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O Americano Tranquilo

Por Daiane Schmidt


Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina

O jornalista inglês Thomas Fowler (representado pelo ator Michael Caine) mora há dois
anos no Vietnã, cobrindo a guerra entre os comunistas e os capitalistas, e vivendo com
sua amante, a vietnamita Phuong (Do Hai Yen). O filme “O Americano Tranqüilo”, do
diretor Philip Noyce, remonta o ano de 1952, no período da Guerra Fria.

Na trama, a cobertura da guerra pelo correspondente do London Times segue sem


grandes reportagens e a vida no país está razoavalmente estável para o jornalista. No
entanto, Fowler vê seu dia-a-dia transformado com uma série de acontecimentos: a
chegada de Alden Pyle (Brendan Fraser) ao Vietnã, o pedido do jornal London Times
para que retorne à redação em Londres e o aumento das proporções da guerra na região
de Saigon, no Vietnã.

O filme é baseado no livro de Graham Greene e já teve uma outra adaptação, em 1958,
com o nome de “Um americano Tranqüilo”, do diretor Joseph L. Manckiewicz. A
história é narrada em primeira pessoa, pelo jornalista Thomas Fowler, de forma não
linear. Inicia com a morte de Alden Pyle, o americano tranqüilo que dá nome ao filme e,
num flash back, segue com a explicação do motivo do assassinato.

Pyle chega ao país afirmando ser um agente do governo dos Estados Unidos em missão
médica. Logo faz amizade com o jornalista e acaba conhecendo Phuong, amante de
Fowler. O americano apaixona-se pela jovem na primeira vez que a vê e deseja se casar
com ela, já que o correspondente tem uma esposa em Londres que não aceita dar-lhe o
divórcio.

A relação entre o médico e o jornalista vai ficando cada vez mais intensa. Pyle, de
início, parece uma pessoa ingênua, mas aos poucos, mostra que não é quem aparenta
ser. Thomas teme mais perder a bela vietnamita para o americano a cobrir a guerra no
campo de batalha. Para sua tristeza, seu medo acaba confirmado e Phoung abandona o
velho jornalista para ficar com Pyle.

Enquanto isso, a guerra se intensifica no Vietnã e o jornalista pede ao London Times


para ficar mais tempo no país. Em um atentado, os comunistas são considerados
culpados pela explosão de carros-bomba no centro da cidade de Saigon. O jornalista, no
entanto, não se convence da autoria do atentado e descobre que a explosão foi
organizada por Pyle, responsável por uma operação sigilosa da CIA.

Em segundo plano, o filme retrata algumas das dificuldades da cobertura em uma


guerra. Um exemplo é quando o jornalista quer entrevistar o General Thé e por não
entender a língua do país, passa pelos seguranças da autoridade sem saber exatamente se
conseguirá a entrevista ou se será morto. Outra detalhe é que Fowler é conhecido como
um dos únicos jornalistas da guerra a cobrir o acontecimento no campo de batalha. Por
isso a indignação de Fowler quando seu jornal pede para que retorne à Londres: “Eles
acham mais barato cobrir a guerra por telégrafo”, comenta.
No filme, chama a atenção a fotografia, como por exemplo a cena inicial, onde aparece
uma noite iluminada em Saigon. As cenas de dentro da casa das 500 mulheres e do
comércio nas ruas do Vietnã também encantam pelas cores. “O Americano Tranqüilo”
recebeu uma indicação ao Oscar, na categoria de Melhor Ator, com Michael Caine, que
realmente está muito bem no filme. Mesmo com a indicação, o filme não agradou o
público e teve apenas US$ 1,3 milhão de faturamento.

“O Americano Tranqüilo” consegue ser um filme histórico, de guerra e romântico. Não


