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Conselho Editorial José de Souza Martins

Ataliba Teixeira de Castilho


Felipe Pena
Jorge Grespan
José Luiz Fiorin
Magda Soares
Pedro Paulo Funari
Rosângela Doin de Almeida
FRONTEIRA
A DEGRADAÇÃO DO OUTRO NOS CONFINSDO HUMANO
2*^ edição, revista e atualizada
Proibida a reprodução toral ou parcial em qualquer mídia
sem a autorização escrita da editora.
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( oiisiillc iiossd c;il:il()('.o loiíiplelci c úlliinos liniçanu-iilos n i i wwn.i-ilj(<>iiicoiilc\(o.i- .hr
editoracontexto
f:,il>vriyjil ( ' ) Mm I)() .11111)1

lóilo.s os Ji rci l o s tlcsl;l i'tli(j;li) rf,scrv;K!()S


liliicora Co n te xto (Ed i to ra Piíisky Ltd a.)

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José de Souza Martin s
Mont agem de capa e diagramação
Gustavo S. Vilas Boas
Preparação de t ext os
Daniela M a r in i Iw am oto
Rev isão
Flávia Portellada

Dad os Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira d o Livro, SP, Brasil)
Martin s, José de Souza
Fronteira : a degradação d o O u tr o nos confins
d o hu m ano / José de Souza Martin s. — São Paulo :
Con texto, 2009.

Bibliografia.
ISBN 978-85-7244-432-3

1. Brasil - Cond ições sociais 2. Fronteiras e


p ioneiros - Brasil 3. Min orias - Brasil
4. Sociologia ru ral - Brasil I . Títu lo.

09-02227 CD D -305.560981
índ ice para catálogo sistem ático:
1. Br a sil: Fronteiras e p ion eiros; M in o r ia s; GiUa e Ant onio Candido de Mello e Souz a,
Cond ições rurais : Sociologia 305.560981 que personificam,
para t odos nós que v iemos depois,
as melhores t radições
2009
da Faculdade de Filosofia da Univ ersidade de São Paulo.

A
E D I T O R A C O N T E XT O
Dom Pedro Casaldáliga
Diretor ed itorial: Jaime Pinsky
e
Rua D r . José Elias, 520 - A lto da Lapa Dom Tomás Balduíno,
0 5 0 8 3 - 0 3 0 - Sã o P a u lo -SP
P A B x : ( l 1) 3832 5838 v idas de t est emunho profét ico
contexto@ed itoracontexto.com .br no coração da Amaz ónia,
w w w .ed itoracontexto.com .br na front eira.
Sumário

i i i i i o d i i ção 9

1
A (.i| iliir<i do out ro:
I' do mulheres e crianças nas front eiras ét nicas do Brasil 23

Os raptos na sit uação de fronteira 2A


R.)ptores e raptados 34
Modos e ritos: estilos de captura e sujeição A8

2
A ii-|)i()dução do capital na frent e pioneira
n.iscimento da escravidão 71

O cativeiro no capitalismo de front eira 7A


Acumulação primitiva no interior
(la reprodução ampliada do capital 78
Os mecanismos sociais de gest ação da escravidão 87
3
Regimar e seus amigos: a criança na luta pela terra e pela vida 101
Introdução
A criança como testemunha 102
Recomeçando a família pelo trabalho 109
O adulto no corpo da criança 115

O tempo da fronteira: retorno à controvérsia sobre


o tempo histórico da frente de expansão e da frente pioneira 131
Frente de expansão e frente pioneira:
a diversidade histórica da fronteira 134
Des que fui entendendo por experifiiliii
Os confins do humano e a fronteira da história 141 ho poco que se podia fazer nesta Icrni
A disputa pela concepção de destino na comversão do genl/o
por falta de não serem soyeitos,
na situação de fronteira 149 e elle ser huma maneira de gente
Sobrevivência e milenarismo no mundo residual de condição mais de feras bravas
da expansão capitalista 156 que de gente ralioiíal,
e ser gente servil que se quer por inedii,
e com juntamente ver a pouca esperança
Bibliografia 181 de se a terra senhorear,
e ver a pouca ajuda
e os muitos estoruos
O autor. 189 dos christãos destas terras,
cujo escândalo e mao exemplo
abastara para não se convencer..

Pe. Manuel da Nóbroga

\ .iiuira, a frente de expansão da sociedade nacional sobre territórios


|. |)()r povos indígenas, é u m cenário altamente conflitivo de h u -
iM u i i . l i i i c s que não forjam no seu encontro o h o m e m e o h u m a n o idílicos
A Ml u\u,.\o filosófica e das aspirações dos humanistas. A fronteira é, sobrc-
I I I . lo. iH> (|iic se refere aos diferentes grupos dos chamados civilizados que
M* «II 1 1 ,(1 1 1 "do lado de cá", u m cenário de intolerância, ambição e m o r t e .
Ml IKdNIIIKA INTRODUÇÃO 11

É, t ambém , lugar da elaboração de uma residual con cepção de esperan ça, \|uisa que resultou neste livro nos revela que a fronteira de m odo
atravessada pelo milenarismo da espera no advento do tempo novo, um M ' reduz e se resume à fronteira geográfica. Ela é fron teira de muitas
tempo de reden ção, justiça, alegria e fartura. O tempo dos justos. Já no ff «lilc u iiics coisas: fronteira da civilização (demarcada pela barbárie que
âm bit o dos diversos grupos étn icos que estão "do outro lado", e n o âmbit o Ml l.i •,(• oculta), fronteira espacial, fronteira de culturas e visões de mun do,
das respectivas con cepções do espaço e do h omem, a fronteira é, na verda- I leira de etnias, fronteira da h istória e da historicidade do h omem. E,
de, pon to lim it e de territórios que se redefinem continuamente, disputados .i>\n>.\.\\i\o, fronteira do humano. Nesse sentido, a fronteira tem u m caráter
de diferentes modos por diferentes grupos h umanos. Na fronteira, o cha- liiiiíj',i<.() e sacrificial, porque nela o outro é degradado para, desse modo,
mado branco e civilizado é relativo e sua ênfase nos elementos materiais da vi.il)ili/ar a existência de quem o domin a, subjuga e explora. É nessa d i-
vida e na luta pela terra t am bém o é. 1111 nsão, propriamente sociológica e an tropológica, que investigo o tema
Dentre as muitas disputas que a caracterizam, a que domin a sobre as il.i I tonteira e os desafios interpretativos que pr opõe em relação à socieda-
outras e lhes d á sentido é a disputa pela definição da lin h a que separa a cul- ilt iin que vivemos e em relação à nossa própria con dição h uman a. E na
lura e a natureza, o h omem do an imal, quem é h uman o e quem n ão o é. A líoiiteira que encontramos o h uman o no seu lim it e h istórico. E nela que
(tonteira é u m dos raros lugares na sociedade con t empor ân ea em que essa lios defrontamos mais claramente com as dificuldades an tropológicas do
disputa ainda tem a visibilidade que em outros perdura apenas na discus- (|iic é o fazer história, a h istória das ações que superam necessidades sociais,
são teórica e filosófica. Neste livr o, discuto aspectos dessa multiplicidade ii.in sformam as relações sociais e desse modo fun dam e criam a h um an i-
da fronteira, subestimada e negligenciada pelas Ciên cias Humanas. Nele, dade do h om em .'
t omo a fronteira como lugar privilegiado da observação sociológica e do Nos quatro estudos reunidos neste livr o, apresento resultados de uma
conhecimento sobre os conflitos e dificuldades pr ópr ios da con stituição do demorada pesquisa solitária, de t r in t a anos, nas frentes pioneiras do Brasil,
h uman o n o encontro de sociedades que vivem n o seu limit e e n o limiar da (Iczesseis dos quais em diferentes ocasiões e em diferentes pontos da região
história. É na fronteira que se pode observar melh or como as sociedades se •imazônica.^ Essa pesquisa baseou-se em técnicas artesanais de in vestigação
formam, se desorganizam ou se reproduzem. E lá que melh or se veem quais c em técnicas de inserção pedagógica temporária nos grupos e comun ida-
são as con cepções que asseguram esses processos e lhes dão sentido. Na des estudados. Assumi uma espécie de papel provisório de professor it in e-
fronteira, o h omem n ão se encontra - se desencontra. Não é nela que a h u - rante que se pr opôs, nos grupos estudados, como mediador interpretativo
manidade do out r o é descoberta como mediação da gestação do H om em . no diálogo desses grupos consigo mesmos. Integrei-me, pois, no esforço
Por isso, n o meu modo de ver, a figura central e sociologicamente reve- que já estavam espontaneamente fazendo para compreender a violência que
ladora da realidade social da fronteira e de sua impor t ân cia h istórica n ão é os vitimava e que os colocava em face de uma situação social de fim de era,
o chamado pioneiro. A figura central e metodologicamente explicativa é a como dizem; em face de u m mun do que se transformava n uma realidade
vítima. É na categoria e na con dição de vítima que podem ser encontradas nova e, para eles, irreconhecível.
duas características essenciais da con stituição do h uman o, suas fragilidades Procurei desenvolver uma técnica que se poderia chamar de pedagogia
c dificuldades, n uma sociabilidade que parece nova, aparentemente desti- investigativa, em que o pesquisador desencadeia a investigação a partir das
tuída dos automatismos da reprodução social, característicos das regiões de perguntas que o grupo estudado lhe faz, perguntando através de respostas
ocu pação antiga. Refiro-me à alteridade e à particular visibilidade do ou- para obter novas perguntas.^ Deixando-se interrogar e, assim, transfor-
tro, daquele que ainda n ão se confunde conosco n em é reconhecido pelos mando-se em objeto de in dagação, de deciframento do mun do de onde
diferentes grupos sociais como con stitutivo do nós. Refiro-me, t am bém , vem e de que faz parte, m un do que vit im a esse t ipo de popu lação, m un do
à limin aridade própria dessa situação, a u m modo de viver n o lim it e, na cuja lógica e cujas relações sociais dilaceram e condenam o m u n do do cam-
fron teira, e às ambiguidades que dela decorrem. pon ês e do ín dio. Trata-se de u m modo de conhecer através da vontade de
12 FRONTEIRA I NI I « ) I ) U( , A( ) 1)

conhecer e de se conhecer da própria população estudada. Desse modo é dão, bases da violên cia que a caracteriza. As formas arcaicas ganham vida c
possível fazer com que o grupo estudado formule por meio de suas indaga- con sistên cia por meio de cenários de modern ização e, concretamente, pela
ções a compreen são que tem dos acontecimentos de que é protagonista e forma domin an te da acumulação capitalista, racional e moderna.
da situação em que vive e assim exponha t am bém seu modo de compreen- As con cepções centradas na figura imagin ária do pion eiro deixam dc
der e de conhecer - seu modo de produzir conhecimento, os parâmetros e lado o essencial, o aspecto trágico da fronteira, que se expressa na mortal
critérios de sua con sciên cia social. As perguntas que o pesquisador precisa conflitividade que a caracteriza, n o desencontro genocida de etnias e no
e pode fazer, ao grupo cuja situação estuda, vem na sequên cia de suas res- radical con flito de classes sociais, contrapostas n ão apenas pela divergência
postas indagativas, a partir das chaves de in dagação e de explicação que os de seus interesses econ ómicos, mas sobretudo pelo abismo h istórico que as
membros do grupo já lhe ensinaram. separa. Na fronteira, o campon ês ainda vive relações econ ómicas, concep-
O material assim recolh ido, isto é, o aprendizado que o pesquisador ções de mun do e de vida centradas na família e na comun idade rural, que
assim faz, pode ser verificado comparativamente em sucessivos e diferentes persistem adaptadas e atualizadas desde tempos pré-capitalistas. Ele, que
grupos, através do mesmo procedimento. E possível, en tão, compreender ainda está mergulhado na realidade de relações sociais que sobrevivem do
diferenças sociais e diferenças de consciência que nos remetem aos fun - per íodo colon ial, se descobre confrontado com formas tecnologicamente
damentos estruturais do que observamos sociologicamente. Sobretudo, é avan çadas de atividade econ ómica, do mun do do satélite, do computador,
possível compreender a diversidade das temporalidades da h istória, suas da alta tecnologia. E subjugado por formas de poder e de justiça que se
implicações, seu sentido e as possibilidades históricas que abre. Tempo- pautam por códigos e interesses completamente distanciados de sua reali-
ralidades que aparentemente se combin am, mas que de fato t am bém se dade aparentemente simples, que mesclam diabolicamente o poder pessoal
desencontram, na prática dos que foram lan çados pelas circun stân cias da do latifundiário e as formas puramente rituais de just iça in stitucion al.
vida n uma situação social em que o con flito sai de seus ocultamentos, i n - Um estudo corretamente objetivo da fronteira depende da in corporação
clusive os ideológicos, e ganha visibilidade e eficácia dramát ica na própria desse con flito em suas complexas e até misteriosas formas como a rcfci-ên
vida cotidiana de adultos e crian ças. cia mais relevante da pesquisa científica, coisa que raramente a ciência t ci n
As limitações dos estudos sociológicos, an t ropológicos, h istóricos e geo- feito. Isso significa que o pesquisador responsável deve mover-se no iiiu-i ioi
gráficos sobre o problema da fronteira e sua expan são in tern a, em diferen- do con flito e da con flitividade, realizar sua pesquisa como se estivesse n u i i i
tes países, especialmente no Brasil, podem ser facilmente reconhecidas n o campo de batalha, t am bém por dentro e n ão só por fora; sobretudo a bataI lia
domín io que neles tem o favorecimento epistemológico da ideologia do em que os protagonistas se envolvem para desvendar os novos significados
pion eiro. Mesmo os autores que substituíram a figura mítica do pion eiro da vida decorrentes das mudan ças sociais que os alcan çam com a expan
pela suposição equivalente de que na fron teira está a pon ta da h istória e são da fronteira. E preciso indagar no in terior da subjetividade da vítima.
sua dimen são modernizadora e transformadora da sociedade, sua realidade Não apenas porque o pesquisador deve realizar seu trabalho n u m cen ário
mais din âmica, trabalham, n o fun do, com uma versão que desloca para o de guerra, com mortos e feridos. Mas t am bém porque essa guerra põe cm
social uma h istória até en tão centraca na personalidade do pion eiro, do con fron to, igualmente mor t al, visões de mun do e definições do O u t r o que
suposto herói da conquista das terras novas. Só que, agora, as qualidades expressam uma rica e difícil diversidade de con cepções do género h uman o.
do demiurgo, de herói criador, se transferem para a própria con cepção de Longe de ser o território do novo e da in ovação, a fronteira se revela,
fronteira, fetichizada. E aí se nega o essencial: o aparentemente novo da nestes estudos, o território da morte e o lugar de renascimento e maquia-
fronteira é, na verdade, expressão de uma complicada combin ação de tem- gem dos arcaísmos mais desumanizadores, cujas con sequên cias n ão se l i -
pos h istóricos em processos sociais que recriam formas arcaicas de domin a- m it am a seus protagonistas mais imediatos. Elas se estendem à sociedade
ção e formas arcaicas de reprodução ampliada do capital, como a escravi- in teira, em seus efeitos conservadores e bloqueadores de mudan ças sociais
IA FRONTEIRA I NTRODUÇÃO 15

em favor da h u m a n i z a ç ã o e da l i b e r t a ç ão do h o m e m de suas carências mais dl- investigação e m equipe, na fronteira, realizadas por outros pesquisadores,
d r a m á t i c a s . A fronteira é, no f i i n d o , exatamente o c o n t r á r i o do que procla- mostraram que são muitas as l i m i t a ç õ es de u m trabalho assim. Raramente
ma o seu i m a g i n á r i o e o i m a g i n á r i o do poder que m u i t o frequentemente se t) ( o n f l i r o é apreendido e compreendido e m sua complexidade sociológica
infiltra no pensamento a c a d é m i c o . (• a n t r o p o l ó g i c a , porque esse m o d o de o r g a n i z a ç ã o do trabalho de pesquisa
É praticamente impossível desvendar os segredos mais profundos da inviabiliza o envolvimento pessoal e intenso do pesquisador na realidade
s i t u a ç ã o de fronteira, sua d i m e n s ã o sociológica mais densa e significativa, (| i ic- estuda. E inviabiliza, p o r t a n t o, a c o m p r e e n s ã o dos c ó d i g o s e c o n c e p ç õ e s
c o m os instrumentos habituais da investigação reduzidos à ficção da neu- (|iic a p r ó p r i a v í t i m a utiliza para, por sua vez, compreender, explicar e supe-
tralidade ética e da i n d i f e r e n ç a profissional e fingida do pesquisador. E m i.ii o drama em que f o i l a n ç a d a desde "fora" de seu m u n d o por q u e m t e m
face dos confrontos radicais do h u m a n o e, sobretudo, e m face da m o r t e (liiiliciro e poder. Essas experiências empresariais de equipe, embora ú t e i s ,
constantemente presente, é impossível pesquisar e conhecer por meio da Icv.iin quase sempre ao reducionismo de h i g i é n i c o s , apressados, pacíficos e
hipocrisia convencional e pasteurizada das r e c o m e n d a ç õ e s de manual. Sem oiilciros estudos sobre os aspectos e c o n ó m i c o s e d e m o g r á f i c o s do desloca-
aceitar a radicalidade do confronto que define a s i t u a ç ã o social da fronteira i i R -iuo espacial dos vários grupos da p o p u l a ç ã o . Mas passam longe daquilo
n ã o se pode desvendar as fundamentais revelações sociológicas que essa i|iic é sociologicamente substantivo nesse t i p o de s i t u a ç ã o , que é o conflito.
radicalidade pode fazer. Para tentar chegar ao niicleo do conflito, o pesquisador deve ir, de pre-
Os trabalhos aqui apresentados envolvem parte dos resultados da ampla icirncia, sozinho ao campo, l i m i t a r seus relacionamentos aos membros
pesquisa que realizei nas frentes de e x p a n s ã o do país, sobretudo na A m a - i oiiliccidos da comunidade local, sobretudo para reduzir o campo de a m -
z ó n i a , nesses anos todos. O material básico resultante dessa investigação l>Í!',iiidades que nessas c i r c u n s t â n c i a s costuma se abrir e m t o r n o de sua
compreende cerca de duas centenas de horas de entrevistas gravadas no pessoa. E preciso n ã o esquecer que, na s i t u a ç ã o de conflito, o nós está d i -
M a t o Grosso, no Pará, no M a r a n h ã o , e m G o i á s e em R o n d ô n i a ; quase I. u c i a d o e, no caso da fronteira, e m grande parte bloqueado e i n v i a b i -
onze m i l extensos registros de o c o r r ê n c i a s , principalment e conflitos envol- 1I/ .KI(). Todo estranho é u m inimigo.^ E m povoados do norte do M a t o
vendo os brancos entre si e í n d i o s e brancos; cerca de cinco centenas de ( irosso, ouvi pela p r i m e i r a vez a palavra chegante e logo pude compreender
registros s i s t e m á t i c o s sobre o c o r r ê n c i a s de escravidão por d í v i d a e pouco II, 1 prática as sutilezas de sua definição e da s u p e r a ç ã o d o estranhamento.
mais de oito m i l p á g i n a s de a n o t a ç õ e s do caderno de campo. E, a l é m disso, < 'licgante não é simplesmente quem chega, mas quem chega para ficar, para
centenas de documentos, especialmente boletins de p a r ó q u i a s e entidades \c tornar membro do grupo, q u e m c o m p a r t i l h a solidariamente e fisicamente
de apoio às lutas camponesas e i n d í g e n a s , relatório s organizados por g r u - o (los ti no dos que estão em busca de u m lugar. Q u e m chega e vai embora
pos locais e cartas. A pesquisa se desdobrou e m arquivos e bibliotecas, e m \\M) fica, pois, na c o n c e p ç ã o local, n e m mesmo chegou. Apenas passou.
particular na busca do material etnográfic o e h i s t ó r i c o complementar sobre V'.m diferentes lugares e ocasiões, depois de u m p r i m e i r o m o m e n t o de
temas abrangentes que me permitissem u m a visão mais ampla dos tempos (Ifsionfiança, v i n h a a tentativa de me usar de algum m o d o no p r ó p r i o
h i s t ó r i c o s e da d u r a ç ã o dos processos sociais c o m que estava lidando . t o n l l i t o , uma forma de verificar minhas i n t e n ç õ e s e m i n h a lealdade, mas
As características altamente conflitivas da s i t u a ç ã o de fronteira que f o i i.iinbcrn de me incorporar c o m o aliado. Mas, ao mesmo tempo, f u i me
objeto da pesquisa e m M a t o Grosso, R o n d ô n i a , Acre, Amazonas, Pará, M a - • l.iiido conta de que, significativamente, essa i n c o r p o r a ç ã o nunca era u m a
r a n h ã o , G o i á s e o hoje estado de Tocantins inviabilizaram desde o c o m e ç o M U o r p o r a ç ã o consumada e plena. Sempre que esses grupos, enquanto eu
u m trabalho de equipe. M i n h a e x p e r i ê n c ia inicial de pesquisa, nos anos cM M va no campo, se aproximaram de momentos decisivos de confront o
1960, em pontos de conflito da A l t a Sorocabana, e m São Paulo, j á me mos- ' oin seus inimigos, esperaram que eu saísse do lugar para t o m a r decisões e
trara que o trabalho de campo n o estudo sociológic o da fronteira t e m que .ir.ii. l''icava clara, assim, apesar de toda a cordialidade c o m que era recebi-
ser u m paciente trabalho artesanal e, de preferência, solitário. Experiências >lo, m i n h a c o n d i ç ã o de estranho, dc i i ã o - m e m b r o do grupo. É u m a inge-
16 FRONTEIRA INTRODUÇÃO 17

n u id a d e im a gin a r q u e o p esq u isad or possa se t o r n a r participante d e gr u p o s ções e a m b igu id a d e s, p ara ficar b e m c o m t od as as part es en vo lvid as, o q u e
cu ja sit u ação social exacerba seus cr it ér ios d e alt er id ad e e t o r n a p recisa a in fe liz m e n t e é c o m u m en t r e p esqu isad ores q u e t ê m se a ve n t u r a d o a r e a li-
l i n h a q u e n eles separa o nós e os outros. N a d a t e m m en os se n t id o d o q u e a zar seus t r ab alh os n a fr o n t e ir a . A d e sco n fia n ça q u e essa in d e fin içã o acarret a
exp r essão p ret en siosa e t o la , n a b o ca d e m u i t o s p esqu isad ores, d e q u e estes m ais p e r t u r b a d o q u e b en eficia o t r a b a lh o d o p esqu isad or, p r iva n d o - o d o
são "m eu s ín d io s " o u "m eu s cam p on eses", p ar a se r e fe r ir em às p o p u la çõ e s acesso a aspect os im p o r t a n t e s d a sit u açã o q u e os d iferen t es lad os p o d e m
d ep o sit ár ias d e seu o b je t o d e est u d o. Ao d e fin ir m i n h a in se r çã o n os d ife - o cu lt a r . Ao co n t r á r io , a o p ç ã o p ela clareza e d efin ição d a p r esen ça a in d a
ren t es gr u p o s c o m o p e d a gó gica , p r o c u r e i d ar d ir e çã o e se n t id o à t e n t a t iva q u e t e m p o r á r ia n o gr u p o lo ca l, ao revelar d et alh es d a sit u a çã o e dos a co n -
d e m a n ip u la ç ã o q u e m e a lca n ço u in ú m e r a s vezes, p ara p o d e r t er o m á xi m o t e cim e n t o s q u e d e o u t r o m o d o ficariam o cu lt o s, e xp õ e t a m b é m , in d ir e t a -
d e co n t r o le p o ssíve l sobre o m e u p ap el e m cad a sit u a çã o . E o m á xi m o d e m e n t e , as o cu lt a çõ e s d o o u t r o la d o .
co n sciê n cia das lim it a çõ e s dessa in ser ção .
M i n h a d ifer en t e o p ç ã o fo i p o ssível t a m b é m p o r q u e as o r ie n t a çõ e s e
Preferi d eixar d e lad o p ressu p ost os (e p r econ ceit os) p osit ivist as relat ivos
at u açõ es dos p r in cip a is r esp o n sáveis p ela d isse m in a çã o dos co n flit o s c o m
à n e u t r a lid a d e d o r e la cio n a m e n t o en t r e o p esq u isad or e as p o p u la çõ e s q u e
p o p u la çõ e s cam p on esas e in d íge n a s, os gran d es p r o p r ie t á r io s d e t er r a - g r i -
est u d a. N u m a sit u ação d e c o n flit o , essa p ret en sa n e u t r a lid a d e b lo q u e ia o
leiros o u n ã o , legais o u n ã o - e o Est a d o , est ão d o cu m e n t a d a s e m m a t e r ia l
acesso aos d ad os m ais im p o r t a n t e s , ciosam en t e gu ar d ad os p o r aqueles q u e
escrit o d e m ais fácil acesso ao p esqu isad or, e m ar q u ivo s p ú b lico s e p r iva -
c o n s t it u e m os p r ot agon ist as das o co r r ê n cia s e a co n t e cim e n t o s. Essa o p çã o
d os. O m e sm o já n ã o o co r r e c o m as p o p u la çõ e s d o c a m p o e c o m as p o p u -
i m p l i c o u , d esd e lo go , d esd ob r ar co m p a r a t iva m e n t e m in h a s o b ser vaçõ e s
lações in d íge n a s, q u e n ã o p r o d u z e m t est em u n h o s escrit os d e seus d r am as
sob re u m t er r it ó r io m u i t o ext en so, c o m o se p o d e ver, e d e sd o b r á -la s, t a m -
c t r agéd ias. Esp ecialm en t e se se t e m e m co n t a q u e , n o m e u caso, b o a p a r t e
b é m , p o r u m t e m p o su ficie n t e m e n t e lo n go p ara q u e o m a io r n ú m e r o d e
d a p esqu isa se d esen volveu d u r a n t e a d it a d u r a m i l i t a r e e m áreas p a r t i c u -
aspectos d a sit u a çã o d e fr o n t e ir a se revelasse, d e p r efer ên cia, esp on t an ea-
la r m e n t e visadas p ela r ep r essão p o lic ia l e m i l i t a r e, t a m b é m , p ela r ep r essão
m e n t e ao p esqu isad or.
p r iva d a d e ja gu n ç o s e p ist o leir o s d os gran d es p r o p r ie t á r io s de t er r a.
O p t e i , t a m b é m , p o r assu m ir a b e r t a m e n t e, a in d a q u e cr it ica m e n t e , o
O a m b ie n t e rep ressivo e m q u e se sit u a va m as p o p u la çõ e s c o m q u e t ive
la d o d a vít im a , p ois esse era o â n gu lo m ais r ico (e m o r a lm e n t e m ais ju st o )
p ar a co m p r e e n d e r d e m o d o m ais ab r an gen t e os co m p lica d o s processos so- co n t a t o era u m fat o r a m ais p ar a q u e m e u r e la cio n a m e n t o c o m elas fosse

ciais d a fr o n t e ir a e a co m p le xa in t e ligê n cia q u e t e m d a sit u a çã o os seus p r o - est abelecid o e m t e r m o s d a m ais c o m p le t a clareza. N a m e d id a d o p o ssíve l,
t agon ist as. E p o ssível ser co r r e t o sem d eixar d e ser o b je t ivo e cr ít ico e n isso [iio c u r e i avaliar c o n t in u a m e n t e o m o d o d e m i n h a p a r t icip a çã o t e m p o r á r ia
est ava, aliás, o m e u p ap el p e d a gó gic o . Est ab eleci, assim , u m p o n t o d e rep aro na vid a desses gr u p o s, d e m o d o a c o r r igir in t er p r et açõ e s a m e u resp eit o q u e
n ít id o n o m e u r e la cio n a m e n t o c o m os gr u p o s, co m u n id a d e s e pessoas q u e n ão fossem verd ad eiras e q u e p u d essem d a n ificar os m eu s r e la cio n a m e n t o s
se d isp u ser am n ã o só a m e a ju d a r a en t en d er a co m p le xid a d e so cio ló gica d a (• o m e u t r a b a lh o . E q u e , p r i n c i p a lm e n t e , p u d essem causar d an os a eles.
sit u ação de fr o n t e ir a . E est abeleci t a m b é m , desse m o d o , u m a r efer ên cia so- i'„ t a m b é m , d e m o d o a ap er feiço a r a m i n h a p r ó p r ia c o m p r e e n sã o d o q u e
cio ló gica clara n a o r ie n t a çã o c o gn it iva d a in ve st iga ção e d a e xp lica çã o cie n - laziam e m e d i z i a m . Evid e n t e m e n t e , o co n t r o le q u e p o d i a t er e m r elação
t íficas. O p t e i p o r p esqu isar e n sin a n d o o q u e sei e a p r e n d e n d o o q u e n ã o sei, .1 isso era u m c o n t r o le l i m i t a d o , o q u e , aliás, ve r ifiq u e i e c o m p r o ve i nas
d e m o d o q u e m e u r e la cio n a m e n t o c o m as pessoas e gr u p o s c o m os qu ais c o n - o ia sió e s d e r e e n co n t r o c o m esses gr u p o s.
vi vi fosse u m r e la cio n a m e n t o d e du as m ã o s , d e t r o ca , e n ã o , c o m o é n o r m a , Me sm o c o m esse co m p r o m isso , e, eu d ir ia , só c o m ele, o p esq u isad or co in -
u m r e la cio n a m e n t o d e m ã o ú n ica . Pen so q u e assim p u d e at en u ar a p ossib i- p c k i i i c c cu id ad oso p o d e o b t er in fo r m açõ es ob jet ivas sobre as socied at ics
lid a d e d e n os en gan ar m o s r e cip r o ca m e n t e , a in d a q u e in vo lu n t a r ia m e n t e . i ' silu açõ es sociais q u e est u d a. O b t é n i , assim , m ais r ica in fo r m a çã o e p o d e,
A p io r coisa q u e p od e acon t ecer ao cien t ist a social e n vo lvid o n u m p r o - c i n d eco r r ên cia , d esen volver in u r p ict .iço cs m ais sólid as e m ais ob jet ivas. 1',,
18 FRONTEIRA INIRODIK.AO l 'í

jeto de pesquisa e estudo. Con vém ter em conta que os cientistas sociais n ão O prin cipal apoio veio, porém, tios próprios trabalhadores e moradores
trabalham apenas nem principalmente com a in formação sobre o imediata- dos lugares em que fiz a pesquisa. (^om sua h abitual generosidade, cies me
mente visível, de t ipo jorn alístico, u m t ipo de in formação mais facilmente acolheram e me ajudaram. Em n en h um lugar deixei de encontrar quem me
sujeito a escamoteamento, omissão e deformação. Lidam com realidades es- permitisse armar min h a rede n u m canto da casa, n u m alpendre, n uma latada,
truturais e processos de natureza histórica que n ão têm completa visibilida- n u m paiol de arroz ou n u m tijupá de roça. E que repartisse comigo a farofa
de para quem n ão está m un ido do instrumental teórico adequado para in - de carne-de-sol com farinha puba, o prato de arroz com feijão, u m pouco
terpretar o que h á por trás da fala comum e cotidiana e para compreender os de alvo beiju, uma lasca de rapadura recém-feita, u m pun h ado de castanha-
sobressignificados de discursos e acontecimentos. É nesse âmbit o que se situa do-pará, uma porção de laranjas ou u m naco de carne de caça: generosa
o essencial da "verdade", aquilo que é objetivamente consistente e relevante. partilh a da fartura simples que quase sempre h á entre os pobres do campo.
A pesquisa desenvolveu-se em con dições m u it o adversas para os padrões Sou-lhes, t am bém , agradecido pela disposição de me ensinar a conhecer
usuais da pesquisa sociológica. A começar pela falta de recursos, uma das seu m u n do difícil e ameaçado, de me familiarizar com seu conhecimento e
razões dessa opção. Mas, t am bém , pela situação política do país na maior sua in terpretação desse mun do e dessas ameaças. Generosidade que se ma-
parte do per íodo de realização do trabalho, em parte feito na mesma região terializou ainda na proteção que me deram, em diferentes lugares, quan do
do território mais abrangente em que pouco antes se desenrolara a cha- necessária, nas vezes em que vir am que min h a vida e m in h a seguran ça po-
mada Guerrilh a do Araguaia e que ainda se encontrava controlada pelos diam estar correndo o mesmo risco que suas vidas corriam. As in dagações
órgãos de seguran ça e seus informantes locais. que eu fazia e os relacionamentos que estabelecia com trabalhadores clara-
Apesar disso t udo, ou por isso mesmo, ten h o, evidentemente, imensas mente envolvidos na resistência à expropriação de suas terras por empresas,
dívidas para com u m grande n úmer o de pessoas, grupos e in stituições, em fazendeiros e grileiros, e seus pistoleiros, a estes chegavam por meio de seus
diferentes lugares, que de diferentes modos viabilizaram o meu trabalho ao informantes, presentes em quase todos os povoados.
longo de tantos anos. O in ício do trabalho foi assegurado, ainda que com Não poucas vezes sofri tentativas de in t imidação. Pelo menos uma vez,
relutância, por u m modesto auxílio da Fapesp - Fun dação de Amparo à o rancho em que eu fazia entrevista com u m trabalhador rural e sua família
Pesquisa do Estado de São Paulo. U m suporte significativo veio, por m u i- foi in vadido por u m grileiro, sem se explicar e desculpar aos donos da casa,
tos anos, do CNP q - Conselho Nacional de Desenvolvimento Cien tífico e que passou a interpelar-me agressivamente sobre meu trabalho, enquanto
Tecn ológico - , por meio de uma bolsa de pesquisa, que utilizei para cobrir seus guarda-costas esperavam do lado de fora. Um a outra vez u m desconhe-
as despesas de minhas viagens. No início do meu trabalho em Ron dôn ia cido agarrou-me e t en t ou esfaquear-me: ele pensou que eu fosse a pessoa a
e n o Pará, contei com as "caronas" dos fimcionários da Sucam - Superin- cuja casa me dirigia e onde me hospedaria, pessoa ameaçada de morte por
ten dên cia das Campanhas Especiais do Min istério da Saúde - , conheci- seu en volvimen to, na região, nas lutas in dígen as e camponesas pela terra e
da como Serviço da Malária, cujo exemplar serviço sanitário em recantos por sua oposição à ditadura. Algumas das entrevistas que realizei, especial-
remotos da selva permitiram-me alcançar lugares e pessoas que, de outro mente n o Mar an h ão, foram feitas às escondidas, à n oite, fora dos povoa-
modo, n ão alcançaria. Min h as duas décadas de envolvimento pedagógico dos, porque as pessoas estavam ameaçadas de morte ou sendo procuradas
com a CPT - Com issão Pastoral da Terra - , assessorando encontros de estu- pela polícia e n ão podiam retornar a suas casas. Houve ocasião em que, até
do e dando cursos sobre a situação dos trabalhadores rurais e das popula- mesmo, fu i retirado às pressas pelos moradores do povoado em que me
ções in dígen as aos próprios trabalhadores e aos agentes de pastoral, muitas encontrava, com minh as coisas, meus cadernos, documentos e gravações,
vezes em remotas regiões do país, foram estrategicamente fundamentais porque a situação se tornava n itidamen te perigosa para m i m , e levado em
para o diversificado aprendizado do que se passava e passa n o campo que seguran ça para outro lugar. No meu modo de ver, esses e muitos outros
adquiri nesse per íodo. episódios de adversidade n ão foram meras con tin gên cias da pesquisa que
20 F R O N T EI R A INIkllDIli.AI I , ' l

fiz e n ã o e st ão aqu i cit ados par a folclor izar as t r ib u lações d o m e u t r abalh o Nossa id en t id ad e n acion al sc (.oiist iói sobre o can ibalism o si m b ó l i c o
de cam p o. Eles con st it u e m com pon en t es reveladores dos processos sociais (|in.' ilcvor a n o o u t r o o que qu er em os ser, n a co n st i t u i ção p r o b l e m á t i t a d i '
que est u dei, e t a m b é m d o c u m e n t o , n u m a ci r cu n st ân ci a e m qu e o pesqu i- i i i n n ós edificado sobre a alt er idade in t oler an t e de u m a visão m i ssi o n ár i a
sador se v i u in v o l u n t ar iam e n t e l a n ç a d o n u m a sit u ação u m p ou co par ecida (lo m u n d o e d o h o m e m . E n a fr on t e ir a que nasce o br asileir o, mas c aí
c o m a da pesquisa exp er im en t al, sen do ele p r ó p r i o par t e d o exp er im en t o. I,u n h e m que ele se devor a nos impasses de u m a h ist ór ia sem r u m o . Dcci
Ten h o co n sci ê n ci a de qu e n a m aior ia dos lugares em qu e estive, p or qu e (lai a fr on t eir a fu n d an t e do que som os é m er gu lh ar n os desven dam cn t os
essa era u m a o p ç ã o n ecessár ia de m e u t r ab alh o, ch eguei e m m o m e n t o par - poi- m eio dos quais pod em os n os r econ h ecer n o con h e cim e n t o d o cjue a
t icu lar m e n t e grave d o co n fl i t o en t r e campon eses e pessoas o u gr u pos que sociedade br asileir a é.
alegavam d ir eit os sobre as terras p or eles ocupadas e cult ivadas h á m u i t o , A fr on t eir a n ã o é u m m o m e n t o folclór ico da gr an de aven t u r a em que
às vezes, h á vár ias ge r açõe s. As dificu ldades pelas quais passei são , p o r é m , SC co n st i t u i a h ist ór ia do Br asil. É u m p ilar n a est r u t u r a da sociedade br a-
í n fim as, e m r elação à v i o l ê n cia que alcan çava as p o p u l a ç õ e s c o m que t r aba- sileir a, u m a cr u z a ser carregada, o d é b i t o de u m a vit ór ia h ist ór ica que n os
l h e i, h om e n s, m u lh er es e cr ian ças. Pelo m en os u m a dezen a de pessoas qu e in st iga a aceitar qu e ch egou o t e m p o de or ien t ar par a p er t o o olh ar viciad o
con h eci e qu e m e acolh er am , pessoas c o m as quais con versei e co n v iv i, fo i n o lon ge dos con fin s da sociedade l i m i n a r que t em os sido. Per didos na
assassinada n os meses e an os seguin tes, c o m o out r as t an t as já h aviam sido alier idade da capt u r a d o o u t r o , ain d a n ã o d ecid im os n e m apr en dem os a
m or t as antes de m i n h a ch egada. capt u r ar o n ó s das nossas e sp e r an ças h ist ór icas. En igm as do vazio n o ca-
E m m e m ó r i a delas escrevi este l i v r o , m od est o a n ú n c i o de sua t r agé d ia, m i n h ar sem r u m o .
de suas lut as, de sua cor agem e de suas lições de vid a, par a qu e d o fiando de
seu silên cio a e sp e r an ça ain d a se faça gr i t o e palavr a.
Notas
No Tempo do Advento,
numa manhã de chuva, em dezembro de 1996. ' Centralizo, pois, minha inte rpre tação da historicidade do h omem em Karl Marx e Friedrich l'',ii);i-ls,
Uldéologieallem ande, trad. Re n n é Cartelle, Paris, Édi t i o n s Socialcs, 1962. D o u continuidade a uma l i i i s i . i
interpretativa que, entte n ó s, c o me ç a com Antonio Candido, Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o lai
pira paulista e a tran sfo rmaç ão dos seus meios de vida. Rio de Janeiro, Livraria Jo sé Oly mpio Editora, 1 'K)'í,
* * *
' O tema do projeto de pesquisa é "Te n sõ e s sociais nas frentes de e xpan são da A m az ó n i a Legal". O s textos
aqui reunidos se baseiam nos materiais recolhidos na e xe cução desse projeto.

' Trata-se de técnica diferente da chamada pesquisa participante. Co m a pesquisa participante, o que o so ció -

Nota à 2* edição logo faz é assessorar a comunidade estudada para que faça pesquisa sobre si mesma. No que estou chamantlo
de pedagogia investigativa, a pesquisa é conduzida pelo so c i ó l o go , no interior, po ré m , do processo de invcsii-
gaçáo so ci o l ó gi ca, em que a pesquisa é, ao mesmo tempo, parte do trabalho pe dagó gi c o destinado a mostrar
ao grupo ou comunidade o lado oculto dos processos sociais e o sobressignificado de suas relações e açõt-s
O ciclo h ist ór ico da fr on t e ir a ain da n ã o acabou . O pr esen t e da socie-
sociais de i mpl i c aç ão h istórica.
dade br asileir a c o n t i n u a d e t e r m in ad o e r egu lado, e m boa par t e, pela d i n â- ' D e um sacerdote amigo, mi ssi o n ári o no norte do Mato Grosso, que tem dedicado grande parte de sun
m ica da e xp a n sã o t e r r it or ial e seus con fr on t os sociais e é t n i co s. A fr on t eir a vida a servir humildemente aos outros, ouvi uma significativa definição de sua o pç ão pela chamada mis.sã()
encarnada e seu empenho em fazer-se igual aos pobres do lugar. U m c am po n ê s lhe disse: "V o c ê e stá apena.s
t e m sido, en t r e n ó s, u m su jeit o p olí t ico. O Br asil da Co n q u ist a ain da n ã o
nos arremedando, pois pode voltar para sua terra e sua família quando quiser. E n ó s n ão temos para onde ir.
est á t e r m i n ad o , ain d a é m a l e sb o ç a d o m ap a d o que seremos u m dia. Nos- E por isso que n ão somos iguais."

sos dr amas est ão de p é , n ã o r ar o resvalan do par a as t r agé d ias descabidas


dos massacres e dos assassinatos sacrificiais de í n d i o s e de t r abalh ador es da
fr en t e de e xp a n sã o c o m qu e pr et en d em os n os u n gi r par a gan h ar e sp aç o e
seguir adian t e.
1
A captura do outro:
o rapto de mulheres e crianças

' M eni no T a p i r a p é " ( Al de i a T a p i r a p é - MT,


24 FRONTEIRA
A ( ArillKA DO O I I I KO , " i

Os raptos na situação de fronteira III.ma ;U c profundamente a ciilluia | K t i i l i a r c n i c tiaí decorre. Não é s i i r-


| M i ' „ i , pois, que nas frentes de expansão de (íoiás (e, agora, de Tocantins),

Ainda se conhece mal o que os antropólogos definiram, nos anos 1950, t i d Mato Grosso, do Pará, do Maranhão, de Rondônia, do Acre, do Ama-
como frente de expansão da sociedade nacional sobre territórios dos povos z o n a s o pesquisador se veja rotineiramente conversando com "civilizados"
indígenas. Movimento de expansão territorial que, invariavelmente, resul- i i i jo discurso se apoia numa concepção dual dos seres humanos - cristãos

tou e tem resultado no massacre das populações nativas, sua drástica redu- (os civilizados) e caboclos (os índios), homens e pagãos, ou humanos c
ção demográfica e até seu desaparecimento. O deslocamento progressivo i i a o iuimanos. Um sistema classificatório básico que nos remete imedia-
das frentes de expansão tem sido, na verdade, um dos modos pelos quais se í.iincnte aos primeiros tempos do Brasil Colónia, e da expansão, em que
dá o processo de reprodução ampliada do capital, o da sua expansão ter- e s s a s categorias demarcavam com mortal severidade, como ainda hoje, de
ritorial. Um outro momento desse modo de expansão tem sido o que se dá ( 1 1 to modo, os limites étnicos dos pertencentes e dos não pertencentes ao
através do deslocamento das chamadas frentes pioneiras} Ambas, na verda- r.rnero humano.^
de, são faces e momentos distintos da mesma expansão. A compreensão da sociabilidade característica da frente de expansão
Se o "lado civilizado" dessa expansão, o lado do vencedor, é razoavel- depende justamente de reconhecer nessa dicotomia um ponto de partida
mente conhecido, o é ainda por meio de um conhecimento muitas vezes (• cie nela ver o que tem de revelador. É ela que permeia o relacionamento
severamente mutilado por pressupostos ideológicos facilmente identificá- i' o estranhamento entre os sociologicamente conviventes. Quando ine-
veis, seja os do senso comum, relativos à "mitologia heróica" do chamado vitavelmente se reconhece que a situação de fronteira é uma situação de
pioneiro, seja os do etnocentrismo dos brancos a que não são imunes es- conflito ou de fricção,^ que se oculta e se revela nessa dicotomia, é neces-
pecialmente os sociólogos, seja os do conhecimento pseudocientífico, rela- sário reconhecer que o "lado de lá" da fronteira, o das populações indíge-
tivos à suposta fecundidade histórica do capitalismo transitório. Já o lado nas, também define a convivência e o estranho que a protagoniza, que é o
dos vencidos e subjugados e, portanto, das populações indígenas, enquan- "civilizado". Nesse sentido, a expressão material e visível do conflito que
to "lado", é praticamente desconhecido dos cientistas sociais, em particular dá substância à peculiaridade da situação de fronteira está nos numerosos
dos sociólogos e historiadores. Há uma abundância relativa de excelentes ataques dos regionais às tribos indígenas nestas últimas décadas. E está,
estudos antropológicos sobre essas populações, sobre a situação propria- também, nos igualmente numerosos ataques dos diferentes grupos indíge-
mente de contato e encontro entre a sociedade civilizada e as sociedades nas às populações regionais e, mais especificamente, ainda em meados dos
indígenas. Porém, a realidade social singular que decorre desse encontro anos 1990, às grandes fazendas instaladas nas extensas áreas invadidas de
quase sempre conflitivo ou, ao menos, friccionai, como sugere Roberto seus territórios.^
Cardoso de Oliveira (1964), tem um lugar insignificante e, às vezes, até As populações indígenas têm mais do que resistido à invasão e à es-
imperceptível, sobretudo na Sociologia. poliação branca e capitalista de seus territórios. Assim como a violência
No entanto, a situação de contato, a sociabilidade que demarca a con- do branco se manifesta na tentativa de desfigurá-las culturalmente, elas
vivência, dominada pela diferença e pelo desencontro étnicos no espaço também têm indicado, em suas lutas, o que lhes é insuportável e indeci-
ainda indefinido da frente de expansão, constitui uma realidade sociológi- frável no que para muitas delas é uma nova situação, que é a situação de
ca sui generis. Embora marcada por uma transitoriedade notória e menor fronteira, criada pela expansão territorial do grande capital e da sociedade
do que a das durações históricas das sociedades e grupos que ali se encon- civilizada. Elas organizam sua inteligência dessa expansão de conformidade
tram e se confrontam, o calendário dessa convivência complicada é mais com a lógica própria dos diferentes grupos tribais, de conformidade com
extenso do que parece. Sua durabilidade tem se estendido por gerações e os valores e concepções que dão sentido à sua vida e aos diferentes modos
A CAIMUKA UO OUTKO 11

com o os diferentes grupos a organ izam . Aparen t em en t e, em term os m u it o rxd.lir do processo econ óm ico a renda t errit orial absoluta e diferentes for-
gerais, o que os povos in dígen as estão d efin in d o len t am en t e, p or im p li- n i,is tic rciida diferen cial. De ou t ro, porque h á distâncias que só p erm it em
cação, em seus con fron tos com os brancos é u m a situação de con vivên cia .1 CXI ração de um a das modalidades de renda diferen cial. De ou t r o, ain da,
marcada pela plu ralidade cu lt u ral e social e pelo estabelecimento de u m l>i)r(| uc em certas circun stân cias o lu cro e a renda, ain da que mediados pelo
espaço in t eiram en t e n ovo na relação com o outro, que seja u m espaço de i .ipiíal, somente são possíveis se o trabalh ador expropriado da terra e enga-
afirmação e recon h ecim en to da diferença que dá sentido à existên cia dos jid o na produção agropecuária for su bm et ido a formas de superexploração
diferentes povos. lie sua força de trabalho.^ São estes últ im os os casos de escravidão por d ívi-
Nesse outro lado t am bém estão determ in ações que dão sen tido à d ia- i l . i f outras variantes do t rabalh o cativo. Desse m od o , o com p rom et im en t o
lética da fron t eira. Fica difícil com preender até mesmo as amplas reper- i l . i sobrevivên cia do próprio trabalh ador assegura equiparação dos ren d i-
cussões políticas da confliitividade da frente de expan são se reduzim os a i i K i i t o s da empresa situada nos extremos da expansão t errit orial do capital

sua com preen são aos aspectos propriam en t e m ateriais e econ óm icos desse .'i(| tieias localizações em que é possível organizar a com posição orgân ica do
processo. Co m o fica igualm en te difícil com preen dê-lo em todas as suas (.1 pi tal de m od o "n o r m al", isto é, sem que o salário seja rebaixado a aquém
im plicações se nossa com preen são for reduzida ao pressuposto de que as (los m ín im os vitais que assegurem a reprodução da força de t rabalh o.''
sociedades in dígen as apenas se preservam n o con fron t o, n ão se deixam Esse quadro já nos in d ica um a certa diversidade h ist órica nas d et erm i-
de algu m m od o in vad ir e m odificar pela m ediação diret a o u in d iret a do nações do processo do capit al, um a certa com bin ação de rit m os e tempos
estranho e do eixo d efin id or de sua presença invasiva e violen t a, que é a históricos desencontrados na definição da realidade social desse processo.
propriedade da terra. Isso quer dizer que ele se caracteriza, t am bém , por u m a grande diversidade
Aí, t am b ém , estamos em face de ou t r a peculiaridade da sit u ação de de relações sociais e por u m a certa variedade de culturas dos grupos locais e
fron t eira que é, ao m esm o t em p o , d efin id ora da m od alid ad e d o desenvol- regionais. A expan são do capit al e da sociabilidade de que ele é agente n ão
vim en t o capit alist a em nossa sociedade. Diversam en t e o u , ao m en os, com im plica necessariamente na supressão súbita das diferenças que t or n am
m u it o m aior in t en sidade do que aconteceu em outras sociedades capit alis- peculiares os diferentes grupos envolvidos na situação de fron t eira. Nessa
tas, entre n ós o capit al depende acen tuadam en te da m ed iação da renda da peispectiva, é pouco verdadeiro o pressuposto de u m a t en dên cia lin ear e
t erra para assegurar a sua reprod u ção am pliad a. Por m eio dela, recria meca- ladicalm en te com pulsória em direção à racion alização da vid a social, sua
n ism os de acu m u lação p r im it iva , confisca terras e t errit órios, ju st am en t e secularização e desencantamento, sua ten dên cia evolut iva na direção da
p o r esse m eio at in gin d o violen t am en t e as popu lações in dígen as e, t a m - intlividualização das pessoas e do pred om ín io de relações sociais de t ip o
b ém , as popu lações camponesas. É que em gran de part e essa reprod u ção io n t r at u al, especialmente nas esferas públicas da vid a social. Se nas pontas
depende da m obilização de m eios violen t os e especulativos para crescer mais extremas e desenvolvidas do processo capitalista, nas chamadas socie-
em escala e, p o r t an t o , para que o capit al possa reproduzir-se acim a da dades m et ropolit an as, isso pode ser em grande parte verdade, n o extrem o
taxa m éd ia de ren t abilid ad e, com vantagens em relação a ou t ros in vest i- oposto o que temos é o con t rário. Com o se nele as pessoas e os grupos
m en t os cuja localização geográfica lhes p er m it a reter parcelas maiores da sociais vivessem n u m a espécie de atraso social e h istórico crón ico.
m ais-valia realizada. A din âm ica desse processo de desen volvim en t o desigual e sim ult ân eo
A diversificação das m odalidades de reprodução am pliada e t errit orial ainda é m al con hecida, desfigurada por juízos de valor com prom et id os
d o capital está diretam en te relacionada com a m ediação da renda da terra. ( o m o pressuposto do progresso, da razão, da liberdade e do desenvolvi-
De u m lado, porque h á distâncias do em preen dim en t o agrícola, pecuário m ento econ óm ico in exorável. N o m ín im o estamos em face de um a certa
o u ext rat ivo, em relação aos mercados de seus prod u t os, que p erm it em lentidão do processo h ist órico, determ in ada em grande parte pelas p ró-
A ( AIMIIRA DO OIJIRO 2 9
28 FRONTEIRA

prias características de desenvolvimento rápido nas sociedades e situações 1 oiiiiaOréia por parte destes, inchisivc por parte do delegado regional da
sociais do outro extremo. i un;ii, com quem conversei a respeito, sugeriam que o rapto servia como
No "polo atrasado" desse movimento há uma situação social complexa l()(<) de condensação (e era revelador de seus aspectos mais complicados)
que envolve desencontros próprios de uma coetânea diversidade de tempos .lo amplo conflito que envolvia índios e brancos.^ Em grande parte, porque
históricos cuja peculiaridade está em que é vivida pelas mesmas pessoas. .1 paixão de Arminda e Oréia, e o rapto consentido dela decorrente, punha
As mesmas pessoas têm os diferentes momentos de sua vida atravessados, i i n questão o sentido da alteridade que permeava as relações de brancos
às vezes num único dia, por diferentes temporalidades da história. E o c índios e acrescentava complicadas dimensões simbólicas à prática e ao
que ocorre quando grupos tribais que só recentemente passaram do ma- .(•luido tradicional do rapto de mulheres.
chado de pedra para o machado de aço, como é o caso dos kamayurás, ou Dois anos depois de minha primeira estada em Rondônia, os índios
que só nas últimas décadas deixaram o canibalismo ritual, como é o caso iinicu-wau-waus, ainda não pacificados, que estavam reagindo sistemati-
dos rikbáktsas, dos mundurukús ou dos pakaás-novas, ao mesmo tempo I ainente à invasão de suas terras pelos colonos, especialmente no Projeto
entram na era do avião, da máquina fotográfica e da filmadora. Ou que, Uinateiro, atacaram e mataram dois jovens irmãos da família Prestes Rosa
ainda usando batoques labiais, signo distintivo de seu grupo tribal, via- (• raptaram o mais jovem, Fábio Prestes Araújo, de seis anos, no final de
jam aos países mais ricos e civilizados para expor sua situação e defender outubro de 1979.^ Expedições foram organizadas pela família, com apoio
seus direitos e seu modo de vida, como ocorreu com o cacique Raoni, dos lie vizinhos e outras pessoas de Ariquemes, para resgatar o menino e punir
txukahamães, não faz muito tempo. os índios. O menino não foi encontrado, mesmo depois do início da paci-
Meu propósito, neste texto, é o de examinar um dos aspectos dessa sin- Inação dos uruéu-wau-waus.
gularidade das frentes de expansão no Brasil através do estudo do rapto de Embora esses conflitos estivessem centrados na questão da invasão
pessoas, sobretudo mulheres e crianças, seja pelos grupos tribais entre si, (los territórios indígenas pelos colonos brancos, e esse era certamente seu
seja pelas tribos indígenas em relação aos regionais, seja pelos regionais em aspecto mais grave, tinham e têm, porém, componentes que envolvem
relação ao índio. Num levantamento preliminar e exploratório, consegui uma complexa disputa pela concepção de pessoa e de humano entre ín-
arrolar 150 ocorrências, algumas vezes referentes a um número indetermi- dios e brancos.
nado de pessoas envolvidas, sempre mais do que uma. Esses casos cobrem Pela mesma época, em 1979, no então povoado de Santa Terezinha, à
pouco mais de cem anos, sobretudo na Amazónia, mas também nas frentes hcira do rio Araguaia, no norte do Mato Grosso, próximo da aldeia dos
de expansão de São Paulo e de Santa Catarina, nas primeiras décadas do IIKIÍOS tapirapés, notei numa manhã que havia uma certa tensão entre as

século XX. A ocorrência mais antiga é de 1877 e a mais recente é de 1984. pessoas com as quais estava em contato. Explicaram-me que alguém vira
Comecei a perceber a importância desse tema em duas diferentes oca- imi grupo de índios kayapós vindo na direção do povoado ou, talvez, na
siões de uma ampla e demorada pesquisa sobre os conflitos na frente de iliicção da aldeia dos tapirapés. Em décadas passadas estes últimos quase
expansão da Amazónia Legal, realizada de 1976 a 1992. Em 1977, quan- loiam exterminados nos ataques dos kayapós, especialmente o ataque dos
do me achava em Rondõnia, nas regiões de Ji-Paraná, Jaru e Ariquemes, 1'orotires em 1947, quando houve, também, rapto de mulheres e crianças.^
fiquei sabendo do caso do rapto consentido, ocorrido no ano anterior, da 1 .in consequência, alguns tapirapés sobreviventes perambularam desgarra-
jovem filha de colonos capixabas Arminda, pelo também jovem índio suruí dos pelas matas da região, entre 1947 e 1950, com a tribo praticamente
Oréia. O caso terminou com a recaptura de Arminda por seus parentes e extinta.^" Poucos anos antes de minha estada em Santa Terezinha e de mi-
seu envio para o Espírito Santo, e o assassinato e mutilação de Oréia por IIlia visita à aldeia tapirapé, uma última família de refugiados desgarrados,
eles. A reação dos índios suruís à violência dos brancos e o clima de ódio a do pajé Camairá, foi encontrada e reconduzida à tribo."
30 FRONTEIRA AÍAIM IIHADOOUIKC) 31

