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Teologia Latino-Americana

Fábio Roberto Tavares

2016
Copyright © UNIASSELVI 2016

Elaboração:
Fábio Roberto Tavares

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

291.211
T231t Tavares; Fábio Roberto

Teologia latino americana/ Fábio Roberto Tavares :


UNIASSELVI, 2016.

160 p. : il.

ISBN 978-85-7830-969-5

1.Teologia.
I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
Apresentação
Queremos com esse Caderno de Estudos procurar entender melhor
a história da teologia latino-americana, os problemas e possibilidades, a
interação com a sociedade civil, explorar as contribuições dos principais
teólogos da América Latina para a discussão intelectual e pastoral de
envolvimento cristão na sociedade contemporânea.

Queremos também examinar a configuração eclesiástica criada pela


primeira geração de teólogos da libertação, e os desafios políticos e críticas
feitas desta primeira geração. Estudar e entender o ambiente eclesial alterado
e novos desafios teológicos e políticos para a teologia latino-americana.

Vamos também, muito brevemente, examinar os caracteres


significativos para a formação da história política e teologia do período.

Você, acadêmico, é convidado, permanentemente a atentar para as


contemporaneidades urgentes, questionar-se sobre como a teologia pode
lidar com estas questões em um mundo cada vez mais secular.

A progressão de teólogos latino-americanos será evidenciada,


através do seu envolvimento em movimentos sociais e a relação entre a
Igreja e a sociedade civil, como desaparece a Igreja a partir da centralidade
da sociedade para a maioria, e as comunidades cristãs se tornem intercaladas
com outras partes de um mais amplo projeto de comunidades.

Este é um estudo que busca a interdisciplinaridade em que como


religião e política são muitas vezes utilizadas como conceitos que existem
na separação, aqui eles são dispositivos para um projeto interpretativo. Na
primeira unidade vamos buscar um entendimento do contexto em que nasce
e se desenvolve a teologia na América Latina. Sua identidade, os conceitos
básicos que definem os tipos de teologia que vão tendo destaque no panorama
latino-americano.

Na segunda unidade vamos indicar a proximidade que há entre


a espiritualidade e a teologia, sem esquecer o contexto em que está se
desenvolvendo esse estudo. Ainda nessa segunda unidade, vamos entender
melhor como se dá o diálogo religioso, sua importância para as denominações
religiosas. Vamos estudar também a relação entre a ética cristã e a Sagrada
Escritura com a contribuição do apóstolo Paulo através de suas cartas.

III
Na unidade 3 vamos estudar as origens teológicas e políticas da
teologia da libertação, bem como identificar e distinguir alguns personagens
que contribuíram para o desenvolvimento e propagação da referida
teologia. Queremos também, nesta unidade, identificar os temas centrais
da teologia latino-americana a partir da contribuição de alguns pensadores
da teologia da libertação.

Este tema: teologia latino-americana se faz por si só importante, como


um referencial para entender a atual situação de nossa região, sua história, seu
povo, suas dificuldades, seus avanços, seus fracassos. Não há como desvelar
toda a história da teologia na América Latina, mas pelo menos incentivar a
busca de mais conhecimento até para entender melhor a nossa história.

O que sabemos de antemão é que sob as circunstâncias atuais da


América Latina, vemos que não podemos alimentar ou vestir, ou abrigar as
maiorias. Aqueles que detêm o poder constituem uma minoria econômica
que domina, às vezes, explicitamente, às vezes, subliminarmente o poder
político, cultural e, infelizmente, também, por vezes, o poder religioso.

Esta minoria não vai tomar decisões que se opõem aos seus próprios
interesses. O poder deve ser tomado como parte das maiorias para que
as reformas estruturais, econômicas, sociais e políticas beneficiem essas
maiorias e possam ser realizadas.

Não somos salvadores da pátria. Somos estudantes de teologia
preocupados com nossa realidade, com nossa história e queremos dar nossa
contribuição, mesmo que modesta, para ter um mundo melhor.

Fábio Roberto Tavares

IV
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

V
VI
Sumário
UNIDADE 1 - HISTÓRIA E IDENTIDADE........................................................................................ 1

TÓPICO 1 - ENTENDENDO O CONTEXTO..................................................................................... 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 GESTAÇÃO E NASCIMENTO........................................................................................................... 4
3 IDENTIDADE........................................................................................................................................ 14
3.1 IDENTIDADE TRADIÇÃO OCIDENTAL.................................................................................... 15
3.2 CRISTÃOS.......................................................................................................................................... 15
3.3 NOSSA IDENTIDADE COMUM: A CRUZ.................................................................................. 19
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 21
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 22
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 23

TÓPICO 2 - ENTENDENDO A TEOLOGIA....................................................................................... 25


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 25
2 DEFININDO A TEOLOGIA................................................................................................................ 26
3 ENTENDENDO A TEOLOGIA.......................................................................................................... 30
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 34
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 35
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 36

TÓPICO 3 - POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA........................................................................ 37


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 37
2 EXISTEM TEOLOGIAS?...................................................................................................................... 37
3 CORRENTES TEOLÓGICAS.............................................................................................................. 39
3.1 TEOLOGIA LIBERAL...................................................................................................................... 40
3.2 TEOLOGIA POLÍTICA.................................................................................................................... 42
3.3 TEOLOGIA PRÁTICA..................................................................................................................... 42
4 TEOLOGIA NO BRASIL...................................................................................................................... 43
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 46
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 51
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 52

UNIDADE 2 - TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE........................................................................... 53

TÓPICO 1 - ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO.......................................................................... 55


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 55
2 TEOLOGIA ESPIRITUAL OU ESPIRITUALIDADE TEOLÓGICA........................................... 56
3 ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO CRISTÃ............................................................................. 60
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 62
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 64
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 65

VII
TÓPICO 2 - DIÁLOGO PERMANENTE ............................................................................................. 67
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 67
2 UMA TEOLOGIA ALÉM MUROS..................................................................................................... 68
3 A TOLERÂNCIA NO DIÁLOGO....................................................................................................... 68
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 80
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 84
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 85

TÓPICO 3 - A ÉTICA CRISTÃ............................................................................................................... 87


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 87
2 A ÉTICA E A SAGRADA ESCRITURA............................................................................................ 91
3 AS CARTAS PAULINAS...................................................................................................................... 95
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 99
RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................................... 102
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 103

UNIDADE 3 - TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO.................................................................................... 105

TÓPICO 1 - TEOLOGIA QUE LIBERTA.......................................................................................... 107


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 107
2 CONTEXTO LATINO-AMERICANO............................................................................................ 108
3 AVANÇOS E RECUOS....................................................................................................................... 116
4 PENSANDO A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO.......................................................................... 118
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 123
RESUMO DO TÓPICO 1 .................................................................................................................... 125
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 126

TÓPICO 2 - DIFERENÇAS QUE APROXIMAM............................................................................. 129


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 129
2 TEOLOGIA EVANGÉLICA.............................................................................................................. 131
3 TEOLOGIA CATÓLICA.................................................................................................................... 132
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 134
RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................................... 136
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 137

TÓPICO 3 - A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE.................................................................... 139


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 139
2 DESAFIOS............................................................................................................................................ 140
3 A TEOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE............................................................................ 145
4 CONTRIBUIÇÕES DA TEOLOGIA LATINO-AMERICANA PARA O MUNDO............... 147
RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................................... 152
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 153

REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 157

VIII
UNIDADE 1

HISTÓRIA E IDENTIDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade, você será capaz de:

• conhecer a origem e o desenvolvimento da teologia;

• compreender as mudanças sociais e o desenvolvimento das primeiras con-


cepções teológica na América Latina;

• entender a importância da presença dos jesuítas na história da América


Latina;

• refletir sobre os tipos diferentes de teologias, suas características.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dos estudos,
você encontrará atividades que o(a) ajudarão a fixar os conteúdos estudados.

TÓPICO 1 – ENTENDENDO O CONTEXO

TÓPICO 2 – ENTENDENDO A TEOLOGIA

TÓPICO 3 – POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

ENTENDENDO O CONTEXTO

1 INTRODUÇÃO

É fato, e é fato histórico já muito bem fundamentado e conhecido que


as modernas nações da América Latina passaram a existir sob a égide da
Igreja Católica Romana. Apenas um ano depois da “descoberta da América”,
por Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492, a cruz e a espada foram
oficialmente unidas para levar a cabo a conquista espiritual e militar do Novo
Mundo para o romano pontífice e a realeza espanhola.

Mais do que a fé cristã como tal, o que o espanhol e mais tarde os


conquistadores portugueses trouxeram a estas terras foi a Igreja Católica Romana,
uma estrutura religiosa hierárquica intimamente associada ao Estado.

Olhando a história, podemos constatar que, enquanto outros países


estavam satisfeitos em estabelecer-se no âmbito protestante ou regimes católicos
e protestantes mistos que iriam caminhar para o liberalismo religioso, os países
ibéricos criaram um tipo de Igreja-Estado do absolutismo autoritário em que
governo e doutrina religiosa se tornaram inseparáveis. Outros países fizeram da
religião uma expressão nacional, mas Espanha e Portugal mantiveram a crença
inquebrantável na internacionalização da santa da Igreja Católica.

Não vamos exagerar em dizer que este “tipo de Igreja-Estado do


absolutismo autoritária” tornou-se o fator mais decisivo na história da América
Latina por quase 500 anos, não só política e religiosamente, mas também social,
cultural e economicamente.

3
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

2 GESTAÇÃO E NASCIMENTO
Quando queremos falar em história da igreja na América Latina, e também
da teologia, não dá para desconsiderar a grande influência da igreja católica. Isso
é fato e a própria história nos demonstra, podemos ir além. A Igreja influenciou
não só a história da igreja, mas a história como um todo da América Latina, seja
na política, na economia, na sociedade, nos costumes, na cultura, nas tradições.

A América Latina tem sua origem no encontro da raça hispano-


lusitana com as culturas pré-colombianas e africanas. A mestiçagem
racial e cultural marcou fundamentalmente este processo e sua
dinâmica indica que no futuro continuará marcando. Este fato não nos
pode fazer desconhecer a persistência de várias culturas indígenas ou
afro-americanas em estado puro e a existência de grupos com diversos
graus de integração nacional. Posteriormente, durante os dois últimos
séculos, afluem novas correntes migratórias, sobretudo no Cone Sul,
que trazem modalidades próprias integrando-se basicamente no
estrato cultural pré-existente. Na primeira época, isto é, do século XVI
ao XVIII se lançam as bases da cultura latino-americana e de seu real
substrato católico. Sua evangelização foi suficientemente profunda
para que a fé passasse a ser constitutiva de sua essência e da sua
identidade, dando-lhe a unidade espiritual que subsiste, apesar da
anterior divisão em diversas nações e apesar de estar marcada por
rupturas em nível econômico, político e social. (DOIG, 1990, p. 97).

Mantenha, acadêmico, essa realidade sempre presente no que vamos


estudar a partir de agora. Então vamos lá. Vamos ver como isso começou.

A era cristã começou no Novo Mundo em 1492. O espanhol que aqui


chegou, introduziu um diferente código moral, trazendo o batismo, a missa,
novos conceitos de bem e mal, a ideia de céu e inferno, a Virgem Maria e os
santos, uma nova constituição da família e o conceito de Cristo crucificado. A
chegada da Igreja em nossas terras põe fim a sacrifícios humanos e canibalismo.
Os índios, nativos que aqui moravam, foram forçados a ocupar uma posição
secundária na estrutura social e, eventualmente, passaram a ser servos do rei
espanhol e membros do rebanho.

É importante reconhecer que a história da Igreja Católica na América Latina


não era apenas um complemento para a conquista ou uma questão secundária no
movimento de independência mais tarde, mas, sim, que a história da conquista e
a história da Igreja, são completamente interligadas.

Um exame da história da Igreja na América Latina é necessário para que se


compreenda a simpatia que se tem com a teologia da libertação na América Latina desde
os anos 1960. Por isso é preciso compreender o papel da Igreja nas épocas da conquista
e independência. É preciso estar familiarizado com algumas das personalidades
dominantes desses períodos, o tratamento dos índios durante e após esses períodos e o
porquê de a igreja estar tão fortemente envolvida na libertação hoje.

4
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

FIGURA 1 – JESUÍTAS NAS AMÉRICAS

FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ensino-catecismo-historia-


educacao-brasil-750366.shtml#ad-image-0>. Acesso em: 12 abr. 2016.

Os jesuítas foram motivados para estabelecer a sua própria ordem social


por São Thomas More, que publicou sua Utopia em 1516. A ideia fundamental
da Utopia foi a de restaurar as bases cristãs da sociedade, adotando como certeza
orientar as normas de direitos naturais.

Os jesuítas se viam como cumpridores da profecia de Thomas More, e


para levar a cabo este trabalho eles escolheram as selvas impenetráveis do Novo
Mundo como a sua casa e oficina. Aqui, eles sentiram que poderiam fazer seu
trabalho sem ser perturbados, armados com uma concessão de autogoverno do
rei, que os protegia de outros inimigos naturais.

A Ordem Jesuíta foi fundada em 1540, e veio para a América espanhola


durante a vigência de Thomas de Souza como governador, entre 1549 e 1553.
Naquele tempo, os monges franciscanos e dominicanos já estavam estabelecidos
no Novo Mundo, mas essas ordens não estavam destinadas a ter o impacto
significativo que a Companhia de Jesus, ou a Ordem dos Jesuítas buscava ter
sobre os povos indígenas do Brasil, Equador, Colômbia, Paraguai, Chile, México,
Peru, Guatemala e Haiti. Através de seus sucessos com os índios tomados em
seus cuidados e os conflitos resultantes, os jesuítas foram finalmente expulsos da
América do Sul em 1767.

Veja na figura seguinte, um mapa que indica o trabalho missionário


conjunto entre franciscanos e jesuítas no Paraguai.
5
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

FIGURA 2 – TRABALHO MISSIONÁRIO JESUÍTA


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FONTE: Disponível em: <http://www.iadb.org/mobile/news/detail.cfm?lang=es&id=3392>. Acesso


em: 20 abr. 2016.

A terra foi concedida aos padres jesuítas, bem como para outras ordens
religiosas. O que importava, realmente, não era tanto a terra em si, mas sim o
número de índios, ou almas, que viviam nessas terras. A agricultura foi importante
neste período e os jesuítas, eventualmente, se encontraram entre os mais ricos
proprietários de terras.

Mariano Picon-Salas (1952) escreveu que os jesuítas formaram uma
ligação entre a idade barroca e o período pré-revolucionário, indicando a sua
preeminência entre as várias comunidades religiosas ativas nas explorações
espanholas no Novo Mundo na época. No século XVII, a Ordem dos Jesuítas foi
a organização cultural mais importante e uma das mais fortes forças econômicas
e políticas em todo o mundo colonial.

No século XVIII, os padrões intelectuais, o poder econômico e influência


social dos jesuítas era incomparável. Seu poder econômico era derivado de
enormes extensões de terra agricultáveis no vale central do Chile, ranchos na
região do Rio da Prata e propriedades rurais no Peru e no México. Havia oficinas
jesuítas instaladas no Paraguai, Peru e Equador, e interesses de mineração na área
de Chaco, de Nova Granada, hoje Colômbia, Equador, Venezuela e Panamá.

6
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

Estas vastas propriedades compreendiam o aspecto material do que


podemos entender como o maior experimento utópico que se pensou instaurar.
Os jesuítas estabeleceram este império utópico sob condições adversas. O primeiro
passo foi o de pacificar os índios locais. Pai González de Santa Cruz e Rodriguez
y del Castillo foram martirizados em 1628 e foram beatificados por Pio XI. Depois
que os índios foram pacificados as missões eram frequentemente atacadas por
grupos que estavam em busca de índios para usá-los como escravos.

FIGURA 3 – REDUÇÕES

FONTE: Disponível em: <http://angelinawittmann.blogspot.com.br/2015/09/palestra-musica-nas-


reducoes-jesuiticas.html>. Acesso em: 12 abr. 2016.

Apesar das dificuldades, os padres jesuítas configuraram comunidades-


modelo dos povos indígenas no sul do Brasil, Colômbia e Paraguai, estas
comunidades refletiam o sentido jesuíta de organização e autodisciplina, como
se vê na disposição das instalações na imagem anterior. Estas reduções, como
eram chamadas, eram na verdade, fazendas comunais. A palavra redução, deriva
da palavra latina que significa “para levar de volta ou para reduzir”. Os jesuítas
estavam convencidos de que o povo Guarani do Paraguai já conhecia a verdadeira
fé, mas tinha sido desviado por Satanás. Estas missões foram para levar de volta
ou submeter o Guarani ao cristianismo.

Os jesuítas descobriram que os índios, muitas vezes, aceitavam a


conversão, aos milhares, mas eles tendiam a cair em práticas pagãs, especialmente
a poligamia e canibalismo.

7
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Os jesuítas foram apenas parcialmente bem-sucedidos em eliminar


estas abominações praticadas pelos índios fora das missões, pois a poligamia
e o canibalismo estavam profundamente enraizados na cultura dos índios. Por
esta razão, apenas índios convertidos foram permitidos dentro das missões. Os
jesuítas sentiram que a segregação era a única maneira de garantir que os índios
convertidos não seriam tentados pelas antigas práticas pagãs.

No Paraguai, os jesuítas reuniam até cem mil guaranis para as reduções.


Ao verificarmos o ano de 1607, o número de índios nas reduções era de 105.000.
Os jesuítas, por necessidade, sentiram que tinham de isolar a comunidade das
vizinhas colônias espanholas e portuguesas. Podemos imaginar hoje o motivo.

Em 1640, depois de Portugal ganhar a independência da Espanha, Filipe


IV concedeu aos jesuítas a possibilidade de armar os índios. Sob o comando dos
jesuítas, os índios tornaram-se uma força de combate formidável. Na verdade,
na luta que se seguiu entre Portugal e Espanha, a força armada dos índios,
muitas vezes, tornou-se o fator determinante nas vitórias espanholas. Sem
essa força, grande parte do Uruguai, Bolívia e Paraguai poderiam pertencer
atualmente ao Brasil.

Com muitas ameaças externas, por vezes violentas, mesmo assim, os


jesuítas foram capazes de retornar com seus convertidos indígenas, mas eles foram
ao encontro de uma série de novas dificuldades que cresceram, ironicamente, fora
do sucesso das missões de redução e a tendência dos sacerdotes superprotegerem
suas alas nativas.

O sucesso das reduções resultou desta organização tão bem dimensionada
pelos jesuítas. Cada missão estava sob o domínio de dois sacerdotes que foram
responsáveis pela disciplina, desenvolvimento e bem-estar. Não havia pena
capital, embora a flagelação era aplicada por delitos, como embriaguez.

As reduções foram divididas nos campos de Deus e os campos do


Homem. Os Campos de Deus foram trabalhados por todos os índios juntos.
Os Campos dos homens, por sua vez, foram reservados para o uso individual
dos índios. As culturas produzidas nos Campos de Deus eram de propriedade
da comunidade, enquanto as culturas reunidas nos Campos do Homem foram
mantidas de forma individual.

Todos os índios que se integravam às reduções recebiam panelas e


frigideiras, agulhas, roupas e outras, como chamaríamos na atualidade, utilidades
domésticas.

O governo da redução era administrado por representantes eleitos,


porém, mais uma vez essa democracia tinha suas limitações, pois, em vez de
gerar admiração, gerava muita inveja dos crioulos que tinham seus privilégios.

8
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

Por tudo isso, as reduções foram percebidas como ameaça política e


econômica e, eventualmente, foram proibidas e os jesuítas foram forçados a
abandonar as reduções.

Os jesuítas reuniam os índios com relativa segurança no isolamento


das reduções e o processo de conversão e afirmação da doutrina cristã era uma
consequência bastante óbvia no sentido de fortalecer a religião católica em
detrimento de toda idolatria praticada pelos índios.

Os jesuítas também fizeram uso do teatro, já desenvolvido por monges


franciscanos e dominicanos. Naquela época, o teatro era uma parte integrante de
festas religiosas europeias. Ele foi usado para atrair e entreter os índios. Danças
de origens indianas e africanas foram misturadas aos mistérios da nova religião.
As comunidades puramente africanas foram imediatamente aceitas na escola de
teatro jesuíta.

Outro dispositivo que os padres jesuítas usavam para fazer a religião
mais crível aos guaranis era usar erva-mate, um chá feito a partir das folhas da
árvore de erva. Os guaranis acreditavam que a erva tinha poderes mágicos, visto
que a erva é realmente um estimulante. Desta forma, os jesuítas não poderiam
persuadir os guaranis que erva-mate não tinha poderes mágicos, porque já estava
inculcado neles essa história. Além dessa utilização, os jesuítas, eventualmente,
exportavam a erva cultivada pelos guaranis.

FIGURA 4 – AS MISSÕES E O CULTIVO DA ERVA-MATE

MATO GROSSO
DO SUL SÃO PAULO área original
ocupada por índios
tupi-guarani
BRASIL área natural de
ocorrência da
erva-mate
PARAGUAI
PARANÁ
missões ou
reduções jesuítas

SANTA CATARINA

A
N
TI
EN
G
AR

RIO GRANDE
DO SUL

URUGUAI 200 Km

FONTE: Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/especiais/


erva-mate/origens.jpp>. Acesso em: 20 abr. 2016.

9
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Os jesuítas usavam sua riqueza, acumulada a partir do funcionamento das


reduções, investindo-a em terra, ferramentas e animais de tração. Também utilizavam
dessa riqueza produzida na redução para dirigir seminários e desenvolver missões
de grande importância para a vida econômica das colônias. Eles forneceram
centros intelectuais em cidades pequenas, províncias, proporcionando facilidades
bancárias e fóruns para a resolução de problemas na política local.

No Paraguai, a imprensa jesuíta produziu livros impressos em língua


guarani. Foram impressos a partir de fontes de madeira esculpida pelos índios.
Embora o guarani foi a língua falada, orações e hinos foram escritos em latim.

Seguem instruções para o alfabeto guarani e suas declinações. Esta versão está
em espanhol, com fácil compreensão para quem tem uma noção básica do espanhol.

El alfabeto guaraní

El alfabeto oficial actual del guaraní se compone de 33 letras, que son:


a – ã – ch – e – ẽ – g – ĝ – h – i – ĩ – j – k – l – m – mb – n – nd – ng – nt – ñ – o –
õ – p – r – rr – s – t – u – ũ – v – y – ỹ – '. Esto se ha explicado en la página del
Abecedario Fonologico, con sus sonidos y ejemplos de uso en palabras.

Podemos resumirlo que este abecedario se compone de:

12 vocales: a – ã – e – ẽ – i – ĩ – o – õ – u – ũ – y – ỹ.
15 consonantes simples: g – ĝ – h – j – k – l – m – n – ñ – p – r – s – t – v – '.
6 consonantes digramas, que en guaraní cada par conforma una sola
letra: ch – mb – nd – ng – nt – rr.
En cuanto a sus nombres,

Son los mismos sonidos para las vocales: a, ã, e, ẽ, i, ĩ, o, õ, u, ũ, y, ỹ (la


tilde representa sonido nasal).
La última letra ( ' ) se llama puso (pronunciado pusó), y en realidad es
una leve pausa enter vocales.
A las demás consonantes se le agrega una "e": che, ge, ĝe, he, je, le, me,
mbe, ne, nde, nte, nge, nte, ñe, pe, re, rre, se, te, ve.

Con esto, ya resulta claro porqué en guaraní, "abecedario" se llama


achegety (a-che-ge=letras; -ty=conjunto). Es bueno también recordar que las
letras del español b – c – d – f – q – w – x – z no existen en guaraní, ni tampoco
la ll (la antigua "ele).

FONTE: Disponível em: <http://www.taringa.net/post/apuntes-y-monografias/15396155/El-


alfabeto-guarani-Ilustrado-para-Escolares.html>. Acesso em: 20 abr. 2016.

10
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

Nos séculos XVII e XVIII, os jesuítas começaram a defender os seus


direitos sobre os indígenas, o que atentava contra a autoridade da Espanha.
Esta autoridade estava presente na nova elite e os latifundiários e os jesuítas
foram expulsos de uma cidade após a outra. Finalmente, depois de uma última
tentativa, os jesuítas foram expulsos de forma definitiva quando o Papa Clemente
XIV dissolveu a ordem em 1773.

