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Neste livro tomamos a palavra

fetiche como uma metáfora para


analisar o campo da gestão, aqui
tomada em sentido bastante amplo.
Gestão refere-se a um campo de
práticas e teorias que têm, a des­
peito de sua ampla diversidade, um
objetivo convergente: cuidar para
que a produtividade, a eficiência e
a eficácia na utilização de recursos
(humanos, materiais, imateriais...)
sejam cada vez maiores ou, alter­
nativamente, para que seus efeitos
n o civos sejam m in im iza d o s,
atenuados ou (idealmente) ex­
purgados. Desse modo, univer­
sidades e escolas de negócio
espalhadas mundo afora destilam a
todo instante novas teorias, com
distintos graus de normatividade,
destinadas a alimentar a engre­
nagem das organizações ou a
aplacar seus efeitos deletérios. Por
sua vez, as organizações cuidam
de e x ig ir de seus m em bros
soluções cada vez mais engenho­
sas para elevarem a eficiência de
sua estrutura organizativa, cul­
minando, agora o sabemos bem, na
“m aximização” do interesse de
acionistas e investidores.
f!

OS FETICHES DA GESTÃO
D iretor Editorial : R evisão :
Marcelo C.Araújo Bruna Marzullo

Editores : D iagr am ação :


Avelino Grass! Simone Godoy
Márcio F. dos Anjos
C apa :
C o or d e n a ç ã o Editorial : Antonio Carlos Ventura
Ana Lúcia de Castro Leite

©Todos os direitos reservados à Editora Idéias & Letras, 2009

]IDEIAS &
[le t r a s
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bendassolli, Pedro Fernando


Os fetiches da gestão / Pedro Fernando Bendassolli. - Aparecida, SP:
Idéias & Letras, 2009. (Coleção Management, 6)

ISBN 978-85-7698-042-1
1. Administração 2. Autonomia 3. Carreira profissional 4. Competência 5.
Competitividade 6. Cooperação 7. Fiabilidade executiva 8. Inteligência
emocional 9. Organizações 10. Performance I. Título. II. Série.

09-06255 CDD-658

índices para catálogo sistemático:


1. Gestão empresarial: Administração 658
Sumário

I N lR O D U Ç À O - 7

I'Ali rE I
( )S FETICHES DA GESTÃO - 13

1 lichczõcs a bordo - 15
lc d io c R H - 2 5
3 1'dicidadc e trabalho - 35
'I A (. ultura da performance - 45
5. Afeio sob controle - 51
(} ( larreiras sem gravidade - 59
7, ( Mineiras anticoncepcionais - 69
H Ilusão biográfica - 77
() ano 1000 (medo e gestão) - 83

I'AR I'E II
l-ARA UM A CRÍTICA
I)A IDEOLOGIA GERENCIAL 91

10 ( ooperar para competir ou competir para cooperar? - 93


11 () vocabulário da habilidade e da competência - 101
I 1 ’ublico, privado e o indivíduo no novo capitalismo - 123
Introdução

A palavra fetiche provém originalmcnte de feitiço, no


•.riilido de que um objeto é investido de propriedades espe-
I lais, mágicas. Um amuleto, por exemplo, pode ser um ob-
)i lo Ictiche na medida em que funciona como veículo capaz
ilf lonsubstanciar uma crença de natureza metafísica ou es-
piiiliial. Q)m a psicanálise, o fetiche assume uma descrição
ili iimlio sexual: alguém escolhe um objeto, em geral ina­
nimado, como a parte que representa o corpo de uma outra
p essoa.
Mas a palavra não se restringe ao uso de psicanalistas ou
psii|iiiairas. Nas ciências sociais encontramos também exem­
plos em que ela é empregada. Por exemplo, Karl Marx utiliza
,1 espressão “fetiche da mercadoria”, querendo com isso dizer
qiie .1 mercadoria, no regime capitalista, é concebida como
ii lido uma vontade própria independentemente das forças
soi lais, culturais e econômicas que a condicionam. Fetiche
pode significar, ainda neste caso, algo “reificado” , isto é,
II.mslormado em fato, em algo “concreto”, mesmo que seus
I Ifiiieuios constitutivos pertençam ao campo das ações hu-
m.m.is, .sempre transitórias, sujeitas à mudança.
1'm síntese, fetiche, independentemente da teoria em
qiii siao, é algo que diz respeito a uma relação entre a parte
I o lodo. As vezes o todo (universal) é confundido com a
p.iiie (específico), como quando Marx se refere à idolatria
11.1 mercadoria e à redução da experiência social a relações de
1101.1 meiliadas pelo dinheiro; ou quando alguém, incapaz
por qualquer motivo de viver uma experiência humana “com­
pleta”, deixa-se ficar com o objeto-fetiche. Em ambos esses
casos, a palavra fetiche é tomada em sentido negativo. Há
também, evidentemente, situações em que ocorre o inverso,
e o objeto-fetiche é utilizado como “meio” para se chegar ao
todo ou então como um “interdito” que desperta a criativi­
dade ou a fantasia.
Neste livro tomamos a palavra fetiche como uma metáfo­
ra para analisar o campo da gestão, aqui tomada em sentido
bastante amplo. Gestão refére-se a um campo de práticas e
teorias que têm, a despeito de sua ampla diversidade, um ob­
jetivo convergente: cuidar para que a produtividade, a eficiên­
cia e a eficácia na utilização de recursos (humanos, materiais,
imateriais...) sejam cada vez maiores ou, alternativamente,
para que seus efeitos nocivos sejam minimizados, atenuados
ou (idealmente) expurgados. Desse modo, universidades e
escolas de negócio espalhadas mundo afora destilam a todo
instante novas teorias, com distintos graus de normatividade,
destinadas a alimentar a engrenagem das organizações ou a
aplacar seus efeitos deletérios. Por sua vez, as organizações
cuidam de exigir de seus membros soluções cada vez mais
engenhosas para elevarem a eficiência de sua estrutura organi-
zativa, culminando, agora o sabemos bem, na “maximização”
do interesse de acionistas e investidores.
Mais importante, em nossa visão, é considerar a gestão
como um campo capaz de gerar doutrinas, valores e uma re­
presentação de mundo bastante própria, no centro das quais
o objetivo da eficiência segue intacto (ou, às vezes, camufla­
do). A gestão, nesse sentido, pode ser vista como uma máqui­
na de construção de significados sobre amplos domínios da
existência, como o da interação interpessoal, do trabalho, do
consumo, da nossa relação com nossa sociedade e país e de
muitos outros. Em sintonia com essa afirmação, há algumas
décadas diversos pesquisadores das ciências sociais têm de­
monstrado que a gestão transformou-se num dos principais
, iliDs inoilcmos, gerando seus próprios fetiches, muitos dos
ijii.iis |.i l<)riemcnte enraizados em nosso cotidiano.
( )s I apítulos que compõem este livro, publicados em di-
X, iMis periódicos e aqui reproduzidos com ligeiras modifica-
analisam alguns desses fetiches presentes no mundo da
(u si.io. l’or exemplo, o da carreira profissional. De fato, não
, iiuoiniim encontrarmos pessoas t][ue fazem de sua carreira
iiin I )|)ieio fetiche, sacrificando ou relegando a segundo plano
iiiiiiias outras dimensões de sua vida. Considerada do ponto
,1, \ isia da ideologia gerencial, a carreira é a “parte” pela qual
|nidcmos desenvolver o que há de melhor em nós. Por meio
,I, ss.i parte conseguiríamos expressar nosso “eu” verdadeiro,
l.ipiil.iiulo “competências” que nos tornariam profissionais
, ,id.i vez melhores e, naturalmente, mais bem-sucedidos.
A pei iormance é outro importante objeto-fetiche da ges-
i.wi Nesse caso, o ser humano é “recortado” enquanto sujei-
1,1 ,le desempenho - como alguém que consegue “entregar
iim lesultado” e satisfazer determinados requisitos de valor.
( Dino consequência, é recompensado com promoções, salá-
...... (Hl simplesmente com adulações simbólicas endereçadas
.1 I iip.i.mdecer seu valor pessoal e social. Ou então o inverso;
iim baixo desempenho conduz, quase que inevitavelmente
(( III uma ctiltura meritocrática, ao menos), a perda de poder,
•a.Il lis e, por fim, desligamento da organização. Programas de
(I, sciivolvimento profissional, fartamente patrocinados pelas
( Hg.imzaçòes, têm como meta aprimorar ou corrigir o desem-
pi iiho de seus membros. Muitas vezes, em uma orientação
piII>1 iiariamente comportamentalista, o “todo” (a “subjetivi-
d.idv”, a pe.ssoa, o ator, o agente) é absorvido pelo compor-
i.imnito manifesto, neste caso pelo desempenho.
Mesmo as emoções podem transformar-se em objetos-fe-
III he. O grande exemplo, em nosso entender, é o conceito de
mielii>êiicia emocional. Mesmo que seu auge de popularidade
i( iih.i ocorrido há uma ou duas décadas, ele expressa a crista-
li-'.g.io de um ideário segundo o c]ual a afetividade pode ser
“matematizada” e colocada a serviço da racionalidade buro­
crática da empresa. Nesse caso, o recorte da dimensão afetiva
ocorre pela proposição, intrínseca ao conceito, de um “índice
de inteligência emocional”, ou lE, como ficou conhecido.
Na corrida pela eficiência, atrair, desenvolver e manter pro­
fissionais com “alto lE ” tornaram-se nova cioutrina dos de­
partamentos de recursos humanos mais “abertos” aos ares da
modernidade (e da vontade de acertar) gerencial.
O leitor encontrará nos capítulos que compõem a pri­
meira parte deste livro análises desses e de outros fetiches da
gestão. Em comum, além da crítica a essa “perversidade” de
tomar, obstinadamente, a parte pelo todo, os artigos dessa
primeira seção têm o fato de serem escritos em linguagem a
mais direta e clara possível, sobretudo porque, originalmen­
te, foram endereçados a um público-alvo majoritariamente
formado por profissionais atuantes nesse mesmo mercado de
trabalho cujas normas, valores e representações associamos
ao campo mais genérico da gestão. Desse modo, apresentam
uma estrutura curta e segmentada em subtítulos que preten­
dem, de início, apresentar a ideia comum em questão e, num
outro momento, questioná-las.
Uma situação um tanto diferente o leitor encontrará nos
três artigos que compõem a segunda parte do livro. Ainda
que permaneçam fiéis ao objetivo de expor e questionar os
fetiches da gestão, mergulham mais a fundo, com um escopo
analítico mais extenso, não só em termos de estrutura (são
mais longos, comparados aos artigos da primeira seção), como
também de referenciais teóricos. Originalmente escritos em
periódicos acadêmicos, esses três capítulos finais analisam os
fenômenos invocados na primeira parte de um ângulo diacrô-
nico, buscando explorar alguns dos fatores mais críticos que
10 poderíam ser chamados para explicar seu surgimento, evo­
lução e seus aspectos problemáticos. Assim, são analisados,
por exemplo, o fenômeno da “empresarização” da sociedade,
quando o discurso da empresa e do “management” trans-
Iiimu sc cm padrão normativo para a ação; as bases do que
tli.mi.imos aqui de o “discurso gerencial”, com sua ênfase
I m lermos como “competências”, “habilidades” e “autono-
mi.i"; c também os pressupostos e os problemas envolvidos
I m um outro importante fetiche da gestão: o trabalho em
t qiiipc (aqui discutidos em termos do binômio competição-
I (M>pcração).
I',m conjunto, esperamos que as idéias aqui apresentadas
■aivam como ingredientes de instigação ao pensamento, na
t -.perança de que, dessa forma, consigamos, senão desmontar
.ilgims lios fetiches aqui invocados, ao menos colocá-los em
uma perspectiva diferente daquela com a qual normalmente
•..In rcilicados e naturalizados nos discursos gerenciais.

II
PARTE I

o s FETICHES DA GESTÃO
C A P IT U L O I

BEBEZO ES A BORDO

S 'c o leitor é pai ou mãe de classe média, certamente já


ilcve ter passado por situações difíceis com respeito à edu­
cação do próprio filho ou filha: gritos, falta de modos em
ambientes públicos, desejo irrefreável e inadiável por algum
novo brinquedo, birras, manhas e uma infinidade de outros
“comportamentos problemáticos” . Se o leitor é professor ou
professora, decerto já deve ter tido (ou tem) problemas com
o comportamento de seus alunos em sala de aula, como fala
c-xcessiva, desrespeito às regras e aos próprios colegas, des-
compromisso com a aprendizagem e rebeldia com a autori­
dade (o professor).
Agora, se o leitor é um gerente ou pessoa encarregada
de controlar o trabalho de outras pessoas, talvez esses pro­
blemas “de educação” não apareçam de forma tão eviden­
te. Afinal, ao que tudo indica, os funcionários —em geral
chegam à empresa com um comportamento disciplinado,
dispostos a acatar as ordens e a se envolver com o trabalho,
comprometidos com as tarefas e interessados em colaborar,
maduramente, com os colegas. A favor dessa ideia, a intui-
x.u) popular nos diria que a empresa é uma terra de adultos
maduros. Crianças e adolescentes habitam outros lugares:
casa, escola e shoppings.
15

Escrito em coautoria com Maurício Custódio Serafim.


o leitor poderia dizer que isso ocorre graças ao lento pro­
cesso de aprendizagem civilizatória que transforma crianças e
adolescentes rebeldes em jovens adultos responsáveis e ejue,
por uma questão óbvia, uma vez forjado o adulto, a criança
que o precedeu fica lá atrás no passado memorial do indiví­
duo. Ao contrário da criança, o adulto é alguém autônomo,
independente, capaz de escolher, por sua própria deliberação,
sua carreira, suas roupas, seu estilo de vida e seu parceiro.
Espera-se, novamente por uma questão intuitiva, que a
sociedade tenha adultos em proporção adequada para cuidar
de suas crianças, para educá-las, prepará-las “para a vida”; para
transformar seus adolescentes em cidadãos conscienciosos e tra­
balhadores eficazes; e, claro, para se responsabilizarem pelo pró­
prio desenvolvimento de suas instituições. Essa é a visão comum
e, por algum tempo, foi assim c]ue as coisas funcionaram.

INFANTILIZAÇÃO GENERALIZADA

No entanto, tese contrária foi recentemente defendida


pelo professor e jornalista inglês Michael Bywater, em seu Biß
Babies (Grandes bebezões) - livro que acaba de ser publicado
na Inglaterra. Nele, o autor recoloca cm pauta uma velha, e apa­
rentemente banal, pergunta: afinal, o c]ue é ser adulto.^ Para ele,
assistimos hoje a um fenômeno inverso ao processo, acima des­
crito, de desenvolvimento de crianças em adultos: agora o c]ue
vemos, generalizadamente, são adultos se tornando crianças.
Para justificar seu argumento, Bywater menciona c]ue o
sintoma mais característico dessa inversão é a tutela excessi­
va exercida sobre os adultos: desde a escolha de uma camisa,
passando pela casa onde se vai morar, o emprego que se vai
16 ter, a marca e o tamanho do carro a comprar, até a escolha do
parceiro amoroso, o “adulto” depende agora de conselhos e
recomendações vindos de um outro alguém: de um consultor
de moda, de um agente imobiliário, da mídia em geral, de con-
,1 llu iios amorosos ou sexuais, de um ‘’^cocich’\ de um mentor
I asMiii por diante. Para Bywater, somos cada vez mais depen-
ilc iiu s das recomendações ou conselhos de entidades abstratas,
(II'. i|iiais o mercado é certamente a mais emblemática.
() autor ainda vai mais longe na sua tese da intántilização.
I )i/ (]uc somos tutelados não porc[ue sejamos forçados a isso,
mas antes o contrário: desejamos ser tutelados. E ele apre-
Mni.\ uma razão persuasiva: a contrapartida da tutela, para o
iiiilivuluo, é o conforto, o mimo e a bajulação. Bywater cita o
rvcmplo da propaganda: na era da “satisfação total do clien-
h ", vste é quem sempre tem a razão - uma reclamação sua
)i,i la, normalmente, uma reação imediata nos departamentos
tli marketing das empresas. O objetivo: eliminar ruídos de in-
saiislaçào que possam gerar queda nas vendas (paralelo: você
|a \ iu o que acontece com uma criança contrariada.^).
(,)uem entrar hoje em um shopping center vai entender
ISSO na prática: sorrisos exagerados de atendentes; máquinas
lalauies; visual atrativo, com muita decoração, cores chama-
iiv.is; descontos especiais “para você”; enfim, um shopping é
um ambiente altamente infantil que lembra as saudosas casas
ilc l>oneca da infância. Mas, se ainda assim sentir-se mal-aten-
(lulo, o cliente logo passa a reclamar: reclama do carro que o
manobrista delonga em entregar; reclama das filas; reclama da
l.ilia de atenção da mulher do caixa etc.
E as reações são claras: cara fechada; pedidos para “falar
(I im o gerente”; grosseria com os funcionários - o adulto insa-
iisk iio, nessas circunstâncias, interpreta a situação “como um
•ibsiirdo” . Pois bem. O efeito do mimo do mercado em relação
.!<I cliente é paradoxal: ao mesmo tempo em que gera fidelida­
de, aumenta exponencialmente as chances de revolta, birra e
Icclamações. Mas as vantagens da infantilização são igualmente
p,landes: c melhor agirem como crianças, pois assim compram 17
por compulsão. Seria pouco provável que comprássemos tudo
o ipic compramos se parássemos para pensar bem, ou seja, se
•inalisássemos detidamente o que realmente necessitamos.
o QUE E SER ADULTO
A tese de Bywater é persuasiva, apesar de, em alguns mo­
mentos, resvalar em exageros. No entanto, ele parece acertar
no alvo: identifica um fenômeno massivo de inversão de fases
de desenvolvimento que torna difícil responder, com tran­
quilidade, à questão sobre o que é ser adulto nesses tempos
harrypotterianos.
Para se ter uma ideia melhor da referida inversão, vamos
apresentar quatro visões até então influentes sobre o que é ser
adulto. A primeira vem da História: na Idade Média, a criança
não tinha um estatuto próprio, sendo socialmente vista como
um adulto em miniatura. Isso era expresso na arte da época,
como mostrado na Figura abaixo. Nesse sentido, exigia-se da
criança comportamentos iguais aos que se exigiam do adulto,
em um fenômeno que poderiamos chamar de “adultização da
criança” . Foi só a partir do século XVII que a criança come­
çou a ser vista com características próprias, com um mundo
à parte, diferente do mundo adulto no qual deveria inserir-se
com o tempo.

La Madonna col
I8 Bambino,
século XIII
(Nossa Senhora
com o Menino
Jesus).
A segunda visão vem da filosofia. Ser adulto - na influen-
le visão do Iluminismo, corrente filosófica iniciada com os
likVsofos René Descartes e completada por Emmanuel Kant
é desenvolver o intelecto, fazendo-o chegar à maturidade
fato tangibilizado pelo desenvolvimento do discernimento,
da autonomia de idéias, da capacidade de tomar suas próprias
decisões e de se responsabilizar por elas. O indivíduo ideali-
/atio pelo Iluminismo era alguém '■‘consciente de seus pensa­
mentos e responsável por suas ações” . Dessa forma, o homem
adulto poderia ser entendido como sinônimo do “homem
i|iie ousa pensar” .
A terceira visão vem de uma tradição sociológica específica.
1’ara o influente sociólogo Norbert Elias, por exemplo, o ho­
mem moderno surge graças ao processo por ele denominado de
eivilizacional. Embora Elias não se interrogue especificamente
sobre o que é ser adulto, ele empreende um brilhante estudo
110 qual mostra que as antigas “classes bárbaras” (pessoas “sem
modos” ) foram pouco a pouco se convertendo em classes civi­
lizadas, hábeis à mesa, no uso de gartó e faca, no domínio de
I (importamentos públicos. Ser adulto, neste caso, é ser alguém
I apaz de dominar uma determinada etiqueta social.
l'i a quarta visão vem da psicanálise. Sigmund Freud foi
um dos primeiros pensadores a mergulhar fundo na vida men-
i.il do adulto, vendo-a como reflexo - ou continuidade, sob
(Hiira perspectiva - da vida infantil, repleta que é de conflitos e
dilemas não resolvidos. Em uma interpretação ampla da visão
lieudiana, poderiamos dizer que o adulto é alguém capaz de
lesponsabilizar-se por seus próprios desejos. Alternativamente,
0 adulto é alguém capaz de superar a onipotência infantil, de
.iiortio com a qual o mundo (e as pessoas nele) estaria aí a
111 ISSO inteiro serviço, pronto a satisfazer todas as nossas ne-
1essulades e a minimizar todas as nossas frustrações. O adulto 19
sei i.i então reflexo da quantidade de frustrações que, em vez de
lev.i Io ao desalento, o confrontaram com suas próprias limita-
(,oes e o fizeram crescer.

i
NEGAÇÃO GERACIONAL
11
Cada uma das quatro visões anteriores sobre o que é ser
adulto vem sendo fortemente subvertida na atualidade, e aqui
novamente a tese de Byvk^ater precisa ser retomada. De fato,
o sintoma social de infantilização do adulto mostra que exis­
te hoje, em grande parte de nossas sociedades “civilizadas”,
uma espécie de negação geracional; os pais, os adultos, enfim,
as figuras de autoridade (portanto, pessoas “crescidas” ) estão
abdicando de seu papel. Mas por que, afinal, essa negação ao
amadurecimento? A seguir traçamos algumas hipóteses, to ­
mando ainda o cuidado, ao final, de aproximar essas questões
do terreno das empresas.
Antes de mais nada, há uma tendência de o amadureci­
mento ser hoje mal-visto. Costuma-se afirmar que a socieda­
de atual enfatiza o desejo pela eterna juventude. Isso ocorre
principalmente pelo fato de nossa identidade estar ancorada
no corpo. Assim, o ápice do sentido de nossa vida coincidiria
com o ápice de nosso corpo. Contra a visão lluminista do
“desenvolvimento da consciência”, hoje o foco está na “cons­
ciência do corpo”, ou no corpo como nova representação da
consciência.
Dessa forma, a maturidade é vista como o início da deca­
dência, por ter como critério o corpo biológico. Nesse mito,
a pessoa madura é vista como entrave à novidade, pois possui
“manias” e tem a tendência de ser resistente às mudanças.
Essa redução ao corpo, que não leva em consideração o am­
plo escopo do que é ser humano (pensar, sentir, agir etc.),
transforma a maturidade em uma fase que se deve evitar ao
máximo. E, para isso, nada melhor do que fazer de tudo para
que a infanda e a imaturidade da adolescência se prolonguem
20 indefinidamente.
Outro exemplo dessa mesma negação geracional são os
pais que temem impor-se aos filhos com medo de represálias
destes; preferem então igualar-se a eles, vestindo as mesmas
roupas, tendo as mesmas opiniões e os mesmos valores, assis-
iiiulo aos mesmos programas, namorando amigos(as) dos fi­
lhos. Podemos, por fim, mencionar a tendência de as pessoas
nao “suportarem” discussões de assuntos considerados “cha-
los”, como política ou mesmo “teoria” - ironicamente cha­
mada por algumas pessoas de “distante da prática” ! Crianças
cm geral não discutem: simplesmente c]uerem que as coisas
aionteçam de acordo com os seus desejos.

O FENOMENO NAS EMPRESAS

Por fim, oferecemos uma reflexão sobre a presença dos


huj habies nus empresas. Por mais surpreendente que isso seja,
a te.se da infantilização vale também para o mundo corpo-
i.iiivo: se o fiindonário não estiver satisfeito, se não estiver
identificado com a empresa, não haverá produtividade. Como
icsposta, os departamentos de RH empreendem muitas ve­
zes utn gigantesco ritual de agrado, tutela e co-optação dos
luucionários, tratando-os, no fundo, como verdadeiros bebês
1 rescidos. Em troca deixam subentendido o pedido de leal-
d.idc e amor.
Adicionalmente, os livros de autoajuda corporativos e
•iqueles que relatam a vida e a obra de “executivos de suces­
so” reforçam a infantilização dos adultos. Quase sempre, em
seu título - ao iniciarem com um “Como...” ou ao possuí-
lein as palavras “vencer”, “respostas”, “segredo” e “sucesso”
, pressupõem um público que deve ser pego pela mão e a
quem se deve mostrar as coisas a serem feitas e o modo como
l.i/ê Ias, exatamente como fazemos com os nossos filhos pe­
quenos.
() estilo e a estrutura desses livros utilizam um arquétipo 21
muiio parecido com os conselhos que um pai repassa aos seus
lilhos. A própria ideia da necessidade de buscar um grande
lidei empresarial, alimentada pela Administração por meio de

i
M cursos, livros e da imprensa especializada, pode ser uma fonte
infantilizadora por considerar que sempre devemos precisar
de um “grande pai” .
Para completar, temos dúvidas se as pessoas vêm à em­
presa inteiramente maduras tal como sugerimos ao iniciar
este texto. Talvez a distância entre o adolescente rebelde e
o executivo “maduro” não seja tão grande quanto se possa
imaginar. Exemplo disso é a obsessão recente pelos chamados
códigos de ética ou de boa conduta.
Apesar de serem instrumentos importantes para a ges­
tão, esses códigos pressupõem que um adulto, membro de
uma organização, não possui capacidade suficiente para saber
discernir o que é certo ou errado fazer. Ora, a fase de desen­
volvimento humano em que aprendemos o que é aceitável ou
não socialmente é na infância, e aprendemos geralmente por
meio de exemplos e punições. Portanto, o código de ética,
apesar das boas intenções da organização, pode ser uma fonte
de infantilização por desconsiderar a autonomia de seu fun­
cionário, dizendo a ele como deve se comportar.

TERRA DO NUNCA

Freud, em um de seus textos sobre a origem da Civilização,


diz que esta começa com a “morte do pai”, querendo ele
com isso dizer que só podemos nos “tornar alguém” (leia-se
“adultos” ) quando ultrapassamos nossos modelos idealizados
e infantilizadores de autoridade e passamos, nós próprios, a
discutir quais princípios seguir. Seguindo ao extremo essa
metáfora freudiana, hoje parece que se quer novamente o re­
torno do pai - claro que não do pai “tradicional” (autoritário,
22! dono da verdade; na empresa, do líder-patrão), mas de subs­
titutos para ele - , por exemplo, nas drogas lícitas e ilícitas, no
consumo, em revitalizações de misticismos religiosos ou na
idealização de líderes empresariais.
(]om tudo isso, fica a sensação de que o sujeito moderno,
.ujucle que é consciente de seus pensamentos e responsável por
suas ações, está com os dias contados. Isso significa que a razão
e a ‘‘capacidade crítica” não são o que de melhor nos defini­
riam lioje. Por sua vez, a inversão que discutimos aqui parece
1 er ido bem longe: se, na Idade Média, o conteúdo da vida
ailulta era estendido à criança, agora é o mundo infantil que
parece se alastrar até o mundo dos adultos, engolindo-o.
Como podemos lidar com isso tudo, de modo que as
oiganizações não venham a se transformar, aos poucos, na
Iciuiária “Terra do Nunca” - ilustrada na conhecida história
dc Peter Pan, o garoto que se recusava a crescer.^ Bem, vamos
l.izcr aqui a nossa parte - não vamos fechar este texto com
possíveis “soluções” para a(o) leitor(a). Afinal, estamos escre­
vendo para adultos, e um adulto pensa e decide por si mesmo,
icrto.!’ Hntão, fica em suas mãos essa missão...

23
C A P IT U L O 2

T E D IO E RH

Liando o assunto é tédio, talvez a primeira imagem


i|iie nos venha à mente seja a dos antigos poetas românticos.
< ,n icaturalmente, eram aqueles sujeitos com ar melancólico,
cnlailados pela triste perda de um grande amor ou então aco-
mciidos pelo desânimo e pela falta de engajamento com a
vida cotidiana. Não raras vezes bucólicos, davam-se à con-
icmidação da natureza e a longas e solitárias meditações sobre
II porque cie estarem no mundo...
Nada parece mais distante disso do que a vida agitada
d,IS 1 ’jandes cidades e das estrcssantes e desafiadoras jornadas
dc trabalho de suas corporações. lím conhecida teoria estes
.imliicntes exigem dos funcionários ágeis habilidades de ne­
gociação, solução de conflitos, espírito de equipe e um sen-
Mi pratico aguçado. Dificilmente, quando fitamos a imagem
iiu ntal que temos de uma empresa, encontramos lugar para
pessoas desoladas, entediadas e desanimadas.
( )ra, talvez essa descrição da vida corporativa não pas­
se, cia também, de uma caricatura. A julgar pela incessante
piouira por palestras motivacionais ou então pela demanda
p.iia que a área de RH sempre tire da cartola algum novo
piograma dc engajamento dos funcionários (sobretudo dos
esialocs mais baixos), talvez as empresas não sejam lugares
i.to estimulantes e o trabalho não seja algo tão prazeroso 25
qii.iiito se possa julgar à primeira vista. Talvez as organizações
t.iiiil>cm estejam sujeitas à influência de algo parecido com o
III.il” i]uc afligia poetas e bucólicos romancistas do passado;

i
o tédio. Neste artigo, mostraremos que as corporações estão
não só sujeitas ao tédio como também, indiretamente, preo­
cupadas com medidas para sua ocultação ou, melhor ainda,
eliminação.

O QUE E OTEDIO

Em primeiro lugar, precisamos entender o que é o té­


dio e, em seguida, por que ele tem algo a nos dizer sobre a
vida corporativa. Para o filósofo norueguês Lars Svendsen,
em recente publicação sobre o tema {Filosofia do téáio^ Zahar,
2006), o tédio é um fenômeno com não mais do que dois
séculos de história. Ele surgiu no período moderno e, a partir
de então, atinge grandes porções populacionais e sem distin­
ção de estirpe social. Para Svendsen, isso ocorreu porque, nas
sociedades modernas, está cada vez mais difícil encontrar um
sentido para a existência.
Mais concretamente, o tédio está ligado à dificuldade de
o indivíduo encontrar motivos para agir. Refere-se à falta de
propósito, à sensação de vazio existencial. Em termos psi-
canalíticos, é a ausência de investimentos em objetos exter­
nos ao sujeito - traduzindo: é como se nada que estivesse no
mundo pudesse chamar a atenção do indivíduo, despertando
seu desejo. Eazendo divisa com a melancolia e a depressão, o
tédio é um sentimento difuso, mas não necessariamente pa­
tológico. Ainda de acordo com Svendsen, surge normalmente
quando não podemos fazer o que queremos ou temos de fazer
o que não queremos. E^m ambos os casos, o que está em jogo
no tédio é a irreconciliação entre prazer e obrigação.
Se, de um lado, o prazer é um estado de fruição e nor­
26 malmente ocorre quando há uma coincidência entre desejo
e realização (querer algo e consegui-lo), as obrigações, por
outro, têm a ver com exigências alheias, não necessariamen­
te condizentes com o que o indivíduo deseja ver realizado.
l(cs|H-clivamente, o princípio de prazer e o princípio de reali­
dade propostos por Freud. Consequentemente, o tédio ocor-
le iiiiando o indivíduo se apercebe reagindo às obrigações
<\icruas, a estímulos previamente codificados e impessoais,
em vez de determinar o curso das coisas de acordo com sua
piopria vontade, ou então quando é demasiado frustrado
pelo princípio de realidade. Daí que o tédio, na descrição de
Ss endsen, expressa a ideia de que dada situação ou a existên-
I i.i como um todo são profundamente insatisfatórias.
Além das brevemente citadas, há muitas outras causas
p.iia o tédio. Muito dele deriva de atividades feitas repeti-
d.imente. Outro tanto vem do fato de conhecermos muito
mii.i mesma coisa, sem notar nela qualquer variação ou no-
Mtlade. Há também o tédio associado à passagem do tempo.
Nesie caso, o tempo pode ser percebido como uma dimensão
.mtónoma, como quando desejamos muito uma coisa e ela
sim|ilesmente não acontece, prolongando, às vezes indefini-
il.imentc, a espera. O tédio atesta que a passagem do tempo
1 um simples desenrolar de fatos sobre os quais sentimos não
|Missuir qualquer controle (e às vezes não temos controle al­
gum mesmo). Na literatura, a genial obra de Samuel Beckett,
I iimmido Godot, ilustra muito bem o tédio de quem está
pii M) a esse tipo de espera.