Ta n t o e n t r e b r an cos c o m o en t r e ín d io s, u m d os aspect os d r a m á t ico s d a . ic d e su je it o e xp e r im e n t a l, u n i co r p o est r an h o i n t r o d u z i d o n a sit u a-


e xp a n sã o d a fr o n t e ir a p ar ecia m an ifest ar-se n os r ap t os d e p a r t e a p a r t e e .,.10 (r ib al o u n a socied ad e civiliz a d a , q u e p o r isso t o r n a p o ssíve l ob servar
t u d o in d ica va q u e era p o r m e i o deles q u e o im a gin á r io d a fr en t e d e e xp a n - . (liRcpções e o r ie n t a çõ e s est r u t u r ais q u e , d e o u t r o m o d o , n ã o p o d e r i a m
são m e l h o r d e fin ia as sin gu lar id ad es d a sit u a çã o d e fr o n t e ir a . Isso ficava •,(•1 oliscrvad as o u o ser ia m c o m d ificu ld a d e .
p a t e n t e n a p r e se n ça viva d o assu n t o, às vezes an os d ep ois das o co r r ê n cia s. I lá u m ce r t o n ú m e r o d e in fo r m a çõ e s sob re r ap t os n a b ib lio gr a fia e t n o -
So c ió lo go s , ge ó gr a fo s, a g r ó n o m o s e eco n o m ist a s q u e t r a t a r a m d o t e m a l..j',it a q u e u t i l i z o , m as r igo r o sa m e n t e fa la n d o n ã o h á t e n t a t iva d e p erceb er
d a fr en t e d e e xp a n sã o , e t a m b é m algu n s a n t r o p ó lo go s , o m it ir a m - s e c o m - (1 nipto com o processo que se situa no lim ite de sociedades diversas e até opostas
p le t a m e n t e e m r elação ao assu n t o. E m p a r t e p o r q u e p u se r a m t o d o seu (' (]iic por isso m esm o é definidor de um a situação social inteiram ente nova,
in t eresse n os aspect os p r o p r i a m e n t e e c o n ó m ic o s d a e xp a n s ã o , so b r e t u d o | ii()t lu zid a p elo c o n t a t o in t e r é t n ico o u e n t r e gr u p o s é t n ico s e m c o n flit o
e q u ivo ca d a m e n t e p r e o cu p a d o s c o m a d e fin içã o d o m o d o d e p r o d u ç ã o q u e nu a n t a gó n ico s. En fi m , o r a p t o é m ais d o q u e ele p r ó p r io ; é so b r e t u d o u m
lh e d ava se n t id o . E m p a r t e p o r q u e , d e cer t o m o d o , a ssu m ir a m a id e o lo gia d o i u m e n t o o u , m ais a p r o p r ia d a m e n t e , e xp r e ssã o d o q u e se p o d e r ia d e fin ir
d a fr o n t e ir a e d ela t r a t a r a m u n ic a m e n t e d o p o n t o de vist a d a e xp a n sã o d a ( o i n o situação social docum ental.
socied ad e n a cio n a l o u , fr e q u e n t e m e n t e d e m o d o at é m ais p o b r e , e xp a n sã o Alé m d isso, o r a p t o d efin e o car át er p r o p r ia m e n t e t r á gico d a fr o n t e ir a .
d o m o d o cap it alist a d e p r o d u ç ã o . N u m p a ís e m q u e a in d a h a via p ovos i n - 1 Tcq u e n t e m e n t e, ele é a lt e r n a t iva p ar a a m o r t e d a vít im a , t a n t o d o la d o
d íge n a s d esco n h ecid os e, p r o va ve lm e n t e , a in d a h á , a q u e st ã o d o e n c o n t r o d o b r an co q u a n t o d o la d o d os ín d io s, a in d a q u e p o r co n se q u ê n cia d e d i -
(d esen co n t r o ) é t n ico ficou in t e ir a m e n t e fo r a d o in t eresse desses p esq u isa- l i m i t e s fat ores cu lt u r a is. N ã o r a r o , o r a p t a d o é o q u e n ã o fo i m o r t o n u m
d ores. Essa o m issã o apen as evid en cia u m a cer t a lim it a çã o d e p er sp ect iva .ii.Kiue e m q u e ou t r as pessoas o fo r a m , fr e q u e n t e m e n t e m e m b r o s d e sua
p ar a lid a r c o m a co m p le xid a d e c u lt u r a l e social d e sit u a çõ es sin gu lares à l.u n ília. N ã o o b st an t e , as evid ên cia s co lh id as i n d i c a m q u e o r a p t o se c o n -
m a r g e m d os processos sociais d o m in a n t e s e d e m a i o r visib ilid a d e . licu r a c o m o u m a esp écie d e m o r t e c u lt u r a l e social. E fo r a d e d ú vid a q u e
T ê m sid o os e t n ó lo go s os au t ores das m elh o r e s co n t r ib u içó e s p ar a si- .1 lio n t e ir a é u m lu gar d e m o r t e e já h á h o je in st it u içõ es q u e ju st a m e n t e se
t u a r o p r o b le m a é t n ico n a h ist ó r ia social d a fr en t e d e e xp a n sã o . Em b o r a p i i o c u p a m , c o m r azão , e m d ivu lga r e d e n u n cia r o n ú m e r o d e m o r t o s e
fr e q u e n t e m e n t e n ã o est ejam p r e o cu p a d o s c o m a fr o n t e ir a p r o p r ia m e n t e M US respect ivos n o m es. P o r é m os casos d e r a p t o m o s t r a m q u e essa q u e st ã o
d it a , c o m o t e m a ce n t r a l d e in ve st iga çã o , t ê m sid o eles qu ase q u e os ú n i- (• m ais co m p le xa d o q u e se p o d e p er ceb er p o r t rás d a p alavr a assassin ato.
cos p esqu isad ores a con sid er ar a situação de fronteira c o m o lu ga r social d e N o caso d os co n flit o s é t n ico s, n e m sem p r e o car át er t r á gico d a fr o n t e ir a se
a lt e r id a d e , c o n fr o n t o e c o n flit o . E a in c lu ír e m o "o u t r o la d o ", a fr en t e d e «on figu r a n a m o r t e , m as s im n o r a p t o . A p r e o cu p a çã o c o m a m o r t e c o m o
e xp a n sã o , c o m o u m e le m e n t o d e r efer ên cia, a in d a q u e o fa ça m d e m o d o l i m e u m a p r e o cu p a çã o d e b r an cos. Ma s ce r t a m e n t e n ã o é n ela q u e se esgo-
ab st r at o e quase sem p r e sem levar e m co n t a suas efet ivas d e t e r m in a çõ e s 1,1 o sen t id o t r á gico d a fr o n t e ir a .
h ist ó r ica s. As s im c o m o t ê m sid o eles ju st a m e n t e cr ít ico s e m r elação aos A p r o p ó sit o ju st a m e n t e d o r a p t o en t r e os t u p in a m b á s , p ar a fins sacr i-
o u t r o s cien t ist as sociais q u e p e n sa m o ín d io c o m o ín d io ge n é r ic o , t a m b é m lii iais, n o sé cu lo x v i , Flo r est an Fer n an d es fez o b se r va çõ e s fu n d a m e n t a is
eles t ê m p ecad o p o r p en sar o b r a n co c o m o u m b r a n co ge n é r ico (q u e m u i - | );ua a co m p r e e n sã o d os seus aspect os q u e n ã o se esgot am n a p alavr a m o r t e ,
tas vezes n e m b r a n co é ) . e m b o r a se r evelem n a m o r t e p r a t ica d a at r avés d o ca n ib a lism o d e n at u r eza
Cu r io sa m e n t e , os e t n ó lo go s e cron ist as só t e m se in t eressad o p elos r a p - icligiosa.^ ^ Ca st r o , n u m est u d o fu n d a m e n t a l, r e t o m a n d o r ecen t em en t e a
t ad os, m ais d o q u e p elos r a p t o s, n a m e d id a e m q u e p o r m e io deles sob re- .)l)ra d e Flor est an Fer n an d es, m o s t r o u q u e en t r e os t u p is o ca n ib a lism o
t u d o as co n ce p çõ e s d o p ar en t esco e d a sua e st r u t u r a r evelam seus aspect os sim b ó lico é m e io d e co n st it u içã o d e sua p r ó p r ia c o n c e p ç ã o d e pessoa. Sen -
m ais o cu lt o s o u m e n o s p e r ce p t íve is.'^ A sit u a çã o d o r a p t a d o faz d ele u m a d o suas socied ad es d e st it u íd a s d e u m "n ú c le o i n t e r i o r ", d e p e n d e m d a alt e-
32 FRONTEIRA A (APIIIUA DO OIIIKO i i

r idade d o i n i m i go e de sua in ge st ão par a se co n st i t u í r e m c o m o pessoas. il.i l i o i i i c i r a . "' Na mesma liiilia, ciTian icn t e o caso da fr en t e de e xp an sã o
Ur n a alt er idade, p o r t an t o , e m que o outro gan h a sen t id o u n icam e n t e p or Ix.isilcir a, c o m o pr ovavelm en t e o caso de ou t r os p aíses, n ã o cor r espon de à
sua fak a de sen t id o, co m o v í t i m a p r o p i ci at ó r ia o u v í t i m a sacr ificial. 1'lilica su p o si ç ão de que a fr on t eir a é o lu gar de c o n c e p ç õ e s e p r át icas de-
Ar acy Lopes da Silva, e m r elação aos jê s, con st at a a "n ecessidade lógica 11 l o r i át icas de au t o ge st ão e liber dade, n a m e d i d a e m que o h o m e m da fr o n -
dos m u i t o s ' ou t r os' c o m que [...] se con st r ó i a n o ç ã o de pessoa e de i d e n t i - I' 11.1 estaria m en os su jeit o aos con st r an gim en t os da lei e d o Est ado, e m ais
dade i n d i v i d u a l " nessas sociedades. O ser xavan t e, o ser br avo, "exercita-se iijciio à p r ó p r i a in iciat iva n a defesa de sua pessoa, de sua fam ília e de seus
n a gu er r a, n a o p o si ç ã o declar ada e violen t a ao i n i m i go m á x i m o (o br an co), I H lis.'' O fat o de que os lin ch am en t os, n a sociedade am er ican a, t e n h am
e xclu í d o da rede de alian ças p ossíve is". N a falt a dele, e m c o n se q u ê n c i a da 111 }!,ido ju st am en t e n a fr on t eir a já é i n d i cação da violê n cia qu e atravessou-
aceit ação de u m a "r elação de d o m i n a ç ã o p o r par t e dos br an cos" ele é "subs- llic :i h ist ór ia.^" E m n osso caso, é eviden t e, n a au sê n ci a expressa e dir et a
t i t u í d o pela o n ç a : igu alm en t e o u t r o , elem en t o da n at ur eza, assim com o o il.is in st it u ições d o Est ado, o d o m í n i o d o p od er pessoal e a ação de for ças
b r an co e xcl u í d o do u n iver so cu l t u r al x a v a n t e ". A q u i , n a alt er idade igu al- ir picssivas d o p r ivad o se sobr epon d o ao que é p ú b l i c o e ao p od er p ú b l i c o ,
m en t e sacr ificial d o b r an co, o o u t r o é ob jet o, i n st r u m e n t o, e n ã o ob jet ivo; I I I - m esm o pela su je ição dos agentes da lei aos dit am es dos pot en t ados
t e m n a o n ç a e n o an im al , n o n ã o - h u m a n o , u m equ ivalen t e que p r oclam a l i >i lis. P or t an t o, u m c o m p r o m e t i m e n t o r adical de qu alqu er possibilidade
sua d e su m a n i z a ç ã o . <lc dem ocr acia, d ir e it o , liber dade e o r d e m . N ã o só a fr on t e ir a é o lu gar
Penso qu e aí est ão co n t r i b u i çõ e s essenciais par a a c o m p r e e n sã o da d i - l>i ivilegiado da violê n cia pr ivada, mas é t a m b é m , em d e cor r ê n cia, o lu gar
m e n sã o p r op r iam e n t e so ci o l ó gi ca d o r apt o e sobr et u d o par a com pr een d er | i i ivilegiado de r e ge n e r ação at é m esm o de r elações escravistas de t r abalh o.
que sob a m esm a palavr a r ap t o se escon dem i m agi n ár i os (e con fr on t os, ( ) r ecur so, neste est u do, aos casos de r apt o de m u lh er es e cr ian ças n ã o
con flit os e necessidades) in t eir am en t e diversos en t r e si. u m por ob jet ivo, cer t am en t e n ão p o r ob jet ivo p r i n ci p al , o qu est ion am en t o
Os r apt os, n o m e u m o d o de ver, con st it u e m processos pr ivilegiados ilcssas ideias. Apen as t en h o co m o r efer ên cia que estudos c o m o este, de al-
par a observar a com p lexa cost u r a da "si t u ação de con t at o co m o t ot alid a- I',11111 m o d o , ain d a que in volu n t ar iam e n t e , con cor r em par a esse qu est ion a-
de", com o a defin e Rob er t o Car doso de O liveir a,' ^ q u an d o pen sada n a i i u i u o at é n ecessár io. O r ecur so a esses casos t e m p or ob jet ivo en r iqu ecer a
per spect iva qu e est ou su ger in d o, que é a de situação de fronteira. Ist o é, IHTspectiva de c o m p r e e n sã o d o p r ob le m a da fr on t eir a e n q u an t o, t a m b é m ,
q u an d o pen sada n ão só e m r elação à q u e st ã o da alteridade, mas t a m b é m 11 (meeira ét n ica, fr on t eir a de dest in os, de h ist or icidades desen con t r adas, de
e m r elação à q u e st ã o das d efin ições cu lt u r ais d o limite do humano pelos icin pos que n ão fluem sim u lt an eam en t e n a m esm a d ir e ção.
difer en t es gr u pos sociais e é t n icos que a fr on t e ir a p õ e e m co n fr o n t o. Tr at a- list ou con scien t e de que é quase u m at r evim en t o t r abalh ar c o m u m
se, pois, de u m a sit u ação sin gu lar de con flit o p o r m eio da q u al a t ot alidad e Ir m a que m e ob r iga a in cu r sõe s de c o m p e t ê n c i a d u vid osa n o t er r it ór io e m
se p r o p õ e c o m o referen cial qu e d á sen t ido n ã o só aos r apt os e m si m esm os, qiK' os e t n ó l o go s de n osso p aís, e os que aqu i r ealizam suas in vest igações,
mas àq u ilo qu e eles suger em e r evelam c o m o expr essões das m odalidades i i i n c o n st r u í d o u m a r e p u t ação das m ais h on r osas. Faç o - o , p o r é m , i m p e l i -
de en con t r o n o desen con t r o qu e a fr on t eir a p r o p õ e . <l() pela necessidade de am p liar as perspectivas d o m e u t r abalh o de m u i t o s
Nesse sen t id o, estamos n u m t er r en o in t er p r et at ivo b e m diver so d o suge- m o s sobre a fr on t eir a, d u r an t e os quais, aliás, os est udos desses colegas
r i d o p or Tu r n er , cu ja id eologia da fr on t eir a, m ais d o que t eor ia da fr on t eir a, loiam essenciais par a at en u ar a t e n t ação i n gé n u a de r edu zir m e u cam p o de
t e m sido in vocada p or algun s estudiosos par a explicar a d i n â m i c a de nossa ob ser vação ao "m u n d o dos br an cos", se é que ele r ealm en t e existe, m esm o
fr en t e de e xp an são .' ^ Ju st am en t e p or t er o m i t i d o a lu t a pela t er r a e a in va- n u m a per spect iva fe n o m e n o l ó gi c a .
são dos t er r it ór ios i n d í ge n as e m sua p r ó p r i a sociedade, Tu r n er , cer t am en - Por o u t r o lad o, p o r essa m esm a r azão, est ou con scien t e de qu e m i n h a
t e, n ão é a m e l h o r r efer ên cia par a pen sar m os a com p licad a con flit ivid ad e i o i u r i b u i ç ão ao est u do deste t em a fica cir cu n scr it a a su ge st õ e s e in daga-
34 FRONTEIRA A (A IM UKA DU OUI KO 3S

çóes que podem ser úteis ao seu aprofundamento sistemático. Em parte, .Ic por determinados gnifjo.s em relação a outros grupos. Usei como
essas indagações estão fundadas no confronto de perspectivas sugeridas i r l i H - i K ia as diferenças já indicadas por etnólogos entre dois grandes tron-

pelos etnólogos com as perspectivas sugeridas pelos sociólogos. Na medi- • i f . linguísticos: os tupis e os jês. A esses dois grupos agreguei um terceiro,
da, por exemplo, em que os etnólogos dizem que as sociedades tupis têm • iHistituído de outros indígenas, e, obviamente, um quarto grupo, côns-
um núcleo interior vazio que as obriga a buscar na relação antagónica com ul uíd o dos brasileiros da população regional.^^ Os estudos sobre os tupis
o inimigo os conteúdos de que carecem, estão sugerindo ao sociólogo um I < )s jês indicam que as tribos desses dois troncos linguísticos têm orienta-
problema quando se trata de explicar que essa alteridade, com a expansão , ( H ; , lógicas e cognitivas em relação a outras tribos e outros grupos muito
da fronteira, através dos raptos, obviamente alcança os "civilizados" e não 'lilcrciues entre si e razoavelmente similares no interior de cada grupo.
os alcança nos termos épicos de sua ideologia de pioneiros e superiores. Do < (imo estou supondo que os raptos ocorrem orientados basicamente pela
mesmo modo, se as sociedades jês constroem-se segundo um padrão oposto • c iiu cpçáo que os raptores têm a respeito das tribos ou grupos cujos mem-
ao dos tupis, como se elas fossem centro e conteúdo de um universo fecha- l i i os raptam, esse pressuposto é não só útil, mas sobretudo indispensável.
do, está posto um problema para o sociólogo quando esse fechamento não I \, há também constantes que se superpõem às diferenças que
impede que os kayapós raptem crianças dos "civilizados" de suas regiões. IH X Icm ser observadas nesses grandes grupos: um massacre praticado contra
A expansão da fronteira parece mais indeterminada do que supõem soció- n, hiancos por um bando de jovens suruís (tupi) impõe aos participantes
logos e antropólogos. Ela não só expande a sociedade nacional sobre territó- Min |)críodo ritual;^' do mesmo modo que um massacre praticado também
rios tribais, mas ao mesmo tempo expande o âmbito de circulação espacial 1 D i i i r a brancos por um bando de jovens kayapós-gorotires (jê) impõe aos

e as condições modificadas da reprodução das sociedades tribais que conse- |).ii (icipantes um período de purificação ritual segundo os costumes e con-
guem sobreviver às doenças e ao extermínio. Essa expansão tem contrapar- 1 c-proes de sua tribo.^"*
tida e desdobramentos do outro lado da fronteira étnica. O esfacelamento 1 )c fato, o quadro que organizei dos raptos, nesse período, de certo
do crânio de um branco e a ingestão de suas carnes no canibalismo ritual modo confirma a diferença suposta. Essa diferença, no que diz respeito a
de algumas tribos indígenas, até um período relativamente recente, como a I lema, não cobre obviamente o complexo elenco de diferenças culturais
dos mundurukús e a dos rikbáktsas, revela um modo próprio de lidar com i | i i c separam as diferentes tribos indígenas umas das outras, inclusive entre
o pioneirismo da fronteira. Mesmo no grande número de casos que não ter- 1. dc um mesmo tronco linguístico ou as de uma mesma nação ou ainda de
minaram desse modo, os raptados percorrem, segundo as poucas evidências iim;i mesma tribo. Além disso, o rapto cumpre funções distintas nos dis-
que se têm, o caminho de um canibalismo simbólico que de modo algum 11111 (>s grupos e é definido em cada um a partir de esquemas de significados
parece culturalmente desconectado da refeição propriamente antropofágica. r , | K c í f i c o s . Convém, no entanto, fazer uma indicação geral introdutória

.1 esses dados, comparando de início raptores indígenas e raptores "civili-


/.idos", pois o que aqui se busca é compreender a mediação do rapto na
Raptores e rapt ados I Irliinção da situação de fronteira que decorre do movimento da frente de
I \paiisão da sociedade nacional.
Os dados reunidos de 150 casos de rapto de pessoas, alguns dos quais, Recolhi dados sobre 120 casos de rapto praticados por grupos indígenas
na verdade, não envolvendo indivíduos isolados, mas grupos de raptados, I .ipcnas 26 raptos praticados por "civilizados". Os indígenas raptados por
num período de pouco mais de cem anos, indicam algumas regularidades c ivilizados" são exceções num quadro geral de ataques de extermínio, o que
que podem ser o ponto de partida de uma tentativa de sua compreensão. IXplica o reduzido número dos capturados vivos. E evidente que se recuás-
Trabalhei com a suposição de que há diferenças substantivas na concepção •.(•mos para um período um pouco mais antigo, até o começo do século xix
36 FRONTEIRA A (A IM UKA I X) OUIRO 37

pelo menos, ainda en con traríamos expedições punitivas praticadas em I. I . .1111 p o r índios de outros grupos c finalmente pelos jês. Os tupis eram
nome da chamada "guerra justa", destinadas de fato a capturar e escravizar M i l u, p;iiic dos casos raptados pelos jês e, em pr opor ções iguais, por ou-
in dígen as e a matar aqueles cuja escravização era inviável ou n ão lucrativa, I n . . iiipis c pelos regionais. Os jês eram predomin an temen te raptados pelos
caso dos velhos, por exemplo. É verdade que in dicações h á de captura de I. i'i(iii,iis c cm segundo lugar pelos tupis; poucos pelos pr ópr ios jês. Os de
ín dios para sua escravização nos seringais da Am azón ia ainda nas primeiras . .1111 ( j' , r i i p o s, eram raptados sobretudo pelos jês e em pr opor ções iguais por
décadas do século xx e que ainda h á tribos in dígen as submetidas ao cativei- 1111 1 1 1 1 ) K )s de outros grupos e pelos regionais; poucos pelos tupis. Já os regio-
ro da peonagem ou escravidão por dívida nos tempos recentes.^^ II I I l )i ;i si l e i r o s, que tem o maior n úmer o de raptados, eram basicamente
Mas, cessada formalmente a escravidão indígena,^"^ a caça ao ín dio ga- I ip i.id os pelos jês e m u it o secundariamente pelos tupis. Em alguns casos,
n h ou uma nova dimen são, m u it o mais grave - a da genocida limpeza de p I I I .1 p i ática do canibalismo r it ual, como foi observado entre os rikbáktasas.
áreas cobiçadas e invadidas pelos brancos para abertura de novas fazendas. I ssa s in formações in dicam que o rapto nas fronteiras étnicas^^ não é
O que tem estado em jogo é a con versão dos territórios in dígen as em terras .i/uihis o desdobramento de uma lógica t r ibal em que o grupo se reproduz
destinadas à agricultura ou à pecuária e, sobretudo, à pr odu ção de renda p . I.i mediação do outro, de que o raptado é u m dos componentes, como
territorial. Foi assim na "limpeza" do território dos ín dios xoklengs, em p I I . c i ' próprio do universo t u pi. O grupo que raptou em maior n ú m er o,
Santa Catarin a, no in ício do século xx, pela ação dos bugreiros, caçado- .1 .ION jc s, e isso quer dizer basicamente os kayapós, n o que ao outro se
res profissionais de ín dios, pagos para extermin á-los. Excepcionalmente, l i I . i c , tem uma lógica in terior diversa da dos tupis. Embora passe pela
preservavam a vida de crianças e, eventualmente, de mulheres adultas, e I I . . cssidade de reconhecimento (e da morte) de u m in im igo no out7V, n ão
as raptavam para doá-las a famílias de colonos das áreas de colonização.^^ p,i',„i necessariamente, por ém , por algum procedimento real ou simbólico
O mesmo t ipo de bugreiro profissional atuou na mesma época n o oeste e .li iiKorporação física e an tropofágica desse outro sob a forma de deixar-
noroeste de São Paulo, sobretudo contra os ín dios kaingangs, e só excep- '.. ( oíitraditoriamen te in teriorizar por ele.^° Os raptos in dicam desdobra-
cionalmente salvou do extermín io algumas crianças.^** I I I . m o s e variações das con cepções de alteridade presentes nas diferentes
O quadro que foi possível construir com base em in formações esparsas iM icdades tribais. Mesmo tendo-se em conta que a morte do in im igo está
recolhidas em narrativas de viajantes e em trabalhos de etn ógrafos sugere i i n i (.litro da relação com o out r o, o rapto in dica que a mediação dessa
que cada u m dos quatro grandes grupos {tupi, jê, outros índios e regionais) i l i ( ridade n ão se cinge a u m conceito estrito de morte. Em con sequên cia,
parece ter u m padr ão pr ópr io de prática do rapto. Os maiores raptores i i . i o SC cinge, t am bém , a u m conceito estrito de rapto, pois nesse contexto
foram os jês, com mais de 50% dos casos; em segundo lugar, os tupis; .1 i.ipio encerra uma dimen são de morte.
depois os regionais; e, em n úmer o pequeno, os membros de outros gru- Ao mesmo tempo, por ém , os dados t or n am evidente que diferentes
pos in dígen as. Os tupis raptavam preferencialmente os próprios tupis, em IMiipos em diferentes momen tos in corporaram os "civilizados" como víti-
segundo lugar os regionais, em terceiro os jês e por últ imo os ín dios n ão 111.IS lie raptos por tê-los in cluído na categoria de in imigos como se fossem
enquadrados nos dois principais troncos lin guísticos. Os jês, por seu lado, iiiu;i tribo nova, em seus territórios, a ser combatida. Isso é claro em rela-
raptaram preferencialmente os regionais e, em n úmer o menor, os tupis e os .,.1(1 aos raptos praticados pelos tupis.
outros grupos in dígen as. Mas é pequeno o n úmer o de raptos de jês pelos Naqueles dois grupos principais, os "civilizados" e os in dígen as rap-
próprios jês. Os outros grupos in dígen as raptavam sobretudo membros do i.iilos por diferentes tribos, e n ão imediatamente sacrificados, foram de
mesmo grupo e, em segundo lugar, os regionais. ,ilj',uin modo incorporados à estrutura de relações sociais da respectiva t r i -
Do lado dos raptados, o quadro é evidentemente diverso. A maior parte 1>(>, ainda que em alguns casos, como entre os suyás, man ten do o status de
dos raptados é con st it uída por regionais, em segundo lugar pelos tupis, em cMlan geir o, de n áo-suyá. Porém, do lado dos "civilizados", os raptados são
38 FRONTEIRA A CAI MURA DO OUTRO 3 9

claramente sobreviventes ocasionais de incursões de extermínio, havendo I. iiiiolios indígenas, desequilibravam relações intertribais, disseminavam
claro interesse por mulheres, sobretudo crianças. No que a estes se refere, • 1.1' 111,.!^ praticavam violências que introduziam desequilíbrios demo-
os casos registrados não deixam dúvida quanto ao destino dos raptados: . I i l u o s I H ) interior das diferentes tribos. Esses desequilíbrios não foram

prostitutas e concubinas e, no caso dos do sexo masculino, servidão.^' O • 111,.idos unicamente pela invasão branca nos territórios indígenas, como

único grupo de raptores que não incorpora efetivamente o raptado, man- . M i i n relação às diferentes tribos do Xingu. Disputas entre essas tri-
tendo-o à margem, é o dos brancos. Mesmo quando submeteram os índios I M I . , (|IIC mesclavam mortes e raptos e até competição comercial (como
raptados a até sofisticados processos de ressocialização, como aconteceu I pioíhição de machados de pedra pelos suyás, cujo monopólio foi-lhes
com a xokleng Maria Korikrã, capturada quando tinha 12 anos de idade, . I l l parte arrebatado pelos trumáis, como assinala Frikel), provocaram
que nunca chegou a falar português, mas falava fluentemente alemão e • i . i u í i i u a s guerras. O resultado foi a redução populacional dos diferentes

francês. Especialmente as mulheres raptadas quando crianças, mesmo edu- r i i i p o s , com as consequentes dificuldades para casamento e procriação,

cadas como europeias, não chegaram a casar e constituir família.^^ Elas se i M i i i . i n d o os raptos de crianças e jovens um meio de suprir a carência de
mantiveram até a maturidade como agregadas protegidas no interior das ' ciiiiuges. Foi o caso dos suyás e dos jurunas, que desencadearam guerras
famílias de adoção, sem efetivamente entrar no circuito dos relacionamen- ' III rc si, contra outros grupos indígenas vizinhos e contra os brancos para
tos que implicassem aceitação e integração, como ocorreria por meio do < . i p i i i r a r mulheres e crianças.

casamento. Ou então, como ocorreu na Amazónia, como concubinas e () lato de que os raptos, cuja história pode ser reconstituída, tenham se
mães de filhos bastardos, esposas não reconhecidas de seus raptores.^^ < i>iu entrado no período que vai de 1930 ao final da década de 1950 (86

A distribuição cronológica dos raptos mostra que eles variaram em fun- . i.os) indica que eles ganharam um sentido relevante na primeira grande
ção das ondas de expansão da frente de ocupação do território pelos bran- M i i i l a de expansão da frente pioneira na Amazónia, naquele século. Não

cos, conforme mostram os Anexos vi e vii no final deste capítulo. Do total .11 os desequilíbrios demográficos impuseram aos índios a necessidade de
de casos que consegui arrolar, sete ocorreram nas décadas finais do século • i p i i i r a de mulheres dos inimigos para procriação. Nesse contexto, para

XIX, em que os principais raptores foram os jês e os tupis. A partir de 1900, ililcícntes grupos impunha-se, também, a captura de objetos dos brancos,
até 1929, época de expansão da cultura do café, mas também época, ao r',|)(cialmente armas de fogo. E com ela a necessidade de capturar pessoas
menos na década inicial, de expansão da economia da borracha, os 21 rap- que ensinassem aos índios como municiar e como consertar essas armas.
tos têm os regionais como autores numericamente mais importantes. Essa A: mulheres brancas capturadas pelos txukahamães supriram exatamente
relação muda na década seguinte, década de crise tanto do café quanto i s s a necessidade cultural nova.'^

da indústria extrativa na Amazónia. Aí, de 16 raptos arrolados, 15 foram A partir de 1960, o número de raptos diminui, embora continuassem
praticados por tribos do tronco linguístico jê. Os jês se manterão como o .1 ocorrer: vinte foram registrados até 1996. No meu modo de ver, isso
conjunto de tribos mais ativo na captura de membros de outros grupos até •.<• (leve à velocidade da expansão demográfica e económica dos brancos,
1959. Nessas três décadas de expansão territorial e diversificação económi- n u urralando os índios das diferentes tribos, disseminando doenças mor-
ca dos brancos, os jês se envolveram em 60 raptos, sobre um total de 86. i . i í s , mas ao mesmo tempo procurando confiná-los em reservas, o que pro-

Voltariam a raptar após 1969, já num outro contexto de confronto entre \ ' o r o u substanciais mudanças culturais em todos eles, especialmente com

tribos indígenas e entre índios e brancos. .1 (liamada pacificação e a supressão das guerras de vingança, principal
No conjunto dos raptos, há 58 registrados a partir de 1950, até a déca- msrituição envolvida no rapto de inimigos, sobretudo entre os tupis. Em
da de 1980, justamente um período diverso das décadas iniciais do século lodos eles, a criação de novos canais de acesso a bens produzidos pelos
XX, quando, com exceção da área do café, os "civilizados" atravessavam hiancos e a relativa desvalorização de muitos bens indígenas que eram cau-
AO FRONTEIRA A ( AI' IURA UO OUTRO 41

sa de comércio e guerra suprimiram ou atenuaram carências básicas que I |n()v;ivcl que a extraordinária agressividade e a violência dos brancos te-
se situavam no centro da articulação dinâmica da guerra, do comércio, do MII.IIII uvifalizado e dado uma dimensão muito ampla à instituição tribal
sistema de parentesco e da estrutura social. Como observou Lévi-Strauss, J I \)ç:i. A presença dos "civilizados" acrescentou uma complicação ao
esses quatro componentes das sociedades indígenas devem ser "estudados .. 11.11 io do relacionamento de tribos conhecidas, amigas ou inimigas. Os da-
em correlação íntima".^'' . indicam, especialmente no caso dos tupis, que os civilizados, no início,
Pode-se dizer que a relativa queda no número de raptos nas fronteiras I M I ( i i;iin uma tribo nova e agressiva, ainda desconhecida, que tinha que ser
étnicas deve menos à pacificação dos diferentes grupos indígenas do que às i i M oi porada no mapa interativo dos índios como um novo inimigo. Mas o
mudanças culturais que a pacificação introduziu em seus costumes, sobre- . A-.i) (los jês, cujo maior número de raptados é justamente o relativo aos regio-
tudo pela destruição de instituições e até alterações na estrutura de paren- 11,11'. ( 7 num total de 84), nos fala de uma população adventícia destrutiva e

tesco que deixaram a prática do rapto sem sentido. Essa suposição ganha I l i / i m : i d o r a que funcionava ao mesmo tempo como fonte de abastecimento
reforço comparativo em casos como os dos mundurukús, precisamente • 11 u licenciai de mulheres substitutas para preencher o respectivo déficit. Ca-
pela discrepância que representa. Incorporados desde o fim do século x i x i i lu ia semelhante existia nos seringais, o que exphca que também os regio-
ao extrativismo dos seringais da Amazónia pelos seringalistas da região, 11.11'. lenham de preferência raptado mulheres (15 num total de 26 raptados).

com o único intuito de extrair-lhes a força de trabalho, não foram alvo A mulher está claramente no centro da história dos raptos praticados
especial de nenhuma medida propriamente pacificadora, já que nesse caso I» los diferentes grupos. Metade dos raptos efetuados pelos tupis foi de
a submissão ao seringai era pacificação suficiente do ponto de vista dos pa- iiuillieres e apenas 8 raptos num total de 28 foram especificamente mascu-
trões. Podiam, pois, manter seus conflitos e costumes tradicionais naquilo linos. Mais da metade dos raptos praticados pelos regionais foi de mulheres
que não interferisse no trabalho do seringai. O u seja, os seringalistas não <- ,i|)cnas 6 raptados, num total de 26, eram do sexo masculino. Os jês,
estavam minimamente interessados em conquistar os índios para a civili- 111 liores raptores, como já assinalei, raptaram predominantemente mulhe-
zação, mas apenas interessados em obter sua mão de obra barata. O que n:,, mas surpreendem por terem raptado três quartos do total de homens e
nos mostra um aspecto negligenciado no estudo da incorporação de popu- i | i i r os homens tenham sido quase metade dos seus raptados. Tudo sugere

lações pré-capitalistas e, neste caso, primitivas, ao processo de valorização i | i K ' se tratava de um mecanismo compensatório para perdas demográficas
do capital nas situações sociais em que os tempos dos processos históricos (Ictorrentes da invasão dos brancos em seus territórios, pois também o
que se mesclam não se definem nem podem ser definidos por uma tempo- maior número de raptados pelos brancos era constituído de índios de tri-
ralidade unilinear. Por isso, anualmente podiam interromper o trabalho no bos do tronco linguístico jê. Esse número indica a intensidade e a frequên-
seringai e fazer suas expedições de caça de cabeças de inimigos e de rapto I ia das agressões dos civilizados contra as tribos desse grupo.
de crianças,^^ o que mostra um outro modo de interferência na realidade Se reconhecermos que os longos conflitos que se estabeleceram entre
tribal, por uma incorporação aparentemente lateral e secundária de sua íiulios e brancos foram, de fato, guerras, algumas das quais ainda em an-
atividade no seringai em seus costumes tribais, e não o contrário. Tratava-se, il.i mento, especialmente com as tribos kayapós, mesmo que diferentes das
porém, de uma inversão real na situação dos índios, o que só o tempo jMicr r as intertribais usuais, poderemos aplicar ao caso a interpretação de
lhes mostraria. Para eles, a situação social se definia como se pouco tivesse I ,évi-Strauss sobre a relação entre guerra e comércio: quando o comércio
mudado na antiga sociedade tribal, embora de fato esta última tivesse sido SC torna inviável entre as tribos indígenas por ele observadas, tem início
subjugada pelo capital, pelo seu tempo e seu ritmo. .1 guerra, cujo objetivo é o mesmo do comércio. Lévi-Strauss indica que
O conjunto dos dados tende a confirmar a suposição de que foi a inva- .IS mercadorias usualmente trocadas nesses encontros são as mulheres, as
são branca dos territórios indígenas que intensificou a ocorrência de raptos. sementes e a cerâmica.^^ O rapto de mulheres, nessa perspectiva, pode ser
42 FRONTEIRA A CAI^IURA DO OUTRO 43

entendido como episódio de uma guerra motivada pela escassez de mulhe- A palavra amansar, nessas regiões, é uma palavra de uso quase cotidiano
res, também enquanto bens económicos,^' nos grupos em conflito. | Mi.i designar o ato de derrubar a mata, fazer a coivara, limpar o terreno e
A importância central das mulheres como objeto de rapto fica mais prepará-lo para a agricultura, para o trabalho humano. Ouvi muitas vezes
clara quando se detalham os diferentes grupos de idade (crianças, jovens, ii.i licnte de expansão a expressão "fui eu que amansei o terreno" ou "foi
adultos, mulheres e crianças) pelo sexo de seus membros. Vemos, então, liil.mo que amansou o terreno". Aliás, o amansamento da terra gera um
que do total de pessoas do sexo masculino raptadas pelos índios (38), ape- «liivito de precedência, que de modo algum se confunde com direito de
nas 11 eram adultos, cerca de um terço. Nesses raptos era comum a captura piopriedade, e que é uma espécie de senhorio sobre a terra amansada. Sua
de mulheres com crianças, seja porque as aldeias eram atacadas de prefe- 111 upaçáo por outra pessoa depende da licença de quem a amansou. Trata-
rência quando os homens estivessem ausentes, seja porque, mesmo sendo •.(• antes de prerrogativa de reocupá-la, com base num direito precedente
as mulheres o objetivo e o interesse do rapto, estas eram apanhadas agar- f i n lelação aos demais interessados e necessitados de terra para cultivar.
radas a seus filhos pequenos. No caso dos jês, cerca de metade dos homens Amansar vem a ser, pois, preparar para o ato propriamente humano e ci-
raptados era constituída de crianças e adolescentes. vilizado que é o ato de trabalhar. A mesma palavra é usada para designar a
No caso dos raptos praticados pelos regionais, dois terços dos raptados 11 istianização do índio capturado. Ela trata da conversão do suposto ani-
são mulheres e crianças. E mais da metade das mulheres é de crianças. Os mai selvagem em homem para o trabalho. Porém um homem que até o
propósitos desses raptos parecem emblematicamente indicados na captura M-t iilo X I X , pelo menos, ainda aparecia recenseado como semovente, o que
de uma adolescente cinta-larga, num ataque de seringueiros nas cabecei- li)i próprio da sociedade colonial, e ainda é em muitas regiões, quando o
ras do rio Juína-Mirim, no Mato Grosso, em 1959. O chefe da turma de I rabalho era considerado atributo de pessoas inferiores, ainda muito pró-
colação das estradas de seringa, algumas semanas depois do rapto, disse ao ximas dos animais.''^
padre João Evangelista Dornstauder: "Até aqui foi com todo o respeito",^" Os diferentes casos de índios capturados, ainda crianças, indicam que
sugerindo que o respeito era apenas temporário e não era propriamente o eles mantêm, no entanto, essa ambiguidade de origem. Nas concepções
objetivo da captura. Por interferência do padre, ela foi enviada à missão comuns na frente de expansão, o amansado não se transforma em humano,
jesuítica de Utiariti e recebeu o nome Laura. mas em animal domesticado. Ele retém essa espécie de pecado, de "defei-
Do lado dos "civilizados", os raptos constituíram uma prática limitada lo", de origem. É nessa condição que a sociedade de fronteira o incorpora,
que, no meu modo de ver, apresenta interesse comparativamente pequeno pois só assim ele pode ser mantido como vivo testemunho da liminaridade
no estudo sociológico da situação de fronteira. Relativamente à importân- i|iic separa índios de brancos. Desse modo, legitima a ideologia da frontei-
cia ritual e demográfica que o rapto parece ter tido nas sociedades indíge- ra. Por esse meio, o "civilizado" exercita no outro, no raptado, no que não
nas, o rapto enquanto tal, enquanto ação de raptar, não tem relevância cul- (•• seu igual, sua própria desumanização. Ele não se descobre no outro, mas
tural e institucional entre os regionais e na sociedade civilizada. Os brancos nele se afirma e se nega ao mesmo tempo.
não organizam expedições de rapto. Ao dizer isso, não desconheço que há Isso talvez explique por que esses autoproclamados agentes de humani-
indícios, ainda que superficiais, de que as crianças e mulheres raptadas es- zação da natureza e dos selvagens, no relacionamento com as vítimas dos
tão relacionadas com os componentes do imaginário de fronteira relativos ( asos de rapto, tenham uma conduta tão acentuadamente desfiguradora do
ao outro e à alteridade. Os raptados ocasionalmente como que confirmam humano, tão profundamente desumanizadora. Em 1984, numa das via-
a "mitologia heróica" do homem da fronteira, que se vê como agente do j!,cns de avaliação do programa governamental Polonoroeste, foi libertada
humano no limite frágil que há nela entre o humano e o natural, entre o Rita, raptada de um grupo kavaib isolado do rio Madeirinha, em Rondô-
homem e a fera, como amansador da natureza. nia. Ela se tornara prisioneira de um grupo de jagunços que a humilhava.
FRONTEIRA A (MMURA IJO OUIWO 45

Casou-se, e n t ã o , c o m u m í n d i o car ipu n a, de u m gr u p o con t at ad o, de qu e ' l i ' .M' viver a m b í g u o e m ar gin al c m r elação à sociedade de or ige m e à
a m aior ia m or r e r a e que, p o r isso, precisava p r ocu r ar esposa for a dele.''^ O (11 icdade de a d o ç ã o . C o m o acoiu eceu c o m ou t r os í n d i o s "assim ilados",
e n t ão padr e Eu r ico Kr âu t ler , depois bispo d o Xi n g u , ch egou a p r o p o r aos I.I|)|;K1()S o u n ã o , esse í n d i o b o r o r ó , ob ser vou Bald u s, t r an sfor m ou - se e m
serin galistas d a r egião u m acor do escr it o par a que os í n d i o s fossem respei- ci i i . i s [lessoas: o pr ofessor Ti ago M ar q u e s e o c a ç a d o r A i p o b u r e u . Essas
t ados e n ã o fossem capt u r ados. Ne le h á r efer ên cia expressa a ser in gu eir os I I I I ,I S per son alidades n u n c a se in t e gr ar am . N a sociedade br an ca, A i p o b u -
que r o u b a m as m u lh er es dos í n d i o s, t r an sm it em - lh es d o e n ç a s ven ér eas e o i ci i icclam ava de Ti ago M ar q u e s qu e fosse par a a aldeia de sua t r i b o , seus
vício d o álcool."*^ I oMu m es. N a sociedade t r i b a l , Tiago M ar q u e s r eclam ava de A i p o b u r e u
U m a h ist ór ia d r a m á t i c a é a da í n d i a W a t , xok len g, filha d o cacique c|iic losse par a a civilização, a vid a de b r an co. N o m e u m o d o de ver, nas
Ka m - Re m . Fo i r apt ada pelo bu gr eir o M a r t i n h o , e m 1900, e dada a u m «111.IS si t u açõ e s a am b igu id ad e de Ti ago M ar q u e s A i p o b u r e u , c o m o ocor -
casal, que t i n h a o i t o filhos. Ela teve e d u c a ç ã o esmerada e só falava a l e m ã o . it r I c o m a xo k l e n g W a t , er a r ealim en t ad a co n t i n u am e n t e p o r processos
Já m o c i n h a fo i m an d ad a à escola de cor t e- e- cost ur a, à qu al ia sozin h a e m Ilu cr at ivos e m qu e, t an t o en t r e os br an cos q u an t o en t r e os í n d i o s, er a
car r o de m o l a. U m d ia n ã o regressou. M ai s t ar de, a fam ília r ecebeu a n o t í - n .it ad o c o m o outro, c o m o sen do o op ost o d o qu e ele pen sava ser n aqu ele
cia de que ela se en con t r ava e m Join ville, n u m a casa de p r o st i t u i ção . C o n - {'.nipo.'''' Er a, n o fim, v í t i m a de u m a d u p l a recusa, c o m o se tivesse sido
t am in ad a p o r d o e n ç a s ve n é r e as, f o i expulsa d o b or d el. U m m é d i c o a t r at o u c o i u a m i n a d o pelo outro e, p o r t a n t o , p o r aq u ilo que su post am en t e n egava
e a en t r egou à fam ília d o c ô n su l in glês e m Sã o Fr an cisco d o Su l, par a que .1 c o n c e p ç ã o de h u m an i d ad e d o r espect ivo gr u p o. O s p r ó p r i o s m i ssi o n á -
dela cuidasse. Ac a b o u i n d o par a o Ri o de Jan eir o c o m u m su boficial da I ios r eagir am desse m o d o : a co n v e r são e o "b r a n q u e a m e n t o " de A i p o b u -
M a r i n h a , que a t o m o u p o r am an t e. Ab an d o n ad a, r e t o r n o u ao m er et r ício.' '^ reu n ã o fo r a m r econ h ecidos n a p r át i c a cot id ian a de seu r e lacion am e n t o
O caso de W a t parece in d icar que, n o am b ien t e de acolh im e n t o dos í n d i o s c o i n ele pelos p r ó p r i o s agen tes da c o n v e r sã o .
adot ados pelos civilizados, os processos in t er at ivos er am silen ciosam en t e H elen a Valer o, r apt ada pelos y a n o m â m i s , de u m o u t r o m o d o , passou
d om in ad os p o r valores depr eciat ivos, que acabar am gan h an d o visib ilid ad e por e xp e r iê n cia sim ilar . A o con t r ár io dos p r ó p r i o s í n d i o s, ela n ã o r ecebeu
e eficácia n a sua fuga par a a p r o st i t u i ção . N ã o é su r pr een den t e que, dos iiin n o m e i n d í ge n a , n ã o fo i r e n om in ad a. O s difer en t es gr u pos y a n o m â -
casos de í n d i o s xoklen gs adot ados n o in ício d o sé cu lo x x , apenas u m rapaz mis que a r ap t ar am un s dos ou t r os sem pr e a t r at ar am pelo m e sm o n o m e :
t en h a se casado c o m br an ca e que as m o ç a s t e n h am ficado solt eir as, reco- Nap an h u m a, ist o é, est r an geir a, br an ca. A o in vés de u m n o m e , ela r e-
lh idas e pr ot egidas n o i n t e r i o r das fam ílias adot ivas, c o m o j á m e n cion e i. A (cb eu u m n ã o - n o m e e f o i in cor p or ad a c o m o m ã e de filhos de h om e n s
e d u c a ç ã o r efin ada, c o m o ocor r eu c o m W a t , c o m M a r i a Ko r i k r ã, c o m A n i - y a n o m â m i s. O s v i n t e an os qu e passou en t r e os í n d i o s n ã o lh e d i l u í r a m a
t a Br asileir a (que se t o r n o u professora) e ou t r os xoklen gs raptados,*^ n ã o m e m ó r i a de br an ca, possivelm en t e p o r q u e t od os os dias, de vár ios m o d o s,
su p r i m i u de fat o a m ar ca de or ige m , apesar das ap ar ê n cias e m con t r ár io . A cia in t er agia c o m o n ã o - y a n o m â m i , o que afin al c u l m i n o u c o m sua fuga e
in t e gr ação par cial e in co m p l e t a d o í n d i o à sociedade civilizada, e m p o siçõ e s seu r e t or n o à sociedade civilizada. Mas, aí, t a m b é m ela f o i t r at ad a at é p o r
e fu n ções que par a os p r ó p r i o s civilizados ser iam con sider adas h u m ilh an t e s p.n en tes c o m o n ão- br an ca.' ' ^
e desuman as, co n st i t u í a u m p r o ce d i m e n t o par a assegurar que o í n d i o n ã o C o m o vim os, n a m aio r par t e dos casos de r apt os pr at icados p o r "c i -
perdesse de fat o as car act er íst icas físicas, sociais e cu lt u r ais qu e pudessem vilizados", trata-se de r apt os de cr ian ças e adolescen tes, n a m aior ia, d o
m an t ê - l o n a l i m i n ar i d ad e , t est em u n h a de sua or ige m "n ã o - h u m a n a ". Ncxo fe m i n i n o . Rapt os d ecid id os ao acaso d u r an t e os massacres pr at icados
A con h ecid a e d eb at id a h i st ó r i a de Ti a go M ar q u e s A i p o b u r e u , u m ín - in d ist in t am en t e con t r a h om en s, m u lh er es e cr ian ças. Mu lh e r es e cr ian ças,
d i o b o r o r ó edu cad o pelos padr es salesian os d o M a t o Gr osso, é u m d ocu - aliás, execut ados c o m ext r em a cr u eldade, n ã o rar o c o m t écn icas sem elh an -
m e n t o c o m p l e t o de u m a ve r são am en a, e m b o r a n ã o m en os d r a m á t i c a . ics às d o abate de an im ais d o m é st i c o s, c o m o por cos e galin h as.
46 FRONTEIRA A CAIMURA 0 0 OUTRO 4 7

As crianças e mulheres raptadas quase sempre foram-no segundo a mes- • l i i i o c seus filhos, u m m u l a to jogava as crianças para c i ma e as aparava na
ma c o n c e p ç ã o da captura de animais raros para os zoológicos da civilização. r',|);Rla.'' N u m ataque do bugreiro Luiz W o l f aos kaingangs de São Paulo,
U m caso ilustrativo é o da captura de u m r i k b á k t s a , o m e n i n o E i k i n á b u i , aí iiii 1904, cinco í n d i o s foram mortos. Raptaram u m m e n i n o porque era
por 1955, na região do R i o do Sangue, em M a t o Grosso. A p ó s u m ataque ,ill)iiio, por mera curiosidade, portanto, o u na s u p o s i ç ã o de que era bran-
i n d í g e n a a duas feitorias de seringa r e c é m - i n s t a l a d a s no invadido t e r r i t ó r i o II) .'' N a mesma l i n h a de conduta, u m a t u r m a de quarenta homens b e m ar-
i n d í g e n a , o encarregado organizou u m a e x p e d i ç ã o contra os í n d i o s . Q u e i - III.idos atacou, em 1928, u m acampamento de caça dos akuáw^as-asurinís,
m a r a m e d e s t r u í r a m u m a maloca em que havia só mulheres e crianças, III.liando oito adultos. Duas crianças foram capturadas para "serem levadas
cerca de t r i n t a . Os í n d i o s correram, mas deixaram para trás u m a criança. ili (ircsente ao dr. Amyntas" , o engenheiro Amynta s Lemos, da Estrada de
Os atacantes o u v i r a m o choro e a l g u é m ordenou: "Cuidado, í n d i o é mau: liiío Tocantins, que organizara a e x p e d i ç ã o . Mas, como as duas crianças
mata logo essa peste". Mas q u e m recebeu a orde m n ã o teve coragem de M tiebatessem, foram mortas por u m i n d i v í d u o de alcunha " P á Virada".'''
executá-la porque se tratava de u m a criança. Era u m m e n i n o de 4-5 anos ( ) t|ue já é indicativo de que o rapto, em vez do assassinato, dependia da
de idade. T o m o u - o e levou-o consigo. U m empregado do seringai quis ilisposição circunstancial do atacante: " P á Virada" é quafificação que se d á
pagar oito contos por ele. Mas o encarregado do seringai levou-o para São III) sertão às pessoas emocionalmente instáveis, geralmente "do contra",
Paulo e entregou-o a pessoas de Pirapozinho, na A l t a Sorocabana, onde f o i Mijcitas a m u d a n ç a s repentinas de comportamento .
batizado c o m o nome de Benedito. Q u a n d o ali chegou, todos queriam ver Os diferentes casos i n d i c a m u m a atitude ocasionalmente diferente em
o "filho do matador antropófago".'"* (elação à criança, em grande parte em d e c o r r ê n c i a das c o n c e p ç õ e s corren-
Já no conhecido caso, e seus antecedentes, do ataque de seringueiros e us no catohcismo sertanejo a respeito da ambiguidade dos inocentes. A m -
j a g u n ç o s ordenado pelos p r o p r i e t á r i o s de u m seringai da empresa A r r u d a , I >Í!',uidade que, por sua vez, gera a ambiguidade dos c a ç a d o r e s de í n d i o s . As
Junqueira & Cia. Ltda. contra os í n d i o s cintas-largas, em 1963, que ficou ( I i.mças xoklengs raptadas pelos bugreiros e entregues à a d o ç ã o de famílias
conhecido como Massacre do Paralelo 1 1 , temos dois extremos. Ataques .ilcmãs de Santa Catarina eram alvo de chacotas. U m j o r n a l da região dizia
aos í n d i o s v i n h a m sendo praticados desde 1958, quando as terras p r ó x i - 111 CS m o que, sendo de raça subalterna, só serviam para s e r v e n t e s . A regra
mas ao seu t e r r i t ó r i o foram vendidas a quatro grandes grupos e c o n ó m i c o s . c i a regra em tese, cuja o b s e r v â n c i a dependia, p o r é m , das c i r c u n s t â n c i as do
N u m ataque de seringueiros, liderados pelo i n d i v í d u o conhecido como .1 laque e, provavelmente, da sobriedade dos atacantes. O que mostra c o m o
Paulistão, a u m a maloca, em 1959, vários í n d i o s foram mortos, mas u m a II 1 apto como alternativa para o assassinato era p r o d u t o do acaso, n ã o obe-
mulher, u m a menina e u m a c r i a n ç a foram raptadas.^' Mais tarde, em no- (kcendo a u m a regra, ao c o n t r á r i o , p o r t a n t o , do que ocorria c o m os í n d i o s ,
vembro de 1963, ocasião do Massacre do Paralelo 1 1 , ordenado pela mes- lauto que quando, em setembro de 1980, os gorotires atacaram a Fazenda
m a empresa, e cuidadosamente preparado, u m a í n d i a f o i agarrada, amar- l.spadilha, no X i n g u , n o Pará, e mataram vinte pessoas, inclusive mulheres
rada, aberta ao meio a facão e em seguida levou u m tiro. A c r i a n ç a de colo (• crianças, f o i lembrado que eles n ã o costumavam fazer isso, preferindo
que ela carregava f o i m o r t a c o m u m t i r o na cabeça.^" r,i|icar as crianças. A t é mesmo criavam u m a m e n i n a branca que haviam
O padre Dornstauder chegou a ouvir esta espécie de n o r m a no serin- i , i |nado em outra ocasião. Os especialistas, justamente, se perguntavam
gai Arinos, em 1956, a p ó s tentativa de rapto de brancos pelos rikbáktsas, por que o costume fora quebrado.'^
na afirmação de que " S ó matando! í n d i o se amansa a bala! M a t a r os ve-
lhos e levar as crianças!"^' P o r é m n ã o são poucas as i n d i c a ç õ es de extrema
violência t a m b é m contra as crianças. N u m a e x p e d i ç ã o p u n i t i v a contra os
ofaiés-chavantes, de São Paulo, em 1900, para vingar a m o r t e de u m fazen-
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Modos e rit os: est ilos de captura e sujeição ['.iiipos cm terras de invasores o u inimigos, geralmente com um número
de mortos, quando os houve, muito maior do que o número de raptados.
No elenco dos casos de rapto, do lado indígena, é mais comum a re- I M i s quase sempre em número muito pequeno, muitas vezes apenas um,
ferência a expedições de guerra para rapto de mulheres e crianças e tam- . o i i i o se observa na história dos kayapós e, mais recentemente, dos uruéu-

bém para saques. Ações de guerra com o propósito de rapto de mulheres e w.m-waus. Esse é sem dúvida o padrão que se observa em praticamente
crianças, quase sempre com muitas mortes de homens, inclusive crianças l o d o s os casos de rapto de brancos pelos índios. O que talvez se explique

do sexo masculino, restringiram-se a ataques de grupos indígenas, às vezes l'( l o fato de que as vítimas estavam sempre entre famílias isoladas na mata,
confederados, a outros grupos indígenas inimigos e até amigos. Nestes últi- •.obrctudo famílias de seringueiros, nas ações dos rikbáktsas e dos kaya-
mos casos dando origem a ódios e guerras de vingança, como ocorreu com | )(')s, e seringueiros, posseiros e colonos nas ações dos uruéu-wau-waus. As

as várias facções yanomâmis. Não consegui colher informações sobre um liisiórias destes últimos são relativamente recentes. Em 1969, o rapto de
único grande ataque de índios a brancos para rapto de mulheres e crian- M.iria Inês Rodrigues, suas duas filhas, Sandra Neli, de 4 anos, e Auxilia-
ças, no mesmo padrão observável entre os próprios grupos indígenas. Esse i l n i a , de 7 anos, e a sobrinha Dora, de 11 anos, ocorrido no seringai São

tipo de ataque, no entanto, foi comum até há poucas décadas entre tribos I Kincisco. Em outubro de 1979, esses mesmos índios atacaram os filhos do
indígenas inimigas, como entre os dyorés e os gorotires;''' os jurunas e os i olono Francisco Prestes Rosa, na Linha 5, Lote 47, Gleba 33, do Projeto
suyás;^^ entre diferentes tribos yanomâmis;^^ o ataque dos karajás aos tapi- BI nateiro, em Rondònia: Luís, de 17 anos, morreu com cincoflechadase
rapés, mencionado a Baldus em 1935;''° os ataques dos kamayurás aos ju- I 'imas, de 9 anos, levouflechadase golpes de facão, morrendo três meses
runas;^' as expedições de guerra dos mundurukús no século xix, para caçar (lipois em Manaus. O filho mais novo, Fábio, foi raptado.^^
cabeças de inimigos, que eram também expedições para rapto de mulheres Esses casos de raptos isolados são justamente os que melhor revelam
e crianças: "Vou porque preciso de uma mulher para casar" ou "preciso de .IN características do rapto, tanto em relação aos outros índios quanto em
uma criança para filho de minha mulher";''^ o ataque dos rikbáktsas contra iihição aos brancos. E que aí aparentemente determinado índio é que rap-
os kayabís, com muitos mortos e raptados, narrado por Mairerum ao padre i . i v a determinada pessoa. Na verdade, esse era também o padrão no caso

Dornstauder;''^ o ataque de um grupo de vinte rikbáktsas aos munkiis, em d os grandes ataques coletivos. Pode-se então entender por que nos ataques
1954, em que mataram 47 desses inimigos seus parentes e raptaram um ]',1.1 lides ou pequenos nem sempre as mulheres e as crianças são raptadas,

menino e uma menina;''^ os ataques anuais dos txikãos, na estação seca, o u nem todas são raptadas, sendo mortas. As poucas informações dispo-
aos nahukwas, no Alto Xingu para incendiar as malocas e raptar crianças.""^ níveis sobre o que aconteceu com os cativos após o rapto mostram clara-
Além dessas ocorrências, uma boa parte das que podem ser arroladas nunte que o guerreiro que conseguiu agarrar o inimigo, em vez de matá-lo,
a partir das informações dos etnógrafos, cronistas e viajantes, dos últimos lomou-se assim seu dono. No caso da captura de mulheres, esse procedi-
cem anos, mostra que muitas vezes os índios não saíram necessariamen- mento é geralmente indicativo de um interesse do raptor em ter uma es-
te para raptar, mas para explorar o território ou para caçar em pequenos I)(isa. Numa das vezes em que foi raptada por um dos grupos yanomâmis,
grupos. Geralmente faziam raptos quando se aventuravam longe de suas I lilena Valero tornou-se a quinta esposa do tuxaua.
malocas. Como aconteceu quando, aí por 1925, os suyás, fazendo incur- Mesmo que o raptado ou a raptada não parecesse viver numa situação de
sões pelas terras vizinhas, após se estabelecerem no igarapé Horêyangô, no ravo, gozando de uma liberdade aparentemente ampla, como os demais
Alto Suiá-Missú, Mato Grosso, viram uma mulher xavante com seu filho, membros da tribo raptora, os vários casos que consegui arrolar sugerem
na roça, tirando tubérculos. Mataram a mulher e raptaram o menino.'''^ i l;ilamente que a melhor palavra para definir sua situação é a palavra cati-
Outras tribos atuaram de preferência desse modo: incursões de pequenos veiro. Florestan Fernandes defrontou-se com esse problema em seu estudo
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sobre a função social da guerra na sociedade tupinambá, no século xvi. Ele iMol (o a golpe de tacape e João foi carregado por eles. Quando encontrado
observou que os '"prisioneiros de guerra' não eram degradados socialmen- | H los Villas Boas, estes notaram que ele era muito agarrado ao índio Kru-
te nem explorados economicamente". Mas assinalou que os cronistas da i n. iif , que tinha grande ascendência sobre ele. E concluíram que Krumare

época "não tiveram dúvidas em designar as relações dos tupinambá com li.ivia participado do ataque e do rapto. Muito provavelmente era o raptor
os cativos de guerra como 'escravo', 'senhor', 'leis do cativeiro', 'leis dos J(i menino ou então o recebera de outro índio que também participara.
escravos' etc". E conclui que os "tupinambás conheceram e praticaram, \:\c menino, já moço, com 23 anos, foi devolvido à família, em Mato Ver-
portanto, uma das modalidades culturais da escravidão"."^^ di-, arual Luciara. Foi preciso levar junto o próprio Krumare que, na hora
Esse cativeiro se revelava, em primeiro lugar, no direito reconhecido I l.i ilespedida, mal escondia o choro.^° Aparentemente, uma relação em que
pela tribo de que o raptor pudesse dispor do raptado ou da raptada, fican- .1 mesclavam afetividade, senhorio e domínio. E, provavelmente, alguma
do com ele ou ela ou dando-o a outra pessoa, geralmente de sua parentela. loi ina de inclusão parental postiça, como a de membro da parentela do rap-
Havia, sem dúvida, um direito tribal sobre os raptados, que se revelava II >i. No caso dos tupinambás, Florestan Fernandes concluiu que "os escravos
quando algum deles tentava fugir. Nesse caso, não era apenas o raptor que l i a m adorados socialmente e incorporados às parentelas dos senhores".'''

saía no seu encalço, mas também outros membros da tribo. Não está claro |;í o caso de Helena, entre os yanomâmis, mostra um outro lado desse
se na recaptura aquele que agarrasse o fugitivo se tornava seu novo senhor, 1 a(ivciro, até porque sua extensa história é rica em detalhes. Durante todo
sendo pessoa diferente do primeiro raptor. Mas há várias indicações de que n icmpo em que esteve em diferentes tribos dos yanomâmis, várias das
o simples toque no braço de um inimigo ou de um fugitivo já configura- ipiais inimigas entre si, ela ficou sob mando de alguém. Como era uma
va um direito de senhorio sobre ele. O caso do rapto de Kikre, um índio inciúna na época do rapto, tinha 12 anos, foi entregue por seu raptor aos
arara, pelo xikrin Ngoiti, num ataque dos xikxins aos araras, no rio Cateté, > uiclados de uma velha. Quando mais tarde se tornou a quinta esposa de
indica o modo como o rapto já estava até mesmo inscrito nas respectivas I usuwe, foi colocada sob ordens da primeira esposa. Tornou-se, assim, uma
culturas, tanto a de quem raptava quanto a de quem era raptado. Ngoiti 1 ••pccie de serva da serva. A primeira esposa funcionava como uma espécie
pegou no braço de Kikre e por isso, observou Lux Vidal, este o chama de lie administradora do grupo de esposas do tuxaua. Embora Napanhuma
"papai".® O simples toque no braço já decidia um modo de inserção na IDSSC muito jovem e fosse a última das esposas, a primeira esposa começou

tribo do raptor. Esse direito, nos vários casos, parecia materializar-se no .1 insistir com ela para que aprendesse a dar ordens às demais esposas do
estar inteiramente disponível para o senhor, fazer-lhe companhia ou fazer marido e passou a ensinar-lhe a fazer isso.^^
companhia a quem ele indicasse, como aconteceu, aliás, com o branco O senhorio do tuxaua sobre as esposas se revela, também, na posse lite-
lusé, raptado pelos txukahamães. Ou preparar-lhe comida, no caso das lalinente completa que tinha delas, quase todas raptadas de outras tribos.
cativas. Além, obviamente, de dar-lhe filhos. <.) II ando uma delas passou tempo demais em outro canto da maloca con-
A história de lusé mostra como esse vínculo de dependência existia não Misando com seu cunhado, o irmão do tuxaua, este se sentiu ofendido:
só no caso das mulheres, mas também dos homens. Ele foi encontrado en- mandou retirar a rede daquela esposa da área da maloca em que habitava
tre os txukahamães, em 1963, pelos irmãos Villas Boas, junto com outros i- ordenou a outra esposa que a levasse a ela e dissesse a seu irmão que
cativos. Seu nome era João da Luz, de famosa família de fazendeiro e chefe III asse com a mulher. Em outra situação, estando a própria Napanhuma
político do norte do Mato Grosso. Fora raptado em 1947, no alto rio Ta- I i nidar de outra coisa, um pouco longe do filho pequeno, que começou
pirapé, quando tinha 8 anos de idade. Estava cortando palha de piaçaba no I t horar, Fusuwe agrediu-a e quebrou-lhe o braço. Entende-se porque a
campo junto com José Xandó, mais velho, para a casa que sua família fazia mulher, depois do segundo filho, era considerada velha, o que acarretava
no novo povoado de Porto Velho. Os índios surgiram de repente: Xandó foi .1 busca de novas esposas: seu tempo era completamente consumido por
52 FRONTEIRA A CAIM URA UO o u IRO 5J

suas o b r i ga ç õ e s c o m os filhos pequ en os e suas o b r i gaç õ e s n a sob r e vivê n - jMupo c sua capt u r a em out r as tribos, n o m í n i m o , ao m e sm o t e m p o que
cia do gr u p o fam iliar , e n q u an t o a jo v e m esposa p o d i a m an t er - se c o m o i cí o r çav am os valores e c o n c e p ç õ e s d o gr u p o , alt er avam cr it ér ios de rela-
ser viçal d o m a r i d o / ^ i ioiKimento der ivados de casamentos que er am apenas t oler ados. O que se
O at o de r apt ar , co m o se vê pelas in d icaçõe s an t er ior es, co n st i t u í a ape- i o í n p l i c a v a p or q u e , segu n do Ga l v ã o , entre as t r ibos d o Xi n g u a im p u r eza
nas u m m o m e n t o de u m c o n ju n t o com p licad o de r elações reais e si m b ó l i - (If lin h agem é u m fat or de d e sp r e st ígio. O d e sp r e st ígio alcan çava p ar t i cu -
cas. Difer en t es t r ibos o u gr u pos in d íge n as r ap t avam p or difer en t es m ot ivos l.iiin en t e os i n d i v í d u o s qu e tivessem u m an tepassado su y á, t r i b o con side-
e c o m difer en t es finalidades. Os ju r u n as at acavam , especialmen t e os su y ás, i.ida abaixo de t odas as ou t r as. U m dos chefes k a m a y u r á s, p o r ser casado
par a pr over em- se dos c ô n ju ge s, h om en s e m u lh er es, de qu e os m e m b r os de i om m u l h e r su y á, era v í t i m a de c o m e n t á r i o s d esfavor áveis dos dem ais. O s
sua t r i b o n ecessit avam. Seu cr ó n i co déficit de par ceir os m at r i m o n i ai s pare- l<,imayurás d iziam que os cat ivos su yás er am algum as vezes m o r t o s a golpes
ce ter d ecor r id o dos ataques dos m an i t sau ás, n o sécu lo x i x , e, mais t ar de, ilt- m ach ado o u facão n a cab e ça.^ ' P or t an t o, de fat o, os r apt ados er am so-
dos t xu k a h a m á e s. É ver dade que os su y ás t a m b é m r ap t ar am u m gr an de breviven t es da d e st i n ação à m o r t e r i t u al de t o d o i n i m i go .
n ú m e r o de í n d i o s m a n i t sa u á s, dez dos quais for am vist os p or V o n d en D u r a n t e t o d a su a e x i st ê n c i a c o m o r ap t ad os, sobr e eles p esavaap ossib ili-
St ein en , e m 1887.^^ E m 1910, p o r é m , os ju r u n as fo r am con vid ad os pe- 11 ;ide d o sacr ifí cio . O qu e suger e qu e h avia cr it é r ios de e xc e ç ã o n a m o r t e dos
los su y ás par a ju n t os at acar em os k a m a y u r á s, q u an d o fo r am r apt ados u m i n i m i go s par a m an t e r a v i d a de algu m as pessoas. A si t u a ç ã o dos r ap t ad os
m e n i n o e algum as m u lh er es. E m seguida, os p r ó p r i o s su y ás lh es r ou b ar am d fp e n d e , d o m e u p o n t o de vist a, de se co m p r e e n d e r qu e essa e xce ção se
as m u lh er es, r est an do c o m os ju r u n as u m a m u l h e r e o m en in o.^^ En co n - in ser ia n os r it os de can ib alism o r eal o u si m b ó l i c o p r at icad os co n t r a os
t r am os r efer ên cias a ataques dos ju r u n as con t r a os su yás par a capt u r a de i n i m i go s. Assi m c o m o o m o r t o , o r ap t ad o t a m b é m se sit u ava n a l ó gi c a
cr ian ças e joven s e m é p o c as t ão dist an t es en t r e si c o m o 1884, 1920 e 1 9 6 1 , d f i n st r u m e n t o da v i n ga n ç a e n ã o p e r d ia a c o n d i ç ã o su b jacen t e de ví t i-
o que é b e m in d icat ivo da p er sist ên cia d o pr oblema.^'' ma sacr ificial, m e sm o qu e se t or n asse u m m e m b r o p o st i ç o da p ar en t ela
A q u e st ã o , p o r é m , n ã o se resolvia n o p lan o m er am en t e d e m o gr áfi c o e do r apt or .
q u an t it at iv o . É que n o sist ema de par en t esco ju r u n a , c o m o nos diz Ad é l i a Os su yás er am visados pelos ju r u n as e vice-versa p o r q u e , c o m o vim os,
En gr ác i a de O live ir a, h á u m a escala de esposas p ossíveis. As u n iõ e s são l i n h a m am bos o m esm o p r ob le m a d e m o gr á fi c o : falt a de c ô n ju ge s par a
classificadas e m pr efer en ciais, per m it id as e t oler adas. N ã o h aven do n o i - > .isamen t o e r e p r o d u ç ão . Por isso, t en t avam at r air , apr ision ar e in cor p or ar
vas d isp on í ve i s n o gr u p o de u n i ã o pr efer en cial, er am elas per m it id as for a m em br os de ou t r as tribos.**" Mas t a m b é m aí a capt u r a de in im igo s n ã o
das regras de par en t esco pr efer en cial. Se ain d a assim n ã o fosse possível pode ser r edu zida a cr it ér ios p u r am e n t e d e m o gr áfi co s e m at r i m o n i ai s. O l i -
en con t r ar n oivas, as u n i õ e s er am t oler adas c o m m u lh er es de t r ibos h ost is, veira se refere a u m a visit a dos su yás aos ju r u n as, aí p o r 1940, de q u e m
co m o os su y ás, os t r u m ái s e os k a m a y u r á s, at r avés do r apt o. Essas u n i õ e s .i};ora er am am igos, q u an d o m at ar am os ju r u n as m ais velh os, d eixan d o os
n ã o pr efer en ciais, assim m esm o, t i n h a m o u t r o com p on e n t e . Sen do a re- (| i i e ain d a er am m o ç o s para serem mortos mais tarde. Mu lh er es e cr ian ças
gra de par en t esco m at r il o cal , a pr efer ên cia era de que as m u lh er es ju r u n as lor am levadas à sua aldeia e os casais fo r am separados. Q u an d o o cacique
se casassem c o m h om en s de for a, pois o gen r o t i n h a qu e prestar ser viços j i i i u n a , que con segu ir a fu gir , r e t o r n o u par a atacar os su y ás, c o m au xílio
ao sogro at é o n ascim en t o d o p r i m e i r o filho.^^ O liv e ir a explica a capt u r a .11 in ado de u m ser in galist a, r esgat ou as pessoas r apt adas, sen do que qu at r o
de m u lh er es e m ou t r as t r ib os p or qu e, sen do os ju r u n as u m gr u p o m u i t o jm u n as já h aviam fu gid o. Nessa ocasião massacr ar am os suyás.**'
r ed u zid o, er am t a m b é m m u i t o apar en t ados. E m c o n se q u ê n c i a das i n t e r d i - En t r e os y a n o m â m i s, con soan t e o r ico d e p o i m e n t o da p r ision eir a H e l e n a
ções m at r im on iais p r óp r ias de sua o r gan i z ação social, t i n h a m n ecessidade Valero, os r apt os de m u lh er es e m en in as visavam r ecr u t ar esposas e, p o r t a n t o ,
de buscar esposas for a de seu grupo.^^ A car ên cia de esposas n o p r ó p r i o ser viçais qu e am pliassem o que lit er alm en t e se p od er ia ch am ar de cor t e d o -
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mestiça do raptor. A família que ela descreve era u m complicado sistema de IHl,lis. O s ín dios começar am , en tão, a atacá-los em pequenos grupos. N a
relações de serviços e de poder centrado no h omem adulto e em pleno vigor III iiic do JLUucna, eles raptaram c mataram sete seringueiros com golpes de
físico. Ao seu redor se situavam as esposas e os filhos tidos com elas, e t am bém l . c i i d u n a na nuca, dos quais devoraram cinco. O seringueiro Acrísio Ribei-
os velhos pais, com aparente destaque para a máe-avó. Esse sistema familiar i n l o i apanhado no seringai Arin os, em 1952, lu t ou e resistiu com revólver
era, por ém , apenas u m elo n uma rede de relações e ações em que, através li.i mão, mas foi m or t o com golpe de bordun a na nuca, carregado, esquar-
do rapto de mulheres e meninas e o con comitan te massacre dos homens e i i |.i(lo, assado e suas carnes distribuídas pelas malocas vizinhas em sinal
meninos dos grupos in imigos, as tribos pun h am em prática a vingança.^^ i l r un ião para a guerra. José Cearense e Bibian o Pedroso t am bém foram
Essa vin gan ça, por sua vez, desencadeava no grupo das vít imas t am- I. 11xados em 1952, apesar da luta. O seringueiro An t ôn io foi moqueado no
bém a necessidade de vin gan ça, n u m encadeamento con t ín u o e in t er m i- I oiiego Rico, em 1953. Em 1954 raptaram Urban o n o r io Papagaio.**"* O
nável. A pon t o de que, às vezes, determin ada aldeia estava in com pat ibi- l>,iclrc Dorn stauder viu os crân ios em 1961. Estavam guardados na maloca
lizada ao mesmo tempo com várias outras em decorrên cia dessa relação 11() rikbáktsa Muit soc.
de débit os e créditos de vin gan ça. A sit uação podia se torn ar de t al m odo N a h istória dos raptos rikbáktsas h á brancos e ín dios. Embora haja ca-
in suport ável que o segundo marido de Helen a, Akaw^e, com u m n ú m e- n s de raptos de homens e mulheres, adultos e crian ças, tan to de brancos
ro en orme de in imigos querendo sua m or t e, em várias aldeias, preferiu i|n ;in to de ín dios m u n kú s, h á t am bém casos de massacre con tra mulheres
acom pan h á- la quan do ela teve oportun idade e decidiu fugir, retorn an do 1 11 ianças e canibalismo praticado tanto em relação a uns quan to a outros.
aos brancos e à sua família. Ele só decidiu retornar, por sua vez, à sua I'ivctta recolheu in formações sobre o ataque rikbáktsa aos mun kiis do r io
t r ibo, após o r ápido con tato com os brancos e a aparente descoberta de lio Sangue, ocorrido em 1954. Com o já mencionei antes, foram mortos 3
que ali n ão havia lugar para ele.^^ homens, 34 meninos e 10 mulheres e raptados u m men in o e duas men i-
O rapto de mulheres corria frequentemente paralelo ao massacre dos II. IS, que depois se casaram com membros da t r ibo dos raptores. Os ín dios
homens da mesma t r ibo, o que sugere que essas ações se equivaliam. Apa- 1 on t ar am a Pivetta que h aviam carregado os mortos e os moquearam em
rentemente, os filhos tidos com elas repun h am os mortos por seu rapto I r i s giraus para depois fazer u m min gau com castanha e assim ingerir os

vingados, pois o documento sugere que os filhos eram filhos do pai. mimigos.^^ U m outro detalhe do canibalismo rit ual dos rikbáktsas parece
Um a terceira modalidade de rapto que é possível assinalar na coleção de 1 on t ido na con statação do que ocorreu com o cadáver do seringueiro Jo-
casos que reun i é o da busca de vítimas entre os in imigos para ritos sacrifi- valino Fortes, atacado e m or t o com uma flechada na garganta na tarde de
ciais. Esse aspecto foi particularmente agudo entre os rikbáktsas até a época '/í de outubro de 1954. U m companheiro de Jovelino correu pela mata até
de sua pacificação nos anos 1950. O maior n úm er o de raptos praticados o l>arracão e trouxe ao acampamento outros seringueiros que enterraram
por esses ín dios refere-se a seringueiros que trabalhavam para as empresas o morto e seguiram adiante, à procura dos ín dios. Quando voltaram, en-
de borracha que estavam in vadin do seu território, na região do rio Jurue- ion t r ar am a sepultura aberta, sem o cadáver. Tempos depois iden tificaram
na. E verdade que o padre Dorn stauder en con trou nos vários aldeamentos n.stos de Jovelino mais abaixo daquele pon t o, no r io Juruena.^'' Provavel-
diversas pessoas com características físicas de brancos, tendo sido possivel- mente, o corpo fora desenterrado para cumpr imen t o do apropriado r it ual
mente raptadas quando eram crianças ou sendo filhas de brancas raptadas. iiuropofágico por parte dos atacantes.
Dois homens nessas con dições, Voco e Aicoé, eram caciques. Nos vin t e anos que passou entre diferentes tribos yan om âm is, Helen a
Quando os brancos com eçar am a in vadir o território rikbáktsa e estes Valero esteve cotidianamente cercada pela mor t e, mesmo quan do se t or -
se deram conta de que havia gente nova chegando, foram ver se n ão eram nou esposa sucessivamente de dois membros do grupo raptor e m ãe de
os rikbáktsas voltados do céu para a terra. Mas os brancos se mostraram seus filhos. Or a era acusada de ser causadora da mort e de uma crian ça de
56 FRONTEIRA A CAI' I URA UO OUTRO 57

outra mulh er, ora era acusada de ser m ot ivo do fracionamento de uma O segundo problema de iiidclinição do estado do raptado, como apon-
t r ibo e do estabelecimento de uma relação de ódio entre seus membros. k i , diz respeito ao seu lugar na sociedade de adoção. O caso de Napa-
Ela n ão era apenas t ida como portadora de m or t e. Quando seu pr imeir o n liuma, que se casou duas vezes e teve filhos com os raptores, já sugere a
mar ido, Fusuwe, morreu n uma ação de vin gan ça de u m grupo con trá- piccariedade dessa in tegração de quem, por ser raptado, é intrinsecamente
r io, duas das cinco esposas, uma das quais ela, ambas mães de filhos do iiulcfin ido. Outros casos são indicativos de situações obviamente menos
falecido, souberam, pelos procedimentos rituais que estavam sendo ado- dramáticas, mas mostram a necessidade de arranjos laterais na organ ização
tados pelos homens e por in formações de algumas mulheres da t r ibo, que • • oc ial das tribos dos raptores para situar e localizar os raptados.