é brilhante. Chega a ser previsível em alguns momentos, mas apresenta um retrato do
conflito pela libertação de Saigon do domínio francês.
Graham Greene está meio esquecido ultimamente no Brasil. Autor de obras reconhecidas mundialmente,
fazia muito sucesso por aqui. Creio que praticamente todos os seus livros estejam traduzidos para o
português, mas nem mesmo quando, em 2002, o filme com Michael Caine, foi cotado para receber um
Oscar, foi o suficiente para que o livro fosse reeditado. "O Americano tranqüilo", no entanto, é facilmente
encontrado em qualquer sebo.
A literatura de Greene é surpreendente. Sempre são livros densos discutindo a posição do homem perante
as grandes complexidades de um universo sem moral. Mesmo em seus livros menos "sérios", os quais ele
dizia serem somente para diversão, há um traço amargo de ceticismo e desânimo. Para ele, é uma
humanidade perdida em seu próprio niilismo, vazia e solitária. A razão para isso? A perda da fé em uma
entidade superior, isto é, estamos em um mundo onde não existe mais a crença em Deus e que sofre as
conseqüências disso. Greene se converteu ao catolicismo por meio do raciocínio e da lógica, e não por
alguma revelação ou experiência mística e, por causa do seu sucesso, acabou sendo reconhecido como o
maior romancista inglês católico.
Mas não se pense que seus livros sejam manuais ou cartilhas de seminário. Sua escrita é límpida e muito
fácil de ser lida. Assemelha-se, a principio, a qualquer best-seller comum. A leitura corre rápida, mas
quando menos percebemos, estamos no meio de um intrincado jogo de paradoxos e conflitos emocionais
e morais. Essa mistura de enredos de romance policial, aventura ou de espionagem com profundidade
filosófica, e sem qualquer pretensão de didatismo religioso, talvez explique sua enorme popularidade.
A própria vida de Greene proporcionaria um romance de aventura. Nascido em 1904, era um rapaz triste
e melancólico que quase se suicidou quando tinha dezessete anos. Acabou se graduando em Oxford, fez
carreira como jornalista, foi redator-chefe do Times de Londres, trabalhou em Cuba antes de Fidel. Foi
funcionário do Serviço de Inteligência, isto é, foi espião. Viajou e conheceu vários países da América
Latina, África e Ásia. Além de romances, escreveu com sucesso peças de teatro e roteiros de cinema

(como o clássico "O Terceiro Homem", com Orson Welles).


Tudo isso está refletido em suas obras. Em "O Fator Humano" (talvez sua obra-prima, ao lado de "O
Americano Tranqüilo"), ele desglaumoriza até o osso a figura do espião. Nada de James Bonds aqui.
Somente funcionários do governo mexendo com um burocrático e monótono serviço de recebimento e
despacho de envelopes. E, ao mesmo tempo, Greene discute o racismo inglês, a falta de perspectivas na
vida, a alienação política, a estupidez burocrática, etc. "Nosso Homem em Havana" é uma sátira, uma
comédia desbragada ironizando a espionagem e a incompetência dos ingleses em Cuba. "Os Farsantes" é
uma análise pesada e densa, nada engraçada, sobre a ditadura haitiana. E por aí vai.
"O Americano tranqüilo" é um livro curto, pequeno. E contundente. Baseado em suas notas durante
reportagens realizadas para a revista LIFE em 1952 e lançado em 1955, retrata a Indochina em sua
tentativa de se livrar do domínio francês. Na verdade, os franceses estavam levando uma surra e se
vislumbrava sua derrota posterior. Os olhos norte-americanos também estavam presentes e sua
intervenção estava sendo prevista (embora, ninguém pudesse prever o vulto que isso tomaria pouco anos
depois, quando a Indochina se tornaria Vietnã).
A história gira em torno de um decadente e cético jornalista inglês chamado Thomas Fowler. Farto dos
seus colegas jornalistas, farto da guerra em um país que aprendeu a amar, farto da politicagem e da
hipocrisia diplomática, pretende se manter à parte e distante de qualquer envolvimento mais sério. A não
ser com Phuong (cujo nome significa "fênix"), uma jovem vietnamita. Ela (além do ópio) é a única
alegria na vida de Fowler, mas não podem se casar pois sua esposa inglesa é católica e não lhe concede o
divórcio.
E aí chega o tal americano tranqüilo, Pyle. Repleto de boas intenções, uma ingenuidade descomunal e um
profundo desconhecimento do Oriente e suas especificidades, Pyle está imbuído de sua missão pela
Democracia, Valores Humanos, uma Terceira Via para salvar o Oriente das garras de quem não o mereça
(isto é, nem os franceses nem os próprios orientais "desprotegidos"). E com isso, com toda a força e
seriedade de sua juventude e inconsciência, vai espalhando morte, destruição e tristeza. E também se
apaixona por Phuong, forçando Fowler a finalmente tomar uma atitude.
O sarcasmo e a ironia de Greene são pesados. Com uma história tão banal, ele consegue transmitir uma
diversidade de emoções, conflitos e fatos políticos que atingem o leitor como uma granada direto no
coração. A cena de Pyle limpando os sapatos de sangue logo após a explosão de uma bomba em uma
praça pública é uma das mais fortes de toda a literatura mundial.
Poderia render um filme clássico e inesquecível. Não foi o que aconteceu. Não foi assim com a primeira
versão realizada em 1957, dirigida por Joseph Mankiewcz, mas mesmo essa é um pouquinho melhor, um
tanto mais completa, do que este dirigido por Philip Noyce. Noyce joga fora toda a complexidade da
situação e do texto original e somos jogados em um mundo binário, de opostos simplistas e simplórios,
tratando o espectador como um verdadeiro imbecil.
Isso é diferente de considerar o espectador como ignorante dos fatos (quem, afinal de contas, além dos
historiadores e analistas políticos, ainda sabe que aquela parte da Ásia foi uma possessão francesa, antes
dos norte-americanos?). Greene, por exemplo, pela boca de Fowler faz um resumo da dificuldade de se
entender a Indochina citando uma dezena de organizações, partidos políticos, seitas religiosas, todos com
seus próprios exércitos e seus próprios interesses, somente em um parágrafo, um primor de concisão e
contundência! Em um filme, se aproveitada, esta cena duraria cinco segundos e poderia ser igualmente
impactante. Noyce até tenta fazer isso, na fala de um soldado francês explicando ... para o Fowler!