TEDIO.TRABALHO E EMPRESA

Neste ponto o leitor deve estar se interrogando sobre


qu.il .1 relação deste tema, c]ue a princípio deveria interessar
ipen.is a psicólogos e psiquiatras, com o que ocorre nas em-
pies.is. Na verdade, temos boas razões para suspeitar que há
I Simla relação entre tédio e trabalho e, consec]uentemente, 27
I mil- aquele e as organizações.
F. comum pensarmos que o tédio é uma doença dos iner-
ii s i- desocupados. De fato, essa intuição é antiga, remontan-
do ao período de florescimento do cristianismo. Antes deste,
porem, trabalho era domínio de escravos: trabalhava quem
precisava e não quem c^ueria. Na Grécia, por exemplo, a liber­
dade e o statusác um homem eram medidos pela quantidade
de ócio de que dispunha. Ter ócio era ter liberdade para dedi­
car-se a atividades enobrecedoras e espiritualmente elevadas,
conformes ao próprio espírito e inclinações. Antonio Tursi,
em matéria publicada no suplemento cultural do jornal El
Clarín de 27 de janeiro de 2007, lembra muito bem que, na
tradição greco-romana, homens de (neg)ócios eram, literal­
mente, “negadores do ócio” .
Mas já entre os gregos e romanos havia a percepção de
que a simples ociosidade não significava ausência de tédio.
Sêneca, por exemplo, dizia que o ócio inativo representava a
morte do homem em vida e que era preciso usar bem o tem­
po livre: seja para a contemplação (especulação intelectual),
seja para a vida ativa (exercício político na cidade, por exem­
plo). Essa tradição é levada ao extremo na visão cristã de que
o ócio é a fonte efe todos os males e de c]ue, portanto, precisa
ser contido.
A solução contra o tédio (no período em questão, a
equivalente do tédio moderno era chamada de “acédia” )
encontrada por pensadores católicos como Santo Agostinhí)
e São Bento de Núrsia foi o trabalho: enquanto trabalha,
o cristão ocupa-se com algo que o afasta dos pensamentos
ruins. E por esse caminho o sentido e o valor do trabalho fo­
ram invertidos na passagem da tradição greco-romana para
a cristã, a partir de quando ele vai se tornando progressiva­
mente detérminado pelo (neg)ócio, ou seja, pela vida ativa,
produtiva.
Mas não nos iludamos: é difícil imaginar que o trabalho
28 tenha sido a solução para todos os males, principalmente o té­
dio (sequer o próprio ócio!). Sabemos que, com o nascimento
do capitalismo, o trabalho se torna uma atividade enfadonha,
árciua e penosamente repetitiva para a maioria esmagadora

i
lios trabalhadores. Não c à toa que Marx denunciou e com­
bateu a alienação provocada pelo trabalho. Ora, a alienação é
lustamente consequência de o indivíduo não encontrar qual­
quer .sentido no trabalho que realiza, tamanha sua aspereza e
I ar.iter entediante.
Assim, o problema que logo ficou claro para as empresas
e seus “gestores” lá no início do capitalismo industrial era
lomo tázer as pessoas se engajarem em seu trabalho a des­
peito de este lhes causar profiando tédio. Seria difícil, senão
impossível, extrair o quantum de produtividade necessário ao
desenvolvimento capitalista sem o compromisso intenso dos
liiiu ionários (com os horários, a cadência das máquinas, as
luiuliçòes ambientais insalubres, as exigências bizarras e as
eueiitricidades dos “gestores” etc.). Nesse ponto começou a
se lonsolidar uma engenhosa estratégia antitédio no mundo
i,i|Htalista ocidental: a ideia de que o trabalho é, dentre as
iiiviilades humanas, a mais enobrecedora e importante e de
que as empresas são ambientes altamente ricos em cultura e
sigiiilicado.
l’oi tanto, a relação do tédio com as organizações é mais
iiiiif',.i e profunda do que se possa prever na agenda de um
|iingi ama motivacional dos atuais departamentos de recursos
liiiiiiaiios. Tédio e trabalho, nessa linha, são dimensões anta-
mu. as: quem está entediado não vê motivos para fazer o que
llic c pedido (exceto sob coação simbólica ou física); o ente-
ili.iilo é alguém, por assim dizer, “suspenso” dos compro­
missos com a vida cotidiana, aí incluso o trabalho. Este, por
•.iia \c/,, ilepende de engajamento ativo, de uma ação sobre a
II aliilade. Definitivamente, a não ser na literatura (no espírito
1 .11 ii .iiiiral com o qual começamos o artigo), pessoas entedia-
il.is 11.10 (azem as coisas acontecerem nas empresas. Por seu
iiiiiio, o que íázem as empresas para combater o tédio, pres- 29
Mipi Ilido, com boas as razões, que ele não tenha desaparecido
ilt si ii i.iminho?
ANTÍDOTOS ORGANIZACIONAIS AO TÉDIO

As organizações, por meio de seus departamentos de


Recursos Humanos, principalmente, e m esm o sem o saber
diretamente, desenvolvem e aplicam alguns antídotos para
evitar a eclosão de uma epidemia de tédio. Dentre tantos,
citarei aqui cinco.
O primeiro antídoto é a cultura organizacional. O que é
uma cultura senão um corpo de crenças disseminadas em um
grupo e nele sustentado como a maneira certa de as coisas se­
rem interpretadas? Portanto, cultura, seja ela organizacional
ou não, refere-se a significado. As pessoas em geral lidam mal
com eventos sem explicação. Uma empresa com cultura forte
é capaz de ligar eventos dispersos e muitas vezes caóticos dan­
do-lhes uma explicação minimamente plausível.
E, pois, oferecendo sentido que a cultura potencialmente
se apresenta como arma de gestão contra o tédio. Se o tédio
no trabalho refere-se à percepção de um a sequência infinita
mente enfadonha de atividades e eventos repetitivos e secos
em termos de significado, a cultura organizacional, ao con­
trário, surge como um reservatório de motivos para que as
pessoas façam o que fazem, atribuindo m otivos a suas ações e
para se verem por meio de uma lente específica que, preten­
samente, as faz sentir-se importantes, valiosas, pertencentes a
um lugar “bacana” e assim por diante.
Um segundo antídoto organizacional ao tédio é o terror.
Por mais que isso possa parecer contraintuitivo em época de
responsabilidade social e gestão de clima organizacional, o
terror, que, diga-se de passagem, não precisa assumir a forma
de atos extremos, é hoje parte implícita de equalquer contrato
de trabalho: refere-se a um conjunto muitas vezes velado de
® ameaças e perigos que são ditos rondar a relação do indivíduo
com a empresa e desta com o mercado.
A forma mais óbvia de terror, nesse sentido, é a amea­
ça da perda de emprego, da desfiliação organizacional, do
n h.lixamento de cargos, da mudança dc humor c atitudes
lios concorrentes e as ameaças envolvidas nas “profundas mu-
il.mças que sempre estão por vir” . Como entediar-se nesse
iipo dc ambiente se ele exige prontidão c alerta constantes.^
l’.ii'.uloxalmente, portanto, o clima da empresa precisa oscilar
rniic a paz monótona e a mesmice dc um dia de trabalho
,t|)()s o outro e a possibilidade de cataclismas, cuja única amca-
1.. 1, real ou imaginária, já parece ser o bastante para afugentar
0 .iborrecimento da vida organizacional cotidiana.
O terceiro antídoto ao tédio dentro das organizações
1 o i]iie podemos chamar de culto às sensações. Não creio
qiie e.sse antídoto seja exclusividade das organizações: não há
inmo negar que vivemos em uma época em que as pessoas
(iielercm migrar de uma sensação a outra, sempre inflamadas
|MIo desejo de novidade, potência c ruptura, cio que nutrir as
nu Sinas experiências, esperando nelas encontrar, apcàs a per­
fil mi ação reflexiva, algum sentido próprio.
Na empresa, podemos intuir o referido culto às sensações
II,IS ji.ilavras de ordem que, a despeito das variações cultu-
I iis, sempre encontramos: “Vamos desbancar o adversário”;
Nosso trabalho aqui é um desafio a cada dia”; “Temos de
iiui.ii nm leão a cada reunião com o cliente”; “Pesscial, tjuero
l•lll.l de vocês, vamos lá, juntos a gente vai conseguir ba-
ii I .IS metas” . Não preciso ir muitet longe com os exemplos,
t 1 1 i.imente o leitor já deve ter se deparado com algum pen-
-iiiu nto dc trupe como este, sempre a evocar o espírito de
iM iiiiii.i, competição e de “adrenalina” .
\'e|.mios o quarto antídoto ao tédio nas organizações. O
II ili.illiii não é, necessariamente, a causa do tédio, mas tam-
1.. III n.ii) é uma solução a ele. Há trabalhos tão entediantes e
..I u. inics quanto um tempo livre absurdamente entediante.
M is nm.i das estratégias mais frequentemente utilizadas nas 31
•I |i ini/.içocs é a insistência em que as pessoas encontrem sen-
M.l.i nii irabalho c]ue realizam. No jargão utilizado, a carreira
■III (i.i.iiulc parte responsável pelo grau de satisfação do in-

J
divíduo consigo mesmo: carreiras desafiadoras, que o levem
a seu limite c o transformem, que ofereçam perspectivas c
satisfação de necessidades, são a grande meta da ideologia
corrente de recursos humanos an ti tédio.
Por fim, o quinto antídoto antitédio são os salários e os
benefícios. Seria o tédio inversamente proporcional ao salá
rio.^ Um executivo de alto escalão, com farto pacote de remu
neração, seria potencialmente menos “entediável” do que um
operador de empilhadeira? A riqueza de conteúdo do cargo
certamente deve influenciar na sensação de tédio, pois variam
a quantidade e a qualidade do tempo pessoal alocado no tra
balho.
Q uer dizer, um executivo de alto escalão, pressiona
do por forças contraditórias de vários stakeholders^ deve ter
muito menos tempo para pensar sobre suas escolhas e de
cisões do que alguém preso à rotina mais plana. Mas isso
é só uma especulação. Fato é que as organizações usam a
simbologia e o Jtoízíí associado a cargo e salário para dizer
ao indivíduo o quanto ele “agrega” e, portanto, insinuar
o quanto sua estada ali é rica e importante (leia-se menos
entediável...).

TÉDIO: MUDANÇA OU PASSIVIDADE?

No final deste artigo gostaria de deixar um alerta ao lei


tor. O tédio pode ser, ao mesmo tempo, uma oportunidade
para o indivíduo rever seu contrato psicológico com a em
presa, como também uma jaula de aço onde ele se entrega ao
desânimo e ao desalento mais paralisante ou à submissão mais
aviltante. Na primeira possibilidade, representa um humoi
32 subversivo. Fíeidegger disse certa vez que é preciso se deixar
ficar no tédio, em vez de querer dele logo escapar. O motivo?
O tédio pode nos mostrar muitas coisas, sobretudo que algo
não vai bem e precisa ser revisto.
’▼T'

Mas, na segunda possibilidade, a de um tédio paralisante,


II indivíduo acaba negando o princípio de realidade. De fato,
pessoas entediadas dessa forma têm maior dificuldade de res­
ponder às demandas de produtividade c de aderir à empresa,
niule acabam sendo as mais visadas pelas políticas antitédio,
embora algumas vezes estas não tenham o efeito forte o stifi-
I lenie para o resgate.
Neste último caso, duas recomendações: aos gestores de
Itl I, é preciso sensibilidade e menos onipotência, afinal, as
políticas antitédio de suas organizações não cieixam de ser
linsoes - necessárias, sim, mas jamais verdades absolutas. Às
demais pessoas da organização, a recomendação é de certa
loima a mesma, com um adicional: é preciso conter a hipo-
I Msia - afinal, que atire a primeira pedra quem nunca passou
pel.i experiência do tédio no trabalho.

33
C A P IT U L O 3

F E L IC ID A D E E T R A B A L H O

E m 1996, o jornal Folha de São Paulo realizou uma pes-


aijo foco era descobrir se, e quanto, o brasileiro julga-
\,i se Icliz. Cx)mo resultado, encontrou que 65% dos brasi-
li IIus consideravam-se felizes com suas próprias vidas e 43%
ili les adiavam que o Brasil era o país mais feliz do mundo (!).
I >e/ anos depois, a Folha repetiu a pesquisa e, no ano passado
i.Mino), encontrou que o índice de felicidade do brasileiro
lia\ la subido para 76%, ou seja, 11 pontos percentuais acima
iln qiie o registrado no primeiro estudo.
Ia cm relação especificamente à satisfação com o traba-
IIIII, (1 Instituto DataFolha realizou uma pesquisa no início
ili ,M)02 e encontrou que 61% dos brasileiros se sentiam fe­
lizes oii muito felizes em seu trabalho. Entre algumas das
|iiiiKipais razões para esse índice, destacava-se a percepção
ili .iniorrealização por meio do trabalho. Salários e remune-
i.ii,iics também figuravam como importantes, mas não menos
,|ii qiic bom ambiente de trabalho, colaboração e relaciona-
itii nio saudável com a chefia.
( ionvidados a comentar esses números, alguns especia-
lisi.is divergiam, à época, em termos de se essa felicidade em
ili.i do brasileiro não poderia ser sintoma de contentamento
I, iiiH (1 (.semelhante ao do rebanho indo ao abate) ou se, pelo 35
, oiiii.irio, ela confirmaria uma disseminada intuição popular
,ii|iie ser nossa gente esperançosa e feliz - apesar das dificul-
,1 ides 1lavia também os que aventavam que felicidade é um
tema subjetivo, cuja avaliação é feita pelo próprio indivíduo
e, portanto, algo de difícil mensuração. Com isso, aqueles
números sobre a felicidade cio brasileiro poderiam ser qucs
tionados em termos primariamente metodológicos.
Subjetivas ou não, o fato é que pesquisas semelhantes
estão se multiplicando ao redor do mundo c gerando um.i
gama impressionante de informações sobre felicidade. E no
comando de tais pesquisas não encontramos apenas psicólo
gos, filósofos ou outros profissionais tradicionalmcnte envol

'il‘I vidos com “questões de espírito”, como parecia ser o caso


da felicidade: encontramos também economistas, psiquia
tras, historiadores, neurologistas. Aliás, talvez isso seja sin.il
dos tempos - talvez a felicidade não seja mais, como já foi .i
dantes, uma genuína “questão de espírito”, mas sim uma as
piraçào bastante mundana, entrelaçada a classe social, ní\el
de renda, escolaridade, clima do país, genes, drogas (lícitas c
também ilícitas) e emprego.
Como recentemente comentou um respeitável estúdio
so tio tema, só o fato de haver intensa profusão cie estucios
sobre felicidade já é um indício de ejue nem tudo vai bem.
Em geral, qtiantio nos interessamos muito por um assunto
é porque ele nos afeta em um nível profimdo, seja por nos
angustiar, intrigar ou faltar, como também por ser um tem.i
transformado em ideal cultural, um desejo obrigatório que
rege a organização social e, portanto, impele a todos. Tanto
num caso como no outro, e colocando de forma mais clara, (>
excesso de holofote é sinal de que o jogo é importante.

|: !ji l ! !: QUESTÃO ANTIGA

36 A bem da verdade, o tema da felicidade é muito mais an


tigo do c]ue as pest]uisas recentes sobre ele. Na Grécia antiga,
para filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, a felicidailc
era uma questão de levar uma vida boa, virtuosa, devotada .1
Miii li i iii.iliciadc c aos bens mais elevados da existência, como
,i (ilc)so(ia (não, por exemplo, ao trabalho!).
A jn aiide guinada dada por esses homens, especialmente
|Mii Socraies, foi a defesa de que a felicidade era algo ao al-
, ini e ilo ser humano, o desejo mais sublime e superior a que
II liiimcm poderia aspirar, algo muito além da mera satisfação
l|ll^ sfiitidos corporais. Apesar de essa afirmação ser facilmen-
II I nu iulida por qualquer um que viva no século XXI, no
mundo .mligo ela se voltou contra uma verdade bastante ar-
I 11 (1 ,id.i; a tle que a felicidade era o que acontecia ao homem,
I ii.ii I .ili’,iima coisa que ele pudesse controlar. Na prática, a fi-
IiihiiIm seria o instrumento (ou a técnica) pelo qual o homem
ili ,1111,.iria a iélicidade e conduziria sua vida sob o punho da
I I / .\ o

Vem ainda da Grécia e Roma antigas outras visões in-


llui iiics ila felicidade que sobreviveram aos séculos. Uma
ili l.is propõe que a felicidade está centrada no prazer ou na
mn iuia ile dor física. Para os epicuristas, que partilhavam
.li •••.,! perspectiva, a felicidade provinha da prudência e do
, uliivo do pensamento e do autoconhecimento como forma
li dispersar a ansiedade e a angústia mental. Basicamente,
I nu iisagem do epicurismo consistia na insistência para que
.11 liomens di.stinguissem os desejos necessários datjueles que
II iiI o ei.im; com isso, acreditava Epicuro, eles evitariam a dor
>li Mieiessaria nascida do descontrole e do excesso ou então
.li» iliisoes (Hl “’superstições” .
•\s mesmas ideias podem ser encontradas entre os filóso-
(ii’i i sioiios, que acabaram por desenvolver uma filosofia de
>' iml.mieniação do desejo. Para os estoicos gregos e romanos,
ti niii eles Sêneca, a felicidade estaria ligada à redução radi-
il ilii numero de nos.sas aspirações ou desejos. O estoicismo
■»ini.iv.i seus .seguidores a cortar o mal pela raiz: a fonte da 37
"ili hl iil.ide residiria em nossa tendência de querer demais,
IIII m.Ki em nossa dependência de tudo que não está a nosso
•ii mi 1 ( omo re.spo.sta, o estoicismo defendia a necessidade
de ajuste entre desejos, recursos e realização. Quer dizer, oii
desejamos muito e aumentamos os meios para realizar esses
desejos, ou então desejamos menos, ajustando-nos aos nossos
recursos.
Além de antigas, essas primeiras e célebres visões da feli
cidade deixam como mensagem principal que alcançá-la rc
quer um trabalho duro e austero. Adicionalmente, os antigos
avaliavam a felicidade de uma vida por inteiro, e não apenas
momentos felizes ou episódicos. Consequência de uma vida
virtuosa, acompanhada ou não pelo prazer, a felicidade ocor
ria àqueles que conseguissem ter um espírito equilibrado i.
sereno.

O SANTO GRAAL MODERNO

Os gregos nos legaram uma herança que impregnou


profimdamente nossos hábitos pessoais e culturais: não nos
conformamos com nossa sorte, não aceitamos as coisas como
elas são, mas buscamos transformá-las. A esta herança grega
veio somar-se a concepção cristã de liberdade. Na verdade,
o cristianismo é o principal responsável pela introdução da
liberdade individual no universo da ética e do agir humanos
no Ocidente.
Para c]ue se possa pecar ou ser santo, é necessário qiic
se escolha entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo. Para
escolher é necessário ser livre. Aqui encontramos a origem do
“voluntarismo” em nossa cultura: acredita-se que querer c
poder e se advoga nossa capacidade de traçar nossos próprios
destinos. Nada mais forte, no mito moderno do sucesso, do
que essa ideia de autodeterminação, de permanente insatis
38 fação - com o quanto ganhamos, com o quanto temos, com
nossos empregos, parceiros e tudo o mais.
A modernidade difundiu a crença no direito de todo ser
humano alcançar a felicidade. Talvez o marco histórico des
M novo humor tenha sido a Declaração da Independência
iHMic americana. Nela, Thomas Jefferson enuncia que todos
MNhomens têm o direito inalienável de buscar sua felicidade.
I Nuii.i cm 1776, essa Declaração é, sem dúvida, uma ode
I ulcologia do individualismo contemporâneo, para a qual
I busca da própria felicidade é um fim que às vezes justifica
loilus os meios. Doravante, a satisfação e o bem-estar mate-
M.ili/ar ,sc-iam nas várias “sociedades da afluência” de que foi
II '.icmunha a segunda metade do século XX.
() <.]ue seria a felicidade no âmbito da ideologia do suces­
s o moilcrna.^ Arriscamos dizer que ela é o inverso do que era

IMS sociedades antigas: felicidade c um excesso ou a obstinada


liii.i para afastar qualquer sensação de falta ou vazio. Nada
m.iis longínquo no tempo do que a ideia de felicidade como
moderação, equilíbrio entre desejo, recursos c realização.
( lontudo, como a felicidade é, por sua própria natureza,
ifli.o incerto e indefinido, ela não pode ser plenamente satis-
li IIa I lá várias explicações para isso, mas todas convergem
no scniido de uma mesma conclusão: não sendo ou não po­
dei nIo ser satisfeita, a busca pela felicidade moderna alimenta
lima àiisia sem fim por objetos e sensações. Essa ânsia, por sua
'I / , sustenta nosso modo de produzir e acumular, de sorte
■|iie o índice de felicidade é medido pelo quanto podemos
"'.ii uiar na vitrine do consumo. Privados de forma cada vez
iiMis crônica de vida interior, os indivíduos passam a depen­
dí I rxcessivamente de objetos externos a eles, bem como do
mibiciitc social em que vivem, marcado pela luta constante
|"ii siatus, poder e prestígio.
( onsoante a essa interpretação, Darrin M. McMahon,
hiMiii iailor que escreveu um brilhante ensaio sobre a história
d.i li licidade desde a Antiguidade até nossos dias, afirma que
I iiii.i moderna da felicidade é traçada no horizonte de uma 39
'"I u d.ulc hedonista. Para ele, a mídia e o marketing criaram
"iiM ideia de felicidade que vai ser difícil de controlar. Essa
•dn.i r composta de crenças que realçam o imperativo de ser
feliz e de obter satisfação em todas as esferas da existência
Em matéria de felicidade, as exigências são severas - exemplo
é a sensação, banal, de que “a vida está passando e eu não
estou aproveitando” .
McMalion talvez seja mais freudiano do que ele próprio
admita: para ele, o graal moderno em que se consubstanciou
a busca da felicidade pode gerar mais frustração do que rc
compensas. Gilles Lipovetsky captou sensivelmente essa pos
sibilidade dizendo c]ue o mais novo produto de nossa época c
a “sociedade da decepção” . Prova disso é o crescente número
de deprimidos nas sociedades abonadas cfo primeiro mundo
- bem como aqui no “país da felicidade” . O Brasil é um dos
países em que mais se consomem antidepressivos no mundo.
Outros pesquisadores do tema, como Richard Layard,
confirmam essa constatação de McMahon. Layard, em livro
recente, afirma que maior renda per capita não aumenta, nc
cessariamente, o índice de felicidade. As vezes é o contrário
o que se observa. Layard lança mão de dados que mostram
que ao redor de 15% dos norte-americanos, que desfrutam dc
invejável renda, já revelaram alguma vez sinais de depressão
maior.

FELICIDADE ETRABALHO
I I

E quanto ao trabalho, poderíamos dizer que ele traz fc


licidade.^ Neste ponto do artigo gostaríamos de fazer algu
mas associações entre felicidade, trabalho e organizações no
Brasil.
A primeira questão que temos de responder é qual a rc
lação entre felicidade e trabalho. Algumas pessoas acreditam
40 que ambas não têm qualquer relação, sendo antes contradi
tórias: feliz é quem não precisa trabalhar. Contudo, há aqui
claramente um paradoxo, talvez típico da cultura brasileira,
ao mesmo tempo em que as pessoas desejam o trabalho quan
lin 11.10 O tcm, clas diminuem seu valor quando empregadas.
fl
A .iiif’.iistia de ser desempregado só se iguala à angústia de ter
imi p.il lão.
I provável que esse paradoxo se explique no contexto da
II i«ln,.u) ocidental sobre a felicidade anteriormente apresen-
I idi I dc um lado, o ideal da felicidade como vida-boa - uma
ud.i Simples, tranquila e estável, com poucos desejos, mas
.li sc|os certos; de outro, o ideal moderno do sucesso - uma
' 1(1.1 .igiiada, acossada pelo fantasma do fracasso, pelo medo
■li 11.10 1 er status ou de ficar “empacado” . Ambos esses ideais
I si.io costurados no sentido do trabalho no Brasil. A conse-
i|uciu ia disto é a relação dc amor e ódio típica do brasileiro
I I im relação ao trabalho: o desejo dc que logo chegue o final
il( Minana e o tédio quando as férias se prolongam.
1.ilvez isso mostre que o mais importante, para a felicida-
di no trabalho, seja a atividade em si, e não o modo como ela
.1 institucionaliza. Fazendo eco ao que Karl Marx havia dito
Im mais de um século, o trabalho (não o emprego) é meio pri-
'ilcgiado para a autoexpressão do indivíduo. Naturalmente,
I ss.i e uma visão inteiramente contaminada pela modernida-
il( Nela, o “ser” se revela na ação, e não na contemplação.
I'i ssoas que não têm uma atividade, que não canalizam suas
( ncigias para sua finalização, podem simplesmente se desco-
nci t.ir do convívio social, seja pela violência ou mesmo pela
m.iis pura passividade e apatia. Nesse sentido, o trabalho é
mn.i importante forma de pedagogia do caráter.
(lontudo, sabemos que o trabalho pode ser igualmentc
mn.i das mais funestas causas de sofrimento, mental e físico.
ll.iMcamente, isso ocorre ejuando a organização do trabalho
iMi.i institucionalização) impõe limites àquela autoexpressão
iln indivíduo. Aqui temos um outro paradoxo, pois quanto
m.iis, na sociedade em geral, se difunde a obrigação generali- 41
,'.1(1.1 da busca pela felicidade, mais as pessoas se tornarão reti-
( (mes em embarcar em um trabalho desprovido de conteúdo.
1)csse modo, a contrapartida da apologia da felicidade é uma
elevação no patamar de exigências quanto ao grau de seiuidd
e prazer que um trabalho deve ter para ser satisfatório, ( .'oni
isso, as expectativas com relação ao RH das empresas estão m
tornando cada vez maiores.

FELICIDADE E ORGANIZAÇÕES

E o que dizer sobre felicidade nas organizações.^ Em pi i


meiro lugar, é importante lembrar que, nas principais correu
tes de gestão de pessoas da atualidade, não encontramos, e\
plicitamentc, a palavra felicidade, mas sim uma tradução ob
jetiva dela: satisfação ou motivação. As teorias de motivação,
originadas por volta dos anos trinta, enfatizam os aspectos
conscientes da vontade humana causadora do comportamen
to. Por cjue as pessoas agem, por que fazem o que fazem? A
resposta dos primeiros teóricos de motivação era de que elas
agiam tendo em vista o objetivo de satisfazer algumas neces­
sidades ou evitar sanções provenientes do ambiente.
Essas teorias de motivação foram sendo pouco a pouco
alimentadas e transformadas pela fonte mais profunda so
bre felicidade. Assim, se no passado uma necessidade “de
massa” poderia ser a conquista da casa própria por meio
do salário, bem como a troca da criativiciade e liberdade
pela segurança do emprego, hoje essa necessidade pode não
fazer mais sentido a todos, assumindo nuanças mais sutis.
Do ponto de vista da gestão de pessoas, isso impõe desafios
inéditos, como o de distinguir diferentes estratégias de mo
tivação. Até este ponto talvez o leitor não encontre nenhu
ma novidade.
Na verdade, em nosso modo de ver o aspecto mais im­
42 portante da interface felicidade-organização ocorre em nível
mais proftmdo. E no nível do desejo, e não no da satisfação,
que o tema da felicidade emerge com todas suas cores. Nem
mesmo os defensores das teorias motivacionais à americana
.iimiiciii o erro de confundir satisfação com felicidade. A
)<l tuli II ina das teorias de motivação, em geral, é a estabilidade
.ipniiiva das necessidades. Ou seja, as pessoas, em diversos
MiiMiu iiios de suas vidas, sabem ou conhecem aquilo de que
Mt1 . ■.siiam. Ao contrário, o desejo é o campo do indefinido;
....... . iabilidade em estado puro. O c]ue nos faz felizes hoje
ser radicalmente diferente amanhã; daí a dificuldade em
-I ili ançar, em definitivo, o graal da felicidade.

MENOS PODE SER MAIS

( iomo conclusão, arriscamos aqui um palpite: as organiza-


. IMS iiao são lugares para se encontrar a felicidade. Enquanto
Hisiiiiiições, são conservadoras: não podem oferecer mais do
i|iM um contrato de troca. Elevar as expectativas quanto à sua
I i|i.u idade de nos conceder mais do que isso é depender de
iiiii.i crença ou fé semelhante à que os antigos gregos temiam
|in( saberem que não poderíam deixar sua vida em mãos tão
liii iiiitas e passionais como a dos deuses.
Talvez Ereud estivesse certo ao dizer, em um de seus en-
.111 is mais contundentes (“Mal-estar na Civilização” ), que
iiao há uma regra infalível que se possa aplicar a todos” [para
.1 alcançar a felicidade]. “Cada homem deve encontrar por
a mesmo de que modo específico pode ser salvo.” Ainda de
u I l i d o com Ereud, o maior cuidado que devemos tomar é o
ilc iiao apostar todas as fichas num único lance.
A conclusão mais ousada desse ensaio de Ereud é de
i|iic não há limites para os desejos e aspirações humanos. O
"|ii incípio do prazer” , regido pela lógica do “quero, logo
lenho; quero, logo sou” , faz da vida uma tragédia - pois,
queiramos ou não, o mundo não está aqui para atender a 43
loilos nossos desejos; no fim, o acaso (ou a deusa Fortuna,
p.iia os antigos romanos) é muito mais forte. O teatro gre-
g(i foi exemplar quanto a isso: a tragicidade ocorre porque.
contra todas as forças em contrário, continuamos, e dc\c
mos mesmo continuar, aferrados à nossa busca pela reali/.i
ção de nossos desejos.
Enquanto a felicidade depender de acumulação de ren
da, patrimônio, sucesso, status e poder, continuaremos a sei
infelizes. E p(ir quê.^ Porque, diria Schopenhauer refletindo
os antigos, não temos controle sobre as coisas externas a nos
Isso, não há dúvida, pode parecer estranho e contraintuitix <>
para a maioria dos leitores deste texto. Mas não há acumula
ção suficiente que possa saciar nossas aspirações; proprieda
de e desejo nunca se ajustam, exceto em equilíbrio instável
Como disse em certa monta Max Weber, o homem só vai
parar tjuando consumir o último combustível fóssil deste pia
neta. Talvez o remédio seja aceitar a sobriedade e o conu-
dimento freudianos, que nos trazem de volta um pouco ilo
estoicismo e do epicurismo antigos.

44
C A P IT U L O 4

A C U L T U R A DA P ER FO R M A N C E

H mais de cem anos, um dos filósofos mais influentes


.Im nliimo século advertia seus contemporâneos sobre a che-
!• 1 . 1,1 de iiin indivíduo totalmentc liberto dos valores morais.
i/selu.' acreditava que este indivíduo seria capaz de res-
|...iis,ibili/ar-se intcgralmente por sua própria vida, desvenci-
Ih Ilido se de todo tipo de obrigação para com a tradição, os
, ....iiimes c a religião.
( ) tcinpo passou e a profecia nietzschiana parece ter se
t, ili/.ido, Lima rápida análise de alguns de nossos mais re-
.. iiies hábitos culturais é suficiente para demonstrar que o
iii.liv uliKi parece ser hoje o senhor soberano de seu desti-
M,. lómemos, por exemplo, o caso da carreira profissional;
hii|i', e o indivíduo que a escolhe, e não seus pais, amigos,
. iii les ou professores. Tampouco parece concebível para o
(Milivuluo permanecer em uma mesma empresa a vida toda,
, ,iii egaiulo a esta o curso de sua carreira; a permanência
, m um emprego depende de decisões que maximizem seus
iesses c desejos.
() exemplo anterior certamente não constitui caso isolado.
I I, (cvela o surgimento de um novo credo, segundo o qual os
iiiiliviiliios (.levem tornar-se “empreendedores de suas próprias
iid.is” - h'-'’ie artigo irá, em um primeiro momento, apresentar 45
pi inci[x\is fundamentos desse novo credo ligado à cultura de
i„ |ii k í o s ; e, em um segundo momento, discutir suas principais
, iiiiscqiiêiK ias, tanto negativas quanto positivas.
MESTRES DO DESTINO

Um dos fundamentos do novo credo da cultura de negó


dos c c]uc o indivíduo deve assumir a responsabilidade inte
gral por sua própria vida. Isso tem como pressuposto a perda
da influencia da tradição e dos valores a ela ligados. Falar em
tradição equivale a falar em cultura, que pode ser definida
como um conjunto de regras e valores que oferecem aos in
divíduos referenciais de orientação considerados seguros. O
que esse novo credo apregoa é que os indivíduos não devem
contar mais com esse suporte cultural. O indivíduo será bem
-sucedido à medida que conseguir construir uma identidade
pessoal que não dependa de nenhuma outra coisa que não
seja sua própria ação pessoal.
Um segundo fLmdamento desse novo credo é o fato de
que a identidade pessoal não é mais uma coisa que alguém
adquire, mas sim constrói. Essa premissa é diferente da que
existia em uma época na qual, dependendo da família em que
o indivíduo nascesse, sua vida estaria decidida. Ora, se o in
divíduo deve construir sua identidade sem, para isso, contar
com os referenciais dados pela tradição cultural a que ele per
tence, como ele irá se orientar? De acordo com o sociólogo
francês Alain Ehrenberg, o indivíduo conta hoje com duas
fontes de orientação e inspiração que substituem o papel tra
dicional da cultura: a empresa e o esporte. O resultado dessa
combinação é o surgimento do culto à performance e de uma
nova cultura a ela associada.

ALTAR PROFANO

46 Para Ehrenberg, a forma como as sociedades ocidentais


veem a empresa mudou nas últimas três décadas. A empre­
sa deixou de ser vista apenas como um lugar de exploração,
símbolo extremo do capitalismo de concentração de renda.

J
IMi a SC tornar um modelo a ser imitado. O mesmo aconteceu
I om os antigos chefes, que se transformaram em líderes e em
inotlelos de realização para todos. De fato, os executivos são
hoje vistos como indivíduos c]uc incorporam características
v.iliosas, tais como espírito empreendedor, iniciativa, ousadia,
fliciència e autonomia.
lissa transformação ocorreu em paralelo à transformação
iK) mundo dos esportes. Ao mesmo tempo em que os esportes
s.U) hoje conduzidos como negócios, as empresas se baseiam
cm modelos similares aos c]ue regem a competição esportiva.
( om isso, diversos princípios comuns na linguagem das orga-
m/ações vêm dos esportes, materializados em expressões tais
loiuo “superar limites” e “vencer os adversários” .
No Brasil, temos vários exemplos de esportistas empresá-
iios, que são respeitados e vistos como modelos de conduta.
I sses indivíduos são comumente apresentados como casos de
sm esso pessoal, pessoas que venceram com esforço, dedica-
i,.io e disciplina. Tais modelos induzem as pessoas a acreditar
que o importante é assumir riscos, enfrentar desafios e vencer
iihstácLilos por conta própria. Acredita-se que, ao agir assim,
II sucesso virá naturalmente.

OS PERIGOS DA EXCELÊNCIA

Tais valores, e os comportamentos a eles associados, ge-


lam iliversos impactos. A primeira consequência do culto à
|ii I (ormance é o fomento do c]ue o sociólogo norte-ameri-
I ,mo frank Furedi chamou recentemente de cultura da te-
i.ipia. Na medida em que o indivíduo tem de reinventar-se
I I ,ula momento, seja na sua carreira ou na sua vida pessoal,
I li precisa contar com a ajuda de especialistas. O papel desses 47
I ^|u•ciali,stas é oferecer apoio, na forma de terapia, coaching
III! Ionsultoria. A cultura da terapia é problemática em duas
iiiiiaçocs; primeiro, quando torna o indivíduo dependente do
apoio especializado; e, segundo, quando reduz e simplifica ,is
causas de problemas a questões puramente indiviciuais.
A segunda consequência do culto à performance rela
ciona-se com a pressão por resultados. Executivos e outios
profissionais devem estar, a todo momento, em estado de \ i
gilância e prontidão. Indivíduos expostos a tal condição po
dem vir a desenvolver ejuadros de estresse e, eventualmentc,
patologias graves - por exemplo, depressão.
A terceira consequência relaciona-se aos atritos resultaii
tes das práticas empreendedoras. Ao mesmo tempo em qiu
existe uma forte pressão pelo individualismo empreendedor,
que leva à busca da diferenciação pessoal e da competição
entre pares, ocorre uma outra pressão, contra mudanças do
status e pela adoção de processos de acomodação grupai.
Tal condição ê acentuada no Brasil pelo caráter personalis­
ta que marca nossas relações. Por isso, o sucesso individual
dependerá em grande medida da capacidade de estabelecer
redes e cultivar relações. As pressões contraditórias poderão
gerar atritos, conflitos e trazer resultados negativos para os
indivíduos e para a organização.

COEXISTÊNCIA DE HUMORES

Entretanto, ao estimular valores voltados para a autor


realização e o empreendedorismo, a cultura do culto à per
formance pode também trazer consequências positivas. No
Brasil, onde os serviços públicos são caros, ineficientes, cor-
porativistas e autocentrados, a mentalidade gerencial, com
seu conjunto de valores relacionados à performance, pode
contribuir para a modernização dessas instituições e para o
48
oferecimento de serviços de melhor qualidade à população.
Outra consequência positiva da disseminação de valores
ligados à performance é a possibilidade de um processo de
transformação cultural mais abrangente. Alguns pesquisa
.Imiis .ipontam que um traço forte de nossa cultura é o pa-
l . 1 ii.ilismo. Em algumas empresas locais, o paternalismo se
iii.imicsta em formas rígidas de controle dos funcionários,
i|H> Icagem com baixo comprometimento e baixo estímulo
» inovação. Em tais condições, valores associados à perfor-
m. imc podem gerar impactos sobre a cultura organizacional,
In .nulo à substituição de estilos anacrônicos d e gestão por
I milos mais abertos e participativos.

