a se;
na sua política de colonização, dando ensejo à preparados para a independência a curto pra-
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Euro- III (rei de Portugal, de 1521 a 1557) a Tomé de presença de missionários católicos, devendo zo). A Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
pa - outrora centro da civilização ocidental e Sousa (1502-1579), primeiro Governador-Ge-
destacar-se a notável obra realizada pelo Ge- teve conseqüências de vulto ainda maior que a
colonizadora de povos - ficou quase sem de- ral do Brasil (de 1549 a 1553), onde é assinalada
.
neral Lyautey (1854-1934). Vimos então o Im- Primeira no concernente ao destino dos impé-
fesa ante as duas grandes potências mundiais, como principal meta a ser atingida a conversão
pério Britânico abrangendo, além da Índia e rios coloniais. Organizaram-se e propagaram-
Estados Unidos e União Soviética, e passou a do gentio à Fé cristã. Já o decisivo impulso
outras possessões asiáticas, áreas do continen- se movimentos nacionalistas, constituíram-se
ser cultural e ideologicamente colonizada, sem dado às navegações pelo Infante Dom Henrique
te negro, como a Nigéria, Rodésia e a Niassa- frentes nacionais de libertação, e a União Sovié-
se esquecer da situação de dependência polí- (1394-1460) fora ditado pelo intento, deste prín-
lândia; a França ocupando a Argélia e várias tica, na disseminação do comunismo pelo mun-
tica e econômica de seus países. cipe, de cortar o passo ao Islão - ameaça cons-
regiões da África oriental e equatorial, tendo- do todo, prevaleceu-se da posição privilegiada
tante à Península Hispânica - , atingindo-o pe-
V. American way 01 lile - Anticolonialismo - Co- se estabelecido também na Indochina· a em que a deixaram os seus aliados das demo-
las costas, e de assegurar comércio direto com
lonização - Imperialismo - Marxismo - Racismo. Holanda, na Indonésia; a Bélgica, no Cong~; a cracias ocidentais, para fomentar, nas colônias,
as Índias, para o tráfico das especiarias, sem
Alemanha, em regiões centro-africanas e no movimentos armados de independência, que
necessidade de recorrer aos intermediários ára-
COLONIZAÇÃO hemisfério sul; a Itália, na Eritréia e na Somália; vieram a favorecer um novo colonialismo de
bes. A elevada concepção da tarefa coloniza-
sem falar do Império Otomano, desde fins da matiz ideológico. Casos típicos foram a A~gé­
Termo por vezes empregado com referência dora, entendida como civilizadora, foi sobeja-
Idade Média, e da Rússia, colonizadora da Si- lia, o Vietnã, Angola e Moçambique. A coloni-
a contingentes humanos que se estabelecem mente demonstrada pelos portugueses no Brasil
béria e que chegou até a Manchúria, donde zação, na verdade, não desaparecia; desapare-
em terra alheia, despovoada ou de população e pelos espanhóis nos quatro vice-reinos (Nova
foi desalojada em conseqüência da guerra rus- ciam, sim, razões que a legitimassem, vindo
rarefeita, aí ;fundando uma colônia. Foi, para Espanha ou México, Nova Granada, Peru e Rio
so-japonesa (1904-1905). Lembremos ainda os em seu lugar um colonialismo meramente ex-
COLONIZAÇÃO -108- COMlCIO CoMlCIO -109- cOMISSÃo

plorador. As riquezas naturais dos territórios por centúrias, de acordo com o princípio cen- nos países comunistas, como a ex-União So- organização política, as comissões integram os
descolonizados (diamante, ouro, minerais atô- sitário estabelecido. Depois da reforma serviana, viética, a China de Mao Tsé-tung e Cuba de órgãos de representação, cabendo-Ihes estudar
micos, petróleo, etc.) e suas facilidades para a as tribos passaram a ser trinta e cinco, quatro Fidel Castro. e preparar as proposições (projetos, emendas,
produção agrícola cada vez mais excitavam, no urbanas e trinta e uma rústicas. Nos comícios Tanto nos regimes totalitários, de partido indicações, requerimentos ou pareceres) a se-
mundo das nações, a cobiça dos poderosos, por tribos manteve-se o critério de escrutínio único, quanto nos democráticos, sob o império rem discutidas e votadas pelo plenário. Com
que sutilmente se foram assenhoreando dessa por unidade grupal (cada tribo deliberava pela da partidocracia, os comícios perdem o senti- essa finalidade, surgiram pela primeira vez no
produção, procurando controlá-la a seu favor. maioria dos que a integravam). Antes dos do original que tiveram entre os gregos e os Parlamento inglês, onde se chamam committees
Por conseguinte, embora a ordem jurídica in- comitia tributa já havia reuniões exclusivamen- romanos, ou nos cantões suíços. Nestes casos (comitês). No direito público inglês, o termo
ternacional não mais reconhecesse a coloniza- te da plebe, convocadas pelo tribuno (concilia históricos eles resultaram da organicidade so- commission caracteriza as comissões de sindi-
ção, sistemas coloniais de fato - aliás, já antes plebis), daí se originando os plebiscitos. Os co- cial, ao passo que na sociedade atomizada pelo cância que desempenham suas funções na es-
existentes - subsistiram, vinculados às finan- mícios tinham competência em matéria eleito- liberalismo e pelo totalitarismo o povo organi- fera administrativa.
ças internacionais, quer em benefício do capi- ral, legislativa e judiciária, bem como em ques- zado cede lugar à massa informe, manipulada No Brasil, a Câmara dos Deputados possui
talismo de mercado livre, quer do imperialismo tões de guerra e de paz. Questões de guerra demagogicamente por minorias atuantes na luta comissões permanentes (de Constituição e Jus-
soviético marxista. eram decididas pelos comícios centuriatos. pela conquista do poder. Os comícios deixam tiça, Diplomacia, Economia, Educação e Cultu-
No mundo antigo, não foi apenas em Roma de ser veículos de expressão da opinião públi- ra, Finanças, Legislação Social, Redação, Saúde
V. Anticolonialismo - Colonialismo - Comunida- Pública, Segurança Nacional, Serviço Público
que floresceram os comícios. Encontram-se eles ca e se transformam em artifícios de propagan-
de Hispânica - Comunidade Lusíada - Escravi- Civil, Tomada de Contas, e Transportes, Co-
também, com modalidades diferentes, entre as da, deles se servindo os que querem criar con-
dão - Imperialismo. municações e Obras Públicas), que funcionam
instituições democráticas de Atenas e de outras dições favoráveis à sua própria ascensão, incutir
cidades gregas. Pode-se mesmo dizer que os nas massas um estado de espírito ou dirigi-las durante toda a legislatura, e comissões tempo-
COMÍCIO
comícios foram característicos da organização segundo objetivos ideológicos. Não apenas os rárias, que só funcionam durante a legislatura
Assembléia popular na antiga Roma (de cum política do mundo greco-romano. Em épocas partidos políticos atuam dessa forma: até mes- em que forem constituídas ou que se extin-
e ire: ir com). Comitium, de início, era a desig- históricas posteriores vão apresentar aspectos mo os homens do Governo, tendo em vista guem uma vez atingido o fim a que se desti-
nação do lugar onde o povo se reunia. Estava novos, conforme as circunstâncias dentro das perpetuar-se no poder ou eleger os seus corre- nam. As comissões temporárias compreendem
situado na parte norte do Fórum, em forma de quais aparecem, cumprindo assinalar as assem- ligionários, lançam mão de tais processos, não as especiais (destinadas ao estudo de assuntos
quadrado, tendo sua disposição sido alterada, bléias populares dos cantões suíços com a prá- sem despesas fabulosas e com uma teatralização relevantes e que subsistem até serem alcança-
e diminuída a extensão da área, no tempo de tica da democracia direta. Na Inglaterra, acom- que, a despeito de sua vulgaridade, chega a dos os fins objetivados: Comissão do Polígono
Júlio César, para a construção do -Templum panhando a evolução do regime parlamentar, suplantar a do Duce ou a do Führer. Essa ma- das Secas, Comissão de Valorização Econômi-
Felicitatis e da Cu ria julia. Quanto às assem- os meetings políticos tiveram ampla repercus- nipulação da opinião pública alcança amplas ca da Amazônia, Comissão da Bacia do São
bléias vindas da época da Realeza, foram mais são, anunciando os comícios das modernas dimensões com as possibilidades oferecidas Francisco), as de inquérito (destinadas a inves-
tarde, com o declínio da República, perdendo democracias. Em 1817, o Seditious Meetings Act pelos meios de comunicação de massa, desta- tigar fatos determinados), as externas(destina-
a grande significação que tinham. Cumpre dis- dispunha sobre a ilegalidade de certos comí- cando-se particularmente a televisão, instrumen- das a representar a Câmara em certos atos).
tinguir os comitia cu ria ta, os comitia centuriata cios que pudessem perturbar as sessões do Par- to de poderosa força hipnótica. O Senado possui comissões permanentes (de
e os comitia tributa, respectivamente assem- lamento. Visando igualmente a evitar abusos, O cunho propagandístico dos meetings e dos Finanças, Constituição e Justiça, Relações Exte-
bléias por cúrias, por centúrias e por tribos. foi promulgado o Public Meetings Act (1908). comícios modernos em geral distingue-os dos riores, Trabalho e Previdência Social, Forças
Dividido o povo romano em trinta grupos ou Com as transformações operadas depois da comícios romanos, que eram órgãos decisórios, Armadas, Agricultura, Indústria e Comércio,
cúrias - cabendo dez a cada uma das três an- Revolução Francesa (1789) e com a formação embora as deliberações fossem conduzidas pelo Viação e Obras Públicas, Educação e Cultura,
tigas tribos, Ramnes, Tities, Luceres - cada da sociedade de massas, os comícios passaram magistrado que os convocava e presidia, fa- Saúde, Redação de Leis e Comissão Diretora),
cúria tinha direito a um voto, sendo este o re- a revestir-se de outra feição, recebendo, além zendo valer a sua autoridade, por vezes além de comissões especiais (internas e exter-
sultado da votação processada anteriormente do mais, o impacto das ideologias. Se havia discricionariamente. Na lição de Mommsen nas) e comissões de inquérito.
entre seus membros. Tratava-se de assembléias demagogos entre os antigos gregos e se os con- (1817-1903), a decisão dos comitia era um ato O Congresso Nacional poderá ter comissões
aristocráticas do patriciado, cujo predomínio dottieri italianos da Renascença souberam ex- bilateral, substancialmente um acordo entre os mistas, isto é, que reúnem deputados e sena-
incontestável foi aos poucos diminuindo à pIorar as aspirações populares, seus sucesso- cidadãos e o magistrado. Nas democracias dores, para opinar sobre vetos opostos pelo
medida que crescia a população, se desenvol- res na democracia moderna encontraram clima modernas, os comícios visam sobretudo a con- Executivo a projetos de lei ou outros assuntos
via o comércio e o elemento patrimonial co- ainda mais propício, multiplicando-se os cau- quistar o sufrágio dos cidadãos eleitores, ser- de interesse mútuo de ambas as Câmaras.
meçava a prevalecer. Com a reforma social atri- dilhos e os líderes carismáticos. Nesse sentido, vindo também para o enaltecimento, perante A Constituição brasileira de 1969 inovara
buída a Sérvio Túlio (578-534 a.C.), distribuídos os fenômenos do fascismo, na Itália, e do nacio- as massas, de líderes políticos em busca de quanto à competência das Comissões, permi-
os cidadãos em cinco classes à base do nal-socialismo, na Alemanha, são sumamente apoio popular. tindo aos órgãos legislativos, mediante ato in-
patrimônio fundiário, surgiram os comícios significativos: Mussolini (1881-1945), em meio terno, a delegação a elas da faculdade de ela-
centuriatos, que só floresceram na República, à teatralidade do ambiente da Piazza Venezia, V. Carismático - Democracia - Massa - Povo borar certas leis.
deles participando patrícios e plebeus. Obede- empolgava, com sua oratória e seus gestos, a - Partidocracia - Partidos políticos. A Constituição brasileira de 1988 criou a Co-
ciam a critérios econômicos . e militares, e os multidão reunida naquela praça, e Hitler (1889- missão representativa do Congresso Nacional,
COMISSÃO para funcionar "durante o recesso" parlamentar,
cidadãos compareciam armados, razão pela qual 1945) arrebatava diabolicamente as massas,
não podiam reunir-se no comitium, mas so- como arauto de seu povo sedento de uma re- Dentre os vários significados que pode ter, o com competência delegada para legislar.
mente fora dos muros da cidade, sendo o Cam- paração às humilhações impostas pelo Tratado termo designa um grupo de pessoas encarre- No âmbito da Administração Pública, existe
po de Marte.p local das assembléias. Votava-se de Versailles (1919). E o mesmo há a observar gadas de cuidar de determinado assunto. Na a Comissão Processante - permanente ou espe-
COMMONLAW -110 - COMUNIDADE COMUNIDADE BRII'ÂNICA -111- COMUNIDADE HISPÂNICA

cial-, que é encarregada de apurar a respon- gas cortes reais de justiça, baseadas no costu- relacionamento das pessoas se processa me- da Commonwealth uma aliança garantida por
sabilidade por infrações disciplinares, mediante me geral do reino, constituíram o common law, diante complexa malha de laços psicológicos a contrato nem muito menos qualquer vínculo
processo administrativo regular. distinto do direito que se desenvolveu na Eu- produzirem um amálgama de sentimentos co- de caráter federativo ou confederativo. Predo-
No quadro internacional, existem várias co- ropa continental a partir do direito romano e a muns que corporificam sólida coesão social. minam entre eles interesses econômicos con-
missões, com objetivos diversos, como a Co- que os ingleses chamam civil law. Distingue-se, por isso, a comunidade, da socie- cernentes, em especial, a privilégios alfande-
missão Econômica das Nações Unidas para a Enquanto no continente europeu a herança dade, pois na constituição desta prevalecem atos gários recíprocos e à política monetária regida
América Latina - CEPAL, instituída, em 1948, do Direito Romano informava os sistemas jurí- de vontade regidos pela inteligência e coorde- pelo padrão libra.