Não vou me estender nessa questão. Basta dizer que é um filme hollywoodiano e muita
coisa fica assim explicada. No entanto, apesar de tudo, há algumas boas surpresas. Há a
digna e competente atuação de Michael Caine, o que por si só não constitui surpresa
nenhuma; mas também há a extraordinária e coerente interpretação de Brendan Fraser
como Pyle, o que, vamos e convenhamos, não é pouca coisa! Foi muito injusto ele não
ter sido indicado para Melhor Ator Coadjuvante.
Acima de tudo isso, porém, impressiona o próprio momento do filme. Em 2002, em
pleno furor de ira Bushiana pós-11 de Setembro, o simples fato de filmar "O Americano
tranqüilo" batia de frente com toda a histeria imperialista belicista ( e não foi à toa que
ficou na ‘geladeira’ durante um ano e até cogitou-se de nem mesmo lança-lo). Se fosse
um bom filme, quem sabe não impressionaria de verdade?
Dessa forma, o filme se deixa assistir numa boa, embora sem grandes comoções.
Graham Greene merecia bem mais.
O americano tranquilo
Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato,
que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de “compensação” pela
retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a
atolar-se numa terceira guerra.

Uri Avnery

O Americano Tranquilo é o herói do romance de Graham Greene sobre a primeira


guerra do Vietnã, na qual os franceses foram derrotados.

Era um norte-americano jovem e ingênuo, filho de um professor, que fora bem educado
em Harvard, um idealista com todas as melhores intenções. Quando chega como
soldado ao Vietnã, queria ajudar os nativos a superar os dois principais males que via lá:
o colonialismo francês e o comunismo. Sem saber coisa alguma sobre o país no qual
estava, provocou um desastre. O romance termina num massacre – resultado dos
esforços desorientados do “americano tranqüilo”. Comprovou-se a velha máxima: “A
estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções”.

Já se passaram 54 anos depois que esse livro foi escrito, mas parece que o americano
tranquilo não mudou. Ainda é idealista (pelo menos, ele acredita que seja idealista),
ainda deseja levar a redenção a povos estrangeiros distantes sobre os quais nada sabe; e
ainda provoca desastres terríveis: aconteceu no Iraque, no Afeganistão e agora, parece,
no Iêmen.

O exemplo do Iraque é o mais simples de todos.

Os soldados norte-americanos foram mandados ao Iraque para derrubar o regime tirano


de Saddam Hussein. Havia, é claro, outros objetivos menos altruístas, como assumir o
controle do petróleo iraquiano e instalar o exército dos EUA no coração da região
petroleira do Oriente Médio. Mas a aventura foi apresentada ao público norte-americano
como empreitada idealista contra um ditador sanguinário que ameaçava o mundo com
bombas nucleares.

Isso, há seis anos, e a guerra prossegue. Barack Obama, que se opôs à guerra desde o
início, prometeu tirar os norte-americanos de lá. Apesar de muita conversa, não há fim à
vista.

Por quê? Porque os que realmente tomam decisões em Washington não têm nem ideia
do que é o país que querem libertar e ajudar a viver feliz para sempre.