CONTEXTOS HÍBRIDOS

Embora se possa afirmar que o culto à performance re-


pii senta “o espírito da época”, não se deve assumir que se
ii.ii.i ile um modelo monolítico. Nas empresas brasileiras,
. luunií amos todo tipo de situação. Em um extrem o, temos
iiiipicsas anacrônicas, praticando modelos ainda focados no
.mucito de comando e controle, próprio do início do século
p.issado. No outro extremo, temos organizações que absor-
.1 i.im totalmente os novos valores, colhem os frutos, porém
i .i i i i I h i u pagam preço alto por suas consequências negativas.

1 IIIle elas, temos todo tipo de caso, sendo o mais comum


u|iu-le no qual o discurso foi modernizado, em bora as práti-
I ,is .linda não o tenham acompanhado.

49
f

C A P IT U L O 5

A F E T O SO B C O N T R O L E

N o universo corporativo atual, o sujeito tecnicamente


I iim|H'tente, com grandes habilidades analíticas e de racio-
■iiiio, especialista em seu negócio, mas com dificuldades de
1 iiiivivio social, excessivamente objetivo e pouco comunicati-
Mp vem sendo cada vez menos valorizado pelas empresas.
|.i o sujeito cognitivamente inteligente, com alta capaci-
pl.pile ile .solução de problemas, detentor de grandes conheci-
iiu iiios e que consegue aliar tudo isso com uma vida social
pip .1 , que tem facilidade para se comunicar, usa de sensibilida-
ili ,po invés de ser estritamente objetivo, ganha cada vez mais
PIPpipiiietlade.
bsses diferentes valores revelam mudanças na forma
. pPMipI empresas e pessoas estão tratando afeto e razão no atual
imbiente de negócios. Conceitos como empada, iniciativa,
ipfipi.iliilidade, confiança em si, autoavaliação, consciência de
liimi.içéies, potencialidades e realização convivem hoje muito
|pp m com outros conceitos mais tradicionais, como resultado,
|ip I Ipimiance, objetividade e eficiência.

ANATOMIA EMOCIONAL
51
l Iin termo da moda explica essa diferença de valoriza-
(,ppp's inteligência emocional. Consagrado em 1995 com
pp l.inçamento do livro do psicólogo americano Daniel
Goleman, Emotional Intelliefence^ o termo ganhou espai^o
na mídia de negócios do mundo todo. Pretendendo redeli
nir o que c ser inteligente, Goleman defende a tese de que
as emoções poderiam fornecer a verdadeira medida da inte
ligência humana.
Como toda corrente de moda possui um caráter de mo
mento e de impulso, é importante olhar criticamente para
o fenômeno. É o que faz, por exemplo, o professor francês
Jean-François Chanlat. Conhecido no Brasil sobretudo poi
seu livro O indivíduo nas organizações: dimensões esquecida:
(1991), ele escreveu recentemente um artigo na revista fran
cesa Travailler^ em que levanta algumas questões sobre o
conceito de inteligência emocional.
Segundo Chanlat, existe hoje no universo da gestão
uma febre em torno das emoções. O conceito de inteli
gcncia emocional ganhou notoriedade por conseguir duas
coisas: primeiro, traduzir a sensibilidade cada vez maior de
gestores e organizações pelo afeto no ambiente de traba
Iho; segundo, instrumentalizar a necessidade de respostas
práticas.
É possível encontrar uma expressão dessa necessidade de
respostas práticas no desenvolvimento do conceito de QH
(Quociente Emocional), cuja frmção é enriquecer a perfor
mance dos indivíduos por meio do desenvolvimento de com
petências emocionais. Tal desenvolvimento está baseado na
hipótese de c]tie as emoções podem fornecer melhores subsí
dios para a compreensão do desempenho do que os aspectos
puramente racionais, como o Quociente de Inteligência tra
dicional.
Amparando-nos no texto de Chanlat, vamos desenvol­
ver aqui uma reflexão crítica sobre o conceito de inteligência
52 emocional, discutindo alguns dos riscos ocultos do conceito
e propondo algumas medidas para melhor usá-lo.
n

o ESGOTAMENTO DO SUJEITO RACIONAL

Além das razões já expostas do sucesso do conceito de


inteligência emocional, que outras razões haveriam de lhe dar
i.imanho prestígio? Segundo Chanlat, a principal causa da
explosão de publicações sobre emoções, inteligência e com­
petência emocional é o esgotamento do modelo de gestão
i.ieional, baseado no princípio do sujeito racional.
A maioria das concepções de organização e gestão tem
lim a dívida enorme com o princípio do homem racional.
Nele, a razão e a disciplina, a objetividade e o abandono de
ipi.ilquer vestígio de “caprichos” eram os marcos decisivos do
processo de produção e da gestão. Exemplo disso podemos
I neontrar na burocracia, na organização científica do traba­
lho e nas técnicas de gestão instrumentais das antigas escolas
lie atlministração.
Em torno da noção de homem racional estava a preo-
iiipação com os aspectos formais da organização, como a
ipi,unidade de conhecimento normatizado e técnico que
jiiulia reunir e a rotina disciplinada do trabalho. A afetivi-
il.ule era percebida como uma ameaça potencial à perfor-
m.ince da organização e dos indivíduos. Era preciso, então,
exiir|iá-la.
Dois fatores, aponta Chanlat, enfrac[ueceram o sentido
ilo conceito de homem racional e, portanto, da gestão pii-
i.iinente racional. Primeiro, a descoberta da vida psíquica e a
im|>()i tância dos processos inconscientes para a determinação
ilo comportamento (o ser humano não é só razão). Segun-
ilo, a descoberta da inter-relação entre aspectos cognitivos e
.ih iivos (por exemplo, a seleção e o uso de informações na
i'in|uesa dependem dos julgamentos dos envolvidos).
() contexto socioeconômico dos últimos 20 anos tam­ 53
bém ajudou a popularizar esse interesse pelas emoções. No
universo dos negócios, o desenvolvimento de uma economia
iii,i|oritariamente de serviços teve por conseçfuência multipli-
car os empregos que envolvem algum tipo de relação com
clientes. Q uando estes vêm para o primeiro plano, torna m
fundamental desenvolver as habilidades emocionais daquele,
que os atendem, tais como simpatia, atenção, compreensão,
paciência, entre outras.

OS RISCOS OCULTOS

Que no trabalho, como em qualquer outra esfera d.i


vida, há a expressão de afeto, não é algo que se questione,
No entanto, Chanlat chama a atenção para os riscos oeul
tos do conceito de inteligência emocional, tal como ele e
concebido e utilizado. Vejamos quais são esses riscos e sii.is
consequências.

Relações sociais descontextualizadas. O mundo humano i-


um universo social c]ue põe em funcionamento diversas loi
mas de relação (de gênero, profissionais, éticas, de idade). ,\s
;i relações afetivas, nas quais estão inseridas as emoções, com
põem apenas um pedaço desse quebra-cabeças, e não todo
ele. Quando lemos as publicações sobre inteligência emo
cional, percebemos que os autores colocam cm evidência .is
qualidades individuais, ou mesmo as interpessoais e sociais
mas sem fazer menção ao contexto social real, no qual css.r.
relações de fato ocorrem.
O que os defensores da inteligência emocional nos l.i
zem crer é que basta termos as habilidades emocionais i
relacionais necessárias para conseguirmos tudo o que qm
remos. Por exemplo, se o empregado de chão de íábii
ca, seu superior im ediato, o gerente e o diretor possuírem
54 boas atitudes relacionais ou carisma, então tudo estará bem
e todos poderão prosperar dentro da empresa. Isso, no eu
tanto, oculta alguns aspectos concretos da vida organi/.i
cional.
Na realidade, toda organização está dividida de forma
linu ional e hierárquica, e essa divisão responde a outras for-
S.iN iiiie não meramente as pessoais. Responde, por exemplo,
n torças dos jogos de poder envolvidos. As categorias pro-
lisMonais, ou de sexo, de status ctc. não são apenas fruto das
t ,ii.K lerísticas dos indivíduos, mas das diversas redes em que
tM.io in.seridos - origem social, nível de instrução, tipo de
ihploma, cor, sexo. A inteligência emocional, por si só, não
r iim.i garantia de ascensão. Se ela for considerada como tal,
iiiiie se o risco de “psicologizar” a vida social, ou seja, de
II leditar que tudo pode ser reduzido à psicologia ou aos fa­
li ues individuais.

Relações sociais despolitizadas. Outro ponto que chama a


IIIIII, .10 na literatura e no conceito de inteligência emocional
I .1 .iiisênda quase total da noção de poder ou de relações de
|Miilei. Parece que a relação social depende apenas das quali-
.l.iiles dos interlocutores envolvidos.
As relações sociais na empresa fundamentam-se, não raras
I I /es, em relações políticas, cm jogos de interesses divergen-
h s ile determinados grupos ou indivíduos. No conceito de
iiiii ligêiicia emocional está pressuposta uma visão funciona-
lisi.i da organização, para a qual a harmonia está nas qualida-
,|i s sociais dos membros, em seu bom humor e entusiasmo.
,\ corrente da inteligência emocional faz parte de uma
iis io desvinculada da dinâmica democrática. Nessa corrente,
I iiisii iimentação, a funcionalidade técnica e uma visão sim-
jillsia d.i realidade são dominantes. O risco desta postura é a
■11(11 iiuidade diante dos jogos de poder que, de fato, ditam as
M(II.IS do jogo organizacional.

Relações sociais sem vida psíquica. Goleman, em seu pri­ 55


mi 1 1 0 e mais famoso livro sobre inteligência emocional, não
..... . cm nenhum momento a possibilidade do inconsciente.
.ii.is icilexòes ,se inspiram na biologia e na psicologia cogni-
tiva. Ora, se as emoções fazem parte da vida humana coii-i
ciente, isso deixa pouco espaço para o inconsciente - tim
representa toda forma de descontrole e imprecisão.
Na inteligência emocional, trata-se mais de escolher as u c
nicas para ct)ntrolar as emoções que podem melhorar a pcrl< >i
mance. O teste de QE é um bom exemplo de como as emoçi u ■.
podem ser transformadas em números e esquemas, defodamciiu
diagnosticadas, analisadas e desenvolvidas para se atingir um.i
melhor performance. O risco aqui é um empobrecimento d.i
vida psicológica, restrita a seus aspectos conscientes.

Relações sociais sem cultura. A inteligência emocion.il


não parece levar em conta a cultura. Parte-se do prindpin
de que as emoções se exteriorizam da mesma maneira im
mundo todo. Como diz Chanlat, de fato existem emoçoes
características do ser humano, como a alegria, raiva, triste
za, surpresa, medo. No entanto, elas manifestam-se com .1
feição da cultura ou do grupo em questão. O conceito dc
inteligência emocional, ao dar pouca importância à cultuiM.
oculta o fato de que está profundamente enraizado no ‘■''jci
to de ser norte-americano” e na maneira como esse po\d
entende e vive uma “boa relação social” .
A cultura norte-americana se expressa por meio de \.i
lores muito particulares, como o forte desejo de ganhar c
vencer, um pensamento instrumental e prático, um forii-
sentimento religioso (protestante), a esperança e crença n u
sucesso individual, a obsessão pela quantidade e um positivis
mo científico. Todas essas marcas impregnam o conceito dc
inteligência emocional, e isso não é um mero acaso. O risco
em não considerar esse fato é o de encobrir as origens profun
damente norte-americanas do conceito.
56
Relações sociais distanciadas da ética. De acordo com um
dos pilares da inteligência emocional, as pessoas dotadas tlc
competência emocional acima da média têm maiores chances
>l> '.01 l>cm-sucedidas. Apesar de as qualidades pessoais terem
imi poso nada desprezível no sucesso pessoal e profissional, há
. oilonoias de realidade que apontam em outra direção.
1’ousemos nos “bem-sucedidos” dirigentes de empresas que
<Homolvetam em escândalos, tais como da Enron, da World.com
I i|n banco Marka. A Enron, por exemplo, havia sido declarada
pi l.i Ivrtime como empresa-modelo de inovação em gestão. O
qiio dizer desses casos.^ Seus líderes não possuiriam alta inteli-
(1.0 lu 1,1 emocional? Não é possível, eticamente talando, encarar o
■.(iicsso profissional sem uma interrogação sobre os valores que
Hiii iiiam as ações das pessoas bem-sucedidas. Sem essa interro-
|i u,.i<>, o risco é contundir desvio ético com succs.so.

USO CONSCIENTE

( )s riscos da inteligência emocional denunciados por


I luniat devem servir como indicadores para um uso refle-
iido do conceito. Não se trata de abandoná-lo; trata-se, ao
m\ es disso, de disciplinar seu uso e de submetê-lo a uma séria
pDiideração de consequências. Nesse sentido, encerramos o
II ligo apontando algumas linhas de orientação para o uso do
. mu cito nas práticas executivas atuais.

• Emoções se expressam num contexto. Deve-se entender que


I u (inceito de inteligência emocional é apenas um elemento que
I I impõe o quebra-cabeças da realidade organizacional. Tal inte-
lig.encia se expressa dependendo das necessidades concretas da
Iiq',.inização e do jogo de interesses envolvido. O que ocorre
iiiiiii.i organização não depende apenas da esfera intraindividual,
III,IS, principalmente, da intergrupal e interorganizacional.
57
• Emoções não são instrumentos. Ao buscar uma utiliza-
.lu mecânica das emoções, o principal perigo é esquecer ou
if.iiurar as forças inconscientes. Sob um olhar psicanalítico.
as emoções são realidades instáveis que manifestam forças c
conflitos mais profundos da personalidade. O controle iK
emoções pode levar à criação de uma espécie de “simulacro”
emocional. Para se evitar isso, as emoções devem ser tratail.r.
como manifestações singulares das pessoas, o tjue envolx e o
poder do imaginário e do desejo.

• As emoções, por si só, não explicam o desempenho. C) tie


sempenho humano é explicado tanto por fatores hardquanio
soft. Ou seja, tanto por variáveis como nível de conhecimen
to, adequação ao perfil da organização e da tarefa, habilidades
técnicas e de pensamento etc. quanto pelas variáveis pessoais,
como perfil psicológico, capacidades adaptativas e relacionais
Alguns estudos científicos, como o de Sara Rynes, Kenneili
Brown e Amy C olbert, recentemente publicado na Hmnnn
Resource Management, têm demonstrado que, em certos ca
sos, os aspectos hard são mais hábeis para explicar o deseni
penho do que os soft. E preciso, portanto, relativizar o p e s o
da inteligência emocional na determinação do desempenho,
entendendo-o com o mais uma “linguagem” para explicar (
racionalizar o com portam ento no trabalho.

Com essas restrições, o uso do conceito pode serfeito de modo


mais consciente, pois não será exipçido dele mais do que pode
efetivamente daj'. Além disso, e mais importante, a reflexão cn
tica ajudará a esclarecer que todos os conceitos dop/ênero devem
ser questionados e entendidos como produtos datados e abertos n
reconstruções e revisões.

58
C A P IT U L O 6

C A R R EIR A S SEM G R A V ID A D E

o repertório de temas que compõem a moderna


^•sMo tle pessoas, o da gestão de carreira vem ganhando
tância crescente não só entre gestores e especialistas
■h iiea como também entre profissionais desafiados pelos
tiii.iis imperativos do mercado em relação ao emprego e à
••Ml iis.u) organizacional. No que diz respeito à gestão, o
tim.i envolve a consideração de que as organizações de-
Miii prover seus profissionais com estruturas, processos e
Miiiisos ,sob medida para o desenvolvimento de suas car-
1 1 II .IS. )á no que diz respeito aos profissionais, a ênfase vem
III iiiulo sobre uma progressiva tomada de consciência de
•|iii , n.u) obstante as iniciativas da empresa, a parte mais
impiH lante do desenvolvimento da carreira deve depender
■ I» li Nproprios.
A|K-sar de partirem de ênfases pragmáticas diferentes,
t ml II gestores de carreiras e suas empresas quanto os próprios
pinlissionais parecem partilhar de crenças comuns no que se
II li le .1 concepção, desenvolvimento e progressão da carrei-
M ii.i .lUialidade. Essas crenças amparam-se no tato, alardea-
■lii |'i)i diversos especialistas, de que grandes transformações
piiiilii/iram uma drástica ruptura nos modelos tradicionais de
■III rii .1 e emprego e que, por essa razão, temos todos de nos 59
li iM I .igora com desafios inéditos neste campo.
l’reiende-se mostrar neste capítulo que as crenças refe-
II iiii s ,1 gestão de carreira dependem de um tipo de discurso
que vem se generalizando e consolidando entre gesioo '. .
profissionais. Na prática, esse discurso constitui um con|im
to de lugares-comuns e falas usados, sem modéstia, por «.i m
íM sultores, professores, gestores e pelos próprios profissioii.ns
na tentativa de diagnosticar, interpretar e intervir sohu .o
carreiras em um momento no qual o problema do em[m ru
tornou-se crônico. No entanto, o principal problema khii
esse discurso é seu efeito retórico: ele tende a oculi.u m
dilemas envolvidos com a gestão de carreira na atualid.uli .
especificitmente do ponto de vista do indivíduo. Por (•■■■..i
razão, o capítulo destaca quais são esses dilemas e disuih
algumas formas de enfrentá-los

REIVINDICAÇÕES DE EPOCA

() discurso oficial sobre carreira pode ser analisado s(


gundo o que alguns autores vêm chamando de reivindi
cações de época. De acordo com isto, há, em cada épor.i,
determinadas formas de abordar alguns temas que se b.i
seiam no estabelecimento de dicotomias. No caso da ges
tão de carreira e de muitos outros temas dentro do campi>
da administração, é comum encontrarmos uma dicotomu
entre o passado, no qual residiríam práticas obsoletas, Imi
rocráticaS e tradicionais, e o presente (e até o futuro), no
qual novas práticas sugeririam rupturas radicais com essr
mesmo passado.
Ao enfatizar a ruptura, esse ciiscurso assume três ouii.r.
características. A primeira é o fato de ele ser construído ,i
partir de premissas tomadas como verdadeiras de antem.io,
mas que, à luz de análises mais rigorosas, talvez se mosircin
60 menos evidentes ou até mesmo problemáticas, como buse.u
se-á demonstrar na sequência deste capítulo. Em particul.ii
cm relação à carreira, destacamos três premissas, todas d.i'.
enfatizando alguma modalidacáe de ruptura com o passadi
I’(cmissa número um: carreira tornou-se um problema
ilt Inio inrimo, ou seja, entrou para a lista de responsabilida-
ili iln pi(')prio profissional. Isso significa que ele tem agora a
M >11 •.Miladc de se autoconhecer para, então, discernir sobre as
ou Ihoics escolhas. Premissa número dois: o trabalho morreu.
• |'i.uica, isso equivale a dizer que os profissionais não de-
Mm mais buscar empregos, e sim desenvolver um projeto de
oil.i locrcntc com os próprios valores e aspirações pessoais,
mmmi/ando ganhos e colecionando desafios. Premissa nú-
nii ici iics: a aceleração do tempo. O que valia ontem já não
■ili mais hoje. Isso significa que, a todo momento, é preciso
tms.ii o projeto e estabelecer novas coordenadas, sem, no
. iii.mio, desviar-se do centro de valores pessoais.

GENERALIZAÇÕES EAUTORIDADE

,\ segunda característica deste discurso sobre car-


itii.i (• sua generalidade. Cada uma das premissas an-
i.iHHcs, em graus variados, é usada para explicar um
nii|imto amplo e díspar de fenômenos. Na medida em
'|iii I) iiabalho tornou-sc uma realidade complexa, a fi-
inlid.ule das generalizações é simplificar a realidade e
>1II .11 ) l eceptor do discurso uma sensação de coerência e
iiiilcm. Por exemplo, ao instruir os profissionais a cuidar
.li Mi.i própria carreira, diversos consultores espccializa-
diis p.irtem do princípio de que esta é a melhor maneira
•li lid.ir com o ambiente caótico e instável do em prego,
ii iiiMiiilindo a seus clientes uma sensação de segurança
II I.IIiva, no caso de eles estarem seguindo as prescrições
l'iii exemplo: investindo em cursos de reciclagem, pós-
|ii.iilii.içào, coachin^^ mentorin^^ assessment ow simples- 61
iiii nie estando “preocupados” , “ antenados” .
■\ lerceira característica deste discurso é o fato de ele ba-
.1 II se em figuras de autoridade. É bom lembrar que a auto-
ridade sempre está ligada aos valores centrais de uma deu i
minada sociedade e a seus discursos dominantes. Assim, pni
exemplo, em uma sociedade orientada por valores religiosos
cristãos, é de se esperar que a autoridade provenha de p e is o
nagens, como papa, padres e seus representantes laicos (reis,
rainhas, príncipes etc.), e que o discurso dominante scj.i o
religioso. E quais são nossas principais figuras de autorid.idi f
Certamente não são os políticos; tampouco os padres. Noss.is
figuras de autoridade são hoje representadas por executi\ds
bem-sucedidos, professores de negócios, especialistas c con
sultores. Esses personagens são os porta-vozes oficiais do ilis
curso sobre emprego, sucesso e felicidade.
Assim como os padres, no passado, precisavam mini.i'.
vezes “inventar” ou “exagerar” o que aconteceria no caso di
as pessoas não seguirem os preceitos divinos, hoje são csm ■.
m especialistas que cumprem o mesmo papel quando, oporiu
nisticamente, usam o discurso de autoridade para amedrom.ii
(ou “conscientizar” , como se costuma dizer) os profissioii.iis
e, consec]uentemente, prestar-lhes socorro. Mas, difercnii
mente dos padres, cuja autoridade derivava diretamente dn
poder outorgado por Deus, esses personagens contempoi .i
neos retiram sua autoridade dos “tátos”, que imediatameim
se transformam em benchmark.
Em uma cultura que valoriza a ciência, como a ocidcii
tal, poucos se arriscam a opor-se a um discurso baseado cm
fatos ou em autores respeitados na comunidade acadêmic.i,
do mesmo modo que poucos, no passado, opunham-sc .m
discurso baseado na vontade de Deus. Na prática, o problcm.i
é cjüe tátos são realidades específicas, necessariamente depcn
dentes de interpretação (portanto, sujeitos aos valores cm
teresses de quem os interpreta) e cuja generalização deve sci
62; feita com cautela na medida em que nem todas as situaçõe s
são idênticas. Vejamos, a seguir, alguns dos dilemas da gest.io
de carreira que podem estar sendo mascarados por esse dis
curso de época, oficial, sobre carreira.

r . . '.
DILEMA DA ESCOLHA

( iomcccmos com uma revisão da primeira premissa do


•lisi uíso de época sobre carreira. Trata-se da afirmação de cjue
( 1 ,11 teira se tornou um problema privado, isto é, dependente
próprias forças e disposições do indivíduo. O pressuposto
• ilr pue ele tem de se autoconhecer para descobrir quais são
«ms verdadeiros interesses e valores, motivações e “perfil” .
I •• peiule desse autoconhecimento a escolha da carreira mais
tpinpi iatla ou então o discernimento sobre quais caminhos
mllur na que já foi escolhida. Quanto menos alguém se co-
iihi I Cl, mais aumentam as chances de perder-se no fluxo caótico
• uelerado de transformações de que as carreiras são hoje
th 11
li es aspectos merecem destaque aqui. Primeiro, esse pres-
tiipt isio da escolha depende de uma concepção específica sobre
<<qiie é o indivíduo. Aplica-se aqui o mesmo princípio que
iHMii i.i grande parte do pensamento administrativo: o do in-
liMiliio racional, capaz de isolar motivadores centrais internos
ili basear sua ação nesses mesmos motivadores. Em acrés-
imii, essa ideia sugere que alguém é capaz de fazer escolhas
I mi dida que conseguir se conhecer. O problema é que esse
tiiiiiionliccimento muitas vezes é sugerido a partir de fórmu-
iis pi OI 11 as e pré-fabricadas ou então construído a partir da
i|'hi,ic,ao de testes de personalidade. Com isso, o objetivo é
I*« 1 1 ibi ir qual é a identidade do profissional.
f sse ponto nos leva ao segundo aspecto que gostaríamos
l> mi iu ionar. O conceito de identidade, além de fortemente
|M.|rniK<), é uma invenção moderna. Isso quer dizer que, em
<1 MII igcm, identidade significa algo que, a despeito das mu-
I iin,,is, permanece inalterável. Ora, ao mesmo tempo em que
• ilii m.i que a carreira é uma realidade instável, sem gravida- 63
I. Mi|( ii.i a rupturas, descontinuidades e fragmentações, ad-
iiiiit se, implicitamente, que há uma identidade que não varia
■II i|iie, se variar, o faz apenas a título de ajustes de curso.
O último aspecto acerca deste tema refere-se ao própi n >
profissional. Ocorre que, submetido ao discurso da idemid.i
de, ele pode acreditar que, antes de fazer suas escolhas, tem di
primeiro descobrir qual c sua identidade ou seu perfil. ( oni
isso, pode perder - ou adiar - a oportunidade de descobin
que não há nenhuma identidade, não ao menos no sentido di
algo estático ejue reside dentro de si em algum recôndito c-,
condido, como uma essência. Talvez o que o discurso ofici.il
não mencione é que a ausência de gravidade chegou tambem
à área da identidatfe. Em outras palavras, não só as carreir.r.
são indefinidas de antemão, como também o é a identidade
A escolha no campo da carreira é um processo contímin,
simultâneo à construção da própria identidade, de modn
que é preciso lidar com dilemas pessoais delicados, coinn
a ausência de garantias e de fontes seguras de reconlu i i
mento. E preciso, neste contexto de fragilização, ajudar (i.ii.i
que o profissional não recorra às autoridades de plantão <m
então para que não sucumba à “pane decisória” - ter muii.e.
opções para decidir e pouca disposição para abrir mão d,i
maioria delas, ou seja, responsabilizar-se pela escolha assii
mida perante si mesmo. Além do mais, não é no míninnp
paradoxal o fato de que todos desejam hoje a “liberd.uK
de escolha” pela carreira mas, ao mesmo tempo, consomem
com avidez os remédios prometidos pelas autoridades du
sucesso profissional.^

DILEMA DA MORTE DO TRABALHO

A segunda premissa do discurso oficial sobre carreira e di


que o trabalho morreu. Isso significa que não devemos m.ir.
64 buscar empregos, mas sim desafios e oportunidades, eslej.im
eles onde estiverem. Se, por um lado, é possível afirmar que- .1
formatação do trabalho mudou nas novas modalidades protlmi
vas (trabalho flexível, tempo parcial, teletrabalho, subemprejv >
ii u cirizações etc.), por outro constitui exagero acreditar que
I Ic cedeu lugar a arranjos completamente inovadores e que,
l>(M essa razão, as pessoas não devem mais ambicionar “anti-
(j.iis” tle.sejos (como o de trabalhar em poucas atividades ou
empresas, por exemplo).
h preciso separar ideologia do trabalho e trabalho propria-
meiiie dito. A primeira diz respeito a um conjunto de crenças
ili epoca sobre o valor do trabalho, seja em termos econô-
miiDS, sociais ou psicológicos. O segundo diz respeito às ati-
»lil.uies práticas exercidas pelos indivíduos e que constituem
tmu relação de troca com um empregador que as remunera
1 1 1 iiiomicamente. Este último ponto tornou-se historicamente
iiiiiliecido a partir do que autores, como Karl Marx, identifi-
• .11 .im como a acumulação primitiva dos meios de produção.
\'.i linguagem prática, tal colocação pode ser traduzida pela
»IHisiatação corriqueira de que não temos garantida nossa so-
|iie\'ivê'ncia por origem familiar nem de estirpe, mas que temos
ili uMiquistá-la, diariamente, com nosso próprio empenho.
Podemos neste ponto nos interrogar: qual a ideologia
.lii trabalho que vigora hoje? Os principais componentes des-
- 1 ideologia reforçam que o trabalho foi diluído em práticas
dl empreendedorismo regidas por um único imperativo: a
/'I! ihnnance. Trabalhar, então, não consiste apenas em um
I iiii|iinlo de atividades repetitivas e monótonas, mas em uma
iipi II umidade para a autodescoberta, para o exercício do que
lu de melhor em si mesmo, sempre tendo em vista o cole-
I inii.imento de desafios, riscos e oportunidades. Não c à toa,
iiiiilorme demonstram alguns sociólogos, como o francês
\l.im Ehrenberg, c^ue a ideologia do trabalho se aproxima
dl muitos dos conteútios tipicamente ligados ao universo do
• 'i|ii)iie e os absorve. Por razões óbvias, a mesma ideologia
nusi ,ii'.i o fato de que, para a maioria dos brasileiros, trabalho 65
iiiid.i é sinônimo de tarefas repetitivas e pouco remuneradas.
Do ponto de vista da gestão de carreira, esta ideologia
iii t.i .ilgims resultados importantes. Primeiro, coloca os pro-
fissionais em estado perpctu o de caça a desafios, lí coimiiii
ouvir hoje de um profissionall que deixa seu emprego a insiih
cativa de que “lá eu não tinli^i mais desafios nem oporimihl.i
des” , dal justificativa, que à primeira vista soa como Ixisi.mii
plausível, pode esconder um;íi dificuldade pessoal de mu m i
mento nas próprias atividade;S correntes. Em outras p.il.m.iv
o indivíduo pode mudar freq uentemente de emprego iiu imv
pela busca de desafios do que pela miragem de que trab.illm .
sempre desafiador e empolgajnte “ali no quintal do vi/mlm "
Levada ao extremo, essa crença pode dar vazão a estados i m
nicos de ansiedade e frustraçãío e a sensação de que é pio |mi
muciar sempre de emprego e ttrabalho para não ser “mal \ ism
pelo mercado” .
Adicionalmente, essa ideologia também pode masi.ioi
que, por detrás da ânsia p o r desafio, encontra-se, n,i \n
dade, um desejo de aumentc> de salário ou de poder, nm
admitir isso ainda é alvo de tabu e supostas recriminav"*
Consequência: aumento do cinismo e dificuldade de dcb.iu i
abertamente as prioridades c exigências profissionais ou <n
tão de analisar com maior maturidade a natureza do \ íiu ulu
de troca simbólica e financeira estabelecido com a emprcM i
partir da relação de trabalho.

DILEMA DO TEMPO

O terceiro e último dilema que desejamos analisar aqui i h


do tempo. De acordo com a terceira premissa do discurso oíu i il
sobre carreira, o tempo está hoje acelerado, o que impõe a toi li •.
os profissionais o lendário trabalho de Sísifo de recomeçar sc-m
pre, de re-elaborar a cada instante o projeto de carreira.
66 Ora, talvez poucos dos que trabalham 14 horas por di i
duvidem de que o tempo, entendido como o tempo cm
nológico, abstrato, do relógio, está cada vez mais apert.idii
haja vista a grande quantidade de coisas que são inserid.n
i-m cada unidade cronológica (horas, minutos e segundos).
Tarodiando o que dizia há mais um século o filósofo alemão
Arihur Schopehauer, o tempo só lálta quando não encon-
iiwmos, em nosso dia, a quantidade suficiente de bolsos para
Kuardar nossas coisas. Talvez o filósofo não tivesse previsto a
hipocondríaca quantidade de coisas que alguém que trabalhe
I I horas por dia consegue reunir em torno de si!
() tempo que importa quando falamos de gestão de car-
inra não é apenas esse tempo cronológico, do relógio e das
luiras. E o tempo tal como ele é percebido pelas pessoas.
Neste caso, não vale talar em horas, dias, às vezes nem em
.mos ou décadas. Fatos que ocorreram há muito tempo (cro-
M(ilógico) parecem ter acontecido ontem. Além do mais, para
I ada dimensão de nossa vida a perspectiva do tempo também
• dilérente. Basta mencionar o tempo das atividades lúdicas,
quando simplesmente o deixamos passar, sem pressa. Eistas
hiiias (cronológicas) sequer são percebidas, pois o fator de-
!I I minante aqui é a intensidade com que o tempo subjetivo
lui vivido, e não o correr do relógio.
Infelizmente, quando o assunto aparece no discurso ofi-
' lal sobre carreira, o tempo é quase sempre tratado em sua
■liiiK-n.são puramente mecânica: “Como e onde você quer es-
lai ilaqui a cinco anos.>” é a pergunta padrão que se costuma
l.i/er nos cursos de orientação de carreira. Recorrer a dados
de realidade para comprovar a aceleração do tempo e, por-
I IIIIo, a velocidade das mudanças também não parece ajudar
' III muita coisa. O aspecto mais importante é perceber que
li.i aipii um dilema, e este consiste na necessidade de o indi-
' idiKi entender o efeito que o tempo, tal como é percebido,
' \fivc sobre suas preferências, escolhas e desejos. Por mais
que se criem fórmulas e se estabeleça vigoroso planejamento,
• quase certo que os efeitos da passagem do tempo sobre tais 67
•Irsejos serão imprevisíveis.
l Ima dimensão importante da relação do indivíduo com
" innpo é o estado de angústia que ela provoca. Em orien-
tação de carreira, é aquela conhecida sensação de que “aiiui.i
não fiz tudo o que eu queria e não sei se vai dar tem po” mi
então “estou velho e já deveria ter conseguido chegar acn
de eu queria” . K uma preocupação difusa, mas presente,
que o tempo esta passando, se perdendo, e que as escolli.is
ainda não foram feitas ou de que as coisas “importanie',"
ainda não aconteceram. O risco que a pessoa corre aqni i
o de viver excessivamente voltada para um futuro numa .m
gústia que reforça o que ainda não foi alcançado. A saíil.i, <
claro, não é abandonar completamente o planejamento, m.is
desenvolver maturidade para lidar, sem fórmulas e tabcl.is,
com as mudanças internas às vezes radicais pelas quais pass.i
mos pela influência do tempo. Eis aí um nobre desafio p.ii .i
profissionais e especialistas.
C A P IT U L O 7

C A R R EIR A S
A N T IC O N C E P C IO N A IS ^

E •m um artigo publicado em 12 de abril de 2006, a revista


sa The Economist Vinçou uma nova palavra que tem gran-
ili •• t liances de entrar para o vocabulário corrente do mundo
I iiipoiativo: womenomies. O neologismo endossa a tese da
li mini/ação” do mercado de trabalho e pretende chamar a
tii iii,,io para o fato de que essa possível “mudança de sexo”
<iM ira/endo ganhos para as economias nacionais de alguns
desenvolvidos.
A tese da feminização parece amparar-se em fatos. Nos
I M.idos Unidos dos anos de 1950, por exemplo, apenas um
lias mulheres em idade para trabalhar tinha uma ocu-
em geral ligada às áreas de educação, saúde e serviços
MIS. (ánco décadas mais tarde, esse número aumentou para
dl MSlerços, o que significa que quase metade da força de traba-
IImi d.iquele país é composta por mulheres. As áreas de atuação
d I mulher também se diversificaram, bem como melhorou seu
nio I de educação comparados ao dos homens. Para se ter uma
idi i.i desta última observação, nos Estados Unidos, para cada
MHI homens que ingressam nas universidades, há 140 mulhe-
No Brasil, de acordo com dados do IBGE referentes a
69
dlO I, .1 tendência norte-americana se mantém: as mulheres
i>III por aqui 8,6 anos de estudo contra 7,6 dos homens.

