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Confissões de Valentina
Edição e produção: Razzah Publishers
Revisão: Christian Danniel

CAROLINA GAIO
1ª edição
Maio de 2020
ISBN: 978-65-86980-02-8 

RAZZAH Publishers
Av. Mem de Sá, 126 – Lapa
20230-152 – Rio de Janeiro/RJ
www.razzahpublishers.com
www.confissoesdevalentina.com
Confissões
de Valentina
È tutto
scritto
ed è qui
dentro
E viene
tutto via
con me
Atto di fede, Luciano Ligabue
Prefácio
D izem que a arte imita a vida, e a vida imita a arte, e
repetimos faceiros essa ideia por aí, certos de que a cor-
relação se esgota nela mesma, nos satisfazendo ao pensar
que ela diz respeito ao que tem de real e árido na arte e
ao que tem de ficcional e mágico na vida.
Como se, nessa relação solidária, tanto vida quanto
arte aparassem suas respectivas arestas e se apresentas-
sem sob uma forma perfeita, com uma superfície tão po-
lida e lisa que tudo o que faz, muda e com um cândido e
tranquilizador sorriso estático, é refletir.
Mas, como superfície que é, essa impressão não vai
além dos muros e das vitrines que, acostumados, olhamos
de relance sem reparar as alterações que ali se fizeram.
Pior, sem minimamente vislumbrar os universos que muros
e vitrines ocultam.
Tal qual o buraco, o mistério é mais embaixo. Tudo o
que a arte faz é simular o desvio. O erro e a dor, a ceguei-
ra e o grito, a negação e a bagunça, o gozo e a ferida. O
pecado. Todo o resto, que se perde em missões de frui-
ção e escapismo, é acidental. Acidente este que decorre
de seu propósito único e último, afinal, pecar e tropeçar
compartilham a etimologia.
Enganam-se, por escolha, os que colocam perspecti-
vas, contrastes, rimas, métricas e toda sorte de simetria
no pedestal do sagrado, pois também ela, veja você, é
desvio.

7
Também ela, a simetria das colunas dóricas, dos con-
trastes bem talhados em pedra e dos sonetos do Parnaso
são o véu da ilusão. A ode quase religiosa a Vitrúvio, Mi-
chelangelo e Bilac mascara o que eles realmente fizeram:
romperam com seus antecessores, negaram o que os pre-
cedia. Eles pecaram. E foi por isso que fizeram arte, não
por causa de suas proporções perfeitas. Foi apesar delas.
E é nesse pecado que vida e arte se misturam e vez
ou outra brincam de se tornar uma só. São as lacunas que
louvamos e a forma como as tornamos perfeitas, mas nun-
ca a perfeição per se.
E é nesse pecado, também, que se baseiam as Confis-
sões de Valentina.
São confissões devido ao caráter meio crônica, meio
epistolar, meio confessional da maioria dos textos.
Em geral, escrevo sobre relacionamentos, amor, sexo/
sexualidade, comportamento e sociedade. Academica-
mente, sou da subjetivação, com foco nas sexualidades
ditas desviantes, e tenho um pé nos estudos do imaginá-
rio, então, para situar, são esses temas e perspectivas que
atravessam todos os textos.
Neste livro, trago os 13 textos mais lidos de cada ca-
tegoria do blog homônimo, com exceção das categorias
referentes a livros meus já publicados.
As categorias se organizam no livro em ordem alfa-
bética, então começo com 13 coisas sobre você, uma
série especial de 13 textos sobre o mesmo personagem da
categoria 101.
Depois, 13 dos 69 sonetos de sexo e amor rimando
com dor mais lidos e uma reunião de 13 textos das cate-
gorias de personagens fixos: 3 textos da categoria 101,

8 CAROLINA GAIO
5 de Aquele cara, 1 de Centauro e 4 de Esboços de Bru-
nelleschi.
Cartas a Elizabeth, por ser a principal personagem
do blog, tem seus 13 textos aqui neste livro, são textos
diferentes daqueles do livro Cartas a Elizabeth, que se
concentra mais em textos inéditos e na história completa
da personagem.
Em seguida, há os 13 textos mais lidos da categoria
Contos venéreos, que originou o blog, são contos eróti-
cos humorísticos baseados em situações reais, com refe-
rências a contos de fadas, sci-fi e áreas específicas, con-
forme a inspiração original.
Por fim, a categoria Reflexões e desabafos traz seus
13 textos sobre personagens e temas diversos, de gêneros
variados.
O número 13, como o ás de espadas, representa os
ciclos, os recomeços. Assim, é um olhar bom sobre a so-
frência, você vai ver que eu mordo, mas assopro.
E por que Valentina? Primeiro, porque são confissões
de uma personagem, não de uma pessoa real, daí o pseu-
dônimo. Depois, por uma inspiração na Valentina do Cre-
pax, a fotojornalista que tematiza o caos dos sonhos mais
profundos e caóticos.
Então, bem-vindo, mas não tanto. Algumas emoções
não pedem o mínimo comedimento, desbrave-as sem mo-
deração; afinal, como a Valentina original eternizou na
pele: Le attrazioni sono proporzionali ai destini.

Carolina Gaio

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Sumário
13 coisas sobre você 14
Voz 17
Olhos (ou clichês, o que dá no mesmo) 19
Frango caprese 21
Ímpeto 23
Cicatrizes 25
Lábia (e parênteses) 27
Marlboro Vermelho 29
Estradas 31
Covinhas 33
Bunda (e isso merecia ocupar todos os 13 tópicos) 35
Avenida Paulista (ou acasos,
o que é exatamente a mesma coisa) 37
Cerveja 39
Suas linhas, é óbvio 41
69 sonetos 44
Ode a teu corpo 47
Mise en abyme 48
Inescrutável 49
Arremate 50
Lascívia 51
Abismo 52
Don't get too close, it's dark inside 53
Epitáfio 54
Sumário
LaCUnas 55
Cilício 56
Estese 57
Enarmonia 58
Antonomásia 59
Personagens fixos
101 60
Oh, fuck it 63
Aquele que eu nunca escrevi 64
Nunca 66
Aquele cara 68
Você de álcool, você de vírgulas 71
Analgia 73
Colocações 75
Cabelos negros 77
A bota preta 79
Centauro 82
Me assina 85
Esboços de Brunelleschi 88
O Lucky Strike Azul 91
Sinal vermelho 93
Uma vida 95
Mordaz mistério das madrugadas 97
Sumário
Cartas a Elizabeth 100
Codinome Elizabeth 103
Lapsos 105
Dos fins que os começos decretam 107
Desejo 110
Metódicas mãos 113
Imanência 115
29 117
Involuntário 119
Me conte coisas, me conte tudo 121
Pegadas 123
Esquinas 125
Tudo aquilo que nunca fomos 127
Cheiro doce que gruda 129
Contos venéreos 130
Quando eu digo que deixei de te mamar 133
Cândida lembrança 136
The beauty and the beast for you 139
Me chama de Lacan e me analisa 147
PautoCAD 151
Eu me apaixonei pelo gótico certo 154
Sumário
Rapunzel, joga a benga 159
Tem coisa pra comer aqui? 163
Perdas e danos 166
Ninguém espera porra
nenhuma de uma terça à noite 170
Raça poser 173
Analking e a lâmbda maravilhosa 176
Iludindo corações… e pirocas 184
Reflexões e desabafos 186
Ela era puta 189
O vernissage 191
Menos o amor 194
O simétrico e o improvável 197
Sua casa, nós dois 199
Fazendo as malas 202
Pandora 205
Odeio jazz 207
Tim-tim 209
You know my heart is true 211
Tem dias que a gente sabe que perdeu 213
Ritornelo 215
Eu falo de amor à vida; você, de medo da morte 217
c o i s a s
13 e você
bso r
13 coisas sobre você é uma
categoria especial que enaltece 13
coisas sobre o mesmo personagem
da categoria 101. Fala dos amores
vividos, do fogo e da trégua.
13 coisas
sobre você
V oz. Voz é foda. Esse seu timbre e jeito de falar meio
sussurrado então me matam.
Você faz de propósito, né? Sabe que eu perco fácil a
calcinha e o juízo, coisas que nunca me preocupei muito
em vestir perto de você, aliás.
E junta o sotaque, e junta a patifaria, e juntam seus s.
Ah, eu sou completamente vendida.
Fazia tempo que eu não ouvia sua voz. Foi aquela li-
gação, tão despretensiosa, sobre apartamentos e cidades
que sabem ao mesmo tempo nos acolher e nos sacudir.
Que sabem nos fazer sentir vivos.
Talvez por isso minha cisma com essa cidade, é bem o
equilíbrio dessa dualidade que sua voz me causa.
Causa. Sua voz é facilmente uma das minhas causas
mais traiçoeiras.
Eu tinha me esquecido.
Mas era a sua voz, mais nada. E meus pensamentos de
quando ela corria ávida, toda dona, pelo meu pescoço.
Foi na sua voz, não em tatuagens de entrelinhas, boca
de encaixes, bunda perfeita, que me rendi pela primeira
vez.

17
Primeira vez porque essa nossa guerra fria permanece.
E você continua me desarmando, avançando pelas minhas
trincheiras, imperando fácil. E sabe.
Sua voz, é isso. Corre pelo meu corpo e vira uma cor-
rente elétrica. Substitui o sangue, meio como um entor-
pecente desses bem fortes, sabe?
Sua voz me transporta naquele meio segundo em que o
grito vira ápice e o resto é silêncio contemplativo.
Abaixo as armas, ergo minha branca Bandeira. Ah, se
eu ouvisse a tua voz.

Voz
18 CAROLINA GAIO
A primeira coisa que reparei quando nos conhecemos
foram seus olhos. Clichê, clichê demais. Clichê pra nós
dois, ebulição criativa. Clichê considerando que, em par-
te, a gente já se conhecia.
A maioria das pessoas fica primeiro literalmente nua
quando conhece alguém, bem antes de isso se tornar uma
metáfora. Nós fizemos o caminho inverso.
Dizem que os olhos são os espelhos da alma, mas quan-
do conheci seus olhos, de perto, de troca, de fixo (de ver-
dade, em suma), já compartilhávamos nossas almas, elas
passaram na frente.
Seus olhos foram portais tardios.
Eu nunca vou me esquecer de quando abri a porta da-
quele quarto de hotel barato no centro da cidade.
Seus olhos me vieram urbanos, corridos e rotineiros. E
me vieram também fazendo samba, fazendo blues, fazen-
do salsa. Me questionando com aquela típica certeza que
você carrega nos seus olhos.
Dizem que os olhos precisam ver para o coração sentir
e que um olho só governa em terra de cego.
Dizem muitas coisas, e eu acho que esses lugares-co-
muns na verdade não dizem porra nenhuma, só precisa-
mos ancorar e generalizar nossa opinião em outros pontos
de vista.

19
Mas teve o Chico, não a menstruação, o Buarque.
Chico disse que os olhos da Carolina guardam a dor de
todo esse mundo. E olha que grande besteira, olhos não
conseguem guardar nada pra quem os sabe ler.
Olhos, os seus, é claro, nunca seriam gavetas. Seus
olhos são conclame, seus olhos são desvio, seus olhos são
páprica.
Seus olhos são a ponte entre o que queimo e o que
tardo.

Olhos (ou clichês,


o que dá no mesmo)
20 CAROLINA GAIO
F rango caprese.
Não é metáfora.
Tomate, vinho branco, manjericão, pimenta-do-reino,
essa coisa toda. Ah, muçarela de búfala. Rúcula? Talvez,
não lembro.
E você cozinhando pelado na minha cozinha. Pelado,
não, deixe-me ser fiel aos detalhes. Você estava usando
um avental todo preto, com um laço muito mal dado, es-
corregando pra direita, como se fosse se soltar a qualquer
momento. Por baixo, pelado, sim.
E eu apoiada na bancada da cozinha americana, com
a taça na mão, bebendo seu vinho, babando sua bunda.
Em algum momento essa baba deve ter sido literal, não
duvido. Dava pra ver o seu pau conforme você se movi-
mentava, por trás, entre as coxas.
É um prato simples de fazer, com ingredientes triviais,
mas de uma forma não trivial, entende? E tem o jeito
como você corta os tomates e deixa o frango descansar no
vinho. E o jeito como olha pra trás e me encara com esse
meio sorriso entre um ingrediente e outro.
O que é seu tá guardado, leio seus pensamentos. Nem
tão guardado, eu vejo daqui, a taça cala minha típica res-
posta tão vulgar.

21
E cala meus plots de pornô vagabundo em cima da pia,
toda refeição tem um quê de sacro, afinal, e eis toda a
ode a seu frango caprese.
Que eu nunca comi, aliás. Assim como você nunca co-
zinhou na minha cozinha. E rápida essa imagem se desfaz
no vinho branco que bebo agora sozinha, sua bunda se
dissipando e meus devaneios virando linhas. Estas linhas.
É que caprese, sua especialidade, sempre foi meu sa-
bor preferido de pizza. Isso já basta pra sermos almas
gêmeas, quem vai negar?

Frango caprese
22 CAROLINA GAIO
Q
drez.
uebra-cabeças, mesas de sinuca e tabuleiros de xa-

Todos são suporte da estratégia, é assim que se vence,


falaram. E, no entanto, toda boa engenhosidade se perde
sem ação.
Ontem, quando estávamos conversando, eu mal tinha
começado a formular a frase, e você já sabia.
Talvez pareça metafórico, exacerbado ou até meio
místico, mas não tem nada de sobrenatural no seu jeito
realizador.
Eu nem ia falar do seu ímpeto logo no começo, deixei
cozinhando em banho-maria para mais tarde. Percebe a
ironia?
Mas esse é o número 4, afinal, o da perfeição do com-
passo; o da sorte dos naipes; o da nossa posição preferida.
E o número da sua marcha.
É preciso observar e separar peças, mas sem ação elas
não se encaixam.
É preciso avaliar e medir ângulos, precisão e força,
mas sem ação não se encaçapam as bolas.
É preciso manter o sangue frio e prever jogadas, mas
sem ação o xadrez vira damas.

23
E então nós temos um bom ponto, mágoas e medos
existem pra todos; consequências, idem. E não quer dizer
que não dói só porque você segue impassível sua marcha
4/4.
Mas quem, ou o que, vai conseguir te alcançar se você
não deixa nem os rastros por aí?
Ontem você me disse que sabe que eu detesto gente
indecisa, botando banca com dia, hora e lugar, lendo cada
recanto da minha mente sem nenhum assunto prévio pra
servir de indício.
Nada mais tipicamente você.
Você comanda as tropas, abre os mares, desfaz todo
tipo de pacto. Você que criou o tempo.
Seu ímpeto. Sem dúvida alguma, é a coisa de que eu
mais gosto em você.

Ímpeto
24 CAROLINA GAIO
C icatrizes, eu amo as suas cicatrizes.

A ação do colágeno, um tanto maliciosa, grita na pele


que você nunca mais poderia ser o mesmo nem depois de
um arranhão na grade do primeiro show que você foi da
sua banda preferida, nem depois de uma briga de bar, que
você entrou por engano, sendo confundido com um ator
pornô.
E os percalços, que às vezes tentamos esconder, vão
ficando nessa tela que carregamos. É nossa história, afi-
nal, que está ali. O que somos. Ou melhor, como nos tor-
namos.
Nenhuma tempestade passa incólume.
E eu gosto de me perder nesse mapa das suas histórias.
Da cicatriz pequena atrás do joelho, de quando você
era criança e sua mãe pedia pra não correr tanto no ska-
te, àquela maior, no final da canela, de quando você falou
pra você mesmo que não devia correr tanto no skate.
Ficam as cicatrizes.
A cicatriz de quem partiu, marcada no lado direito
do seu quadril; e a de quem fez você, a contra gosto, eu
diria, partir, quase simétrica do lado oposto.

25
A cicatriz do que te inspira, bem embaixo da nuca, a
identificação perene até cômica; e aquela no antebraço,
também, do orgulho ostentado pela menina que você aju-
dou no ponto de ônibus.
Aquela imperceptível, fazendo a barba na semana
passada, que os pelos já crescidos esconderam bem; e
aquela, que nem seria tão escondida se você não se es-
forçasse tanto, que você não mostra pra quase ninguém,
muito menos conta a história.
Histórias, significados, essa porrada de simbolismos
todos. Tudo tem mesmo que ficar no limbo dos poucos,
tudo tem que ficar no limbo do só nosso, tudo tem que
ficar no limbo do só seu.
É porque algumas cicatrizes, às vezes, são intencio-
nais.

Cicatrizes
26 CAROLINA GAIO
C omo posso me fazer entender com essa daqui?
Bem, uma das coisas mais inusitadas sobre você talvez
seja o currículo, digamos. Não todo, mas uma parte bem
específica. Aquela da época em que você dava aulas de
educação sexual no puteiro.
Lembro de você apelando pra todos os santos (alguns
nem tão santos assim) que serviam de cobaia para as de-
monstrações.
Você convencia. Você sempre convencia.
E eu ria de longe das cenas. Ou talvez eu só ria na fu-
são de tesão e admiração por essa sua catadura um tanto
tratante. Não sem certo ciúme quando alguma das "moças
donzelas" se aproximava com dúvidas, claramente fler-
tando com você. (Não, não tem como se sair dessa, nem
vem.)
E pouco importa se toda a cena era só pra gente entrar
de graça em todos os inferninhos da cidade e morrer de
rir juntos depois, um atrapalhando o outro com alguma
lembrança aleatória bem na hora que o outro começava
a pegar no sono.
Importa menos ainda se na vida real não foi bem as-
sim, se tava mais pra um programa de auditório, de namo-
ro, uma prova de uma atração de domingo que misturei
ao seu comentário na Rua Augusta de que pegar na mão,
pra gente que é de 80, é sério demais. (Ou só porque sua

27
mensagem, algum dia em que eu estava na USP, me fez
dar aquele maldito sorriso bobo do "agora fodeu".)
Mas você daria, sim, aulas de educação sexual no pu-
teiro fácil, e arrisco dizer que até venderia bomba pe-
niana pro Clovis Basilio, uma versão um pouco mais trash
daquela ideia de vender pingo de éter no ar.
Trash, do jeito que tem que ser.
É a sua lábia, maldito. A sua lábia sempre me faz des-
cer a mão automática até a calcinha.

Lábia (e parênteses)
28 CAROLINA GAIO
G aúcho não sente frio.
Você tava pelado, apoiado no peitoril fumando quando
me disse isso. Eu tinha feito uma piada bem chula sobre
o tamanho.
O vento gelado que invadia o quarto marcava a con-
tradição. Carioca sente frio fácil, quaisquer 20 graus im-
pressionam, mas do seu lado não me atingia.
O Marlboro Vermelho na sua mão era o mesmo. Suas
mãos eram as mesmas. Os cenários mudavam. Eles sem-
pre mudavam.
Você me pegando com força por trás, escorados na ja-
nela, nossa euforia muito mais frenética que a do rush da
cidade lá embaixo. O cigarro na boca enquanto segurava
com força meus cabelos.
A fumaça quente do Marlboro Vermelho se misturava
à do clima, e ambas diluíam juntas nossos gritos, urros,
uivos. Toda essa coisa animal tão nossa.
Bancada, tapete, o que tivesse pela frente, a gente
nunca pensou muito. Até hoje acho graça quando você me
conta daquela foda que você me segurou contra o baten-
te, e eu, tão entorpecida por você, nem lembro de nada
além das suas mãos.
São flashes que me vêm à mente enquanto o Marlboro
Vermelho me vem à boca. Nada mais fálico, diria minha

29
psicanalista. Flashes de ocorrências parcas e reincidentes
desejos.
Faz uns 8 graus lá fora.
Aqui, a cama completamente encharcada de nós dois.
De um fôlego só, a compensação pela nossa demora me
invadindo em inúmeros sentidos e lugares. E eu molhando
sua barba.
Apoio no peitoril, que é outro, é claro, sorvendo a vida
pela paisagem urbana. Imersa no caos anódino dos nossos
excessos.
Do meu lado, o maço de Marlboro Vermelho pela me-
tade.
É, dessa vez aconteceu.

Marlboro Vermelho
30 CAROLINA GAIO
E ncontros e desencontros, em salas de apartamen-
tos em todas as "zonas" dessa cidade. Suas mãos em mim
da primeira vez, as minhas em você da segunda. E essas
sutilezas bobas de quem domina quando se percorre o
caminho. Besteira mesmo, a bússola é sua.
Os sonhos, os versos, as melodias, os sussurros, as li-
nhas nos meus desenhos. É sempre você quem comanda a
pena. Seja a que escreve, seja a do veredito.
E todas aquelas conversas, cheias de intenções porca-
mente escondidas, sobre Bach, escalas diatônicas e amor
líquido. E nossas intenções, nem tão escondidas assim,
em conversas sobre assuntos que ferem, irresponsabilida-
des afetivas e palavras sufocadas em aeroportos.
São muitas estradas. Estradas que nos afastaram, as
mesmas que, tão maldosamente sinuosas, nos colocaram
frente a frente de novo. De novo meu motivo era outro, e,
no entanto, você chegou marcando o território, que, tão
óbvio, sempre seria seu. Sempre foi.
Ficam essas pontilhadas entrelinhas. Elas são mapas
que nos conduziram até aqui. Mapas que muitas vezes nos
fizeram pegar atalhos indevidos, derrapar em curvas, nos
perder nessa neblina que turva o entendimento e até dar
cavalo de pau.
Mas é essa mesma estrada ainda. A gente ignora os pe-
nhascos e as tempestades. E segue. A gente pega chuva,

31
lama e essa coisa toda, porque sabe que esse pôr do sol é
único. E nada se compara à liberdade de espírito quando
cantamos juntos enquanto dirigimos com pouca cautela e
toda a felicidade do mundo na alma.
Seguimos nessa estrada. A gente empurra o carro
quando precisa, talvez seja esse o segredo.

Estradas
32 CAROLINA GAIO
A primeira vez que reparei nas suas covinhas foi na-
quele meio sorriso que você deu por trás da taça que le-
vava à boca.
A gente estava dividindo um Casillero del Diablo, mo-
lhando os pés em alguma parte cheia de mato do Paranoá
que agora presumo ter sido o viveiro do Lago Norte, um
pós-reveillon que até hoje não sabemos explicar como nos
levou ali.
Nós dois tínhamos passado a virada em outras mãos,
o que nunca fez a menor diferença. Quando a gente se
sabe, se entende, se conecta, isso basta.
E a gente se conectou de verdade, pela primeira vez,
ali. Naquelas risadas de ressaca ainda ébria, naquele
monte de nadas típico de Brasília, naquelas covinhas de
revelações e meia-luz.
Covinhas que já adornaram "sorriso sem graça e nariz
grande", as mesmas que tanto se esconderam em mordi-
das na minha cintura, que brincaram nas minhas coxas.
Covinhas que hoje me sorriem de novo e me apontam
as malas que larguei em algum canto que vamos ter que
procurar depois na bagunça que fizemos nas últimas três
horas de saudade.
Covinhas tão perto da xícara com seu café forte meio
queimado me dando a porrada de dopamina de estar viva.

33
É assim que se começa um ano. Roupas, ordem, racio-
nalizações bestas jogadas em algum canto, bagunça total
de nós dois. Seus dentes. Seus pelos. Suas covinhas.
Eu reparo nelas agora. Anos, cidades e vidas que pas-
saram por nós depois. Tanto tempo depois.
Elas me sorriem igual, é claro. E eu sempre sei o que
elas querem dizer, estejam no sorriso de lado e de propos-
tas ou naquele de confidencialidades pouco convencidas.
Eu também tenho uma covinha. Só uma, na bochecha
esquerda. Você precisa reparar bem, ela é discreta. Mas
não é por isso que sempre li as suas de forma tão clara.
É porque "tenho tua chave, teu chaveiro e o segredo
do cofre. Tenho tudo isso mesmo sem querer. E só tenho
por um único motivo: são os mesmos que os meus".
Foi você quem disse, não eu. Mas, afinal de contas,
faz alguma diferença?
Feliz Ano-novo, eu te sussurro nesse nosso riso quase
choro. Já se passaram alguns dias, é verdade. Mas melada
no nosso suor, sentindo o cheiro dessa cidade, perdida
de novo nas suas covinhas, pra gente o ano só começou
agora.

Covinhas
34 CAROLINA GAIO
A qui mexendo na sua câmera sem nada pra fazer,
sem muito jeito, enceno caras tão pernósticas no espelho.
Eu tô sentada no chão quando você, sem se dar conta, me
desconcentra dessa configuração do tal modo manual.
Você tira a roupa de costas pra mim, vejo o reflexo no
espelho.
Você tá distraído procurando aquela camisa preta que
eu detesto no monte de tantas outras roupas pretas que
eu embolei ontem, mentalmente incomodado com a ba-
gunça que faço nas nossas coisas.
Sua bunda.
Costas, cabelos, pelos da coxa e pala de pau, é claro.
Mas sua bunda.
Que você já tanto ostentou, nu em pelo, no meu an-
tigo apartamento de começos. Que tanto já suou meus
lençóis e suportou minhas cravadas de unha involuntárias.
Por sua culpa, nesses arroubos de gozadas violentas de
fúria e catarse.
Sua bunda e minhas mãos, e minhas coxas, e minha
boca. De língua boêmia e dentes inconfessos. E daquele
roxo em que eu me deixei em você por quase duas sema-
nas, também.
Você ri sacana quando percebe minha cara sedenta
te medindo, te comendo, te sorvendo. Nessas horas, tão

35
nossos, ainda nos mantemos forasteiros. Eu tenho todos
os atalhos. Mas passeio indiscreta enquanto os refaço.
Você vira de novo de costas, nessa mistura de pretensa
indiferença e exibicionismo.
On the flesh rampage still running around.