pelo Conselho Econômico e Social das Nações dicos, na Inglaterra prevalecia o direito comum nados por uma autoridade para a realização de Originalmente, compunham a Comunidade
Unidas e cuja finalidade é ajudar os governos ou common law, caracterizado por Cooley um fim comum, não obstante os fins particula- Britânica os seguintes membros: Reino Unido,
latino-americanos a promoverem o desenvol- (1824-1898), no seu clássico Treatise on res a que visem seus membros. Na comunida- Canadá, Austrália, Índia, Paquistão, Nova
vimento econômico de seus países e elevarem Constitutional Limitations, como um conjunto de, ademais, a coerção deriva do próprio meio Zelândia, Cingapura, Nigéria, Uganda, Malásia,
o nível de vida de seus habitantes. de máximas de liberdade, ordem, iniciativa e ambiente cultural, com todo um complexo de Quênia, Malaoi, Tanzânia, Zâmbia, Serra Leoa,
V. Comitê. economia prevalecentes na direção dos negó- costumes, crenças, modos de ser e pensar, que Ceilão, Gana, Trindade e Tobago, Gâmbia, Mal-
cios públicos, administração dos interesses pri- em maior ou menor sentido condiciona o com- ta, Guiana, Jamaica, República da Irlanda, Áfri-
COMITÊ vados, regulamentação das instituições domés- portamento das pessoas e cujo desrespeito ca do Sul e Territórios administrados pela Grã-
Termo de sentido afim ao de comissão. Em ticas, e aquisição, controle e transferência da acarreta sanção. Sendo esta de caráter apenas Bretanha.
geral o comitê se organiza em face de certas propriedade. Cooley faz ver ainda que se trata moral, pode ter mais eficácia do que a sanção Alguns dos integrantes dessa relação se des-
circunstâncias ou de determinados acontecimen- do desenvolvimento de hábitos de pensamen- civil, existente na sociedade. A sanção civil apa- ligaram da Commonwealth, que tem na Confe-
tos, tendo, comumente, duração temporária. to e de ação do povo, sofrendo o direito daí relha as regras que impõem determinada con- rência dos Chefes de Governos dos respecti-
A expressão foi posta a circular pelos revo- decorrente modificações à medida que esses duta, sob a coerção da autoridade que garante vos países o órgão principal e no ocupante do
lucionários, na França, em 1789, com o Comité hábitos se vão transformando, gradual e insen- a unidade social. trono inglês a chefia suprema.
de Salut Public e o Comité de Sureté Générale sivelmente, com a marcha da civilização, intro- Clássico é o pensamento de Tõnnies (1855-
COMUNIDADE HISPÂNICA
denominações que encobriam, com notável ci~ duzindo novas necessidades e novos modos 1936) sobre o assunto, na obra Gemeinschaft
nismo semântico, a implantação do Terror (a de agir. und Gesselschaft (Comunidade e Sociedade). Já sob a dominação romana o termo "hispâ-
Roscoe Pound, na Encyclopaedia of the So- Segundo o autor, a comunidade resulta da es- nico" era usado para designar todos os habitan-
disposição arbitrária dos bens, da liberdade e
cial Sciences (primeira edição, 1930, v. "Com- pontaneidade da vida social estruturada natu- tes da Península onde hoje se situam Portugal
da vida das pessoas, mediante o confisco, a
mon Law") , nota que, no sentido mais amplo, ralmente, enquanto a sociedade deriva da von- e Espanha. Formavam eles a Hispânia, com-
opressão, e as depurações: a guilhot~na a fun-
o common law veio a abranger, adaptando-se tade das pessoas, orientada pela busca de um preendendo descendentes de iberos, celtas e
cionar dia e noite), em todos os setores da vida
a diferentes situações, a Inglaterra, a Irlanda, objetivo que as reúne, levando-as à interco- povos doutras raças.
francesa da época.
os Estados Unidos (salvo Luisiânia), o Canadá laboração. Por isso, na comunidade, as pes- Com esse significado, encontramo-lo em
Formam-se comitês de toda espécie. Os par-
(salvo Québec), a Austrália, a Nova Zelândia e soas encontram-se, enquanto na sociedade elas Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) como o vemos também
tidos políticos instalam comitês, em tempo de
Índia, excetuando-se quanto a esta última as entram. Na comunidade as pessoas mantêm- em André de Resende (1500-1573), em Camões
eleição, para promoverem o aliciamento de
populações hindus e maometanas. Segundo o se unidas apesar de tudo quanto as separa; na (1525-1580) e em Almeida Garrett (1799-1854).
votantes. Outros se constituem para fins de
mesmo autor, os dois característicos mais sa- sociedade, permanecem separadas apesar de Nas Espanhas das inscrições clássicas e até dos
orquestração ideológica e "conscientização re-
lientes do common law são a doutrina dos pre- tudo quanto fazem para se unir. roteiros primitivos, António Sardinha (1888-
volucionária", pois com o contingente diminu-
cedentes (judge made law) e a da supremacia Max Weber (1864-1920), em Wirtschaft und 1925) vê tanto Castela quanto Aragão, tanto
to de seus membros procuram demonstrar, em
do direito (rule of law). Gesselschaft(Economia e Sociedade), aponta o Portugal quanto Navarra, e os demais povos
alarde antes campanhas publicitárias, uma for-
sentimento do "nós" como a característica fun- peninsulares, vinculados não por unidade
ça que não possuem ("Comitê de Solidarieda- V. Direito positivo.
damental da comunidade. A relação social dá étnica ou simplesmente geográfica, mas pela
de ao Povo do Vietnã", "Comitê de Libertação unidade cultural e social que os empenha na
da Mulher", "Comitê de Defesa dos Povos Opri- COMPROMISSO - v. Tratado. origem a um comportamento inspirado num
sentimento subjetivo dos participantes no sen- realização do mesmo destino histórico, desde
midos", etc.).
tido de constituírem um todo. os séculos da Reconquista até aos da expansão
V. Comissão. COMUNIDADE marítima e da tarefa civilizadora e missionária
Grupo social cujos membros se integram por V. Sociedade. então iniciada. Conseqüentemente, os povos
COMMONLAW espontânea assimilação de padrões comuns de cuja civilização se deve à obra colonizadora de
Em todos os povos, o costume precede a lei. comportamento, cristalizados em vínculos de COMUNIDADE BRITÂNICA
Portugal e Espanha são também povos hispâ-
Do direito não escrito passa -se para o direito variada espécie (biológicos, étnicos, culturais, Criada em 1926, a Comunidade Britânica nicos. Essa terminologia é adotada por alguns
escrito. A norma jurídica, na sua expressão con- etc.), gerados pela natureza e/ou pela história. (Commonwealth) é formada por um conjunto autores brasileiros, entre os quais Gilberto Frey-
suetudinária, surge mais ou menos esponta- Uma estrutura natural sustenta a comunidade, de Países e Territórios que no passado integra- re (1900-1987), que a propósito escreveu o li-
neamente, não é um produto deliberado pelo cuja psique coletiva deita raízes no inconscien- vam o Império Britânico, e a partir daquela vro O brasileiro entre os outros hispanos (Livra-
legislador; e pode permanecer como direito vi- te das pessoas, e predispõe a consciência de data resolveram unir-se, mediante acordo e sob riaJosé Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1975).
gente mesmo depois de promulgadas as leis e cada uma para iniciativas de interesse geral e a coordenação geral da Grã-Bretanha, adotan- Essa comunidade de povos, no dizer de Pio
elaborados os códigos. Na Inglaterra, onde a élan participativo em prol do comum. A famí- do uma forma peculiar de cooperação e con- XII (Papa, de 1939 a 1958), "mais do que um
presença do costume tem sido viva e bem acen- lia, a Nação, o meio profissional são, entre sulta no tocante a assuntos econômicos, políti- conjunto de nações, forma uma estirpe". Abran-
tuada até aos nossos dias, as decisões das anti- outras, formas de comunidade. Nelas o inter- cos e culturais. Não há entre os países membros ge todos os povos hispano-americanos, inclusi-
COMUNIDADE LUSIAnA. -112 - COMUNISMO COMUNISMO -11.3 - COMUNISMO

ve O Brasil, e no Extremo Oriente as Filipinas, de Janeiro: "Portugal é mais do que nosso des- particular não acabasse prejudicando o interesse de· uma estrutura comunista da sociedade. As-
sem falar em núcleos de população que nos cobridor, é fonte do rio nacional que recebe público) nem família (para que as afeições fa- sim, segundo o Manifesto, dever-se-ia "instau-
continentes africano e asiático receberam a tantos afluentes. Ele compartilha conosco um miliares não pusessem a perder a dedicação rar uma administração comum, suprimir a pro-
influência de Portugal e da Espanha, sendo destino comum." total e exclusiva à Polis). Os filhos dos inte- priedade privada, dar a cada um segundo as
numerosos os que herdaram a língua portu- A Comunidade Lusíada teve no Brasil pleno grantes dessas classes se gerariam por aca- suas aptidões e a profissão que conhece, obri-
guesa (Angola, Moçambique, Guiné, Goa, reconhecimento, consagrado por um instrumen- salamento transitório e, ao nascer, seriam en- gar a depositar o fruto in natura em armazém
Macau). to jurídico, ao ser assinado, no Rio de Janeiro, tregues à Polis, que os criaria e educaria, ficando comum e criar uma administração de subsistên-
Francisco Elías de Tejada (1917-1978) real- o Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil totalmente anônimos para os pais. Os demais cia que, registrando todos os indivíduos e todas
ça, nas duas nações da Península Hispânica, a e Portugal (16 de novembro de 1953). Nos seus habitantes da Polis - agricultores, artesãos, as coisas, dividirá estas últimas dentro da mais
perduração de temáticas humanas de estilo considerandos eram invocadas as "finalidades comerciantes - continuariam vivendo como escrupulosa igualdade". O processo revolucio-
cristão e medieval, em contraste com a Europa espirituais, morais, étnicas e lingüísticas que, usualmente. Restringindo-se, o comunismo pla- nário babuvista foi desenvolvido pela Conspi-
moderna. Contraste análogo ao existente en- após mais de três séculos de história comum, tônico, às classes dos guerreiros e guardiães, o ração dos iguais. A sociedade igualitária do futu-
tre os povos que se estendem do México à continuam a ligar a Nação Brasileira à Nação objetivo central do autor parece ter sido tão- ro reger-se-ia por uma democracia direta, mas
Terra do Fogo em confronto com os da Améri- Portuguesa", expressando ainda o desejo de somente o de condicionar de tal maneira os seria conduzida por uma "minoria iluminada",
ca do Norte, para além do rio Grande. "consagrar, em solene instrumento político, os encarregados da ordem e segurança da Polis constituída de figuras superdotadas, capazes de
princípios que norteiam a Comunidade Luso- que ficassem adstritos, no exercício de suas garantir o êxito da revolução, além de evitar ou
V. Círculos concêntricos - Colonização - Comu-
Brasileira no mundo". A equiparação entre bra- funções, exclusivamente aos interesses da co- corrigir desvios da massa popular. Os conspira-
nidade Lusíada.
sileiros e portugueses, dentro do permitido pelas letividade. dores foram, porém, descobertos e guilhotina-
COMUNIDADE LUSÍADA normas constitucionais, as facilidades previstas A Utopia de Thomas More (1478-1535) é a dos pela Revolução, pois a burguesia, um dos
nas esferas comercial, econômica, financeira e primeira obra em que se formula toda uma or- seus sustentáculos, se via ameaçada na proprie-
Como o mundo anglo-saxônio constitui uma ganização sócio-política de teor comunista. Na dade de seus bens. Não sem razão, Babeuf foi
cultural, a obrigação assumida pelas Altas Par-
unidade cultural e lingüística, assim também, ilha da Utopia, visionada pelo autor, não há considerado por Karl Marx (1818-1883) "o pai
tes Contratantes de se consultarem mutuamen-
entre as nações latinas, as originárias da Espanha propriedade privada, pertencendo ao Estado do primeiro partido comunista ativo".
te sobre problemas internacionais de interesse
e de Portugal se acham próximas umas das todos os bens de produção. Todos trabalham No período que vai da morte de Babeuf a
comum, tudo isso dava ao Tratado um alcance
outras pela formação espiritual recebida desde para todos. Produzem-se só os bens necessá- 1848, destacam-se algumas figuras no tocante
a exceder de muito os acordos até então firma-
os tempos da expansão marítima e da ação rios, que são depositados num armazém co- às idéias sociais. Robert Owen (1771-1858) re-
dos.
colonizadora. A emancipação das. províncias mum, donde cada família retira a quantidade gistra três fases em sua própria vida. Na pri-
Acontecimentos posteriores tornaram letra
portuguesas do Ultramar, na segunda metade conveniente. Os negócios públicos e os rela- meira, como dirigente industrial, adota medi-
morta o Tratado. Apesar das alterações havidas,
do século XX, não veio obstar a que laços de cionados com a vida sócio-econômica são ge- das inovadoras: reduz o horário de trabalho,
e da desagregação da lusitanidade africana -
afinidade com a matriz lusitana, existentes en- ridos por dirigentes escolhidos pela via eleito- promove a capacitação profissional, desenvol-
especialmente Angola e Moçambique - sub-
tre povos africanos e populações asiáticas, con- ral. Os criminosos e prisioneiros de guerra ficam ve métodos de instrução cívica e sanitária, etc.