I su iio em coautoria com Maurício Custódio Serafim.


O artigo da The Economist mostrí ainda que a taxa de >m
prego para os homens tem declinado nas últimas décadas ( I '''i,
da população economicamente ativa masculina em relaç.K >,n
anos de 1950), significando que, ao menos em países comu ui
EUA, há uma tendência à igualdade estatística entre homeir, i
mulheres na ocupação de postos de trabalho. O artigo mosu i
que, desde a década de 1970, as mulheres vêm preenchciuli i u
dobro de vagas em relação aos homens e que isso marcou iinu
contribuição significativa para o crescimento global da ecuiiu
mia. Podemos observar ao menos duas razões para o cn m i
mento do número de mulheres no mercado de trabalho.
A primeira é um tipo de corolário da própria hi.stória m.ii
ginal das mulheres cm relação ao mundo dos negócios. 1 '.'..i
é uma constatação de fácil comprovação, pois, na medid.i <m
que as mulheres ficaram tanto tempo fora do mercado, seri.i di
se esperar que a taxa de inserção tosse agora comparativauu iiii
maior que a dos homens, que já estavam em maior número nu
mercado. A segunda razão refére-se a uma mudança estruiuul
no perfil do trabalho ao longo das últimas décadas: o modcl u
do emprego industrial, para o qual tipicamente se exigem h.ihi
lidades “masculinas” (físicas, na maioria das vezes), vem seiuiu
progressiva e rapidamente substituído pelo emprego no seu >i (li
serváços, no qual outras habilidades, que não físicas, são dcm.m
dadas, habilidades essas parcialmente independentes do gênciu
Entretanto, gostaríamos neste artigo de propor uma \ is.n >
alternativa sobre a relação entre mulheres e mercado de ii.i
balho, uma visão que talvez contrarie uma das mais poderos.r.
intuições sobre o tema, a saber, de que o mercado de trab.illn i
foi historicamente “preconceituoso” com relação às mulhcic.
Contrariamente, defendemos que o acesso a esse mercado u.i
atualidade depende muito menos do gênero do que da c.ip.i
70 cidade de os indivíduos assumirem o desenvolvimento de um.i
carreira. O aspecto de real interesse é que, do ponto de \ isi.i
dos gêneros, tal desenvolvimento não se faz em pé de iguald.i
de, e por uma questão importante: a maternidade.
DEMOCRATIZANDO A CARREIRA

A noção de carreira surgiu ao longo do século XIX com


« ('.(Ciisão da sociedade industrial e do capitalismo como sis-
ti MMeconômico, os quais tinham como bases ideológicas as
I Mtg.iN no progresso social a partir da autonomia e da liber-
.1iile concedidas aos indivíduos. Anteriormente, na sociedade
i>Mil.il, a sociedade era composta por uma divisão social rígi-
>l i enire o clero, a nobreza e o terceiro estado (mercadores,
I Miiponeses e artesãos). Nesse tipo de sociedade, o indivíduo
• 1.1 inieiramente absorvido pelo grupo, havendo raríssimas
■li.Mu es de mobilidade social. Um caso emblemático disso é
■I ilc Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), que, tendo
•tM(lo na transição do sistema feudal para o burguês, ainda
MlMl o peso da estrutura da nobreza ao tentar construir para
M I i t m o indivíduo, uma carreira própria.
Na teoria, o acesso a uma carreira deveria estar aberto
I imbos os sexos. E de fato isso parece ter acontecido. O
|•lllblema, entretanto, é a hierarquia de status associada a
'liimninadas carreiras, e é nesse ponto que, historicamen-
ti ,is mulheres levaram desvantagem. A carreira tipicamente
iiiibuída, ou tornada acessível, às mulheres era a de esposa
• MMc. (x)m o casamento, muitas delas, até então tuteladas
iMii M.Muente aos pais, ganhavam visibilidade. O clássico ro-
MMiue (.la escritora Jane Austen, que recebeu nova versão ci-
Mi MMiográfica de mesmo título. Orgulho epreconceito (2006),
tliisii.i bem tal ponto. A trama gira em torno de uma família
• M|,i mãe não tem outra preocupação que não o casamento de
•M.is ( iiico filhas. Austen faz uma brilhante radiografia da es-
HMlMia de classe e dos meios de acesso ao status mulheres
Mn ai isiocrático século XVIII. Desnuda regras de progressão
•"( m I e m que os homens ganhavam prestígio na medida em 71
•|Mc se envolviam com o exército, a igreja e o mundo das leis,
p as s o que as mulheres só o obtinham pela aquisição de
"lida dada no estrito âmbito do casamento.
Expandindo o exemplo, historicamente encontramos evi­
dências de qiie a carreira para as mulheres sempre esteve asso
ciada à casa, e siia identidade social e pessoal dela dependiam
Essa característica, que a socióloga inglesa Alison Wolf recen
temente discutiu em polêmico artigo na revista Prospect^ fazia
com que as mulheres partilhassem um senso de “irmandade”,
ou seja, dividissem uma carreira basicamente coletiva, social:
lima vez esposa, tinham de aderir a códigos de conduta prede
terminados e atrelados à manutenção da “grande tãmília”. A
maternidade e o cuidado da casa, em uma estrutura social pa­
triarcal, contribuíam para c]ue as mulheres formassem um gru
po homogêneo, com interesses relativamente com^ergentes.
Desse modo, não seria correto dizer c]ue as mulheres não
tinham uma “carreira”; o que elas não tinham era uma carreira
no sentido individualista e “masculino” do termo. E, com o
passar do tempo e com as translbrmações econômicas nas ftm-
daçòes da tãmília patriarcal tradicional, inclusive graças ao pró
prio movimento feminista, o statusác esposa e mãe se arrefeceu,
de tal sorte que hoje, nas sociedades capitalistas avançadas, os
mais altos status são atribuídos a carreiras individualistas, ejuan
do os interesses pessoais são - ou têm de ser - colocados acima
dos interesses do grupo, que, no caso das mulheres, se referiam
à perpetuação da família por meio da maternidade. Chama a
atenção, neste particular, que as novas gerações tie mulheres
vejam com reservas a possibilidade de seguir uma carreira de
“domésticas”. Nos países desenvolvidos, como também no
Brasil, a “carreira de mãe” é uma espécie de coadjuvante, uma
“sobreposição” à carreira principal, no mercado formal. Mas
quais as consequências disso para as mulheres.^

72 PARTICIPAÇAO QUESTIONADA

O feminismo dos anos de 1960 e 1970 combatia o estilo


de vida da mulher cuja carreira era o cuidado da casa e dos
lililos. Sua luta consistia em libertar a mulher dos afazeres do
mésticos e inseri-la no mercado de trabalho com os mesmos
direitos dos homens, centrando fogo naquilo que denomina­
vam de “sociedade patriarcal” . As feministas na verdade con
tribuíram - talvez sem sabê-lo - para que os valores do mer
cado invadissem c se afirmassem como os mais importantes
na vida de ambos os sexos. Conforme diz Wolf, o movimento
endossou a crença de que, fora do trabalho, não há qualquer
possibilidade de realização pessoal.
Quer dizer, o feminismo levantou a bandeira da carreira.
Mas de qual carreira? Não a de mãe e não a tie esposa, mas
a de profissional. Em um primeiro momento, talvez sejamos
persuadiefos a acreditar que o movimento alcançou seus ob­
jetivos, junto com tantas outras transformações sociais e eco­
nômicas das últimas décadas. Afinai, conforme apresentamos
na abertura deste artigo, a participação das mulheres na eco­
nomia vem crescendo e, em muitos casos, superando a dos
homens. Entretanto, um olhar mais atento e sensível a um
outro tipo de dados pode mostrar um instigante fenômeno
envolvendo as mulheres e o mundo corporativo.
Estudos mostram que, no âmbito mundial, apenas 7% de
executivos da alta cúpula das empresas são mulheres. E claro
que esse número sofre variações. Por exemplo, nos Estados
Unidos, ele está em torno de 15%, c no Japão em menos
de 1%. No Brasil, segundo os dados do IBGE (“Síntese de
Indicadores Sociais”, base de dados Pnad - Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios de 2004, divulgado cm 12 de
abril 2006), apenas 3,9% das mulheres ocupadas estão em
cargos de alta direção, enquanto a proporção dos homens é
de 5,5%.
Neste ponto podemos interrogar-nos: seriam esses ín­
73
dices sobre participação qualitativa das mulheres em cargos
de direção prova de que o mercado as exclui ou lhes priva
status elevado em um domínio tradicionalmente masculino?
Ou de que o mercado é preconceituoso quanto à capacida


dc feminina de liderar nossas corporações? Podemos, enliin,
concluir que as diferenças entre os gêneros são muito m.iii
amplas do que o discurso corrente da igualdade nos faz cu if ■
Amparando-nos no mencionacio texto de Wolf e em algimun
intuições contidas no conceito de carreira discutido anteriuí'
Í;í Í Í |
'■ mente, pretendemos sugerir que a resposta para essas qiic-.
tões é negativa. Ou seja, acreditamos que não são tanto n
preconceito ou a discriminação do mercado que interferem
no tipo de participação das mulheres, mas o conflito aparen
temente irreconciliável entre carreira e maternidade. Vejamos
isso a seguir.

4T:. CARREIRA E EMPREGO


»■
Há uma diferença importante entre ter um emprego e
uma carreira. A tese de Wolf é de que a maioria das mulheres
tem um emprego, e não uma carreira. E por uma razão sim
pies: para de fato possuírem esta última, elas têm de abdic.ii
ím
dc serem mães ou então ter apenas um filho. O dilema d.is
W:
mulheres é provocado por efuas características importantes d.i
carreira moderna: primeira, assumir um curso individualisi.i
de ação, quer dizer, ter de orientar-se por valores ligados aos
próprios interesses, à própria autoimagem e ao desejo dc se
destacar em relação a um grupo, inclusive a família. Em uma
sociedade pretensamente burguesa, a carreira é uma das pou
cas - senão a única - formas de acesso a prestígio e status e lá
tor de singularização do sujeito (tornar-se alguém “único” ).
Uma mulher que hoje não possua carreira sente que sua con­
dição é duplamente mais difícil que a do homem, pois, além
de temer o desemprego (que não depende de gênero para sci
74 nefasto), teme ficar sob a tutela dos pais ou mesmo do mari
do. Expressões de senso comum, tais como “pilotar fogão”
ou “ela deu o golpe do baú”, são altamente expressivas dessa
sensibilidade restritiva em relação às mulheres.
Uma segunda característica da carreira moderna é o alto
|!t,m ile sofisticação educacional que ela exige. No mundo in­
tuiu o que se tem observado, lembra novamente Wolf, é ejue
Minllieres mais instruídas são as que têm maiores chances de as-
«iimir postos prestigiados no mercado de trabalho, isso se não
iiu ii in filhos ou tiverem apenas um. Por conseguinte, afirma
I .iiilora, o movimento feminista possui uma dimensão tãlsa na
mnlida em ejue faz dos interesses de uma pequena elite de mu-
llii les instruídas uma regra para todas as mulheres; liberdade e
iniuiiomia para escolherem suas carreiras. Ocorre que grande
|Mile tias mulheres, e o Brasil é exemplar nesse sentido, não
it m .icesso à alta educação, de sorte tjue sua única opção é o
. l^.lmento e, principalmente, a criação dos filhos, intercalado
lum algum tipo de trabalho para a manutenção financeira da
I imilia. Mulheres menos instruídas são hoje as que mais se de-
ilii.im à maternidade (segundo a pesquisa do IBGE já citada,
Maumento da escolaridade feminina reduz a fertilidade). São
mulheres c]ue não têm uma carreira, mas sim um emprego,
piiis sobrepõem diferentes papeis sociais e têm uma orientação
muito mais “coletiva” do que individualista, característica que,
inmo vimos, é flindamental à noção moderna de carreira.
Acreditamos que, para entendermos a situação das mu-
llii res hoje no mercado de trabalho, é muito mais vantajoso
iimsiiierar fatos como a invenção da pílula e a liberação do
I I miportamento sexual feminino (e masculino) do que o su-
piisio preconceito do mercado. Pois à medida que a mulher
timsegue desvencilhar-se da compulsoriedade biológica da
m.iicrnidade, consegue estar livre, disponível e dócil diante
il.is exigências inegociáveis da carreira moderna. Cremos,
portanto, que o discurso da igualdade de oportunidades no
U H u c a d o é predominantemente machista, este sim preconcei­

tuoso, pois implica a fantasia de ejue existem condições idên- 75


tu.is entre homens e mulheres em um nível muito básico, o
que claramente não é verdade. Como consequência, tal dis-
I uiso acaba gerando desigualdades na prática.
o preço pago pela mulher que tenha optado por um.i
carreira certamentc é mais alto do que o pago por um ho
mem. No entanto, dada a atual condição social, não podemos
desconsiderar que a escolha está com a mulher. Então, pode­
mos esperar que, quanto mais elas optarem por uma carreira,
portanto, quanto mais colocarem suas prioridades como in
divíduos em detrimento de sua condição biológica de repro
dução, da família e da tradição, mais as futuras estatísticas irão
mostrar a oscilação do pêndulo a favor delas. O “preconcei
to ” , repetimos mais uma vez para encerrar, é muito mais um
custo de oportunidade, ou seja, uma questão de as mulheres
decidirem pelas perdas que terão enquanto mães ao entrarem
no mercado de trabalho com uma carreira, do que a impo
sição do mundo corporativo machista que não as reconhece
como competentes. No fundo, a questão atinge a todos; é a
sociedade centrada no mercado ejue dita as regras.

76

i
C A P IT U L O 8

IL U S Ã O B IO G R Á F IC A

B, 'iografias e autobiografias são um gênero literário relati­


vamente comum. É provável que o leitor alguma vez já tenha
tomado contato com alguma delas. Nas biografias, um jorna­
lista, cronista ou alguém “próximo” descreve a vida de algum
“notável” . Nas autobiografias, a vida em cjuestão é narrada
iliretamente por quem a viveu. O aspecto comum a ambas,
1'iografia e autobiografia, é procurarem um sentido, encon­
trarem motivos e, principalmente, estabelecerem uma lógica,
linear, para a vida da pessoa.
Isso quer dizer c]ue, ao lermos uma biografia, teremos a
sensação de que o biografado viveu uma vida com propósitos
explícitos, escolhendo situações ou “as superando” e cons-
trnitido sua trajetória conscientemente. Sua vida parecerá um
caminho com encruzilhadas, desafios e dificuldades; mas, aci­
ma de tucio, será uma vida com uma história.
Dificilmente uma história de vida (uma carreira, no jar-
gao gerencialista) será narrada como se o personagem princi­
pal nunca soubesse c]uem era, onde estava e aonde pretendia
I hegar. Mesmo que, de fato, não soubesse, no momento da
narração a vida ganha uma lógica que não tinha ao ser vivida.

77
(AUTO)BIOGRAFIA COTIDIANA

Hm certo sentido, todos nós tratamos nossas vidas como


se l().ssem narrativas orientacfas por algum propósito interior.
íjColocamo-nos todos como firmes observadores de nós p io
jprios, localizando-nos em algum ponto imaginário, às \c/r'.
^temporal, de onde então registramos os “momentos m.n
(_^'antcs” que “nos tornaram quem somos” .
(iada pessoa tende a conceber sua vida como uma histon.i
t^om “começo” (“o início de minha vida profissional”, por c.xcm
pr>Io), etapas sucessivas (estagiário, trainee^ analista, gerente
presidente!) e um “fim” - em sentido duplo, como fim cáe uin.i
trrajetória (aposentadoria), mas também como alcance de um
cabjetivo (a realização de um “sonho” ou “missão de vida” ).
Podemos dizer c]ue essa forma de narrar a vida está pru
fâmdamente impregnada em nossos hábitos e na cultura dn
s-enso comum. Prova disso talvez seja a popularidade d.r.
i^tovelas. Nelas, os personagens são apresentados em diui
s os momentos de suas vidas - que, ao final, convergem pai .i
a,lgum grande propósito realizado (e benefício alcançado)
estrutura arquetípica das novelas e de alguns filmes ilustr.i
rjnuito bem essa tendência a enc]uadrar as experiências pesso.ns
c:m um começo, meio e fim. Quando o “mocinho” não é rc
c ompensado, ou quando o “bandido” não é punido no fin.il,
a frustração é generalizada e o IBOPPi cai.
O mesmo se observ^a no terreno das carreiras profissionais
Sloa no mínimo estranho um candidato dizer a seu fiaturo cm
p^regador que escolheu a empresa em questão “aleatoriamente” ,
c»u simplesmente porque “lhe ocorreu assim, sem mais nem me
mos”. Ao contrário, o candidato deve demonstrar um propósito,
tendo de comprovar uma lógica subjacente segundo a qual ha\ i.i
a]i um “projeto de vida” em que a empresa premeditadamente
se encaixava. Quando o candidato se tornar litncionário, os Ia
tos subseqitentes que lhe ocorrerem (promoções, viagens, ciii
sOS etc.) continuarão sendo ordenados cronologicamente e ile
78
aeordo com relações inteligíveis entre si (“Veja: fi.ii promoviilo
porque soube íàzer as coisas certas”). Também seria no mínimu
estranho um consultor de carreira dizer a seu cliente que a cai
rcíira deste é completamente fortuita.

À
DESMONTANDO O MITO

Essa prática corriqueira e arraigada de conceber a vida


como uma narrativa dotada de sentido não escapou da críti­
ca consistente de filósofos, sociólogos e psicanalistas. Dentre
cies, Pierre Bourdieu, influente sociólogo francês, entende
ijiie conceber a vida como uma sequência significativa e co­
ordenada de eventos é ceder ao ejue ele chama de “ilusão
retórica” .
Para Bourdieu, tornamo-nos “ideólogos de nossa própria
virla” . Na prática, é como se precisássemos convencer-nos de
(]ue somos especiais a ponto de sermos incomparáveis, de que
nossas escolhas foram as acertadas e de que tudo que fizemos
obedeceu a uma razão teleológica. No funtio, contamos his-
I OI ias para nós mesmos porque não conseguimos admitir que
nao sejamos autores, personagens principais no teatro social
cm que nos movimentamos.
Os argumentos de Bourdieu são convincentes. Primeiro,
selecionamos os acontecimentos que mais nos interessam no
momento da narração. Ou seja, olhamos para trás e escolhe­
mos, do amplo conjunto de experiências que tivemos, aquelas
iiija ocorrência reconstruímos em função de nossos desejos
presentes. Há aqui uma aproximação com Freud, quando
este dizia que muitos dos acontecimentos que narramos no
presente sofrem a influência das fantasias, uma espécie de “fil-
im ” a serviço do inconsciente.
Ora, isso faz muito sentido. Afinal, será mesmo que, ao
descrever uma experiência passada, realmente sentimos o que
estávamos sentindo quando ela originalmente ocorreu!’ Uma
pessoa pode dizer, para um novo colega, que deixou seu em­
prego anterior porque foi o pior já teve. Mas isso pode apenas
estar encobrindo o fato de que o chefe estava dando muitos 79
“fn-dhackf' negativos para ela; a crítica do chefe acabou in-
lluenciando sua percepção no sentido de “depreciar” o traba-
llio, que, no fimdo, não era tão ruim assim.
O segundo argumento de Bourdieu é o de que, ao apre
sentarmos nossa vida como uma narrativa autobiográfica, es
tamos reproduzindo uma representação comum da existén
cia amparada em uma longa tradição. Quer dizer, o mundo
social tende a chamar de “normal” pessoas que tenham um.i
identidade constante, previsível e responsável.
O exemplo usado por Bordieu é o nome próprio. O que
é um nome próprio (João, Maria, José) senão a institucionali
zação de uma “mesmice” distribuída no tempoi* Explico: poi
meio dessa estratégia de nominação, o indivíduo ganha um.i
identidade social constante e duradoura. O nome é o ates
tado mais visível da identidade de seu portador e será usado
como objeto dos diversos “comprovantes” sociais: carteira iK
identidade, CPF, certidões e, no campo empresarial, o curri
culum vitae^ expressão máxima da existência individualizad.i
de uma trajetória profissional.
Na prática, o nome próprio é uma “ficção” necessária
Aqui, como no caso anterior, Bordieu se aproxima de outros
grande pensadores. Nietzsche, por exemplo, dizia ser o su
jeito uma ficção de linguagem; já Foucault, influente filósolo
francês, denunciava o que chamava de o “mito do autor” . ( )
nome é, em si, o selo ao mesmo tempo “material” e “ima
terial” da história pessoal. A razão da escolha do nome pelos
pais é o primeiro mito de uma pessoa - nesse caso, a história
que os pais tinham para ela.
Mais importante, conclui Bourdieu, o nome próprio fim
ciona como um modelo oficial de apresentação de si. O “tci
um nome a zelar”, uma crença muito comum à maioria das
pessoas, significa: “Tenho uma história que preciso continuai
a alimentar” . O problema é quando a imagem pública de si
volta-se contra a pessoa, que então se vê representando unu
80 historinha que “acha” ser esperada dela... mas às vezes esi.i
expectativa está só na cabeça dela.
A ILUSÃO DA CARREIRA

A carreira é apenas uma das vias pelas quais podemos


apresentar-nos socialmente e construir nossa identidade
apesar de talvez ser hoje a dominante (na classe média).
Ao entrar nessa via, a singularidade não é, necessariamente, o
ponto forte: ao menos sob certos aspectos, muitos buscam,
de.sejam e fazem as mesmas coisas, pois estão sujeitos às mes­
mas regras - por exemplo, de como “subir na carreira” - , e
essas regras são enquadradas socialmente.
Por exemplo, ninguém se torna presidente (ou qualquer
outro equivalente) só por vontade própria, porque
soube agir da forma certa ou simplesmente porque “sempre
i|uis isso” desde o início dos tempos. Forças muito mais “ir-
i.icionais” podem agir num caso como esse, variando de in-
lluèncias políticas, a capital social, idealizações e identificações
paternas, origem étnica e sucessão familiar.
Além do mais, o cargo de presidente existe muito antes
de o presidente tornar-se presidente - a posição é uma cons-
Inição coletiva na qual se associam stattts, poder e prestígio.
I )esejamos coisas que muitas outras pessoas desejam. Por esse
motivo, podemos ter uma biografia profissional muito mais
previsível e “comum” do que gostaríamos de admitir.
No fim, todas as biografias dos “bem-sucedidos” (c a dos
'‘fracassados” ) são muito parecidas entre si, e isso não é uma
mera correspondência à “verdade” do mercado de trabalho,
fi ata-se de como essas biografias são narradas, “vendidas”
t transformadas em ideologia para alimentar um determina-
tlo espírito de época e conseguir o que o psicólogo francês
lean Léon Beauvois chama de “submissão livremente con­
sentida” .
81
Talvez os proponentes da chamada “administração de
impressão” tenham algo a nos dizer aqui, pelas razões que
nem eles imaginam e a despeito de serem rotulados de apro-
\eit.ulores e antiéticos: numa entrevista de emprego é possível
manipular a percepção do entrevistador e, consequentemen
tc, influenciar suas decisões. Ora, para determinadas ocasiões
sociais, há a exigêmeia de um papel específico c, dessa forma,
é eficiente selecionar a tace social a ser apresentada - construii
a “versão de si” cabível e crível.
Ksta última ideia pode conter mais do que um truque
pueril de manipulação social. Cx^mo metáfora, ela nos lem
bra tiiie o mundo social é constituído de aparências - ou,
filosoficamente falando, de “versões” e “interpretações” com
poderes distintos de credulidade, verdade, institucionalização
ou imposição. E também de histórias (biográficas ou auto
biográficas) que são reconstruídas a posteriori^ de acordo com
interesses c interações específicos.
Penso que aqui se podem abrir duas perspectivas. De um
lado, a de que, na vida, “tudo é ilusão” - aproximando sc
muito de um humor depressivo ou até cínico (não vale a pen.i
agir; todos estão presos num palco de fantoches...). De outro
lado, a de c]ue o mundo social é um teatro, e de que é prcci
so, mesmo no caso da carreira, usar várias “representações do
eu”, para usar expressão do sociólogo Erving Goffman. Entre
esses extremos, há a ficção da singularidade e do controle
pleno da carreira e da vida.

82
C A P IT U L O 9

O A N O 1000 (M EDO E G E S T Ã O )

M arx certa vez disse que o tempo se repete como far­


sa. Um acontecimento c]tie supomos inédito e excepcional
revela-se, no fundo, como continuidade, repetição, transfor­
mação ou prolongamento de acontecimentos passados. Quer
dizer, o que chamamos de “novo” contém, em si mesmo, os
vestígios do que o precedeu.
Frequentemente estamos muito autocentrados na redo­
ma cultural de nossa época para percebermos que não somos
lào inéditos e autênticos quanto julgamos. Quando ouvimos
e acreditamos c]ue vivemos em uma época “de mudanças sem
piecedentes” ou então em uma “época de transições e de
rupturas inigualáveis”, normalmente tázemos vista grossa ao
longo campo da história.
Se ampliássemos as perspectivas, saberiamos que, por
exemplo, logo nos primórdios da Revolução Industrial e do
processo de acumulação primitiva do capital, também se dizia
■is pessoas que elas estavam prestes a presenciar “mudanças
,sem precedentes” ciue abalariam as tradições e as premissas
mais arraigadas.
Portanto, o tempo possui algo de regressivo ou cícli-
lo, o que obviamente não quer dizer que não ocorram
mudanças, rupturas. Significa apenas que essas mudanças, 83
para ocorrer, não partem do zero, de um vácuo cultural.
I ) livro escrito pelo renomado historiador francês Georges
Dubv e intitulado O ano 1000 ilustra de m odo enfático
c quase alegórico esse ponto. A obra é resultado de um.i
dedicada pesquisa do autor a partir dos poucos registros
escritos cm latim no período, a maioria dc autoria cclesi
ástica. Destacamos, neste texto, alguns insi^hts desse livro,
na esperança de contrastar algumas crenças distanciadas
e transmutadas pelo tempo a algumas de nossas próprias
crenças contemporâneas.

CIRCUNSCREVENDO O ANO 1000

Nos grotões medievais europeus, vivia um povo aterrori


zado pela iminência do fim do mundo. Era uma época con
fusa, com espíritos perturbados e continuamente à espera de
algum rompante espetacular e extraordinário vindo do além.
Em termos demográficos, compunham um pequeno número
de homens c]ue viviam às voltas eom a natureza e seus even
tos violentos, providos de uma tecnologia dc sobrevivência
mínima, frec]uentemente assolados pela penúria, pela doença
c pela fome.
Em termos sociais, havia uma forte estrutura hierárquica
formada por escravos e camponeses submetidos ao poderio
de algumas famílias. As figuras políticas eram o rei e o impe
rador, ambos empossados por Deus como seu representante
terreno. Geograficamente, circunscreviam-sc no território que
hoje é a Erança, parte da Alemanha, Inglaterra e Irlanda.

SOCIEDADE AMEDRONTADA

Para os homens do ano 1000, a vida cotidiana parecia


84
importar pouco. Na verdade, Duby destaca não haver régis
tros de grandes acontecimentos reais no período. Os poucos
registros escritos não são conclusivos. Em contrapartida, seu
principal valor histórico reside na contribuição às mentalida
ilcs c às representações coletivas, que, pelo seu caráter totali
l.irio, engolfavam o modo de ser e tfe viver das pessoas.
Tal mentalidade coletiva girava em torno da ideia do
liií/.o Final (ver ilustrações). De acordo com as escrituras, so-
hreludo o livro do Apocalipse de João, o próprio Jesus, no
linal do milênio, chegaria em seu cavalo branco armado com
.1 espada vingadora para o acerto final de contas. Não bastas­
se isso, o mesmo Apocalipse também previa a lilaertação do
I >emônio após os mil anos. Mas, ent]uanto o Juízo Final não
ocorria, as pessoas colocavam-se em clima de espera.
A espera, elas ficavam atentas aos sinais e presságios de
(ii ilem espiritual, praticamente os únicos aos c]uais eram sensí-
uás. Entre esses sinais estavam a passagem de cometas, tremo-
les de terra e eclipses. Assim escreve Sigeberto de Bembloux:
“Viram-se nesta época muitos procJígios, um terrível tremor
de terra, um cometa de rasto fulgurante; a irrupção luminosa
invadiu o interior das casas e, através de uma fratura do céu,
.ipareceu a imagem de uma serpente” .
dbdas essas manifestações eram unificadas pelo mesmo
princípio: de que a ordem do universo estava agitada por
perturbações prodigiosas portadoras de alguma mensagem.
( )s fiéis deveriam ver nelas manifestações que emanavam do
próprio divino. Porém, a cada acontecimento, o medo pro­
pagava-se em ondas. Por exemplo, uma tempestade violenta
(UI a notícia da destruição do Santo Sepulcro, ambas em 909,
|,i eram suficientes para causar turbulência na massa. Tudo era
indício da catástrofe.

EXCLUSÕES E PENITENCIAS

Nessa época difunde-se na Igreja o uso da excomunhão 85


e do interdito, cujo propósito era isolar os membros atin­
gidos pelo mal a fim de que não contaminassem os outros.
1'ambém foi uma época, escreve Duby, iluminada pelo fogo

L
das fogueiras, nas quais eram sacrificados (“purificados” ) os
hereges e as “feiticeiras” .
As penitências envolviam formas variadas de mortificações
corporais, tais como jejuns e austeridade sexual. Sobretudo
os monges enveredavam-se nesse caminho, figurando como
exemplos de penitentes a serem seguidos. Outras formas de
penitência incluíam a peregrinação a túmulos, abadias e locais
sagrados, tais como Jerusalém. Inclusive, para os prelados d.i
época, havia uma relação estreita entre as peregrinações e ,i
aproximação do fim dos tempos. Na prática, essas peregrina
ções envolviam elevados riscos, pois as pessoas deixavam suas
casas e se punham a caminho sujeitando-se a todo tipo dc
intempérie.

TEMPO E MENTALIDADE COLETIVA

O mais impressionante nos relatos dos fragmentos dos re


ligiosos do ano 1000 é o notável contraste com fatos “reais”
Duby menciona que, ao se examinarem escritos históricos, <>
ano 1000 passa despercebido - simplesmente como mais um
na história. Há, em verdade, um grande silêncio, conclui o
autor, sobre o milésimo ano da encarnação de Cristo.
Contudo, relatos posteriores, mesmo que mais “confia
veis”, não apagam a intensidade dos fenômenos coletivos dc
pânico supostamente vivenciados naquele período da história
ocidental. Em primeiro lugar, porque tais relatos foram es
critos posteriormente no tempo; logo, neutros ao “humor”
cultural de então. Em segundo lugar, como é bem sabido
agora que o “mundo” não acabou no ano 1000, pode-se en
tão julgar como infundadas e mesmo insanas as crenças dos
86 homens que viveram naquela época. Ou se pode racionalizai
a questão e dizer que se tratava de crenças exclusivas de um.i
pec]uena elite eclesiástica interessada na manipulação social ilc
uma turbe despossuída e sugestionável.
C) livro de Duby é uma oportunidade interessante para
eniendermos as atitudes mentais de uma época e sua colo
i.iyào em perspectiva no tempo. A escolha do ano 1()()() nào
loi fortuita: trata-se da primeira versão do “pensamento mi-
Iniarista”, segundo o qual, sempre ao final de um milênio,
deve-se esperar por grandes catástrofes ou rupturas. Alias,
lomo aconteceu na virada do ano 2000, quando não só seitas
Imidamentalistas mas também parcelas da população acredi­
tavam estar à beira do perigo ou do caos - como aconteceu
lom a possibilidade do do milênio, por exemplo.
Adicionalmente, o ano 1000 pode ser visto como a antí­
tese do Renascimento, quando as “luzes” dissipam as trevas
da ignorância e das mirabolâncias da Igreja e inauguram uma
nova forma de entender o mundo, as relações humanas e a
própria história. Por exemplo, para o cristianismo, a história
possui uma orientação, e o mundo possui uma idade; foi cria­
do por Deus em um dado momento e será novamente por
l',le, em um outro momento, recuperado. Hoje sabemos que
.1 liistória é um processo aberto, às vezes até mesmo errático.
Mesmo assim, e aqui reside o essencial, o ano 1000 não mor-
teii inteiramente na longa tradição do Ocidente, e isso nos
leinete à ideia central que procuramos demonstrar, de que
iio.ssas próprias crenças não são peças construídas no vácuo.

RESQUÍCIOS DO PASSADO

O próprio Duby lançou mais recentemente um livro no


qual compara, de forma livre, o ano 1000 ao ano 2000 (pu­
blicado no Brasil pela Unesp). O autor não afirma que nos­
sas crenças, principalmente nossos medos, de hoje são conti­
nuidades, puras e simples, daqueles medos vivenciados pelo 87
homem do ano 1000. Entretanto, a leitura deste seu último
livro nos permite concluir que há pontos de aproximação.
Similaridades e também pontos de distanciamento de nossas
sociedades atuais em relação àquele período. Em particul.ii ,
ainda vivemos questões mal-resolvidas, que se estendem des
de o passado.
Alguns exemplos são muito ilustrativos. O mais óbvio e ,i
permanência do pensamento religioso em nossas sociedades
() milênio que presenciou a ascensão e prestígio da ciênci.i
também assistiu ao recrudescimento de guerras religiosas
Ademais, o pensamento religioso permanece como um rccui
so importante na explicação da própria existência para muit.is
pessoas diante de um destino secularizado.
No campo da Administração, vivemos sob a influênci.i
de “novos profetas”, que põem medo a uma massa de pes
soas cujas carreiras muitas vezes são uma nuvem de fumaç.i
Como os clérigos do ano 1000, muitos desses novos profct.is
ganham a vida primeiro criando cenários catastróficos e cn
catológicos e depois vendendo soluções para o mal que eles
próprios ajudaram criar.
Por fim, a Igreja foi parcialmente substituída hoje pelas
empresas, que também possuem seus “apocalipses” racionais
e laicos. Guardadas as devidas e pertinentes proporções, não
seria cabível imaginar que, diante da permanente ameaç.i
de demissão, de rebaixamento de salário e de todo tipo dc
“corte” ou cerceamento simbólico praticado pelas empresas,
nossos contemporâneos não se sintam um pouco como os
homens do ano 1000, sempre a postos para não ser pegos lii-
surpresa pelo Juiz do Evento Final.!’ Por tudo isso, podemos
pensar que o tempo é um verdadeiro baú de tesouros arque
típicos.

88
0 apocalipse de Saint-Sever.
O s cavalos com cabeça de leão. Século XI.

89

0 apocalipse de Saint-Server.
A quarta visão profética. Século XI
I;i
PARTE II

PARA UMA CRÍTICA


DA IDEOLOGIA GERENCIAL

L
11
C A P IT U L O 10

C O O P E R A R PARA C O M P E T IR
O U C O M P E T IR PARA C O O P E R A R ?

