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Kou/roj

CUROS (TESEU)
Tragédia em três atos

Nikos Kazantzákis

PRIMEIRO ATO

Palácio de Cnossos. Teseu diante da porta do Labirinto. No alto, a lua cheia. Aproxima-
se a meia-noite.
TESEU - Banharam-me, untaram-me com perfumes, coroaram-me de açafrão e lírios;
mulheres de cabelos encaracolados e peitos desnudos, girando os braços banhados
pela lua e circundados por serpentes, dançaram ao meu redor, arengando seus
incompreensíveis esconjuros. E agora aqui estou, postado à meia-noite diante da porta
do Mistério, sob a lua cheia cretense, eu, o príncipe de Atenas, filho do sol, uma
sagrada rês para o sacrifício! Diante de mim sete anciãos, definhados eunucos
segurando velas acesas; atrás de mim sete austeras matronas, ungidas sacerdotisas
de sua Grande Deusa de pesados seios. Para me trazerem até aqui, à Porta da vida ou
da morte, guiaram-me lentamente, de escadaria em escadaria, vaguearam comigo de
andar em andar; à minha direita e à minha esquerda assinalavam-se torres, pátios,
terraços e gineceus; sobre as paredes, pinturas com todas as terras e mares e
pássaros do ar. Baixas colunas grossas, purpúreas e negras, feitas de perfumada
madeira de cipreste, pássaros exóticos, símios e perdizes, sagrados machados duplos
de ouro e bronze, jardins suspensos com amaldiçoadas árvores desconhecidas e flores
insolentes, perfumes e odores fétidos, mugidos e lamentos sob a terra, cantos e risos
sobre a terra, olhos maliciosos que chispavam, espreitando na escuridão – tudo isso
para eu ver, ter medo e minha razão transtornar-se. Mas eu te mantinha no
pensamento, ó rochedo de Atenas, sólido, ensolarado e inexpugnável, e, em meu
intercílio, um deus efebo, arquiefebo, só meu! Impregnaram-me de pesadas bebidas
embriagantes, mas eu não me embriaguei. Todas as noites deitavam em meu leito uma
mulher, mas eu não tocava nela, guardando minha força imaculada para o momento
crítico. E agora, sóbrio, casto e imperturbável, estou à espera de seu Grande rei com
as chaves de ferro sagradas, para tomar-me as armas e abrir-me a porta, que eu
desça ao Hades – e a luta comece! (Nas profundezas da terra, sob os pés de Teseu,
ouve-se um mugido de satisfação.) Eu te saúdo, ente antropófago do mundo
subterrâneo: ao me farejar saltaste faminto, lambendo os beiços e me dando boas-
vindas! Salve! Eu vim! Minha carne tem cheiro de mar, nos meus lábios ainda guardo o
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aroma acre do pão seco de cevada e da azeitona amarga de minha pátria; venho
carregado dos sóis, chuvas e ventos do mundo sobre a face da Terra, e meu coração é
uma amêndoa dura que quebra os dentes: eu quebrarei os teus dentes! Sei que
permaneces aí embaixo, na úmida escuridão, dissimulado, peludo e muito fétido, com as
mandíbulas bem abertas, esperando por mim. Uns dizem que és um grande Verme que
comeu em excesso, que se desenvolveu em demasia e virou uma fera; outros dizem que
és o rei do subterrâneo, com uma cabeça taurina de chifres retorcidos e, outros,
ainda, que és um deus. Não creio em ninguém: descerei, lutarei e julgarei sozinho.
(Silêncio.) O momento crítico está suspenso sobre mim, como uma espada a prumo; à
luz da lua, ele se estende e tolda a mão do Destino que segura uma balança: no prato
da direita, um grande império, muito amado, acasalado com um touro, cheio de
cosméticos, ornamentos e perfumes, para encobrir sua fetidez e, no prato da
esquerda, eu, completamente só. Com a mão em pala protejo os olhos do sol e
contemplo, por entre as oliveiras de ramos prateados, a porta azul da minha pátria, o
mar. Elevo a voz e exclamo: Ó caro companheiro da minha juventude, vem! Neste
instante, juntos nos perderemos ou nos salvaremos: socorro! Cavalga as incontáveis
ondas, ergue acima da espuma tua cabeça de louros cachos, olha-me: tu te lembras de
mim? Sou Teseu! Numa tarde ensolarada, eu nadava solitário numa luminosíssima praia
de seixos da Ática: sobre mim um sol suave; atrás de mim rumorejavam, alegremente,
os pinheiros; diante de mim, até o vasto litoral de Creta, o mar. Subitamente me virei:
tu nadavas comigo! Minha força cresceu por inteiro, nós dois estendíamos os membros
em largas braçadas, com as palmas das mãos atirávamos as ondas para trás e
apostávamos quem ultrapassaria o outro. Às vezes avançavas, eu me aborrecia e
arrojando-me te alcançava; às vezes ficavas para trás e, contrariado, saltavas, pulavas
como um golfinho, alcançando-me. Eu te estendia a mão, nós nos reconciliávamos, já
não competíamos mais, fendíamos o mar, um ao lado do outro; as ondas tornaram-se
montarias, o mar espumou e relinchou, e o velho Posseidon emergiu de suas grutas
verdes, olhando-nos com admiração e susto. E nós ríamos e o deus também ria conosco,
por mares e praias; saciamos nosso vigor e apeamos das ondas. Estendi-me nos seixos
aquecidos e tu ficaste de pé, com o rosto voltado para o mar, secando ao sol. Com
arrebatamento, meu olhar subia e descia sobre ti, caro amigo, e eu te admirava: tuas
pernas como colunas de bronze, teu ventre compacto, teu peito largo reluzindo
salpicado de uma finíssima camada de sal, teu pescoço era como uma fortaleza
inexpugnável e teus carnudos lábios nunca beijados maceravam-se tenuemente,
franziam-se e, pouco a pouco, por todo o teu corpo, dos calcanhares ao alto da cabeça,
derramava-se um sorriso profundo, misterioso, repousado, como se tivesses dormido
por anos a fio e agora despertasses; abrias calmamente as pálpebras e olhavas o mar,
as montanhas, as ilhas, os barcos – tudo teu! E enquanto eu te admirava em silêncio,
estendeste bem o braço direito, como se te apoderasses do ensolarado mundo visível à
tua volta. Tateando, elevaste o pé e, como uma asa virgem que pela primeira vez
experimenta sua força, tu avaliaste tua força, tomaste impulso e desapareceste no ar
muito azul, mas permaneceste sólido e eterno no meu pensamento. Porventura
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regressarei à pátria, um dia? Regressarei! E cortarei uma tosca pedra de montanha, da


nossa montanha, para talhá-la, nela esculpir teu corpo e guardar-te em meu palácio,
meu escravo e meu deus, ó caro companheiro, para nunca mais fugires! Diante de nós
há muitas lutas por combater, companheiro, há muitas feras ainda em nossa pátria,
ainda muitos deuses disformes, vis e maus: nós dois partiremos, um ao lado do outro,
para matá-los. (Apontando a porta do Minotauro.) Comecemos por este!
(Ouve-se nesse momento, mais forte e muito ameaçador, o mugido do Minotauro.
Surge o Capitão do barco.)
TESEU - Ei, Capitão, este momento é perigoso e perigoso este lugar, volta para o
barco! Prepara as velas negras, sereno e sem nenhuma certeza; e prepara também as
velas brancas, todas as portas do incerto estão abertas, aguarda! Amanhã brotará das
ondas um novo sol, um novo deus: aguarda minha ordem!
CAPITÃO - Meu príncipe imorredouro, sou um velho corsário e aprendi, pagando com
meu sangue, a não confiar nessa meretriz que é a seviciadora Sorte! E enquanto
banhavam, aromatizavam e alimentavam tua nobre pessoa com leite, mel e pinhas para
engordares, eu mantinha o olhar firmemente cravado em meu objetivo, passeava e me
deleitava, mas sem que me seduzissem todos esses prodígios de Creta – palácios,
mulheres, praças de dança, mercados de escravos, portos – e, com astúcia de corsário,
tramava em meu pensamento como te livrar da morte!
TESEU – Como me livrares da morte? Capitão, que desfaçatez é essa? Tu que me
salvarás? Somente de mim, daqui deste peito, brota a ruína ou a salvação: não aceito
ser salvo, não posso ser salvo ou arruinado por ninguém mais!
CAPITÃO - És o filho único do nosso velho rei, a grande esperança das nossas
crianças, de ti depende a pátria, acho que eu não tinha necessidade de pedir tua
permissão para te livrar da morte: eu tinha o dever!
TESEU - Sou o filho único do meu deus, de ninguém mais; sou o filho único de mim
mesmo, de ninguém mais! E luto, sem cessar e com obstinação indestrutível, para
tornar-me aquele que eu desejaria ser. Não procures além: este instante é perigoso,
estou dizendo, parte!
CAPITÃO - Ergo meu braço e saúdo a juventude: é a deusa mais graciosa, feita de
orvalho e pó; antes que murche, rapidamente me inclino e reverencio a sua graça;
porém, também a opinião do homem maduro tem valor, assim como a dos jovens. Não,
não és um príncipe do opulento Oriente, és a alma livre da Hélade sutil, amas as almas
livres: eu vou falar!
TESEU - Fala.
CAPITÃO - Vocês todos, rapazes e moças - o cortejo de reses para o sacrifício - que
velejaram para ancorar dentro da boca larga do deus antropófago, faustosamente
encarcerados no Palácio labiríntico estavam aguardando, em meio a banhos, perfumes
e régios alimentos e bebidas, este feroz instante da morte.
TESEU - Este feroz instante da Luta, deves dizer, da Luta, não da morte: pesa bem as
palavras, Capitão. Não faças maus presságios e não construas o futuro olhando a tua
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pessoa, em conformidade com a tua pessoa: isso não está nas tuas mãos, está nas
minhas! Eu vou descer às entranhas da terra para lutar.
CAPITÃO - Até agora quantos desceram às entranhas da terra, meu príncipe marcado
para morrer? Quantos rapazes e moças da nossa escravizada Atenas? Calcula! E
quantos subiram e reviram a luz do sol? Um? Nenhum! Então, por que ser confiante, ó
corpo altivo adornado de lírios? O que esperas?
TESEU - O inesperado. Aprende: o homem digno não possui outra esperança neste
mundo. Mas o teu cérebro é grosseiro, Capitão, o teu cérebro é uma balança de
mercador ladrão, com pesadas correntes e ganchos, grosseiramente acostumada a
pesar mercadorias vis, alfarroba, madeira e carne, e não finas pérolas!
CAPITÃO – Meu cérebro é grosseiro, mas firme: não tem asas, tem pés, pisa
solidamente a terra, anda e não cai. Eu pisava a terra e seguia, e enquanto eu seguia –
não vires o rosto, príncipe, ouve a mensagem que te trago, é uma pérola preciosa! -,
enquanto eu seguia, uma nobre dama, de seios impetuosamente expostos ao vento,
cabelos soltos encaracolados, lábios carnudos pintados como uma figura de proa de
embarcação, essa dama foi atrás de mim. A noite havia caído, a lua subia...
TESEU - Não poluas o ar puro e esta decisiva noite de lua cheia com exalações
femininas: basta a insuportável fetidez que sobe por esta porta!
CAPITÃO - Tu deste permissão, meu príncipe, não voltes atrás com a tua palavra. Eu
falarei: tu te encontras diante da porta da morte e tu ouvirás. Ouve: era uma
sacerdotisa da Grande Deusa de seios cheios de leite que, nesta nobre ilha, os homens
morenos de cabelos anelados idolatram. Aproximou-se de mim, olhou-me pestanejando,
demorada e acariciantemente, da ponta dos pés ao alto da cabeça, e sorriu. “És um dos
homens louros que vieram do Norte?” - perguntou-me. “És o capitão que trouxe as
carnes saborosas e tenras para o nosso deus? Tenho uma mensagem para ti!” Calou-se
e seus olhos grandes, negros e de cílios longos, como os de uma corça, moveram-se
brincalhões: olhou minhas pernas grossas, meus flancos, meu peito batido pelo mar,
minha barba, meus cabelos. Inspirou profundamente, fremindo as narinas. “Tens
cheiro de caranguejo” – disse-me ela, “tens cheiro de mar, gosto de ti!” “Também
gosto de ti, minha dama” - respondi, “exalas o odor de um jardim suspenso florido,
abre para que eu entre: meu olho avistou duas maçãs, eu as cobicei e quero colhê-las!”
“Tu tens a chave” – retorquiu ela rindo, “vem!”, e piscou o olho com malícia. Seguimos o
rio e a lua cintilava sobre nós, como um sol branco. Fomos a um jardim frondoso,
pássaros noturnos suspiravam nas cavidades das árvores, sobre nossas cabeças um
rouxinol invisível cantava e nos guiava, nós nos enfurnamos em enormes lírios.
TESEU - Basta! Onde está a mensagem? Teu juízo transtornou-se, Capitão, esse rio é
encantado e cheio de lótus venenosos muito doces: comeste a flor escura e polpuda,
mulherengo, e tua memória obscureceu-se!
CAPITÃO - Não, juro pelo mar! Não se obscureceu: estendeu-se, alargou-se, rompeu
as fronteiras do pensamento helênico. Agora passo a refletir: que bárbaros brutos,
que grosseiros somos, em nossa terra, meu príncipe! Homem e mulher unem-se como
dois porcos, como bode e cabra, como dois cães: ainda não conseguimos transformar a
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mordida em beijo; mas aqui o beijo, meu príncipe, é um labirinto: tu entras nele e te
perdes.
TESEU – Respeita a juventude casta, ó arrebatador de mulheres: não toques a
intocada penugem. Livra-te rapidamente das alegrias despudoradas. Não te aproximes
de mim, minhas entranhas têm engulhos, tu exalas cheiro de mulher: a mensagem,
rápido! Um deus, o meu deus, está nos ares da noite e acena-me para que eu te ouça;
por isso tenho paciência, por isso continuo te interrogando e não te expulso: fala!
CAPITÃO - A filha primogênita de Minos, Ariadne, a virgem indomável, durante todo o
dia de hoje esteve lutando na arena com o touro: jamais vi tal agilidade, segurança,
delicadeza e exuberância de corpo! Içava-se pelos chifres da fera, pulava em sua
garupa, dançava sobre o dorso feroz e turbulento e, como um raio, desmontava e
recomeçava a luta. Não era uma luta, era uma brincadeira sedutora e perigosa, era um
amor inquietante, sagrado e execrável, que engendra os deuses e os monstros.
Admirando a luta, dizes: é verdade, era uma vez um tempo em que fera e homem eram
um só; eram um, e uma espada impiedosa separou-os; e agora se reencontraram
imprevistamente nestas arenas marmóreas e lançam-se com ódio e amor para
novamente se unirem, para voltarem a ser um só. A fera e o ser humano lutavam,
reconciliavam-se, uniam-se; separavam-se, refundiam-se, uniam-se outra vez. Ah -
secretamente eu pensava e desejava com ardor -, ah, se eu fosse um touro, se eu
fosse um touro e pudesse brincar com ela!
TESEU - Por que me contas todos esses descaramentos? O que tenta obter, nesta
hora, tua graciosa e dengosa jovem que luta com touros? Por que ela teve a petulância
de introduzir-se entre mim e meu destino?
CAPITÃO – É a mim que perguntas, príncipe? Pergunta ao cruel espectro despudorado
que toma as mulheres pela mão, no meio da noite, e as conduz aos homens por
estreitas e tortuosas vielas: e o temível deus andrógino começa a triturar! Por baixo
da mulher, uma pesada e escura pedra de moinho, movendo-se veloz – o destino; por
cima, uma pesada e escura pedra de moinho, movendo-se veloz - o homem: e ela, no
meio, como um cálido grão de trigo, dança!
TESEU - Basta, recuso-me a ouvir mais: quero a mensagem! Deixa os touros, as
mulheres e os destinos: a mensagem!
CAPITÃO - Não te enfureças, não cerres os punhos, estou chegando à mensagem.
Quando já saciados nos levantávamos do meio dos lírios enormes, a minha parceira
voltou-se, dizendo-me: “Eu sou sacerdotisa da nossa célebre e casta princesa Ariadne
– grande é a sua graça! –, a primeira no leme, no arco, na pedra, na tauromaquia. Ela
jamais aceitou abrir os braços para receber um homem: não conspurcada, imaculada,
ela guarda seu vigor para o trono. O rei envelheceu, o reino também envelheceu junto
com ele, e nossa princesa reserva orgulho, virgindade e juventude para renovar Creta.
Porém hoje, ao amanhecer, o olhar dela captou o fidalgo de louros cachos nas
têmporas e seu coração mugiu como uma novilha. Pela primeira vez, com alegria e
temor, ela sentiu que é mulher; pela primeira vez abriu seus braços vazios e suspirou.
Levanta-te, corre e diz ao mais valente dentre todos, a Teseu, que aguarde minha
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senhora, à meia-noite, aprumado diante da porta do Labirinto.” (Silêncio. O Capitão