Uma vez no exílio, os jesuítas deram força para a escrita. A monarquia
católica que tinha sido efetivamente administrada pelos jesuítas, em seguida,
começou a se desintegrar. No início do século XVIII, a comunidade paraguaia
jesuítica foi a unidade mais pacífica e próspera do governo na América Latina.

A remoção da influência jesuíta trouxe uma série de revoltas locais. A
revolta em Assunção pode ser entendida porque Antequera queria o controle
local das instituições locais em Buenos Aires e no Peru. A execução de Antequera
tornou-se o ponto de encontro para as classes superiores e plebeus e sua nova
consciência política sul-americana, que começou uma atitude de beligerância na
direção da monarquia espanhola. Sem os jesuítas, o descontentamento contra o
recrutamento militar, os impostos cada vez maiores e o ódio dos índios para seus
magistrados espanhóis chegaram à superfície.

Francisco Xavier Clavijero e outros jesuítas exilados viram a miscigenação


como a única resposta para o problema das raças. Outros membros da ordem,
no entanto, discordaram fortemente. Clavijero (2010 , p. 36) em seu “Storia de la
antigua ó Baja California” que teve sua publicação original no ano de 1852 escreveu
assim: “não há dúvida de que a política dos espanhóis teria sido mais sábia
se, em vez de buscar esposas da Europa e de escravos da África, eles tivessem
insistido em fazer um único povo que não fosse o do índio”. Clavijero tentou
remover conceitos errôneos dos europeus sobre os índios conferindo a eles uma
caracterização de identificação universal.

11
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

FIGURA 5 – FRANCISCO XAVIER CLAVIGERO – 1731-1787

FONTE: Disponível em: <https://aguapasada.files.wordpress.com/2011/09/


veracruz-invitacion-clavijero-canovas-110907.jpg>. Acesso em: 20 abr. 2016.

Antes da expulsão dos jesuítas, muitos deles começaram a tomar uma


atitude benevolente para com as ideias de separação e independência da Espanha,
que começou a ser construída aproximadamente no século XVIII.

A expulsão dos jesuítas em 1767 era parte de um padrão de toda a reforma


administrativa tanto de estrangeiros como dos nacionais sob os Bourbons. Como
uma explicação oficial, a monarquia citou a necessidade de desfazer o poder
jesuíta local e fazer valer o poder real em sua total amplitude.

FIGURA 6 – EXPULSÃO DOS JESUÍTAS

FONTE: Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/portales/expulsion_jesuitas/>.


Acesso em: 20 abr. 2016.

12
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

Esta explicação foi relacionada com o ataque dos Bourbon sobre a sociedade
dos Jesuítas na Europa e o resultado de ideias iluministas, de nacionalismo
religioso e de resistência à autoridade papal.

Algumas das reformas Bourbon no Novo Mundo não provocaram grandes


mudanças. No Equador, por exemplo, a expulsão dos jesuítas estava ligada à
abolição da escravatura. Isso afetou apenas uma pequena minoria de negros.

Em 1767, havia pouco mais de duzentos jesuítas em toda a América


espanhola, mas havia cerca de setecentos mil índios sob seus cuidados. Eles
possuíam escolas, hospitais, estaleiros, oficinas onde os índios foram treinados
para operar as máquinas ali empregadas e a fazer cerâmica. Eles haviam construído
estradas que levavam para todas as partes do território de missão. Os jesuítas
haviam estabelecido oitenta centros completos para correspondência servidos
pelos mensageiros e mantidos por guardas com a utilização de cavalos. A grande
frota de canoas e barcos que se deslocavam pelos rios levavam mercadorias nos
pontos onde eles poderiam ser vendidos.

FIGURA 7– PLANTA DE UMA REDUÇÃO JESUITA

FONTE: Disponível em: <http://quintosanosbilac.blogspot.com.br/2013/07/maquete-reducoes-


ou-missoes-jesuiticas.html>. Acesso em: 20 abr. 2016.

13
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Ao avaliar as realizações dos padres jesuítas na América espanhola, seria


justo afirmar que as ações tomadas contra os jesuítas eram excrescências de ações
e mudanças de atitude no continente. A Companhia tinha caído em desgraça com
monarquias e tinha perdido o favor do papado na Europa. Outras ordens, com
ciúme da riqueza e do poder dos jesuítas que estavam mais próximas do ouvido
papal conspiraram para que a ordem jesuíta fosse suspensa não só na região da
América Latina, mas em todo o mundo.

Infelizmente para os povos nativos que estavam sob os cuidados dos jesuítas,
para eles, nada mais era do que uma teocracia, que na verdade, pode ter legitimado
e pavimentado mais tarde, o caminho para governos ditatoriais e autoritários na
região. A expulsão privou as colônias de seus melhores professores e missionários,
e, além disso, deixou as colônias em uma situação deplorável de abandono.

Os jesuítas tendiam a superproteger suas comunidades e quando eles


foram expulsos das missões, as próprias missões não encontraram condições,
nem líderes para governar a si mesmos. O erro foi deles também, porém,
precisamos admitir que a história da teologia tem aí seu campo de nascimento e
de crescimento na América Latina. Essa caminhada dos jesuítas nos dá indícios
de como a teologia vai tendo uma identidade muito peculiar em nossa região que
difere da europeia, por exemplo.

3 IDENTIDADE
Partindo da nossa escolha de conhecer melhor a teologia latino-americana
feita por cristãos, vamos buscar aqui a identidade do cristão nas suas principais
vertentes. Depois de conhecer os primórdios do cristianismo evidenciado pelas
missões jesuíticas de modo muito determinante, vamos procurar entender melhor
como vai se formando a identidade cristã, utilizando aqui algumas definições que
provavelmente você já deve ter escutado em algum momento de sua vida.

Vamos nos deter aqui, levando em consideração várias limitações, seja


de tempo, de espaço, de capacidade de aprofundamento, em duas identidades
cristãs predominantes na América Latina: a católica e a evangélica.

Antes disso, é claro, já visualizamos alguns problemas de compreensão.


Podemos começar nos questionando: o que é identidade? O que é cristão? Depois
disso, então, vamos ver algumas características de cada grupo que dizem muito
para o entendimento da nossa identidade cristã.

É preciso fazer um trabalho construtivo dentro da tradição, bem como,


de identidade do modo de ser cristão. Todo mundo tem que ter algum ponto
de identificação. No entanto, penso que é conveniente delinear dois problemas
gerais que são persistentemente encontrados na maneira como as pessoas se
situam em termos de sua identidade cristã. Vamos lá então, tentar compreender
melhor essas duas palavras "identidade" e "cristão".

14
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

3.1 IDENTIDADE TRADIÇÃO OCIDENTAL


Muitas vezes, vamos encontrar a identidade cristã apresentada como um
objetivo evidente em si mesmo. Deve-se seguir a tradição, principalmente porque
é tradição, ou seguir uma determinada estrutura de autoridade, porque é a forma
mais autenticamente cristã da autoridade. Eu acredito que os membros de todas
as tradições devem ser capazes de fundamentar a sua lealdade à sua tradição.

Na atualidade, todo cristão tem como por opção uma identificação muito
forte com as fontes bíblicas. É lá, nas fontes bíblicas que este cristão vai buscar
aquele Espírito que imprime nele a verdadeira identidade cristã. Não é o diploma
de teologia, ‘a lembrancinha do batizado” que vai torná-lo mais ou menos cristão.
Veja a afirmação do Papa Francisco dada em uma missa na casa Santa Marta:

Esta é a identidade cristã; não ter o espírito do mundo, com seu modo
de pensar, seu modo de julgar… Você pode ter cinco diplomas em
teologia e não ter o Espírito de Deus! Pode até ser um grande teólogo,
mas não ser um cristão, porque não tem o Espírito de Deus, aquele que
dá autoridade, que dá identidade, a unção do Espírito Santo.
Era justamente por isso que o povo não gostava das pregações dos
doutores da lei, explicou Francisco, pois estes falavam de teologia, mas
não tocavam o coração. Com suas palavras, o povo não encontrava a
própria identidade, porque eles não eram ungidos pelo Espírito Santo.
A autoridade de Jesus – e a do cristão – provém justamente desta
capacidade de entender as coisas do Espírito, de falar a mesma língua
do Espírito. Vem da unção do Espírito Santo. Muitas vezes, vemos,
entre nossos fiéis, velhinhas simples, que nem terminaram o ensino
fundamental, mas que sabem dizer as coisas melhor do que um
teólogo, porque têm o Espírito de Cristo, o que São Paulo possuía e
que todos devemos pedir. FONTE: Disponível em: <http://www.rccsc.
com.br/noticias/noticias-da-igreja/identidade-crista-vem-do-espirito-
santo-explica-papa>. Acesso em: 25 maio 2016.

3.2 CRISTÃOS
Quando passamos nosso olhar na história do cristianismo, parece que
o sentimento de ser perseguido é quase inseparável da identidade cristã. As
raízes históricas deste complexo de perseguição cristã são óbvias, mas a sua
continuação em eras mais recentes, quando os cristãos foram realmente o grupo
mais poderoso, tem sido absolutamente desnecessária. Uma vez que os cristãos
estão no poder, há uma tendência de ver a existência de qualquer outro centro de
poder ou ponto de identificação como uma ameaça.

15
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

FIGURA 8 – IDENTIDADE CRISTÃ

FONTE: Disponível em: <http://www.esbocosermao.com/2014/06/


identidade-espiritual.html>. Acesso em: 20 abr. 2016.

Alguns evangélicos usam uma definição mais simples relacionada com


o processo pelo qual uma pessoa torna-se cristão: o cristão é uma pessoa que foi
"salva". Um cristão é uma pessoa que sinceramente se arrepende de seus pecados,
e que aceita Jesus como seu, ou seu Senhor e Salvador pessoal.

Alguns protestantes conservadores eliminam a necessidade de


arrependimento, porque é uma ação humana. Eles acreditam que a salvação
acontece somente através da fé e não pelas obras. Assim, ele é dependente
unicamente da graça oferecida por Deus e não é provocada como resultado do
mesmo em menor ou maior grau de esforço pessoal.

16
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

FIGURA 9 – LUTERO E A REFORMA


JESUS CRISTO NÃO SE PODE TEM QUE SE VIVA
JOSE
O BATISMO É NÃO É DEUS! DOAR SANGUE! GUARDAR O PH
SMIT
PARA SALVAÇÃO! SÁBADO! H!
PODE! O QUE EU FIZ?
HA ? PODE! A MINHA BÍBLIA
A MIN É POR QUE FUI CRIAR
A NÃO É NÃO! EU NÃO CREIO É A VERDADEIRA!
IGREJ A! ESSA
T
A CER EM SACRAMENTO! REFORMA PROTESTANTE?
? CALVINHO
A TRINDA ESTÁ
DE EU ACEIRO
É PAGÃ! DÍZIMOS$! CERTO!
VIVA
HENRIQUE EU CREIO
PERMITIMOS
IIII EM LÍNGUAS!
O DIVÓRCIO!

A SANTA CEIA
É SIMBÓLICA RVEJ
CE
DA

A
BO A
VIVA
E.G.WHITE!
CONVERS
À
AS
JESUS TEVE MESA
IRMÃOS!

SÓ ACEITAMOS
PRESBÍTEROS!

A NOSSA
DOUTRINA É
A CERTA!

VIVA A
T.U.L.I.P.!

FONTE: Disponível em: <http://www.historialivre.com/moderna/doutrinaslutero.htm>. Acesso


em: 20 abr. 2016.

Outra definição comumente aceita é que um cristão é um indivíduo que


tenha, pessoalmente, aceitado a Jesus Cristo para entrar e viver em seu coração.

Estas definições parecem implicar que os sacramentos da igreja ou rituais


não salvam uma pessoa, apenas uma declaração específica de confiança e fé em
Jesus, talvez precedida pelo arrependimento dos pecados.

Já para os católicos, uma pessoa se torna cristã, através do sacramento


do batismo.

17
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

FIGURA 10 – SACRAMENTO DO BATISMO

FONTE: Disponível em: <http://sitedaparoquia.com.br/pspapostolo/


wp-content/uploads/sites/16/2014/04/batismo-criane7a.jpg>. Acesso
em: 20 abr. 2016.

Os católicos romanos acreditam que existem três grupos de indivíduos


que, em combinação entre si, formam a "única Igreja Mística e Corpo de Cristo"
(cf. 1 Cor 12,12), conforme orienta a Constituição Apostólica Concílio Vaticano II
para os fiéis católicos em alguns de seus documentos como Gaudium et Spes, Lumen
Gentiun etc. Estes grupos apontados nesses documentos são: Igreja Militante na
Terra, a Igreja Triunfante no Céu e a Igreja Sofredora no Purgatório.

Sem nos atermos nesse ponto, porém, a título de curiosidade, vamos


descrever o que seria esse purgatório na versão católica. Purgatório é um lugar
e estado de ser que algumas pessoas têm como experiência após a morte. No
purgatório, os habitantes são punidos através de várias formas de tortura até que
eles sejam suficientemente purificados e lavados das consequências temporais
de seus pecados praticados na terra. Nesse ponto, eles podem entrar no céu.
Estas crenças diferem dos protestantes, que geralmente rejeitam o conceito de
purgatório, porque eles acreditam que não é mencionada ou implícita nos livros
de suas versões da Bíblia. Além disso, a maioria acredita que, se o purgatório
existisse, seria negar a salvação prometida na Bíblia uma vez que se confiou em
Jesus como Senhor e Salvador.

18
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

FIGURA 11 – PURGATÓRIO

FONTE: Disponível em: <http://www.sensusfidei.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Almas.jpg>.


Acesso em: 20 abr. 2016.

A boa teologia deve contribuir para tornar evidente uma identidade


cristã autêntica, reforçar a identidade cristã através do uso de termos familiares
e floreios retóricos característicos, mas do compromisso do verdadeiro cristão de
dar testemunho da sua livre escolha.

3.3 NOSSA IDENTIDADE COMUM: A CRUZ


Paulo relata em 1 Cor 22-23 que ‘Cristo crucificado é motivo de escândalo
para judeus e loucura para os gregos”. Tudo o que é mais destrutivo sobre o
Cristianismo vem da cruz - a fetichização do sofrimento como um fim em
si mesmo, a valorização de pura obediência como algo moralmente salutar, o
conformismo que decorre do abraço instintivo do "mal necessário", em vista do
bem supremo. Todos nós gostaríamos de saber se o cristianismo estava sempre
indo inexoravelmente em direção a Constantino, aquele que vai reconhecer o
cristianismo como religião oficial do império.

Na sintaxe notoriamente complicada, citada anteriormente por Paulo que


declara, ‘mas nós proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e
loucura para os gentios, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como
gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Cor 1: 22-23).

19
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Na prática, o poder de Deus tem sido o poder de sua própria autojustificação,


a satisfação de sua honra ferida, o seu desejo de vingança contra uma raça rebelde,
e a sabedoria tem sido a sabedoria opaca que confia abertamente na ‘vontade de
Deus’. É esse Deus que envia seu filho para ser crucificado sob a lei romana, com
a cumplicidade das autoridades judaicas, e ao fazê-lo, ele expõe a ilegitimidade
nua da ordem romana.

Como a história nos mostra, o reino dos macabeus foi finalmente


reabsorvido no sistema imperial, pois eram os sucessores para as comunidades
paulinas. Mas pelo menos eles tentaram! Pelo menos eles foram capazes de
conceber um sentido ao sofrimento e opressão que não seja a necessidade de
continuar a submeter-se ao sofrimento e opressão como um fim em si mesmo.
Há uma janela tão estreita em que algo como a cruz pode contrariar aos poderes
em vez de simplesmente reforçá-las, tudo o mais ainda na medida em que tanto a
teologia contemporânea, pelo menos entre nós cristãos assépticos, tolerantes em
demasia, parecemos viciados ao gesto "do contra" mesmo não sendo a favor. A
cruz não é para os fracos.

20
TÓPICO 1 | ENTENDENDO O CONTEXTO

LEITURA COMPLEMENTAR

A IDENTIDADE CRISTÃ

DOM PAULO MENDES PEIXOTO 


BISPO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

A razão de ser e de existir da pessoa está contida na sua identidade, nos


seus gestos e ações e práticas concretas, trazendo como consequência a alegria e
a felicidade da vida. É uma festa permanente, com apoio numa consciência de fé.

A vida do cristão acontece sob a ação de símbolos e gestos, que trazem


consigo significados, revelando a ação do amor de Deus para com o seu povo.
Vemos isto nos nossos momentos festivos e celebrativos, como acontece numa
festa de casamento.

O perfil do cristão caminha no mundo marcado pela retidão, pela justiça e


fidelidade. Mesmo na diversidade entre as pessoas e entre os dons, há um esforço
constante de unidade, procurando não excluir ninguém, lutando para a conquista
do bem comum e o valor da natureza.

Na identidade cristã é importante superar as distinções raciais, sociais e


nacionais. A unidade não significa uniformidade, mas complementariedade rica
e saudável. As pessoas não podem ser feridas nas suas originalidades, no seu
próprio ser.

É fundamental ter em vista que cada pessoa tem uma história real de
vida, tem um modo todo próprio de ser, de falar e de agir na construção do bem
comum. A identidade pessoal corrobora com a identidade coletiva.

A humanidade busca sempre usufruir da festa da vida, daquilo que lhe


faz feliz, mas nem sempre está preparada para isto. Muitos estão desligados
dos compromissos que alimentam a qualidade da festa. Falta a sensibilidade, a
solidariedade e a justiça. Encontramos pessoas que vivem na opulência total e no
esbanjamento desmedido, sem escrúpulo e temor de Deus. Há uma insensibilidade
ética em relação ao todo, buscando interesses injustos, violentos e até criminosos.
Isto estraga a ação dos bem-intencionados.

Têm identidade feliz aquelas pessoas que conseguem ter o sabor da


sabedoria divina, a bondade, a verdade, o cuidado com a vida e com as pessoas,
com o meio ambiente, com a água e com a terra. É preciso mudar aquilo que
dificulta uma vida saudável e cheia de esperança.

FONTE: Disponível em: <http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/paulo_mendes/31.htm>.


Acesso em: 22 abr. 2016.

21
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico vimos:

• A gestação e nascimento da teologia com a presença dos jesuítas e seu trabalho


de evangelização junto às populações que aqui residiam.

• A identidade do cristão, suas características, as diferenças entre o católico e o


evangélico.

• A cruz como identidade que une tanto católico quanto evangélico.

22
AUTOATIVIDADE

Vamos reproduzir aqui uma questão aplicada no ENADE, em 2015,


para que você, acadêmico, possa se familiarizar com a dinâmica utilizada na
prova que, obrigatoriamente os acadêmicos que irão concluir o curso no ano do
ENADE, terão que realizar.

(ENADE 2015) Em 2017, cristãos luteranos e católicos comemorarão,


conjuntamente, o quinto centenário do início da Reforma. Hoje, entre luteranos
e católicos, está crescendo a compreensão, a colaboração e o respeito recíproco.
Uns e outros, juntos, reconhecem que o que os une é maior do que aquilo que
os divide: primeiramente a fé comum no Deus uno e trino e a revelação em
Jesus Cristo, como também o reconhecimento das verdades fundamentais
da doutrina da justificação. A verdadeira unidade da Igreja só pode existir
como unidade na verdade do Evangelho de Jesus Cristo. A luta por esta
verdade, que culminou, no século XVI, na perda da unidade no cristianismo
no ocidente, pertence às páginas obscuras da história da Igreja. O iminente
ano de 2017 solicita a católicos e luteranos a confrontar-se no diálogo sobre
os problemas e as consequências da Reforma de Wittenberg, centrada na
pessoa e no pensamento de Martinho Lutero, e a elaborar perspectivas para
a recordação da Reforma e o modo de vivê-la hoje. O programa reformador
de Lutero constitui um desafio espiritual e teológico tanto para os católicos
quanto para os luteranos do nosso tempo.

(COMISSIONE LUTERANA-CATTOLICA ROMANA SULL’UNITÀ. Dai


conflito ala comunione. Prefácio e n. 1 e 3).

Considerando o texto, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre


elas.

I. O princípio evangélico da unidade fundamenta-se nas bases da pluralidade


de formas eclesiais, anunciada nos escritos paulinos pelo binômio corpo-
membros. Daí resulta oportuno sublinhar a necessidade histórica da
Reforma, compreendida como forma de ser a única Igreja de Cristo.
II. A comemoração conjunta da Reforma, entre luteranos e católicos, é um dos
resultados do diálogo iniciado formalmente há 50 anos e constitui um passo
fundamental rumo à restauração da unidade desfeita em 1517.

23
A respeito das asserções, assinale a opção CORRETA.

a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa


correta da I.
b) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa correta da I.
c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) ( ) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) ( ) As asserções I e II são proposições falsas.

24
UNIDADE 1
TÓPICO 2

ENTENDENDO A TEOLOGIA

1 INTRODUÇÃO
Não somos teólogos. Somos estudantes. Precisamos caminhar muito
nos estudos da teologia. O papel de um teólogo é o de um intelectual crítico, o
que significa que a única ferramenta que o teólogo tem é a persuasão. Tudo o
que o intelectual crítico pode fazer é tentar o seu melhor para criar argumentos
persuasivos que resistem em seus próprios termos; se o público é completamente
não receptivo, eu acho que nós precisamos dar ao teólogo o benefício da dúvida
e supor que há uma persuasão básica neste trabalho.

Partimos do princípio de que muitos pensadores expressaram que a razão


de ser da teologia deve ir além de uma mera sistematização da fé. A teologia é
teologia quando se coloca a serviço de todos no dia a dia, quando surgem as
dúvidas, as fraquezas, e aí, nessa realidade concreta, a teologia vem auxiliar com
seu mistério divino, fundamentado na vivência de uma fé sólida e carismática.

Se observarmos a história, quando poderíamos pensar em uma teologia


agindo dessa forma? Essa mesma história nos mostrou que ao trazer para cá
respostas advindas de outros contextos e de outras realidades diferentes da
nossa, gerou uma insatisfação que vai tornando possível e necessário de criar
uma teologia própria, dentro deste contexto latino-americano, com seus próprios
pressupostos, suas características, suas necessidades tão peculiares.

Método teológico tradicional. Para compreensão e vivência teológica,


deve partir de um amor libertador, deve utilizar de uma teologia conduzida pela
luz da fé.

Entender a teologia a partir de duas vertentes: temos a primeira referência


da Teologia da Libertação, quando se cria um congresso nacional onde se trata
da Teologia da Libertação em 1968. A partir desse congresso, Gustavo Gutierrez
escreve sobre Teologia da Libertação.

O que temos a partir desse início, agora então registrado editorialmente.


No pontificado de João Paulo II: discurso descritivo, teórico e a teologia da
militância. A análise teórica, acadêmica da Teologia da Libertação, a igreja católica
consegue impingir um controle.

25
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Já a militância da Teologia da Libertação, diria a teologia da libertação no


chão, se espalha com os vários grupos da própria igreja que não foi controlada.
Nessa dimensão da teologia é que ela se mistura com a política. Aí, entra uma
nova dinâmica na teologia da libertação: a dimensão política.

2 DEFININDO A TEOLOGIA
Queremos trabalhar nesse tópico algumas das direções básicas e essenciais
que precisamos ter presente desenvolver uma teologia cristã com o mínimo de
responsabilidade.

Quando nos perguntamos o que é Teologia, nossa resposta a esta questão


irá indicar uma estratégia para estudar a teologia que tinha como meta auxiliar
a Igreja no passado, como vimos anteriormente, de modo mais estendido com
os jesuítas e que devemos seguir hoje. Assim, vamos dividir esse tópico em duas
partes, além da introdução.

Em primeiro lugar, vamos olhar para a definição de teologia; em segundo


lugar, vamos então tentar entendê-la melhor. Vamos olhar para algumas
definições típicas oferecidas por alguns teólogos e descrever algumas tendências
ou perspectivas destas definições e entendimento.