siste uma vinculação que vem de séculos, abran-
tinuassem a ser mantidos. Note-se que a colo- submetidos ao regime de escravidão e estão A grande oposição que sofreu obrigou-o a
gendo essas regiões continentais e as ilhas do
nização desses povos, como se dera no Brasil, obrigados a executar os trabalhos mais duros. encerrar as atividades industriais. Na segunda
Atlântico, bem como os enclaves portugueses
a presentou características bem definidas e Tommaso Campanella (1568-1639), na Cida- fase, levou à prática os dois princípios susten-
na Ásia. Dando-se ênfase ao aspecto cultural,
marcantes no sentido de lhes proporcionar uma de do Sol, também visiona uma ilha em que tados em sua obra A New View of50ciety, quais
passou-se a falar na Comunidade dos Povos de
elevação cultural e contribuir, sem vestígio de todos trabalham para todos, sob a direção ge- sejam: o homem é "mero produto do meio" e,
Língua Portuguesa. Em julho de 1996, surgiu a
qualquer racismo, para a miscigenação, em ral do Estado, que distribui a produção. Ficam por isso, "não é sujeito absoluto de culpa ou
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa,
contraste com o colonialismo mercantilista e abolidas a propriedade privada e também a mérito". Com base nesses princípios, defendeu
com vistas a promover entre os sete países (Bra-
explorador. Destacou muito bem esta particu- família, porque, sem a abolição desta, aquela a imperiosa necessidade de educação desde
sil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Ver-
laridade o historiador inglês Arnold Toynbee acabaria bem ou mal subsistindo. Não haven- cedo e promoveu a organização de "comuni-
de, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe) que
(1885-1975), frisando o cunho de fraternidade do família, caberia ao Estado regular os aca- dades de vida e trabalho". Além da Inglaterra,
a formam uma integração diplomática, econô-
cristã que explica semelhantes traços da colo- salamentos, e também criar e educar os filhos foi tentada a implantação desse tipo de organi-
mica e cultural.
nização empreendida pelos portugueses e pe- daí advindos. zação social na Irlanda, na Escócia e nos Esta-
los espanhóis. Portugal e Castela - com a sua V. Círculos concêntricos - Colonização - Comu- Foi sob a Revolução Francesa (1789) que dos Unidos, mas sem êxito. A terceira fase se
destinação talássica e com a sua vocação telúrica nidade Hispânica. surgiu o primeiro intento efetivo de implanta- caracterizou pelas atividades que visavam a
respectivamente - levaram a efeito essa gran- ção dos "ideais comunistas". François Noel organizar a classe trabalhadora. Partindo do
de obra de expansão imperial e entrelaçamen- COMUNISMO Babeuf (1760-1797), a um tempo teórico e re- princípio ricardiano de que "o trabalho é a fonte
to de povos e raças, sem exemplo, em toda a No campo das idéias, talvez tenha sido Platão volucionário, liderando jacobinos, terroristas e de toda a riqueza", buscou fazer sua aplicação
história, que se lhe possa comparar. (429-347 a.C.), na República, o primeiro a pro- extremistas, pretendia fundar uma República prática engajando-se nos movimentos que
No concernente ao Brasil, cabe lembrar as por uma forma de organização sócio-política dos iguais, em moldes comunistas, tal como objetivavam a distribuição dessa riqueza. As
palavras dirigidas pelo então governador do em que uma parcela dos componentes da Polis era proposta no Manifesto dos iguais, divul- Trade Unions surgiram, então, para perseguir
Estado da Guanabara, Carlos Lacerda (1914- (Cidade-Estado) - a dos guerreiros e guardiães gado pelo jornal Tribune du Peuple. Conside- especialmente essa finalidade. Owen, porém,
1977) ao Ministro das Relações Estrangeiras de - viesse a ter uma vida estritamente comunis- rando que a apregoada igualdade jurídico-polí- teve de enfrentar grande oposição de empre-
Portugal, Dr. Alberto Franco Nogueira (9 de ta. Para essas duas classes, não existiriam pro- tica nada significa sem a igualdade econômica, sários e políticos, imbuídos de um individua-
junho de 19.?5), em visita feita por este ao Rio priedade privada (a fim de que o interesse defendia a instauração, pela via revolucionária, lismo extremado.
COMUNISMO -114 - COMUNISMO COMUNISMO -115 - COMUNISMO

François Marie Charles Fourier (1772-1837) Esses vários socialismos - "utópicos" uns e porém, essa divergência que fez desaparecer a Alemanha, de 1888 a 1918), desembaraçar-se
expôs suas idéias em três obras: Théorie des "reformistas" outros - foram contestados em 11 Internacional. Só ocorreu isso quando, do front oriental, já que os comunistas se opu-
quatre mouvements et des destinées générales, meados do século XIX pelos adeptos do cha- irrompendo a Primeira Guerra Mundial (1914- nham à participação da Rússia na guerra. Em
Traité de I 'association domestique et agricole e mado "socialismo científico" fundado no mar- 1918), o espírito nacionalista veio a prevalecer maio de 1918, por decisão do VII Congresso
Le nouveau monde industriel et sociétaire. Pro- xismo. Em 1847, o movimento revolucionário, sobre o internacionalismo operário no seio de do Partido Bolchevista, passou este a denomi-
pôs uma organização social cuja célula básica constituído de alenlães exilados, reunidos na cada partido socialista, fazendo cada qual a nar-se Partido Comunista da Rússia, e depois,
é a falange - composta por umas 1.600 pes- chamada Liga dos Justos, depois denominada política do próprio país. Desta forma, a n In- Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
soas - a habitarem no falanstério, um edifício Liga dos Comunistas, solicitou a Karl Marx a ternacional perdia sua razão de ser. Mas foi Em maio de 1919, os bolchevistas fundaram a
junto ao qual se estendia um terreno de cerca elaboração de um manifesto. Em fevereiro de com a Primeira Guerra Mundial então ainda Internacional Comunista (Komintern), também
de 400 ha, destinado especialmente a atividades 1848, Marx lançou em Londres o Manifesto do em curso que o movimento socialista veio a conhecida por In Internacional, que reunia as
agropastoris exercidas por todos, espontânea Partido Comunista, que vinha redigido em ale- conquistar o poder na Rússia, em 1917. Desde correntes socialistas do mundo todo dispostas
e livremente, garantindo-se a cada indivíduo o mão e também era assinado por Friedrich os fins do século XIX, Lênin vinha ·articulando a acatar a ideologia e os métodos de ação do
mínimo necessário à própria subsistência. O Engels (1820-1895). Nesse Manifesto, depois de forças para tomar mais eficaz a luta revolucio- comunismo soviético. Os chamados socialistas
autor, muito influenciado por Rousseau, estri- uma resenha histórica sobre o capitalismo, são nária. Em 1898, transformou a "União de Luta moderados, excluídos da In Internacional, de-
bou suas idéias na bondade natural do homem. denunciados os seus males e é anunciado o pela Emancipação Operária", fundada três anos cidiram num congresso realizado em Hambur-
Os falanstérios instalados na França, na Bélgi- seu desaparecimento. Proclama-se que "a re- antes, em Partido Operário Social-Democrata go, em maio de 1923, organizar a Internacio-
ca e nos Estados Unidos acabaram fracassando. denção dos trabalhadores é inseparável de sua Russo. Neste partido, liderou, a partir de 1903, nal Socialista, que se declarou continuadora da
Etienne Cabet (1788-1856), em sua obra prin- emancipação política". Em 1864, fundava-se em a ala bolchevique (de bolchinstvo, maioria) em II Internacional, mantendo a fidelidade ao mar-
cipal, Voyage en Icarie, propôs a construção Londres a I Internacional. A esta altura, falava- oposição à menchevique (de menchinstvo, xismo mas propondo a via evolutivo-democrá-
de uma sociedade ideal - "cidade socialista" se mais em socialismo do que em comunismo. minoria), chefiada por Martov (1873-1923). tica para chegar ao coletivismo, com as nuances
- em que haveria igualdade e fraternidade de Duas correntes ideológicas vieram a se defron- Ambas essas alas, embora marxistas, preconi- ditadas pelas circunstâncias. Com a fundação do
forma total e absoluta, abolindo-se a proprie- tar dentro da Internacional: a de Marx e a de zavam vias diversas para conquistar o poder; Komintern, incrementou-se a expansão mun-
dade privada, inclusive a de caráter pessoal, Pierre Joseph Proudhon (1809-1865), os bolcheviques - a revolução, asseguradas a dial do comunismo. Antes da Segunda Guerra
devendo todas as pessoas ostentar roupas idên- encampada por Michael Bakunin (1814-1876). centralização e a disciplina; os mencheviques Mundial (1939-1945), já havia partidos comu-
ticas e sendo igual para todos a jornada de Enquanto Marx sustentava que devia ser cum- - a evolução, garantidas a descentralização e nistas organizados, legalmente ou não, em qua-
trabalho, recebendo cada indivíduo, de um ar- prida a etapa do socialismo de Estado antes da a colaboração com os governos burgueses. Foi se todos os países. Na União Soviética, o regi-
mazém coletivo, o necessário à própria sobre- instauração do comunismo, Bakunin pretendia em 1912, em Praga, onde se reuniu um con- me comunista, fundado numa ditadura rígida,
vivência. A experiência das idéias de Cabet foi a pronta extinção do Estado, mediante ação gresso do Partido Operário Social-Democrata desde as suas origens, ao tempo de Lênin, sem-
tentada em Illinois, nos Estados Unidos. Mas as revolucionária, para a implantação do Russo, que a ala bolchevique suplantou a pre se caracterizou pelo centralismo autoritário
"colônias icarianas" fracassaram totalmente. anarquismo. Esse desentendimento levou à dis- menchevique, expulsando-a e adotando a de- e conseqüente domínio totalitário de todas as
O Conde de Saint-Simon (1760-1825), como solução a I Internacional em 1876. Enquanto nominação de Partido Bolchevista. atividades. Também nunca foram reconhecidas
ficou conhecido Claude Henry de Rouvroy, é isso, a elaboração ideológica do marxismo se Não obstante o ímpeto revolucionário dos as liberdades humanas, que até mesmo e quan-
outro nome de expressão do socialismo pré- desenvolvia. Marx, em 1867, publicou o 1º vo- bolchevistas, não tiveram estes participação do necessário eram esmagadas impiedosa-
marxista. Adepto do enciclopedismo, partici- lume de Das Kapital. Após a sua morte, surgi- nenhuma na queda do regime czarista, ocorri- mente. Depois da morte de Joseph Stálin (1879-
pou da Revolução Francesa. Arquitetou suas ram, em 1885, o 2º e, em 1894, o 3º volume. da em fevereiro de 1917, ocasião em que seus 1953), foram denunciados por Nikita Kruschev
idéias em função da concepção do progresso Anos passados da extinção da I Internacio- líderes - Lênin, Leon Trotski (1879-1840) e (1894-1971), em famoso discurso no XX Con-
indefinido, propondo uma organização social nal, os partidos socialistas que se vinham orga- outros - estavam no exílio. A derrubada da gresso do PCUS (1956), os monstruosos crimes
fundada na aplicação das ciências positivas. nizando na Europa, procuraram implementar monarquia foi efetuada pelos chamados mode- praticados pelo governo stalinista (1927-1953),
Contribuiu grandemente na elaboração do po- uma interligação para fixar normas comuns de rados -liberais, social-democratas, socialistas que fez milhões de vítimas. Não menos odiosa
sitivismo, lembrando-se que Augusto Comte ação no âmbito internacional. Instalou-se, en- e até algumas figuras da nobreza "progressista" também a política imperialista da URSS, implan-
(1798-1857) foi seu secretário durante dois anos. tão, em Bruxelas, em 1889, a n Internacional. - , sem esquecer o papel desempenhado tando pelas armas o regime comunista nos
Saint-Simon propôs a criação de um conselho Teve uma organização de caráter federativo, pelas nacionalidades integrantes do Império países da Europa oriental (1945-1948) e recor-
de cientistas para governar a humanidade. Em objetivando permitir o inter-relacionamento dos Russo, interessadas em conquistar a indepen- rendo à invasão armada para jugular a explo-
De la réorganisation de la societé euroPéenne diferentes partidos socialistas. Sobrevieram, dência. Instalado o governo de Alexandre Fe- são de liberdade em alguns deles: Hungria
advogou a formação de uma confederação eu- porém, desentendimentos entre seus integran- dorovitch Kerenski (1881-1970), os bolchevistas, (1956), Tcheco-Eslováquia (1968). Em sua ex-
ropéia sob um parlamento comum. Na estru- tes. De um lado, o grupo dos "socialistas mediante processo de infiltração, foram ocu- pansão mundial, o comunismo, além da Euro-
turação da sociedade, faz desaparecer as dife- revisionistas", liderado por Eduard Bernstein pando os cargos de chefia de que iam sendo pa oriental, alcançou a Ásia (China Continen-
renças entre operários e empresários. Seus (1850-1932), que, ante o fato de as eleições, afastados os social-democratas, socialistas e li- tal, Coréia do Norte, Vietnã), a África (Angola,
discípulos Armand Bazard (1781-1832) e em vários países, terem permitido o acesso de berais. A certa altura, em outubro de 1917, não Moçambique, Guiné-Bissau, Etiópia) e a Amé-
Barthélemy Prosper Enfantin (1796-1864) leva- deputados socialistas aos parlamentos, defen- foi difícil, com forças militares sovietizadas, rica Central (Cuba e Nicarágua). As chamadas
ram adiante suas idéias, propondo a instaura- dia a via democrática para chegar ao poder, golpear o governo Kerenski, e tomar o poder. "guerras de libertação", patrocinadas por Mos-
ção da propriedade coletiva nas mãos do Esta- contrariamente ao grupo dos marxistas intran- Foi então decisiva a atuação de Lênin, que dei- cou e Pequim, permitiram a submissão de vá-
do e ficando os indivíduos sujeitos ao seguinte sigentes que, liderado por Lênin (1870-1924) e xara o exílio e fora reconduzido à Rússia em rios países aos imperialismos soviético e chi-
princípio: "de cada um segundo a sua capaci- Rosa Luxemburgo (1870-1919), defendia a ne- trem blindado cedido pelo governo alemão, por nês, que desde 1958 vinham disputando a