avança um passo, estende as mãos.) Essa é a mensagem, único filho de nosso idoso rei,
em tuas mãos venho depositá-la, perfumada, recém-banhada e cálida, como um corpo
de uma nobre dama!
(Silêncio. Perturbado, Teseu avança um passo. Escuta com atenção.)
TESEU – Excessivas vozes, perigosas e sedutoras, confundem-se no ar... A morte, a
vergonha, a honra, a alegria, a imortalidade, todas as coisas sobrenaturais têm bocas,
asas e garras, sobem e descem no ar, engancham-se nos nossos ombros e falam. É
preciso – é um grande dever - que eu distinga e escolha, sem piedade e com lucidez! A
Sina pode adquirir incontáveis faces encantadoras para nos fazer cair no abismo: ó
minha alma casta, tem cuidado!
CAPITÃO - O que murmuras para o ar vazio, príncipe? Dirige teus olhos para a terra!
Sou teu cão de caça, estende as mãos, pois eu te trago, ó caçador, um animal selvagem
penugento e muito saboroso - como chamar? Perdiz? Mulher? Coroa real? Não sei:
degusta-o, e tu me dirás.
TESEU - Onde está a tua amiga, a tua amada oculta?
CAPITÃO - Ainda está deitada entre os lírios como uma leoa que comeu e se lambe.
Pode ser também que tenha caído no sono, para adquirir vigor. Depois da meia-noite,
com a tua permissão, meu casto príncipe, ela me aguarda para que a contenda
recomece.
TESEU – Vira o teu rosto, para que eu não veja o denso e lodoso sorriso da tua carne
saciada. Ouve minha ordem, Capitão, vai despertá-la e diz: “O príncipe de Atenas
recusa-se a ver tua senhora, o pensamento dele está no combate com a fera do mundo
subterrâneo, outro combate ele não aceita. No momento crítico em que se decide o
destino humano, ele não aprecia brincadeiras!” Vai dizer isso. Cala-te agora, deixa-me
só! (Silêncio. O Capitão faz menção de partir, arrepende-se. Vai pegar a mão de
Teseu, mas este a puxa com desprezo.) Larga minha mão, não caias aos meus pés, o que
queres?
CAPITÃO - Meu príncipe, eu sou um homem feito, tu és ainda um garoto imberbe, eu vi
e padeci muitas coisas. Nestas minhas viajadas mãos de corsário pesei a glória, a
honra, o prazer, o medo, tudo!
TESEU - E o que descobriste?
CAPITÃO - Isto: que no mundo só existe um bem indubitável.
TESEU (com desdém) - A mulher?
CAPITÃO – Não a mulher - não zombes, príncipe -, mas sim cada momento fugaz, esse
é o bem supremo: tem a duração de um raio e se apaga para sempre. Às vezes o
chamam “mulher”, às vezes “glória”, às vezes “valentia e morte”, às vezes “virtude e
sacrifício” e, às vezes, “deus”. Ele pode adquirir muitas faces – e de fato adquire -,
porém é sempre igual. Não digas que é exíguo, porque até a maior alma cabe nele, cabe
e sobra. O destino do mundo pode depender de um momento. Meu amado príncipe
marcado de morte, é bom esse momento que passa sobre ti. Pode ser que seja –
infelizmente! – teu último momento: explora-o! Não o deixes passar inexplorado, ele
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não voltará nunca mais, explora-o! Para onde estás olhando? Por que franzes o cenho?
Durante o dia todo ela brincou com o touro na arena e esta noite seu corpo estará
fumegando, todo cheio de suor e ímpeto amoroso, ainda envolto no hálito acre do deus
com chifres de touro. Agarra-o! Ouves, meu príncipe? Não voltará nunca mais. Esse
momento que ora passa sobre ti chama-se Ariadne: agarra-o!
TESEU – Capitão, que despudorado deus forasteiro, que grande inimigo te envia esta
noite para perto de mim? Sai, leva minha mensagem e parte. Não quero que ela venha:
recuso-me! A Sina, cega, pode querer, mas eu não quero. Este momento não se chama
Ariadne, chama-se Combate.
CAPITÃO – A Sina não é cega, não blasfemes, ó juventude arrogante, cega é a alma do
homem. Ouve: brincos e braceletes no ar... Onde está a mensagem que me confiaste?
Espalhou-se aos quatro ventos! A Sina vem vindo! Não ouves seus brincos e
braceletes? Seus passos leves, impetuosos e calculados como os passos de um tigre? A
Sina vem vindo!
TESEU – Que Sina?
CAPITÃO – A filha de Minos: ei-la!
(Ariadne, arrogante, olha Teseu altivamente. Este, de cabeça erguida, imóvel crava os
olhos nela. Silêncio prolongado.)
ARIADNE – Não cais por terra para me reverenciar? Sou a filha primogênita de
Minos, a jovem que luta com touros, filha de Pasífae amada por um deus e irmã do
antropófago deus Minotauro: sou a princesa Ariadne! (Silêncio.) Como ousas ainda
erguer a cabeça e pousar teus olhos sobre o meu rosto? Inclina a cabeça, abaixa os
olhos! Quem és?
TESEU – Eu sou um bárbaro, pobre e orgulhoso. Ouço de que sangue célebre tu
descendes, com deuses enxertados – Minos, Pasífae, Minotauro; contemplo a coroa de
lírios dourados em teus cabelos, os braceletes dourados com cabeça de serpente, os
dourados brincos tilintantes e as três voltas de régios corais em teu pescoço; aspiro o
pesado odor de almíscar que tuas negras tranças ondulantes derramam no ar noturno
– e não tonteio! Mais alto, num cume mais austero e sem adornos, eu depositei a
virtude e o valor do homem. (Ariadne ri baixo, com escárnio, e avança um passo; Teseu
recua.) Filha da Noite, que queres de mim? Por que a nobre dama, esta noite, num
momento tão difícil, dignou-se de vir encontrar o bárbaro? Não tenho nada para
repartir contigo.
ARIADNE – Não tens nada para repartir comigo porque queres tudo para ti! Não
abanes a cabeça, não negues! Antes que ancorasses no nosso porto, mensageiros
secretos nos deram notícia de tudo.
TESEU – Tudo? Eu conservo grandes segredos aferrolhados em meu pensamento,
segredos que somente um conhece: o meu deus.
ARIADNE – E eu também! E conheço ainda outros segredos teus enfurnados
profundamente, até por ti ignorados, porque ainda não subiram dos teus rins para o
teu coração, do teu coração para o teu cérebro, ainda não ficarem nítidos para tu
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poderes vê-los, seja porque tens vergonha de olhá-los cara a cara, seja porque tens
medo.
TESEU – Que procuras adivinhar nos meus olhos? Nos meus olhos não verás senão
aquilo que eu quero que vejas: mar, barcos quase prontos e um rochedo tostado pelo
sol, acidentado e completamente nu - a minha Pátria. Nada mais!
ARIADNE – Nada mais?
TESEU – Se olhares mais fundo verás novamente mar e uma frota novíssima, com as
proas enfileiradas em direção ao Sul e, em torno do rochedo, uma cidade impoluta e
guardada por uma divindade. Nada mais!
ARIADNE – E ainda mais fundo?
TESEU – Mais fundo ainda, novamente mar, e de pé na praia, envolto em luz, imóvel
diante do fluxo incessante da água, verás postar-se solitário, com o braço estendido, o
meu deus. Ninguém mais! Eu te revelei, filha de Minos, todos os meus segredos, em
três patamares: revelei-os a ti, irmã do Minotauro, porque não tenho medo.
ARIADNE – E ainda mais fundo? Mais fundo, além do deus?
TESEU – O espírito de Teseu, nada mais. O espírito laborioso. O talhador de pedras, o
lenhador, o remador, o guerreiro. E além, no topo, o espírito legislador. Atrás do
espírito, o caos.
ARIADNE (rindo) – Aí estou eu, não me vês? Aí, atrás do teu cérebro, em meio ao
caos, estou espreitando. E se eu me mover derrubo por terra, sem compaixão, tudo
aquilo que constróis e, se eu rir, torno a precipitar no caos teu espírito, teu deus, tuas
frotas e tua nova cidade! Não avances, não mordas os lábios; não apalpes o punhal de
cabo negro que tens astuciosamente escondido no cinto: conheço bem esse pequeno
punhal enferrujado e não tenho medo dele. Antes de entrares no barco - também isso
nossos mensageiros contaram - levantaste a pesadíssima laje da sepultura de teu
antepassado, o campônio lanudo, e pegaste o punhal; e agora te orgulhas, porque
pensas que ele supostamente comanda forças mágicas, pensas que com ele cortarás e
comerás o mundo, ó lunático!
TESEU – Não zombes de meus ancestrais! Respeito para com as forças obscuras da
terra!
ARIADNE - E essas sandálias douradas, único precioso adorno nobre que usas, eu sei
onde as achaste, numa tarde, em quais seixos da praia. E sei também, ó louco
orgulhoso, de quem te gabas que elas supostamente sejam! (Ri com sarcasmo.) Por toda
a parte, para onde quer que se virem, os bárbaros só veem uma coisa no ar: o deus!
TESEU (com raiva) – Vocês também o verão, fidalgos requintados, com seu espírito
satisfeito, com seus cosméticos espessos, um dia também o verão, mas não no ar e sim
sobre a terra, em seus palácios, leitos e jardins, a saltar de teto em teto, de cabeça
em cabeça, resplandecente e envolto em chamas!
ARIADNE - Isso é o que desejas! Por isso entraste voluntariamente no barco corsário
e vieste a nós! Quando jogaram as pedras da sorte na tua aldeiazinha – Atenas -, para
escolher quais seriam as novas vítimas do sacrifício destinadas ao nosso deus, o
sorteio não caiu sobre ti; tu, porém, pisoteando a sorte, forçando o destino, mesmo
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sem teres sido contemplado, saltaste para dentro do barco de asas negras e vieste a
nós. E não respeitaste, ó nobre senhor, as forças obscuras da terra: pelo contrário,
ousaste requerer a graça de, totalmente só, poderes descer aos alicerces de Creta
para combater e matar o nosso deus!
TESEU – Sim, porque ele deseja matar-me, de outro modo eu nem viraria o rosto para
olhá-lo: não me agradam deuses que possuem cabeça de cão, de chacal ou de touro, que
ainda não conseguiram suplantar o animal. Sim, vou descer para lutar com ele e, se
puder, eu o matarei!
ARIADNE – E depois? E depois? Coragem, ó belo jovem, confessa tudo que tens em
mente!
TESEU - E depois subirei para a luz, já estará amanhecendo e eu entrarei cantando no
barco com meus companheiros, para o regresso à pátria.
ARIADNE – Nada mais? Não sentes repentinamente se elevar dentro do teu peito uma
intolerável doçura, um desejo ardente, uma nova façanha?
TESEU – Não. Meu peito está sereno, austero, meu espírito isento de despudoradas
doçuras e, por ora, a façanha de matar a fera me basta. Nada mais, por ora!
ARIADNE – Não, não te basta. Sei de um recente segredo teu, ó filho mimado de
Atenas: ainda não suspeitaste dele porque nasceu agora, está aí, nas profundezas das
tuas entranhas, cego e lanudo como um filhote de leão recém-nascido, e está subindo...
TESEU - Que segredo?
ARIADNE – O mais audacioso, o mais ímpio, aquele que ainda nenhum dos grandes reis
da terra teve a desfaçatez de botar na cabeça; mas tu tiveste essa desfaçatez!
TESEU – Diz.
ARIADNE – Poderes me raptar e levar ao teu barco para partirmos!
TESEU – Eu? Eu? Nunca! Raptar-te e partirmos? O que fazer contigo? Minha alma
toda resiste, rebela-se, não te quer. Meu corpo inteiro recusa-se a tocar em ti!!
Meus rústicos ancestrais erguem as lajes de seus túmulos e te atiram pedras para que
fujas, ó filha de Pasífae, a que foi amada pelo touro!
ARIADNE – Por que gritas? Por que te assustas? Então minha seta encontrou tão
certeiramente teus rins que tu berras de dor? Eu desvelo tuas entranhas, repara: dos
pés aos joelhos, aos flancos, às ancas, ao peito, sobe o desejo ardente de me
arrebatares. “Que divino fruto da terra é esse?” – suspiras no íntimo. “Que fruto
maduro, nunca mordido, repleto de polpa e mel?!” E desejas despir-me, com pressa e
arroubo, como despelamos um figo bem doce, quando temos fome e sede. E tu, ó
bárbaro de olhos azuis, tens fome e sede, porque ainda não tocaste em mulher!
TESEU – Entenda que eu poupo minha força para grandes obras, não para desperdiçá-
la com mulheres. O meu deus é masculino: chegará o momento em que ele escolherá
para mim uma virgem, dentre as moças de ossos robustos da minha pátria, uma sem
adornos, nunca beijada, com largos quadris para que com ela eu faça filhos e filhas. O
teu sangue é misturado com deuses e animais, é contaminado, exaurido, não pode mais
nutrir filhos e filhas – eu não o quero!
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ARIADNE – Ó tourinho selvagem de cachos nas têmporas, berras e tentas arrancar a