havia sido decidido mat á-las, pois n ão t in h am família.**^ Ambas h aviam Três irmãos waurás, duas jovens e u m men in o, raptados pelos suyás
sido raptadas; a outra esposa era de uma out r a t r ibo e seus pais estavam cm 1940, que permaneceram na t r ibo dos raptores, elas inclusive ali casa-
mortos. Frequentemente, antes disso, quan do ainda solteira ou quando i . i m , nunca tiveram vontade de abandonar os suyás. No en tan to, n ão eram
o marido estava vivo, os que t in h am por ela simpatia ao mesmo tempo considerados suyás. Frikel an otou que os suyás, ao lon go de u m per íodo
sentiam grande pena, pois era uma pessoa sozinha, sem n in gu ém . Se fosse recente, h aviam in corporado membros de dez tribos in dígen as diferentes.
mor t a, n ão haveria quem comesse suas cinzas com o min gau de banana St u s filhos e netos n ão eram considerados legítimos s u y á s . U m a outra
n em quem a vingasse. Por n ão ser credora de vin gan ça e ser ao mesmo expressão da mesma dificuldade de in tegração foi constatada por M i n d l i n
tempo vít im a pr opiciat ória da vin gan ça, sociologicamente mor r ia com a e i u r e os suruís, de Ron dôn ia. A tribo é composta de vários grupos pat r ili-
morte do mar ido, no fun do o mot ivo do rapto. Portan to, passara longos Il i a r e s e h á entre eles u m quarto grupo, kaban, descendente de uma m u -
anos no limiar da mor t e. Com o men cion ei antes, n uma sociedade em llicr roubada aos ín dios cintas-largas. Quando, em con sequên cia das m u i-
que os nomes t in h am tal im por t ân cia r it ual que eram man tidos ocultos las mortes, n ão h á grupo de parentesco compatível para encontrar esposa,
(só foi saber o n ome do sogro quando ele mor r eu e o do pr imeir o marido os casais desgarram-se. Casas de estilo caboclo, isoladas, são de homens
quando já era m ãe), n em mesmo u m n ome recebeu, sendo chamada sim- sem cunhados, pessoas casadas com cintas-largas e sem sogro possível.^' E,
plesmente de Napan h uma, estrangeira, branca. Imalmente, h á o caso dos suruís do Pará, organizados em cinco clãs, u m
Dois outros grupos tribais t am bém oferecem in dicações dessa situação (los quais, den omin ado karajá, é con st ituído de descendentes de mulheres
limin ar do cativo. Os kuben-kran-kegns, da região do Xin gu , em maio de da tribo que dizem ser karajá. Mãe e filha karajás foram raptadas pelos su-
1940, n u m assalto a u m povoado de brancos, raptaram a men in a Carmin a mis. Quando o esposo e pai t en t ou resgatá-las, foi aprisionado e em troca
e dois homens. Eles ficaram alguns anos na aldeia de seiscentos habitantes da esposa perdida deram-lhe mulh er suruí e n ão o deixaram abandonar a
do cacique Oket , o raptor, que era in im igo ferrenho dos civilizados. Lá iiiíio. São eles a origem desse quin t o grupo exogâmico.'^
havia outros prisioneiros capturados na região do rio I r ir i. U m dia, sem
mot ivo aparente, Oket man dou matar os dois prisioneiros.^**
* **
Esse estado de limin aridade do raptado reaparece no caso de dois irmãos
jurunas capturados pelos suyás, ainda rapazinhos, e raptados destes pelos
kamayurás: Tamacu e Evaú. Foram encontrados em 1948 pelos irmãos Todas as ocorrên cias examinadas in dicam que o prision eiro, mesmo
Villas Boas e os acompanharam no primeiro contato com os jurunas. Após <|uando man t ido vivo, tende a permanecer n u m estado de in defin ição:
a pacificação, retornaram ao con vívio dos jurun as, mas aí foram mortos, de u m lado quan to ao seu status na polarização entre vivos e mortos; de
acusados de feitiçaria. Aparentemente, u m deles havia sido pajé entre os outro lado, quan to ao seu lugar na organ ização social das diferentes tribos
kamayurás,**'' o que in dica que se t or n ou lim in ar nos dois grupos. indígenas. Essas in defin ições são, na verdade, a sua defin ição como ser
58 FRONTEIRA
A (AiMURA DO OUTRO

limin ar. Quando essa mesma indefinição alcan ça os civilizados através dos Anexos:'^
raptos, parece-me que estamos em face de uma primeira e significativa ver-
são in dígen a da con cepção de pessoa na situação de fronteira e da própria I - Raptores e raptados nas fronteiras étnicas do Brasil, conforme o tronco linguístico
con cepção de fronteira de diferentes populações in dígen as. E já h avíamos
Grupo Raptores Raptados
visto o estado de degradação moral, o que é m u it o pior, a que os brancos
Regionais 26 60
submetiam os ín dios raptados. Assim, tanto do lado dos brancos quanto
Tupi 28 36
do lado dos ín dios, o raptado é man tido como outro, como expressão de
Jê 84 24
uma alteridade problemática, n uma espécie de sala de espera do processo
Outros índios 8 25
de h uman ização na perspectiva do raptor.
Todos 146 145
O outro que assim se define expressa, tan to de u m lado quan to de outro
da fronteira, a recusa da alteridade ou, no m ín im o, diferentes graus e mo- - Raptores e raptados nas fronteiras étnicas
dalidades dessa recusa. O que a situação de fron teira nos mostra é algo bem
diverso das suposições de Todorov relativas à descoberta do outro no tempo Raptados Outros
Tupi Jê
Raptores Regionais Soma
da Conquista.^^ Para que se configure o que esse autor define como "desco- grupos
Tupi 10 6 2 9
berta que o eu faz do outro" e sobretudo para dar susten tação à tese de que 27
Jê 15 7 15
"o eu é u m outro' e de que "os outros são o eu", no que se refere exatamente 47 84
Outros 1 1 4 2
a acontecimentos h istóricos como a Con quista e outros similares, nossos 8
Regionais 10 11 4 ,
con t empor ân eos, como os relativos ao sacrifício do in im igo e ao rapto de 25
Soma 36 25 25 58
mulheres e crianças por grupos étnicos entre si diferentes e adversários, é 144
preciso que essa reciprocidade se baseie n o recíproco reconhecimento da
humanidade do eu e do outro. Os fatos h istóricos e o conhecimento an-
tropológico e sociológico que deles se tem nos dias atuais n ão convalidam
esses pressupostos.
Ain da que épocas e situações historicamente m u it o diferentes entre si,
a da Con quista e a de hoje, a situação atual ainda guarda aspectos que são
essencialmente os mesmos daquele tempo. Mais do que o encontro, do
lado dos vencidos o desencontro nos revela a justa e obstinada resistência
dos diferentes grupos em descobrir-se nos agentes de sua desuman ização,
de que eventualmente tenh am capturado exemplares. Do lado dos ven-
cedores, temos a obstin ação inversa, a de desconhecer a h umanidade do
outro, sem que percebam que ao fazê-lo desumanizam a si mesmos, pois
de fato n ão h á h uman ização sem alteridade e, sobretudo, sem a alteridade
litúrgica da vítima, do vencido.
60 FRONTEIRA AC
APTURA DO OUTRO 61

III - Raptores conforme o tronco linguístico e raptados conforme a categoria de idade e o sexo IV Raptores conforme o grupo étnico e raptados conforme a categoria de idade e o sexo

Raptores
Raptores
Outros Riiptados In dí ge n as Regionais Somas
Raptados Tupi Jê Regionais Somas
grupos (Itlade e sexo)
(Idade e sexo)
Crianças 42 15 57
Crianças 7 31 4 15 57
Fem 19 8 27
Fem 3 14 2 8 27
Masc 14 4 18
Masc 3 11 - 4 18
Fem/masc 3 1 4
Fem/masc - 3 - 1 4
2 2 8 S/in d 6 2 8
S/ind 1 3
- 1 12 Jovens 11 1 12
Jovens 2 9
Fem 7 1 8
Fem - 7 - 1 8
Masc 2 2 - - 4
Masc 3
- 4
Fem/masc - - - - -
Fem/masc
- - _

S/ind - - - - - S/in d
- - -
33 Adultos 28 5 33
Adultos 7 18 3 5
Fem 17 4 21
Fem 6 10 1 4 21
Masc 11 1 12
Masc 1 8 2 1 12
Fem/masc - - - - - Fem/masc
- _ _

S/ind - - - - - S/in d
- -
Mulheres e
Mulheres e 11 1 12
6 5 - 1 12
crianças crianças

Fem 2 1 - - 3
Fem 3 - 3
Masc 1 - - - 1 Masc
Fem/masc
1
6
- 1
Fem/masc 3 3 - 1 7 1 7
S/ind - 1 - - 1 S/in d 1 - 1

Sem Sem
6 21 1 4 32 28 4 32
indicação indicação

Fem 3 8 - 2 13 Fem 11 2 13
Masc 1 7 - 1 9 Masc 8 1 9
Fem/masc - 3 - 1 4 Fem/masc 3 1 4
S/ind 2 3 1 - 6
146
S/in d 6
- 6
Somas 28 84 8 26 Somas 120 26 146
Fem 14 40 3 15 72 Fem 57 15 72
Masc 8 28 2 6 44 Masc 38 6 44
Fem/masc 3 9 - 3 15 Fem/masc 12 3 15
S/ind 3 7 3 2 15
S/in d 13 2 15
OBS.: Nem sempre os números se referem a pessoas raptadas. Em 118 casos de rapto, foram raptadas 150 pes-
soas. Em 32 casos consta que os raptados são "vários" ou "muitos", geralmente mulheres e crianças. O quadro
náo pretende neniium rigor estatístico, mas apenas indicar as tendências que podem ser observadas mesmo
quando as referências são precárias.
A I AI'IURA DO OUIRO 63
62 FRONTEIRA

V - Vítimas dos raptos, conforme o tronco linguístico dos raptores e o sexo dos raptados Vil - Raptores, conforiiie o período e o grupo linguístico

Raptores Outros Regionais Somas


Tupi Jê
Raptados
Masculino 8 28 2 6 44 • Regionais
Feminino 14 37 3 15 69 • Outros
Masculino e feminino 3 8 - 3 14 • Tupi
Sem indicação 3 6 3 2 14 • Jê
Somas 28 79 8 26 141

Até1929 A partir de 1930

VI - Raptores, conforme o período e o grupo linguístico

lOO-. Período Regionais Outros Tupi Jê


90 Até 1929 5,4 15,0 24,2 60,9
• Regionais
80 A partir
• Outros 94,6 85,0 75,8 39,1
70.
de 1930
• Tupi
60-
Jê • li.ibalho apresentado no seminário sobre "Amazónia: ordenação do território e relações interétnicas", no Con-
50- [•u'.s,so da A H i L A — Associação dos Historiadores Latino-Americanistas Europeus Liverpool (Reino Unido),
I / 22 de setembro de 1996. Agradeço a Fanny Ricardo pelos esclarecimentos relativos aos troncos linguísticos
40- "l.is diferentes tribos envolvidas no rapto de crianças e mulheres.

30

20

10
Notas
O
Até 1929 A partir de 1930
' CÃ. José de Souza Martins, O tempo da fronteira: retorno à controvérsia sobre o tempo histórico da frente
de expansão e da frente pioneira, em Tempo Social — Revista de Sociologia da USP, v. 8, n. 1, maio 1996,
pp. 25-70 (reproduzido como capítulo neste livro).
A durabilidade desses componentes da situação de fronteira é atestada de vários modos. Em 1948, Wagley
Período Re^onais Outros Tupi Jê
iiinda encontrou no vale do Amazonas a dicotomia habitacional "cidade" e "aldeia", nos mesmos aglome-
Até 1929 54,2 25,0 28,0 9,5 lados urbanos. Eram remanescentes da anexação compulsória das populações indígenas aldeadas às vilas
coloniais, decorrente da suspensão das interdições estamentais que pesavam sobre os índios. Fora efetuada
A partir de 72,0 90,5 cm 1755 através do Diretório dos índios do Maranhão e Grão-Pará. Cf. Charles Wagley, Uma comunidade
45,8 75,0
1930 amazônica: estudo do homem nos trópicos, trad. Clotilde da Silva Costa, 2. ed.. São Paulo, Companhia
Editora Nacional/iNL, 1977, p. 62 (nota) e 85. Além disso, como aliás em todo o Brasil, a persistência da
chamada agricultura de roça entre as populações rurais pobres vem diretamente das técnicas agrícolas indí-
genas disseminadas durante a expansão territorial dos brancos.
FRONTEIRA A CAI MURA UO OUTRO 65

A n o ç ã o de "fricção i n t e r é t n i c a" é proposta por Roberto Cardoso de Oliveira c o m o a n o ç ã o apropriada para 1'lnrcsiaii I r r n a i u l e s , A Junção social da f^imhi na sociedade liijtinambã. São Paulo, s. e., 1952.
o estudo da situação de contãto. Cf. Roberto Cardoso de Oliveira, O índio e o mundo dos brancos: a s i t u a ç ã o
" ( : i . l í d u a r d o Viveiros dc Castro, Arawetê: os deuses canibais. R i o de Janeiro, Jorge Zahar E d i t o r / A n p o cs -
dos t u k ú n a d o alto S o l i m ó e s , S ã o Paulo, D i f u s ão Europeia do L i v r o , 1964, esp. p p . 13-30.
Assot:iação Nacional de P ó s - g r a d u a ç ã o e Pesquisa em C i ê n c i a s Sociais, 1986.
A parrir dos registros que pude reunir, contei 92 ataques a p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s , entre 1968 e 1987, organi-
I I . A racy Lopes da Silva, Nomes e amigos: da p r á t i c a xavante a u m a reflexão sobre os j ê . São Paulo, Faculdade
zados por grandes fazendeiros. E 165 ataques, entre 1968 e 1990, de diferentes tribos i n d í g e n a s às grandes
dr filosofia, Letras e C i ê n c i a s Humanas da Universidade de S ã o Paulo, 1986, p p . 2 5 7 - 8 .
fazendas, especialmente na região a m a z ô n i c a . Cf. José de Souza M a r t i n s , O t e m p o da fronteira: retorno à
c o n t r o v é r s i a sobre o tempo h i s t ó r i c o da frente de e x p a n s ã o e da frente pioneira, op. c i t . , p . 26. l T. Roberto Cardoso de Oliveira, op. cit., esp. p p . 14-5.

Essa terceira modalidade de fonte da renda teiritorial que estou apontando n ã o f o i considerada p o r M a r x nem I l;i a té q u e m especule sobre u m "Turner brasileiro" na figura do escritor inregralista Cassiano Ricardo,

pelos t e ó r i c o s que t ê m reatualizado o assunto no p e r í o d o recente. É que justamente, com o M a r x aliás havia ••iiposto i d e ó l o g o da M a r c h a para Oeste empreendida durante a ditadura do Estado N o v o .

percebido ao analisar a q u e s t ã o da renda da terra na Irlanda para compreender a r e p r o d u ç ã o do capital na Sobre as ideias desse autor a respeito da fronteira, c£ Frederick Jackson Turner, The significance o f the f r o n -
Inglaterra, esse aspecto oculto da renda só pode ser observado na s i t u a ç ã o de fronteira, onde preferencial- I ier i n A m e r i c a n history, em George Rogers Taylor (ed.), Tloe Turner Thesis Concerning the Role of the Frontier
mente ocorrem formas de s u p e r e x p l o r a ç ã o da força de trabalho, sua fonte. In American History, Boston, D . C . H e a t h and Company , 1956. U m a crítica às l i m i t a ç õ e s das ideias de
Tiirner encontra-se e m Brian John Godfrey, Roadto the Xingu: frontier settlement i n Southern Pará, Brazil,
C f José de Souza M a r r i n s, A r e p r o d u ç ã o do capital na frente pioneira e o renascimento da escravidão n o
M A lhesis, Berkeley, University o f C a l i f ó r n i a , 1979.
Brasil, e m Teinpo Social - Revista de Sociologia da USP, v. 6, n . 1-2, j u n . 1995, pp. 1-25 (reproduzido c o mo
c a p í t u l o neste l i v r o ) . Misse sentido, estou e m desacordo c o m a imagem da fronteira c o m que trabalha D i e t r i c h Gerhard e m The
licintier i n comparative view, Comparative Studies in Society and History, v. i , n . 3, The Hague, M o u t o n &
Os s u r u í s haviam sido contatados e m 1969. Os mais velhos deixaram-se fascinar pela civilização. Já os mais
I o . Publishers, mar. 1959, p . 207 .
jovens "veem os colonos c o mo i n i m i g os que devem ser expulsos". I n d i c a ç õ e s esparsas sobre a h i s t ó r i a do
contato dos s u r u í s c o m os brancos e sobre a t r a g é d i a de O r é i a p o d e m ser encontradas nos jornais da é p o c a . " l ! l . Frank Shay, Judge Lynch: his first h u n d r e d years, Montclair, N e w Jersey, Patterson S m i t h , 1969, passim;
E m j u n h o de 1974, ele fora empregado pela Funai para servir com o i n t é r p r e t e no contato c o m os í n d i o s W. liugene H o U o n , Frontier violence: another look, N e w York, O x f o r d University Press, 1974, passim.
cintas-largas ( c í O Estado de S. Paulo, 9 j u n . 1974, p . 2 8 ) . E m v i r t u d e do contato i n d i s c r i m i n a do que co- I Iso a palavra civilizado entre aspas pelo n o t ó r i o m o t i v o de que, n o geral, as p o p u l a ç õ e s das áreas de contato
m e ç o u a haver entre í n d i o s e colonos, ele conheceu A r m i n d a , de 16 anos, filha do colono Severino Dias de l o i n os povos i n d í g e n a s estão bem distantes do que se poderia definir c o mo p a d r ã o civilizado de vida. A
Souza. Ela acabou abandonando o n o i v o e i n d o viver na aldeia c o m O r é i a . A família a r e t o m o u e enviou-a barbárie da sádica e graruita v i o l ê n c ia contra as p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s , as e x p e d i ç õ e s de e x t e r m í n i o , a escra-
de volta ao E s p í r i t o Santo, seu estado de o r i g e m . O r é i a vingou-se matando a machadadas u m sobrinho de vização violenta, t u d o isso sugere m u i t a cautela no uso da palavra. D o mesmo m o d o , a d e s i g n a ç ã o de "bran-
Severino, filho de Ezequiel Dias. E m seguida, e n t r o u n u m processo depressivo e parou de comer (c£ O >os", para os n ã o - í n d i o s , de fato n ã o d á conta das características raciais mistas das p o p u l a ç õ e s dessas regiões,
Estado de S. Paulo, 11 ago. 1976, p . 4 0 ) . E m novembro, O r é i a f o i assassinado a t i r o de espingarda p o r Eze- l í x c e t u a n d o os 2 6 casos de raptos praticados pelos "civilizados", a d i s t r i b u i ç ã o das o c o r r ê n c i a s pela t r i b o
quiel. Seu corpo f o i esquartejado e queimado antes de ser enterrado. O r é i a teria e n c a b e ç a d o vários ataques a dos raptores é a seguinte: arara (Pará), 1; a v á - c a n o e i r o , 1; cinta-larga, 2; d y ó r e , 1; j u r u n a , 6; kaingang, 1;
casas de colonos nas Linhas 9 e 10, e m C a ç o a i (c£ Folha de S.Paulo, 20 nov. 1976, p . 2 4 . ) . As c i r c u n s t â n c i a s k a i n a y u r á , 8; karajá, 1; m u n d u r u k ú , 2; nambikuara, 1; rikbáktsa, 19; s u r u í , 2; suyá, 1 1 ; t m m á i , 1; t x i k ã o ,
altamente conflitivas da fuga de A r m i n d a c o m O r é i a e as c o n s e q u ê n c i a s do assassinato do jovem s u r u í estão • i ; u r u é u - w a u - w a u , 7; gorotire, 18, k a y a p ó sem especificação do grupo tribal, 14; kuben-kran-kegn, 6;
documentadas e m Betty M i n d l i n , Nós, paiter: os s u r u í de R o n d ô n i a , P e t r ó p o l i s, Vozes, 1985, p . 134 e ss. iKukahamãe, 6; x i k r i n , 3; y a n o m a m i , provavelmenre s a n u m á , 3.
C f O Estado de S. Paulo, 31 o u t . 1979, p . 12; IstoÉ, São Paulo, 16 j a n . 1980, p. 59.
M i n d l i n relata o ritual s u r u í o c o r r i do a p ó s a captura e m o r t e de dois colonos brancos na L i n h a 9 do Projeto
C f Charles Wagley, Welcome ofTears: the t a p i r a p é indians o f central Brazil, N e w York, O x f o r d University i l r C o l o n i z a ç ã o aberto e m seu t e r r i t ó r i o , ocorridas e m setembro de 1 9 8 1 : " D e volta à aldeia, c u m p r i r a m
Press, 1977, p . 3 9 . rituais de guerra. D u r a n t e alguns dias n ã o p o d i a m entrar nas malocas. Os que haviam matado pela p r i m e i r a
vez estavam sujeitos a m u i t os tabus e deitaram-se p o r algumas horas ao chegar. Aos poucos, todos os guerrei-
I d e m , pp. 39-40 e 2 8 7.
ros foram rapando a cabeça. A noite os homens das duas aldeias, a b r a ç a d o s em fileiras, cantaram e d a n ç a r a m
Isso se deu em 1970, quando C a m a i r á f o i encontrado c o m sua m u l h e r e o filho, ú l t i m o s sobreviventes do
cm frente às malocas. Os cantos eram i m p r o v i s a ç õ e s sobre a m a t a n ç a , comparando os i n i m i g o s a o n ç a s cuja
ataque k a y a p ó - g o r o t i r e , acima das nascentes do r i o T a p i r a p é . Ele e a família se perderam dos outros í n d i o s
| K-le iam tirar, exaltando a coragem e os feitos dos s u r u í e ressaltando que a decisão de l u t a fora sua e de mais
que tentaram escapar do ataque. Perambularam sozinhos pela região durante 23 anos. Foram acolhidos pe-
n i n g u é m . M a n d a m , n ã o são comandados." C £ Betty M i n d l i n , op. cit., p . 142.
los seus c o m alegria, segundo n o t í c i a da é p o c a . C a m a i r á , p o r é m , faleceu no mesmo ano do reencontro. C f
' I I massacre praticado contra v i n t e pessoas brancas na fazenda Espadilha, e m setembro de 1980, foi-o pela
Alvorada, n . 6, S ã o Félix do Araguaia ( M a t o Grosso), B o l e t i m da Prelazia de São Félix, dez. 1970, p . 1.
[ • I l a ç ã o mais nova dos gorotires, que nunca tinha matado n i n g u é m . A p ó s m a t á - l a s , deixaram ao lado dos
U m a n o t á v e l exceção é o volumoso l i v r o do professor de M e d i c i n a Ettore Biocca. A t r a v és dos depoimentos (i »rpos penas de araras vermelhas e as bordunas utilizadas. Q u a n d o retornaram à aldeia, os í n d i o s d a n ç a r a m
da p r ó p r i a personagem, o autor narra a h i s t ó r i a de Helena Valero, filha de pai espanhol e m ã e brasileira, lotla a noite n o p á t i o da aldeia. Depois, foram banhar-se no r i o para retirar a p i n t u t a negra do corpo. D u -
raptada, e m 1937, no r i o Negro pelos í n d i o s y a n o m ã m i s , na fronteira da Venezuela c o m o Brasil, quando rante oito dias, os participantes do massacre n ã o p u d e r a m entrar nas malocas. Nas d a n ç a s lembravam o fim
tiirha 12 anos de idade. Casada e c o m filhos, retornou à sua família branca e m meados de 1957. C f Ettore .le cada pessoa m o r t a . C £ O Estado de S. Paulo, 4 set. 1980, p . 13; O Estado de S. Paulo, 5 set. 1980, p . 12;
Biocca, Yanoama: dal racconto d i u m a d o n n a rapita dagli i n d i , Bari, D e D o n a t o Editore , 1965. E u j á estava () Estado de S. Paulo, 7 set. 1980, p . 29; Jornal do Brasil, R i o de Janeiro, 7 set. 1980; Jornal da Tarde, S ã o
na fase final de r e d a ç á o deste attigo quando m i n h a colega Renate Brigitte Viertler generosamente me deu a r.inio, 8 set. 1980, p . 2.
conhecer e me fez chegar às m ã o s a e d i ç ã o e m espanhol deste l i v r o da maior i m p o r t â n c i a para o estudo do
I l o n e l se refere à e x p e d i ç ã o organizada pelo seringalista M i r a n d a Cunha, que capturo u o í n d i o o r o i n , bati-
tema. Sou-lhe imensamente agradecido por isso. VUém de constituir u m raro e alentado texto sobte o rapto
/.iilo depois com o Sebastião O r o i n . Ele facilitou a s u b m i s s ã o dos demais membros de seu grupo, enviados ao
de u m a m u l h e r branca p o r u m grupo i n d í g e n a , é t a m b é m , p o r m e i o da i n c o m u m m e m ó r i a dessa mulher,
•.(•ringalista L u c i n o , matador de í n d i o s , que queria t r a n s f o r m á - l o s em seringueiros. F o r a m todos mortos pelo
u m precioso d o c u m e n t o e t n o g r á f i c o sobre os y a n o m ã m i s . É , provavelmente, o ú n i c o document o pessoal
sarampo ( C £ M a u r o Leonel, Etnodiceia imiéii-au-au. S ã o Paulo, l a m á - I n s t i t u t o de A n t r o p o l o g i a e M e i o
detalhado sobre a e x p e r i ê n c ia do cativeiro entre os í n d i o s da região, durante t ã o largo tempo, na é p o c a c o n-
Ambiente/Fapesp/Edusp - E d i t o r a da Universidade de São Paulo, 1995, p . 116). N o banco de dados que
t e m p o r â n e a , p o r essa m u l h e r que rinha família em Manaus.
organizei sobre escravidão n o Brasil nos ú l t i m o s 25 anos, h á t r i n t a registros de casos de cativeiro de grupos
F R O N T EI R A A < AIMUKA IJO OUIRO 6/

indígenas no período de 1972 a 1993, relativos a 13 diferentes tribos: krcnuk, pnrcsi, apiíiká, kulina, kaxina- I I )MIV.II Rosa li<ir<;es. Rio Anipiiíhi: i ni |>IM' .ilni.i, Sao l'anlo, Ibnísa/Edusp, 1987, p. 103.
wá, baré, cinta-larga, tiikuna, yanawá, kapinawá, kaiwá, guajajara e kaingang. Em abril dc 1974, o cacique A inenuni;! dessa exclusão pernuuiecc ;ité niesnio entte seus descendentes. Ainda hoje é comum encontrar
apiaká Piri denunciou que os membros de sua tribo estavam divididos e espalhados pelos seringais de Roii- ii.r. Iienies pioneiras quem diga c o m orgulho c|ue sua avó "foi pega a laço", referência à índia raptada e
dônia. Mato Grosso e Pará, trabalhando sob regime de escravidão por dívida. Era particularmente dtamático iLinsformada em concubina do avô-herói.
o cativeiro dos apialcás no seringai Nova Esperança, no Pará (Cf. O Estado de S. Paulo, 21 abr. 1974, p. 30).
Em agosto de 1977, os jornais publicaram a denúncia do índio xisto Pienado de que toda a tribo dos índios I 1, 1'rotásio Frikel, Migração, guerra e sobrevivência suiá, em Revista de Antropologia, v. 17-20 ( l ' ' parte),
bares, no Alto Rio Negro, Amazonas, estava submetida à escravidão no seringai de um comerciante de nome F.KHildade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1969-1972, p. 119; Adélia
João Bosco, em Santa Isabel do Rio Negro. Quando os índios se recusavam a trabalhar, eram amarrados a I'n|;rácia de Oliveira, Parentesco jurúna. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, n. 45, Belém (Pará), 16
árvores, espancados e chutados até morrer. As dívidas dos pais eram herdadas pelos filhos, único caso no oui. 1970, p. 24.
Brasil em que foi registrada essa característica da peonagem observada em outros países latino-americanos ( 1 Adrian Cowell, The Tribe that Hides from Man, London, Pimlico, 1995, p. 93. Este livro constitui um
(Cf O Estado deS. Patdo, 19 maio 1977, p. 19; Jornal da Tarde, São Paulo, 29 maio 1977, p. 2). (l(K:innento importante sobre o contato com os índios kreenakarores (Panará) entre o final da década de
A escravidão indígena cessou formalmente com o Diretório dos índios do Maranhão, de 1755 (Cf Directó- I 'K.O c o início da década de 1970. U m contato que começou a ser preparado pelos irmãos Villas Boas logo
rio, Qjie se deve observar nas povoações dos Índios do Pará, e Maranhão, em quanto sua magestade naó mandar o .i|i(>s um ataque de uma facção txukahamãe aos panarás e o rapto de quatro crianças, em 1967.
contrario, Lisboa, Na Officina de Miguel Rodrigues, Impressor do Eminentissimo Senhor Cardeal Patriarca, I 1. (:laude Lévi-Strauss, Guerra e comércio entre os índios da América do Sul, em Ttevista do Arquivo Mu-
anno M D C C L V I I I , reprodução fac-similar em José Oscar Beozzo, Leis e regimentos das missões: política indi- nicipal, ano V I I I , V. L x x x v i i , São Paulo, Departamento de Cultura, dez. de 1942, p. 145.
genista no Brasil, São Paulo, Edições Loyola, 1983, p. 129 e ss. C f , também, John Hemming, Red Gold:
I L I lenri Coudreau, Viagem ao Tapajós, trad. Eugênio Amado, Belo Horizonte, Editora da Universidade de
the conquest of the Brazilian indians, London, Papermac, 1987, pp. 475-6). O Regimento foi abolido pelo S.io Paulo/Livraria Itariaia Editora Ltda., 1977, p. 59.
príncipe-regente D . João, em 1798. Abriu-se, assim, um período de instabilidade na política indigenista,
marcado pela "guerra justa" e pela escravização temporária dos prisioneiros de guerra. C f José Oscar Beozzo, I T. Claude Lévi-Strauss, op. cit., p. 139 e 142.
op. cit., p. 71 e ss. I 111 relação às miJheres suruís, de Rondônia, no interior de sua própria tribo, não sendo, pois, mulheres
i.ipradas, Mindlin observa: "O seu destino, o casamento, está nas mãos dos homens. São trocadas e dispostas
C f Silvio Coelho dos Santos, índios e brancos no sul do Brasil: a dramática experiência dos xokleng, Floria-
desde que nascem, como bens." C f Betty Mindlin, op. cit., p. 71.
nópolis, Edeme, 1975, p. 194.
C f Edgar Lage de Andrade, Sertões da Noroeste, São Paulo, Indústria Gráfica Cruzeiro do Sul Ltda., 1945, ('\ João Evangelista Dornstauder, Como pacifiquei os rikbáktsa. São Leopoldo (RS), Insrituto Anchietano de
passim; cf, também, Silvia Helena Simões BoreUi, Os kaingang no estado de São Paulo: constantes histó- IV.squisas, 1975, p. 165.
ricas e violência deliberada, em Sílvia H . S. Borelli e Mara L. M . Luz (orgs.), índios no estado de São Paulo: No período colonial, especialmente nos séculos x v i e x v i i , os verdadeiros humanos eram aqueles que não
resistência e transfiguração. São Paulo, Yankatu Editora/Comissão Pró-índio, s. d., p. 45 e ss. desempenhavam arividades manuais, que não trabalhavam, no moderno sentido da palavra trabalho.
Por fronteita étnica entendo os confins do território de determinada tribo indígena e, portanto, lugar de (.1. Mauro Leonel, op. cit., p. 66.
contato com outros grupos étnicos. Em sentido limitado isso significa um lugar demarcado por um cer- I ' I . Eurico Krãutler, Sangue nas pedras. São Paulo, Edições Paulinas, 1979, p. 182.
to sentido de apropriação territorial por parte de habitantes que se consideram separados e diferentes de
( X. Silvio Coelho dos Santos, op. cit., p. 189 e ss.
grupos vizinhos ou territorialmente concorrentes. Em sentido mais amplo, a fronteira étnica se manifesta
nos conflitos que põem em confronto grupos étnicos ou fraçóes de grupos étnicos, geralmente quando os Idem, ibidem.
respectivos territórios se superpõem. Esse é basicamente o território do confronto entre o nós e os otitros, Cl. Herbert Baldus, O professor Tiago Marques c o caçador Aipobureu, em Ensaios de etnologia brasileira, 2.
quando ainda não se estabeleceu um acordo de convivência no mesmo espaço. E dessa segunda situação que I I I . , São Paulo, Companhia Editora Nacional/INL, 1979, pp. 92-107; Florestan Fernandes, Tiago Marques
fala Alcida Ramos, uma especialista em relações intertribais no interior de um mesmo território. Ela usa o Aipobureu: um bororó marginal, em Mudanças sociais no Brasil, São Paulo, Difusão Europeia do Livro,
conceito de fronteiras étnicas quando, apesar de intetaçâo constante, dois grupos "permanecem separados, 1960, pp. 311-43.
em termos de sua identidade étnica, através da manutenção de uma série de características socioculturais que
(',{. Ettore Biocca, op. áí., passim.
compreendem modos de agir, de fazer e de pensar cristalizados em formas reconhecidas como pecualiares a
cada grupo". C f Alcida Rita Ramos, Hierarquia e simbiose: relações intetttibais no Brasil, São Paulo, Editora I .sse e outros casos de raptos praticados ou sofridos pelos rikbáktsas são mencionados pelo padre João Evan-
Hucitec, 1980, p. 34. lista Dornstauder, op. cit., esp. p. 17.

Aracy Lopes da Silva, a propósito de um dos grupos jê, os xavantes, destaca "a capacidade de resistência ( Á. Jornal da Tarde, São Paulo, 11 jun. 1975, p. 16.
dos xavante ao impacto do contato com a sociedade capitalista envolvente, resistência esta que se constrói I :i'. O Estado de S. Paulo, 27 maio 1973, p. 36.
pela capacidade de absorver e processar novas experiências históricas através de uma lógica que é essencialmente
I : f João Evangelista Dornstauder, op. cit., pp. 21-2.
xavante". C f Aracy Lopes da Silva, op. cit., p. 55 (grifo meu).
(' I . Darcy Ribeiro, Notícia dos ofaié-chavante, em Uirá sai à procura de Deus, Rio de Janeiro, Paz e Terra,
Dentre as muitas referências que podem ser arroladas sobre a captura de índios para trabalhos forçados, já I ')74, pp. 90-2.
no período que nos interessa, há a relativa aos maiogongs, da fronteira da Venezuela, convertidos em serin-
gueiros. C f Alcida Rita Ramos, op. cit., p. 71. (:i. Carlos Borges Schmidt, Prefácio, em Edgar Lage de Andrade, Sertões da Noroeste, São Paulo, Indústria
(liáfica Cruzeiro do Sul Ltda., 1945, p. 14.
Um relato de testemunha do caso de Maria Korikrã foi recolhido e extensamente exposto por Darcy Ribeiro,
Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno, Petrópolis, Editora Vozes ( : f Roque de Barros Laraia, Os suruí e akuáwa-asuriní, em Roberto Da Matta e Roque de Barros Laraia,
Ltda., 1977, esp. pp. 397-401. Uma documentação mais extensa sobre os xoklengs raptados nos primeiros índios e castanheiros: a empresa extrativa e os índios no Médio Tocantins, 2. ed.. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
anos do século x x , em Santa Catarina, encontra-se em Silvio Coelho dos Santos, índios e btancos no sul do 1978,p. 68.
Brasil, op. cit., pp. 185-96. Apesar do acolhimento de Maria Korikrã na família do dr. Hugo Gensch, que a Silvio Coelho dos Santos, op. cit., p. 196.
educou, o dr. Gensch, por isso mesmo, era vítima de hostilidades da população de onde é hoje Blumenau.
(Jorruldo Brasil, Rio de Janeiro, 7 set. 1980, p. 30. Foiam mortos cinco crianças, duas mulheres grávidas.
68 FRONTEIRA ACAPIURAUOOUlkO óy

uma moçae doze homens. Cf. O Estado de S. Pmdo, 5 set. 1980, p. 12. O conjumo do noticiário da época c I :i. loão lívangclista Dornstauder, op. cit., p. Ui.
as investigações efetuadas por autoridades federais revelaram que o massacre praticado pelos índios se deveu I I. Lltorc Biocca, op. cit., p. 282 e ss.
ao modo agressivo como foram recebidos na fazenda quando procuravam verificar se era verdadeiro o boato,
I \. líurico Krãutler, op. cit., pp, 158-9.
espalhado por alguns brancos, de que 1,8 mil peões estavam sendo introduzidos no território indígena pata
fazer o desmatamento e a abertura de fazendas. Os índios foram humilhados e um deles, agredido, em face Alr.uii.s autores dizem que apenas um dos irmãos foi morto pelos próprios jurunas. Outros dizem que os
do que os outros revidaram. C f O São Paulo, 12-18 set. 1980, p. 3. .li>i,', o foram. C f Orlando Villas Boas e Cláudio Villas Boas, op. cit., p. 212, 257, 388, 391 e447; Eduardo
I i.ilvão, op. cit., p. 67 e 110 (nota). Sobre os kamayurás, cf Renate Brigitte Vierder, Os kamayurá e o alto
C f Expedito Arnaud, O índio e a expansão nacional, Belém, Edições Cejup, 1989, pp. 438-9.
Xingu, Sáo Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, 1969.
Cf. Protásio Frikel, op. cit., pp. 105-36.
<.(. Protásio Frikel, op. cit., p. 115 e 120-1.
Ettore Biocca, op. cit., passim.
( T. Betty Mindlin, op. cit., p. 27 e 35.
C f Herbert Baldus, Tapimpé: tribo tupi no Brasil central, Sáo Paulo, Companhia Editora Nacional, 1970,
I ' í . Roque de Barros Laraia, op. cit., pp. 80-1.
pp. 68-70.
I T. Izvetan Todorov, La conquista deWAmerica: il problema delFaltro, trad. Aldo Serafini, Torino, Giulio
C f Orlando Villas Boas e Cláudio Villas Boas, A marcha para oeste, Sáo Paulo, Editora Globo, X')')^, passim;
l.iiiaudi Editore, 1984, p. 5.
esp. pp. 440-41; Eduardo Galvão, Encontro de sociedades: índios e brancos no Brasil, Rio de Janeiro, Paz c
Terra, 1979, p. 67 e p. 110 (nota). A soma dos dados contidos nas tabelas deste anexo não totaliza os 150 casos indicados no texto porque
i K i n todas as notícias de raptos contêm os detalhes necessários à sua classificação e quantificação. As fontes
C f Patrick Menget, Notas sobre as cabeças mundurucu, em Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carnei-
M i i l i z a d a s são os textos de cronistas, viajantes, sertanistas e etnólogos que constam nas notas deste artigo.
ro da Cunha (orgs.), Amazónia: etnologia e história indígena, Sáo Paulo, Núcleo de História Indígena e do
Indigenismo - usp/Fapesp, 1993, p. 314.
C f Joáo Evangelista Dornstauder, op. cit., p. 80.
C f Darci Luiz Pivetta, Iranxe: luta pelo território expropriado, Cuiabá, UFMT Editora Universitária, 1993,
p. 53 (nota); Joáo Evangelista Dornstauder, op. cit., p. 80.
65 C f Orlando Villas Boas e Cláudio Villas Boas, op. cit., p. 579 e ss.
« Cf. Protásio Frikel, op. cit., p. 115.
67 C f Mauro Leonel, op. cit., p. 65, 120-1 e 132.
C f Florestan Fernandes, A função social da guerra na sociedade tupinamhá, op. cit., pp. 242-5.
C£ Lux Vidal, Morte e vida de uma sociedade indígena brasileira: os kayapó-xikrin do rio Cateté, Sáo Paulo,
Editora Hucitec/Editora da Universidade de Sáo Paulo, 1977, p. 157.
C f Orlando Villas Boas e Cláudio Villas Boas, op. cit., p. 563 e 571-7.
C f Florestan Fernandes, op. cit., p. 245.
C f Ettore Biocca, op. cit., pp. 135-6.
Idem, passim.
C f Claude Lévi-Strauss, op. cit.; Protásio Frikel, op. cit., p. 112.
C f Adélia Engrácia de Oliveira, Os índios juruna e sua cultura nos dias atuais, em Boletim do Museu Paraense
Emílio Goeldi, n. 35, Belém, 17 maio 1968, p. 7.
Idem, pp. 113-6.
C f Adélia Engrácia de Oliveira, Parentesco juruna, op. cit., pp. 34-5.
C f Adélia Engrácia de Oliveira, Os índios juruna e sua cultura nos dias atuais, op. cit., p. 7.
C f Eduardo Galvão, op. cit., p. 110 e nota.
C f Protásio Frikel, op. cit., p. 114 e ss.
C f Adélia Engrácia de Oliveira, ibidem, op. cit., p. 10.
Helena Valero (Napanhuma), que fora raptada pelos kohorochiwetaris quando estava na roça com os pais,
descreve um desses massacres, ocasião em que foi raptada pela segunda vez, junto com um grande número
de mulheres, pelos karawetaris. C f Ettore Biocca, op. cit., esp. p. 34 e ss.
C f Ettore Biocca, op. cit., p. 338 e ss.
C f João Evangelista Dornstauder, op. cit., p. 14, 16, 18-9, 21-2.
C f Darci Luiz Pivetta, op. cit., p. 53 (nota).
A reprodução do capital na frente pioneira
e o renascimento da escravidão

"Gente" (S. Félix do Araguaia-WT. 1975)


72 FRONTEIRA A KII'K()I)U(,A(> no 1 Ai'IIAI N/ \ l| .1llll l'l()NIIKAI () Kl NASCJMLN K) IJA LSCRAVlUAO 73

A pequena e fascinante literatura histórica e sociológica relativa ;i !• ..IS iclaçõcs de trabalho. Uma definição a priori pode ser uma armadilha
sistência ou ao renascimento de formas escravistas de relações de trahallup. | iii l.r/, perder de vista detalhes e diversidades do problema que são essen-
em diferentes sociedades, põe o pesquisador diante de alguns dilemas di I i r . paia compreendê-lo.
solução difícil. O principal deles é o da própria conceituação da moiiali As reiteradas denúncias de ocorrência de escravidão no Brasil, sobretu-
dade de trabalho que, num país como o Brasil, com facilidade tem si dn I' I lia região Amazónica, a partir de 1970,^ sugerem a possibilidade de uma
definida como trabalho escravo. Outro, de solução já não tão difícil, é o d.i 1. Ilexao crítica fundamentada a respeito da ampla diversidade de caracte-
sua inserção histórica ou, dizendo de u m modo discutível, o do modo «l< H III a.s das relações de trabalho na sociedade capitalista. Sugerem, enfim,
produção de que tais relações fazem parte. | n. Ii.l na realidade contraposições à suposição de que tais relações se defi-
Prefiro, neste meu trabalho, seguir u m caminho diferente. Em viv lecessariamente por um padrão típico, racional e legal, isto é, contra-
de perder-me na inútil tentativa da classificação prévia de tais relações, iu il, no pressuposto de u m relacionamento juridicamente igualitário entre
parece-me mais sensato, ao considerar o caso brasileiro, iniciar por uin.i • iiipiesário e trabalhador.^
descrição delas, expor a complexa e contraditória teia de conexões que Algims pesquisadores relutam em dar a essa relação de trabalho o nome
lhes dá vida e sentido. Sobretudo porque pode-se facilmente constatai • | ii' llie é mais apropriado: escravidão. Ainda que se trate, claramente, de
que a modalidade de escravidão a que me refiro, a escravidão por díviíi.i. M i n a relação de sujeição, que vai ao ponto de fazer o patrão supor que tem

ou peonagem, é encontrada em diferentes atividades económicas, orga ' nn direito absoluto ao corpo do trabalhador, além do presumível direito
nizadas segundo graus extremos e opostos de modernização económii.i |)r(')prio trabalho, como se vê quando este é submetido à humilhação, à
e técnica. H á economias que ainda seguem padrões do século x i x e ate "' I i m a , ao castigo e até a morte.
do século X V I I I , como é o caso de setores do extrativismo amazônico, cm I'ssa relutância decorre, no meu modo de ver, de opções teóricas ina-
particular o da borracha. E, no outro extremo, há atividades, sobretudo • I. 1 Ilíadas ao tratamento do tema. De um lado, de uma concepção liberal
as das novas fazendas de criação de gado, na Amazónia, desenvolvidas poi • ii|'ico-ideal de capitalismo, que os impede de aceitar que o capital possa
empresas modernas, algumas vinculadas a destacados grupos económicos I ' I I I outra forma de exploração do trabalho que não seja formalmente
internacionais. N ã o estamos, portanto, apenas diante de u m fenómeno • 'iiiiiatual e livre. De outro lado, porque seu quadro teórico é, explícita
de persistência de relações arcaicas de trabalho que, à primeira vista, tem • n disfarçadamente, marxista-estruturalista, de inspiração althusseriana e,
sido muitas vezes definidas, impropriamente, como pré-capitalistas. Pois l ' M i i a n t o , de fundo positivista. Nessa linha de interpretação só há lugar

o que constatamos é que modernas empresas capitalistas que investem em | Mia relações sociais de uma única temporalidade, a do tempo linear. A
empreendimentos agropecuários na vasta região da Amazónia brasileira • .miplexidade histórica das relações sociais na sociedade contemporânea é
(mais da metade do território de u m país com cerca de oito milhões v • liliiída (e desfigurada) em estruturas particulares de temporalidade única,
meio de quilómetros quadrados) rotineiramente têm recorrido à escravi- níidcialmente ligadas entre si pela concepção de articulação de modos de
dão por dívida em algumas de suas atividades.^ I'indução. Os "desvios", nessa orientação híbrida, aparecem como tipos
Meu objetivo é, pois, propor uma compreensão sociológica da persis- • !• liados de vida e historicidade próprias. E o que se vê na esdrúxula distin-
tência dessas relações, mas sobretudo da sua revitalização, nas últimas déca •, 111 dualista entre "capitalismo burguês" e "capitalismo autoritário", como
das, como prática de empresas cuja lógica económica, caracteristicamente M losse possível outro capitalismo que não o burguês e como se o capitalis-
capitalista e moderna, faz supor que nelas a escravidão seria uma contra- 11111 autoritário não fosse ele próprio o capitalismo burguês.
dição e uma irracionalidade. Prefiro, assim, não percorrer, em princípio, Sao justamente os seguidores dessa orientação que não conseguem
o caminho já percorrido com competência por diferentes pesquisadores, • 1 iiiipreender que as contradições engendradas pelo capital, em seu processo
que entenderam situar suas análises do problema na própria conceituação • reprodução ampliada, incluem formas sociais e mediações formais.
74 FRONTEIRA A K'l n(l> l)ll(,/ \ () DO ( AI- MAI WA n . ' l | . | | | ridlM IlUAI o Kl NA'.( IMI N U) DA LSLRAVIOAO /5

como é o caso da escravidão por divida, diversas dc suas outras manik-sia " i( ,1 tic quarenta m i l empregos cni ioda aquela ampla região. Sem contar
çóes formais, como a do trabalho livre. Nesse caso, referem-se imprópi i.i ' | n c , i i n consequência da modalidade de ocupação proposta, tribos indíge-
e eufemisticamente à peonagem como "repressão da força de traballio" M I, soireriam, como sofreram, pesadas reduções demográficas no contato
ou como "imobilização da força de trabalho". Na verdade, estão em lacc • • II11 o branco e suas enfermidades. Algumas tribos perderam nesses poucos
do que ficaria mais bem definido como trabalho sob coação. O u seja, sao i i H ) % ;ué dois terços de sua população."* Sem contar, também, que milhares
formas coercitivas extremadas de exploração do trabalhador, produzidas fiii •Ir cimponeses teriam que ser expulsos de suas terras de trabalho, como
momentos e circunstâncias particulares da reprodução do capital. Trata-sc, • Ir l.uo o foram, para que nelas fossem abertas grandes pastagens.' M u i -
como mostro, de escravidão temporária, no âmbito do próprio processo tio (Ides acabaram migrando para as cidades da própria região, para viver
capital, que, obviamente, não pode ser reduzida ao equívoco de um modo n.i miséria da subocupação e das favelas. As novas atividades económicas
de produção. Essas formas coercitivas extremadas da exploração capitalist.i MIM. luraram o grande latifúndio moderno, vinculado a poderosos conglo-
surgem onde o conjunto do processo de reprodução capitalista do capital i i n lidos económicos nacionais e estrangeiros.
encontra obstáculos ou não encontra as condições sociais e económicas Para lograr esse resultado, o governo federal concedeu às grandes em-
adequadas a que assuma, num dos momentos do seu encadeamento, a forma | i D s;is, nacionais e multinacionais, incentivos fiscais, isto é, a possibilidade
propriamente capitalista. • I' um desconto de 50% do imposto de renda devido pelos seus empreen-
di micntos situados nas áreas mais desenvolvidas do país. A condição era a
• Ir (|ue esse dinheiro fosse depositado no Banco da Amazónia, um banco
O cativeiro no capitalismo de fronteira I' <lcial, e, após aprovação de um projeto de investimentos pelas autorida-
• Ir', governamentais, fosse constituir 75% do capital de uma nova empresa,
O quadro de referência da possibilidade desta reflexão se constitui a ir, IO pecuária ou industrial, na região amazónica. Tratava-se de uma doa-
partir de 1966, quando a ditadura militar (instaurada em 1964 e encerrada ' , . i D , e não de um empréstimo.

em 1985) põe em prática um amplo programa de ocupação económica da ( ) governo agia desse modo para assegurar rentabilidade aos novos i n -
Amazónia brasileira, em bases supostamente modernas. Embora, até por wsdmentos, já que, em princípio, os grandes empresários dos bancos, da
tradição, viesse ocorrendo um lento processo espontâneo de ocupação "do indústria e do comércio não tinham até então manifestado interesse por
Oeste" e, a partir de meados dos anos 1950, do Centro-Oeste e do Norte r M c n d e r a ação de seus capitais à agropecuária. Não só devido a caracte-
do país, o regime militar decidiu acelerar, definir as características dessa I r.i icas tradicionais da agricultura brasileira, em que a lucratividade maior
ocupação e controlá-la. Os objetivos eram económicos, mas eram sobretu- • r m p r e esteve no comércio dos produtos agrícolas, e não na sua produção.
do geopolíticos. O lema da ditadura era "integrar" (a Amazónia ao Brasil) M I S também devido ao clássico bloqueio representado pela propriedade
"para não entregar" (a supostas e gananciosas potências estrangeiras). Os il.i (erra e, portanto, pelo seu preço, a renda fundiária, à expansão do
militares falavam em "ocupação dos espaços vazios", embora a região esti- '.ipital na agricultura. Pois, sabemos, o preço da terra representa uma
vesse ocupada por dezenas de tribos indígenas, muitas delas jamais conta- 'Irdução do capital propriamente dito, diminuindo a quantia disponível
tadas pelo homem branco, e ocupada também, ainda que dispersamente, pua o investimento produtivo, o investimento propriamente capitalista,
por uma população camponesa já presente na área desde o século x v i i i , t ) governo militar oferecia aos empresários dos outros setores a recom-
pelo menos. |>rnsa dessa doação de 75% do capital de que necessitavam para o novo
Em face dessas preocupações, a modalidade de ocupação proposta era rinpreendimento, cabendo-lhes entrar com 25% de recursos próprios.
contraditória: a da agropecuária, uma atividade económica que dispensa ' 'ii podiam se associar a grandes proprietários de terra para estabelecer as
mão-de-obra e esvazia territórios. N o limite, previa-se a criação de apenas novas atividades económicas.
A M )IIU(,A() I H ) ( A I I I A I Mí| l- lll I I O N I IKA I I ) Kl NAM I/ Ml NIO I )A I SCRAVIDÃU 77
76 FRONTEIRA