dade, a cada capacidade segundo as suas obras". cessidade da revolução violenta. Não foi, querer, o Kaiser Guilherme 11 (imperador da supremacia do movimento comunista mundial,
COMUNISMO -117 - CONCENTRAÇÃO
COMUNISMO -116- COMUNISMO

mem novo". Nessa "nova sociedade", não ha- ses da Europa oriental, como na própria União
além de divergirem quanto à metodologia da xa de ser, para ser o que não é, e assim suces-
verá mais Estado, porque não haverá mais clas- Soviética, o monolitismo do poder socialista
ação: dominação pela coexistência pacífica ("li- sivamente. O homem também não é uma rea-
ses sociais, pois aquele não é senão a expres- acabou afrontado pela avalanche de rebeldias
nha soviética") e dominação pela revolução lidade, é algo a girar na seqüência interminá-
são do domínio de uma classe sobre as demais. que o proverbial apelo aos tanques não con-
("linha chinesa"), embora os fatos tenham re- vel de conflitos, que realizam a História. Para
Ao Estado, sucederá a estrutura da sociedade seguiria conter com a mesma eficácia demons-
gistrado ora cruzamentos, ora inversões dessas Marx, o homem é tão-só a "ação material" que
em comunas auto-organizadas. A economia trada na Hungria (1956) ou na Tcheco-Eslo-
linhas conforme as circunstâncias. Essa discre- produz. É assim que ele faz a História, que não
será autogerida por cooperativas, dentro de váquia (1968), consumando-se, assim, em 1989/
pância quanto aos métodos nunca excluiu con- é senão a História da produção da humanida-
cordância quanto ao fim: a dominação da hu- uma planificação global. A divisão do traba- 1991, o desmoronamento do império comu-
de, ou seja, a história do entrechoque de forças
manidade toda pela concepção comunista da lho, própria do capitalismo, será suhstituída nista. Esse desmoronamento, que se manifes-
produtoras. É com seu trabalho que o homem
pelo "trabalho alternado", podendo cada qual tou a despeito da brutal capacidade repressiva
vida e do mundo. Na verdade, o comunismo existe e transforma o mundo. Por isso, "o ho-
não é só um sistema de organização social, fun- desempenhar as tarefas que lhe aprouverem. do Estado comunista, também teve um ensaio
mem é trabalho" e o "trabalhador é a essência
dado num coletivismo total, que suprime a pro- da humanidade". Pelo trabalho, o homem não Ao se generalizar esse comportamento social sangrento na China, com o massacre ocorrido
priedade privada dos meios de produção e dos apenas faz a História, mas cria-se a si mesmo e e ao ganhar amplitude a abundância de bens na Praça da Paz Celestial (1989), cujos lances
bens produzidos. transforma-se continuamente. Daí a concepção produzidos, converter-se-á em realidade a nor- de ferocidade inaudita foram presenciados pelo
O marxismo deita raízes no Idealismo, que é marxista da natureza humana, que, para Marx, ma marxista: "de cada um segundo as suas mundo todo através da televisão. Foi sempre
a insubmissão da inteligência à realidade, le- é mutável na sua essência em função da mu- capacidades, a cada um segundo as suas ne- uma constante, na história dos países domina-
vando-a a elaborar idéias desligadas do ser das dança dos sistemas de produção. Por isso, a cessidades." Nesta altura, estará configurada a dos pelo comunismo, esse quadro carregado
coisas. Se não há verdade objetiva a ser con- revolução marxista intenta recriar o mundo sociedade comunista. Evidentemente estamos de medo, de destruição da liberdade, de pri-
templada pela razão, outra coisa não há a fa- unicamente pelo trabalho do homem e para o diante de mero profetismo ideológicO - ao vações espirituais e materiais, de perseguições,
zer senão atuar. Foi com René Descartes (1596- homem. É o "humanismo marxista" um assumir o poder, na URSS, em 1955, Kruschev de opressão. Daí a razão pela qual a Igreja sem-
1650) que começou a germinar o Idealismo, a humanismo total, construído pela ação d~ ho- (1894-1971) anunciou que "até 1980" ocorreria pre denunciou e condenou o caráter nefasto
partir da assertiva de que "o pensamento se mem: o homem princípio e fim de si mesmo, o advento do comunismo -, cuja manifestação do comunismo e da ideologia em que se fun-
basta a si mesmo". Depois, Immanuel Kant ou, segundo Marx, "o homem é para o homem concreta jamais chegou a esboçar-se em qual- damenta o marxismo. Data de 1846 a primeira
(1724-1804) dirá que "o pensamento é simples o ser supremo". Para chegar à sociedade co- quer país de estrita observância marxista. Até condenação expressa do comunismo, que a
criação do espírito humano", razão pela qual munista - segundo a concepção marxista da pelo contrário: uma vez conquistado o poder encíclica Qui Pluribus, de Pio IX (Papa, de 1846
não há que buscar a concordância do pensa- evolução das sociedades - há que passar por pelos comunistas na União Soviética, passou a a 1878), aponta como "nefanda doutrina total-
mento com o real, mas a mera concordância todo um processo histórico, que a ação do ho- ser esta conduzida por uma classe dominante mente contrária ao direito natural". A partir daí,
do pensamento com o próprio pensamento. mem poderá acelerar. A etapa que antecede o - a "nova classe" - conhecida como Nomen- vários papas explicitaram outras condenações,
Em seguida, Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) "termo final" dessa evolução é o socialismo de klatu ra, que ao longo do tempo se consolidou que culminaram com a feita na encíclica Divini
vinha dizer que o pensamento tem no eu o Estado, em que a ditadura do proletariado tem ferreamente. Concentrando grande soma de Redemptoris (1937), de Pio XI (Papa, de 1922 a
"criador dinâmico", excluindo assim toda reali- a missão de criar as condições necessárias à poderes, à Nomenklatura couberam todas as 1939), dedicada especificamente ao assunto.
dade estável. E Georg Friedrich Wilhelm Hegel implantação da sociedade comunista. Embora decisões políticas, decisões estas executadas por O documento repudia o comunismo, entre
(1770-1831), por sua vez, chega ao Idealismo considerado mero instrumento de dominação funcionários - os burocratas - integrantes dos outras razões, por fundar-se num monismo ma-
absoluto, à idéia pura. A idéia é tudo, já não há de classe, o Estado, nessa fase, tem a utilidade quadros de segunda linha do Partido, embora terialista, por esmagar a dignidade humana, por
realidades: "o racional é real, o real é racio- transitória do "mal necessário", pois perdura sem os altos privilégios dos nomenclaturistas. fomentar o ódio entre os homens, por preten-
nal". Mas a idéia evolui, muda continuamente. tão-só com vistas a executar a tarefa de prepa- Ademais, se, no campo das idéias, é fácil der suprimir o direito natural, por ser ateu. Por
Essa evolução perene resulta da contradição. É rar o terreno para a construção da sociedade esquematizar um comportamento social em que isso, "o comunismo é intrinsecamente mau e
a dialética: tese, antítese e síntese. Esse dina- futura. Sob o aspecto econômico, essa fase com- todos trabalham por todos, de forma tal que as não se pode admitir em campo nenhum a co-
mismo perpétuo da negatio negationis demons- preende a extinção da propriedade privada, o necessidades todas sejam supridas, verifica-se laboração com ele, da parte de quem quer que
tra que não há nada estável. Existe tão-somen- confisco de bens, o monopólio estatal dos meios que a concretização prática disso não condiz deseja salvar a civilização cristã" (nº 8).
te a ação, que faz a História. Marx vai haurir de produção, a planificação centralizada e in- com o visionado. Até mesmo porque a saturante
V. Anarquismo - Bolchevismo - Marxismo - So-
em Hegel a dinâmica da História, convertendo tegral das atividades produtivas. Nesse estágio, burocratização do sistema, cujos cargos são
providos segundo critérios políticos e ideológi- cial-democracia - Socialismo.
o Idealismo em materialismo: são as "forças ao trabalhador - antes vítima da usurpação
materiais", em contínuos conflitos e evolução, de parcela de sua força-trabalho por parte do cos, gera entraves de toda espécie. A este pro- CONCENTRAÇÃO
e não as idéias, que fazem a História. Daí o ma- empregador (plus-valia), que o remunera com pósito, o país comunista padrão - a extinta
União Soviética - revelou, desde 1917, os su- Sistema de organização administrativa em que
terialismo histórico e o materialismo dialético. o estritamente necessário para sobreviver - o poder central acumula atribuições e decide
Na doutrina marxista, esse materialismo não será aplicada a norma "a cada qual segundo o cessivos fracassos dos planos qüinqüenais, es-
pecialmente no tocante à produção agrícola. E unitariamente, servindo-se de uma multipli-
quer significar propriamente a "realidade ma- seu trabalho". Deverão remanescer, ainda aqui, cidade de órgãos. A atividade administrativa se
téria", única existente, nem a "realidade da certos traços típicos do capitalismo, como o somente devido à maciça importação de ce-
reais conseguiu acudir à fome de sua popula- exercita, em geral, diretamente, a partir de ór-
matéria". Trata-se de um materialismo que só aparato estatal, com sua força coativa, as desi-
ção, acossada por habitual racionamento. Além gãos centrais, ou mediante delegação de fun-
admite a existência de "forças materiais", em gualdades salariais, decorrentes da graduação
disso, outras dificuldades - como o freqüente ções, com estrita vinculação a ordens superiores.
conflito incessante, e leva a afirmar que "nada das habilitações profissionais, etc. Não obstante
descontentamento com as condições de vida e O Estado pautado na supremacia absoluta
existe de permanente". Daí a mutabilidade de isso, a expansão do desenvolvimento econô-
os desafiantes anseios de liberdade - desen- do coletivo - como o nazista e o comunista -
tudo. Não havendo realidade estável, não há mico acabará por fazer surgir a sociedade co-
cadearam grandes inquietações. Tanto em paí- é necessariamente concentracionário. Também
verdade a conhecer: o que é, em seguida dei- munista, gerando-se simultaneamente um "ho-
CONCENTRAçAo -118- CONCIUARISMO
CONCORDATA -119 - CONFEDERAÇÃO
o chamado "socialismo democrático", em que efetuado o julgamento e a deposição do Papa.
se funda a organização sócio-política de alguns Chegou-se a aventar três hipóteses para a tar, reger e governar a Igreja universal, como os poderes, daí resultando a conveniência ou
países ocidentais, só tem condições de subsis- solução do impasse criado pelo Cisma: a re- se contém nos atos dos concílios e nos sagra- mesmo necessidade de um entendimento re-
tir - em razão da natureza mesma da cosmo- núncia de ambos os papas e a escolha de um dos cânones." cíproco.
visão socialista - mediante a montagem con- outro, com acatamento de todos (a chamada Quando dos Concílios de Latrão V (1512- Logo após a Revolução Francesa (1789), que
centracionária da máquina estatal. Não ocorre via cessionis); a voluntária submissão de am- 1517) e de Trento (1545-1563), não se regis- estabelecera o laicismo e promovera forte per-
diferentemente em muitos Estados liberais, os bos os papas a uma decisão arbitral (a chama- trou nenhuma incidência conciliarista, elabo- seguição religiosa, foi por iniciativa de
quais, pelas vias democráticas, expandem so- da via compromissi); e, finalmente, a convoca- rando-se suas atas sob a forma de decretos Napoleão, quando cônsul (1801), assinada uma
bremodo suas atribuições, chegando a invadir ção de um concílio geral, independentemente papais. Reapareceram, porém, as idéia~ c~ncilia­ concordata da França com Pio VII (Papa, de
amplos setores de atividades, num processo de do placet de Roma (a chamada via concilii). ristas, no século XVIII, com o febronlanlsmo e 1800 a 1823). Essa concordata produziu alguns
concentração estatizante quando não estatista. Prevaleceu a última hipótese. o galicanismo. efeitos satisfatórios, não obstante os "artigos or-
Um Estado concentracionário é necessaria- Foi convocado o Concílio de Pisa (1409), que O Concílio Vaticano I (1869-1870) reiterou a gânicos", acrescentados unilateralmente por
mente centralizado, mas nem todo Estado cen- decretou a deposição de Gregório XII e de doutrina da Igreja sobre o primado apostólico Napoleão e rejeitados pelo Papa. Sendo outra
tralizado é concentracionário. Pode haver Estado Bento XIII - , elegendo-se em seguida Ale- de Pedro, perpetuado nos Romanos Pontífices, a situação da Cristandade medieval, às con-
centralizado sob o aspecto político, e descen- xandre V (antipapa, de 1409 a 1410), com vis- com o conseqüente magistério infalível da Cá- cordatas não era preciso recorrer; assim mes-
tralizado sob o aspecto administrativo e tam- tas a acabar com o Cisma. Anos depois, con- tedra de Pedro. A Constituição Pastor A eternus mo, elas remontam ao século XII, quando, para
bém sob o aspecto social, quando reconheci- vocou-se o Concílio de Constança (1414 a (18-7-1870) deixou estabelecido a propósito das resolver a questão das investiduras, no âmbito
das as autonomias dos grupos intermediários. 1418), que ratificou as deposições anteriormen- pretensões conciliaristas: "Erram todos os que do Santo Império, foi promulgada, entre Calisto
te efetuadas, mas depondo também João XXIII afirmam ser lícito apelar das decisões dos Pon- 11 (Papa, de 1119 a 1124) e Henrique V (impe-
V. Centralização - Coletivismo. tífices Romanos para o Concílio Ecumênico, rador, de 1106 a 1124), a Concordata de Worms
(antipapa, de 1410 a 1415), sucessor de Ale-
CONCILIARISMO xandre V, e elegendo Martinho V (Papa, de como autoridade superior ao Romano Pontífi- (1122). Mais recentemente, foram celebradas
1417 a 1431) que, no entanto, não ratificou o ce." Por sua vez, o Concílio Vaticano 11, na concordatas com a Itália - Tratado de Latrão
Teoria que coloca o Concílio Ecumênico aci- Constituição Lumen Gentium (22-11-1964), não (1929) - , reconhecendo a soberania temporal
decreto conciliar que declarava a autoridade
ma da autoridade do Papa. deixando de reconhecer a importância do co- da Cidade do Vaticano; com a Alemanha (933),
do Concílio superior à autoridade do Papa.