Bunda (e isso merecia


ocupar todos os 13 tópicos)
36 CAROLINA GAIO
E u mal tinha passado o cartão de débito quando a
atendente chamou meu nome e me entregou o frapuccino
de caramelo. Uma ruiva com uns 2m de peito veio me
falar que a bebida era dela.
Valentina, também. Nome pouco comum pra quem tá
na casa dos 30, como nós.
Ri do equívoco. A mesma bebida preferida, o mesmo
nome. Bem menos peito em mim, bem menos bunda nela.
E um cara ao fundo rindo da cena me chamou mais aten-
ção do que a coincidência.
Era você.
Nenhum de nós dois morava (nem gostava, aliás) na-
quela cidade. Eu tava passando o tempo de uma escala de
quase um dia inteiro. Você tinha ido a trabalho.
Disfarcei quando a mulher perguntou se nos conhe-
cíamos, você fez questão de falar umas besteiras que me
deixaram sem saber onde enfiar a cara, embora eu sou-
besse muito bem que queria enfiar a cara no meio das
suas pernas, como sempre.
Teve também o dia naquele inferninho num dos bairros
mais sujos daquela cidade, outra, que, de novo, nós de-
testamos. Dessa vez, quem estava acompanhada era eu.
Você parou do meu lado no bar, eu tinha me abaixado
pra pegar qualquer coisa que bêbado sempre deixa cair no

37
chão, e lá estava você. Troquei a bebida, peguei outra mar-
ca. Peguei outro tipo de bebida, na verdade, o sal na borda
logo me mostrou que aquilo nunca seria minha escolha.
Você piscou de longe, depois que me afastei, e me
sorriu nossos códigos, e eu sabia.
Mas, desses acasos, o que essencializa a porra toda e ao
mesmo tempo nem devia ser classificado assim foi quando
nos cruzamos atravessando a Avenida Paulista, cada um
concentrado nos próprios caos e urgências. Foi um oi rápi-
do com uma olhada pra trás que me fez dar um encontrão
em um cara que me vociferou qualquer coisa. E seguimos.
É isso o que a vida exige, e é isso o que somos. Ação.
Mas horas mais tarde, após o rush da cidade ter se
aliviado, eu voltei lá. Eu sabia que não tinha como te en-
contrar, mas eu precisava respirar aquele pseudomomen-
to que o acaso nos deu.
Você tinha feito exatamente a mesma coisa. No mes-
mo exato cruzamento. Mas duas horas mais tarde.
É por esse tipo de coisa que eu sempre soube onde te
encontrar nos seus momentos de evasão. É por esse tipo de
coisa que você sempre conseguiu me encontrar nos meus. A
gente sabe muito bem, a gente sempre soube, é inerente.
Esse lugar é muito mais do que a representação de
mim ou de você, das nossas sedes, indomesticabilidades
e overdoses. Esse lugar somos nós. Esse filho da puta e
inevitável nós.

Avenida Paulista (ou acasos,


o que é exatamente a mesma coisa)
38 CAROLINA GAIO
Á gua de coco e chimarrão, os mais óbvios de nós
dois. E tudo que fica no caminho de traçado a Mezcal.
Mas se é pra falar de você, 13 coisas sobre você, tenho
que falar de cerveja.
Se comercial, artesanal, se Polar (gozou só de ler, eu
sei) ou Erdinger, essas besteiras pouco importam.
Esse fermentado vulgar, de fácil acesso e quase unani-
midade, o mesmo que muito já percorreu simultaneamen-
te meu corpo e sua língua na cobertura de frente pro caos
da Avenida Paulista.
Esse xixi de bode, suco de milho, líquido dos deuses,
em que a efusão das multidões e a anestesia do entorpe-
cimento se encontram.
O mesmo que já gelou o meu grelo, com sua boca tór-
rida dando choque em seguida. O mesmo em que já escor-
regamos e quase demos de cara na estante que estávamos
montando, rindo das nossas peripécias, pelados no chão
do apartamento recém-alugado, todo caixas e expectati-
vas.
Foi cerveja a bebida que compartilhamos pela primei-
ra vez. Eu, uma Eisenbahn (sim, eu lembro) e você uma
Heineken, cada um em um canto desse país combinando
um encontro em outro lugar, que não era meio do cami-
nho pra ninguém. Mas, considerando que somos nós, isso
é prototípico.

39
Foi cerveja o que compartilhamos a primeira vez de
fato, embora o encontro não tenha sido planejado nem
a marca, que dentre n opções naquele festival (claro, de
cerveja), era a mesma.
A cerveja da decepção das madrugadas, a do gozo soli-
tário, a das reflexões divididas. E principalmente a minha
preferida que sempre achei na geladeira depois de um dia
cheio, que você nunca deixou faltar.
Na tulipa, no copo de geleia, na boquinha da garrafa,
na sua boca.
Cerveja.
Que os deuses abençoem o consagrado que criou essa
fórmula mágica. Que os deuses abençoem nossas anal-
gesias, nossas sintonias e, principalmente, o dia em que
nós dois resolvemos, por causa de umas cervejas a mais,
apertar aquele botão. O mesmo botão.

Cerveja
40 CAROLINA GAIO
16h35, quarta-feira. Restos de qua-
tro quentinhas acumulados dos últimos dias na bancada
da cozinha. E eu mergulhada em um desses dias contem-
plativos ouvindo Jhonny Cash.
Você escreveu inspirado em uma foto minha? Volto a
tela do celular e releio com mais atenção. Texto-foto,
foto-texto. Sou eu.
Foi a primeira vez que te stalkeei.
Não exatamente você, claro que isso eu já tinha feito,
mas as coisas que você escreve. Foi ali que eu descobri.
Sim, era eu. Era sempre eu. Em todas elas. Nas esquinas,
nas curvas, nos êxtases, nas ausências, na porra toda. Eu.
Seus textos me gritavam, me exalavam, me irrom-
piam. E então eu senti neles o cheiro de todas as coisas.
Das chuvas que nos pegaram desprevenidos colocando
magia nos dias úteis. Dos drinks feitos em dias de fuga que
nunca tomamos. Do brownie que queimei na sua cozinha.
Das manchas e marcas de nós dois que esquecemos em
inúmeros becos. Dos inúmeros becos dos quais nunca nos
esqueceremos. E todas as risadas até chorar sem precisar
falar mais nada.
Minhas confissões. O nosso pacto. Suas linhas.
O que cativou algumas de nossas madrugadas e levou
embora tantas outras. Madrugadas que sempre me servi-

41
ram de refúgio em tantos momentos. E esse refúgio, tão
próprio, de linhas tortas, debochadas, polissêmicas que
só você sabe traçar.
O mesmo refúgio que sempre tive nas suas linhas e nas
nossas conversas.
Mas aquela nossa última conversa, toda gemidos, ce-
nas passadas e futuras, e mãos dentro da cueca, lembra?
Bom, essa me serviu de outra forma.
You build on failure. You use it as a stepping stone.
Close the door on the past. You don't try to forget the
mistakes, but you don't dwell on it. You don't let it have
any of your energy, or any of your time, or any of your
space.

Suas linhas, é óbvio


42 CAROLINA GAIO
s o n e t o s
96 o e
s e x
de rimando
o r
am om dor
c
Os 69 sonetos de sexo e amor
rimando com dor falam das nossas
dores, das nossas decepções, mas
também dos amores da identificação,
da conexão e, claro, dos sexos
irrefreados pelos becos da vida.
69 Sonetos
de sexo e amor
rimando com dor
Pudera eu me esquecer nas tuas mãos
Tão precisas desvendando minhas ruas
No mar de pintas da tão alva pele tua
Que encerra músculos e tatuagens em comunhão

Ah, a nuca tua! O tão impecável encontro


De cabelos enormes e costas trincadas
Recanto de cheiros e arrepios da alvorada
Em que saliva e gemidos me tomam de pronto

À revelia do olhar que engana


Teu sorriso encerra uma alma nua
De ar inocente e fundo sacana

No canto da tua sobrancelha esquerda


Que a assimetria perfeita daquelas sardas
A cada dia na tua religião me perverta

Ode a teu corpo


47
Vazios são os olhos que fáceis refletem
Toda feia angústia que a eles se apresenta
Vomitam sem absorver igual figura
Pavimentando essas dores na armadura

Olhos de fora, de narciso clamam o charme


Se afogam e se inebriam na mentira muda
Que se alegram nas alheias disparidades
Esquecendo que só levaram o que já tinham

Seguem intactas as planas totalidades


Jogadas no próprio deleite se repetem
E a cada gêmeo que reclama, mais se isenta

Mas é preciso que a estrutura se desarme


No encontro do igual, que a vê e se desnuda
Só os desfeitos, antes, afinal, se alinham

Mise en abyme
48 CAROLINA GAIO
Quando o átimo é vertido em negativo
E o recorte se apreende e lapida
Essencializa a arte que se eterniza
E a caixa-preta na moldura se revela

Guarda o que se esvai e registra a sina


E esculpe o instante a transitória tela
Da rotina, o que é pouco percebido
Torna-se retórica e então se cristaliza

Sua precisão de criador que faz o crivo


Do finito, o véu poroso é esculpido
Tal qual o artista que corta e lima

E por marcar o que a ser cinzas se destina


Tece em ângulos lágrimas, risos e a saída
Da vida que, então talhada, surge a rima

Inescrutável
49
Quando do camelo lépida lhe desvelei a pata
O esputo involuntário gotejou-lhe a parca beca
Mimetizando a Excalibur em inconcussa robustez
O delíquio consumado da empapada perseguida

De mastodôntica, claudiquei temendo duplicata


Mal sabendo que claudicante era minha peca
Do ato que se diz foedere por me cavares a vez
Gemidos desmedidos. Fomos pegos de calça caída

Nossa protérvia foi rápido descoberta e apontada:


Pendiam serelepes estalagmites de minhas vergonhas
Pendiam mefíticos arabescos de tuas ventas

Enorme baboseira! Que a sacra pedra seja atirada


Por quem nunca se borrou ao aterrissar em Congonhas
Ou se permitiu às venéreas por anônimas rebentas

Arremate
50 CAROLINA GAIO
Não se assume a falta, mas não duvido
Da sua invasão na minha garganta
Minha incursão pela sua intocada terra santa
E as sobras de lascívia ao pé do ouvido

A vertigem da sua mão pesada visceral


Fazendo da sua perversão inconfessável minha tara
Entre aquela cuspida indômita na minha cara
E nosso conluio com o pecado original

Ficam as indomesticáveis lembranças


Do vazio literal sem me agarrar às suas tranças
E minha prece sufocada a qualquer Meishu-Sama

Ficam sua voz, seu toque e seu cheiro


Sua escova de dentes no meu banheiro
E a mancha da sua esporrada na minha cama

Lascívia
51
Nas vestes brancas o sangue respingado
Da vida inocente extirpada e despida
Agonizando ainda quente no piso frio
Por um capricho de um coração desesperado

Sufocado em seu egoísmo, premia o laço


Com a promessa selada na alma oferecida
Foi de ônibus, ausência e estômago vazio
Vacilando descarrilhado em seu compasso

Somente exalava o cheiro ocre da alheia agonia


Das vísceras, nas unhas se entreviam os restos
Das mãos, é isso o que permanece em seus gestos:

Nada. Nenhuma resposta lhe faria companhia


Pudera. Como ousa esperar virar a sorte
Do pó do egoísmo mesquinho de quem gera a morte

Abismo
52 CAROLINA GAIO
A fábula dos extremos constrói a calha
Da obediência à superfície dos juízos
Engrossando o caldo em que na mesma calçada
Andam Bach e Nego do Borel de mãos dadas

A água e o vitral são elementos sábios


Vítreos, enquanto uma distorce, o outro talha
Identidade e razão, à prova de falhas,
Jazem em mesas-redondas de universidades

O pulso que ama em crimes se desvanece


E o cimento que te abriga da tempestade
Aguarda mudo a inscrição dos epitáfios

A estricnina te estampa leve um sorriso


E o ar, premissa vital, também te adoece
É que, de perto, tudo é mais do que parece

Don't get too close, it's dark inside


53
Livre, uma borboleta de asas tortas
Fugida do seu leilão de estimação
Às moscas, o fio de devaneio não nego
Mas evidente é a ferida que seca

Se em resquício de torpor me pego


É o meu vestígio errante que peca
Nas insistentes grades que já se vão
Cigarras desafinadas e esperanças mortas

Pousado, um pássaro com coração de leão


Vertendo veneno em dor, escorpião
Do antigo desejo que fechou sua porta

Nenhuma fera é domesticada em vão


De todos os planos que a vida aborta
Pouco importa o que a aorta já não corta

Epitáfio
54 CAROLINA GAIO
Tal qual mosca de padaria faz a ronda
Você maltrata minha racha desvalida
Minha precoce exaustão evidencia
Que toda foda é um tanto piegas

Invade minhas matas sua anaconda


Que, para multidões, ergue-se destemida
Seu brado vem impiedoso e anuncia
A perda irretratável das minhas pregas

Choro desolada e indefesa sem baluarte


Pensando na prega que outrora retinia
E há muito vejo que já fez sua passagem

Porém, o vento na bunda, que se diz arte,


E os cabelos grandes, ode à androginia,
De fato mascaram em eufemismo vadiagem

LaCUnas
55
Sobre a pele silencia o que sob ela espeta
Chuta como irrelevante a urgente agonia
Inerente a toda sorrateira madrugada
Sempre obscura, traiçoeira e culpada

Impiedosa, a noite te puxa o tapete


Expõe teus restos de cartas rasgadas
Expõe pentelhos de sangue ainda enraizado
Um capricho do Diabo, nunca você mesmo

Defronta-se então com o consolador dia


Que te envolve na proteção da reprimenda
E te venda com a ilusória concepção

Vive de trêmulas e débeis superfícies


E deixa que calado ele faça seu trabalho
Água benta e dentes de alho. Tranca a chaves teu caixão

Cilício
56 CAROLINA GAIO
Latejam na minha garganta com crueldade
Seus cheiros e marcas que me devoram
Me dilaceram e escorrem pelas pernas
Aquietando o gélido incêndio em orgasmo

Prende minha mente em viagens eternas


Eriça mamilos e pelos o toque em espasmo
Dos olhos indomáveis que sedentos se demoram
Da vertigem tua que a minha pele invade

Lábios teus que em pecado me revertem


Defloram toda a minha pulsação insone
Sucumbem as costas ao veneno calafrio

Correm seus cabelos em tesão, ânsia e fome


Delírios gêmeos me encharcam em arrepio
E agonizo na ebulição do devaneio inerte

Estese
57
Queimando em minhas roupas distopia
Sua mão dedilhava lânguida minha coluna
No chiado dos silêncios que tudo satura
Lutam suor, sina e anseio; e sou teoria

Sua perversão domesticada me dá simetria


A partitura sua clave desafia marcando o tom
Borram tempo, inversos universos e batom
No intervalo dos lábios, pretensa calmaria

Com um acorde de ré menor aumentado


A dissonância inconfessa devaneia a meu lado
Nossos cabelos misturados são enarmonia

Em meus muitos destinos (re)velados


E nos encontros de acaso semitonados
Tudo que sou é acidente, e ele, sinfonia

Enarmonia
58 CAROLINA GAIO
Peço redenção das suas aliterações
E dos hipérbatos que ele torna estáveis
Quando na pele a sinestesia traça a rota
Em pleonasmo, completa minhas referências

Ele, mar de bagunça e contradições,


É incisivo em negar coincidências
Eu, detentora das posturas inabaláveis,
Da capciosa imersão no acaso sou devota

O destino vem sorrateiro e dá o doce


E, na arbitrária retaliação das apostas,
Tirano, permite reincidências tão parcas

Se metáfora e catacrese ele não fosse


A metonímia da cicatriz em minhas costas
Seria a única tela das suas marcas

Antonomásia
59
110
A ideia do nome da categoria 101
é a de que você pode ter cem homens,
ou mulheres, ou ambos, mas sempre
haverá aquela pessoa que se destaca
das estatísticas.
101
E ra ele.
E é claro que ele sabia.
Era ele no vídeo melada de Nutella, nos nudes de cos-
tas que viram fundo de tela e no frango caprese.
A sensação lívida de pegar automaticamente na mão
de alguém só porque parece que é natural entre os para-
lelepípedos de uma rua. Composições trocadas e lençóis
molhados em atraso.
A viagem na frente da cabine, os trilhos tão próximos.
A mensagem no campus. A subida de bota na Rua Augusta.
A bebida no quarto de hotel e o skate embaixo do braço.
O 101.
Na teia de linhas confessionais, amores urgentes e ins-
pirações súbitas, era só ele: o escritor das madrugadas in-
sones. O poeta clichê de paixões mal resolvidas e entorpe-
centes. O andarilho claudicando em tatuagens e sotaque.
O gelo se diluindo no copo, a mão em febre no grelo.
Sempre foi sobre ele.
Così sola da provare panico e c'è qualcun'altro qui con
me. Devo avere proprio un'aria stupida. Sai com'è, manchi
te.

Oh, fuck it
63
N ós dois somos pessoas de ação. Damos corda pra
viver, como você diz. No entanto, não agimos. Você ca-
lou, eu supus. Você me forjou em outras mulheres, eu te
guardei em estatística.
Você fez planos dos quais fugi. Eu fiz planos dos quais
você nunca soube. Muros e paredes com nossos pseudôni-
mos pela cidade e na nossa sala. Você teve inexplicáveis
convicções, eu duvidei das minhas.
Você questiona minhas incertezas, dizendo que tudo
que escreve sou eu, e que isso deveria bastar. Eu me leio,
me encontro, me reinvento nas suas linhas, mas não mer-
gulho por não mensurar ao certo a profundidade da água
turva que vejo.
Você me acusa de não te escrever, mas não percebe o
quanto tudo sempre, de algum jeito, perpassa você.
Eu não te escrevo diretamente, você tem razão. Mas
em cada um deles, é sempre alguma sombra perdida ou
encontrada de você o que move minha caneta.
As madrugadas insones, os quilômetros, o soco no co-
ração, a mão pesada, o cenário urbano, a familiaridade
no toque, o dia da semana, a boemia, a música, a escrita,
a identidade. E a lista de você em todos eles indefinida-
mente segue.
É quando o Sol me domina que me rendo. É quando
você perde para Marte que me deixa contra a parede. Vê-

64 CAROLINA GAIO
nus ainda faz a negociação. Você me vence, você sempre
me vence. E, contudo, nós dois ainda somos empate.
São 3h46, e acabei de acordar de um rápido cochilo
que foi também epifania.
Olho a chuva que despenca do céu mais bonito do país.
Esse cheiro me transforma em toda a paz do universo. Em
algum lugar, entre devaneios, garrafas, linhas do Bukows-
ki ou reiteradas e indiferentes coxas, você está comigo.
Distantes, você gargalha, e eu engulo. Você goza, e
eu danço. Você vomita, e eu tropeço. Somos nós, somos
sempre nós.
E se parássemos de como seria, condicionais, suposi-
ções e cobranças alheias, que, no fundo, são próprias?
E se parássemos de fazer o que tanto odiamos, fugir,
supor, flanquear, claudicar e sublimar nós dois em pala-
vras eruditas, textos mal inspirados e arremedos de es-
boços?
Você quer jogar tudo pro alto, você quer mesmo?
Vamos tirar nossa inspiração mútua do papel? Vamos
dominar a porra toda?
Nós dois hoje, vamos?

Aquele que eu nunca escrevi


65
A quela noite eu bati bem onde dói, né?
Você ficou muda.
Eu também fiquei. Olhando pra frente, sem te enca-
rar. Não dava depois de ter sido tão preciso sobre coisas
que eu nunca saberia. E consciente, de um jeito áspero,
de tudo o que você tava sentindo.
Porque era no meu corpo que corria, entende?
É por isso que é tão fácil. Eu sempre sei. Não preci-
so te ler, sentir que seu abraço dessa vez foi tremido e
sua voz tentava, muito mal, esconder uma mágoa profun-
da. Que se instalou aí. Que sua respiração, sempre tão
diafragmaticamente perfeita, tava curtinha. E que você
muda o jeito de falar o final das sílabas. Eu não preciso.
Porque eu sinto.
A minha respiração foge junto. Lá pra longe desse
quarto. Como fugiu também dessas paredes tudo o que
um dia pretendemos ser. E nunca fomos.
Nunca demos aquele passo. Nunca fechamos os olhos.
Nunca demos as mãos.
Pelo mesmo motivo que não gosto de drogas.

66 CAROLINA GAIO
Te tiro do transe e você sorri, é quase deboche, um
pouco do seu desprezo automático. Defesa óbvia contra
o mundo. Ataque de animal escaldado. Soberba de quem
já viu tudo.
Não vou te dar uma resposta clichê, respeite a nossa
história. Ah, história. Que palavra desgraçada. Me curvo
a esses tomos que se pretendem reais. É isso, entende?
Nunca foi real. Nunca poderia ser real.
Agora, aqui. O tempo parou. Olha lá fora, isso é lite-
ral. As folhas das árvores pararam de se mexer. As nuvens
te esperam, os pássaros em seu voo detido, retesam suas
asas.
Nós dois, minha querida, fomos feitos para não ser.

Nunca
67
e
qA u al e
rca
Quem nunca levou uma rasteira de
uma paixão à primeira vista que atire
a primeira flecha! Para endossar
o drama desses erros de Cupido,
Aquele cara fala de um tipo de amor
que tenho certeza de que você já
conheceu: o amor não correspondido.
Aquele cara
D urante muito tempo, você me deixou completamen-
te perturbada.
Aquelas gafes que nos fazem corar as bochechas, e
aquele nervoso típico que acaba atraindo um mar inevitá-
vel de outras gafes.
Eu derrubei coisas no chão (eu derrubei você no
chão!), perdi uma coisa que tava na minha mão, já me
senti ridícula em um show. Fora as inúmeras vezes, em
inúmeros sentidos, que tropecei.
Só porque te vi, e isso basta pra me desestabilizar por
completo.
E por acontecer bem na sua frente, era o fim do mun-
do, sim. Eu queria te impressionar, e a gente se cobra não
ter falhas.
Depois vieram outras coisas, que igualmente me per-
turbavam. Eram suas mãos no meu quadril, era seu sorriso
torto, era seu jeito de olhar pro lado naquela mistura tão
sua de estar sem graça e se achar o máximo.
E, é claro, as coisas menos tangíveis.
O jeito estudado até na hora de girar a chave na fe-
chadura, quadros milimetricamente posicionados e pa-
lavras sempre tão bem pensadas contrastando com sua
efusão autorizada.

71
Os momentos de escape a que você se permite, embo-
ra julgue quando são alheios.
Você, de traiçoeiros trejeitos singulares e de ainda
mais traiçoeiras resignações de multidão.
Você, de ordem e você, de caos; você, de paz e você,
de erupção; você, de miopia e você, de perspicácia. Você
de álcool, você de vírgulas, você de eventuais delírios em
que ainda me pego.
Você, de finais de noitadas superficiais refugiado em
livrarias e misantropias.
Não me culpe a paixão, a projeção e as reiteradas - e
necessárias - linhas. Não teria como você, logo você, não
ter virado meu melhor personagem.

Você de álcool, você de vírgulas


72 CAROLINA GAIO
O ntem, assim que cheguei àquele bar, os ecos de
você me paralisaram na porta. Ecos, reflexos tolos que se
apreendem por aí.
As pessoas que amam seu lado A não entendem o lado
B. As que conhecem seu lado B detestam o lado A. Tão ca-
reta. Elas são planas e óbvias, todas elas, e você se sente
sozinho. Vagando sozinho nessa jornada que é a vida.
Não adiantam sua popularidade ou seus muitos con-
vites para inúmeros eventos no mesmo dia e no mesmo
horário, alegorias em pedidos de fotos que devotam um
personagem de você que tudo que diz de você é nada do
que você é. E talvez você odeie a repetição pronominal na
sentença anterior. E toda a cacofonia.
Acontece que não há nada no mundo que te compreen-
da ou minimamente tente. Os livros, talvez.
Constato esta fatal realidade e vago. Vago pelas ruas
com alguma bebida na mão. Risos e vozes passam em fla-
shes de cor. Eles são iguais, eles são todos iguais, repito
para mim. Há muitos mundos mais do que a obviedade
humana permite viver, e você só vai conseguir vivê-los
assim, em fronteiras, sozinho. Porque foi este o decreto.
Constato, apenas constato. E vago. São rostos e es-
tardalhaços. São também possibilidades e propostas. Mas
nada te interessa.

73
E talvez ler este texto te irrite, como tudo que escre-
vo, dado meu pretenso sólido conhecimento de você, mas
no final talvez veja que só falo de mim.
Constato, é só o que faço, que tempos sombrios se
dissipam, mas a massa amorfa do desinteresse é perene.
E no final das contas, sua efusão excessiva revela pura
analgia.
Pensei que morar em um bairro residencial e bucóli-
co me desse paz, ou no Centro da cidade, me torturasse
com excessos. Bobagem. Sou inerte, sou anestesiado, sou
completamente indiferente. Dizem que isso é bom, quem
não ama também não sente dor. Falácia. Vago e constato
que as multidões de vazios só fazem a cada dia mais me
sufocar o peito.
Todos esses flashes me vieram naquele único flash,
você estufando o peito com seu sorriso torto tão artificial
para uma foto de felicidades alheias e vulgares, para toda
uma cena que te constitui e, no entanto, cada vez menos
é você. Ou me engano? Senti mais do mesmo: o dilace-
ramento de viver com alma, uma sutileza que podíamos
compartilhar. Mas eu odeio condicionais. Fui embora.