Essa opção era também política: por esse meio, o governo asscgur;i\.i niiiii.is c remotas regiões do país. A grande propriedade sempre foi u m
a sobrevivência económica e política das oligarquias fundiárias,'^' comm • 11. I. i v c sujeito a critérios próprios de direito, embora ilegais; lugar do

ladoras do poder regional nos estados do Centro-Oeste e do Norte. A.> <• i i H ) ( l o arbítrio do senhor de terras, que se torna, por isso mesmo, ainda
sim, não ficavam privadas da renda da terra, privação que seria a SOIUÇÍIO , senhor de consciências e de pessoas.
alternativa, por meio de uma reforma agrária que abrisse o território .1 I sse extraordinário poder multiplicou-se na onda da conversão do gran-
expansão capitalista. O governo militar socializou os custos da ocupação • l. ( Mi|ircsário em proprietário de terra, além do mais com base numa am-
capitalista da Amazónia, transferindo para toda a sociedade o preço il.i | l 1 Muikiplicação do tamanho das propriedades fundiárias. O fato de que
não-realização de uma reforma agrária, isto é, a opção por um modi-ln n, novos proprietários rurais viessem de uma tradição urbana, moderna e
concentracionista de propriedade, e não por um modelo distributivisi;i, pio|)i lamente capitalista não impediu que em suas fazendas se reproduzisse
este último reivindicado nas pressóes sociais anteriores ao Golpe de l''„s • Mil (acilidade o tipo de dominação, repressão e violência característicos
tado. O sentido dessa opção estava no próprio fato de que a classe tios • l i ilominação patrimonial. Em parte, porque, absenteístas, embora co-
proprietários de terra e as oligarquias tradicionais de base fundiária fo- n s e n t e s e beneficiários, delegaram a intermediários, como os gerentes e

ram uma importante base social de sustentação do Golpe de Estado e do • i|),iiazes, educados na tradição do poder pessoal, a responsabilidade pe-
regime militar. Golpe que fora dado para conter uma suposta revolução 1 1. ilicisóes e pela administração de seus bens. Esse poder multiplicou-se
agrária, de orientação comunista, levada a cabo por camponeses pobres, I nnl)ém com o dinheiro que chegou às mãos de proprietários tradicionais,
sobretudo do Nordeste do Brasil.^ • .liu ados na tradição oligárquica da dominação pessoal e da violência.
A rápida expansão da frente pioneira em direção à Amazónia deu-se l Im quadro do que ocorreu nas 431 fazendas, em que se sabe que hou-
num contexto bem diverso do das histórias costumeiras em países que \ (labalho escravo, de 1970 a 1993, e em relação às quais pude colher
servem de modelo ao debate do tema, como os Estados Unidos: em vc/ iiilonnaçóes, constitui, penso, um adequado ponto de partida para uma
de se constituir numa abertura do território com base nos valores da in.ilise do problema da escravidão por dívida no Brasil contemporâneo.
democracia e da liberdade, constituiu-se numa expansão apoiada num I "(las, 308 estão localizadas na Amazónia e 123 fora da Amazónia. Espe-
quadro fechado de ditadura militar, repressão e falta de liberdade polí- . ilu amente nessas fazendas, foi estimado que, somadas as denúncias de
tica. Sobretudo num contexto de anticomunismo em que, justamente, • lilricntes épocas, houve pouco mais de 85 m i l trabalhadores escravizados.
as classes trabalhadoras, na cidade e no campo, se tornavam automatica- !•.'.(• c um número mínimo, isto é, no mínimo foram esses os trabalhadores
mente suspeitas de subversão da ordem política sempre que reagiam às iil)metidos a cativeiro. N ú m e r o que foi obtido com base nos depoimentos
más condições de vida que o regime lhes impusera. Esse clima repressivo, • li IS peões que conseguiram fugir e fizeram denúncias às autoridades (como
associado ao fato de que os proprietários de terra e os empresários eram os I l'olícia Federal, legalmente incumbida da repressão ao trabalho escravo
principais aliados e beneficiários do regime militar, criou para camponeses ' .IO tráfico de pessoas; e os agentes locais ou regionais do Ministério do
e trabalhadores rurais uma situação extremamente adversa. N u m país em li.ihalho). Esse número, porém, é muito inferior ao número real. Em seu
que o poder pessoal do grande proprietário rural é ainda hoje um poder l>rm-feito estudo sobre a frente pioneira, Branford e Glock mencionam a
emblemático, u m poder de vida e de morte, criou-se, assim, uma situação ' .1 iinativa de que, no início dos anos 1970, havia entre 250 m i l e 400 m i l
em que a exploração do trabalho ficava acentuadamente na dependência p r o c s trabalhando nas fazendas amazónicas na estação seca. O governo do

do arbítrio do fazendeiro ou de seus gerentes e capatazes. Na verdade, as . '.lido do Maranhão estimava que, em 1975, havia cerca de cem m i l peões
instituições da justiça e da polícia foram severamente debilitadas, quando • II ii;inários daquele estado trabalhando nas fazendas da Amazónia.^ Uma
não se tornaram abertamente coniventes com a escravização de trabalha- iiiiica fazenda, a Suiá-Missú, empregou cerca de três m i l peões na fase do
dores e com a expulsão de camponeses da terra, como é de tradição em ilcsmatamento. Mas em seu projeto previa-se que, uma vez encerrada essa
78 FRONTEIRA A K'l l ' l ;( ) l ) l l ( ,A( i Dl ) I AI' IIAI I J A l h l N I I IlDNMKVM () Kl NAS< IMI N IO I )A bSCRAVIDÀO 79

fase, haveria apenas 2 5 0 empregados fixos na propriedade de quase 700 il. .11 o r c i o c o m Brass quando t l i / , que o processo de d e s p r o l e t a r i z a ç ã o é
m i l hectares, dos quais cerca de 2 1 7 m i l hectares i n c l u í d o s nas atividade.s I D l minad o pela luta de classes. Mas entendo que isso depende das cir-
a g r o p e c u á r i a s propriamente ditas.^ • iiiisiâncias do desenvolvimento do capital e da sua r e p r o d u ç ã o amphada,
As i n f o r m a ç õ e s sobre a escravização de p e õ e s nas fazendas foram foi' I ii> c, as c i r c u n s t â n c i a s sociais, políticas e culturais da a c u m u l a ç ã o ; enfim,
necidas n ã o só às autoridades federais, mas t a m b é m a membros da Igrcj.i D . r , i i r c u n s t â n c i a s h i s t ó r i c a s , que são t a m b é m as c i r c u n s t â n c i a s da l u t a de
C a t ó l i c a , cuja C o m i s s ã o Pastoral da Terra organizou u m consistente arqui- . l.r,M's. A ideia da d e s p r o l e t a r i z a ç ã o , para explicar o e n v o l v i m e n t o ativo d o
vo de dados sobre o assunto. E m algumas regiões, c o m o e m S ã o Félix do i ,i|iital no estabelecimento de formas coercitivas de trabalho, pode abran-
Araguaia ( M a t o Grosso) e e m C o n c e i ç ã o do Araguaia (Pará), sacerdotes c luim caso c o m o o brasileiro, a conduta preventiva à c o n v e r s ã o plena e
agentes de pastoral recolheram e anotaram depoimentos desses foragidos, .|. l i i i i i i v a do p e ã o à c o n d i ç ã o de p r o l e t á r i o , ' ^ especialmente n u m contexto
de m o d o a viabilizar d e n ú n c i a s e a pedir a i n t e r v e n ç ã o das autoridades."' • li r.randes conflitos é t n i c o s , c o m os í n d i o s , e sociais, c o m os camponeses
Foram quase nove m i l os trabalhadores que conseguiram fugir do ca- >l.i uj^ião a m a z ô n i c a .
tiveiro, na imensa maioria fugas de fazendas a m a z ô n i c a s . Eles constituem (• I 'ode-se dizer que o capital tanto remove o u dissolve relações sociais (e
10,2% dos p e õ e s cuja s i t u a ç ã o chegou a ser denunciada n o c o n j u n t o do I ' l.ições de p r o d u ç ã o ) que b l o q u e i am sua r e p r o d u ç ã o ampliada quanto
país e 1 3 , 1 % na A m a z ó n i a . E m 1 8 , 3 % das fazendas denunciadas houve as- iDioipora a ela aquelas persistentes relações que, ainda que temporaria-
sassinato de p e õ e s , geralmente quando tentavam escapar, perseguidos por I D l M i e , n ã o p o d e m ser s u b s t i t u í d a s . Nesse sentido, de fato ele as recria, mas
pistoleiros. Essa p r o p o r ç ã o é mais alta na A m a z ó n i a : 2 2 , 7 % . Mém disso, irnia c o m o m o m e n t o do seu processo de r e p r o d u ç ã o . Elas parecem ser as
houve t o r t u r a de p e õ e s e m 3 3 , 4 % do total das fazendas e e m 3 7 % das iDismas relações, mas s ã o agora outra coisa, isto é, s ã o agora forma social
fazendas a m a z ô n i c a s arroladas. Apesar dessas c o n d i ç õ e s adversas, e m todo • .11 legada de novas d e t e r m i n a ç õ e s decorrentes da m e d i a ç ã o do capital no
o país houve alguma revolta de p e õ e s em apenas 5,6% das fazendas d e n u n - i D i i v i m e n t o da sua r e p r o d u ç ã o ampliada.
ciadas por escravização de seus trabalhadores; e e m 6 , 5 % na A m a z ó n i a . Na verdade, o problema da persistênci a o u do renascimento de formas
' i i i i t c m p o r â n e a s de escravidão t e m sociologicamente a i m p o r t â n c i a de u m
iii.ilisador-revelador.'^ Sua análise permite ampliar a nossa c o m p r e e n s ã o
Acumulação primitiva no interior 110 c]ue o capitalismo é u m século depois das análises de M a r x , quando
da reprodução ampliada do capital I •.•.;is diferenças p o d i a m ser a t r i b u í d a s a estruturas sociais, e c o n ó m i c a s e
|itilíticas de u m passado que ainda estava m u i t o p r ó x i m o . Elas apareciam,
Penso que essas referências sugerem, desde logo, que a q u e s t ã o p r i n c i - iDiiiias vezes enganosamente, c o mo meras sobrevivências de modos de
pal n ã o é a da análise e m que u m autor se perca n o dilem a de decidir sc |M()dução ainda n ã o completamente d e s t r u í d o s pelo desenvolvimento do
isso é e s c r a v i d ão o u n ã o . Esse quadro certamente n ã o sugere, a q u e m quer inotio de p r o d u ç ã o capitalista. Q u a n d o , na verdade, estavam se t o r n a n d o
que seja, que estamos diante do que os t e ó r i c o s definiram c o m o trabalho |ii()dutos do capital.
livre. Certamente, estamos diante, ao mesmo t e m p o , d o que os mesmos O componente mais n o t á v e l dessa i n c o r p o r a ç ã o (e, p o r t a n t o , n ã o de
teóricos definiram c o m o capitalismo. Estou de acordo c o m os autores que 111 na transição) f o i a redefinição capitalista da renda fiandiária e a p r ó p r i a
consideram a e s c r a v i d ã o de hoje c o m o u m componente d o p r ó p r i o p r o - l',inese da propriedade capitalista da terra. Essa forma da renda territorial
cesso do capital. E o caso de Brass, para q u e m "o capitalismo n ã o é s ó Ini precedida pela renda e m trabalho e pela renda e m espécie. A p r ó p r i a
c o m p a t í v e l c o m o trabalho n ã o livre, c o m o e m certas s i t u a ç õ e s prefere-o D Ilda em dinheir o n e m sempre é renda capitalista da terra, pois pode per-
a u m a força de trabalho l i v r e " . M e u p r ó p r i o entendiment o do proble- manecer c o m o caráter de t r i b u t o pessoal, d e d u ç ã o dos ganhos do trabalho
m a é o de que o capital pode n ã o só preferir o trabalho n ã o livre. Estou n.i terra, pago pelo c a m p o n ê s ao p r o p r i e t á r i o . A renda capitalista da terra.
80 FRONTEIRA A Kl l'K'( i | i l l (,A() Di M A n i A I N / \ l i ; i N I I l ' l ()NIIK' A I () Kl N A M IMI N l ( ) I )A I',( RAVIDAC) 8 1

obviamente sob a forma de renda em dinheiro, surge quando deixa dc l,.ssa característica do processo do capital, mesmo na indústria, aparece,
ser um tributo pessoal para se tornar um tributo social. Isso só é possível "•'íí vezes, nos descompassos técnicos dos diferentes momentos do pro-
quando parte da mais-valia é transferida ao proprietário de terra, no preço • • . M ) ilc trabalho. O desenvolvimento tecnológico de cada momento é de-
dos produtos comercializados, o que se viabiliza pela diferente composi MMi.i l e implica, pois, em formas sociais distintas de extração do excedente

ção orgânica do capital na agricultura e na indústria. A diferença entre .1 •. ()iiôinico e de exploração do trabalhador que ali trabalha diretamente. É
composição média e a baixa composição orgânica do capital na agricultui;i n., cssário, portanto, conhecer em que tarefas o trabalho escravo é empregado
se materializa na renda fundiária, como se ninguém a estivesse pagando, l>«l,-, para poder, então, compreendê-lo como momento do processo do capital.
quando de fato a sociedade inteira é agora devedora desse tributo ao pio M< l i s dados acumulados até 1995 indicavam que, na Amazónia, 72,7%
prietário pelo simples fato de que ele tem um título de propriedade e por • I " . peões eram empregados no desmatamento da floresta virgem para
l " i M i i i o r formação de pastagens para o gado. Fora da Amazónia, apenas
isso cobra pelo uso de sua terra.
' i i , . " M ) dos peões eram ocupados em desmatamento ou reflorestamento.
O capitalismo certamente não é apenas constituído do quadro de oprcs
são e violência contidas nas informaçóes sobre a peonagem no Brasil atual. I .'..IS características ainda se mantêm. Ambas as atividades dizem respeito
1 Ion nação da fazenda, isto é, à transformação da natureza bruta em base de
Mas o capitalismo, certamente, é também o conjunto dos processos so
i i i n empreendimento económico lucrativo, processo que na indústria nem
ciais, procedimentos e situações que esse quadro nos revela. Para explicá-lo
• i . i o dramático, nem tão demorado, nem tão extenso. N o total do país
é necessário compreender que o tempo do capital não é concretamente
n r iiitão, 53,3% dos peões escravizados foram empregados nessas tarefas
apenas o tempo unilinear do progresso, da modernização, da conduta ra-
• i(>,7%, em agricultura e pecuária, indústria extrativa e indústria propria-
cional com relação a fins e do desenvolvimento. Não se pode atribuir a
n H l l i e dita. Na Amazónia, apenas 12,2% dos peões foram utilizados em
momentos, circunstâncias e particularidades do processo de reprodução
M.ihalhos permanentes na agricultura e na pecuária, ou seja, nas atividades
do capital características formais cuja validade está fundamentalmente re-
i'> iiiK-iras das fazendas já implantadas. E em todo o Brasil, 34,4% dos pe-
ferida ao seu processo geral e, sobretudo, às suas tendências gerais, que é o
escravizados foram empregados nessas ocupações.
que se fixa nos modelos interpretativos e na teoria. O tempo da reprodu-
< lomparando dois períodos distintos, o que vai até o final da ditadura,
ção do capital é o tempo da contradição; não só contradição de interesses
H i i 1984, e o posterior à ditadura, a partir de 1985, a média anual de casos
opostos, como os das classes sociais, mas temporalidades desencontradas
•l.niniciados de escravidão praticamente dobra, saltando de 13,5 para 25,1.
e, portanto, realidades sociais que se desenvolvem em ritmos diferentes,
I l.i Amazónia, o salto é de 9,8 para 17,7 casos anuais. Ao mesmo tempo,
ainda que a partir das mesmas condições básicas. Henri Lefebvre sugere
'| ii.mdo se toma especificamente o caso da Amazónia, é possível observar
bem que a interpretação do capitalismo contida em O capital está baseada
• | iu- as ocorrências se deslocam progressivamente do Centro-Oeste para
numa concepção de desenvolvimento igual; e que outras obras de Marx,
Norte, acompanhando o movimento da frente pioneira: em 1970/73,
como os Grundrisse,'^'' se apoiam na concepção do desenvolvimento desigual
• ',.','/o dos casos eram relativos ao Centro-Oeste, enquanto em 1990/93,
do capital, em que os componentes do processo não se regem pelos mes-
i p i n a s 36,8% dos casos ali ocorreram. Inversamente, as ocorrências no
mos ritmos e temporalidades. As forças produtivas se desenvolvem mais ' -Ini ic passaram de 47,8% para 63,2% nesses mesmos anos.
depressa do que as relações sociais; no capitalismo, a produção é social, Portanto, na frente pioneira, o trabalho escravo tem sido utilizado so-
mas a apropriação dos resultados da produção é privada. Essa contradição l ' i 'iudo fora do processo de trabalho propriamente dito, isto é, fora do pro-
fundamental anuncia o descompasso histórico entre o progresso material e • • A O normal e permanente de produção propriamente capitalista. Nesse
o progresso social. A desigualdade do desenvolvimento se expressa nos de- • 111 ido, é uso de trabalho em tarefas próprias de uma situação de acumula-
sencontros que nos revelam diversidades, e não uniformidades da mesma K.io jmmitiva. Conceito que, aliás, ganha melhor definição se, além de con-
realidade económica e social. n l i T a r m o s a expropriação que força a entrada do trabalhador no mercado
82 FRONTEIRA A Kl n<()l)l)(,A(i DO 1 AniAI I I AI I í l NI I l'li)NIII(AI I) RI NASCIMENTO DA ESCRAVIDÃO 83

de trabalho, considerarmos, t a m b é m , que esse momento de exproprinçiio <lo.


meios de vida se prolonga na superexploração da força de trabalho. O u s ( ) , i ,
quando o trabalhador compromet e a sua p r ó p r i a sobrevivência , o u a d f s i i . i
t > ciiisiimo;
iiiiios dc produção
isto é, a peonagem tem produzido,
a serem utilizados pelo capitalista
sobretudo nos casos recentes,
na produção
loiiiis. V. n ã o principalment e n e m diretamente as p r ó p r i a s mercadorias,
de mer-

família, quando é expropriado da possibilidade de viver, trabalhando WMS i \> '.'.(• sentido, o caso brasileiro recente mostra que a expansão territorial do
do que a jornada n o r m a l de trabalho, acima d o trabalho excedente cxioi . .if/iiil c sua e x t e n s ã o às atividades a g r o p e c u á r i a s n ã o se d ã o exclusivamen-
q u i d o sob a m á s c a r a d o salário e da contratualidade da relação entre p;u i .i< > ' I H i n predominantemente c o m o resultado de reaplicação de capital n u m
e empregado. Isso fica claro quando, ao final de meses de trabalho, I K U I . I *i u i i e c o n ó m i c o novo. A o c o n t r á r i o , elas se apoiam e m incentivos fiscais e
t e m a receber; ao c o n t r á r i o , ainda t e m que pagar algo a q u e m o empregou III i.idios governamentais, de u m lado, e no uso n ã o capitalista da m ã o - d e -
É, no fiindo, procedimento que faz parte do mesmo quadro confiscatóiin • necessária à f u n d a ç ã o propriamente d i t a do novo empreendimento.^^
em que o trabalhador se v ê privado dos meios de p r o d u ç ã o que ainda pos • ' l i •.eja, a reprodução ampliada do capital, nesses casos, inclui a produção não

sui, c o m o terra e ferramentas, pois a s u p e r e x p l o r a ç ã o i n t r o d u z e m sua vid.i < .ifiiiilista de capital.

dificuldades (como d o e n ç a s e endividamentos, o u mesmo sua m o r t e ) c]uc I ssa característica da peonagem t e m sido recorrente na h i s t ó r i a brasi-
lentamente o i n c o r p o r a r ã o e/ou sua família ao chamado exército industri.il IMI.I, mesmo na é p o c a da escravidão negra, e m que o escravo c o n s t i t u í a
de reserva, a força de trabalho à d i s p o s i ç ã o do capital. Q u a n d o se pensa ii.i M U I ( , i r o investimento para os fazendeiros. A fase de f o r m a ç ã o das fazen-
a c u m u l a ç ã o p r i m i t i v a c o m o processo e n ã o c o m o r ó t u l o , pode-se entendei I r . iiiilizava trabalhadores livres, ao invés de escravos, que trabalhavam
que é processo que pode ter, e tem, r i t m o mais o u menos lento. Por isso, empreitada em troca do direito de cultivare m nas novas terras g é n e r o s
a l é m de ser u m requisito histórico da a c u m u l a ç ã o capitalista (e n ã o necessari.i iliMu inícios. Obrigavam-se, em contrapartida, durante alguns anos, a des-
mente u m requisito s i m u l t â n e o dessa a c u m u l a ç ã o e m todos os ramos ( II.II o terreno e a plantar as mudas de café fornecidas pelo fazendeiro.
momentos da p r o d u ç ã o ) , a a c u m u l a ç ã o p r i m i t i v a pode se mesclar e se coii I n i i e as jovens plantas de café p o d i a m , durante a l g u m t e m p o , plantar
f u n d ir c o m a r e p r o d u ç ã o do capital. IIIIIIIO c feijão para seu consumo e a t é para venda. O u seja, os fazendeiros
Essa modalidade de exploração do trabalho se traduz em acumulação pri- l ' i ' leriam reduzir seus d i s p ê n d i o s financeiros c o m a fase de f o r m a ç ã o das
mitiva porque é, em parte, produção de capital no interior do proces- I I 1 lidas para aplicá-los n o seu funcionamento p r o d u t i v o n o r m a l , ainda
so de reprodução ampliada do capital. Isso fica claro se entendermos i | i i . , iicste caso, c o m a c o m p r a de escravos negros. Essa é a característica que
que, historicamente, pode-se falar e m reprodução capitalista de capitiil, Jitti I se perdeu no caso da A m a z ó n i a atual e da frente pioneira.
r e p r o d u ç ã o de capital c o m base e m relações formalmente capitalistas dc P Se, principalmente no p e r í o d o recente, a peonagem t e m sido a f o r m a
p r o d u ç ã o . Mas não se pode falar em produção capitalista de capital, pois l ' i ' dominante de e x p l o r a ç ã o do trabalho para f o r m a ç ã o das novas fazen-
a p r o d u ç ã o do capital envolve mecanismos e procedimentos p r ó p r i o s d.i li 1.. houve outras situações, e ainda h á , e m que f o i e é a f o r m a regular de
a c u m u l a ç ã o p r i m i t i v a . Envolve, p o r t a n t o , a c o n v e r s ã o de meios e situações t Kiiioração do trabalho no processo rotineiro de p r o d u ç ã o . Refiro-me ao
n ã o capitalistas o u pré-capitalista s e m instrumentos da p r o d u ç ã o capitalis

É
i.imado regime de aviamento na p r o d u ç ã o da borracha e da castanha-do-
ta propriamente dita, isto é, p r o d u ç ã o de mais-valia. Essencialmente, o qui- II.í na região A m a z ô n i c a , u m regime de trabalho que se t o r n o u particular-
define o processo n ã o é o resultado, mas o modo c o m o f o i o b t i d o , isto é, o iniie disseminado a p a r t i r dos anos 7 0 d o s é c u l o x i x e que ainda persiste,
m o d o de p r o d u ç ã o do excedente e c o n ó m i c o : o resultado é capital, é capi- .11111 modificações, em algumas áreas. O regime de aviamento t e m , c o m o
talista, mas o m o d o de o b t ê - l o n ã o o é. O que a peonagem tem promovido jk jieoiíagem recente, u m a ampla variedade de características. C o m o obser-
na frente pioneira, desde pelo menos a e x p a n s ã o dos cafezais brasileiros par.i k u Icixeira, no seu bem-feito estudo sobre os seringais, são várias, "e n ã o
o oeste de S ã o Paulo, no século x i x , é a produção de fazendas""^ e n ã o , fun- B c i i a s uma, as relações que se desenvolvem sob a égide do a v i a m e n t o " . "
damentalmente, a p r o d u ç ã o de mercadorias, nas fazendas, para o mercado B b r o t u d o p o r ser a f o r m a n o r m a l e permanente de e x p l o r a ç ã o d o traba-
84 FRONTEIRA AKIIW)I)II(,A()I)()(AI' IIAI NAII;i NII PIONI IRA I O RENASCIMENTO DA ESCRAVIDÃO 85

lho, produz resultados sociais quenãopodem serobservados na peonat;(iii iiiipliada. O objetivo da expansão territorial nãoeraa produção pecuária,
atual. Oaviamento setornou não só umregime deexploração do trabalho, III. IS a produção de fazendas.
mas tam bémumsistema de dominação políticae de manifestação dopo- Atiisseminação da peonagem tam bémemáreasde ocupação tradicio-
der pessoal. Na verdade, ele passou aregular inteiramente as relações sociais u.il, fora, portanto, da frente pioneira e da região am azônica, sugere, em
dos trabalhadores dos seringais, do trabalho à festa. Ele se firmou como |iiiiicípio, que esse regime de trabalho não floresce unicamente emáreas
um modelo de relacionamento entre o trabalhador e o patrão derivado 'I. ocupação territorial recente e de sim ultânea escassez de mão-de-obra,
da dominação de tipo patrimonial. No aviamento, o núcleoda relação de I inbora seja característicodelas. Nessas áreasnãoam azônicastêmsidoocu-
trabalho parece se constituir emvariações de umduplo sistema de crédito p.idos 26,2%dos peões em atividades de implantação de fazendas. Por-
semdinheiro, bancárioe comercial,^'^ emque os juros sãocobrados extorsi- i.inio, umfenóm enosimilar ao da frente pioneira (e, de certo modo, um
vamente aolongo da cadeia de financiamentos que vai da casa exportador;i I. nôm enoresidual e retardatárioda passagem da frente pioneira por área
de borracha ao trabalhador do seringai. Aí operam velhos mecanismos ilc |.i incorporada à economia nacional) e ao de implantação de novas ati-
extorsão e usura. Há situações recentes emque as relações de trabalho no \(l;ides económ icas emáreasjá ocupadas (como o reflorestamento). Em
seringai aparecem (e iludem) como relações de arrendamento da terra pag(> II ividades permanentes, as da rotina normal das fazendas, têmsido empre-
em produto, comtoda a produção ou uma parte dela, como se o núcleo l',.ulos 73,8%dos peões, inclusive na indústria(que tem4,9%dos peões
do vínculofosse odo trabalho autónom o, como seotrabalhador fosse uni 1 Hl pregados fora da região am azônica), embora indústriaprimitiva, como
camponês.^' Tende a aparecer, tam bém , como exploração mercantil, enão ' o caso das olarias. Nas tarefas rotineiras da agricultura, esses trabalhado-
diretamente como exploração do trabalho. li •. icmsido usados sobretudo no corte da cana-de-açúcar, na colheita de
A época de florescimento recente da peonagem, no iníciodos anos . lie c na colheita de semente de capim para formação de pastos. São ati-
1970, foi tam bémépocadochamado "milagre brasileiro", épocade grande vidades sazonais emque normalmente emprega-se o trabalho do chamado
crescimento económ ico. Aexpansão da fronteira coincidiu coma amplia- Iniia-fria, cujas condições de vida têm sido reiteradamente denunciadas
ção das alternativas de investimentos emoutros setores da economia, eni |ic los sindicatos e outras agências como inferiores às quepossam assegurar
que, aparentemente, a rentabilidade do capital era maior e mais rápidado 1m ínimasobrevivência ao trabalhador e a sua fam ília.^^O aparecimento
que na agropecuária. Chegou-se a supor, na época, quehavia transferência 'V rasos deescravidão nesse tipo detrabalho éindicativo nãosó de intensi-
clandestina dos incentivos fiscais, obtidos pelas empresas, da frente pio- lii .içáoda exploração dos trabalhadores rurais, mas é indicativo, tam bém ,
neira para a área mais desenvolvida e industrializada do país, o Sudeste, . Ii ( ji i e aescravidão a tualé, nolimite, uma variação extrema dotrabalho assa-
principalmente para aplicações financeiras. Afundação de fazendas (oudc l.iriiido, eoque lhe dá origem esentido éaprecedência da composição orgânica
indústrias) na A m azóniaerao meio de obter os recursos dos incentivos fis- i/i Cíipitalnos setores deponta da economiaP
cais. Mas isso dependia de mecanismos atrasados e arcaicos de exploração () fato de que seu emprego se dê em setores da economia agrícola,
do trabalho e acumulação de capital, como a peonagem e a expropriação ii.KJicionalmente voltados para o mercado interno e para a exportação,
violenta dos ocupantes originais da terra, os índios e posseiros. A expan- 11/ pensar que, nesses casos, aparentemente, não estamos emface de uma
são territorial do capital nãopodia depender do capital propriamente dito, modalidade de exploração do trabalho pelo grande capital segundo regras
atraídopara setores mais lucrativos, restabelecendo-se mecanismos eprocessos 'l.i acumulação primitiva. Entretanto, minha hipótese, mesmo emrelação
de acumulação primitiva. Aocupação da fronteira se inseria marginalmente 1 legiões não pioneiras, é a de que mecanismos e procedimentos de acu-
no processo de reprodução ampliada de capital. Aexpansão territorial do MiiiLição primitiva podem se estender pelo interior do próprioprocesso
capital revelou-se, assim, uma forma diversa e peculiar de sua reprodução 'le reprodução ampliada do capital, especialmente emsetores situados à
86 FRONTEIRA A i;i l 'U'(i | )U(,A() IH) ( AI> IIAI N A I I ; I N H I' I(1 NIII(A I () Kl NAS( IMI IM IO DA I SCRAVIOAO 87

margem daqueles de maior vitalidade e rentabilidade económica, l í s t i i n i o s , • da empresa. Embora sejam setores realmente de baixa composição
na verdade, em face de uma situação de superexploração. O capitai pinlc a do capital, funcionam como se fossem setores de alta composição
extrair mais-valia além do limite determinado pela reprodução da (oiça d f "ir.mica do capital. O que, no fim das contas, assegura ou impõe que se
trabalho, pagando aos trabalhadores salários insuficientes para a recoinpn H i i p l i c a cxtração de trabalho excedente, não pago, ao peão.

sição de suas forças físicas após a jornada de trabalho, ou após o paganuiiiit I s s c processo já opera no caso do trabalhador boia-fria, frequente-

do salário. Nesse caso, o salário pago, sendo insuficiente, comproimic ,i i i u l u c submetido à superexploração de sua força de trabalho. Quando a
sobrevivência do trabalhador e/ou dos membros de sua família, compio ii|)(nxploração se acentua, em face da necessidade de redução adicional
metendo a reprodução da mão-de-obra. Isso é possível, evidentenu-iiii-, (apitai variável, isto é, do dispêndio em salários, a exploração do tra-
quando o excesso relativo de mão-de-obra torna o trabalhador substitiiívrl I ' ilho bcilmente desliza para a peonagem e os mecanismos repressivos da
e descartável. • .1 i.ividão por dívida. E o que explica alguns dos problemas trabalhistas
O que parece explicar a acentuada redução nas condições de vida dcs.sc» i i t i ' , canaviais de usinas de açúcar no Mato Grosso do Sul.

trabalhadores, que vivem no limite do assalariamento normal, é que tra- ^ basicamente, os mecanismos são os mesmos que se encontram na frente
balham em atividades já inseridas, ainda que marginalmente, em setoiívs i- l'i(.iniia e no trabalho de implantação de novas fazendas na área amazóni-
processos modernos da economia capitalista, nos quais há grande investi- • I ( (|uc explicam o uso da peonagem naquela região. Porém ali é imediata-
mento de capital, seja nas plantações seja nos equipamentos ali necessários r n r i i i c visível quc a escassez de mão-de-obra é uma das causas do emprego

Teoricamente, esses empreendimentos deveriam ter uma alta composição .1. métodos coercitivos e violentos de manutenção dos trabalhadores no
orgânica do capital, isto é, o montante de capital variável (de capital (.'iii ininior da fazenda. No final, também nas áreas não amazônicas a peona-
pregado na compra de força de trabalho) deveria ser proporcionalmciiic fi in acaba sendo utilizada por empresas que, muito provavelmente, têm
inferior ao montante de capital constante (o capital empregado em máqiii • lilu iildades para recrutar sua mão-de-obra pelo salário que estão dispostas
nas, equipamentos e tecnologia). I |'.ij;ar, sobretudo porque operam em setores, como o do corte de cana,
Devido à inserção dessas novas atividades nos setores propriamente di M M <|ue muitas fazendas, até um certo limite, estão dispostas a recrutá-la.
nâmicos da economia, como o capital industrial e o capitalfinanceiro,.1 M l Miu) aí, a reprodução ampliada do capital é assegurada por um desfrute
rentabilidade das atividades agrícolas assim vinculadas é determinada po r .11 loiça de trabalho além da possibilidade de reprodução desta. Isso indica
uma taxa de lucro acima do que seria a taxa real de lucro do empreendi- ' | M r essa reprodução ampliada de capital se faz mediante a incorporação de
n i i í .iiiismos de produção de capital, isto é, de acumulação primitiva. É o
mento. Isso porque a composição orgânica d o capital dessas novas empre-
sas é de fato inferior à composição que deveria ter ou inferior à composiçã») • .issegura a certos setores e a certas economias a inserção no processo
média. Justamente por isso é que ao setor mais débil no conjunto d(w • i|Mialista de produção, mesmo não estando organizados segundo padrões
fatores económicos envolvidos, o da força de trabalho, se atribui uma re- n|in os de relacionamento entre o capital e o trabalho.
muneração residual em relação à do capital, cuja taxa de lucro fica assim
assegurada, como se fosse um setor moderno, organizado segundo com-
posição orgânica mais alta do que a real. Desenvolvem-se estratégias d c mecanismos sociais de gestação da escravidão
redução de salários, sem a contrapartida do desenvolvimento das forças
produtivas e, portanto, sem redução no trabalho propriamente dito. Essas <) caso brasileiro sugere, porém, que a relação entre peonagem e acu-
estratégias permitem, ao mesmo tempo, diminuir a participação relativa iiiiil.içãode capital seja vista na diversidade de características que a peo-
do capital variável em face do capital constante na composição orgânica d o H ^ c i n assume concretamente. Sob o rótulo comum de escravidão por
88 FRONTEIRA / \ K' i n ((i | i l )(, A(i | )()(AI' IIAI NAIMNII n o ^ l l U A I O Kl (MAS(.IMi;NTO DA tSCRAVIDAO 89

d í v i d a , h á u m a razoável variedade de s i t u a ç õ e s envolvendo os peões d.i-. /, ihiiiiiática procede do que se poderia chamar de pequena acumulação.
grandes fazendas brasileiras, sobretudo na região a m a z ô n i c a . K c l i i o - n i c à i m p o r t â n c i a que tem a peonagem nos ganhos dos membros
E nesse sentido, t a m b é m , que h á diferenças substantivas entre a esc nivi» d o |)i-queno m u n d o que se organiza e m t o r n o dela:^^ os traficantes propria-
d ã o negra extinta em 1888 e as novas formas de escravismo. A escravid.u) iiifiiie ditos, responsáveis pelo recrutamento dos trabalhadores, pelo e n d i -
negra estava definida pelo costume e pela lei e ganhava sentido no falo d« vid.micnto inicial através d o adiantamento deixado c o m a família do p e ã o
que legalmente o cativo era mercadoria. N a nova s i t u a ç ã o , o p e ã o pode- •>< ( i|ui-, afinal, os vendem às fazendas; donos de p r o s t í b u l o s nas regiões de
tornar o u n ã o se tornar mercadoria. Isso depende de c i r c u n s t â n c i a s loiaim (i.oiiagem (que estabelecem c o m as prostitutas u m a relação de escravidão
e setoriais. Portanto, apeonagem não é uma instituição. Fato que dificuli.i mmil.ir à d o p e ã o ) , onde o p e ã o que consegue saldo em relação às suas dívi-
a sua c o m p r e e n s ã o quando se p õ e a ênfase n o aspecto meramente coiu 11 d.is j;asta boa parte d o pouco d i n h e i r o que recebe; os vendedores de roupas
tual do problema. N o arrolamento que fiz h á casos de escravidão de cm i.i !• Iiiij',igangas (como r á d i o s de pilha, relógios, ó c u l o s de sol etc); os donos
d u r a ç ã o , os mais comuns sendo os que d u r a m a estação seca na Amazôiii.i. »|f pensões que abrigam e financiam a m a n u t e n ç ã o dos p e õ e s quando seu
p e r í o d o e m que se faz a derrubada da mata para q u e i m á - l a antes das chuv.is iliiilieiro acaba e que os vendem a u m novo traficante o u recrutador que
e ter o terreno l i m p o para semear o c a p i m . Depois disso os trabalhadons ii|'.iii(,a à procura de trabalhadores; a polícia, que a pedido de traficantes
são libertados. Mas h á casos, t a m b é m , c o m o o dos í n d i o s tiikunas, do ili iiwu)-de-obra prende forasteiros à noite, nos povoados, confisca os bens
Amazonas, que em 1985 denunciaram que haviam sido escravizados, pm dos |)resos e cobra deles ilegalmente a carceragem (isto é, o tempo de per-
duas gerações, por mais de vinte anos, por dois fazendeiros. O u casos n u ni.iiiriicia na p r i s ã o ) , que acaba sendo paga pelo traficante que os compra,
que, a p ó s o t é r m i n o da empreitada, os p e õ e s são vendidos a o u t r o fa/i'ii n u i u ç a n d o , assim, u m a nova d í v i d a ; os pistoleiros empregados pelos tra-
deiro a pretexto de que estão endividados. A l é m de casos de n o t ó r i a n u i lii .mies e pelos capatazes das fazendas para vigiar e disciplinar os p e õ e s o u
cantilização da pessoa, h á casos e m que o mecanismo do endividameiiiu priM-gui-los quando fogem (houve casos e m que esses mesmos pistoleiros
n ã o impede que o p e ã o , ao final do p e r í o d o de trabalho, disponha dc i i i n l i i . i i . i i a m os p e õ e s que h a v i a m recebido saldos, tocaiando-os na saída das
pequeno saldo em d i n h e i r o. Essa é, provavelmente, a o c o r r ê n c i a mais 111 (it/iiulas para se apropriarem d o d i n h e i r o , c o m o ocorreu, nos anos 1970,
m u m . H á casos e m que o p e ã o pode i r nos fins de semana, o u a cada int's. r m Kibeirão Cascalheira, n o M a t o Grosso).
ao povoado, quando este é relativamente p r ó x i m o . O que sugere que ;ií n /•' nesse pequeno universo que se cria a complexa teia de relações sociais
mecanismo da d í v i d a é m u i t o mais para assegurar o seu retorno ao traballm ifiu- reproduz o cativeiro do peão e que transforma a superexploração em es-
o u a sua p e r m a n ê n c i a n o trabalho, e n ã o u m mecanismo i m p o r t a n t e i l r Hiiridão. É nesse pequeno universo que a escravidão se reproduz em primeira
a c u m u l a ç ã o de capital. M a s h á outros casos e m que os p e õ e s s ã o proibidn* hhi,h/ria, pois é sobretudo nele que se recria o endividamento do peão, e não
de deixar a fazenda e o acampamento mesmo quando atacados de mahiiM Hfiisuiriamente ou, ao menos, nem sempre nas próprias fazendas, pois estas
o u por qualquer o u t r o m o t i v o de s a ú d e e, nesses casos, precisariam recoí ii-i Hii v^útam dos trabalhadores apenas temporariamente. D e qualquer m o d o , a
ao m é d i c o o u ao hospital da cidade mais p r ó x i m a , quase sempre m i i i l u lii/ciuia n ã o aparece c o m o a responsável imediata pela e s c r a v i d ã o do p e ã o
longe. Pistoleiros se encarregam de i m p e d i r as saídas. N a Fazenda Code;ii.i, Mrm i o m o a p r i m e i r a beneficiária da e x p l o r a ç ã o de que ele é v í t i m a , em-
do Banco de C r é d i t o N a c i o n a l , no M a t o Grosso, no i n í c i o dos anos 1970. l"'t,i, c m segunda i n s t â n c i a , seja na economia das fazendas que operem os
só era possível sair c o m salvo-conduto. itii. .mismos que d e t e r m i n a m a s u p e r e x p l o r a ç ã o e, n o l i m i t e , a escravidão.
Se p o r u m lado é preciso explicar a peonagem pelos mecanismos dr I 1. 11-, embora todas essas relações se dêem no interior do processo de reprodução
a c u m u l a ç ã o de capital, c o m o parte do processo global de a c u m u l a ç ã o , ptir •fijdiitda de capital, ainda que não imediatamente no interior do processo

o u t r o é preciso compreender que grande parte da sua dimensão proprianicti • lista de trabalho.
/\I l'U'l )| A( ] 1» ) ( / \ I ' I I A I , l-IA I l;l N l l I ' I ( I N I I I - V \ o RI N A ' . ( I M I N I ( ) I )/\ S( RAVII ) A ( ) 91
90 FRONTEIRA
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U m a parte desses pequenos acumuladores sc torna comerciante, C M . I • i i . i c , com maior probabilidac|c, cies já t ê m o que se poderia chamar de
belecido e enraizado, depois da passagem da frente pioneira. Ao nuii..', I ' ai icira de assalariados agrícolas. Esses trabalhadores, normalmente,
u m deles, que transportava os peões de avião para as clareiras da scK.i 1.1 i inprcgados nessas mesmas regiões, geralmente c o m o boias-frias. Por-
onde se fazia o desmatamento para as novas fazendas, organizou uma \H- ' niiii, .icidentalmente foram empregados e m fazendas que os submeteram
quena companhia de transporte aéreo que acabou se tornand o uma A.w I l i H mas servis de trabalho p o r meio do endividamento .
mais importantes empresas brasileiras de transporte aéreo. O u e n t ã o lui ' T juntarmos, como regiões de recrutamento, o Centro-Oeste, o N o r t e
gram acompanhando o deslocamento da frente pioneira e dos peões. N.i • 1.1 I I I bem, o Nordeste, poderemos ver que 70,4% das fazendas do país
verdade, temos aí duas situações b e m distintas: a das pequenas a t i v i í l a d o |M. u i n escravos buscam ah os seus p e õ e s (31,1% os recrutam no N o r -
e c o n ó m i c a s resultantes do d i n h e i r o posto e m circulaçã o c o m o saldo I i ( , a maior área de recrutamento de cativos, sobretudo para a região
peões que conseguem pagar suas dívidas; e a dos i n t e r m e d i á r i o s no rc\n H M i / ó n i c a ) . Nesse caso, as i n d i c a ç õ e s que se t ê m sugerem que esses traba-
tamento e m a n u t e n ç ã o dos esquemas repressivos, que oneram diretamenir II1 MIOICS são membros de famílias de pequenos agricultores pobres,^^ que
a contabilidade da fazenda, considerados que são custos de m ã o de oUi.i. • • iiipregam sazonalmente c o m o assalariados, quase sempre em lugares
responsáveis pela r e d u ç ã o ainda maior do pagamento real o u n o m i n a l m m 111. untes e distantes dos de sua p r ó p r i a residência habitual. Sobretudo
te destinado ao trabalhador. iiiic o fim da colheita e o início do plantio, os jovens são estimulados a
A escassez de m ã o de obra nas áreas e m que t e m sido empregado n M i . i i essas o c u p a ç õ e s t e m p o r á r i a s fora do lugar onde v i v e m, de m o d o a
regime de peonagem é certamente u m de seus fatores. Mas n ã o é o únii <. " i n sobrecarregar a economia familiar n u m m o m e n t o de d e s o c u p a ç ã o o u
nem necessariamente o que p r e d o m i na do p o n t o de vista dos pró|)ri'>'. i i l . o i u p a ç ã o . O u , ao menos, tolera-se que o façam, pois muitas vezes eles
trabalhadores. Basicamente, o que os traficantes fazem é transferir tial).i I i"l'ri()s querem sair para ganhar a l g u m d i n h e i r o p r ó p r i o , coisa difícil na
lhadores de áreas e m que h á excesso deles e h á desemprego o u subempre|',u I • i | i n n a economia de excedentes agrícolas, p r e c á r i a o u insuficientemente
para as áreas que deles necessitam. Por falta de dados, é impossível calculai, ' H . iji.ida pelo dinheiro, o que inviabiliza a a q u i s i ç ã o de pequenos "luxos",
em termos de n ú m e r o de pessoas, de onde v ê m e para onde se destinam < >s o r á d i o p o r t á t i l , a roupa vistosa etc. O pagamento de u m abono à
p e õ e s que trabalham para fazendas acusadas de promover a escravização ili I Hiiilia, por parte do traficante, isto é, u m adiantamento e m dinheir o pelo
seus trabalhadores. " il>.illio que seu m e m b r o dever á realizar, a l é m de ser o p r i m e i r o passo do
Mas é possível distribuir as fazendas por referência aos locais de origem • n, l í v i d a m e n t o , é t a m b é m u m meio que faz da família c ú m p h c e do recru-
e destino de seus p e õ e s , tendo em conta apenas aquelas para as quais t•s^.l ' Hiiiiuo e da escravização.
i n f o r m a ç ã o existe. Dessas fazendas, 74,1% estão na A m a z ó n i a e 25,''"" Iiistamente p o r isso, fica difícil, sobretudo n o caso da A m a z ó n i a , supor
nas outras regiões. Das que estão na A m a z ó n i a , 50,2% recrutaram srii-. • o cativeiro é apenas u m recurso para assegurar m ã o de obra para as
p e õ e s na p r ó p r i a A m a z ó n i a e 49,8%, fora da A m a z ó n i a . Mas é necessái m I ' 'lidas. A h i p ó t e s e de que a peonagem se desenvolve onde n ã o h á terras
considerar que recrutamento na p r ó p r i a A m a z ó n i a significa quase sempit • li |i<)níveis e onde os trabalhadores n ã o t ê m a alternativa de se tornare m
que u m p e ã o a m a z ó n i c o que trabalha n u m a fazenda do M a t o Grosso, pm • •II ,( manterem camponeses^'^ n ã o se confirma no caso dessa frente p i o n e i -
exemplo, f o i provavelmente recrutado n o estado de G o i á s . O u seja, quasi • ' '•••lido região onde t e m havido as chamadas "terras livres", embora cada
sempre m u i t o longe da sua morada habitual. Das fazendas que n ã o csi.m ' mais escassas, aparentemente sem d o n o e portanto d i s p o n í v e is para a
na A m a z ó n i a , 0,5% os recrutaram na A m a z ó n i a e 92,5%, fora da A m a / o •• i i | ) . K ; á o por novos lavradores, poderiam os p e õ e s optar p o r trabalharem
nia. P o r é m , n o c o n j u n to do país, apenas 29,7% das fazendas t ê m recrui.i !• 11 I • i mesmos c o m o camponeses. Isso n ã o se d á , p o r é m , e m c o n s e q u ê n -
do seus trabalhadores no Sul e no Sudeste, isto é, nas áreas mais moderiuu • • • l o p r ó p r i o m o d o c o m o a peonagem entra na vida dos trabalhadores.
I
92 FRONTEIRA A RI l'R()l)ll(,A() DO (Al'UAI NA I Hl NI! I'I()NI IRA I O RI NA'.( IMI NIO DA I S< RAVIIJAO 9 3

Sobretudo por causa dos vínculos da família, que ficou c m outro liij^ai < i ' i l i d .idc estendam suas denúncias a situações que não podem ser formal-
que os espera de volta, de preferência com dinheiro. N á o se dá, tamhéiii, n D t aiacterizadas como de peonagem). O material que reuni sobre a
porque a aventura de deixar a casa da família, muitas vezes a casa patcTM.i, I é indicativo de que a condição de escravo emerge à consciência
tem por objetivo justamente escapar das limitações patriarcais da c c o i i o I " i i .ihalhador quando ele se dá conta de que não tem liberdade de deixar
mia camponesa de excedentes, uma economia mercantil simples em qiii-1» 1 I I I lula, mesmo abrindo mão de qualquer ganho, pois está endividado.
dinheiro circula de modo insuficiente ou escasso. E o único meio de fa/.c In I I (ousciência emerge quando os pistoleiros da fazenda exibem armas
é trabalhando para quem possa pagar em dinheiro pelo trabalho do pcao. • D i r . i vãmente ou torturam na frente dos demais os que eventualmente
As indicações até agora obtidas por outros pesquisadores e também p o r ' iili.im tentado escapar sem pagar o débito. O u ainda quando matam o
m i m são de que boa parte dos peões que tem trabalhado nas novas i.i I" UIVO c deixam o cadáver exposto, ou então o retalham e o dão para os
zendas da Amazónia são principalmente jovens que procedem de faniíli.is I 'D ( I S , para aterrorizar e dissuadir da fuga os outros p e õ e s . A consciência
camponesas do Nordeste e do Centro-Oeste. Embora haja também ca.soN jc |>i()duz a crítica das relações de trabalho e as classifica como escravi-
de peões escravizados que foram recrutados em cidades e até cidades grau I H ' ( uma consciência fluida. Ela pode surgir ou não surgir em face de
des, como Goiânia eTeresina.^^ Se há, ciclicamente, como parece, na hiM('i . 11' 11 (, ()cs idênticas de trabalho, dependendo de uma grande variedade de
ria familiar dos camponeses u m momento de ruptura entre o pai e os filhos i M (instâncias na definição da subjetividade do peão.
homens,^^ início de uma nova unidade familiar ou surgimento de uiii.i I i ponta extrema sugere um quadro em que as relações de trabalho
alternativa de vida, há também a poderosa interferência da necessidailc " I I II. (^ombinam inovações de relacionamento e tradições de exploração
de dinheiro na vida das novas gerações. Essa origem camponesa paix-u- (inpos diversificados e histórias diversificadas. Isto é, aparentemente,
essencial para compreender porque, apesar das denúncias de violência v de totiMsicm componentes de relações de trabalho servis do passado, que não
escravização, a peonagem persiste como meio de recrutamento e de l o i Hltim totalmente abolidas ou superadas. E não o foram porque suas condi-
mação da mão de obra de que as fazendas necessitam. Eles imaginam csi.ii H r s de reprodução também persistem. Entre elas, uma certa cultura da ser-
migrando temporariamente para um ganho adicional em dinheiro num Hilai ic tia dependência pessoal que ainda se difunde entre as populações po-
momento de falta de trabalho nos locais de origem. WÈt^ do campo e da cidade. Não é demais lembrar que os camponeses pobres
Certamente, u m fator de adesão dos trabalhadores à condição su- • p » i(|',iões em que ocorre a peonagem tenham em relação aos peões uma
postamente temporária de peões é o de que nem todos os peões se toruíiin Hjlndc de desprezo e temor, considerando-os gente desenraizada, itineran-
escravos. Provavelmente, a maioria dos peões deslocados para a frciiic H [iiiuco afeita à moral e à discipHna - o mesmo que, enfim, se pensava
pioneira, apesar das péssimas condições de trabalho, não se torna ele- ^ rsi I avo negro até o século x i x - , sobretudo por temê-los como possíveis
tivamente escrava. Na verdade, o sistema funciona, isto é, nem semjirt ^•idulatos a matrimónio com suas filhas.^°
o trabalhador cai num regime que ele possa reconhecer como servil. Aii-iii • Aparentemente, as fazendas preferem o esquema de usar temporaria-
disso, entra em relações de trabalho que, no geral, não são piores do que Bfiiií o trabalho de camponeses para os quais u m provável ganho em
as que conhece habitualmente. H | | l i < i i o seria um adicional em relação aos meios de vida habituais, na
A peonagem parece ser, assim, a ponta extrema de uma condição dc i Hll)i 'los próprios pais, sobretudo possível na época de entressafra, quando
balho que é dela diferente. A peonagem se configura quando as condiçnc» BitiiMilia deles não precisa e eles representam uma boca a mais em época
propriamente servis das relações de trabalho dominam o relacionamciitti B piiiKos recursos. Os trabalhadores disponíveis estão, por isso, num mo-
entre o peão e a fazenda (isso talvez explique por que os que, com justi(,u, ^ • i i M i Ac poucas exigências quanto ao tipo de trabalho, suas condições e
se compadecem e se preocupam com a violação dos direitos humanos coiii h iiiuneração. A mão de obra, nesse caso, não circula segundo regras de
94 F RO N T EI RA A m I V< )l )l l . , A . ) I . ( . , A l .| I A l , N A I l;l N i I n , I N M U A I ( ) l i l N A M IMI N I O I )A I S(. I W I I ) A 0 9 Í,

mercado perfeitas,^' pois a oferta de trabalho não está condicioiíaihi, M nm ..iHvsn.tacIc, Contercnee „ „ ITAUI
U.ilrcc Labour, organizada pelo International Institute for
•I I I..1...V, A,„.s,crcla,n (Holand.-.), 13-14 dc j l i n c i r o d c 1995. Publicado, originalmente, em Tempo Social-
parcialmente, pelas condições de sobrevivência do trabalhador. 1', um i •< • I. ••,hi,ilo)^i,i ,1,1 l/SP, V. 6, n. 1-2, jun. 1995, pp. 1-25.

quema difundido no Brasil e inclui os que vão trabalhar temporari;iiiunii'


nas cidades, quase todos os anos, na construção civil e em outros sii\i<,ci«
pesados e mal pagos, para adicionar algum dinheiro às condições de \t
da família.^^ Ou então como um prémio, uma liberação temporária, (|ni n«
filhos jovens recebem na entressafra, podendo trabalhar para si cm vc/ df I H M i . i idi-iiiitícação ainda i n c o m p l e t a de grupos e c o n ó m i c o s a que pertencem fazendas denunciadas por
trabalhar para a família. Nessa situação, as empresas modernas, sobni n.l.i t i i t l l . i t . . i n d f trabalho escravo, constam os seguintes, seguidos da referência ao estado e ao ano da d e n ú n c i a :
A| i , i i i . . (Cciiás, 1990), A l m e i d a Prado ( M a t o Grosso, 1987), Aracruz ( E s p í r i t o Santo, 1980), A r t h u r H o p f i g
na agropecuária, podem tirar vantagem dessa temporária superok-ri.i <!• IM Ih. ( IHISSO do Sul, 1983, 1985, 1987 e 1993), Bamerindus (Pará, 1987), B C N - Banco de C r é d i t o N a -
mão de obra desqualificada que não se disporia a fazer o mesmo trab.illi.i • I I ( M a i o Grosso, 1970), B o r d o n ( M a t o Grosso, 1971; R o n d ô n i a , 1986), Bradesco (Fazenda R i o C a p i m ,

em caráter permanente. No meu modo de ver, justamente uma certa I I I Í M ' l'H,7, 1976, 1980, 1984; Fazenda Rio D o u r a d o , Pará, 1984, 1987; Fazenda Reunida Taina Recan,
• • ' l ' i /3), Brascan (Paraná, 1979; Sta. Catarina, 1979), C a f é Cacique (Acre, 1981), C a p e m i (Amazonas,
gem do caráter lúdico desse trabalho fora do lugar (e fora da vigilânci;i i d.) 1 ' i N i i l , ('.oopersucar (Pará, 1984), Copeba ( M a t o Grosso, 1991), Costa P i n t o ( M a r a n h ã o , 1979), C o u t o

disciplina dos pais e, também, das esposas)^^ torna o trabalhador acf iiiii.i ' ^.... I'I75, 1977, 1987), D a n i e l K e i t h L u d w i g (Pará, 1972, 1976, 1980), E n c o l (Pará, 1984 e 1985;
... I 9 K 6 ) , Eucatex (São Paulo, 1986), Ferrari ( P a r a n á , 1993), J o ã o Santos ( M a r a n h ã o , 1986; Pernam-
damente vulnerável ao recrutamento e complacente com as más condií.m « riX7), L i q u i f a r m ( M a t o Grosso, 1971), Lunardelli (Pará, 1985), Mafra (Amazonas, 1980 e 1985),

de trabalho, o pouco ganho e a violação de seus direitos trabalhistas. I • . . . . . . (Pará, 1994), M a n a h (Pará, 1991), Marchesi (São Paulo, 1987), Matarazzo (São Paulo, 1986),
I..U.1 (Pará, 1986), M e r c k (Pará, 1987), M o u r a A n d r a d e ( M a t o Grosso d o Sul, 1985), M u r a d (Pará,
É claro que isso se dá também como consequência da pobreza . .I.i . • I l'if!5), M u t r a n (Pará, 1987, 1989, 1991), Nunes ( M a r a n h ã o , 1995), Papel S i m ã o (Rio de Janeiro,

falta de alternativas de emprego nos lugares de origem. Mas sobretudo «iii iuM 1 . |.)K4)_ Paranapanema (São Paulo, 1993), Peralta ( M a t o Grosso, 1989), Pessoa de Queiroz ( M a t o
.!.. Sul, 1989, 1991, 1992), Quagliato (Paraná, 1991; Pará, 1988), Rossi ( M a t o Grosso, 1975), Shell
consequência da crescente necessidade de dinheiro para fazer frente a M I > V . I » I ')S4), Sílvio Santos ( M a t o Grosso, 1970 e 1981), Soteco ( M a t o Grosso, 1986), S u p e r g a s b r á s (Pará,

carências decorrentes da presença cada vez maior da mercadoria na \U l.inagro (Rio Grande do Sul, 1988 e 1991), Volkswagen (Pará, 1983 e 1985), W h i t e M a r t i n s (Rio
1 984). Os casos de repetidas d e n ú n c i a s i n d i c a m persistênci a no emprego de trabalho escravo, às
das populações camponesas e, ao mesmo tempo, da crónica deteri()r,i(,.iii I" .1 mais de u m a d é c a d a , mesmo q u a n do houve a ç á o das autoridades policiais e trabalhistas,

das relações de troca entre as mercadorias vendidas pelo camponês i ,i« .i.s.sa é p o c a , a escravidã o por d í v i d a nos seringais da A m a z ó n i a f o i tema de contundentes e funda-
d i i i ú n c i a s . Destaco, em especial, o conjunto de ensaios de Euclides d a C u n h a , escrito no i n í c i o
mercadorias que ele precisa ou quer comprar. Por esse meio fica claro <|in 4 III. XX (Euclydes da C u n h a , A margem da história, 6. ed.. Porto, Livraria Lello & I r m ã o Editores,

superexploração alcança não só o peão propriamente dito, mas todo o M d . i lássico romance, de 1934, de Ferreira de Castro, A selva (Rio de Janeiro, M o u r a Fontes Editor,
.1 I h , I rcira de Castro viveu e trabalhou n u m seringai e conheceu diretamente o drama dos seringueiros
grupo familiar, base de sua reprodução como força de trabalho e agora ini.,4 liis, que é o tema de seu l i v r o. A imprensa desde h á m u i t o tem denunciado casos de escravidã o no
de trabalho para o capital. Nofimdas contas, por esse meio, o capii;il ilM il I I111 jornal o p e r á r i o noticiava, em 1913, a o c o r r ê n c i a de e s c r a v i d ã o nos ervais da Cia. M a t e Laran-
P.iraná: H o r r o r o z a escravatura operaria no estado d o P a t a n á , em A voz do trabalhador ( O r g a m da
vantagens das diferenças de preços, custos e necessidades que há entri' dilr i.n,;io Operaria Brazileira), anno v i , n . 32, R i o de Janeiro, 1 j u n . 1913, p . 1. A c o m p l a c ê n c i a c o m a
rentes regiões e setores da economia, alguns mais e outros menos proliiiuli» . 1 f —^ - í"'-^^ ^j. i.oiiipidcciicia c o m a
I.I.IO moderna t o i quebrada no Brasil pela Carta Pastoral de D o m Pedro C a s a l d á l i g a , de 1971, no ato
mente inseridos na lógica capitalista.^"* E essa a forma que assume a dilcicti Invi-stidura c o m o bispo de S ã o Félix do Araguaia,
P , no
...^ M a .tw
...« o Grosso i c u i o v-asaiuauga,
( C f Pedro
v j x v / j o v j v^í- uma tgreja
C a s a l d á l i g a, Uina igreja

ça entre setores inteiramente dominados pela mediação do capital e S C I U I H ^^Lé» i'i'iiu'm conflito com o ktijiíndio e a marginalização social, SíoVélix. ( M T ) , s. e., 1 9 7 1 , e s p . p p . 104-
^Bl|l I i.iiiibcm pelas d e n ú n c i a s do jornalista L ú c i o Flávio P i n t o , posteriormente i n c l u í d a s em seus livros ( c f ,
só externamente atingidos por essa mediação. Neste segundo caso, scH»» ^^^Bhr* L i t i i i c n i c , L ú c i o Flávio Vmto, Amazónia: no rastro do saque, Sáo Paulo, E d i t o r a H u c í t e c , 1980, esp. pp.
res em que a reprodução da força de trabalho só complementarmente dn» ^ ^ ^ ^ » | U ' I ) . A [>artir de 1975, as o c o r r ê n c i a s de e s c r a v i d ã o passaram a ser sistematicamente denunciadas pela
^HPMt il<«.iii Pastoral da Terra. Mais recentemente, entidades internacionais devotadas à defesa dos direitos h u -
pende de recursos produzidos diretamente por meio do capital. O c.i|i|i4| 1, .ili/aram suas p r ó p r i a s investigações sobre e s c r a v i d ão em diferentes regiões do Brasil e publicaram
tira, pois, vantagens comparativas do atraso social e económico. SolnciiM H |t(f I .. I,ii..ric>s a respeito. C f A m é r i c a s W a t c h (ed.), Violência rural no Brasil, S ã o Paulo, N ú c l e o de Estudos
|(« \. h . ia da Universidade de S ã o P a u l o / C o m i s s ã o T e o t ó n i o Vilela, 1 9 9 1 , esp. pp. 102-17; A l i s o n S u t t o n ,
do tira vantagens do amortecimento da consciência de seus peões qii.mi • -1 " / Ihiizil: a l i n k i n the chain o f modernization , L o n d o n , Anti-Slavery I n t e r n a t i o n a l , 1994.
estes usam como parâmetro para medir o valor de sua força de traballid H l<... • • l . i i \o Weber assinalaram que o trabalho livre e sua m e r c a n t i l i z a ç á o pelo p r ó p r i o trabalhador

complementar e, às vezes, o lúdico e o supérfluo.^^ ^ H t 1... I . . lia r e p r o d u ç ã o de capital: " [ . . . ] para que o possuidor de d i n h e i ro encontre n o mercado a força
éi I . . I . i l l i i i , como mercadoria, devem cumprir-se diversas c o n d i ç õ e s . A troca de mercadorias, em si e para
AKIPK'n„n,A„|.„,A,1,A, N A I I . N n ,,nN,,.AI (. NA',, ,M, N ,n „ A , •„ K A V I M A n
FRONTEIRA

si, n ã o i m p l i c a em maiores relações de dependência d o que as t]uc surgem tit- su;i puSpria naiurc/,;i. I'',iti i l \'\y . I KI I ) k i v e n i l e l i j ; u e i r ; i , em C À) n c e i ç i i ( > do Aiiij',n;Ma, n o Par;i, e pelos nieinbros da Clomissao P:isior;il da

rência desse pressuposto, a força de trabalho, como mercadoria, só pode aparecer no mercado nicdid.i • iii I. i i . i In. .il. M e u d é b i t o se estende a Jean Kocha, que m e cedeu dados de alguns ca.sos d e peonagem coiis-
I iiii i •, lie sen p r ó p r i o ; u t | U Í v o , e a A n a de Souza l*into, qtie me deu s u g e s t õ e s i n e s t i m á v e i s para contatos c
que e pelo fato de que o i r a próprio possuidor - a pessoa a quem pertence essa força de trabalho , i nh i . . . . i
I M I M \ ' Í M . i s c t n R i b e i r ã o C'ascalhcira, no norte d o M a t o Grosso.
e venda c o m o mercadoria. Para que o seu possuidor a venda c o m o mercadoria c necessário que pnss.i clr,|iHt
dela e que, p o r t a n t o , seja p r o p r i e t á r i o livre de sua capacidade de rrabalho, de sua pessoa". C^l. Kiii l M t i » , I I l o M i Brass, Some obscrvations o n unfree labour, capitalist restructuring, and deproletarianization, e m
El capital: crític a de la economia p o l í t i c a . L i b r o P r i m e i r o , v. i , trad. Pedro Scaron, 1 1 . ed., M é x i m . 'ti)'l<t I n i i i Hr.iss, Mareei vau der L i n d e n e Jan \MM^^Ç.X\, Freeand Unfree Labour, Kmst^tii^m, International I n s t i -
Veinteuno Editores, 1982, pp. 2 0 3 - 4 ; " É u m a c o n t r a d i ç ã o e m relação à essência d o capitalismo, i- o d i A. I I ' 1(11 .Social 1-listory, 1993, p . 3 1 .

v o l v i m e n t o d o capitalismo é i m p o s s í v e l , se n ã o h á u m a camada de d e s t i t u í d o s de propriedade, i i i n . i • !.!>«•


\) lie desproictarização aparece c o m o n o ç ã o - c h a v e e m vários trabalhos de Brass. Entre outros, c f l ó m
compelida a vender sua força de trabalho para viver; e é d o mesmo m o d o i m p o s s í v e l se apenas (niballin l U i i lli.i'.'.. Review essay: slavery now. Unfree labour a n d m o d e m capitalism, Slavery and Abolition, v. 9, n . 2,
livre está d i s p o n í v e l . O c á l c u l o capitalista racional s ó é possível c o m base no trabalho livre [...)". í '1. M 4 i I ..ndon, Frank Cass & C o . L t d . , set. 1988, p . 187.
Weber, General Economic History, trad. Frank H . K n i g h t , N e w York, Collier Books, 1 9 6 1 , pp. 208 ') l|>iilii
' 'II.IS s i t u a ç õ e s de crise social, segundo Lefebvre, servem c o m o analisadores-reveladores n ã o só porque
meu); M a x Weber, The Protestam Ethic and the Spirit of Capitalism, trad. Talcott Parsons, N e w York, ( '.li.iili t
I " i i i i i i i - m melhor c o m p r e e n s ã o sociológica, mas t a m b é m porque evidenciam c o m nitidez as c o n t r a d i ç õ e s
Scribners Sons, 1958, p . 2 2 .
• " i.iis. C f H e n r i Lefebvre, La Survie du capitalisme: la re-production des raportes de p r o d u c t i o n , Paris,
C £ Edilson M a r t i n s , Nossos índios, nossos mortos. R i o de Janeiro, E d i t o r a C o d e c r i , 1978; Shelton 11. I i.iiu,
I 'IKIO MS A n t h r o p o s, 1973, p . 16. C f , t a m b é m , FLenri Lefebvre, De l'état, t . i v , Paris, U n i o n Générale
Vítimas do milagre: o desenvolvimento e os í n d i o s do Brasil, trad. Jorge Alexandre Faure Pontual, Rio dr \i
.1 I (liiiciiis, 1978, p p . 2 3 2 - 3 ; e N o r b e r t G u t e r m a n e H e n r i Lefebvre, La Conscience mystifiée. Paris, Le Syco-
neiro, Zahar Editores, 1978; V i n c e n t Carelli e M i l t o n Severiano, Mão branca contra o povo cinza, s. I . , hi,i«ll , l ' ) 7 9, p . 3.
Debates, 1980; J o s é Porfírio Fontenele de Carvalho, Waimiri-Atroari: a h i s t ó r i a que ainda n ã o íoi Í ( H I M I I A,
' I V<s(- de Souza M a r t i n s , A sujeição da renda da tetta ao capital e o novo sentido da luta pela reforma
Btasília, s. e., 1982.
.i'i.iii.i. Os camponeses e a política no Brasil,'Petrópolís,Vozes, 1983, p p . 151-77.
Cf D . Pedro Casaldáliga, Creio na justiça e na esperança, trad. Laura R a m o , A n t o n i o Carlos M o u r a e I liiifn
' I L . i i l M a r x , Elementos fiwdamentales para la crítica de la economia política (Borrador), 1857-1858, 3 v.,
Lopes, 2 . ed.. R i o de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978; Ricardo Kotscho, O massacre dos posseiros: i mi
M t>l l'cdro Scaron, Buenos A i r e s / M é x i c o , Siglo Veinteuno A r g e n t i n a S. A . , 1971-1978 .
flitos de terras n o Araguaia-Tocantins, S ã o Paulo, E d i t o r a Brasiliense, 1 9 8 1 ; Ricardo Rezende I'igui'ir.i, A
» I I ienri U-febvre, La Pensée de Lenine, Paris, Bordas, 1957, esp. p . 2 0 6 e ss.
justiça do lobo: posseiros e padres d o Araguaia, P e t r ó p o l i s , Vozes, 1986; Ricardo Rezende Figueira, Rio i\tii
ria: canto da terra, P e t r ó p o l i s , Vozes, 1992; M á r c i o Souza, O empate contra Chico Mendes, S ã o Paulo, M.iini i I jnsé de Souza M a r t i n s , A p r o d u ç ã o capitalista de relações n ã o capitalistas de p r o d u ç ã o : o regime de
Zero, 1990. i i i l n i M i o nas fazendas de café, O cativeiro da terra. S ã o Paulo, Livraria E d i t o r a C i ê n c i a s Humanas, 1979,
E m m i , que realizou pesquisa a esse respeito na região de M a r a b á , sugere que a e x p a n s ã o capitalist;i n:i A1114
z ô n i a , ao diversificar e ampliar a classe d o m i n a n t e , p r o m o v e u a d e c a d ê n c i a das oligarquias. Seus pii)|piiii« ' '111 I I v.iiuamento realizado e m 1970 revelou que só no norte do M a t o Grosso, n o Centro-Oeste, 6 6 empre-
dados, p o r é m , i n d i c a m que a r e d u ç ã o d o poder p o l í t i c o da mais i m p o r t a n t e família da oligarquia rci-miul . |.i li.iviam o b t i d o a p t o v a ç ã o do governo federal e estavam se instalando na região, todas elas c o m 7 5 % d o
se deveu, antes de t u d o, à cassação de mandatos p o l í t i c o s de dois de seus membros e n ã o diretamcni. <U • l ' M . i ] pioveniente dos incentivos fiscais, isto é, d o a ç õ e s governamentais. A área t o t a l de 5 1 delas era de qua-
p r ó p r i a diversificação social e e c o n ó m i c a decorrente da e x p a n s ã o capitalista. A l é m disso, seus dado' .l'M'. niilhóes e duzentos m i l hectares (43 m i l hectares, em m é d i a , cada u m a ) . C f Pedro C a s a l d á l i g a, Uma
tram claramente que a mesma família t i n h a 45.135 hectares de castanhais em 1960 e, em 1980, esse níuii. 111 •'. !,i ,ii Amazónia, op. c i t . , p p . 4 9 - 5 9 . Dennis Mahar, p o r seu lado, c o m base e m dados da realidade regio-
saltara para 131.332 hectares, embora houvesse d i m i n u i ç ã o d o percentual representado por essas terras -...hi» " li li / i .ílculos h i p o t é t i c o s sobre o impacto do simples assalariamento e m d i n h e i r o nos custos de u m s e r í n -
o total da área ocupada: de 8 0 , 7 % para 3 9 , 4 % . O mesmo aconteceu c o m as outras grandes faniíli.r. ,U I •! l u i i i estabelecimento dedicado à e x t r a ç ã o da borracha) e o impacto d o sistema de aviamento, isto é, de
oligarquia regional. C f M a r í l i a Ferreira E m m i , A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais, M< 1' 111, • ii'li\o d o trabalhador e sua sujeição ao b a r r a c ã o , o a r m a z é m da fazenda. N o p r i m e i r o caso, a receita
C e n t r o de Filosofia e C i ê n c i a s Humanas/Naea/ u FP A, 1988, p . 1 2 1 . i iii|',al .seria 7 , 7 % m e n o r d o que os custos. N o segundo caso, a receita seria 2 3 , 5 % m a i o r que os custos.
As c o n c e p ç ó e s que, antes do golpe, definiam e polarizavam o m o v i m e n t o c a m p o n ê s no Nordeste d o l l i lall 1 '11 .í j.i, o assalariamento daria p r e j u í z o e a peonagem daria lucro. C f Dennis J. Mahar, op. cit., p . 2 0 7 .
estão expostas nestes textos de dois protagonistas dos acontecimentos: Francisco J u l i ã o , Cambão - llu- ).•*». ' I I .11 los C^orrêa Teixeira, Servidão humana na selva: o aviamento e o b a r r a c ã o nos seringais da A m a z ó n i a
the h i d d e n face o f Brazil, trad. John B u t t , Penguin Books, H a r m o n d s w o r t h , 1972; e C l o d o m i r Mcuin,
11'''ii11. Manaus, Valer E d i t o t a / E d i t o t a da Universidade do Amazonas, 2 0 0 9 , p . 18.
"Peasant leagues i n Brazil", e m R o d o l f o Stavenhagen (ed.), Agrarian Problems andPeasant Movemiti» m
M i l .-icelente estudo de Roberto Santos, História económica da Amazónia (1800-1920), S. Paulo, T. A .
Latin America, Garden C i t y , A n c h o r Books, 1970, p p . 4 5 3 - 5 0 1 .
/ l':ditorLtda. , 1980, pp. 155-75.
Cf Sue B r a n f o rd e O r i e l G l o c k , The LastFrontier: fighting over l a n d i n the A m a z o n , Z e d Books l , ( d . . I "ii
' I ' 1,11 V I lelena Allegretti Z a n o n i , Os seringueiros: estudo de caso de u m seringai nativo do Acre. Brasília,
d o n , 1985, p . 5 5 . I ' ' I I lissertação (Mestrado em A n t r o p o l o g i a ) - Universidade de Brasília, p . 6 3 .
Cf. G . M u l l e r et al., A m a z ó n i a : desenvolvimento s o c i o e c o n ó m i c o e p o l í t i c a s de p o p u l a ç ã o . S ã o Pauln 1 •
I "i . .Ilido das c o n d i ç õ e s nutricionais dos boias-frias cortadores de cana, n o i n t e r i o r de S ã o Paulo, assinala
brap - C e n t r o Brasileiro de A n á l i s e e Planejamento, 1975, m i m e o , e m D e n n i s J. Mahar, Desenvoli'itihhtê
I'.. '1 i x . u i t e a n t r o p o m é t r i c o das famílias de 'boias-frias' revela c o n d i ç õ e s físicas de nível m u i t o baixo e m
económico da Amazónia: u m a análise das políticas governamentais. R i o de Janeiro, Ipea/Inpes, 1978, p t d l i
• l ' i l i ' i ' , 1- i r i a n ç a s , sendo que a m a i o r parte deles mostra sinais de d e s n u t r i ç ã o p r o t e i c o - c a l ó r i c a de p r i m e i r o
Pedro C a s a l d á l i g a , Uma igreja da Amazónia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, S.m I «Iti
1 •' ( T. José Eduardo D u t r a de Oliveira e M a r i a Helena Silva D u t r a de O l i v e i r a (orgs.), Boias-frias: uma
d o Araguaia ( M a t o Grosso), s. e., 1 9 7 1 , p . 4 9 .
•li'l i.lc brasileira. S ã o Paulo, Academia de C i ê n c i a s d o Estado de S ã o Paulo, 1 9 8 1 , p . 112. A mesma e q u i -
A l é m dos dados que eu mesmo c o l h i nos locais e m que realizei m i n h a pesquisa sobre a luta pela i i 111 it4
I i. iv.iliações das c o n d i ç õ e s físicas de filhos de trabalhadores "boias-frias" e c o n c l u i u "que existe desnu-
A m a z ó n i a , para r e d a ç ã o deste texto vali-me amplamente dos materiais existentes n o atquivo da ( ) IMMJ
lie os adolescentes filhos de 'boias-frias' e que seu ctescimento e desenvolvimento, assim c o m o suas
Pastoral da Terra ( C P T ) , em G o i â n i a , resultado de u m paciente trabalho de seus agentes e f u n c i o n á i i m , M
. I " i . r . lisiológicas, i n c l u i n d o a capacidade para o trabalho ficam bastante teduzidos, quando comparados
registro e s i s t e m a t i z a ç ã o dos dados. Usei, t a m b é m , os pioneiros, oportunos e i m p r e s c i n d í v e i s registros I r l l ^ lUiii " 1 de adolescentes 'ricos'", pp. 128-9.
pelo padre A n t o n i o C a n u t o , e m S ã o Félix d o Araguaia, n o M a t o Grosso; e os que foram feitos pelo M f l H
FRONTEIRA

R e t o r n o a o t e m a e m J o s é d e S o u z a M a r t i n s , A sociedade vista do abismo: n o v o s e s t u d o s S O I M V exi \ u : . > y < . y

b r e z a e c l a s s e s s o c i a i s , 3 . e d . , P e t r ó p o l i s , E d i t o r a V o z e s , 2 0 0 8 , e s p . p p . 151 - 6 2 .

