Você está na página 1de 4

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 34 ª VARA DE

FAMÍLIA DA COMARCA DE SÃO PAULO/SP

Processo n.º xxxxxx

JÚLIA DE TAL, já qualificada nos autos em epígrafe, vem, respeitosamente,


perante V. Exa., por seu advogado, procuração juntada à fl. xx, apresentar

IMPUGNAÇÃO À CONTESTAÇÃO

oferecida por JOSÉ DA SILVA e JOÃO DA SILVA, herdeiros de JONAS DA


SILVA, todos também qualificados nos autos em epígrafe, nos seguintes
termos:

I. BREVE RELATO DA PETIÇÃO INICIAL E DA CONTESTAÇÃO

A Autora ajuizou a presente ação com o objetivo de ver declarada a existência


de união estável que manteve entre os anos de 1989 a 2015 com Jonas da
Silva, já falecido, arrolando, no polo passivo da demanda, José da Silva e João
da Silva, herdeiros de Jonas, os quais, devidamente citados, apresentaram
contestação às fls. Xx/xx, argumentando os Réus, em sede de preliminares:
1. Falta de interesse de agir da autora: aduzem os réus que Jonas não deixou
à autora pensão de qualquer origem, razão pela qual lhe seria inútil a simples
declaração de que com ele manteve união estável;
2. Coisa julgada: segundo os réus, em oportunidade anterior, a autora ajuizara
contra eles ação possessória na qual, alegando ter sido companheira do
falecido, pretendia ser mantida na posse de imóvel pertencente a este, ação
que, conforme aduziram, foi julgada desfavorável, e, nela, não reconhecida a
união estável;
3. Litispendência: alegam os réus que já tramitava, na 1ª Vara de Órfãos e
Sucessões desta comarca, ação de inventário dos bens deixados pelo falecido
Jonas, acrescentando aqueles, também, que qualquer tema relativo a interesse
do espólio deveria ser, necessariamente, discutido naquela ação, visto que o
juízo do inventário atrairia os processos em que o espólio é réu.

II. PRELIMINAR DE IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO

Sustem os Réus, preliminarmente, que o pedido seria juridicamente impossível


ante ao fato de que o Sr. Jonas ainda era casado com sua esposa, muito
embora não mais vivesse com a mesma há mais de 20(vinte) anos. Desta
sorte, a União Estável restaria prejudicada uma vez que não poderia haver
reconhecimento de referida relação haja vista a existência de casamento civil
pré-existente. No entanto, nenhuma razão assiste aos Réus. No caso em tela,
não há que se falar em impossibilidade jurídica do pedido, uma vez que os
pedidos da autora são perfeitamente admitidos pelo ordenamento jurídico
brasileiro no mesmo passo em que não recaem quaisquer vedações sobre o
direito pretendido. Ocorre que os Réus invocam o Art. 1.521, inciso VI do
CC/2002 que é taxativo ao dizer que não podem casar as pessoas já casadas.
No entanto, esqueceram-se da norma contida no Art. 1723, § 1º a qual é
cristalina ao estabelecer que o impedimento do Inciso VI do Art.1.521 não se
aplicará se a pessoa casada se achar SEPARADA DE FATO. Ora! Os próprios
Réus admitem em sua defesa que o Sr. Jonas já não vivia mais com sua
esposa há mais de 20 anos. Tem-se aí típico caso de separação de fato,
motivo pelo qual não há que se falar em qualquer tipo de impedimento. Eis que,
portanto, fica cabalmente demonstrada a possibilidade jurídica do pedido não
merecendo prosperar a presente preliminar, razão pela qual fica desde já
impugnada.

III. DA PRELIMINAR SOBRE AUSÊNCIA DE INTERESSE DE AGIR 

Os Réus alegam que não haveria interesse de agir por parte da Autora pelo
simples fato de que o de cujus não deixou qualquer tipo de pensão, razão pela
qual a prestação jurisdicional que se invoca seria inócua. Mais uma vez, a
razão não está do lado dos Réus. Isto porque, a declaração de União Estável
não visa apenas a questão envolvendo a condição de beneficiária de pensão
como aduzem os Réus. É direito da companheira a participação no patrimônio
construído durante a União. Não bastasse tal fato, é direito da companheira
obter para si sentença declaratória acerca de uma relação jurídica que
verdadeiramente existiu. Assim, não há que se falar em ausência de interesse
de agir por parte da Autora, oportunidade na qual impugna-se a preliminar em
comento.