Analgia
74 CAROLINA GAIO
D isse Greimas que fora do texto não há salvação. Ou
algo do tipo considerado o telefone sem fio do cacete que
essas citações – traduzidas, ainda! – que ficam famosas
são.
Isso tudo são clichês, aqueles inevitáveis com que nos
deparamos todos os dias, como nossos óculos óbvios, ca-
fés necessários e debates que, sem falsa modéstia, entra-
mos pra ganhar.
Hoje eu fui naquela livraria, e me peguei pensando em
coisas chatas sobre hifens mal colocados e caixas-altas
tão desnecessárias. E sobre se mal colocado não deveria
ser escrito junto e sobre o quanto esse plural de caixa-al-
ta é nojento.
E ri sozinha lembrando de nós dois discutindo inflama-
dos coisas desse tipo entre cervejas em pleno Carnaval
carioca. Entre nossos contrastantes gestos tão espalhafa-
tosos e todas as entrelinhas de personalidades trancafia-
das.
Eu sinto falta, sabia? Eventualmente, é claro.
E eu senti falta hoje.
Senti falta das nossas conversas sobre dosagem alcoó-
lica e erros de tradução. Das nossas conversas sobre ban-
das que eu não conheço e nenhum de nós dois suportar
mais ler a palavra empreendedorismo. Das nossas conver-

75
sas sobre aleatoriedades sempre permeadas por texto,
porque o puto do Greimas estava completamente certo.
Talvez seja leviano eu concordar com ele, só porque
pra mim é bem mais fácil do que falar escrever, mas ainda
arrisco que concordo porque texto é esse alfa e ômega em
que realidade e fantasia se permitem, se materializam,
se fundem até.
Ou só porque é o texto que de algum jeito, na folha de
pagamento ou nesse necessário tão constitutivo de tudo o
que somos, nos une em necessidade e paixão, nos une em
encontro e identidade.
Nos une como nossa forma criativa de organizar a vida,
dessas searas que a escrita permite; nos une como nossa
forma metódica de gozar a vida, dessas normas a que nos
apegamos e dá até certo prazer de encontrar nesses com-
passos de páginas e páginas profundamente certas.
É claro que não há salvação fora do texto, nem a gen-
te quer que haja, nem fora nem dentro, ou alternando,
como a sintaxe de colocação em situações ambíguas.
Ou simplesmente como uma metáfora sexual que,
puta merda!, só mesmo nós dois pra acharmos algo sexual
em pronomes.

Colocações
76 CAROLINA GAIO
A gente vai ficar sempre assim, não é? Nesse chove
não molha. Nessas alfinetadas tão subliminares e protegi-
das que resultam no máximo em um sorrisinho bobo, por
puro reflexo.
É que meu corpo ainda não consegue não reagir.
São muitas mãos, falas afetadas atropeladas, cadeiras
difíceis demais de arrastar e esse monte de eco.
São detalhes. Você sabe o que todos eles querem di-
zer. E eu também sei, é claro, embora se houvesse aquele
famoso "contra a parede" nós dois seríamos pura dissimu-
lação e casualidades.
Olha, eu não estou indiferente. Passaram-se meses,
passaram-se anos. Você não passou.
E não é só pela nossa convivência forçada, digamos
assim.
É por todas as coisas sobre você que nunca descobri
nem vou. É por todas as coisas sobre mim que você pre-
fere distorcer do que montar o quebra-cabeça junto co-
migo, desse mundo que já foi todo convites, mas hoje é
só grades.
Eu sinto falta sim do que nunca vivemos. É tão errado
isso?
É porque o que vivemos deixou brechas. E, nessas bre-
chas, o trabalho automático que nossa mente faz é cos-

77
turar retalhos e paetês que encontrei numa caixa. Mal
alinhavados. É nossa falha de ser humano.
De algum jeito, eu amo você. Sobrancelhas erguidas
e sardas na pálpebra, mais na esquerda, muito mais. Ca-
rinho no ego e muitos julgamentos por essa declaração
leviana, quem pensa isso é você.
Hoje eu fui naquele café. Você busca na sua mente
agora, mas não "se lembra" de qual é.
Nossa ida, como todas as coisas, se afogou agonizante
nos meus planos.

Cabelos negros
78 CAROLINA GAIO
D ia desses, precisando de um texto para atualizar
uma coluna e com a dupla falta de inspiração e tempo, fui
procurar textos mais antigos não publicados. Vi um salvo
com um nome que era uma sequência de letras aleatórias
e abri para ver o que era.
Mal comecei, fechei o arquivo, não quis ler tudo. Era
melhor que ficasse ali. Sufocado, com um título que não
me fizesse criar associações.
O texto me trouxe coisas em que eu já não pensava;
me vieram sob a forma de sensações.
Sensações daquele toque que não saía de mim, das
mãos no meu quadril, do jeito tão seu de falar, do sorriso
torto, das sardas na pálpebra, do cheiro de familiaridade
do seu cabelo. Foi um lapso, nada mais. Quis não pen-
sar, o que tenho conseguido todos os dias há tempos. Agir
como se você não existisse, vendo magia em outras coi-
sas. Senti. Mas mais uma vez esqueci.
Você me voltou dias depois, naquela frase que você
tem tatuada e com que toda hora me deparo. Não, não
doeu. Eu ri, até.
Mas você veio de novo, no outro dia. Fui contar algo
para alguém e me veio certinho aquele dia, a ironia do
meu pensamento sobre ter achado insuportável aquela
festa a que você me levou. Aquele dia foi bizarro.

79
Da minha bota preta nova toda colada de bebida do
chão do open bar e só Deus sabe mais o quê à garota com
o nariz escorrendo pó e você a um passo de um coma al-
coólico querendo bater em um cara. Não foi só isso. Teve
o "pedido" da madrugada, um descuido seu proveniente
de tesão e álcool, coroação do meu show de horrores.
Meus segundos irreais de plenitude.
Apesar de tudo, no dia seguinte, tudo o que te falei
foi everything about you, e o resto deixei calar. Como até
hoje calam tantas, tantas coisas. E que diferença faria,
se você sabia?
Na lembrança daquela bota imunda, me veio tudo.
Como não me vem há muito tempo. Só para me mostrar
que há coisas que ficam. Ficam naquela melodia, no bei-
jo semelhante de alguém, naquele bairro, em um cheiro
repentino de meados de ano. Naquela bota preta que já
nem tenho mais.
Coisas que por mais que durmam, sejam trancadas ou
até mudem, não podem ser definitivamente apagadas.

A bota preta
80 CAROLINA GAIO
en t a u r o
C
A combinação de metade animal
com metade homem de Centauro
representa os amores avassaladores,
de tesão e identificação, que nos
fazem querer cavalgar noite adentro
cruzando céus e mares… e corpos.
Centauro
O latim deu alma rubra à rubrica
Para apartar da sorte seu paredro
E sangrar o instante de toda fugaz sina
Porque também o destino é vicissitude
Que se dissolve como o rubro que tão transitoriamente
Me marca

Cruel fatalidade na tinta do meu corpo embarca


Te expondo minha nudez em plenitude
Dos meus lugares não visitados
Das minhas esquinas de vazios acobertados
Dos tão impermanentes cruzamentos
E das pensões de uma noite, em que nunca permiti
estacionamento
Me rubrica

Assina minha nudez como sua


De todas as estradas que chamo de minhas
Tinge crua a ventura
E me trafega sem placas, multas, limites impostos so-
bre velocidade e trajetos
Me trafega na contramão

85
Me trafega nos mudos desafetos
Me trafega mesmo em estradas vizinhas
Me escreve

Se houver trecho sem asfalto ou quebra-molas ines-


perado
Segue
Não deixa de me percorrer pelos pedágios
Fazem parte de toda serra e todo campo aberto
Os obstáculos que mostram que estamos no caminho
certo
Que se faz nosso por juízo
Quando o conquistamos
Me cartografa

Segue, na terra batida


No asfalto quente e repulsivo
Nas fechadas curvas repetidas
Na neblina que distorce em dúvida
Toda simulada ilusão
Caminha, vai
Empurra o carro onde não der
Troca a marcha
Me tinge, me tange, me tangencia
Que eu gosto mesmo do que não é
Que eu gosto mesmo é de não ter mapas
Me esboça

86 CAROLINA GAIO
Rubrica o caminho como quem contrata
Que rubrica é tênue e irreconhecível para quem não
sabe
Previamente do que se trata
Me autentica em tipografia
Como a falácia da lei em que se fia
Me decreta

Rubrica também é o que no teatro


Sem tato
Mostra que o sentido tem direção
Mesmo pra quem no mundo não se permite prisão
Soltos que somos como alheias adoção e consignação
constantes
Decora meus bastidores errantes
Porque toda estrada, mesmo indomável, desconhecida
ou por fazer… já tem nome
Me assina

Me assina
87
b o ç o s d e
s
E schi
rB u n e ll e
Esboços de Brunelleschi fala das
paixões pela metade, interrompidas,
caladas, impedidas. Esboçadas.
Paixões compartilhadas, daquelas
que nos estapeiam com dopamina só
por saber que a pessoa existe, que
arrepiam com o toque. Mas que, pelo
motivo externo que for, nunca se
concretizam totalmente.
Esboços de
Brunelleschi
D o alto do décimo andar, eu fumava. Fumava um
Lucky Strike azul. Comprei um maço igual ao que ele dei-
xara na minha casa, junto com o isqueiro.
Caralho, eu não fumava desde 2011!!!
Não, era mentira.
Porque eu havia fumado naquele sábado, 11/6, nós
dois discutindo no play do meu prédio entre beijos sufo-
cados e “estamos terminados aqui depois disso”. E era
agosto. 11 de agosto. Exatos 2 meses depois, na minha
janela, eu fumava.
Ironicamente, 11, meses antes, também foi o dia que
nos conhecemos.
11, alguns anos antes, também foi o dia que. Aquele
dia em que ele.
O quão simbólico para mim era fumar? Isso esteve pre-
sente em esparsos momentos da minha vida. Não só pelo
relaxamento imediato da nicotina, mas pelo ato em si.
Fumar para mim é como dizem que é o corte de cabelo
para algumas mulheres. Aquele tipo de rito. Ainda mais o
cigarro dele, que ele deixou da última vez. A emblemática
última vez em que transamos ali mesmo, naquela janela,
enquanto ele fumava um Lucky Strike azul.
A cena mais sexy que já vi em toda minha vida, aquela
imagem não parou de ecoar na minha mente. O cigarro na

91
boca, a expressão se mesclando entre um tesão aliviado
e certa dose de crueldade, tão própria de seus momentos
de volúpia. E quantas entrelinhas por ali passavam. Pelo
detalhe do jeito dele virar a cabeça para o lado para so-
prar a fumaça. Pelo jeito de segurar o cigarro. Ou de dei-
xá-lo na boca enquanto me puxava para mais perto. Aque-
las entrelinhas em que se entrevia quem éramos, nossos
como, nossos quando. Elas deixavam tudo absurdamente
mais sexy.
Tudo nele me entorpecia.
Sua boca me deixando também metaforicamente nua,
a perfeita alegoria de como ele me tomava os sentidos.
As mãos grandes, o jeito de andar, as costas desenha-
das, a voz com um fundo meio fanho, tudo se dissolvia
na fumaça do Lucky Strike azul que agora saía da minha
boca. Também ela se dissolvia no ar.
Do alto do décimo andar, eu fumava. Fumar era a mi-
nha maneira de continuar me drogando dele.

O Lucky Strike Azul


92 CAROLINA GAIO
E u só queria te passar a vara quando te conheci.
Desse jeito bem chulo mesmo, como todas essas nos-
sas necessidades humanas improrrogáveis.
Não foi mentira ter dito o quanto você é apaixonan-
te. Mas eu, escaldado que sou, dificilmente cairia nessas
redes.
E então me aparece você, suada e descabelada pós-
-rush carioca, maquiagem gasta de dia inteiro, tão ca-
lejada e cheia de maldade, e, no entanto, era só uma
menininha de bochechas coradas quando vê o primeiro
amor. Fodeu, eu fiquei nas suas mãos.
Nem o experimento de Stanford materializou de forma
tão quase palpável qualquer livro de psicologia quanto
você usando todas as formas pra me afastar. Você, em
baixo-relevo, latinismo e entrada de dicionário, o protó-
tipo perfeito.
Eu lia muito bem.
Eu lia todas as suas vírgulas. Eu me converti na sua
religião, eu conhecia todas as suas roupas, falei. E, puta
merda, como isso é legítimo.
Mas eu precisava de um motivo que me fizesse voltar
aos eixos da banalidade do cotidiano, essa coisa de bater
ponto, pagar fatura do cartão de crédito e selagem a vá-
cuo.

93
Eu precisava abandonar aquela nossa bolha de borbo-
letas no estômago e dopamina - troque as letras e inverta
as vogais. Percebe?
Qual de nós dois, afinal, foi a fuga mais óbvia? Qual de
nós dois foi a maior covardia?
O sinal abre. Você acabou de atravessar a rua. Olhi-
nhos brilhantes de mãos dadas com uma outra existência
qualquer. Saia esvoaçante e metáforas que, sim, sem pre-
tensão ou falsa modéstia, só eu saberia ler.
Solto a embreagem. E sigo.

Sinal vermelho
94 CAROLINA GAIO
D eve ser legal ser a Sra Sua. Chegar em jantares pom-
posos com você de braço dado e salto alto. (Deus abençoe
esparadrapo e benzocaína.) Nós dois fingindo que nunca
sonhamos com o cheiro da carne de panela de segunda da
casa do vizinho ou que não gostamos de Sandy e Jr. Sorrin-
do ouvindo Édith Piaf e comendo lagosta (a que o Allegra
te deixa fingir que não tem alergia).
Nós dois rindo no banheiro por eu ter descolado uma
penca de coxinha no buffet da festa que eles fizeram mais
cedo. E você fingindo que é mulher, afinando a voz de
barítono, quando percebe que entraram na baia do lado.
Seu falsete é péssimo, sussurro. É mentira, e você sabe.
A gente se olha, e tudo em volta é fogo. Nós dois somos
fogo. Só existe isso.
Você com todo seu palavreado obsequioso, eu botando
pra jogo aqueles tempos de infância em que ficava deco-
rando dicionário. Acho que lancei um "amplexo" automáti-
co pra alguém ainda há pouco, ou não? Só pra mandarmos
um "partiu podrão, lek?" um pro outro quando alguém se
afasta.
A gente sabe das nossas referências forjadas a Hemin-
gway e dos contos sobre necrofilia. Álvares de Azevedo se
regozija no inferno, espero, de orgulho dos pupilos. Nós.
Uma palavra.

95
Eu nem preciso ter saco pra sentar como se tivesse e
coçasse, mas cruzo as pernas impecavelmente te dando o
aviso de que é melhor eu não ostentar por aí aquilo que
não estou usando. Você morde o lábio inferior com um
gemido, entendendo tudo, só porque te olhei de canto de
olho. Você sabe. Você conhece todas as minhas roupas,
lembra? Uns tropeços aqui e outros ali, é claro. Mas, não,
elas não mudaram.
Um lapso e estamos aqui. Piscina porcamente cuidada
e o jardim impecável. Tem uma cidade toda atrás de nós.
Um montão de vidas e obrigações. Sua boca. Eu passei a
respirar sua respiração. O coração que bate aqui agora tá
no ritmo do teu. E eu aprendi que isso se chama rapport.
Embora sintonia e química sirvam perfeitamente bem.
Eu tô queimando você.
Aqui, agora, os x anos, meses, dias, segundos depois
que você sabe muito, muito bem. Tudo igual. Era um sinal
que você queria? Pois pegue e que te sirva, é teu.

Uma vida
96 CAROLINA GAIO
M ais um dia que eu olhava insistentemente minha
caixa de spam, naquela esperança quase doentia de não
ter visto. Acontece que ontem, mais uma vez, eu tinha
escrito pra ele.
E pensar que das últimas vezes quem tinha insistido
veementemente fora ele. Pessoalmente, indo a locais que
eu não tinha lhe dito em que estava, descobrindo telefo-
nes, descobrindo quartos de hotéis, descobrindo minhas
madrugadas. Me encontrando nas minhas perdidas madru-
gadas, aliás.
Eu não insistia com tanta frequência, tampouco com a
mesma disposição para revirar o mundo e "catar" onde ele
pudesse estar. Eu me assemelhava mais ao viciado even-
tual, que em dias de abstinência cruza limites entre o
social e o necessário.
Hoje era um desses dias. Eu estava em um evento
grande da cidade, que eu nem morava, estava ali a traba-
lho há alguns dias, sem previsão de quanto tempo perma-
neceria, como o padrão de todas as coisas na minha vida.
Um lapso entre uma música que me trouxe ele e a cer-
veja na minha mão me fez olhar os e-mails. Claro que ele
não tinha respondido, não fez da última vez, meses atrás,
por que faria agora? Meses antes, quando, de um quar-
to de hotel, escrevi "tô em outro estado e pensando em
você". O estado já não era o mesmo de agora, em sentido

97
algum. O pensamento nele? Esse permanecia incômodo,
è vero.
Foi quando ouvi aquele inconfundível Valentina.
Ele não falou meu nome "real", por assim dizer. O
que ele falou foi exatamente isso: Valentina. Sorri ainda
olhando pro celular antes de levantar a cabeça. Pseudôni-
mos significavam tudo para nós dois. Foi em pseudônimos
que nos conhecemos. Foi quando me deu seu nome real
que resolvi ceder ao que já dilacerava. Nomes, codino-
mes, pseudônimos. Sempre tão idênticos anônimos. Está-
veis nômades…
Levantei o olhar devolvendo o tom, chamando ele
pelo nome falso, o mesmo que me deu quando nos conhe-
cemos.
- Estamos nós dois em outro estado dessa vez. - Ele
também não morava aqui, mas não era desse estado que
falava. Percebi quando me ergueu a mão esquerda.
A ausência daquele fatídico sinal secou minha gargan-
ta, mesmo estando agora em terras de clima úmido. Pren-
di os lábios questionando o bendito timing da vida. Ah,
timing, sempre você, tão errado...
Tive múltiplos lapsos ao mesmo tempo. Quis perguntar
do e-mail, quis perguntar se me procurou, quis comen-
tar daquela puta coincidência do caralho de estarmos ali,
nem eu nem ele gostando de nenhuma daquelas bandas
esquisitas. De perguntar como, de perguntar quando, de
perguntar se. Mas aquele lado de defesa veio a cavalo e
somente ergui o copo pra ele, como se brindasse.
- Aproveita a festa - emendei seu nome real como vo-
cativo dessa vez.

98 CAROLINA GAIO
Ele veio todo dono me beijar. Estranho suas mãos ain-
da terem familiaridade. Estranho suas mãos não terem se
afastado um segundo sequer mesmo naquele lapso do que
já posso dizer anos. Estranho suas mãos serem continua-
ção de tudo o que ainda pulsava, mesmo que eu tivesse
ignorado o quanto por todos esses meses.
Estranho seria se não fosse estranho, sendo nós dois,
ele me disse, como sempre, lendo meus pensamentos. Do
bolso, puxou um ás de espadas.
- Eu sabia que ia te encontrar. Como? Não sei. Eu sim-
plesmente sabia.
Ele não foi atrás de mim dessa vez, não tinha como.
Ele realmente, daquele jeito inexplicável de sempre, sa-
bia.

Mordaz mistério das madrugadas


99
r t
aC etha s a
E l i z a b
Quantas declarações emudecem
em gavetas, lixeiras e desistências?
Mas as Cartas a Elizabeth foram
entregues a ela. A categoria fala dos
amores intermitentes, que ressurgem
vitoriosos quando você acha que se
curou. Fala dos amores enviesados,
sufocados e projetados em músicas
tristes e em copos de cerveja.
Cartas a
Elizabeth
H oje me veio o dia em que você conheceu minha casa.
Você sem jeito tocando Codinome beija-flor, sentado
na beirada da cama; aquele nosso afã de primeira vez,
seu cheiro doce impregnado nos lençóis, minha respiração
aconchegada na sua nuca.
E então me veio em seguida nosso último encontro,
cheio de tentativas desinteressadas de amizade, emoções
cinza, músicas nossas de que tive que me desfazer.
Um tanto chocante constatar o tom premonitório no
quanto a música faria sentido depois.
Delicatessens deslocadas tocando rock no meio de
uma rua feia. Becos que se pretendem coloridos, artísti-
cos, líricos. Tão insossos, óbvios, sujos. Avisos sugestivos
no metrô lotado de indiferenças. E todo o desencontro
entre sensações e palavras, e minha apropriação um tanto
anacrônica de suas ideias e sentimentos. Pores do sol no
lugar errado, na hora errada, impressões erradas. Tudo,
tudo errado.
A espera é traiçoeira. Às vezes, você só percebe que
se rendeu a ela quando ela acaba.
Você chegando de óculos, suado, cabelo mal lavado
de dia seguinte. Seus olhos de vírgula me sorrindo ainda
indecifráveis e distantes. E ainda impossíveis. E ainda me
apunhalando. Não da mesma forma, claro que não. Mas
me apunhalando com o gosto do que poderia ter sido.

103
Desses tempos verbais tão ingratos de possibilidades
que foram negligenciadas.
Poderíamos ter feito tudo ter sentido juntos, não po-
deríamos?
Todos esses estados em que já nos esbarramos, de
forma um tanto proposital. Contingências no caos, pre-
meditações na ordem. Erros, acertos, desvios. Precisando
botar a culpa em entorpecentes, psicopatologias, neces-
sidades. Não, nada disso.
Nós é que estamos fora do lugar.
Agora, aqui, justo aqui, neste pardieiro de todas e
de nenhuma intenção, somos inapropriados um do outro,
mais do que nunca. A única coisa que nos pertence é a
estranheza.
Talvez o amor não seja uma coincidência. Mas pra isso
a gente tem que parar de evitar sentir dor.
Quando?

Codinome Elizabeth
104 CAROLINA GAIO
S how de blues e esse parque gigante referência da
cidade. Do país, arrisco dizer. Tudo o que eu queria agora
era um cigarro e você.
Como não posso ter nenhum dos dois, me contento
com a long neck servindo de símbolo fálico. Com a tal
história de ver o lado bom das coisas, que é de fato muito
bom e que são de fato muitas coisas, daquele tipo que a
gente, acostumado a se menosprezar e anular e castrar,
nunca imagina espera muito menos acha que merece. Mas
e daí?
Nada muda o fato de que não é você.
Solo cheio de firula e comoção, mãos pra cima em
catarse, clima gostoso de prenúncio de verão e a cerveja
que milagrosamente ainda tá gelada, mesmo após o hiato
em que me perdi nesses devaneios.
Mas não é você.
Nos meus pensamentos, a gente tá aqui. E eu te ima-
gino e te conserto, como disseram. Te tiro em um segundo
desses não sei quantos km de distância, que não preciso
falar ao certo, colocar teu RG aqui ou teu sapato 41, você
sabe muito bem que tô falando de você.
Te tiro desses outros laços, pra gente se embolar na
grama, no meio da muvuca, como se nada disso existisse.
De certa forma, não existe mesmo.

105
Você comenta sedento algo sobre minha bunda enor-
me, eu, sobre seu pau gigante. E a gente fica rindo feito
bobo, se sentindo meio ridículo, mas em êxtase demais
pra se importar.
A gente sabe o motivo. É mergulharmos e nos enchar-
carmos um do outro. Outra vez.
Esse filho da puta que esbarra em mim me coloca de
novo aqui. Dores no calcanhar e obrigações de socializa-
ção. A baixa do álcool na corrente sanguínea não deixa
muito espaço pro copo meio cheio. Olho em volta em fal-
sa aceitação.
Não, não é você. Claro que não.
Te parafraseio, como em tantas vezes. Agora, palavras
que não foram dedicadas pra mim, mas isso faz alguma
diferença?
I wish you were here.

Lapsos
106 CAROLINA GAIO
N ós dois, que ironia.
Até nesses tropeços a gente continua entrelaçado.
Felicidade é tênue, eles disseram. Tem muita dose de
aceitar aquilo que não é exatamente, as suposições e os
desvios. De engolir sapo e fechar os olhos. Nós que somos
seres mequetrefes eternamente insatisfeitos e egoicos
querendo tudo do nosso jeito.
Não endosso essa ideia, não, me desculpem. Tem coisa
que se é pra ser torta, é melhor nem ser nada. Não existe
aceitar raspas e restos e mentiras sinceras quando é nossa
alma que está em jogo.
Amor pra fazer mal e/ou ser sutil é só aquele que a
gente usa pra produzir arte, dar sentido a certas músicas
e entender nuances da existência que de outro jeito nos
escapariam. A máxima do Matanza, ou de Baden Powell
(pode escolher), não vale pra relacionamentos reais, não
mesmo.
Não é falta de felicidade nem de satisfação exatamen-
te. Mas, de algum modo, caminha nessas searas, sim. Por-
que não tem como estar inteiro se você precisa fingir pra
você mesmo que está e que não se importa.
Porque, se não tem integralidade, aquele "match" ge-
neralizado, da foda encaixada ao brilho no olho da madru-
gada (e a sintonia improvável sem nem precisar falar, ver,
sei lá, coloca o verbo aí) não dá samba. Nem rock.