Há c l a r a s i n d i c a ç õ e s n e s s e s e n t i d o n a e n t r e v i s t a q u e o "gato" R a i m u n d o , d e C o n c e i ç ã o d o Ara(',u;iiii (t'.u J )

d e u a M a r i a d a C o n c e i ç ã o Q u i n t e i r o a respeito da p e o n a g e m : " L á é u m a fazenda b o a [ F a z e n d a M a ( cilAiiliil

se o p e ã o g a n h a o d i n h e i r o , ele r e c e b e , l á t a m b é m n ã o t e m c a s t i g o . P o r q u e a l g u m a s f a z e n d a s , o p o v o | " )• i

s e r v i ç o e d e i x a os p e á o n a a g o n i a , n á o p a g a , a m a r r a o p e ã o , a t é ele f u g i . T e m m u i t o g a t o , p ô c os home- l.i, s. m

pra c á , c a i n a f a r r a , b e b e t o d o o d i n h e i r o , e d e i x a os p e ã o p o r l á . " E e x p l i c a s e u p r ó p r i o g a n h o : "l''.ni |H. n - '

5 0 a l q u e i r e p o r c e m m i l c o n t o ; o i t e n t a m i l é p r o s p e ã o , e v i n t e m i l p r a m i m e p r a p a g a t o d a s essas •

[transporte d e c a m i n h ã o a t é R e d e n ç ã o e de a v i ã o de R e d e n ç ã o a t é a fazenda], o a v i ã o c o b r a n d o "mil i

v o o " . C f . O c t á v i o I a n n i , A luta pela terra: h i s t ó r i a s o c i a l d a t e r r a e d a l u t a p e l a t e r r a n u m a á r e a d a A n i . i / n m i

P e t r ó p o l i s , Vozes, 1978, pp. 124-6.

Cf. N e i d e E s t e r c i , C a m p e s i n a t o e p e o n a g e m n a A m a z ó n i a , Anuário Antropológico - 1978, R i o d e |.iih M . .

E d i t o r a T e m p o B r a s i l e i r o , 1 9 8 0 , p. 1 3 8 ; N e i d e E s t e r c i , P e o n a g e m n a A m a z ó n i a , e m Dados, n. 20, Um

Janeiro, 1979, pp. 124-5.

B e r g a d sugere q u e a escassez de m ã o - d e - o b r a r e s p o n s á v e l p e l a p e o n a g e m , n o c a s o q u e e s t u d o u , tln uiitt

do acesso p o t e n c i al à terra por parte dos trabalhadores. C f . L a i r d W . B e r g a d , O n c o m p a r a t i v e IIISCMH I

r e p l y t o T o m íiruss, Journal ofLatin American Studies, v. 1 6 , p a r t e 1, C a m b r i d g e , C a m b r i d g e U i i i v i i<iiy

P r e s s , 1 9 8 4 , p. 1 5 4 . P o r t a n t o , o " f e c h a m e n t o d a f r o n t e i r a " , o c e r c e a m e n t o d a o c u p a ç ã o d a s t e r r a s I Í V I K , •

q u e r e s p o n d e r i a p e l o i n c r e m e n t o d a p r o l e t a r i z a ç á o d o s t r a b a l h a d o r e s . U m q u e s t i o n a m e n t o d e s s e p o r i i n i|»

v i s t a e n c o n t r a - s e e m T o m B r a s s , R e v i e w a n d c o m m e n t a r y : free a n d u n f r e e l a b o u r i n P u e r t o R i t o >liiilii||

nineteenth centnrf, Journal of Latin American Studies, v. 1 8 , p a r t e 1, C a m b r i d g e , C a m b r i d g e U i i i v i r . l i i

Press, 1 9 8 6 , p. 187.

Foi o c a s o d e 4 2 h o m e n s r e c r u t a d o s e m j u l h o d e 1 9 8 4 n a v i l a S ã o F r a n c i s c o , u m b a i r r o p o b r e d c li-ii . I M 4

(Piauí), c o m muitos moradores subempregados, para trabalhar no d e s m a t a m e n to d a F a z e n d a Sani.i

n o s u l d o P a r á . C f E m b u s c a de s a l á r i o e c o m i d a : relato d a e x p e r i ê n c i a de s u b e m p r e g a d o s d e T c r < s i n . i itii

t r a b a l h o e s c r a v o d o P a r á , Cadernos do Ceas, n. 9 5 , S a l v a d o r ( B a h i a ) , jan./fev. 1 9 8 5 , p p . 40-4.

Cf N e i d e E s t e r c i , C a m p e s i n a t o e p e o n a g e m n a A m a z ó n i a , o p . c i t . , p. 1 2 7 ; N e i d e E s t e r c i , P e o n a j ' , i n i m

A m a z ó n i a , o p . c i t . , p . 1 2 4 ; N e i d e E s t e r c i , Conflito no Araguaia: p e õ e s e p o s s e i r o s c o n t r a a g r a n d e c n i | M. . <

P e t r ó p o l i s , V o z e s , 1 9 8 7 , p. 1 6 9 ; N e i d e E s t e r c i , Escravos da desigualdade: u m e s t u d o sobre o uso repressi\ i >U

f o r ç a de t r a b a l h o h o j e . R i o de J a n e i r o , C e d i / K o i n o n i a , 1 9 9 4 , p. 107.

E s t e ú l t i m o caso o c o r r e u n a F a z e n d a J a n d a i a , e m Parauapebas, no estado do Pará, e m j u l h o de l'í'Ml, $

foi c o m p r o v a d o pela P o l í c i a F e d e r a l , c h a m a d a a intervir diante da d e n ú n c i a de trabalhadores lu|',hl"«

Cf Fazendeiro m a n t é m trabalho escravo e m X i n g u a r a (PA). Aconteceu, n. 543, R i o de Janeiro, < Vniiii

E c u m é n i c o d e D o c u m e n t a ç ã o e I n f o r m a ç ã o , 5 d e m a i o a 2 0 d e j u n h o d e 1 9 9 0 , p . 6 ; O Estado de S. IUHIU

2 6 j u l . 1 9 9 0 , p. 2 2 .

Cf N e i d e E s t e i c i , C a m p e s i n a t o e p e o n a g e m n a A j u a z ó n i a , o p . c i t . , p. 1 3 4 . C f , t a m b é m , J u d i t h M.MIMÍ

L i s a n s k y , Santa Terezinha: life i n a B r a z i l i a n f r o n t i e r t o w n , P h . D . thesis , U n i v e t s i t y o f F l o t i d a [ G a i m - , \

1 9 8 0 , p. 2 1 5 ( p a r a a v e r s ã o p u b l i c a d a d e s s e t r a b a l h o , d.]uàah.L\s3.nshf, Migrants to Amazónia: sçon\.\M

c o l o n i z a t i o n i n the B r a z i l i a n frontiers, B o u l d e r , W e s t v i e w Press, 1 9 9 0 ) . A l é m d o estilo de v i d a dcsforii|nit

m i s s a d o c o m os v a l o r e s l o c a i s e f a m i l i s t a s , q u e o s p e õ e s l e v a m aos p o v o a d o s , a p a r e n t e m e n t e , p e r m a n i ' . . u m

m e m ó r i a p o p u l a r o s e n t i d o q u e t i n h a a p a l a v r a p e ã o n o s s é c u l o s x v i e x v i i . E r a p e á o q u e m e s t a v a o l i i i|' K I H

a a n d a r a p é e d e s c a l ç o p o r o p o s i ç ã o a o c a v a l e i r o . P o r t a n t o , u m a d i s t i n ç ã o e s t a m e n t a l q u e d e s i g n a v a i| t M itt

s e r v i a e q u e m e r a s e r v i d o , q u e m o b e d e c i a e q u e m m a n d a v a . N a c u l t u r a d o s p o b r e s , n o B r a s i l , os sit^.^l^ • i

t e r n o s s ã o a i n d a f o r t e s i n d i c a d o r e s d e p o s i ç ã o (e d o m i n a ç ã o ) s o c i a l .

Por r a z õ e s diferentes, B a u e r c o n c l u i e m s e u e s t u d o s o b r e a o c o r r ê n c i a d a p e o n a g e m n o M é x i c o , P e i í i . A»"

g e n t i n a e C o l ô m b i a , q u e se t r a t a d e u m a s i t u a ç ã o d e " m e r c a d o i m p e r f e i t o d e t r a b a l h o " . C f A r n o l d J . h. i t »*lt

R u r a l workers in Spanish A m e r i c a : problems o f peonage a n d oppression, TheHispanicAmerican Hiii'"i'J

Review, v. 5 9 , n . 1, D u r s h a m , D u k e U n i v e r s i t y P r e s s , fev. 1 9 7 9 , p p . 34-63.

Cf A n t ó n i a A l v e s d e O l i v e i r a ( o r g . ) . Os nordestinos em Sáo Paulo, S ã o Paulo, E d i ç õ e s Paulinas, 1982.


3
Regimar e seus amigos:
a criança na luta pela terra e pela vida

infas" (S. Félix do Araguaia-MT, 1975)


102 FRONTEIRA REGIWIAR t StUS AMIGOS 103

A criança como testemunha M í( iiK-cliavelmente enganadora, habitualmente mentirosa. A vida social es-
M i i.i sendo concebida, basicamente, como uma fraude.^
As Ciências Sociais têm, num certo sentido, uma concepção dcfini«l.i I )csde os primeiros tempos, a Sociologia demarca com precisão o ter-
de quais são as fontes aceitáveis e respeitáveis do dado sociológico. I )<> n o dos juízos de valor e o terreno dos juízos de realidade, o que é falso
mesmo modo, entre a história oral e a história documental, dificilimni. '< <| iic é verdadeiro, o conhecimento de senso comum e o sociológico.

um historiador consideraria a primeira tão importante e segura quaiih. .t I ' o m isso, define como uma das tarefas do pesquisador a de desco-
segunda. Entre o formulário pré-codificado e o depoimento autobiogi;lii< n l a m os processos objetivos, as significações objetivas, as leis científicas
espontâneo, o sociólogo e o cientista político tenderão a considerar o pii . | M . SC ocultam sob os acontecimentos da superfície, sob as significações
meiro fonte mais objetiva que o segundo. Entre o depoimento do chcic !• aludas pelo próprio sujeito, sob as transformações sociais decididas
famíHa e o da empregada doméstica dirão que o primeiro é mais compiíin ' ' M i s ( icnte e deliberadamente e concretizadas na superfície imediata da
e mais seguro, quando se tratar de u m estudo em que a família for c o i i M V i i l . i social.'*

derada o "sujeito" da investigação. ( ) melhor informante é, também, o pior informante. O que tem mais
Todo pesquisador sabe que a relação com o entrevistado é um jogo; q i i P I ' l i / i r é o que, supostamente, tem mais a esconder. Essa duplicidade jus-

o entrevistado é, de certo modo, vítima do entrevistador, do seu jogo de M I I I . I O trabalho do sociólogo. Supostamente, é este quem tem a possi-

palavras, de suas intenções ocultas, de questões não reveladas. Sociologii .1 idade de armar os truques que fazem a vítima falar, contar aquilo que
mente, a pesquisa pode ser uma armadilha. O que é dito espontaneamcnií " i n gostaria de revelar. E, sobretudo, falar de coisas que não sabe estar
o pesquisador em geral considera de pouca relevância, porque constitui 11 <• vrl.mdo, coisas que têm sentido unicamente no âmbito de uma matriz de
que pode ser confessado sem risco. Relevante é o que as pessoas ocultam, ir.iiificados de que não tem domínio. Dificilmente poderá ler e entender
o que constitui propriamente elemento de sua vida privada. Portanto, A ' in.ílise sociológica baseada nos dados que forneceu, mesmo que se trate
melhor técnica de pesquisa acaba sendo aquela que induz a vítima a c o i i • I I I li amada pessoa "culta".
fessar o que, provavelmente, gostaria que não se tornasse piiblico. A pt s I'<)i- essas razões, a tendência é o cientista social interessar-se por infor-

quisa acaba se revelando uma certa forma de espionagem, de invasão, «If • n.mtcs que estão no centro dos acontecimentos, que têm um certo domí-
violência. H á , nas Ciências Sociais, um nocivo e pernicioso psicologismo. n i n (las ocorrências, que têm, supostamente, uma visão mais ampla das
na pressuposição de que as informações mais importantes são aquelas que "Ms.i.s, que são os arquitetos da cena e da encenação social. Basicamen-

o entrevistado esconde, deliberadamente ou não, o inconfessável. 'í.sa opção tende a selecionar informantes que têm poder ou que têm,
H á mesmo correntes sociológicas que consideram a vida social um pc" '•> menos, algum poder: o líder local, os dirigentes, o chefe da família,
manente jogo de ocultamento, de encenação, de fingimento deliberado, " idiilto. Nada confunde mais o pesquisador de campo do que quando,
homem comum, a vítima, estaria permanentemente envolvido num muii • iiinprindo as normas estabelecidas pelo "sábio" da pesquisa, chega a uma
de conspiração, permanentemente culpado e obrigado a simular para ' r , . i para entrevistar o chefe da família e no lugar dele encontra a viiiva, a
outros aquilo que não é.' H á casos em que a técnica de pesquisa se trai ciada, a abandonada pelo marido, a mãe solteira, ou a criança que fica
formou numa armadilha sempre preparada para apanhar o entrevista '111 (asa enquanto os pais estão trabalhando. É que, na verdade, a relação
nas fraquezas do desaviso e das próprias contradições.^ As Ciências Soei 'IM pesquisador com aquele que é sujeito da pesquisa é, também, uma re-
têm cultivado uma concepção do homem que é objeto de seu interesse c» I de poder ou, mais comumente, uma relação de autoridade, apoiada
suas indagações como alguém que mente e finge sempre, alguém que CM4 " 1i oncepção de um mundo hierarquizado e classificado previamente. O
permanentemente preocupado em enganar os outros. A humanidade sor I- iiuisador quase sempre pressupõe e descarta, no grupo que estuda, uma
104 FRONTEIRA l i l I.IMAR E SEUS AMIGOS 105

parcela de seres humanos silenciosos, os que n ão falam. Dc iiail.i .uli MM t i t | ' ni.ili/ados das tribun as da vida, obrigados a dissimular o seu dizer
conversar com eles.' São os que em público e diante do estranho |>i M M tititi 1.1 I metáfora.^ As Ciên cias Human as, com a possível exceção da
cem em silên cio: as mulheres, as crian ças, os velhos, os agregado;, il.i . i«4| I " il< n ão têm sido capazes de decifrar o silêncio daqueles que n ão
os dependentes, os que vivem de favor. O u os mudos da h istóii.i, i>. I • .111 I I,-IIos pelo saber académico como in forman tes válidos dos pesqui-
n ão deixam textos escritos, documentos. • I , (^)uando o são, como ocorre h oje quando se trata da mulh er ou
A Sociologia que chegou até n ós oculta u m sujeito (para alin n .i l.i ••)) I • I. I i i i ( | i i c n t e , para tomar como referência extremos obviamente opostos,
n egá-lo em nome da sociedade ou em n ome da classe social) - o ni,ln i (I SC fossem in forman tes menores, que só podem falar ou só falam
duo aquele cuja vida social pressupõe a contratualidade das r ciav" ^ •. j^Hini.iincnte de sua con dição específica, como a con dição femin in a e os
por t an t o, u m vín culo de natureza h istórica particular, o que foi pr oilu /hlii ^ 1* 1 1 1 1 1 os de mulh er " ou como protagonistas de "con duta divergente". N ão
pela mediação da razão, da igualdade, da liberdade. O in divíduo é o siijclt<y H 1.1 onliece neles, como se reconhece em outros, a con dição de autores de
que fala, e n ão o que se cala. E o que proclama seus direitos e rccon lieáfl T i l I-. il.i universalidade do h om em .
seus deveres. É o que se baseia na reciprocidade, na igualdade, como u i l f l ( l.iro que estou deliberadamente radicalizando os limites das técnicas de
t eúdo de (suas) relações sociais. A fala é u m in strumen to de direito, iimJI M i\ (Migação nas Ciên cias Sociais. N ã o são raros os pesquisadores que t êm
pr oclamação, n egação daquilo que o silêncio é - subm issão, complacêiu i.i. i I. .aliado essas limitações e avan çado em direção a situações sociais e sujei-
desigualdade, menoridade.'' Nessa sociologia, a sociedade é a trama ociili.i,
i M ' . (|iie enriquecem o en ten dimen to dos fen ómen os sociais, na perspectiva
a trama que rege ocultamen te as relações sociais e a pr ópr ia vontade ilr
l ' r i iiliar que orien ta o modo como tais sujeitos os veem e in terpretam.
cada u m , na medida em que cada u m , pela socialização, converte-se i m
A pesquisa que resultou neste livro é pr odu t o de u m desafio desse t ipo.
agente do t odo.
I i .ibalhando longos anos como pesquisador da situação social no campo e ,
Mesmo na pesquisa sociológica opera o pressuposto de que a fala ouvi- |Mi ticularmente, dos conflitos sociais na Am azón ia, da luta pela terra e dos
da pelo pesquisador é uma fala delegada. Ain da que os cientistas sociais re- movimentos sociais, que t êm como protagonistas as populações campo-
con h eçam e in corporem em suas in vestigações a diferen ciação social, como iK-sas, vivi diretamente in úmeras vezes a experiên cia de n ão poder realizar
as classes sociais ou os gén eros, fazem-no no in t u it o de resgatar categorias entrevistas isoladas com determinadas pessoas ou delas obter in formações
sociais que t êm substân cia e especificidade. Quando o operário fala, é a "c m privado". Raras vezes pude fazê-lo, quase sempre quan do se t r at ou de
fala da classe; quan do a mulh er fala, é a fala do género. Mas as Ciên cias conversar com trabalhadores que estavam escondidos, com a vida ameaça-
Sociais t êm trabalhado pouco uma out ra modalidade de diferen ça que é da. N o mais das vezes, havia sempre u m grupo de pessoas, às vezes grande,
metodologicamente fun damen tal: refiro-me à que diz respeito ao enqua- ouvin do e opin an do. O que t em seu sentido. Min h as in dagações eram
dramento ou n ão das pessoas na linguagem que o in strumen tal sociológico sempre relativas a conflitos que en volviam várias pessoas, grupos grandes,
pode captar e que é, na verdade, u m código de poder, uma linguagem de povoados inteiros. De modo que a entrevista, n ão raro, assemelhou-se a
poder (e t am bém de classe m édia, de gén ero masculin o, de idade adulta). uma assembleia, com apartes de outros, que iam chegando e ficando, com
Na in terlocução do sociólogo, a generalidade pressuposta nas técn icas de esclarecimentos, sugestões e correções. Sempre me ch amou a aten ção que
in vestigação é falsa. E falso que o cientista social possa compreender a fala nessas horas estivesse presente, de pé ou de cócoras pelos cantos, o grupo
do outro sempre, como é falso que só é socialmente eficaz a fala que pode numeroso e atento de u m público que, aparentemente, n ão se sentia no
ser compreendida e explicada pelo cientista social. Em suma, h á outra dife- direito de falar e perguntar. Refiro-me às crian ças. U m grupo que n ão
renciação social cuja relevância n ão é pequena: h á os que falam e h á os que fala, mas ouve m u it o. Decidi dirigir-me t am bém a elas na min h a pesquisa
silenciam e falam por meio do silên cio. São os que foram calados, excluídos sobre a lut a pela terra. Fazer-lhes perguntas, estimulá-las a se expressarem
106 FRONTEIRA RK.IMAK I SIUS AMIl.OS 107

sobre acontecimentos dramát icos que estavam envolvendo seus pais, pa- li liguei, que de fato eram. Porém, poucos dias antes de m in h a chegada,
rentes, amigos, companheiros e a elas próprias: as migrações por centenas ns grileiros revidaram e cometeram novas violên cias n o povoado. Entre
e até milhares de quilómetros de u m pon t o a outro do país, na direção da outras, prenderam e amarraram u m dos posseiros sobre u m formigueiro da
fronteira, em busca de u m lugar de paz e trabalho; a violên cia de policiais chamada "formiga-de-fogo", deixando-o ali várias horas. Essa violência foi
e pistoleiros contra os trabalhadores pobres, expulsos da terra, torturados, presenciada pelas crian ças, que a ela e a outras se referiram nas conversas
saqueados; a miséria e a fome. Neste capítulo falo da fala das crian ças, que (jue comigo tiveram. Antes disso, um grileiro tentara incendiar o povoa-
por meio dela me falam (e nos falam) do que é ser criança (e adulto) nas do, com seus ranchos de barro e palha, onde moram centenas de famílias,
remotas regiões das frentes de ocupação do território, em distantes pontos n um momen to em que os pais estavam na roça e nas casas se encontravam
da Amazón ia. apenas as crianças e poucos adultos. Foram salvos porque o vento soprou
Recolhi materiais de dois tipos sobre as crianças e com as crian ças, ao lia direção oposta, levando o fogo para o outro lado.
longo da pesquisa. De u m lado, entrevistas gravadas; de out ro lado, quase Em Floresta, localizada no vale do Pin daré, e n uma das regiões mais
duas centenas de depoimentos escritos pelas próprias crianças e por adoles- marcadas pela violên cia rural no Mar an h ão, a de Santa Luzia, a situação
centes. O material que aqui ut ilizo foi recolhido na colón ia de Canarana, era diferente, mas n ão era melhor. Al i , t am bém , u m grileiro or iun do de
no estado de Mat o Grosso, u m n úcleo de colon ização particular, composto Minas Gerais tentava apossar-se das terras dos trabalhadores e expulsá-los.
fundamentalmente de gaúch os vindos da região de Tenente Portela, n o A população era menor do que a de São Pedro e o povoado fica bem na bei-
Rio Grande do Sul. Outros desses gaúch os t in h am se deslocado antes para ra da estrada que leva de Santa Luzia a Açailân dia. Já São Pedro fica a uns
Santa Catarina, Paraná e Mat o Grosso do Sul. Foi recolhido, t am bém , em dez quilómetros da estrada que vai do entroncamento da rodovia Belém-
dois povoados da pré-Amazón ia maranhense: São Pedro da Agua Branca, Brasília até Mar abá, n o Pará, n o meio da mata. Em Floresta a violên cia
n o mun icípio de Imperatriz, e Floresta, no mun icípio de Santa Luzia. Na n ão era tão visível. Porém, pouco depois de min h a partida, o grileiro foi
época da pesquisa, esse dois povoados estavam vivendo momen tos de gran- assassinado. Mais tarde, o prin cipal líder dos trabalhadores, que me dera
de ten são, sob ameaça constante de grileiros e pistoleiros. Em São Pedro, de comer em sua casa e arrumara lugar n u m t ijupá das vizin h an ças, usado
pouco tempo antes, houve u m combate nas próprias ruas do povoado, para guardar o arroz recém-colh ido, para que ali armasse min h a rede, tam-
entre os posseiros e u m grileiro e seus capangas. Algumas das entrevistas bém foi assassinado por pistoleiros, n o centro de Santa Luzia, à luz do dia,
que fiz com as crianças foram realizadas ao lado de u m imenso tron co, deixando numerosa família.^
arrastado pelos posseiros para perto do rancho que servia como escola, e O estímulo a que as crianças escrevessem pequenos depoimentos, so-
utilizado como uma das trincheiras durante a luta. Desse con fron to, os bre a migração e o novo lugar, revelou uma grande vontade de falar, uma
posseiros saíram vitoriosos, expulsando o grileiro e seus jagu n ços. Mais surpreendente in formação sobre os acontecimentos e sobre os limites e
tarde, tocaiaram, desarmaram e aprisionaram u m grupo de soldados da possibilidades de suas vidas, além de uma discreta, mas clara, crítica aos
Polícia Milit ar do Pará que, agindo ilegalmente como força policial priva- adultos por excluírem-nas das discussões sobre o que estava acontecendo.
da, dava apoio e complementava as violências do grileiro da terra. Entrega- Nas entrevistas gravadas foram tímidas. Mas confirmaram com mais clare-
ram-nos ritualmen te (e de modo legalmente perfeito) a u m contingente da za de expressão o amplo conhecimento das ocorrên cias. A fala das crianças
Polícia Milit ar do Mar an h ão, acusando-os de terem in vadido o estado do foi uma fala tristemente adulta, privada da in ocên cia in fan t il que eu, inge-
Mar an h ão (onde n ão tem jurisdição) de armas nas mãos. Assim, os possei- nuamente, imaginava encontrar nelas. Fala de crianças habituadas a serem
ros revestiram de legalidade, inteligentemente, o combate ao ato violen to empurradas, até pela violên cia, como narraram algumas, pelas estradas sem
daqueles policiais, caracterizados, desse modo, como reles pistoleiros de r u m o e sem fim, em busca de u m lugar para viver, lentamente e desde
Ul (,IMAI( I M US AMICOS 109
108 FRONTEIRA

m u it o cedo apreendendo na poeira dos caminhos que são estrangeiras na (lo Mar an h ão. N a d a Um se n t i d o sen ão desdobrado no tempo, e tempo
própria pátria. demarcado pela sucessão e pela con vivên cia das gerações, quase sempre
Metodologicamente, o aspecto mais importan te dos depoimentos das as dos pais e filhos. Essa totalidade é demarcada, t am bém , n o espaço - o
crianças foi o de que, nas situações aqui estudadas, h á u m protagonista espaço em que se move o agricultor gaúch o para assegurar o futuro dos
coletivo que se expressa na fala e nos atos de cada u m , de cada família ou filhos; e o espaço em que o posseiro maranhense, a cada dia, e na sucessão
de cada "lin h agem", como me explicou u m posseiro negro, de postura dos dias, "caça o destino".
senhorial, n o Mar an h ão: "eu v i m para cá com toda a min h a linh agem".
Em cada localidade, a fala de cada criança é claramente fragmento de u m
enredo mais amplo, que protagoniza com os outros. Isso n ão anula o querer
Recomeçando a família pelo trabalho
de cada uma, ainda que domin ado por u m destino explicitamente comum,
A infância é concebida, pelas crianças de Canarana (Mat o Grosso),
revelado até geograficamente no fato de que as estradas percorridas são as
como preparação para o futuro. É e n ão é o momen to específico da vida que
mesmas. Exemplifico esse en trelaçamen to com u m caso ocorrido em São
deva ser vivido por si mesmo, com regras e con cepções próprias. A infância
Pedro, cujos participantes conheci. Uma posseira pobre dera, em outra lo-
se qualifica pelo que vem depois. O fut ur o, por sua vez, localiza-se no espa-
calidade, a filha recém-n ascida a u m casal de posseiros, que partia em busca
ço novo. Todos os moradores do lugar são migrantes. O n úcleo colonial foi
de outro lugar na fronteira para viver. Não t in h a con dições de sustentá-la.
fundado em 1972, para absorver excedentes populacionais do Sul do país.
Anos mais tarde, com a filha já adolescente, ambas as famílias foram parar
Praticamente todas as crianças ouvidas no lugar têm uma espécie de just i-
no mesmo povoado de São Pedro, quando já n em t in h am n otícia uma da
ficativa malthusiana para seu deslocamento do Sul para o Centro-Oeste.
outra. Ao reencontrar a antiga vizin h a, que estava chegando, o pai adotivo
Com o esclareceu Alencar J., de 14 anos, "n ós viemos para Canarana atrás
apenas e naturalmente disse à filha: "Peça a bên ção a esta mulh er. Ela é sua
de fut uro, porque lá no Rio Grande do Sul t ín h amos m u it o pouca terra:
m ãe". O protagonismo coletivo revela sua impor t ân cia nessa con cepção
dava só para viver, mas para ajudar u m filho n ão dava [...]". E Marcos M . ,
aldeã da vida, como se as pessoas se separassem só momentaneamente, para
t am bém de 14 anos, completou: "Nós mor ávamos [no] mun icípio de Te-
se reencontrarem depois e pouco adiante. Ao mesmo tempo, o espaço de
nente Portela, Rio Grande do Sul. Com o meus pais t in h am pouca terra, e
que falam, inclusive as crian ças, é u m espaço que abrange centenas de qu i- t in h am muitos filhos, e lá a terra n ão ia dar para todos, porque pelo passar
lómetros, n ão raro fazendo referências a lugares que estão a mais de do tempo todos iam se casando e n ão haveria lugar para todo mun do em
m il quilómetros u m do out r o. E nesse amplíssimo espaço que circulam i n - u m pedaço de terra com a quantia [sic\e 25 hectares. Com o meus pais
formações sobre "terras livres", trabalho, lugares bons "para u m pobre viver". queriam dar um futuro melhor aos filhos, viemos para cá".
As crianças sabem que estão todas contando a mesma h istória, quando Não havia futuro no lugar antigo - muit a gente, terra insuficiente. A i n -
falam de suas h istórias pessoais, e que os fatos diferentes presentes na suficiência foi sendo agravada por outros problemas, como secas e geadas.
narrativa de uma delas só têm sentido no con jun t o, como componente de Adversidades quase que unanimemente mencionadas e responsabilizadas
uma mesma e ún ica trama. Isso fica claro quan do uma emenda o que a pela destruição dos frutos do trabalho antes que pudessem ser aproveita-
outra está dizendo. dos pelo homem. O u, ent ão, ervas daninhas e pedras, que os obrigavam a
Em outras palavras, adultos e crianças mostraram que raciocinam a par- trabalhar m uit o para colher pouco.
t ir de uma con cepção de totalidade de tempo e de espaço. O tempo tanto O fut uro revelou-se, assim, preserv ação de um modo de vida - o da
se abre na certeza do destino do men in o ou da menina de u m pequeno agri- família que trabalha na agricultura, para si mesma, que não trabalha para
cultor de Canarana, quan to na incerteza do destino da crian ça dos povoados os outros.
110 FRONTEIRA
RI CIMAR I SI US AMICOb 111

Temos aí dois componentes fundamentais e combinados: o trabalho (li/, respeito ao nível de viãã, e sim às possibilidades do trabalho — trabalho
e a família. A emigração do Rio Grande do Sul para o Mat o Grosso foi, que cultiva maior área de terra, que colhe mais frutos. Ao mesmo tempo,
para muitos, procedimen to destinado a manter a família un ida e pr óxima. porém, trabalho que paga dívidas: a terra, as m áquin as e outros equipamen-
Con vém lembrar que a maioria dos moradores de Canarana é descendente tos comprados a crédito. A área maior de terra lança o pequeno agricultor
de alemães e italianos. São famílias que chegaram ao Brasil h á mais de cem luima outra escala de relacionamento com o capital. A diferença entre a
anos, no século xix. Quase todas têm uma h istória de migrações periódicas
situação atual e a anterior é que lá no Sul o crescimento da família e o
desde a pátria de origem. Vier am para o Brasil, localizaram-se, quase sem-
crescimento dos filhos geravam uma escala de necessidades que n ão podia
pre, na serra gaúch a; com o tempo, deslocaram-se para outras regiões em
ser atendida pelo trabalho. Fosse porque a terra dispon ível n ão absorvesse
busca de terras para in corporar o trabalho das novas gerações, e n o mesmo
a força de trabalho existente, ou porque retribuísse com pr odução propor-
sentido muitos migraram para Santa Catarina, Paran á e Mat o Grosso do
cionalmente menor do que o trabalho nela investido. Já n o Mat o Grosso,
Sul. A migração mais recente foi esta para o Mat o Grosso. Os que n ão
a terra pode absorver todo o trabalho da família. Mais ainda, o trabalho é
puderam agir assim, tiveram a família dividida, os filhos migran do para as
insuficiente para ocupar toda a terra existente. Essa in suficiên cia é suprida
cidades em busca de trabalho.
por tecnologia. N o Sul, ela estava limit ada ao arado e ao boi. N o Mat o
Em Canarana, além de mencionarem a falta de perspectiva de futuro no Grosso, envolveu o trator e a colhedeira. A in corporação de equipamentos
lugar de origem, houve os que justificaram a migração com o fato de que e técn icas m u it o mais avan çados é o meio de conciliar a relação entre a
n o novo lugar "t in h am sobrinhos e tios e parentes". O u , "aqui t in h a terra terra e o trabalh o, de maneira equilibrada. Nos dois casos, concretamente,
boa e t in h a muitos parentes"; "min h a família tem vários parentes aqui em é o trabalho o n úcleo articulador e defin idor da tecnologia empregada. O
Canarana"; "porque o vovô estava moran do aqui". Muit as vezes, a família colono gaúch o vive sob o primado do trabalho.
foi migran do aos poucos para a nova localidade na fron teira, de modo a
O primado do trabalho é, na verdade, o primado da família. O trabalho
estabelecer uma base segura de sobrevivên cia. Além disso, a decisão de m i -
reproduz a família, na medida em que assegura a ampliação da propriedade
grar foi precedida de uma visita à localidade, uma conversa com os futuros
na exten são das necessidades de sobrevivên cia de todos os seus membros.
vizinh os, uma avaliação das possibilidades de que, de fato, ali fosse u m
E assegurando a existência da propriedade que o pai de família cumpre o
lugar de fiituro.
seu dever de garantir aos filhos a terra suficiente para que possam, por sua
U m segundo componente é o trabalho. As próprias crian ças dizem vez, con stituir família. O empreendimento n ão resulta, primordialmen t e,
que migraram para trabalhar. De fato, en con trei muitas delas à n oite, na de uma lógica econ óm ica. Ele é produzido pelo familismo que, por sua
escola, fazendo o curso n ot u r n o, porque de dia trabalhavam com os pais, vez, n ão se separa da economia. É nesse sentido que, na fala das crianças de
na lavoura. Para elas, o trabalh o é missão e m issão familiar. A família se Canarana, a família aparece como família que trabalha (e n ão apenas como
m an t ém através do trabalh o de todos os seus membros, independente-
pessoas que trabalham) e que teme profundamente a falta de possibilidade
mente da idade.
de trabalhar. Ricardo S., de 12 anos, explicou-me isso de modo simples:
As crianças de Canarana, espontaneamente, comparam a vida de antes, "n ós estamos aqui no Mat o Grosso trabalhando pela vida".
no Rio Grande do Sul e em outros lugares, de m u it o trabalho na terra pou- O afã do trabalho n ão deve ser tomado como o afã de en riquecimen to.
ca e cujos resultados n ão garantiam o futuro da nova geração, com a vida Ivete D., de 14 anos, disse-me que os pais foram para o Mat o Grosso "para
de agora, na fron teira, em que o m u it o trabalho na terra ampla assegura, comprar mais terras". Mas acrescentou em seguida: "meus pais n ão vieram
em prin cípio, que a nova geração terá o mesmo modo de vida de seus pais. para cá para fazer fortun a, e sim para terem u m fut ur o para eles e para n ós,
Todas se referem à melhora de con dições de vida. Porém, essa melh ora n ão seus filhos". Jane G., de 15 anos, t am bém preocupou-se em dar esclare-
112 FRONTEIIV\ KK.IMAR t SEUSAMIGOS 113

cimento idêntico: "meus pais não vieram a fimde ficar rico, como todos conhecimento, bens equipamentos, produzidos pela expansão do capital,
pensam, mas a fimde ter um fiituro melhor para nós e, mais tarde, para (|ue se tornou a mediação fundamental no processo de reprodução da
seus filhos [sk]". Jo
séV., de 14 anos, tam bémagregou: "daí surgiu a ideia agricultura familiar.
devirmos para cá, pois nós pensamos num fiituro melhor para nós, princi- As categorias que explicamesseprocesso cíclico, que incorpora a inovação
palmente. Pois nossos pais já não estão mais tão novos, daí aherança ficaria na repetição, aparecemna linguagemdas criançascomo categorias empres-
para nós". A multiplicação da áreade terra que cada fam íliapossui, em tadas de outras situações e outras relações sociais. A consciência se move
relação ao que possuíano Rio Grande do Sul, é assinalada por todos. Mas numâm bitoconceituai postiço, que explica a realidade social do trabalho
não deve ser tomada como busca de enriquecimento. Ariqueza pela rique- pelos conceitos de ummundo emque o capital parece mover-se sozinho.
za, no sentido capitalista que poderia ter, ainda aparece como umfator de A única noção que corresponde à realidade da vida dos colonos de
vergonha, como se fosse ilícita. Daí a pressa emexplicá-lae justificá-la. E Canarana e, tam bém , de suas crianças é a de trabalho, mas de trabalho
que a ampliação da propriedade, conseguida com a migração para uma concreto, e não abstrato: trabalho que, basicamente, produz arroz. O fato
áreapioneira, onde as terras são mais baratas, eos bens correlatos (tratores, de as terras do lugar estarem esgotando-se rapidamente, devido às pecu-
caminhões, colhedeiras etc.) são acumulados para seremdesacumulados: eles liaridades das terras do cerrado e devido à falta de calcáriopara neutrali-
se destinam aos herdeiros. A herançapromove uma desacumulação cíclica zar a acidez do solo, co m eçav aa produzir umcerto temor. Luiz C, de 14
dos bens do camponês. Nesse sentido, alguémque reconhecesse estar com- anos, assinalou que "o pior [é] que não estádando mais arroz, as terras
prando mais terras para ficar rico, estaria necessariamente traindo o dever estão enfraquecendo e temos que tomar outras providências para outra
moral de repartir entre os filhos os bens acumulados para o trabalho. Train- plantação ou criar gado". Esse temor aparece associado à eventualidade
do e subtraindo. Como se fosse apropriação indébitade algo que pertence de terem que se dedicar a outra cultura, diferente da que já conhecem
a outro porque pertence a todos os membros dafam ília. desde o Rio Grande, que é a cultura do arroz. Basicamente, é como se a
Essas combinações definem o âm bito e o modo de constituição do mercadoria ainda fosse concebida no privilégiode seu valor de uso, e não
futuro. Definem, portanto, a realidade e as possibilidades da infância. de seu valor de troca. No momento da pesquisa, as criançasco m eçavam
Assimse produz a condição de herdeiro- o filho é o herdeiro. A infância a interpretar sua nova situação, no Mato Grosso, nos mesmos termos
éoperíododa vida emque acriançasepreparapara herdar. Énesse sentido em que explicavam as razões de sua saídado Rio Grande do Sul. Uma
que ir àescola é, tam bém , umtempo de trabalho etempo de necessidades diferençaapenas mantinha o compromisso com a ideia de produção do
que prepara o herdeiro para o salto social, económ icoe técnicoque cons- futuro: a de terem muito mais terra do que tinham antes, no m ínimoo
titui a nova escala da agricultura familiar, sua dependência emrelação ao dobro. Na verdade, uma indicação do início prematuro do processo de
grande capital eà tecnologia. O destino de cada uméodestino doherdeiro esgotamento do ciclo de reprodução da agricultura familiar, que até aqui
e a vida é uma estratégiade adultos e criançaspara constituir o patrim ô- temculminado comnova migração para a frente pioneira. Os elementos
nio dos herdeiros. Desse modo, a vida real e cotidiana do agricultor de da desagregação de determinado ciclojá sefazempresentes desde o início,
Canarana move-se permanentemente ao redor de umeixo de tempo que é o que parece indicar que a ruptura e a migração são gestados longamente
a presunção do futuro, o tempo do herdeiro, da geração seguinte. Mas um e não procedemde uma constatação súbitae improvisada. Desde o início
futuro finito: o ponto de chegada ainda é o ponto de partida, o recom eço de cada ciclo, já se vai produzindo a percepção e o registro, na m emória
da agricultura familiar do pai provedor. Otempo écircular. Ao fimde um dos membros da fam ília, inclusive das crianças, dos elementos desagrega-
período, está-sede novo no ponto de partida.^ P orém , assinalo, esse ponto dores que comprometemoprojeto de reprodução da relação entre fam ília
já não é o mesmo da geração anterior. O recom eçojá incorporou técnica, e trabalho. E ao produzirem essa interpretação negativa, privilegiam e
RLGIMAR I M US AM KiOS 115
HA FRONTEIRA

iicncia e reprodução da família na agricultura familiar. Nesse sentido, ele


reforçam a ideia (e uma estratégia) do retorn o cíclico a uma nova base
para a agricultura familiar. SC concebe como trabalhador que é patrão de si mesmo. Por isso, n ão vê
o comprometimen to con t ín uo do projeto de reprodução da família como
As outras n oções que procuram dar sentido à prática desses trabalha-
produtora independente no mercado, que é de onde o capital extrai o exce-
dores, aparentemente, nada t êm a ver com ela. Apaulin a G., de 11 anos,
dente produzido pelo colon o. Por isso, explica suas dificuldades econ ômi-
explicou-me que sua família de pequenos agricultores m igr ou do Sul "por-
c as pelo empobrecimento do solo, pela deterioração da natureza, pois esses
que nosso ordenado era m u it o pouco". Mesmo sendo famílias de pequenos
iatores podem ser compreendidos e explicados pela lógica da auton omia
agricultores au t ón om os, ela usa a linguagem do salário e do trabalho as-
econ ómica do colono, auton omia que é apenas aparente.
salariado para u m patrão. E Élio P. esclareceu que sua família saiu do Sul
Essa combin ação de ambiguidade e ocultamen te está amplamente pre-
"porque lá n ós n ão t in h a m u it o capitar, referindo-se a que "n ão t in h am
sente na socialização das crian ças, na sua in terpretação da vida e dos proces-
m u it a terra", mesmo n ão se referindo a uma situação em que o capital
sos sociais que vivem. Ela marca a con sciên cia da crian ça e do adolescente,
compra a força de trabalho de quem n ão a tem, pois sua família trabalha
impelindo-os a aceitar a ocupação do tempo da infância pelo trabalho e
para si mesma. Lin or E, de 14 anos, por sua vez, disse-me: "n ós temos
pelo estudo, concebido como trabalho e complemen to do trabalho. Ilusão
m u it o capital, mas 'tá quase tudo pago". Luiz G., de 14 anos, in terpretou
cruel que cria a possibilidade de ser crian ça, de ter in fân cia, para ocupá-la
sua migração do mesmo modo: "n ós viemos cá para melhorar a vida e para
com os encargos do trabalhador e as preocupações do adulto, para n egá-la.
ter mais capital, plantar arroz". O que esses adolescentes e crianças dizem é
que o fruto do trabalho é o ordenado, o salário. Mas os meios de trabalho,
e estão pensando particularmente na terra, são o capital. Elas se pensam e
pensam suas famílias vivendo uma unidade real, mas conceitualmente i m - O adulto no corpo da criança
possível, pois se veem vivendo na duplicidade de duas situações de classe.
É bem diversa a realidade da criança nos povoados de São Pedro da
Elas se autoclassificam por meio de ideias alheias, de classes sociais que são
Águ a Branca e de Floresta, no Mar an h ão. São povoados de posseiros, pe-
outras - a classe operária e a classe capitalista.
quenos agricultores que n ão t êm título de propriedade da terra que ocu-
De u m lado, u m "ordenado" que é, na verdade, últ imo resíduo, resto,
pam, sujeitos facilmente ao despejo que, no mais das vezes, é simples e
ganho gerado n o trabalho, mas realizado através de uma teia de relações
violen ta expulsão pela ação direta do fazendeiro e de pistoleiros, com a
em que o capital verdadeiro n ão está nas m ãos do agricultor, pois é o capi-
con ivên cia da polícia. Diferente da situação dos colonos do Mat o Grosso,
tal dos produtores de equipamentos, de insumos agrícolas, de comercian-
que são proprietários da terra, com direitos assegurados.
tes de arroz etc. Não é, por t an t o, u m ordenado verdadeiro. Ele trabalha
Ao con trário do que aconteceu em Canarana, nos dois povoados ma-
para si mesmo, e sabe disso, pensando-se, por ém , por meio de catego-
ranhenses as crianças falaram de amigos e de brincadeiras. Em sua relação
rias de quem trabalha para out r em. No entanto, o salário está presente
com a vida de todo dia h á claramente a mediação do lúdico, apesar dos
na con sciên cia do trabalhador com uma dimen são cósmica e n atural de
muitos problemas vividos por suas famílias. Algumas tentaram ensinar-me
tempo que o salário do operário n ão tem. O "ordenado" desse pequeno
versinhos de cirandas e brincadeiras de roda. Mas foi em Floresta que ouvi
agricultor deve prover n ão só a subsistência da família, mas t am bém a sua
de An t ôn io E, de 11 anos, esta afirmação crua: "nunca fu i feliz em min h a
permanência na agricultura.
vida". E esta outra, de Ar ist on C., de 11 anos: "eu sou u m men in o peque-
De outro lado, u m "capital" que é pago e acumulado diretamente pelo
n o. Eu passo mal porque aqui n ão tem as coisas que a gente gosta". Mar ia
trabalhador, com parte do "ordenado", parte daquilo que ele ganha como
N . , de 13 anos, cuja ir mã é meretriz em Caxias (MA), disse-me: "eu vivo
trabalhador, e n ão como capitalista, pois é capital que já pertence à perma-
116 FRONTEIRA RK. IM A K I M US AMK.OS 1 17

triste porque sou filha de pequeno lavrador e está arriscado ficarmos sem posse, isto é, que compraram de outro a posse já feita, o serviço, a terra
terra para papai trabalhar, bem como [os] pais de muitas outras crianças l>rocada. São vendedores alguns dos posseiros que estão part in do, que já
desta região. Se assim suceder, que vamos fazer na vida?". Mar ia de Fáti- foram ameaçados ou que já pressentiram a ameaça de expulsão por parte
ma R., t am bém de 13 anos, disse-me que sua vida "é uma vida pensativa. do suposto don o da terra. São vendedores, t am bém , os "trambiqueiros" de
Passa uns tempos bons e outros ruins. Mas dá da gente viver assim mesmo. icrra, cuja atividade essencial n ão é o trabalho agrícola, mas a abertura e
Porque [ser] pobre [em] todo lugar é r u im ". A alegria da brincadeira como venda de posses de terra. Dar li, do segundo ano pr imár io, escreveu que,
exceçâo circunstancial é que define para as crianças desses lugares a infân- "assim que n ós chegamos aqui u m h omem foi lá em casa vender uma roça
cia como u m intervalo n o dia, e n ão como u m período peculiar da vida, c nunca pagou", isto é, nunca a entregou. E completa: "falta é muit a coisa
de fantasia, jogo e brin quedo, de amadurecimento. Primeiro trabalham, neste lugar [...], falta un ião neste lugar". Dar li denuncia, assim, o n úcleo
depois vão à escola e depois brin cam, n o fim do dia, na boca da n oite. A problemático do processo em curso, que é a falta de união, a pobreza trans-
infância é o resíduo de u m tempo que está acabando. formada em carência moral. Isto é, o fim das lealdades básicas, o próprio
Aqu i a in fân cia n ão é definida pela con dição do herdeiro, que justifica pobre tentando lesar o pobre em n ome de uma mediação estranha e mar-
o trabalho da família para acumular a h eran ça a ser repartida na maior i- ginal à vida tradicion al do campon ês - o din h eiro, in strumen to da trapaça,
dade dos filhos. Aq u i n ão h á herdeiros porque n ão h á o que herdar. "Nós que deixa de ser assim expressão do trabalho (e do valor por ele criado)
vamos embora", escreveu com dificuldade o men in o Nascimento B. "Aqui, para se con stituir em n egação do trabalho.
n ós [não] pode trabalhar. O pobre [não] pode viver onde n ão [pode] tra- Porém, h á uma polarização maior que dá sentido a todos os desencon-
balhar". Mu it os, que h á pouco tempo chegaram, disseram que já estavam tros e carências. Essa polarização surge n o momen to em que se desvenda
de partida porque n ão podiam fazer roça. Porém, mesmo que o lugar seja a realidade de n ão ter terra para trabalhar. Valnez L. veio de Pernambuco
bom , a migr ação, a busca, é u m dado da vida, como aconteceu com a porque sua família ouviu dizer que "o São Pedro da Águ a Branca era bom ,
família de Iraci O ., que m u dou de Açailân dia para São Pedro: "saímos mas acho r u im , porque n ão é a liberação livre - os lavradores n ão têm roça
sem mot ivo n en h um". A viagem n ão é como a dos gaúch os, cinco dias, para trabalhar...". Vera Lúcia B., cuja família chegara h á poucos dias, disse-
uma semana, de camin h ão, desde o Sul at é Canarana, n o Mat o Grosso. me que "n ós viemos para São Pedro porque sempre 'via algumas pessoas
Uns chegaram a São Pedro de barco, até onde deu, outros a pé, outros em falar que São Pedro era u m lugar ót im o. Nós estamos gostando. Só n ão
lombo de burro. Estevam O ., que veio de Goiás para São Pedro, deu n ome gostamos mais porque o lugar tem dificuldade para os lavradores, porque
aos bens dos pobres, nessa vida de migrantes sem h eran ça e sem herdeiros: n ão têm o direito de trabalhar em terras livres [...] En t ão, isto é uma difi-
cacarecos e bagulhos, que podem ser levados facilmente de u m lugar a outro. culdade para os pobres...".
A pobreza facilita a migração, como esclareceu Mar ia de Jesus G.: "eu vou A polarização que in dica o lugar do pobre n o mun do surge quando as
sair de São Pedro porque n ós n ão tem nada". E lamenta que, na últ ima crianças reconhecem o agente imediato da inexistência de terra para o pobre
m u dan ça, o "nosso pote foi n o m ot or ", esquecido que ficou n o barco. Era botar roça. Um a das crianças explicou que "São Pedro é u m lugar pobre.
a perda que t in h a para lamentar. Quando os lavradores estão trabalhando, os donos chegam e man dam pa-
"Cacarecos" e "bagulhos" falam de u m trabalho que se materializa ape- rar com o serviço. Por isso já foi muitas pessoas embora...". E à medida que
nas nesses bens residuais e cotidianos, apetrechos de sobrevivência, opostos essas crianças falam sobre a situação vão revelando personagens, categorias,
aos bens de raiz, que dão sentido ao trabalho do h omem do campo. O que regras que demarcam e definem as ocorrên cias e sua in terpretação. Regras
n ão exclui o posseiro que compra posse de outro. De fato, em São Pedro, que t or n am reconhecíveis o adversário antes invisível e, em con sequên cia,
h á duas categorias de posseiros: os que abriram posse e os que compraram as novas carências que redefinem a con dição de pobre. Evarista R disse que
118 FRONTEIRA kl CIMARi: SEUSAMIGOS 119