IV. DA PRELIMINAR DE COISA JULGADA

Em outra preliminar levantada pelos Réus, discute-se a tese de que haveria


prejudicial de mérito envolvendo a coisa julgada. No entanto, tal entendimento
não é o mais correto que deve ser adotado ao caso em tela. Ocorre que em
oportunidade anterior a Autora chegou a ajuizar, contra os mesmos Réus, Ação
Possessória vindicando ser mantida na posse do imóvel de seu companheiro,
pai dos Réus. Ato contínuo, referida demanda foi julgada improcedente,
contendo a sentença fundamentação embasada no fato de que, àquela época,
não estava demonstrada a existência de União Estável. Note-se que a causa
de pedir e os pedidos daquela demanda não versavam sobre União Estável em
si, mas apenas questão envolvendo direito possessório, que nada tem a ver
com o pleito do presente processo.
Neste diapasão, não há que se falar em identidade de pedidos e causa de
pedir entre as duas ações e tampouco coisa julgada formal e material que
possa se constituir fato extintivo da presente demanda. Em outros termos, fica
fácil concluir que não existe a menor correlação entre um processo e outro,
razão pela qual não existe coisa julgada que diz respeito ao pedido de
reconhecimento e declaração de União Estável. Desta forma, resta impugnada
a preliminar de coisa julgada.

V. DA PRELIMINAR DE LITISPENDÊNCIA

Por derradeiro, os Réus suscitaram preliminarmente que haveria ocorrência de


litispendência haja vista que se encontra em trâmite na 1ª Vara de Sucessões
de São Paulo, processo de inventário dos bens deixados por Jonas. Logo de
início fica fácil verificar que não existe a menor chance de ocorrência de
litispendência. As duas ações possuem pedidos, partes e causa de pedir
distintas uma da outra. Ademais, é cediço que ao passo que o processo de
Inventário é de competência da Vara de Sucessões, o pedido de
reconhecimento de União Estável é de competência da Vara de Família. Desta
forma não poderia ocorrer sequer atração do foro justamente por se tratar de
duas ações bem distintas. Portanto, estando afastada a hipótese do ar. 301, §§
1º e 3º do CPC, não há que se falarem litispendência restando, pois,
impugnada a preliminar.

VI. DO MÉRITO - DA UNIÃO ESTÁVEL

Quanto ao mérito, os Réus tentam conduzir Vossa Excelência ao entendimento


equivocado deque o Sr. Jonas era homem dado a vários relacionamentos e,
apesar de ter convivido com a Autora sob o mesmo teto, tinha uma namorada
em cidade vizinha, com a qual se encontrava, regularmente, uma vez por
semana, no período da tarde. Data máxima vênia, tal alegação não é capaz de
desconstituir o bom direito que acompanha a Autora. Convém ressaltar que o
art. 1.723 do Código Civil de 2002, prevê o reconhecimento da União Estável
entre o homem e a mulher, como entidade familiar, desde que haja convivência
pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de
família. E é este exatamente o caso em tela no qual a autora e o Sr. Jonas
relacionaram-se de forma pública, contínua, duradoura e com o objetivo de
constituição de família, durante anos a fio, restando como infundadas as
alegações de outros relacionamentos, até mesmo porque nenhuma prova foi
produzida neste sentido. E ainda que se comprovassem tais relacionamentos,
em nada mudaria a situação de União Estável da Autora com Jonas, pois estas
supostas relações não tinham os contornos de uma União Estável. Logo, tais
supostos relacionamentos não poderiam, jamais, desconstituir a relação
da Autora com Jonas. Ora! Os próprios Réus confessaram em sua contestação
que os supostos namoros de Jonas eram ocasionais, por períodos curtos e
“apenas na parte da tarde”. Por fim, restou apenas a conclusão de que não
merecem acolhida as razões de defesa dos Réus, pois em momento algum
trouxeram fato realmente relevante ao combate da lide. Muito pelo contrário,
ficou ainda mais evidente que a pretensão da autora é robusta e verdadeira.
Nenhuma prova, inclusive, foi produzida pelos Réus, o que apenas demonstra
a fragilidade de suas alegações. Neste espeque, reitera-se os pedidos
formulados na inicial pugnando-se pela procedência total dos pedidos da
autora. 

VII. PEDIDOS E REQUERIMENTOS

Diante de todo o exposto, a Autora impugna as preliminares suscitadas,


batendo-se pelo não acolhimento das mesmas. Por derradeiro, reitera pela total
procedência dos seus pedidos já devidamente formulados na Petição Inicial.

Termos em que, Pede deferimento.


São Paulo, 14 de Junho de 2019
Advogado:
OAB n° xxx.OAB/DF  xxxxx