107
E então me vem você, todo esquivo, estampando des-
culpas e medos. Certezas absolutas pra nos negar... mui-
to mais vazias do que minhas explicações atrapalhadas e
cheias de mãos.
Você acha que é tudo uma puta ilusão, só porque Des-
cartes passou longe (embora eu discorde). Mas, nessa
queda de braço, desculpa de novo, ele perdeu, sim.
É claro que há muita coisa no caminho que não dá pra
prever. Se restaurante japonês ou italiano, se prisões de
passado ou inconstâncias de futuro. E tudo que respinga
nesse ínterim em que inevitavelmente choro contido e
acessos de raiva em algum momento vão dançar.
Mas tudo isso é detalhe, e a gente ajeita. Não muda
nada o ponto que, sim, nós dois sabemos muito bem. Nós
dois sempre soubemos.
Tanto sabíamos, que o medo falou mais alto, traves-
tindo de opostos, id e superego, cada lado dessa balança
que é tudo menos equilíbrio.
Nós sempre soubemos que não teria essa de comer
pelas beiradas, corda de segurança, rede de proteção.
Um suspiro, só isso. E já teríamos mergulhado vertiginosa-
mente. Porque foi isso que aconteceu de forma um tanto
involuntária, sem deixarmos. Imagina se.
E aí? Seríamos aquela profundidade de alma, tão pe-
rigosa.
Nem uma borda pra se agarrar. É foda, eu sei. Porque
essas camadas acabam entrando em níveis de confiança
complicados pra nós dois.
Mas que covardia, afinal, se sabemos o quanto esses
medos iriam se dissipar. Sim, você sabe, nem adianta dar

108 CAROLINA GAIO


esse sorrisinho e menear a cabeça desse jeito. É, eu sei
também.
Seríamos essa coisa toda de bolha só nossa. Criaríamos
nosso código completo. Nossa religião, nossa lei, nosso
idioma, até.
Essa pitada de fantasia e Disney, que nos ensinaram a
julgar como ilusão pueril, mas foi só a vida nos calejando
pra achar que tudo isso é impossível, pra pensarmos que
o certo é aceitar migalhas e vieses. Nos conformarmos.
O que é muito diferente de ser impossível. Não, não é
mesmo.
De quantas vidas mais a gente vai precisar? Me fala.

Dos fins que os


começos decretam
109
D esejo primeiro que você tenha fé.
No que quer que seja, porque isso pouco importa. O
que realmente te desejo é que você acredite e, no que
acreditar, que lute por isso.
Eu desejo também que você seja grato.
Mas não essa besteira de "saber agradecer", não é isso.
Eu desejo que você se sinta grato. Que se sinta satisfeito,
que se sinta pleno. Que sinta que está exatamente onde
deveria, e queria, estar. Grato pelas pessoas que te cer-
cam, grato pelo cotidiano que te envolve.
Desejo que tudo isso te satisfaça a nível de alma. Por-
que satisfazer o corpo ou a mente é fácil, mas a alma é
difícil. Principalmente pra pessoas tão complexas, cheias
de nuances e camadas, como você.
E desejo que, no caminho, você tenha problemas.
Não, não desejo mesmo que a vida te livre deles, eu nun-
ca desejaria isso a você. Porque são os problemas que nos
fazem saber que somos capazes naqueles momentos em
que duvidamos. Mas desejo também que o amargor que
eles deixam seja somente retrogosto, porque é importan-
te lembrar, e nunca superfície, porque manter a leveza é
essencial.
Eu desejo que você peque, que você erre, que você
tropece. E que você sinta todo o peso e toda nuvem car-

110 CAROLINA GAIO


regada da culpa e do arrependimento, porque isso é pro-
cesso. E que tudo isso faça você crescer e se orgulhar de
tudo o que foi, é e vai ser.
Desejo que você cometa uns crimes. Não necessaria-
mente que atentem contra a Constituição, porque isso é
completamente irrelevante. Mas que você eventualmente
fira a própria lei, porque é assim que a gente consolida
nossos valores e quem a gente é.
E desejo, então, que você saiba se reerguer. Queda e
fundo do poço são inerentes, mas que nenhuma dor faça
você se perder de você mesmo.
Eu desejo que você goze.
Que goze, simplesmente, e isso é literal (o que auto-
maticamente se torna também metafórico, é claro). Em
bocas conhecidas, em bocas improváveis, em bocas de
uma única vez. Em corpos domesticados, em corpos ar-
redios. E que, gozando, seu corpo seja também arredio.
Seja estranho, seja cotidiano, seja descoberta. Mas, prin-
cipalmente, que seja sempre seu.
Eu desejo que você gargalhe. Gargalhe de perder a
noção da hora, gargalhe de ficar meio entorpecido. Gar-
galhe a ponto de transformar seus olhos de vírgula, tão
apertadinhos, em reticências. Gargalhe só por gargalhar,
sem motivo.
Desejo que você saiba lidar com o tempo, principal-
mente. Que você aprenda a apreciá-lo e que saiba como
usá-lo, e que nunca permita que ele faça isso com você.
Que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo
o dono de quem.

111
Eu desejo, por fim, que você se deslumbre. Que você
se fascine, que se sinta boquiaberto com pouco, que seja
surpreendido com muito. Desejo que você se permita,
que experimente sentimentos extremos, que aprecie as
sutilezas. Que se perca, porque às vezes é necessário,
mas que sempre, em todas as vezes, consiga se achar de
novo.

Inspirado em Desejo, de Victor Hugo.

Desejo
112 CAROLINA GAIO
O s últimos dias foram ordinários, no sentido Nelson
Rodrigues (ou "cumpade" Washington) mesmo. As roupas
no chão lembrando nós dois.
Foi só um desleixo, que tingi com justificativas de vida
corrida.
E então ali está, me encarando, quase inquirindo, o
mesmo vestido amarelo que você quase rasgou da última
vez.
Se eu tivesse aí já tinha arrancado, foi o que me fez
cruzar de moto essa maldita serra que nos separa. Às 4h.
Banalidades pra quem anda insone. Nem tão banais pra
quem não se mexe muito em geral.
E lá estávamos. Bocas cativas, suores sedentos. Chei-
ros tão inconfessos. Suas mãos cindindo minha pele.
Pode ter certeza, o que mais fode minha mente nesse
teu corpo infame são as mãos.
Entradas, pintas nas coxas, pele doce. E esse rosto
perfeito, todo esculpido, claro. Mas as mãos, puta merda.
Mãos que já me fizeram perder uma calcinha, que
sempre acham, vorazes, o fecho da minha roupa.
Mãos que eu queria agora deixando em mim suas mar-
cas, dedos viajantes na minha boca.

113
Mãos que muito espalharam minhas roupas no chão do
teu quarto, como essa pilha no meu que agora pra você
me transporta.
E me traz de volta.
Só um lapso me lembrando de que ímpetos de mensa-
gens libidinosas não precisam nos tornar reféns e podem
terminar em copos. Ou na pia. (Ou até feitos de texto,
nessas óbvias formas de sublimação.)

Metódicas mãos
114 CAROLINA GAIO
D eep Purple sempre me lembra você.
E não é por ser uma das suas preferidas, claro que não.
Nem pelas conversas em bares com fundo musical óbvio e
conversas que vão desde passas ao rum ser um absurdo ao
índice da Nasdaq de semana passada, mais ainda.
É metade a coisa antiquada, mas com ares de liber-
tação, tão caros ao novo, ao imediato e a tudo o que a
gente respira por aí.
Controvérsias dos nossos muitos eus em mutação dis-
putando nosso pódio.
E metade aquela coisa do falsete largado no ar, como
se não tivesse desfecho, que simplesmente se dissolve.
Essa pra mim sempre foi a metáfora mais perfeita de
você, Elizabeth. Mesmo que eu nunca (antes) tenha fala-
do.
E então me vêm as malditas memórias.
A maioria, atrelada a estradas. Algumas literais, com
música, paisagens e desencontros, que disparate - distân-
cia é um conceito deveras peculiar. Chegadas, partidas,
percursos. Principalmente eles.

115
E veja, minha querida, como a vida é injusta. Você ti-
nha razão, e isso é tão cruel. Flores frutificam no deserto.
Mas cultivar é sempre algo tático demais pra quem não
tem porto e se ancora breve.
Guess I'll always be a soldier of fortune.

Imanência
116 CAROLINA GAIO
E u esqueci você.
A prova?
Este ano, pela primeira vez em seis, eu não me lem-
brei do seu aniversário.
Este ano não tem passagens canceladas com frustra-
ção e revolta.
Não tem versos escritos de rompante nem noites vivi-
das pela metade.
Não tem flores que nunca serão entregues enchendo
a minha sala.
Muito menos teu chocolate preferido no armário do
meu escritório.
Não tem camisa social nova, perfume, Diablo esperan-
do no bar.
Eu nem mandei engraxar aquele sapato ridículo que te
faz se sentir importante quando uso contigo.
E quando tiro, principalmente.
Hoje não tem Led Zeppelin tocando insistente nem
reorganização da sessão da minha estante de romances
proibidos pela igreja.
Eu não fumei teu cigarro, eu não bebi teu licor depois
do almoço.

117
Hoje não tem arrepio só de sentir teu cheiro perto
nem choque pelo corpo na resistência pra eu me apossar
de você.
Hoje não tem atrito.
Não tem preparo, aflição no estômago, mãos geladas
no volante.
Eu esqueci você, Elizabeth.
E é isso que comemoro hoje.
Desce aqui e atende a campainha logo. É só isso que
vim te dizer.

29
118 CAROLINA GAIO
O ntem, quando esbarrei com você no gargalo daque-
le show, bem na hora daquela maldita música, parece que
tudo o que botamos pra dormir veio à tona.
Minha garganta secou, você gaguejou. Minhas palavras
não saíram, as suas se entrecortaram no nosso cumpri-
mento desajeitado.
Não sei o que é mais esquisito. Quando éramos ínti-
mos, sem ser; ou agora, que somos estranhos, sem ser.
Acontece que nós dois desistimos, mas isso não quer dizer
que acabou.
É uma meia verdade aquele clichê de que o tempo
leva todas as coisas. Na verdade, sempre achei que o tem-
po só "empurrasse", como uma correnteza difícil demais
de vencer. Mas, nessa, muitas roupas e cabelos são deixa-
dos pra trás.
O tempo empurrou nós dois. Por caminhos opostos,
é claro. Nós dois seguimos o baile, como dizem, e muita
poesia esbarrou conosco em nosso caminho. Apartados,
como se esse fosse o certo.
Agora você lê isso e torce o nariz pra essa minha pre-
tensão em falar sobre esse "nós que nunca existiu". Mas
atira a primeira pedra se você nunca quis largar tudo e
revirar o mundo só pra ficarmos juntos.
Fato é que a força do tempo empurra, sacode, bagun-
ça. Mas certas coisas nem o tempo pode levar. O tempo

119
não leva a paz da lembrança do seu cheiro; o sorriso invo-
luntário quando uma frase sai da minha boca, mas é sua;
o soquinho no peito quando alguém fala seu nome.
O tempo não leva a falta de ar instantânea se você
cruza meu caminho de repente, como aconteceu ontem.
E nosso "encontro" só me mostrou o quanto o que ainda
incomoda aqui também insiste em permanecer em você.
Não quero assumir uma postura de "quem sabe um
dia", isso é terrível demais. Até porque se ainda queimo,
não é "um dia", é agora. Então eu pego impulso na força
do tempo. Larguei meu lado da corda, e, se você ainda
me rasga às vezes, é só pra eu lembrar que sentir dor é
sinal de estarmos vivos.

Involuntário
120 CAROLINA GAIO
E u quero ser a pessoa que conhece você mais do que
ninguém, você deixa?
Então me conta…
Daquela primeira vez que você ralou o joelho, quando
você caiu de bicicleta e doeu pra caramba. Quando você
chorou escondido no banheiro do colégio.
Me fala… se você tinha medo de trovoada, se ficava
assustado quando ventava muito, ou se mais terrível do
que tudo isso era mostrar um boletim vermelho pros seus
pais.
Qual foi a coisa besta que mais te deixou orgulhoso?
Aquela nota alta em uma matéria que você sempre achou
difícil ou quebrar a cara do valentão da sala?
Quando uma abelha picou sua boca. Se você teve
medo do monstro no armário ou de um fantasma embaixo
da cama pegar seu pé.
Se tem vontade de desmaiar quando vê sangue, aque-
la vez que você viu a garota que você gostava beijando
seu amigo, o dia que você pensou em fugir de casa, uma
chuva que te pegou de surpresa, todo arrumadinho pra
um evento importante, mas isso acabou te fazendo rir pra
caramba… com você mesmo.
Me conta, vai, a primeira vez que você teve medo de
verdade. A primeira vez que seu choro foi aquele repre-

121
sado por muito, muito tempo. A primeira vez que você se
sentiu sozinho. A primeira vez que existir doeu.
Conta pra mim? Tudo aquilo que te motiva, aqueles
seus sonhos ridículos, tipo chegar de caminhão em uma
festa, sair pelado em um bloco de carnaval, pintar o ca-
belo de uma cor chamativa. Me conta as coisas sérias tam-
bém? Confia que vou te entender, compartilhar o riso ou o
choro contigo, virar o seu porto.
Eu quero conhecer tudinho mesmo sobre você. Me
conte coisas? Me conte tudo!

Me conte coisas, me conte tudo


122 CAROLINA GAIO
À s vezes cansa fingir que a gente não sente. Que o
perfume igual não comprime o peito, que a tatuagem do
teu nome que vejo em um desconhecido não faz tremer
o corpo. Que fico indiferente a uma música que fala de
você. Todas elas falam de você.
Não me pergunta se eu "posso passar aí".
É claro que eu faria isso. Eu faria isso agora (e talvez
por isso eu esteja aqui, compulsivamente escrevendo).
Mil quilômetros nunca me impediriam de ver você. De
deixar você me invadir. Distâncias físicas são o menor dos
impedimentos nessas searas, aliás.
Eu iria agora, a pé, com a roupa do corpo, esquecendo
as torneiras abertas, luzes acesas, só a chave no bolso.
Não são palavras pra causar impacto, eu faria, simples-
mente. Você sabe. É justamente por isso que eu não posso
nem vou fazer.
Já basta me render nessas casualidades em que minto
para mim mesma que nossos hiatos te mataram. Claro
que não.
Você não é o único cara de pau grande no mundo. E
química boa passa. Amor, não.
Parece leviano falar de amor assim, logo para nós, que
já vivemos e vimos o amor com várias faces. Amor é cons-
trução, é o que fica na amizade e na parceria da intimi-
dade. Da exposição. Dos calos e dos abraços inesperados.

123
Eu sei. Você também sabe.
Como um rompante, uma ideia, teu cheiro, tuas
mãos... podem ser amor?
Cabe a nós nos resignarmos um pouco e percebermos
que amor pode vir de rosto de ressaca de dia seguinte. De
festa. De arrepio. De súbito. De versos rasgados, palavras
engasgadas, certezas desmarcadas. Cabe a nós aceitar-
mos nossa incapacidade de saber de tudo e apertarmos a
mão desse amor sem explicação que a vida nos apresenta.
No final das contas, amor é permanência, não motivo.
O brilho no olho que não se esgota. O meneio de cabeça
resignado. A respirada funda de queixo erguido.
Você me disse uma vez que sabe esperar pra queimar,
lembra?
E por que eu não teria feito o mesmo, meu querido,
se as pegadas que ainda queimam fundas aqui são suas?
Elas sempre seriam suas.
Sabe qual é o meu maior medo? Que sempre, sob ma-
remoto ou vendaval, elas continuem sendo suas.
La vita può allontanarci, l'amore continuerà.

Pegadas
124 CAROLINA GAIO
A chuva da madrugada que veio brindar a vida no dia
de hoje me trouxe você.
Mas não daquele jeito óbvio de quase todos os dias, o
fundo patente de saudade com o ímpeto de uma mensa-
gem de duplo sentido ou de um texto estilo indireta, que
eu sei que você vai fingir que não, mas vai ler.
Hoje, a chuva me trouxe uma certa paz naquelas pon-
tadas que misturam os sentimentos de quando você se
conforma e começa a seguir em frente. Mas que ainda
guardam vestígios.
Eu sinto falta, é claro. De alguma coisa que fomos, ou
quase, ou poderíamos, ou eu só desejei e foi ficando meio
perdida no cotidiano.
E toda vez que chego a essa cidade, que nunca foi,
nem seria, minha, eu ainda me emociono e sinto o aperto
no peito, igual da primeira vez.
Esse não é nem de longe o melhor lugar em que já es-
tive. O mais turístico, o mais desejado, o mais inusitado.
Mas esse, de tudo, de todos, de sempre, é e vai ser
sempre o que fica.
Porque, ainda que as águas rolem e levem da seca vi-
das e vozes; me afoguem, me afaguem, me afugentem;
aqui, esse meio do nada de clima ingrato sempre vai ser
um pouco das expectativas do nó que deveríamos ser nós.

125
A culpa poderia ser do Nickelback que agora toca, mas
ela é toda desse restinho de você, que ainda brinca, como
quem se sente em casa, e cochila leve nas minhas esqui-
nas.
Esquinas... ironia! O que quase não tem nessa cidade
sem curvas, sem becos e sem vielas. Mas que transborda
nesse tão falso e dilacerado você e eu.

Esquinas
126 CAROLINA GAIO
H oje, que estou um pouco mais fria de nós, acho
que consigo explicar o que nunca consegui: aquilo que eu
queria que nós dois tivéssemos sido.
Eu estaria mentindo se dissesse que não quero mais,
que a centelha de esperança já não queima. Eu me fiz
esfriar de você, é verdade, mas você ainda não se foi.
Você não irá completamente agora, nem amanhã ou no
próximo mês.
Eu só queria que nós dois tivéssemos sido reais. É pe-
dinte demais falar assim, não é? Essas coisas acontecem
ou não, não se podem exigir. Por isso digo isso não como
quem pede – ou precisa –, mas como quem passou meses
analisando sentimentos – esses inanalisáveis – e hoje acha
que tem uma resposta bem estruturada e pretensamente
lógica.
Eu queria que nós tivéssemos construído alguma coisa.
Suficiente pra você me procurar de madrugada sem moti-
vo, sem entrelinhas, só porque precisa. Suficiente pra eu
te dizer que preciso encostar a cabeça no seu peito, e só
isso mesmo, sem nenhuma intenção ou tática mirabolante
de conquista por trás.
Eu queria que você soubesse que se te falei tal coisa,
foi porque você é a pessoa no mundo que me deixa con-
fortável pra isso, e não porque estou jogando ou não tive
opção. Eu queria saber que não faz diferença você sumir

127
ou aparecer, nada disso faria nós dois – o que quer que isso
significasse – desvanecer.
Sabe, eu nunca quis impor um título a nós dois. Eu não
sei se um dia estarei preparada pra isso. Mas eu queria
que no nosso olhar, no nosso toque, nas nossas risadas
houvesse solidez, sim. Que houvesse troca, que houvesse
conforto, que houvesse casa. Que houvesse nós.
Sabe o que eu queria, sabe o que eu queria mesmo? Eu
queria que a gente soubesse. Só nós dois, e mais ninguém
no mundo. Mas até hoje nem eu nem você sabemos, e isso
mata.
Sabe o que me deixa me sentindo ainda mais impoten-
te? Que mesmo hoje, eu me julgando afastada e de certa
forma fria pra situação, refletida e de sentença julgada,
falo e continuo não falando nada. Te busco e continuo não
buscando. Te encontro e continuo não encontrando. Sinto
e continuo não sentindo. E mesmo esse nada, tão ausente
e, como água, incolor, inodoro, insípido, permanece.
Até quando continuaremos… não sendo?

Tudo aquilo que nunca fomos


128 CAROLINA GAIO
D ezembro, e esse frio cinza de São Paulo.
Encosto na varanda com uma caneca de café, desses
aromatizados com uma fruta exótica colhida dos recôn-
ditos de qualquer lugar longe. Sempre é de muito longe.
O cheiro adocicado que sobe do café não é dele, é seu.
Seu, do dia em que nos sentamos molhados de chuva
embaixo de uma marquise no Eixo, e o cheiro do café do
vizinho era a única coisa que esquentava.
Seu, do dia desiludida no hotel, que atendi de mau
humor a uma suposta camareira, mas era você.
Eu sei muito bem por que esse interfone insistente
não prenuncia que você vai se materializar aqui pra mim
agora.
É verão, e eu tô de calça.

Cheiro doce que gruda


129
t o
oC n reoss
nve é
Tem cada foda tão bizarra que deveria
ser considerada IST! Os Contos
venéreos, inspirados em situações
reais, levam na esportiva esses
percalços sexuais, por assim dizer,
parodiando alguns temas como contos
de fadas, sci-fi e psicologia.
Contos
venéreos
E stava no ensaio quando vi sua mensagem: "Alô, tô
ligando pra saber como você está! Cansei de sentar bem
nas benga' carioca, tô indo dar uma sentada daquela ner-
vosa na sua." Neguei que sou louco por ela, tava maluco
pra ver, mas meu pau me denunciou. Chegou a dar um
soluço na hora, até deixei a sanfona cair no pote de gel do
vocal, que ele deixava sempre à mão pra ficar retocando
o topete.
Como a gente vive entre tapas e beijos, não botei mui-
ta fé de que ela aparataria. Na semana anterior disse que
vinha e não vinha mais vezes do que as idas e vindas que
eu lustrava meu mastro pensando nela, chorando por ela,
ligando pra ela.
Na hora do voo, eu já todo embecado de suspensório,
lencinho vermelho no pescoço e só isso, porque gosto de
chegar causando, ela me manda um áudio entre uma nu-
vem de lágrimas dizendo que perdeu o voo porque se atra-
sou acariciando o pôster com minha foto no seu quarto.
Escrevi um verso triste de paixão no meu diário, pen-
sando que eu devia era ter deixado uma cicatriz na fuça
daquela ingrata, e fui dormir na praça pra esquecer a má-
goa de boiadeiro. Mal caí em sono profundo, minha espe-
cialidade, recebo novo áudio: "Consegui embarcar, tô no
avião, tô indo!"

133
"Caralho, libriana é foda!", pensei comigo, "até o avião
que pega é indeciso". Dava nem pra tirar o soninho de
beleza.
Como a área em que moro é tão afastada que muda
até o DDD, peguei a primeira roupa que estava à dispo-
sição, só no caminho percebi que era um vestido rodado
de mamãe, combinando nada com meus olhos de luar. Pra
dar uma melhorada no visual, parei em uma perfumaria
e fiz uma maquiagem e botei um saltinho agulha XV pra
ficar mais harmônico.
Comecei a procurar Valentina no aeroporto, mas quem
conhece nossa saga sabe que temos um pequeno proble-
ma com encontros, estão mais para des, e eu ainda fui
sem óculos, pra ninguém descobrir que sou mestre de
RPG. Não tava fácil.
O que me fez achar a vai, malandra foi um burburinho
que se formou perto da exxxteira de malas. Aparente-
mente, ela tava derrubando tudo com a raba, o que gerou
mal-estar geral e espigas de milho nos bolsos.
Como nosso propósito de vida é marcar território em
todos os aeroportos do país, já agarrei Valentina no esta-
cionamento mermo, eu não tava de vestido à toa, né?
Ela me revelou que tinha sido chamada pra integrar a
cia de dançarinas de Amigos e que ia se mudar, logo me
esquivei, falei que se ela viesse só nos encontraríamos nos
anos bissextos. Pra que viver mentindo?
Valentina chorava tão copiosamente que pensei na
única coisa que podia acalentar seu coração: jung food.
Só não foi uma sábia decisão fazer mais uma vez com ela
logo em seguida.

134 CAROLINA GAIO


Eu não sabia que a performance de baixa qualidade
a motivaria a fazer escatologia pra tentar salvar o date,
vomitou nos arredores e veio querendo me beijar depois,
dizendo que se você ama, qualquer segredo some!
- Valentina, você acabou de vomitar! Qual é a inten-
ção de me dar selinho?
Ainda bem que ela se tocou, porque eu não tocaria
mais mermo, e não se ofendeu de ir embora. Recolhi meu
D20 e fui tocar uma moda com uns migos pra tentar apa-
gar aqueles maus momentos. Comecei logo a fazer textão
no inxta com réxitégue #dateruim.
No dia seguinte, bateu a Lua em Gêmeos dando o arre-
pendimento de ter deixado aquele rabetão por tão pouco
e mandei uma mensagem como se nada tivesse aconteci-
do, culpando o excesso de Peixes no mapa, mas o único
vestígio que ela deixara tinha sido um fio de cabelo no
meu paletó.
Mas nem me abalo. Afinal, borboletas sempre voltam
e o seu jardim sou eu.