Que tal começarmos com a primeira carta de São Paulo aos Agora, quando
se apresenta um sentido muito importante em que todos os seres humanos fazem
teologia durante toda a sua vida. Até mesmo os incrédulos são confrontados com
a revelação geral que os leva, no entanto, inconscientemente, às vezes, a refletirem
sobre Deus, sobre suas exigências, de alguma forma ou de outra. E os crentes, não
importa qual profissão que eles têm, dedicam muito do seu tempo com pensamentos
voltados para Deus. No entanto, à medida que começamos a nos concentrar em
teologia como uma tarefa mais formal, uma tarefa realizada por pessoas que fazem
um esforço concentrado e em uma disciplina específica de estudo.

Há inúmeras maneiras, dirão cristãos e não cristãos para definir


formalmente a teologia. Mas à medida que começamos a nossa discussão
sobre o estudo formal da teologia, vamos limitar aqui nosso foco para quatro
teólogos cristãos altamente respeitados que nos fornecem algumas orientações
úteis. Vamos considerar as definições que encontramos nos escritos de Tomás de
Aquino, Charles Hodge e William Ames.

Em primeiro lugar, Tomás de Aquino, o renomado teólogo católico romano,


representa uma definição muito tradicional da teologia. Na Summa theologica, no
livro 1, capítulo 1, seção 7 do seu conhecido Summa Theologica, Aquino chama a
teologia de "doutrina sagrada", e definiu-a desta forma: A ciência unificada em
que todas as coisas são tratadas sob o aspecto de Deus ou porque são o próprio
Deus ou porque se referem a Deus. Tomás de Aquino apresenta duas dimensões
importantes que merecem nossa atenção especial.

26
TÓPICO 2 | ENTENDENDO A TEOLOGIA

Primeiro, a teologia é definida por Aquino (2006) como uma "ciência". Agora,
ele não quis dizer "ciência" no sentido moderno do termo, mas a ciência, no sentido
mais amplo de uma busca intelectual ou acadêmica. Neste sentido, a teologia é
uma tarefa acadêmica com um objetivo bastante específico. Definição de Aquino
'indica que, assim como algumas pessoas estudam biologia, psicologia, direito ou
história, há outras pessoas que buscam a teologia como disciplina acadêmica. Este
conceito de teologia é cumprido, principalmente, através dos tipos de preocupações
e atividades que são comumente associados com o estudo acadêmico.

FIGURA 12 – TOMÁS DE AQUINO

FONTE: Disponível em: <https://institutosantacruz.files.wordpress.


com/2015/09/sao-tomas.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2016.

Deste ponto de vista, o trabalho do teólogo é principalmente o de pensar,


ensinar ou escrever sobre doutrinas teológicas ou conceitos. Agora, é claro,
Aquino deixa evidente que não acreditava que a teologia devesse continuar a
ser uma tarefa acadêmica; deve ir além disso, a teologia deve influenciar todas
as dimensões da vida cristã. No entanto, seu ponto de vista tende a conceber a
teologia, principalmente, como um exercício intelectual.

Num segundo momento, para Aquino, a teologia tem pelo menos dois
níveis. Por um lado, os teólogos abordam questões relativas ao "próprio Deus".
Por exemplo, podemos formular pareceres sobre questões como os atributos de
Deus: sua onisciência, sua onipresença, sua santidade. Adequamos a teologia a
essas questões. O próprio Deus é o objeto que estudamos.

27
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Por outro lado, como Aquino usou o termo, a teologia é também o estudo
de qualquer outro assunto que diz respeito a Deus ou se refere a Deus. Estes tópicos
podem ser discutidos sem especial referência a Deus, mas teólogos realizam seu
ofício, relacionando assuntos a Deus. Por exemplo, a escatologia, o estudo das
últimas coisas, é um assunto importante na teologia.

FIGURA 13 – CHARLES HODGE

FONTE: Disponível em: <http://global.britannica.com/biography/Charles-


Hodge>. Acesso em: 27 abr. 2016.

Vamos ao nosso segundo teólogo, agora, o protestante Charles Hodge.

Embora a Reforma Protestante tenha mudado muito o pensamento a respeito


do corpo de Cristo, não alterou significativamente a definição básica de teologia.
Charles Hodge, de Princeton, que viveu de 1797 até 1879, define assim a teologia:
A teologia é a ciência dos fatos da revelação divina na medida em que esses factos
dizem respeito à natureza de Deus e nossa relação com ele. (HODGE, 2003).

Vamos apontar várias dimensões desta definição de teologia. Em primeiro


lugar, a definição de Hodge é muito semelhante à definição de Aquino, mas
devemos notar como ele explicita a revelação mencionada. A teologia lida com
"os fatos da revelação divina". Agora, é claro, Aquino procurou defender a
revelação de Deus tão bem, mas a definição de Hodge revela uma preocupação
protestante típica, ou seja, uma ênfase sobre a importância da revelação de Deus,
especialmente a Bíblia, como principal recurso para a teologia.

28
TÓPICO 2 | ENTENDENDO A TEOLOGIA

Em segundo lugar, é também importante notar que, como Aquino, Hodge


(2003) descreve teologia como uma "ciência", ele viu a teologia principalmente como
uma disciplina acadêmica. Na verdade, Hodge realmente utiliza dos métodos da
ciência natural ou física no seu dia como um modelo a seguir para os teólogos.

Para Hodge (2003), o trabalho do teólogo era usar a Bíblia como um dado,
e para pesquisar, testar e organizar os dados tanto como um cientista do século
XIX faria em outros campos. Agora, ele também acreditava que as conclusões do
teólogo devem ser aplicadas à vida cristã. Como Aquino, Hodge tendia a deixar
aplicação nas mãos de ministros e pastores, limitando o trabalho real da teologia
formal, em grande parte para acadêmicos e seus alunos.

Em terceiro lugar, vemos que Hodge (2003) também afirmou que


havia dois temas principais em teologia. Ao fazer teologia no que diz respeito
principalmente com a "natureza de Deus" e "nossa relação com ele".

Vimos um teólogo católico, um teólogo protestante. Agora vamos recorrer


a William Ames, um purista, para saber como ele define teologia.

Ames (1997) descreve a teologia "a doutrina ou ensino de viver para Deus".
Esse conceito vai trazer pelo menos duas maneiras diferentes de se ver a teologia.
Em primeiro lugar, a sua definição não usa a palavra "ciência". Ames (1997) disse
que a teologia é "doutrina ou ensino", isto é, a teologia é uma busca intelectual de
ideias e de ensino. Mas ele enfatiza a estreita associação da teologia com outras
disciplinas acadêmicas assim como indicaram Aquino e Hodge.

Em segundo lugar, enquanto que Ames (1997 p. 257) afirma que a teologia
é o estudo da doutrina, observe o que ele especifica como seu tema de estudo:
"Vivos para Deus". Aquino, e até certo ponto Hodge, apontam a teologia como
uma coleção de fatos e ideias, mas Ames enfatizou que a teologia envolve a forma
como se está a viver para Deus. Em vez de limitar a teologia principalmente para
um exercício intelectual, factual, Ames a olhou como uma experiencial (ou o que
os puritanos chamam de "experimental") orientação para uma gama mais ampla
de vida do crente. Para ele, a teologia, a medula da teologia, é feita quando essa
visão mais ampla está em foco.

29
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

3 ENTENDENDO A TEOLOGIA
Vamos aqui resgatar vários pensadores, muito além de teólogos, para
melhor compreender a teologia em todas suas variações, possibilidades e até
mesmo dualismos, contradições, incompreensões. Como podemos olhar para a
teologia que se desenvolve aqui na América Latina? Como ela se desenvolve? Ela
é resultado da história? De qual história? A teologia é uma coisa? É palpável? Ela
existe concretamente?

Cada contexto exige a formulação de uma nova teologia. Precisamos


levar em conta por exemplo, os conflitos ideológicos do pós-guerra – guerra
fria entre Estados Unidos e a União Soviética. É preciso levar em conta antes
disso, o resultado da Segunda Guerra Mundial. Os perdedores e os vencedores
que, a partir daí, vão definir qual bloco será o mais poderoso: dois eixos são
formados, definidos por dois sistemas: o capitalista e o socialista. Veja que nestes
dois sistemas se instaura uma disputa em todos os planos: no das ideias e no
das práticas. No avanço das tecnologias, na polarização de benefícios para os
cidadãos etc.

FIGURA 14 – GUERRA FRIA

FONTE: Disponível em: <http://entendendoaguerrafria.blogspot.com.br/p/charges.html>. Acesso


em: 27 abr. 2016.

30
TÓPICO 2 | ENTENDENDO A TEOLOGIA

Essa polarização vai respingar muito fortemente na América Latina. Enquanto


alguns países, diria, a maioria dos países do ocidente, vão adotar o capitalismo
seguindo o modelo norte-americano chamado wafe of live, outros vão permanecer
acreditando na possibilidade do sucesso do socialismo. Essa visão de um estilo
de vida vai influenciar de diferentes formas os diferentes grupos que compõem a
sociedade: jovens, adultos, homens, mulheres, leigos, ministros ordenados etc.

Outros elementos que precisamos levar em consideração são os processos


de industrialização e urbanização na América Latina: crescimento da pobreza e a
desigualdade social. Esses fatores serão considerados na formulação da teologia e a
teologia, é claro, precisa levar essa condição muito a sério para poder contribuir de
forma efetiva para a melhoria dessa realidade.

Aí entra o referencial do socialismo que se mostrava mais igualitário, mais


justo, mais distributivo. Porém não se sustentou, pois, o liberalismo com suas
ideologias foi e é preponderante.

O liberalismo capitalista, idolatria da riqueza em sua forma individual.


Reconhecemos a força que infunde a capacidade criadora da liberdade
humana e que foi propulsor do progresso. Contudo, considera o
lucro como o motor essencial do progresso econômico, a concorrência
como lei suprema da economia, a propriedade privada dos meios de
produção como direito absoluto, sem limites nem obrigações sociais
correspondentes. Os privilégios ilegítimos, derivados do direito
absoluto de propriedade, causam contrastes escandalosos e uma
situação de dependência e opressão, tanto no âmbito nacional quanto
no internacional. Embora seja evidente que em alguns países se atenuou
sua expressão histórica original, devido à influência de uma necessária
legislação social e de precisas intervenções do Estado, em outros lugares
ainda manifesta persistência ou mesmo, retrocesso a formas primitivas
e de menor sensibilidade social.
O coletivismo marxista conduz igualmente – por seus pressupostos
materialistas – a uma idolatria da riqueza, mas em sua forma coletiva.
Embora nascido de uma crítica positiva ao fetichismo do comércio e
ao desconhecimento do valor humano do trabalho, não conseguiu ir
à raiz da idolatria que consiste na recusa do Deus de amor e justiça
(CONFERÊNCIA DE PUEBLA, 1979, p. 226-227).

31
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

FIGURA 15 – DIFERENTES TEOLOGIAS

FONTE: Disponível em: <http://teologiaegraca.blogspot.com.br/2010/09/favor-de-um-novo-


paradigma-para-os.html>. Acesso em: 22 abr. 2016.

Outra realidade que precisa ser considerada é a teoria da dependência,


primeiro entre os países próximos: Mercosul, por exemplo, e também dependência
com os países desenvolvidos. Você, acadêmico, considera essa teoria procedente?
Se procede, como a teologia, na sua versão libertadora, que é o nosso ponto
maior de estudo, pode contribuir ou contribuiu para mudar essa condição de
dependência?

É o caráter sociopolítico e econômico da teologia: questionar, quebrar a


dependência econômica e contestar e criticar os regimes vigentes. Isso foi muito
bem feito por movimentos estudantis e sindicatos, principalmente, nos anos 60 e
70. Claro que houve muitas prisões e mortes. Os próprios teólogos divergiam no
entendimento de qual era o melhor sistema: o capitalista ou o socialista.

O clamor pela democracia, por causa de governos militares em quase


toda a América Latina, fazia eco no campo de estudo da teologia. Essa situação
levava a um paralelo com o povo de Israel que estava escravizado pelo faraó e
que precisava se libertar com a força de um Deus libertador, que caminha junto
com seu povo. Essa dinâmica cria no povo um animus, por ser preferido de Deus.

32
TÓPICO 2 | ENTENDENDO A TEOLOGIA

Sendo que a própria teologia tinha diferentes visões e ações, imagina


a igreja com suas diferentes visões e ações: uma linha mais conservadora que
não queria se envolver e outra, e aí entram aqueles que aderem à Teologia da
Libertação, que queriam uma inserção forte nessa dinâmica de crítica.

FIGURA 16 – TEOLOGIA REVOLUCIONÁRIA?

É, PADRE ARMANDO,
ACHO QUE A
GENTE FOI UM
POUCO LONGE
VIVA LA DEMAIS!
L UC I Ó N
R EVO

FONTE: Disponível em: <http://www.amormariano.com.br/noticias/prefeito-da-


congregacao-para-a-doutrina-da-fe-dom-muller-lefebvrianos-sao-cismaticos-de-
facto-o-fundador-da-teologia-da-libertacao-sempre-foi-ortodoxo/>. Acesso em: 22
abr. 2016.

Em todos os lugares, seja nas igrejas, na academia, na faculdade, vamos


ouvir teólogos que falam sobre desapropriação, falam dos pobres, do amor à Igreja,
porém, praticando a posse, a repressão, o ódio dos pobres, e aí nos perguntamos
o que isso tem a ver com aprender a amar? E continuamos nos questionando. Em
geral, o que o cristianismo tem a ver com Cristo? O que ainda mais a hierarquia
da igreja tem a ver com o amor em nossos tempos?

Vejam que isso é o que está em jogo no estudo da teologia: todos nós
queremos aprender a amar. E isso é o que devemos buscar no ensino, no estudo
da tradição cristã, no estudo das religiões que vão assumindo diferentes formas
e variando no decorrer da nossa história, reformulando até a compreensão de
tantos fenômenos religiosos presentes na atualidade.

33
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

PROJETO DE LIBERTAÇÃO

DOM PAULO MENDES PEIXOTO


ARCEBISPO DE UBERABA

Muitas pessoas vivem totalmente aprisionadas em situações desumanas,


em estado de antivida e de empobrecimento. Isto caracteriza falta de libertação,
ocasionando sofrimento e realidade de indignidade. É uma situação que pode
acontecer no seio de toda comunidade, ficar no ostracismo e na insensibilidade de
autoridades e instituições estavelmente constituídas para humanizar a sociedade.

Um projeto concreto de libertação deve ter como base sólida a experiência


de Deus como presença libertadora e protetora da vida e da dignidade das
pessoas. Numa sociedade libertadora acontece a fraternidade e a solidariedade,
fundamentais para a harmonia e a boa convivência comunitária, valorizando cada
indivíduo na sua dignidade de ser imagem e semelhança do Criador.

É interessante saber, mesmo em desacordo com a cultura moderna, que
“é na fraqueza que se manifesta a força de Deus”. O projeto de libertação de
Deus é diferente dos ideais do mundo, que nem sempre têm projetos concretos de
libertação. Deus sempre esteve do lado dos mais pobres. Ficou distante dos Faraós
e de seus sistemas imperiais egoístas e despreocupados com o bem coletivo.

O caminho da cruz, assumido por Jesus, foi entendido, por judeus e


gregos, como loucura e derrota total. Mas Deus transformou a cruz em gesto de
sabedoria e caminho de salvação. A compreensão correta desse fato supõe atitude
de fé, mas também de conhecimento de toda prática de Jesus, seus sinais e sua
própria vida.

A libertação depende de mudança de mentalidade. Só investe em projetos


assim quem toma consciência do bem que precisa realizar. Para isto temos os
cursos de formação, principalmente na área social, no compromisso de fé e
política e conhecimento da Doutrina Social da Igreja.

A realização do bem, na realidade atual, é conflitante com os interesses


econômicos e políticos de grupos dominantes. Há pouca solidariedade com os
pequenos e marginalizados. A prática de Jesus não sensibiliza quem tem seu
coração nos bens materiais, dificultando o processo de libertação de todas as
pessoas excluídas, fruto da má distribuição dos bens, que são de todas as pessoas.
FONTE: Disponível em: <http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/paulo_mendes/p81.htm>.
Acesso em: 24 abr. 2016.

34
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico vimos que:

• A definição da teologia passa pela compreensão epistemológica, histórica,


dogmática até chegar na sua diferenciação entre as religiões.

• Para entender a teologia é preciso compreender a sua importância no contexto


latino-americano.

• A teologia foi e é de suma importância para a melhoria da vida das pessoas,


pois compreende o ser humano como um todo e não em partes.

35
AUTOATIVIDADE

Continuamos neste espaço a reproduzir uma questão aplicada no


ENADE 2015, para que você, acadêmico, possa se familiarizar com a dinâmica
utilizada na prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão concluir
o curso no ano do ENADE, terão que realizar. Busque aprofundar-se nesses
conteúdos além deste Caderno de Estudos.

(ENADE 2015) Em lugar e em vez da comunidade solidária agregada por


representações coletivas (o sonho de Durkheim), surgiu uma rede à maneira de
Georg Simmel (1858-1918), difusa e desprovida de centro, conectada por afiliações
genéricas, multidirecional e abstrata. A religião não se enfraqueceu como força
social. Pelo contrário: parece ter-se reforçado no período recente. Mas mudou – e
muda cada vez mais – de forma. (GEERTZ, C. O futuro das religiões).

A partir das informações do texto, avalie as afirmações a seguir.

I. A religião não desapareceu com o tempo, mesmo estando sempre presente,


assumiu diferentes formas e variações ao longo da história da humanidade.
II. Com o surgimento da ciência, o fenômeno religioso desapareceu e
transformou-se em representações coletivas coesas e mais fortes.
III. A compreensão do fenômeno religioso demonstra que as transformações
da sociedade ocasionam reformulações nas religiões.
IV. As análises sociológicas da religiosidade confirmam o fim das religiões
devido ao desencantamento do mundo pelo processo racional.

É CORRETO apenas o que se afirma em:

a) ( ) I e III.
b) ( ) I e IV.
c) ( ) II e IV.
d) ( ) I, II e III.
e) ( ) II, III e IV.

36
UNIDADE 1
TÓPICO 3

POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

1 INTRODUÇÃO
A teologia é um campo de estudo em que o homem tenta explicar o
que Deus revelou. O foco específico da teologia varia, dependendo do escopo
pretendido do campo de estudo e sobre a predileção religiosa daquele que vai
realizar o estudo, no caso, o teólogo, de forma mais específica, a teologia católica
e a teologia protestante ou evangélica, que, via de regra cada uma terá suas
características muito próprias.

2 EXISTEM TEOLOGIAS?
Estamos tratando aqui de discussões teológicas. Existem diferenças de
compreensão em alguns aspectos no que tange à teologia, entre evangélicos e
católicos, como por exemplo, na utilização de livros que compõem as Sagradas
Escrituras. Você, acadêmico, terá a oportunidade de em outras disciplinas do
curso aumentar seus conhecimentos sobre isso.

Em praticamente cada área da teologia existem diferenças, elencamos cinco


problemas mais evidentes e significativos que separam a igreja católica das igrejas
evangélicas. Vamos a eles.

Um primeiro ponto de divergência na interpretação é sobre a justificação.


Os evangélicos ensinam que os pecadores são justificados com base na fé, e que
a fé nos é colocada na obra substitutiva consumada de Jesus na cruz, confirmada
pela sua gloriosa ressurreição, e que este é um presente inteiramente baseado em
sua graça. Finalmente, que a justificação é completa e total no momento da nossa
conversão, e que os crentes nunca crescem mais justificados.

Em contraste, a Igreja Católica ensina que a justificação é um processo que


inclui obras (com essas obras o objetivo é disseminar a fé), e que essas obras são a
causa do processo de justificação. Além disso, a Igreja Católica ensina: "Se alguém
disser que somente pela fé o ímpio é justificado; seja anátema” afirmação essa do
Concílio de Trento, nº 9. Ou então essa outra afirmação: "Se alguém disser que
a justiça [ou justificação] recebida não é preservada e também não é aumentada
perante Deus através de boas obras, mas que essas obras são apenas frutos e
sinais da justificação obtida, mas não a causa do aumento, seja anátema" também
do Concílio de Trento, nº 24.

37
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Uma segunda diferença é sobre a direção, a chefia da igreja católica, o


papado. O papa como cabeça da igreja.

Para os evangélicos, a Igreja é composta de todos aqueles que foram


justificados por Deus através da fé. As igrejas locais são lideradas por pessoas
idosas, e cada igreja é geralmente autônoma. Jesus Cristo é a cabeça da igreja,
e não há nenhuma autoridade sobre qualquer igreja local na terra para além da
Escritura. Presbíteros e pastores são falíveis na forma como eles levam a igreja.

No ensino católico romano, a igreja é composta por leigos e é liderada


por aqueles que receberam o sacramento da Ordem (diáconos, padres e bispos).
A cabeça da igreja é o papa, que quando se fala com autoridade sobre assuntos
relacionados com a igreja, é protegido contra a possibilidade de erro sobre
doutrina e da moral da igreja. Além disso, para que todos possam ser salvos, eles
devem estar sob a autoridade do papa:

O Papa, bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, é princípio perpétuo


e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, tanto os bispos
como a multidão dos fiéis. Com efeito, em virtude do seu cargo de
vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem
sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode
sempre livremente exercer. (UNAM SANCTAM, 1999, p. 409).

Uma terceira diferença trata da celebração eucarística, a missa, assim


denominada pelos católicos onde se realiza a comunhão.

Para os evangélicos, a comunhão é comemorativa, e atua como uma


lembrança da obra substitutiva expiatória de Jesus. O pão é o símbolo do corpo,
e o vinho simbólico do sangue. Não há nada de místico ou meritório nisso, mas é
um meio de graça e de provocar o crescimento na santidade.

A Igreja Católica ensina a transubstanciação, que o pão e o vinho se


transformam literalmente no corpo e sangue de Jesus. Assim, a massa, o sacerdote
chama Jesus que desceu do céu, e no partir do pão Jesus é ressacrificado. Se
alguém disser que na missa um verdadeiro e próprio sacrifício não é oferecido a
Deus; ou, que, para ser oferecido nada mais é que Cristo nos é dado para comer;
seja anátema.

A quarta diferença traz a figura de Maria, a mãe de Jesus e de Deus para os


católicos. Já para os evangélicos, Maria era mãe de Jesus, ela uma pecadora, e que
foi salva de seus pecados por sua fé em Deus. Nós reconhecemos um período de
sua vida onde ela não acreditava em Jesus (ver, por exemplo, Marcos 3: 30-33 Open
in Software Bíblia Logos (se disponível)), mas que até o momento da morte de Jesus
ela tinha colocado fé nele como seu Messias. Ela teve outros filhos depois de Jesus,
e morreu uma morte física. Ela é para ser admirada como uma mulher de fé.

38
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

FIGURA 17 – ICONOGRAFIA DE MARIA

FONTE: Disponível em: <http://mulheres.tudybom.com.br/maria-de-nazare/1>. Acesso


em: 27 abr. 2016.

Na Igreja Católica, Maria é um objeto de devoção e em grande parte do


mundo, ela é um objeto de adoração a título definitivo. É normativa para orar
com ela (considere, por exemplo, a Ave-Maria), e ensina-se que ela estava sem
pecado. Na verdade, a Imaculada Conceição é a doutrina católica de que Maria
foi concebida sem uma natureza pecaminosa, assim, ela não era uma receptora
da redenção de Jesus, mas em vez disso foi uma das participantes no que diz
respeito à redenção. Ela era virgem perpétua, e não teve morte física, mas foi
elevada ao céu, onde ela reina agora como a Rainha do céu e é inefabilidade de
Deus ("Deus inefável", ou "inexplicavelmente divina").

3 CORRENTES TEOLÓGICAS
Vamos trazer aqui algumas correntes teológicas que julgamos ser
importantes ter presente no contexto deste caderno, que quer tratar da teologia
latino-americana. Poderíamos trazer várias correntes, mas vamos ficar com três: a
teologia liberal, teologia política e a teologia prática. Você poderá buscar em seus
estudos, outras correntes.

39
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

3.1 TEOLOGIA LIBERAL


Especificamente, a teologia liberal é definida pela sua abertura aos
veredictos da moderna investigação intelectual, especialmente as ciências naturais
e sociais; seu compromisso com a autoridade da razão e da experiência individual;
sua concepção do cristianismo como uma forma ética de vida; o favorecimento
de conceitos morais da expiação; e seu compromisso em tornar o cristianismo
credível e socialmente relevante para as pessoas modernas.