Desde o início, o Iraque foi Estado artificial. Os britânicos costuraram umas às outras
várias províncias otomanas, considerando os seus, dos britânicos, interesses coloniais.
Coroaram um árabe sunita como rei dos curdos, que não são árabes, e dos xiitas, que
não são sunitas. Só uma sucessão de ditadores, cada um mais brutal que o antecessor,
impediu que o Estado se esfacelasse.

Os planejadores em Washington não têm qualquer interesse na história, na demografia


nem na geografia do país que invadiram com força brutal. O caso, olhado de
Washington, pareceu bem simples: alguém teria de derrubar o tirano, estabelecer
instituições democráticas à maneira dos EUA, fazer eleições livres... E tudo o mais
entraria “naturalmente” nos eixos.

Ao contrário das expectativas, os norte-americanos não foram recebidos com flores.


Não se encontrou lá a terrível bomba atômica de Saddam. Como o elefante na loja de
porcelana do provérbio, quebraram tudo, destruíram o país e acabaram presos num
pântano.

Depois de anos de operações militares sangrentas que levaram a parte alguma,


encontraram afinal uma panaceia. Para o inferno o idealismo; para o inferno os altos
ideais; para o inferno todas as doutrinas militares. – Hoje, os EUA não fazem outra
coisa além de subornar os chefes tribais que, sim, são a realidade do Iraque.

O americano tranquilo não sabe como se safar de lá. Sabe que, se sair agora, há risco de
o país se autodesintegrar em matança geral.

Dois anos antes de invadir o Iraque, os norte-americanos invadiram o Afeganistão.

Por quê? Porque uma organização chamada Al-Qaeda (“a base”) declarara-se autora da
destruição das Torres Gêmeas em New York. Os chefes da Al-Qaeda estavam no
Afeganistão, lá estavam seus campos de treinamento. Para os norte-americanos, tudo
pareceu simples – ninguém precisou pensar outra vez (de fato, parece, ninguém
tampouco pensara antes).

Se os EUA conhecessem o país que decidiram invadir, talvez tivessem hesitado. O


Afeganistão é um histórico cemitério de exércitos invasores. Grandes impérios saíram
de lá escafedidos, com o rabo entre as pernas. Diferente do Iraque, que é plano, o
Afeganistão é país montanhoso, um paraíso para a guerra de guerrilhas. Além de ser lar
de vários povos e de incontáveis tribos, cada povo e cada tribo é furiosamente zeloso da
própria independência.

Os estrategistas em Washington não tomaram conhecimento de nada disso. Para eles,


parece, todos os países são idênticos, todas as sociedades são iguais. No Afeganistão,
também, bastaria estabelecer uma democracia livre à moda dos EUA, com eleições à
moda dos EUA e viva! – tudo daria certo e para sempre.

O elefante entrou na loja de porcelanas sem pedir licença e obteve vitória estrondosa. A
Força Aérea “bombou”, o exército não encontrou obstáculos, a Al-Qaeda sumiu como
fantasma, os Talibãs (“estudantes religiosos”) fugiram como coelhos. As mulheres
poderiam voltar a andar pela rua sem véus, as meninas encheriam as escolas, os campos
de ópio voltariam a florescer – e também floresceriam sem obstáculos os amigos de
Washington em Cabul.

Contudo… a guerra prossegue, ano após ano, o número de norte-americanos mortos


sobe inexoravelmente. Para quê? Ninguém sabe. É como se a guerra tivesse adquirido
vida própria, sem quê nem por que, sem objetivo, sem razão. Norte-americano que
esteja no Afeganistão e olhe em volta, tem de perguntar-se: o que, diabos, estamos
fazendo aqui?
O objetivo imediato, a expulsão da Al-Qaeda do Afeganistão, foi ostensivamente
alcançado. A Al-Qaeda já não está lá – supondo-se que algum dia tenha estado.

Escrevi certa vez que a Al-Qaeda é invenção dos EUA e que Osama Bin-Laden foi
descoberto pela central de seleção de atores de Hollywood e mandado para fazer aquele
papel. Osama Bin-Laden é perfeito demais para ser autêntico.

Claro, estou exagerando um pouco. Mas só um pouco. Os EUA vivem precisando de


um inimigo universal. No passado, foi o Comunismo Internacional, cujos agentes eram
vistos atrás de cada árvore, por baixo de cada tábua do assoalho. Infelizmente, já não há
União Soviética, há falta de inimigo, alguém teria de preencher o papel. Foi quando
acharam a jihad planetária, encarnada na Al-Qaeda. Esmagar o “Terrorismo Universal”
passou a ser a razão de ser de tudo que os EUA fazem.

