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Coletânea 1

[...]
Cantiga de amor
Bernardo de Bonaval Marília de Dirceu
"A dona que eu amo e tenho por Tomaz Antonio Gonzaga
[Senhor PARTE I
amostra-me-a Deus, se vos en Lira I
[prazer for, Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
se non dade-me-a morte. Que viva de guardar alheio gado;
A que tenh'eu por lume d'estes De tosco trato, d’ expressões
[olhos meus [grosseiro,
e porque choran sempr(e) Dos frios gelos, e dos sóis
amostrade-me-a Deus, [queimado.
se non dade-me-a morte. Tenho próprio casal, e nele assisto;
Essa que Vós fezestes melhor Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
[parecer Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
de quantas sei, a Deus, fazede-me- E mais as finas lãs, de que me visto.
[a veer, Graças, Marília bela,
se non dade-me-a morte. Graças à minha Estrela!
A Deus, que me-a fizestes mais Eu vi o meu semblante numa fonte,
[amar, Dos anos inda não está cortado:
mostrade-me-a algo possa con ela Os pastores, que habitam este
[falar, [monte,
se non dade-me-a morte." Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio
[Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja
Os Lusíadas [minha,
Canto I Graças, Marília bela,
Camões Graças à minha Estrela!
As armas e os barões assinalados, [...]
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes
[navegados, Canção do Exílio
Passaram ainda além da Gonçalves Dias
[Taprobana, Minha terra tem palmeiras,
Em perigos e guerras esforçados, Onde Canta o Sabiá;
Mais do que prometia a força As aves, que aqui gorjeiam,
[humana, Não gorjeiam como lá.
E entre gente remota edificaram Nosso céu tem mais estrelas,
Novo Reino, que tanto sublimaram; Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
E também as memórias gloriosas Em cismar, sozinho, à noite,
Daqueles Reis, que foram dilatando Mais prazer encontro eu lá;
A Fé, o Império, e as terras viciosas Minha terra tem palmeiras,
De África e de Ásia andaram Onde canta o Sabiá.
[devastando; Minha terra tem primores,
E aqueles, que por obras valerosas Que tais não encontro eu cá;
Se vão da lei da morte libertando; Em cismar
Cantando espalharei por toda parte, - sozinho, à noite
Se a tanto me ajudar o engenho e Mais prazer encontro eu lá;
[arte. Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá. Atrás das asas ligeiras
Não permita Deus que eu morra, Das borboletas azuis!
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores Naqueles tempos ditosos
Que não encontro por cá; Ia colher as pitangas,
Sem qu'inda aviste as palmeiras, Trepava a tirar as mangas,
Onde canta o Sabiá. Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Meus oito anos
Adormecia sorrindo
Casimiro de Abreu
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
– Que amor, que sonhos, que
Naquelas tardes fagueiras
[flores,
À sombra das bananeiras,
Naquelas tardes fagueiras
Debaixo dos laranjais!
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
De despontar da existência!
– Respira a alma inocência
O Navio Negreiro
Como perfumes a flor;
IV
O mar é – lago sereno,
Castro Alves
O céu – um manto azulado,
Era um sonho dantesco... o
O mundo – um sonho dourado,
[tombadilho
A vida – um hino d’amor!
Que das luzernas avermelha o
[brilho.
Que auroras, que sol, que vida, Em sangue a se banhar.
Que noites de melodia Tinir de ferros... estalar de açoite...
Naquela doce alegria, Legiões de homens negros como a
Naquele ingênuo folgar! [noite,
O céu bordado d´estrelas, Horrendos a dançar...
A terra de aromas cheia, Negras mulheres, suspendendo às
As ondas beijando a areia [tetas
E a lua beijando o mar! Magras crianças, cujas bocas
[pretas
Oh! dias de minha infância! Rega o sangue das mães:
Oh! meu céu de primavera! Outras moças, mas nuas e
Que doce a vida não era [espantadas,
Nessa risonha manhã! No turbilhão de espectros
Em vez das mágoas de agora, [arrastadas,
Eu tinha nessas delícias Em ânsia e mágoa vãs!
De minha mãe as carícias E ri-se a orquestra irônica,
E beijos de minha irmã! [estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Livre filho das montanhas, Faz doudas espirais ...
Eu ia bem satisfeito, Se o velho arqueja, se no chão
Da camisa aberto o peito, [resvala,
– Pés descalços, braços nus – Ouvem-se gritos... o chicote estala.
Correndo pelas campinas E voam mais e mais...
À roda das cachoeiras, Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia, embaciado canicular, e o azul muito
E chora e dança ali! alto reluz com uma nitidez lavada;
Um de raiva delira, outro respira-se mais livremente; e já se
[enlouquece, não vê na gente que passa o
Outro, que martírios embrutece, abatimento mole da calma
Cantando, geme e ri! enfraquecedora. Veio-lhe uma
No entanto o capitão manda a alegria: sentia-se ligeira, tinha
[manobra, dormido a noite de um sono são,
E após fitando o céu que se contínuo, e todas as agitações, as
[desdobra, impaciências dos dias passados
Tão puro sobre o mar, pareciam ter-se dissipado naquele
Diz do fumo entre os densos repouso. Foi-se ver ao espelho.
[nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, DAS NEGATIVAS
[estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente Machado de Assis
Faz doudas espirais...
ENTRE A MORTE do Quincas
Qual um sonho dantesco as
Borba e a minha, mediram os
sombras voam!...
sucessos narrados na primeira parte
Gritos, ais, maldições, preces
do livro. O principal deles foi a
[ressoam!
invenção do emplasto Brás Cubas,
E ri-se Satanás!...
que morreu comigo, por causa da
[...]
moléstia que apanhei. Divino
emplasto, tu me darias o primeiro
O Primo Basílio lugar entre os homens, acima da
Eça de Queirós ciência e da riqueza, porque eras a
genuína e direta inspiração do Céu.
... tinha suspirado, tinha beijado o O caso determinou o contrário; e aí
papel devotamente! Era a primeira vos ficais eternamente
vez que lhe escreviam aquelas hipocondríacos.
sentimentalidades, e o seu orgulho
dilatava-se ao calor amoroso que Este último capítulo é todo de
saía delas, como um corpo negativas. Não alcancei a
ressequido que se estira num banho celebridade do emplasto, não fui
tépido; sentia um acréscimo de ministro, não fui califa, não conheci
estima por si mesma, e parecia-lhe o casamento. Verdade é que, ao
que entrava enfim numa existência lado dessas faltas, coube-me a boa
superiormente interessante, onde fortuna de não comprar o pão com o
cada hora tinha o seu encanto suor do meu rosto. Mais; não padeci
diferente, cada passo condizia a um a morte de D. Plácida, nem a
êxtase, e a alma se cobria de um semidemência do Quincas Borba.
luxo radioso de sensações! Somadas umas cousas e outras,
Ergueu-se de um salto, passou qualquer pessoa imaginará que não
rapidamente um roupão, veio houve míngua nem sobra, e
levantar os transparentes da conseguintemente que saí quite com
janela... Que linda manhã! Era um a vida. E imaginará mal; porque ao
daqueles dias do fim de agosto em chegar a este outro lado do mistério,
que o estio faz uma pausa; há achei-me com um pequeno saldo,
prematuramente, no calor e na luz, que é a derradeira negativa deste
uma certa tranquilidade outonal; o capítulo de negativas: -- Não tive
sol cai largo, resplandecente, mas filhos, não transmiti a nenhuma
pousa de leve; o ar não tem o criatura o legado da nossa miséria.
Por te cruzarmos, quantas mães
[choraram,
Versos Íntimos
Quantos filhos em vão rezaram!
Augusto dos Anjos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Quantas noivas ficaram por casar
Enterro de tua última quimera.
Para que fosses nosso, ó mar!
Somente a Ingratidão – era pantera
Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.
Foi tua companheira inseparável!
Quem quere passar além do Bojador
Acostuma-te à lama que te espera!
Tem que passar além da dor.
O Homem, que, nesta terra
Deus ao mar o perigo e o abismo [deu,
[miserável,
Mas nele é que espelhou o céu.
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu


[cigarro! Vou-me embora pra Pasárgada
O beijo, amigo, é a véspera do Manuel Bandeira
escarro, Vou-me embora pra Pasárgada
A mão que afaga é a mesma que Lá sou amigo do rei
[apedreja. Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Se alguém causa inda pena a tua Vou-me embora pra Pasárgada
[chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, Vou-me embora pra Pasárgada
Escarra nessa boca que te beija! Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Eu ... Que Joana a Louca de Espanha
Florbela Espanca Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Eu sou a que no mundo anda perdida, Da nora que nunca tive
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte E como farei ginástica
Sou a crucificada ... a dolorida ... Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Sombra de névoa tênue e esvaecida, Subirei no pau-de-sebo
E que o destino amargo, triste e forte, Tomarei banhos de mar!
Impele brutalmente para a morte! E quando estiver cansado
Alma de luto sempre incompreendida!... Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Sou aquela que passa e ninguém vê... Pra me contar as histórias
Sou a que chamam triste sem o ser... Que no tempo de eu menino
Sou a que chora sem saber porquê... Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
Em Pasárgada tem tudo
E que nunca na vida me encontrou!
É outra civilização
Tem um processo seguro
MAR PORTUGUÊS De impedir a concepção
Tem telefone automático
Fernando Pessoa Tem alcaloide à vontade
Ó mar salgado, quanto do teu sal Tem prostitutas bonitas
São lágrimas de Portugal! Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste Soneto de Fidelidade
Mas triste de não ter jeito Vinicius de Moraes
Quando de noite me der De tudo, ao meu amor serei atento
Vontade de me matar [antes
- Lá sou amigo do rei - E com tal zelo, e sempre, e tanto
Terei a mulher que eu quero Que mesmo em face do maior encanto
Na cama que escolherei Dele se encante mais meu pensamento
Vou-me embora pra Pasárgada.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu
Poema de sete faces [canto
Carlos Drummond de Andrade E rir meu riso e derramar meu pranto
Quando nasci, um anjo torto Ao seu pesar ou seu contentamento
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na E assim quando mais tarde me procure
vida. Quem sabe a morte, angústia de quem
[vive
As casas espiam os homens Quem sabe a solidão, fim de quem
que correm atrás de mulheres. [ama
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
O bonde passa cheio de pernas: Que não seja imortal, posto que é
pernas brancas pretas amarelas. [chama
Para que tanta perna, meu Deus, Mas que seja infinito enquanto dure
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode


é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do –
[bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste


se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,


se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma
solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer


mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o
diabo.