A teologia liberal tem sido, e ainda é hoje, mais significativa do que é


indicado pela história usual de sua ascensão e queda. Todo o campo da teologia
moderna emprega ferramentas e teorias críticas que a tradição liberal tem
desenvolvido. Ambos os movimentos que se abateram sobre a teologia liberal
eram ramificações da tradição liberal. A ideia de uma terceira via cristã liberal
entre a ortodoxia conservadora e descrença secular mantém a sua relevância
original. E no final do século XX, a teologia liberal produziu muito de seu melhor
trabalho. Ao longo da última geração, liberais tem escrito uma grande quantidade
de teologia acadêmica altamente criativa e sofisticada, e vários liberais têm escrito
obras populares que atingiram grandes audiências. No entanto, a renovação da
teologia liberal em relação à geração passada passou despercebida até mesmo
pelos seus defensores.

É por isso que temos a ideia de que muitas religiões levam a uma
realidade – Deus, – e pior ainda, que vale tudo para podermos escolher a verdade
que queremos. O que precisa ser levado em conta é que a teologia deve ser
experimental. De que forma? Através da produção de possibilidades que lutam
contra o mito de que a realidade é simplesmente dada, que uma ideia preconcebida
de ‘natureza’ define o que pode e o que não pode ser feito, que há uma ortodoxia
ou providencia às quais todos devem submeter-se.

A tentação desta teologia é estabelecer uma estrutura de mundo ou


essência e então determinar onde se encaixam nessa estrutura. O problema
é que este obscurece o fato de que tais estruturas são produzidas, e que eles
servem interesses particulares. A visão mais radical da teologia liberal é que
o que é Deus não pode ser ditada com antecedência. Isso não é uma desculpa
para o relativismo, mas uma afirmação de que a teologia é anti-imperial,
antissupremacista, anticapitalista, uma vez que resiste à dominação da realidade
por um único princípio de valor. Mais positivamente, isto significa que Deus "é"
a realidade que gera múltiplas expressões de solidariedade militante, a diferença
florescente que é a riqueza comum de todas as criaturas. Deus é possível, não no
sentido fraco, 'pode ou não ser real’, mas no sentido forte de uma possibilidade
real de exprimir e de viver a solidariedade, a curiosidade, o amor ou perdão de
maneiras incontáveis e imprevisíveis.

40
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

A segunda coisa que se faz necessário compreender nesse ponto é que esta
é uma teologia parcial. As teologias liberais descobriram que as preocupações
sobre o método e a verdade levam a compromissos políticos: tomar partido
sobre questões de poder, recursos, reconhecimento e visibilidade. Estas são
preocupações profundamente materiais, para fazer com raça, gênero e classe.
Uma teologia que não é apenas um eco de uma hierarquia pré-existente não pode
evitar esses envolvimentos políticos, mundanos. Mais do que isso: ele não deve
evitá-los, uma vez que são sua seiva. Se a teologia não serve a libertação dos seres
humanos de carne e sangue, é parte do problema.

Isto pode parecer uma base muito tênue para a teologia. É verdade que
uma grande parte da teologia tem sido e deve ser terapêutica: curar-nos da
idolatria e imagens falsas de transcendência. Tais ídolos hoje incluem a todos
mercantilização devorando e mercantilização do mundo, bem como os falsos
deuses do fundamentalismo e do tradicionalismo e do racismo ocidental. No
entanto, este "não" é espelhado por uma afirmação de respeito para com as
criaturas e criação em seu material, viveu evoluindo a contestada realidade. Um
"sim" para as ecologias complexas, frágeis e contingentes que às vezes tornam as
relações de graça possível, sem a ingenuidade que finge que o mundo pode ou
deve ser libertado de toda a luta, violência ou acaso.

Houve cinco eventos de extinção em massa na pré-história da Terra.


Estamos ocupados a fabricar o sexto. Nada diz que as coisas não poderiam ter
sido diferentes. Não poderia haver vida em tudo aqui, deixe só o ser humano.
Nada justifica o sofrimento do mundo. Não há ponto final sobrenatural que vai
salvar tudo e nos dizer o que tudo aquilo significava. Se teologia é falar de todas
as coisas à luz de Deus, isso não significa uma fuga para o conhecimento de outro
mundo, ou uma redução de tudo a alguma medida comum, mas a descoberta de
que este mundo é realmente capaz de fazer. A criação está sendo reinventada,
sempre, e não apenas em formas que encontramos compreensível ou confortável.
A teologia tem que viver com isso.

Para concluir, há que se levar em conta que a teologia liberal abriu a porta
para um compromisso com a ciência, a democracia e o pensamento crítico, e
agora não pode voltar a cair o sonho de preservar ilhas de divindade pura na
tempestade da vida. Talvez agora, que temos de fazer teologia, sem alicerces, sem
mesmo a vista da terra.

41
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

3.2 TEOLOGIA POLÍTICA


De uma perspectiva muito simples, é possível isolar três tipos de "teologia
política". O primeiro tipo é liberal, pois procura revelar a herança teológica
inconsciente na esperança de removê-la e atingir uma verdadeira laicidade. Neste
grupo, pode-se incluir Löwith e Derrida. O segundo tipo é o reacionário, que procura
preservar tudo quanto pode da tradição teológica, a fim de manter algum tipo sentido
no horizonte da modernidade. Finalmente, há a abordagem de esquerda radical, que
mina a tradição teológica para qualquer possibilidade de transformação radical.

A partir desta perspectiva, parece que poderíamos acrescentar uma quarta


posição da teologia política judaica como uma alternativa distinta para o modelo
liberal. A questão que então se coloca é se este tipo de teologia política pode
realmente ser praticado por um não judeu, ou se ele sempre vai acabar em espiral
em uma posição categórica ou apocalíptica unilateralmente.

Não há necessidade de reducionismo aqui, como se a política fosse


secretamente uma perseguição "religiosa" ou a teologia não fosse nada além de
propaganda política. Ambos têm sua própria autonomia relativa e sua própria
necessidade conceitual interior. Este último ponto explica porque uma disciplina
pode servir como uma espécie de conceitos em desenvolvimento de laboratório
que virão a ser usados no outro, como na genealogia de Agamben.

Por isso, parece que há uma legitimidade fundamental, mesmo em uma


época como a nossa, onde se manifesta uma dissociação, no uso de teologia como
uma maneira de pensar através da política, bem como na utilização de paralelos
políticos para avaliar teologia. Não é preciso afirmar que as ideias teológicas
podem causar certa opressão, quando também podem causar certa libertação.
Particularmente, no caso de pensar através de possibilidades de novos paradigmas
políticos revolucionários, transferindo a discussão para a esfera teológica, pode
ser uma maneira de eliminar a própria distância da realidade contemporânea que
parece não prometer nada, além do desespero, do vazio.

3.3 TEOLOGIA PRÁTICA


A preocupação da teologia, de modo especial na América Latina, é alcançar
aqueles que nas Sagradas Escrituras são designados como os mais pobres. A
teologia, em sua vertente prática, se presta nessa situação.

42
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

A Teologia Prática, como o próprio nome indica, é o estudo da teologia de


uma maneira que se destina a torná-lo útil ou aplicável. Outra forma de dizer isto
é que é o estudo da teologia de modo que ele pode ser usado e é relevante para
preocupações diárias. Um seminário descreve seu Programa de Teologia Prática
como "sendo dedicado à aplicação prática dos conhecimentos teológicos" e que
"geralmente inclui as subdisciplinas de teologia pastoral, homilética e educação
cristã, entre outros". Outro seminário vê o propósito da prática de teologia como
ajudar a preparar os alunos para traduzir o conhecimento aprendido para o
ministério eficaz para as pessoas. Fazendo isso a vida pessoal e familiar envolve, bem
como a administração e ministérios de ensino na igreja. Eles afirmam que o objetivo
da Teologia Prática é desenvolver comunicadores eficazes das Escrituras que têm
uma visão para o crescimento espiritual dos crentes ao ser líderes servidores.

Alguns consideram teologia prática para ser simplesmente um nome mais


técnico para a doutrina da vida cristã. Sua ênfase está em como todo o ensino da
Escritura deve afetar a maneira como vivemos hoje, neste mundo atual. A ênfase
da teologia prática não é simplesmente para contemplar ou compreender doutrinas
teológicas, mas ir além da aplicação dessas doutrinas na vida cristã quotidiana,
para que "contribuir para o mundo se tornar o que Deus quer que ele seja".

A premissa por trás dos programas da teologia prática é que os futuros


líderes cristãos precisam ser equipados não só com o conhecimento teológico, mas
também com as competências profissionais necessárias para ministrar eficazmente
o mundo moderno. Muitas vezes, estes programas usam pregação, educação
cristã, aconselhamento e programas clínicos para fornecer oportunidades para
equipar e preparar futuros líderes cristãos.

4 TEOLOGIA NO BRASIL
Teologia é basicamente a reflexão sobre a fé vivida pelo povo. A história
da teologia no Brasil, por isso, deve ser o estudo das várias maneiras de como a
fé foi concebida e praticada em quase cinco séculos de história do catolicismo no
Brasil. Uma visão histórica mais completa deve abranger também a experiência
de fé em outras religiões e confissões religiosas, por interferência existente, quer
como convergências ou divergências, em momentos diferentes. Essa história está
sendo construída com muitos avanços, mas também com alguns retrocessos de
todos os lados.

É importante notar, que de uma forma geral, a vivência da fé está


diretamente relacionada com o mesmo conceito de igreja que permanece nos
diferentes períodos históricos: O conceito é alterado conforme a ideia que a
instituição eclesiástica tem de si mesma. Então vamos lá, vamos ver como evoluiu
a caminhada da teologia no Brasil.

43
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

Aqui, convém levar em conta, em primeiro lugar, que durante o período


colonial, a fé católica foi introduzida no Brasil mediante o modelo igreja-
cristandade cuja base está na união entre igreja e estado.

Na prática como isso acontece? A igreja é incorporada pelo poder político


e instrumentalizada a favor do projeto colonial português. Tanto a evangelização,
como a presença junto ao povo, a igreja atua como representante do estado e a
transmissão da doutrina evangélica está condicionada a manutenção da estrutura
latifundiária e escravista exigida por Portugal.

Visto de forma mais abrangente, a história da teologia no Brasil pode


ser vista a partir de momentos marcantes de criação teológica ao mesmo tempo
que são tempos de militância histórica. Isso vai trazer a teologia para o centro
dos desejos do povo que anseia por uma teologia da libertação, contrapondo
a teologia da dominação. Vê-se que no seu começo criativo foi um movimento
teológico profético, e aqui podemos trazer a figura de Bartolomeu de Las Casas
no tempo da evangelização inicial na América Latina.

A obra evangelizadora da Igreja da América Latina é o resultado do


esforço unânime de missionários de todo o povo de Deus. Aí estão as
incontáveis iniciativas de caridade, assistência, educação e, de modo
exemplar, as originais sínteses de evangelização e promoção humana
das missões franciscanas, agostinianas, dominicanas, jesuíticas,
mercedárias e outras, aí estão a generosidade e o sacrifício evangélico
de muitos cristãos em que, por sua abnegação e oração, a mulher teve
papel essencial. Aí está a criatividade na pedagogia da fé, a vasta rede de
recursos que conjugava todas as artes, desde a música, o canto e a dança,
até a arquitetura, a pintura, o teatro. Toda a capacidade pastoral está
associada a um momento de grande reflexão teológica e a uma dinâmica
intelectual que dá vida e impulso a universidades e escolas, dicionários,
gramáticas, catecismos em diversas línguas indígenas e aos mais
significativos relatos históricos sobre as origens de nossos povos. E está
associada igualmente a uma extraordinária proliferação de confrarias
e irmandades de leigos que chegam a ser a alma e a espinha dorsal da
vida religiosa dos crentes e a fonte remota, mas fecunda, dos atuais
movimentos comunitários da igreja latino-americana. (CONFERÊNCIA
DE PUEBLA, p. 88-89).

Aqui passamos também o tempo de emancipação nacional, de libertação
da teologia advinda da Europa. Somente a partir de 1965, que se terá uma teologia
genuinamente da libertação, porque leva em consideração a realidade interna
complexa que aqui se vive. E o que temos hoje?

A teologia ainda tem contribuído para as diferentes religiões,


denominações? Fala-se da teologia da prosperidade. E a teologia da libertação,
onde está?

É fato que o Brasil tem experimentado um crescimento explosivo das


igrejas pentecostais e neopentecostais. Grandes multidões de pessoas pobres
foram assistir a essas igrejas que procuram respostas para as suas necessidades
espirituais, físicas e materiais.

44
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

A Igreja Católica, por sua vez, vendo a pouca visibilidade da Teologia


da Libertação, tem se preocupado com o crescimento das igrejas pentecostais
e neopentecostais. E igrejas protestantes brasileiras, as chamadas igrejas
históricas, que chegaram no Brasil na primeira e segunda geração de igrejas que
vieram principalmente dos Estados Unidos, sentem semelhante preocupação
com esse avanço.

Este crescimento pentecostal e neopentecostal não tem uma lógica, em um


primeiro olhar. Não há uma organização entre os integrantes desse movimento.
Mas os críticos mais fortes de igrejas protestantes, que são muito pequenas no
Brasil, em comparação com as grandes igrejas pentecostais e neopentecostais,
usaram as imperfeições para apontar que o "renascimento" dos evangélicos no
Brasil é falso, enganoso e condenado o crescimento pentecostal e neopentecostal
no Brasil. Poderiam usar a expressão muito em voga no mundo político dizendo:
“eles não nos representam”.

Vamos retomar um pouco de história para lembrarmos como se chegou
até aqui. Vamos usar o seu padrão para analisar um "reavivamento perfeito".
Primeiro, veio o Grande Despertar, por Jonathan Edwards e outros. Em seguida,
o nascimento dos Estados Unidos por homens simultaneamente protestantes e
Mason. Isto é, a maioria dos fundadores eram protestantes.

A maior denominação Presbiteriana no Brasil, fundada por missionários
norte-americanos presbiterianos em meados de 1800 e berço da primeira versão
protestante da Teologia da Libertação, na década de 1950, tem um tempo difícil
para disciplinar os seus inúmeros ministros maçônicos e outros líderes, que,
no entanto, têm sido ocupados criticando as muitas "heresias" do crescimento
pentecostal e neopentecostal.

Não importa que o que a Palavra de Deus diz também se aplica à maçonaria
entre os ministros protestantes, políticos e outros líderes: O Grande Despertar foi a
maior bênção para o nascimento de América. Mas Maçonaria não foi uma bênção, e
será, com seus esquemas de Nova Ordem Mundial, sua queda. O Grande Despertar
não era um renascimento perfeito. Só Deus é perfeito. O crescimento pentecostal e
neopentecostal no Brasil não é perfeito. Só Deus é perfeito.

Se o Brasil é hoje mais socialista, pentecostais e neopentecostais não são
os culpados. Na década de 1990, Rev. Caio Fábio, o maior líder Presbiteriano
na história do Brasil, conduziu a Igreja brasileira para apoiar o Partido dos
Trabalhadores (PT), que é o partido socialista no poder no Brasil, e hoje Rev.
Fábio é um o homem caído, por causa de seus escândalos sexuais e financeiros.

45
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

O que se percebe atualmente é que o Partido dos Trabalhadores e outros


partidos socialistas estão determinados a impor o aborto e a homossexualidade
no Brasil. O único obstáculo para seu projeto, por sua própria admissão, é o
testemunho de ousadia dos tele-evangelistas neopentecostais, que estão sob uma
carga pesada de críticas "teológica" dos calvinistas críticos confortavelmente em
um ambiente religioso atormentado pela maçonaria e pela Teologia da Missão
Integral, que é a versão protestante da Teologia da Libertação.

Esses são os desafios para a igreja e para a teologia atualmente. Existem


muito mais, mas você, acadêmico, pode fazer essas buscas.

LEITURA COMPLEMENTAR

ALGUNS TIPOS DE TEOLOGIA

DIOCESE DE ANÁPOLIS

1 TEOLOGIA ESPECULATIVA, POSITIVA E MÍSTICA

A teologia especulativa privilegia as funções da razão e as suas operações


cognitivas, enquanto a Sagrada Escritura e a Tradição são tratadas como ponto de
partida, e o trabalho dos biblistas, patrologistas e historiadores dos dogmas, como
uma preparação. Essa teologia teve o seu apogeu nas especulações escolásticas.
Ela busca ser uma compreensão da Revelação – intelligentia revelationis e uma
compreensão da verdade - intelligentia fidei. Pode desenvolver-se mais plenamente na
teologia dogmática, e por isso considera essa área como teologia propriamente dita.

A teologia positiva privilegia as pesquisas da Sagrada Escritura, dos padres


da Igreja, os ensinamentos dos Concílios, da liturgia e de outros relatos da tradição.
Confere um valor especial à teologia bíblica e à história dos dogmas. Dedica muita
atenção à análise e à síntese dos ensinamentos do magistério da Igreja. A moderna
renovação da teologia e da vida da Igreja foi uma conquista da teologia positiva.

A teologia mística privilegia as experiências religiosas interiores dos


Mistérios da fé. Vê na teologia positiva uma condição e uma etapa indispensável
em direção à mística, a etapa que coroa o conhecimento da fé – scientia fidei. A
diferente avaliação do valor da especulação criou duas correntes de mística: a
corrente nitidamente racionalizada e humanística (Marsiglio Ficino e Pico della
Mirandola), que alia a mística ao neoplatonismo e à escolástica; e a corrente
exclusivamente vivencial, bíblica e desracionalizada [mística de Salamanca: S.
Pedro de Alcântara (+1562), S. João da Cruz (+1591), S. Teresa de Ávila (+1582)].
Na teologia mística a teologia “genuflexa” predomina decididamente sobre
a teologia “sentada”, e a teologia como “diálogo com Deus e a Deus”, sobre a
teologia como “diálogo sobre Deus”.

46
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

2 TEOLOGIA INVESTIGADORA E TRANSMISSORA

No período patrístico a teologia brotava dos choques com os grandes


problemas daqueles tempos: faziam-se perguntas sobre a unidade e a trindade de
Deus, sobre o relacionamento de Cristo com Deus-Javé e com o panteão dos deuses
pagãos, sobre a graça, o bem e o mal no mundo... A Idade Média, por sua vez,
procedeu à construção de sínteses teológicas, a fim de transmiti-las às gerações
futuras em forma de sumas escolásticas. Surgiram dois tipos de teólogos: uns
faziam pesquisas, outros ensinavam. Os dois tipos são visíveis também na teologia
posterior. Em geral apenas alguns indivíduos ou certos grupos empreendiam
novas perguntas ou respondiam a perguntas antigas de forma nova ou renovada;
os teólogos restantes transmitiam a doutrina já elaborada por outros, escrevendo
manuais ou ensinando de acordo com manuais prontos. Os primeiros tornam-
se os “criadores” da teologia, os segundos – os seus “transmissores”. Graças
aos primeiros, a teologia se cria e rejuvenesce (teologia in fieri, in statu nascendi);
graças aos segundos transforma-se em teologia de manual e escolar, sem a qual a
formação do clero e dos teólogos leigos transforma-se quase numa utopia.

O tipo do teólogo “investigador”, que realiza pesquisas, é definido por


muitos fatores:

1) aptidão para perceber os problemas;


2) capacidade de escolher o método de pesquisa;
3) visão do problema no amplo contexto da teologia, das ciências e da vida;
4) coragem;
5) carisma de teólogo;
6) olhos na frente e atrás (atrás para não se afastar das raízes da Tradição; na
frente, para prever e ver os sinais do tempo).

3 TEOLOGIA DAS ESCOLAS E DOS CENTROS DE PENSAMENTO

As escolas teológicas existiram já na antiguidade (escola de Antioquia


e de Alexandria). Desempenharam papel significativo na Idade Média a escola
dominicana e a franciscana, bem como a dos vitoristas ou teólogos do convento de S.
Vítor, nos arredores de Paris, especialmente de Hugo (+1141) e Ricardo (+1173). Na
teologia contemporânea as divisões são feitas antes por regiões e ambientes. Fala-
se da teologia sul-americana, da teologia do centro romano e alemão; começam a
surgir artigos sobre a “teologia negra”, da África, e a “teologia amarela’, da Ásia.
Na Polônia das últimas décadas formou-se um centro de teólogos no campo de
influência dos professores pe. Inácio Rózycki (+1981) e pe. Vicente Granat (+1979).
O Simpósio da Seção Dogmática dos Teólogos Poloneses organizado em Pelplin
nos dias 17/18 de setembro de 1984 a respeito do tema, em busca da identidade da
teologia polonesa, chamou a atenção para o problema das teologias nacionais. No
período pós-conciliar criou-se um centro excepcionalmente criativo de teólogos
ligado com a revista internacional “Concilium”.

47
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

4 TEOLOGIA POLÊMICA, IRÊNICA, SIMBÓLICA E ECUMÊMICA

O caráter desses quatro tipos de teologia é definido pela postura diante da


teologia não católica ou católica não ortodoxa.

A teologia polêmica (do grego polemos – guerra) procura refutar as opiniões


contrárias. Atingiu o seu apogeu histórico no século XVI, na luta teológica com
o protestantismo. Visto que os reformistas se posicionaram contra a escolástica
baseando-se na Bíblia, a polêmica eficaz devia igualmente adotar uma teologia
mais positiva, mais próxima do humanismo. Do grupo dos polemistas poloneses
mais eminentes daquele período fazem parte: André Krzycki (+1537), Martim
Kromer (+1589), Estanislau Hozjusz (+1579), Estanislau Sokolowski (+1593), Tiago
Wujek (+1597) e Pedro Skarga (+1612).

A teologia irenista (do grego eirenikos – pacífico) apresenta as suas teses


evitando disputas e ataques a quem quer que seja (desenvolveu-se após a Segunda
Guerra Mundial a irenologia, ou ciência da paz religiosa).

A teologia simbólica (do grego symbolikos – que coloca lado a lado) constitui
uma forma de teologia irenista. Sem intenção polêmica, coloca lado a lado as opiniões
teológicas (ou a fé) das Igrejas cristãs, para destacar as semelhanças e as diferenças.
Visto que são as Profissões ou Símbolos de fé que abordam a fé da Igreja da forma
mais sintética, a posição das Igrejas é confrontada segundo a disposição lógica
desses Símbolos. São utilizados também os textos simbólicos das diversas Igrejas,
ou os livros teológicos mais importantes das diversas profissões religiosas, como
os documentos conciliares ou a Profissão de Augsburgo. Um clássico da teologia
simbólica é Johann Adam Möhler (+1838), autor da obra Symbolika. Um exemplo
polonês da teologia simbólica pode ser o número especial da “Unidade”, revista
mensal publicada pelo Consistório da Igreja Evangélica Reformada na Polônia; em
colunas dispostas paralelamente, apresenta exposições concisas da fé e da teologia da
igreja católica romana, evangélica de Augsburgo, evangélica reformada e ortodoxa, e
essas exposições são feitas por teólogos das respectivas igrejas: um teólogo ortodoxo
faz a exposição da igreja ortodoxa, um luterano da luterana etc.

Teologia ecumênica (do grego oikoumenikos – universal). Não se trata aqui


de uma seção da teologia que se preocupe com a problemática do ecumenismo,
mas de um tipo especial de teologia que se caracteriza por uma postura em relação
às fontes e por uma atitude na pesquisa e na exposição.

A teologia ecumênica considerada a partir das fontes:

1) amplia o âmbito dos loci theoligici, anexando a eles as fontes teológicas típicas
de outras Igrejas, como os escritos simbólicos das igrejas protestantes ou a
liturgia das Igrejas ortodoxas, bem como a própria teologia das Igrejas irmãs
(contrariamente ao princípio de que não devem ser lidos os teólogos não
católicos);

48
TÓPICO 3 | POR ONDE CAMINHA A TEOLOGIA

2) controla e eventualmente corrige a sua própria hierarquia de fontes, por


exemplo, dando mais atenção ao primado da Sagrada Escritura (graças ao
justo postulado da teologia protestante) ou ao significado dos Padres da Igreja
orientais (graças ao justo postulado dos teólogos ortodoxos).