canga, porque te retenho estreitamente com minhas duas mãos pequenas e indomáveis.
Ainda agora, quando eu surgi, ousavas olhar-me dentro dos olhos, ainda não tinhas
tramado o rapto em teu pensamento; mas agora observas ao longe o mar cúmplice e
com ele combinas raptar-me, partir, fugir!
TESEU – Vim combater um deus, não vim roubar mulheres: bem acima de meus rins
assenta-se minha alma. Eu não quero partir, fugir; estes braços, ó novilha não
copulada, jamais tiveram medo: pode interrogar tanto as feras quanto os ladrões de
minha pátria.
ARIADNE – Não tens medo? Então vem lutar comigo; durante o dia todo estive
lutando com o touro e o derrubei: também te derrubarei!
TESEU – Luta quer dizer abraço: não quero!
ARIADNE – Luta quer dizer abraço: e tens medo. Temes o perfume que se derrama de
meus cabelos, minhas unhas pintadas, o escuro e refrescante labirinto de meu corpo -
se nele entrares não sairás vivo; temes o retorcido e antropofágico labirinto de meu
cérebro - se nele entrares, camponesinho simplório, não sairás vivo! Tu te agarras à
coluna, olhas para todos os lados, esperneias, buscas e te enfureces; mas entraste nas
minhas cerradas redes e, quanto mais te reviras e esperneias, tanto mais te enredas,
afundas e te aniquilas nas sinuosidades do meu cérebro e do meu corpo!
TESEU – Sou filho do sol, odeio voltas, reviravoltas e escuridão. Filha da Noite,
admite claramente: o que queres de mim? Sim, sou um camponês, meu pensamento
fomenta mil desgraças e enfureço-me dentro deste Palácio tortuoso. Estou cercado
de serpentes, não tenho confiança: quem te envia? Por que viras a cabeça para o outro
lado? Eu pergunto: quem te envia?
(Silêncio. Ariadne olha Teseu com inquietação; sua voz é baixa e triste.)
ARIADNE – É esta noite de lua cheia que me envia; não perguntes mais.
TESEU – Que queres?
ARIADNE (inclinando-se e em voz baixa) – Toma-me!
(De repente ouve-se, das profundezas da terra, o gemido do Minotauro, cheio de
lamento e amargura. Teseu, inquieto, escuta com atenção.)
TESEU – A terra gemeu!
ARIADNE – Não foi a terra, não olhes para a terra, afasta-te da porta do Hades: eu
que falei contigo - ai de mim! -, eu que gemi... Toma-me! Por que me olhas espantado?
Não sei como as mulheres se entregam aos homens. Começam a cantar como os
pássaros, ou lançam-se sobre eles e lutam, como as fêmeas dos chacais? Será que os
matam e comem, como as aranhas? Gabei-me de saber tudo - ai de mim! -, não sei
nada: não sei como as mulheres se entregam aos homens. (Ouve-se novamente o
gemido do Minotauro, cheio de amargura. Teseu move-se inquieto, para a esquerda e
para a direita, para todos os lados, inclinado sobre a terra, para localizar de onde vem
o mugido.) Não te assustes, ó tu de cabelos louros: é o nosso deus que muge. Ouviu a
fala terrível que proferi - ele ouve tudo - e a amargura invadiu-o. (Ela cola a boca na
porta.) Meu irmão, não te trairei, não te queixes: por ti labuto sobre a terra, por ti,
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meu bem, para que não mates e não sejas morto. Minha alma vai e vem entre duas
espadas e fere-se. (Aproxima-se de Teseu; a voz dela é muito doce, cheia de desejo.)
Toma-me! Esta noite pela primeira vez - digo isso e não me envergonho -, pela primeira
vez, logo que te avistei, senti meu coração mugir como uma novilha não copulada que
avistou um touro!
TESEU - Quem te enviou?
ARIADNE – Não me perguntes quem me enviou, vamos partir. A noite paira sobre nós,
todos dormem, nenhuma alma nos verá. Meu pai só ama a mim e se souber que estou ao
leme, ao teu lado, não nos perseguirá! E depois, com o tempo, quando tiver o primeiro
neto, ele se reconciliará conosco, meu bem, e te concederá sem lutas, pacificamente,
Creta com o mar inteiro repleto de barcos.
TESEU – Que nova armadilha é essa? Como mudou tua voz, como se desfranziu teu
cenho, falas como uma mulher! Tu abres os braços para me reteres, para não me
deixares ir ao subterrâneo lutar. Não me enganas: com palavras sedutoras tu te
esforças para livrar teu deus de cabeça de touro!
ARIADNE – Não te bastam os rebanhos humanos para cravares tua espada, para
desfrutares de tua força, ó combatente imberbe? Por que queres lutar com os
deuses? Deixa os deuses mugirem e vamos partir! Vem, conheço uma vereda oculta
para chegarmos logo ao porto, pularmos no barco, desfraldarmos as velas negras...
TESEU (com pavor) – As velas negras?
ARIADNE – Por que coraste, impiedoso filho único; sim, sim, conheço também esse
abominável segredo, o mais profundamente enfurnado no teu cérebro: desfraldarmos
velas negras, para que ao vê-las o teu velho pai caia no mar e se afogue – e para nós, os
jovens, subirmos ao trono. Temos grandes obras para concluir, não podemos esperar;
iça as velas negras, Capitão, o novo deus tem pressa!
TESEU – Um demônio cruel e sanguinário fala pela tua boca! Sacerdotisa da Noite, teu
olhar lavra em profundidade o meu peito, tuas palavras são sementes venenosas
dentro dos sulcos do meu cérebro! (Silêncio) Velas negras?!
ARIADNE – Amado príncipe bárbaro, não temas, esse é o dever do filho único: somos
jovens, os velhos metem-se na nossa frente e nós perdemos tempo, não te compadeças
deles! Vê, eu abandono meu pai; estende tu também velas negras, abandona teu pai,
vamos! Atrás de nós, atada à popa de nosso barco, com suas três altas montanhas -
Dicte, Ida e os Montes Brancos - seguirá uma fragata de três mastros, o meu dote
real: Creta!
TESEU – Minha terra é agreste, seca, cheia de pedras, não te convém. Somos
rústicos, vestimos peles de carneiro, dormimos no chão, comemos com as mãos. Nossas
mulheres não possuem a arte de pintar-se, enfeitar-se e sorrir, como tu. Por que
haveriam de se pintar, sorrir e se enfeitar? Elas têm largos quadris e geram muitos
filhos. E os homens são muito lanudos e têm um forte odor masculino, como carneiros!
ARIADNE – Gosto disso! Neste Palácio, enojei-me dos perfumes, dos ornamentos
dourados, das comidas caras, das cobertas espessas. Gosto das azeitonas amargas e
dos pesados odores de carneiro. Toma-me! Nossos filhos terão o teu corpo, não
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conspurcado e sólido, os teus cabelos louros e, no intercílio, teu novo deus arquiefebo.
Mas receberão o meu cérebro labiríntico e governarão o mundo.
TESEU – Nossos filhos! Tu podes gerar, princesa de Creta?
ARIADNE – Não na nossa ilha exaurida, com estes eunucos imberbes daqui: só contigo!
TESEU – Filha da lua, que demônio, que deus te ajusta à boca essas palavras sedutoras
e tão poderosas? Agora colocaste para mim, na armadilha florida, a mais doce isca do
mundo dos vivos – uma criança, o meu filho! (Estende os braços na direção do mar e
grita.) Companheiro amado, socorro!
(Ouve-se um longo mugido do Minotauro; Ariadne apoia a boca na porta.)
ARIADNE – Meu irmão, deixa de mugir! Por ti eu combato e sigo vozes profundas: não
te zangues, não chores, devo levá-lo embora para que tu te salves, para que nós nos
salvemos!
TESEU – Ariadne...
ARIADNE (sobressalta-se, alegre) – Teseu amado, chamaste-me pelo nome? Nós nos
tornamos amigos, nos atrelamos ao mesmo jugo? Chegará o dia de nos sentarmos um ao
lado do outro, joelho com joelho, de juntos comermos pão e sal, bebermos da mesma
taça de vinho?
TESEU – Ariadne, quem te enviou aqui, esta noite, para me encontrares?
(Silêncio; Ariadne decide-se e fala em voz baixa.)
ARIADNE – Meu pai.
TESEU – Teu pai?!
ARIADNE – Ele estava ausente, voltou esta noite; a cada nove anos sobe ao topo
montanhoso de Creta, onde caminham os deuses, e fala com o deus. Os dois juntos, na
solidão selvagem do cume, decidem como governar os povos. Falam, discutem,
regateiam e chegam a um acordo: meu pai registra as leis em placas de argila, com
secretos sinais sagrados, e desce novamente ao encontro dos homens. Renovado,
refulgindo, transbordando poder, grava-as então sobre a pedra, à volta do grande
pátio de nosso Palácio.
TESEU – O teu pai é um importante rei, Ariadne, é como um deus e me agrada. Eu
também, na minha pátria, escolherei a mais alta e acidentada montanha, para nela
encastelar o meu deus e poder subir, sozinho, para conversar com ele.
ARIADNE – Esta noite, porém, meu pai voltou pensativo, triste e com as mãos vazias.
“Pai” – perguntei-lhe assustada –, “tu retornas de mãos vazias, não encontraste o
deus? Não houve conversa entre os dois, o visível com o Invisível?” Ele acariciou meus
cabelos com lentidão e ternura, como numa despedida. Sorriu levemente: “Ariadne” -
respondeu-me -, “despedi-me do deus para sempre!” E não falou mais.
TESEU – Não pares, senhora, fala! Então este é um momento enviado pelo deus,
marcado pelo destino, em boa hora pisei as praias cretenses! Ele então – torna a dizer,
companheira - despediu-se do deus cretense para sempre? O deus cretense despediu-
se dele para sempre?
ARIADNE – Assim disse, no entanto a voz dele estava calma e sua boca murcha sorria.
Empunhou o cetro real e subiu, lento e arquejando, ao mais alto terraço do Palácio,
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encostou-se a uma coluna e, por muito tempo, segurando o queixo na palma da mão,
pensativo ficou olhando a lua cheia que se elevava. Aproximei-me devagar, sentindo
que ele tinha ficado mais só no mundo, e permaneci imóvel ao seu lado. A lua, muito
vermelha, gotejava sangue: era como uma cabeça degolada, eu via claramente os olhos,
a boca, as bochechas. Inclinei-me e mirei minhas mãos – gotejavam sangue. Meu pai
virou-se, olhou minhas mãos, olhou também a lua e suspirou, dizendo: “Ariadne” - e a
voz dele estava grave e imperturbável, como sempre -, “Ariadne, os homens andam
sobre os mortos, os deuses andam sobre as cabeças dos homens, o Destino sobre as
cabeças dos deuses. Olha as tuas mãos: os deuses também morrem, nós os matamos.
Vai encontrar o príncipe bárbaro que nos veio de além-mar; o beijo da mulher é todo-
poderoso: absorve a força dele, Ariadne, tem dó de teu irmão! Vamos proteger o
quanto pudermos, até o último instante, os nossos deuses, e que o Destino decida!”
Calou-se, parecia hesitar, parecia que algum segredo horrendo queimava-lhe os lábios,
olhou rapidamente à sua volta e baixou a voz: “Chegará também a vez dele” -
murmurou. - “Existe uma força maior do que o Destino?” - perguntei. - “Existe” -
respondeu-me. “Veste-te, enfeita-te e vai!” - “Que força é essa, pai?” - “A Noite”
disse ele baixo e empurrou-me suave, terna e desesperadamente, para que eu viesse
encontrar-te, meu bem. E eu vim. (Silêncio. Teseu levanta a cabeça e imóvel olha a lua
que já subira ao ponto mais alto do céu. Ouve-se o gemido do Minotauro, baixo,
lamentoso, como se o degolassem. Ariadne inclina-se para a terra, escuta com atenção
e sussurra amargurada:) Meu irmão... Meu amado irmão... Posso assegurar-te, eu o
levarei, nós partiremos...
TESEU (volta-se bruscamente) – Não, não partiremos! Diz que eu descerei agora, e
que se cumpra o que está escrito!
ARIADNE – Não, não! Vamos tomar o Destino pela mão e introduzi-lo no caminho do
amor, meu bem! Ele quer a morte, nós queremos um filho! Se juntos nos opusermos a
ele, venceremos: sozinha eu não consigo.
TESEU – Primeiro eu lutarei: esse é o meu caminho. Esse agora, seguramente, também
é o caminho do Destino. Neste momento, o Destino e eu caminhamos juntos em
harmonia. Descerei ao subterrâneo para lutar.
ARIADNE – Se desceres, estarás perdido, perdido, amado! Mesmo que escapes do
deus, tu te enredarás e te perderás nas sinuosidades do Labirinto, nunca mais reverás
o sol!
(Silêncio. Teseu hesita por um momento, mas repentinamente agarra a mão de
Ariadne.)
TESEU – Ariadne, minha companheira Ariadne, um rumor navegou pelo oceano e
ancorou também em minha pátria: parece que tu possuis um novelo mágico... Por que
sorris?
ARIADNE – Esse novelo é o meu cérebro, não creias em fábulas, é o meu cérebro,
Teseu. Eu o desenrolo e encontro o caminho.
TESEU – Ariadne, toma-me pela mão, conduz!
ARIADNE (com pavor) – Eu?!
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TESEU – Tu, Ariadne