O conciliarismo esteve muito em voga à épo- légio dos bispos, afirmou-o regido pelo bispo assegurando à Igreja liberdades que, porém,
Não obstante isso, intentou-se fazer vingar
ca do Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), as idéias conciliaristas no Concílio Cismático de Roma, o Papa, que é sua cabeça e o integra não foram respeitadas; com Portugal (1940),
quando ocorreu profunda dissidência na Hie- de Basiléia 0431 a 1449) - aliás verdadeiro constitutivamente, dado que não há colegia- devolvendo à Igreja bens que lhe haviam sido
rarquia da Igreja (devido a disputas em torno conciliábulo dada a irrepresentatividade de seus lidade episcopal sem o Papa. E reiterou: "O confiscados em 1910 e restabelecendo o ensi-
de papáveis de origem italiana, de um lado, e membros (eram cerca de 40 abades e 50 pa- poder supremo que este Colégio (Episcopal) no religioso nas escolas; com a Espanha (1953),
de origem francesa, de outro), a qual, por cer- dres) - , o qual proclamou como dogma de fé possui sobre a Igreja universal exerce-se de restabelecendo o princípio da unidade católica
to tempo, veio a ter dois papas: em Roma, Ur- a autoridade suprema do concílio, decretando, modo solene no Concílio Ecumênico. Não pode nas instituições, afirmado desde o 111 Concílio
bano VI (Papa, de 1378 a 1389), Bonifácio IX em seguida, a deposição de Eugênio IV (Papa, haver Concílio Ecumênico que não seja apro- de Toledo (589) e que havia sido postergado
(Papa, de 1389 a 1404), Inocêncio VII (Papa, de 1415 a 1447) e promovendo a eleição de vado, ou pelo menos aceito como tal pelo su- pela República de 1931.
de 1404 a 1406) e Gregório XII (Papa, de 1406 Félix V (antipapa, de 1440 a 1449), que, poste- cessor de Pedro. E é prerrogativa do Romano V. Relações Igreja-Estado.
a 1415), e, em Avignon, Clemente VII (Papa, riormente, renunciou e se submeteu a Roma, Pontífice convocar estes Concílios Ecumênicos,
de 1378 a 1394) e Bento XIII (Papa, de 1394 a tendo sido feito cardeal por Nicolau V (Papa, presidi-los e confirmá-los." CONFEDERAÇÃO
1423). Cindida a Hierarquia entre urbanistas e de 1447 a 1455).
clementinos, o Cisma se manifestou também V. Febronianismo - Galicanismo. Associação de Estados em que estes, man-
Eugênio IV e Nicolau V empenharam-se bra- tendo as respectivas soberanias, se unem para
no âmbito das dioceses, dos conventos, das vamente na preservação do primado de Pedro, CONCORDATA
ordens religiosas, bipartindo-se, em seu seio, a a execução de uma política comum, exercitada
tal como a Sagrada Escritura (tu es Petrus .. .), a
autoridade, adstritas as facções a uma ou a outra Obviamente, não se cuida aqui do instituto mediante órgãos interestatais, providos de
Tradição e a história da Igreja o atestam. A
corrente. Esse Cisma ensejou a reativação das de direito comercial que tem essa denomina- poderes delegados, e cujo objetivo é especial-
despeito de toda a prudência adotada para evi-
teses conciliaristas defendidas por Guilherme ção' mas de um instituto de direito público mente a segurança externa. Os Estados vincu-
tar outro cisma, o Concílio de Florença (1439)
de Occam (1295/ 1300-1349?) e Marsílio de Pá- concernente às relações entre Igreja e Estado, lam-se por meio de um tratado e não de uma
não deixou de declarar no "Decreto para os
dua (1275/1280-1342/1343), segundo as quais que se consubstancia mediante instrumento constituição, estabelecendo-se entre eles uma
gregos" o seguinte sobre a primazia da autori-
o Papa é mero mandatário da Igreja, a qual, por próprio. As concordatas dão-se quando há se- relação jurídica internacional, que não dá ori-
dade papal:
isso, pode retirar-lhe o mandato e depô-lo. Entre paração entre essas duas sociedades sobera- gem a um poder estatal superior ao de cada
"Definimos que a Santa Sé Apostólica e o
alguns teólogos dos séculos XlV!XV ganhou nas. No regime de união da Igreja e do Estado, uma das entidades confederadas. Na Confede-
Romano Pontífice têm o primado sobre todo o
terreno a tese de que a escolha de um Papa as relações estão previamente reguladas, tor- ração, levam-se em conta unicamente os Esta-
orbe, e que o mesmo Romano Pontífice é o
indigno, pelo Colégio Cardinalício, faz reverter nando dispensáveis as concordatas, que são dos associados e não as pessoas componentes
sucessor do bem-aventurado Pedro, príncipe
o poder papal para o colégio episcopal ou para convênios entre o poder civil e o poder eclesiás- da população de cada um deles. Essas pessoas
dos Apóstolos, verdadeiro Vigário de Cristo e
os fiéis, como sustentavam Pierre d'Ailly (1350- tico isto é acordos entre o governo de um país devem obediência apenas à autoridade sobe-
Cabeça de toda a Igreja e pai e mestre de todos
1420) e Jean Gerson (1363-1429), devendo, em e a 'Santa Sé a respeito de assuntos de ordem rana do Estado confederado, cuja cidadania
os cristãos, e que ao mesmo, na pessoa do bem-
conseqüência, convocar-se o Concílio Ecumê- temporal que afetam ao mesmo tempo a or- ostentam. Quando lhe convier, qualquer Esta-
aventurado Pedro, lhe foi entregue por Nosso
nico (considerado delegado dos fiéis), para ser Senhor Jesus Cristo o pleno poder de apascen- dem espiritual. São as chamadas questões mis- do pode denunciar o tratado e desligar-se da
tas, que dão margem a interferências de ambos Confederação.
CONGRESSO -120 - CONHECIMEN7U POÚTICO CONSCIENI1ZAÇÃO -121- CONSEUlO CONSTITUCIONAL

São razões de ordem externa que, em geral, são exercidas com a colaboração do Presiden- quirir o conhecimento político não são mais para que sua conduta se enquadre dentro das
fazem surgir uma Confederação e até podem te da República, ao sancionar ou vetar projeto suficientes, dada a imensa complexidade da exigências da ordem moral e possa dar uma
levá-la a transformar-se em Federação, vale de lei. Outras, no entanto, ou são exclusivas vida social e as mudanças rápidas que se vão contribuição positiva ao ideal de uma socieda-
dizer, o "composto de Estados" passa a ser um do Congresso, ou privativas, quer do Senado, operando. Acrescentem-se a deformação de de fundada na justiça. Entretanto, a expressão
"Estado composto" (Prélot). Foi o que ocorreu quer da Câmara dos Deputados. certas noções fundamentais e a difusão de em apreço tem sido usada para indicar o resul-
com os Estados Unidos da América do Norte. No plano internacional, com o Congresso de slogans, tudo isto como efeito da propaganda, tado de uma ação tendente a criar no povo
Em 1776, as treze colônias inglesas da América Viena (1815), a expressão foi usada para de- fator decisivo nos movimentos políticos, sentimentos de frustração e de revolta, im-
declararam-se independentes (Convenção de signar as reuniões de representantes das gran- freqüentemente a serviço de uma ideologia. pingindo-lhe ao mesmo tempo a idéia da ne-
Filadélfia). Tomaram-se treze Estados, indepen- des potências com a finalidade de deliberar Foi a partir do século XVIII que começaram a cessidade de alterar as estruturas para erradi-
dentes da Inglaterra e independentes entre si, sobre problemas de interesse comum e esta- propagar-se as ideologias, tendo sido então as cação das injustiças, com o escopo de implantar
ou seja, soberanos. A pressão recolonizadora, belecer normas concernentes ao direito das "sociedades de pensamento", na França, um nova ordem social igualitária e libertária, de
por via armada, obrigou-os a buscar a união de gentes. veículo de poderosa atuação para incutir nos inspiração ideológica. Esta inspiração se encon-
esforços para enfrentar um inimigo comum: o V. Bicameralismo. espíritos os princípios inspiradores da Revolu- tra especialmente no pensamento de Marx
poderio britânico. E em 1778 instaurou-se a ção de 1789. Esta mesma obra era realizada (1818-1883), Freud (1856-1939) e Marcuse
Confederação dos Estados Unidos. Mas como CONHECIMENTO POLíTICO pela maçonaria e por outras sociedades secre- (1898-1979), por vezes com ingredientes tro-
os laços que estreitam os Estados confedera- Apresenta várias modalidades e assim como tas - entre as quais as de estudantes, nas uni- tskistas e maoístas. Tem-se em vista um mode-
dos são comumente frágeis, e de modo espe- há diferença entre o conhecimento vulgar e o versidades - , cuja expansão se deu no século lo socialista, a ser atingido, até pela violência,
cial quando é preciso fazer frente a forças ad- conhecimento científico, cabe distinguir entre XIX pelos países da Europa e da América. As- se os outros processos não derem certo. Assim,
versas poderosas, essa Confederação acabou a opinião pública e a ciência ou a filosofia po- sim se formaram as minorias revolucionárias, a conscientização ideológica, longe de resultar
por converter-se em Federação, em 1787. Ago- lítica. Na observação de Leo Strauss, o pensa- que posteriormente viriam a dirigir as massas de reflexão pessoal num esforço de autêntica
ra, uma união de direito constitucional substi- mento político, enquanto tal, é indiferente à e exerceriam forte dominação sobre os meios interiorização, vem de uma pressão exterior. E,
tuía a união de direito internacional. E em vez distinção entre opinião e conhecimento (know- de atingir a opinião pública. A importância da não obstante se proponha libertar o indivíduo
de treze, vinha a existir, a partir de então, um ledge), mas a filosofia política é o "esforço cons- imprensa, que veio a ser chamada de "quarto dos condicionamentos sociais que o desfigu-
só poder soberano, um só território, uma só ciente, coerente e tenaz para substituir as opi- poder", deve também ser ressaltada, cabendo ram, na verdade lhe manipula a consciência
cidadania. niões sobre as noções fundamentais da política assinalar, entre os meios de comunicação de em função de objetivos revolucionários, toman-
Embora seja mais freqüente uma Confedera- pelo conhecimento (knowledge) a respeito dos massa, a influência preponderante da televi- do-o ainda mais condicionado.
ção tornar-se Federação, já houve Confedera- mesmos" (What is Política I Philosophy?, The são. Ante essas fontes, muitas vezes envene-
ção que se transmudou em Estado unitário. É o Free Press of Glencoe, Illinois, 1959, p. 12). nadas, do conhecimento político, a objetivida- V. Ideologia - Revolução.
caso da Confederação dos Países Baixos (1579), Segundo o mesmo autor, o conhecimento polí- de deste só se pode preservar por sérios estudos
CONSELHO CONSTITUCIONAL
hoje Reino da Holanda. tico adquire valor quando supera simples es- de filosofia, história e sociologia, pressupos-
Note-se, ainda, que a despeito de a Suíça tado opinativo da mente. tos, hoje mais do que nunca, indispensáveis Órgão do poder público que, em alguns pa-
exibir em sua denominação oficial o termo "con- Isto se dava noutros tempos mediante o sa- para o exercício da prudência política. íses, com essa ou outra denominação, tem com-
federação" (Confederação Helvética), deve-se ber acumulado pelos mais velhos, o estudo da petência específica para exercer o controle
V. Ciência política - História - Ideologia - Ilu-
isso a mera reminiscência histórica (1815-1848), . história, a observação dos fatos na sociedade minismo - Imanentismo - Opinião pública - Po-
jurisdicional da constitucionalidade das leis. Esse
pois ali vigora a forma federativa de Estado. em que se vive e a participação nas atividades controle é peculiar aos regimes de constituição
lítica - Prudência política - Romantismo político
Nos tempos atuais, vez ou outra manifestam- da vida pública. Quanto à história, ]oseph de - Sociedade civil- Sociedade política - Teoria do rígida, com vistas a assegurar a unidade da es-
se tentativas de formação de confederações de Maistre (1753-1821) nela via a "política experi- Estado - Tradicionalismo.