Considerada do ponto de vista da postura, tanto na pesquisa como na


exposição, a teologia ecumênica procura, de forma consciente, levar em conta
os três princípios formulados pelo Decreto sobre o ecumenismo (nº 9-10) e
pelo Diretório ecumênico (parte II, nº 117), a saber: o princípio da verdade na
apresentação da posição das Igrejas e dos teólogos de fora da nossa profissão
religiosa; o princípio da benevolência, que facilita a boa compreensão do outro
lado e a correta apresentação da sua posição; e o princípio da afável abertura aos
tesouros que descobrimos nos outros e que podem nos enriquecer 12.

Faz parte da teologia ecumênica igualmente a teologia que está


amadurecendo nos diálogos doutrinários intereclesiais e que se pronuncia nos
entendimentos publicados pelos grupos mistos que dialogam.

5 TEOLOGIA CATAFÁTICA E APOFÁTICA

A teologia catafática (do grego katafatikos – positivo, afirmativo) formula


uma ciência sobre Deus para a qual – na sua própria convicção – encontra
apoio nas fontes da teologia e também na razão humana. Quase toda a teologia
escolástica e a teologia positiva fazem parte desse tipo de teologia.

A teologia apofática (do grego apofatikos – negativo), chamada teologia


negativa, baseia-se na premissa de que só podemos falar corretamente de Deus
negando, dizendo que ele não é por exemplo como nós, que não é limitado por
qualquer coisa, que não se submete às categorias humanas de pensamento etc.,
ao passo que as tentativas de afirmações positivas sempre têm que terminar no
insucesso e na inverdade (além da afirmação de que Deus é, embora também
nesse caso é preciso apressar-se com a restrição de que “é” de outra forma que
nós e tudo que nos cerca). A teologia apofática enfatiza que Deus é maior que
as nossas palavras e os nossos pensamentos, sempre maior e sempre diferente.
Só não cometemos um erro quando afirmamos que Deus não é tudo aquilo que
conhecemos. O tipo do pensamento teológico apofático expressa uma profunda
falta de confiança na especulação e no conhecimento pela analogia. Um eminente
representante dessa corrente, o Pseudo-Dionísio Areopagita, escreveu: “Ousamos
negar tudo a respeito de Deus para chegarmos a esse sublime desconhecimento
que nos é encoberto por aquilo que conhecemos sobre o restante dos seres, para
contemplar essa escuridão sobrenatural que está oculta ao nosso olhar pela luz
perceptível nos outros seres”.

6 TEOLOGIA DA CRUZ E TEOLOGIA DA GLÓRIA

Martinho Lutero gostava de definir a sua teologia com o nome de teologia


da cruz, e chamava a teologia escolástica de teologia da glória.

49
UNIDADE 1 | HISTÓRIA E IDENTIDADE

De acordo com o seu nome, a teologia da cruz (theologia crucis) concentra-


se na cruz de Cristo (entendida amplamente: como rebaixamento de Deus na
encarnação, ocultação da divindade na humanidade, aviltamento na paixão)
como sendo o “lugar” fundamental da revelação de Deus e da possibilidade de
ser aí conhecido pelo homem. Na cruz Deus se oculta da forma mais profunda
(Deus absconditus), e nessa ocultação mais profunda revela-se da forma mais
plena (Deus revelatus).

A teologia da glória (theologia gloriae) – na interpretação de Lutero – é o


conhecimento de Deus pelo caminho recomendado pela escolástica, isto é, o
conhecimento da Sua grandeza a partir do mundo, através da analogia, com a
apoio da especulação, à moda dos filósofos pagãos.

Embora a explanação reformista de ambos os termos, nitidamente


polêmica, simplifique a questão (a escolástica não era indiferente à teologia da
cruz, que se desenvolveu de forma excepcionalmente dinâmica, por exemplo,
na escola franciscana), não deixa de perceber acertadamente duas correntes que
estão presentes na teologia cristã de todos os séculos: 1) uma forte corrente de
confiança otimista na razão e nas suas possibilidades de conhecer a Deus a partir
das criaturas e 2) uma corrente paralela, embora menos espetacular, marcada
por uma visão pessimista da luta da razão humana com o mistério divino (cf. a
teologia apofática, a teologia mística, a teologia que serve de base para a devotio
moderna, ou as tendências irracionais sempre presentes na teologia, que se
manifestam também nos séculos XIX e XX).

7 TEOLOGIA QUERIGMÁTICA

O termo grego kerygma – que significa o anúncio por um arauto da vontade


do rei ou de outra autoridade, proclamação, anunciação – foi introduzido em
1936 pelo jesuíta austríaco Joseph Andreas Jungman nas grandes disputas sobre a
teologia. Ele constatou que a teologia escolar do seu tempo servia mal ao anúncio
dos mistérios salvíficos da fé, e a dramática divisão entre a teologia e a vida
estava se aprofundando cada vez mais. Passou a postular então uma renovação
do querigma. De uma animada e demorada disputa brotou a consciência
aprofundada de que toda a teologia, inclusive a sistemática, devia servir à missão
fundamental da Igreja: o anúncio de Cristo e do seu Evangelho. Essa vocação
básica de toda a teologia cristã deve definir tanto a escolha da temática, como a
forma da sua elaboração teológica e a forma da sua transmissão pastoral.
FONTE: Disponível em: <http://www.diocesedeanapolis.org.br/index.php/teologia/419-tipos-de-
teologias>. Acesso em: 26 abr. 2016.

50
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico vimos que:

• Existem teologias no continente latino-americano que foram e são muito


importantes para o desenvolvimento da região.

• As correntes teológicas descrevem diferentes tipos de teologia com


características, objetivos e atuações diferenciadas.

• Houve um crescimento das religiões pentecostais e neopentecostais nos últimos


anos na América Latina.

51
AUTOATIVIDADE

Vamos reproduzir aqui uma questão aplicada no ENADE, em 2015,


para que você, acadêmico, possa se familiarizar com a dinâmica utilizada na
prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão concluir o curso no ano
do ENADE, terão que realizar.

(ENADE 2015) Historicamente, o tema central da teologia gira em torno da


figura de Deus. Contudo, o ponto de partida da reflexão teológica é a existência
histórica, concreta, e, às vezes, trágica, do ser humano que pensa. Uma teologia
que abandona decididamente a mentalidade confessionalista de gueto, ainda
bastante difundida, é capaz de unir uma ampla tolerância do extraeclesial, do
religioso e do simplesmente humano com a reflexão sobre o especificamente
cristão. Desta forma, ao se falar de teologia, precisamos encarar a tarefa a partir
de óticas múltiplas, dando valor aos pontos de vista de outras ciências. Falar de
reconstrução, de contextualização e de óticas múltiplas implica fazer perguntas
ao cristianismo que se crê, que se professa e defende. (KUNG, H. Teología para
la postmodernidad. Madrid: Alianza Editorial, 1989).

A partir do texto, que discorre acerca da historicidade da teologia, assinale a


opção CORRETA.

a) As nuances teológicas enfatizam o humano pensante em detrimento da fé


cristã.
b) A teologia trabalhada sob uma ótica científica assegura respostas sobre o
sentido da vida.
c) A síntese histórica da teologia apresentada evidencia a figura humana a
partir de uma única ótica.
d) O ser humano, como ser pensante e aberto a óticas múltiplas, é capaz de
reconstruir sua fé e refletir suas ações.
e) A teologia cristã é ciência completa, capaz de responder aos anseios
humanos.

52
UNIDADE 2

TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• identificar as tendências e perspectivas da espiritualidade contemporânea,


particularmente no âmbito latino-americano e dos novos movimentos e
associações eclesiais;

• apresentar as perspectivas da espiritualidade do Concílio Vaticano II;

• valorizar as experiências e orientações da Igreja quanto ao “rosto” da espi-


ritualidade latino-americana;

• compreender a importância da ética cristã na identidade do cristão e sua


fundamentação na Sagrada Escritura;

• favorecer o diálogo e o respeito intraeclesial, ecumênico e inter-religioso.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dos estudos
você encontrará atividades que o(a) ajudarão a fixar os conteúdos estudados.

TÓPICO 1 – ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

TÓPICO 2 – ÉTICA CRISTÃ

TÓPICO 3 – DIÁLOGO PERMANENTE

53
54
UNIDADE 2
TÓPICO 1

ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

1 INTRODUÇÃO
Vamos estudar, nessa unidade, a relação muito próxima, praticamente
univitelina, da teologia e da espiritualidade. Por isso é importante entender que
quando falamos de ‘’espiritualidade’’, queremos nos referir a um aspecto interior,
experiencial de ser. Queremos entender a espiritualidade como uma região de
consciência dentro da qual as pessoas experimentam, e não apenas pensam em
um poder superior, o absoluto, Deus, Alá, Nirvana, Senhor, Consciência Cósmica,
Consciência Crística, o Vazio, ou, caso mais específico dos cristãos, Jesus Cristo,
Santíssima Trindade.

Esta experiência espiritual pode ocorrer em vários níveis: físico,


emocional, cognitivo e transcendente. Espiritualidade é uma qualidade que pode
infundir experiência em uma ampla variedade de configurações. Pode ser tanto
transcendente quanto imanente: pode ser tanto uma experiência de transcender as
preocupações mundanas e uma percepção do momento presente intenso de que
o fundamento de todo ser permeia todas as coisas. A essência da espiritualidade
é uma vitalidade intensa e uma profunda sensação de entendimento que se
compreende intuitivamente como tendo vindo de uma ligação direta, interna
com esse princípio misterioso que liga todos os aspectos do universo, a quem
nós, cristãos, nos dirigimos – Deus.

Há muitas tradições espirituais, cada uma das quais tem a sua própria
linguagem e os conceitos relativos à natureza única, o caminho que deve ser seguido
para experimentar da melhor maneira possível esta realidade à nossa disposição.

Não vamos nos aprofundar sobre isso, porque queremos trilhar no
caminho da espiritualidade que reforça a ação prática, mas, na maioria das
tradições espirituais, o misticismo está no cerne da espiritualidade, misticismo
este que se refere ao transcendente, a experiências contemplativas que melhoram
a compreensão espiritual. Essas experiências místicas podem ocorrer durante
práticas intencionais destinadas a criar aberturas para experiências transcendentais,
como a oração cristã contemplativa, ou podem ocorrer no processo de viver um
estilo de vida que é propício para experiências transcendentais. Algumas práticas
já existentes em algumas denominações, como a escuta comunitária, o embate
com a própria realidade, a oração, são evidências dessa preocupação com a
vivência das Sagradas Escrituras.

55
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

As religiões ditas organizadas, sejam cristãs ou não, no fim das contas são
grupos sociais que têm doutrinas teológicas e comportamentais, com momentos
de adoração por vezes ritualizada.

Avançando um pouco mais, vemos que a relação entre religião e


espiritualidade, com as devidas proporções, se equipara à espiritualidade e
teologia. Voltando à religião e espiritualidade, muitas pessoas usam as duas
palavras como sinônimas, e realmente, à primeira vista, não conseguimos
identificar muitas diferenças entre elas. Outros usam a religião para se referir a um
programa sociocultural para o desenvolvimento espiritual e para trazer realizações
espirituais na vida cotidiana. E eles usam espiritualidade para se referir às suas
experiências internas e vão tentando colocá-las em prática. A maioria das pessoas
vê a espiritualidade como um termo mais amplo, que inclui uma maior variedade
de experiências do que incluiria sob a religião. Algumas pessoas atribuem pouca
ou nenhuma importância à religião organizada, mas, ao mesmo tempo, se veem
como pessoas muito espirituais, fenômeno esse muito forte na atualidade.

O que queremos é mostrar a importância de uma espiritualidade forte,
fundada em preceitos bíblicos, próxima a uma teologia que prioriza a libertação,
ao resgate do ser humano. Vamos então avançar.

2 TEOLOGIA ESPIRITUAL OU ESPIRITUALIDADE TEOLÓGICA


Provavelmente, João Batista Libâneo tenha dito que a teologia sem
espiritualidade é vazia e espiritualidade sem teologia é cega. Se não disse,
deveria ter dito.

Só no Ocidente e apenas durante o século XII, quando o empreendimento


teológico mudou a partir dos mosteiros para as novas universidades, é que o
pensamento cristão começa a se tornar uma atividade distinta da ascese, enquanto
a contemplação tende a separar-se da eucaristia e também da ética.

E isso é muito bom, porque a espiritualidade vai aos poucos se tornando


uma teologia com a atitude, a teologia com a alma – mas não uma alma sem
corpo. Uma espiritualidade verdadeiramente cristã encarnada.

Esta espiritualidade conduz a algumas práticas que podem ser desde um


simples jejum (uma prática comum para católicos e de forma desavergonhada
nos dias atuais com dietas estúpidas e sem contexto), bem como práticas mais
complexas que, mais que exigir um corpo resistente, pedem muito mais que
isso, pedem uma mudança de vida, de atitudes, de testemunho. Usualmente, a
espiritualidade nos leva a encontrar o nosso eu, e aí, quando nos encontramos,
podemos ir ao encontro do outro, conviver com o outro sem nos anularmos. Essa
é a linha mestra do sucesso de um casamento.

56
TÓPICO 1 | ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

Não obstante, na filosofia neoplatônica, mesmo sob influência gnóstica


insidiosa, e mesmo - por assim dizer - não muito apropriado aqui como exemplo,
mas o quarto de um casal, bem como a cela do monge, guardadas as devidas
proporções, podem ser um lugar onde o céu e a terra obtêm bênçãos e graças
conforme a intensidade espiritual e teológica ali vivenciada. Na verdade, o
material como tal, é (perdoem o trocadilho) uma questão espiritual. E aí, perdemos
momentos preciosos de comemoração, de confraternização, de renovação.

FIGURA 18 – CASAMENTO TAMBÉM É RENÚNCIA

OBRIGADO! É UM
ESTOU JEJUANDO VOTO DE
EM DOIS
CONSAGRAÇÃO ANOS

FONTE: Disponível em: <https://marcotelesc.files.wordpress.com/2009/04/jejum.jpg>. Acesso


em: 15 abr. 2016.

A espiritualidade pode ser entendida como a teologia de joelhos, mas


também é teologia dos pés que se põem no trabalho. "Pão para mim é uma questão
física", disse Nicolas Berdyaev (1957), "comprar pão para o meu vizinho é uma
questão espiritual".

Qualquer autêntica espiritualidade cristã terá shalom – paz e justiça


– em seu coração. Tem o ‘olhar para o lado’ e ver a necessidade do próximo e
compadecer-se dele. Vejamos o que nos diz o evangelho de Mateus: “ao que lhes
responderá o rei: em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus
irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”. (BÍBLIA, N. T. Mateus, 25:40)

57
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Os cristãos latino-americanos – aqui, preferencialmente, os mais pobres


– visualizam certas semelhanças entre o contexto histórico e social em que Jesus
realizou sua missão, com todos os desafios e conflitos elencados na Sagrada
Escritura, e o contexto histórico e social em que os cristãos latinoamericanos estão
agora testemunhando em sua fé. Percebemos então que essa humanidade de Jesus
– como sempre, o lugar primordial da experiência cristã – é capaz de misturar a
mesma experiência de fé e amor de Jesus com as tarefas históricas da atualidade.

Esta espiritualidade da libertação vem da experiência de vida entre os


pobres e necessitados. Essa experiência traz uma preocupação e solidariedade
com a justiça. Para os cristãos, tais experiências, que à primeira vista tendem a ter
um viés ético e sociológico, vão se tornando experiências espirituais na medida em
que descobrem nos pobres um lugar de compaixão e predileção de Deus, e uma
revelação misteriosa da humanidade de Jesus. Conhecimento e contemplação
de Jesus e da opção preferencial pelos pobres tornam-se inseparáveis. Quando
se entende essa condição de pobreza, isso passa uma fonte de espiritualidade
através da humanidade de palavras e ações de Jesus.

A espiritualidade da libertação tende a enfatizar a vivência de Jesus sob o


impulso do espírito como o impulso essencial da cristandade. Aqui cabe destacar
esta mesma tendência, também encontrada na dedicação de Maria, sempre um
fator importante em qualquer espiritualidade latino-americana. Maria é agora
vista mais em seu relacionamento com Jesus, como se apresenta na Bíblia;
seguidora perfeita de Jesus, compartilhando sua missão e preocupações, como
exemplo fundamental da vida cristã.

Seus privilégios e seu papel especial no que diz respeito à humanidade


– como fator importante no 'catolicismo popular' – são 'humanizados' para as
pessoas quando começam, a partir de Maria com sua humildade e vida simples,
seu carinho com o povo oprimido.

Não é por acaso que as teologias da libertação estão profundamente


comprometidas com a combinação de experiência, reflexão, ação e oração/adoração/
eucaristia, veem na figura de Maria também uma fonte inspiração para não desistir,
mesmo de uma realidade dura. Espero que você, acadêmico, consiga identificar
esta realidade nesses nossos estudos e também nas realidades que o circundam.

Então, o que é "espiritualidade"? Talvez a espiritualidade é uma daquelas


coisas que é mais fácil mostrar do que dizer.

Mas a espiritualidade é muito mais do que uma ciência de interpretar


experiências pessoais excepcionais; a espiritualidade toca todas as áreas da
experiência humana: o público e o social, as dores, os caminhos tortuosos, até
mesmo patológicos da mente, o mundo moral e relacional. E a meta de uma
vida cristã não se torna iluminação, mas totalidade – uma aceitação deste pacote
complicado e confuso de experiências como um possível teatro para o trabalho
criativo de Deus. É Deus brincando conosco? Não acredito nisso. Acredito que é
Deus nos dando liberdade de fazer escolhas, livres.
58
TÓPICO 1 | ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

FIGURA 19 –LIBERDADE DE ESCOLHAS

FONTE: Disponível em: <http://ocatequista.com.br/archives/13708>. Acesso em:


15 abr. 2016.

Em um sentido importante, então, "espiritualidade" é praticamente


sinônimo de discipulado, partindo exatamente de onde você está e dando o
próximo passo no seguimento de Jesus para onde quer que Ele nos leve. Assim,
uma boa dose de santidade tem a ver com discernimento.

59
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

3 ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO CRISTÃ


Para melhor entender uma "espiritualidade da libertação", devemos em
primeiro lugar tentar entender a ligação que se dá no núcleo da Teologia da
Libertação. Falando da América Latina, a Teologia da Libertação tem sido de
grande valia, pois tem despertado grande interesse, seja no meio acadêmico, seja
na própria sociedade e, é claro, com efeito sobre o resto da Igreja. Ela também
tem despertado controvérsia, principalmente porque nem todos os chamados
‘teólogos da libertação' pensam da mesma forma. Até certo ponto, essa expressão
'teologia da libertação' tornou-se um termo ambíguo, que precisa ser explicado
sempre que é usado.

Uma questão fundamental é saber se é de fato legítimo falar sobre uma


"espiritualidade da libertação", como uma forma especial de espiritualidade
cristã. No sentido de que há substancialmente apenas uma espiritualidade cristã,
que é viver pelo espírito, de acordo com o evangelho, e de seguir Jesus Cristo com
a ajuda da Igreja – independentemente da sociedade, qualquer que seja a cultura,
seja quais forem as circunstâncias pessoais. Neste sentido, todas as formas de
espiritualidade (e no nosso caso a espiritualidade de renovação e libertação)
devem estar em continuidade com as melhores tradições espirituais da Igreja.
Elas devem reproduzir e renovar os valores essenciais de qualquer genuína
espiritualidade cristã: o valor supremo de amor, oração e contemplação, ascese
e abnegação, uma predileção para os pobres e necessitados, a caridade fraterna,
nutrição espiritual pela Sagrada Escritura e pelos sacramentos, e assim por diante.
Claramente, uma espiritualidade de libertação tem que levar tudo isso em conta.

Por outro lado, há uma espiritualidade da libertação no sentido de


que pode haver uma pluralidade de espiritualidades, devido ao fato de que
qualquer autêntica espiritualidade cristã tem um rosto humano. A singularidade
da espiritualidade na atualidade se expressa sob novas formas, em diferentes
contextos sociais e culturais, em diferentes experiências humanas e cristãs.
Neste sentido, podemos concordar que há uma espiritualidade da libertação,
pelo menos emergente, no mesmo sentido em que nós concordamos que há
uma espiritualidade monástica, ou uma espiritualidade medieval, ou uma
espiritualidade cristã oriental, ou, como no nosso caso, uma espiritualidade do
matrimônio, ou de missão ou uma espiritualidade do exílio. Poderíamos até,
de forma muito particular, dizer que não há espiritualidade cristã. Há 'uma
espiritualidade de algo', e esse algo é o evangelho. Mas a experiência do evangelho
é vivida em diferentes culturas e situações. Talvez, por isso, seria mais correto,
mais real e verdadeiro falar de uma "espiritualidade em tempos de libertação" ou
"em culturas ou sociedades em necessidade de libertação".

60
TÓPICO 1 | ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

O que precisamos verdadeiramente focar nessa renovação espiritual


tão necessária do cristianismo latino-americano sob o signo da libertação é a
reavaliação do Jesus histórico. A Teologia da Libertação acredita que a teologia
espiritual tem sofrido de uma concepção excessivamente abstrata e idealista
de Jesus Cristo, que se tem separado da verdadeira espiritualidade histórica e
encarnada que Jesus experimentou. Assim, teólogos apontam os ataques que esta
verdadeira espiritualidade vem sofrendo daqueles que são capazes de invocar
“o Espírito de Cristo”, mas não olham para o concreto Jesus, para a sua vida
real. Eles continuam apelando para algum espírito vago que não é o espírito que
serviu como a força motriz por trás da história concreta de Jesus.

Também podemos ver que por trás da espiritualidade da libertação há


uma nova cristologia, com reflexões sobre os evangelhos por grupos cristãos
ou comunidades eclesiais de base, que, por incrível que pareça, ainda existem.
Ambos começam a partir do Jesus histórico, e eles veem Jesus Cristo não como
um problema teológico abstrato, mas, sim, como uma verdade concreta que lança
luz e inspiração na verdade concreta da nossa própria experiência vivida.

O que os latino-americanos descobriram a partir desta abordagem a Jesus


Cristo é a semelhança notável entre a situação histórica e social em que Jesus
viveu e agiu e a situação na América Latina hoje. Os temas vitais que cercam o
Jesus histórico e os temas de vida e morte que cercam a América Latina coincidem:
a realidade nascente do reino de Deus que é justiça para os pobres; o apelo à
conversão radical como uma opção para os pobres; a situação de crise de uma
sociedade caracterizada pelo pecado social; a relação entre ortodoxia e ortopraxis.
Mas isso fica claro somente quando vemos a história de Jesus, não em termos
idealistas que nos chegam pelos catecismos ou por dogmas, mas em termos de
categorias históricas que descrevem a vida humana de Jesus: denúncia e anúncio
do Evangelho, conflito e confronto, confiança incondicional no plano de Deus.

Assim, a Teologia da Libertação e da espiritualidade leva a sério a


humanidade de Jesus. Mas hoje estamos mais conscientes da necessidade de levar
a humanidade de Jesus a sério não só em suas implicações históricas pessoais,
mas em toda a história. Essa condição facilita e nos permite recuperar a dimensão
essencial da vida e discipulado cristão: o seguimento de Jesus histórico pelo
impulso do espírito. E não só isso. Impulsiona-nos a proclamar que a América
Latina precisa mesmo é de uma igreja ‘para educar as pessoas capazes de moldar
a história de acordo com as 'práxis' de Jesus’. Esta espiritualidade exige um
seguimento real de Jesus no sentido de que a sua própria história e da práxis se
tornam o modelo e a base de nosso estilo de discipulado e evangelho da vida.

Veja, acadêmico, que estamos na segunda unidade e já estamos falando de


uma Teologia da Libertação, de uma igreja engajada na perspectiva do pobre. Não
esqueça que a Sagrada Escritura apresenta três possíveis situações de pobreza: o
órfão, a viúva e o estrangeiro, e temos a confirmação de que “pobres, sempre os
tereis”. (BÍBLIA, Jo 12: 8.

61
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Livro, cap. e vers.) Então podemos assim raciocinar: se hoje temos pobres
que não se enquadram nesses três tipos, alguma injustiça está ocorrendo, e é aí
que a teologia, e nós, precisamos nos atentar.