ARIADNE – Ajudar-te a matares o nosso deus?
TESEU – Não é isso o que “amor” quer dizer? Ajuda-me a concluir o primeiro dever do
homem - matar; e depois...
ARIADNE – Depois? Não te vires para outro lado, olha-me: depois?...
TESEU – Farei tudo o que o meu deus decidir.
ARIADNE – É o teu deus compassivo, meu bem, é justo? Recompensa regiamente as
dádivas que lhe oferecem?
TESEU – É um deus novo e ainda não posto à prova, eu não sei: veremos. Ajuda,
Ariadne, eu não temo a luta, mas as tortuosidades que atordoam o espírito, essas eu
odeio: toma-me pela mão, amada, conduz! Nada mais te peço.
ARIADNE (sorri amargamente) – Nada mais! Abandonar o meu pai, trair o meu deus,
arruinar a minha pátria! Nada mais!
TESEU – Já ouvi falar disso: significa “amor”.
ARIADNE – Cala-te! (Apoia a cabeça na coluna e suspira.)
TESEU - Eu te peço apenas uma coisa: toma a dianteira e mostra-me o caminho! Tu és
a razão e conduzes, eu sou a força e combato: isso basta!
ARIADNE – Não, meu bem, a razão não basta. Não, a força não basta. Quantos
gigantes desceram à terra, com a cabeça repleta de engenho, com o corpo repleto de
valentia, e pereceram!
TESEU – A razão não basta? A força não basta? Que mais é necessário, Ariadne,
minha companheira?
ARIADNE – Ó meu deus, é preciso que eu revele tudo? Tudo? Tudo? Isso que dizer
“amor”?
TESEU – Tudo, Ariadne!
ARIADNE – Amado e implacável companheiro, na noite em que se deitou no prado
banhado pela lua, minha mãe segurava uma flauta mágica: eis aqui! A lua estava límpida
como na noite de hoje e minha mãe ansiava por um júbilo que sobrepujasse o ser
humano, queria baixar os deuses dos céus para lhes falar de seu desejo ardente. Mas
o desejo era muito profundo e intolerável, não cabia em palavras, que se tornavam mil
pedaços, agitavam-se no ar e não chegavam ao céu. E então minha mãe enleou os lábios
esbraseados a esta flauta mágica e, de imediato, o lamento da mulher encheu a noite,
elevou-se ao céu infinito e bateu às portas dos imortais! Então surgiu, dando os
primeiros passos com leveza, como se dançasse sobre a relva fresca, um touro: o
Touro! Alguns dizem que minha mãe adormeceu e viu em seu sono um touro a copular
com ela; outros dizem que um deus foi enfeitiçado pela flauta, tomou a feição que
minha mãe secretamente desejava, converteu-se num touro e veio; mas eu conheço
bem minha mãe: era um touro verdadeiro. (Silêncio.) Selvagem, amedrontador, um deus
viril dos cascos aos chifres: e esta pequena e poderosa flauta que estou segurando,
domou-o; seu canto é doce e triste, abranda a força, enche de compadecimento o
coração, une homens e feras e vence o onipotente deus, mais do que a razão e a força!
TESEU – Tu choras? Tu, a indomável Creta?
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ARIADNE – Ó Destino, teus caminhos são impiedosos, obscuros e sanguinolentos:


escreveste que com esta mesma flauta também devo seduzir, nesta noite, o meu irmão
e meu deus! (com raiva.) Ó bárbaro desconhecido de olhos azuis, tu vieste e eu te
revelo e te concedo tudo! Por quê? Por quê? Quem me impele? Eu não quero! Luto para
resistir, mas não consigo; odeio e amo e, de cabeça inclinada, sigo o Destino; mas
chegará também – eu te agradeço, pai, pelo segredo inesperado que me confiaste –,
chegará também a vez dele! (Ouvem-se trombetas.) É meu pai! Ele vem segurando as
chaves de ferro sagradas para te abrir o Hades. Fala-lhe com respeito, meu bem; não
tentes te esconder dele. Por trás dos olhos e da boca, ele vê o cérebro, o intrincado
novelo do homem, que sabe enrolar e desenrolar, brincando com ele nas mãos; depois
novamente o enrola e devolve-o sorrindo. Fala-lhe com respeito. Eu pronunciarei estas
palavras importantes: Pai, és a única alma no mundo que caminha também sobre a
cabeça da Noite, porque tu sabes o que a Noite significa, e a Noite não sabe!
TESEU – Não saias de perto de mim, Ariadne, minha companheira!
ARIADNE – Não saio: eu me esconderei aqui, atrás da coluna. Ei-lo, ouço seu passo
calmo e fatigado: ele está chegando! Inclina tua cabeça, para que ele lance sobre ti o
grande esconjuro mágico; ouve-o com atenção, esforça-te para conseguires perceber
seu significado oculto. No fundo desse esconjuro, costumam dizer, oculta-se o grande
e derradeiro Segredo.
TESEU – Que segredo, ó Ariadne, parceira de luta?
ARIADNE - Nem eu sei: somente o rei!
TESEU – Ariadne...
ARIADNE – Surgiu seu vulto azul: cala-te!
(Entra Minos, aproxima-se lentamente, toma Teseu pelos braços, vira-lhe o rosto na
direção da luz e olha-o por um longo tempo, silencioso e pensativo. Por um momento
estende a mão, toca os cabelos de Teseu e faz menção de acariciá-los, mas retém a
mão e recua.)
MINOS – Príncipe de Atenas, bem-vindo!
TESEU – Grande rei de Creta, senhor dos mares, eu te saúdo.
MINOS – O teu velho pai está vivo, ainda passa bem, dorme, come, bebe, anda e ri
como antes? Corpo, alma e pensamento ainda funcionam em harmonia?
TESEU – Ele passa bem, leva bem a vida; que a fortuna te favoreça, ó grande Rei, por
teres lembrado: muitas saudações da parte dele!
MINOS – Tudo vai bem, seus caprinos e éguas parem fêmeas em abundância e suas
mulheres dão à luz machos?
TESEU – Tudo vai bem; não temos queixa de nossos animais e de nossas mulheres,
todos procriam em abundância.
MINOS – Suas vinhas vão bem, estão carregadas de uvas? As oliveiras dão frutos,
seus campos semeados amadurecem?
TESEU – Dependemos das chuvas e dos ventos, às vezes temos o que comer, às vezes
a fome aperta, mas nós resistimos.
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MINOS – Resistem, resistem, eu sei... Tuas palavras são modestas e calculadas,