Quando eu digo que deixei de te mamar


135
E stava semimorta na cama após uma noite de balada
de quinta categoria, quando recebi sua mensagem ange-
lical. “Vou fazer escala no Rio daqui a pouco.” Meu cu
piscou com tamanha ferocidade que sugou todo o lençol,
derrubando Ariel no chão, que estava dormindo na cama
comigo.
“Caralho, com essa pressão, até já sei quem é. Roque
Glamde", disse Ariel se levantando. Era o próprio. Aque-
la pessoa que te manda mensagem 12h30 e 12h28 você
já respondeu. Cheguei até a acordar totalmente com as
contrações uterinas mais eficazes que anfetamina. Ali-
mentei Ariel com miojo e água bical, minha especialidade
na cozinha e prato típico da casa, deixei o malandro se
montando com minhas roupas de prostituta da Atlântica e
rumei serena para o Galeão.
Avenida Brasil pra pobre não é fácil, no domingo então
só 7×1, não sabia se era mais difícil fugir do singelo ven-
dedor de alho, da criança resfriada espirrando e vomitan-
do, do bebum da noite anterior cravando aquelas pérolas
de “Ô, lá em casa” ou do trombadinha cracudo prestes a
roubar toda minha fortuna que totalizava dois reais.
O trombadinha parecia a mais amena das opções, de-
leguei ao oculto meu destino, coloquei no ouvido o fone
de dez reais que desde a compra só funciona de um lado
e fui, empolgada para reencontrar Roque Glamde. Mas
esse encontro não foi assim tão fácil, quem já experimen-

136 CAROLINA GAIO


tou juntar Peixes e Libra me compreende. Um é aéreo,
o outro também. Um é desligado, o outro também. E o
Galeão é grande, temi que nos perdêssemos em um lapso
de outra dimensão.
Após severas mensagens meigas de “Cadê você, ca-
ralho?”, nos encontramos. Quando o vi, já elogiei: “Quis
me agradar, né? Você tá bem… viado” e aproveitei pra
tentar tornar Roque Glamde meu autor; workaholic, não
perco uma oportunidade, já fui mandando papo maneirão
de trabalho e outros assuntos tão interessantes e bran-
dos quanto, não sei porque ele dormiu de babar em cima
do prato e tive que acordá-lo com gentis esfregadas dos
meus parcos peitos na sua cara. Muito patriota, logo ele
estava em posição de sentido.
Sou muito altruísta e odeio desperdiçar ereção, sugeri
que arranjássemos um beco bem discreto pra ser arrega-
çada por aquela vara. Latejava de desejo insano por ele
desde a última vez. Foi muito difícil entrarmos no quar-
tinho. Disfarçar pros funcionários, ok, mas carregar sua
benga enorme porta adentro foi penoso demais. Mesmo
tendo sido campeã de arremesso de peso na tenra adoles-
cência. Sorte que por ser uma delicada área de carga do
galeão, tinha um macaco.
O animal adestrado trabalhara outrora como aviãozi-
nho no morro e, mais forte que eu, conseguiu carregar
tranquilamente a benga, não sem antes me cobrar aque-
les dois reais pelo serviço, filho da puta!
Fui logo esfregando minhas vergonhas na cara de Ro-
que Glamde, que, não comedido, caiu de boca na minha
Baía de Guanabara. Ele deve ter superpoderes, é só se
aproximar que gozo mais que queda d’água da cachoeira
do Horto.

137
Virei minha tatuagem “oh, fuck yeah, punheteiro mais
rápido do Oeste” na bunda pra ele entender o recado e
apoiei as mãos na parede de azulejos. Estava tão imunda
que fiquei sutilmente colada. Ainda bem, não fosse isso
eu jamais teria me equilibrado com aqueles sopapos da
vara descomunal rasgando a minha esquizo xoxotal.
Assim que acabamos , notamos uma pequena câmera,
e então percebemos que o tal quartinho era uma sala de
treinamento na selva, televisionada para todo o aeropor-
to. Mesmo não sendo da tripulação, ganhamos o prêmio
honoris causa por sobreviver à selvageria sem preceden-
tes e fomos muito ovacionados; guardo até hoje com mui-
to carinho essa cândida lembrança.

Cândida lembrança
138 CAROLINA GAIO
B ela era uma jovem que passava seus dias lendo e
pesquisando outras culturas na aldeia em que morava.
Para suas siriricas interculturais, cada um de seus pene-
trantes levava o nome de uma terra longínqua que alme-
java conhecer. Ela não deixava, mas o Bangladesh, era
muito Gabão, vinha pedir o Kuwait, queria liberar o Butão
com muita Gana com a potência de uma Granada e por aí
ia. Essa era sua maneira de fugir da rotina imposta pelo
pequeno povoado em que crescera.
Assim, seu melhor amigo era Pitágoras, o senhor já de
idade que era livreiro; com ele, Bela passava suas tardes
conversando sobre sociedades remotas e outras terras que
tanto desejava explorar. Ela sabia que havia algo além
daquele pequeno mundinho da aldeia, porém, embora
quisesse lutar, sabia que estava fadada a seu destino: ca-
sar-se com Caçulinha Meteoro da Paixão, o gogoboy mais
forte, desejado e trabalhado na trembolona da aldeia.
Certo dia, Caçulinha Meteoro da Paixão chegara de
uma maratona de orgias extremamente ofegante, todo
suado, lavado a óleo e empunhando seu porrete de mó-
dicos 29,5cm, grossura proporcional, o mais bem-dotado
do povoado.
– O que está havendo? – questionou Bela.

139
– Lamento ser arauto de más notícias, bela gazela. Seu
pai se perdeu durante uma expedição e acabou preso no
castelo da temida Fera.
– No Castelo da Fera? Por Nietzsche! Como ele foi pa-
rar lá, nobre rapazote?
– Soube que ele estava indo à Argentina fazer a EXU-
MAÇÃO da tia com um amigo de infância, de alcunha Ca-
brito.
– EXUMAÇÃO uma ova! Essa é a desculpa que aqueles
dois sempre usaram quando estavam indo atrás de rabo
de saia! Por Adorno!
– Acalme-se, Bela. Eu mesmo lutarei com a Fera. E
morrerei em nome da vida de seu pai e de sua honra, se
preciso for.
– Meteoro, fala sério! Ontem mesmo ganhei de você na
queda de braço, Schopenhauer tenha piedade! Se depen-
der de você, Papa morrerá à míngua. Eu merma vou dar
uns cacete nesse filha duma puta.
Caçulinha Meteoro da Paixão ficou atônito com tais
palavras. Apenas pôde resignar-se; deixou seu falo em ris-
te para que Bela descesse o mais fundo em sua ampla e
acolchoada garganta de putinha fácil e tomasse toda sua
seiva, e dela extraísse a coragem e a testosterona residual
para lhe conferir a força necessária para seguir sozinha e,
então, rumou de volta a seu empreendimento comercial.
Recentemente descobrira uma pequena semente averme-
lhada de sabor adocicado e ele estava testando diferentes
maneiras de prepará-la que se tornasse comercializável.
Apesar de ser um grosseirão, também ele almejava des-
bravar novos horizontes, principalmente o horizonte ver-
ticalizado da mata atlântica de Bela, aquela diliçia.

140 CAROLINA GAIO


Bela montou em seu OVNI, era como chamava o curio-
so artefato recém-adquirido no “Vassouras de Segunda
Mão”, em visita ao Beco Diagonal. Ela e OVNI tinham se
tornado companheiros de aventuras inseparáveis; além
de transportá-la rapidamente a qualquer canto enquanto
sentia o vento nas MELENAS, ela ainda utilizava OVNI para
fins sexuais – sua parafilia era pau de phyníçima espessura
-, penetrando completamente sua parte rígida em seu BU-
RACO DE MINHOCA, apelido conferido à sua xotislady por
Meteoro. Uma ironia pelo fato de seu porrete jamais ter
conseguido penetrar aquela tão pequena abertura. Em to-
das as tentativas, o máximo que conseguiam era a MELE-
NA em estado coloidal que descia sem dó no dia seguinte
do nobre buraco de cagar de Bela.
Chegando ao castelo, estranhos objetos que falavam
a receberam.
– Pode parar a palhaçada. Tratem logo de chamar o
esquisitão do dono de vocês que eu vou ter um papo reto
com esse arrombado.
Assim que Bela acabou de proferir tais doces palavras,
Fera apareceu atrás dos objetos, carregando Papa a tira-
colo.
– Modere este palavreado, Bela. Você é mulher. E
como mulher será tratada. A cozinha, seu habitat natural,
já está toda preparada para lhe receber. Realizarás a coc-
ção de uma refeição leve semelhante a buchada de bode.
Bela chegou a abrir a boquinha de veludo, porém foi
interrompida pelos objetos falantes que a amarraram e
a levaram até um calabouço análogo ao quarto vermelho
de Christian Grey. Ao chegar, foi informada pelos objetos
que toda sorte de tortura se acometeria sobre ela naque-
le ambiente hostil, desde ser obrigada a assistir ao filme

141
cult de cabeça MENINAS MALVADAS via Netflix, legendado
por Gort, até olhar para Boto segurando uma ESFIHA DE
CARNE e somente poder contemplar ambos, ela jamais
teria qualquer um dos dois.
– Boto tudo bem, mas a ESFIHA DE CARNE… Não sei se
poderei suportar isso, ainda mais agora que descobri que
a Casa Pedro aceita os dois tipos de VR…
Os objetos rapidamente confessaram à Bela que eram
todos prisioneiros, loucos sonhadores; bem como Fera, ti-
nham sido imputados àquela condição devido a uma arte
de macumbaria de uma terrível bruxa, de alcunha Müller
Q’Çab Hoque’Q, mas antes que pudessem lhe contar toda
a maldição a que foram submetidos por Müller Q’Çab Ho-
que’Q, Fera surgiu, até que era bonito, dando uns traços
com Marcos Pasquim, percepção esta que causou ligeira
coceirinha bacural em Bela, não era tesãozinho, era cân-
dida albicans sistêmica.
– Minha cara Bela, a nobre princesa sabe em que se
assemelham “pau” e “opinião”?
– Temo não saber esta resposta, meu senhor.
– Ambos mulher não tem.
Assim que Fera proferiu tais palavras pôs-se a dar uma
risada assustadora “hehehe”, que Bela não ousaria repro-
duzir nem em seus piores naitemer pesadelos.
– Fera, por Comte! Você pode me amarrar, você pode
me sequestrar, você pode destruir toda a minha linhagem,
mas você jamais poderá roubar a minha opinião e é por
isso que eu não tenho medo de você nem de ninguém –
disse Bela se levantando com dificuldade devido às amar-
ras que a acorrentavam a um grande X de São Cipriano.

142 CAROLINA GAIO


Os objetos se encolheram juntos com medo da reação
de Fera.
Porém, em vez da violência costumeira, Fera pareceu
refletir naquelas palavras.
– Você é uma presa interessante, pequena Bela – a Fera
circulava ao redor de Bela como se saboreasse cada pala-
vra. – por isso vou lhe dar uma pequena escolha. Liberto
Papa em troca de sua escravidão eterna. O que me diz?
– Liberte meu pai. Não importa o que fará comigo. O
meu Sartre é o Sartre do impossível!
Fera deu uma profunda e assustadora gargalhada
“hehehe”.
– Cuidado com vossas palavras, mocinha.
Fera tirou um artefato alimentício do bolso e saiu, an-
tes de fechar a porta; Bela reparou que se tratava de
uma CLAVÍCULA recém-colhida, ao Barbecue, prato típico
das redondezas com forte teor simbólico, representando
a dominação do PATRIARCADO enraizado naquela cultura,
sobre as pobres donzelas, aludindo ao mito cristão da cos-
tela de Adão de onde Eva fora feita.
– Fala sério, que babaca! Ele precisava experimentar
a panqueca da Deusa que minhas companheiras do coleti-
vo fazem. Iguaria pra esse tipinho macho hetero opressor
dele.
Os objetos não compreenderam bem o que aquilo sig-
nificava, mas se puseram a explicar que aquilo não daria
certo, Fera precisava de alguém que lhe mostrasse que
era possível amar.
– Vocês só podem estar de sacanagem! Não vou abra-
çar essa causa.

143
– Mê quê palavreadô é ê cê? – disse Horloge chocadx. –
Estamô sob estê condiçã justamentê porquê Müller Q’Çab
Hoque’Q no sabiê amê e viê o mesmê em Ferê. Parê casti-
gá-lê, o transformê, enfeitiçandê tambê ê todê nô.
– Müller Q’Çab Hoque’Q parece ser muito boa com fei-
tiços! ‘Será que você enfeitiçou a mim?’, eu perguntaria
a ela, se a encontrasse. Mas, apesar de tê-los achado top,
lamento não poder fazer nada, sou apenas um ser huma-
no, não uma panicat.
Os objetos ficaram desanimados, mas tinham um pla-
no. Fariam Bela e Fera se apaixonarem, nem que isso
custasse todo o estoque de Midazolam que Fera estocava
no castelo para suas competições de Corrida da INJEÇÃO
LETAL em Anões, prática deveras apreciada por todo o
reino para tentar salvar a espécie da praga do nanismo
disseminada por Müller Q’Çab Hoque’Q.
Os objetos viram no face que o best de Bela era Pi-
tágoras e logo forçaram uma abordagem, conclamando-o
para auxiliar na empreitada. De início ele ficou receoso,
conhecia Bela muito bem para dar preciosas informações
sobre ela de mão beijada, mas ao saber que Fera era na
verdade um tipão raro e paradoxal bem-sucedido com
ares de humanas, direitista e culto, logo piscou, parecia o
par perfeito para sua cândida albicans pupila.
– Tenho um teorema, espero que possa ajudá-los.
O TEOREMA DE PITÁGORAS consistia no seguinte: se
pudessem provar que era verdadeira a afirmação de que
Fera era mesmo um tipo baiano, ariano bem-apessoado,
leitor de Hemingway e fã de Calcinha Preta, então seria
verdade a afirmação de que bela se apaixonaria por ele.
Ele se uniu aos objetos e eles se puseram a criar situações

144 CAROLINA GAIO


em que Fera e Bela pudessem conversar e se conhecer
melhor.
– Por Feuerbach, Fera! Aprecio Gusttavo Lima e você?
E assim seguiam as conversas. Logo a síndrome de
Estocolmo de Anastácia Bela foi se manifestando e ela
ficando completamente apaixonada por Fera, sua pegada
era fenomenal, lasciva. Mas ela jamais se renderia aos
ditames da sociedade patriarcal e, ainda que Fera se con-
vertesse em um esquerdomacho, ele ainda seria XY, lógica
e congruência são o mote do movimento feministx, por-
tanto ele jamais seria digno de tocá-la.
Como um acaso do destino, Caçulinha Meteoro da Pai-
xão estava muito bem-sucedido em seu empreendimen-
to, ele descobrira que aquela frutinha fazia uma bebida
dos deuses, a qual batizou de GUARANÁ CAÇULINHA, uma
medida era suficiente para se perder uma noite de sono
e precisamente naquele dia ele visitou as terras de Fera
comercializando o produto. Bela, sem se fazer de rogada,
virou logo 3 para ficar ligadona, se aproveitou do sono
de Fera e tascou-lhe Midazolam, enquanto arrancava dele
as mais íntimas confissões, desde o uso dos espartilhos
de Bela, comprados no Saara em liquidação, até o gosto
por comer bolas de meleca que cultivava desde a infân-
cia. Além das potentes bufas que soltava em estado de
sono semicomatoso, tudo aquilo tocou fundo no coração
de Bela, que, de vez, percebeu que ele se tratava de um
ser humano.
Apaixonada, lhe beijou e viu a magya acontecer. Ele
começou a se transformar em um príncipe lindo demais,
uma mistura de Juca Chaves com Lucas Siqueira, Pablo
Costa e a Velha Surda, da Praça é Nossa. Sade no coman-
do, que homem! Sem poder mais se conter, Bela revelou:

145
– Fera, estou completamente apaixonada por você,
mas jamais me rebaixarei ao patriarcado.
– Que patriarcado o quê?! Tá maluca?! Aqui é só pau-
triarcado, todos os dias! – disse Fera já jogando Bela de
quatro. Uma lágrima de felicidade escorreu de seu rosto
ao perceber o diminuto falo de Fera, exatamente do jeito
que tanto gostava e, levando aquelas estocadas profundas
de rola no mais fundo de sua beirolinha da entrada vagi-
nal, Bela teve a certeza de que aquele era o mundo que
ela tanto ansiava por conhecer.

Esse conto pertence ao Desafio das Dez Palavras e à cate-


goria Contos de Fodas.
Tema: patriarcado.
Palavras: clavícula, Meninas Malvadas, OVNI, esfiha de
carne, exumação, melena (em ambas as acepções), bura-
co de minhoca, guaraná caçulinha, teorema de Pitágoras
e injeção letal.

The beauty and the beast for you


146 CAROLINA GAIO
C redis já não suportava mais as constantes crises de
ansiedade que eu estava tendo, e me recomendou forte-
mente procurar um especialista; ir para minha casa todo
dia às 3h da manhã levar Lindt e as mais variadas Jung
foods já estava insustentável.
Pesquisei no catálogo do plano um bom psicólogo que
pudesse dar conta de mim. A verdade é que eu não conhe-
cia nenhum, e sempre que ouvia indicações, elas não me
passavam firmeza alguma, então permiti que o oculto fi-
zesse o trabalho; fiz um Reich, rolei a tela do computador
de olhos fechados e botei o dedo na tela.
Dr. Osbórnia tinha título de especialista, foi para onde
o oculto direcionou meu dedo. Não confiei naqueles ca-
belos repartidos ao meio maiores que os meus, que pare-
ciam tratados a escova marroquina, tampouco nos óculos
redondos ou naqueles óleos que pareciam ter sido pinta-
dos com sombra rosa Pinker. Mas o oculto quis, e quem
sou eu para ir contra os desejos do oculto?
Telefonei e ele apresentava um sotaque que denuncia-
va não ser do Rio. Pelo menos não era cubano! Bom, na
pior das hipóteses, eu só teria mais uma história pitores-
ca para contar, então abracei a rusticidade e marquei a
consulta para dali a dois dias. Ele me passou um celular,
para o caso de algum imprevisto. Fui logo ver qual era a
foto do WhatsApp; depois daquela “profissional” no site
do plano ser tão peculiar, o que me esperaria?

147
Quando vi, no ato, já pisquei. As madeixas alisadas
agora eram ostentadas em um lenço de oncinha azul cain-
do pelos ombros, bem heterozão, do jeito que eu amo/
sou, e ele trajava uma camisa rosa com um colete cinza
de texugo por cima; dessa vez não havia dúvidas: sem os
óculos, vi seus óleos nitidamente pintados. Confesso que
me animei para a consulta, já totalmente descrente no
tratamento (mais, como se fosse possível), porque eu não
esperava que aquele homem me aLagache de tanto ume-
decimento bacural.
Cheguei e percebi que Dr. Osbórnia portava métodos
pouco convencionais, afinal, ele estava nu, ostentando
apenas um violão.
– Watson? – perguntei, mas ele pareceu ignorar.
– Sente-se, pequena gafanhota.
Bem brat, obedeci.
– O que a angustia?
Queria falar que era aquela cena, mas me contive.
– Você tem mágoas guardadas? Pra que mentir, fingir
que perdoou? – questionou ele.
– Não era amor, era cilada, Dr. Osbórnia – respondi hu-
mildemente, prosseguindo – eu tenho que lhe dizer o que
estou sentindo por dentro, poderia mentir para mim mes-
ma, mas é verdade.
– Desejaria poder voltar atrás e mudar esses anos –
disse ele, e notei que, surpreendentemente, ele me com-
preendia. Seria ele minha alma gêmea?
– Estou passando por mudanças – falamos ao mesmo
tempo.

148 CAROLINA GAIO


Levantei do divã de impulso, em êxtase, encarando-o
fundo, e percebi que ele não era Dave Elman, mas, gato,
puta merda, que hipnose! Ele não era Brian Weiss, mas
só minha paudurecência era real! Que conexão! Que ho-
mem! Que calor interno! Não me restava opção a não ser
cair de boca naquele falo, que rapidamente notei o quan-
to era nobre, mal podia abocanhá-lo totalmente devido
a suas proporções avantajadas, algo um tanto frustrante
frente a meu desejo inconsciente de possuí-lo.
Dr. Osbórnia correu as mãos pela minha nuca, instan-
taneamente me arrepiando, enquanto eu corria a boca
por sua Skinner tão alva; queria sorvê-lo, bebê-lo, tê-lo
dentro de mim em muitos sentidos, a contraparte literal
era a mais insignificante. As evidências, nessa loucura,
não disfarçavam; nessas horas, o corpo fala.
– Me chama de Pavlov e toca minha sineta direito –
disse ele. Eu devia estar demonstrando parcos níveis de
habilidade.
Então o joguei no divã e montei nele, sentindo seu
pau extremamente duro, latejando dentro de mim bem
fundo, e ele me segurou forte pelo pescoço, em vertigem
e torpor, me sufocando tal qual o superego faz com os
desejos do id.
Ele me colocou de quatro, e começou a me chupar por
trás, corria a língua sem perdoar nada, do corte lacaniano
a Vygotsky.
– Gosto muito de cultura grega. Mitologia grega, iogur-
te grego e beijo grego. Principalmente – falei tentando
uma investida anal, minha parafilia, mas não obtive muita
adesão. Ele seguia a corrente de Krafft-Ebing, e não era
dado a certas perversões, que julgava serem patologias.

149
Nesse momento, ele interrompeu o sexo onírico que está-
vamos fazendo, e se recompôs.
– Já tenho o diagnóstico – anunciou.
Então Dr. Osbórnia rabiscou em seu receituário por lon-
gos minutos, durante os quais só me restou colocar minha
roupa, espalhada em seu consultório. Ele me entregou a
receita bem sério, junto com um livro. Aparentemente,
ali eu encontraria todas as minhas respostas.
– Foi um prazer – falei. – Pena que só oral, gostaria
de ficar presa na sua fase anal para sempre, se é que me
entende, Dr. Osbórnia.
– Me chama de Ozzy.
E, enigmaticamente, fechou a porta do consultório,
me deixando de Piaget na mão.

Me chama de Lacan e me analisa


150 CAROLINA GAIO
J á estava três dias em claro sem saber como projetar
minha casa no The Sims e resolvi vagar sem rumo pelas
vielas do Centro do Rio de Janeiro para espairecer. Mas
era dia de manifestação, o que me pegou de surpresa, e
resolvi me refugiar em um bar. Fui ao banheiro, que tinha
entrada única, ao me virar para entrar, me deparei com
Montecchio, saindo.
Inicialmente, avaliando sua beca cock’s play de festa
junina, pensei ser um manifestante de humanas, empu-
nhei meu chicote que sempre está na minha bolsa para
me proteger do ritmo de vida ameno do hell de janeiro
e já lhe desci a saraivada. Mas vi sua tatuagem #bolsolí-
cia2018 no coccix e pisquei. Me desculpei, afinal, sendo
ele de direita como eu, sabe que pau e opinião são coisas
que mulher não tem.
Ele aceitou as desculpas em troca do meu corpo nu.
Expliquei a ele que eu não estava com cabeça pra sexo
devido ao problema com o The Sims, ao que ele se mos-
trou ser o homem perfeito. Era arquiteto e se prontificou
a resolver o meu problema. Rezei 1/3 pra encontrar 1/2
de levá-lo pra 1/4. Então o chamei nos meus humildes
aposentos e mostrei o projeto. Ele me explicou que os
cômodos precisam de portas e janelas, esbanjando seu
conhecimento sobre funcionalidade. Fiquei toda molhadi-
nha querendo aquela funcionalidade toda dentro de mim,

151
ah, se ele fosse minha derivada e eu pudesse tangenciar
aquelas curvas!
Parti pra uma abordagem mais agressiva. “Montec-
chio, me chama de projeto pendente que essa noite vou
te dar trabalho!” ele puxou o violão e me respondeu com
estas doces palavras “forgive me, it’s all that you can’t
say…” entendi o recado, desanimada, me despedi. Mas eu
não estava pra brincadeira, não, e insisti, juntei todo meu
charme de poeteira e fui cravando vários textos meus ten-
tando seduzi-lo intelectualmente, além de mandar fotos
de nudez da mulher melancia photoshopadas com a cara
da Débora Falabella.
Parece que obtive êxito e ele retornou. Disse que me
daria um presente. Era uma planta completa da minha
casa no The Sims, tinha até piscina. Tendendo a ele, a
função tesão não tinha limite! Não me contive, arriei suas
calças e comecei a chupar aquela coluna dórica digníssi-
ma. “Vem, meu Alberti, meu DaVinci, acaba com a minha
proporção, invade minha igreja romana com essa luz de
vitral gótico”, ele parece ter gostado, porque, no ato,
respondeu “minha Brunelleschi, que perfeição simétrica
de mulher, parece até uma construção árcade”.
Que homem! Empunhou o pauhaus e cravou com tudo
em mim. Senti um zeitgeist percorrendo meu corpo in-
teiro, cada emplacada me deixava completamente arre-
piada, nem Zuccari conseguiria recuperar aqueles movi-
mentos involuntários que meu corpo fazia, não haveria
maneira. “Ao te refletir, um espelho em si, vira quadro,
vira arte, quem quer que tenha projetado fleshlight e as
melhores fucking machines não ousou jamais imaginar-
-te.” ele me disse enquanto puxava meus cabelos rebel-
des.

152 CAROLINA GAIO


Me virei para ficar por cima e cavalgar em seu cipó
de Tarzan, aquele homem despertava o meu lado mais
animal e de repente me senti na savana africana, escalan-
do-o de tanto tesão. Ele me fez gozar de me deixar mole
(sua especialidade) e, desse dia em diante, nem achar a
linha do horizonte poderia devolver a paz que outrora eu
tive.

PautoCAD
153
T inha recentemente me mudado para o apartamento
dos meus sonhos. Último andar do prédio, vista indevas-
sável para a praia do Leblon. Eu mal estava acreditando
naquilo. O apartamento era perfeito e me custaria módi-
cos 300 reais mensais entre aluguel e condomínio. Nem
me importei com a cláusula contratual que me obrigava a
pagar um ano adiantado como um resguardo em caso de
"morte incidental".
Muitos me avisaram que não era amor, era cilada, só
porque todas as inquilinas anteriores, todas com o meu
perfil, baixinhas, bunda gigante, quatro olhos, vesgas e
esquisitas, tinham morrido da mesma forma: haviam "se
atirado" misteriosamente da janela com apenas uma se-
mana após a mudança, sem nenhuma ter histórico de de-
pressão ou algo do tipo. Suspeitavam que algum fantasma
assombrava o apartamento.
- Meu amor, mais assustador que meu saldo bancário
nada é, então tô preparada pra tudo - era minha resposta
padrão pra todos.
Até pro cagão do corretor, que, devido às pressões da
polícia, justiça e mídia (clima ameno), preferiu me avisar
do ocorrido e colocar uma cláusula no contrato também
sobre a "janela do suicídio" pra já tirar o dele da reta.
Frouxo! Eu como camarão na praia, gente! Desde quando
vou ter medo de alma? Vocês só podem estar de sacana-
gem.