Essa razão de ser não é razão; como objetivo, é irracional. O terrorismo é arma,
instrumento de guerra. As mais diferentes organizações fazem uso do terror, há terror
dos dois lados em luta nos mais diferentes países, cada lado com seu objetivo diferente
e muitas vezes oposto a todos os demais; há terroristas de todos os lados. Fazer guerra
universal contra “o terror internacional” é como fazer guerra a alguma “artilharia
internacional” ou a alguma “marinha internacional”.

Não há, no planeta, nenhum movimento terrorista universal liderado por Osama Bin-
Laden. Graças aos EUA, “Al-Qaeda” tornou-se griffe prestigiada no mercado da
guerrilha, assim como “McDonald” e “Armani”, no mundo do fast-food e da moda.
Cada militante de organização islâmica pode hoje se apropriar da griffe, mesmo sem
pagar royalties a Bin-Laden.

Os governos controlados pelos EUA, que sempre rotularam de “comunistas” os seus


inimigos locais, para obter ajuda dos patrões norte-americanos, hoje rotulam os seus
inimigos locais de “terroristas da Al-Qaeda”.

Ninguém sabe onde está Bin-Laden – nem se existe ou está vivo. Ninguém sabe, sequer,
se está no Afeganistão. Há quem diga que se mudou para o vizinho Paquistão. E mesmo
que lá esteja: que fundamento há em alguém fazer guerra e matar milhares de homens,
mulheres e crianças... Para caçar um único homem?

Há os que dizem: OK, Bin-Laden não existe. Mas é preciso impedir a volta dos Talibãs
ao governo do Afeganistão. Por que, santo deus?! Quem são os norte-americanos que
mandam no Afeganistão? Querem o quê? Pode-se ter todos os argumentos do mundo
contra todos os fanáticos religiosos do mundo, e contra os Talibãs especificamente e,
mesmo assim... Seria motivo para essa guerra interminável?

Se os afegãos preferem ser governados pelos Talibãs, em vez dos mercadores de ópio
que hoje estão no poder em Cabul... o problema é deles! E parece que, sim, que
preferem os Talibãs, dado que, como antes e até hoje, os Talibãs outra vez controlam
praticamente todo o país, ou quase isso. Nada justifica uma guerra como a do Vietnã, no
Afeganistão. OK, mas... e como é que os EUA sairão de lá? Obama não sabe.

Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato,


que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de “compensação” pela
retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a
atolar-se, também, numa terceira guerra.

Durante os últimos dias, o nome do Iêmen está em todas as manchetes. Iêmen – um


segundo Afeganistão, um terceiro Vietnã. O elefante está pronto para entrar em outra
loja de porcelanas. Dessa vez, tampouco está preocupado com a porcelana.

Sei pouco sobre o Iêmen, mas sei o suficiente para entender que só doido teria qualquer
interesse em deixar-se enredar lá. É mais um Estado artificial, composto de metades
incompatíveis – o país de Sanaa no norte e o sul (ex-britânico). A maior parte do país é
montanhosa, controlada por tribos belicosas que defendem todas, a própria
independência. Como o Afeganistão, é um paraíso para especialistas locais em guerra de
guerrilhas.

Lá também há um grupo que adotou a griffe “Al-Qaeda”: é a “Al-Qaeda da Península


Arábica” (depois que os militantes iemenitas uniram-se aos irmãos sauditas). Mas seus
chefes interessam-se muito menos pela revolução mundial do que pelas intrigas e
batalhas das tribos entre elas e o governo “central” – uma realidade com história de
milhares de anos. Só doido absoluto poria a própria cabeça nesse travesseiro.

O nome Iêmen significa “a terra à direita”. (Se se olha para Meca a partir do Oeste, o
Iêmen fica à direita, com a Síria à esquerda.) A direita também conota felicidade; e o
nome Iêmen é associado a al-Yamana, palavra em árabe para “estar feliz”. Os romanos
chamavam aquela terra de Arabia Felix (“Arábia Feliz”), porque era terra próspera, que
enriqueceu no comércio de especiarias.

(Aliás, por falar nisso, talvez interesse a Obama saber que outro líder de superpotência,
César Augusto, tentou uma vez invadir o Iêmen e foi rechaçado.)

Se o americano tranquilo, na sua mistura de idealismo e ignorância, resolver levar para


lá a democracia e as quinquilharias de sempre, porá fim a qualquer felicidade que lá
ainda haja. Os EUA afundarão em outro pântano, dezenas de milhares de pessoas serão
mortas. Tudo terminará em desastre.