D c partida, o tem a deste capítulo lança um forte re­


cado contraditório: por um lado, a cooperação, por outro,
a competição, ambos coexistindo na “vivência da classe tra­
balhadora” . O primeiro membro deste par, aparentemente
contraditório, lembra-nos do pronome comunal “nós”, ao
passo c]ue o outro mem bro, a competição, lembra-nos do
pronome de primeira pessoa, em princípio não-comunal,
“eu” . Tanto a “cooperação” quanto a “competição” têm um
discurso próprio, discurso que equaciona cada uma destas
palavras num universo linguístico específico, numa prática
social específica. O “discurso da cooperação” e o “discurso
da competição”, por assim dizer, não figuram num vácuo se­
mântico. Por detrás de cada um deles há um conjunto de
crenças e de regras que determinam o modo como são apre­
sentados e o modo com o instituem formas de vida, isto é,
como ganham textura subjetiva e como passam a determinar
comportamentos, estilos e práticas sociais.
O meu objetivo aqui é discutir o par “cooperação” e
“competição” tendo como referência o trabalho. Contudo,
não penso que o trabalho seja o setting exclusivo para esse
93
tipo de discussão. Por isso acho interessante fazer uma rápida
problematização sobre a importância que atribuímos ao tra­
balho num momento como este, momento em que prolifera
o discurso do “fim do trabalho” - pelo menos de uma de suas

À
designações clássicas, justamente aquela que tinha como Ias
tro moral a chamada “ética protestante do trabalho” .
Sendo assim, o texto está dividido em três pontos: ( 1 )
num primeiro vou lazer um comentário sobre a importância
do trabalho para a formação subjetiva, procurando mostrar
que do posicionamento que tomemos quanto a esta questão
depende nossa visão sobre a cooperação c a competição n.i
“vivência da classe trabalhadora”; (2) num segundo ponto
vou procurar fazer uma análise das principais características
do corpo de crenças que sustentam o discurso da cooperação
e da competição, tendo como referência uma análise do con
texto do mercado de trabalho atual; (3) por fim, vou proble
matizar o modelo de subjetividade contida nos dois referidos
discursos a partir de uma reconstrução das crenças que os
sustentam, tentando mostrar outras alternativas éticas para os
pares “subjetividade/trabalho”, “cooperação/competição”
neste início de século.

PONTO l:TRABALHO E SUBJETIVIDADE

Começo com uma pergunta: Qual é a importância do


trabalho para a formação da subjetividade? Ora, esta pergunta
pode pressupor, a priori, que há uma importância do trabalho
para a formação da subjetividade. Por isso, é preciso uma per
gunta anterior: Como definir a subjetividade?
A partir de meu ponto de vista teórico, que se ori
gina cia filosofia neopragmática da linguagem, considero
“subjetividade” como uma prática linguística. Isto é, subje­
tividade è um efeito das linguagens que determinam suas re­
gras de formação e reconhecimento privado e público. Ela e-
94 uma decorrência do uso de nossos vocabulários ou da manei
ra como aprendemos a ser sujeitos. “Vocabulário”, tal como
empregado aqui, não tem o sentido de mero glossário; pelo
contrário, usado em seu sentido neopragmático, é sinônimo
de prática linguística, de jogos de linguagens ou fornias de
vida. Segundo Wittgenstein, vocabulário tem o mesmo signi
ficado de linguagem. O aspecto mais importante a destacar é
que vocabulários diversos criam ou reproduzem subjetivida­
des diversas.
Com esta definição, aquilo que postulamos como
“importante para a formação da subjetividade” só será impor­
tante tendo em vista o sistema global de crenças adotado. Por
exemplo, se lembrarmos da chamada “sociedade de classes”,
sobretudo quando esta vertente atingiu seu pico, no século
XIX, a posição do trabalho para a descrição da subjetivida­
de tinha uma importância capital, não porque a “essência”
da subjetividade fosse o trabalho, ou algo ligado a ele, mas
porque um conjunto de crenças culturais descreviam como
“verdadeira” a estreita ligação entre o trabalho e o próprio
caráter pessoal.
A ética protestante do trabalho pode ser caracterizada
como um conjunto de crenças que descreve a subjetividade a
partir do ponto de vista do trabalho. Esta ética forma um vo­
cabulário próprio, compondo roteiros, verdades, “essências”
e “realidades” sobre o ser humano. Nesta ética, o humano
“verdadeiro” era justamente o “humano no trabalho”, aqui
entendido como algo mais do que meramente uma ocupação
liincional ou então um emprego. O “emprego” era apenas

I
a predicação de uma categoria ontológica mais abrangen­
te: o trabalho, a maneira como o “ser humano verdadeiro”
encontrou para dominar a natureza e expressar sua “verdadeira
subjetividade” . Então, para este discurso, o trabalho era uma
categoria psicológico-antropológica chave, e o ser humano
era o c]ue era tão somente por sua posição dentro de classes,
telles, associações etc. que tinham como epicentro o traba-
IIU ).
95
Do ponto de vista, digamos, sociológico, a centralidade
do trabalho era paralela a uma baixa oferta de referenciais siib
jetivos na cultura como um todo. Esta é uma hipótese. Além
disso, as transformações por que vem passando o trabalho
foram abalando sua posição central e essencial na definição da
subjetividade. Hoje há muitos vocabulários alternativos para
tal descrição, e não há mais espaço para uma metanarrati
va, como a metanarrativa que centralizava única e exclusiva
mente no trabalho a “essência” do humano. Olhando para o
horizonte cultural de um modo amplo, sem centrar a atenção
em particularitiades, é possível vislumbrar centenas de voca
bulários de descrição subjetiva.
Por um lado, isso enriquece a subjetividade, pois o “ser
humano verdadeiro” deixa de ser encarado como tendo uma
única faceta, justamente a faceta que o ligava ao trabalho.
Outro aspecto é que hoje não há trabalho para todos, e nem
por isso haverá um “empobrecimento” subjetivo, desde
que entendamos a subjetividade como algo que possa sci
continuamente redescrito. Neste caso estou acentuando os
efeitos psicológicos da lálta de trabalho. Fica de fora a ana
lise das netástas consequências econômicas desta escassez de­
postos de trabalho, o que já serve para entristecer a comemo
ração “do dia do trabalho” . Contudo, a partir do ponto tlc
vista que assumo, o trabalho não é um referente privilegiado c
único de descrição subjetiva, fato que serve para minimizar
pergunta com que comecei: “Qual a importância do trabalho
para a formação da subjetividade.^” . A importância do trab.i
Iho para tal formação vai depender da descrição ejue fizermos,
não vai depender da “realidade em si”, mas de nossas escolhas
descritivas e da adequação destas escolhas com o restante das
crenças culturais sobre a matéria. E neste contexto teórico
que passó à análise da “cooperação” e da “competição” n.i
vivência da classe trabalhadora.

96
•i I
í
PONTO 2:0 DISCURSO DA
COOPERAÇÃO E DA COMPETIÇÃO

No moderno mercado de trabalho, o discurso da


cooperação transfigurou-se no conceito de “trabalho em
equipe”. Trabalhar em grupo, defender objetivos a curto prazo
levando-se em conta a diversidades de parceiros, tornou-se o
jargão mais aceito do momento. Este discLirso consiste em fã-
zer-nos crer que a autoridade é diluítia em unidades de traba­
lho marcadas pela cooperação entre pessoas que visam fins
semelhantes, a princípio os fins da organização. Além cio mais,
o discurso da cooperação procura conter, do ponto de vista
prático, a inevitável catástrofe que ocorreria caso os indivíduos
l()ssem entregues à sorte de seus próprios interesses privados,
pessoais. A individualidade e a competição em excesso pode­
riam destroçar o desempenho em grupo.
A metáfora que predomina dentro deste discurso da
cooperação é a do esporte. O trabalho em equipe é visto
como a melhor forma de desenvolver os talentos indivi­
duais. Ciontudo, este trabalho em equipe funciona à base
de uma depreciação cultural muito séria e profunda que
segue em andamento: a depreciação da “dependência” . O
iliscurso da cooperação moderno opera jogando para bai-
\n do tapete o fato de que seres humanos dependem uns
(los outros para realizar seus propósitos. Ao inflar artifi-
(i.ilmente e ilusoriamente o pronome “nós” do trabalho
de equipe, o discurso da cooperação cria uma contradi-
(,.io subjetiva imensa: ao mesmo tempo em que incentiva
.1 “cooperação”, ele demoniza a dependência, celebrando
.1 .lutonomia e a independência, porém autonomia e inde­
pendência EM E Q U IP E . As discussões sobre as redes de assis-
97
lencia atuais e cooperação que não visem necessariamente
(ibjeiivos de organizações específicas são vistas como “coisa
de parasitas” , que querem puxar para baixo a parcela de
indivíduos vencedores e autônomos.
Por outro lado, o discurso da competição coexiste com
o discurso da cooperação. Temos aqui uma subjetividade cm
constante conflito: ao mesmo tempo em que temos de lid.ii
com trabalhos em ec]uipe - com a cooperação - , temos dc
lidar com o fato, duro e cruel, de que se não for esperto sci.i
passado para trás, e será passado para trás pela equipe! É o tipi >
dc equipe que só se forma quando há vitória. Não há passado,
não há história; há arranjos momentâneos no “time” que \.ii
jogar certo jogo, aqui e agora. O discurso da competição,
neste sentido, não age neutralizando a cooperação, pois am
bos fazem parte de uma mesma rede de crenças; a rede
crenças que coloca o modelo esportivo como metáfora d,i
subjetividade “sauciável”, “bem realizada”, “bem-sucedida”
Neste modelo esportivo só importa a vitória. () discurso d,i
concorrência, por incrível que pareça, é o motor, o tutann.
do discurso da cooperação nas modernas configurações orjia
nizacionais de hoje, sobretudo das empresas “globalizadas”,
onde o espaço e o tempo - indispensáveis para a formação de
redes de solidariedade e cooperação duradouras - são fuga/es
e rearranjáveis.

PONTO 3; SUBJETIVIDADE
Et r a b a l h o REDESCRITOS

Pensemos na ideia de “classe trabalhadora” . Aprincípi( >,cl.i


pode levar-nos a pensar em certa ideia de “homogeneidatie”
Os trabalhadores teriam, nesta visão equivocada, uma nui.i
comum, interesses comuns e necessidades comuns. Na s o c i e ­
dade de classes do marxismo isso teria feito muito sentido. A
“classe trabalhadora” era vista como um imenso corpo e|iic
98
exalava o mesmo cheiro e pedia a mesma coisa. No discurso
de muitos sindicatos atuais isso não soaria ao todo estranho,
embora a concepção geral quanto às particularidades de i .ul.i
trabalho tenha mudado. Mas não creio ser neste contcxio

1 iil
que deveriamos falar em cooperação. Cooperação não impli
ca apenas um conjunto de trabalhadores que se reúnem para
chegar a uma meta idêntica para uma determinada categoria
com objetivos iguais - identidades iguais ou coisa do tipo.
Nem tampouco é a mesma coisa c]ue a ideia moderna, típica
do bê-á-bá do mercado de trabalho, de cooperação - essa que
vimos há pouco.
Em primeiro lugar, ao livrarmos nossa análise de conceitos
essencialistas, como o conceito de que o trabalho c essencial
para a formação da subjetividade, podemos começar a pensar
num tipo de cooperação que não se resuma ao trabalho, mas
que resgate o sentido positivo da dependência humana. Não
haveria cooperação se não houvesse uma necessidade, se não
houvesse o reconhecimento de que o ser humano depende de
outros para sobreviver, tanto física quanto psicologicamente.
A ligação social nasce, da forma mais elementar, do senso de
mútua dependência. Cooperar não significa inflar o prono­
me “nós” e colocar sobre ele todos os “eus”, formatando-os
na ilusão de objetivos únicos e semelhantes - trabalhistas ou
outros. Não tenho como fornecer uma concepção única do
que seja a cooperação; isso iria variar de acordo com minhas
preferências morais ou éticas e minhas experiências de vida. O
que pretendo mostrar é que o discurso da cooperação típico
de nossos dias tende a trabalhar numa navalha incongruente;
de um lado, a cooperação é incentivada, mas até o ponto em
que não signifique dependência e tolhimento da iniciativa e
autonomia individuais. Esta é a visão predominante.
Uma das características de nossa época é a produção de
uma subjetividade coilnerável. Não é para menos, pois a cada
tlia que passa acreditamos menos na comunidade, achando
que isso é coisa ou das ONGs ou das pessoas que não têm
muito o que fazer. Curiosamente, a cooperação que ressalta 99
este aspecto comunitário, de redes de solidariedade e de con-
linência mútua, tornou-se algo como um hobby que inclu­
sive está agora servindo como “aspecto de excelência” para
candidatos a emprego. A cultura, a sociedade, estão sendo
repassados pelo discurso organizacional, este em que ate aii
vidades comunitárias transformam-se em valor monetário
A cooperação e a solidariedade são, hoje, defensivas, e náo
visam conversações culturais mais profundas, a formação di
um ambiente em c]ue a diferença possa surgir e, a despeito ilc
surgir, possa ser aceita como pura diferença num grupo, e na< >
enejuadrada em manuais sobre como “ir bem numa dinâmii ,i
de grupo” ou como “construir uma equipe de sucesso” .
O desafio é romper o monólito que liga a solidarieil.i
de e a cooperação ao discurso sobre o trabalho [pelo menos
no sentido de “mercado de trabalho” ]. Ao rompê-lo taluv
consigamos devolver certa positividade ao fato de que coo
peração e dependência fazem interface uma com a outra. ,\
cooperação pressupõe a presença do conflito e a disposição
do outro para reconhecer-nos como um ser com o mesmo
estatuto ético, independentemente de nossa posição no cm
prego. Se considerarmos eque numa época como a nossa .1
“classe trabalhadora” dissolveu-se em muitas fágulhas, com
distintos interesses e distintas dificuldades, talvez seja mais
promissor encontrar outros pontos de ligação com o outro
Caso contrário, a competição, esta c]ue desde a manhã aic .1
noite encontramos em nossos leitos, vai continuar a ditar o
que no passado já nos ditaram; “Seja competitivo; afinal, c m ,1
é a essência verdadeira do ser humano” .

100
C A P IT U L O I I

O V O C A B U L Á R IO DA
H A B IL ID A D E E D A C O M P E T Ê N C IA

Meu amigo, há algumas regrinhas que você, que quer su­


bir na vida, tem de saber na ponta da língua. Primeira, nunca
pare de estudar, você tem de ampliar cada vez mais todos os
seus conhecimentos, em todas as esferas de sua vida. Estude,
procure sempre se manter atualizado, informado, por dentro
de tudo o que se passa ao seu redor, na família, no trabalho,
no grupo de amigos e até na feirinha de bairro em que vai
todo domingo. Segunda regra: é uma decorrência da ante­
rior, pois se você estudar sempre, se reciclar sempre, estará
habilitado para concorrer no mercado, para se diferenciar de
seus adversários ou oponentes; você não precisará sequer se
filiar a uma empresa, pois será ela que ganhará em tê-lo como
parceiro. Resumindo, então: faça a diferença, aprenda, seja
esperto e, acima de tudo, do it by yourself.

O excerto acima bem poderia fazer parte da ficção,


sem vínculo nenhum com a realidade. Mas não. O vocabulá-
IIO aí empregado e as regras semânticas nele veiculadas já nos
s.u) tão familiares, tão comuns e naturais, que não podemos
duvidar delas, nem muito menos nos dar conta cie como se
lormaram. O que parece ser visível são seus efeitos inques-
lionavelmente reais, presentes nas cenas do dia-a-dia de boa 101
parte das pessoas, estejam onde estiverem.
O curioso, nisso tudo, é o menos notado: como é que
.ipreendemos a intenção de sentenças como as colocadas aci

I
ma? Ou seja, por que elas fazem sentido entre nós? Alguns
podem dizer que simplesmente as aprendemos. De tanto
ouvi-las, escrevê-las, vê-las escritas, comentadas e faladas, aca
bamos por, intuitivamente, reproduzi-las em nosso próprio
repertório linguístico e comportamental. E isso não é pouco.
Muito se fez a partir daí. Mas, se prestarmos bastante ateu
ção, poderemos ver que muitos dos termos empregados são
tão genéricos que podem, no limite, ser aplicados a quaisquer
situações, a quaisquer propósitos, sejam eles na empresa oii
não. De onde proviria esta abrangência de escopo?
Genéricos ou não, eles “funcionam” . Funcionam,
primeiro, porque são “necessários” . Afinal, quem ousaria
discordar de c]ue estamos num momento em que aquisição
e aperfeiçoamento de habilidades são simplesmente fiinda
mentais? Argumento: se eu não estudar, estou fora; se eu não
for competente, estarei colocado na linha do trem; se eu não
apreender as contingências ao meu redor e transformá-las
adequadamente, serei passado para trás. As exigências são cia
ras e têm endereço certo. Mas tenho de colocar uma questão:
como aqueles termos que apresentei acima puderam se reves
tir com esse caráter de necessidade? Ora, poder-se-ia argu
mentar, novamente, c]ue são necessários porque a “realidade”
assim o exige. Mas isso seria uma redundância c]ue pouco
nos diz. Então poderíamos pensar c]ue esses termos são assim
importantes porque o mercado os demanda, a economia os
incentiva, o “meio” os criou etc. Suponhamos, entretanto,
outro caminho.
Se as “evidências” da “realidade” não satisfazem intei
ramente as condições para uma boa explicação sobre a noss.i
aceitação do vocabulário da habilidade e competência (tal c o i i k >
foi sinteticamente exemplificado no exemplo de partida)
102
onde então poderíamos encontrá-la? Tenho uma hipótese
tal vocabulário tornou-se plausível simplesmente pelo fato cf-
que ele atende a fortes motivos pragmáticos. Colocando dc
outra forma: se admitirmos que a linguagem não é meramen
ic um “representante” da “realidade” e se admitirmos que as
l^alavras são ferramentas das quais dispomos para responder
ao mundo, então não seria distante admitir que a linguagem
é unn forma de vida^ expressa em vários jogos de linguagem,
em várias e distintas formas de interagir com os estímulos do
)nundo em que vivemos. “M undo” , aqui, significa: as pessoas
com as quais se convive; as situações-desafio com as quais se
é confrontado; todos os objetos que aprendemos a descrever
e a relacionar com outros objetos.
Então, podemos pensar: se termos como “aprendizagem
constante”; “ac]uisição de competências e conhecimento” ;
“competitividade”; “enfrentamento do mercado de trabalho”,
entre tantos outros, são plausíveis, ou seja, são “verdadeiros”
(no sentido de que os autorizamos como regras ou normas
de comportamentos induzidos e valorizados, seja como
“necessários” , “reais” ou “corretos” ), é porque eles visam
certos propeásitos, instituem uma dada forma de vida, articu­
lam certo jogo de linguagem - e tudo isso tem implicações
imediatas sobre como nos comportamos, sobre como admiti­
mos os outros, sobre como achamos que devem ser nossa vicia
c nossas relações mútuas. Enfim, trazendo para o caso ac]ui,
icssc jogo de linguagem é plausível porque fomos instruídos
e treinados a reagir a ele na cjualidade de complexos discursi­
vos, cuja validade pragmática (ou prática) até então se provou
“eficaz”, pelo menos dentro de um determinado parâmetro
social e subjetivo e de determinadas formas de vida. No caso,
dentro do parâmetro do chamado “mercado de trabalho”, da
“economia” e, principalmente, dentro das chamadas “teorias
(Ic gerenciamento de recursos humanos” .
Neste capítulo vou tentar responder a três indagações.
I'l imeira: Em que contexto as ditas “habilidades” passaram a
lazer sentido para nós, tornando-se um aspecto privilegia 103
do da pauta de discussões do Gerenciamento de Recursos
I lumanos? Segunda: Como o vocabulário c][ue enuncia ou ex
pressa tais habilidades passou a consúxmr formas dc vida, ou
jo£os de linguafiem^ de interesse comum? Terceira: Quais as
relações desse vocabulário com a produção da subjetividade?
Essas três indagações talvez pareçam mais ambiciosas do qiu
esse texto pode, a princípio, suportar. Para evitar esse risco,
vou adotar ac]ui um tom próximo ao de uma crônica, e .1
preocupação central estará orientada para o levantamento de
questões - mais do que para demonstrações sistemáticas e
exaustivas de respostas. Por essa razão, será feita uma revisão
bastante precisa e específica da literatura, selecionando aque
Ias contribuições teóricas mais diretamente envolvidas com .1
discussão que se segue.

UM START NEOPRAGMATICO

Quando falamos em habilidades - s k i l l s pensamos em


que exatamente? Seja o que for que pensemos, isso não sera
feito num vácuo semântico. Para sabermos o que c ou não c
uma habilidade, a c|ue exatamente ela visa ou responde, te
mos de situá-la, falar sobre ela, colocá-la numa trama de ter
mos e num determinado jogo de linguagem. E, além disso,
temos de enganchá-la numa determinada teoria de verdade
Esta última significa exatamente um acordo entre falantes il.i
língua acerca do valor de verdade atribuído à conexão entie
um referente c aquilo que ele denomina.
Colocando de outra forma: “verdade”, aqui, não tem um
sentido epistemológico (ou seja, um sentido qtie arbitraria as
condições necessárias para o conhecimento legítimo, para a atli-
quada apreensão do esquema sujeito-objeto), mas sim um sen
tido semântico: podemos apenas dizer o que é verdade com< >
sendo efeito de interpretação, isto c, não há nada no conceito tk
104 verdade senão um intérprete olhando uma atividade linguístic.i
como causalmente conectada com alguma coisa do mundo.
Isso significa que o termo “verdade” não pode explic.n
como viemos a constituir nossas crenças sobre o mundo; sim
plesmciite diz como é que passamos a chamar certas crenças de
verdadeiras. Mas o termo “verdade” não c inócuo: de rcsulia
de acordo entre pessoas. Nesse contexto, dizer que algo é \'cr
dadeiro implica uma concordância de propósitos e a disposição
para se aceitar o comportamento linguístico do outro como
.semelhante àquele de quem tala. A “verdade”, no sentido que
usamos aqui, é um termo de aprovação (Costa, 1992, 1994,
1995,1998,1999; Davidson, 1985; Ghiraldelli Jr., 1997, 1998,
1999,2000a, 2000b; Rorty, 1979,1991, 1995, 1999).
Mas, apesar de restringir assim o conceito de verdade,
deslocando-o da epistemologia (do Cogito) para a semântica
(para a linguagem), temtas de dar um passo à frente. Se a dis­
cussão semântica da verdade nãta pode fazer nada além de
nos apontar que esse/aquele termo é verdadeiro, em função
de certos propósitos, acordos e circunstâncias, ele também
não pode nos dizer por que viemos a adotar certas crenças,
oii certas palavras, para designar certas coisas do mundo.
1’ara tanto é preciso um outro ponto: a história das ju stifi­
cações{Costz, 1995). Tentando trocar em miúdos: uma vez
no campo de tal história, temos de nos preocupar com a
seguinte questão; Como é que elegemos certos termos para
designar certas coisasi“
Isto é, trata-se de justificar, ou de tornar plausível, o c]ue
1 .1 /, - ou fez - com que possamos admitir determinadas cren-
(,.is como verdadeiras, tais como as crenças embutidas nos dis-
un sos que tratam de competência, desempenho profissional
e/ou empresarial, algumas das quais expostas no pequeno
cccmplo que dei ao iniciar este texto. Pois, afinal, não pode-
iniis convencer-nos de que um dado vocabulário nos é dado
dc graça, voluntariamente, seja por força das “evidências em-
|iiMcas” (a economia, o mercado, o psiquismo etc.), seja por
picssão da “naturalidade” do “mundo”. E preciso avançar 105
t in direção a um tipo de genealogia de alguns termos c]ue
I tnprcgamps e que tratamos como peças naturais depositadas
muna espécie de museu em nossa mente.
É por esse viés que pretendo abordar o que se poden.\
aqui denominar como sendo o vocabulário das habilidades c
da competência. Penso eu que devemos analisar as conexõt s
existentes na malha de crenças que constitui esse vocabulário
como articuladas em torno de uma serie de normas e regra-,
que prescrevem e orientam um determinado construeto sc
mântico cm cpie, aí sim, termos ganham sentido e existênci.i,
de modo a configurarem um complexo de práticas discursix ,is
aprovadas e aceitas. Tal complexo pode ter como aspectos
nucleares as seguintes crenças:

- a ideia de ação individual;


- a ideia de personalidade;
- a ideia de performance;
- a ideia de learninjj society.

Pim meu modo de ver a questão, que será detalhado cm


la, essas quatro crenças poderiam estar na base de for
mação e plausibilidade do vocabulário das habilidades c da
competência, pois para que este pudesse ser formado ele tci i.i
de associar-se a outras crenças tidas, elas também, por vcrd.i
deiras. A coerência desse vocabulário e, mais ainda, seu car.i
ter de necessidade ou naturalidade (intuitivamente extraído^
de mensagens como a que citei no início) advém de sua rei
ficação no quadro de descrições, justificativas e razões que
identificam o jogo de linguagem do trabalho nas chamatl.is
sociedades pós-industriais, nas sociedades em que passa a pre
dominar a flexibilidade dos mercados e da economia, enlim,
nas sociedades orientadas pelo viés neoliberal.
Esse último ponto poderia levantar uma objeção, afin.il,
a flexibilização do trabalho e dos mercados, o viés neolibci'.il
106
e a caracterização de uma sociedade pós-industrial não sao
termos isolados, desligados daquele jogo de linguagem qiu
deu origem ao vocabulário das habilidades e da competênci.i
(ambos agindo um sobre o outro). Este último não teria .1

J
força que tem exceto se atendesse a certos propósitos, e não
seria absurdo dizer que tais propósitos são, entre muitos ou
iros, os seguintes:

• Incrementar a produtividade do trabalho, ou seja,


qualificar pessoas para desempenharem várias funções ao
mesmo tempo, arcando com várias competências.
• Fazer o indivíduo gerir responsabilidades privadas
pela condução de sua própria vida profissional. Isso impli­
ca o seguinte: o indivíduo tem de bancar os custos de sua
formação profissional; ele tem de avaliar-se periodicamente
para ver se está adequado às regras e exigências c]ue o mer­
cado demanda dele.
• Desmantelar a confiança, tanto em ações tomadas em
conjunto, visando interesses públicos, quanto na ação e eficácia
do Estado para gerir dificuldades ou conflitos na sociedade.
• Já que as empresas não têm mais condições de garan­
tir o pleno emprego, elas procuram incentivar os indivíduos
.1 manter sua empregabilidade para o mercado e, assim, elas
próprias estão suscetíveis de contratar pessoas com maior ní­
vel de habilidades. Visa-se, aqui, a desregulamentação do tra­
balho e dos direitos trabalhistas.
• Aumentar a concorrência das empresas, principalmente
no que concerne à participação delas no mercado mundial: a
variável qualidade de pessoas é muito importante para a eficiên­
cia e competitividade, principalmente num momento em que
a produção de bens simbólicos c fundamental (propaganda,
tecnologias de informação etc.).
• Criar, por um lado, um upskilling no mercado de
trabalho, fazendo crescer rapidamente e se intensificar
agressivamente o nível geral de formação técnico-profissional
107
de carreiras sofisticadas e de ponta. Por outro lado, criar uma
maior polarização entre carreiras, pois aciuelas onde se exige
(ainda) menor formação tendem a ter um achatamento nas
Mias tàixas dc rendimento.
Esses propósitos, escolhidos dentre uma variedade de
elementos muito ampla, servem para nos alertar de que o
aqui denominado vocabulário da competência e da habilidade
não é meramente uma nominação, ou seja, a atribuição de
um nome, pura e simplesmente, àquelas questões relativas ao
trabalho, às empresas, ao mercado e mesmo ao Estado. Pelo
contrário, ele é uma poderosa maneira de descrever como se
articulam certos objetivos e propósitos, muitos deles ligados
a questões de poder, força, violência física, dominação, e.\
ploração etc., com nossas crenças sobre quem devemos ser em
matéria de trabalho e /o u desempenho profissional. A seguii
vamos detalhar as quatro crenças acima apontadas, tentando
ver seu papel vital nos discursos e formas de vida implicados
na teia de crenças e de justificativas do vocabulário da habili
dade profissional.

O VOCABULÁRIO
DA HABILIDADE E DA COMPETÊNCIA

Podemos fazer aqui um contraste. Primeiro, lembremos


da época em que se podia fàlar em pleno emprego, isto é, em
relações de trabalho marcadas por uma grande variedade dc
regulações e de garantias, seja da parte do empregador, seja
da parte do empregado.
Paralelamente a isso, o Estado, que em países avançados
era chamado de Estado de bem-estar social, também se intro­
metia como árbitro nas relações de trabalho, policiando e am
parando o “mais fraco” , no caso o trabalhador, das investidas
exageradas do capital. A sociedade era organizada em classes
sociais, dc modo que uma rígida linha divisória era feita, aqui
108 e ali, para apartar setores distintos da participação social c
econômica. Nesse tipo de sociedade, que alguns chamam de
sociedade de classes, a aquisição de uma identidade social era
feita mediante signos de pertencimento de classe, tais como
as heranças e o lugar que o status garantia, por tradição, aos
indivíduos (Ehrenberg, 1991; 1995; 1998).
Na outra ponta do contraste, tomemos as sociedades
contemporâneas. Há um discurso que diz mais ou menos o
seguinte: hoje as narrativas de classe já não mais conseguem
garantir uma identidade social. Agora, num cenário esvaziado
tie sinais dados a priori^ o indivíduo é levado a se rcdescre-
ver constantemente, com o intuito de se assegurar do que é
digno, em certos momentos, de integrar a imagem de seu eu.
Nas esferas política, econômica e social, uma série de transfor­
mações foi minando o chamado pleno emprego, e agora há
uma necessidade constante de provar a própria performance
para se ter emprepiabilidade^ ou seja, estar pronto e disponível
para a ciranda: perder-emprego-ganhar-emprcgo-procurar-
cmprego-oferccer-emprego etc. A palavra de ordem de hoje
c: tenha um projeto e seja o empresário da sua própria vida,
pois se você não se cuidar, dificilmente alguém o íárá por
você! (Ehrenberg, 1991; 1995; 1998).
Resumindo: graças à contínua re-estruturação das rela­
ções sociais hoje assistimos a um enfraquecimento da ação
ilo Estado (e de órgãos de representação de classe, como os
sindicatos) no âmbito das relações entre empregador-empre-
gado; a um esgotamento de modelos de condutas pessoais, as
quais agora têm à disposição uma grande variedade de lingua­
gens com as quais podem lidar; a uma espécie de privatização
moral das responsabilidades pela ação, quer seja no caso do
irabalho (a ideia de projeto individual, de deal with yourself
lie performance etc.), c]uer seja no caso das questões tratadas
como públicas (ações coletivas, a política, órgãos e sistemas
lie representação etc.).
Nesse contexto, há uma forte e vigorosa injunção no sen-
109
liilo de forçar o indixiduo a agir px)r conta própria. Vejam-sc alguns
dos mais comuns e típicos discursos das empresas: há um in
centivo muito grande para que seus Rmeionários sejam em­
preendedores, atualizados, enfim, há uma pressão para que
adquiram permanente capacitação. Mas, no final das coni.e.,
o que ocorre é: o indivíduo está arcando com deveres ijiu
caberiam ser divididos pela empresa (por exemplo, custos di
formação, embora possa se argumentar que as empresas g.is
tam muito hoje em dia com esse tipo de coisa) e/o u pi ln
Estado (políticas de requalificação, de treinamento, de n in
serção profissional etc.). Atualmente, se o indivíduo não .le.i
por conta própria ele é logo classificado como “acomodatl< >"
“■sem iniciativa”, “fracassado”, entre tantas outras designaçoi •.
moralmente depreciativas.
Hoje, a “patologia do caráter” (Ehrenberg, 1998), pm
assim dizer, fica por conta da não-iniciativa do sujeito. Isto i
diante de todas as pressões e mandatos para ele agir por coni.i
própria, diante da tareia de ser o empreendedor racion.il i
soberano de sua própria vida e carreira, diante da ausâui.i
quase completa (principalmente em países como o Brasil) di
garantias c/o u amparos públicos do Estado ou de uma as .io
conjunta vigorosa, o sujeito não tem outra saída senão f.i/i i
prova de competência, seja ela de qual ordem for.

PERSONALIDADE E PERFORMANCE

Assim, ele está sendo continuamente treinado para .ul


quirir um código de conduta que põe extremo relevo na a^.u i
individual, desvalorizando - ou tratando com menor im|vu
tância - linguagens de implicação coletiva, visando pro[Kisi
tos coletivos. Mas c preciso acrescentar outra transformai, .m
semântica no antigo vocabulário do indivíduo que se dei\.i\ .1
levar por normas e condutas fixadas para ele a priori (pi ln
Estado, pela empresa, pela família etc.). Será preciso enii.ii
I 10 cm cena a noção de personalidade.
A noção de pensonalidade comporta algumas premiss.i'.
básicas. Primeiro, tal como foi descrita pela psicologia intimi-.
ta (Sennett, 1989), pressupõe algo que a pessoa tenha e i|iii
|ii isMscr isolado, protegido e cultivado num ambiente individual,
j.iiv.ido, apartado do escrutínio do outro. Aqui podem scr
,11)1 oradas noções como “estrutura” , “tiisposições individuais
ji.iia certos comportamentos ou sentimentos”, ''''self interior"
I n Na linguagem do dia-a-dia se diz, frequentemente, que
"liilaiio tem personalidade”, ou seja, c]tie tem alguns traços,
i.ilve/, permanentes, capazes de identificá-lo e tázê-lo rcco-
iilieiiilo como sendo um “frilano tal e tal” . Esse aspecto da
|u tsonalidade a coloca como uma idiossincrasia que está se-
|Miada do exterior e que tem seu mais amplo espectro de
ininlilieaçõcs na esfera privada.
(lontudo, o aspecto ejtie mais me interessa aqui é que a
III n, ao de personalidade é muitas vezes chamada em ati.xílio
i|ii,Ilido se trata de descrever as açcões dos indivíduos (Sennett,
1999). Estas podem ser apresentadas como reflexo de
lima intenção deliberada e própria de uma determinada perso­
nalidade. Como tal, tem de ser reconhecida em sua pura idios-
'IIu lasia e em seus valores próprios. E por isso que o discurso
i|iie prioriza a tomada da ação individual pôde ser reconhecido
"Miio legítimo e plausível: porque já havia sido sedimentada
iiiii.i noção de que o ser humano tem características próprias,
piivadas, é capaz de discernir sobre o t]ue é melhor para si
' p.ir.i seus sentimentos e cjue somente uma atitude tomada
I" sse ambiente protegido e seguro, o interior de si mesmo,
1 '1 'deria ser reconhecida como legítima para o indivíduo, visto
M'ie t'spelharia sua “verdadeira” personalidade. Portanto, falar
' ni açao individual é perfeitamente inteligível num tipo de so-
■ii ifulc cm que a forma privilegiada de subjetivação c a indivi-
'lii.ilisia, com assento na noção de personalidade.
1)as duas crenças anteriores, ou seja, da crença na ação in-
'Iniiliial c na personalidade, configura-se um campo de possi-
1'iliiladcs para uma conversão de códigos sociais de condutas III
l'isi'.ulos na política do Estado de bem-estar social (ou seja,
' III políticas que agiam e falavam em nome dos indivíduos c
l"ii eles), para uma política de indivíduos, cujo expttente é a
máxima valorização das ações pessoais, no trabalho, no la/.ei
e em todos os outros campos da vida. Agora, as duas outras
crenças seguem para dar forma final a esse quadro que estou
tentando construir.
Vejamos, primeiro, a crença na performance (VAircnbcv^,
1991 ). Esta crença diz mais ou menos o seguinte: agir por si
mesmo; ser o empresário da própria vida; importar-se priori
táriamente com o desabrochar da sua própria personalidade
ou com a de seus amigos e pessoas próximas; não esperar
que o Estado ou a “sociedade” faça alguma coisa por voce;
não confiar demais no seu emprego, mas sim na sua própri.i
capacidade de ser empregável; levar a cabo a taretá de sempre
aprender e de sempre aprimorar suas capacidades e competê-n
cias para não ser passado para trás (e tantas outras idéias que-
fazem parte do vocabulário cia habilidade e competência).
Tudo isso ó importante para você; mas deve fazer isso
tendo em vista um valor importante: a performance. Ou
seja, todas essas atividades em nome de si mesmo., em nome-
de seu próprio valor, devem ser feitas tenefo por parâmetro
a performance de sua ação (Ehrenberg, 1991; 1995; 199eS).
Essa crença implica uma ideia de permanente improvemau
na ação individual, pressupondo que as competências dos
indivíduos são sempre adquiríveis e remodeláveis. Mas ,i
performance é também um item de avaliação e de atribui
ção de qualificativos. Buscar o desempenho da performan
ce é ser sensível à necessidade tornada plausível pela últim.i
das crenças t]ue vamos descrever: a lear ninpi society (Leggc,
1995).