154 CAROLINA GAIO


Acontece que ali tinha vivido, quando da concepção
da cidade, uma moça muito bem-apessoada (linda mes-
mo, a minha cara ela) que também era atriz, ateia e à
toa, e tinha se suicidado sem querer fazendo laborató-
rio pra uma personagem. Desde então, seu espírito atraía
moças assim para o apartamento e as matava.
Pra falar a verdade, achei a treta toda até interessan-
te. Acostumada que sou com o 7x1, seria só mais um "cau-
so" pra virar conto venéreo aqui no blog. E não deu outra.
No dia da mudança, já chamei logo Inception pra brin-
car de agarradinhos da Looney Tunes versão trevas's co-
ming comigo. Como meu tesão por ele é ainda maior que
o desprezo que seu crush tem por você, já fui logo agar-
rando ele assim que chegou, diretamente das profundezas
de sua terra natal, a Transilvânia, no meio daquela bagun-
ça mesmo de mudança.
Ele me jogou de quatro no meio das caixas, metendo
por trás com força, aquele cabelo dele de Sebastian Bach
caindo no meu ombro, nossa. Que mulher! Digo, que ho-
mem! Depois de 46 dias e 23 horas metendo com força
sem tirar de dentro, sem parar nem pra retocar a pro-
gressiva de Inception, eu já louca, quase gozando com
aquelas estocadas com raiva que só ele sabe dar, A VI.
- Puta que pariu, caralho, vade retro!
- O que foi, Valentina?
- Você tá metendo sem camisinha, seu energúmeno?
Olha o pacote fechado ali! Tá a fim de virar A Família
Adams comigo?
- Tá larga mermo, hein?! Eu tô metendo no seu cu!
- Ahn? Mas eu...

155
Olhei pra baixo e vi uma das cenas mais assustado-
ras que já vivi, pior do que o fim da Catuaba ou ter que
descongelar geladeira. Pior do que o cheque que eu tava
passando. A tal fantasma existia. Estava bem embaixo de
nós, segurava um consolo gigante que estava dentro da
minha tumba de Álvares de Azevedo.
- Você tá comendo minha mulher, sua filha da puta?!
Você vai pedir pra reencarnar é agora, sua arrombada!
Inception ficou puto, partiu pra cima da fantasma e
pegou ela no braço, ela já tava pedindo arrego, coitada.
Muito comum mulheres pedirem arrego pra ele mermo.
- Inception, para!
- Se eu parar ela vai te matar! Você vai ser a próxima
vítima da janela do suicídio, não posso deixar que isso
aconteça! - disse ele enquanto sacava sua espada e cavalo
branco do bolso.
- Para com a palhaçada, príncipe gótico. Olha essa as-
sombração, cara.
- O que é que tem?
- Ela é gostosa pra caralho. Vamos fazer um ménage.
- Que nojo.
- Ahn?! Que tipo de gótico é você? Pensa bem. Quem
mais no seu círculo de amigos emo do Baymarket já fez
ménage com uma fantasma assassina? Nem Lord Byron,
nem Marilyn Manson.
- Eles nunca fizeram porque todos os emos e góticos
são virgens, Valentina.
- Mas você...

156 CAROLINA GAIO


- Ei! Eu sou um fantasma, mas também tenho senti-
mentos, ok? E estou reparando há mais de mês que esse
rapaz mete com muita força, não vou aguentar, não. Meu
negócio é coisa mais suave, matar gente, atormentar e
tal. E eu só transo fofo. Como você ainda tem buceta, fia?
- Eu transo fofo com você - falei sentando do lado
dela e já fazendo carinho naquelas madeixas lindíssimas
de assombração do mal. Dava até uns traços com a Sama-
ra #dlç.
- Valentina, você tá passando cantada em um fantas-
ma na minha frente? - Inception ficou indignado.
- Chega dessa palhaçada, agora a porra vai ficar séria
- Samara's cover disse crescendo mais um metro, aparen-
temente putaça, e partiu com tudo pra cima de mim, me
dando umas porradas bem fortes pra uma alma (será que
em vida ela ciclava deca?), tentando me derrubar pela
janela.
Nessa hora, começou a tocar uma música bem do mal,
cheguei a sentir um arrepio, sentia que seria meu fim.
- Quê?! Essa assombração é boa mesmo! Colocou até
fundo musical pra tocar. Só não esperava que fosse Exal-
tasamba - falei.
- Ah, foi o meu celular. Esqueci de desativar o des-
pertador. Vampiro gótico flâneur de cemitério como eu
acorda a essa hora pra beber vinho e sacrificar virgens,
sabe como é - disse Inception.
Tesão naquele homem! Não aguentei e tive que agar-
rar ele. Empurrei discretamente Samara's cover pro lado
e comecei a quicar no pau dele me segurando no cabelo
dela.

157
- Porra, vocês são muito zoados. Acho que vou aban-
donar esse apartamento, tô aguentando não. Vocês não
param de transar, barulho pra caralho, tapa. Depois ficam
melosinhos, eca! Já deu pra mim.
- Você não vai nos matar? Tô me sentindo inferioriza-
da, sabia?
- Satã me livre matar vocês e vocês ficarem toda a
eternidade transando do meu lado! Ei, posso levar a gar-
rafa de Jurupinga comigo?
- Você não vai levar merda nenhuma! Olha só o far-
rapo humano que você deixou Valentina! Até parece que
acabou de pegar o 368 descendo a Grajaú-Jacarepaguá
no sol de meio-dia. Só eu posso estragar ela, você tá me
entendendo?
- Tudo bem, Inception. No fundo achei ela gente boa.
E uma puta duma gostosa!
Inception não curtiu muito nosso flerte fatal, queria
que eu processasse ela pelos danos materiais e morais,
mas sou frouxa e entreguei pro oculto, literalmente nes-
se caso. Pelo menos agora o apartamento estava livre
da maldição. Ainda não tínhamos conseguido tempo pra
arrumar nada, então aproveitamos que ela foi embora,
colocamos the number of the beast pra tocar e foda-se a
arrumação, continuamos transando e cultuando as trevas,
óbvio, durante 666 noites.

Eu me apaixonei pelo gótico certo


158 CAROLINA GAIO
E m um reino distante, vivia Rapunzel, a princesa com
as maiores e mais belas madeixas de todo o reino. Con-
forme rezava a lenda, suas madeixas eram ainda maiores
que a minha fome. Por um capricho da inveja da rainha,
Rapunzel fora presa no alto de uma grande torre, maior
do que o Obelisco e o pau do muso que inspirou esse conto
juntos.
Do alto da torre, Rapunzel passava os dias a tocar. Dei-
xa a ambiguidade acontecer. Com sua bela voz, iluminava
diariamente o reino, cujos súditos não sabiam de onde
vinha tamanha tecnologia de música ambiente de ritmos
tão variados, de Raça Negra a glam folk.
Tocar e cantar eram tudo o que lhe restava. A malvada
rainha eventualmente a alimentava com sêmen com hi-
dromel sem hidromel, e, para isso, escalava a torre, aos
gritos de: “Rapunzel, joga a benga!” Sua abastada benga
era a única comunicação com o mundo externo, pela pe-
quena janela do alto da torre. A rainha a escalava com
destreza sem precedentes.
Certo dia, um nanico príncipe, que seguira aquelas pa-
lavras tão lindas entoadas por sua bela voz: “Ainda mamo
essa mulher”, notou de onde vinha o som que lhe con-
quistara o coração: da gargantinha de veludo de Rapun-
zel. Observou a malvada rainha escalar a torre pelo falo
de Rapunzel. Escondeu-se em uma moitinha, aproveitou

159
para se aliviar das sensações causadas por aquela mulher,
e aguardou o anoitecer, a fim de descobrir quem era elx.
De início, Rapunzel vacilou. Não estava acostumada
com visitas que não fossem da rainha. Mas o príncipe não
se acovardava, e lançou mão dos mais variados artifícios
para conquistá-la, de estripulias em seu cavalo ao som de
Led Zeppelin a escritos de baixo nível e péssimo gosto, os
quais Rapunzel pedia para ver na maior cara de pau, como
se não acompanhasse diariamente. Ela fingia que não via,
ele, que acreditava.
O príncipe uivou o afamado bordão: “Rapunzel, bota a
benga pra jogo! É, quer dizer, Rapunzel, joga a benga!”,
ao que ela, domínio público, prontamente atendeu. Mes-
mo com toda a sua habilidade e know how, foi muito difí-
cil se equilibrar enquanto lustrava aquela benga, parecia
pole dance na cruz. Sua extensão era maior que os meus
calores internos quando vejo vírgula bem colocada.
Quando o nanico príncipe finalmente chegou, suado e
descabelado, teve uma visão que fez valer todo o esfor-
ço. Rapunzel era de fato a princesa mais linda que já vira
em toda sua reles existência. Seus pelos que misturavam
tonalidades pretas e loiras estilo Trakinas meio a meio
causaram um arrepio no príncipe, e sua vasta extensão
por todo o seu corpo denunciaram um excesso indevido
de testosterona.
– Rapunzel, você…
– Preciso confessar, nanico príncipe. Sou mulher mas,
não sei se deu para perceber, ostento esse falo maior que
as suas decepções amorosas.
– Rapunzel, que mulherão da porra! Sou homem, mas
tenho buceta, um buraco tão fundo quanto o meu orça-

160 CAROLINA GAIO


mento no final do mês. Seríamos almas gêmeas? – confes-
sou o nanico príncipe em êxtase.
Com tão elevadas palavras, Rapunzel não se conteve,
e caiu de boca no corte lacaniano do príncipe. Sua buceti-
nha pulsava, denunciando deveras estocadas de outrora.
– Play hard, Rapunzel! – o nanico príncipe gritava in-
sanx, deixando-a confusa entre o tesão do momento e a
breguice daquelas palavras.
A giromba de Rapunzel apresentava paudurecência ta-
manha e era tão paquidérmica que nanico príncipe não
compreendia como ainda havia sangue para circular pelo
resto do corpo. Ele não compreendia sequer como Rapun-
zel podia sobreviver equilibrando tanto cabelo e benga.
Uma pirocada o tirou de seus devaneios, quase que dire-
tamente para o coma. Apenas abocanhou com severas
dificuldades aquele mastro, sentindo-o latejar na sua gar-
ganta, já castigada pelas proporções mastodônticas.
Empurrou Rapunzel para o leito que denunciava que
peripécias incontáveis já tinham sido feitas ali, mas não
se importou, sentou escorregando a buceta encharcada
por aquela vara mais dura que você não estar aqui agora
fazendo isso comigo e apenas cavalgou como se corresse
Sobre los Montes, mesmo que Muy Lejos estivesse de fazê-
-lo de fato. Pela pressão que sentia nas estocadas, sabia
que Rapunzel estava prestes a gozar, e apenas posicionou
sua boca de receptáculo seminal para terminar o “seuvis-
so”.
Assim que nanico príncipe desceu da torre pela inco-
mensurável benga de Rapunzel, deu de face com a ra-
inha. Insana, decretou que deceparia o falo de Rapunzel,
fazendo com que perdesse definitivamente o seu contato
com o mundo externo.

161
O nanico príncipe esperou o número cabalístico de 3
dias, 3 noites e 3 horas, equivalendo a meia besta, o que
eles eram, montou em seu Pegasus Fantasy e salvou Ra-
punzel da torre. Ao chegarem à segurança de seu castelo,
teve um sobressalto.
– Quando a rainha disse sobre decepar o seu falo…
– Sim, nanico príncipe, eram os meus cabelos.
Nanico príncipe baqueou com aquela imagem de Ra-
punzel de cabelos curtos, mas logo ela revelou que estava
de rabo de cavalo e era uma pegadinha, até o João Kleber
apareceu e os cumprimentou. Ele respirou ali, viado, e
então eles puderam ser felizes para todo o sempre. Ela,
com a maior benga jamais vista, ele, com sua bucetinha
magya, e todas as metádentros do mundo.

Rapunzel, joga a benga


162 CAROLINA GAIO
Q uando conheci Valentina, perdi o ar. Tinha um cecê
tão intenso que tive que prender a respiração por severos
minutos. Mas como as pizzas suvacais não eram as únicas,
também havia de estrogonofe de camarão com rabada,
resisti firmemente.
Comedor que sou, não ia dispensar aquele material
todo por um mero detalhe que qualquer banho de sal
grosso com três ave-marias e creolina daria jeito.
Logo estreitamos contato e passamos a viver as mais
altas aventuras alucinantes juntos, dignas de Sessão da
Tarde. Muito descoladões, decidimos que seria de bom-
-tom revirar as boates de suingue da cidade, já que nem
eu nem ela éramos locais de onde estávamos morando, e
tudo tinha aquele cheiro pueril de novidade.
Mal adentramos o recinto, eu ainda fazendo o cadas-
tro, Valentina já mostrou logo a que veio:
- Tem alguma coisa pra comer aqui? - disse serena.
Duas donzelas e seis rapazes rapidamente prostraram-
-se de quatro na frente dela, dando seta de cu. Mesmo
parafílica, obesa 3 toda vida, desprezou, dizendo que a
comida a que se referia era literal. Desse tipo não tinha,
todos no ambiente se sentiram ultrajados com a desfeita,
Valentina desculpou-se e prometeu se redimir mais tarde,
mostrando o avantajadíssimo cintaralho que levara con-
sigo.

163
Rumamos para um inferninho nos arredores para co-
mer - no sentido alimento - e depois voltamos para a boa-
te.
Era tudo muito família. Valentina abordou umas cin-
co meninas que dançavam nuas se esfregando umas nas
outras pra perguntar se os pais sabiam que estavam ali,
pois ainda estavam com aparelhos nos dentes. Elas faziam
várias coreografias juntas das músicas famosas na época,
denunciando as longas horas passadas juntas treinando e
comendo farinha láctea com leite ninho.
Fomos para o dark room buscar alguma ação, não ha-
via, os presentes entoavam cânticos sibilantes e faziam
um amigo oculto, outros, mais ao fundo, brincavam de
passa anel. Duas strippers passaram, um frequentador
chapou a mão naquela raba gigantesca da primeira, ao
que ela gritou: "Não pode tocar nas meninas!" A stripper
de trás, que não devia conhecer as regras, rapidamente
se levantou e parou o boquete que fazia em três frequen-
tadores simultaneamente, fingindo que nada acontecia.
Tempos depois, a namorada do produtor veio se assa-
nhando com Valentina, como tive uma criação rigorosa
dentro dos preceitos cristãos, ameaçado com açoite e es-
tátuas aterrorizantes de Jesus Cristo feito de pele e ca-
belos humanos, logo fiz o bom samaritano e já fui dando
apoio às meninas, ora apoiava nos peitos, ora nas bundas.
Falei com a cidadã que Valentina e eu éramos um casal
de namorados muito ciumento e cabeça fechada, e só ía-
mos tolerar aquilo se ela me desse a noite toda. Valentina
endossou o papo, e fiquei traçando a namorada do cara,
que gozava rios com minhas táticas de tantra, enquanto
Valentina enchia a cara de Ciroc.
Fraca e com aquele clima que trapaceia com bêba-
dos acostumados a climas úmidos, Valentina mal sabia seu

164 CAROLINA GAIO


nome quando a convidaram ao palco para dar um show.
Era para ser erótico, mas naquela condição o único show
possível era cosplay da menina do exorcista vomitando
em todos os presentes. Até que combinou com a revirada
de olhos que a namorada do produtor deu na minha jeba
devido ao meu talento, bateu um vento e nunca mais vol-
tou pro lugar.
Como a galera também era dada ao fetiche, as meni-
nas foram muito ovacionadas. Logo ao amanhecer, che-
gando em casa, aproveitamos para comprar pão e suco de
laranja e socializar com o pai de família das redondezas.
Ele ficou muito feliz com a gentileza. Não do café da ma-
nhã, mas de poder secar a afamada raba de Valentina de
perto.

Tem coisa pra comer aqui?


165
V alentina. Até galinha preta pra exu eu já tinha ma-
tado. Inclusive nesse dia perdi minha calça branca prefe-
rida, a que eu usava pra fazer cover de Xanddy, do Har-
monia do Samba.
O santo falou que não podia mais usar a roupa do ebó,
acatei. A voz embargada do santo, no corpo da minha mãe
de santo, lembrava a do Eddie Vedder, quem iria contra-
riar aquela voz ao pé do ouvido? Rodei gira no terreiro em
Jardim América, fumei charuto com cachaça pra Zé Pilin-
tra. Nada. Minha mãe de santo, um travecão de mais de
1,90m, ainda mais alto que eu, já tinha dado o veredito:
Xangô não quer te dar essa mulher, não, caboclo, você
tem muito pouco cabelo, mas se quiser tentar… Fica na
casa dos trezento reau.
Eu tava desesperado, eu fui. O último trabalho con-
sistia em passar uma galinha morta pelo meu corpo nu e
entregar pra Jeová, enquanto minhx pãe de santo asso-
prava a fumaça do charuto nas minhas bolas. Sentia cóce-
gas, mas prendia o riso. Deus me livre o santo achar que
era deboche. Assim eu fiz. Inúmeras vezes. Dona Maria foi
bem clara: se ficar igual a um dois de paus não vai adian-
tar, milagre não faço. Fiquei meio??? Na minha vida nem o
sobrenatural dá jeito!
Parti para a abordagem mundana novamente, mas Va-
lentina já tinha saído das duas últimas editoras em que
tive notícias que trabalhou, a mulher parecia ter corpo

166 CAROLINA GAIO


fechado, contrariando o cuzinho tão alargado. Saudoso
cuzinho! Boas estocadas dei ali. Mas mais saudoso ainda
era o cuzinho da Credislaine, sua melhor amiga.
Fato é que a primeira vez que tracei Valentina, tracei
Credis. Foi um menage do qual nunca me esqueci. Acabei
me envolvendo com Valentina, a responsável por esvair
todo o meu FGTS nas mais variadas macumbarias, é que
apesar de judeu e ateu satanista sou baiano, vai que. Mas
não tinha jeito, até o oculto jogava dia após dia nessa
minha fuça que ela jamais seria minha. Eu me decidi. Se
não seria minha, não seria de mais ninguém.
Dei logo um jeito de Robertão, minha mulher, que é
polícia e ariana das braba, “descobrir” que eu tinha uma
amante, sabia que não ia deixar isso barato.
Aquilo que é mulher. Um dois por dois de voz tão de-
licada que certa vez foi stand in em um show do Slipknot
e ninguém percebeu que quem cantava era ela, toda essa
homarada fica humilhada por Robertão, Seu Jorge, Noriel
Vilela, Maria Gadu. Quando soube que Robertão que tacou
fogo no museu da língua portuguesa pra “dar um aviso”
pra ex do seu ex que trabalhava lá, fiquei apaixonado no
ato, mês depois já tava casado e bem no chicotinho.
Robertão, mulhxr empoderadx que sabe o que qué.
Deixei uma prova sutil, uns vídeos meus com Valentina
enquanto a comia e berrava: “Valentina, puta rampeira,
isso, você é muito mais mulher que Robertão, come meu
cu muito mais fundo, minha Ju Pantera, minha Neymar,
oh, craque nas chupada!”, claro, só isso era pouco con-
tundente. Deixei também endereço de Valentina e uma
cópia da sua certidão de nascimento e raio X da arcada
dentária. Pronto, Robertão faria o serviço e eu sem culpa
nenhuma. Mexeu com a pessoa errada.

167
Fato 2 é que eu precisava deixar as provas e sair de
casa, não queria que sobrasse pra mim, trato minhas bo-
las a Victoria’s secret. Juntei o inútil ao desagradável. Pra
tudo ficar perfeito, fui atrás de Credislaine matar dois
pentelhos com uma caixa d’água só. Ia distrai-lá com meu
charme de ilusionista para que Robertão encontrasse Va-
lentina sozinha, e, de quebra, empurrava nela. Era cuzi-
nho que opera milagres!!!
Eu sabia tudo de Credis. Onde trabalhava, onde mo-
rava, que seu ponto fraco é a nuca. E minha benga, cla-
ro, que aquilo é bem fura-olho. Cheguei no trabalho dela
com um chocolatinho, Coca e pastelzinho de camarão pra
amolecer o coração. Mal sabe que despejei meia ice na
Coca pra deixar ela bem doidona.
Olhinho começou a revirar era a hora, virei de quatro,
levantei a saia que de tão curta quase não precisava e
meti fundo, o cu sugava e pulsava como um ciclo de krebs
a cabeça da minha rola. Que cu sedento, pensei que ia
arrancar minha piroca!!! Tirei pingando merda, notei que
a combinação do lanche que levara não tinha sido das
melhores, mas muito machão ignorei, cravei tudo na bo-
quinha de veludo.
Ela, já muito doidona, nem percebeu, foi chupando
igual uma cabritinha criada em casa, não que eu já tenha
feito isso diariamente a adolescência inteira duas vezes
por dia atrás do quintal de casa inspirado pela Mônica
Mattos, longe de mim. Arregacei ela toda que nem frango
de padaria e cravei fundo na buceta.
“Mais, mais, mete mais”, gritava insana. Só pude fa-
lar: “Caralho, não tem mais. Isso é uma mulher ou o túnel
Rebouças?? Puta que pariu, hein?!” Tava prestes a gozar,
ouvi um barulho, ela gritava mais que Christina Aguile-
ra em I turn to you; tapei sua boca e olhei pelo espelho

168 CAROLINA GAIO


do escritório a sala de espera. CARALHO ALADO PEGASUS
FANTASY KIKO LOUREIRO ME POSSUA.
Era ninguém menas que minha sogra, mãe de Rober-
tão. Aparentemente a tal Credislaine, advogada dela de
umas tretas aí do tempo que ela era contraventora de
jogo do bicho, era a mesma Credis cuzinho mágico!!!
Como fui inocente!! Não podiam existir duas nessa cidade
que do Jacaré ao Itanhangá todo mundo se conhece!
Sem pensar muito, tomei a única decisão acertada,
peguei o mimeógrafo, primeira coisa que vi, e dei com
ele na cabeça de Credis até matar, escondi o corpo no ba-
nheiro. E aproveitei a guilhotina pra tirar o escalpo e usar
como peruca. Qual seria outra solução plausível? Vesti
também suas roupas, agora tava tudo nos conformes pra
me passar por Credis pra minha sogra. Meu único medo do
plano perfeito não dar certo é que não sei porra nenhuma
de direito.
Mas Deus ajuda os inocentes!!! Descanse em paz, Cre-
dis, desculpa o mau jeito, nem tão jovem era mais. Mas
talvez fosse seu desejo, vai encontrar Valentina em breve
on a highway to hell. Fiz uma oração pro diabo que a car-
regue e me recompus.
“Oi, sogr… Digo, sra Robertina”, disse eu estendendo
minha mão, completamente suja de toda sorte de fluidos
da agora defunta.

Perdas e danos
169
T odo mundo espera alguma coisa de um sábado à
noite, mas, de uma terça, o que vier é lucro. "Ou não",
como já dizia o sábio Caetano.
Começamos empolgados fazendo aquele tour Zona
Oeste - Zona Norte do Rio, com a parada estratégica para
catar a musa inspiradora das minhas punhetas, Valentina,
na Zona Sul, afinal, se é para rodar o Hell de Janeiro em
pleno rush carioca, vamos enfiar o pé na jaca legal brin-
cando de ligue os pontos na cidade. E como já dizia uma
falecida poeta... "A rusticidade começou..."
Assim que peguei (inclusive, QUERO!) Valentina nos ar-
redores da favela, não a em que nasceu, porque essa con-
segue ser ainda mais fuleira, começaram os 7x1. Empurrei
nela um brownie em que tinha feito uma puta amarração
do amor para a manceba, que ela, macumbeira-suave
toda vida, prontamente reconheceu.
- Príncipe mestiço, seu serelepe, quer macumbar logo
a mim? A maior amarradora do amor que você respeita?
- Quero, sim, se ofende?
- Jamais, não me acovardo! - disse Valentina provando
toda sua virilidade ao morder sensualmente o ebó, digo,
bolinho, fazendo cosplay de Sandra Bullock comendo car-
ne em Miss Simpatia.
Seguimos para catar nossos outros comparsas e ruma-
mos para o crime: um show com as subcelebridades menos

170 CAROLINA GAIO


mais cotadas do momento na boate que hoje é a maior re-
ferência em fuleiragem carioca, mas isso é história.
Éramos VIPs. SIM. Very Idiot Person, com credencial
para uma área exclusiva do show, que descobrimos ser a
área comum. O show era uma gravação de DVD de um ar-
tista tão famoso quanto um cidadão que muito já inspirou
contos deste blog, e todos tinham recebido o tal VIP para
lotar o recinto. Isso mermo, bote fé.
Vida que segue, desovei os amigues e saí rebocando
Valentina na secura para enchermos a cara loucamente,
afinal, um punheteiro profissional como eu nunca deixa
uma possível oportunidade de coito, por mais remota que
seja, passar. Mas o 7x1 não para, não para, não para, não,
até o chão, migos!
A boate, um ser icônico da cena carioca, não aceitava
cartão. Oi?
- Está fora do ar... - falou a atendente com níveis mais
parcos de paciência do que os meus de higiene.
Mentira deslavada! Mais tarde um segurança nos con-
fessou "aqui não aceita cartão, está fora do ar todos os
dias... é um eufemismo, sabe?". Ei, alto lá, cidadão! Claro
que eu sei o que é um eufemismo, é chamar isso daqui de
boate, pensei, mas a diplomacia libriana de Valentina me
contaminando me levou a somente esboçar um sorriso e
agradecer a informação.
Insistimos com a atendente, fizemos o pedido e puxa-
mos uma nota de 50, coisa rara nessa crise! A atendente
nos desprezou de novo.
- Tá sem troco...
- Mas vamos comer também, vai dar exatos 50 reais
tudo...