É possível que o problema tenha raízes – inter alia – na arquitetura de Washington DC.

A cidade é tomada por prédios enormes, de ministérios e escritórios e serviços oficiais


da única superpotência que há no mundo. As pessoas que trabalham lá sentem o poder
tremendo daquele império. Olham para os chefes tribais do Afeganistão e do Iêmen
como um rinoceronte olha as formigas que correm entre suas patas. O rinoceronte
caminha sem ver por cima das formigas. Mas alguma formiga sempre sobrevive.

Além do mais, o americano tranquilo faz pensar também no Mefistófeles do Fausto, de


Goethe, que se autodefine como a força que “sempre quer o mau e sempre cria o bom”.
Só que ao contrário.
Nunca conheci um homem que tivesse razões tão nobres para todo o mal que
causou", diz Thomas Fowler, o narrador de O Americano Tranqüilo (The Quiet
American, Estados Unidos/Austrália/Alemanha, 2002), sobre Alden Pyle, o
personagem-título do drama que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio.
Pyle é jovem, cortês e reservado, e acaba de chegar à Indochina com uma missão
supostamente humanitária e uma bagagem lotada de idéias prontas – sobre, por
exemplo, como uma "terceira força" seria a solução para a guerra que, naquele
início dos anos 50, franceses e comunistas travavam pelo controle da região (hoje o
Vietnã). Fowler, um jornalista inglês de meia-idade que vive já há alguns anos em
Saigon, de começo acha graça nessa ingenuidade. Não por muito tempo. As
incumbências dadas a Pyle pelo governo americano são na verdade políticas, e
aquela conversa toda sobre a formação de uma terceira força não é só conversa – é
financiamento, na forma de dinheiro e armas, a um general renegado da região.
Pyle é pragmático também em outros aspectos. Apaixonado por Phuong (ou Fênix),
a amante vietnamita de Fowler, ele anuncia ao amigo que pretende tirá-la dele.
Fowler é casado, ele não. O inglês não pode dar a Phuong a vida que ela merece, e
ele sim. Munido de tantos bons princípios, o americano causa um estrago notável –
bombas sobre civis em Saigon e uma possibilidade agora concreta de que Phuong
caia na prostituição, o caminho que ele tanto temia para ela.

Adaptado do magnífico romance homônimo de Graham Greene e dirigido pelo


australiano Phillip Noyce, O Americano Tranqüilo não é um filme que a
administração Bush recomendaria aos seus eleitores, e em especial àqueles que
não querem ser lembrados de que os Estados Unidos já defenderam suas causas
com táticas que poderiam muito bem ser descritas como terroristas. Greene
publicou o livro em 1955, apenas um ano depois da derrota definitiva dos franceses
na Indochina e quase dez antes do início da Guerra do Vietnã, mas previu com
lucidez incomparável o desastre que seria o envolvimento americano no Sudeste
Asiático. Interpretados com excelência por Brendan Fraser e Michael Caine, o
americano Pyle e o inglês Fowler encenam uma disputa não só por Phuong – que
ambos idealizam, embora de forma diversa –, mas também pela Indochina e pelo
destino que pretendem dar a ela. Sem que elas (Phuong e a Indochina, tanto faz)
sejam propriamente consultadas, diga-se. Num belo artifício que o diretor Noyce
cuida de manter, os dois rivais têm o hábito de discutir o futuro de Phuong na
presença dela como se ela não estivesse lá.

Não à toa, o estúdio Miramax tentou discretamente engavetar o filme depois do 11


de setembro de 2001. Só terminou por colocá-lo nos cinemas porque Caine – que
concorre ao Oscar de melhor ator – passou a reclamar publicamente do seu sumiço.
Ainda bem. Essa segunda adaptação (a primeira foi em 1958) de O Americano
Tranqüilo faz justiça e um pouco mais ao romance de Greene. Não só na sua
evocação da paixão intoxicante de dois homens por uma mulher, mas também no
que ele tem de atual e oportuno.