príncipe de Atenas, porém, dentro de teus olhos azuis, discerni grandes fogueiras: o
que são esses palácios que se incendeiam dentro de teus olhos, os homens
assassinados e os barcos que afundam dentro de teus olhos?
TESEU – Ó grande navegador e senhor dos mares, que ocupas os píncaros do ser
humano e conversas com o deus: tudo vês e tudo sabes – por que me perguntas? Se há
palácios a incendiar, homens a serem mortos e barcos a afundar, tu me dirás e eu
cumprirei o meu dever.
MINOS – Eu te direi, essa é a lei implacável, eu te direi, tens razão. Eu te observo,
sondo os teus olhos, peso as palavras que pronuncias, luto para encontrar no teu
intercílio o turbilhão secreto que espuma, gira e engole reinos.
TESEU – No meu intercílio encontra-se somente o deus, como um furor, e espera.
MINOS – O que ele espera?
TESEU – Não sei, eu também espero junto com ele: quando a hora chegar, ele me dirá.
MINOS – Quando a hora chegar, eu também te direi. Vou te tomar pela mão e abrir as
portas do meu Palácio, serás introduzido nos meus gineceus, nas minhas oficinas de
armas e estaleiros, nos meus celeiros e jardins, querendo ou não! E tirarei da cintura
as chaves da terra e do mar, para entregá-las a ti. Se é que chegou a hora marcada
pelo Destino, se tu fores aquele que eu esperava; do contrário, ó fidalgo bárbaro,
deixarás os teus ossos aqui no solo cretense.
TESEU – Os meus ossos eu os devo à minha pátria, eles são dela e para ela eu os
entregarei: tem em conta que eu não vim até aqui para ser morto, mas sim para matar.
MINOS – Fala com respeito: este momento é importante e perigoso. Diante de teus
pés, ó jovem fidalgo, há um precipício; diante de meus velhos pés há um precipício, e
sobre nós está o Destino. Prepara-te; eu estou pronto. Meu engenho extravasou
terras, céus e mares, e eu aprendi a fazer a Fatalidade tornar-se minha própria
vontade. Aqui nesta terra, somente isso - infelizmente! –, significa “liberdade”.
TESEU – Liberdade significa a Fatalidade fazer tudo aquilo que eu quero. Não existe
Fatalidade - perdoa-me, Grande soberano da razão, por retrucar –, não existe
Fatalidade, exceto para as almas servis ou incapazes.
MINOS – És jovem, um bocado de carne com demasiadas plumas multicoloridas, cala-
te! Ó galinho de Atenas, apenas um novo deus pode matar o antigo senhor do universo.
E quem é o novo deus que tu nos trazes, ó bárbaro de cabelos louros?
TESEU – Por que perguntas? Tu o conheces.
MINOS – Conheço: é um bárbaro de cabelos louros.
TESEU – É severo, orgulhoso e pobre. Ainda há pouco se desincorporou das pedras,
pedra ele também; e seus pés e mãos ainda estão grudados - não rias, meu Grande rei!
– e eu os desgrudarei. Eu o farei caminhar sobre as pedras da terra e estender o
braço sobre o teu reino, para dele tomar posse!
MINOS – Eu te admiro, fala mais: é como se eu ouvisse a minha própria finada
juventude falar, gabar-se, querer dominar o mundo e unir-se com o deus! Isso significa
juventude: acreditares que tu e o deus sejam um só.
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TESEU – Eu e o meu deus somos um só: quando ele se inclina sobre a água, vê o meu
rosto, quando eu me inclino sobre a água, vejo o rosto dele. Somos um: se eu tenho
valor, tudo o que eu valho, ele também vale; se eu for destruído, ele também se
destrói. E agora vou descer junto com ele ao Labirinto, para lutarmos com o deus de
cabeça de touro. Ó, Senhor portador das chaves, tira do teu cinto as chaves secretas
e abre para que entremos.
MINOS – Tens pressa?
TESEU – Tenho pressa. Os jovens não têm tempo, os velhos têm. Ao meu redor o ar
relinchou e empinou como um cavalo: o meu deus apeou na tua corte, ó Grande rei, e
tem pressa.
MINOS – Tu relinchaste, tu tens pressa; mas ter forças significa refrear forças:
refreia-te por um instante, ó jovem, e ouve. Quando eu também estava na flor da
juventude, como tu, com dezoito anos, pele morena e cabelos negros, e ainda não tinha
tocado em mulher, da mesma forma eu estendia minhas mãos para o nosso deus de
então, mais antigo e bárbaro, o Touro. Consolava-o e lhe dizia: “Sem mugidos, sem
cabeçadas na terra para deitá-la abaixo, não desperdices tua força divina em façanhas
vis e grosseiras. Eu te aliviarei do animal. Eu te farei semelhante a mim: um efebo de
pele morena e cabelos encaracolados. E se não tens cérebro, eu te darei!”.
TESEU – E assim o fizeste, Grande Guerreiro; combateste, corpo a corpo, com a fera
que estava colada ao teu deus, desincorporando-a dele. Libertaste o corpo divino dos
pés ao pescoço, mas não conseguiste ir além.
MINOS – Fala mais baixo, ele está ouvindo.
TESEU – Não conseguiste ir além: deixaste irredenta a cabeça do deus. Porque eu não
acredito na fábula de Pasífae. Tu, Minos, Grande rei, com tua luta, com tua inteligência
e com ação, vencendo os homens, colocando rédeas em tuas próprias paixões,
transubstanciando o caos em harmonia, tu te uniste ao deus. Fizeste do Touro um
Minotauro. Não conseguiste ir além.
MINOS – Quem dispõe, ó fidalgo bárbaro, essas palavras certeiras sobre tua boca
virgem e te faz falar? Essas não são palavras tuas, ultrapassam tua força e tua razão.
Quem te desvelou, ó inexperiente cérebro de asas recentes, os grandes segredos do
combate?
TESEU – Não sei. Ninguém. A juventude!
MINOS – Fala mais baixo, repito, para que ele não te ouça! (Aponta a terra.) Sim, sim,
fiz do Touro um Minotauro, não consegui ir além... Cansei-me, envelheci... (Silêncio.) Tu
conseguirás?
TESEU – Ó Vencedor vencido, como queres que eu saiba até onde chega a minha
força? Todas as vezes em que parti para a luta, minha força permaneceu calma em
meu íntimo, muito entranhada, repousando; mas, subitamente, quando chegava diante
da bifurcação que conduz à vida ou à morte, o que era aquela leoa faminta que se
escondia dentro de mim?! A terra parecia-lhe um redil repleto de cordeiros e cada
cordeiro era um odre cheio de sangue fresco: lançava-se, pulava o redil, e seus lábios e
peito enchiam-se de sangue. Ó Rei, eu falo contigo e eis que, subitamente, dentro de
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mim, a força serenada rebela-se, enfurecida, porque farejou o Minotauro - esse divino
odre - e não pode mais aguentar, sentiu sede e quer beber: abre-me a porta!
MINOS – Eu também tenho deuses que acenam para mim: não abrirei a porta antes de
te munir de minhas últimas recomendações. Na verdade, não combates sozinho: eu
também combato junto contigo!
TESEU – Quais são tuas últimas recomendações? Estou ouvindo.
MINOS – Lá aonde vais descer, eu desci; o pavor que terás, eu tive; minha memória
ainda extravasa pavor e esperança. Não obstante, se eu fosse jovem, desceria
novamente: não existe alegria maior do que esse pavor. Mas, infelizmente, eu
envelheci.
TESEU – Não suspires, não importa, envelheceste, mas o mundo não envelheceu. Eu
vou descer!
MINOS – Sim, não importa, tu vais descer. Dizes com desprezo e orgulho, supondo ser
meu maior inimigo, mas, aprende, és meu único herdeiro e companheiro na luta. Creio
que és aquele que eu espero há anos e anos!
TESEU – Não sei: como queres que eu saiba? Abre a porta e veremos!
MINOS – Estou te dizendo, se és forte, refreia tua força! A juventude é apressada,
arrogante e tem cérebro de galinha, e as palavras que eu te confiarei, pode ser que
sejam perdidas. Que sejam! Sou velho, tenho o dever de falar à juventude.
TESEU – Fala sem temor: não te preocupes, eu reterei somente aquilo que auxilia o
meu objetivo; o inútil e o nocivo resvalarão sobre mim, sem me tocar. Curvo-me à
velhice fecunda: quais são, vetusto Guerreiro, tuas últimas recomendações?
MINOS – Primeira recomendação: quando desceres às entranhas da terra e chegares
à escuríssima gruta divina, inclina-te e saúda com respeito o nosso deus, ele é um
grande lutador e dentro dele estão os três poderes fundamentais da terra e do céu -
animal, homem e deus. Ele combate. Combate para impor ordem. Eu também combati
junto com ele. (Silêncio.) Entendeste?
TESEU – Nenhuma palavra tua até agora me escapou: chegou a minha vez, não é isso
que queres dizer, veterano Lutador? Chegou a minha vez de lutar também, para que o
mundo vá adiante. Estou pronto: afasta-te para que eu passe.
MINOS – Não te apresses, não terminei: três caminhos abrem-se diante de ti, ó
intrépido viandante.
TESEU – Três caminhos? Quais? Estou ouvindo!
MINOS – O primeiro: matares o Minotauro!
TESEU – Tomarei esse!
MINOS – Se o matares, estarás perdido: não retornarás à luz; e se retornares,
debilitado e desenraizado, vais te arrastar pela terra como um parricida amaldiçoado.
TESEU – Mui astucioso rei, tu te empenhas em me atemorizar; eu não temo: eu o
matarei!
MINOS – Juventude desmiolada! Supões, infeliz de ti, que o assassino, no instante em
que mata, não é morto também?! És jovem, agora mesmo surgiste da terra, com teus
pés e teus miolos ainda cheios de lama. Que podes saber sobre os segredos do mundo?
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Ainda não tiveste tempo de converter a carne toda em alma, e a alma em sopro! Inclina
a cabeça diante de mim com devoção e ouve, do contrário fecho a boca, e que se
percam toda a minha sabedoria e todo o meu amor!
TESEU – Qual o segundo caminho, ó Grande rei? Perdoa a juventude: sendo juventude
é atrevida!
MINOS – O segundo caminho: o Minotauro matar-te. Estarás perdido também.
Passarás pelo labiríntico intestino dele e tu também, como todos os inomináveis e
inumeráveis seres humanos, há milhares de anos, desabarás sobre a terra como
excremento!
TESEU – Isso, jamais! Meu coração está cheio de sementes, primeiramente plantarei
todas elas – nas pedras, no solo, nos corações; eu as verei lançarem rebentos e só
depois morrerei. Não me retenhas mais, abre a porta!
MINOS – Existe ainda um terceiro caminho, muito estreito e difícil.
TESEU – Não matar e não ser morto?
MINOS – Sim, não matar e não ser morto. E vencer.
TESEU – Isso não cabe no meu entendimento. Aqui necessito de tua explicação, mui
sábio Guerreiro: qual é esse terceiro caminho secreto?
MINOS – Vai ao encontro dele!
TESEU – Tu o encontraste?
MINOS – Sim.
TESEU – Fala, velho parceiro de luta, para ganharmos tempo; não disseste que tu
também lutas junto comigo? Confessa, então, que caminho tomaste, para que eu não
perca tempo, reencontrando tudo aquilo que já encontraste. Assinala-me até onde
chegaste, para que eu parta dali e vá além.
MINOS – A luta, imaturo Comandante, começa sempre do início. Apaga-se, destrói-se
a cada lutador, renova-se sempre.
TESEU – Irei encontrá-lo sozinho! Abre: não tenho necessidade de ti! ( Teseu vai em
direção à porta, apoia com força as palmas das mãos sobre ela. Minos olha-o com
doçura, imóvel. Teseu afasta-se da porta, aproxima-se de Minos lentamente, inclina a
cabeça.) Dá-me a tua bênção, pai.
MINOS (colocando a mão sobre a cabeça do jovem) – Se está escrito que tu, o jovem
bárbaro, deves concluir a obra que eu iniciei e não pude levar a termo, se tu puderes
encontrar e tomar o caminho que eu abri e levá-lo a termo, se puderes libertar
inteiramente o deus – que tenhas minha bênção, tu és meu filho!
TESEU – Farei tudo o que puder, pai: abre a porta tenebrosa.
MINOS – Dá-me, primeiro, o punhal que tens escondido no cinto: é preciso que desças
desarmado.
TESEU – Toma!
(Minos tira as chaves do cinto, aproxima-se da porta, traça sobre ela um grande e
nítido machado duplo. A porta abre-se lentamente. Ouve-se, nesse momento, o mugido
terrível do Minotauro. Teseu recua por causa da fetidez insuportável.)
MINOS (vira-se para a coluna onde Ariadne estava escondida.) – Ariadne!
20

ARIADNE (surgindo) – Estou aqui, pai.


MINOS – Toma-o pela mão, desenovela teu cérebro para guiá-lo!
(Ariadne toma Teseu pela mão, eles entram no Labirinto e a porta fecha-se com
violência. Minos levanta as mãos para a lua.)
MINOS - Ó lua, minha amada companheira, iluminamos a noite tanto quanto pudemos,
mas já amanhece, de um momento para o outro o sol despontará. Não te entristeças,
desce calma e sossegadamente para o teu poente: da mesma forma calma e sossegada
também vou descer. Cumprimos o nosso dever, terminou a nossa jornada de labor, ó lua
amada: vamos!
(Sai a passo calmo e lento.)

SEGUNDO ATO

(Por um momento a cena fica vazia; ouvimos mugidos graves, a terra treme, a coluna
desmantela-se, a lua anuvia-se. Agitado e ofegante entra o Capitão, inclina-se e
escuta, com atenção e medo, a luta sob a terra.)
CAPITÃO - Nosso príncipe, nossa mais alta esperança, foi para debaixo da terra e
luta com Caronte! Ouve, ouve! Os dois grandes combatentes avançam e recuam, e os
alicerces da terra estremecem! Os muros do Palácio racharam; no grande pátio,
desmoronou a coluna real com os machados duplos dourados. Os bois, os cavalos, os
símios e os escravos romperam suas correias, fugiram e lançaram-se na direção da
montanha para se salvarem! Ah, e no jardim frondoso, onde eu também tinha nos
braços Creta toda nua, as árvores repentinamente se moveram desde a raiz, vergaram
e, rangendo, partiram-se. Minha amiga desprendeu-se e foi projetada para longe de
mim, e eu a perdi na escuridão! Dei um salto, as árvores perseguiam-me, escalei a
encosta com pés e mãos e escondi-me no Palácio. As portas abriam e fechavam, as
jovens fidalgas pulavam de suas cobertas macias e tomavam os pátios, gritando,
seminuas e descalças! E apenas um, o Grande rei, imóvel e calado no meio do pátio, ao
lado da coluna desmoronada, olhava a lua, como se a terra não se desmantelasse, como
se, lá em cima, a lua cheia é que estivesse em perigo! Entretanto, no momento em que o
mundo ruía, de pátio em pátio, de terraço em terraço, despreocupados, alegres e
abraçados dois a dois, ia um séquito de meninas e meninos de Atenas destinados à
morte, cantando os peãs sagrados do Minotauro que os comerá. Que misteriosas
bebidas lhes teriam dado as sacerdotisas de muitos conhecimentos que, em seus
juízos, o mundo abrandou-se, desabrochou e tornou-se uma Fábula? (Ouve-se, cada vez
mais próximo, um triunfal salmo religioso dos rapazes e moças.) Ei-los, estão
chegando... Como caminham com leveza e dançantes, mal tocam a terra! Abriram todas
as portas do Palácio, passaram por todos os recintos e agora, coroados, com fitas
vermelhas, aproximam-se desta última porta do Hades e estendem o pescoço, como
reses no matadouro!
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(Entram, alegremente e de mãos dadas, seis casais de rapazes e moças e, na frente,


