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Data da utilização da prova: Tipo de Prova: Bimestral

Professor (a): Roberto Série: 7º Ano - Manhã


Disciplina: Filo/Socio Unidade: Uberlândia/MG
Conteúdo: Sócrates: pensamento e vida

Leia o texto abaixo para responder as questões 1 a 4.

SÓCRATES E A PEPSI-COLA
Um dia desses fui a uma livraria apenas para passear. Este é um
dos meus passeios favoritos. Ficar por dentro dos
lançamentos, ler orelhas de livros, conferir os preços das
mesmas obras por editoras diferentes. Gosto muito de
livrarias que tem aqueles aparelhinhos para informar o
preço dos livros. Por falar em preço de livros, sempre me
lembro de um professor de filosofia que usava uma dose de
uísque como unidade monetária para suas despesas. Quando
chegava atrasado, por exemplo, reclamava que tivera de vir de
taxi e lá se fora cinco doses de uísque. Livro também era
relacionado com doses de uísque. Tinha um colega com
forte presença de espírito que fazia uma espécie de tabela de
valores de doses de uísque a depender da marca e ano de
fabricação. Assim, a depender da marca e ano, um livro
poderia custar de uma a dez doses de uísque. Eu, como
sobrevivia de bicos e estágios, tinha outras unidades monetárias bem diferentes daquelas.
Deixando de lado as unidades monetárias etílicas, meus passeios em livrarias, para passear mesmo, acontecem
sempre no final do mês. Não é coincidência. Na verdade, a coincidência é apenas com o final da verba destinada no
orçamento doméstico para compra de livros. É verdade. Com cartão de crédito estourado, a alternativa é olhar e
reservar para o mês seguinte. Não custa nada, de outro lado, dar uma boa folheada para ver se vale a pena mesmo.
Ainda mais quando a livraria dispõe de boas poltronas e um cafezinho.
Pois bem, minha esposa saiu a passear no shopping com boa verba do orçamento ainda disponível para sandálias,
bolsas, blusinhas básicas e coisas afins. A mim restou olhar livros na livraria e fazer uma lista para o mês seguinte.
As seções são basicamente as mesmas: constitucional, civil, teoria geral do Direito, filosofia do Direito, sociologia,
história, política, filosofia, literatura, artes etc. Um passeio mesmo!
De repente, “não mais que de repente, fez-se da vida uma aventura errante”, como diria Vinícius de Moraes, apanhei
na estante de filosofia um pequeno livro de Andreas Drosdek – Sócrates, o poder do não saber, da Editora Vozes.
Logo na orelha, uma frase Einstein: “os problemas que existem no mundo não podem ser resolvidos a partir dos
modos de raciocínio que deram origem aos mesmos”.
Pronto, muito mais valioso do que uma dose do uísque, encontrei o livro ideal para esperar a esposa detonar o
orçamento. Era como se fosse uma bela fatia de pizza, um suculento sanduíche ou uma taça de sorvete. Era para ser
saboreado devagarzinho.
Vamos saborear comigo. O livro é dividido em duas partes principais, sendo uma primeira sobre o próprio Sócrates e
a segunda intitulada “A tripla reviravolta Socrática”, a saber: (i) o reconhecimento do não-saber, (ii) o ser humano
como centro e (iii) o bem enquanto objetivo. A primeira parte faz uma rápida biografia de Sócrates, de seu método e
da influência sobre os jovens da época. A segunda parte, a mais interessante, inicia com uma breve síntese das três
reviravoltas de Sócrates. Segundo o autor, ao invés de defender seu pretenso saber a qualquer custo, Sócrates
passou a se concentrar em seu não-saber e, sendo assim, transformou a revelação de falsos saberes e a descoberta
do não-saber no foco de sua vida.
A primeira reviravolta seria, portanto, exatamente esta: o reconhecimento do não-saber. Assim, quando Sócrates
apregoa que “só sei que nada sei”, na verdade, não quer dizer que não sabe de nada, mas que tinha consciência de
que seu saber a princípio seguro, ainda era falho em relação a alguns pontos decisivos, ou seja, “não acredito saber
aquilo que não sei”. Utilizando seu método de perguntar, Sócrates, então, desmascarou o não-saber dos políticos,
dos poetas e dos artesãos. Com isso, Sócrates terminou por demonstrar as mentiras que alicerçavam a vida de
muitas pessoas, que viviam bem com o fato de enganarem a si próprios e aos outros. Ao final desta parte, o autor
convida a todos para se tornarem especialistas em não-saber, ou seja, analisar, a partir da perspectiva do não-saber,
o seu próprio âmbito de trabalho, a sua empresa, a economia, a vida em si. O resultado será a constatação de que
algumas coisas simplesmente assumimos dos outros, sem jamais averiguá-las ou refletir sobre elas por conta
própria. Para Sócrates, enquanto seres humanos, jamais devemos ignorar a dúvida.
Pois bem, a segunda reviravolta é ter o homem como centro, ou seja, para Sócrates a dedicação ao ser humano não
se reduzia apenas à autoanálise. Estar a serviço do bem-estar do próximo, ajudando-o em sua busca pela verdade e
pelo sentido da vida, era o seu objetivo.
Por fim, a terceira reviravolta tem o bem enquanto objetivo. Acreditava Sócrates que a missão do ser humano era
viver do modo mais virtuoso possível, ou seja, aquilo que preenche melhor sua função, usar o seu potencial da