O PREFERIDO DO CINEMA

Nenhum autor do século XX foi tão vertido para o cinema quanto Graham Greene
(1904-1991). Seus romances e contos renderam algo como trinta longas-
metragens, entre os quais o recente Fim de Caso, sem contar as produções para
TV. Parte dessa afinidade vem da arquitetura limpa de seus enredos e da sua prosa
incisiva, em que cada palavra tem valor absoluto, sem margem para sinônimos.
Mais importante ainda é a capacidade de Greene de encapsular circunstâncias
históricas complexas na psicologia de seus personagens, e de torná-los tão
carismáticos. À parte talvez o Joseph Conrad de O Coração das Trevas, não há
outro escritor que tenha conseguido combinar essas duas dimensões – o drama
humano e a alegoria política – sem que uma subtraia da outra. Pelo contrário: na
obra de Greene, elas se enriquecem mutuamente. O Americano Tranqüilo é, ao lado
de É um Campo de Batalha e O Coração da Matéria, um dos exemplos mais
brilhantes desse seu dom.

Ho Chi Minh

Ho Chi Minh ("aquele que ilumina"), nasceu em 1890 numa pequena aldeia vietnamita,
filho de um professor rural. Tornou-se um dos mais importantes e lendários líderes
nacionalistas e revolucionários do mundo do após-guerra. Viajou muito jovem como
marinheiro e tornou-se socialista quando viveu em Paris, entre 1917 e 1923. Quando
ocorreu as Conferências de Versalhes, em 1919, para fixar um novo mapa mundial, o
jovem Ho Chi Minh (então chamado de Nguyen Ai quoc, o "patriota"), solicitou aos
negociadores europeus que fosse dado ao Vietnã um estatuto autônomo. Ninguém lhe
deu resposta, mas Ho Chi Minh tornou-se um herói para o seu povo.

Em 1930 ele fundou o Partido Comunista Indochinês e seu sucessor, o Viet-mihn (Liga
da Independência do Vietnã), em 1941, para resistir à ocupação japonesa. Foi preso na
China por atividade subversiva e escreveu na prisão os "Diários da Prisão", em chinês
clássico, uma série de poemas curtos, onde enalteceu a luta pela independência.

Com seus companheiros mais próximos, Pahm Van Dong e Vo Nguyen Giap, lançou-se
numa guerra de guerrilhas contra os japoneses, obedecendo à estratégia de Mao Tse
Tung de uma "guerra de longa duração". Finalmente, em 2 de setembro de 1945, eles
ocupam Hanói (a capital do norte) e Ho Chi Minh proclamou a independência do
Vietnã. Mas os franceses não aceitaram. O Gen. Leclerc, a mando do Gen. De Gaulle,
recebeu ordens de reconquistar todo o norte do país, nas mãos dos comunistas de Ho
Chi Minh. Isso irá jogar a França na sua primeira guerra colonial depois de 1945,
levando-a a derrota na batalha de Diem Biem Phu, em 1954, quando as forças do Viet-
minh, comandadas por Giap, cercam e levam os franceses à rendição. Depois de 8 anos,
encerrou-se assim a primeira Guerra da Indochina.
Derrota francesa e Conferência de Genebra
Em 1954, os franceses foram finalmente derrotados na batalha de Diem
Biem Phu, selando sua saída da Indochina. Para negociar a paz, o governo
francês convocou, no mesmo ano, a Conferência de Genebra. Formalmente,
o objetivo dessa conferência era o de reconhecer a independência do Vietnã
e também de suas duas outras ex-colônias na Indochina, o Laos e o
Camboja, além de formalizar a instalação de novos governos nesses países.

Contudo, a ação dos EUA, com a conivência do governo da União Soviética,


foi decisiva para que se frustrasse a independência efetiva desses países.
Durante a Conferência de Genebra, os EUA propuseram que o Vietnã fosse
dividido em duas partes: a porção ao norte, onde o Viet Minh era mais forte,
ficaria sob controle de Ho Chi Minh, tendo Hanói como capital. No sul, com
capital em Saigon, permaneceria Bao Dai no poder, com um governo pró-
ocidente.

O acordo previa, ainda, a realização de eleições em 1956, com um


candidato indicado pelo governo do Norte e outro pelo do Sul, de modo que
quem ganhasse a eleição unificaria o país.

INÍCIO DA INFLUÊNCIA AMERICANA

Com o aquecimento da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, a


rivalidade entre Vietnã do Norte e do Sul aumentou. Desde fevereiro de 1955, os
Estados Unidos, aliados de Ngo Dinh Diem, católico e favorável à contenção do
comunismo na Ásia, começaram a treinar sul-vietnamitas para lutar contra o Vietminh
(Liga da Independência do Vietnã, sucessora do Partido Comunista Indochinês).