A SOCIEDADE DA APRENDIZAGEM
12
Learninpi society é usada aqui num sentido deliberatl.i
mente restritivo. O que significa.^ Significa um conjunio
de discursos, principalmente no que tange ao mercado di

J
ir.ilialho, que destaca a necessidade contínua cie aprender
r ile conhecer. É afirmado que o mundo está em constan
le 1ransfbrmação, que estamos atravessando uma época de
mudanças cie paradigmas e ejue precisamos estar a par cie
Ilido isso; é dito que a globalização nos força a interagir
lom muitas culturas e tendências; c]ue os processos cie p ro ­
dução têm cada vez mais uma carga cie reflexividade cieman-
(l.mdo ser apreendida para melhor execução; é dito c^ue o
“conhecimento” c a chave para todas as coisas e que c|uem
11.10 o tiver vai ser deixado de fora na grande ciranda que c
K mercacio mundial.
H ac]ui c]ue o vocabulário da competência entra. Ter com­
petência, numa sociedacie que prioriza o learnin^^ passa a ser
limdamental: como o nível de refinamento tccnico/científi-
1 1 ) do mercado, principalmente em áreas estratégicas ou de
ponta, elevou-se de maneira considerável, ter uma habilida­
de significa deter uma ferramenta ou uma chave cie acesso.
Assim, pessoas c^ue falham cm termos cie produtividade, por
l o i iia de seu descompasso diante do ideal da learningsociety^
lém seus rendimentos severamente restringidos, tendo como
•„liila a impcxsição quase natural para adquirir educação a fim
ifi- sair do sufoco em que se encontram.
Na prática, não parece ser provável que um aumento no
iiivel cie educação irá traga a garantia de um equilíbrio na
(ilerta e na procura de empregos, pela simples razão de que
II nível de qualificação está cada vez mais alto e a seleção tor-
ii,nido-se bem mais recrudescida, por conta de um movimen-
iii linear de upskilling áz sociedade como um todo (Lcgge,
I‘hf 5). Uma das consequências, já apontadas, é a ampliaçãct na
l.nxa de rendimento entre trabalhadores de alta performance
1 ii .ibalhadores mais abaixo no regime cia competência.
1)o ponto de vista que nos interessa, a plausibilidade cio 113
iliscurso da competência e da aejuisição de conhecimentos se
I |R( nitra aqui: se as pessoas são instruídas a encontrarem por
Mmesmas, por meio de suas próprias personaliciacies, seu hi-
gar na economia ou no mercado de trabalho, sem o suporii-
do Estado, então elas são também incentivadas a tomarem
todas as medidas necessárias para sua “educação”, alijando o
Estado de ter de investir recursos nesse sentido (quem ho)c
esperaria do Estado uma iniciativa para incrementar a própria
profissão? Isso, sob diversos pontos de vista, e sob diversas
justificativas, está completamente fora de c]uestão!). O dis
curso da competência, portanto, tem uma finalidade prática
dilicil de ser negada.
Entretanto, é também importante destacar que o ter
mo “educação”, aqui, aproxima-se mais de um conjunto
de habilidades c]ue devem ser adquiridas face àtiuilo exigi
do no mercado de trabalho, em quaisquer de suas inscrições
Portanto, em certo sentido interpretativo, learning society c
um termo que ironiza o fato de c]ue a aprendizagem, nes
se tipo de sociedade, é, muito comtimente, orientada para ,i
aquisição stricto sensu de conhecimentos de mercado.
Os objetivos tia Icarninjj society são, portanto, simples
e claros (Legge, 1995); para os indivíduos se tratam destes
consigam educar-se até o nível mais alto que puderem. Para as
empresas: trabalhem para incrementar a base de conhecimen
tos de suas atividades com o intuito de nianterem-se à frente
da competição. Finalmente, para os governos: incrementem
a t]ualidade da educação oferecida e se certifiquem de que o
mais alto número de pessoas de sua população se engaje nel.i,
pois assim se conseguirá manter os níveis de desemprego bai
xos (e de empregabilidade altos).
As empresas, respondendo às solicitações que lhes são
feitas, criam sistemáticas de ensino que priorizam o contato
com questões/problemas qtie as atingetii de modo particu
lar.
114 Não é raro, hoje em dia, notar que existem empresas qtu
têm sua própria universidade corporativa, e nos quadros ctii
riculares também não deve ser difícil encontrar a ideia de qtie
o vocabulário da habilidade e da competência depende:
a) das condições pessoais (motivação, engajamento, com
prometimento, autoestima etc.) dos indivíduos para aprender
sua personalidade;
b) de uma conscientização acerca da necessidade de agir
iiulividualmente, embora em equipe;
c) da capacidade de solucionar problemas que atingem
I) cotidiano do contexto de trabalho, numa empresa em
particular, numa situação em particular etc.;
d) da conscientização de que sem conhecimento, sem ha­
bilidades e sem um “diferencial” não se estará habilitado para
ser reconhecido como um sujeito de performance.
É na articulação destes itens que se pode, então, ver con­
solidado o núcleo do discurso ou vocabulário da habilidade e
da competência. Deste ponto à questão da subjetividade não
liá grande distância, e é com isto que as considerações finais
ileste texto irão se ocupar.

SUBJETIVIDADE

O vocabulário da habilidade e da competência é parte


iiulissociável e necessária de uma época c]ue impõe, a todos
sem exceção, a grande tarefa, seja no trabalho, seja na vida
pe,s.soal, enfim, em amplos setores da existência, de formar a
própria individualidade, construir um sentido pessoal para a
existência. A carreira profissional, por sua vez, ftmeiona como
um canal viável e promissor para a construção de uma identi-
ilade pessoal cujo principal parâmetro é a excelência e a com­
petitividade com os outros. Para ilustrar esse novo cenário
de florescimento e germinação do vocabulário da habilidade,
.mtes referido, transcrevo uma passagem muito interessante
do trabalho de Ehrenberg (1998): I 15
A convergência do estatal, do profissional, do escolar e
ilo privado sobre a iniciativa pessoal, combinada a uma liber
dade de modos inédita e a uma multiplicação da oferta tie
referências, dá ao psíquico uma inscrição social e, portanio,
pessoal, totalmente inédita. O estilo de resposta aos no\<i\
problemas da pessoa toma a forma dos acompanhamenio',
de indivíduos, eventualmente sobre a duração de uma \ul.i
toda. Eles constituem uma manutenção que se desenrola poi
múltiplas vias, farmacológicas, psicoterapêuticas ou sociopoli
ticas. Produtos, pessoas ou organizações são o suporte dissu
Esses atores múltiplos, estando na dependência das atu.i
ções dos serviços públicos ou dos serviços relacionais privadi )■.,
referem-se a uma mesma regra: produzir uma individualid.uli
suscetível de agir por ela mesma e de se modificar apoiando-se s<i
bre seus recursos internos. Essa regra pode servir tanto comu
instrumento de dominação quanto como meio de reinserç.iu
ou de responsabilização terapêutica. Os afrontamentos, as i s
tratégias ou os julgamentos dos atores se constroem ncssi
imaginário, e não naquele de uma “luta final” ou de um.i
assistência para a vida. Penetrada em nossos usos, inserida cm
nossos modos, dispondo de um vocabulário empregado |ici
manentemente (elaborar projetos, passar contratos, suscitar ,i
motivação etc.), esta regra forma conosco uma só coisa. I l.i
se instituiu. Essas novas formas comuns de produção da indi
vidualidade são as instituições de si (p. 244).
Nesta passagem é possível notar a emergência de um tip< >
de subjetividade instada a se preocupar cerm sua contínu.i
performance, visto que modelos instituídos (coletivamenu ,
grupalmente etc.) de conduta ou ação já não desfrutam iK
uma ampla credibilidade. Paradoxalmente, essa nova figm.i
da individualidade cria a demanda por assistência, por amp.ii i >
e por mecanismos de ajuda.
Como diz Ehrenberg (1995), o indivíduo é, hoje, nm.i
autonomia assistida de múltiplas formas. O próprio vocabu
I 16
lário da competência requer a proliferação desses disposiiixu',
de ajuda, os quais passam então a funcionar como mecanis
mos de “usinagem interna” (Ehrenberg, 1998) para o própi k>
indivíduo. Nesse sentido, basta lembrar o incontável núnuK >
iK- publicações destinadas a incrementar a performance iiuli
\ idual, sem falar dos infindáveis tipos de terapias, autoajudas,
csercícios, regimes, entre tantos outros.
Antes de eoncltiir este texto é preciso fazer uma im­
portante observação. Subjetividade, como a entendemos,
c um efeito de linguagem. Ou seja, só se pode falar que
"subjetividade” é isso ou aquilo lançando mão de uma teoria
ilc \ erdade que ciiz, baseando-se em pressupostos valorativos
(ciicos/morais), o que deve eontar como referente do c]ue se
rsiá chamando como subjetivo. Nesse sentido, subjetividades
diversas são produzidas, mantidas e extintas como função da
II oca, aperfeiçoamento ou abandono completo de determi-
ludos vocabulários, isto c, linguagens, formas de vida, dis-
1 ursos etc.
O sujeito, portanto, c uma rede linguística sem apoios
ii.mscendentes capazes de informar, ou cie fixar invariavelmen-
ir, sua essência final. Do ponto de vista do sujeito, é irrele-
\,mte considerar os aspectos não linguísticos do mundo como
‘‘determinantes” da subjetividade: pelo contrário, o sujeito tem
de ser deserito em termos intencionais^ com ação perfbrmativa
'.obre suas ações e crenças. Como diz Costa (1995), o sujeito
t uma realidade linguístiea, e o que altera essa realidade são
“seres verbais ou figuras de diseurso que podem ter, como de
l.iio têm, uma enorme força performativa na definição das sub-
leiividades humanas” (p. 43). Mais à frente o mesmo autor diz:
■() sujeito é um tecido de quadros linguísticos coerentes que
s.io causas ou razões, conscientes ou inconscientes, de nossas
.11,1 les ou estados psíquicos” (p. 44).
No meu modo de ver, essa descrição do sujeito como
ir.iliilade linguística é poderosíssima para nossa tarefa de en-
ii iuler como está sendo produzida a subjetividade em nossa
I poca, principalmente quando tomamos a questão do traba­ I 17
lho (e de alguns dos vocabulários que tratam da ejuestao).
Assim, a título de perspectivas ftituras, é interessante e
piomi.ssor ao campo psi que:
a) questionemos a ideia de que “realidades” não linguisi i
cas, ou “concretas”, tais como o “mercado” ou a “economia "
etc. determinam, de modo inexorável, nossos modos de sci
sujeitos;
b) façamos uma espécie de “genealogia” para procuiai
entender a origem e fonte de manutenção do vocabulário d.i
habilidade e da competência, tal como o descrevi acima - \ (>
cabulário cjue já está tão impregnado em nossos modos, lau
disseminado no horizonte da cultura, que tendemos a pens.n
que seja algo natural, algo além da própria linguagem;
c) estejamos conscientes de que uma análise assim rc.i
lizada não se apresenta como um ponto definitivo e inqucs
tionável sobre o assunto em debate, capaz, por si sé), de p<n
por terra o vocabulário da habilidade e da competência (casu
isso, por quaisquer razões que se possa oferecer, seja elciio
como meta), alegando, por exemplo, que ele é incoercnii-
com o restante das crenças culturais, aceitas, elas tambcm,
como verdadeiras.
Certamente esta última alternativa não seria nenhum
pouco persuasiva, nem tampouco eficaz. Seria o mesmo cpu
dizer, mutatis mutantis^ que a Inquisição, na Idade Métiu,
era incoerente com as demais crenças verdadeiras que pani
lhavam as pessoas daquela época (visão teocêntrica do mim
do, predomínio do poder institucional da Igreja etc.).
Por outro lado, esse reconhecimento não significa um
pessimismo aterrador, semelhante ao que diz que nada pu
demos fazer. A consciência de que os vocabulários são cou
tingentes, embora vigorosamente assimilados, permite iio-.
pensar que, tal como a Igreja (ou o pensamento religioso cm
geral) perdeu um dia sua influencia devastadora sobre iio',,
assim também o vocabulário da habilidade e da competem i.i
I 18 poderá perder a aderência ciuase c]ue asfixiante que tem ho|i
(caso isso seja, de fato, posto em questão).
Ora, o que poderia incentivar tal perda de aderem i,i
Certamente não a Verdade, nem a chamada Ciência, m ui
uma “força” ou “entidade” superiores a nós; tampouco uma
l econversão cultural em massa, atingindo a todos, de cima em
haixo, à luz de um decreto (técnico-científico ou político, por
exemplo). Acredito c]ue uma mudança de vocabulários - c,
portanto, uma mudança nas imagens dos sujeitos - é possível
por um longo trabalho de redescrições constantes, de novas
lentativas para descrever o que é ser um sujeito, seja no traba­
lho, em casa, na vida privada etc.
Para isso, c preciso fazer perguntas quase românticas como:
I in que tem nos ajudado descrever o sujeito como alguém que
deve estar preocupado com sua performance, com o grau de
lonhecimento que detém, com a possibilidade constante de
ser deixado para trás.^ Essa imagem efe sujeito tem servido para
atrair um maior sentimento democrático - sentimento ejue o
( feidente tem desenvolvido e eleito como meta utópica para
Mias ações coletivas.^ Ou ele tem separado as pessoas, dificul­
tado a convivência de alguma forma? Para mudar um voca­
bulário, para alterar seus aspectos conflitivos ou acjucles que
1'stào em desavença com o restante das crenças culturais tidas
por verdadeiras, é preciso um exercício de avaliação de prós e
I outras. Fora disso, é contar com a Providência Divina, com as
Forças do Além ou com qualcjuer obra do Acaso (ou, o que é
pior, contar com algum devaneio cientificista).
(in c lu o este texto com uma citação de Rorty (1995),
quando ele, referindo-se à situação do pragmático dian­
te da mudança cultural de vocabulários sobre o sujeito, diz
(no caso, ele está referindo-se à possibilidade de abandonar
o vocabulário do que ele chama de “ativismo metafísico”,
ou seja, justamente aquele vocabulário que acredita que a
'herdade” tem propriedades especiais, propriedades capazes
de “espelhar”, acuradamente, a “real natureza” das coi.sas);
I 19
Os pragmáticos estão na mesma situação dos ateus em
culturas tpic são completamente dominadas pela religião,
'lais pessoas só podem esperar traçar os contornos ilo t]uc
Shelley chama de “as gigantescas sombras que o futuro lam;,i
sobre o presente”. Eles anteveem uma época em que as no
ções de Desejo Divino e Comando Cognitivo tenham sido,
por razões similares, substituídas pela de Um Livre Consenso
entre Investigadores. Mas, enquanto isso, o pragmático C|ue
insiste para c]ue nossa cultura abandone o ativismo metafísico
não pode argumentar que tal ativismo é inconsistente com a
massa de nossas outras crenças, não mais do que um antigo
ateísta Grego podia dizer c]ue o sacrifício aos deuses olímpi
COS era inconsistente com a massa das outras crenças gregas
Tudo o que o pragmático pode fazer é o tipo de coisa que
eles fizeram: apontar para a aparente futilidade da atividade
metafísica, da mesma forma que apontaram para a aparente
futilidade da atividade religiosa (p. 300).

No computo dos prós e dos contras, cabc-nos a pergun


ta: vale a pena, compensa, é interessante tratar o vocabulário
da habilidade e da competência, e o tipo de indivíduo que
lhe corresponde (um indivíduo conc|uistador, excitado pela
ascensão pessoal e pelo sucesso, cuja meta é a conquista de
um lugar de reconhecimento feito por si mesmo), como algo
“natural”, “indispensável” e “verdadeiro” ?
A resposta será “sim” caso optermos pela manutenção do
estado de coisas em tiiie nos encontramos: o tipo de crença
de que só os melhores vencem na vida! A resposta poderá ser
um “não” caso comecemos a olhar para outras possibilidades
de subjetivação, outras formas de sermos sujeitos, outras ma
nciras de exercitarmos um sentimento democrático, para que,
de fato, seja possível pensar num desenvolvimento pessoal c
coletivo sem o sacrifício de uns em benefício de outros (em
outras palavras: tornar o vocabulário da habilidade e da com
petcncia como outro vocabulário qualquer, num espectro
120 amplo e plural de vocabulários que podem coexistir). O desa
fio, para quem quiser, puder e desejar, está lançado!

íl
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122
C A P IT U L O 12

P U B LIC O , PR IV A D O E O IN D IV ÍD U O
N O N O V O C A P ITA LIS M O

V oga do esporte, mediatização da empresa, explosão da


.iventura, glorificação do sucesso e ascensão pessoais e apolo­
gia do consumo: nos últimos anos a sociedade brasileira con­
verteu-se ao culto da performance. Um novo credo se instalou
nos modos e costumes de massa, atingindo linearmente am­
plos setores da sociedade, mudando o repertório com o qual
os indivíduos se descrevem a si mesmos. Um novo discurso
empresarial agora incita todos a se pautarem pela própria ação
individual, seja para arrumar um emprego ou ate mesmo para
arranjar e manter um relacionamento afetivo. Discurso em­
presarial justamente porque, no topo da hierarquia de valores
sociais, a influência e a plausibilidade do mercado são hoje
objeto de um consenso crescente.
O discurso econômico serve de motor para a política,
e o empresário é eleito como um personagem cujos hábitos
comportamentais servem de guia e modelo para a singulari-
/ação pessoal e para a atuação pública. A concorrência, irra­
diada do mercado e assemelhada às competições esportivas,
investe largamente os espíritos, tornando-se canal direto
para o desenvolvimento pessoal e para a construção de um
sentimento identitário, sobretudo num instante em que a 123
autonomia e a iniciativa são vivamente recompensadas. Ksse
novo quadro social e subjetivo é correlato a importantes
11 ansformações ocorridas no trabalho, no plano político e
social do estado, nas esferas pública e privada da existêiu i.i
e na representação ou “paisagem imaginária” (Ehrenbci r,,
1991) do indivíduo na atualidade.
Assim, o interesse analítico deste capítulo está direcion.i
do para a compreensão das transformações ejue ocorreram, <
ainda estão ocorrendo, com as representações do indivídim
em nossa sociedade, tomando-se como uma das referêiu i.r.
principais a nova configuração do trabalho. Em contrap.ii
tida, a questão do público e do privado nos importa de um
modo muito especial, afinal, a análise da atual configuraç.ici
desses espaços pode oferecer-nos fontes de discernimciiiM
sobre a maneira como se estruturam hoje a subjetividade c u
próprio vínculo social. Além disso, c aqui reside o essenci.if
alterações na estruturação da esfera pública atingem noss.i
ideia de política, do papel do estado e de sua relação com
Píí
o indivíduo e deste com os demais membros da sociedaili'
seus concidadãos.
As análises do texto serão desenvolvidas tendo cm \ í m .i
a apresentação de alguns dos principais elementos do corpo
de crenças que justificam e tornam plausíveis as mudanç.i-.
nos vocabulários á t descrição do indivíduo e de suas relaçot -,
em sociedade. Para tanto, parte-se do princípio de que ur,
crenças funcionam como regras de ação, instrumentos p.u.i
SC manipular a realidade.
De acordo com a filosofia ncopragmática da linguagem
(Costa, 1994; Rorty, 1988, 1996, 1997, 1999), o sujeito e
concebido como uma rede de crenças c desejos passível de in
finitas redescrições, sempre com o intuito de acomodar no\ .e,
crenças e de promover um enriquecimento e uma edificaç.ío,
pessoais e coletivos. Assim, “vocabulário”, tal como será utili
zado neste texto, não tem o sentido de mero glossário.
124 Usado em sua vertente ncopragmática, é sinônimo ilc
prática linguística, jogos de linguagem ou formas de
Mais importante, para nós, é que “vocabulários diversos
criam ou reproduzem subjetividades diversas” (Costa, 1992,
p. 14). É um dado vocabulário que permite a emmciayão de
uma crença e que a torna razoável aos olhos de seus crentes.
Sendo assim, a análise ejue se segue será pautada pela consi
ileração de que a subjetividacie é uma “decorrência do uso
(le nossos vocabulários ou da maneira como aprendemos a
ser sujeitos” (Costa, 1992, p. 15-16), isto é, um efeito das
linguagens que usamos para nos referirmos a ela, e não um
simples reflexo de uma suposta Natureza, dada em si mesma
(ie uma vez por todas.
() pano de fundo das discussões será delimitado pela con­
sideração da nova realidade do trabalho na sociedade brasilei­
ra. Em linhas gerais, podemos acessar tal realidade mediante
.1 observação de alguns dos discursos atuais que, da política
a economia, priorizam o aumento imediato no número de
empregos oferecidos no país.
O argumento é o de que um grande número de pessoas
está abaixo do patamar considerado “aceitável” em termos
ile dignidade humana e condições materiais de vida. Gover­
nos insistem na necessidade de garantir uma “oferta real”
ilc empregos, em c|ue pese o contínuo número de demissões
efetuadas pelas empresas nos mais diversos setores, notada-
mente em períodos de crise.
Mas, ao mesmo tempo, existe um grande número de
pessoas, principalmente pesquisadores e alguns “gurtts” da
.uiministração, que defendem a ideia de que o “trabalho”,
pelo menos na sua acepção “clássica” (carteira assinada, es-
labilidade, seguros etc.), está fadado a desaparecer, cedendo
lugar a novas formas de produção em que a volatilidade e a
precariedade dos contratos ou vínculos emprcgatícios predo­
minariam (De Masi, 1999a, 1999b; Dupas, 1999; Forrester,
1997; Rifkin, 1995; Singer, 1999). Entretanto, quando tala­
125
mos em falta de emprego devemos estar bastante conscientes
ilo tipo de emprego a que estamos nos referindo e do tipo
(le população que sua ausência ou escassez está - ou estará
afetando.
O emprego que está cada vez mais em falta é aqiic
le vinculado ao sentido “tradicional” do termo, quando
empregador e empregado mantinham uma relação de cci
to modo estável e prolongada, marcada por um contraio
rodeado de direitos, deveres, obrigações e trocas recípm
cas. Em outras palavras; o “pleno emprego” ou o emprego
“formal” . Em sua base havia uma segurança estatal qm
garantia o cumprimento das responsabilidades assumidas
I i por ambas as partes. Com o “novo” capitalismo, ou sc).i,
com o avanço da tecnologia em geral, da flexibilização das
relações de trabalho e com o surgimento de novas variá\ cis
na economia do país e do mundo globalizado (fragmcii
tação das cadeias produtivas, aumento da produtividadt
do trabalho, disseminação dos meios de transmissão di
informação etc.), esse tipo de emprego ficou seriamenu
comprometido, quando não inviabilizado (Dupas,
Singer, 1999).
Paralelamente, o mercado mudou de fisionomia c .il
terou as regras do jogo de maneira muito rápida. Os m
veis de escolarização subiram muito, e o refinamento ihis
currículos e das experiências se tornou mais complexo
A segurança num futuro garantido, sempre junto à mes
ma empresa ou profissão, faz parte, agora, de um passado
que dificilmente poderá voltar sem alterações (pelo menos
para grande parte da população). Vários indicadores so
ciais apontam para uma ampliação considerável da mass.i
de pessoas que não têm emprego ou que o têm sob reginu
“informal”, ou então que o perderam nesse proces.so di
re-estruturação das empresas e das próprias regras do mei
cado, agora “informatizado” (Riflcin, 1995).
E na abertura provocada por esse amplo quadro dt
126 transformações do trabalho que se insere uma pergunta ms
tigante; Quais as consequências morais, psicológicas e ctn .is
desse novo panorama do indivíduo-sem-emprego?
o NOVO DNA DO INDIVÍDUO

Diante do panorama sociocultural que está, atualmente,


.1 nossa frente, tcríamos muitas opções no momento de es-
lolher uma imagem que melhor retratasse o indivíduo hoje.
Talvez relutássemos na hora da decisão, mas uma representa­
ção bastante interessante dele pode ser encontrada nas revistas
destinadas à população de “executivos” ou mesmo às pessoas
“comuns” : as revistas de negócios e as revistas voltadas para o
incremento da performance individual.
No caso brasileiro, temos dois exemplos: o primeiro é a
revista Exame\ o outro, a revista Você S.A., ambas da editora
Abril.
Segundo meu ponto de vista, o conteúdo dessas re­
vistas pode servir como ilustração de uma nova forma de
.ipresentação social do indivíduo na sociedade brasileira de
nossos dias (embora não só nela): um indivíduo “conquis­
tador” , responsável por si mesmo, por sua carreira e por
seu sucesso.
Elas são o testemunho (certamente, não o único) da
•ibertura de uma via de subjetivação disponível a quem deseja
lornar-se um indivíduo reconhecido, presente e inserido num
meio aparentemente muito “interessante” e que promete
diversas vantagens: o mundo do manajjement, dos contatos
importantes e das aventuras sempre recheadas de risco e de-
s.ilios. Mas de onde viria essa suposta admiração e a legitimi-
d.ide dessa “nova” via de subjetivação.^ Quais são as principais
I lenças que a alimentam?
Segundo Ehrenberg (1991), a resposta a esta ques-
i.io ilepende da identificação de profundas mudanças pelas
qii.iis nossas sociedades vêm passando nas últimas décadas.
Segundo Eihrenberg, estamos entrando numa sociedade de 127
iiidieidiios^ em que o principal indicador subjetivo e social
e ,1 referência a si. Isso tem antecedentes sociais e políticos
miporiantes. Em primeiro lugar, recoloca em cena o pa
pel do estado na gerência das sociedades democráticas. N.i
França, país a que se refere Fdirenberg, o modelo do Estad( >
-Providência parece não ter mais conciiçõcs de garantir um
lugar seguro para o indivíduo, nem para fazer valer a força
e a finalidade da política, que é, segundo o autor, a de im
pedir que os indivíduos sejam abandonados a si próprios,
abandonados diante do futuro e dos conflitos que surgem
no campo social. Assim, os estudos empreendidos por c s m
sociológico francês, a cujas idéias vamos recorrer neste capi
tulo (Ehrenberg, 1991, 1995, 1998), visam descrever o tip(>
de indivíduo que se institui à medida que a crença num.i
sociedade de classes e num estilo de representação política (
de regulação de condutas ligadas a esse estilo se enfraquci.i
sensivelmente.
O ponto de partida de Fihrenberg (1991) é duplo: pn
meiro, a pressuposição de que hoje está ocorrendo uma fi a;’,
mentação da existência, provocada, principalmente, pela pci
da de centralidade das referências políticas e sociais institui
das; segundo, o reconhecimento de que a iniciativa individu.il
passa a ser quesito indispensável e vital para que alguém poss.i
manter-se ligado a alguma forma de sociabilidade.
Na análise de Ehrenberg, a percepção de uma modific.i
ção nas regras de sociabilidade pode ser notada em qualquu
domínio que se considere, como a empresa, a escola ou a l.i
i mília. Flssas regras não mais se articulam em torno de noçoes
como obediência, disciplina ou conformidade à moral; pelo
contrário, as noções agora em uso são flexibilidade, mudaii
t?r-. ça, rapidez de reação, motivação, comunicação, entre taiii.r.
I outras do gênero.
Domínio de si, agilidade psíquica e afetiva e capacidadt
de ação impõem a todos “a tarefa de adaptação permancuii
128 a um mundo que perde precisamente sua permanência, uiu
mundo instável, provisório, feito de fluxos e de trajetórus
irregulares” (Ehrenberg, 1998, p. 200-201). Esse contexto
torna comum a ideia de que o indivíduo tem, diante de si, .i
tarefa de tudo escolher c de tudo decidir. É nesse cenário i|iie
Ehrenberg (1991, 1995) identifica duas tácetas compicmen
tares do indivíduo contemporâneo: o indivíduo conquistador
e o indivíduo incerto.

DA CONQUISTA À INCERTEZA

O indivíduo conquistador é o que assume riscos e aven­


turas em nome de si mesmo, sempre voltado para a perfor­
mance de suas ações e para o incremento de suas próprias
potencialidades pessoais. Seu horizonte se caracteriza pela
prioridade atribuída à iniciativa, ao contrário da docilida­
de; ao direito de ser si mesmo, ao contrário da obrigação
de seguir certas regras ou restrições a priori-, ao direito de
escolher sua vida, ao invcs de se prender ao passado ou a
qualquer senso de continuidade histórica (pertencimento
grupai, familiar, religioso etc.). A crença fundamental do
indivíduo conquistador é o Pjoverno de si, em outras palavras,
a crescente tomada de responsabilidade pelos problemas in­
dividuais feita pelo próprio indivíduo, em todos os setores
da sociedade (E,hrenberg, 1995). Elcé impelido a se engajar
autonomamente na ação.
Por outro lado, o indivíduo incerto é caracterizado como
uma contrapartida ao indivíduo conquistador, pois o aumento
da autonomia, a pressão vigorosa para se elaborar uma traje­
tória de vida que seja completamente desconectada de refe­
renciais sustentados externamente ao próprio indivíduo, gera
uma demanda por assistência, uma procura por “programas
de sustentação” . Ehrenberg afirma que “nós somos, cada vez
mais, uma questão e um peso para nós mesmos” (Ehrenberg,
1995, p. 194). 129
O indivíduo incerto é, nas palavras do autor, um indiví­
duo sofrente, sobrecarregado e vulnerabilizado pelo montante
de tarefas que tem de assimilar de modo privado. Para se cn
gajar na ação, para produzir e suportar uma individualidatU
suscetível de agir por si mesma e de se modificar por meio tli
seus próprios recursos internos, o indivíduo recorre a dispo
sitivos de “usinagem interna” (Ehrenberg, 1998), tais como
as terapias, os medicamentos psicotrópicos, os profissionais
especializados, as diversas formas de tratamentos, científicos
ou não etc.
A forma de responder às obrigações para se agir em nome
de si mesmo, para ser um indivíduo conquistador, apresen
ta-se, assim, como uma “demanda de acompanhamento”
(Ehrenberg, 1998), de um handicap pessoal. A equação tio
indivíduo, hoje, é composta por combinatórias que oscilam
entre o ideal do indivíduo conquistador e do indivíduo iu
certo-, liberação psíquica e iniciativa individual, inseguranç.i
identitária e impotência para agir. Isso permite a Ebreiibciy,
dizer que a “patologia” mais proeminente nos dias atuais c a
“patologia da ação”, isto é, a incapacidade de agir diante dc
um contexto sem limites e aberto a infinitas formas de cous
truções subjetivas possíveis.
Por isso, diz o autor, “o homem de hoje é mais um trau
matizado do ejue um neurótico (ou psicótico), ele está virado
de baixo para cima, vazio e agitado” (Ehrenberg, 1998, p
222). Isso desenha o ejuadro de um indivíduo cuja identida
de, diante das novas ameaças e desafios externos e internos .i
si mesmo, “está cronicamente fragilizada”, mas é “perfeila
mente acompanhável durante um longo espaço de tempo”
(Pihrcnberg, 1998, p. 222).
Nesse sentido, um aspecto central dos estudos desenvol
vidos por Ehrenberg é a compreensão de como se modificam
as relações sociais cotidianas a partir das transformações dos
modelos políticos que formulavam e estruturavam o que cic
130 chama de sensibilidade igualitária da sociedade, ou seja, o
conjunto de dispositivos que permite a esta última pensar c
resolver as contradições, nela presentes, entre as i^pualdadcs
de princípio e as desigualdades reais.
Essa sensibilidade funciona como um paradigma que ar
bitraria os desencontros entre a percepção do justo c do in
justo, entre as desigualdades toleráveis e aquelas que não o
são, definindo, assim, o campo de confronto entre os atores
sociais, suas tomadas de posição e seus ideais presentes e fu­
turos. E a partir do acompanhamento histórico das múltiplas
facetas assumidas por essa sensibilidade que o autor sugere si­
tuar as representações do indivíduo, da política e dos espaços
público e privado da existência.