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melhor forma possível e fazer jus às suas responsabilidades. Em suma, o processo de contínuo auto-aprimoramento
representava para Sócrates o ponto de partida na busca do bem.
Esta leitura durou pouco mais de meia-hora. Ao final, suspirei fundo, acomodei-me na poltrona da livraria e comecei a
pesar sobre o que tinha lido: eu ando sabendo de tudo ou tenho algumas dúvidas? Ando exercitando meu não-saber
ou acredito saber mesmo aquilo que não sei? Minhas ações estão voltadas para o bem e tem o homem como
centro?
Conduzi meu pensamento para minha condição de Juiz de Direito e membro de um Poder – o Judiciário,
reconhecidamente em crise, e comecei a perguntar. Um “por que” atrás do outro, até a exaustão. Por que sou Juiz?
Porque fiz um concurso e passei. Por que passou? Porque estudei mais do que os concorrentes. Por que estudou
mais? Porque queria passar. Por que queria passar? Porque tinha vocação. O que é vocação?... Ou então: por que
Poder Judiciário? Porque assim pensou Montesquieu. Por que assim pensou? Porque as atribuições precisavam ser
divididas para evitar o poder absoluto... Por que está em crise? Porque falta estrutura, juízes, pessoal qualificado e
leis melhores. Por que falta tudo isso? Porque não existem recursos suficientes. Por que não existem? Porque não
consta do orçamento. Por que não consta? Porque não houve interesse de quem elaborou. Por que não houve
interesse? Sei lá, Sócrates! Chega! Cansei!
Minha esposa me tirou do transe socrático e voltei à realidade sem saber se realmente sei o que pensava saber.
Tinha mais dúvidas que certezas. Retornamos para casa e eu continuava perguntando sobre tudo que via: pessoas,
carros, edifícios, vendedores ambulantes, pedintes, homens de gravata em carros com ar condicionado etc. Pensava
como seriam meus interrogatórios daqui por diante: atirou na vítima? Sim. Por quê? Porque fui ameaçado. Por quê?
Porque brigamos antes. Por que brigaram? Porque estávamos bebendo juntos e discutimos. Por que bebiam e por
que discutiram?... Isto não vai dar certo!
Chegando em casa, como que para desanuviar de Sócrates, liguei a TV em busca de algo mais ameno e no primeiro
comercial vi um rapaz fazer uma proposta para uma garota bonita: se eu lhe der um gole de Pepsi, você me dá um
beijo? Ante a resposta negativa da moça, sob argumento de que tinha namorado, o rapaz continua com uma série de
“por quês” até convencer a moça e trocam então um estimulante beijo.
Ora, então Sócrates tem razão! Vale a pena perguntar sempre! Se não obtivermos as respostas, pelo menos vamos
chegar à conclusão de que não sabemos. Saber que não sabe, portanto, já e um bom sinal. Da minha parte, daqui
por diante, quando for julgar alguém ou quando for criticar o Judiciário, vou fazer muito mais perguntas.
Gerivaldo Alves Neiva - Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba
Conceição do Coité, 02 de março de 2009

Questão 01

O autor faz referência à chamada tripla reviravolta socrática. Em conformidade com o texto, cite as partes desta tripla
reviravolta.

2 linhas

Questão 02

Ainda com base na questão anterior, explique uma dessas partes da tripla reviravolta socrática.

3 linhas

Questão 03

"Sócrates era muito crítico e individualista, querendo impor a sua verdade."

De acordo com o texto, a frase acima esta correta? Responda sim ou não e depois justifique.

4 linhas

Questão 04

Nossa sociedade está doente. Nossos representantes não atendem aos anseios das populações. A corrupção, a
miséria e a desigualdade social persistem e geram consequências graves como a criminalidade.

Ainda inspirado no texto, escreva uma pequena dissertação respondendo a seguinte pergunta:

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O que os políticos de hoje poderiam aprender com a vida e a filosofia de Sócrates?

6 linhas

Questão 05

Sobre o chamado "método socrático", explique o que é a maiêutica.

3 linhas

Questão 06

Sócrates foi um filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Creditado como um dos fundadores da
filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de
escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças
teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais
abrangente de Sócrates a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje. Como estudamos, Sócrates dedicou-se a
a) retórica e a justiça.
b) sofística e a prudência.
c) verdade e ao bem.
d) opinião e a paixão.
e) lógica e ao direito.

Questão 07

A sabedoria de Sócrates, filósofo ateniense que viveu no século V a.C., encontra o seu ponto de partida na afirmação
“sei que nada sei”, registrada na obra Apologia de Sócrates. A frase foi uma resposta aos que afirmavam que ele era
o mais sábio dos homens. Após interrogar artesãos, políticos e poetas, Sócrates chegou à conclusão de que ele se
diferenciava dos demais por reconhecer a sua própria ignorância. O “sei que nada sei” é um ponto de partida para a
Filosofia, pois:
a) aquele que se reconhece como ignorante torna-se mais sábio por querer adquirir conhecimentos.
b) é um exercício de humildade diante da cultura dos sábios do passado, uma vez que a função da Filosofia era
reproduzir os ensinamentos dos filósofos gregos.
c) a dúvida é uma condição para o aprendizado e a Filosofia é o saber que estabelece verdades dogmáticas a partir
de métodos rigorosos.
d) é uma forma de declarar ignorância e permanecer distante dos problemas concretos, preocupando-se apenas com
causas abstratas.
e) é uma forma de mostrar a importância da reflexão para fundamentar as ciências exatas.

Questão 08

Sobre o método socrático, marque a alternativa correta.


a) Começa pela maiêutica para reconhecer a ironia.
b) Parte da ironia para afirmar o ceticismo.
c) Busca superar a maiêutica, pois ela conduz ao erro.
d) Foi o modo como Sócrates dialogava e estimulava as pessoas a acreditarem no que ele dizia.
e) Foi constituído por duas partes: a ironia e a maiêutica.

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