O cancelamento das eleições populares pelo governo do Vietnã do Sul desencadeou a


Guerra do Vietnã, em 1960. No mesmo ano, como forma de oposição à divisão do país,
os sul-vietnamitas organizaram a Frente Nacional de Libertação (FNL). Formada por
guerrilheiros socialistas conhecidos como vietcongs, a FNL recebeu o apoio do Vietnã
do Norte.

No intuito de barrar a expansão do socialismo na região, os Estados Unidos se


aproximaram do governo do Sul e enviaram ajuda militar para combater os insurgentes.
O então presidente americano, John Kennedy, aumentou para 15 mil o número de
conselheiros militares na região. Era o início de uma Eddie Adans / Associated press
nova guerra no país.

UM MASSACRE AMERICANO

Com a ajuda dos americanos, e um poderoso arsenal


bélico, os sul-vietnamitas atacaram durante uma
década os insurgentes do norte. Em 1964, o presidente
Lyndon Johnson decidiu intervir militarmente no país,
alegando que navios americanos tinham sido atacados
por lanchas do Vietnã do Norte. O número de
soldados americanos no país aumentou. Com a ajuda Saigon - Vietnã - 1968 -
de helicópteros - usados pela primeira vez em uma Ngunyen Ngoc, chefe da
guerra - as tropas se deslocavam rapidamente para polícia sul-vietnamita, mata um
qualquer lugar do país, propiciando aos soldados guerrilheiro vietcong
participarem de mais combates do que na 2ª Guerra.

Uma nova escalada de guerra começou em 1965, quando o governo dos Estados Unidos
iniciou um bombardeio sistemático sobre o Vietnã do Norte. Em janeiro de 1968, o
Vietnã do Norte e os vietcongs desencadearam a 'ofensiva do Tet' (o ano-novo
vietnamita), ocupando Hué. A ofensiva teve como resultado a suspensão dos
bombardeiros por parte do presidente americano Johnson e a ocupação de importantes
cidades do sul pelos norte-vietnamitas.

Nesse mesmo ano, tem início, em Paris, as conversações entre Hanói e Washington para
o fim da guerra. Em seguida, o debate se estendeu para os representantes de Saigon e da
FNL. As tratativas não tiveram resultados, porque os Estados Unidos se recusaram a
retirar suas tropas do país.

O DESCONTENTAMENTO DA OPINIÃO PÚBLICA

Além de despejarem sobre o Vietnã milhões de toneladas de bombas químicas de alto


poder destrutivo, como as de 'napalm', condenadas pelas Nações Unidas, os Estados
Unidos investiram mais de 250 bilhões de dólares no conflito. No auge da guerra,
mantiveram na região 550 mil soldados americanos.

Reprodução A opinião pública foi altamente influenciada pelas


imagens marcantes que eram divulgadas da guerra.
Pela primeira vez, transmissões puderam ser vistas em
todo o mundo, provocando o descontentamento com a
ofensiva americana. Um exemplo foi o confronto de 8
de junho de 1972, quando um avião do Vietnã do Sul
lançou, acidentalmente, sua carga de 'napalm' no
vilarejo de Trang Bang. Com a roupa em chamas, a
pequena Kim Phuc eternizaria a imagem cruel da
disparidade da guerra. Phuc fugiu do vilarejo com a
Retrato da guerra família, para ser hospitalizada. A menina sobreviveu e,
Kim Phuc (à direita) foge de atualmente, mora nos Estados Unidos.
incêndio
Mesmo com o poderoso arsenal bélico, os norte-americanos foram derrotados. Os norte-
vietnamitas usaram melhor as estratégias de guerrilha, aproveitando-se das vantagens
geográficas (selva fechada e calor de 40 graus). O exército americano se retirou da
região em 1973, encerrando a mais longa guerra em sua história. Cerca de 60 mil
soldados americanos morreram no Vietnã e mais de 300 mil ficaram feridos. Do lado
vietnamita, a baixa foi muito mais alta. Estimativas indicam que mais de 500 mil
tenham morrido e milhões ficaram feridos.

Alguns militares ficaram mais dois anos no Vietnã do Sul, enquanto o país ainda lutava
contra o Norte. O final da guerra, no entanto, só foi declarado em 30 de abril de 1975.
Tanques norte-vietnamitas invadiram o palácio presidencial em Saigon, encerrando a
guerra. Os últimos militares americanos no país buscaram segurança no telhado de sua
embaixada. No ano seguinte, o Vietnã se reunificou e se transformou em um Estado
socialista, com a denominação de República Socialista do Vietnã.