trutura legal do Estado. Na França, o controle é
Estados. Foi o que aconteceu quando Egito, mental", e Maquiavel (1469-1527) sobre a his- prévio, ou seja, segundo a Constituição de 1958,
Síria e Líbia implantaram, em 1971, a Repúbli- tória de Roma calcava todo o seu pensamento CONSCIENTIZAÇÃO antes da promulgação as leis orgânicas devem
ca Árabe Unida (RAU). político (o que se verifica sobretudo nos seus e as ordinárias podem ser submetidas ao Con-
Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lí- Atribuem alguns o emprego originário desta
V. Federação. selho Constitucional, o qual também é compe-
vio). O tradicionalismo político baseia-se em palavra a Paulo Freire, na sua chamada "edu-
tente para conhecer dos compromissos inter-
conhecimentos históricos, completados pelo cação libertadora", ao passo que a Pequena
CONGRESSO nacionais (antes de serem aprovados pelo
método sociológico da observação dos fatos (o Enciclopédia de Moral e Civismo, do Ministério
Parlamento) e dos regulamentos administra-
No direito público interno, órgão de repre- "país real", muitas vezes em contraposição ao de Educação e Cultura, informa que foi criada
no Brasil, em 1959/60, pelo movimento da Ação tivos. Na Alemanha e na Itália, a Corte Cons-
sentação política composto de Câmara Alta (Se- "país legal"), ao passo que as concepções re-
nado) e Câmara Baixa (Câmara dos Deputa- volucionárias freqüentemente prescindem dos Popular (AP), sendo que outros ainda dizem titucional tem função idêntica, embora suas
dos), cuja competência é estabelecida na ter sido empregada pela primeira vez na lin- atribuições alcancem também matérias ines-
fatos e da história, partindo de hipóteses e fan-
organização institucional que o adota. Varia de tasias, como a do homem do estado de nature- guagem das escolas radiofônicas da Colômbia. pecíficas. O Brasil adota o sistema norte-ame-
país para país a mecânica de funcionamento O neologismo deriva do verbo "conscientizar", ricano: o controle ocorre depois de a lei estar
za e a do contrato social de Rousseau (1712-
do sistema bicameral. No Brasil, o Congresso 1778), ou empregando uma dialética à qual que significa tomar consciência ou compene- em vigor, podendo a inconstitucionalidade ser
Nacional, que compreende o Senado Federal e submetem os fatos numa interpretação sub- trar-se de alguma coisa. Pode supor-se uma sã argüida em cada caso concreto, perante qual-
a Câmara dos Deputados, aprecia as matérias jetivista (hegelianismo, marxismo). conscientização ou consciencialização, verda- quer juízo, embora seja viável ainda a ação
de competência da União que exijam elabora- Na "sociedade dinâmica de massas" - ob- deiramente educativa, levando os homens a direta de declaração de inconstitucionalidade,
ção legislativa. Há atribuições do Congresso que serva ainda Leo Strauss - esses meios de ad- terem idéias bem claras do que devem fazer em tese, e respeitados certos pressupostos, ca-
CONSEUlO DE ESTADO - 122- CONSERVADOR CONSERVADOR -123 - CONSERVADOR

bendo ao Supremo Tribunal Federal compe- ção no Brasil-Império que o Conselho de Esta- lutiva, para evitar comoções na ordem estabe- novando e renovar conservando", conforme
tência privativa para sua apreciação. do exercia efetiva assessoria política e técnica lecida. Tratava-se, portanto, de conservadores expressão de Michele Federico Sciacca (1908-
V. Controle da Constitucionalidade das Leis. de alto nível, tanto assim que foi chamado "o não-revolucionários, mas não contra-revolucio- 1975), caracteriza essa dinamicidade vital, de
cérebro da Monarquia". A propósito, testifica nários. Conservadores contra-revolucionários que decorre a incorporação do novo ao exis-
CONSELHO DE ESTADO Joaquim Nabuco (1849-1910): "Foi com efeito são, em geral, chamados "reacionários", espe- tente, sem destruir neste o que é fundamental
uma grande concepção política, que mesmo a cialmente quando se opõem aos princípios re- à vida e à dignidade do viver, num processo
Órgão colegiado que integra uma organiza-
Inglaterra nos podia invejar, esse Conselho de volucionários com base em outros princípios, contínuo de enriquecimento e aperfeiçoamen-
ção política e exerce funções consultivas e opi-
Estado, ouvido sobre todas as grandes ques- como foi o caso, na França do século passado, to, que leva ao progresso. Por isso, dado que o
nativas sobre os negócios públicos. No Brasil,
tões, conservador das tradições políticas do de Joseph de Maistre (1753-1821), De Bonald tempo não é dimensão de valor, constitui sim-
durante o Império, relevante foi o papel do
Império, para o qual os partidos contrários eram (1754-1840), Louis Veuillot (1813-1883) e ou- plismo considerar o progresso em função do
Conselho de Estado. Instituído na Constituição chamados a colaborar no bom governo do país,
de 1824 e extinto pelo Ato Adicional de 1834, tros, também considerados "católicos ultramon- novo pelo novo, do mudar por mudar, segun-
onde a oposição tinha que revelar os seus pla- tanos". Atualmente, são tidos por conservado- do um fieri perpétuo, que consagra a revolu-
foi restaurado em 1841, com 12 membros vita- nos, suas alternativas, seu modo diverso de
lícios, em vez de 10, como havia sido fixado res - dentro de amplo espectro - todos ção pela revolução, um vir a ser que nunca
encarar as grandes questões cuja solução per- quantos, por razões as mais diversas, se situam será. Registra a história que esse delírio revolu-
originariamente, para aconselhamento do Po- tencia ao ministério. Essa admirável criação do em campo oposto ao do socialismo, democrá- cionário antecede, quase sempre, a dominação
der Moderador e do Poder Executivo. Como espírito brasileiro, que completava a outra, não tico ou não, ou ao do chamado progressismo, do totalitarismo.
órgão consultivo do Poder Moderador, privati- menos admirável, tomada a Benjamin Constant, de feitio social, político ou religioso. Nesse es- Já o termo conservadorismo - embora em-
vo do Imperador, e reunindo-se sempre em o Poder Moderador, reunia, assim, em torno pectro se encontram conservadores identifica- pregado, às vezes, no sentido de conservação
sessões plenas, com um mínimo de sete mem- do Imperador, as sumidades políticas de um e dos quer com um capitalismo exacerbado, quer do que corresponde aos fundamentos da vida
bros, aconselhava o monarca em todos os ne- outro lado, toda a sua consumada experiência, com um regime de liberdade econômica que humana - , no entendimento comum, denota
gócios do Estado, especialmente quando do sempre que era preciso consultar sobre um gra- promova a justiça social; quer com um sistema usualmente a idéia de sistemática defesa de
exercício das atribuições constitucionais desse ve interesse público, de modo que a oposição político liberal-democrático, quer com um re- certa ordem social, política e econômica me-
Poder: nomear senadores escolhidos em lista era, até certo ponto, partícipe da direção do gime de autoridade que garanta a liberdade; diante esquemas infensos a quaisquer altera-
tríplice, convocar a Assembléia Geral extraor- país, fiscal dos seus interesses, depositária dos quer com uma organização social mais próxi- ções ou reformas que acarretem rupturas com
dinariamente, dissolver a Câmara dos Deputa- segredos do Estado" (Um Estadista do Império, ma do individualismo, quer com uma estru- o estabelecido. Neste caso, conservadorismo
dos e convocar eleições, suspender magistra- Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1936, turação social que valorize o homem integrado equipara-se a imobilismo, e o circunstancial
dos por prevaricação, conceder indulto ou Livro VIII, Capo 11, nº 11, p. 381). em grupos naturais; quer com um Catolicismo acaba considerado essencial. E, assim, inclusi-
anistia, ou quando devessem ser tomadas ou- A Constituição brasileira de 1988 instituiu o de dogmas e ritos imutáveis, quer com um Ca- ve tradições sadias se vêem arrastadas a inde-
tras decisões de suma importância ou gravida- Conselho da República, dispondo nos artigos tolicismo de dogmas imutáveis e ritos mutáveis sejável processo de decomposição.
de: declaração de guerra, realização de paz, 89 e 90 sobre sua composição e competência. no acidental. Por outro lado, e a despeito do aparente
celebração de tratados internacionais. Como Mas tem tido papel irrelevante: raramente se Por certo, há conservadores que, arraigados paradoxo, é o conservadorismo inerente à auto-
órgão consultivo do Poder Executivo, chefiado reúne. a determinadas idéias, acabam por legitimar, sustentação do Estado totalitário. Foi assim na
também pelo Imperador, que o exercitava "pe- mais cedo ou mais tarde, a própria vitória do antiga União Soviética e demais países comu-
los seus Ministros de Estado", segundo a Cons- CONSERV ADOR
socialismo ou do progressismo, que não que- nistas, com as "clínicas psiquiátricas" e os "cen-
tituição, o Conselho de Estado desempenhava Governo, partido, grupo ou pessoa que reriam. Assim, ao reconhecerem como válidos tros de reeducação", apostados em conservar
suas funções no tocante a assuntos exclusiva- perfilha uma ordem de coisas inalterável, es- e intangíveis os postulados rousseaunianos da intactos os padrões da "nova sociedade", ser-
mente administrativos. Para esse fim, era divi- pecialmente quanto a valores e direitos estabe- "soberania popular", admitem que, necessaria- vindo a esse fim o próprio avanço tecnológico,
dido em quatro seções, com três conselheiros lecidos. Revolucionários e liberais, a partir do mente, o "critério da maioria" é critério de ver- nos setores bélico e espacial, com o fito de
em cada uma: 1ª seção: Negócios do Império; século XIX, conferiram sentido depreciativo ao dade, portanto, indiscutível. Como esse crité- garantir o prestígio e a consolidação do mode-
2ª seção: Negócios da Justiça e Estrangeiros; 3ª termo, que ostenta, ainda hoje, conotações dessa rio vale por si mesmo, terá que ser acatado lo sócio-político vigorante, quer protegendo
seção: Negócios da Fazenda; e 4ª seção: Negó- natureza. No entanto, a semântica desse termo sempre. Conseqüentemente, jamais poderá ser ("cortina de ferro"), quer expandindo ("guer-
cios da Guerra e Marinha. As reuniões de cada tem variado ao longo do tempo, dadas as apli- impugnado o triunfo do socialismo respaldado ras de libertação") as fronteiras. A "nova clas-
seção se faziam sob a presidência do Ministro cações diversas que tem sofrido, chegando a na via democrática das convicções desses con- se" (Nomenklatura), beneficiária de privilégios
a cuja pasta estivesse vinculada a competência caracterizar até mesmo situações e posições servadores. e regalias, para manter o poder, fez assentar a
da matéria em exame. Sobre o assunto debati~ paradoxais. Não se perca de vista que o núcleo Cabe observar, no entanto, que o princípio montagem totalitária num conservadorismo ra-
do, um relator adrede designado pelo Minis- conceitual de conseroar é manter, preservar. de conservação é saudável na medida em que dical. Surgiu, desta forma, de uma revolução
tro-presidente exarava parecer que, uma vez Desta forma, por conservador foi tido, no sé- preserva tudo quanto está conforme ao ser do (1917), na seqüência de outra (1789), que lhe
posto a votos, era encaminhado ao Imperador. culo passado, especialmente na França, quem, homem e à natureza das coisas, às primeiras serviu de antecedente ideológico, o Estado mais
Verdadeiros órgãos de assessoria dos ministé- embora não sendo contra-revolucionário, de- normas de moralidade dos atos humanos, à reta conservador do mundo: o Estado comunista,
rios, essas seções até mesmo minutavam pro- fendia a preservação de certos valores, postos ordenação da vida social, à identidade históri- de que a ex-União Soviética foi o mais acabru-
jetos de lei, decretos, regulamentos, instruções, em xeque pelas proposições radicais da dou- ca dos agrupamentos nacionais e regionais, à nhante exemplo.
etc. Embora participassem das reuniões do trinação de 1789, apostada em engendrar uma valorização das características típicas de cada No quadro da política partidária, conserva-
Conselho, os Ministros de Estado não tinham "nova sociedade". No caso, não havia propria- povo. Essa conservação dá segurança às dor é denominação adotada por organizações
direito de voto quando da apreciação das ma- mente repúdio dos "ideais da Revolução", mas impulsões do dinamismo da vida, por resguar- políticas de alguns países. Dentre elas, tem
térias em pauta. Revela a história dessa institui- a proposta de realização deles pela via evo- dar-lhes as realidades básicas. "Conservar re- maior fama o Partido Conservador inglês, sur-
CONS1TlVClONAUSMO -124 - CONS7TIVIÇÃO CONSTITUIÇÃO -125 - CONSTITUIÇÃO

gido no século XIX, oriundo mais remotamen- o constitucionalismo começa a difundir-se pregado depois da independência das colônias tualização abstrata, há equivalência entre lei
te dos torles e hoje com uma linha programática quando, em 27 de agosto de 1789, a Assem- inglesas na América (1776) - que, em 1787, fundamental e constituição, no tocante à últi-
cuja tônica é a economia de mercado, em opo- bléia Constituinte francesa aprova a Déclaration formaram os Estados Unidos - e da Revolu- ma instância de imputação normativa.