batendo levemente um pequeno tambor, vai uma jovem: o par de Teseu. Nos peitos dos
rapazes estão penduradas pequenas máscaras com cara de touro.)
1º RAPAZ - Companheiros, companheiras, amparem-me para que eu não caia:
embriaguei-me de alegria excessiva, não posso andar! Que belezas são essas, que
perfumes, que jardins! Que Palácio transbordante de maravilhas! Há quantas noites
por ele passeamos? Um passeio interminável!
1ª MOÇA - Há sete dias e sete noites que abrimos portas, subimos e descemos
escadas, gritamos: onde estás, onde te encontras, ó amada fera? Abre para nós! Do
extremo do mundo ouvimos tua lamentação e viemos libertar-te, meu caro!
1º RAPAZ - Era uma vez um belíssimo príncipe: a Sina megera e feiticeira lançou-te
uma maldição, viraste uma disforme fera repugnante e comes seres humanos!
1ª MOÇA - Não chores, meu caro, sem mugidos: eu exorcizarei a Sina! Costumam dizer
que se uma garota te beijar na boca, ó minha amada fera, os sortilégios vão se
dissolver, teus pelos e chifres cairão, e reluzirás novamente como um sol, meu
príncipe! Ah, aparece, onde estás? Eu te beijarei!
AS MOÇAS – Eu também! Eu também! Eu também!
1º RAPAZ – Oh! Quem é esse com barba de bode e barrete alto de marujo? Acho que
em algum lugar já o vimos, amigos, mas onde? Em que mares? Em que distante viagem?
No sono ou na vigília? Não me lembro!
OS RAPAZES – Nem eu! Nem eu! Nem eu!
CAPITÃO (rindo) – Meus imaturos meninos e meninas, suas almas transtornaram-se
por causa do vinho doce, dos perfumes fortes e da alegria excessiva! Ora essa, eu por
acaso não sou o capitão? Então não sonhamos, todos juntos, que atravessamos os
mares e ancoramos em Creta? Lá longe, crianças, lá na pátria, à beira espumante do
mar, o sono apoderou-se de mim: parecia-me desfraldar velas vermelhas para navegar,
e eis que vejo avançarem da terra firme, gorjeando, sete casais de pássaros de
pescoço alvíssimo. Coloquei a mão em pala contra o sol e exclamei: O que será esse
bando alegre? Talvez pombas e pombos, gaivotas machos e fêmeas? Ou serão os
altivos pássaros lendários que gorjeiam doce e abundantemente no instante em que
Caronte se aproxima? E enquanto meu juízo estava perturbado, caíam aos pares sobre
o convés do meu barco e, conforme caíam, imediatamente se tornavam uma moça e um
rapaz... O meu barco encheu-se de juventude, eu recordei também a minha juventude,
precipitei-me, agarrei o leme e lhes disse - não recordam? -: “Crianças, para onde
desejam que eu os leve? Todos os mares são nossos, todas as terras são nossas,
escolham! Isto é um sonho, crianças, é liberdade! Tudo o que queremos fazer,
fazemos, aonde queremos ir, vamos, e os quatro ventos estão a nosso serviço: sopra,
vento do Norte, e leva-nos para Creta! E ancoramos nesta deslumbrante e imortal
praia... Creio que não há razão de queixa; Só tenham cuidado - pelo bem que lhes quero!
–, não falem muito alto, para não despertarem! E tudo aquilo que virem, tudo aquilo que
ouvirem, até Caronte surgido diante de seus olhos, não os deve assustar. Todas essas
coisas são um gracejo do pensamento, uma hábil brincadeira do vento, nada disso
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existe, tudo é sonho! Sim, juro pelo mar, crianças, tudo é sonho, vida e morte, alegria
e dor, mentira e verdade, tudo é sonho – então, vamos bancar os corajosos!
1º RAPAZ – Ei, ei, afasta-te, mui ardiloso Capitão: o que é essa porta com esses
pesados chifres retorcidos? Afasta-te para entrarmos! É a última porta do Palácio, só
ela restou: abre-a!
1ª MOÇA – Uh! Que mau cheiro! Aqui dentro, meus irmãos, deve jazer a fera que
muge: vamos beijá-la!
(Todos juntos golpeiam a porta)
CAPITÃO – Não batam com força! Não gritem, estou dizendo, vão despertar! (Vira-se
para a jovem desacompanhada) Bate forte o tambor, minha menina, ajuda-me! Vamos
adensar muito mais ainda o sonho, apelar para a ajuda de Eros - o jovenzinho sedutor -
até que venha, afinal, sua irmã mais velha - a Morte.
A JOVEM DESACOMPANHADA – Por que falas sobre morte? Onde está o meu
parceiro Teseu? Enquanto ele viver, eu não temo a morte.
CAPITÃO – Que Teseu? O teu cérebro também perdeu um parafuso, minha menina? O
que Teseu buscaria aqui? Neste momento ele deve estar sentado feliz em seu Palácio,
ou deve estar matando feras nos desfiladeiros.
A JOVEM DESACOMPANHADA – Não queiras enganar a mim também, ó astuto
Capitão, eu não bebi o vinho enfeitiçado deles, não perdi o juízo. Confessa a verdade!
CAPITÃO (aponta a terra) – Ele está lutando.
A JOVEM DESACOMPANHADA – Então por que falas sobre morte? Não é a primeira
vez que ele luta com feras: sempre saiu vencedor. Também agora ele vencerá.
CAPITÃO – Ninguém ainda saiu vivo da garganta da terra. A morte é onipotente,
minha menina: se tu também não consegues suportar, vai beber uma grande taça do
vinho misterioso – as mesas ainda estão postas. Bebe para tonteares, fazendo tu
também da verdade uma fábula, para poderes escapar!
A JOVEM DESACOMPANHADA – Não: por respeito a Teseu, eu não vou beber.
CAPITÃO – Então bate forte o tambor: não te compadeces deles? Ajuda-me a fazê-
los morrer e a fazê-los pensar que sonham que estão morrendo. (Bate palmas.) Ouçam,
crianças, silêncio! Enquanto o sonho durar, não existe vergonha, não existe honra, não
existe medo: tudo é ar! Nesta noite, então, dentro do sonho, façamos tudo aquilo que
não tínhamos coragem de fazer acordados! Moças - beijadas e nunca beijadas –,
descubram seus peitos florescentes, deixem os rapazes dependurarem-se neles,
amontoarem-se sobre eles como abelhas! Rápido, enquanto o sonho perdura! E vocês,
rapazes, coloquem as cabeças de touro que as damas do palácio ofertaram, tornem-se
touros, agarrem as moças! Que moças? Ora essa, olhem na claridade: são ou não são
moças? Não ouvem quão docemente mugem? Para cima delas, meus tourinhos, elas são
meigas novilhas!
(A jovem bate forte o tambor, alegre e velozmente; os rapazes e as moças, rindo,
travam um embate amoroso.)
1º RAPAZ – Descobre o peito, dá tua boca, minha amada, por que ter vergonha? É um
sonho. (Ele ri.) Se te recusares, eu te darei um empurrão para que despertes!
23

1ª MOÇA – Não, não, não quero despertar, não me empurres: vem...


CAPITÃO – É um sonho e dentro do sonho a alma do homem é onipotente: voamos
pelos ares, caminhamos sobre o mar, não existe bem e mal, não existe teu e meu.
Agarrem-se, beijem-se, e depressa, infelizes crianças, antes que despertem! (À
jovem.) Bate forte o tambor, minha menina, desenrola o fio da meada... (Ele bate
palmas novamente). Atenção! (Todos param e olham para ele. ) Agora Caronte surgirá,
crianças, não tenham medo. Aparecerá para nós como um terrível monstro peludo e
com dentes largos, meio homem e meio touro, com chifres semelhantes a espadas, e,
quando ele nos vir, começará a mugir e a fazer tremer a terra, para que nos
assustemos! Mas nós detemos o segredo: a morte é um sonho, crianças, é ar, não vai
meter medo! Tirem isso do pensamento, crianças! Ajustem rapidamente as máscaras,
tornem-se touros, tornem-se novilhas. Tudo aquilo que queremos, podemos fazer: que
se inicie o embate amoroso! (Os rapazes ajustam as máscaras, perseguem as moças,
imitam as tauromaquias, lutam rindo.) Não tão rápido, crianças, mais devagar, assim
vocês despertarão!
(Ouve-se uma doce flauta sob a terra: todos param, surpresos.)
A JOVEM DESACOMPANHADA (ao Capitão) – Quem está sob o solo tocando flauta?
Primeiramente mugia e aterrorizava; agora toca flauta e a doçura sobe da terra, como
um grande conforto! Capitão, eles não estão mais lutando? Ajuda-me a entender!
CAPITÃO (levantando os ombros) – Acho que nós também nos embriagamos, minha
menina, e sonhamos que estamos ouvindo uma flauta.
A JOVEM DESACOMPANHADA – Não, não, não é sonho. Não estão mais lutando,
Capitão, a fera não muge, a terra não treme. Ouve como é doce a flauta! (Por um bom
tempo, ouvem a flauta com atenção, arrebatados. Subitamente a flauta para. A jovem
grita:) Oh, calou-se a flauta, Capitão, a doce voz interrompeu-se. Que sinal é esse,
Capitão? Bom? Mau? Navegaste por muitos mares, navegaste por muitas almas, tu
deves saber...
CAPITÃO – Não sei: por esse mar eu jamais naveguei...
A JOVEM DESACOMPANHADA – Por que se calaram? O que estás pensando? O que
imaginas, Capitão?
CAPITÃO – Há silêncios de três tipos, minha menina, isso é o que eu penso. O que vem
depois da reconciliação: reconciliaram-se, não lutam mais e calaram-se. O que vem
depois da morte: Caronte tomou a alma de Teseu e calaram-se. Ou o que vem depois da
vitória: a fera foi morta!
A JOVEM DESACOMPANHADA – Capitão, meu coração está gritando que a fera foi
morta!
CAPITÃO – Minha razão também está gritando: que Teseu foi morto!
(Uma moça golpeia a porta.)
1ª MOÇA – Quero beijar a fera!
2ª MOÇA – Eu também!
3ª MOÇA – Eu também!
4ª MOÇA – Eu também!
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(Um rapaz golpeia a porta.)


1º RAPAZ – Quero libertar a fera!
2º RAPAZ – Eu também!
3º RAPAZ – Eu também!
4º RAPAZ – Eu também!
(Rapazes e moças golpeiam com força. A porta abre-se lentamente: surge Teseu e,
atrás dele, vem Ariadne. Teseu, pálido, apoia-se no batente da porta. Os rapazes e as
moças gritam, agitam-se como se despertassem, como se saíssem de uma embriaguez.
Atiram-se e beijam as mãos e os joelhos de Teseu.)
TESEU – Para o barco, rápido! (Ao Capitão.) Capitão, iça as velas negras, estamos
partindo!
CAPITÃO - As velas negras, meu príncipe?
TESEU – As velas negras: estamos partindo! E prepara um trono na proa do barco:
pode ser que, desta vez, tenhamos conosco um Eminente Companheiro de Viagem.
(O Capitão e os treze rapazes e moças saem. Teseu e Ariadne permanecem.)

TERCEIRO ATO

(Teseu, pálido e pensativo, apoia-se no batente da porta. Em sua túnica branca há


espessas manchas de sangue; ele olha as mãos, estão ensanguentadas. Toda dourada e
límpida, a lua já declinou no horizonte. De longe vem um canto de galo.)
TESEU - Está amanhecendo.
ARIADNE (Toma a mão de Teseu e beija-a.) – Tudo acabou, meu bem.
TESEU – Sim, tudo. E tudo começa.
ARIADNE – Como o venceste!
TESEU – Cala-te!
ARIADNE – Não posso calar-me. Tenho tudo no pensamento e estremeço... Ainda
estou refletindo, com pavor: como o venceste!
TESEU – Eu não o venci, não blasfemes. Tu não estavas lá? Não viste? Nós não
lutamos, nós nos abraçamos.
ARIADNE – Porém no início... Repara: por causa do terrível combate o Palácio rachou!
TESEU – Desconsidera o início: tornou-se um abraço em seguida. Tu viste como nos
beijávamos, como ríamos, e que afagos! E depois... (Suspira profundamente.)
ARIADNE – E depois, ó amado e ensanguentado príncipe?
TESEU – Cala-te: ainda me envolvem e me sufocam, um sobre o outro, os três grandes
hálitos. Deixa-me respirar o ar matinal. É um grande júbilo viver, ver o amanhecer, o
soprar de uma brisa fresca e não pensar em nada, nada, nada! Deixa-me não pensar
em nada.
ARIADNE – Tu te cansaste?
TESEU – Se eu tivesse um gole de água para beber, para me refrescar!
ARIADNE – No pátio há fontes jorrando, vou trazer para ti! (Sai correndo.)
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TESEU – Cansei-me... Que medo, que dor foi aquela, no momento em que, avançando
lento e tateando, distingui na escuridão os brilhantes olhos dele: pareceu-me que
choravam, tristes e com entendimento, como os de um ser humano! Ah, brisa da terra,
brisa conhecida e amada, hálito perfumado do mundo dos vivos, sopra sobre mim e
refresca-me: purifica-me! Meus cabelos encheram-se de teias de aranha, emaranhou-
se em minhas pernas o mofo do mundo subterrâneo, em minha boca e em minhas
narinas assinala-se ainda a fera de hálito pestilento que esmagava e aviltava teu
verdadeiro rosto, ó meu Irmão maior! Que fetidez insuportável, que medo, como eu
lutava para perfurar a fera sanguinária de couro espesso e atingir uma voz dentro de
ti, uma desvanecida voz humana, baixa e suplicante, que me chamava pelo nome! E
quando me aproximei e me uni ao brado, que nova luta para subir ao teu topo, para
purificar tua cabeça sagrada dos pelos, dos chifres e da baba venenosa, e conseguir
desfrutar, acariciando com arroubo, o teu rosto divino, já depurado, acalmado e
redimido! Há quantos milhares de anos lutavas para escapar? Há quantos milhares de
anos berravas de vergonha e dor? Em teu interior suspirava uma alma indestrutível,
muito premida por pesadas carnes ignóbeis, e pedia ajuda! E quando lutamos, e nossos
hálitos misturaram-se, como me reconheceste e me chamaste pelo nome, como
sentiste que eu sou aquele que aguardavas! Pai, Companheiro, meu Filho Único, como te
chamar? Separamo-nos e eu não pude - infelizmente! – discernir com nitidez na
escuridão o teu rosto resgatado! (Ariadne chega, trazendo-lhe um copo de água. Teseu
agarra-o com as duas mãos.) Ó Terra, Mãe amada, este é o teu leite, os ossos são
impregnados e estalam alegremente, a alma refresca-se, do chão brotam asas!
Somente quando bebo água de tuas entranhas – água e não vinho! –, uno-me ao meu
deus! Bebo à tua saúde, Mãe, que bom te reencontrar! ( Bebe insaciavelmente.) Que a
fortuna te favoreça, Ariadne: aqui, sobre esta taça de água fresca nós nos
separaremos. Não quero que me dês outra alegria: e nem podes.
ARIADNE – Teu discurso é muito amargo, toma-o de volta, companheiro! Somente
agora chegamos ao extremo da luta, a partir daí começa a felicidade. Atrás de nós
está o combate, diante de nós, o abraço. Dá-me tua mão, para que eu te conduza
também na luz, assim como te conduzi na escuridão, meu bem!
TESEU – Ariadne, esta é a maior alegria que pudeste oferecer: juntos vencemos a
morte; chegaste ao cume do teu destino, um palmo adiante está o abismo. Não vás
adiante!
ARIADNE – Tuas palavras são retorcidas e ambíguas, ó orgulhoso Vencedor, teu
cérebro é um labirinto. Mas no extremo, no meio da escuridão, avisto o teu
pensamento brilhando, reto e cortante, como um machado duplo...
TESEU – Como o mundo se ampliou, Ariadne! O mundo? Ou terá sido meu espírito a se
ampliar? Como agora comporta e abraça inimigos e amigos! Como saúda, dando boas-
vindas, a terra, a água, o céu e o ar, todas as coisas, vendo-as como se fosse pela
primeira vez! Quem bom vê-los, palácios célebres e jardins suspensos, barcos nos
estaleiros e riquezas amontoadas, por gerações e gerações, em talhas, celeiros e
cofres! Que bom vê-los, homens de pele morena e cintura delgada, mestres na pedra,
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na madeira e no marfim, trabalhadores na terra e no mar! Que bom vê-las, mulheres