VISIBILIDADE EAUTONOMIA

Ehrenberg reforça o argumento de que a “novidade” da


exigência social contemporânea consiste em compelir, não
importa quem^ a se comportar como um indivíduo, impul­
sionado em direção à visibilidade e à autonomia. Essa “no­
vidade”, pressupondo uma mudança na relação com a sensi­
bilidade igualitária^ é o correlato de três deslocamentos que
ocorreram no modo como a sociedade representa a si mesma,
suas técnicas de exercício de poder e sua cultura política.
Primeiro, o esfacelamento da sociedade em termos de
classes sociais, cedendo lugar a outras formas de hierarqui­
zação dos indivíduos, as quais prescindem do único crité­
rio de pertença grupai ou familiar. Segundo, o recuo do
assujeitamento disciplinar a direções individualizantes rígi­
das, substituído por um exercício de poder que passa pelo
challenge permanente e pela prioridade atribuída à singula­
ridade de cada um. Finalmente, a degradação das diversas
políticas de emancipação coletiva e suas utopias acerca de
uma sociedade reconciliada consigo mesma, substituídas
131
por políticas direcionadas para a construção de um projeto
pessoal e idiossincrático por si mesmo.
A sensibilidade ipfualitária promovida atualmente nas so
ciedades avançadas ocidentais é constituída, então, pela coii
fluência dc várias mudanças na perspectiva do laço social, que
deixa de ser referenciado com respeito a qualquer lei “exter
na” ou universal, seja ela divina ou não. As diretrizes para
a ação deslocam-se em direção àquela área antes restrita a
única privacidade individual: a realização pessoal. Às antigas
garantias assistenciais promovidas pela política do Estado tK-
bem-estar social opõe-se, agora, um estilo de vida que convi
da cada um a se realizar pessoalmente num universo cada ve/
mais complexo.
Como consequência, afirma Ehrenberg, “o espaço pú
blico político já não detém o monopólio de expressão tl.i
única autêntica individualidade” (Ehrenberg, 1995, p. 20).
E ele conclui que o “novo individualismo” , na França, “foi
a maneira de designar a crise do modelo republicano dc dt-
mocratização no início dos anos 80. Ele a simbolizou nos
domínios da cultura, da educação e da política” (Flhrenberg,
1995, p. 21).
Esse modelo funcionava mediante a criação de disposi
tivos de regulação política que efetuavam, num duplo mo
vimento, a emancipação coletiva, ao arrancar o indivíduo ilc
suas dependências privadas, tornando-o um cidadão pela par
ticipação política (cidadania), ao mesmo tempo em que g.t
rantia a manutenção e a melhoria de suas condições privad.is
pelo aumento dos serviços públicos de qualidade. É sob a cn
se desse modelo que ganha fôlego um novo individualismo,
marcado pela referência a si mesmo como critério de ação
necessário à sobrevivência.
Essa re-estruturação do espaço público, cujo núcleo c ,i
redescrição da política a partir da perspectiva do governo ili
si, altera, também, o sentido da antiga participação republi
cana ou revolucionária (o exemplo de Ehrenberg é para .i
132: sociedade francesa), com base na qual o indivíduo se de\'o
tava em nome da “pátria” ou “nação”, dissolvendo-se num
sentido de coletividade, com cuja identificação era-lhe garaii
tido legitimidade pública. A implicação^ ou seja, o estilo ilc
participação que exprime a sensibilidade igualitária contem
porânea, expressa a tendência de absorver os antigos ideais
republicanos participativos em um novo registro identitário:
a realização de si mesmo.
Como diz Ehrenberg: “Participar, hoje, não é idealmen­
te outra coisa senão agir sobre si mesmo, não tendo outro
representante a não ser si mesmo” (Ehrenberg, 1991, p.
283). É exatamente essa nova diretiva subjetiva que está alo­
jada na proliferação das figuras “conquistadoras” no cenário
atual e no individualismo que, desde a segunda metade do
século XIX, tem sido percebido negativamente pela sociedade
(Ehrenberg, 1991, p. 283).
A “estima de si” caracteriza um regime subjetivo em que
as particularidades do indivíduo são revestidas com maior in­
teresse e preocupação se comparadas às questões mais dire­
tamente “públicas” . O conceito revela, portanto, o fato de
ejue o indivíduo age em nome de si mesmo porque não lhe e
facilitada outra maneira de proceder, em razão de uma época
em que pesa muito a perspectiva do “governo de si”, confor­
me já apresentado.
Outro aspecto importante ligado à existência do novo
“DNA” do indivíduo resgata um problema muito sério que
afeta o sentido do termo “responsabilidade” : hoje, o que de­
pende da responsabilidade pessoal (privado) e o que depende
da responsabilidade coletiva (ptiblico)?
É difícil deixar de ver nisso uma redefinição das frontei­
ras e dos conteúdos da vida pública e da vida privada, cujo
paradigma é a eleição da estima de si como condição da
ação. Se não há mais uma divisão clara dos dois domínios,
c se não há mais sinais fixos para a individualização, com
base numa política que elabora e gerencia as diferenças e
as clivagens presentes no campo social, então o indivíduo 133
é instado a apelar para técnicas próprias de sobrevivência,
seja material ou psíquica.

i
ESTIMA DE SI E INDIVIDUALISMO

O ponto central que Ehrenberg defende é que a estimn


de si se torna a condição fundamental de toda ação pessoal
Diz ele: “A estima de si já não é o egoísmo de um eu sobera
no se satisfazendo inteiramente só de sua felicidade privada,
nem um eu dividido e consignado a seu inferno privado: ela
implica, bem entendido, o cuidado do outro, pois não há eu
sem nós” (Ehrenberg, 1995, p. 23).
Isso acaba um pouco com certo lugar-comum psicológi
CO, segundo o qual estaríamos mergulhados numa época dc
puro narcisismo, ou então numa época em que o individualis
mo é a principal - ou uma das principais —forças que depõem
contra qualquer tentativa de projetos coletivos ou contia
c]ualquer tentativa de implicar a sociedade numa “consciência
política” .
O individualismo, na visão defendida por Ehrenbeif,
(1995), implica menos uma reclusão ou um retorno narcísico
sobre si do que uma forma de equacionar uma determinatl.i
demanda de representação política, cuja frec^uência de onda a
política atual (burocratizada.^) não parece estar em condições
de traduzir ou captar.
O pensamento psicológico contemporâneo, e mesmo al
gumas divisões das ciências sociais, tem deixado de lado o
aspecto político subjacente à problemática do individualismo.
A linguagem psicológica é, aliás, tendencialmente propíei.i
para codihcar, num roteiro de “traumas” e “complexos”, le
nômenos que poderíam ser re-escritos ou réditos numa lin
guagem social, política, implicando ações concretas tomadas
em conjunto.
O individualismo atual torna visível duas mudanças in
134 terdependentes, que são o ponto central da confusão entre (>
público e o privado e que, portanto, implicam uma dimensão
eminentemente política. De um lado, ele assinala mudanças
nas normas relativas ao que é uma “ação legítima” . Hoje, esta
última se refere à experiência, à autenticidade, à subjetividade
e à comunicação (consigo, com os outros). Em outras pala
vras: é legítima a ação que leva em consideração a estima de si,
isto c, os itens referentes à administração pessoal da própria
existência.
Por outro lado, o individualismo torna, também, visível
uma transformação peculiar na relação entre os conteúdos
da vida pública e privada: “se o individualismo depende de
normas e de relações sociais, ele está menos retraído que
apoiado sobre o privado” (Ehrenberg, 1995, p. 19). Segun­
do a tese defendida por Ehrenberg, o individualismo con­
temporâneo é o produto das mutações paralelas da priva­
tização da vida pública e da publicização da vida privada,
reintroduzindo dilemas sobre, de uni lado, quais seriam os
limites da responsabilidade pessoal e, de outro, sobre os li­
mites da intervenção pública ou “social” sobre a vida priva­
da do indivíduo.

O EU PATENTEADO

Voltemos àquela imagem que melhor retrataria o indiví­


duo, hoje, na sociedade brasileira, pelo menos aquele tipo de
indivíduo ligado às questões do trabalho e ao “universo orga­
nizacional” . O que vemos é um indivíduo permanentemente
excitado pela busca da excelência, do incremento pessoal e
da concorrência, um indivíduo solicitado a se tornar um ver­
dadeiro tueur cool (Enriquez, 1997, p. 62) para alcançar seus
propósitos ou objetivos.
Mas como essa imagem, já um tanto familiar em muitos
discursos atuais, conseguiu (e ainda consegue) obter enraiza­
135
mentos sociais, flmcionar como crença ejue estabelece regras
para a ação individual? Para responder a essa questão, temos
de retomar um dos trabalhos já mencionados, em que Ehren­
berg (1991) explora uma das facetas q u e parece dizer muiio
sobre um tipo de indivíduo que, cada vez mais, ganha prc
sença aqui entre nós: o indivíduo conquistador^ cujo principal
referente é o culto da performance.
Segundo Ehrenberg (1991), há um duplo movimento
que caracteriza o indivíduo conquistador., ávido por visi
bilidade e reconhecimento; ele simboliza um rompimeu
to radical com toda tradição, com toda herança, familiai
ou social, e com toda forma de hierarquia. Assim, é um
homem sem passado que fabrica, para e por si mesmo,
uma £enealo£!Ía ao inverso: a história pessoal produzid.i
por ele c a única que im porta; o lugar de onde ele vem
não significa nada! Ele tem a si mesmo como seu princi
pio porque não representa nada ou ninguém senão a si
mesmo. Cada um é chamado a ter e a desenvolver o que
muito oportunam ente Kurz (1997) chamou de “filosoli.t
administrativa” pessoal.
Por outro lado, há aqui a proliferação de um tipo mui
to particular de ambição: tornar-se um indivíduo puro (cl.
Ehrenberg, 1991), correlato à época do chamado relacio
namento puro (cf. Giddens, 1993). Saímos de uma refe
rência ao status para uma referência ao indivíduo puro, ía
bricado por suas próprias obras e atividades singulares; um
indivíduo fabricado no próprio ato de fazer/empreendei
algo. Como diz Ehrenberg, entramos numa sociedade dc
desinibição.
Desse modo, a identidade não é mais aquilo que sc
transmite pela filiação a uma determinada herança soci.il
ou mesmo familiar; ela é, sobretudo, aquilo que se cous
trói diante de uma verdadeira indivíduo-trajetória de um
eu patenteado. Administrar-se, controlar sua carreira, vcu
cer, assumir riscos e concorrer não são apenas manifestaçóc".
136
“patológicas” de um eu narcísico que se inflou na cena so
dal. Antes, é uma “nova” modalidade de ação e de singii
larização que precisa ser elaborada dentro do pensameum
atual das ciências sociais.
A PERFORMANCE DO SELF-M/ADE-MAN

Um último ponto deve ser aqui mencionado, pois ilustra


alguns aspectos particulares da discussão que vem sendo feita.
Em cjue o indivíduo conquistador, com seu referente no culto
da performance, diferiria do chamado self-made-man (termo
cunhado principalmente na literatura americana)? Para estu­
dar as possíveis diferenças e /o u semelhanças entre os tiois,
vamos recorrer à descrição feita por Lasch (1983) a respei­
to do self-made-man e então contrastá-la com as colocações
de Ehrenberg sobre o indivíduo conquistador. Em todo caso,
porém, cumpre mencionar que ambos os autores elaboraram
seus comentários e denominações a partir de circunstâncias
distintas, o que deverá ser considerado a seguir.
Lasch vincula a existência do self-made-man à ética pro­
testante efo trabalho, matriz de muitas das idiossincrasias da
cultura americana, dizendo que ele, “personificação arquetí-
pica do sonho americano, devia seu progresso a hábitos de
atividade, sobriedade, moderação, autodisciplina e evitação
de dívidas” (Lasch, 1983, p. 79-80). Vivia para o futuro,
cultuando e nutrindo uma acumulação paciente e diligente,
sempre encontrando adiamento para as próprias gratificações.
Lasch acrescenta c|ue uma economia cm expansão forneceu as
condições necessárias para a crença de que esperar o valor dos
investimentos seria algo recompensador, em vista da possibi­
lidade flitura de lucros redobrados.
O self-made-man, assim retratado, tinha também um
sentido de probidade e de orgulho com respeito ao próprio
caráter, dando pouca ênfase à competição, de tal forma que
via a riqueza como um valor pessoal capaz de contribuir para
o bem-estar geral e para a felicidade das fiaturas gerações.
Portanto, nessa visão, o self-made-man estava comprometido 137
com família, estado, nação, imperialismo etc., ou seja, com
muitas coisas além de si próprio. Queria mandar para impor
a ordem ao mundo e tornar o mundo semelhante a seus pró
II
prios ideais (o que Lasch caracteriza como “individualismo
tradicional” ou “individualista áspero”).
Quando comparado especificamente a essa descrição do
self-made-man, o indivíduo conquistador difere de modo siu,
nificativo, pois, ao contrário do primeiro, ele não visa nada
senão a si mesmo, não tem outra meta senão seu próprio de
senvolvimento pessoal. Além do mais, ao contrário daquele,
o indivíduo conquistador não vê a menor possibilidade de su
bordinar seus interesses e necessidades aos de outras pessoas,
a alguém ou a alguma causa ou tradição fora dele mesmo.
Enquanto indivíduo puro^ não tem transcendência nem me
tafísica; não cultiva o adiamento das gratificações, em vist.i
de um futuro ou de uma continuidade geracional. Não vi\e
ligado ao passado nem preso às tradições grupais.
Enfim, não se sente comprometido com nada, exceto com
a vitória, com o gosto de mandar sem saber para que, porque
não acredita em nada além de dinheiro, sucesso e visibilidade
social. Ao contrário da versão laschiana do self-made-man (que
se manteve viva pelo menos enquanto durou a influência tia
ética do trabalho), o indivíduo conquistador cxtvú sua energia
e existência de um cenário de competição contínua e acirrada,
fazendo do outro sempre uma marca a ultrapassar ou então
um ponto de confirmação da sua própria habilidade e perfor
mance.
Contudo, o próprio Lasch (1983), na sequência de seu
trabalho, irá criar condições propícias para uma constatação
de semelhanças entre o self-made-man pós-étiea do trabalho i-
o indivíduo conquistador, conforme retratado por Ehrenberg
a partir do caso da sociedade francesa. As semelhanças come
çam quando Lasch traça o desdobramento do self-made-man
sob a ótica da ética do trabalho para um self-made-man erigi
138 do numa época de sobrevivência psíquica.
Em muitos pontos a análise de Lasch coincide com a il(
Ehrenberg, principalmente quando aquele descreve as cau
sas do referido desdobramento: enfraquecimento da religião
como moldura organizadora da sociedade; esgarçameiito tia
tradição e da autoridade; enfraquecimento do sentido de con
tinuidade histórica; enfracjuecimento da família; agravamento
e hostilidade das condições de vida; mudanças operadas no
papel da política nas sociedades atuais. O próprio Ehrenberg
(1995) chega a admitir a coincidência semântica entre o in ­
divíduo conquistador c o self-made-man, desde que, segundo
meu ponto de vista, este seja entendido como corresponden­
do à descrição laschiana pós-ética do trabalho.
Para os propósitos deste capítulo c suficiente apontar que as
condições que deram origem ao indivíduo conquistador t ao cul­
to da performance ^oácm caracterizar um desdobramento e uma
radicalização do indivíduo da modernidade, pois, se este ainda
tinha como ideal o domínio e o controle da natureza, o pro­
gresso, a perspectiva de enriquecimento hituro, a confiança no
“Homem” etc., o indivíduo conquistador cívcàcx.cúz2. uma época
de incertezas e de inumeráveis caminhos opcionais, embora sem
um ideal claramente fixo no horizonte, exceto a busca momen­
tânea e alucinada pela própria sobrevivência psíquica e física.
A radicalização do modelo de subjetividade incluído na
descrição do indivíduo conquistador aponta para um mo­
mento histórico em que emerge um tipo de relação com a
existência marcado pelo arranjo pontual e circunstancial de
vocabulários de descrição pessoal, sem quaisquer ligamentos
com grandes narrativas ou “esperanças de massa” . O indiví­
duo é hoje um colecionador de sensações, ávido para aliviar
uma espécie de “intranquilidade permanente” (Costa, 1997;
1998; 1999; Ehrenberg, 1998).

TORNAR-SE UMA MARCA REGISTRADA


139
O título já diz muito do conteúdo da revista que vamos
utilizar aqui como um recurso de análise: Você S. A. Ele revela
uma mentalidade recente, porém cada vez mais forte entre
nós: a do indivíduo transformado numa marca de si mesmo.
Uma marca cjue se negocia, se vende, se troca e que “agrega
valor” . Entretanto, tal negociação, venda ou agregação de va
lor não depende de inscrições coletivas ou de lugares fixados
hereditariamente para o indivíduo; depende, exclusivamenic,
da própria iniciativa pessoal, de um ato puro.
Sobre isso, aliás, podemos notar algumas transforma
ções interessantes. Não faz muito tempo, aqui no Brasil,
principalmente a partir da época áurea do populismo (e do
chamado “ Milagre Econômico” , durante os anos 1970),
o trabalhador brasileiro tinha direitos e garantias assegu
rados, tanto pelo estado, quanto pela empresa onde tra
balhava, a cjual, ela também, era permanentemente moni
torada por uma política protecionista e patronal. Ter uma
carteira assinada era sinônimo de amparo social dos mais
variados tipos e intensidades. Hoje, tais direitos e essa an
tiga segurança na carteira profissional comprometeram-se
profundamente.
O estado democrático tem diminuído ou reformulado
suas políticas trabalhistas e suas manobras intervencionistas
na empresa ou economia de um modo geral. De administra
dor supremo ele é chamado, agora, a ser um estado “indutor,
normativo e regulador” (Dupas, 1999). Por sua vez, as em
presas, dentro do novo paradigma industrial de cadeias pro
dutivas fragmentadas e globalizadas (Dupas, 1999), também
não garantem mais uma integração sólida para a grande massa
da população de trabalhadores.
E dentro dessa nova realidade que o indivíduo é con
vocado a tomar seu lugar e a fazer de si mesmo seu melhor
patrimônio. Doravante, ao invés de se ligar, definitivamente,
a uma empresa, ele buscará clientes que atribuam valor a ,seii
140 próprio reservatório de talentos. O indivíduo se tornou um.i
“organização” de si mesmo. Isso será explorado mediante al
guns exemplos ilustrativos a propósito dessa nova mentalid.i
de (retirados das revistas acima mencionadas).
r
Começamos pelo título de Uma reportagem de Pedro
Mandelli: “Sua carreira é problema seu” (Mandelli, 1999, p.
50). A sugestão parece ter endereço certo; o indivíduo entre
gue à sua própria sorte, sem apoios que não em si próprio. ()
subtítulo reforça a mensagem: “Administrá-la [sua carreira]
não é fácil. Mas crescer e prosperar profissionalmente só de­
pende de você” . Em toda a reportagem não há nenhuma re­
ferência senão à própria consciência do indivíduo, forçando-o
a admitir a responsabilidade sobre sua vida profissional.
Paradoxalmente, temos também de reconhecer na repor­
tagem a tradução de um novo perfil para as organizações. Se
antes elas garantiam, numa relação recíproca, a estabilidade
do empregado, bem como criavam as condições para que ele
se submetesse inteiramente a elas, agora não podem mais ser
consideradas como uma fonte duradoura de identificações
para o indivíduo. Vejamos algumas demonstrações disso:

Nenhuma empresa vai se preocupar com o seu cresci­


mento ou com sua prosperidade. Isso é problema seu. (...)
C) camarada fica o dia inteiro se arrebentando, não gosta do
que íáz, não sabe para onde vai, não tem perspectivas e culpa
a empresa por essas coisas (Mandelli, 1999, p. 52).

Crescer e prosperar são coisas suas, não porque a em­


presa não cuida delas, mas porque você não deve deixar nin­
guém cuidar delas (p. 54).

(...) você tem que tázer a diferença. Não se adapte à em­


presa. Quando isso ocorre, você não serve mais (p. 55).

Essas frases apontam para a existência de um fenômeno


de dupla transformação: primeiro, no modelo de empresa,
que deixa de ser considerado exclusivamente como produtor 141
de lucro e exploração para ser visto como “maneiras de se
organizarem empreendimentos que gerem mais do que con­
somem” (Nobrega, 1999, p. 71). Poderíamos dizer que uma
empresa, hoje, caracteriza um conjunto instável e volátil ili
possibilidades de empreender algo, de provar competência,
iniciativa e performance.
Não se trata mais de um simples prédio, repleto de ma
quinas e equipamentos e pessoas trabalhando em ritmo ili
série. Em curtas palavras: a empresa é um modelo de singu
larização disponível e, nessa perspectiva, está ao alcance ilc
“tódos” empreender algo, ser responsável pela gerência ilc
algo (principalmente de si mesmo); depende apenas do grau
de interesse do próprio indivíduo.
Numa época em que empresas que sequer possuem imu
estrutura física ganham bilhões de dólares (Nobrega, 1999),
a ênfase dei.xa de ser posta nas estruturas fixas e gigantesc.l^
para se voltar para a própria atividade de empreender^ de npro
veitar as oportunidades para agir mediante estratépfia. “Em
presa”, hoje, é sinônimo de criar a diferença, de inovar, lic
assumir riscos e de visualizar, num contexto complexo e in
certo, saídas que resultem num retorno, não apenas material,
mas também - ou principalmente - subjetivo: o reconheci
mento de sua própria performance, a contínua superação doc
“adversários”, a prova de talento de si mesmo.
Saímos de uma época em que se enfatizava a gestão dos cosu
promissos entre empregador e empregado para uma organizaç.u >
que demanda a gestão da adesão^ ou seja, o fato de se encarar .1
empresa como perspectiva, provisória, de crescimento c prospen
dade próprios. Entretanto, a adesão termina quando a autonomi.i
do indivíduo em gerir seu “próprio” negócio (ou seja, ele mesmi >)
atinge patamares excepcionais: “Quando você mesmo é o cons
trutor de suas esperanças, a empresa é só um meio para que \ <hc
alcance suas expectativas” (Somoggi, 1999, p. 46).
À imagem da empresa, vista sob a ótica do emprenidn
142 alpfo^ o indivíduo precisa saber gerir sua própria vida e de\'c s.i
ber comunicá-la tão bem quanto possível: “Quem pode sabn
de você é você. (...) Você tem de aproveitar os espaços par.i m
desenvolver” (Mandelli, 1999, p. 54). Prosperar é saber ciii
dar de si mesmo, fazendo-se um valor de troca precioso o
qual independe da empresa ou de qualquer outra institui(,ào:
“Você tem de valer cada vez mais” (Mandelli, 1999, p. 5 1 ).
Do mesmo modo que uma empresa, o indivíduo, além
de sobreviver e crescer, tem de prosperar: “Se você não estiver
investindo em você, vai ficar fora do mercado. Você precisa sc
empresariar, se empreender” (Mandelli, 1999, p. 51). E a inti­
mação: “Quer ser levado? A turma não quer mais levá-lo. Ou
você vai por conta própria, ou...” (Mandelli, 1999, p. 53). As­
sim, “se você espera que sua empresa lhe dê injeções de ânimo,
más notícias. O que todas as empresas querem é gente capaz de
criar seu próprio entusiasmo” (Somoggi, 1999, p. 45).
O golpe de misericórdia na ideia de uma empresa que
protege ou toma pelas mãos seus membros vem a seguir: “A
empresa é um empreendimento c]ue vai para frente com você,
sem você ou apesar de você” (Mandelli, 1999, p. 51). E, fi­
nalmente: “As próprias empresas estão numa corda bamba,
não podem mais se responsabilizar por você” (Silveira, 1999,
p. 58). O indivíduo se torna o empreendimento - a empresa
- mais valioso que existe, e o mercado se torna a vitrine onde
ele se expõe, se negocia e se vende.
Os exemplos não param por aí. Eles são reproduzidos nos
mais diversos vocabulários, todos, porém, dizendo a mesma
coisa - ou melhor, exibindo a mesma coisa, em nome de seu
próprio bem." cuide-se! Técnicas de administração de si não
param de ser lançadas no mercado, auxiliando, tanto quanto
possível, a fabricação do indivíduo/herói/vencedor. Numa
entrevista cedida pelo “guru” em administração, ou em busi-
ness, o irlandês Charles Handy, a Jaime Eidalgo Cardoso, ve­
mos as mesmas proposições: indagado sobre qual deveria ser
a atitude das pessoas num mundo que diminui cada vez mais
os postos de trabalho, Handy responde: “Elas devem assumir 143
maior responsabilidade por si mesmas” (Cardoso, 1999, p.
73). Mas ele sugere uma maneira toda especial para se fazer
isso: a descoberta dos próprios talentos.

L.
INDIVIDUALISMO NEGATIVO

Como numa bolsa dc valores, temos de “negociar” sem­


pre nossos talentos. O nosso esforço deve estar voltado para
a rentabilidade cada vez maior deles, paralela ao incremento
dc nossa própria capacidade de “nos” negociar e dc atrair
valor para nós mesmos. Handy continua o seu raciocínio: “O
principal desafio para os trabalhadores autônomos está em
descobrir quais são os seus principais talentos e aprender a
vendê-los.
O importante agora é procurar clientes em vez de empre
gos” (Cardoso, 1999, p. 73). “Emprego”, aqui, parece fim
cionar como sinônimo de “dependência” ou de “submissão”
a normas ou organizações que fixam c determinam qual é o
espaço do indivíduo, para onde ele pode ir e o que ele de\ c
fazer. Esse modelo, segundo o economista-gurti, estaria em
vias de se extinguir. Mas se extinguir onde? Em que socieda
de? Para quais pessoas?
A gravidade dessa extinção para o caso da sociedade bra
sileira é dramática, pois nem todos têm condição, financeira
ou cultural, para aceder ao comando de sua própria vida. Par.i
uma população cujo índice de pobreza é altíssimo, tomar par.i
si o peso da existência não é uma tarefa nada fácil ou mesnu >
“justa” . Entretanto, frequentemente, mudamos a nossa cren
ça no conteúdo da “justiça” devida a todos. Dentro da lógic.i
do indivíduo até aqui conjecturada, a do indivíduo do culio
da performance, a ação “justa” é exatamente aquela embuti
da na moralidade da concorrência e dos resultados atribuíveis
às iniciativas pessoais.
Apesar de tudo, podemos imaginar que o chamado “iii
divíduo conquistador”, representante do culto da perfor
144 mance, não tem tido mais as condições de manter seu brilho
diante da promessa de um futuro melhor e promissor. 1
aqui que se instalam, como afirma Ehrenberg (1995; 199.S),
o indivíduo incerto e o indivíduo insuficiente', eles caracteri
zam a ausência ou escassez de recursos (sociais, econômicos
etc.) disponíveis ao sucesso e à prosperidade pessoal, lún
nosso meio isso salta à vista.
A apologia ao modelo dos “empresários-esportistas”, di­
vulgado como uma meta ou então como algo supostamente
“acessível” a todos, revela suas rachaduras quando confronta­
do com a dura realidade em que vivemos hoje: desigualdades
sociais difíceis de ultrapassar; pobreza em massa; falência ge­
neralizada de empresas (e enriquecimento exagerado de ou­
tras) e perda da legitimidade dos sindicatos e demais órgãos
institucionalizados - públicos - de representação coletiva.
Conforme diz Ehrenberg (1995; 1998), estamos en­
trando numa época um pouco mais nebulosa do que se
imagina, embora isso, segundo minha opinião, não deva ser
tomado como uma perspectiva catastrófica. Do ponto de
vista subjetivo, tal realidade pode assinalar um forte empo­
brecimento pessoal (pois o indivíduo fica cada vez mais res­
trito ou limitado a si mesmo), um visível enfraquecimento
de projetos coletivos e de ideais aos quais se dedicar (à ex­
ceção da performance individual) e uma perda, ou transfor­
mação, nos contatos recíprocos estabelecidos em sociedade
(o vínculo social), desestimulando a instalação de uma rede
sólida e nacional de apoio social e mesmo econômico (de
um espaço público forte).
A consequência moral e ética mais radical do enfraque­
cimento da crença nos horizontes sociais futuros é a prolife­
ração dura, junto a determinadas faixas sociais brasileiras, de
um individualismo ne^fativo (Castel, 1998), ou seja, a inten­
sificação de dispositivos subjetivos, econômicos e sociais que
pressionam ou forçam o indivíduo a depender apenas e tão
somente de si mesmo para sobreviver: de seu corpo e de suas
“possíveis” potencialidades. 145
Entretanto, ele é “negativo” porque nem sempre se opta
por ele, mas se é jogado, compulsoriamcnte, em sua direção
(Singer, 1999). Em consequência disso, grande número de

i i
pessoas, as que realmente não têm condições suficientes para
“vencer” econômica e socialmcnte, condições para existirem
cm nome de si mesmas^ são vulnerabilizadas além de um ponto
considerado como “aceitável” .
É aí que se instala uma importante diferença entre o
ideal do indivíduo conquistador e a real situação de todos
aqueles que, em nossa sociedade, não têm meios ou recursos
para obter “êxito” e “sucesso” no empreendimento de si
mesmos. Mas, da mesma forma que o primeiro, como esse
individualismo negativo consegue impor-se, a passos largos,
aqui no Brasil, mesmo com suas lamentáveis e funestas con
sequências? Como descrever as condições que o legitimaram
e o investiram de um sentido de verdade?
A vulnerabilidade criada em torno do individualismo nc
gativo se caracteriza pela conjugação de dois fatores concon
rentes: a precariedade do trabalho e a fragilidade dos suportes
de proximidade (Castel, 1994; 1998). O primeiro se refere,
principalmente, à perda das referências contratuais que mar
cam as relações trabalhistas no novo capitalismo. Como ja
discutimos antes, parece não haver mais uma rede intensa c
sólida de segurança, social ou econômica, que garanta o fiitu
ro e a sobrevivência do indivíduo. Ele deve responder a isso
por conta própria.
Contudo, é bom fazermos uma diferenciação: há indiví
duos, como os de classe média ou alta, que têm, efetivamente,
condições de aceder ao nível do indivíduo conquistador. No
Brasil (mas não só aqui, evidentemente), porém, predomi
nam indivíduos de um segundo tipo: aqueles que têm pouca
ou nenhuma inserção econômica ou mesmo social (já que
esta última, cada vez mais, depende da primeira).
A diferença entre os dois é, simplesmente, uma diferença
146 de condições ou de recursos. Apesar disso, a voilnerabilidade
atinge a ambos, embora sob perspectivas diferentes: se, num
caso (o do indivíduo conquistador), ela significa o aumento
da responsabilidade que porta sobre o indivíduo (acréscimo),
no outro, ela representa o individualismo negativo aiuerior
mente mencionado. A vulnerabilidade, neste último caso, i c
présenta uma condição de desfiliação da coesão social (Castel,
1994; 1998), a subtração das responsabilidades c compro
missos coletivos que deveriam amparar o indivíduo, fragiliza
do devido a reais assimetrias no acesso a posições sociais de
reconhecimento.
Por outro lado, a fragilidade das relações de proximidade
atinge a garantia de que o indivíduo poderia dispor junto ã
sua comunidade para enfrentar as adversidades impostas a ele
pela própria existência. São o que já chamamos de “redes de
solidariedade”, o fato de não se estar sozinho e de poder par­
tilhar o peso da vida com outras pessoas concidadãs.
Essa dimensão política ou comunitária da sociedade se
perde diante da fragmentação do tecido social (palco que
deveria ser habitado pela política) e, paradoxalmente, diante
dos movimentos de “fechamento comunitário”, isto é, das
pequenas comunidades que reproduzem a identificação mú­
tua, gerando um “narcisismo de pequenas diferenças” . Estas
vão desde os enclaves fortificados que se expandem na classe
média e alta (Caldeira, 1997) até as “tribos” de jovens que, à
“margem” do direito à palavra, exercem um protesto reivin-
dicatório, às vezes perpassado pela violência e pela intolerân­
cia diante dos outros.
Mas fiquemos, por ora, com a imagem do indivíduo con­
quistador^ daquele que deve ser o empresário da sua vida,
quaisquer que sejam suas reais condições sociais ou cultu­
rais. Voltemos às opiniões de Handy sobre como deve ser
sua tace. A temática, agora, está voltada para a estratégia que
tal indivíduo deve desenvolver para si, a fim de se agenciar
aos outros, ao mercado. Quando lhe perguntam se há algu
ma solução para aqueles que não sabem vender-se, Handy 147
responde; “A resposta está no nascimento de mais empresas
especializadas em marketing pessoal, ejue farão o papel tic iii
termediários entre a oferta de talentos e as necessidades <.lo
mercado. É como se cada profissional passasse a ter seu pró­
prio empresário” (Cardoso, 1999, p. 74). A ferramenta ideal
para a produção da marca de si próprio: o marketing.
Em que esse marketing se apoia? Simplesmente sobre os
“talentos” possuídos pelo indivíduo. Uma grande dificuldade
deste último, aponta ainda Handy, é a incapacidade de des­
cobrir, em si mesmo, os talentos inevitavelmente presentes.
Todos têm seu talento próprio; todos sabem fazer algo de
uma maneira excepcional ou diferente das demais. Basta de­
senvolver esses “dons” e fazê-los caminhar a serviço do indi­
víduo, lembrando-se sempre de que talento “c algo que toda
e qualquer pessoa, sem exceção, possui. É a própria essência
da pessoa, seus padrões recorrentes de comportamento, pen­
samento e sentimento. É uma espécie de impressão digital da
alma” (Colombini, 1999, p. 30).
A conjugação da descoberta e desenvolvimento dos pró­
prios talentos à tomada de responsabilidade da própria vida
resulta num termo muito falado atualmente no meio empre­
sarial: a empregabilidade, ou seja, o índice pelo qual “flutua”
a “rentabilidade” do indivíduo, principal “ação” de que dis­
põe na bolsa de valores do mercado.
A empregabilidade é a outra face do indivíduo conquista
dor e desinibido, pois atesta seu potencial de agregar valor c
de ser útil a determinados propósitos, independentemente dc
qualquer organização à qual, provisória e momentaneamen
te, ele se ligue.
A permanência na empresa vai depender de uma série
muito ampla de fatores, mas um deles diz respeito ao índice
de adequação dela com as aspirações e potencialidades do in
divíduo: se a empresa, como facilitadora de empreendimeii
tos, não propiciar mais condições para o desenvolvimento
148 pessoal daquele, ele simplesmente sai e, sem demora, busca e
encontra outro lugar mais atrativo. Essa prática (os headhuntcrs
a ilustram bem) é extremamente comum no meio executivo,
em que os mais capacitados e “valiosos” são reverenciados
com contratos tentadores em outras empresas, mesmo qiian
do ainda estão empregados - eis aejui a semelliança railical
com as negociações de ações na bolsa de valores!