"o problema deSão Pedro [é] porque os lavradores não podem trabalhar, baianos tomarem". Das criançasde São Pedro, Helena O., vinda de G oiás,
porque os donos das terras não deixamtrabalhar. Eamaioria do povojá foi Icz orelato mais rico dos acontecimentos: "...os baianos estão tomando as
embora, porque os donos de terra não deramroçapara eles trabalharem". torras dos pobres. Eos polícias doSão Pedro daÁ guaBranca surramos
Regina Etam bémafirmou "que os pobres não têmdireito emterra para pobres, porque os baianos queremtomar as roçasdos pobres. [...] teve uma
botar uma roça. Quando estão trabalhando, os donos chegame mandam guerra muito forte de balas, que os pobres tiveramnoites de sono [insónia]
parar comoserviço. Por causa desses problemas já foram muitas fam ílias porque não podiamdormir...". João B. tam bémse refere à polícia: "os po-
embora do São Pedro". Omenino Armando de O., do segundo ano, conta h'cias não queremdeixar os lavradores botaremroça".
que "antes denós chegarmos aqui, opovo falava [que] oSão Pedro é bom.i No povoado de Floresta, há, igualmente, uma designação para os que
porque não temdono deterra. Quando nós chegamos, já foi a confusão querem expulsar oslavradores. Cleber M., de 13 anos, disse que "os mi-
de terra. Os donos de terra disseram: não faz roça. Papai jáestava roçando; neiros querem tomar terra aqui daFloresta". Eomesmo disse Maria N.,
não parou otrabalho. Umdia odono daterra parou oserviço". Josefa P, tam bémde 13 anos: "os mineiros queremtomar as terras dos lavradores".
tam bémdosegundo ano, indicou quem são osparticipantes da situação O não ter terrapara trabalhar não deriva seu sentido diretamente da
e oque ocorre com eles: "... opapai vai sair daqui porque opobre é que propriedade edodireito depropriedade. Deriva-o doadvento do dono,
bota roçaeos mais ricos tomam dopobre, [que] fica só olhando". Maria que tam bémnão éreconhecido como proprietário, pois éencarado como
C. disse que "nós vamos sair do São Pedro porque ohomemtomou a nossa alguémquesetornou dono deterra livre e comisso interpôs-seentre o
roça[...] e comas confusões nós ficamos desanimados". lavrador e alivre liberação da terra. Nainterpretação das crianças, trata-
Algumas crianças nomearam quem cria esses problemas. Valdineto S., se da interposição deumaautoridade, enão da imposição da propriedade.
de SãoPedro mesmo, disse que "osbaianos nãoquerem deixar o povo Os donos sãoclassificados como osque nãoquerem deixar brocar ou
brocar". Lenildes V., recém -chegada, disse que São Pedro "é umpovoado fazer roça, não dão terra para trabalhar, tomam aroçados lavradores. Em
sensacional e, se não fosse esta confusão, seria melhor porque oSão Pedro Floresta, A ntônioC, de 14 anos, explicou-me que "os mineiros querem
'tava maior do queestá: amaioria do povo foi embora por causa desta tomar, aqui, os direitos nossos. Queremdeixar nós, aqui, semnada. E, se
confusão, destes baianos não quereremque opessoal fizesse roçana terra. eles tomarem as terras, como éque os parentes vão trabalhar? Não têm
Chegou tanta gente e agora opovo foi ficando commedo". Maria Salete B. direito. Tudo tomado, aí". As criançasdeSão Pedro edeFloresta enten-
tam bémafirmou que "os baianos não dão terra para os lavradores trabalhar demque suas fam ílias, eparticularmente seus pais, estãosendoprivadas do
e, quando os homens estão brocando, os baianos mandam embora". Ma- direito detrabalhar; os direitos é que estão sendo tomados, tirados do outro.
guinali B. não estava achando São Pedro umbomlugar porque "os pobres Essa privação aparece como consequência do nãoquerer, donãodar e
não têm direito debotar uma roça: quando ospobres estão trabalhando, do tomar. Ou seja, de umamedida de autoridade, dopoder pessoal e,
os baianos mandam searrancar". EMaria Oneide tam bémafirmou que portanto, deuma violência. Essa violência incide, para as crianças, dire-
"os baianos não dão roçapara os pobres. Por isso, os pobres jáforam muito tamente sobre o trabalho, noato de trabalhar. Éno momento do trabalho
embora. Por isso, os pobres náo podemviver sema lavoura". Raimunda S. que aparecemos "baianos" e"mineiros", os supostos donos e os policiais,
disse que "não temterra para os lavradores trabalharem. Se os homens vão para fazer cessar o trabalho.
trabalhar, os baianos mandamparar como serviço". A ntônioP, do segun- E coma violência do dono que as criançasreconhecem seus pais ea si
do ano, vindo de Altamira do Maranhão, repetiu que "não temterra para mesmas comopobres. Acategoriapobre surge sempre que énecessáriofalar
a gente trabalhar. Quando umpobre vai botar uma roça, os baianos vãoe na violência do dono. Semisso, quando a fala ainda é sobre terras semdo-
tomama roçado pobre. Aí os pobres vão botar uma roçasomente para os nos, as criançasfalamde os homens, deopovo. Dono éuma diferenciação
120 FRONTEIRA Kl I.IMAK I M US AM It .Ob \.ÍA

da categoria homem,^° que a degrada e desfigura, porque viola o direito do Mas o dono ainda não é o contrário do pobre. É aquele que se desvia das
outro trabalhar e viver. O pobre surge, pois, dessa degradação dos homens icgras que definem o que são os homens, na medida em que, ao se apropriar
pela mediação do dono, que desfigura o homem. Pobre não é aquele que tia terra, não permite o trabalho dos lavradores, mas poderia permiti-lo se
não é proprietário, mas aquele que não tem direito de trabalhar, isto é, o quisesse. A lógica da cerca poderia ser submetida à lógica do homem. Esse
aquele que não tem permissão. Dono tem, portanto, também o antigo desvio constitui ininteligível violação de direito para as crianças. Mais gra-
sentido de dom, de senhor, aquele que dá, aquele que permite, que consen- ve porque os donos expulsam os pobres da terra no próprio momento em que
te, que tem o senhorio, o domínio sobre algo, e não o que definimos hoje estes fazem a roça, no próprio ato de trabalhar. Tomam a terra brocada ou a
como propriedade. roça e, nesse sentido, se apropriam do trabalho do pobre. Fazem-no para
cercar a terra e formar o pasto, para criar gado. Portanto, a roça não tem
As crianças pressentem que há algo por trás do aparecimento do dono.
para eles qualquer valor. A mesma menina, Elsa Maria, fez um julgamento
Já o indicam quando falam na participação dos policiais na violência con-
conclusivo, que sintetiza de modo notável a ruptura de mundo que se dá
tra os lavradores, os pobres. Porém, quase não falam na polícia, na insti-
com o advento dos donos de terra: "Gado sem arroz ninguém come". Os
tuição, mas na pessoa em quem se manifesta o poder de polícia: dizem os
supostos donos de terra são criadores de gado ou precursores dos pecuaris-
polícias, e não a polícia. O policial é, também, diferenciação da categoria
tas. Os posseiros pobres são plantadores de arroz. Na refeição dos pobres
homens, mas sua diferença deriva da existência do dono, a quem serve,
do lugar, o arroz é o alimento e a carne é a mistura,''^ o complemento. O
embora não seja legalmente essa a sua missão. Mesmo quando aparece a
arroz é a comida do trabalho. A carne, escassa e cara, é a comida da festa e
palavra polícia, não é no sentido de instituição policial, mas da pessoa que do ócio. O arroz é o principal e a carne é o secundário. Arroz sem carne tem
age na condição de polícia, como nesta frase de Francisco E.: "aqui a po- sentido. Carne sem arroz não o tem. A comida não é supérflua na vida do
lícia tem batido no povo". Notam, porém, que o dono é alguém que vem posseiro. Ela é, também, o limite. A menina Ducilene B., de São Pedro,
do lugar do poder. Iraci B. escreveu: "eu não estou mais gostando daqui cujo pai estava longe, no garimpo, disse-me que sua família havia perdido
porque aqui está de confusão. Quando a gente compra uma terra, chega tudo, porque comera tudo o que tinha. Essa associação entre o ter e o comer
um de Brasília e diz: esta é minha. Aí, pronto, a gente perde a terra e o define o ter pelo comer e, portanto, a precariedade do ter, um ter reduzido
dinheiro". Essa referência a Brasília e à relação entre o dono e o centro ao que se pode comer. O arroz constitui, assim, naquela região, alimento que
do poder no país não corresponde à realidade imediata do conflito de São simboliza a própria vida, recurso do limite da sobrevivência. Ele é quase
Pedro. Mas intui o relacionamento entre o poder e o fim da liberdade da tudo o que as pessoas têm ou podem ter nesse precário ter.
terra para os pobres, que é, na verdade, o advento, em suas vidas, da pro- O cercamento do que fora terra de arroz (e de pobre) para transformá-la
priedade que pertence a outro. em terra de gado (e de dono), no antagonismo que encerra, introduz uma
Em Floresta, Maria N . , de 13 anos, disse-me que os "mineiros querem equivalência aparente entre alimento e mistura, que subverte as concep-
tomar as terras dos lavradores [...], terra para trabalhar [...]. Querem a terra ções e as relações sociais. Arroz e carne, antes distinguidos qualitativamen-
para cercar. Os lavradores não estão achando certo. Vão trabalhar em quê?". te, tornam-se quantitativamente equivalentes, reduzidos à mesma quali-
E Elsa Maria, de 12 anos, também diz que estão cercando a terra para fazer dade pela mediação quantitativa do preço e do dinheiro. O dono de terra
pasto. O que dizem é que a terra já está dividida em terra para trabalhar e aparece no lugar como agente do dinheiro, isto é, do capital e, portanto,
terra para cercar. O destino da terra foi mudado e é ele que impõe quem a dessa subversão na vida dos pobres. Não é mais o comer que classifica a im-
ela tem direito. Uma concepção de antagonismo surge aí na constatação de portância das coisas, o destino do trabalho, o uso da terra, as relações entre
que terra para cercar é negação de terra para trabalhar. as pessoas, a união. Agora, em seu lugar, está o ganhar. Antes, os homens e
122 FRONTEIRA Rl CIMAR I SLUSAMIGOS 123

suas necessidades constituíam a medida das coisas e da vida. O mercado tância, voltou anunciando que "o lugar parecia um céu, era bom demais
era complemento. Agora já não é assim: a medida é o capital, ou melhor, pra um pobre morar". Venderam o que tinham e foram, num grupo, para
a renda da terra. Por isso, não decorre daí apenas a tomada da roça do po- Caracaraí, onde havia trabalho na construção de uma estrada, atravessando
bre. Decorre, também, a sua humilhação, como técnica para expulsá-lo da o conflitivo território da guerra dos brancos contra os índios waimiris-
terra. Marilene G. de São Pedro, denunciou: "... aqui, até um corte de roça atruahis. "Chegamos no Caracaraí, a firma soube. Que [se] lá a gente não
eles tomam do povo. Eles botam no formigueiro e batem muito. O papai tiver dinheiro, a firma ajuda a gente. E levou nós. Chegamos aí no terri-
tinha um corte de roças e eles tomaram". Marilene se refere à violência de tório, papai arranjou um bocado de coisinhas, ele se empregou, a mamãe
alguns dias antes do nosso encontro, quando um posseiro de São Pedro se empregou também, eu fiquei estudando no colégio. Aí eu estudava. Eu
foi torturado e amarrado sobre um formigueiro de "formigas-de-fogo", aí vinha do colégio, fazia um almocinho, comia, deixava pra mamãe. Aí eu
permanecendo durante muitas horas, à vista de todos. Marinalva G. faz voltava, ia trabalhar de bordar". Regimar viveu em Caracaraí dos 7 aos 11
denúncia idêntica: "eles batem tanto que os pobres ficam com a mão in- anos, levando essa vida. Mas o pai ouviu falar das terras livres de São Pedro:
chada que faz pena". Não é demais lembrar que se trata de bater na mão "papai enlouqueceu pra vir para cá. Chegamos, ele tá falando de voltar de
com palmatória, velho instrumento de castigo de escravos e crianças. Ou, novo [para Roraima]". "Nóis véve mal aqui. Ruim de vida, mesmo". Antes
então, com a lâmina do terçado. A ferramenta do castigo carrega consigo o pai não passava "sem um dinheirinho no bolso, que nem aqui ele 'tá pas-
forte simbolismo de classe. Não só humilha aquele que apanha, mas tam- sando". Também ele foi expulso da terra pelos "baianos". Teve de sair de
bém indica o seu lugar social em face daquele que impõe o castigo. "Levar onde estava botando roça. "Agora ele 'tá trabalhando muito longe. Ele sai
bolos" nas mãos, isto é, apanhar de palmatória, é castigo que se inflige a de casa bem de manhã e chega lá só meio-dia. Muito longe. Mais de três
quem está na condição de menor e subalterno, a quem não tem direito de léguas [quase vinte quilómetros]".
ter a própria vontade, a quem está obrigado a obedecer. "Seu" Cassiano, pai de Regimar, está botando a última roça no Mara-
As crianças de São Pedro e de Floresta entendem que seus povoados nhão para conseguir recursos e poder voltar a Roraima. Vai voltar só, para
deixaram de ser bons lugares para viver quando seus pais, os posseiros, se empregar. "Depois é que manda a firma vir buscar nós, pra nós ir de
começaram a ser ameaçados, atacados e impedidos de trabalhar. Disseram novo pra lá", diz Regimar. "Lá é bom mesmo pro pobre viver, porque pra
mesmo que só é bom o lugar onde a terra não tem dono. Armando B., cá um dia de serviço é trinta, pra lá é cem cruzeiros. Só um dia de serviço!".
cujo pai perdeu a roça, concluiu simplesmente que "aqui não tem justiça", Regimar gostava muito de Roraima, "porque lá era melhor, é um lugar
o que, aliás, é verdade no mundo do poder pessoal. grande. Só não gostei mais porque não era do Brasil. Era estrangeiro'.
Foi a pequena Regimar E, de 11 anos, miúda e arrumadinha, que, sen- Tanto em São Pedro quanto em Floresta, as crianças entendem que as
tada ao lado da trincheira do recente tiroteio dos posseiros contra o grilei- pessoas têm o seu lugar, um lugar a que pertencem e que lhes pertence, ideia
ro, que se diz dono da terra, em revide a um ataque que sofreram, ao lado que não se confunde com a de propriedade. Quando começam a chegar os
da escola, falou-me da sua vida de criança adulta e demarcou o espaço agora donos de terra, que não deixam brocar e tomam as roças para fazer pasto e
duplicado, o dos pobres e o dos donos, numa carta geográfica imaginária, em cerca, recebem uma denominação que os diferencia dos homens, do povo,
que toda a força do mundo que acaba, e que foi subjugado, ganha contor- como vimos. São considerados estranhos, forasteiros, no sentido de estran-
no de esperança na aventura de uma nova migração. Só (\\xejá não se trata geiros. São mineiros ou baianos, são defora, não são de dentro. Porém, todos
de buscar a terra livre, mas de escapar da cerca e da humilhação. os posseiros dessas duas localidades são migrantes, vieram de outros lugares.
Sua família é de Nova Caru, no Maranhão. Um irmão mais velho, que Por que, então, não se consideram a si mesmos de fora e não reconhecem
estivera no território de Roraima, a mais de 1,3 mil quilómetros de dis- nos estranhos os mesmos direitos que julgam ter no lugar? Porque eles.
UA KRONltlKA Ul (,IMAI( I M II' . AMICO'. i.">

posseiros, vieram para trabalhar. É o trabalho, a roça, que justifica e legiti- don o de terra, transformou-o em estranho em sua pr ópr ia terra, privou-o
ma a per man ên cia. Não chegaram ali buscando terra. Chegaram buscando <li' seus direitos de botar roça, torn ou-o u m h om em sem direit o, isto é, um
u m lugar para trabalhar e viver. Os outros vêm como donos de terra, e n ão l>(>hre. As crian ças de São Pedro faiam constantemente dos que estão in do
como homens de trabalh o; n ão vivem n o lugar, isto, é n ão compar t ilh am a iin bor a, mais uma vez. E Regimar fala de u m lugar, que ela julga u m céu,
labuta da terra e, portan to, n ão fazem parte do m u n do dos pobres. Outros, um país estrangeiro, Roraima, "b om demais pra u m pobre morar". Lá h á
até porque são agentes de violên cia e de privação. A ún ica outra forma de trabalho e o trabalho do pobre vale mais do que na terra onde eles n ão
legitimar sua presen ça e seus direitos seria através do cumpr imen t o das
têm mais lugar. Lá longe o pobre sempre t em u m din h eir in h o n o bolso. E
obrigações de dono - o respeito às roças e ao serviço dos lavradores. Nesse
(|uem cuide dele.
âm bit o, as relações seriam de favor e, por t an t o, de reciprocidade. N ã o o
Na utopia da família de "seu" Cassiano, lá no "estrangeiro", para onde
são, por ém . Em suma, o que as crian ças disseram é que o lugar de cada um
vai, as velhas regras da reciprocidade são respeitadas. A firma, da qual vai
é o lugar de seu trabalho, o lugar em que tem direito de trabalhar.
ser, na verdade, u m assalariado, é vista como o pat r ão provedor, que agrega
O con fr on t o com o de fora, o don o de terra, reveste-se de u m certo
c protege o trabalhador e sua família. Sabe que está perdendo sua liberdade
nativismo. Com o men cion ei antes, os posseiros de São Pedro tocaiaram,
e foi por isso que volt ou às terras livres do Mar an h ão, t am bém elas já sub-
prenderam e desarmaram, n uma verdadeira operação de guerra, os soldados
metidas ao cativeiro da cerca. Esse camin h o estava atravessado pelo arame
da Polícia Milit ar do Pará que, a serviço do grileiro, do don o de terra, para
farpado da propriedade privada. Vai ter de voltar. Regimar, por seu lado,
ali se dir igiam a fim de atacar e expulsar os lavradores. Os soldados pre-
não pode ver e compreender que se sua família precisa da firma, a firma
sos foram entregues à Polícia Milit ar do Mar an h ão. Os posseiros agiram
precisa da força de trabalho de seu pai, de sua m ãe, de seus ir m ãos. E que
como se estivessem defendendo os limites de seu estado con tra a in vasão
de força armada de out ro estado. Sabiam, por ém , e o disseram, que esta- esse trabalho deixará de existir com o t ér min o da con st r ução da estrada.
vam defendendo seu povoado, suas vidas e suas posses. Para eles, aliás, seu Tam b ém n ão pode ver que u m adulto já nasceu no in terior do seu corpo de
estado e suas posses n ão correspondem a realidades diferentes entre si. São crian ça, obrigada a cuidar dos afazeres de casa e trabalhar fora, além de ir à
a mesma coisa, são o seu lugar. Por seu lado, o pai de Regimar retorn ou ao escola, enquanto a m ãe trabalha. Com os olhos nos direitos que os homens
Mar an h ão com a família, depois de ter estado em Roraima, porque queria devem ter, n ão pode ver que o capital m obilizou e in cor por ou à força de
"voltar para o lugar dele". Mas os "baianos" já estavam expulsando os po- trabalho toda sua família, inclusive ela mesma, sem cujo trabalho a m ãe
bres da terra. O lugar já n ão era dele, mas do estranho, do de fora. E Cleber teria de deixar de trabalhar fora, reduzindo a oferta de m ão de obra para o
M . , de Floresta, pergunta: "Por que os mineiros vêm lá do terreno deles, capital nas terras violentas da fron teira mais remota. Mas n o Mar an h ão já
pra lá, vem tomar terra aqui na Floresta, dos pobres? Devia acontecer é os não h á lugar para eles, pois n ão h á lugar para o favor e a reciprocidade. Em
mineiros irem embora. Mas eles n ão vão pro lugar deles, em Min as". Roraima, por ém , a m ãe de Regimar, além da possibilidade do emprego,
A chegada dos donos de terra n ão somente impede os pobres de traba- tem crédito na conta-corrente do clientelismo polít ico. Em Caracaraí, "a
lh arem no cult ivo do arroz. A cerca e o pasto proclamam que o trabalh o, m am ãe vot ou pro candidato e vai passar pra cidade. N ã o era cidade, agora
isto é, o cultivo do arroz, já n ão t em utilidade. Já n ão são as necessidades vai passar pra cidade". Vot ou , por t an t o, em plebiscito para decidir a auto-
do pobre que definem o uso da terra, mas sim o mercado e o lucro. Com n omia admin istrativa do lugar. Isso significa fun ções e empregos públicos
isso, o trabalho do lavrador tornou-se desn ecessário e o pr ópr io lavrador para políticos e cabos eleitorais, paternalismo em relação aos eleitores leais.
tornou-se supérfluo, sobrante, sem terra e sem destino. Na fazenda de gado Regimar, por t an t o, nos fala de uma entrada no futuro, no m u n do "estran-
n ão h á lugar para o cultivador de arroz. O estranho que veio de fora, o geiro" das relações da empresa e do capital, com os olhos e as esperan ças
KK.IMAKI MUS AMK.OS 127
l!6 FRONTEIRA

iKi vida, frequentemente em tarefas consideradas pesadas e, por t an t o, de


^passado, do clientelismo, do pat rão protetor, onde é bom para o pobre
Mver a sua pobreza. .ululto. Em ambos os casos, h á uma falsa infância. En tre os colonos, o tem -
po circular abrange u m per íodo em que a crian ça se prepara para o fut ur o,
mas o faz desde já fazendo o que fará na con dição de adulto, trabalh ando.
Mesmo uma atividade que a rigor n ão é trabalh o, como a escolar, já está
* * *
I ornada pela disciplin a e pelo afã do trabalh o. As crian ças n ão estudam , e
sim estudam para. En tre os posseiros, a in fân cia é resíduo de u m tempo
cm que houve infância, u m tempo que está n o fi m . Mesmo que o posseiro
H á uma dist ân cia n o tempo que separa as crian ças dos colonos do Mat o
sobreviva, seja pelo prolon gamen to de sua agonia social, seja pela vit ória
Crosso e as crianças dos posseiros do Mar an h ão. Essa distân cia é demarca-
sobre seus in imigos, median te a legalização do dir eit o altern ativo de pr o-
da pelo modo como o capital entra na vida de cada u m desses grupos. Os
priedade fundado n o trabalh o, que ele em parte representa, esse tempo e
Cjlonos compraram a terra, pagaram a renda fun diária à empresa de colo-
essa in fân cia provavelmente deixarão de existir. O r it m o e as necessidades
nização, que assim converteu terra em capital, têm título de propriedade,
da vida de cada dia estão sendo transformados; e t am b ém , para eles, m u i-
t t o direitos, adquiriram equipamentos modernos, tornaram-se fornece-
to do que era a subst ân cia do trabalh o au t ón om o e da liberdade está se
dores de empresas que comercializam o arroz em grande escala. Trabalham
convertendo em forma superficial, máscar a e m ediação, que os submete
P^ra o grande capital ao trabalharem para si mesmos. Vivem a ilusão da au-
ao processo polít ico e ao processo econ óm ico mais amplo. Nesse resíduo
t<)nomia na coesão da família, do trabalho sem patrão que un ifica o esforço
de in fân cia ainda h á fragmentos de dan ças populares antigas, literatura
das gerações. E n ão podem perceber que o capital tran sformou a família
oral do passado, teatro popular de outros tempos, jogos que celebram as
ein capataz de adultos e crian ças, homens e mulheres, velhos e m oços.
lutas dos cavaleiros e o amor r om ân t ico das donzelas. Mas o tempo dispo-
Já os posseiros n ão têm a propriedade da terra. Tam b ém produzem arroz
nível para o lúdico foi amplamen te sacrificado pelas carên cias cotidianas,
na escala pequena do r oçado, de onde t ir am pr imeir o a pr ópr ia subsistên -
que são t am bém am pliação de necessidades decorrentes do cercamento
cia para vender depois os excedentes previstos n uma escala de necessidades
da terra de trabalh o e da supressão da possibilidade de sobrevivên cia dos
que ainda n ão é imediata e diretamente regulada pelo capital. Sua relação
pobres do campo. Esses posseiros estão viven do o doloroso momen t o de
ct)m o capital é aparentemente tén ue, mas insidiosa e corrosiva, presente
sua con versão em m áo- de- obr a sobrante, que obriga o chefe de família
nas pequenas dívidas e carên cias, que, n o lim it e, forçam os pobres a comer
a abandonar o trabalho na terra para a mulh er e os men in os, en quan to
tudo o que t êm . E em outra dim en são que o capital invade suas vidas: na
as meninas substituem a m ãe na casa, e a buscar ganho nos garimpos de
e3:pulsão, na grilagem, na violên cia. O posseiro se transforma, assim, em
cassiterita ou na abertura de estradas em regiões lon gín qu as. De qualquer
obstáculo ao uso capitalista da terra. A terra já foi convertida em equiva-
modo, é o provisório. A rigor, suas crian ças já nascem sobrantes e, por
lente de mercadoria, seu uso já está antecipadamente regulado pelas neces-
isso, ao con t r ár io dos filhos de colonos, nascem sem destino. N o caso dos
sidades do capital, e n ão pelas necessidades do trabalhador: é a reprodução
colonos, a in fân cia já foi in corporada pelo trabalh o. N o caso dos possei-
do capital que está em jogo, e n ão a r epr odução do trabalhador e de sua
ros, foi marginalizada pelo trabalh o.
família. Ao con trário do que ocorre com os colonos, o posseiro ainda n ão
c^iu prision eiro, em escala significativa, da reprodução ampliada do capital. Em ambas as situações, h á u m compon en te com u m . Tan to as crian ças
dos colonos quan to as crian ças dos posseiros pensam sua vida em termos
Essa diferen ça faz com que ser criança, em cada uma dessas sit uações,
de fut ur o. Mas concebem esse futuro em termos de valores, modos de vida,
c<)nstitua u m modo diferente de viver essa fase da existên cia, ainda que
relações sociais, que são objetivamente do passado, de uma realidade que
aiíaren temen te igual. Em ambas, as crian ças trabalh am desde m u it o cedo
klClMAK I M i r . AMKiOS 1-Í9

128 FRONTtlKA

.l.PM. li.r. 'iio( inhiis"'. O i]uc lhe periiiiiiu constatar que: "Após a observação minuciosa e prolongada
está sendo desorganizada, m u t ilad a, transform ada, mas iifio Mi|>iiMilt | l I .í, iitn.i-. 'trocinhas', o pesquisador fica hal)ilitado a compreender certos aspectos do comportamento dos
I I I I M-tis próprios grupos sociais, dcsctivolvimento de sua personalidade, obediência a determinadas
En t re os colon os, porque a m igração para a frente pion eira rc-snuii.i .1 | H M
i • • 1' . q i i f cotntiniente escapam aos adultos em geral e aos pesquisadores mais afoitos ou menos treina-

sibilidade da econ om ia e do trabalh o fam iliar, revit alizan do, p o i í . i m n . ' < I liim-stan Vcrmmàcs, As tTocmhsiS do Bom Kcúro, Folclore e mudança social na cidade de São Paulo,
. I'M II.., Pilitora Anhatnbi, 1961, p. 157.
valores e con cepções que lhes correspon dem . En t re os posseiros, p i i i i | i i i 4
t • . i i i u l o (• O lugar do silêncio em face da fala foram compreendidos e analisados de modo rico e sugestivo
nova situação é produ zida pela violên cia, pela in justiça, pela cxclus.m. n tii I I.. i M i i i i p i i l o g o Luigi Lombardi Satriani. C f Luigi M . Lombardi Satriani, Ilsilenzio, la memoria e lo sguar-
assegurando u m n ovo lugar social para os trabalhadores e seus ( i l l u r , l ' i l . i m o , .Sellerio Editore, 1980, esp. pp. 27-31 e 34-7.
' ( j u - . f <le Souza Martins, Caminhada no chão da noite: emancipação política e libertação nos movimentos
transform ações que estão ocorren do. Nela, adultos e crianças s ã o I M I
• l i . 1 lis lio campo. São Paulo, Editora Hucitec, 1989, pp. 117-8.
vít im as. O sen t im en t o de pobreza é, em parte, p r od u t o do d e se iu i.niiti 'iiiliir esse a.ssassinato, há um bem-feito documentário cinematográfico de Murilo Santos, Qiiem matou Elias
entre o m od o de ser, que vem dos velhos tem pos, e o m od o de viver, i]in é .'/ , >l.i Brasiliana Produções Artísticas.
im post o pelos novos tem pos de privação. A nova realidade n ão c sat u i.itU I I Vicente Tavares dos Santos, Colonos do vinho. São Paulo, Editora Hucitec, 1978, p. 146 e 154.
I Ir. localidades que indico, a noção de os homens tende a se referir aos próprios lavradores, e não a seus
de possibilidades. Ao con t rário, é saturada de carências. ^
..|...'.iti)ies. É definição oposta à que registrou Lygia M . Sigaud entre os canavieiros do Nordeste. C f Lygia
Nos dois casos, o passado é a fon te da esperança, a m at riz da u i ( ) | >l . i , M.iiia Sigaud, Trabalho e tempo histórico entre proletários rurais. Revista de Administração de Empresas, v.
porque é u m a referência concreta e um a experiên cia vivid a. Já não c s o - I l , I I . 3, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, jul./set. 1973, pp. 105-12.
/\iiii>nio Candido apontou e estudou a distinção de comida e mistura entre caipiras do interior de São Paulo.
brevivên cia e anacronism o pu ra e sim plesm ente. É a recusa de ser privaJd
( W. Antonio Candido, op. cit., pp. 105-6.
daqu ilo que encheu a vid a de poesia e de sen t ido, que t em an im ado a buM 4
dem orada, sofrida e paciente de u m n ovo lugar. Na prática dessa recusa, <i
t em po se transfigura. Já é outro tempo, em bora pareça o m esm o.

* Trabalho publicado, originalmente, como capítulo do livro de José de Souza Martins (org.), O massam IJIH

inocentes: a criança sem infância no Brasil, São Paulo, Editora Hucitec, 1991, pp. 51-80.

Notas

Cf. Erving GoíFman, Lapresentación de lapersona en la vida cotidiana, trad. Hilgarde B. Torres Perrén e Flor;i
Setaro, Buenos Aires, Amorrortu Editores, 1971, pp. 244-9.
É o caso, por exemplo, da etnometodologia de Garfinkel, em que os subentendidos do senso comum são uti-
lizados contra a vítima do experimento para forçá-la a tomar consciência e a revelar os significados de seu agir
cotidiano. C f Harold Garfinkel, Stiidies in Ethnomethodology, Englewood-ClifFs, Prentice-Hall Inc., 1971.
C f Alvin W. Gouldner, The Corning Crisis of Western Sociology, London, Heinemann, 1972, p. 384.
C f Em ile Durkheim, Sociologie et Philosophie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, p. 119; Em ile
Durkheim, As regras do método sociológico, 2. ed., trad. Maria Isaura Pereira de Queiroz, Companhia Edirora
Nacional, São Paulo, 1960, p. 2; Max Weber, Essais sur la théorie de la science, trad. Julien Freund, Paris,
Librairie PIon, 1965, p. 334-8; Karl Marx, O dezoito brumário de Luís Bonaparte, em K. Marx e F. Engels,
Obras escolhidas, v. i . Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1961, p. 203.
Em 1944, Florestan Fernandes produziu um estudo pioneiro e primoroso de grupos infantis de rua, as
chamadas "trocinhas", em bairros da cidade de São Paulo. E observou: "Utilizei-me [...] sempre dos meninos
e meninas dos grupos estudados, com os quais tinha amizade. Mesmo quando pertencentes a outras 'troci-
nhas', a sua opinião e as suas críticas são valiosíssimas. Esta colaboração com os pesquisados, por seu lado,
criou muitas vezes condições favoráveis ao entabulamento de conversas mais ou menos demoradas com os
4
O tem po da fronteira:
^ I ctorno à controvérsia sobre o tem po histórico
da f r e n t e d e e x p a n s ã o e d a f r e n t e p i o n e i r a
132 FRONTEIRA o IIMPO DA I RONII IRA l i i

Com razáo, observa Alistair Hennessy que as sociedades latino-ame- menos 165 ataques a grandes fazendas e a alguns povoados, entre 1968 e
ricanas ainda estão n o estágio da fron teira.' Ain d a se en con tram naquele I ')90, usando muitas vezes armas primitivas como bordun a e arco e flecha.
estágio de sua h istória em que as relações sociais e políticas estão, de certo I louve ocasiões em que diferentes tribos fizeram ataques em diferentes lu -
modo, marcadas pelo movimen to de expan são demográfica sobre terras gares no mesmo dia. Nestes últimos t r in t a anos, diferentes facções da t ribo
"n ão ocupadas" ou "insuficientemente" ocupadas. Na Amér ica Latin a, a Uayapó lan çaram continuados ataques às fazendas de sua região, in icial-
últ ima grande fron teira é a Amazón ia, em particular a Am azón ia brasilei- mente para rechaçar os civilizados e depois de pacificados para impedir que
ra, como assinalou Foweraker, ou "última fron teira terrestre que desafia a continuassem in vadin do seu território. Em 1984, os kayapós-txukah amães
tecnologia modern a", como observou Posey.^ Desde o início da Con quista, sustentaram uma verdadeira guerra de 42 dias contra as fazendas e o gover-
foi ela objeto de diferentes movimentos de pen etração: na caça e escravi- no militar, que cu lm in ou com o fechamento defin itivo de extenso trecho
zação do ín dio, na busca e coleta das plantas conhecidas como "drogas da rodovia BR-080, maliciosamente aberta através de seu território para
do sertão", na coleta do látex e da castanha. A partir do Golpe de Estado
possibilitar futura in vasão das terras por grandes fazendeiros. Nessas lutas,
de 1964 e do estabelecimento da ditadura milit ar , a Am azón ia brasileira
houve mortos de ambos os lados, verdadeiros massacres.
transformou-se n u m imenso cen ário de ocupação territorial massiva, vio-
N ão só os ín dios da fron teira foram envolvidos na lut a violen ta pela ter-
lenta e rápida, processo que con t in uou, ainda que atenuado, com a reins-
ra. Tam bém os camponeses da região, moradores antigos ou recentemente
tauração do regime político civil e democr át ico em 1985.
migrados, foram alcan çados pela violên cia dos grandes proprietários de
A h istória do recente deslocamento da fron teira é uma h istória de des-
terra, pelos assassinatos, pelas expulsões, pela destruição de casas e povoa-
truição. Mas é t am bém uma h istória de resistência, de revolta, de protesto,
dos. Entre 1964 e 1985, quase seiscentos camponeses foram assassinados
de sonho e de esperan ça. A nossa con sciên cia de homens comuns e tam-
em conflitos na região amazôn ica, por ordem de proprietários que dispu-
bém a nossa con sciên cia de intelectuais e especialistas se move no território
tavam com eles o direito à terra.
dessa con tradição. Com o tantos outros pesquisadores, t am bém fu i e tenho
O que h á de sociologicamente mais relevante para caracterizar e defin ir
sido testemunha desse movimen t o, que acompanhei pessoal e diretamente
a fron teira no Brasil é, justamente, a situação de con flito social.'' E esse é,
n u m r it m o impr ópr io para a pesquisa sociológica moderna, o r it m o da
paciên cia, da observação demorada e reiterada. Meu trabalho certamente certamente, o aspecto mais negligenciado entre os pesquisadores que têm
diverge dos trabalhos costumeiros sobre a fron teira, do pesquisador com tentado con ceituá-la. Na m in h a in terpretação, nesse conflito, a fronteira é
prazo e pressa, que precisa con cluir sua tarefa nos limites de uma cron olo- essencialmente o lugar da alteridade. É isso o que faz dela uma realidade
gia apertada. E que, muitas vezes, deve lim it ar sua pesquisa de campo a l u - singular. A primeira vista é o lugar do encontro dos que por diferentes
gares acessíveis, pacíficos e pouco representativos da conturbada realidade razões são diferentes entre si, como os ín dios de u m lado e os ditos civili-
da fron teira, que já n ão são propriamente fron teira. O u que, sobretudo, zados de out r o; como os grandes proprietários de terra, de u m lado, e os
pode fazê-la somente m u it o depois das ocorrên cias mais características e camponeses pobres, de out ro. Mas o con flito faz com que a fron teira seja
violentas da vida social na fron teira, quando a rigor a popu lação local já essencialmente, a u m só tempo, u m lugar de descoberta do outro e de
n ão se encontra na situação de fronteira^ desencontro.^ Não só o desencontro e o con flito decorrentes das diferentes
A h istória con t empor ân ea da fronteira, n o Brasil, é a h istória das lutas con cepções de vida e visões de mun do de cada u m desses grupos h umanos.
étnicas e sociais. Entre 1968 e 1987, diferentes tribos in dígen as da Ama- O desencontro na fron teira é o desencontro de temporalidades h istóricas,
zón ia sofreram pelo menos 92 ataques organizados, prin cipalmen te por pois cada u m desses grupos está situado diversamente no tempo da his-
grandes proprietários de terra, com a participação de seus pistoleiros, usan- tória. Por isso, a fronteira t em sido cenário de encontros extremamente
do armas de fogo. Por seu lado, diferentes tribos in dígen as realizaram pelo similares aos de Colom bo com os ín dios da Amér ica: as narrativas das tes-
134 FRONTEIRA o rLMI'() DA I-RONTEIRA 135

temunhas dehoje, cinco séculosdepois, nos falamdas mesmas recíprocas Portanto, o quetemos, nas duas definições, é, antes de tudo, modos de
visões econcepções do outro/ ver a fronteira, diferentes entre si porque são diferentes, nos dois casos, os
Afronteira só deixa de existir quando oconflito desaparece, quando os lugares sociais a partir dos quais a realidade é observada: o do chamado
tempos se fundem, quando aalteridade original e mortal dá lugar àalteri- pioneiro empreendedor e odoantropólogopreocupado comoimpacto da
dade política, quando ooutro se torna aparte antagónicadonós. Quando expansão branca sobre as populações indígenas.'"Esse antropólogonãovê
a históriapassa aser a nossahistória, ahistóriada nossa diversidade e plura- a frente de expansão como sendo apenas o deslocamento de agricultores
lidade, enós já não somos nós mesmos porque somos antropofagicamente empreendedores, comerciantes, cidades, instituições políticas e jurídicas.
nós eooutro que devoramos e nos devorou/ Ele inclui nessa definição tam bémas populações pobres, rotineiras, não
indígenasoum estiças, como os garimpeiros, os vaqueiros, os seringueiros,
Frente de expansão e frente pioneira:
castanheiros, pequenos agricultores que praticam uma agricultura de roça
a diversidade histórica da fronteira
antiquada e nolimite do mercado.
Quando difundiram no Brasil o conceito de frente pioneira, os geó-
grafos mal viam os índios no cenárioconstruídopor seu olhar dirigido.
Os estudiosos dotema dafronteira noBrasil, quando examinamalite- Monbeig define os índios alcançados (emassacrados) pela frente pioneira
ratura pertinente, sedeparam comduas concepções dereferência, através no oeste de São Paulo comoprecursores dessa mesma frente, como seesti-
das quais os pesquisadores têmprocurado dar umnome específicoa essa vessemali transitoriamente, à espera da civilização queacabaria comeles.
realidade singular que é objeto de sua investigação. Os geógrafos, desde
os anos 1940, importaram a designação de zona pioneira para nom eá-la, Aênfase original desuas análisesestava noreconhecimento das m u dan ças
outras vezes referindo-se aela comofrente pioneira} radicais na paisagem pela construção das ferrovias, dascidades, pela difu-
Os antropólogos, por seu lado, sobretudo apartir dos anos 1950, defi- são daagricultura comercial emgrande escala, como ocafée o algodão.
niramessas frentes dedeslocamento dapopulação civilizada e das ativida- Não há, àprimeira vista, nessas concepções defrente deexpansão e de
des económ icas de algum modo reguladas pelo mercado como frentes de frente pioneira, aintenção de supor uma realidade específicae substantiva.
expansão. Como sugere Darcy Ribeiro, autor do mais importante estudo Por isso mesmo nãosãopropriamente conceitos, mas apenas designações
sobre essas frentes, elas constituem as fronteiras da civilização. Se tomar- através das quais os pesquisadores na verdade reconhecem que estão em
mos como referência aem blem áticafrente de expansão daregião am azôni- face dos diferentes modos como os civilizados seexpandem territorialmen-
ca, temos nela umprimeiro contraste comafrente pioneira dos geógrafos: te. Mais do que momentos emodalidades de ocupação do espaço,referem-
"Aqui aterra emsi mesma não temqualquer valor... [...] Não secogita, por se a modos de ser e de viver no esp açonovo. Entendo que essas distintas e,
isto de assegurar a posse legal das terras... [...] Eeste domínionão assume, de certo modo, desencontradas perspectivas levam a ver diferentes coisas
senão acidentalmente a forma de propriedadefiindiária".''A designação porque são expressões diferentes damesma coisa.
de frentes deexpansão, que opróprioRibeiro havia formulado, tornou-se Aconcepção defrente pioneira compreende implicitamente a ideia de
de uso corrente, até mesmo entre antropólogos, sociólogose historiadores que nafronteira se cria onovo, nova sociabilidade, fundada nomercado e
que nãoestavamtrabalhando propriamente comsituações defronteira da na contratualidade das relações sociais. No fundo, portanto, a frente pio-
civilização. Ela expressa a concepção deocupação doesp açodequemtem neira é mais doqueodeslocamento da população sobre territóriosnovos,
como referência as populações indígenas, enquanto aconcepção de frente mais do que supunham os que empregaram essa concepção no Brasil. A
pioneira não leva emconta os índiose temcomo referência o em presário,o frente pioneira é tam béma situação espacial esocial que convida ou induz
fazendeiro, ocomerciante eopequenoagricultor modernoe empreendedor. à modernização, à formulação de novas concepções de vida, à m udança
136 FRONTEIRA () lllWro DA I RONll lUA n/

social. Ela con st it ui o ambiente oposto ao das regiões antigas, esvaziadas de nistas da fronteira de outro modo que n ão seja como momen to de uma t o-
população, rotineiras, tradicionalistas e m or t as." talidade dialética e, portan to, momen to de con tradição e lugar de conflito.'^
En tretan to, as ideias subjacentes às duas con cepções, de frente de ex- No meu modo de ver, o desencontro entre o que foi visto origin almen -
pan são e de frente pioneira, sugerem que, apesar das aparên cias em con- te pelo geógrafo e o que foi visto pelo an t r opólogo, como disse antes, é
trário, elas se referem a realidades sociais substantivas, modos singulares produto de observações feitas em desiguais lugares sociais. N o entanto,
de organ ização da vida social, de definição dos valores e das orien tações esses lugares sociais correspondem à própria realidade da fron teira. Eles v i -
sociais. Realidades substantivas que n ão foram definidas por aqueles que ram a par t ir do vín culo que t in h am com a fron teira na pesquisa científica.
as empregaram. Os an t r opólogos, quando falam de frente de expan são, Vir am , port an t o, o que a fron teira lhes mostrava e o que estavam profis-
fazem-no basicamente para poupar palavras na definição daquilo com que sionalmente dispostos a ver. O desencontro de perspectivas é, nesse caso,
se defronta o ín dio. Não estão dizendo nada de específico e defin ido. Est ão essencialmente expressão da contraditória diversidade da fronteira, mais do
dizendo que sobre os territórios tribais se move a fronteira populacional que produt o da diversidade de pontos de vista sobre a fron teira. Diversida-
e cultural dos brancos. A n oção de frente de expan são, nesse contexto, de que é, sobretudo, diversidade de relações sociais marcadas por tempos
se apoia essencialmente em subentendidos. Esses subentendidos afloraram h istóricos diversos e, ao mesmo tempo, con t empor ân eos.
nas duas últimas décadas, nos trabalhos dos autores que fizeram pesquisa A diferença in icial que os dois pontos de vista sugeriam era de que
na região amazôn ica. Para uns, a frente de expan são aparece como sendo quan do os geógrafos falavam de frente pion eira estavam falando de uma
expan são da sociedade nacional; para outros, como expan são do capitalis- das faces da reprodução ampliada do capital: a sua reprodução extensiva e
mo'^ e para outros, até, como expan são do modo capitalista de pr odução. t errit orial, essencialmente mediante a con versão da terra em mercadoria""
Origin almen te, era expan são da fron teira da civilização. Obviamen t e n ão e, por t an t o, em renda capitalizada, como indicava e in dica a proliferação
h á qualquer relacionamento imediato entre essas diferentes defin ições. Já de companhias de terras e n egócios imobiliários nas áreas de fron teira em
a con cepção de frente pioneira desaparece aos poucos, diluída na de frente que a expan são assume essa forma. Nesse sentido, estavam falando de uma
de expan são, na medida sobretudo em que a frente de expan são passa a ser das dimen sões da reprodução capitalista do capital.
entendida, predomin an temen te, como uma frente econ ómica. Quando os an t r opólogos falavam origin almen te da frente de expan são,
A perda de substân cia an tropológica da con cepção de frente de expan são estavam falando de uma forma de expan são do capital que n ão pode ser
e sua redução aos aspectos meramente econ ómicos da vida na fronteira é qualificada como caracteristicamente capitalista. Essa expan são é essencial-
certamente u m fato a lamentar, pois empobreceu enormemente o estudo da mente expan são de uma rede de trocas e de comér cio, de que quase sem-
expan são da fronteira no momen to em que ele poderia ter sido antropolo- pre o din h eir o está ausente, sendo mera referência n omin al arbitrada por
gicamente mais rico. Antes dessa perda de substân cia, Roberto Cardoso de quem tem o poder pessoal e o controle dos recursos materiais na sua relação
Oliveira pusera o tema da frente de expan são em termos mais adequados, com os que explora, ín dios ou camponeses. O mercado opera, através dos
mais ricos e mais promissores do que os que prevaleceriam depois. Em seus comerciantes dos povoados, com critérios monopolistas, mediados quase
trabalhos, a frente de expan são se define pela situação de contato, isto é, pelo sempre por violentas relações de dom in ação pessoal, tan to na comerciali-
pressuposto met odológico da totalidade, como é próprio da tradição dialéti- zação dos produtos quan to nas relações de trabalho (sendo aí característica
ca.'-'Aí as relações interétnicas são relações defricção interétnica, o equivalente a peonagem ou escravidão por dívida). Portan to, m u it o longe do que t an t o
lógico, mas n ão on t ológico, como ele esclarece, da luta de classes.'"* Embora Mar x quando W eber poderiam defin ir como capitalista.
Oliveira esteja se referindo às relações entre ín dios e brancos, sua interpre- Neiva, em trabalho con t empor ân eo dessas formulações, assinalara que,
tação já é indicativa da impossibilidade de analisar a realidade dos protago- n o Brasil, era (e é) n ecessário distin guir, n o in t erior das fronteiras políticas
138 FRONTEIRA () IIMIH) DA I RONII IRA I 1''

do país, a fron teira demográfica e a fronteira econ ómica, esta nem sempre sidade. Estou falando das diferenças que definem seja a in dividualidade das
coin cidin do com aquela, geralmente aquém dela.'^ Isto é, a lin h a de povoa- pessoas, seja a identidade dos grupos.
men to avan ça antes da lin h a de efetiva ocupação econ ómica do território. Essa distin ção n ão é conceituai n em é classificatória, ao con trário do
Quando os geógrafos falam de frente pioneira, estão falando dessa fr on - que entendem diferentes pesquisadores que trataram da fron teira a par t ir
teira econ ómica. Quando os an t ropólogos falam de frente de expan são, do surto expansionista de 1964. Nesse equívoco repousa a controvérsia so-
estão geralmente falando da fron teira demográfica. Isso nos póe, portan to, bre o tempo h istórico da frente de expan são e o tempo h istórico da frente
diante de uma primeira distin ção essencial: entre a fronteira demográfica e pioneira, pois n ão se reconhece que o tempo h istórico de u m campon ês
a fronteira econ ómica h á uma zona de ocupação pelos agentes da "civiliza- dedicado a uma agricultura de excedentes é u m . Já o tempo h istórico do
ção", que n ão são ainda os agentes característicos da pr odução capitalista, pequeno agricultor próspero, cuja pr odução é mediada pelo capital, é ou-
do modern o, da in ovação, do racional, do urbano, das in stituiçóes políti- t ro. E é ainda out ro o tempo h istórico do grande empresário rural. Com o é
cas e jurídicas etc.'^ outro o tempo h istórico do ín dio integrado, mas n ão assimilado, que vive e
É possível, assim, fazer uma primeira datação histórica: adiante da fron - se concebe n o lim it e entre o mun do do m it o e o mun do da h istória. Com o
teira demográfica, da fronteira da "civilização", estão as populaçóes in díge- ainda é inteiramente out ro o tempo h istórico do pistoleiro que mata ín dios
nas, sobre cujos territórios avan ça a frente de expan são. En tre a fronteira e camponeses a mando do patrão e grande proprietário de terra: seu tempo
demográfica e a fronteira econ ómica está a frente de expan são, isto é, a é o do poder pessoal da ordem política pat r imon ial, e n ão o de uma socie-
frente da população n ão in cluída na fronteira econ ómica. Atrás da lin h a da dade moderna, igualitária e democrática que at r ibui à in stituição neutra
fronteira econ ómica está a frente pioneira, domin ada n ão só pelos agentes da justiça a decisão sobre os litígios entre seus membros. A bala de seu t ir o
da civilização, mas, nela, pelos agentes da modern ização, sobretudo econ ó- n ão só atravessa o espaço entre ele e a vít ima. Atravessa a distân cia h istórica
mica, agentes da economia capitalista (mais do que simplesmente agentes entre seus mun dos, que é o que os separa. Est ão jun tos na complexidade
da economia de mercado), da mentalidade inovadora, urbana e empreen- de u m tempo h istórico composto pela mediação do capital, que jun t a sem
dedora. Digo que se trata de uma primeira datação h istórica porque cada destruir inteiramente essa diversidade de situaçóes.
uma dessas faixas está ocupada por populaçóes que ou estão no limite da A distin ção entre frente pioneira e frente de expan são é, na melh or das
história, como é o caso das populaçóes in dígen as, ou estão inseridas diver- h ipóteses, u m in strumen to auxiliar na descrição e compreen são dos fatos e
samente na história, como é o caso dos n ão-ín dios, sejam eles camponeses, acontecimentos da fronteira.^" É u m in strumen to útil quan do as duas con -
peóes ou empresários. cepções são trabalhadas na sua unidade, quando destaca a temporalidade
Cada uma dessas realidades tem o seu próprio tempo h istórico, se consi- própria da situação de cada grupo social da fronteira e permite estudar a sua
derarmos que a referência à inserção ou n ão na fronteira econ ómica indica diversidade h istórica n ão só como diversidade estrutural de categorias so-
t am bém diferentes níveis de desenvolvimento econ ómico que, associados ciais, mas t am bém como diversidade social relativa aos diferentes modos e
a níveis e modalidades de desenvolvimento do modo de vida, sugerem tempos de sua participação na h istória. No entanto, diferentes pesquisado-
datas h istóricas distintas e desencontradas n o desenvolvimento da socie- res a interpretaram como uma tipologia da fronteira e a ela se referiram e a
dade, ainda que con t emporân eas. E n ão me refiro apenas à inserção em reduziram ao esquematismo classificatório da controvérsia latino-americana
diferentes etapas coexistentes do desenvolvimento econ ómico. Refiro-me dos anos 1960 e 1970 sobre o desenvolvimento do capitalismo n o campo,
sobretudo às mentalidades, aos vários arcaísmos de pensamento e con duta sobre a natureza h istórica das mudan ças (e das lutas sociais) que estavam
que igualmente coexistem com o que é at ual.'' E n ão estou falando de ocorrendo no campo: eram tran sformaçóes no capitalismo ou era transi-
atraso social e econ ómico. Estou falando da contemporaneidade da diver- ção de pré-capitalismo (e, para alguns, até feudalismo) para o capitalismo?
lAO H KO N I LI R A o IIM IH) DA I KONl l IKA UiI

Tal esquematismo procurou legitimidade n o marxismo estruturalista de O desencontro dos tempos h istóricos contidos nas relações sociais reais,
in spiração althusseriana que se difu n diu na América Latin a nesse per íodo, como expressão da diversidade na unidade, pr ópr ia da sociedade capitalista
sobretudo através de manuais de vulgarização do pensamento de Althusser. c modern a. E, prin cipalmen te, torna-se impossível reconhecer, a n ão ser
Porém, penso que o marxismo estruturalista n ão pode reconhecer nos pro- por u m artifício mecanicista, a possibilidade de tran sformação do presente
cessos sociais a diversidade e contemporaneidade dos tempos h istóricos, e nele a possibilidade da h istória, a virtualidade da h istória, a h istória n ão
porque os separa em agregados referidos à lógica do espaço. Assim, o modo só como passado, mas como promessa con tida na luta pela vida, pelas con-
capitalista de pr odução, em sua perspectiva, é estritamente con st it uído por cepções da vida como vir a ser, no destino de todos. Sobretudo ela reduz
u m jogo de categorias que, embora con traditórias, tem uma mesma e ún i- as con tradições (e as alternativas que anunciam) ao an ún cio de u m ún i-
ca data, a do tempo da burguesia e do proletariado. Quase sempre essa co destino h istórico para todos in distin tamen te, todas as classes, todos os
data ún ica está subjacente à ideia do capitalismo como sistema (e como grupos, todas as h istórias singulares (como a dos ín dios, dos camponeses,
conceito) que, por isso, reduz todas as relações, por mais diversificadas dos operários, dos jovens, das mulheres et c). N o fun do, uma con cepção
que sejam, a uma ún ica, definida como capitalista. O recurso ao conceito totalitária. Reduz o destino de todos ao destino da burguesia na sua contra-
estruturalista de formação econ òmico-social é u m artifício que procura fação h istórica: a classe média. E n ão t oma como referência, obviamente, o
manter uma certa ideia de totalidade, por ém con stituída de níveis, isto é, destino do gén ero h uman o na sua diversidade.
camadas de realidades desiguais, dotadas de auton omia relativa umas em
relação às outras e, portan to, esvaziadas de historicidade. A partir daí n ão
se distingue entre sistema mercan til e capitalismo, entre din h eiro e capital, Os confins do humano e a fronteira da história
entre propriedade privada e propriedade capitalista (isto é, propriedade de
meios de pr odu ção destinados à exploração caracteristicamente capitalis- A categoria mais rica e apropriada para a reflexão sociológica é a
ta da força de trabalho), entre modo de pr odução capitalista e modo de de frente de expan são porque ela se refere a lugar e tempo de con flito e de
pr odução especificamente capitalista, entre processo de trabalho e modo alteridade. Já em Turner, a con cepção de fronteira era a do lim it e entre civi-
capitalista de pr odução etc. lização e b a r b á r i e . E m perspectiva oposta, é para Ribeiro lim it e da
As relações sociais de data diversa, isto é, que encerram outra tempora- civilização. No Brasil, para os próprios membros do que se poderia chamar
lidade, nessa orien tação são reconhecidas unicamente na defin ição de u m provisoriamente de sociedade da fronteira,^^ a fron teira aparece frequente-
outro modo de pr odução (no fun do, uma espécie de t ipo ideal). Em vez mente como o lim it e do h uman o. A fron teira é a fron teira da h uman idade.
da coexistência de tempos h istóricos na con tradição dos processos sociais, Além dela está o n ão- h u m an o, o n atural, o an imal. Se entendermos que a
essa orien tação reconhece os desencontros dos tempos h istóricos apenas fron teira tem dois lados e n ão u m lado só, o suposto lado da civilização; se
em termos de articulação de modos de produção^^ (e n ão de contradição entendermos que ela tem o lado de cá e o lado de lá, fica mais fácil e mais
con t empor ân ea n o in terior das próprias relações sociais). Além disso, a abrangente estudar a fron teira como con cepção de fron teira do h uman o.
lógica espacial dessa orien tação im põe a distin ção de níveis da realidade, Nesse sentido, diversamente do que ocorre com a frente pioneira, sua d i -
ainda que combinados, como se fossem in stân cias dotadas de auton omia, men são econ ómica é secun dária.
como a da economia, da política, da ideologia. São, na verdade, artifí- O Brasil é u m país particularmente apropriado para se estudar a fr on -
cios que permitem classificar a realidade ajustando-se as partes, as peças, teira nessa perspectiva. As últimas décadas têm sido uma época em que
n uma arquitetura em que o pesquisador apenas in t u i, mas n ão demonstra, grupos h umanos de diferentes tribos in dígen as foram contatados pela p r i-
o lugar de cada uma. Portanto, nessa perspectiva é impossível reconhecer meira vez pelos civilizados. Ao mesmo tempo, civilizados m u it o diversifi-
142 FRONTEIRA o \ m\ '0 DA I RONILIRA \ Ai

cados entre si, com mentalidades muito desencontradas a respeito de seus estavam tentando contatar os brancos. No dia 4 de outubro, os índios
lugares nesse dramático confronto da condição humana e de concepções recolheram os presentes deixados pelos brancos na margem do rio Peixoto
de humanidade: o camponês, o peão, o garimpeiro, o grande fazendeiro, o de Azevedo. No dia 15 apareceu nas proximidades um grupo numeroso de
empresário, o religioso (de diferentes confissões religiosas), o funcionário índios que falavam alto e gesticulavam muito. No dia 19, reapareceram na
público, o antropólogo. margem esquerda do rio, acenando para a expedição. Um dos sertanistas
O que poderia ter sido um momento fascinante de descoberta do ho- chegou a dez metros de distância de um casal, que o ameaçou retesando
mem, foi um momento trágico de destruição e morte. Mas isso não tira a o arco e, em seguida, internando-se na mata. No dia 31 de dezembro, os
dimensão épica e poética dos fugidios instantes do encontro de diferentes índios começaram a reconstruir a aldeia que haviam queimado. No dia 13
humanidades como tem ocorrido na região amazônica.^'* Para mim, o mais de fevereiro de 1973, eramfinalmenteatraídos para viver no acampamento
expressivo documento desse ato de achar o outro é a fotografia de um jo- dos brancos e contados: eram 350 pessoas. Dois anos depois desses episó-
vem índio da tribo kreenakarore, o rosto pintado de urucum, no cenário dios e do contato com os brancos, em janeiro de 1975, só restavam vivos 79
da floresta, os brancos que os procuravam e os viam pela primeira vez deles (40 homens e 39 mulheres), todos com sinais visíveis de tuberculose.
também: os olhos arregalados descobriam e deixavam descobrir uma outra Um ano depois, um sertanista denunciava que brancos podiam ter subme-
humanidade.^^ Foi em outubro de 1972. A existência dessa tribo havia sido tido os índios a severas humilhações, que eles não faziam mais roça e havia
descoberta no dia 6 de fevereiro por um sertanista que sobrevoava a selva, entre eles vários casos de doenças venéreas transmitidas pelos brancos, sem
para saber se havia populações indígenas no trajeto por onde passaria a ro- contar 35 índios com gripe, inclusive o cacique. Os índios estavam aban-
dovia Cuiabá-Santarém, para atraí-las e contatá-las. Nesse dia foi avistada donando a aldeia e construindo suas malocas na beira da rodovia, expostos
uma de suas aldeias. No dia 14, uma expedição encontrou os primeiros ao contato indiscriminado com os trabalhadores da estrada. Se queremos
vestígios de sua existência: picadas na mata, restos de fogueiras e ossos de insistir no nosso conceito de civilização e civilizado, a suposta civiliza-
animais. No dia 25 de maio, às onze da manhã, os kreenakarores atacaram ção da frente pioneira havia triunfado sobre a suposta barbárie da selva.
os brancos pela primeira vez e feriram um trabalhador. No dia seguinte, o Essa não é uma história única. Pelo menos 34 tribos indígenas foram
comando militar encarregado da abertura da estrada suspendeu os trabalhos atraídas e contatadas na Amazónia, a partir de 1965, entre tribos até então
a apenas vinte quilómetros do acampamento da expedição. No dia 27, um desconhecidas e facções arredias de grupos já conhecidos.^'^ Sem contar
helicóptero retirou o trabalhador que foraflechadopelos índios. Na noite tribos fragmentadas em grupos dispersos, em relação a cada qual o contato
seguinte, os sertanistas ouviram várias vezes o pisar das folhas secas do chão foi específico. Vinte e seis delas o foram entre 1970 e 1975. Na quase tota-
de seu acampamento por visitantes que se tornavam invisíveis quando o lidade desses grupos, a história do contato não varia muito em relação ao
foco da lanterna era dirigido para o local de onde vinha o ruído. Isso foi caso dos kreenakarores.
interpretado como sinal de que os índios queriam entrar em contato com Os brancos utilizam usualmente as palavras atração, pacificação e contato
os brancos. Na tarde do dia seguinte, os membros da expedição colocaram para se referir à ação de neutralização das populações indígenas que geral-
presentes no local em que o trabalhador fora flechado: facões, machados, mente reagem quando percebem que seus territórios estão sendo invadidos.
facas, colares, peças de alumínio. Assustados pelo tiro que um trabalhador Essas são palavras técnicas do jargão oficial, usadas pelos funcionários da
dera num macaco que estava numa copa de árvore sob a qual se encontrava Fundação Nacional do índio para caracterizar seu trabalho. O homem co-
um grupo de índios, e sentindo a aproximação da expedição, os kreenaka- mum, porém, sintetiza essas diferentes ações no verbo amansaras índios. 1',
rores queimaram sua aldeia e se refugiaram na mata. Mas deixaram para uma palavra que dá bem a medida do lugar que o índio ocupa no imaginá-
os brancos vários presentes: bordunas,flechas,arcos. De fato, também eles rio do civilizado da fronteira: ele é geralmente classificado como animal.•'^
UA FRONTEIRA
o ItMPO DA l-RONTEIRA US

Várias localidades da Amazónia receberam o nome de São Félix, inclusi- cies, é igualmente sugestivo. Quando os suruís de Rondônia se viram pela
ve no período recente. É que São Félix, na crença católica popular, é o santo primeira vez frente a frente com um grupo de brancos, o assustado caci-
que protege o homem contra os animais peçonhentos e os índios. Na região, que a estes se dirigiu dizendo: "Branco, eu te amanso!"^^ Várias tribos se
os não-índios, brancos ou não, chamam a si mesmos de cristãos. E classi- designam a si mesmas como gente, para diferençar-se dos outros humanos.
ficam os índios como caboclos, isto é, pagãos, por oposição aos cristãos.^" É o caso dos mesmos suruís, que, em sua língua, chamam a si mesmos de
Certa vez, em São Félix do Araguaia (no Mato Grosso), caminhando pela paiter, isto é, a gente (nós mesmos) "em detrimento de outros, que não
rua à beira do rio, ouvi quando algumas crianças começaram a caçoar de seriam humanos".^' Nas concepções dos bororós, do Mato Grosso, os civi-
um índio karajá que passava. Perguntei-lhes por que faziam aquilo, pois o lizados estão na mesma categoria dos seres maléficos e mortais, isto é, são
índio era gente como elas e elas certamente não gostariam que alguém lhes semelhantes, mas não idênticos, às cobras venenosas, aos inimigos e aos
fizesse o mesmo. Um dos meninos disse-me com espanto: "Ele não é gente espíritos maléficos, designados por bope (isto é, coisa ruim). Em suas con-
como eu. Ele é caboclo e eu sou cristão!" Lembro-me, ainda, do cacique cepções, o gado bovino é reconhecido como companheiro dos civilizados
xavante Aniceto, numa reunião em Goiânia, opondo-se aos bispos católi- porque destrói plantações e, desse modo, rouba alimento dos índios. Aliás,
cos que, por uma questão de respeito aos índios, não se julgavam no direito
a vaca não possui um lugar no cosmo bororó.'^
de batizá-los. Para Aniceto, o batismo constituía o reconhecimento da hu-
Juruna, um índio xavante, entende mesmo que, no rio das Mortes, fo-
manidade do índio e uma proteção em relação aos brancos que, pela falta
ram os índios que atraíram e amansaram os brancos: "Deu muito trabalho
do batismo, os consideravam animais. A distinção entre cristão e caboclo é,
atrair branco. Branco sempre com medo. Foi uma luta amansar branco.
nesses casos, usada para distinguir os humanos dos bichos-do-mato.^^
Branco matou muito índio, até xavante poder amansar branco."^' Mes-
Nesse período recente, não foram raros os casos de expedições de caça
mo amansado, o branco permanece excluído do mundo xavante. Em seu
ao índio organizadas pelos brancos da frente de expansão, para removê-los
excelente estudo sobre esses índios, Aracy Lopes da Silva sublinha que o
de "suas" terras e prevenir ataques. Como em 1963, quando os responsáveis
dualismo de seu pensamento e de sua organização social se expressa na
por um seringai no Mato Grosso ordenaram a destruição e o massacre de
toda uma aldeia de índios cintas-largas: de avião, em voos rasantes, foram classificação de "nós" e "eles". As cisões internas "dão lugar ao surgimen-
jogadas dinamites sobre a aldeia, ao mesmo tempo em que uma metra- to de uma consciência que se expressa na concepção de um 'nós' sempre
lhadora era disparada sobre os índios que corriam em pânico. Os atacan- ampliado" que, em certas circunstâncias, "extravasa os limites do mundo
tes, já em terra, metralharam outro grupo de índios acampados à beira de xavante e passa a incluir os outros índios". Trata-se de uma cultura em que
um rio. Ouvindo um choro abafado de criança, voltaram e encontraram, há "a necessidade lógica dos muitos 'outros' com que, nas sociedades jê, se
sob dois corpos crivados de bala, a mãe viva e uma garotinha. Enquanto constrói a noção de pessoa e de identidade individual [...]". E conclui que
violentavam a mulher, que matariam depois, com um tiro estouraram os "à falta do branco, ou melhor, à falta de meios para enfrentar o branco [...]
miolos da menina que tentara socorrer a mãe.^° Isso depois de o principal ele seja substituído pela onça: igualmente outro, elemento da natureza,
responsável pela firma ter dito diante de testemunhas: "Estes parasitas des- assim como o branco excluído do universo cultural xavante".^^
tes índios sem-vergonha... Já é tempo de acabar com eles, de liquidar com Para o índio, o avanço da frente de expansão não repercute apenas por
eles... [...] Vamos liquidar com estes vagabundos." Os kayapós, no final dos colocá-lo diante de uma humanidade diferente, a dos civilizados. Repercu-
anos 1950, eram considerados bichos pelos seringueiros e pelos donos dos te nos rearranjos espaciais de seus territórios e nas suas relações com outras
seringais e tratados com repugnância.^' tribos, sobretudo as inimigas. Essas mudanças resultam em muitas perdas,
O que se conhece de como os próprios índios de diferentes tribos viram não só do território, mas também de vidas e de elementos culturais. Os
e interpretaram a chegada dos brancos, e a invasão de seus territórios por asurinis do Xingu não só estavam sendo acossados pelos civilizados desde
146 FRONTEIRA OTDMCOUAIRONILIRA U/