LEITURA COMPLEMENTAR

ESPIRITUALIDADE CRISTÃ E QUALIDADE DE VIDA

Flávio Sobreiro

Quando falamos em qualidade de vida, logo nos lembramos de uma


alimentação saudável, exercícios, noites de sono bem dormidas e outras centenas
de métodos que visam cuidar da pessoa de um modo que ela possa viver mais e
melhor. Mas onde entra a espiritualidade cristã dentro do contexto da qualidade
de vida?

Hoje, o ser humano é visto como um todo. Não somos um compartimento


com gavetas diferenciadas. Tudo o que faz parte de nós compõe aquilo que
somos. E a espiritualidade está presente naquilo que faz parte de nossa existência
em sua totalidade.

Quando descuidamos da alimentação, o nosso corpo, as nossas emoções,


o nosso humor, o nosso sono, a nossa autoestima, o nosso desempenho no
trabalho, as nossas motivações respondem de maneira negativa. O mesmo
processo acontece quando descuidamos de nossa espiritualidade. Todo o nosso
ser responde negativamente.

Uma qualidade de vida saudável também exige que a espiritualidade seja


cuidada. Muitos adentram em complexos processos de depressão sem saber o
real motivo desse estado negativo que, aos poucos, vai se enraizando na vida. Em
muitos casos, alguma área social, psicológica ou espiritual sofreu algum abalo.
Além do acompanhamento médico e psicológico, faz-se necessário que o paciente
também ajude a si mesmo. É neste momento importante do processo de cura que
a espiritualidade ocupa uma importante função.

Uma vida com qualidade exige de todos nós uma vivência espiritual
saudável e equilibrada, na qual possamos cuidar de todos os outros aspectos
que nos compõem, sem deixarmos de lado nenhum deles, incluindo nossa
espiritualidade.

Adquirimos uma qualidade de vida espiritual saudável quando


reservamos um tempo para a nossa oração diária. A oração nos devolve a paz
e nos coloca em contato com nossa própria alma e com Deus já presente nela.
Silenciosamente, o Senhor vai transformando o nosso interior para que o exterior
seja um reflexo daquilo que foi sendo cultivado nos tempos sagrados, reservado
para o nosso crescimento na fé, na esperança e no amor.

62
TÓPICO 1 | ESPIRITUALIDADE E LIBERTAÇÃO

A espiritualidade somente é saudável quando é vivenciada com equilíbrio.


Tudo o que foge ao equilíbrio torna-se espiritual e psicologicamente perigoso. O
trabalho, o esporte, o lazer, a diversão, o descanso, a participação na vida de
comunidade são importantes para o nosso crescimento humano, social, mental
e espiritual. E em todos estes ambientes a espiritualidade deverá estar presente.
A experiência de Deus que trazemos gravada em nossa alma não fica isolada das
outras experiências da vida, mas as potencializa.

Quem separa a vida social da experiência espiritual que traz em si perde-


se nos territórios de sua própria alma. O equilíbrio entre a vida e a fé não é motivo
para nos afastar das diferentes realidades que nos interpelam. Uma vida espiritual
madura, sadia e equilibrada abre-nos um caminho de paz que é trilhado a partir
das experiências de fé que estão sendo cultivadas em nosso próprio coração.

Quem descobriu na espiritualidade um jeito maduro de ser mais humano e


divino encontrou em si mesmo o segredo do amor de Deus, que em nós equilibra
todos os aspectos da vida.
FONTE: Disponível em: <http://noticiascatolicas.com.br/espiritualidade-crista-e-qualidade-de-vida.
html>. Acesso em: 21 mar. 2016.

63
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico vimos que:

• Há uma relação muito próxima, praticamente univitelina, da teologia e da


espiritualidade.

• É importante entender que quando falamos de ‘’ espiritualidade’’ queremos


nos referir a um aspecto interior, experiencial de ser.

• Para melhor entender uma “espiritualidade da libertação”, devemos em primeiro


lugar tentar entender a ligação que se dá no núcleo da Teologia da Libertação.

• A Teologia da Libertação tem sido de grande valia na América Latina, pois tem
despertado grande interesse, seja no meio acadêmico, seja na própria socidade
e, é claro, com efeito sobre o resto da Igreja.

64
AUTOATIVIDADE

Levando em consideração a importância do ENADE para você, acadêmico,


e para a instituição, vamos reproduzir aqui algumas questões aplicadas no ENADE
em 2015, para que você possa ir se familiarizando com a dinâmica utilizada na prova
que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão concluir o curso no ano do ENADE
terão que realizar.

1 Questão 24 – ENADE 2015


Ultimamente, a leitura bíblica orante, além do estudo histórico e literário, está
sendo promovida em nível comunitário. O escutar em comunidade valoriza
ainda mais a Palavra, faz com que ela saia da posse pessoal. A lectio se torna
proclamação, a meditativo toma a forma de confronto consciente com a realidade
em que vivemos, inclusive a realidade coletiva, política, cultural. A oratio torna-
se expressão daquilo que a comunidade coloca diante de Deus (e diante dos
outros). Então, a contemplatio não será apenas um momento de minha alma com
Deus, mas de presença de Deus junto a seu povo.
KONINGS, J. Por uma pastoral inteiramente bíblica. In: FERNANDES, L. A.
et al. (Orgs.). Exegese, teologia e pastoral: relações, tensões e desafios. Santo
André: Academia Cristã, 2015 (adaptado).

No texto acima destacam-se aspectos mais abrangentes para uma pastoral
bíblica. Nessa perspectiva, além da leitura e do estudo da Bíblia, consideram-
se características principais de uma pastoral bíblica:

(A) – A organização das atividades litúrgicas de modo individual.


(B) – O fundamentalismo cristão, a tolerância entre os cristãos e a expressão de fé.
(C) – A escuta comunitária, o confronto com a realidade, a oração e
contemplação.
(D) – O isolamento pessoal, a oração e o jejum para uma maior proximidade
com Deus.
(E) – A valorização da tradição, a hermenêutica e o isolamento para favorecer a
meditação.

2 Identificar três textos do Novo Testamento que falam explicitamente sobre


‘pobre’.

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66
UNIDADE 2 TÓPICO 2

DIÁLOGO PERMANENTE

1 INTRODUÇÃO
Nós somos chamados a ser um, porque Deus é um só. Mas o único Deus é
Trindade: é por isso que a unidade não pode significar uniformidade. A palavra
de ordem da diversidade eclesial, às vezes, pode dar a impressão de que ela é
simplesmente uma manobra tática para apaziguar os cristãos que valorizam a
liberdade de consciência e temem por uma autoridade centralizada, válida para
todos. Parece que delegar as responsabilidades para outros fica mais fácil, mas
é preciso nós mesmos tomarmos nossas decisões. Ir ao encontro do outro é uma
delas. Desvencilharmo-nos de nossas próprias amarras, prisões, preconceitos. E
já sabendo que o outro é outro porque é diferente de nós. E isso é muito bom.

Pelo contrário. Estudiosos de denominações diversas afirmam que não


existe apenas um fluxo estreito de fé em Jesus no Novo Testamento, mas um grande
rio largo de muitas correntes. Há, é claro, limites para a diversidade aceitável,
mas gostaríamos de sugerir que eles se encontram dentro dos parâmetros de: (a)
um batismo comum, (b) uma confissão trinitária de fé, e (c) a crença em Cristo
crucificado e ressuscitado como Senhor e Salvador. Além disso, seria razoável
esperar mais acordo entre nossas igrejas do que apenas distanciar-se uma das
outras por simples ignorância ou medo.

No meu ponto de vista, limitado, é claro, talvez o maior obstáculo para


um futuro ecumênico é a recusa em reconhecer nosso passado antiecumênico.
Católicos mataram protestantes e os protestantes mataram católicos – na verdade,
protestantes mataram outros protestantes. Acredito que o progresso no diálogo não
pode vir de uma negação da história. O que se faz necessário é o arrependimento,
reconhecimento e reconciliação em um caminho verdadeiramente ecumênico.

67
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

2 UMA TEOLOGIA ALÉM MUROS


A unidade da Igreja não é uma opção na agenda da paróquia, ou da
comunidade, ou do presbitério, ou uma responsabilidade que pode ser delegada
a um grupo de notáveis. Deve ser parte integrante da vida de todos os crentes e
de suas comunidades.

No discurso de despedida no evangelho de João, Jesus pede ao Pai


para santificar seus discípulos na verdade e assim Ele os envia para o mundo.
Em seguida, ele reza: "Eu não peço apenas em nome destes, mas também em
nome de quem vai acreditar em mim pela sua palavra, para que possam ser
um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós,
para que o mundo creia que tu me enviaste (João 17, 20-21). Veja, acadêmico,
que o imperativo ecumênico é inerente ao imperativo missionário. Como a
igreja pode, com integridade, proclamar shalom para o mundo quando não
vive uma koinonia verdadeira?

DICAS

Caro acadêmico! Para aprofundar seus conhecimentos com esses termos –


koinonia, shalom, ecumenismo, ortopráxis, ortodoxia e tantas outras que vão aparecendo
neste nosso texto, sugiro que você busque mais leitura desses pensadores: Martin Niemöller e
John Haward Yoder, que vão fazer essa ligação entre o movimento ecumênico que extrapola
o campo missionário e chega até a promoção da paz.

Enfim, o que eu quero chamar atenção é para a ligação entre a unidade, o


diálogo e a paz. E aí, trazendo para a teologia, a ortopraxia deve ser tão essencial
para o projeto ecumênico como a ortodoxia.

3 A TOLERÂNCIA NO DIÁLOGO
Neste mundo globalizado, onde as pessoas de diferentes origens, culturas
e religiões estão vivendo juntas, e onde o mundo se tornou multicultural e
cheio de diversidade, estabelecer a tolerância e a harmonia tornou-se condição
fundamental para manter o mínimo de paz.

A ausência da tolerância leva para a luta, violência e, finalmente, destrói a


paz e a segurança da sociedade. Quando as pessoas falham em seus argumentos
tornam-se intolerantes, e, em seguida, usam da força e agressividade para reforçar o
seu ponto de vista. Vimos incidentes consideráveis na história recente no mundo e
também no Brasil, em que, por causa da falta de tolerância, as pessoas têm atacado
pessoas de outras crenças, seus locais de culto, as suas comunidades. O mundo está
cheio de diversidade, e essa é justamente a beleza do nosso universo.

68
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

Na sociedade humana a religião é, sem dúvida, a força mais poderosa e


difundida na vida humana. Alguns sugerem que mais guerras têm sido travadas,
mais pessoas morrem, ou seja, há mais o mal perpetrado em nome da religião
do que de qualquer outra instituição. No entanto, no final, a religião organizada
não é nada mais do que um sistema de crenças construídas em torno de uma
determinada ideia de como as coisas são. Jesus queria fundar uma religião? Buda
queria fundar uma religião? Maomé? Infelizmente, quando as ideias religiosas se
transformam em dogmas e doutrinas, tornam-se, a partir daí, motivo de críticas,
e por isso pode-se acusar as religiões de causarem problemas que são quase
impossíveis de resolver.

Muitos crentes, especialmente a partir da ala conservadora das religiões


do mundo, aceitam que o conhecimento completo das questões religiosas e
espirituais foi revelado para a humanidade nos tempos antigos através de algum
livro sagrado: vide cristãos – a Bíblia, a Torá etc. No entanto, a maioria dos liberais
religiosos sugere que nós nos enganamos se imaginarmos que as nossas ideias
atuais sobre questões religiosas e espirituais abrangem mais do que uma pequena
fração da verdade ainda a ser descoberta. Nós não estamos no mesmo limiar da
nossa compreensão dos mistérios finais. Somos parte de uma realidade que nos
confronta com perguntas sobre estes assuntos, e nos foi dada uma inteligência que
não pode descansar até que se obtenha algumas respostas a estas perguntas. O que
não se pode é jogar toda tradição, história, doutrinas, ritos, cultura no lixo e ignorar
o que se produziu a partir das verdades religiosas.

FIGURA 20 – TOLERÂNCIA E DIÁLOGO

FONTE: Disponível em: <http://muquedepeao.blogspot.com.


br/2012/07/existe-pecado-ao-sul-do-equador.html>. Acesso em:
14 abr. 2016.

69
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

A maioria das pessoas não está ciente de que a maior parte dos conflitos
das diferentes tradições religiosas, bem como as suas principais diferenças
doutrinárias, estão na preocupação de dar respostas a perguntas que não são
relevantes, às questões que não são respondidas, a perguntas que não têm
respostas, ou perguntas que levam aos mesmos argumentos. Por outro lado,
os temas que são realmente importantes são raramente discutidos. Isso pode
ser porque a matéria em discussão é difícil de lidar ou que são simplesmente
relutantes em comprometer os interesses desgastados ou adquiridos. Juntamente
com o fornecimento de respostas erradas a perguntas certas, esta prática leva à
rigidez de pensamento.

Se existe apenas uma verdade, por que as mensagens dadas pelas


diferentes religiões se mostram tão confusas e diferentes? Por que deveria haver
tantas revelações que não concordam umas com as outras, e que todas carregam
as marcas do tempo e lugar do seu surgimento? São as atuais religiões apenas
uma fase de uma evolução contínua em direção a uma religião universal?

A base espiritual para a tolerância religiosa é o reconhecimento da fonte


comum de todas as grandes religiões do mundo. Entre os direitos humanos
básicos, o direito de seguir a própria consciência em matéria de religião e de
crença é sem dúvida uma das mais bem aceitas.

A nossa imagem da realidade última é influenciada por um efeito de seleção


inevitável – a de nossa existência. Nossa mente humana sempre vê tudo a partir de
uma perspectiva limitada e, portanto, incompleta: é mais difícil de discutir qualquer
questão religiosa sem tomar partido. A este respeito, considere o dano feito em escolas
religiosas, onde as crianças, em seus primeiros anos, são encorajadas a ver a vida
através do prisma de uma doutrina e culturas carregadas de preconceitos religiosos,
adquirindo assim uma visão caolha levada praticamente para toda sua vida.

Somos mais bem informados que nossos pais e avós eram. Devemos usar esse
conhecimento extra. Podemos buscar alguma ajuda na filosofia, mas as expectativas
não parecem ser particularmente brilhantes, porque, pela sua própria natureza, a
filosofia é bastante inconclusiva.

Existe uma prática amplamente aceita, principalmente na academia,


para basear respostas para os problemas religiosos sobre definições arbitrárias,
terminologia discutível, hipóteses controversas que violem os princípios básicos
da física elementar, e noções não testáveis. Até agora, há pouco objeto de estudo
para esta abordagem.

Embora a religião universal ainda é apenas uma utopia, uma determinada


tentativa deve ser feita na reconciliação dos diferentes sistemas de crença, que
deixe espaço para a discordância inteligente.

70
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

É nessa convicção que devemos tolerar as crenças espirituais e religiosas


de outras pessoas. No entanto, a crença não existe de forma isolada do resto do
mundo. Crenças podem gerar ações e às vezes essas ações podem prejudicar os
outros.
Há uma linha muito tênue entre a intolerância religiosa e a crítica legítima
de práticas religiosas prejudiciais. Por exemplo, e aqui todo cuidado é pouco, mas
é possível perceber que se pode ser religiosamente tolerante com crenças mesmo
sendo crítico de um grupo ou pessoa que exerça qualquer dos seguintes atos, ou
recomenda, ensina ou defende que outros executem esses atos que seguem. São
alguns, porém, acadêmico, é possível que lembremos outros:

• Discrimine arbitrariamente no emprego com base na deficiência, sexo,


estado civil, nacionalidade, raça, religião, orientação sexual etc.
• Reduza os direitos civis e humanos das mulheres, das minorias sexuais, das
minorias raciais etc. no fornecimento de alojamento, permitindo que um
casal para se casar, permitindo que um candidato a ser considerado para a
ordenação etc.
• Encoraje as pessoas a serem mordidas por cobras venenosas como um teste
de fé.
• Física e/ou psicologicamente abuse de crianças durante a condução para
exorcizar possíveis "demônios" durante um exorcismo.
• Prive uma criança de cuidados médicos necessários em favor da busca de
uma cura através da oração, a menos que estudos confiáveis mostram que a
oração é pelo menos tão eficaz quanto o tratamento médico convencional.
• Fisicamente abuse de uma criança com base em uma crença religiosa que
vem com a seguinte afirmação: "poupar a vara estraga a criança".
• Expresse ódio a grupos inteiros de pessoas com base em sua idade,
deficiência, sexo, nacionalidade, raça, religião, orientação sexual etc.

FONTE: Adaptado de: <http://pt.depositphotos.com/7558930/stock-photo-proverb-spare-the-


rod-and.html>. Acesso em: 10 maio 2016.

Cada religião, e cada tradição dentro de uma religião, ensina um


conjunto de ritos e de crenças. Alguns, por exemplo, podem ter poucas crenças,
deixando que seus membros cultivem suas próprias convicções religiosas.
Outros, como, por exemplo, o Catolicismo Romano, têm milhares de crenças,
de ritos, de doutrinas.

Muitas religiões têm algumas crenças em comum. Por exemplo, quase


todos os grupos religiosos têm uma ética de reciprocidade (também conhecida
como a Regra de Ouro), que apela aos seus membros para que se use do bom
trato com as outras pessoas de forma decente.

Mas quando se trata da fé, diferem grandemente e aí podemos sinalizar


algumas dessas diferenças levando em consideração o que de antemão já
conhecemos:

71
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

• Na natureza da sua divindade/divindades - se ele, ela, ou eles permeiam o


universo, são remotas, são íntimos, ou estão dentro do indivíduo na forma de
possessão por espíritos.
• No número de divindades – se 0, 1, 2, uma trindade – três pessoas em uma
divindade – ou muitos.
• Na natureza da humanidade – se somos inerentemente pecaminosos,
naturalmente bons, ou propensos ao mal devido à falta de conhecimento.
• Na origem do universo – a crença na teoria da evolução ou crença em uma das
muitas centenas de histórias de criação, incluindo o design inteligente.

FIGURA 21 – FÉ E RAZÃO

F!
PU
DARWIN, OLHE ISSO! FAÇA MELHOR!

VAI DEMORAR MUITO?


OLHE ISSO! NÃO NÃO, SÓ
MAIS ALGUNS
MILHARES DE ANOS.

FONTE: Disponível em: <http://subirquadrado.blogspot.com.br/2010_07_01_archive.html>. Acesso


em: 15 mar. 2016.

A figura acima demonstra esse embate entre fé e razão, que em muitos


pontos já foi superado, porém, em outros, ainda é determinante e causa muito
barulho.

Acreditamos que o atrito e o ódio entre as religiões podem ser reduzidos


através da compreensão. Mas o entendimento só pode ser alcançado se as pessoas
aprendem sobre os princípios das outras religiões. Elas precisam saber como as
crenças de outros grupos religiosos diferem umas das outras e de seu próprio
grupo de fé. O conhecimento traz o respeito e o diálogo aproxima.

72
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

Como já mencionamos anteriormente, podemos identificar a tolerância


religiosa como estendendo a liberdade religiosa para as pessoas de todas as
tradições religiosas, embora difiram em suas crenças e/ou práticas. Já liberdade
religiosa podemos definir na sua ação de dar liberdade para que a pessoa:

• Acredite através da adoração e testemunho (ou praticar a liberdade de crença,


culto e testemunho), como quiser;
• Tenha condições de mudar suas crenças ou religião; e associado com os outros
para expressar suas crenças dentro de limites razoáveis, para tentar convencer
os outros a adotar suas crenças.

FIGURA 22 – A TOLERÂNCIA

FONTE: Disponível em: <http://www.catolicoemverso.com.br/2015_01_01_


archive.html>. Acesso em: 25 abr. 2016.

Nós sentimos que as comparações de crenças e críticas às práticas que


ferem os outros são permitidas dentro dos limites da tolerância religiosa. Esta
tolerância deve levar ao diálogo, porque, por si só, não tem sentido.

Avançando nessa compreensão, quando falamos no diálogo inter-religioso,


este vai acontecendo a partir de discussões que conduzem para a compreensão
mútua realizada entre os diferentes grupos religiosos. Esta definição não significa,
contudo, apenas fornecer as orientações no âmbito das quais o diálogo inter-
religioso formal deve ser realizado. Somente conceitua.

Como os cristãos podem dialogar com membros de outras religiões, sem


comprometer suas crenças e cair no sincretismo, enquanto ao mesmo tempo se
mantêm respeitosos para com os não cristãos? Quando se trata de diálogo, é
sempre um desafio.

73
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Um dos documentos fundamentais no diálogo inter-religioso é o “Diálogo


do Decálogo”, de Leonard Swidler (1988). Esta obra apresenta dez "mandamentos"
para se engajar em diálogo inter-religioso construtivo. Estes mandamentos são –
parafraseando os Dez Mandamentos (os da Sagrada Escritura, é claro):

1. O objetivo do diálogo é aumentar a compreensão.


2. Os participantes devem se envolver tanto no diálogo entre si, quanto no
diálogo inter-religioso.
3. Os participantes devem ser honestos e sinceros.
4. Os participantes devem assumir que os outros participantes são igualmente
honestos e sinceros.
5. Cada participante deve se permitir fazer sua autodefinição.
6. Não deve haver preconceitos quanto às áreas de desacordo.
7. Diálogo não pode ocorrer somente entre iguais.
8. Diálogo só pode ocorrer onde há confiança mútua.
9. Os participantes devem ser autocríticos de suas tradições religiosas.
10. Os participantes devem tentar experimentar como as tradições de outros os
afetam de forma holística.

Swidler (1988) é explícito quando diz que o diálogo só deve ocorrer entre
iguais circunstâncias, situação confirmada no Concílio Vaticano II, que descreve
dessa forma: “par cum pari”. Isto significa simplesmente que os participantes
devem ser iguais em autoridade ou posição dentro de suas comunidades religiosas
(e, quando possível, iguais em educação).

Um diálogo entre um líder de um grupo religioso e um recém-convertido


ao outro não seria um verdadeiro diálogo; o recém-convertido provavelmente
seria incapaz de facilitar a discussão que está sendo colocada em pauta.

Outro estudioso do diálogo inter-religioso, Paul Griffiths (2001), afirma que


os participantes devem ser os "intelectuais representativos" de uma comunidade
religiosa, que "normalmente envolvem, entre outras coisas, a formulação e defesa
de frases que expressam as doutrinas da comunidade". Esses intelectuais devem
ter, para citar Vaticano II, "igualdade na aprendizagem e igualdade ao nível das
responsabilidades obtidas conforme suas experiências de vida".

74
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

FIGURA 23 – DIÁLOGO E GLOBALIZAÇÃO

FONTE: Disponível em: <http://tvl.pt/wp-content/uploads/2013/11/relegioes_forum.


jpg>. Acesso em: 29 mar. 2016.

Uma área em que os participantes devem ter uma educação igual é em


relação à religião (ou religiões) com que estão dialogando. Cada participante
deve ter um conhecimento mais aprofundado sobre as crenças e práticas da
outra comunidade religiosa. Por exemplo, cada participante poderá realizar um
doutorado em uma área de estudos religiosos; no entanto, o diálogo será desigual
se apenas um participante tem conhecimento sobre a religião do outro. Este é um
dos motivos de tantos dissabores nessa área: a incompreensão, a ignorância a
respeito da história, da tradição, em relação a outra religião.

A crença de Swidler é a de que deve haver confiança mútua entre os


participantes, e isso indica a necessidade de os participantes serem conhecidos
pelos outros. Isso não significa que os participantes devem ser amigos íntimos.
Em vez disso, enfatiza a importância da participação de intelectuais que realmente
sejam representativos em suas denominações, para que o diálogo não seja raso,
superficial. Essa condição permite que todos os participantes, a priori, desenvolvam
respeito e confiança um para o outro antes de iniciar o diálogo. A capacidade
de avaliar o histórico de vida dos próprios participantes também irá garantir
que todos se motivem para o diálogo honesto e sincero. Um participante com
segundas intenções, ou cuja veracidade é suspeita, será tipicamente identificável
a partir da qualidade de sua graduação de estudos.

Vimos anteriormente que o principal objetivo do diálogo deve ser


uma maior compreensão das semelhanças e diferenças entre as comunidades
religiosas, que os participantes devem primeiro ver os outros participantes como
pessoas criadas à imagem de Deus, e, secundariamente, como membros de uma
comunidade religiosa diferente da sua.