O CUSTO DA EXCELENCIA

C) indivíduo conquistador^ cujo território privilegiado de


ação deixa de ser o mercado stricto sensu para se reproduzir
em outras áreas da sociedade, ilustra uma nova arquitetura do
indivíduo na sociedade dos países desenvolvidos e também
aqui na nossa. Técnicas específicas são criadas a todo momen­
to para perpetuar e renovar continuamente sua performance
e sua face de apresentação social.
Diante de tudo o que foi falado até aqui torna-se difícil
não lhe creditar uma importância como via de singulariza-
ção, ou subjetivação, disposta a um bom niimero de pessoas
em nossa sociedade. Talvez nem todas as pessoas consigam
alcançá-la, já que nem todas têm as mesmas condições para
competir. Essas pessoas ficam, então, computadas num tipo
de individualismo muito perverso e com efeitos desastrosos: o
individualismo negativo^ formado pela falta de referências, de
bens garantidos, de apoios sociais e de vínculos estáveis: apli­
ca-se “a indivíduos que, da liberdade, conhecem sobretudo
a falta de vínculos e, da autonomia, a ausência de suportes”
(Castel, 1998, p. 598).
Mas não é privilégio deste último a sistematização de
consequências desastrosas. A excelência perseguida pelo in­
divíduo conquistador também tem um preço, e por sinal bas
tante elevado em termos psíquicos: a permanente inseguran­
ça das decisões, a pressão exercida pelos riscos e desafios cada
vez mais altos, o peso da ação individual, uma jornada ile 149
trabalho muito extensa e a necessidade ininterrupta de fazer
prova de eficiência e qualidade num ambiente instável e, às
vezes, confuso e à deriva (Sennett, 1999).
A excelência perseguida pelo indivíduo conquistador faz
dele, tal como apresenta Ehrenberg (1995; 1998), um indi­
víduo incerto^ assombrado continuamente por “panes energé­
ticas”, ou seja, pela possibilidade de fracassar ou de apresentar
alguma insuficiência diante de uma cultura de performance e
de ação individual competitiva.
O universo organizacional, especialmente o do alto ma-
na^gement, confronta-nos com uma outra questão importan­
te: a estreita aproximação feita entre a identidade profissional
e a identidade psicológica. Em termos próprios a essa área,
ouvimos de modo intenso expressões que ligam “realização
profissional” à “realização pessoal” .
Aliás, parece mesmo ser um tipo de meta ou objetivo
alcançar o maior grau possível de coincidência de uma com
a outra: “As empresas de alta performance, as mais competi­
tivas, querem pessoas que enxerguem o trabalho como uma
forma de realização pessoal - não apenas profissional” (So-
moggi, 1999, p. 45). Da forma como isso é colocado nessa
passagem fica a impressão de que a finalidade da “realiza­
ção pessoal” é a própria competitividade ou, indiretamente,
o incremento da capacidade produtiva. Indivíduo realizado,
lucro concretizado! E possível, entretanto, reconhecer certos
aspectos “positivos” nisso tudo.>
Podemos analisar a questão relembrando as antigas fábri­
cas do início da Revolução Industrial até a época de Eord e
Taylor, quando os empregados eram destituídos de qualc]uer
implicação pessoal no trabalho efetuado, tendo, tão somente,
de se adaptar à cadência mecânica e repetitiva da produção
em série. Hoje, salvo raras exceções, as empresas buscam dar
a seus flmcionários todas as condições para se sentirem em
“casa” .
150 Isso tem se tornado possível, tanto graças ao registro tec
nológico, que mecanizou a maior parte dos trabalhos lesivos
à saúde do trabalhador (mental e física), quanto graças ao
plano organizacional, com a alteração nas políticas de recur
SOS humanos e na própria administração das empresas. A par
ticipação do empregado torna-se cada vez mais decisi\ a, liem
como sua dose de autonomia e gestão pessoal do trabalho.
Como diz Ehrenberg (1991), teríamos saído de uma or­
ganização disciplinar - e de uma sociedade disciplinar - para
uma organização pós-disciplinar, cujo expoente principal é o
incentivo à autonomia e às iniciativas pessoais. Paralelamente,
nos últimos anos, a própria pluralização da sociedade favore­
ceu a retomada e a consolidação das legitimidades individuais,
no agir e no próprio pensar político.
Entretanto, o aumento da indefinição e da indetermi-
nação, provocadas pelo apagamento das referências coleti­
vas (políticas, sociais e até econômicas), forçou o indivíduo
a admitir um contexto sem muitos parâmetros balizadores
ou norteadores de sua ação. Nas empresas do passado, ape­
sar de submetido a grandes adversidades, o trabalhador tinha
noção clara de onde estava e aonde poderia chegar. A ordem
hierárquica era dificilmente transponível, e a figura do patrão
representava a presença encarnada da autoridade e do dever.
Hoje, pelo contrário, a autoridade diluiu-se de modo bastan­
te intenso, naufragando posições e papéis definidos.
O indivíduo, agora, vive na incerteza de estar ou não fa­
zendo a coisa certa. Não sabe se o “sucesso” em sua carreira
,se deve, efetivamente, ao seu deslocamento para cima ou se
é apenas um deslocamento lateral na mesma carreira. A fle­
xibilidade, a necessidade feroz de mudanças e a perspectiva
de fazer seu próprio negócio, a despeito da organização a
que eventualmente se ligue, contribuem para o que Sennett
(1999) chama de corrosão do caráter.
A formação do caráter depende de virtudes estáveis como
lealdade, confiança, comprometimento e ajuda mútua (Sen­
I 151
nett, 1999). O novo capitalismo não favorece o florescimento
desses tipos de virtudes, mas, pelo contrário, as desestimula.
Sem dúvida, o preço pago foi, por um lado, uma economia
mais dinâmica, ágil e autônoma; de outro, entretanto, cau-
cionoLi o enfraquecimento da ideia de objetivo a longo prazo,
da integridade e da confiança nas outras pessoas.
Entramos, segundo Sennett, numa economia “sem com­
prometimentos a longo prazo”, importando sempre medi­
das de baixa amplitude temporal, tão velozes quanto voláteis
(“tudo que é sólido desmancha no ar”, dizia Marx, resgatado
por Berman, 1995). Assim, aponta Sennett, emergem dois
traços de caráter nesse novo cenário: de um lado, a capacida­
de de desprendimento do passado; de outro, a confiança para
aceitar a fragmentação, ou seja, a confiança de permanecer na
desordem e de prosperar em meio à confusão e ao desloca­
mento, sem cessar, de um mercado cada vez mais incerto e
globalizado.
O im portante aqui é que o autor reforça a diferença
de impacto dessas duas formas de caráter: ao mesmo tem ­
po em que elas privilegiam e falam a linguagem de uma
categoria dirigente e rica, têm efeitos destrutivos sobre
o caráter das pessoas que estão mais embaixo no regime
flexível.
Além disso, a tomada de responsabilidade a partir da
perspectiva privada de cada um reforça o número de conse­
quências pessoais “negativas” desse novo capitalismo sobre
o indivíduo. Assim, quando ele “fracassa”, a interpretação
logo o colocará como o principal culpado. Se você é o res­
ponsável por sua carreira, então isso implica tanto o suces­
so quanto a derrota, ambos com suas respectivas demandas
psíquicas. Da derrota, fica o gosto amargo na boca: “Eu não
sou bom o bastante” (Sennett, 1999, p. 141).
Como elaborar o fracasso se ele não é codificado e de
batido numa linguagem coletiva? A elaboração passa, então,
pela própria assimilação pessoal de um suposto “erro” de per
152 curso que deve ser imediatamente varrido da vida pessoal.
Claro, quando isso ocorre, a elaboração do “luto” da perd.i
não é possível; ela é interrompida e assimilada a um déficit
recuperável do próprio indivíduo. Ou seja, ela não se torn.i
r
o viés da ilusão dc uma subjetividade, de um Kii perfeito. Ao
eontrário, é vista como a culpa por não ter chegado lá, por icr
deixado de se desenvolver a contento. A chance hax ia; voa' é
que não a aproveitou adequadamente! Se tivesse aproveitatlo,
não teria talhado!... e a ilusão na crença sem falhas da perfoi“
mance teria sido protegida.
Seguramente, o fracasso não deve atingir todas as pessoas
da mesma forma. Talvez seu impacto dependa, dentre mui
tos outros aspectos, da “centralidade” que o trabalho - oii
a carreira - desfruta no tocante à formação e manutenção
da própria identidade psicológica. De acordo com Fdirenberg
(1995), quanto mais se desce na escala social, mais a vida pri­
vada é vivida como uma obrigação e uma limitação, mais ela
é marcada pelo risco de enclausuramento do indivíduo, pois
os recursos disponíveis para o empreendimento da conquista
de um lugar social reconhecido, feito pela própria iniciativa
pessoal, são mais escassos à medida que as condições de vida
são agravadas por dificuldades de acesso a bens, sejam eles
materiais, simbólicos ou relacionais.
Dessa maneira, a menos que admitamos que todos na
sociedade brasileira têm os mesmos recursos (como, aliás, o
faz o mito do indivíduo conquistador) sociais, financeiros,
culturais etc., temos de reconhecer que o trabalho desempe­
nha papéis diferenciados entre os grupos sociais, ou seja, o
trabalho deve ser visto, não enquanto um conjunto de ope­
rações técnicas, mas como possibilidade de subjetivaçâo e de
inserção social e econômica.
Uma breve retrospectiva histórica pode demonstrar que
o trabalho permaneceu como uma das únicas vias dc indixádua-
lização disponível para as antigas classes “operárias”, ou seja,
para todos aqueles que foram, de certa forma, “afastados” do
projeto capitalista de acumulação de bens. A venda da força 153
de trabalho por muitas pessoas foi, e ainda continua seiuio,
o recurso indispensável para a garantia de sua sobrevivência e
reconhecimento social.

V
Pode-se dizer que estamos hoje numa fase incerta em que
se misturam uma antiga sociedade de trabalhadores e uma so­
ciedade de indivíduos impulsionados à tomada do controle
de sua própria vida com os recursos que têm (cujo contexto
econômico é o aumento surpreendente do emprego infor­
mal). Tais recursos, por sua vez, dispõem-se numa cadência:
do mais incrementacio, dadas as condições propícias (e desi­
guais) para tal, até o menos incrementado, simbolizando a
dura realidade que muitas pessoas no Brasil têm para adquirir
uma formação educacional e cultural sólida e ampla.
Não é possível admitir, junto com o ideal do indivíduo
conquistador, que todos têm as mesmas chances de ser o exe­
cutivo da própria vida. A realidade brasileira parece mostrar o
contrário. Para certa camada da população, tomar a responsa­
bilidade pela própria vida significa desfiliar-se á-í coesão social,
ou seja, afastar-se do “direito” a um lugar social reconhecido,
aíástar-se do jogo de trocas e proteções coletivas e mesmo do
bem-estar social, já que o individualismo negativo (Castel,
1998), já apresentado antes, insere-as numa dura trajetória
de lutas e dores solitárias. Essas pessoas atestam, nesse caso,
a inequívoca rachadura da esfera pública brasileira, sob cujos
cacos todos tentam “se virar” como podem.
Portanto, a tese da “centralidade” do trabalho pode
ser útil diante do propósito de apontar que ele, para certos
grupos sociais e devido a certas transformações econômicas,
é uma maneira vital de subjetivação (embora, claro, não a
única) c de inserção social e econômica. Vamos imaginar um
exemplo. Uma pessoa trabalha 20 anos numa empresa como
torneiro mecânico. De repente, ela c afetada por uma doença
lesiva nos músculos da mão, doença que a impede de conti­
nuar trabalhando. Com uma Lesão por Esforços Repetitivos
154 (L.E.R.), essa pessoa é afastada do serviço e passa a receber
uma assistência do I.N.S.S. A ajuda, como se sabe, é fun-
clamentada num laudo que prediz a gravidade da situação c
a “invalidez de fitto” do indivíduo para continuar atuando.
pck) menos no antigo emprego. () que tará essa pessoa, alem
de buscar seu benefício todos os meses e reforçar a dura perda
de que foi alvo?
Naturalmente, ela pode desenvolver, a partir daí, outras
atividades, consoantes às possibilidades de sua nova condi
ção. Entretanto, se foi durante toda a vida privada de uma
formação mais abrangente, como um curso universitário ou
outro qualquer, como irá inserir-se novamente no mercado
de trabalho? Mais: como afetará sua c]ualidade de vida o fato
de não mais poder ser quem sustenta a família (ou alguém
que colabora com isso)? C'omo ela vai elaborar a sua mudança
de vida?
Em primeiro lugar, a intensidade dessa elaboração deve
passar pelo papel que o trabalho - a carreira - desempenhou na
formação de sua identidade psicológica (além, como já vimos,
da sua importância econômica e social para o indivíduo). Para
as classes trabalhadoras, como já se apontou (Costa, 1989), a
maneira de organizar as questões subjetivas aproxima muito
a identidade profissional da identidade psicológica (quem o
indivíduo acredita ser).
Além disso, o modo como nesse universo subjetivo c cul­
tural se vive a prcjpria experiência do trabalho aponta para a
estreita assimilação do “corpo” como um “in.strumento de
trabalho” . Ou seja, o uso do corpo é, principalmente, fun­
cional e associado à atividade laborativa (Boltanski, 1989).
Quando é exatamente esse corpo o afetado por uma lesão
(como a L.E.R, no exemplo), o indivíduo passa por uma re­
organização na imagem corporal, o que o impele a encontrar
outras atividades em sua vida, às quais seu corpo pode não
estar associado a princípio.
Mais importante, como aponta Costa (1989) o corpo é
155
um instrumento fundamental na compreensão identitária do
indivíduo, já que ele é investido como uma de suas lacei as
mais representativas. Isso tem implicações diretas com a sii
posta importância ou rigidez da eleição do trabalho como
forma de constituição subjetiva aí dominante, formando um
tipo de equação (viciosa) com enraizamentos sociais e subje­
tivos importantes: corpo inválido = indivíduo sem trabalho =
indivíduo inválido.
Entretanto, para a outra categoria social que vínhamos
analisando, ou seja, para o grupo dos indivíduos conquista­
dores^ o trabalho, tal como definido anteriormente, não passa
de um meio para se comprovar a iniciativa e a performance
individual. Sem dúvida, trata-se, aqui também, de um modo
de subjetivação, mas que está em melhores condições para se
realizar, afinal, ele se assenta sobre uma extensa base de de­
sigualdades sociais e privilégios econômicos. Apesar de tudo,
como vimos, a exclusiva crença em si mesmo e em sua capa­
cidade performática não é mais suficiente nem muito menos
garantia sólida de um futuro melhor.
Como aponta Ehrenberg: “Nós estamos entrando numa
sociedade de frustrações, pois o imaginário de ascensão social
persiste num contexto que não lhe é mais favorável, e não se
está certo de que ele será muito melhor no futuro” (Ehren­
berg, 1995, p. 16). Em outro lugar o autor acrescenta: “O
indivíduo c|ue, livre da moral, se fábrica por si mesmo e tende
em direção ao sobre-humano (agir por sua própria natureza,
ultrapassar-se, ser mais que si) é nossa realidade, mas, ao invés
de possuir a força dos mestres, ele é frágil, tem falta de ser,
está fatigado por sua soberania e se lamenta por isso” (Ehren­
berg, 1998, p. 236).
Entretanto, a despeito do reconhecimento de diferenças
entre os grupos sociais face ao ideal do indivíduo conquista­
dor, um convite é feito a todas as pessoas na sociedade bra­
sileira: tornem-se senhores de suas próprias existências! Ora,
nada impede a absorção coletiva desse convite; pelo contrá­
156 rio, cada vez mais notamos pessoas prontas a atendê-lo.
Contudo, por uns ele é ouvido de uma forma; para ou­
tros, sequer pode ser formulado. A realidade brasileira pro­
põe variantes adicionais ou inéditas nessa problemática, afi-
nal, nem todos aqui neste país têm condições e meios ilc se
inscrever na competição dura c sofisticada do “novo” merca
do. Para aqueles que podem - ou precisam - fazer is.so, não se
exige menor grau de dedicação e capacidade: antes, exige se
quase o impossível. Para essa fatia, que aliás não é pequena, o
indivíduo conquistador é uma tentadora promessa de realiza
ção pessoal - a qual, nos dias atuais, também não permanece
imune à volatilização das carreiras e à corrosão da sociedade
assalariai (cf. Ehrenberg, 1998).

PRIVACIDADE PÚBLICA,
PUBLICIDADE PRIVADA

Todos os modelos de singularização ac]ui conjecturados,


do indivíduo conquistador até o individualismo ne^ativo^ têm
como fundamento prévio e necessário o questionamento de
um tipo de política: a do bem-estar social, afinal, o Estado
democrático tem se envolvido, atualmente, em dificuldades
muito grandes no tocante à gerência política dos conflitos
sociais e dos projetos coletivos.
Aliás, haveria pertinência, hoje, em falar num “pro­
jeto coletivo” .^ Essa falta de definição do estado dem o­
crático nas sociedades avançadas (e na nossa, como é.^) e
principalmente da política tem cedido lugar a alterações
significativas no modelo de vida pública e privada. Ambas,
seccionadas, refluíram em direção à instituição de uma so­
ciedade de indivíduos onde os limites da responsabilidade
individual e coletiva foram apagados, criando confiusões e
situaç(')cs inéditas.
As referências à esfera pública têm como finalitiade
principal construir um espaço de partilha de diferenças e de 157
apoio comum, além de implementar redes de continência
social a problemas considerados como tais. () espaço publi
CO é capaz de assegurar, conforme diz Arendt (199 1 ), tanto
a certeza da realidade do mundo quanto a de nós mesmos,
livrando o indivíduo da tareia impossível de ter apenas a si
mesmo como amparo.
C) indivíduo é uma articulação entre “cuidado de si” e
“cuidado do outro”, garantida e íãcilitada pela responsabilida­
de política, a qual faz aparecer uma distância que fa z lu^ar: o
distanciamento mínimo de si que permite a existência do ou­
tro, e o distanciamento mínimo do outro que torna possível a
experiência de um Eu (Ehrenberg, 1995). Estariam todos esses
conceitos desprovidos de significado nos dias atuais.^
A questão pertinente a formular não é a “falta” de signi­
ficados de palavras como “público”, “privado”, “sociedade”,
“projetos coletivos”, “outro” etc. Torna-se, efetivamente,
mais oportuno perguntar o seguinte: como tais palavras são
utilizadas hoje.> Quais significados elas representam? A análise
do indivíduo conquistador e do indivíduo incerto^ efetuada
anteriormente, c uma primeira tentativa de resposta, pois eles
ensaiam a execução de um plano de ações práticas para o en-
frentamento das adversidades da vida em nossas sociedades
complexas, cujo expoente c a transformação dos paradigmas
da política e do mundo do trabalho.
Se, por muito tempo, o indivíduo fez parte de um jogo
em que as cartas eram dadas de antemão (como, por exem­
plo, na velha ordem aristocrática brasileita), hoje, ao contrá­
rio, ele é rec]uisitado de uma forma mais intensa: de um lado,
deve desvencilhar-se de todo passado; de outro, deve atenuar
os conflitos que existem dentro de si, conflitos derivados do
longo processo civilizatório que foi deslocando em direção a
ele uma necessidade de controle permanente de suas ações e
de sua agressividade (Elias, 1993).
Afirmar oposições entre indivíduo-privado/sociedade-
158 coletivo é uma maneira pouco eficaz de descrever os impor­
tantes relacionamentos c]ue transitam entre esses termos da
vida cotidiana. Fazer isso é tomar o indivíduo como uma subs­
tância^ e não como uma relação (Eihrenberg, 1995).
Assim, quando se aíàrma, por exemplo, que a ‘"inilasào”
da privacidade no espaço público é sinal de uma ‘■‘’despoliti
zação” da sociedade, c preciso estar cônscio das justilicaiivas
e dos propósitos de tais associações. Em primeiro lugar, essa
concepção parece sustentar-se numa avaliação não “positiva”
do individualismo, visto, fundamentalmente, como marca re
gistrada do egoísmo, narcisismo, desinteresse pelo outro etc.
Ora, sociologicamente falando, não há nenhuma razão
especial para avaliarmos com tal perspectiva esse modo de
subjetivação, pois isso, segundo entendemos, obscurece a
feição política dessa forma de estruturação da subjetividade.
Novas perguntas talvez apontem para outra direção: Qtial
demanda de política e insinuada por esse “individualismo”
de fim de milênio.^ (iomo falar em política no contexto de
uma sociedade de indivíduos'^ () individualismo contem po­
râneo, ao contrário de ser a marca definitiva do egoísmo,
não poderia atestar uma mudança na forma de experenciar
o mundo.^
A chamada “privatização da existência” (Corbin, 1990;
Sennett, 1989), fenômeno de múltiplas facetas, ao invés de
ser codificada numa rede de significados psicológicos ainda
mais individualizantes, pode ser encarada como uma reor­
ganização do conjunto das relações humanas ciue se apoia
sobre a vida pública, não para desenvolver nela um projeto
coletivo ou para facilitar a penetração e circulação de uma
linguagem de reconhecimento de um ideal de sujeito m o­
ral (Costa, 1995), mas, ao contrário, para se servir dela
com o intuito de redesenhar ou redescrever uma sociabili­
dade fraca, em c]ue importa a capacidade de cada um cm
agir a partir de sua autoridade privada e de seu julgamento
pessoal.
Nesse contexto, a vida privada, modelando-se sobre a 159
vida pública, transforma-se num espaço onde se eonuinii,.!
para negociar e para alcançar objetivos pes.soais, e não para
comandar e /o u obedecer. Na visão de Ehrenberg ( 19Õ8), o
chamado “individualismo contemporâneo” não consiste no
triunfo do homem privado, um tipo de pessoa abandonada
a si mesma, como se fosse confrontada unicamente às suas
escolhas, mas é o correlato de uma nova forma de organi­
zação do espaço público, cuja característica principal é a de
“salientar a subjetividade comum das pessoas, ao invés da
objetividade dos interesses contraditórios; ele tende mais a
■fabricar a autonomia do que a resolver conflitos” (Fdiren-
berg, 1998, p. 242).
Mais importante; esse novo espaço público parte do
pressuposto de que “produzindo a individualidade se espera
produzir, simultaneamente, a sociedade” (Ehrenberg, 1998,
p. 241). As atuais formas de ação pública, afirma Ehrenberg,
pautam-se pelos mesmos mecanismos descritos anteriormen­
te como produtores do indivíduo conquistador, a privatização
das ações, a ênfase atribuída às particularidades dos indiví­
duos (em situações, por exemplo, de desemprego) e à ca­
pacidade destes últimos em elaborar projetos e assumirem a
responsabilidade por suas próprias ações (o estado ajuda, mas
é o indivíduo quem faz!). A seguinte passagem de Ehrenberg
sintetiza bem sua visão sobre o assunto:

Ao invés de uma crise do político e do sujeito, resul­


tante da ascensão do individualismo, assiste-se a uma mu­
dança solidária das figuras da pessoa e do político. A ação
em comum já não é feita de movimentos de massa, sob o
comando de uma organização, face a um adversário designá-
vel. A representação política já não se distribui em função do
pertencimento de classe, como o mostra, unanimemente, a
sociologia eleitoral. A cidadania já não consiste em pôr entre
parênteses seus interesses privados. Não há, certamente, ação
política a não ser no horizonte de um mundo comum, mas
160 este horizonte passa, hoje, pela individualização da ação. A
ação política consiste, frequentemente, menos em resolver
conflitos entre adversários do que em facilitar, coletivamen­
te, a ação individual. Está aí uma nova obrigação política
(Ehrenberg, 1998, p. 241).
É nesse novo horizonte que o apoio da esfera pi i\ ada so
bre a pública é capaz de revelar dois deslocamentos importan
tes; a publicização do privado e a privatização do público.
Publicização do privado porque este último se tornou, nas
sociedades modernas ocidentais contemporâneas, um tema
de igual relevância (ou de relevância superior) às questões
consideradas públicas. Há, como diz Ehrenberg (1995), uma
politização da vida privada, de sorte que a afirmação da iden­
tidade pessoal pode contar com uma grande abertura que lhe
foi forjada no espaço público.
Tal politização acompanha, do ponto de vista sociológico, a
multiplicação dos atores que intervém no cenário público, ocu­
pando competências de responsabilidade do estado e de suas
instituições. A publicização do privado conduz, ainda, a um tipo
de junção entre “questões psíquicas” e outras consideradas “so­
ciais”, convertendo problemas privados em pontos privilegiados
na pauta da agenda política (Ehrenberg, 1995).
Um exemplo dessa junção pode ser encontrado nas em­
presas, na medida cm que aí são feitas articulações (mais ou
menos explícitas) entre “recursos humanos” e as técnicas de
expressão de si (motivação, “energia” vital, disposição psíqui­
ca ao trabalho etc.). Em outros termos; a “função” do em­
pregado já não se resume, pura e simplesmente, à execução
objetiva do “cargo” ; ele precisa, bem antes, fazer prova de
c]Lie c “psiquicamente” ou “pessoalmente” hábil para, além
de desempenhar o cargo, ir além dele. E a personalidade fun­
cionando como critério “objetivo” de avaliação e de medida
da ação profissional e social (Costa, 1999; Ehrenberg, 1991;
1995; Sennett, 1999).
A privatização do público é a contrapartida do proce.sso
descrito acima. Ela tem duas características centrais: por nm
lado, o homem público se privatizou para melhor se comum 161
car com a opinião pública ao mostrar suas competências, cpia
lidades pessoais e iniciativa (lembrar do pre.sidcntc (!ollor!).
Por outro lado, se vemos o privado cada vez niais público c
•!

porque os procedimentos da vida pública infiltram a vida pri­


vada e passam a regulá-la de acordo com o modelo de relação
que lhe é típico: o debate ao invés da autoridade, ou seja, o
privilégio da comunicação (a autoridade não se impõe sem
comunicação e debate).
C) privado, que na antiga configuração da ordem social
burguesa era considerado como o domínio do secreto, ampa­
rado sobre relações hierárquicas tendo como epicentro a figura
de autoridade do pai, abre-se a relação entre iguais: comuni­
ca-se entre parceiros de igual estatura moral e afetiva. Aliás, é
exatamente essa demanda pela igualdade que, na opinião de
Ehrenberg (1995), caracteriza a existência em sociedade hoje:
ela é expressa na necessidade que o indivíduo tem de ser reco­
nhecido como um ser humano i^ual a todos os outros (esse é
o efeito do que Ehrenberg chama de “paixão igualitária”, ou
seja, a reivindicação de oportunidades iguais para todos desen­
volverem um projeto pessoal à sua maneira).
C) movimento que realiza o indivíduo conquistador con­
siste justamente emapagar as arestas “próprias” à vida pública
e privada. De um lado, quando prioriza a tomada individual
da responsabilidade dc si mesmo, quebra a possibilidade de
um apoio social que divida as consequências de sua ação, bem
ou mal sucedidas.
Por outro lado, faz entrar na cena pública uma rede de
códigos dc conduta e de ação, cuja meta vital é a obtenção
dos resultados previstos para ele próprio alcançar. Comunicar
para vencer e prosperar como uma empresa. Já o individualis­
mo negativo, aqui apresentado, apela para uma outra realida­
de: a privatização do público. Ou seja: o indivíduo é entregue
à sua preapria sorte, tendo de digerir responsabilidades c difi­
culdades que dependeriam da ação social, política, do estado
162 e do restante da sociedade.
Para piorar essa situação, o indivíduo desfiliado da coe­
são social mediante um processo de individualização negativa
(cf. Castel, 1998) é acusado dexr o responsável integral por

A
tudo, abonando ou isentando, assim, o restante da soeieda
de de tomar medidas de proteção e ajuda. A fragmemaçao
social revela sua presença nesses casos de “desíiliação conseii
tida” : não há uma visão do público como um lugar de reco
nhecimento coletivo, mas como uma infinidade de focos de
realização pessoal, exclusivamente dependente dos recursos
c talentos individuais. Conforme reforça Ehrenberg (1995),
não se trata aqui de simplesmente definir um suposto “bem
comum” para toda a sociedade, mas cuidar para que as arti­
culações entre “cuidado de si” e “cuidado do outro” sejam
facilitadas, de modo a não se tornarem imprecisas as frontei­
ras c incertas as distâncias entre eles.

DUAS IMAGENS

No final deste capítulo poderiamos ter duas imagens para


representar as múltiplas facetas do indivíduo na sociedade bra­
sileira atual. Numa delas, vemos um homem vestido com um
terno, portando um pequeno Laptop, junto com uma pasta re­
pleta de papéis e uma agenda abarrotada de compromissos. Fa­
lando no telefone celular, ele desenha as silhuetas de um verda­
deiro businessman, cuja necessidade de comunicação é a alma
de sua visibilidade c capacidade de “empreender” . Não é difícil
encontrá-lo, pois seu domínio se ampliou em várias efireções.
Na outra imagem, vemos homens, mulheres e crianças
vagando pelas cidades, num traje suficiente apenas para lhes
proteger da completa exposição. Deitados sobre alamedas, jo­
gados em becos escuros, aventurando-se pelas drogas nas pra
ças públicas, perambulando pelos semáforos e nas favelas, eles
portam apenas seu corpo, único domínio que lhes pertence.
163
Talvez essas duas imagens se mostrem mais próximas ilo
que poderíamos, a princípio, supor. Quem sabe não sejam
duas superfícies cfa mesma moeda. Revelam, num caso, a in
vasão privada num espaço público tornado \ ia de ascensao
pessoal, rodeado de pessoas transformadas em competidores
e marcas a ultrapassar. Num outro caso, exemplificam a com­
pleta subtração de direitos, de garantias e de recursos para
suster o tardo da própria vida.
Revelam, enfim, um desnível que faz toda a diferença:
desnível na imagem de sujeito social (ou de ideal de sujeito
moral). Não que isso seja apenas uma figura de retórica, mas
a prova concreta e real de um conjunto de crenças que fez cia
desigualdade uma justa diferença, amparada no modelo da
concorrência e sustentada pelos “talentos” pessoais.
Ambos os modelos, contudo, tãzem prova de uma vulnera­
bilidade ou fragilidade. Não é fragilizado o indivíduo que tem
a si mesmtt como começo, meio e fim? O detalhe: o executivo
é cmlnerabilizado pelo volume de responsabilidades que inflam
sua vida pessoal (responsabilidades por “adição” ), tornando-o
uma figura cada vez mais requisitada e, por isso mesmo, co­
brada; o sujeito “desfiliado”, por outro lado, o é pela ausência
quase completa de responsabilidades sociais e coletivas que o
deveríam amparar, não porque seja indefeso, mas porque está
destituído (responsabilidades por “subtração” ).
Portanto, tanto num caso como no outro há dificuldades
e riscos de existir como indivíduo. Dificuldades que aumen­
tam à proporção que a contusão entre público e privado con­
duz a uma indeterminação na tomada de responsabilidades
e ações. Mas como poderemos pensar num estado ou numa
pctlítica fortes, exatamente quando entramos numa sociedade
de indivíduos^ Seria danoso, dadas as nossas atuais condições,
pensar que aquele deva isentar-se completamente do cenário
social (discurso neoliberal).
Se, no Brasil, ainda não houve a formação de um estado ver­
dadeiramente democrático, e se as condições de existência pessoal
164 se agravaram muito nos últimos anos, notamos uma mobilização
dos indivíduos com a finalidade de absorver, tanto quanto pos­
sível, a insegurança (e tãzem isso da maneira que podem...). A
vonculação do estado a interesses de grupos minoritários da so-

m i
r
dedade brasileira tem conduzido uma política de equilíbiio na
fina navalha do desenvolvimento social e do controle econômico,
ainda mais num instante delicado da conjuntura internacional.
Esse duplo compromisso favorece uma f'ragmentav'ào
muito grande no tecido social, pois não tem sido possível
a elaboração de problemáticas sociais muito díspares. Não c
de se espantar que a concentração de renda em nosso país
seja uma das mais altas do mundo! Modelo “democrático”
em cjue nem todos têm acesso a bens indispensáveis e a posi­
ções de reconhecimento legítimas. O individualismo negativo
pode ser a contrapartida subjetiva e social da ação “política”
de um estado enfraquecido na gerência de direitos e na reali­
zação concreta da cidadania num país onde as “justas” desi­
gualdades são, cotidianamente, perdoadas.
Para concluir cumpre acrescentar um comentário final
sobre a utilidade e mesmo pertinência de se tomar a metáfora
do indivíduo conquistador como uma chave de leitura para
a compreensão de algumas das formas de subjetivação que
estão ganhando viço e obtendo progresso no presente mo­
mento da sociedade brasileira.
Em primeiro lugar, boa parte das argumentações aqui
defendidas tem uma origem específica e muito particular:
elas derivam, principalmente, dos estudos de Castel (1994;
1998) e Ehrenberg (1991; 1995; 1998), portanto, de dois
autores franceses, estudando a sociedade francesa. Isso, entre­
tanto, não se configura como uma limitação ou então como
uma ideia “fora do lugar”, apenas relembra que conceitos
são elaborados tendo em vista não a trans-historicidade, mas
sim a contingência. E esta mesma contingência faz com que
conceitos sejam utilizados para compor diálogos, ilustrações,
pontos de apoio e de discernimento junto a comunidades que
nem sempre pertencem à mesma raiz onde tais conceitos l(> 165
ram construídos “originalmente” .
Não se trata de averiguar o que é comum ou incomum
lá e cá, mas sim de compor roteiros de discussão sobi c pro

_L
blemáticas que podem ser traduzidas num vocabulário que
ganhe sentido entre aqueles que se beneficiam dos referidos
conceitos. A partir disso, novos elementos podem, e devem,
ser introduzidos no diálogo, principalmentc aqueles que se
referem aos significados de uma sociedade com traços pró­
prios, em função de inéditas e específicas formas de descrever
a si mesma (inclusive devido à própria maneira como o autor
de um determinado texto concebe tal sociedade).
É sob esse ponto de vista que julgamos pertinente a leitu­
ra de algumas das novas formas de subjetivação “brasileiras”
a partir de conceitos que estão em dívida com outros referen­
ciais, outros vocabulários, outras comunidades. Tal seria, por­
tanto, a plausibilidade da metáfora do indivíduo conquistador
e do culto da performance para a reflexão das representações
do indivíduo na sociedade brasileira atual.
Além do mais, seria interessante considerar as argumen­
tações deste texto a partir de um ponto de vista pragmático.
Neste caso, conviria então indagar se as elaborações teóricas
aqui efetuadas podem contribuir para a ação de lidar com
situações sociais que vão ganhando espaço no Brasil, notada-
mente aquelas que se referem aos discursos, hoje dominantes,
sobre como deve ser concebido o indivíduo apto a vencer na
vida e a enfrentar as novas e inevitáveis vicissitudes do mer­
cado cie trabalho globalizado, bem como as concepções de
público e privado.
Desde que se considere este texto como tentando articu­
lar um conjunto de crenças entre si e como tentando descre­
ver aquelas crenças que nos fazem definir a nós próprios de
uma maneira particular, é possível avaliar seu impacto prag­
mático sobre a ação: tratar o chamado indivíduo conquistador
como algo natural e dado de uma vez por todas ou então
166 tentar redescrevê-lo, com o intuito de modificar as princi­
pais crenças que o sustentam e o fazem figurar como modelo
privilegiado de subjetivação, polarizancio, no universo social
brasileiro, com o individualismo nepiativo.
Apontando os contrastes entre o individno cofiquislador
e o individualismo nejjativo^ demarcando as suas jusiiticati
vas e apontando para sua manutenção c reforço coleti\'os, es
pera-se criar novas possibilidades de descrição, novas formas
de subjctivação, novas maneiras de lidar com o outro, novas
maneiras de lidar com o público c o privado, maneiras mais
integrativas, mais solidárias. Pois se essas crenças, no sentido
pragmático aqui utilizado, não forem redescritas, talvez, do­
ravante, não mais entendamos o que diz a poeta:

“(...) a vida, a vida, a vida, a vida só é


possível reinventada ”
Cecília Meireles (1984, p. 94).

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170
ORIGEM DOS c a p ít u l o s

Capítulo 1 - Bebezões a bordo.


Em coautoria com M aurício C ustódio Serafim.
Gvexecutivo, v. 6, n. 1, p. 49-53, 2007.

Capítulo 2 - RH e tédio.
Gvexecutivo, v. 6, n. 2, p. 47-51, 2007.

Capítulo 3 - Felicidade e trabalho.


Gvexecutivo, v. 6, n. 4, p. 57-61, 2007.

Capítulo 4 - A cultura da performance.


Gvexecutivo, v. 3, n. 4, p. 45-48, 2004.

Capítulo 5 - Afeto sob controle.


Gvexecutivo, v. 2, n. 2, p. 63-67, 2003.

Capítulo 6 - Carreiras sem gravidade.


Gvexecutivo, v. 4, n. 4, p. 69-74, 2005.

Capítulo 7 - Carreiras anticoncepcionais.


Escrito em coautoria com Maurício Custódio Serafim.
Gvexecutivo, v. 5, n. 2, p. 62-66, 2006.

Capítulo 8 - llusao biográfica.


Gvexecutivo, v. 7, n. 1, p. 50-55, 2008.

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