O século X X , como também por tribos vizinhas e inimigas que os ataca- comércio inteiramente extracapitalista e, até se poderia dizer, extracomer-
ram várias vezes e os forçaram a deslocar-se em diferentes ocasiões. Foram cial porque inteiramente estranho aos princípios e realidades económicos
expulsos do Ipixuna pelos arawetés, que por sua vez estavam sendo ataca- em que esses produtos foram gerados. Sobretudo porque nesse mundo
dos pelos kayapós-xikrins e pelos parakanans. No Ipixuna cultivavam 76 indígena e tribal tais mercadorias estão separadas de seu mundo de ori-
variedades de plantas, "mas, devido à retirada precipitada que efetuaram gem por uma nítida fronteira social e cultural e por uma lógica de circula-
quando foram atacados pelos araweté, só conduziram 46, e destas estão ção de produtos inteiramente diversa, distante de qualquer concepção de
cultivando apenas 11".^'' equivalência. Isso fica claro na destruição de bens até caros, procedentes
Muito antes da linha fronteiriça definir o limite da presença do civi- dos civilizados, por ocasião dos rituais fúnebres dos respectivos donos, em
lizado n u m território determinado, a frente de expansão já se expande diferentes tribos.^' A mercadoria é apenas adicionada à cultura tribal, mas
indiretamente empurrando os grupos indígenas mais próximos para ter- não incorporada segundo sua implícita lógica mercantil e acumulacionista.
ritórios de seus vizinhos mais distantes. N o geral, tem decorrido daí guer- Provavelmente porque a mercadoria só pode sê-lo se conservar o valor de
ras intertribais e até o extermínio de algumas populações indígenas por uso, que se manifesta nas circunstâncias, inclusive culturais, em que é usa-
parte de outros grupos indígenas. A escassez de estudos que combinem da. Enquanto o branco põe a ênfase de sua relação com a mercadoria no
a etno-história com a história dificulta uma visão ampla desse imenso e valor de troca, mesmo quando a usa (e já não tem valor de troca), o índio
múltiplo conflito que se dá além da fronteira, que se mostra, assim, além põe a ênfase no valor de uso e numa concepção de uso que anula o "pecado
do mais, fronteira da história, como resultado da histórica expansão da original" da troca.
sociedade civilizada. Diversas tribos indígenas contatadas no período recente foram surpre-
Os preciosos estudos de Dominique Gallois sobre o povo waiãpi, que endidas migrando lentamente, por longas distâncias, para o interior do
vive hoje na fronteira com a Guiana Francesa, são justamente indicativos país em consequência de pressões anteriores da frente de expansão, direta-
da importância que tais estudos podem ter para melhor compreensão dos mente sobre elas ou sobre seus vizinhos: os tapirapés se fixaram no Mato
aspectos propriamente dramáticos da expansão da fronteira. Desde o final Grosso após u m longo percurso a partir do Maranhão; os xavantes estão
do século X V I I e início do século x v i i i , os w^aiápis vêm migrando em direção agora encurralados no Mato Grosso, entre fazendas de gado e lavouras de
ao norte e à Guiana. Deslocaram-se fugindo, empurrados pelos brancos, camponeses pobres, mas procedem de Goiás e da Bahia.'*" H á mesmo casos
desde o rio Xingu. Atravessaram o rio Amazonas e se localizaram na região de tribos originárias de um ambiente ecológico específico que, em conse-
do rio Jari, avançando, depois, em direção às suas cabeceiras. Nessa lenta quência dessas migrações, deslocaram-se para ambientes completamente
migração de cerca de trezentos anos, há muitos episódios de guerra com diferentes, o que as obrigou, em alguns casos com sucesso e em outros
outras tribos cujos territórios estavam invadindo, assim como há episódios sem sucesso, a reelaborarem sua relação com a natureza, sua cultura e suas
de cooptação pelos civilizados para que se empregassem na caça de outros concepções: os iranxes, originários da região de mata, onde haviam elabo-
índios para reduzi-los à condição de escravos. Sem contar complicados ar- rado "sua experiência histórica de vida", foram deslocados para o cerrado,
ranjos e relacionamentos entre tribos indígenas para efetivar um comércio onde se adaptam mal; já os kayapós foram empurrados do cerrado para a
primitivo de ferramentas produzidas pelos civilizados.^^ floresta e levaram mais de cem anos para se adaptarem ao novo ambiente e
Os estudos de Gallois sobre esse povo mostram uma complexa e sur- produzirem conhecimentos a ele adequados.^^
preendente teia de relacionamentos entre diferentes grupos indígenas, i n - Em vários casos, a chegada dos civilizados se deu praticamente no mes-
cluindo um grupo de ex-escravos negros fugidos das fazendas da Guiana mo período de confrontos devastadores entre diferentes tribos. Em meados
Francesa e retribalizados, para fazer circular esses produtos entre eles. U m dos anos 1940, um etnólogo relatava o estado de pânico que se apossara
148 FRONTEIRA o I I M I ' 0 DA I RUNTLIRA W)

dos ín dios tapirapés, do Mat o Grosso, em relação aos seus mais perigosos "jogavam as pessoas". De qualquer modo, ali efetivamente termin a a terra,
in imigos, os kayapós. A mais intensa apr oximação da frente de expan são como terminava a vida; depois dali é o oceano.^^
de seu território coincidia com o fato de que "os kayapó n ão somente avan-
çam em direção ao Araguaia para acabar com os sertanejos e suas casas.
March am para o sul atacando tampiitaua", a aldeia tapirapé.^^ O encontro, A disputa pela concepção
portan to, para esses grupos, se deu em momen tos dramát icos, acrescen- de destino na situação de fronteira
tando u m in im igo de certo modo inesperado aos in imigos conhecidos.
Compreende-se que várias dessas tribos tenh am aceito e até procurado a Quem conhece a fronteira sabe perfeitamente que nela, de fato, essas
sujeição aos brancos. E tenh am imediatamente se disposto a colaborar na "faixas" se mesclam, se interpenetram, pon do em contato con flitivo popu-
atração e contato de tribos inimigas. Frequentes vezes, no fun do, os ín dios lações cujos antagonismos in cluem o desencontro dos tempos h istóricos
imaginaram que estavam envolvendo os civilizados em seus próprios con- em que vivem. A recente expan são da fronteira mostrou isso de maneira
flitos. Só recentemente diferentes grupos in dígen as se deram conta do que m u it o clara. Práticas de violên cia nas relações de trabalho, como a escra-
estava de fato acontecendo e passaram a se aliar a seus antigos inimigos vidão por dívida, próprias da h istória da frente de expan são, são adotadas
para enfrentar os brancos. Esse é certamente u m dos aspectos novos da sem dificuldade por modernas empresas da frente pioneira. Pobres povoa-
expan são da fron teira no Brasil. E outro aspecto novo e fundamental é que dos camponeses da frente de expan são permanecem ao lado de fazendas de
populações in dígen as têm pressionado os brancos, com êxito, n o sentido grandes grupos econ ómicos, equipadas com o que de mais modern o existe
da expan são das fronteiras de seus territórios de confinamento, como tem em termos de tecnologia. Mission ários catóh cos e protestantes, iden rifi-
se dado com os kayapós; ou reocupando fazendas abertas em seus antigos cados com as orientações teológicas modernas da Teologia da Libert ação,
territórios, inclusive in stalações, como ocorre com os xavantes. encontram lugar em suas celebrações para as con cepções religiosas t radi-
Esse cen ário de con flito n ão se desenha necessariamente sobre o ima- cionalistas do catolicismo rústico, próprio da frente de expan são.^'
gin ário de u m território aberto e ilimit ado. Lux Vidal, n o seu minucioso A din âmica da frente de expan são n ão se situa n u m ún ico mecanismo
estudo sobre os kayapós-xikrin s, relata que eles "reconhecem dois pontos de deslocamento demográfico. Tradicionalmente, a frente de expan são se
cardeais: leste e oeste". E que, em oposição ao leste, que é bem defin ido, movia, e excepcionalmente ainda se move, em raros lugares, em conse-
por ser o lugar de sua origem e de origem de seus mitos, "o oeste é sim- quên cia de características próprias da agricultura de roça. Trata-se de u m
plesmente u m pon t o de referência convencional de delimitação do espaço deslocamento lento regulado pela prática da combin ação de períodos de
[...], mas, n ão defin ido, n in guém poderia situá-lo. Segundo os ín dios e o cultivo e períodos de pousio da terra. Depois de u m n úmer o variável de
fim do m un do'". E t am bém o lugar da noite perpétua.^^ Segundo Gallois, anos de cultivo do terreno, os agricultores se deslocam para u m novo ter-
t am bém os waiãpis, no m it o em que se referem ao lugar Mair i, mencionam reno. On de essa prática é mais típica, como o Mar an h ão, o deslocamento
que ali está o buraco do final da terra. Na sua recon stituição da relação se d á no in terior de u m território de referência ao redor de u m centro, de
entre m it o e h istória, Gallois descobriu que M air i é a cidade de Alm eir im , u m povoado. Quando a roça fica distante do centro, a ten dên cia é a cria-
antiga localidade de referência, embora distante, da fortaleza de Macapá, ção de u m novo centro, ao redor do qual os lavradores abrem suas roças
con struída pelos portugueses n o período colon ial. H á nessa fortaleza o segundo critérios de precedên cia e antiguidade dos moradores e segundo
que parece ser u m calabouço em forma de poço. U m ín dio conhecedor con cepções de direito m u it o elaboradas, isto é, quem tem direito de abrir
do m it o, ao visitar a fortaleza pela primeira vez, disse: "Quan do conheci a roça onde, por exemplo. Desse modo, a fron teira se expande em direção à
fortaleza, reconheci o lugar". O "buraco do final da terra" era o lugar onde mata, incorporando-a à pequena agricultura familiar.
150 FRONTEIRA o riMPO DA l-RONTLIRA 151

A ten dên cia observada até agora é a da aceleração do deslocamento da do sul do Pará.'*' A h istória recente das lutas camponesas n o Brasil tem,
frente de expan são, ou mesmo seu fechamento, em decorrência da invasão aliás, mostrado abundantemente que, mesmo quando n ão se configura a
das terras camponesas por grileiros, especuladores, grandes proprietários c falta de alternativas, os camponeses ameaçados optam pela lut a pela terra,
empresas.^'' Quando n ão integrados no mercado de trabalho, os campone- pelo questionamento seja dos supostos direitos dos alegados proprietários,
ses eram e são expulsos de suas terras e empurrados para "fora" da fronteira seja da própria legitimidade desses direitos. As diferentes modalidades de
econ ómica, ou para "den tro" como assalariados sazonais. Se encontram ter- acomodação desses conflitos por parte do Estado, com as desapropriações
ras livres mais adiante, con tin uam a ten dên cia migratória, mesmo que para de terras para reforma agrária, até preventivamente nos casos de probabili-
pontos mais distantes. E notável a circulação de in formações sobre terras dade de ten são social, mostram que os trabalhadores rurais, ainda que por
livres ou presumivelmente livres, entre camponeses, centenas de quilóme- via in direta, conseguiram abrir uma alternativa poderosa e em grande parte
tros adiante. A teia de relaçóes de parentesco e de compadrio se encarrega sua n uma situação de aparente falta de alternativas.^"
de difun dir as in formações sobre a localização de novas terras que ainda São eles, por isso, agentes característicos da frente de expan são, embora
podem ser ocupadas. O que é facilitado pelo len to deslocar de fragmentos n ão sejam os ún icos n em necessariamente os decisivos. Por isso, violam a
de grupos familiares desses camponeses. Embora tendencialmente migrem lin h a da fron teira demográfica e avan çam sobre territórios que são sempre
em família e até em grupo,^^ h á uma rede familiar mais extensa e viva que territórios tribais, isto é, territórios de algum modo in cluídos n o circuito
con stitui a referência nesse movimen to. Em cada etapa do deslocamento, de per ambulação de algum grupo t ribal. Além das situações de con flito
os membros da família, os compadres, os antigos vizinhos já chegados, aco- com as populações in dígen as que procuram resistir a esse avan ço, h á tam-
lh em os que vêm depois e serão acolhidos mais adiante pelos que se foram bém as situações de fuga dos mesmos in dígen as, que se deslocam mais
antes.'** A verdadeira estrutura social de referência das populações campo- para o in terior à procura de novos espaços, geralmente à custa de graves
nesas da fron teira n ão é a local e visível. Ela se espalha por u m amplo ter- conflitos entre as próprias populações in dígen as, de tribos diferentes ou até
ritório, n u m raio de centenas de quilómet ros, e é uma espécie de estrutura do mesmo grupo in dígen a (como tem ocorrido entre facções da grande
migrante, uma estrutura social intensamente mediada pela migração e pela n ação kayapó).
ocupação temporária, ainda que duradoura, de pontos do espaço percor- O con jun to da in formação h istórica que hoje se tem sobre a frente de
rido. Os estudos sociológicos que tomam como referência uma localidade expan são e a frente pioneira sugere que a primeira foi a forma característi-
específica n ão apanham a realidade social mais profun da que dá sentido à ca de ocupação do território durante longo per íodo. Com eçou a declinar
existência dessa espécie de sociedade transumante. com a chamada March a para Oeste, em 1943, e a in terven ção direta do
Quando n ão h á perspectiva de encontrar novas terras nem h á perspecti- Estado para acelerar o deslocamento dos típicos agentes da frente pioneira
va ou disposição de entrar na economia da miséria no in terior da fron teira sobre territórios novos, em geral já ocupados por aqueles que haviam se
econ ómica, geralmente começa a luta pela terra, o enfrentamento do gran- deslocado com a frente de expan são. Tipicamen te, a frente de expan são
de proprietário e seus jagun ços. Em algumas regiões tem sido possível, nos foi con stituída de populações ricas e pobres que se deslocavam em busca
últimos vin te anos, observar a passagem das migrações espon tân eas, decor- de terras novas para desenvolver suas atividades econ ómicas: fazendeiros
rentes da saturação da terra, para as migrações forçadas pelas expulsões vio- de gado, como ocorreu na ocupação das pastagens do Mar an h ão por cria-
lentas da terra. E observar, neste último caso, que mesmo aí os camponeses dores origin ários do Piauí; seringueiros e castanheiros que se deslocaram
migram para n ão m u it o longe, como que circulando ao redor de u m pon t o para vários pon tos da Am azón ia. E mesmo agricultores. Levaram consigo
ou ao longo de uma rota de referência. Quando a pressão se combin a com seus trabalhadores, agregados sujeitos a formas de domin ação pessoal e de
a falta de alternativa, surge o con flito, como ocorreu em vários pontos exploração apoiadas n o endividamento e na coação.
152 FRONTEIRA D D A I R O N I I lUA l ') i

Quando a economia da borracha entrou em crise e decadência aí por representante da Coroa, bastando que alguéma ocupasse e, depois, a re-
1910, muitos desses empreendimentos extrativos, que eram essencialmen- queresse, como ocorreu frequentemente. Do mesmo modo, a casa de um
te comerciais e não agrícolas, simplesmente encerraram suas atividades. agregado construídaem terras de sesmaria ou data de outrem, bem como
Ficaram para trás os trabalhadores, dedicados à própriasubsistência e co- suas roças e cultivos, não sendo ele escravo, pertenciam-lhe legalmente,
mercialização de excedentes empequena escala. Essencialmente, houve um sendo a relação com o sesmeiro apenas relação de enfiteuse. Portanto, o
refluxo da economia, expresso diretamente no retorno a uma economia ba- trabalho de fato gerava direito sobre bens produzidos e sobre a terra be-
seada na produção direta dos meios de vida por parte dos trabalhadores.^' neficiada ou, melhor, sobre o benefícioincorporado à terra pelo trabalho,
Isso tinha sentido, porque os donos de seringais e castanhais eram meros como era o caso do desmatamento.
posseiros ou foreiros que haviam arrendado suas terras do Estado. Portan- É comum encontrar-se nos arquivos documentos de transferência da
to, a partir desse momento, a frente de expansão ficou caracterizada como propriedade de uma casa a umterceiro, construídaemterras de um segun-
uma frente dem ográficade populações camponesas epobres residualmente do, que apenas recebia o laudêmio, um tributo quase sim bólico de reco-
vinculadas ao mercado. Ao invés de estagnar, continuou crescendo e se nhecimento do seu senhorio, e não de sua propriedade (já que o proprietá-
expandindo pela chegada contínuade novos camponeses sem terra origi- rio eminente era o rei). A Lei de Terras de 1850 é que juntaria numúnico
náriossobretudo do Nordeste, no caso da A m azónia, que foram ocupando direito, o de propriedade (mantendo, porém , separados os conceitos), a
as terras real ou supostamente livres da região. posse e o dom ínio. O vocabulárioe o im agináriom onárquicos, ainda tão
Uma característica importante da frente de expansão em todo o país, fortes nas frentes de expansão, não são devidos unicamente a arcaísm os
para datá-la historicamente, é que, quando se deslocavam juntos ricos e religiosos, mas tam béma uma concepção de direito muito próxim ados
pobres, deslocavam-se com base nos direitos assegurados pelo regime ses- pobres: a dos direitos (de uso) gerados pelo trabalho emoposição aos direi-
marial. Embora o regime de sesmarias tenha cessado às vésperas da Inde- tos (de propriedade) gerados pelo dinheiro.'^
pendência e só tenha sido substituídopor um novo regime fundiáriocom A partir de 1943, afrente pioneira que em outras regiões se movia
a Lei de Terras de 1850, ele continuou norteando as concepções de direito impulsionada pelos interesses im obiliários do grande capital, das empresas
à terra de ricos e pobres e, em muitos casos, norteia até agora. ferroviáriase da grande agricultura de exportação, como o caféno Sudes-
Ainda hoje, quando um posseiro da A m azóniajustifica seu direito à te, na A m azónia passa a depender da iniciativa do governo federal. Ela
terra, eleofazinvocandoodireitoqueteriasidogeradopelotrabalhona terra. se torna a forma característica de ocupação das novas terras. Os grandes
Ao mesmo tempo, reclama e proclama que seu direito está referido aos episódios desse impulso foram a Expedição Roncador-Xingu e a Funda-
frutos de seu trabalho, que por serem seus estáno direito de cedê-los ou ção Brasil Central, ambas oficiais, nos anos 1940; a construção da rodovia
vendê-los. A concepção de que é preciso ocupar a terra com trabalho (na B elém -B rasília, nos anos 1950; e, finalmente, a política de incentivos fis-
derrubada da mata e no seu cultivo) antes de obter reconhecimento de cais da ditadura militar a partir dos anos 1960." A políticade incentivos,
direito era própriado regime sesmarial. Do mesmo modo, a concepção ao subsidiar a formação do capital das empresas am azônicas, dando-lhes
de que o trabalho gera direito de propriedade sobre os frutos do traba- assimuma compensação pela imobilização improdutiva de capital na aqui-
lho tam bémera própriadesse regime fundiário. Nele, o domínioestava sição de terras para abertura das fazendas (onde era esse o caso), promoveu
separado da posse útil. O dom ínioera da Coroa. Quando, por acaso, o a aliançaentre os grandes proprietáriosde terra e o grande capital.
sesmeiro deixasse de cultivar a terra ou de obter dela frutos para pagar Nesse quadro, o deslocamento da frente pioneira sobre as terras já ocu-
tributos, a terra se tornava devoluta (ou realenga, como então se dizia, padas pela frente de expansão foi acelerado^^ e deu à superposição dessas
isto é, pertencente ao rei). Podia, por isso, ser novamente distribuídapelo distintas frentes de ocupação territorial uma violenta dimensão conflitiva.
154 FRONTEIRA () DA I RONII IRA ib^

Tor n ar am - se fr equen t es e n u m er osos os despejos violen t os e d r am át i co s r icos. A so b r e p o si ç ão da fr en t e p ion eir a e da fr en t e de e xp a n sã o p r o d u z


de posseiros das terras qu e ocu p avam . C o m o u sem base e m d e cisão j u - u m a si t u aç ão de con t em p or an eid ad e dessas r elações de t em p os d ist in t os.
d icial, os supost os don os, m u it as vezes apoiados em d ocu m e n t os falsos, E n ela a m e d i a ç ã o das r elações m ais desen volvidas faz c o m qu e o atraso
t ê m con segu ido c o m facilidade o r econ h ecim en t o de dir eit os in devidos. A ap ar e ça, n a ver dade, c o m o diferença. As r elações m ais av an ç ad as, m ais
aceler ação d o avan ço da fr en t e p ion eir a em diversas r egiões adian t ou - se à car act er ist icam en t e capit alist as, p or exem plo, n ã o cor r oe m n e m d est r oem
p r ó p r i a fr en t e de e xp an são e e n t r o u d ir et am en t e e m con t at o c o m as p o p u - n ecessar iamen t e as r elações qu e car r egam con sigo a le git im id ad e de ou t r as
lações i n d í ge n as. Se n os an os 1970, n o M a t o Gr osso, a d i st i n ção en t r e as é p o c a s. P or t an t o, nesses casos, a d ifer en ça n ão t e m sen t id o c o m o passado,
duas m od alid ad es de o c u p a ç ã o t e r r it or ial ain d a p od ia ser facilm en t e feit a, mas co m o c o n t r a d i ç ã o , e n ela c o m o u m dos com p on en t e s d o p ossível, o
o m esm o n ã o se d eu nos an os 1980, n o P ar á. A q u i os í n d i o s ain d a e m fase p ossível h ist ó r ico de u m a sociedade diver sificada, que gan h a sua u n id a-
in cip ien t e de in t e gr ação n a sociedade n acion al com b at e r am d ir et am en t e as de n a co e xi st ê n ci a das d ife r e n ças sociais e é t n icas. Seria m u i t o i n gé n u o
gran des empresas m oder n as qu e se in st alavam e m sua r egião c o m gran des im agin ar qu e elas co n st i t u e m u m a r eceit a de t e n d ê n ci as h ist ór icas, an t a-
fazen das, in t er d it an d o- lh es o acesso às terras qu e p r e t e n d iam ocupar . Foi o
gó n i c as o u alt er n at ivas, decor r en t es da si t u ação sin gu lar d o posseir o o u
que ocor r eu especialmen t e c o m os k ay ap ó s. N o M a t o Gr osso, os xavan tes
de cada gr u p o i n d í ge n a. Seria su por a possibilid ade da h ist ó r i a social n ã o
e os b o r o r ó s só r eagir am con t r a os fazen deiros ap ó s passar u m cer t o t e m p o
co m o t r a n sfo r m a ç ã o , mas c o m o r e t or n o a u m t e m p o qu e a d u r a cr ueza
de sua p acificação. Especialm en t e os p r im e ir os, at acan do fazen das já in st a-
d o pr esen t e t o r n o u id ílico.
ladas e m seus an t igos t er r it ór ios e r et om an do- as.
Isso n ã o qu er dizer, m u i t o ao co n t r ár io, que o capit al n ã o est en da so-
P o r é m , o av an ço da fr en t e p ion eir a sobre a fr en t e de e xp an são e a con -
br e o t er r it ór io da fr en t e de e xp an são u m a rede de r elações com er ciais
flitiva coexist ên cia de ambas é m ais do que c o n t r a p o si ç ão de dist in t as m o -
par a nelas in t egr ar os p r od u t o s da in d ú st r ia ext r at iva o u m esm o os p r o-
dalidades de o c u p a ç ã o d o t er r it ór io. A o coexist ir em ambas n a situação de
d u t os agr ícolas, especialmen t e os que são t íp icos da su b sist ê n cia r egion al,
fronteira, d ã o aos con flit os qu e ali se t r avam - en t r e gran des p r op r ie t ár ios
co m o a far in h a de m an d ioca, o ar r oz etc. O u , at é, esten da seus ví n cu lo s
de t er r a e campon eses e en t r e civilizados, sob r et u do gran des p r op r ie-
d ir et am en t e às p o p u l a ç õ e s in d í ge n as acuadas, co m o t ê m feit o as gran des
t ár ios, e í n d i o s - a d i m e n sã o de con flit os p or dist in t as c o n c e p ç õ e s de des-
empresas n a e xt r ação de m ad eir a e m i n é r i o s n os ú l t i m o s t em p os. E isso
t i n o . E, p o r t an t o , d i m e n sã o de con flit os p o r d ist in t os pr ojet os h ist ór icos
n ão t r an sfor m a n e m os campon eses n e m os í n d ios em t íp icos op e r ár ios de
o u , ao m en os, p o r dist in t as ver sões e possibilidades do p r ojet o h ist ór ico
empresa capit alist a. O qu e n ã o im p ed e, t a m b é m , que gran des empresas,
qu e possam exist ir n a m e d i a ç ã o da r efer ida si t u ação de fr on t eir a. Essa si-
dot adas de o r gan ização em pr esar ial e t écn ica m o d e r n a e sofist icada, r ecor -
t u ação de fr on t eir a é u m p o n t o de r efer ên cia pr ivilegiad o par a a pesquisa
sociológica p or q u e en cer ra m ai o r r iqu eza de possibilidades h ist ór icas d o r a m à peon agem , ist o é, a escr avid ão p or d ívid a, sob r et u do nas at ividades

qu e out r as sit u ações sociais. E m gr an de par t e p or qu e, m ais d o que o con - de d er r u bad a da m at a e de i m p l a n t a ç ã o de suas fazen das, o que é p r ó p r i o

fr o n t o en t r e gr u pos sociais c o m interesses con flit ivos, agrega a esse con flit o dos serin gais e castan h ais da fr en t e de e xp a n sã o . C o m o n ão im p e d e , ain d a,
t a m b é m o co n fl i t o en t r e h ist or icidades desen con t r adas. que b olsóe s de p o p u l a ç õ e s i n d í ge n as e campon esas sobr evivam n o in t e r ior

N o m e u m o d o de ver, o e n con t r o de r elações sociais, m en t alid ad es, da fr en t e p ion eir a, o u m esm o e m r egiões de o c u p a ç ã o an t iga, co m o ocor r e

or ie n t açõe s h ist or icam en t e descompassadas, at é p r o p r iam e n t e n o l i m i t e n o Nor d est e e n o Sul d o p aí s, ain d a que n u m cer t o sen t ido en clausuradas
da h ist ór ia, i n t r o d u z a m e d i a ç ã o das r elações m ais desen volvidas e p od e- e m terras de m e n o r in teresse e c o n ó m i c o o u em t er r it ór ios dem ar cados.
rosas n a d e fin ição do sen t id o das r elações m ais "atrasadas" e fr ágeis, o u E que, a p ar t ir d aí, se in t e gr em m ar gin alm en t e (ou n ão ) n o m er cado de
m elh or , das r elações difer en t es, c o m ou t r as datas e ou t r os t em p os h i st ó - p r od u t os agr ícolas.
156 FRONTEIRA o ll/V\l'0 IJA TRONTLIRA 157

Sobrevivência e milenarismo não se constitui pela precedência do que nós definimos como económico na
no mundo residual da expansão capitalista constituição de seus modos de vida e da mentalidade de seus agentes. Em-
bora sua dinâmica resulte da ação e dos interesses do capital, combinados
Justamente essa primeira constatação da diversidade das temporalidades com as concepções próprias do camponês e mesmo do índio integrado.^''
históricas na fronteira sugere a possibilidade de um equívoco no uso das con- A frente de expansão tornou-se, no fundo, o mundo residual da expan-
cepções de frente de expansão e frente pioneira como instrumentos de clas- são capitalista, o que está além do território cujas terras podem ser apro-
sificação e definição dessa realidade. Ainda que os geógrafos tenham acen- priadas lucrativamente pelo capital. Explico-me: tanto Monbeig quanto
tuado a importância da urbanização, das modernas vias de comunicação, Waibel mostraram claramente que na frente pioneira o capital se torna
dos empreendimentos económicos modernos, da mentalidade moderna, proprietário de terra, recria no terreno os mecanismos da sua reprodução
sugeriram com razão a precedência dos fatores económicos no deslocamen- ampliada. Expande-se sobre o território, de que se apossa como seu terri-
to da frente pioneira, o principal dos quais, sem dúvida, a conversão da terra tório. Essa expansão territorial traz para a própria fronteira a infraestrutura
em equivalente de mercadoria. Entretanto, os que incorporaram a distinção da reprodução capitalista do capital: o mercado de produtos e de força de
entre frente de expansão e frente pioneira, simplificadamente, como instru- trabalho e com ele as instituições que regulam o princípio da contratuali-
mentos de classificação e definição da realidade da fronteira, transferiram, dade das relações sociais, que é o que caracteriza a sociedade moderna. O
inclusive os críticos, a precedência do económico para a análise também da mercado se constitui na mediação essencial que dá sentido ao processo de
frente de expansão.'^ Com isso, o que é próprio e característico dessa última ocupação do território.
situação de fronteira se desfigura, aparecendo como etapa (e não como ex- A frente de expansão também é expansão de relações mercantis. Mas
pressão de contradição), por exemplo, na expansão do capital na Amazónia. numa concepção inversa à da expansão da produção propriamente capi-
No meu modo de ver, as relações sociais (e de produção) na frente de talista. As relações que na história da fronteira no Brasil têm precedido o
expansão são predominantemente relações não capitalistas de produção avanço da frente pioneira propriamente dita não se caracterizam pela ação
mediadoras da reprodução capitalista do capital. Isso não faz delas outro do empreendedor que expande a reprodução capitalista do capital no ter-
modo de produção. Apenas indica uma insuficiente constituição dos meca- ritório novo. Antes, sua ação é no sentido de estender as relações mercantis
nismos de reprodução capitalista na frente de expansão. Insuficiência que além dos limites do território propriamente incorporado na reprodução
decorre de situações em que a distância dos mercados e a precariedade das capitalista do capital. Há um limite além do qual não é possível extrair
vias e meios de comunicação comprometem a taxa de lucro de eventuais renda capitalista da terra. Provavelmente por isso, os territórios sobre os
empreendedores. Portanto, aí tendem a se desenvolver atividades económi- quais se move a frente de expansão são claramente marcados pela ausência
cas em que não assumem forma nem realidade própria os diferentes com- da propriedade fundiária moderna, predominando a posse efetiva ou o
ponentes da produção propriamente capitalista, como o salário, o capital aforamento. A teoria da fronteira é, no meu modo de ver, basicamente uvi
e a renda da terra. Os meios de produção ainda não aparecem na realidade desdobramento da teoria da expansão territorial do capital. Novos terrenos
da produção como capital nem a força de trabalho chega a se configurar na são ocupados de modo capitalista quando é possível extrair deles a rciul.i
categoria salário. Portanto, o produtor não tem como organizar sua produ- capitalista da terra, ao menos a renda absoluta, isto é, quando é possívc-l
ção de modo capitalista, segundo a racionalidade do capital. O capital só embutir nos preços dos produtos nela cultivados, além da renda territoii.il,
entra, só se configura, onde sua racionalidade é possível. a taxa média de lucro do capital.'^ Se a distância em relação ao mercado .1
Se a frente pioneira se define essencialmente pela presença do capital que o produto se destina implica em transferir ao transporte esse lucro, I K
na produção, o mesmo não ocorre, portanto, na frente de expansão, que nhum capitalista estará interessado em investir em atividades econôiiiu .r.
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geograficamente localizadas além de um certo limite.^" Se o capitalista tiver dependerá de que ele possa assegurá-la por outros meios. Ele o íaz orga
que deduzir do seu lucro o preço do transporte para fazer o produto chegar nizando sua produção como uma atividade complementar da produção
ao mercado e aí realizar o seu ganho, ele certamente haverá de considerar a direta de seus meios de vida. A isso chamo de economia de excedentes para
alternativa de outros investimentos para seu capital. diferençá-la de mera economia de subsistência. Nela o excedente já apa-
Além desse limite, está a frente de expansão, mas não a frente pioneira. rece como tal na própria produção. O essencial nessa interpretação é que
Por isso, a frente de expansão está mais próxima da economia mercantil os meios de vida do agricultor não são imediatamente estabelecidos pela
simples do que da economia capitalista e, ao mesmo tempo, está próxima mediação do mercado. Mesmo que o camponês venha a ter que comer-
da mera economia de subsistência. O camponês produz aí seus próprios cializar também parte de seus meios de vida, ele sabe que está vendendo
meios de vida, além dos excedentes comercializáveis. Ele não pode se inse- aquilo que originariamente fora destinado à sua subsistência. É diferente
rir plenamente na divisão social do trabalho que rege o conjunto da eco- da situação do assalariado e mesmo do pequeno agricultor capitalista que,
nomia. Porque, se o fizer, terá que se especializar, dedicar-se de preferência no momento da produção, não sabe e não pode distinguir entre o que vai
aos produtos mais rentáveis naquela terra e naquele lugar. E adquirir no constituir seus meios de vida e o que vai constituir o excedente apropriado
mercado seus meios de vida. Ora, os meios de vida que circulam através do pelo capital, num caso, ou destinado à sua própria acumulação, no outro.
mercado são meios de vida cujo preço incorporou a taxa de lucro do capital O excedente do camponês da frente de expansão é um excedente concreto,
que os produziu e/ou que os comercializou. Desse modo, eles impõem à produto de trabalho concreto, do mesmo modo que seus meios de vida. ()s
reprodução de seus consumidores e da força de trabalho a rentabilidade e meios de vida de quem trabalha para o capital, como ocorre com o operá-
a mediação do capital. Para que a força de trabalho se reproduza, terá que rio ou o assalariado do campo, têm seu montante definido pela mediação
receber por seu produto o seu valor, isto é, o que foi dispendido em meios do capital e é materialização de trabalho abstrato e, portanto, social. Não
de vida por quem trabalha, pois do contrário a força de trabalho não po- é o próprio trabalhador que calcula e define quanto da produção vai se
derá reproduzir-se. Onde a distância do mercado não viabiliza a extração constituir em seus meios de vida.^'
da renda capitalista da terra, o camponês terá que organizar sua economia Muitas ressalvas têm sido equivocadamente apresentadas a essa concep-
em outras bases. Ele terá que produzir e assegurar seus próprios meios de ção. Há, frequentemente, situações concretas em que, embora o agricultor
vida. Com isso, poderá vender seus produtos como excedentes, e não como produza de fato seus próprios meios de vida, toda sua atividade está domi-
produtos cujo preço de venda pelo produtor esteja eventualmente baseado nada pela produção do excedente comercializável. E mesmo que não esteja,
numa contabilidade de custos, como ocorre na atividade organizada em seu estado de pobreza o leva frequentemente a reter para sua subsistência
bases empresariais. Isso fica mais claro se considerarmos os produtos que e de sua família o que sobra do que foi obrigado a vender ao comerciante
tanto são produzidos na frente de expansão quanto na frente pioneira e nas e intermediário. N ã o raro tendo que endividar-se junto ao armazém para
regiões antigas. assegurar a sobrevivência de sua família durante o ano, vendendo antecipa-
No Brasil, de modo geral, um desses produtos é o arroz. Até uma certa damente a colheita que ainda não fez, do produto que ainda não está ma-
distância do mercado consumidor, o arroz poderá ser produzido de modo duro, em vez de vender a sobra previamente calculada da produção direta
empresarial, como ocorre nas grandes regiões arrozeiras do Sul, do Sudeste de seus meios de vida. Portanto, aparentemente não estaríamos, nesse caso,
e do Centro-Oeste. A partir desse limite, isto é, além da frente pioneira, em face de uma economia de excedentes, mas de uma autêntica economia
não poderá ser produzido de modo empresarial. A parrir daí terá que ser de mercado.
produzido sem que o produtor possa assegurar sua sobrevivência apenas As coisas, porém, não são assim. O excedente não é o resto ou a sobra.''"
com sua comercialização. Em consequência, a sobrevivência do agricultor Não se trata de que o agricultor assegure para si e sua casa a subsistência c
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S Ó depois venda o que sobrou, embora isso possa ocorrer.''' Trata-se de uma mercan til será acessório, limit ado e margin al, no sentido de que n ão é
economia de excedentes porque o raciocín io que preside a organ ização da ele que organiza a totalidade do mun do campon ês. Em seu mun do, o
pr odu ção, isto é, o que plantar e sobretudo quan to plantar e até onde plan- mercado é con stituído pelos precários terminais de uma rede de aquisição
tar, está organizado a partir da ideia de que, do que se planta, uma parte de produtos agrícolas ou extrativos, adquiridos basicamente em troca de
deveria destinar-se primeiramente à subsistên cia da família do produtor e outros produtos, sobretudo industrializados, que chegam ao campon ês por
u m excedente deveria ser produzido para troca ou comércio. O acréscimo preços várias vezes multiplicados em relação aos grandes centros urbanos.
n o tamanh o da roça em relação à subsistên cia depende da disponibilidade Isso, por ém , n ão quer dizer que, ao mesmo tempo, os comerciantes de po-
de força de trabalho familiar ou da possibilidade de pagar a terceiros para
voado n ão constituam parte integrante e, mesmo, essencial desse mun do,
que a façam. Essa é uma das razões pelas quais a saída de casa do filho
como de fato constituem.^^ Porém, os produtos n ão circulam de modo
h omem e adulto acarreta em geral uma redução nas con dições de vida
autenticamente mercan til, até porque tem aí escassa presen ça o din h eiro,
da família, u m certo empobrecimento.''^ O excedente depende de vários
predominando as trocas.^"* Seus preços n ão refletem o mercado, mas as
fatores. De u m lado, do n úm er o de braços na família. De outro lado, da
con dições monopolistas da comercialização e, sobretudo, o poder pessoal
fertilidade remanescente do terreno. Com o em geral na frente de expan são
do comerciante. No geral, a troca se dá no in terior de uma relação que é
o que se pratica é agricultura de roça, h á sempre necessidade de novas ter-
sobretudo patriarcal relação de dom in ação. Estamos, portan to, em face de
ras (e, portan to, de paulatino deslocamento dos agricultores em direção a
uma inserção imperfeita do campon ês no mercado porque é imperfeito e
terras virgens). Mas depende, t am bém , de que n ão ocorra uma doen ça na
n ão capitalista o mercado que chega até ele e que procura envolvê-lo em
família, pois isso geralmente implica em despesas extraordinárias com re-
sua teia de exploração econ ómica. Essa é a forma da con versão, pelo capital
médios, o que, muitas vezes, leva à comercialização do produt o destinado
à própria subsistên cia e ao endividamento posterior para repô-lo quando comercial e usurário, do excedente físico em lucro.
se fizer necessário. Situação que se repete quando algum desastre n atural A frente de expan são n ão tem sido apenas con stituída pelo campesina-
reduz a produtividade do trabalho, como chuvas excessivas ou seca. to. Nela h á uma grande diversidade de personagens, atividades econ ómicas
Muitas das dificuldades para compreender as peculiaridades e os efeitos e relações sociais específicas. H á uma espécie de burguesia de fronteira
dessa economia simples vêm de pesquisadores que lim it ar am suas obser- que muitas vezes toma a in iciativa pela expan são desses modos marginais
vações, quando as fizeram, a regiões em que a economia camponesa está de pr odução das mercadorias. Ela é responsável pela implan t ação desses
em crise, sobretudo em con sequên cia da sua maior depen dên cia do mer- terminais de sucção de produtos e desproporcional distribuição de merca-
cado devido a alterações nas necessidades da família camponesa, quando a dorias trazidas de fora.
desorgan ização da economia de excedentes já está adiantada. E sobretudo A frente de expan são está mais pr óxima das relações servis de trabalho
em regiões em que as roças camponesas já estão cercadas pelas grandes do que das relações propriamente capitalistas de pr odução. Os casos de
fazendas de gado. Os camponeses n ão podem, por isso, concretizar o des- peonagem ou escravidão por dívida, no Brasil, ocorrem com m u it o mais
locamento cíclico de suas roças para áreas pr óximo de mata e terras virgens. frequência na frente de expan são do que nas outras regiões. É evidente que
O declínio da produtividade agrícola e o que é, de certo modo, seu confi- são relações produzidas no processo de reprodução ampliada do capital,
namento comprometem a reprodução desse campesinato e a din âmica da que recorre a mecanismos de acumulação pr im it iva em certos momentos
frente de expan são. dessa reprodução amphada,*^^ isto é, recorre seja ao confisco de bens, como
Mesmo que tais populações se torn em acentuadamente dependentes a terra, seja ao confisco de tempo de trabalho mediante ampliação da mar
do mercado e dos pequenos comerciantes de seus povoados, seu vín culo gem de trabalho n ão pago.
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T e m sid o car act er íst ica d a fr en t e de e xp a n sã o , n o Br a sil, a a u sê n cia da h o m e m c o m a n at u r eza, fr e q u e n t e m e n t e e n vo lve n d o p e r d a c u lt u r a l, r e a li-
p r o p r ie d a d e fo r m a l d a t e r r a , esta ú lt im a co n st it u íd a d e sim u lt â n e o s d i - (.lades n ovas q u e i m p õ e m r ed efin ição d e cost u m es e t r a d içõ e s. So b r e t u d o
r eit os d e posse e d o m í n i o . A p o p u la ç ã o cam p o n esa é ger alm en t e posseira p o r q u e essas m u d a n ç a s acar r et am d e sa gr e ga çã o d e gr u p o s d e co n st it u içã o
o u o cu p a n t e d e t er r a , sem t ít u lo d e p r o p r ie d a d e . O s p a t r õ e s, o n d e os h á , a n t iga , n o m ais das vezes ap oiad os n u m a e st r u t u r a d e vín c u lo s d e p aren t es-
fo r a m d u r a n t e lo n go t e m p o , at é h á p o u co s an os, o u m er os p osseiros, c o m o co real o u r i t u a l . U m a cer t a co n sciê n cia d e p r o xi m i d a d e d o fim d os t e m -
os cam p on eses, o u a r r e n d a t á r io s d e t erras p ú b lica s, p a ga n d o ao Est ad o fo - pos, d e co r r e n t e d e u m a sen sa ção d e in e xp licá ve l d e sm o r a liz a çã o , p r iva çã o ,
ros quase sim b ó lico s e, so b r e t u d o , p a ga n d o c o m favores p o lít ico s e e le it o - p r o va çã o e cast igo, i m p õ e às vít im a s d a e xp r o p r ia çã o m a t e r ia l e c u lt u r a l
rais, d e t i p o clie n t e list a , as co n ce ssõ es t e r r it o r ia is recebid as.'''' Essa p r e cá r ia u m a cert a c o m p r e e n sã o a p o ca líp t ica d os acon t ecim en t os.''^ :>,
r elação d e p o b r es e ricos c o m a posse d a t e r r a n a fr en t e d e e xp a n sã o n ã o é A b u sca t e m u m fo r t e car át er c o m u n it á r io , o q u e se vê cla r a m e n t e n os l o -
só r esu lt ad o d a p r e cá r ia in st it u cio n a liz a çã o d o d ir e it o de p r o p r ie d a d e , m as cais d e im igr a çã o ao lo n g o d o To ca n t in s e d o Ar a gu a ia e m e s m o e m Ro n d ô -
t a m b é m r esu lt a d o d e q u e t ais t er r it ó r io s est ão for a d o c ir c u it o r en t ável d a n ia . E m p a r t e p o r q u e esses gr u p o s são co n st it u íd o s p o r ext en sas p at en t eias,
r en d a d a t e r r a o u d a a p lica çã o d e ca p it a l n a a q u isiçã o d e t er r en o s. agr egan d o ascen d en t es, d escen d en t es e colat er ais, gr u p o s q u e m e sm o t m ia
Se n a fr en t e p io n e ir a a r a cio n a lid a d e e c o n ó m ic a e a co n st it u içã o fo r m a l d r a m á t ica ad versid ad e e c o n ó m ic a n ã o d est r ó i. U m ce r t o s im p lis m o eco
e in s t it u c io n a l das m e d ia çõ e s p o lít ica s est ão visive lm e n t e presen t es e m t o - n o m ic is t a sugere q u e a e xp r o p r ia çã o p r o d u z m e ca n ica m e n t e a in d ivid u a li
d os os lu gares e m o m e n t o s , já n a fr en t e d e e xp a n sã o é n o t ó r io o p r e d o m í- zação e a in t e gr a çã o n o m e r ca d o de t r a b a lh o , já n ã o m ais d o g r u p o , m . i ' .
n i o d os valores sociais, das cr e n ça s, d o im a gin á r io n a fo r m a ç ã o , d efin ição d e cad a u m d e seus an t igo s m e m b r o s . N o e n t a n t o , as e vid ê n cia s m o s t i . m i
e su st e n t a çã o d os vín cu lo s sociais. Nest a, c o m fr e q u ê n cia , os in s t r u m e n t o s q u e m e sm o q u a n d o , a p a r en t em en t e , as coisas o c o r r e m desse m o d o , t o m
d a e co n o m ia m e r c a n t i l , esp ecialm en t e o d i n h e i r o , ch egam c o m o exp r essão as m igr a çõ e s p ar a as gran d es cid ad es, o q u e t em o s é o co n t r á r io : m igr a çõ e s
d o m a l e d o d ia b ó lico . O q u e se exp lica p o r q u e n ela o p o d e r d e co r r o sã o t e m p o r á r ia s e m g r u p o d ã o lu ga r a m igr a çõ e s d e fin it iva s feit as aos p oiíi i>.,
d os processos e c o n ó m ic o s é e xt r e m a m e n t e m e d ia t iz a d o , n ã o at u a d ir e t a e ger a lm en t e c o m e ç a n d o p elos m ais jo ven s, d ep ois os h o m e n s e finalnu-iiu- .1
im e d ia t a m e n t e sob re m en t es e r elações sociais. N o m e u m o d o d e ver, isso fa m ília t o d a . A m igr a ç ã o d os m e m b r o s d e u m a fa m ília t e n d e a d u r a i' m u i
est á r elacio n ad o c o m a p r o d u ç ã o d ir e t a d e m eio s d e vid a e a p r o d u ç ã o t os an os, at é q u e t o d o s se t r a n s p o r t e m d e u m lu ga r a o u t r o .''^ E m p . n i t .
c o m p le m e n t a r ( m e sm o q u e e m p r i m e i r o lu ga r ) d e exced en t es p ar a escam - t a n t o n u m caso q u a n t o n o u t r o , p o r q u e esses gr u p o s se con ceb em < n
b o e c o m é r c io . O d i n h e i r o e a m e r ca d o r ia n ã o são d ir e t a e p r e d o m i n a n - co m u n id a d e s d e d e st in o e d e p e r t e n c im e n t o . D e ce r t o m o d o , da i m M U 1
t e m e n t e r esp o n sáveis p ela r e p r o d u çã o social. E, nesse caso, q u a n t o m ais é m a n e ir a q u e p ar a as p o p u la çõ e s in d íge n a s esse p e r t e n c im e n t o iiu I
m a r g in a l e, ao m e sm o t e m p o , co r r o siva e vio le n t a a in ser çã o n o m e r ca d o , an cest rais. A in sist ên cia c o m q u e algu m as t r ib o s t e n t a m r e c u p c i;ii i< n 1-
m ais se acen t u a a for ça d o im a gin á r io n o m o d o de vid a dessas p o p u la - an cest rais, c o m o é o caso d os xavan t es, t e m a ver, e m p a r t e , c o m a loi
ções e n a t e n t a t iva d e c o m p r e e n sã o d e seus p r ó p r io s d r am as e m isé r ia s. ção d e seus ce m it é r io s. O se n t id o d o d ila ce r a m e n t o q u e a d e st r u iç.i'! <!• '<'"
Nesse se n t id o , n ã o se p o d e co m p r e e n d e r a fr en t e d e e xp a n sã o r e d u - m u n d o d esp er t a n o í n t i m o d e m u i t o s cam p on eses d a fr en t e de i x p . i i i ' . i n

z in d o - a à exp r essão m a t e r ia l d e sim p les b u sca d e t er r a p o r p a r t e d os ca m - p o d e t er u m a in t e n sid a d e d r a m á t ic a d e d ifícil id e n t ifica çã o a p ai 111 ilt 1 *
pon eses p ob r es exp u lsos das áreas d e la t ifú n d io , so b r e t u d o n o No r d e st e . q u em as co n ve n cio n a is d e p a r t icip a çã o .
Essa bu sca n ã o r ar o p reced e o p r ó p r io at o d e e xp u lsã o o u , e n t ã o , q u a n d o A h ist ó r ia das fren t es d e e xp a n sã o n o Br a sil, n est e ú lt i m o s c m ld , m« In
o su ced e, t e m car act er íst icas m u i t o d iversas d a d e u m a sú b it a d esa gr ega ção sive n o Su l, t e m sid o ao m e sm o t e m p o a h ist ó r ia d o m ile n a r is m o 1 .iiii| ...

d e viz in h a n ça . Ela t e n d e a se d e fin ir n o a m b ie n t e d o a ju st a m e n t o p r e cá r io n ês.''^ Pr a t ica m e n t e t o d o s os m o vim e n t o s m ilen ar ist a s o u m c s s i . i i i i i n - . j i .

a u m a n o va sit u a çã o d e co r r e n t e d a e xp u lsã o , a u m n o vo r e la cio n a m e n t o d o p e r ío d o o c o r r e r a m nas fren t es de e xp a n sã o , o u e m b o lsõ e s d e t r .u lh u >ii i l i


164 FRONTEIRA I) IIAfll'1) DA I KONII IKA K.S

mo em que o modo de vida é idên tico ao que pode ser observado naquelas, lambem, que Compostela é "campo de estrelas", isto é, a Via Láctea."-
e ocorreram nos momentos em que os camponeses estavam sendo expulsos Portanto, na fron teira, h á u m imagin ário místico, que mescla e adapta ao
da terra ou estavam ameaçados de expulsão. sentido de movimen to próprio da frente de expan são vários e diferentes
Pude observar diretamente que as migrações espon tân eas do Nordeste componentes do imagin ário medieval. Pode-se dizer que "adapta" na me-
para a Amazón ia, para u m n úmer o m u it o grande de pessoas, estão motiva- dida em que a realidade que sustentava esse imagin ário, na origem, era a
das por con cepções milenaristas. Em diferentes pontos de uma extensão de do movimen to do oeste em direção a leste. Aqu i é o con trário, como se os
cerca de oitocentos quilómetros ao longo do rio Araguaia, encontrei diver- camponeses recorressem ao que parece ser o arquétipo do con fron to com
sos grupos de camponeses que chegaram à região inspirados pelas profecias o desconhecido, com a natureza, com o outro e, sobretudo, com o pr ópr io
do padre Cícero sobre a existência de u m lugar mítico depois da travessia lim it e do h uman o.
do grande r io. E tive n otícia de u m grupo desgarrado, empenhado na mes- H á u m certo componente de guerra santa nesse universo, como ocorreu
ma busca, que se estabelecera à beira do r io Tocantins. Esse lugar mítico é n uma frente de expan são do sul do país, d e l 9 1 2 a l 9 l 6 , quando houve a
reconhecido como o lugar das Bandeiras Verdes, que n in guém sabe dizer chamada Guerra do Contestado.^^ É como se a h uman ização do h omem
exatamente o que é n em onde é. Mas seria reconhecido quando fosse en- tivesse em qualquer circun stân cia a dimen são de uma peleja mor t al, n ão só
contrado, por ser u m lugar de refrigério, de águas abundantes, de terras entre Deus e o diabo, mas entre o h uman o e o in uman o. As influências das
livres, em contraste com o Nordeste árido e latifundiário.^" heresias medievais se anunciam através das inversões das relações sociais:
Trata-se, claramente, de milenarismo medieval e europeu, como é pr ó- é nos opostos que está o sentido do que aparentemente perdeu o sentido.
prio da maioria dos casos de milenarismo no Brasil. Os que procuram as No Contestado, era preciso morrer para renascer no exército divin o de
Bandeiras Verdes andam em grupos. Geralmente são grupos de parentes São Sebastião; os velhos deveriam se tornar jovens, a sabedoria e o poder
e vizinhos no local de origem.^' Sua trajetória dos pontos de origem no estavam com as crian ças. Além disso, quem n ão se recolhesse aos redutos
Nordeste aos lugares em que se estabeleceram varia de seiscentos a oit o- santos era in im igo.
centos quilómet ros. O deslocamento é len to, em vários casos toman do Além dos seguidores da Bandeira Verde, h á outros grupos de camponeses
dos peregrinos muitos anos, com paradas demoradas ao longo do trajeto. peregrinos como o de Maria da Praia, que há muitos anos se desloca de Goiás,
O fen ómen o vem ocorrendo h á mais de cinquenta anos e se t or n ou m u it o no Centro-Oeste, para o Nor t e. Depois de alguns anos atravessando Goi-
intenso nos anos 1970. ás e Mat o Grosso, o grupo se encontra hoje n o Pará. E o grupo dos ro-
E extremamente significativo que os peregrinos se desloquem na direção meiros do padre Cícer o, dirigido por Justino, u m grupo que teve início
leste-oeste, que é a mesma direção do deslocamento da fronteira e do mo- em 1967, em Barreira do Campo, n o Pará.^"* Aparentemente, tais grupos
vimen to de efetiva ocupação do território. Geralmente seguem o sentido fundem distintos milenarismos, pois eu mesmo encontrei no Mat o Grosso
de orien tação da Via Láctea, a que chamam de Camin h o de São Tiago. grupos de romeiros do padre Cícero a quem atribuem a profecia de procu-
Lembro aqui que São Tiago é o mesmo Saint Jacques que dá nome zsjac- ra das Bandeiras Verdes.^'
queries, às revoltas camponesas. E o Camin h o de São Tiago é o mesmo Ca- Na frente de expan são do Vale do Rio Doce, em Min as Gerais, em
min h o de Santiago de Compostela, na Espanha, seguido pelos peregrinos 1955, o milenarismo de u m pequeno grupo de camponeses assumiu a for-
que no tempo das cruzadas partiam para a terra santa, para a guerra contra ma de alucin ação coletiva e dur ou uns poucos dias. Aí t am bém a inversão
os infiéis e para resgatar o t ú m u lo de Cristo. Nesse sentido, o deslocamento se deu pela troca de nomes das pessoas, pelo recebimento de u m novo
atual, na direção supostamente indicada pela Via Láctea, segue u m r umo n ome. Ao mesmo tempo, promoveu a con figuração do in im igo: os possuí-
oposto ao do percorrido pelos cruzados na Idade Média europeia. Lembro, dos pelo demónio.^''
166 FRONTEIRA o IIMPI) DA I RONII IKA ! (./

H á muitas in dicações de joaquimismo nesses movimentos, inclusive que nela se encontram apenas estivessem buscando terra ou sc os íntlios
nos recentes, na Amazón ia, e nessa religiosidade de fronteira. Isto é, apa- apenas estivessem tentando reter ou ampliar seu território. Eles estão, cer-
rentemente h á influências das ideias de Gioacch ino Da Fiore, u m monge tamente, t am bém buscando terra para trabalhar e assegurar a sobrevivência
calabrês do século x i i , responsável pela elaboração e difusão de con cepções e a con tin uidade da família ou tentando manter territórios revestidos dc
relativas à chegada do tempo do Espírito Santo/-' A utopia joaquimit a se uma certa sacralidade na mem ór ia t ribal. Mas o fato de que se encontrem
manifesta, n o milenarismo sertanejo, nas práticas comun itárias, já que sua n uma situação que é t am bém limit e do h uman o, fron teira de h umanidade,
previsão é a de que h á de chegar u m tempo de justiça, de fraternidade, de limit e e fim de m un do, parece impor-lhes a necessidade de deslocar para
liberdade, de fartura - u m tempo de libertação. imagin ários mais profundamente estabelecidos a busca de sentido para a
Têm sido m u it o fortes na região as representações do mal que aflige os vida nos confins do h uman o, na fronteira. A revitalização do imagin ário
camponeses ameaçados de expulsão da terra pelos grandes proprietários e medieval e de u m imagin ário milenarista e cristão, inclusive, direta ou i n -
pelas grandes companhias na figura da Besta-fera apocalíptica. Frequente- diretamente, em alguns grupos in dígen as, repõe u m sistema de referência
mente, os diferentes, os de fora, os an tagón icos, são considerados "correios t am bém baseado na ideia de lim it e e fronteira: o con fron to entre cristãos
da Besta", enviados da Besta. A Besta é t am bém a con figuração do din h eiro e infiéis, entre o bem e o mal. Eles estão, sim, buscando a terra prometida,
nesse universo marcado pelo grande fluxo do capital, agente reconhecido que é m u it o mais do que o in strumen to material da pr odu ção que domin a
das violên cias contra esses camponeses.^** U m posseiro do Araguaia expli- o interesse dos pesquisadores e suas análises da frente de expan são. Nesse
cou-me a associação entre o din h eiro e a Besta-fera somando os valores do sonho se manifesta a grande tran sfiguração produzida pela fron teira, de-
papel-moeda, ainda o cruzeiro, en tão em circulação: 500+100+50+10+5+1. certo modo definidora da sua singularidade temporária e h istórica: tempo
O total era 666, o n úmer o apocalíptico da Besta. e espaço se fun dem no espaço-limite concebido ao mesmo tempo como
Tam bém entre as populações in dígen as na situação de contato têm t empo-limit e. É n o fim que está propriamente o começo.
ocorrido movimentos messiân icos n o período relativamente recente, como
* Expo si ç ão de abertura da Co n fe rê n c i a "The Frontier in Question", Department of History, University ot
entre os tiikun as, os ramkokamekras-canelas, os krah ôs e diferentes gru-
Essex, Colchester (Reino Un i do ), 21- 23 de abril de 1995. Pubhcado, originalmente, em Tempo Social - Revista
pos tupis.^' Frequentemente, con cepções messiân icas relacionadas com a de Socióloga da US?, v. 8, n. 1, maio 1996, pp. 23- 70.

proximidade do branco e a desorgan ização do mun do tribal que ela acar-


reta. Baseiam-se, quase sempre, na alteridade que o branco representa, na
desigualdade de forças n o con fron to entre ín dios e brancos. Se são tenta- Notas
tivas de in corporar os brancos nas suas referências míticas, são t ambém
' Alistair Hennessy, The Frontier in Latin American History, London , Edw ard Arnold, 1978, p. 3.
con struções míticas da inversão possível dessas relações, como ocorreu n o
2 Joe Foweraker, A luta pela terra: a economia po l í tica da fronteira pioneira no Brasil de 1930 aos dias atuais,
messianismo krah ó. trad. Maria Júl i a Goldw asser, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982, p. 11; Darrel A. Posey, Ti me , space, and

O reavivamento, entre os civilizados, de con cepções arquetípicas de the interface of divergente cultures; the kay apó indians of the Amazon face the future. Revista de Antropólo-
ga, V. 25, São Paulo, Departamento de Ci ê n c i as Sociais- FFLCH/ usp, 1982, p. 89.
origem medieval na frente de expan são parece indicar, em termos m u it o
' N o meu modo de ver, é o caso do útil estudo da economista Leonarda Musumeci, O mito da terra liberta:
gerais, uma certa dificuldade para elaborar uma con sciên cia própria dos co l o n i z ação "e spo n tân e a", campesinato e patronagem na A m az ó n i a oriental, São Paulo, An po c s/ Vé rti c c ,
Editora Revista dos Tribunais, 1988. Apesar de seu estudo se referir a um único povoado c am po n ê s do Ma-
conflitos e da desagregação das relações sociais, sobretudo as relações de
ran h ão , em que já não há se n ão remanescentes sociais da situação de fronteira, a autora o toma como típico
parentesco e vizin h an ça, na situação singular que ali se con stitui. da ampla e diversificada situação de fronteira e questiona desenvolta e fartamente interpretações relativas
ao tema, que tê m como referência um âmbi t o mais amplo e complexo. A l é m disso, não se baseia cm ob-
Os desencontros próprios da frente de expan são envolvem con sequên -
servações propriamente etnográficas, mas em opiniões de seus entrevistados, frequentemente induzidas para
cias e elaborações m u it o mais profundas do que ocorreria se os camponeses testar os antagonismos de sua po l é mi c a teórica. Co m o se as que stõe s propriamente interpretativas pudessem
168 FRONTEIRA O IIM I' n IIA I M)NII IKA In')

e devessem ser verificadas no terreno d o senso c o m u m . D e n t r e os exemplos de resposta induzida que podem lisses caboclos " n ã o s ão as .sentinelas a v a n ç a d a s da marcha para oeste". ( l i ' . 1'ierre M o n b c i g , linsaios de yniym-
ser encontrados n o referido l i v r o, transcrevo este: "P(esquisadora) - ...se a l g u é m t e m u m terreno sem ne- fia humana brasileira. S ã o Paulo, Livraria M a r t i n s , 1940, esp. p. 1 11; Pierre M o n b c i g , 1'ionniers cl jtlaiiMm
nhuma benfeitoria [grifo meu] e t á querendo i r embora, ele t a m b é m pode vender,' I(informante) - Vende o de São Paulo, Paris, Librairie A r m a n d C o l i n , 1952; Pierre M o n b c i g , Novos estudos de geografia humana bra-
direito, viu? É mais barato, viu?, mas vende. P - Mas aí ele t á vendendo o quê? I - Ele t á vendendo s ó u m sileira, S ã o Paulo, D i f u s ã o Europeia d o L i v r o , 1957.
direito, porque tava trabalhando naquele terreno, e sempre domina. O cabra vai lá, fala pra botar u m a r o ç a , C f Darcy Ribeiro, Os índios e a civilização: a i n t e g r a ç ã o das p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s n o Brasil moderno, 2. « I . ,
ele diz: ' n ã o , isso aqui é m e u , e tal, o povo respeita, viu? A í ele quer sair... P - O que é dele? Q u a n d o ele
P e t r ó p o l i s , Editora Vozes L t d a . , 1977, p. 2 5 .
diz 'isso aqui é meu', o que que é? A capoeira? I - É , s ó mesmo a capoeira, s ó o direito, porque trabalha
H á diferenças, t a m b é m , n o m o d o de ver a fronteira quando se faz a c o m p a r a ç ã o entre países diferenu-.s.
naquele lugar. (...) Porque tem..., trabalha naquele p e d a ç o de c h ã o , aí acha que tem direito, né?, de ninguém
Gerhard seleciona c o m o principais traço s para u m estudo comparativo de fronteiras a democracia polílii.i
entrar ali sem a pessoa comprar. P - A í são duas coisas que p o d e m ser vendidas: u m a é a benfeitoria c outra
na form a de autogoverno, a t e n d ê n c i a ao igualitarismo, a mobilidade e a consequente quebra do VÍIKIIIO
é o direito, sã o duas coisas diferentes, né? [sugere M u s u m e c i , como se n ã o tivesse e x c l u í d o a benfeitoria
d o costume o u da t r a d i ç ã o . C f D i e t r i c h Gerhard, Th e frontier i n comparative view, Comparaíiue Sludies
na pergunta inicial]. I - Pois é... M a s a benfeitoria que a gente fala aqui é o mesmo... é o direito [corrige
in Society andHistory, v. I , n . 3, The Hague, M o u t o n & C o . Publishers, M a r c h 1959, p. 2 0 7 . Os estudes
o informante, reagindo à s u g e s t ã o de M u s u m e c i ] . É , t á certo, a benfeitoria. Porque quando tem a ben-
da s i t u a ç ã o de fronteira n o Brasil i n d i c a m que os t r a ç o s relevantes são aqui inteiramente outros, em g i i a l
feitoria a gente compra mais caro, né? [corrige-se o informante depois de ter sido i n d u z i d o a confundir
opostos a estes.
o direito sobre a terra gerado pelo trabalho n a terra, o desmatamento, c o m as benfeitorias]. Agora, s ó
o direito, a gente compra baratinho... (lavrador d o Barro Vermelho)". E, e n t ã o , Musumeci conclui, depois de Foi u m a a n t r o p ó l o g a , G i o c o n d a M u s s o l i n i , que c h a m o u a a t e n ç ã o dos cientistas sociais brasileiros \y.\i:\

ter sugerido ao trabalhador que direito e benfeitoria são a mesma coisa e depois de ter recebido o esclarecimento fato de q u e os nossos a n t r o p ó l o g o s e s o c i ó l o g o s , a t é os anos 1 9 5 0 , o p t a r a m pela r e a l i z a ç ã o de estudos di-

de que não são: " [ . . . ] os depoimentos citados [...] sugerem que o direito pode n ã o abarcar apenas o que de c o m u n i d a d e nas "zonas velhas", isto é, e m zonas t r a d i c i o n a i s e socialmente e s t á v e i s , e m o p o s i ç ã o às "zon .is

concreto se p r o d u z i u e construi u sobre a terra; pode englobar t a m b é m u m direito de terra, u m direito do novas" o u pioneiras. Nesse sentido, " n ã o t ê m se interessado pela zona pioneira", o u seja, pelas zonas dc- o i
local, o u seja, u m 'poder de m o n o p ó l i o ' sobre a parcela assituada e explorada pelo c a m p o n ê s [ . . . ] " [reforça g a n i z a ç ã o social ainda instável. Ela sugere, assim, as i m p l i c a ç õ e s dessa o p ç ã o : "Quase que i n y a r i a v e l i n i i i i . ' ,
M u s u m e c i ] . C f Leonarda M u s u m e c i , o p . cit., p p . 6 8 -9 (grifos d o original). Assim, M u s u m e c i reduz (e p o r é m , os estudos de c o m u n i d a de realizados n o Brasil revelam, c o m o dissemos, interesse definido da p.iin'
d e s í i g u r a ) a especificidade h i s t ó r i c a d o direito gerado pelo trabalho na terra de posse ao direito d o m i n a n t e de de seus autores p o r áreas nas quais se espera verificar a qualidade de ' o r g a n i z a ç ã o cultural' e csialiilid.hl.
propriedade enquanto m o n o p ó l i o e c o n ó m i c o j u r i d i c a m e n t e fiindado e assegurado sobre u m a parcela de social, selecionando-se, por esta razão, pontos que além de situados nas 'zonas velhas de povoamento, sejam o
terra. A autora nesse caso, procura p o r na boca d o trabalhador sua p r ó p r i a tese. As c o n c e p ç õ e s desse e de suficiente isolados para que se anteveja a possibilidade de concretização daquela expectativa" Cf GÍIICDM.I.I

outros entrevistados da autota e de seu orientador, apontado c o m o coautor (p. 12), invocam concepções do M u s s o l i n i , Petsistênci a e m u d a n ç a e m sociedades de "folk" n o Brasil, e m Florestan Fernandes (org.), Spii/w
direito sesmarial dos tempos coloniais, c o m o qual ambos n ã o parecem familiarizados. Sem contar que u m sium etno-sociológico sobre comunidades humanas no Brasil, Separata dos Anais do xxxi Congresso Internacional
a n t r o p ó l o g o , a l é m de perguntas verbais aos entrevistados, faria demoradas o b s e r v a ç õ e s de campo para obter, de Americanistas, S ã o Paulo, 1955, esp. p . 3 3 8 (grifo m e u ) . Portanto, o que o pesquisador via e vê em seu
pela via propriament e a n t r o p o l ó g i c a , t a m b é m as i n f o r m a ç õ e s n ã o verbalizáveis que lhe indicassem quais são trabalho de campo está acentuado por essa o p ç ã o e p o r essa o r i e n t a ç ã o prévias.
na p r á t i c a (e n ã o na palavra induzida) os costumes dos camponeses utilizados e m suas i n d a g a ç õ e s . A defor-
E m b o r a eu mesmo, neste texto, use o conceito de capitalismo várias vezes, faço-o, p o r é m , sabendo que i m r o
m a ç ã o m e t o d o l ó g i c a que assinalo n o ttabalho dessa autora e d o coautor faz da economista e do antropólogo os
duz u m a d i s t o r ç ã o na c o n c e p ç ã o marxista de capital e de m o d o capitalista de p r o d u ç ã o . O conceito de ca/n
heróis-sujeitos da pesquisa. A p r o p ó s i t o desse tema, sugiro a leitura d o interessante artigo de Paulo Roberto de
talismo, que M a r x n á o usou, sugere u m sistema, ideia m u i t o distante d o que o p r ó p r i o M a r x pensava, pois
A r r u d a Menezes, A q u e s t ã o d o h e r ó i - s u j e i t o e m "Cabra marcado para morrer", filme de Eduardo C o u t i n h o ,
sua referência era o processo do capital, o m o v i m e n t o d o capital, sua r e p r o d u ç ã o ampliada, e n ã o sua mera
Tempo Social - Revista de Sociologia da VSP, v. 6, n . 1-2, j u n . 1995, pp. 107-26.
r e p r o d u ç ã o . F a ç o - o , p o r é m , para facilitar o d i á l o g o crítico que este texto c o n t é m , sobretudo c o m autores que
Godfrey, que é geógrafo, menciona esse fato expressamente e m relação ao Brasil e, ao mesmo tempo, assinala trabalham c o m a p r e s s u p o s i ç ã o de u m sistema social, e m cujo i n t e r i o r o progresso é u m desdobramento d.i
que u m a das l i m i t a ç õ e s da i n t e r p r e t a ç ã o de Turner sobre a fronteira americana é justamente a de ter ignora- o r d e m , à moda positivista.
do a luta pela terra. C f Brian John Godfrey, Roadto the Xingu: frontier settlement i n Southern Pará, Brazil, C f Roberto Cardoso de Oliveira, O índio e o mundo dos brancos: a s i t u a ç ã o dos t u k ú n a d o alto S o l i m õ e s , S ã o
MA thesis, University o f C a l i f ó r n i a , Berkeley, 1979, p. 8 e 4 0 - 5 9 . O conflito social, c o m o conceito-guia, é
Paulo, D i f u s ã o Europeia d o L i v r o , 1964, p p . 15-8.
t a m b é m adotado p o r M a r i a n n e S c h m i n k e Charles H . W o o d , Contested Frontiers in Amazónia, Center for
Cf Roberto Cardoso de Oliveira, Problemas e h i p ó t e s e s relativos à fricção i n t e r é t n i c a : s u g e s t õ e s para uma
L a t i n A m e r i c a n Studies, University o f Florida, Gainesville, ago. 1989, p . 14 (para a v e r s ã o j á publicada desse
estudo, c f M a r i a n n e S c h m i n k e Charles H . W o o d , Contested Frontiers in Amazónia, N e w York, C o l u m b i a metodologia. Revista do Instituto de Ciências Sociais, v. i v , n . 1, R i o de Janeiro, Universidade Federal d o Rio