75
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Um objetivo deve, portanto, ser o de encontrar uma maneira em que


as pessoas possam coexistir pacificamente em uma sociedade pluralista. E é
nessa crescente realidade política e social (evidentemente pluralista) que, a fim
de ser cívica, social, política e teologicamente responsável, os cristãos precisam
ser capazes de falar com os de outras tradições religiosas. Esta é uma sincera
compreensão de diferentes tradições que pode diminuir o risco de conflitos
sectários que ocorreram durante alguns conflitos religiosos no passado, como
durante a Inquisição e a Guerra dos Trinta Anos, e outros que continuam
em cantos do nosso globo terrestre, inclusive no Brasil, assunto em que você,
acadêmico, poderá se aprofundar ainda mais.

Outro objetivo é que o diálogo inter-religioso vai aumentar a eficácia


da evangelização. Ao compreender claramente as crenças e práticas de outras
comunidades religiosas, se pode identificar de forma mais eficaz as maneiras
em que o evangelho pode ser apresentado. A apologética também vai melhorar
à medida que os cristãos compreendem mais claramente as feridas que outras
religiões têm apontado para o cristianismo.

FIGURA 24 – ECUMENISMO

FONTE: Disponível em: <http://pt.radiovaticana.va/news/2016/01/09/orar_pelo_di%C3%A1logo_


inter-religioso_-_inten%C3%A7%C3%A3o_do_papa/1199894>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Finalmente, esse encontro com outras religiões vai aumentar a valorização


que os cristãos têm em relação à sua fé. Isso pode inspirar os cristãos a responder
às preocupações e pontos fracos em suas próprias igrejas locais, resultando em
aumento da retenção de membros que poderiam ter sido atraídos pela vibração
de outras comunidades religiosas.

76
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

Outra consideração que precisa ser salientada é de que diálogo inter-


religioso não é um fórum de debate e argumentação hostil para se definir um
vencido e um vencedor. O objetivo do diálogo não pode ser visto como um
ataque ou uma defesa da própria fé. Não pode ser uma busca da vitória da
minha crença contra outra. Em vez disso, o objetivo do diálogo é aumentar a
compreensão, o respeito às diferenças.

Isso não significa que não haverá, ou não deve haver ou acontecer, algum
desacordo aberto durante o diálogo. Como as diferenças que estão no núcleo dos
sistemas de crença das pessoas estão em causa, haverá discordância frequente.
No entanto, o diálogo não é o fórum para tentar provar a superioridade de um
sistema de crença em detrimento de outro.

Abrir desacordo deve principalmente ocorrer apenas quando um


participante acredita que outro participante fez ou promoveu um equívoco de
crenças ou práticas do primeiro. Por exemplo, no caso hipotético de um diálogo
entre um cristão evangélico e um Mórmon, em que seria inadequado para o
evangélico afirmar ao Mórmon que o seu conceito de Deus está errado, mesmo que
o ensino não esteja de acordo com o cristianismo ortodoxo. É importante lembrar
que o diálogo não é um monólogo. É um fórum para falar com participantes
de outras religiões. Este princípio – não é monólogo – é uma das regras mais
importantes no diálogo inter-religioso. Os participantes devem ser autorizados a
definir as suas crenças e sua compreensão dos ensinamentos de sua religião, sem
contradição de outros participantes.

É importante entender a diferença entre o significado que se projeta


sobre outras religiões, o que essas outras religiões entendem como o seu próprio
significado. É equivocado interpretar o que os outros estão dizendo nos nossos
termos, nossos conceitos e nossa cosmovisão.

Em outras palavras, os participantes não devem afirmar que outro


participante não está apresentando com precisão suas crenças. Em vez disso,
os participantes devem assumir, salvo prova em contrário, que as crenças
estabelecidas refletem com precisão a fé vivenciada por esse participante.

Isso não significa que todas as outras definições devem ser ingenuamente
aceitas. É perfeitamente adequado questionar um participante sobre a ortodoxia
de suas crenças quando essas crenças parecem diferir da fé histórica da religião
em questão. Se um participante católico, em um diálogo com um integrante
da Igreja da Unificação, alegar que acredita que a crucificação era insuficiente
para o perdão dos pecados, seria apropriado para o participante da Unificação
questionar se a declaração é considerada ortodoxa à luz do seu desvio histórico.

77
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Também relacionado a este ponto é que os participantes devem ser capazes


de reconhecer a si mesmos quando sua fé é definida por outros participantes. Por
uma questão de compreensão, cada participante desse diálogo irá, naturalmente,
tentar expressar por si mesmo o que pensa sobre o significado da declaração
do parceiro. Se um participante acredita que uma definição é imprecisa, então
há um desacordo aberto e seria apropriado mais questionamentos para buscar
uma melhor definição ou uma melhor aproximação do verdadeiro sentido que
se busca.

Assim como o diálogo inter-religioso não é um fórum de debate,


também pode se tornar um campo de batalha, em que a retórica se torne fator
preponderante. A retórica altamente carregada, inflamatória, usada em muitos
esforços, não tem lugar no diálogo inter-religioso.

É lamentável que tal escrita é comum entre alguns no campo da apologética


contra as seitas; mesmo quando temos a facilidade de cair na armadilha de usar
assuntos polêmicos para agredir os outros. Embora seja virtuoso para defender a
verdade, é ignóbil usar termos pejorativos no processo. Tal retórica virulenta não
tem absolutamente nenhum lugar no diálogo inter-religioso.

Quem se dispõe a participar do diálogo inter-religioso deve ser tão disposto


a examinar criticamente sua própria religião como quando se coloca a analisar
outras religiões. Isso não significa que os participantes não serão dedicados às
suas próprias tradições de fé; essas pessoas invariavelmente cairiam no erro de
sincretismo. Em vez disso, isso significa que os participantes devem levar a sério
as objeções que os outros têm à sua religião.

Essa objetividade não é apenas essencial para o diálogo inter-religioso


bem-sucedido; ela também é bíblica. A autocrítica também permite que os
cristãos respondam eficazmente às objeções que outros podem ter em relação ao
cristianismo.

Os participantes devem estar dispostos a honestamente considerar como


as pessoas em outras religiões compreendem e vivem a sua fé. Em outras palavras,
os participantes devem estar dispostos a andar nos sapatos dos outros.

Tal posição não é sincretista, é simplesmente ser simpático. Esta condição


permite aos participantes perceber que a religião não é meramente algo da cabeça,
mas também do espírito, do coração.

Os cristãos que são apaixonados por sua fé devem ser sensíveis às


experiências dos outros, mesmo que essas experiências gerem algum conflito
com o que os cristãos sabem ser verdadeiro. Tal sensibilidade permite aos cristãos
compreender os benefícios temporais que as pessoas recebem dos seus credos.

78
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

O diálogo também permite que os cristãos compreendam o que motiva as


pessoas de outras religiões a rejeitar o cristianismo, ou o que convence os cristãos
para se converter a outras religiões, e, assim, aguçar, reorientar a apologética dos
cristãos para aumentar a consciência das deficiências que possam existir na igreja.

Outro aspecto muito importante a se levar em consideração no diálogo


inter-religioso é sobre a definição clara do vocabulário a ser utilizado.

Uma das áreas centrais em que o diálogo inter-religioso pode ser útil é em
esclarecer a terminologia religiosa. John V. Taylor (1981, p. 98) afirma:

A comunicação entre uma [religião] e outra é repleta de dificuldades


que não devem ser subestimadas. Como o diálogo começa, portanto, vamos
frequentemente encontrar que a mesma palavra carrega um conjunto totalmente
diferente de significados nas diferentes tradições; podemos também descobrir com
surpresa que muitas diferentes palavras são usadas para significar a mesma coisa.

Seria irrealista, ilusório, pensar que muitos participantes atuais no diálogo


inter-religioso aprovam o objetivo declarado de usar o diálogo inter-religioso
como um meio de entendimento esclarecido de outras comunidades religiosas,
e então usar esse entendimento para aumentar a eficácia da evangelização das
comunidades e apologética contra a sua crítica ao cristianismo.

Enquanto muitos participantes concordam com as diretrizes listadas


acima, eles iriam opor-se à motivação evangélica para se engajar no processo.

A ênfase evangélica na evangelização e na defesa do cristianismo ortodoxo


vai afastar muitos potenciais participantes no diálogo, cujo motivo é a aceitação como
iguais nos esforços espirituais.

Tudo isso significa mais do que simplesmente abster-se de críticas durante


o diálogo: isso significa que, de acordo com estudiosos, todas as religiões devem
ser aceitas como iguais em termos de sua relação com a verdade.

É importante que todos os cristãos que pretendem participar no diálogo


percebam que a teologia conservadora vai servir como um obstáculo no caminho
do diálogo. Muitos indivíduos e comunidades se recusam a dialogar com um
cristão que esteja comprometido com o essencial do cristianismo histórico, mesmo
que há um cristão envolvido em um diálogo a fim de obter uma compreensão
exata de outras tradições e não evangelizar ou criticar durante o diálogo.

Nesses casos, se deve, é claro, simplesmente reconhecer que há diferenças


sociológicas entre evangelização e da religião em questão, para não tornar o
diálogo impossível.

79
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

No entanto, mesmo que a natureza exclusivista do cristianismo ortodoxo


é uma barreira para o diálogo como entendido por muitos estudiosos não
evangélicos, cristãos conservadores devem esforçar-se para envolver os não
cristãos em diálogo.

Você, acadêmico, já deve ter notado que este caderno de estudos é feito por
autores cristãos, então não há como desconsiderar toda a contribuição histórica
dada pelas igrejas cristãs para o mundo de um modo geral.

A Igreja, com sua teologia, sempre vai buscar o melhor para todos,
indistintamente. E o diálogo é o melhor caminho para todos. Ela sempre vai
buscar estabelecer relações com as religiões não cristãs, articulando o desejo
da Igreja para iniciar o diálogo com as religiões não cristãs, mesmo que estas
não vejam isso com bons olhos, mesmo porque até entre os cristãos há muitas
reticências quanto a isso.

Parte-se do princípio de reconhecer um ser supremo, ou ainda mais, de


um Pai. Esta consciência e resultados de reconhecimento em um modo de vida
estão imbuídos de um profundo sentido religioso.

A Igreja não rejeita nada do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Ela
deve ter um grande respeito para o modo de vida e conduta, preceitos e doutrinas
que, embora diferentes em muitos aspectos do seu próprio ensino, no entanto,
muitas vezes, refletem um raio daquela verdade que ilumina todos os homens.
No entanto, nem por isso ela anuncia e tem o dever de proclamar, sem hesitações,
Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (BÍBLIA, N. T. João, 14: 6).

LEITURA COMPLEMENTAR

Combatendo o fundamentalismo: uma defesa do pluralismo e do diálogo

Renato Somberg Pfeffer

A nova fase da política mundial tem gerado uma profusão de visões


sobre o futuro: predizem o fim da história, preveem o retorno das rivalidades
entre nações-estados ou, ainda, falam do declínio da nação-estado decorrente do
conflito entre tribalismo e globalização. Uma das mais interessantes visões sobre
o futuro é a do cientista político Samuel Huntington. Ele sustenta a tese de que a
humanidade está em rota de colisão entre as civilizações: “Nesse mundo novo, a
política local é a política da etnia e a política mundial é a política das civilizações.
A rivalidade das superpotências é substituída pelo choque das civilizações”
(HUNTINGTON, 1997, p. 21). Huntington afirma que as grandes divisões da
humanidade e a fonte predominante de conflitos serão de ordem cultural. Apesar
da continuidade das nações-estados como sujeitos centrais dos acontecimentos
globais, os principais conflitos se darão entre diferentes civilizações.

80
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

O foco central dos conflitos do século XXI, ainda segundo Huntington,


será entre a civilização ocidental e as não ocidentais e destas últimas entre si.
Em primeiro lugar, porque possuem concepções diferentes das relações entre
Deus e os homens, entre cidadãos e Estado, entre pais e filhos, entre liberdade
e autoridade, entre igualdade e hierarquia. Em segundo lugar, o mundo está
ficando cada vez menor e a consciência da diferença entre as civilizações cada vez
maior. Em terceiro lugar, e principalmente, o fundamentalismo religioso presente
em todas as religiões é um fator marcante neste início de século XXI.

A questão do fundamentalismo religioso é essencial para melhor compreensão


do mundo contemporâneo. O fundamentalismo oferece aos seus seguidores certezas
absolutas e orientações inquestionáveis, permitindo-lhes viver em segurança. Ocorre
nestas correntes uma renúncia da hermenêutica como mediação entre os textos
sagrados. O resultado disto é a negação do método histórico-crítico e a crença na
aplicabilidade literal destes textos às situações concretas da vida. O desenvolvimento
desta onda fundamentalista religiosa se associa às transformações ocorridas na
modernidade. Frente ao pluralismo e às mudanças constantes provocadas pelo
avanço capitalista, segmentos religiosos tradicionalistas reagem retornando aos
fundamentos mais profundos de sua religião.

As tradições não são, em si, más. Através delas construímos nossas identidades.
Como afirma Riesgo (2006, p. 42), o fundamentalismo cai em um mau uso da tradição,
que impede a recriação, exigência mestra de nossa condição histórica. Em outras
palavras, a tradição não pode impedir as mudanças que às vezes são necessárias,
ela deve servir como mediadora para que nos recoloquemos frente aos desafios do
presente. Afirmações a-históricas das tradições pelos fundamentalistas impedem
o progresso e violentam a capacidade cognitiva do ser humano, malogrando suas
possibilidades. A proclamação de respostas definitivas para as perguntas últimas
da humanidade coloca o fundamentalismo em clara contradição com o pluralismo
de respostas promovido pela infinidade de religiões do planeta. No entanto, é
importante ressaltar, o fenômeno fundamentalista constitui uma “zona marginal”
(KIENZLER, 2000, p. 11), a cara obscura das diversas religiões.

O pluralismo religioso, ao contrário do que advoga o fundamentalismo, é


legítimo e necessário, dada a distância infinita entre criador e criatura. Esquecer a
insuficiência das linguagens religiosas para cobrir esta distância nos leva a atitudes
etnocêntricas e racistas, típicas do fundamentalismo. A visão mais plausível para
entender a relação do homem com Deus seria admitir que todos os povos são
escolhidos e que Deus se manifesta de diferentes formas para cada um. Esta visão
permite legitimar o pluralismo e propiciar uma relação harmoniosa entre os povos.

Esta não parece ser a tônica dominante do final do século XX e início do XXI,
onde tendências fundamentalistas crescem em todas as grandes religiões do mundo.
Estes fundamentalismos religiosos têm se destacado no cenário internacional
sendo promotores de vários atos terroristas. A reação ao terrorismo, por sua vez,
também tem adquirido um caráter irracional de nova cruzada que coloca em risco a
economia mundial e os direitos civis. Uma das grandes questões que a humanidade
hoje se defronta é justamente essa: existe alternativa ao fundamentalismo?

81
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

A única alternativa ao fundamentalismo é o diálogo intercultural.


Somente através dele poderemos encontrar igualdades na diferença, abrindo
espaço para a convivência harmoniosa e frutífera. Este parece ser o único
caminho para superar os extremos de uma sociedade desumanizada, injusta e
com tendências fundamentalistas. Uma filosofia intercultural deve ser entendida
como possibilidade de diálogo e interação entre culturas, desafiando a perspectiva
meramente econômica da globalização. A interculturalidade busca o diálogo
que negue qualquer noção de superioridade e, portanto, não admite as certezas
absolutas do fundamentalismo. Podemos através dela descobrir intuições e
convicções compartidas por grande parte da humanidade e o Estado democrático
tem um papel fundamental neste processo.

A necessidade do diálogo intercultural em um mundo globalizado


pode ajudar a confirmar a universalidade dos direitos humanos que servem
como norma e limite para outros direitos. Não se deverão permitir diferenças
culturais que vão contra estes direitos e contra o bem comum. Por outro lado,
as diferenças que enriquecem o acervo cultural como meio humanizador devem
ser estimuladas. Os direitos humanos, portanto, devem servir como critério para
decidir o que é aceitável ou não em determinada cultura. Neste contexto, os
invariantes humanos, encontrados nas diversas culturas, devem se transformar
em transculturais, garantindo a possibilidade de diálogo. Do contrário, não
haverá solução senão aceitar modelos políticos excludentes.

Os direitos humanos estão acima de qualquer tradição cultural específica,


como se fosse algo transcendente a elas; eles são patrimônio de toda a humanidade,
por serem memória de sua luta por liberdade. O diálogo intercultural, por sua
vez, possibilitaria o encontro de tradições culturais que vivenciaram histórias de
libertação. As culturas trocariam assim experiências, enriquecendo-se mutuamente.

Respeitando a pluralidade cultural, estar-se-ia caminhando para uma


cultura universal de liberação humana. A universalidade seria garantida da
participação solidária de todas as culturas neste projeto (FORNET-BETANCOURT,
2001, p. 293). A transcendência anteriormente referida possibilitaria uma crítica
ética das culturas a partir da universalidade dos direitos humanos. Não há, ainda
segundo Fornet-Betancourt, ideia melhor que o ethos humanizador dos direitos
humanos para orientar nossa práxis no mundo de hoje.

O reconhecimento dos direitos humanos e a reivindicação da dignidade


humana são fenômenos cada vez mais universais. Tais direitos são valores
transculturais proclamados por todas as pessoas de “boa vontade”. No mundo
atual, as religiões se veem forçadas a aceitar estes valores se querem ser legitimadas.

Somente uma religiosidade que conjugue abertura ao mistério do sagrado


ou divino com a paixão solidária efetiva pelo ser humano e tudo o que existe,
como por uma visão universal e fraterna da espécie humana e que assuma
profundamente a racionalidade, merece denominar-se humana. Humanismo e
religião se pertencem (MARDONES apud AMIGO FERNÁNDEZ DE ARROYABE,
2003, p. 445-446).

82
TÓPICO 2 | DIÁLOGO PERMANENTE

Deste ponto de vista, a dignidade humana deveria ser a exigência mínima


de toda verdadeira religião.

Em tempos de globalização, cada tradição religiosa tem sido desafiada a se


situar frente a si mesma no debate com as demais, o que implica a necessidade de
se pensar a questão da igualdade entre todos os que se reúnem. Esta igualdade é
facilitada pelo reconhecimento, pela maioria das tradições religiosas, da regra de
ouro segundo a qual não devemos fazer aos demais aquilo que não gostaríamos
que fizessem conosco. Por outro lado, os diferentes textos, mitos e ritos dificultam
a questão da igualdade e algumas religiões acabam por optar por uma postura
fundamentalista. Ou seja, enquanto algumas religiões se abrem ao diálogo, outras
se fecham e se colocam como donas absolutas da verdade.

Igualdade e o diálogo são elementos fundamentais em mundo


democrático. Tal posição torna necessária uma profunda reavaliação das tradições
centrais de todas as religiões, que parta do princípio de que nenhuma delas é
totalmente verdadeira nem falsa. Ao obrigar as tradições religiosas a repensar
seus parâmetros, o diálogo inter-religioso faz com que elas se abram ao mundo.
As religiões não são fins em si mesmas, são, na verdade, tentativas de orientar e
dar sentido à vida de seus fiéis através de doutrinas que pretendem interpretar o
mundo. Estas tradições estão sendo forçadas pelo diálogo a serem mais modestas
frente aos desafios que o mundo contemporâneo está lançando.

Acima das divergências doutrinais ou das práticas religiosas, o diálogo


incita os teólogos a assumir a dimensão incompreensível de Deus e da realidade e
aos fiéis desenvolverem uma solidariedade aberta intercambiando e reafirmando
sua própria fé (BASSET, 1999, p. 426).

Este cenário transforma a dimensão absoluta da fé no núcleo do encontro


dos crentes no diálogo inter-religioso, levando-se em conta a verdade que
cada fiel leva. O diálogo abre novas percepções da verdade e do absoluto nas
diferentes tradições religiosas, sendo incompatível, portanto, com todo tipo de
fundamentalismo que pretende ser possuidor de verdades absolutas. No plano
das doutrinas, o diálogo não pode ir além das confrontações onde cada crente se
esconde; no plano da fé, o diálogo faz com que os crentes se encontrem em suas
convicções mais profundas, naquelas que dão sentido a suas vidas. Somente a fé,
por ser opção pessoal e não um algo que foi recebido para ser transmitido, pode
ser revisada e enriquecida através do diálogo com outras pessoas orientadas por
um caminho diferente.

FONTE: Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/mosaico/?q=artigo/di%C3%A1logo-interreligioso-e-


constru%C3%A7%C3%A3o-da-cidadania-em-um-mundo-globalizado-contribui%C3%A7%C3%A3o-
do-sinc>. Acesso em: 10 maio 2016.

83
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico vimos:

• Que na sociedade humana a religião é, sem dúvida, a força mais poderosa e


difundida na vida humana.

• Que o objetivo do diálogo não pode ser visto como um ataque ou uma defesa
da própria fé. Não pode ser uma busca da vitória da minha crença contra outra.
Em vez disso, o objetivo do diálogo é aumentar a compreensão, o respeito às
diferenças.

• Que a igreja, com sua teologia, sempre vai buscar o melhor para todos,
indistintamente, e o diálogo é o melhor caminho para todos.

• Que é urgente buscar estabelecer relações com as religiões não cristãs, através da
articulação e do desejo da Igreja para iniciar o diálogo com as religiões não cristãs.

84
AUTOATIVIDADE

Levando em consideração a importância do ENADE para você,


acadêmico, e para a instituição, vamos reproduzir aqui algumas questões
aplicadas no ENADE em 2015, para que você possa ir se familiarizando com
a dinâmica utilizada na prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão
concluir o curso no ano do ENADE terão que realizar.

1 Questão 34 – ENADE 2015


A palavra tolerância é, antes de mais nada, marcada por uma guerra religiosa
entre cristãos, ou entre cristãos e não cristãos. A tolerância é uma virtude cristã,
ou, por isso mesmo, uma virtude católica. O cristão deve tolerar o não cristão,
porém, ainda mais que isso, o católico deve deixar o protestante existir. Como
hoje sentimos que as reivindicações religiosas estão no coração da violência,
recorremos a essa boa e velha palavra, “tolerância’. Que muçulmanos
concordem em viver com judeus e cristãos, que judeus concordem em viver
com muçulmanos, que os crentes concordem em tolerar os “infiéis” ou
“descrentes”. A paz seria, assim, a coabitação tolerante.
DERRIDA, J. In: BORRADORI, G. (Org.). Filosofia em tempo de terror: diálogos
com Habermas e Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004 (adaptado).

O termo “tolerância”, conforme apresentado no texto, refere-se:

(A) À ideia de liberdade de expressão dissociada dos valores cristãos, uma vez
que a tolerância sempre foi negada pelos cristãos católicos.
(B) À ideia de uma superação definitiva do distanciamento criado pelas
barreiras culturais que impediam a boa convivência entre diferentes
religiões.
(C) À aceitação de uma ideia de ordem que permita administrar entraves
culturais e evitar conflitos religiosos através de uma concordância comum,
mas não de uma virtude de acolhimento ao outro.
(D) Ao conceito filosófico que questiona os antagonismos e inquietações
religiosas da modernidade, mas que não provocou nenhuma influência
sobre as perspectivas de liberdade de credo.
(E) À nova forma de acolhimento ao outro, advinda das novas formas de
interação da humanidade que surgiram com os avanços tecnológicos e
permitiram uma abertura a diferentes crenças.

2 Identificar pelo menos dois personagens do Novo Testamento que fazem


uso da palavra “razão”.

85
86
UNIDADE 2 TÓPICO 3

A ÉTICA CRISTÃ

1 INTRODUÇÃO
Queremos, neste tópico, entender melhor o que é a ética cristã e, nessa
perspectiva, compreender melhor como a teologia se desenvolve com uma ética
muito peculiar, que vai se destacar sobremaneira na Teologia da Libertação, e
como isso vai se encaminhando para um melhor entendimento da influência que
esta teologia vai provocar no continente latino-americano. Na Unidade 3 essa
condição será tratada com mais aprofundamento e extensão.