de bocas pintadas e dedos afilados, hábeis artífices de múltiplos conhecimentos, que
ensinarão nossas mulheres a se vestirem e despirem, beijarem e conversarem! O
mundo é bom, belíssimo, novíssimo, saiu agora mesmo das mãos do meu deus e me
agrada!
ARIADNE – Que júbilo é esse, ó amado? Como cintila teu rosto, é como um rochedo
banhado pelo sol: creio que se ampliou!
TESEU – Bárbaro eu entrei no retorcido suplício do Grande Lutador e saí... Não sei
como dizer... Preciso criar palavras novas, Ariadne, que abarquem a nova esperança e a
nova virtude do ser humano. E também a nova virgindade e o novo rigor. E o novo deus.
ARIADNE – Amado, ainda te importarás com deuses e combaterás com eles? Que
maldição é essa que fustiga os homens? Lutam sem cessar e incuravelmente com a
sombra e não se voltam para ver que o deus se encontra, labuta e goza somente na
carne! Vira teu rosto, não sondes o ar inabitado: olha para mim, dá-me tua mão, tem
confiança em mim. Meu coração vai à frente e guia infalivelmente!
TESEU – Ariadne, não prossigas...
ARIADNE – Chegarei ao extremo do meu desejo, mesmo que eu seja destruída! Minha
alma é igual à tua, é uma alma viril. Por que conservas a mão em pala contra o sol e
contemplas o Palácio? Quem esperas? De lá não pode surgir nenhum amigo. Agora
rugirão as trombetas: os vigias já te terão visto das torres e, agitados, chamarão o
rei, para que se apresente. Aqui, até a trombeta fala como um ser humano. A cidade
despertará, o povo se levantará, a terrível notícia pulará de porta em porta, de boca
em boca: o deus foi morto! E não sairás vivo deste Palácio, meu bem! Ainda é tempo,
vem, dá-me tua mão para fugirmos!
TESEU – Ainda... Ainda... Agora já não tenho pressa. Antes devo despedir-me de meu
pai.
ARIADNE – Teu pai?! (Ouvem-se trombetas selvagens dos vigias lá do alto. O Palácio
tumultua-se, os cães latem, portas abrem e fecham.) Afasta-te já da porta, não
ouves? O Palácio tumultuou-se. As trombetas ficaram mais selvagens, o velho rei saiu
furioso. Por que sorris? Onde tens o pensamento?
TESEU – Como pode estar furioso, ele, que tudo compreende? Tu verás, vai até mesmo
apoiar suas duas murchas e sábias mãos sobre minha cabeça, dando-me sua bênção.
Sim, sim, não levantes os ombros, mulher. Eu sou, aprende, o verdadeiro filho dele.
ARIADNE – Teseu, tu falas e eu me apavoro. Estás pálido, tuas mãos estão queimando,
tuas palavras espumejam. Por causa da luta excessiva e do excessivo abraço, teu juízo
abalou-se. Vamos sair para que o vigoroso vento do mar te atinja.
TESEU – Eu sou o verdadeiro filho dele. Meu juízo não se abalou, o mundo abalou-se,
por isso te apavoras, mulher. O velho cansou-se de lutar, parou no meio do caminho da
esperança e o mundo também parou, junto com ele. E eu assumi sua luta e levei a cabo,
movi o mundo para além de onde ele o havia deixado: isso significa ser filho.
ARIADNE – Infelizmente não podemos mais fugir: ei-lo! (Surge Minos caminhando
lentamente, sem seus ornamentos reais: a coroa, os colares e o cetro real. ) Ai, devido
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à pressa excessiva esqueceu-se de colocar a régia coroa em seus cabelos brancos e de


pegar o comprido cetro real de lírios dourados, e chega como um simples mortal,
tropeçando nas lajes! (Ela corre para pegá-lo pela mão.) Pai! (Mas Minos afasta-a
calmamente e, com vagar, aproxima-se de Teseu, que se desencosta do batente da
porta e abre os braços.)
TESEU – Pai, que grande alegria! Concluí a tua obra!
(Minos ergue a mão, para impedir Teseu de tocá-lo.)
MINOS – Estás vivo?!
TESEU – Não sei, pai. Creio que sobrepujei a vida e a morte: creio que uma alma
imortal extravasa de mim, dos calcanhares ao alto da cabeça. Respiro o ar da terra e
delicio-me; piso no solo quente e delicio-me. Estendo minhas mãos e deposito em tuas
velhas palmas saciadas a grande notícia: concluí a tua obra. Agora podes morrer, pai.
MINOS – Abaixa a voz, pássaro de Atenas, abaixa a crista que, no apogeu de tua
juventude, denota arrogância: este instante é terrível. Não é um instante, é um
terremoto: deuses, reinados e reis oscilam. Abaixa tua voz, a alegria excessiva é
bárbara, não combina com uma alma grandiosa!
TESEU – E nem com a tristeza excessiva, ó Grande rei prestes a morrer!
MINOS – E nem com a tristeza excessiva. Mas, igualmente, nem com o discurso
insolente. Mesmo no mais selvagem fervor da tua força e da vitória, tu consegues
manter teu espírito brando e indiferente? Acima da vitória, acima de Teseu, acima do
deus de Teseu? Somente então poderás me chamar de pai.
TESEU – Tua fala é severa. Entronizas o filho muito no alto e isso me agrada. Só peço
tempo para vencer a juventude: ela me embaraça com sua alegria e com sua tristeza,
desmedidas.
MINOS – Subiste do Hades, abandona já a alegria e a tristeza. Como te dignas trazer
ainda seus nomes em teus lábios? Abandona a alegria e a tristeza. E também a
comodidade, a bondade e a esperança, todas essas amásias do homem escravo, e
responde: vejo espessas manchas de sangue em tua túnica branca. Que sangue é esse?
Teu? Dele?
TESEU – Como queres que eu distinga? Nós dois ficamos cheios de sangue. Nós dois
lutamos como touros. Começamos assim: com pavor, com sangue...
MINOS – Não prossigas! A grande façanha ainda não se apagou de ti, teu corpo ainda
lança chispas. Pode ser que do alto da arrogância da juventude, escape de ti uma
palavra excessiva, e eu não quero. Filha, eu te pergunto: o que aconteceu sob a terra?
Como esse bárbaro pôde encontrar a vereda mais oculta? Nem a ti eu a havia confiado:
tu a conhecerias somente na hora em que eu morresse. É o maior segredo, a
verdadeira coroa que o rei, ao morrer, confia ao herdeiro: e ele a encontrou. Como a
encontrou? Isso é o que eu te pergunto!
ARIADNE – Não pude perceber, pai. Ao se avistarem, os dois agarraram-se furiosos,
bufavam, mordiam, bramiam e por um momento notei, graças ao brilho lançado pelas
alvas dos olhos, que haviam brotado grandes chifres retorcidos também da loura
cabeça de Teseu! Mas, enquanto lutavam e bramiam, subitamente ouvi um profundo
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suspiro, muito terno e cheio de compadecimento... Tomei coragem, peguei a flauta e


comecei a tocar a melodia mágica que acalma os touros. E o combate pouco a pouco se
abrandou, os dois suspiravam docemente e, por um momento me pareceu que
começaram a chorar... Logo ambos jaziam, um ao lado do outro, e se acariciavam,
sussurravam, riam e choravam... Eu não via mais, na escuridão, chifres e bocas de
touro: eram duas luminosas faces humanas que refulgiam, alegres, dentro da gruta
selvagem. E creio que, devido à grande alegria, não sabiam o que diziam... Murmuravam,
arrulhavam e deliravam...
MINOS – No murmúrio e no doce delírio, filha, oculta-se a palavra mais firme e mais
sóbria. Mas é preciso ter vigor para separar as crostas e encontrá-la, e a mulher não
tem esse vigor, ela se detém nas sedutoras camadas superficiais. Tu, jovem Campeão,
pudeste ir adiante. Dirijo-me a ti e pergunto: e depois dos afagos e do pranto? E
depois do doce delírio? Eu não pude ir além.
TESEU – Nós penetramos no silêncio.
MINOS – Ah!
TESEU – Nós penetramos no silêncio, velho Lutador: e esse foi o auge da luta.
MINOS – Eu não consegui chegar ao silêncio, não pude, tive pressa. Tive pressa de
subir à luz, para governar o mundo. E enquanto eu governava o mundo, esquecia o deus
irredento que mugia debaixo de meus pés... Mas tu – feliz de ti! – pudeste ir além.
Concluíste o dever de filho. E depois de penetrarem no silêncio sagrado?
TESEU – Então nós dois, silenciando, nos dissemos muitas coisas, decidimos muitas
coisas. E, agora, subi à superfície da terra para executá-las.
MINOS – Já se uniram os dois, já se tornaram um: esqueceram que eu também existo?
Então nem o deus pode perdoar a velhice? (Silêncio.) O que os dois disseram,
silenciando?
TESEU – Não sei, coisas que não cabiam em palavras: se coubessem, falaríamos.
(Minos dá um passo em direção a Teseu e fala com voz profunda e solene.)
MINOS – Transpuseste as três portas do Mistério: o sangue, as lágrimas e o silêncio.
Farejo em ti os três grandes hálitos: do Touro, do Minotauro e do Deus. Elevo a mão
calmamente, sem alegria nem tristeza, além do desespero e da esperança: bem-vindo,
príncipe de Creta!
ARIADNE (grita) – Príncipe de Creta!
(Teseu faz menção de pegar a mão de Minos, mas este o afasta e olha a lua, que já
desaparece, abanando a mão para ela, como numa despedida.)
MINOS – Ó minha lua, límpido, gélido e esmaecido amuleto de minha juventude,
chegaste ao poente, parte! Parte que surgirá agora, arrogante e reaceso, com nova
juventude e vigor, o rústico sol!
ARIADNE – Pai... (Aproximando-se, quer pegar-lhe a mão.)
MINOS - Creta abandona-me, o deus abandona-me, chegou a tua vez, filha... Tu
também vais me abandonar?
ARIADNE - Pai, perdoa-me... Não sou um homem, sou uma mulher, chegou minha hora...
MINOS – Chegou tua hora: adeus, filha!
29

ARIADNE - Pai, vais partir?