sição ao estatismo preconizado pelo Partido des Droits de I'Homme et du Citoyen, seguida ção Francesa (1789). Até então falava-se de "leis Em sentido material, toda e qualquer socie-
Trabalhista. Também no Canadá há outro Par- da Constituição de 1791. A Déclaration vinha fundamentais". Embora não possuíssem a sis- dade política, ainda a mais rudimentar, sem-
tido Consetvador de expressão que, avesso ao proclamar em seu artigo 16: "Toda a sociedade tematização arquitetônica das constituições pre possui uma constituição (escrita ou costu-
intetvencionismo estatal promovido pelo Parti- na qual não está assegurada a garantia dos di- modernas, as Leis Fundamentais do Reino es- meira), vale dizer, um mínimo de estrutura
do Liberal, defende a liberdade econômica, mas reitos nem determinada a separação dos pode- tabeleciam uma superlegalidade, fixavam os institucional. A constituição política, porém, é
faz concessões à participação do Estado em res, não tem Constituição." O constitucionalismo princípios básicos da estruturação do poder e obra da "vontade livre" dos homens, ou, mais
programas sociais. surgia, assim, dogmático, além de erigir em asseguravam certos direitos fundamentais dos precisamente, dos homens que se põem de
No Brasil, durante o Império, dois eram os crença universal a democracia representativa, indivíduos e dos agrupamentos. acordo (cum statuere). Tem origem conven-
partidos que dominavam a cena política: o Par- liberal e burguesa. Carl Schmitt (1888-1985) ralaciona os vários cional, e freqüentemente nasce de um pacto,
tido Consetvador e o Partido Liberal, cujos pro- Pretendiam os revolucionários de 1789 que, sentidos que pode ter o termo "constituição" de um compromisso entre o detentor da auto-
gramas não apresentavam grandes diferenças, garantindo-se os "direitos dos cidadãos" e a quando usado para designar a lei fundamental ridade e aqueles que defendem suas liberda-
tanto assim que se costumava dizer: "Nada tão "separação dos poderes", por meio de uma do Estado. São os seguintes: des, ou entre os representantes de diferentes
igual a um saquarema (consetvador) quanto constituição escrita, as liberdades individuais 1) Norma absolutamente inviolável e não correntes políticas de uma assembléia consti-
um luzia (liberal) quando no poder." estariam a salvo do arbítrio do poder, tanto mais suscetível de reforma. tuinte.
que este já agora não passava de mero delega- 2) Norma relativamente invulnerável, que Nas monarquias tradicionais dos reinos his-
V. Progressismo - Progresso - Reação - Tradição
do do povo soberano. Demais disso, os gover- pode ser reformada mediante processo extra- pânicos, havia uma idéia muito clara de legiti-
- Tradicionalismo.
nantes, bem como os governados, ficariam sub- ordinário. midade institucional originária de certo pacto
CONSERV ADORISMO - v. Conservador. metidos à ordem legal, ou seja, à constituição 3) Princípio último da unidade política e do entre o soberano e os súditos. Abandonada nos
escrita. Configurava-se, desta forma, o Estado ordenamento social do Estado. Assim era a tempos do absolutismo, especialmente no sé-
CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO Liberal de Direito. "constituição" para Aristóteles e os filósofos gre- culo :XVIII (despotismo esclarecido, Au.fklií-
Nascia, assim, o abstracionismo constitucio- gos. Toda sociedade política é "constituída", rung) , a noção de pacto, nas origens de uma
Tática posta em execução para anular a pro- constituição política, reaparece na época da
nal: o direito abstrato tomava o lugar do direito de uma forma ou de outra; ela tem a sua ma-
pagação de idéias às quais se quer dar comba- Revolução de 1789, mas agora sob a inspira-
histórico; a mitologia jurídico-política passava neira de ser, ou seja, a sua constituição.
te. Conseguir o silêncio dos meios de comuni- a prevalecer; jogando-se com as abstrações dou- 4) Alguns princípios particulares da organi- ção individualista. A bilateralidade das obriga-
cação em torno de um livro, por exemplo, é trinárias do iluminismo, chegava-se depois à ções do rei e dos súditos era um princípio es-
zação do Estado, por exemplo, os direitos fun-
mais eficiente do que tentar refutá-lo, pois uma "racionalização do poder", cujo formalismo veio damentais, a divisão de poderes, o princípio sencial do direito público hispânico, enunciado
crítica já implica certa propaganda do que se propiciar maior expansão ao constitucionalismo. já nos tempos da monarquia antiga, isto é, sob
quer repelir. É processo habitual em alguns representativo.
Estava aberto o caminho para o positivismo 5) A mais alta norma num sistema de impu- o Império Visigótico, e formulado nos Concí-
meios literários e universitários patrulhados ide- normativo, que sacralizou o constitucionalismo tações normativas (a lei das leis). As demais lios de Toledo. Esse princípio acompanhou o
ologicamente. Até mesmo no plano religioso formal, em que veio a pontificar Hans Kelsen leis devem ser referidas a esta norma, que es- desenvolvimento das instituições até o adven-
ocorre isso, como já denunciou São Pio X (Papa, (1881-1973), com a teoria pura do direito. tabelece a unidade da ordem jurídica. A con- to do absolutismo, após o qual a concordia do
de 1903 a 1914), na Encíclica Pascendi (1907), Uma vez perdida a visão da realidade das cepção de Hans Kelsen (1881-1973) é um exem- período medieval se dissolveu na noção roma-
a propósito do procedimento dos adeptos do coisas, a história das instituições políticas mo- na de imperlum retomada pelos legistas. A
plo bem significativo.
modernismo: "Se se trata de um adversário te- dernas encarregar-se-á de demonstrar a cada mesma idéia de reciprocidade está na base do
6) Certa regulamentação orgânica de com-
mível pela erudição e pelo vigor, procuram passo que a constituição escrita, alçada como petência e procedimento para as atividades regime feudal, constituído sobr~ o reconheci-
reduzi-lo à impotência organizando em torno bandeira de luta contra o absolutismo monár- estatais de maior importância. No Estado Fede- mento do valor da fidelidade. E verdade que
dele a conspiração do silêncio." quico, não oferece garantia eficaz de conten- ral, a discriminação das competências da União as instituições e os costumes feudais não tive-
ção e eliminação de crises e desastres político- em relação aos Estados-membros. ram na península hispânica a mesma expansão
CONSTITUCIONALISMO sociais, cuja dimensão mais trágica são os 7) Toda delimitação das faculdades ou ativi- que nos outros reinos da Europa. A tradição
Movimento ideológico que, a partir da Re- regimes totalitários, que se instauram até mes- dades estatais. política das Espanhas nos apresenta uma con-
volução Francesa (1789), promove a implanta- mo obedecendo ao ritualismo constitucional ori- 8) Constituição, em sentido positivo: ato do cepção de leis fundamentais calcada no postu-
ção dos princípios liberal-democráticos na ginário de 1789, como foi o caso do nazismo poder constituinte, originário de uma decisão lado do pacto central entre o Soberano e a
estruturação jurídico-política do Estado. A cons- ou o do comunismo, quando a "revolução pelo política unilateral do detentor do poder, ou re- Nação.
tituição escrita é o instrumento de efetivação voto" constitui via mais fácil e mais segura do sultante de acordo de alguns de seus detento- Não é necessário chegar ao tempo de Suárez
desses princípios, segundo os quais a socieda- que a revolução armada para conquistar o po- res (Verfassungslebre, § 5º, Duncker & Humblot, (De legibus, 1612) para encontrar essa tradi-
de política é concebida como se fosse com- der, sem se esquecer o ocorrido no Chile de Berlin, 1957). ção. Sabemos que o mestre de Coimbra e seus
posta unicamente de indivíduos e se origina Salvador Allende (1908-1973). É certo que todos esses sentidos de "lei fun- contemporâneos de Salamanca defendiam no
do contrato social, regendo-se por uma ordem V. Abstracionismo - Constituição. damental" não se aplicam ao conceito de cons- século XVII a origem popular da soberania,
jurídica estabelecida mediante um voluntarismo tituição. De outro lado, essas acepções não são contra a tese protestante da monarquia do di-
racionalista, com base no qual o homem pode CONSTITUIÇÃO excludentes umas das outras, e se apresentam reito divino. Essa foi, mais tarde, a mesma po-
montar o Estado de acordo com formulações Com o sentido de lei fundamental do Esta- às vezes como aspectos diversos de um mes- sição de Velasco de Gouveia (1589 ou 1590-
puramente ideais. do, o termo "constituição" começou a ser em- mo objeto. No entanto, num plano de concep- 1659) com as doutrinas da Restauração de
CONS'ITIVlÇÃO -126- CONSTnVlÇÃO -127 - CONS1TIVIÇÃO
CONS1TIVIÇÃO

Portugal (1640), que interpretavam polemica- A constituição é concebida não enquanto nacional é sempre legal, pois ela é a lei mes- sócio-política, cujas regras básicas em geral têm
mente o pactum subjectionis como uma dele- acordo, mas principalmente como declaração ma, e é legal independentemente de qualquer raízes em costumes seculares, como é o caso
gação do poder feita ao príncipe pelo povo, da vontade do povo soberano. A constituição outra condição, visto que é a origem de toda a da Inglaterra. Em função da origem, é conside-
no qual se via o sujeito imediato da autoridade outorgada é um ato unilateral de declaração legalidade. Essas afirmações do panfleto Qu 'est- rada democrática a constituição elaborada pela
originária de Deus. Mas desde a Idade Média da vontade do Chefe de Estado. A constituição cequele TiersÉtat?(1789), de Sieyes, soam co- "assembléia nacional constituinte", adrede eleita
já se ensinava que o rei deve jurar respeito aos elaborada por uma assembléia é, sem dúvida, mo um eco do Du contrat social de Rousseau, para esse fim; ou outorgada, a elaborada por
fueros, liberdades e franquias do Reino. Não 'se um compromisso, um acordo, mas desse com- que ensina que a vontade geral do povo é "sem- quem detém o poder, sem proceder à audiên-
podia ter soberania plena, legitimidade com- promisso das diversas correntes políticas repre- pre reta" e não tem necessidade de justificar cia prévia do povo, enquanto titular do "poder
pleta, sem o respeito pelo direito histórico e sentadas na Constituinte resulta a apuração da seus atos. Nesse panfleto, o autor proclama que constituinte", embora possa o povo manifes-
pelo cumprimento das leis fundamentais. vontade geral, a vontade da maioria, a vontade o "poder constituinte" se distingue do "poder tar-se mediante referendum. Sob o aspecto da
Com a Revolução de 1789, o direito abstrato do povo, decidindo por meio de seus manda- legislativo", por ser o poder gerador da Consti- estabilidade, famosa é a classificação de James
prevalece sobre o direito histórico. A Declara- tári~s. Eis o decisionismo no plano democráti- tuição, e, conseqüentemente, também dos po- Bryce (Studies in History and jurisprudence,
ção dos Direitos tem em vista o homem saído co. E este o significado mais profundo da teo- deres constituídos, entre os quais o próprio voI. I, Essay, 3): rígida (stationary, solid) é a
da selva para formar a sociedade, segundo a ria da constituição elaborada pela Revolução poder legislativo. A esse ritualismo básico - a constituição que somente poderá sofrer modi-
imagem de Rousseau (1712-1778). O edifício Francesa. que se tem conferido caráter imutável e uni- ficações mediante estrita observância de certas
da ordem tradicional é derrubado e constrói-se Na ordem prática, porém, não se pode per- versal, senão sacral - podem ser acrescidos formalidades (maioria qualificada, consulta aos
em seu lugar essa nova sociedade. A constitui- der de vista o mecanismo que deflagra esse outros procedimentos de validação do texto Estados federados - como nos Estados Uni-
ção torna-se elemento de origem da ordem ju- decisionismo. Isto porque a democracia mo- constitucional, como a aprovação de seus dis- dos e na Suíça - realização de referendum po-
rídico-positiva, servindo de ponto de partida derna é uma democracia de partidos. E a von- positivos mediante quorum especial dos "cons- pular - como na Suíça e na Austrália - etc.),
para as demais leis e fonte primeira dos direi- tade do povo, que se manifesta por meio de tituintes", e, às vezes, também, a ratificação formalidades essas mais severas do que as exi-
tos e das liberdades. Esta idéia, proveniente seus representantes, passa ainda por outro in- final do documento por referendum do elei- gidas para a elaboração de leis ordinárias ou
dos direitos do homem segundo o jusnatura- termediário: o partido político. Verifica-se, en- torado. complementares; e flexível (moving, fluid) é a
lismo racionalista, conduziu ao mais rígido tão, que a vontade do povo é geralmente a Em sua generalidade, as constituições atuais constituição modificável pelo processo
positivismo jurídico, que reduz todo o direito vontade de um grupo, que controla o partido podem ser definidas como um conjunto de legislativo ordinário. Também se considera
positivo ao direito fundamental da constitui- dominante, seja a direção desse partido, seja normas jurídico-políticas que caracterizam a semi-rígida a constituição cujas disposições são
ção, expressão da vontade soberana do legis- algum dos grupos de pressão que se multipli- forma de Estado e a de governo, o processo de eln parte rígidas, ou seja, somente alteráveis
lador. , cam em nossos dias e entre os quais é preciso aquisição e exercício do poder, a estruturação por processo legislativo especial, e em parte
Sobretudo o regime constitucional moderno destacar sobretudo aqueles que representam as de seus órgãos e a delimitação de suas compe- flexíveis, ou seja, alteráveis pelo processo
de origem franco-revolucionária, cujo espírito grandes forças econômicas. Por sua vez, os ar- tências, dispondo também acerca dos direitos legislativo ordinário, como era previsto no arti-
influenciou também o direito anglo-saxônio, ranjos e combinações entre vários partidos ou fundamentais e suas garantias.Várias são as go 178 da Constituição brasileira de 1824: "É
transpõe a idéia de imperium, originária do grupos se processam sem nenhuma participa- denominações de constituição adotadas pelos só Constitucional o que diz respeito aos limi-
absolutismo monárquico, para o plano de or- ção efetiva da vontade do povo. Essa realidade autores, conforme o critério a que eles se ate- tes, e atribuições respectivas dos Poderes Polí-
ganização democrática da sociedade. A consti- levou Karl Lôwenstein a afirmar que "a sobera- nham. Assim, segundo o conteúdo, chamar-se- ticos, e aos Direitos Políticos e individuais dos
tuição torna -se o resultado da vontade criadora nia pertence de fato aos partidos políticos" á constituição material, por encerrar as nor- Cidadãos. Tudo o que não é Constitucional,
do povo. É a idéia que nos permite chegar ao ("Réflexions sur la valeur des constitutions poli- mas estruturais do Estado, o estabelecimento pode ser alterado sem as formalidades referi-
fundo da concepção revolucionária da consti- tiques dans une époque revolutionnaire", in de seus órgãos e os direitos fundamentais; ou das pelas Legislaturas Ordinárias." Pode-se fa-
tuição política. Albert Sorel (1842-1906), em sua Revue Française de Science Politique, voI. II, nº constituição formal, quando se tratar de docu- lar, ainda, de constituição hiper-rígida, que é
obra clássica sobre a Europa e a Revolução Fran- 12, 1952, p. 231). mento solene, emanado do "poder constituin- aquela que estabelece certos limites materiais
cesa (L 'Europe et la Révolution Française), sus- Será preciso fazer-se abstração dessa reali- te" e cuja modificação deve obedecer a proce- intransponíveis para a realização da própria
tenta a tese segundo a qual a Revolução de dade, para examinar a teoria da constituição dimento especial previsto em seus dispositivos. reforma. É o caso das constituições que ve-
1789 está em germe no Antigo Regime, o que tal como foi posta a partir de 1789. Desde en- No tocante à forma, ter-se-á uma constituição dam, taxativamente, a apreciação de qualquer
se pode verificar também em L 'Ancien Régime, tão, a constituição é a dogmático-formal, ou escrita quando o documento for elaborado pelo emenda tendente a abolir a República (todas
de Tocqueville (1805-1859) e em Les origines seja, o documento solene, elaborado por um poder competente, que sistematiza - em ge- as constituições francesas, desde a de 1875;
de la France contemporaine, de Taine (1828- órgão composto de mandatários do "povo so- ral num só texto - as normas fundamentais da igualmente as brasileiras, desde a de 1891 -
1893). Com efeito, o absolutismo monárquico berano" e investido das prerrogativas genéti- organização do Estado; ou não-escrita, a cons- exceto a de 1988 - , e a italiana, de 1947) e a
contém já os princípios dos quais os adeptos cas do pouvoir constituant, apto, desse modo, tituição cujas normas derivam de costumes ou Federação (todas as constituições republicanas
da concepção rousseauniana da democracia se a criar as normas fundamentais de certa or- praxes consolidadas pelo tempo e de jurispru- do Brasil e a Lei Fundamental da República
servirão para elaborar a tese da soberania po- dem jurídico-política. Por isso, somente é atri- dência firmada. Quanto ao processo elaborativo, Federal da Alemanha). De outro lado, há consti-
pular. Sob o absolutismo monárquico, a vonta- buída legitimidade à constituição ungida pelo diz-se constituição dogmática a que é produzi- tuições que prevêem a própria modificação total
de do príncipe era lei, e a nova concepção "poder constituinte" - inerente ao povo ou à da pela "assembléia nacional constituinte" ao sem a ruptura da "legalidade", com a mudança
transferia o mesmo atributo à vontade do povo. nação - e que é exercido por seus delegados editar preceitos fundados em doutrinas políti- até mesmo da forma de governo e da forma de
O povo cria ex nihilo a ordem jurídica: eis a reunidos em "assembléia nacional constituin- cas (dogmas); ou constituição consuetudinária Estado. Foi assim que se deu a substituição da
essência da teoria revolucionária do pouvoir te", eleita por "sufrágio universal", instrumento ou histórica, a que decorre da sedimentação, Constituição da Confederação Helvética de 1848,
constituante da "constituição", ato desse mes- indispensável à manifestação da "soberania" do ao longo do tempo, de tradições que con- com a promulgação, em 1874, por meio de re-
mo poder. povo" ou "soberania nacional". Essa vontade substanciam uma forma típica de organização visão total, de uma nova constituição.