University Press, 1992). Jean H é b e t t e , n u m a avaliação dos estudos sobre a fronteira n o Brasil, s u b l i n h o u de Janeiro, 1967, p . 4 4 .
que, na atualidade, o conflito pela posse da terra é o tema mais polarizador. C f Jean H é b e t t e , Relatório do N o mesmo n ú m e r o da revista e m que Roberto Cardoso de Oliveira p u b l i c o u seu artigo e projeto de pes-
Seminário sobre a Fronteira Agrícola com vistas à resenha da literatura nos últimos anos, B e l é m , ago. 1 9 7 8 , quisa, seu aluno O t á v i o G u i l h e t m e C . A . Velho p u b l i c o u u m r e l a t ó r i o de trabalho de campo, e m p r i n c í p i o
m i m e o , p . 3. norteado por aquele mesmo projeto, e m que seu autor diz: " O d i n a m i s m o da frente hoje está i n t i m a m e i u e
ligado à busca de terra". ( C f O t á v i o G u i l h e r m e C . A . Velho, Anális e p r e l i m i n a r de u m a frente de expans.io
Foweraker ressalta que "o antagonismo p r i m á r i o da fronteira reside entre os camponeses e os 'outros' [ . . . ] " ,
da sociedade brasileira. Revista do Instituto de Ciências Sociais, v. rv, n . 1, op. cit., p . 3 8 ) . Essa a f i r m a ç ã o po
no sentido de u m a certa d i l u i ç ã o da d i m e n s ã o propriamente de classe d o conflito f u n d i á t i o . C f Joe Fowe-
deria ter diferentes sentidos, mas a ênfase geral d o artigo é posta nos aspectos propriamente e c o n ó m i c o s da
raker, op. cit., p. 4 8 .
frente de e x p a n s ã o . É aí que nasce, no meu modo de ver, a reorientação reducionista dos estudos antropológicos da
O tema da alteridade, nesse t i p o de contacto, está proposto n o estudo de T o d o r o v sobre a Conquista da frente de expansão rM perspectiva do que os geógrafos definiram como frente pioneira, dominados pelas quesnu-s
A m é r i c a , e m que ele trata "da descoberta que o eu faz do outro" e do fato de que "o eu é u m outro". C f Tzve- e c o n ó m i c a s , c o m o se veria n o p r i m e i ro l i v r o d o autor sobre o tema ( c f O t á v i o G u i l h e r m e Velho, Frentes dr
tan Todorov, La conquista dellAmerica: i l problema d e l f a l t r o , trad. A l d o Serafini, T o r i n o , G i u l i o E i n a u d i expansão e estrutura agrária. R i o de Janeiro, Zahar Editores, 1972). Nessa o r i e n t a ç ã o , a q u e s t ã o da ceiura
Editore, 1984, p . 5. lidade d o conflito, que m o t i v a Roberto Cardoso de Oliveira, vai para u m plano inteiramente s e c i u u l á r i o ,

Cf m e u ensaio, Antropofagia e barroco na cultur a latino-americana, em A chegada do estranho. São Paulo, embora Velho tenha d i t o n o referido artigo (p. 2 9 ) que seu trabalho "pretende ser u m desdobrameiuo >!«
Editora H u c i t e c , 1993, p p . 15-26. artigo de Roberto Cardoso de Oliveira [ . . . ] " .
170 FRONTEIRA O DA I RONII IliA : l\

' Falando da frente pioneira em São Paulo, Monbeig esclarece que "os pioneiros paulistas jamais puderam Este artigo estava pronto h á vários meses quando os jornais de setembro c outubro de 1995 noli( Í;M.MII D
dispor de terras gratuitas: nada é mais estranho à faixa pioneira brasileira que a 'terra devoluta'. [...] A posse encontro de dois grupos i n dí ge n as desconhecidos, ocorrido em Corumbiara, Ro n dô n i a. No dia 3 dc seiíiii
do solo c o m e ç a por um n e gó cio [...]". C f Pierre Monbeig, Novos estudos, op. cit., p. 110. bro, um domingo, depois de quatro dias de busca, uma equipe dirigida pelo scrtanista Marcelo Santos, clu-lf
C f Arthur He h l Neiva, A imigração na política brasileira de povoamento, Revista Brasileira de Municípios, do Departamento de í n di o s Isolados de Ro n dô n i a, da Fu n daç ão Nacional do í n di o (Funai), encontrou u m
ano II, n. 6, abr.-jun. 1949, p. 226, apud Leo H . Waibel, As zonas pioneiras do Brasil, Revista Brasileira de casal de índios n ão identificados. A primeira palavra que o sertanista dirigiu ao casal, num po rtuguê s n;iii
Geografia, ano x v i i , n. 4, out.-dez. 1955, pp- 391- 2. A di sti n ç ão entre fronteiras políticas e fronteiras eco- compreendido, foi "amigo". Só quando armas e equipamentos foram depositados no ch ão, porem, c ipic n
n ó mi c as estava claramente presente no discurso ge o po l í ti co do Estado Novo, que justificava a Marcha para casal e n táo compreendeu que a in te n ção era de paz. Transcrevo o relato do jornalista sobre esse nioinciiiu
Oeste. O presidente Ge túl i o Vargas referiu-se a elas, em sua viagem à Amaz ó n i a, e m 1945, no documento solene e litúrgico: "O s primeiros passos do casal foram vagarosos. Desceram até a ponte de madeira sobre u
relativo à fixação do primeiro marco da estrada para o Xin gu e lugar da futura cidade de Xavantina. Nesse riacho que separa a aldeia da mata. Antes de atravessar, a mulher iniciou uma ce rimón ia. Parecia pegar no :ir
documento, Vargas assinala a nova consigna da frente pioneira apoiada nas pressões e nos favores do Estado: os maus espíritos e assoprar para longe, para dentro da mata. O grupo visitante permaneceu quieto alo t jue
filzer coincidir as duas fronteiras. Concretamente, isso indicava a aceleração do av an ç o da frente pioneira se aproximassem. A primeira reação dos dois foi tocar braços e mão s dos brancos. 'Querem sentir se estamos
sobre a faixa da frente de e xpan são . C f Ayres Câm ara Cun h a, Além de Mato Grosso, São Paulo, Clube do nervosos', disse Marcelo. A mulher tremia. O homem balbuciava um som ininteligível. Marcelo tocou-llu-s
Livro, 1974, p. 119. os adornos, repetiu 'amigo, amigo' e sorriu. A forma de entendimento mais eficaz entre os dois grupos foi, afi-
nal, a mais simples: o riso." C f Pablo Pereira, Sertanista contata í n dios isolados em RO, O Estado de S. Paulo, 6
"São etapas sucessivas de pe n e tração civilizadora e, consequentemente, correspondem a graus diversos de
set. 1996, p. A 1 5 . O sertanista encontrara vestígios desse grupo já em 1985. N o início de outubro, o linguis
intensidade de interaçáo. Assim, as frentes extrativas são frequentemente penetrações e xploratórias e recentes
ta Nilson Gaba Jr., do Museu Paraense Em í l i o Goeldi, identificou a l í n gua falada pelos índios como canoè,
a que se se gui rá a o c upaç ão definitiva de base agrícola. Esta úl ti ma raras vezes assumiu no Brasil a forma de
"encontrada apenas entre seis pessoas na Area In dí ge n a Gu apo ré , t am bé m em Ro n dô n i a". C f O Estado de
fronteira de e xpan são sobre áreas indevassadas. Vi a de regra, cresce sobre regiões previamente exploradas por
S. Paulo, 10 out. 1995, p. A 1 6 . A t é o momento, foram localizadas na áre a do contato quatro pessoas per-
coletores de artigos florestais." C f Darcy Ribeiro, Os índios e a civilização, op. cit., p. 244.
tencentes à etnia can o ê . U m novo grupo, de sete pessoas, encontrado na segunda quinzena de outubro não
Apoio- me, nessa orie ntação me t o do l ó gi c a, em dois trabalhos fundamentais de He n ri Lefebvre. C f He n ri
é can o ê . Aparentemente, pertence à etnia macurape. C f Pablo Pereira, Funai encontra novo grupo dc índio.s
Lefebvre, Pro bl è me s de sociologie rurale: la c o m m u n au t é paysanne et ses pro bl è me s historico-sociologiques,
em RO, O Estado de S. Paulo, 25 out. 1995, p. A1 4 . N o final da primeira quinzena de outubro de 1996, o
Cahiers Internationaux de Sociologie, v. v i , ano 4, Paris, Aux Édi t i o n s du Seuil, 1949, pp. 78- 100; e Henri
sertanista Sidney Possuelo, apó s vários anos de tentativas frustradas, conseguiu atrair o principal grupo dc
Lefebvre, Perspectives de la sociologie rurale, Cahiers Internationaux de Sociologie, v. xiv, ano 8, Paris, Aux
índios isolados do vale do rio Javari, na fronteira com o Peru: os coruhos (cujo nome verdadeiro pode ser
Édi t i o n s du Seuil, 1953, pp. 122- 40. Esses dois trabalhos e stão traduzidos para o po rtuguê s. C f Jo sé de Sou-
camivá). São cerca de 150 í n dio s de uma po pu l aç ão que pode variar de duzentas a duas mi l pessoas. I'.ssi-s
za Martins (org.). Introdução crítica à sociologia rural. São Paulo, Editora Hucitec, 1981, p. 144- 77. Sartre
í n dios v ê m sendo incomodados e mortos pelos brancos que invadem suas terras à procura de borracha,
reconheceu e destacou a fundamental i mpo rtân c i a me t o do l ó gi c a do segundo artigo "em todos os do m í n i o s
peixes, palmito e madeira. C f Ulisses Capozoli, Sertanista contata tribo de í n di o s isolados na A m az ó n i a, O
da Antropologia". Cf. Jean-Paul Sartre, Questão de método, trad. Bento Prado Jún ior, São Paulo, D i fusão
Estado de S. Paulo, 17 out. 1996, p. A1 8 .
Europeia do Livro, 1966, esp. pp. 46- 7.
A h istória do contato com os í n di o s kreenakarores e suas co n se quê n ci as dramát i c as foi contada no noticiário
A jun ç ão e o confronto das duas c o n c e pç õ e s - frente de e xpan são e frente pioneira - , como momentos
históricos distintos e combinados de diferentes modalidades da e xpan são territorial do capital, foi feita pela jornalí stico que o narrou quase que diariamente de 1972 a 1975. C f , especialmente, O Estado de S. Paulo,
primeira vez n uma pequena c o m u n i c aç ão que apresentei, em julho de 1971, na Re un i ão An ual da Socie- 8 dez. 1972, p. 10; O Estado de S. Paulo, 12 dez. 1972, p. 19; O Estado de S. Paulo, 31 dez. 1972, p. 27;
dade Brasileira para o Progresso da Ci ê n c i a, em Curitiba (PR). Essa c o mun i c aç ão , por iniciativa do prof Coojornal, n. 59, Porto Alegre, nov. 1980, p. 16; O Estado de S. Paulo, 15 jan. 1975, p. 15; O Estado de
Jo sé Roberto do Amaral Lapa, foi publicada no mesmo ano em Estudos Históricos (n. 10, Departamento de S. Paulo, 17 ago. 1975, p. 27. E m 1967- 1968, houve uma primeira e xpe di ç ão para localizar e contatar os
Hi stó ri a da Faculdade de Filosofia, Ci ê n c i as e Letras de Marí l i a, SP, 1971, pp. 33- 41). Foi reproduzida, em kreenakarores dirigida por Cl áu di o Villas Boas. A tentativa de apro xi maç ão está minuciosamente narratia
1972, em Cadernos (n. 5, São Paulo, Centro de Estudos Rurais e Urbanos, 1972, pp. 102- 12) e, em 1973, na no livro de um dos participantes do grupo, Adrian Cow e ll, The Tribe That Hides From Man, 2. ed., Londoii,
Revista Mexicana de Sociologia {v. xxxv, n. 4). Reeditei-a no meu livro Capitalismo e tradicionalismo: estudos Pimlico, 1995. A história dos kreenakarores subsequente ao contato em 1973, até 1994, é contada por
sobre as con tradiçõe s da sociedade agrária no Brasil, São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1975, pp. 43- 50. Stephan Schw artzman, Epilogo to the Pimlico edition, em Adrian Cow e ll , op. cit., pp. 217- 29.
Nessa perspectiva, teve ampla re pe rcussão entre os estudiosos do tema e é hoje referência corrente e m muitos
São pelo menos das seguintes tribos os grupos atraídos e contatados nesse pe rí o do , na região amaz ô n i c a:
estudos sobre a fronteira. Especialmente os trabalhos sobre temas históricos destacaram o acerto de tratar as
arara, ararapé , aua- guajá, avá- canoe iro, buré , cinta-larga, guajá, ipixuna (na verdade, nome do i garapé em
duas co n ce pçõ e s como expressões de um mesmo processo. Dentre os estudos amplamente influenciados por
que o grupo foi localizado), kanamari, ko xo do á, kreenakarore, kulina, kuruay á, maniteri, marubo, may á,
aquele texto de 1971 e pela orie ntação que nele propus, destaco em particular os de Warren De an, Rio Cla-
mayoruna, munku, nambikuara, nereyo, parakan â, suruí, tiikuna, txi kão , t xukah amãe , uru- eu- w au- w au,
ro: a Brazilian plantation system, 1820- 1920, Stanford, Stanford University Press, 1976; de Joe Foweraker,
urupá- kw i n e , w ai- w ai, w aiâpi , w aiká, w aimiri- atruahi, yanomami, yauri e zoró.
The Stniggle fi>r Land: a politicai economy o f the pioneer frontier in Brazil from 1930 to the present day,
Cambridge, Cambridge University Press, 1981; e de Carlos Rodrigues Bran dão , Os caipiras de São Paulo, São C f Darcy Ribeiro, op cit., pp. 362- 3.
Paulo, Editora Brasiliense, 1983. A pro pó si t o da de si gn ação de caboclo no caso dos í n dio s túkun as do Al l o So l i mó e s, Roberto Cardoso di'
Oliveira nos dá uma e xplicação fundamental: "o caboclo pode ser visto ainda como o resultado da interior!
A c o n c e pç ão articulacionista é proposta por Pierre-Philippe Rey, LesAlliances de classes. Paris, François Mas-
pero, 1976. zaçâo do mundo do branco pelo túkun a, dividida que está sua consciê ncia e m duas: uma voltada para os seus
ancestrais, outra para os poderosos homens que os circundam. O caboclo é, assim, o tiikuna vendo-se a si
C f Frederick Jackson Turner, The significance of the frontier in American history, em George Rogers Taylor mesmo com os olhos do branco; isto é, como intruso, indolente, traiçoeiro, enfim como al gué m cujo único
(ed.), The Turner Jhesis Concerning the Role ofthe Frontier in American History, Boston, D . C . Heath and
destino é trabalhar para o branco". C f Roberto Cardoso de Oliveira, O índio e o mundo dos brancos, S:H)
Company, 1956, p. 2.
Paulo, D i fusão Europeia do Livro, 1964, p. 80. Darcy Ribeiro t am bé m observou que "o índio aprendeu A SI-
Bogue fala em sociedades de fronteira. C f Allan G. Bogue, Social theory and the pioneer, em Richard Hofs- olhar com os olhos do branco, a considerar-se um pária, um bicho ignorante, cujas tradições mais veneradas
tadter e Seymour Martin Lipset (eds.), Turner and the Sociology of the Frontier, N e w York, Basic Books In c. n ão passam de tolices ou heresias que devem ser erradicadas". C f Darcy Ribeiro, Os índios e a civilialçiio,
Publishers, 1968, p. 75. op. cit., p. 213.
172 FRONTEIRA o IIMI'() DA I RONIl IRA I / )

Las Casas registrou a mesma concepção no vale do Tapajós. Cf. Roberto Décio de Las Casas, índios c C f Darci Luiz Pivctta, Iranxe: luta pelo território expropriado, CAiiabá, ui'M'r ['Alíiora Univcrslúria. V
brasileiros no vale do rio Tapajós, Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, (nova série, Antropologia), p. 19 e 39-47.
n. 23, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, outubro de 1964, p. 17. Dom Eurico Krãutler, que C f Herbert Baldus, Tapirapé: tribo tupi no Brasil central. São Paulo, Companhia l'AÍii()ra N;ILÍ()IILI1/I''.(!ÍI(II,I
foi missionário e, depois, bispo na região do Xingu, de 1934 a 1965, registra em suas memórias: "Muitos
da Universidade de São Paulo, 1970, p. 49. No mesmo ano do relato de Baldus, os tapira[)cs íor;nn lie f i t o
seringueiros têm desprezo pelos índios. Dizem que é permitido matá-los, porque são animais ferozes e não
atacados pelos kayapós. C f Charles Wagley, Welcome ofTears: the tapirapé indians of central Br;v/.il, New
gente." Eurico ICrãurier, Sangue nas pedras. São Paulo, Edições Paulinas, 1979, p. 17; "[...] tenho um filho
de alguns meses de idade. Vim buscar o senhor para batizá-io. Quero que ele se torne cristão. Nos arredores York, Oxford University Press, 1977, p. 31.
rastejam as bestas. - Na sua linguagem, 'bestas' queria dizer 'índios'". Idem, p. 72. Referindo-se a Judite, Lux Vidal, op. cit., p. 18 e 21.
que fora raptada pelos índios gorotires e que conseguiu escapar graças à ajuda de Utira, um índio juruna, Dominique Tilkin Gallois, Mairi revisitada, op. cit., p. 17.
também prisioneiro. O autor comenta: "Judite, porém, logo se esqueceu de seu salvador: sendo índio, afinal,
Uma emblemática indicação da interpenetração da frente pioneira com a frente de expansão se deu i-iii
ele não passava de um bicho [...]". Idem, p. 90.
1951. Dois fiincionários da Fundação Brasil Central desceram o rio Arinos em direção ao rio Juruen.i lic
C f Darcy Ribeiro, Os índios e a civilização, op. cit., pp. 189-90. carona num batelão de um pequeno grupo de seringueiros que ia tentar reabrir seringais na conlluèiu i.i
^' C f Carlos de Araújo Moreira Neto, Relatório sobre a situação atual dos índios kayapó. Revista de Antropo- dos dois rios. U m dos funcionários era remanescente da Expedição Roncadot-Xingu, que percorrera esse

logia, V. 7, n. 1 e 2, Universidade de São Paulo, jun./dez. 1959, pp. 49-64; cf, também, Père Caron, Curé trajeto demarcando locais para futuras cidades, na Marcha para Oeste. Era um agente da frente pioiíeiíM.
d'indiens, Paris, Union Générale d'Éditions, 1971, p. 30. O grupo de seringueiros era remanescente de conflito com os índios da região e tentava reocupar, déciid.is
Informação pessoal de Betty Mindlin. depois, a terra defendida pelos índios. Era agente da frente de expansão. C f Ayres Câmara Cunha, o p . c i i . ,
1974, pp. 28-9.
" Cf. Betty Mindlin, Nós, paiter: os suruí de Rondònia, Petrópolis, Vozes, 1985, p. 99.
Hébette constatou que a fronteira no Paraná e no Mato Grosso, ocupada nos anos 1950 e 1960, leclimi :i-
Cf. Renate B. Viertler, A vaca louca: tendências do processo de mudança sociocultural entre os bororo-MT,
em quinze anos. Em Rondônia, o fechamento se deu em cinco anos. C f Jean Hébette, Relatório do Sciiiiihi
Revista de Antropologia, v. 33, Universidade de São Paulo, 1990, pp. 19-32.
rio sobre Fronteira Agrícola, op. cit., p. 7. Sobre a intensificação do ritmo das expulsões dos camporn-M-. n.i
C f Edilson Martins, Nossos índios, nossos mortos. Rio de Janeiro, Editora Codecri, 1978, p. 208. Darcy Ri- região do Xingu, cf Marianne Schmink e Charles H . Wood, op. cit., p. 220.
beiro registra que os xoklengs, do sul do Brasil, também acreditavam que eles é que haviam "amansado" os
Hébette et al., no seu detalhado relatório sobre a fronteira, assinalam, no início dos anos 1970, a iiii|',i.ii,.in
brancos. C f Darcy Ribeiro, Os índios e a civilização, op. cit., p. 368.
de grupos numerosos do norte do Espírito Santo e do sul da Bahia, em decorrência do esgotamento de '.nli >•.
" C f Aracy Lopes da Silva, Nomes e amigos: da prática xavante a uma reflexão sobre os jê. São Paulo, Faculdade e da expansão das famílias para o médio Tocantins. Um desses grupos era constituído de cerca de dii/,ciii.r.
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1986, p. 55 e 257-8. pessoas lideradas por um fazendeiro e seus agregados. C f Jean Hébette et al., Área de fronteira em co/tf/i/tn: o
C f Expedito Arnaud, O índio e a expansão nacional, Belém, Edições Cejup, 1989, p. 353. Ocorrências leste do médio Tocantins, Belém, Nticleo de Altos Estudos Amazônicos/Universidade Federal do Pará, 19H.Í.
parecidas se deram no território do atual estado de Rondônia. Empurrados pelos brancos para as serras e
pp. 25-8 (mimeo).
cabeceiras dos rios, diferentes grupos indígenas entraram em conflito entre si. C f Mauro Leonel, Etnodicéia
C f Francisca Isabel Vieira Keller, O homem da frente de expansão: permanência, mudança c conflito, Rniis
uruéu-au-au. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, \99'!>,passim.
ta de História, v. u , n. 102, ano xxvi, abr.-jun. 1975, p. 674.
" C f Dominique T. Gallois, Migração, guerra e comércio: os waiápi na Guiana, São Paulo, Faculdade de Fi-
Jean Hébette, A resistência dos posseiros no grande Carajás, Pará, Niicleo de Altos Estudos Amazônicos/l Iiii
losofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1986 (Antropologia 15); Dominique
versidade Federal do Pará, s. d., pp. 1-3 (mimeo).
Tillcin Gallois, Mairi revisitada: a reintegração da fortaleza de Macapá na tradição oral dos waiãpi. São Paulo,
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo/Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da Em 1977, quando o conflito fundiário no sul do Pará mal se configurara, Ianni chegou a prever que, di:iiiic
Universidade de São Paulo, 1993. Lux Vidal já havia estudado a relação entre mito e história no caso dos da aliança entre o capital monopolista e o Estado, "o campesinato pouquíssimo ou nada pode fazer ('.An- llii-
kayapós-xikrins. C f Lux Vidal, Morte e vida de uma sociedade indígena brasileira: os kayapó-xikrin do rio resignar-se à destruição, buscar alguma exígua acomodação ou simplesmente proletarizar-se". C f ()cl:iviii
Cateté, São Paulo, Editora Hucitec/Editora da Universidade de São Paulo, 1977. Ianni, A luta pela terra: história social da terra e da luta pela terra numa área da Amazónia, Petrópolis, Vo/is,
1978, p. 131. No entanto, os camponeses da mesma região que ele estudou e das regiões vizinhas, nos vinte
Em relação aos índios suruís, Mindlin observou que, quando morre algum deles, queimam as respectivas
posses, inclusive vitrola, rádio, gravador, bicicleta, roupas, animais de criação. C f Betty Mindlin, Nós, paiter, anos seguintes a essa observação, em vez de sucumbirem ou de se renderem, vêm demonstrando uma persis
op. cit., p. 146. Também os terenas destroem os bens dos mortos. C f Roberto Cardoso de Oliveira, Do índio tente capacidade de resistência à violência dos grandes proprietários de terra. C f Ricardo Rezende Figtieií.i.
ao bugre: o processo de assimilação dos terêna, 2. ed.. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora S. A., A justiça do lobo: posseiros e padres do Araguaia, Petrópolis, Vozes, 1986; e Rio Maria: canto da terni, !'c
1976, p. 106. trópolis. Vozes, 1992; e, ainda, Alfredo Wagner B. de Almeida, Getat: segurança nacional e o revigoraiiieiiio
do poder regional. Rio de Janeiro, set. 1980, p. 14. Detalhes dessa resistência na regiáo de Marabá se ctii ou
Devo essa informação a Hiparidi Dzutsi Wa Top Tiro, índio xavante matriculado como aluno especial no
tram em Jean Hébette, A resistência dos posseiros no grande Carajás, op. cit. Do mesmo modo, cafastn')lii .iv
curso de graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Uni-
versidade de São Paulo, e Luís Roberto de Paula, aluno do mesmo curso que, como bolsista de iniciação previsões sobre o fim de grupos indígenas, apesar de graves elevações nos índices de mortalidade e gr.ivi-,
científica, está fazendo estudos sobre os índios xerentes, de Goiás, parentes dos xavantes. Giaccaria e Heide efeitos destribalizadores do contato, não se confirmaram por inteiro. Ao contrário, têm sido vários os I.IMI'

constataram que no século xviii os xavantes já se encontravam em Goiás, a mais de mil quilómetros do de vigoroso renascimento de tribos que haviam sido consideradas, poucos anos antes, em estado teitiiiii.il
mar. Mas notaram também que os velhos xavantes dizem que sua tribo proveio "do Oriente, do mar". Esses Foi o caso dos índios parkatejês do Pará. Sobre esse caso, cf Iara Ferraz, Osparkatejê das matas do liicaniiih
mesmos autores assinalaram que os xavantes "têm uma lembrança muito viva do mar que se encontra em al- a epopeia de um líder timbira, dissertação de mestrado. São Paulo, Depto. de Ciências Sociais-fircii/tiM'
gumas de suas lendas". C f Bartolomeu Giaccaria e Adalberto Heide, Xavante: auwe uptabi, povo autêntico. 1983. E foi também o caso mais recente dos waimiris-atruahis, no Amazonas.
São Paulo, Editorial Dom Bosco, 1972, pp. 13-4. C f Octávio Ianni, op. cit., esp. p. 64.
74 FRONTEIRA O IIMI'() DA I RONII IK'A I / 'i

Diferentes pesquisadores têm assinalado conflitos fundiários em áreas em que aiiida prevalecem concepções atribuir a quem a forjou. Como Musumeci, o autor também náo se dá coma ilc que há, ]io mínimo, diiiis
relativas ao que se chamava, no período colonial, tCTTUS do cotnum uso público ou, simplesmente, tcvvãs cio teses do que foi indevidamente definido como "funcionalidade da agricultura camponesa", bem dilereiík-s
comum; terras de locais em que as autoridades não podiam concedet datas ou sesmarias. Não eram, propria- entre si: a tese vulgar que considera os excedentes comercializáveis da agricultura familiar como simples
mente, terras comunais, mas terras destinadas expressamente pelas câmaras ou pela Coroa ao uso comum sobras da subsistência camponesa e que concorrem diretamente para o barateamento do custt) de vida da
dos moradores, quando coubesse. Houve áreas em que as terras do comum eram destinadas especialmente classe operária (essa tese está reconhecida desse modo em Leonarda Musumeci, op. cit., p. 287, e desse modo
aos animais dos tropeiros, como houve áreas que eram destinadas seja à agricultura, seja à coleta de produtos expressamente formulada por Otávio Guilherme Velho, Frentes de expansão e estrutura agrária, op. ci(., p.
vegetais por parte dos que náo tivessem outros meios de fazê-lo. Em relação à sobrevivência dessa institui- 125); e a tese oposta (equivocadamente confundida pelos críticos com a tese vulgar) da integração da produ
ção, cf o só agora editado e precursor trabalho de Laís Mourão Sá, O pão da terra: propriedade comunal ção camponesa, através de uma economia de excedentes, no processo de reprodução do capital (essa é a lesi-
e campesinato livre na baixada ocidental maranhense, São Luís, Edufma, 2007. Cf, também, Maristela que sustento: C f José de Souza Martins, Modernização e problema agrário no estado de São Paulo, Reimia
Andrade, Gaúchos no sertão. São Luís (MA) , Comissão Pastoral da Terra, maio 1981, esp. pp. 8-10; Maristela do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 6, Universidade de São Paulo, 1969, pp. 121-45; Moderniz;içáo agrária c
de Paula Andrade, Os gaúchos descobrem o Brasil São Luís, Edufma, 2008, p. 59 e ss.; Alfredo Wagner Berno industrialização no Brasil, América Latina, ano 12, n. 2, Centro Latino-americano de Pesquisas em Caêiu ias
de Almeida, Terras de preto, terras de santo, tetras de índio: uso comum e conflito, em Edna M . Ramos de Sociais, Rio de Janeiro, abr.-jun. 1969, pp. 3-16. C f , também. Capitalismo e tradicionalismo, op. cit., esp.
Castro e Jean Hébette (orgs.). Na trilha dos grandes projetos: modernização e conflito na Amazónia, Cader- pp. 1-50, 57-72 e 103-61; e, ainda, A reforma abaria e os limites da democracia na "Nova República", São
nos do Naea, Belém, Universidade Federal do Pará, 1989, pp. 163-96. Sónia Lacerda, Eduardo Graziano e Paulo, Editora Hucitec, 1986, esp. cap. 8: "Pequena ptodução agrícola: antimito da produção capitalista iio
Margarida Maria Moura observaram no Jequirinhonha, em Minas Gerais, o costume ancestral da posse em campo (crítica aos críticos)", pp. 113-52). O texto de Costa é indicativo de como alguns estudiosos, ao com
comum das terras de chapada, como contrapartida e complemento da posse privada das grotas ou veredas. parar padrões empresariais e padrões camponeses de produção, reduzem a lógica destes à lógica daqueli-s.
C£ Sónia Lacerda, Trabalho e posse da terra entre o campesinato de Turmalina, Rio de Janeiro, C P D A / U F R J , Desse ripo de interpretação desaparecem os componentes propriamente históricos e antropológicos da vid.i
1983; Eduardo Graziano, As condições de reprodução do campesinato no vale do Jequitinhonha: o processo do campesinato de fronteira, isto é, o seu próprio e característico cálculo, como se o camponês da froniiir:i
de transformação atual. Rio de Janeiro, C P D A / U F R J , 1982; Margarida Maria Moura, Os deserdados da terra: fosse apenas um capitalista em miniatura.
a lógica costumeira e judicial dos processos de expulsão e invasão da terra camponesa no sertão de Minas
A frente de expansão é essencialmente um mundo criado pelo modo como se dá a inserção dos trabalhaiions
Gerais, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1988, esp. p. 125 e ss. Esse mundo rústico, dotado de lógica própria,
rurais, que produzem diretamente seus meios de vida, no processo de reprodução ampliada do capital. Nesse
sobrevive (e se recria) não só nas frentes de expansão, mas também "em bolsóes de resistência (testemunhas
mundo, apesar da determinação capitalista de suas relações sociais, as concepções e os valores precedem, n.i
vivas de outra época) nos interstícios dos amplos latifúndios". C f Fernando Henrique Cardoso, A fome e a
vida de seus membros, os interesses económicos e a eles se sobrepõem. C f José de Souza Martin.s, Modii
crença: sobre "Os parceiros do Rio Bonito", em Celso Lafer et al.. Esboço defigura:homenagem a Antonio
nização agrária e industrialização no Brasil, América Latina, ano 12, n. 2, Rio de Janeiro, Centro Laiiiui
Candido, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1979, p. 92. Além das terras do comum ainda na posse de lavra-
americano de Pesquisas em Ciências Sociais, abr.-jun. 1969, pp. 3-16 (reproduzido em José de Sotiza M;u
dores que se crêem com direito a seu uso com base no costume, há no Brasil terras legalmente insuscctíveis
tins, Capitalismo e tradicionalismo, op. cit., esp. p. 12). Essa formulação ganha sentido neste entendimeiuo
de apropriação privada, como as terras de marinha e as terras do Distrito Federal, que, devido ao desman-
mais amplo do problema: "Sob o capitalismo dependente, a persistência de formas económicas arcaicas não
telamento das instituições relativas às terras do comum, estão geralmente na posse de moradores ricos por
é uma função secundária e suplementar. A exploração dessas formas e sua combinação com outras, mais oii
óbvias razões políticas. Nessas terras, o Estado ainda mantém o domínio, como ocorria no regime sesmarial.
menos modernas e até ultramodernas, fazem parte do 'cálculo capitalista do agente económico privilegiado.
Já em meados dos anos 1970, dez anos após o início da política de incentivos fiscais, as grandes empresas
Por fim, a unificação do todo não se dá (nem poderia dar-se) ao nível da produção." (Cf Florestan Fernan-
davam-se conta de que o mercado internacional de carne, que justificava a política de transformação da
des, Sociedade de classes e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968, p. 65). Embora trate de
floresta em pastagens, náo merecia os altos investimentos de seus empreendimentos. A manutenção das fa-
grupos rurais tradicionais localizados em regiões de ocupação antiga, e não na frente de expansão, o artigo
zendas pelos empresários só prosseguiu porque estava apoiada em generosa política de subsídios e incentivos
de José César Gnaccarini sobre o casamento por rapto na área canavieira de São Paulo é um esclarecedor o
financeitos concedidos pelo governo. C f Sue Branford e Oriel Glock, The Last Frontier: fighting over land
bem-feito estudo sobre o modo complexo como se combinam as questões económicas da sobrevivência com
in the Amazon, London, Zed Books Ltd., 1985, p. 81.
as questões sociais da convivência. C f José César A. Gnaccarini, Organização do trabalho e da família em
grupos marginais rurais do estado de São Paulo, Rívista de Administração de Empresas, v. 11, n. 1, Rio dc
Branford e Glock registram um dos aspectos dessa aceleração: entre 1940 e 1960, as famíUas camponesas
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, mar. 1971, pp. 75-94. Ainda que por vias diversas, tanto a interpretação
da fronteira podiam esperar ter que mover-se para uma nova terra apenas uma ou duas vezes em sua vida,
de Gnaccarini quanto a de Martins se fundam em Antonio Candido, Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre
incluindo aí o deslocamento provocado pela exaustão do solo. Famílias que podiam prever uma ocupação de
o caipira paulista e a transformação de seus meios de vida. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora,
terra por dez ou vinte anos têm sorte hoje se conseguem ficar em paz por dois ou três anos na mesma terra
1964, esp. cap. 17. A propósito desse livro e destacando justamente a questão da resistência (e da persistência
sem serem expulsas. C f Sue Branford e Oriel Glock, op. cit., p. 123.
cukural), Fernando Henrique Cardoso assinala: "Pois que de crença também se sobrevive." C f Fernando
Num desses estudos, o autor estima comparativamente o tempo de trabalho socialmente necessário para Henrique Cardoso, op. cit., p. 98.
a produção do arroz em regiões em que essa produção se dá em distintas situações económicas (eu diria,
Ampla e detalhada formulação teórica sobre a expansão territotial do capital encontra-se em Karl Marx, /;'/
também, em distintas situações históricas), entre outras a da agricultura camponesa da fronteira agrícola e
capital: critica de la economia política, Libro Terceto, v. v i i i , trad. Leon Mames, México, Siglo Veinteuiio
a da cultura arrozeira altamente capitaUsta e moderna do Rio Grande do Sul. Constata que na ftonteira é
Editores, 1981, pp. 791-1.034.
necessário o dobro ou pouco mais de dias de trabalho para a produção de uma tonelada do cereal, enquanto
o tempo médio fica próximo do da fronteira. Essa constatação e o comportamento dos preços permitem Costa constata que enquanto os modernos empresários do arroz, no Rio Grande do Sul, podem vender seu
ao autot concluit que "em relação a produtos camponeses, os preços de mercado estão, em última instân- produto mais barato até a 1.176 km da sua capital, "a produção da fronteira é colocada com vantagem dc
cia, regulados pelos valores respectivos". C f Francisco de Assis Costa, Valor e preço, exploração e lucro da pieço num raio de 2.324 km de distância da sua origem". C f Francisco de Assis Costa, Valor e preço, explo-
produção camponesa na Amazónia: crítica à noção de funcionalidade da produção familiar na fronteira ração e lucro da produção camponesa na Amazónia: críticas à noção de funcionalidade da produção famili:ir
agrícola, em Philippe Léna e Adélia Engrácia de Oliveira (orgs.), Amazónia: a fronteira agrícola 20 anos na fronteira agrícola, op. cit., p. 189 (nota).
depois, 2. ed., Belém, Edições Cejup, 1992, pp. 181-3. A intenção do autor é a de contestar a suposta tese Analiso, comparativamente, as determinações e as diferenças sociológicas substantivas entre camponeses e
da funcionalidade capitalista da agricultura familiar e camponesa, que, nos termos de sua crítica, deixa de operários em A sociedade vista do abismo, op. cit., esp. cap. 2.
176 FRONTEIRA

M u s u m e c i diz, c o m razão, que "é equivocada a imagem que muitos ainda íázeni d o lavrador de fronteira A busca das Handcini.s Verdes se mescla com oulros milciiarisnios c o n i c m p o r â i i c o s na rq;iai), c o m o n il.i
c o m o a l g u é m que produz para a s u b s i s t ê n c i a (autoconsumo) da família e comercializa apenas as sobras da busca d o paraíso do D i v i n o . Este ú l t i m o , c o m evidência s de i n s p i r a ç ã o nas heresias de ( i i o a c c h i i i o 1 ).i liorc-,
sua p r o d u ç ã o " . C f Leonarda M u s u m e c i , op. cit, p . 2 8 7 (grifo do original). E m b o r a n ã o haja citaçã o ex- especialmente no que se refere à n e g a ç ã o da unidade da S a n t í s s i m a Trindade. Sobre esse grupo e e.s.sa nicsi l.i,
pressa, sua procedente crítica se dirige provavelmente a c o n c e p ç õ e s contidas e m O t á v i o G u i l h e r m e Velho, c f M a r i a A n t o n i e t a da Costa Vieira, Caçando o destino: u m estudo sobre a luta de resistência dos [los-seiros do
Frentes de expansão e estrutura agrária, op. cit., esp. p . 67 e 113. M u s u m e c i , p o r é m , ignora que, a l é m dessa sul d o Pará, São Paulo, 1 9 8 1 , d i s s e r t a ç ão de mestrado e m C i ê n c i a s Sociais (Antropologia) , Pontifícia Uiiivi-i
definição vulgar de excedente, h á propriamente u m a definição de economia do excedente por o p o s i ç ã o a eco- sidade C a t ó l i c a de S ã o Paulo, esp. pp. 63-82. N o mapa das m i g r a ç õ e s das famílias que afinal se aglutinaram
nomia de subsistência, pois é c o m u m o e q u í v o c o de c o n f u n d i r a economia camponesa c o m mera economia e m busca da comunidad e u t ó p i c a , V i e i t a mostra que, apesar de algumas serem originárias d o Nordeste e
de s u b s i s t ê n c i a . A c o n c e p ç ã o de excedente que ela acertadamente critica é a base da tese da funcionalidade terem v i v i d o depois e m S ã o Paulo o u no sul de G o i á s , os integrantes do m o v i m e n t o m i g r a m do este para
da agricultura camponesa da fronteira tal com o Velho a assume sozinho (op. cit., p . 125), e que ela t a m b é m oeste, c o m ligeira inflexão para o norte (op. cit., p. 101). Sobre a difusão do j o a q u i m i s m o em M i n a s (leniis,
ctitica c o m integral razão, p o r é m , novamente, sem mencionar o d e s t i n a t á r i o (pp. 2 9 6 - 7 ) . G o i á s e M a t o Grosso, c f Carlos Rodrigues B r a n d ã o , O divino, o santo e a senhora. R i o de Janeiro, Caiupaiili.i
de Defesa d o Folclore Brasileiro, 1978, p p . 64-165 e 142-4.
" E m meados dos anos 1970, Laís M o u r ã o Sá observou, na baixada ocidental do M a r a n h ã o , que h á u m equi-
líbrio calculado na p r o d u ç ã o que se destina prioritariament e ao consumo da família d o trabalhador rural e C f Mitin Antonieta, da CosaVieia, A procura das Bandeiras Verdes: viagem, m i s s ã o e romaria - m o v i m e n -
o excedente que pode ser destinado ao c o m é r c i o . C f Laís M o u r ã o Sá, O pão da terra, op. cit., p . 149. tos sociorreligiosos na A m a z ó n i a oriental, Campinas, 2 0 0 1 , tese de doutorado e m C i ê n c i a s Sociais, I n s t i t u t o
de Filosofia e C i ê n c i a s H u m a n a s da Universidade Estadual de Campinas.
E m suas atentas o b s e r v a ç õ e s e demorada p e r m a n ê n c i a n o e n t ã o povoado de Santa Terezinha, n o norte d o
M a t o Grosso, Lisansky assinalou que a o r g a n i z a ç ã o da p r o d u ç ã o dos camponeses locais se baseia e m avalia- E m u m a de suas muitas e preciosas digressões sobre o campesinato europeu e sua história, Lcfcbvre an^ilis.i,
ções e c á l c u l o s quanto à área a ser cultivada, tendo e m conta o grau de fertilidade remanescente do terreno, justamente n u m de seus livros fundamentais, as c o n c e p ç õ e s triádicas no i m a g i n á r i o c a m p o n ê s e nas/V/íV/zíc
o n ú m e r o de b r a ç o s d i s p o n í v e i s na família e a quantidade de sacas que p o d e r á ser comercializada depois de ries e as remete, por sua vez, à t r a d i ç ã o j o a q u i m i t a . Cf . H e n r i Lefebvre, La Présence et labsence: c o n i r i b u i i o i i
separado o arroz destinado à s u b s i s t ê n c i a . C f J u d i t h M a t i l d a Lisansky, Santa Terezinha: life i n a Brazilian à la t h é o r i e des r e p r é s e n t a t i o n s . Paris, Casterman, 1980, esp. pp. 112-3 e 119-20.
frontier t o w n , Tese de P h . D , Gainesville, University o f Florida, ago. 1980, p p . 148-9. Esse p r o c e d i m e n to
C f M a u r i c i o Vinhas de Queiroz, Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do Contestado, 191 .>. I') I d .
é c o m u m na frente de e x p a n s ã o . Procedimentos semelhantes fora m observados por L u n a no M a r a n h ã o ,
R i o de Janeiro, E d i t o r a Civilização Brasileira S. A . , 1966; M a r i a Isaura Pereira de Queiroz, La "(iucrrr uiiiiir"
que constatou a d i m i n u i ç ã o do t a m a n h o das roças e da p r o d u ç ã o de excedentes q u a n d o os filhos se t o r n a m
au Brésil: le m o u v e m e n t messianique d u "Contestado", São Paulo, Faculdade de Filosofia, C i ê n c i a s e 1 eir.r.
adultos e deixam a casa dos pais. C f Regina Celi M i r a n d a Reis Luna, A terra era liberta: u m estudo da
da Universidade de S ã o Paulo, B o l e t i m n . 187, 1957; Duglas Teixeira M o n t e i r o , Os errantes do novo uriilo.
l u t a dos posseiros pela terra n o vale d o P i n d a r é - M A , N a t a l , Universidade Federal do R i o Grande do N o r t e
S ã o Paulo, Livraria Duas Cidades, 1974; Oswaldo Rodrigues Cabral, A campanha do Contestado, i-d..
1983, p . 6 1 .
F l o r i a n ó p o l i s , E d i t o r a Lunardelli, 1979.
C f Francisca Isabel Vieira Keller, op. cit., p, 6 8 1 .
Devo e a g r a d e ç o a M a r i a A n t o n i e t a da Costa Vieira, a melho r conhecedora do assunto, as seguintes i i i l o r
" E m dois estudos extremos n o t e m p o , separados entre si p o r cerca de quarenta anos, pode-se observar essa m a ç õ e s que corrigem a versão original deste artigo: M a r i a da Praia foi o n o m e pelo qual ficou conhecid.i
persistente característica da fronteira. C £ Eduardo G a l v ã o , Santos e visagens: u m estudo da vida religiosa M a r i a José Vieira de Barros, natural do M a r a n h ã o . A c o m p a n h a n d o o m a r i d o , mudou-se para G o i á s . Hm
de Itá, baixo Amazonas, 2. e d i ç ã o , S ã o Paulo, C o m p a n h i a E d i t o ra N a c i o n a l, 1976, p . 23.; e Regina CeU 1964, vivia em São M i g u e l do Araguaia, naquele estado. É quando recebe, "de seus guias", mensagens i]ue
M i r a n d a Reis L u n a , op. cit., p p . 62-3. lhe ordenavam viajar para as "Bandeiras Verdes", as matas. C o m os cinco filhos, alguns já casados, atravc.ss;i
o rio Araguaia e chega a Santa Tetezinha, povoado d o M a t o Grosso. O grupo acampa na praia do rio, d a í o
C f José de Souza M a r t i n s , A r e p r o d u ç ã o d o capital na frente pioneira e o renascimento da escravidão n o
nome pelo qual ficou conhecida. Nessa é p o c a , entra e m contato c o m u m o u t r o grupo, de umas 15 famílias,
Brasil, Tempo Social - Revista de Sociologia da usp. São Paulo, Universidade de S ã o Paulo, Faculdade de
na maioria mineiras. Esse grupo fazia parte da romaria de Santina. Santina fazia curas. V i n h a de Esi rela
Filosofia, Letras e C i ê n c i a s Humanas, Departamento de Sociologia, v. 6, n . 1-2, j u n . 1995, pp. 1-25 (repro-
d o N o r t e , t a m b é m e m G o i á s , atravessara o rio Araguaia e se fixara a umas 12 léguas (pouco menos de KO
duzido c o m o c a p í t u l o neste l i v r o ).
q u i l ó m e t r o s ) de Santa Terezinha. Iniciara a romaria em 1959. M o r r e r a n o i n í c i o da d é c a d a de 1960. An(cs,
" C f M a r í l i a Ferreira E m m i , A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais, B e l é m , C e n t r o de Filosofia ordenara a seu grupo que fosse adiante. E n t r a n d o e m contato c o m o grupo de M a r i a da Praia, quando esii'
e C i ê n c i a s Humanas/Naea/uFPA, 1988, pp. 92-3. decidiu entrar na mata, o grupo de Santina decidiu a c o m p a n h á - l o . Os romeiros s a í r a m e m busca do B o m
Lugar. E m 1995, h á n o grupo apenas duas famílias remanescentes da romari a de Santina. O s demais desis
Foi o que ocorreu n o surto milenarista d o bairro do C a t u l é , e m Malacacheta, M i n a s Gerais, em 1955, quan-
t i r a m e m u i t o s m o r r e r a m de m a l á r i a na viagem. Q u a n d o m o r r e u , M a r i a da Praia f o i sepultada c m l i u r i i i
d o a frente de e x p a n s ã o c o m e ç o u a se esgotar. C f Carlo Gastaldi, A a p a r i ç ã o do d e m ó n i o n o C a t u l é , e m
Alegre. O trajeto dos romeiros em busca dessa terra prometida foi i n t e r r o m p i d o demoradamente três vezes.
M a r i a Isaura Pereira de Queiroz et al., Esmdos de sociologia e história. São Paulo, E d i t o r a A n h a m b i L i m i t a d a ,
1957, p p . 17-66; e Jos é de Souza M a r t i n s , Os camponeses e a política no Brasil, 2. ed., P e t r ó p o l i s , E d i t o r a A essas i n t e r r u p ç õ e s os romeiros c h a m am de Estações, com o na V i a Sacra, segundo A n t ó n i o C a n u t o , i-

Vozes, 1983, p . 6 2 e s s . Nosso Lugar, segundo V i e i r a . Nelas, c o n s t r u í r a m igreja, povoado e a b r i r am roças. H o u v e três Estações: Bo.i
E s p e r a n ç a , São M i g u e l e B u r i t i Alegre. A quarta E s t a ç ã o setia a E s t a ç ã o da chegada. M a r i a da Praia m o m i i
Touraine foi o p r i m e i r o a observar esse processo no Brasil, confirmado depois por Eunice D u r h a n . C f A l a i n T o u - na terceira E s t a ç ã o . Segundo Vieira, q u e m d e n o m i n a "estações" os lugares de parada é u m terceiro grupo, o
raine, Industrialisation et conscience o u v r i è r e à São Paulo, Sociologie du Travail, ano 3, n . 4 / 6 1 , Paris, É d i - de Justino, iniciado e m 1967, que lidera u m a romaria d o padre C í c e r o . Esse grupo teve i n í c i o em Barieií.i
tions d u Seuil, 1 9 6 1 , p . 93; e Eunice R. D u r h a n , A caminho da cidade-, a vida rural e a m i g r a ç ã o para S ã o do C a m p o , no Pará, e penetrou na reserva dos í n d i o s k a y a p ó s , tendo sido dela expulso pelos í n d i o s em 199,(.
Paulo, S ã o Paulo, E d i t o ra Perspectiva, 1973, p p . 132-6. Q u a n d o o g t u p o de M a r i a da Praia passou pelo s e r t ã o de Santa Terezinha, no norte do M a t o Grosso, e ali

" Gerhard assinala u m f e n ó m e n o parecido, embora diferente, n o Oeste americano: a m i g r a ç ã o de grupos co- se fixou por uns tempos, o padre A n t o n i o C a n u t o , que era p á r o c o do lugar, t o m o u conhecimento de \u.i

munais, sempre de comunidades religiosas. Entretanto, ele n ã o indica a o c o r r ê n c i a de movimentos m e s s i â n i - existência. Depois o grupo se deslocou para o estado do Patá, para S ã o S e b a s t i ã o , e m t e r r i t ó r i o dos índios

cos o u milenaristas, o que talvez se explique pelo fato de esses grupos serem geralmente grupos protestantes. k a y a p ó s - g o r o t i r e s , que, a p ó s u m tempo, t a m b é m o expulsaram. O grupo retornou a B u r i t i Alegre c ali M'

C f D i e t r i c h Gerhard, op. c i t . , p. 2 2 0 . encontrava e m 1996. M a r i a A n t o n i e t a da Costa V i e i r a t e m feito demoradas investigações sobre o grupo no
O I I M I ' 1 1 H A I K O N I I II;A 1
78 FRONTEIRA

f,la r , n u m a co n v e n çã o d c sua ig r eja , u n , p astor v i n d o d e Flo r ia n o , n o P ia u í. O scr .n ã o fi>i c o n i n , o " , n m u l , ,


q u a l t e m s id o a co lh id a e m d ifer en t es o ca siõ es. A s in fo r m a çõ e s co n t id a s n esta n o t a p r o ce d e m d e u m a exten sa
m o d e r n o "- "esse m u n d o m o d e r n o estava m u i t o lig a d o aos co m u n is t a s , os cap as-v erd e, co r r e io d a l>cs(:,- lera .
ca r ta q u e m e e n v i o u e d as n otas d e C a n u t o . C a n u t o , p o r seu la d o , r ea liz o u m i n u ci o s a en t r ev ist a , sobr e a
N esse m o m e n t o , t o d o s co m e ça r a m a o lh a r p a r a M a n u e l d a C o n ce i çã o : " O co r r e io ' era aqu ele q u e eslav i. la ,
h ist ó r ia e as cr en ça s d o g r u p o , c o m a filha d e M a r i a d a Pr a ia , já n o Pa r á , e m 1975. C f M a r i a A n t o n i e t a d a
C o s t a Vi e i r a , M aria da Praia, Sá o P a u lo , 8 ju l . 1996, 4 p . (m a n u s cr i t o ), e A n t o n i o C a n u t o , M aria da Praia, era e u ." C f M a n u e l d a C o n ce i çã o , Essa terra é nossa: d e p o i m e n t o sobr e a v i d a c as lu ta s d e cam p on eses n.>

Sa n ta Te r e z in h a ( M T ) . A r q u i v o d a Prelazia d e Sá o Félix ( M T ) , o u t . 1975, 12 p . (d a t ilo g r a t a d o ). estad o d o M a r a n h ã o , P et r ó p o lis , Ed i t o r a Vozes L t d a ., 1980, p p . 142-43.

Sobr e os t u k u n a s , d o A m a z o n a s , c£ M a u r ício Vi n h a s d e Q u e i r o z , C o n t r i b u i çã o ao estu d o d o m essu n issin o


M i n h a s p r óp r ia s o b ser v a çõ es, feitas n os an os 1980, sobr e a Ba n d eir a Ver d e n o M a t o Gr osso e n o Pa r á
t u k ú n a , co m u n ica çã o a p r esem a d a n a v Re u n iã o Br a sileir a d e A n t r o p o l o g i a , Belo H o r i z o n t e , 1961,
co i n ci d e m c o m as d e A n t ô n i o C a n u t o , d e 1975, cu jos r eg istr os su g er em u m m i l e n a r i s m o fu n d a d o n o
ca t o h cis m o p o p u l a r e ser ta n ejo. E d a m a i o r im p o r t â n cia a co n s t a t a çã o d e M a r i a A n t o n i e t a d a C o s t a Vi e i r a Ro b e r t o C a r d o so d e O l i v e i r a , O índio e o mundo dos brancos, o p . ci t ., p . 90. Sobr e o m o v i m e n t :o> m i nessia
c

d e q u e, n o m o m e n t o a t u a l, a l i n g u a g e m e a cr en ça d o g r u p o d e M a r i a d a Pr aia f u n d e m elem en t os d o ca t o - n i co d e 1963, en t r e os r a m k o k a m ek r a s-ca n ela s, d o M a r a n h ã o , c f Ed u a r d o G a lv ã o , Encontro de soccdad,

licis m o p o p u l a r e d o e s p ir it is m o n a r efer ên cia a "gu ias q u e o r d e n a m " a v ia g e m , e n á o m a is à p er eg r in a çã o , e ín d io s e b r a n cos n o Br a s il, Ri o d e Ja n eir o, Paz e Te r r a , 1979, p p . 281-2; e M a n u e l a C a r n e ir o d a C u n h a ,

n a r efer ên cia à "in co r p o r a çã o " d o p a d r e C íce r o p o r Ju s t in o , líd er d e u m g r u p o d e r o m e ir o s . Essa m u d a n ça Lo g i q u e d u m y t h e et d e l ' a ct i o n : le m o u v e m e n t m essia n iq u e can ela d e 1963, VHommc - Revue Française
n o m i l e n a r i s m o ser ta n ejo, q u e d e a l g u m m o d o o esvazia e a n u la , a co m p a n h a a est a b iliz a çã o d a fr e n t e d e d-A nthropobgie, t . x n i , n . 4, Pa r is-La H a y e , M o u t o n & C o . Éd it eu r s , o u t .-d e z . 1973, p p . 5-37. Sob r e os
exp a n sã o e a p e r d a d a su a v it a lid a d e e co n flit iv id a d e e, d e cer t o m o d o , p arece r e fle t ir a cessa çã o d a bu sca q u e k r a h ô s d e G o iá s , c f Ju lio Cezar M e l a t t i , O messianismo krahô. Sã o P a u lo , H e r d e r / Ed u s p , 1972. D e n t r e as
o d e s lo ca m e n t o d essa fr e n t e en v o lv e. D e u m la d o , isso se exp lica , t a n t o n o g r u p o d e M a r i a d e Pr a ia q u a n t o várias r efer ên cias q u e , sobr e o t e m a , p o d e m ser feitas aos p ov os t u p is , h á o b elo estu d o d e D a r cy R.b e ir o
n o g r u p o d e Sa n t in a , e m d e co r r ê n cia d a m o r t e d as d u a s, p o r a q u ilo q u e W e b e r d e fin e co m o r o t in iz a çá o d o sobr e U ir á , o ín d io u r u b u -k a a p o r q u e sa iu à p r o cu r a d e M a ír a e se m a t o u n o r i o P in d a r é , n o M a r a n h ã o . (.1.
ca r ism a . M a s h á a in d a o g r u p o d e Ju s t in o , q u e fa ia u m e s p ir it is m o p o p u la r n o i n t e r i o r d e u m m i l e n a r i s m o D a r cy Ri b e i r o , U ir á v a i ao e n co n t r o d e M a ír a , Uirá sai àprocura de Deus: en saios d e e t n o lo g ia e i n d i g e n .s m o ,
ca t ó lico , e m b o r a p r o v a v e lm e n t e h e r é t ico . E n f i m , tais fatos p a r ecem su g er ir q u e a fr e n t e d e exp a n sã o , d e n t r e Ri o d e Ja n eir o, Paz e Te r r a , 1974, p p . 13-29.
v ár ias o u t r a s p ecu lia r id a d es, d esen v olv e u m a r elig io sid a d e m ile n a r is t a ig u a lm e n t e p ecu lia r ,

C f . C a r l o C a s t a ld i et a l ., A a p a r içã o d o d e m ó n i o n o C a t u l é , e m M a r i a Isau r a Pereira d e Q u e i r o z et a l ..


Estudos de sociologia e história. Sã o P a u lo , Ed i t o r a A n h e m b i L i m i t a d a , 1957, p p . 17-130.

H en n essy já h a v ia ob ser v a d o a r ela çã o en t r e o m i l e n a r i s m o jo a q u i m i t a e a fr o n t e i r a n o p er ío d o co l o n i a l e


en t r e m i l e n a r i s m o e fr o n t e ir a n o sécu lo x i x , n a A m é r ica La t i n a . C f A lis t a ir H en n essy , o p . ci t ., p p . 36-8
e 117-20. Sobr e G io a cch in o e su as id eias h á u m a vasta l i t e r a t u r a eu r o p eia . Para u m a v isão a b r a n g en t e d o
t e m a , c f A n t o n i o C r o cco , Gioacchino da Fiore e il gioachimismo, N a p o l i , L i g u o r i Ed i t o r e , 1976. Movi-
m e n t o s cam p on eses d e in sp ir a çã o jo a q u i m i t a d ir e t a o u i n d i r e t a o co r r e m até h o je e m d ifer en tes socied ad es,
m e s m o e m San G i o v a n n i i n Fio r e , n a C a lá b r ia , t er r a d e G i o a cch i n o . Lá , a u t o p i a jo a q u i m i t a f o i a ssim ila d a
p e lo P a r t id o C o m u n i s t a e p elos cam p on eses locais, p r o t a g o n ist a s d e u m a lar ga h ist ó r ia d e c o n f l i t o socia l
m o t i v a d o p ela p r iv a çã o d os usi civici d as terras, q u e lh es h a v i a m sid o ced id os d esd e os t em p o s d o abad e
Jo a q u i m . C f Jo n a t h a n St ein b er g , ! n St. Jo a ch im s r e p u b lic, Society, 28 m a i o 1 9 8 1 , p p . 359-60. G i o a cch i n o
i n fl u e n ci o u as co n ce p çõ e s m ile n a r is t a s e sebastian istas d o p a d r e A n t o n i o V i e i r a e está exp ressam en te cit a d o
várias vezes n o t e xt o sobre a "D u r a çã o d o 5° Im p é r io ", q u e faz p a r t e d a co le çã o d os d o cu m e n t o s a r r ola d os
p e lo T r i b u n a l d a In q u is içã o , q u e o co n d e n o u e m 1667. C f . A n t ó n i o Vi e i r a , A pologia das coisas profetizadas,
t r a d . d o l a t i m d e A r n a l d o Es p ír it o Sa n t o , o r g a n iz a çã o e fixação d o t e xt o d e A d m a Fa d u l M u h a n a , Lis b o a ,
Ed içõ e s C o t o v i a , 1994, p p . 177-203.

D e u m fo lh e t o m a n u s cr it o r e co lh id o n o n o r t e d o M a t o Gr o sso , có p ia d e fo l h e t o d e co r d el im p r esso, sob


o t ít u lo d e A voz do padre Cícero, co n st a a seg u in te exp ressiva estrofe r ela t iv a a esse a ssu n to: "Sá o an jos d o
d ia b o / Q u e ch eg a m n o fim d a era / Fazen d o t a n t o m ila g r e / Q u e t o d o m u n d o os v en er a / Sa cia n d o fo m e e
sed e / Sã o ig u a l ao cap a v er d e / C o r r e io s d a Besta-Fer a." M a r g a r i d a M a r i a M o u r a a le r t o u -m e p a r a a p o s s ib i-
lid a d e d e q u e o C a p a Ver d e seja a r e co n s t r u çã o m ít ica e h u m a n iz a d a d e algo p a r e cid o c o m o L i v r o d a C a p a
Ver d e, e m q u e e r a m a n ot a d o s os d é b it o s fiscais d os m in e r a d o r es n o D i s t r i t o D i a m a n t i n o , e m M i n a s Ger a is,
fo n t e e m o t i v o d e sev er íssim a rep ressão p o r p a r t e d os fu n cio n á r io s d a C o r o a . N o N o r d e s t e , n o estad o d a
Pa r a íb a , C o s t a t a m b é m e n co n t r o u o m i t o d o C a p a Ve r d e en t r e tr a b a lh a d or es d o sisal. N esse caso, p o r é m ,
eles e n t e n d e m q u e o p r ó p r io sisal é o C a p a Ver d e ( C f R a m i l t o n M a r i n h o C o s t a , O C a p a Ver d e: t r a n s fo r -
m a çõ e s e co n ó m ica s e r ep r esen t a çõ es id eológ ica s d os t r a b a lh a d or es d o sisal. N orte e N ordeste - Estudos em
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