171
- Queridão, a cozinha tá fechada, tá me entendendo?
Não vai rolar comprar bebida, não.
Ok, caras tristes e fomos para o tal segurança do eu-
femismo perguntar se podíamos fumar. Não. Havia. Área.
De. Fumantes. Não bebe, não fuma e.
- Porra, vamos transar, então? - proferiu Valentina com
a maior naturalidade.
- Oi? - Logo me animei. Há muito tempo que só faço
ménage, com a direita e a esquerda.
- Vamos ficar fazendo o que aqui quase duas horas es-
perando o show sem comer, beber, fumar, nem uma porra
de uma selfie conseguimos, com essa música de merda e
só gente mais estranha que nós? Só nos resta fuder mer-
mo.
Refleti naquelas palavras muito acertadas de Valenti-
na. Tinha toda razão.
Nos pusemos a catar um beco qualquer na boate. Noi-
te difícil, nem isso tinha e os banheiros eram explanados.
Que boate não tem nenhum cantinho pros frequentadores
contraírem gonorreia, meu Deus? Nunca vi isso!
O que podíamos fazer? Desistimos. Só nos restava mes-
mo ir embora, enquanto Valentina me consolava dizendo
que, espírito sagitariano aventureiro (olha o eufemismo
aí) merdeiros que somos, dos âmbitos materiais aos es-
pirituais, pelo menos não passamos nossa existência em
vão.

Ninguém espera porra nenhuma


de uma terça à noite
172 CAROLINA GAIO
A ssim que x vi já pisquei: cabelo e giromba enormes,
tatuagem estratégica nas costas, cheio de manias, fora
a habilidade com a mão direita. Fiquei assistindo à sua
apresentação no evento de cosplay em que estávamos:
fazia um cover perfeito do Lars Ulrich, pensei até se tra-
tar do próprio. A imitação era tão irretocável que até o
signo era o mesmo. Estava extasiada! Não esperei muito
pra dar o bote: Me chama de baqueta e me perde no meio
de um show, abordei, já mostrando todo meu conheci-
mento de causa baseado em maus momentos do David
Hasselhoff.
– Eu tenho gostos peculiares, você não entenderia –
disse ele me menosprezando.
– Tipo sexuais?
– Tipo ser fundador do fã-clube oficial do Avenged e
detestar Iron, não quero nem ouvir nem olhar.
– Tudo bem, gosto de RBD.
– Crio ratos de rua.
– Minha parafilia é cu – quando falei, notei um brilho
em seus olhos. Elx estava começando a me olhar diferen-
te.
– Sou zoófilo.
– Necrófila.

173
– Meu filme preferido é Centopeia humana.
– O meu também!!! Mas eu nunca vi.
– Nem eu!
– Que pena, amor!
Ali eu soube que era o destino, tomei a única atitude
acertada: roubei suas baquetas para homenageá-lo mais
tarde.
Sabia que não seria fácil de arrastá-lx para os meus
aposentos, então apelei para um golpe baixo: mostrei o
pôster do meu maior ídolo, Wesley Safadão das quebra-
da’ underground, era o mesmo que o dele, nem podíamos
ficar cara a cara! Sabia que ele não resistiria, e logo quis
também me conquistar.
Depois de todo aquele papo de parafilia, deu um tiro
de misericórdia: me arrastou para uma matinê, em que
só era permitida a entrada de pessoas de até quinze
anos. Ainda que juntando a idade de todos os presentes
não desse nem a metade da nossa, somos verticalmente
prejudicados, e não foi difícil penetrar o ambiente. Mais
uma: elx era age player frequentador assíduo.
Tentei me integrar ao ambiente cantando Xuxa, mas
os presentes não sabiam do que se tratava, o ícone de
música infantil parecia ser sua filha, eu acho, uma tal de
Sasha. Grey.
Elx aproveitou a deixa musical para me fazer uma
proposta: “Uma sentada daquela nervosa, eu sei que tu
gosta!” Comecei a agarrá-lo toda putinha e na primei-
ra apalpada notei que ia precisar de ajuda pra segurar
aquela barra, se é que me entendem. Mas qual foi minha
surpresa?

174 CAROLINA GAIO


Surgiu do nada uma mulher que misteriosamente tam-
bém estava na meia-idade como nós, me agarrando intei-
ra. Depois de severas bolinadas se intimidou, alegando
que tinha me confundindo com a amiga, ainda que fosse
imaginária.
Pensamos em ir para um lugar em que ficássemos a
sós, como uma fila do INSS, mas, antes que fosse possí-
vel, uma ser humana mais louca que nossos ex juntos nos
parou em um papo metafísico sobre colocar sêmen com
mel sem mel na bebida dos outros e outras pitorescagens.
Ainda na saída, elx encontrou um amigo, e começaram
lindamente a copular, ignorando a minha presença. Deus
me livre baitolagem! Me vieram lágrimas aos olhos, aque-
le Bolsonaro interior gritando, e tomei a única atitude fa-
mília tradicional brasileira acertada: agarrei a namorada
do amigo delx.

Raça poser
175
A nalking era um rapaz de origem pobre mas de cora-
ção nobre, foi assim que Deus o fez. Devido a sua situação
precária, roubava dos mercados de onde morava, na Alta
Cavalcante, para garantir o sustento diário. Em uma das
suas incursões pela feira para afanar o alimento do dia,
foi pego por um dos comerciantes que já o manjolava há
severos tempos.
– Analking, só há um jeito de você escapar dessa. – ao
ouvir essas palavras, Analking começou a clamar a todos
os deuses Sith por aquele momento, mas as palavras que
se seguiram o fizeram peidar em alívio. – Que a força es-
teja com você!
Analking sentiu a paz no coração que somente expelir
gases confere.
– Mexer com força é minha especialidade!
– É mesmo? Quero ver isso agora!
O abastado comerciante então o levou para o fundo
de sua vendinha e Analking não se fez de rogado, foi logo
mostrando o certificado de conclusão do curso de técnico
em eletricidade do Senai.
– Mas você é mesmo leso, bichinho! Não é esse tipo de
força.
– Pensei que quisesse ver o comprimento da minha
onda.

176 CAROLINA GAIO


– É exatamente isso que eu quero – disse o paspalho
dando uma pegada digníssima nas bolas de Analking, in-
chadas pelo excesso de punheta.
– Ah. Bom, nesse caso…
Analking rapidamente pôs-se de quatro, ele já estava
mesmo acostumado a encarar as mais inusitadas situa-
ções em que a vida o colocava em prol do provimento de
sua subsistência, porém o comerciante era passiva, fez
a Beyoncé e solicitou que Analking lhe desse poderosas
estocadas. Assim o fez e com maestria tamanha que rapi-
damente alcançou o status de maior madeirador da Alta
Cavalcante, e passou custear sua sobrevivência pelos po-
deres do falo de alta nobreza.
Mas aquela vida lado B não era para ele, e ele sem-
pre ouvia aquela voz interior dizendo ladrão, lalau, ele
não era mau, pois ele, na realidade, não era só o pobre
Analking, haveriam de ver que havia bem mais nele. Para
espairecer, reuniu seus amigos Acu e Boquete Mágico e
rumou para a Pedra da Gávea, sem perceber que estava
errando o caminho. Se embrenharam por uma rota mágica
escondida e encontraram uma antiga caverna mística que
se assemelhava a um cofre.
Toda sorte de riquezas havia ali. Desde pôsteres do
vocal do Kitty Heart nu até a biografia não autorizada do
Roberto Carlos, em detalhes. Analking ficou maravilhado
com aquela visão, ele sempre se julgou hétero, mas que
homem era aquele vocalista! De cabelo platinado e botas
brancas de cano longo, logo denunciou seu passado de
cock’s player de Paquita. Paquitas eram precisamente a
paixão da sua vida desde a tenra infância.
Não pôde resistir às espancadas de rola na sua cueca
que se avolumavam e, ignorando o alerta de que nada

177
ali poderia ser tocado, ele roubou o pôster, o enrolou e
achou que passaria incólume se o enfiasse no mais fundo
de seu rabo. Ledo engano! O abalo sísmico foi sentido no
ato e a voz do Cid Moreira ecoou pela caverna.
– Analking, seu nobre caráter foi maculado pela gula
de seu trato retal, agora ficará preso nesta caverna para
sempre!
Ele procurou desesperado pelo Ivo Holanda ou seu ído-
lo-mor João Kleber, mas, não os encontrando, percebeu
que aquilo tudo era real. Montou em Boquete e puxou Acu
para perto e os três fugiram pelas labaredas de fogo em
que a caverna começara a se findar. Após a longa saga no
melhor estilo da fuga de Harry, Draco e comparsas da sala
precisa, os três se refugiaram em uma parte mais isolada
da caverna, completamente fechada.
Destilando seus dons de MacGyver, retirou o pôster do
cu, milagrosamente intacto, e se pôs a analisá-lo buscan-
do a solução, mas nada lhe vinha à mente além do desejo
insano. Acu que mesmo mudo era muito mais sagaz, notou
que a salvação deles era óbvia e o cutucou, gesticulando
tal qual quando eles jogavam Imagem e Ação.
– Como vamos sair daqui, Acu? Não compreendo.
Acu lhe indicou uns dizeres rudimentares nos bíceps
hipertrofiados de Paquita e a resposta óbvia se iluminou.
– Então eu devo esfregar o meu pau até conseguir con-
jurar Paquita?
Acu desistiu, Analking era bem tapado mesmo, pelo
jeito, morreriam à míngua, então se pôs a rezar ao Deus
africano sem poder, enquanto Analking se dedicava às ati-
vidades punhetais. Ele tocava com tanta ânsia e tesão

178 CAROLINA GAIO


ardente por Paquita que fez fogo com seu pau. Assustado,
parou, mas o fogo tomou vida e dali Paquita surgiu, com
seu leão a tiracolo em cima do ombro rugindo pra detonar.
– Lâmbda! –Paquita o saudou bem virjão como em A
vingança dos Nerds.– Lâmbda! – retribuiu Analking. – Você
é um tipo de gênio e vai me conceder três pedidos?
Então Paquita se pôs a cantar uma música, o excerto
dizia:
“Não vá babar os quarenta putões, lubrificante temos
pra gastar”
– Ok, parece que estou me especializando mesmo nis-
so – disse Analking desanimado, já virando de quatro.
Mas Paquita findou a performance lasciva e lhe ex-
plicou as condições. Analking teria direito a três desejos
que Paquita lhe concederia em troca de seu corpo nu.
Analking mal pôde acreditar. Ser possuído por Paquita era
precisamente o desejo mais fundo de seu reto. Desejou
sair daquela caverna e o momento picante começou ali
mesmo. Paquita estocava sem dó, os longos cabelos fa-
zendo cócegas em suas costas enquanto lhe penetrava.
Em liberdade, Analking foi ao mercado falar aos co-
merciantes, mas não esperava o 7 a 1 que levaria da vida.
Viu uma mulher magnífica fazendo compras, pele more-
na-jambo, cabelos negros, quase 1,90m, um tipão meio
árabe abaianado, uma mistura de Ju Pantera com Schei-
la Carvalho. Ficou completamente apaixonado. A seduziu
com seus dotes de putão, mas descobriu que ela era a
princesa DáSim, a Domme soberana do Reino, que só co-
nhecia de nome e que fugira exaurida das desgastantes
maratonas de orgia em seu castelo. Ele, pé-rapado toda
vida, não teria a menor chance.

179
Mais uma vez conclamou Paquita, pedindo para que
lhe transformasse em um príncipe. Essa era difícil até
para o talentoso Paquita, a única maneira era lhe ungindo
inteiro com seu sêmen mágico e assim o fez, em um ritual
que durou um número de noites tal qual o sorriso do por-
teiro do meu prédio, 1001. Exaurido pela perda de todos
seus fluidos corporais, Paquita se retirou em descanso por
duas semanas consecutivas e mandou Analking, já trans-
formado, seguir pelos seus próprios meios.
Analking baixou no castelo de DáSim com vários de
seus súditos nus suados e uma procissão de robustos falos
em sua homenagem. DáSim de início ficou receosa, mas,
desconfiada de que Analking era o suculento espécime do
mercado, cedeu, topando dar uma volta com ele e Acu em
seu Boquete Mágico por tão lindas estrelas. Na volta, ela
o colocou na parede.
– Você é o rapaz do mercado, eu sabia! Por que mentiu
pra mim?
Analking tentou se explicar, mas ela prontamente lhe
disse que a melhor explicação era uma chupada digna e
assim ele o fez, estava mesmo morrendo de vontade de
cair de boca numa legítima buceta, o que há tempos não
fazia. Mas seu amor era impossível. Além de pobre, secre-
tamente ele era Dom, jamais se curvaria a uma Domme
gostosinha qualquer.
Mas ainda restava um desejo. Enquanto levava esto-
cadas profundas e chicotadas de Paquita, completamente
amarrado e amordaçado, cogitou se seria bom gastar seu
último desejo escolhendo a submissão de DáSim, Analking
notou Paquita um pouco enciumado.

180 CAROLINA GAIO


– O que houve, Paquita?– Estou há muito tempo prisio-
neiro, prisioneiro da ebriedade da qual você me libertou,
não quero voltar à caverna.
Analking sentiu o coração se apertar.
– Já comprei um iate para curtir minha liberdade eter-
na, mas não quero influenciar sua decisão. Qualquer outro
desejo diferente disso pode fazer cair todo o seu membro
fálico e lhe dar paumolência pela eternidade, mas a esco-
lha é sua e não minha.
Analking mediu Paquita inteiro, não era difícil devido
à baixa estatura, todos aqueles músculos, aquelas tatua-
gens, a pele branca impecável com pintas e os longos ca-
belos com progressiva na altura da pélvis… Emoldurando
aquele sorriso sacana, mas meio juvenil… Que lábios…
grandes lábios… O olhar de maldade… Que homem linda
que Paquita era! Tinha muito mais seios do que DáSim,
não era difícil.
– Eu tive uma ideia. Eu podia desejar a sua liberdade!
O que acha, Paquita?– Grande ideia! Como pensou nisso
sozinho?– Sou bastante perspicaz.– Notável! Mas só posso
ser realmente liberto se você descobrir a chave do segre-
do!– Chave do segredo?
E antes que pudesse perguntar mais qualquer coisa,
Analking apenas ouviu sons indecifráveis de um LP rodan-
do ao contrário, viu Paquita entrar em uma nave e sumir,
o deixando confuso. Será que a chave do segredo seria fa-
lar a verdade? DáSim faria um pronunciamento no reino,
todos os seus súditos já estavam nus na coleira e de cu pro
ar, ele mandou chover piroca com os trocados que ainda
lhe restavam do último desejo concedido por Paquita.

181
Raspou as economias e comprou também uma Sidra
para DáSim e uma saia na Mesbla. Ele podia ser pobre,
fudido, sem caráter nenhum, esquisito, diminuto, ter pau
pequeno, um bom de um putinho desgarrado, mas o seu
coração era o de um legítimo príncipe. Adentrou o pro-
nunciamento da princesa tocando seu ukulelê de maneira
destemida.
– DáSim, desde que te vi, soube que era a mulher da
minha vida. Não sou príncipe, sou ex-traficante, ex-pre-
sidiário, ex-travesti, já morri e ressuscitei 13 vezes, ex-
-crente, eu podia estar matando, eu podia estar rouban-
do, mas estou aqui na maior amizade somente querendo
meter a piroca na sua xavasquinha de puta rampeira.
DáSim não conteve as lágrimas. Palavras tão lindas ja-
mais tinham sido ditas em toda a história da humanidade!
Ela o pôs de joelhos e o forçou a cheirar seu suvaco que
mesmo castigado pela ausência de banho há 2 meses era
mais cheiroso do que todo o jardim do palácio.
– DáSim, eu te amo! Aceita ser minha SW?
– Eu aceito, meu macho viril! Mas com uma condição…
– Qual?
– Que aquele gênio delicioso participe de todas as nos-
sas orgias.
– Você conhece Paquita?
– Já cavalguei muito naquele cajado sancto! Como
acha que consegui conquistar todo este império?
Analking aceitou suas condições extremamente emo-
cionado, pensando nos vários trenzinhos que fariam, com
ele, machão comedor, indo na frente, obviamente. E de
repente tudo ficou claro. A chave do segredo não era o

182 CAROLINA GAIO


amor, a verdade, a liberdade, os rios de dinheiro em que
viveriam dali em diante, tampouco o reino. A chave do
segredo era a lion pica de Paquita, seu talento sexual e
sua lâmbda maravilhosa, operadora de milagres, amém,
irmãos! Agora tava na cara, esfregando na sua cara, me-
lando, grudando, colando.

Analking e a lâmbda maravilhosa


183
F azia tempo que eu queria traçar Valentina e sabia
muito bem que a candanga já manjava ferozmente esse
material esculpido pelos deuses vulgarmente conhecido
como eu.
Na época, ambos tínhamos mais de um cônjuge ofi-
cial, titular, reserva, extraoficial, bandeirinha, cambista
- era nem time, era arquibancada. Então, por motivos de
força maior, ela ainda não tinha conhecido a força maior,
se é que me entendem.
Copo vai, copo vem, e aquele papo vaselina (um tanto
quanto literal) cheio de assuntos ambíguos, eu já com a
espiga de milho no bolso, rola (que tal) aquele momento
de tensão sem n no ar. Ligamos o foda-se e também a ig-
nição, já que não seria de bom-tom fazer o malfeito feito
em público.
Romântico inveterado, sou adepto do bom e velho mo-
tel das estrelas, mas, como aquela mulher merecia o mais
puro da nata dos motéis cariocas, a levei em um bairro de
alta nobreza e um inferninho de indiscutível nível de lixo,
digo, luxo, cujo custo beirava a casa das 50 pila.
Mal chegamos, eu nem acreditando que ia dar uma
enterrada naquele 1m de raba, a fdp começa a ter crise
de consciência.
Que isso, Valentina, isso daí já tá que nem coração de
mãe, mais um menos um...

184 CAROLINA GAIO


Tentei todas as abordagens mais sedutoras possíveis
da face da Terra, de me lambuzar de bacon a me vestir de
mulher. Nada feito. Decidimos sair logo pra tentar nego-
ciar o pagamento na saída. Cinquentão ainda dava pra eu
me virar na Mimosa! Tava empedrando já!
Sabe o que é, meu consagrado, descobri aqui que a
donzela aqui ainda tem selinho, meu santo de cabeça não
se dá com essas coisas,vou deixar em casa com um Toddy-
nho pra assistir a Sailor Moon.
O consagrado também curtia Sailor Moon e sabia que já
tava quase na hora do episódio, liberou a gente na maior
amizade pra não empatar. Vitória! Conseguimos sair sem
coçar o bolso!
Mas, como vergonha pouca é bobagem, o episódio não
ia passar incólume, miguxos! Eu, estrela master do cená-
rio underground carioca, ela, com essa raba reconhecida
em todo eixo Sul-Centro-oeste do país, nos deparamos
com um cidadão que muito já passeara por este blog e por
Valentina (inveja!) ostentando nada menas que minha ex.
Levar fama sem levar vara, isso sim é sacanagem!
Valentina, toda Joselita, me crava um "Vocês por aqui!
Fazendo o quê?" Só matando na pica mesmo, né?! Já que
eu não podia enfiar minha cara onde queria, propus uma
suruba qualquer dia, naquele famoso "vamo marcá" cario-
ca, pra aliviar o crima ameno, e nos retiramos do recinto.
Dias depois, me passa na rua Valentina com o sujeito.
Ah, filha duma égua! Aí não teve crise de consciência, né?
Valentina é foda!

Iludindo corações.. e pirocas


185
l e x õ
eR f abafos e s
de e s
A categoria Reflexões e desabafos
está aí para chutar cachorro morto!
Você achou que ia ter trégua?! Ledo
engano! Os assuntos aqui são mais
abrangentes e se desdobram a partir
de personagens variados.
Reflexões
e desabafos
E la era puta. Na acepção real do termo, redução de
prostituta, aquela profissão mais antiga do mundo. Era fa-
mosa por ter infartado dois só com um lap dance na boate
em que fazia strip.
Entre máscaras, nomes falsos e renda enfiada no cu,
era ela a que povoava as indômitas punhetas pela cidade.
Era ela a dos delírios de "e se" das mulheres e de "eu pago,
eu tenho" dos homens. Era ela jogando tequila pelo corpo
nas boates do subúrbio e prosecco naquelas mais abasta-
das. Era ela a rainha das ereções e dores no saco, era ela
atiçando, era ela a que detinha esse tipo de poder [fal-
so] que as pessoas gostam de achar que o sexo tem. Esse
medo pueril de que elas podem ser dominadas pelo sexo,
controladas, atadas, por esse tipo de buceta mágica.
Valeska que me perdoe, mas sua pussy não é o poder.
Ela era puta. Ela era famosa por ter infartado até um
fotógrafo que, desavisado, só fazia fotos do salão do bar
quando se deparou com ela. Nem um show era, não pre-
cisava. Estava de óculos e bebia Nescau enquanto lia suas
xerox da graduação. Mas ela emanava aquele lado B do
sexo cósmico até cagando.
Two girls and one cup que me perdoem, mas até pra
escatologia é preciso ter certa dose de classe.
Ela era puta. Mas seu coração era triste. Nas madruga-
das, olhando da janela o vazio da cidade, riscava decas-

189
sílabos em um caderno que ela havia customizado. Fotos
e desenhos que fazia de amores passados, mas que tanto
ainda a atormentavam. Versos necessários, premedita-
dos, engasgados. Guardados. Ninguém entendia.
Saber usar o mais-que-perfeito não deixa ninguém de
pau duro. E ela era puta.

Ela era puta


190 CAROLINA GAIO
S egunda-feira, às 16h, um desconhecido me aborda
na fila do café, perguntando de onde vinha meu nome.
ZzzZzZz.
Às vezes penso em mentir, é mais fácil do que falar
“do Guido Crepax” e, mesmo depois de ter que explicar
os muitos “porquês” disso, parecer esnobe e ainda ver o
outro ser humano com uma cara tão de idiota quanto a
minha nessas situações. (Um desejo oculto: não ser abor-
dada, nunca, em hipótese alguma, jamais, por pessoa al-
guma, muito menos por desconhecidos na porra da fila do
café.)
Ele. Conhecia. Crepax.
Segundo fontes desconfiáveis (o próprio), perguntou
sobre meu nome justamente por ser um admirador do tra-
balho dele. Bem-feito pra mim, né? Aliás, ele conhecia
muito mais do Crepax do que eu, que, senso comum toda
vida, só conhecia a Valentina. E outros artistas remotos.
E.
A conversa acabou durando muito mais do que o tem-
po de terminar o frapuccino de caramelo, eu tinha que
voltar para o trabalho, e trocamos contato. Trocamos,
não. Eu passei o meu. Só me disponho a salvar número de
possíveis empregadores ou vendedores de coxinha.
“Mal vou chegar ao trabalho, vai ter uma cantada ba-
rata dele”, pensei. Ledo engano. Nada. Então notei, era

191
óbvio. O marmanjo parecia versado nas artes da conquis-
ta, demoraria uns dias para mandar uma mensagem, algo
no estilo “estava ocupado, mas” ou “acabei esquecendo,
mas”.
Dito e feito. Três dias depois, lá estava o jogador do
amor. Eu não falho. Devia usar meus talentos de pai de
santo pra fazer dinheiro, mas só uso para o prazer sádico
de dizer “eu avisei” aos amigos.
Continuamos as conversas por semanas, eu estava
adorando aquilo. Não é todo dia que você encontra com
quem conversar sobre ideias, outras culturas e arte, espe-
cialmente sem aquele ar adorniano latente. Mas eu sabia
que o momento divisor de águas chegaria. O mais temido,
em que eu teria que decidir liberar ou não a bacurinha.
Afinal, Freud já sabia que toda interação social se resume
a isso aí. E veio.
Quando convidam para bares e cinemas, é muito fácil
declinar do convite. Afinal, você pode ir a qualquer um
desses lugares a qualquer hora e com qualquer ser huma-
no. (Inclusive sozinho, é claro.) Mas o filho da puta me
convidou para um vernissage. Puta que pariu. Vernissage
foi golpe baixo. Aí você pensa e me fala: “Mas, Valentina,
você também pode ir a um vernissage a qualquer hora e
com qualquer ser humano.” (Inclusive sozinho, é claro.)
Não é bem assim, meus caros. Era um vernissage fe-
chado, daqueles que só se entra com convite, do qual
poucos ficam sabendo. Além de tudo o filho da puta ainda
era uma agenda cultural humana. Maldito! Malandra que
sou, me perguntei se o tal vernissage existiria, afinal das
contas, ou se seria só um convite, digamos, simbólico.
Seria muito fácil se pudéssemos lidar uns com os outros
assim: “Sem querer ofender, mas você quer me comer?
Porque não vai rolar. Já o vernissage…” Mas não podemos.