MINOS – Como posso partir, filha? Ainda não esvaziei o copo. Eu o beberei todo,
gosto das derradeiras gotas.
ARIADNE - Dá-me tua bênção, pai!
MINOS – Ariadne, a Sina receou agraciar-me com um filho macho. Eu me obstinei e
disse: resistirei à Sina, esse é o dever do verdadeiro ser humano! E eu te recebi,
primogênita, larguei-te ao sol, ao mar, aos homens, para que te tostasses,
amadurecesses, vencesses a maldição divina de ter nascido mulher e subisses ao trono
guardado pelo deus, como um filho meu. Ensinei-te a combater touros e homens, a
governar barcos, a te arrojares na guerra e a não temeres o sangue. E, pouco a pouco,
enquanto crescias, eu te confiava muitos segredos do nosso deus, Ariadne. Todas as
minhas lutas foram perdidas: a Sina venceu. Sim, eu sabia disso: ela vence sempre,
porém tive confiança em sua leviana irmã menor, a Sorte. Esqueci que ela também ama
os jovens, que zomba dos velhos, que os abomina e trai, e que nos trouxe para cá um
louro príncipe bárbaro. E tudo aquilo que eu te havia confiado, revelaste ao belo
forasteiro.
ARIADNE – Pai!
MINOS – Não implores, não negues. Não me surpreendo e nem me queixo: essa é a lei.
Tu és mulher, cumpriste o teu dever. Acima da mulher está o homem, acima do homem
está o deus. Cada qual tem o dever de obedecer e transmitir tudo ao seu comandante.
Somente assim a desordenada ralé humana, sobre a crosta da terra, organiza-se e
torna-se um exército.
ARIADNE – Pai, uma voz dentro de mim...
MINOS – Eu conheço essa voz: cala-te! Preciso perguntar-te algo mais grave: como
eles se apartaram? O abraço durou muito tempo?
ARIADNE – Não, um relâmpago, um grande e inerte relâmpago; fiquei aborrecida e,
aproximando-me, estendi a mão para distinguir qual deles era Teseu, para pegá-lo e
partirmos. Se eu o deixasse lá, ele não voltaria mais para o mundo dos homens. Mas, de
um momento para o outro, uma mansa praia azul estendeu-se diante de mim, as ondas
brincavam ao sol, os seixos riam e cantavam, e dois jovens nus e imóveis, como se
tivessem nadado e acabado de sair do mar, dois jovens de pé haviam estendido os
braços, cruzando-os um sobre o ombro do outro, olhavam o mar e não falavam. Um
silêncio profundo e imortal os envolvia. Eu não sabia qual dos dois era o príncipe de
Atenas: ambos eram jovens e louros, altos e queimados de sol. Ambos eram deuses?
Ou ambos eram homens? Eu não podia distinguir. “Teseu!” – gritei –, “Teseu!”, para ver
qual dos dois viraria a cabeça. Mas assim que eu perturbei o silêncio sagrado, a praia
tremulou como a bruma, foi para os ares e o sol absorveu-a. E eu senti minha mão
tremer dentro da palma rude da mão de Teseu. “Vamos” - disse-me baixo ao ouvido -,
“vamos, tudo terminou.” Tudo terminou, pai!
MINOS – Por que suspiras? Resiste bravamente, filha, és feita de terra cretense, não
envergonhes Creta! É na separação que as almas revelam sua nobreza.
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ARIADNE – Cansei-me... Cansei-me, pai! Olha para ele, ele saiu da terra fortalecido,
como um sol que desponta e eu me cansei...
MINOS – Tu não te cansaste, filha, mas percebeste, enquanto ele te segurava pela
mão, que és mulher. Percebeste que és mulher e já estás perdida.
ARIADNE (baixo) – Pai, ordena-lhe que me leve com ele!
MINOS (sorrindo) – Eu, ordenar-lhe? (Em voz baixa) Mas então não percebeste ainda,
infeliz? Não compreendeste quem ele é?
ARIADNE (assustada) – Quem?
MINOS – Aquele que eu estive esperando... Aquele que eu estive esperando... Cala-te!
(Vira-se impulsivamente na direção de Teseu.)
ARIADNE – Pai, não o mates! Eu o amo...
MINOS (Baixo, como se falasse sozinho.) - Eu também o amo, ai de mim! É por isso,
filha, é por isso que não há salvação! Ó príncipe de Creta, não te guardo nenhum
rancor, olho-te do alto e sorrio com compaixão e condescendência porque, por trás de
teus ombros, eu vejo o outro Teseu que, seguramente, um dia virá para te destituir do
trono, ó novo Minos! E também por trás desse outro Teseu, eu vejo seguramente
outro, e depois mais outro... e mais outro... e mais outro, até o derradeiro e definitivo
Teseu!
TESEU – Quem?
MINOS – O fogo. Tu ris?
TESEU – Agora entendo como se desmantelam os reinos, velho rei! Teu olhar alongou-
se em demasia, teu espírito cresceu em demasia e teus braços paralisaram-se! Eu olho
apenas o Teseu de hoje. (Bate com a palma da mão no peito.) Este! O que acontecerá
com os outros, com os vindouros que enumeraste? Que se preocupem netos e bisnetos!
Para mim basta - basta e sobra - este! A alma é muito vasta, a vida que ela tem a seu
serviço é muito curta e não há tempo. Eu tenho pressa!
MINOS – Adeus, galinho apressado. Quando partes, afinal?
TESEU – Aguardo um sinal.
MINOS – Que sinal? De quem? Do mar? Do ar? Do deus?
TESEU – Não sei: aguardo. Ele virá, e então eu partirei.
MINOS – E, afinal, quando retornarás?
TESEU – Assim que extrair pinheiros e ciprestes das nossas montanhas, que construir
e equipar meus barcos, que reunir meus louros exércitos descalços, assim que o deus
me bater no ombro e assinalar que chegou a hora!
MINOS – Não te preocupes muito com armadas e exércitos, ó Herdeiro! Um só barco
é bastante para partires, até uma casca de noz é bastante para ancorares em nossas
praias e até mesmo desembarcares completamente só é bastante. Há muitos e muitos
anos que todos os cretenses, com as mãos em pala contra o sol, olham atentamente
para o norte, aguardando teu surgimento! Há muitos e muitos anos que nós temos tudo
preparado: tínhamos muralhas fortificadas e as destruímos; tínhamos barcos e
deixamos que se cobrissem de relva nos nossos portos; tínhamos um terrível deus
antropófago, e agora tu lhe deste o teu rosto e o tomaste de nós. E ainda isto, o mais
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grave: agora que o povo não ouvirá mais o deus mugir sob a terra, vai perder a
vergonha e se revoltar. Eu não tenho necessidade de um deus para mugir: eu posso
fazê-lo. Mas, se lhe faltar o temor, o povo vai se desagregar, desencabrestar, jogar o
cavaleiro no abismo e despencar ele também no caos! Ó príncipe bárbaro, chegou a
hora de colocares ordem no caos, com o teu novo deus.
(Silêncio. Lentamente Teseu aproxima-se de Minos. Ariadne segue-o de perto.)
TESEU – Até à vista, pai. Preparaste tudo muito bem, eu voltarei.
MINOS – Serás bem-vindo!
TESEU – Preparaste tudo muito bem, sabiamente e com paciência. As cabeças
encheram-se de esperteza e zombaria, os corações encheram-se de areia e serpentes,
os nobres fartaram-se, o povo passou muita fome. As mulheres ficaram estéreis, as
lareiras apagaram-se. Falta fogo e eu vou trazê-lo.
MINOS – Ficarei postado na mais alta torre de meu Palácio e contemplarei o mar: vai,
com a minha bênção! Peço-te somente um favor, ó Herdeiro!
TESEU – Diz, Grande rei e pai, se eu puder...
MINOS – Tu já podes tudo.
TESEU – Não quero poder tudo. É preciso que eu escolha, impiedoso. Dize-me, que
favor me pedes?
MINOS – Esta é Ariadne, minha amada filha mais velha. Eu a enviei para te seduzir e
foste tu que a seduziste: ela te pegou pela mão e tu não te perdeste nos sombrios
volteios do deus. Ela colou os lábios à flauta mágica e, como é mulher, ajudou tanto
quanto pôde a transformar o pavor em amor. Estende tua mão, ó Vencedor, toma-a: ela
é tua. Que a Fatalidade, com esse casamento, transforme-se em livre vontade do
homem vencido. Que meu reino, com dignidade e serenamente, deslize para o fundo do
mar. (Teseu vira-se e olha para o mar, com o rosto contraído e severo.) Ouviste? Eu, o
importante senhor dos mares, concedo minha filha a um jovem pastor. Por que não
respondes? Estou falando, ainda sou rei, tu me deves respeito!
TESEU (Estendendo a mão para Ariadne) – Adeus, Ariadne! (Ariadne, que havia
estendido a mão, retira-a e luta para dominar a raiva e a dor. ) Adeus, Ariadne! Por um
lampejo, sob a luz branda dessa grande lua em seu zênite, nós nos encontramos, ó
orgulhosa filha de reis. Por um lampejo nossas mãos uniram-se, nossos corações
bateram fortemente, executamos juntos um feito imortal, e tu te tornaste imortal.
Saíste da vida cotidiana, da deterioração e do pó, e entraste na canção: se deres mais
um passo despencas. Repara, a lua agora se põe por trás da mais alta montanha de
Creta, vai junto com ela! Tudo aquilo que tinhas de bom, tu me deste, tudo aquilo que
eu tinha de bom, tu pegaste. Adeus!
ARIADNE – Ó mercador bárbaro, pensas que vieste aqui trocar mercadorias?! Eu te
dei, tu me deste, estou partindo... Eu te dei tudo e não recebi nada: tu não partirás.
Pai, ainda estamos vivos, ainda seguramos o cajado real de ouro que governa os homens
e os espíritos. Nossas gargantas ainda não se deterioraram, pai: grita, ordena! Nossas
almas ainda não se deterioraram, resiste!
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MINOS – Ariadne, minha filha, não te rebaixes. Enquanto puderes, sustenta bem
elevado o único adorno real que nos restou: o orgulho. Não deixes falar alto o rude
coração feminino! Teseu, tu recusas, não aceitas que nós dois juntos lisonjeemos a
Fatalidade e a abrandemos, colocando entre nós esta graciosa princesa, ferida pelo
amor. Vai-se, então, a minha última esperança. Agora vem, ó Destino, como
frequentemente gostas de vir, com o fogo, com o terremoto, com o punhal do
massacre! A cabeça deste jovem é sagrada e inviolável porque tu a escolheste.
Ninguém pode tocá-la. Eu não vou tocá-la! Ó Herdeiro, está amanhecendo, parte! Parte
e regressa rapidamente para empurrares a roda da Fatalidade, para fazê-la girar! Eu a
empurrei o quanto pude. É a tua vez!
ARIADNE – Não abras a porta para ele, não entregues as armas, ó senhor dos mares!
Não estendas o pescoço ao punhal porque, então, o punhal terá razão! Tu te cansaste,
pai? Envelheceste? Não consegues mais, não aceitas mais lutar? Deixa-me fazê-lo: eu
sou teu herdeiro, não ele! Volta à alta montanha para conversares com o deus e deixa-
me colocar ordem entre os homens, aqui na planície. Teseu, tua vida depende de uma
palavra: diz a palavra certa para que te salves, para que nos salvemos! ( Silêncio. Teseu
olha ao longe, na direção do mar.) Ó amado príncipe cruel, envergonho-me, mas não
consigo suportar a dor e grito: leva-me! O que me importam os feitos imortais? Que
faço eu com um pequeno lampejo? Anseio passar todos os dias da minha vida junto
contigo, meu marido! Leva-me! Não, não te peço bem-estar, nem aventuras heroicas,
nem mesmo amor. Falo bem alto, para que tu ouças: eu te peço um filho, meu filho!
Somente contigo – sinto que é irremediável, por isso grito como se não houvesse outro
homem no mundo –, somente contigo posso gerar o filho que quero, como quero, aquele
que quero! Por isso eu te imploro: leva-me!
MINOS – Ó carne martirizada de mulher, ó clamor de criança não nascida nas
entranhas, ó minha filha!
TESEU - Falei a teu respeito com o meu deus, filha da Lua: ele se recusa! Eu te quero,
ele não te quer, e eu obedeço.
ARIADNE – Por que ele não me quer?
TESEU – Não sei, Ariadne. Ele não explica sua vontade, não discute: ele ordena.
ARIADNE – Para onde vais? Ó meu amaldiçoado, ó meu amado, eu irei contigo! Por ti
traí minha pátria, meu pai e meu deus. O mundo ruiu, aniquilou-se. Eu só tenho a ti:
como me abandonas?
TESEU – Adeus, Ariadne! Até à vista, rei: era uma vez um rei de Creta!
ARIADNE – Pai, pai, não o deixes partir! É melhor que o faças subir por bem ao teu
trono, faça-o teu filho. Antecipa-te para, de livre vontade, fazeres tudo aquilo que o
Destino tem traçado! Que nossos palácios não sejam queimados, pai. Que ele,
pacificamente, com nossas chaves, abra nossas portas, estenda-se em nossos leitos,
sente-se às nossas mesas postas. Ele é rústico, mas nós o ensinaremos a comer, a
vestir-se, a conversar. Dá-lhe tudo o que temos, paga-o, compra-o, para que ele me
leve!
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TESEU – Não me agrada tomar pacificamente tudo o que posso tomar pelo fogo e pelo
punhal. Parto para trazer as ferramentas. Adeus, minha velha e cara companheira
Ariadne. Até à vista, mui idoso Rei!
(Ariadne dá um grito.)
MINOS – Ariadne, não deves esquecer que és minha filha: vamos subir até a mais alta
torre para vermos o barco dele partir. Para avistares, com um olhar sereno, o Destino
que se lança com fogueiras e machados para te atemorizar; para que o avistes e
sorrias: esse é o pináculo até onde pode chegar a força do homem. Vem para subirmos
juntos e vermos, lá do alto, o barco dele partir.
ARIADNE – Onde estão os conselhos que me davas, quando me ensinavas a governar o
mundo? “Filha” – tu me aconselhavas –, “resiste à morte como se fosses imortal! Deves
dizer: É isto que quero! - sem perguntares se o Destino quer ou não quer!” Pois neste
momento é isto que eu quero, pai, mesmo que o Destino não o queira! Pai, mata-o! Ainda
somos reis: mata-o! Ele queimará nossos barcos, arrasará nossos palácios, esfaqueará
nosso povo, não percebes? Não o ouviste? Ele vai nos trazer suas ferramentas: fogo e
punhal. Mata-o! Não vês os olhos dele? Não vês os cabelos dele? Não são cabelos, são
chamas! Cheira-o: ele cheira a enxofre! Ainda há tempo, ele ainda se acha em nossas
mãos, mata-o! Ao nosso redor as sentinelas espreitam, anseiam por um gesto teu.
Eleva a trombeta sagrada: chama-as! Neste derradeiro instante, não nos humilhemos,
pai. Resistamos ao Destino: mata-o!
(Minos olha Ariadne, calado. Empunha a trombeta, mas hesita.)
MINOS (A Teseu) - Não tens medo? Amo muito minha filha, jamais lhe recusei um
favor! Parte! Logo o povo despertará, estarás perdido, e eu não quero: não tenho outro
herdeiro! Ainda tens tempo, depressa, corre para o porto.
TESEU – Não vou partir correndo, como um ladrão. Tenho confiança no meu deus.
Aguardo que ele me dê um sinal. Só então descerei, com um andar calmo e nobre, para
encontrar meu barco.
ARIADNE – Pai, mata-o! Não te peço nenhum outro favor, mata-o! Lutemos com o
Destino: que ele nos vença, não Teseu! Eleva a trombeta sagrada!
MINOS – Não há salvação, filha, mas compadeço-me de ti: lutemos, então! Tentemos
fazer durar ainda mais um pouco o nosso brinquedinho: o reino de Creta. Voltemo-nos
contra o Destino!
(Minos toca forte a trombeta para chamar os vigias. Mas repentinamente, ao som dela,
a porta do Labirinto desaba, ribombando. Aparece na soleira obscura o Minotauro
redimido: o Curos.)
ARIADNE – Pai, socorro! Caiu um raio e a porta do Labirinto desmoronou!
MINOS – Não perturbes este momento sagrado com gritos, filha. Abre os olhos
efêmeros, contempla o imortal.
ARIADNE – Meus olhos ofuscaram-se pelo excesso de luz, pai. Quem é esse
arquiefebo que se ergueu na entrada obscura do Labirinto? Imóvel, resplandecente,
inteiramente nu, idêntico a Teseu, mas mais alto, mais sereno e mais belo. Quem é, pai,
tu o conheces?
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MINOS – Conheço.
ARIADNE – Quem é?
MINOS – O Libertador: cala-te!
ARIADNE – E o que ele segura na mão? Não consigo distinguir.
MINOS – Segura a máscara do touro. Foi libertado. Agora foi libertado por inteiro,
dos pés ao alto da cabeça.
TESEU – Companheiro, bem-vindo!
ARIADNE – Estamos perdidos, pai. Ele está estendendo o braço direito, como para
tomar posse do mundo!
MINOS – Ele está tomando posse do mundo, filha.
ARIADNE – Oh, jogou por terra a máscara do touro, com desdém!
MINOS – Foi libertado, desafogou-se. Agora caminhará na luz. Afasto-me para que
ele passe.
ARIADNE – Virou-se, viu-nos e sorriu! Está acelerando o passo, está chegando!
MINOS – Curva-te para reverenciá-lo, filha!
ARIADNE – E tu, pai?
MINOS – Amada Ariadne, adeus: o meu dever foi cumprido, vou descer ao Hades.
TESEU (Ergue a mão e acena para o Curos.) – Vamos, Companheiro!