CONsrn'UIÇÃO - 128- CONSTl7VIÇÃO CONSTITUIÇÃO -129 - CONSTITUIÇÃO

Há, outrossim, regras políticas não codifica- do homem como ser associaI, e propiciando a ele dá validez mediante processo meramente Johnson" (Ciência Política, Fundação Getúlio
das - ou seja, resultantes de costumes e prá- expansão do Estado ao tentar corrigir as distor- lógico-formal. Esse formalismo conduz ao abs- Vargas, 1967, p. 238). E é a esse Luís XIV que
ticas iterativas - que têm igualou maior força ções sociais. Por se tratar de constituições ideo- tracionismo radical e ao próprio absolutismo se atribui a famosa frase L 'État c 'est moi.
do que normas constitucionais formais. É o que lógicas, prenhes de formulações apriorísticas, constitucional: "Todo direito é direito do Esta- Nessa ordem de considerações, ressalte-se
se verifica nos Estados Unidos com o "controle vale dizer, desligadas da vida, acabaram por do, como todo Estado é Estado de direito" que - em face da distinção entre as fontes
da constitucionalidade das leis", o "direito de encontrar nos fatos resposta adversa, e às ve- (Hans Kelsen, Der Soziologische und der formais e as fontes reais do direito - a cons-
veto" do Presidente, a existência do Electoral zes trágica, às pretensões visadas, pois se frus- juristiche Staatsbegrilf, ].C.B.Mohr, 1928, p. tituição política significa propriamente a cons-
College nas eleições presidenciais, a expansão traram tanto a limitação do poder do Estado, 253). Assim, qualquer direito "justifica" qual- tituição formal. É a constituição jurídica da so-
do poder federal em detrimento das compe- quanto a garantia das liberdades individuais. quer Estado, vale dizer, qualquer Estado justifi- ciedade política (polis, Civitas, Estado-Nação).
tências dos Estados-membros. A propósito, assinala Nelson de Souza ca a si mesmo, pois é ele a fonte única do À constituição política tomada nesse sentido
Também cabe observar que o formalismo Saldanha: "como se sabe - e creio que Laski direito. jurídico-formal pode-se opor a constituição polí-
encarnado na "assembléia nacional constituin- foi um dos primeiros a apontar o problema-, Tudo isso vinha a ocorrer porque - consu- tica real. Uma e outra podem coincidir ou estar
te" vem perdendo a auréola mítica. O ocorrido há um caminho direto de Rousseau a Hegel, mado que foi o desprezo pela ordem natural em desacordo. Quando a realidade constituci-
no próprio berço da doutrina do pouvoir no tocante à valorização do Estado. Em Rous- das coisas, isto é, pela constituição natural e onal política não corresponde à constituição
constituant(que, de 1791 a 1946, já havia dado seau, a vontade geral tende a estatizar-se, e a histórica da sociedade (com a multivariedade formal, então vê-se aparecer aquilo que Geor-
à França 15 constituições) é digno de registro. onipotência do legislador não apenas conduz de grupos sociais autônomos, ou seja, detento- ges Daskalakis chama de paraconstituição ou
A Constituição de 1958, que fez nascer a V a um juspositivismo latente (diante do jusnatu- res de direito próprio à auto-organização e ao contraconstituição. Na primeira hipótese (para-
República, na França, decorreu de um projeto ralismo dos ideais revolUcionários), como leva autogoverno, suscetível por isso mesmo de constituição), a constituição formal permanece
elaborado por assessores do governo, segundo a um conceito de liberdade em que a adesão à propiciar a limitação concreta do poder políti- em vigor, mas é modificada, em suas aplica-
um modelo prefixado pelo general Charles de ação do Estado é elemento central. E Carl co e a conseqüente preservação das liberda- ções, por regras de direito escrito, pelos costu-
Gaulle (1890-1970), com vistas a pôr cobro à Schmitt demonstrou, em seu livro sobre a his- des) - as constituições passaram a "construir" mes, interpretação ou usos constitucionais. Na
anarquia que se instalara na vida político-ad- tória do conceito de ditadura, que a atuação o Estado, apoiando-o em bases ideológico-abs- segunda hipótese (contraconstituição), a cons-
ministrativa da França a partir da Constituição concreta do pouvoir constituant implicou a tratas, fato este que, na prática, vem sujeitando tituição torna-se mero "pedaço de papel" e as
de 1946. Esse projeto foi submetido a um Co- presença de uma ditadura de comissários do os homens a verdadeiro regime de servidão, práticas políticas são radicalmente contrárias ao
mité Consultif Constitutionnel composto de 39 povo, em consonância com o Comité du Salut ao manietá-los nas malhas da tecnoburocracia espírito e às instituições fundamentais do regi-
membros (uma parte, de deputados de legis- Public e outros aspectos. Enfim, a complicação peculiar ao estatismo e ao totalitarismo moder- me constitucional formalmente estabelecido
laturas passadas, e outra parte, de elementos da 'máquina administrativa' foi aumentando, e nos. Na verdade, não é possível escapar ao (Georges Daskalakis, Droit constitutionnel et
escolhidos pelo governo). Em seguida, o Con- dentro do constitucionalismo como movimen- dilema: ou o Estado existe para o homem, ou o realité constitutionnel, tese apresentada ao
selho de Estado deu o seu placet ao projeto. E, to e programa a realidade do Estado constitu- homem existe para o Estado. E a constituição Congresso Internacional de Juristas de Atenas,
em 28 de setembro de 1958, o povo francês, cional se tornou prevalecente e absorvente. O em que este se estruturar terá que levar em em 14 de junho de 1955, Compte-rendu du
que não participou da elaboração da Constitui- crescimento da presença do Estado se daria conta um dos lados desse dilema, que envolve Congres International de juristes, Commission
ção, aprovou-a, por maioria esmagadora, me- justamente através das novas formas constitu- necessariamente uma ordem de valores vincu- Internationale de juristes, La Haye, p.
diante referendum. Tendo reformulado o regi- cionais, cada vez mais requintadas" ("Da Mag- lada a uma concepção da vida e do mundo 41-45).
me político em alguns de seus aspectos mais na Carta ao Poder Constituinte", em As tendên- (WeltanschauunfiJ. No entanto, é a concepção Esta distinção era já feita por Aristóteles, no
anarquizantes, ainda assim a Constituição de cias atuais do Direito Público, Forense, 1976, do homem abstrato que vem prevalecendo nas Livro V da Política, ao dizer que a constituição
1958 manteve intactos os princípios do vo- pp. 318/319). instituições políticas modernas. legalmente estabelecida em vários Estados, ain-
luntarismo rousseauniano, capaz de conduzir, Esse requinte chega ao clímax no pensamento Até mesmo num país como os Estados Uni- da que não democrática, pode ser aplicada de-
pelas vias democráticas, ao estatismo totalizante, jurídico-constitucional com o normativismo dos, onde a incidência do abstracionismo polí- mocraticamente, em razão dos costumes e da
como demonstra, na mesma França, a vitória kelseniano. Segundo Kelsen, o dever ser é in- tico é menos profunda (pois considerável subs- educação do povo, enquanto outros Estados
eleitoral dos socialistas em 1982. dependente do ser, ou seja, desvinculado de trato histórico impregna as instituições políticas nos oferecem o exemplo de uma constituição
Embora se pretendesse decapitar o absolu- qualquer valor transcendente, de qualquer ele- norte-americanas), seus efeitos, todavia, não democrática e de um governo oligárquico.
tismo do poder real- ao dogmatizar, em 1789, mento de natureza ética, histórica, política, etc. deixam de ser expressivos. E isto porque, em- O conceito de paraconstituição suscita o pro-
o artigo 16 da Déclaration des Droits de I' Hom- A norma é dever ser que radica em outro dever bora a Constituição de 1787 tenha sido a pri- blema do costume constitucional, que ocorre
me e du Citoyen, que toute societé dans laquelle ser, e assim sucessivamente, num encadeamento meira constituição escrita do mundo moderno, em países de constituição escrita. No Brasil e
la garantie des droits n 'est pas assurée, ni la de normas subordinadas e subordinantes se- e nela se tenham estabelecido, também pela nos países centro-sul-americanos, por exemplo,
séparation des pouvoirs determinée, n 'a point gundo uma estrutura piramidal cujo ápic~ é a vez primeira, a "separação de poderes" e as a contraconstituição prevalece muitas vezes,
de constitution -, a história das instituições "norma hipotética fundamental" (Grundnorm), "garantias individuais", tão crescente é o poder porque as leis fundamentais têm sido elabora-
políticas permeadas pelos preceitos do cons- a norma primária. Por conseguinte, o Estado central que - a despeito de todo o ostentado das ao nível do idealismo utópico das elites
titucionalismo moderno revela que o formalismo não é senão um sistema jurídico conforme a apanágio norte-americano de paradigma uni- marginais, sobre o qual as realidades sociais e
jurídico-político relativo à separação de "pode- essa "norma hipotética fundamental" (tida como versal da democracia - Paulo Bonavides não as práticas políticas manifestam um desmenti-
res" e às "garantias individuais" não tem sido "fundamento de validade da Constituição"). A hesitou em afirmar que o Presidente dos Esta- do inapelável, como faz ver reiteradamente Oli-
obstáculo ao crescimento do poder do Estado. Grundnorm, porém, não é norma de direito dos Unidos "enfeixa pois mais poderes que veira Vianna (1883-1951). O caudilhismo e a
E deve-se isso ao fato de as constituições se positivo, é simplesmente lógico-jurídica. É pres- um monarca absoluto. Luiz XIV, redivivo, tro- predominância das oligarquias, na realidade
fundarem nos princípios do individualismo re- suposta. Daí por que cada sistema jurídico tem caria talvez sem titubear o manto real de seu constitucional hispano-americana, são exemplos
volucionário,_que defluem da concepção mítica a sua "norma hipotética fundamental", que a poder pe