192 CAROLINA GAIO


(Bem como não é nada delicado receber um: “Chega des-
se papinho de ‘arte conceitual nem gente é’ e libera logo
a perseguida.”)
Então, sim, cedemos às metáforas dos trâmites sociais.
E como abordar de forma delicada o tópico, ou confirmar
que eu gostaria de ir sem a tradução disso soar como: “Te-
sudo, estou me depilando inteira agora”? Eu gostava das
conversas, realmente, mas não queria virar o jantar. Fugi
da forma mais tradicional e lacônica possível na nossa so-
ciedade patriarcal: “Que legal! Quando vai ser? Vou ver
se meu namorado quer ir com a gente.” Namorado este
que não existe, naturalmente. Mas desde que o mundo é
mundo o único “não” aceitável é saber que o sacro lugar
de um homem já está ocupado pelo seu respectivo chefão
da matilha.
O “hmm” do sujeito confirmou todas as minhas suspei-
tas. Obviamente, o vernissage não aconteceu (pelo menos
não para mim), e as conversas foram rareando. Não posso
julgá-lo. Entendo o lado dele. Para que gastar latim (às
vezes literalmente), referências do Archer e eventuais
buscas no Google se não haverá nem um cuzinho de re-
compensa?
Larguei as conversas abstratas e voltei às preocupa-
ções cotidianas sobre o preço do tomate e fofocas do
escritório. Com meu corpo a prêmio é complicado, que
Michelangelo perdoe meus pecados.
Adeus, vernissage, quem sabe tenhamos mais sorte de
nos encontrar da próxima vez.

O vernissage
193
O ntem eu estava conversando com uma amiga sobre
esta espécie de interruptor que é o amor. O tipo de es-
talo que te faz pagar pra ver. Porque pro amor não tem
meio-termo, não tem “eu acho”. Ou é ou não é. O que
você faz com isso, aí é gradação. Mas o amor é sempre
um “eu sei”. E esse talvez seja um nó ainda maior do que
o sentido da vida. Essa centelha tão precisa que faz toda
a diferença. Que produz felizes para até o dia seguinte ou
corações partidos. Que produz renda para terapeutas e
pais de santo. E toda a tonelada de arte do mundo.
Amor intriga.
Intriga porque, mesmo com toda a evolução do admi-
rável mundo novo e com tudo o que se debruça sobre ele,
ainda somos completamente leigos e vulneráveis.
Perguntei a essa amiga o que achava do mercado do
amor, dos mil conselheiros que dão até cursos sobre “con-
quistar” alguém inconquistável, de dicas astrológicas a
manuais ultracientíficos; ou das “forças ocultas” dos
supermilagreiros que trazem seu amor de volta em três
dias. “Se pá”, até a pé/a nado de outro país.
Ela me falou algo muito simples, que como a vida imi-
ta a arte, toda ficção tem um fundo de verdade, e não
existe nada que consiga recriar o amor na literatura. Não
há nem mitologia ou ficção que admita magia, conselho

194 CAROLINA GAIO


ou o que quer que seja que dê jeito. Mesmo na ficção,
tudo é possível de ser mecânica-química-misteriosa-arti-
ficialmente concebido. Menos o amor.
Da Bíblia a Harry Potter, nem Jesus Cristo, nem Mé-
rope conseguiram criar o amor. Todos os nossos grandes
personagens históricos e literários podiam fazer todas
as coisas. Alguns até ressuscitavam, voltavam no tempo,
detinham varinhas, lâmpadas maravilhosas e anéis. Mas
não podiam fazer ninguém amar. Nem Cristo conseguiu
tal feito. Nossa sociedade “hater” de toda uma linhagem
de pensamento cristã está aí como prova. Aliás, nem os
Beatles conseguiram; e eles se propuseram.
E de músicas sertanejas ao “mercado do amor”, todos
sabem desta realidade fatalista. Dizem que há solução
para tudo, menos para a morte. Mas até a morte a medi-
cina conseguiu burlar, ainda que não em totalidade. Mas
não há nem ciência nem pajelança que burle as regras do
amor. Assim como não há sequer dopamina que o substi-
tua.
É de fato possível recriar todas as coisas. Nós clona-
mos e fazemos vida a partir do que é a princípio estéril
em laboratório. Fazemos vida artificial, até. Ressuscita-
mos com adrenalina e eletricidade. Produzimos a felicida-
de em entorpecentes e tarja preta. Produzimos também
realidades paralelas, produzimos ilusões. Nós voamos,
cruzamos distâncias, controlamos e deturpamos o tempo.
Da alegria à vida, tudo é sinteticamente possível. Menos
o amor.
Quantas páginas e partituras foram gastas sobre o amor
e, no entanto, Ed Sheeran resumiu calendários e resmas
em uma única frase: “People fall in love in mysterious

195
ways.” Amor no final das contas é isso: a essencializa-
ção dos mistérios. A maior caixa-preta da vida. De nossos
tubos de ensaio, decodificação, alquimia ou simulacro,
somente ele não é reproduzível. Amor é jogo de azar.

Menos o amor
196 CAROLINA GAIO
A s combinações improváveis são as mais traiçoeiras,
e foi em uma delas que me vi enredado em você.
Tocava uma versão malfeita de Journey, e você me
ofereceu o pacote de biscoito que estava no parapeito da
janela quando percebi.
Não foi nada disso. Talvez o baseado que você não sa-
bia enrolar ou as botas no volante do meu carro na pri-
meira vez.
Não saberia precisar o momento, se é que houve um
isolado. Mas foi ali que me dei conta. Você gargalhando
com as bochechas vermelhas limpando o farelo da boca
quando falei que você ia foder minha cabeça. Mas quando
a gente percebe o risco, é porque já não tem mais volta.
Você não acreditou.
Na pessoalidade do seu quarto, seu mundo parecia tão
fácil, tão dado. Foi um súbito engano, seus olhos de brilho
otimista têm esse dom. E ninguém acreditaria no abismo
que eles guardam, bem sabe o compositor que transfor-
mou seu nome em música, aquele que você detesta.
Naquele quarto de móveis de segunda mão e músicas
com um instrumental terrível, descobri um desconjunta-
do nós.

197
Você, das bebidas com pouco álcool dentro do apar-
tamento. Eu, das longas viagens de moto. Você, de paisa-
gens de sol no Arpoador. Eu, de noites maldormidas entre
cocaína e acordes virtuosos de guitarra.
Cada um lida como pode com as suas solidões, mas as
nossas de alguma forma passaram a se fazer companhia.
Some were born to sing the blues. Oh, the movie ne-
ver ends.

O simétrico e o improvável
198 CAROLINA GAIO
C heguei despretensiosamente na sua casa. Me aco-
lheria durante os dias em que eu ficasse por aqui traba-
lhando, nessa cidade que já foi muito minha, e que há
alguns anos se tornou sua.
Nós dois a trabalho em nossas respectivas terras na-
tais, o que me trouxe, te tirou daqui, então; mas essas
paredes guardam muitas das suas histórias. E algumas de-
las foram contadas em um palco em que já fui protago-
nista.
Sua casa, inevitavelmente, me trouxe aquele nós que
há muito estava adormecido. Aquele nós de sexo entorpe-
cido em banheiros de shoppings e em coxias de espetácu-
los. Aquele nós de muitas mãos tirando nossas roupas. Pra
ser específica, eu tirando meu vestido que você estava
usando. E pedindo pra você continuar de peruca e ma-
quiagem feminina.
Aquele nós de você falando "agora vou lá vestido de
homem pra botar moral" e me fazer rir. Aquele nós de
poemas trocados no ônibus e no banheiro de um teatro
qualquer. Aquele nós de música e dança.
Aquele nós dos nossos bastidores, que ficou, sabe?
Aquele nós que nunca chegou a ser de fato um nós, que
se soltou muito antes de formar qualquer laço. Mas tem
coisas pontuais que ficam bem mais e você é uma delas.

199
Aqui, deitada na sua cama, olho como a desorgani-
zação da sua casa de artista organiza seu mundo, entre
vinis, livros e seu quadro com anotações dos seus roteiros.
E penso nas nossas esquinas e nos nossos cruzamentos.
Meu jeito pedante de escrever, seu jeito pedante de
gozar a existência. Minha arte caótica, sua arte tão bem
direcionada. Meu caos simétrico dentro de caixas organi-
zadoras, seu caos completamente livre pelo mundo sen-
tindo o vento bater no rosto.
Ando pela casa e ela me traz você, é claro. Sua cozi-
nha ilibada e marcas de mãos misteriosas pela parede do
lado da cama. Mãos que nunca foram minhas, tampouco
suas - um brinde à transitoriedade -, mas que de alguma
forma agora compartilhamos, também.
Mãos que me trouxeram detalhes daquele nós, que
misturam tesão e certa conformidade. Rio pensando em
uma mistura de "Vai, malandro" com meu conhecimento
de causa dessas contorções de noites (madrugadas, dias,
tardes...) em claro com você.
Eu estou aqui agora, embora tenha passado anos au-
sente. Você, ausente, também está aqui. Sua casa me
trouxe ávidas suas mãos no meu corpo, seu jeito de me
conduzir no soltinho, suas frases de efeito, seus bordões,
seu sotaque imitando o meu e vice-versa.
Sua casa não me trouxe gostos daquilo que não é, pelo
contrário. Nós fomos; somos, arrisco. E não só pelos nudes
trocados e promessas de reencontros, que nunca se con-

200 CAROLINA GAIO


cretizaram, nem vão. Simplesmente porque, enquanto
estivemos juntos, foi exatamente isso. Estivemos juntos.
Entregues, intensos, integrais. E é isso o que faz toda a
diferença.
Mesmo na sua casa, não vamos nos encontrar, mais
uma vez. Perfeita metonímia de nós dois.

Sua casa, nós dois


201
N ão é ego, controle ou o que quer que seja, rapaz. É
a indiferença.
Nesse tipo de situação nós só temos duas opções, bem
claras e distintas, e é óbvio que eu já escolhi a minha. Eu
diria que você escolheu por mim, na verdade, mas, como
nessas horas é muito fácil se isentar, ficamos assim.
Só que eu ainda estou fazendo as malas. No gerún-
dio mesmo, essas coisas são processo. Tá tudo misturado,
tem muita coisa pra separar aqui. E eu nem sei se já achei
tudo.
Estou escolhendo o que vou levar comigo, o que vou
deixar com você, o que vou jogar fora, sem sequer te
dar a oportunidade de guardar. Eu tenho esse direito, não
tenho?
Essa situação não é das mais comuns, eu sei. Geral-
mente não temos esse tempo, as coisas acontecem bem
mais de rompante.
Por um lado o rompante é bom, dizem que é assim que
se arrancam curativos. Mas e se o caso é um pouco mais
invasivo, quase cirúrgico, você pode simplesmente ficar
sangrando aberto por aí?

202 CAROLINA GAIO


Sem falar que esses rompantes, por outro lado, são
foda também. Você acaba levando e deixando coisas que
nem podia.
Às vezes você leva muitos farelos, que sujam a mala e
ocupam espaço. E deixam ela pesada pra cacete. Eu vou
precisar carregar sozinha, entende? Será que é verdade
que a gente descobre forças que nem imaginava?
Às vezes você acaba deixando pedaços de você, que
não vão se reconstituir de uma hora pra outra (quem dera
ser Prometeu nessas horas). É claro que somos inteiros, e
o mundo segue, sorrindo e te acolhendo, é o que desejo
e espero, mas essas coisas sempre dão uma bagunçada na
casa, não tem como.
E funcionam como um tipo de infiltração, daquelas
que vêm do vizinho e você acaba demorando um pouco
pra descobrir exatamente a origem e o que tá causando.
As proporções tendem a ser um pouco maiores do que
aparentam.
Aí você descobre, mas nem sempre é simples conser-
tar.
E até que consiga dar jeito, ela fede e incomoda. O dia
inteiro. Tem momentos em que você se acostuma, quando
fica exposto direto, geralmente. Mas quando precisa sair,
e voltar, o que eventualmente acontece, parece que tudo
recomeça, que tá fedendo e incomodando mais ainda até.
Às vezes ela pinga. Às vezes estraga seu assolho, que era
novo e estava impecável até então.
E eu quero que a gente saia ileso. Ou o mais próximo
disso possível.

203
Ok, a quem estou querendo enganar? Isso é impossí-
vel, tudo bem. Mas eu vou deixar linha e agulha aqui pra
você, não tenha dúvidas. Acho até que já passei a linha
pela agulha, vou conferir de novo.
Aquela Super Bonder eu vou levar comigo, já até botei
na mala, foi uma das primeiras coisas que guardei. Espero
que entenda, eu precisava.

Fazendo as malas
204 CAROLINA GAIO
U m templo
desses de pedra
de parcos vitrais excessivos em suas cores
encomendados por falidos mecenas
de profetas fadados a suas escrituras
dos amores que começam desfeitos
das promessas de guerra que, sob a cruz, se emude-
cem
e de santos que, em 365 dias, distantes, curam todos
os males da terra
com a morte
e só beatificam a heresia de quem comunga de suas
nascentes.

Minha procissão eleva esse altar


de batismos que não redimem pecado algum
muito menos expurgam o que se diz originalidade
destituem dogmas e sacramentos
que essas paredes, frias, calam em mudas pedras
projetando frágeis realidades tais

205
de homens que do teto despencaram por culpa de
afrescos
pedantemente requisitados
de dores impotentes de desfechos
e de ilusórias alegrias de supostos nascimentos
renascimentos
o confronto de díspares sentimentos
que irônica e igualmente aqui jazem
estrangulados nas impávidas pedras
de amordaçados resquícios que sangram
vê quem sabe sentir
sente quem sabe ver
jogo minha moeda e tranco suas portas
tão irrelevante
ofertas são bem mais sutis
eu lhe dou as costas
e sigo

Pandora
206 CAROLINA GAIO
A quele dia que nos esbarramos, em um show de
bandas aleatórias no centro da cidade, éramos mais do
mesmo: eu, apaixonada por uma figurinha megafamosona
em um microcosmos; você, wannabe de rockstar com um
cabelo muito melhor do que o meu.
Não foi ali, claro que não. Foram meses depois. Em um
show, de novo, no mesmo lugar. Dessa vez era uma banda
grande, alegoria perfeita do que dali a algumas semanas
nos tornaríamos. Alegoria perfeita de tudo o que por mui-
to tempo guardamos.
Você só queria tirar a cabeça dos seus muitos calos nos
dedos. Eu só queria tirar a cabeça dos muitos corações
boiando na minha constante ciranda de relacionamentos.
Seria só mais um dia de motel barato na Tijuca, gaso-
lina Zona Norte-Zona Sul, coreografias e partituras atra-
sadas em prol de uma gozada gourmet.
Digo gourmet porque sempre é gourmet gozar com
pessoas que você acha o ápice da beleza. Viva o super-
ficial deleite estético vertido em arrepios, lubrificação e
entumecimento. E até então era só isso mesmo pra nós
dois, embalagens de covinhas e bundas oníricas demais
de tão bonitas.
Ah, e cigarros. É claro, sempre tem os cigarros nessas
fodas que fazem história. Cigarros que arrematavam o ób-
vio cenário perfeito de volta dissolvendo a fumaça no ar

207
da Lagoa. Nós dois compartilhando histórias sobre espiri-
tismo e críticas ferrenhas à poesia concreta.
O cheiro insuportável do seu cigarro forte ficou na mi-
nha roupa. Pegou na cama, sofá, cortina, até no armário.
E de repente me peguei fumando o seu cigarro. Aquele
único cigarro que você tinha me dado em alguma das úl-
timas vezes "pra pensar em você". E isso me fez ver como
era em vão fingir ter ignorado seus insistentes desejos de
reincidência.
Ou talvez o que tenha me dado o tapa na cara foi o
fato de estar apoiada na janela da despensa, encarando o
mato dos fundos do apartamento, sem me importar com
a paisagem urbana disruptiva incidental, enquanto ouvia
Marcus Miller.
Não era Marcus Miller, na verdade; era uma versão sua,
que tinha me mandado uns dias antes, e eu, desinteres-
sada em tudo, como sempre, tinha solenemente cagado
e andado.
Eu tinha passado a ouvir jazz. E eu sempre odiei jazz.
De repente ri comigo mesma percebendo que jazz tinha
passado a integrar meus dias de forma natural, como se
sempre estivesse ali. É óbvio que não era o jazz.
Mas até o jazz agora cheirava àqueles tropeços banha-
dos por seu cigarro insuportável. O mesmo que agora se
tornava carnaval em meus pulmões, mãos, roupas pendu-
radas secando no varal do apartamento.
Eu ainda odeio jazz, é claro. Mas ainda assim nós dois
fizemos excelentes improvisos de menor harmônica e
pentatônicas.

Odeio jazz
208 CAROLINA GAIO
E
mim.
m algum lugar dessa cidade, você tá pensando em

O limão mal batido no copo, o gelo que, mesmo no


frio, derrete rápido demais. E as músicas de sempre. As
que falam de desistências, falsas tentativas e amores su-
blimados. Um monte de acordes ladeados em vão.
A cadência da mão do músico é tediosa. Você garga-
lha entorpecida por qualquer insensatez. E se apropria do
alheio e foge de novo.
Alguém furou o sinal, você deu um encontrão em um
cara gostoso, essa fumaça que sopraram agora é de?
Nenhum excesso camufla a vil realidade. Não, não me
venha cheia dos relativismos. Quando foi mesmo que você
acreditou neles?
Por aqui, sigo fazendo meu trabalho, o mesmo de to-
dos nós. Tentando (o verbo da derrota) não enlouquecer.
E tentando, quando não é possível e seu colega de classe,
tão sensato, percebe, fingir que ser louco é descolado e
cheio de personalidade. E feliz. E feliz, principalmente, é
claro. Nunca pode faltar a felicidade.
O único relativismo real é a solidão, minha querida.
Todo o resto é justificativa pra boa guerra de ego, agora
tão bem respaldada pelo dito discurso.
Um monte de mentiras, essência da vida.

209
Mas a solidão, ah, perceba esta pantera. Não só é toda
a realidade e concretude dos vazios, como o campo das
objeções. Você se casou, você tem subordinados leais,
seus amigos disputam sua presença de rainha da festa.
Você é sozinha.
Porque vicia, porque tem um quê de narcisismo, por-
que acolhe, porque só você conhece o pavor transmuta-
do, no que for, que sente.
Você. Sempre. Vai. Ser. Sozinha.
A cadência da mão do músico continua sendo tediosa
quando você volta a perceber. E, creia-me, viver é um
constante voltar a perceber.
Tim-tim.

Tim-tim
210 CAROLINA GAIO
A gente podia se dar uma quinta, sexta, vigésima
chance. Não é poetização, eu não lembro em qual número
estaríamos, nem sei se dá pra definir um.
Foi aquela música do Van Halen. A mesma que já tocou
no bar, no carro, no quarto. Que já trocamos por men-
sagem em algum momento, naqueles arroubos de quero
falar mas não sei se devo. Ela sempre me traz você, não
é hipérbole.
Mas veja você que ironia, de todos e de tantos, nesse
tempo-espaço de mãos, suores e confissões sufocadas. De
amigos surpresos com a nossa jornada. De percebermos
entre copos e alucinógenos de primeira vez... que temos
uma jornada.
Você, logo você.
O nosso rude contraste foi menos categórico que o do
Setúbal. Nós sabemos quantos lençóis tivemos que trocar.
Em quantos bancos de carro e moto deixamos um pouco
desses passos.
Do restaurante universitário à rua de gente grande no
centro da cidade. Você de camisa social, eu com a sua ca-
misa. E seu sotaque mineiro sempre mais marcado quando
voltava da casa dos seus pais.
Das certeiras coincidências na barca, no semáforo, na
festa... das horas marcadas imprevisíveis. Das mensagens

211
na madrugada que faziam parecer que você tinha lido a
porra do meu pensamento, respondendo ao óbvio clichê
do será que ele também tá pensando? Das fodas necessá-
rias, das recusas mais necessárias ainda.
Não tá certo você ficar em mim assim desse jeito.

You know my heart is true


212 CAROLINA GAIO
É muito bom todo esse discurso de não abaixar a ca-
beça, de seguir a luta e essa coisa toda. E ele tem muita
verdade. Mas tem dias que, simplesmente, a gente sabe
que perdeu.
Aquela vaga que você queria no trabalho, aquele con-
curso pelo qual você esperou dois anos, um passo de dan-
ça bobo que não saiu certo na aula, aquele áudio que você
mandou e nunca vai ficar azul.
Não importa o que foi. Às vezes não foi nada disso. Às
vezes foi tudo isso junto.
Às vezes nada precisou acontecer, você só percebeu.
Constatou. Respirou fundo se olhando no espelho e pren-
deu a vontade de chorar. Ou deixou rolar quando tocou
aleatoriamente alguma música do Aerosmith. E você pen-
sou nele. Ou nela. Mas não foi o pensamento que doeu. O
pensamento foi só o estalo mesmo, aquele soquinho final
no peito, só mesmo pra te avisar que você perdeu. É isso.
Você perdeu. Você sabe disso.
A vida é feita disso. Dos golpes de magia e das cons-
tatações das nossas perdas em banheiros de boates de
quinta. Você sai feliz com sua melhor amiga e vê ele bei-
jando outra. Quando você achava que já tinha superado,
é claro. Você chega feliz no trabalho, realizado por estar
ali, e é demitido. Você chega na sua aula preferida e o

213
professor, também assolado pelas próprias perdas, te dá
um esculacho que te deixa triste.
É uma corrente, que, inconsciente e involuntariamen-
te, acabamos transmitindo. Sem muita empatia ou noção
de que os outros também lidam com as próprias perdas o
tempo todo. Meio sem tato com as existências tão profun-
das e particulares do outro, a que nunca temos acesso,
e que fingimos que não existem, vendo suas superfícies,
vendo suas posições e funções em nossas vidas.
Talvez essa seja a maior de todas as perdas.
Tem dias que a gente sabe que perdeu, é verdade. Mas
ainda devíamos conseguir ter consciência de que todos os
outros são existências separadas que também lidam com
as próprias e cruéis perdas. E que, ao mesmo tempo, to-
dos são existências conectadas. Que, juntas, ainda podem
minimizar um pouco das nossas dores.
Vai lá tomar aquele chope agora com seu amigo. Não
inventa essas desculpas pra você mesmo, não. Afoga es-
sas perdas. Enquanto a gente respira tudo continua sendo
mar de oportunidade. Salut!

Tem dias que a gente


sabe que perdeu
214 CAROLINA GAIO
Seus olhos de pentatônica facilmente me improvisam
E, como síncope, acordam do meu corpo tempos im-
prováveis
Desnudam de mim os intervalos e os impropérios
De urgentes desejos e necessidades improrrogáveis
E marcam compassos, que, não fossem seus, seriam
impróprios

A consonância que verte em arrepio minhas pernas


Torna axilas e cotovelos hereges sustenidos
De gemidos tocados em antigos pianos de tavernas
Em escala cromática que de imprecisas comas me go-
verna
Pelo maestro que de precisos movimentos me rege

Se trago ombros de escala menor e passadas tardias


Meus quadris, quando te envolvem, viram samba fun-
keado
E, de quinta desajustada, a escala maior que irradia
Arma a clave conforme a música se escreve leve e va-
dia
Livre, como nossas mãos e pernas confusas em legato

215
Sua boca de acordes dissonantes meus pelos revolta
E, no groove sincopado que recorda, pedem pra você
ficar
Quando minha nuca de solfejos e malabarismos é ri-
balta
Fusas são breves, pedindo pra parar, seguir, continuar
E de onde não se espera todo o virtuosismo faz escolta

Arrebenta como cordas que excedem a afinação minha


calcinha
E vem com forró em distorção, vem com barroco em
improvisação
Se os solos de guitarra forem seus, aquela música não
é minha
E com seus dedos transcende minha pele e minha cama
E distorce também minha mente, e toca também mi-
nha chama

Ritornelo
216 CAROLINA GAIO
A cendo um cigarro, o cheiro insuportável da fumaça
preenche a sala, se misturando à chuva anunciada. O Neil
Young que toca na vitrola me traz a paz dos fantasmas já
reencarnados e libertos.
A música em tom maior vem me mostrar que todas as
cartas estão na mesa. Há sempre a opção de desistir do
jogo. Mas as apostas não são assim tão voluntárias, e toda
consciência é desenhada pela ilusão.
Andei ocupado vacilando por lugares desconhecidos,
que, calados, se recusaram a me dar respostas. Agora res-
piro as paredes do cotidiano. Os ventos que me abrigam
são os mestres da santa ordem.
Tudo em seu lugar são as portas do caos total, e eu rio.
Persigo sombras, ainda, incerto se assim permanecerei.
Sou fronteiras, sou ilhas, sou imprecisas oscilações. Sou
tudo o que não se estabiliza. O corte categórico que me
julga também me estapeia, dizendo o quanto há razão em
sermos estranhos.
Lúcido das limitações do agora, do quanto estar no
olho do furacão turva os horizontes. E me resta a risada.
Me restam a música, a fumaça, o pensamento. Todos são

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sólidos em seus parcos momentos, e então se dissipam,
como se nunca tivessem existido.
Comigo, tenho somente minha aposta solitária e cega.
Porque a verdade é que você só sabe se foi azar ou sor-
te... depois que já não faz a menor diferença, e passa.

Eu falo de amor à vida;


você, de medo da morte
218 CAROLINA GAIO

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