Você, acadêmico, já deve ter estudado a disciplina de Ética, Política e


Sociedade e visto os conceitos de ética e moral. Para relembrar, então, ética é o
ramo da filosofia que está preocupado com o caráter e a conduta humana. Ela
lida com o ser humano, não tanto como um sujeito do conhecimento, mas como
uma fonte de ação. Tem a ver com a vida ou a personalidade em suas disposições
interiores, manifestações exteriores e sua relações sociais.

Foi Aristóteles quem primeiro deu a este estudo o seu nome e sua forma
sistemática, e de lá até os dias atuais, essa disposição não mudou muito. De acordo
com o significado do termo grego, é a ciência dos costumes (ethika, de ethos, “custom”,
“hábito”, “disposição”). Mas na medida em que as palavras “costume” e “hábito”
parecem se referir apenas aos costumes exteriores ou costumes, a simples etimologia
iria limitar a natureza do que aqui se apresenta como ético.

Se estamos falando de uma possível base para a ética cristã, devemos


ser claros sobre o que queremos dizer quando nos referimos a cristão e o que
entendemos por ética. Cristão, já sabemos, em termos gerais é aquele que
conscientemente opta por se tornar um seguidor de Jesus, isto é, para decidir usar
a vida e os ensinamentos de Jesus como um modelo para a sua vida. Vamos agora
olhar para a ética para ver como ele se aplica a quem se identifica como cristão e
decide agir de acordo com esse compromisso.

Será que ser um cristão implica um comportamento diferenciado na


sociedade? Como deve o cristão se comportar? Existe tal coisa como uma ética
cristã? Podemos razoavelmente descobrir diretrizes ou construir um conjunto de
princípios para guiar a vida do cristão? Podemos identificar um cristão quando
estamos passando por uma rua? E não valem como critério as vestimentas. Se Jesus
é o modelo que escolhemos para imitar, o que isso implica sobre nossas atitudes,
valores e estilo de vida? A prática do bem? Como identificar o bem? Vejamos.

87
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

O cristianismo define que o bem é o que Deus determina. Todavia, essa


afirmação é simples demais e facilmente incorre em objeções e críticas. Não basta
asseverar que algo é certo, se Deus determinar que é certo e errado, se Deus
determinar que é errado, pois é preciso questionar: algo é correto porque Deus
determina ou será que Ele o determina porque é certo em si? Quando alguém diz
que algo é correto porque Deus assim quer e determina, esse conceito torna-se
voluntarismo. O bem e o correto dependem da vontade de Deus. Porém, isso é
diferente de dizer que algo bom e correto é bom em si mesmo, independentemente
do fato de Deus assim querer e determinar. Essa conceituação é denominada de
essencialismo, isto é, algo é bom quando sua essência é boa. (FRIESEN, 2015, p. 110)

Historicamente, nos três principais ramos do cristianismo (católicos,


ortodoxos e protestantes) podemos facilmente indicar que há mais de 33.000
denominações do protestantismo, mas o número exageradamente elevado é
provavelmente devido à maioria das igrejas serem estabelecidas sob nomes
diferentes para atender às necessidades legais regionais de organizações sem fins
lucrativos independentes.

Normalmente, haverá algumas diferenças consideráveis de opinião entre


as muitas denominações protestantes. Quando falamos protestantes, estamos
nos referindo ao início dessas igrejas a partir do cisma de Lutero. Atualmente,
podemos entender também como evangélicos os integrantes desse ramo.

A similaridade entre os três ramos é a crença de que a Sagrada Escritura é


o guia principal para a prática, para a fundamentação ética e moral. Um padrão
entre muitos cristãos é a crença de que os livros da Bíblia foram inspirados por
Deus e, portanto, a Bíblia é a fonte principal ou única de conhecimento do que é
certo e errado.

Não há como falar de ética cristã sem recorrer ao embasamento bíblico.


Por isso, caro acadêmico, fica muito interessante você sempre ter em mãos a sua
Bíblia, não para se impor ou utilizar-se dela como uma arma contra os infiéis, ou
para defender sua fé em detrimento da fé diferente do próximo, mas, nesse caso,
como fonte de pesquisa.

88
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

FIGURA 25 – BÍBLIA SAGRADA

FONTE: Disponível em: <https://latuffcartoons.files.wordpress.com/2013/03/


intolerancia-religiosa-mata.gif>. Acesso em: 15 mar. 2016.

A Bíblia legitimamente goza de um lugar de honra em fazer ética cristã,


não só para os seus ensinamentos morais, mas também para proporcionar uma
apreciação da vida comum dos primeiros cristãos, suas explorações teológicas e
seu vivo sentido do poder e da presença de Jesus Cristo.

Como se poderia fazer ética cristã sem os dez mandamentos, do século


VIII a.C? E o grito dos profetas por justiça, o "Sermão" no Monte das Oliveiras? A
teologia paulina?

No entanto, nunca foi tão fácil de aplicar o ensino bíblico com as


circunstâncias em que os crentes se encontram. Considere o problema enfrentado
por Clemente de Alexandria no século III: se Jesus havia aconselhado ao jovem
rico para vender tudo o que tinha e dar aos pobres, como foi este conselho difícil de
ser acomodado e confortavelmente situado na clientela de Clemente? Da mesma
forma, a partir do episódio de Jesus ordenar a Pedro para colocar a sua espada
na bainha (João, 18, 10-11). Se as ideias da Bíblia são para serem implementadas
com sabedoria e graça, e não devem ser impostas como "um jugo que nem nossos
pais nem nós pudemos suportar" (BÍBLIA, N. T. At. 15:10), o que seria prudente
destacar e considerar em uma ética bíblica? Elenco algumas considerações, que
podem ser ampliadas conforme acreditarmos que se faz necessário contemplar
alguma deficiência nessa área. Vamos lá.
89
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

• A sabedoria moral embutida na tradição da Igreja.


• A razão consagrada que reconhece a nossa obrigação de amar a Deus com todas
as nossas forças.
• A abertura orante sob a orientação do Espírito Santo, a quem Cristo prometeu
enviar a seus seguidores para levá-los a toda a verdade (João, 16, 7-13), o
Espírito que ajudaria discípulos a discernir o que é certo, no meio de tantas
ambiguidades intrigantes.

Deve ficar claro para nós, estudantes de teologia, a evidência na discussão


de que a ética bíblica não pode resolver todos os problemas sozinha, mas precisam
se somar a ela a tradição, a razão e, é claro, como cristãos que somos, a orientação
do Espírito Santo.

Visto isso, vamos então nos aprofundar um pouco mais nessa ética cristã
fundada na Sagrada Escritura.

FIGURA 26 – ESTUDO BÍBLICO

FONTE: Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/timelines/zxjwmnb>. Acesso


em: 25 abr. 2016.

90
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

2 A ÉTICA E A SAGRADA ESCRITURA


É passível de entendimento que a ética tem a preocupação com a forma de
como devemos conduzir nossas vidas. Claramente, então, é uma parte integrante
da revelação bíblica. De Gênesis a Apocalipse encontramos os princípios,
preceitos, mandamentos, avisos, orientações e conselhos que são destinados a
orientar as nossas vidas em direção ao que é justo, bom e que honra a Deus. O
apóstolo Paulo nos diz que a Escritura foi dada não só para revelar o caminho
da salvação de Deus, mas também para nos treinar na justiça e nos equipar para
"toda boa obra". (BÍBLIA, N. T. 2 Timóteo, 3: 14-17).

Logo no princípio da criação, Deus mesmo introduziu a ética quando


declarou repetidamente que o seu próprio trabalho era "bom" (BÍBLIA, A. T.
Gênesis 1), e passou a dar responsabilidades a Adão e Eva para cumprir (BÍBLIA,
A. T. Gênesis 2:19) e normas para se viver (BÍBLIA, A. T. Gênesis 2: 15-17). Então,
depois de resgatar Israel da escravidão e escolhendo-a como seu povo (BÍBLIA,
A. T. Êxodo, 19: 1-6), Deus começou seu relacionamento com este povo eleito,
dando-lhe um código de ética para guiar o seu comportamento em relação a ele e
entre si (BÍBLIA, A. T. Êxodo, 20: 1-17). Este código básico foi ampliado nos cinco
primeiros livros da Bíblia, a Torá (que significa "lei" ou "instrução").

Séculos mais tarde, quando Jesus apareceu em cena, para inaugurar a fase
culminante da história da redenção, ele também começou por emitir um manifesto
ético para fornecer orientação para a conduta de seus discípulos (BÍBLIA, N. T.
Mateus 5: 7). Vejamos, por exemplo, o Sermão da Montanha. É praticamente uma
carta ética para toda uma nova dimensão do amor, ao mesmo tempo em que
reafirma a essência do que o Antigo Testamento sempre tinha pretendido. No
coração da ética de Jesus está o chamado ao amor a Deus e aos outros (BÍBLIA,
N. T. Marcos 12: 28-31), uma chamada que ressoa através do resto do Novo
Testamento (BÍBLIA, N. T. 1 Coríntios 13: 1-3); (Jo 2: 8; 1); (Ped 4: 7-8); 1 Jo 4, 8).

Quando chegamos ao momento final da história da salvação, com a


criação do novo céu e da nova terra (Ap 21-22), vemos a referência ética mais uma
vez. Mas desta vez a ética atingiu o seu pico mais alto, com o triunfo do bem (1
Cor 15,27; Ap 21, 1-8.), a derrota do mal e do sofrimento (Ap 20, 7-10; 21, 4) e a
restauração da humanidade na presença de Deus (Ap 21,3. 22-27).

Junto com este breve panorama da ética na linha da história bíblica, a


importância da ética é ainda mais realçada pelo elevado valor que Deus coloca na
vida ética. Para os profetas do Antigo Testamento, por exemplo, qualquer ato de
adoração que não é acompanhado por um comportamento ético aceitável é inútil
e ofensivo a Deus (Is. 1: 1-10; 58: 5-10; Amos 5: 21-26). Além de salientar a sua
importância, a Escritura ressalta a finalidade prática a que a ética serve.

Vimos anteriormente que um retorno importante da vida ética é a


autenticidade que provém da Bíblia para aqueles que procuram conhecer a
palavra de Deus. Mas a Bíblia acrescenta três insights para isso.

91
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

O primeiro diz respeito à validação da nossa identidade cristã. De acordo


com Jesus, quando nossas vidas exibem a ética do amor, demonstramos ao mundo
que pertencemos a ele (João 13, 34-35) e reforçamos a afirmação de que somos
filhos e filhas de Deus (Mt 5,44 - 45).

O segundo permite ver, na afirmação de Jesus, que a vida ética glorifica a


Deus. Jesus ensina que quando nossa luz brilha antes que as pessoas, elas vão ver
nossas boas obras e glorificar a nosso Pai no céu (Mat 5,16).

O link que Jesus faz neste verso entre ética e testemunho fornece o terceiro
insight: a ética como meio de testemunho e de missão cristã. Encontramos esse tema
em toda a Bíblia. Por exemplo, em Gênesis 12,3, onde Deus escolheu Abraão para
ser uma bênção para as nações. Mas, mais tarde, Deus disse que o cumprimento
dessa promessa foi ligado com a vontade da família de Abraão "para manter o
caminho do Senhor, fazendo justiça e juízo" (Gn 18,19). No Salmo 72, o salmista
reza para que o rei de Israel cumpra a sua obrigação ética de modo que a nação
possa prosperar e realizar a sua vocação missionária (Sl 72, 1-17). Pedro e Paulo
ecoam o mesmo tema quando afirmam que a influência positiva que os cristãos
podem ter na sociedade depende do tipo de vida ética que eles vivem.

Para os cristãos, um incentivo ainda maior para explorar a ética bíblica


é o fato de que a ética encontra seu fundamento no próprio Deus. Biblicamente
falando, é Deus, como Criador de um universo moral ordenado e como um ser
absolutamente perfeito, que é o autor da moralidade (Gn 2:17). Em termos bíblicos,
então, a ética não é uma invenção humana. Ela está enraizada no próprio Deus.

Além disso, de acordo com a Bíblia, Deus supre a ética, não só com a
sua origem, mas também como sua âncora. Esta âncora é encontrada na visão de
mundo que emerge da história da salvação que Deus diz em sua Palavra. Essa
visão de mundo diz que Deus nos criou à sua imagem (Gn 1,27). Nós caímos e
profundamente perturbamos o estado de bem-estar que existia sob o domínio de
Deus (Gn 3, 8). Mas nós fomos resgatados por um gracioso Deus (Gn 3.15; Rm 3,
22-25.). Este ponto de vista é fundamental para a ética. Pois é a imagem de Deus
que fornece a base para o ensino da Bíblia em questões como a santidade da vida
humana (Gn 9, 8-17), a igualdade de todos os seres humanos diante de Deus (Jó
31:15; Atos 17: 25-26), e o valor intrínseco e a dignidade de todas as pessoas. Da
mesma forma, uma das principais razões que a Bíblia insiste sobre a pureza é a
doutrina da redenção, que diz que os remidos não pertencem a si mesmos, mas a
Deus, que habita neles pelo Espírito Santo (1 Cor 6, 18-20).

Os remidos de Israel foram guiados por Moisés. E os remidos do nosso


continente? Que amparo tiveram por aqueles que aqui chegaram? Como levar em
consideração a aplicação, a vivência da Bíblia nos povos que aqui viviam quando
os colonizadores tomam posse dessas terras? Como a teologia e a Bíblia foram a
“tábua de salvação” da barbárie sobre esses povos ou elas legitimaram todo tipo
de dominação? Esses povos foram libertados? De quê?

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TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

Uma boa obra para compreender os habitantes que aqui no continente


latino-americano moravam é o filme “A Missão”. Este filme, entre tantas reflexões,
nos mostra com rara beleza cinematográfica a escravidão, não só física, mas
também das próprias tradições surrupiadas, aí incluídos os mitos, as crenças, a
cultura, as artes, as danças, o jeito de pensar, enfim, este morador dessas terras
tem seu modo de vida modificado. E não é para melhor. E onde entra o livro
sagrado nesta história?

No contato com a Bíblia cristã, não raro as experiências foram


traumáticas. Alguns textos bíblicos serviram para libertá-los, a maioria,
porém, foi utilizada para justificar a pacificação e a escravidão. Em
tempos mais recentes, há renovado interesse tanto pelas tradições
indígenas quanto pelas afrodescendentes. Merecem destaque os
diálogos entre suas falas sagradas e a Bíblia cristã. “A palavra se fez
índia” estabelece o diálogo entre a Bíblia e as tradições indígenas da
América Latina (JIMÉNEZ, 1997). “Raízes afro-asiáticas no mundo
bíblico” destaca a presença de povos afro-asiáticos na própria Bíblia
(MENA LÓPEZ, 2006, p. 39).

Os promotores da Teologia da Libertação apelam para profetas do Antigo


Testamento para buscar apoio. Por exemplo, no capítulo 3, Malaquias adverte do
julgamento de Deus sobre aqueles que oprimem o homem sem julgamento: "Eu
virei para colocá-los em julgamento. Vou ser rápido para testemunhar contra...
aqueles que defraudarem trabalhadores de seus salários, que oprimem as viúvas
e os órfãos, e privam os estrangeiros entre vós, de justiça, mas não me temem”,
diz o Senhor dos Exércitos.

Além disso, as palavras de Jesus em Lucas 4:18 mostram a sua compaixão


pelos oprimidos: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu
para anunciar boas novas aos pobres. Ele enviou-me para proclamar libertação
aos cativos e restauração da vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos "(cf.
Isaías 61: 1).

Quando atentamos para o Antigo Testamento vemos que a centralidade é:

A libertação da pessoa humana e a aliança entre Deus e seu povo.


A libertação do Egito devolve a dignidade à pessoa criada e abre
possiblidades para que Deus se revele e caminhe com seu povo. Sem
dignidade humana, a pessoa é descaracterizada, perde sua essência
de ser à imagem de Deus (Gn 1,27), não consegue, assim, reconhecer o
criador, nem a si próprio. (MANUAL CNBB, 2014, p. 45).

Vejamos o discurso de libertação no livro do Êxodo. Aqui se demonstra


como a compreensão da história, do contexto, deve evitar a abordagem ideológica
que diluir a sua única mensagem a mensagem de libertação do povo escolhido
por Deus:

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UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

O livro do Êxodo destaca a intervenção de Deus em favor de um povo


oprimido e explorado no Egito. Essa nação passava por um momento
de crescimento econômico e atraía grande número de pessoas e grupos.
Vinham de todas as partes por diversos motivos: trabalho, comércio,
cultura ou intempérie climática. Abraão e Sara, atingidos por forte seca
em Canaã, foram obrigados a descer e residir no Egito (cf. Gen 12,10).
José, filho do patriarca Jacó, a primeira pessoa vendida na Bíblia, foi
levado por mercadores a trabalhar como escravo justamente no Egito (cf.
Gn 37,12-28). Esse grande fluxo migratório para o Egito contribuiu para
torná-lo um grande império na época. As construções e o intenso fluxo
de pessoas ao Egito proporcionaram condições para grandes explorações
por parte do faraó e seus ministros. (MANUAL CNBB, 2014, p. 45).

Deus age na história de diferentes maneiras. Não se pode negar que o


projeto de libertação instaurado pelo homem tem seu significado no projeto de
libertação de Deus.

FIGURA 27 – BÍBLIA DE TODOS

A DO !
CUID S
TEÓLOGODO
AN
TRABALH

FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-QE614Tpi9KM/U8ggmEXAkvI/


AAAAAAAAYo0/L0YFiMM0ms8/s1600/Atentados+contra+a+B%C3%ADblia.jpg>. Acesso
em: 14 abr. 2016.

O que vemos com frequência é que alguns teólogos da libertação usam


as palavras de Jesus, como, por exemplo, em Mt 10,34, para promover a ideia de
que a Igreja deve estar envolvida no ativismo: "Não penseis que vim trazer paz
à terra. Eu não vim trazer paz, mas espada." Jesus, de acordo com a Teologia da
Libertação, não empurrou para a estabilidade social, mas para a agitação social.

A Bíblia certamente ensina aos seguidores de Cristo a cuidar dos pobres (Gal
2,10; 1 Jo 3,17), e também a falar contra a injustiça. E, sim, a Bíblia adverte repetidamente
contra a sedução das riquezas (Mc 4,19). Quando levamos em conta a orientação advinda
da Teologia da Libertação, por um lado, coloca-se a ação social em pé de igualdade
com a mensagem do evangelho, levando em consideração que a necessidade primária
da humanidade é espiritual, não social. Por outro lado, não podemos esquecer que o
evangelho é para todas as pessoas, incluindo os ricos (Lc 2,10).
94
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

Os visitantes do Menino Jesus incluíam tanto pastores e magos e ambos


os grupos foram muito bem-vindos. Atribuir um estatuto especial a qualquer
grupo como sendo preferido por Deus é discriminar, algo que Deus não faz (At
10, 34-35). Cristo traz unidade à sua Igreja, não de divisão ao longo das linhas
socioeconômicas, raciais ou de gênero (Ef 4,15). Assim, a Bíblia dá ênfase na
prática do discipulado e a Teologia da Libertação vai por este caminho como
condição prévia para o verdadeiro conhecimento de Deus.

3 AS CARTAS PAULINAS
Vimos algumas referências éticas em algumas passagens bíblicas, tanto no
Antigo quanto no Novo Testamento. Vimos também como a Bíblia e a Teologia da
Libertação foram utilizadas no período de colonização da América. Vamos aqui nos
atentar para o apóstolo Paulo, que tantas cartas escreveu para diferentes públicos,
mas, mesmo assim, Paulo estabelece um abrangente princípio unificador central.
Ao escrever aos romanos, por exemplo, ele é capaz de formular o mandamento
do amor como um somatório de cumprimentos da lei (13, 8-10).

Seu ensaio poético sobre ágape (amor) em 1 Cor 13 é justamente


considerado como uma contribuição importante para a espiritualidade e a ética.
Mas notamos também que este não é o único princípio a que ele apela.

Vejamos quando Paulo trata sobre a admissibilidade de visitar uma


prostituta (1 Cor 6, 12-20): Se certos coríntios se sentem livres de restrições e,
portanto, acreditavam que eles foram autorizados a juntar-se a prostitutas, Paulo
não nega o princípio da liberdade, mas em vez disso recorda-lhes o absurdo de
suas ações: "não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Por isso,
deve levar os membros de Cristo e torná-los membros de uma meretriz? Nunca!"
(1 Cor 6,15). Como eles podem participar do seu corpo para o corpo de uma
prostituta se eles são membros de Cristo? "Agora você é o corpo de Cristo e seus
membros em particular" (1 Cor 12,27). Paulo dá assim um mandado cristológico e
eclesiológico para o comportamento moral, que é distinto do princípio do ágape,
embora não relacionado a ele.

Além desses princípios gerais, Paulo oferece listas de virtudes (Gálatas


5, 22-23; Filipenses 4, 8), que servem como modelos de bom comportamento; e
de vícios (1 Cor 6, 9-10; Gal 5, 19-21; Rom 1, 26-32), que servem como padrões de
conduta a serem evitados.

95
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Como observado em outras passagens bíblicas, os ensinamentos morais de


Paulo são, em parte, temporários e em parte de valor perene. O candidato principal
para um ensino que é de valor perene é certamente o mandamento do amor ao
próximo como a si mesmo. Quando Ágape é aplicado a um problema moral particular,
a abordagem de Paulo é reconhecida como de valor perene, mesmo se o problema
particular, como na questão de comer alimentos oferecidos aos ídolos, não é urgente.

Vejamos Paulo tratando sobre a comida oferecida aos ídolos: o enigma


moral a ser resolvido em 1 Cor 8 é se a liberdade dos que gozam de sabedoria
lhes dá o direito de ofender a consciência de outros que supõem que comer tais
alimentos envolve-os na adoração de ídolos. Paulo propõe que, por causa do
amor, os conhecedores devem abster-se de causar tropeço a um irmão por quem
Cristo morreu. "A ciência incha, mas o amor edifica" (1 Cor 8,1).

Seria ignorar o óbvio se não se mencionar também que, se o Ágape é a


base moral para o comportamento amoroso, então a teoria da expiação é a base
teológica: o sujeito crente é aquele por quem Cristo morreu (1 Cor 8,11).

Tão importante quanto Ágape é para Paulo, não está claro, nos casos
mencionados abaixo, como seus julgamentos morais são baseadas neste princípio.
Estes são alguns exemplos com que você, acadêmico, poderá ir além nos seus estudos:

• Paulo sobre a escravidão: ele não era um abolicionista (1 Cor 7, 21-24);


• Paulo sobre o casamento: o celibato é a sua preferência, para outros, bem comoa
si mesmo. Sua visão do casamento é na melhor das hipóteses uma concessão,
com base em várias considerações: a) fim-de-tempo exigência, b) a urgência da
missão, e c) um grau de realismo e conveniência moral (1 Coríntios 7: 6-9); ele
aconselha: "Se [solteiros e às viúvas] não está praticando o autocontrole, eles
devem se casar”.
• Paulo sobre as mulheres: seus pontos de vista, embora não incomuns para
uma pessoa de sua época, não lhe garantem uma passagem sob a acusação de
sexismo (1 Cor 11, 3, 7, 11; 14: 33-36);
• Paulo em uma alta valorização do Estado, e com a apresentação ao imperador
(Rom 13, 1-7): seus sentimentos são bem-intencionados.

Felizmente, o próprio Paulo reconhece que em certas questões ele não
tem palavra inspirada em Jesus, mas mesmo assim dá o seu parecer (1 Coríntios
7:12, 25). Podemos deixar em aberto a possibilidade de que em outras questões
também não tinha referências advindas de Jesus.

Sabemos que a moral cristã consiste em viver a vida com orientação e


inspiração das Escrituras e tradições cristãs. A ética cristã como uma disciplina
acadêmica se utiliza das escrituras e tradições no seu desenvolvimento e na sua
crítica. A maioria dos especialistas em ética cristã concorda que as fontes para
fazer ética incluem revelação (escritura) e tradição, bem como a razão humana e
experiência, afirmação essa já confirmada no início desse ponto.

96
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

Sendo moldada pela revelação bíblica é a principal maneira como a ética


cristã pode ser distinguida das perspectivas éticas alternativas, tanto religiosos e
seculares; portanto, uma questão importante para um especialista em ética cristã
é como a moralidade (a prática) ou a ética (ideias sobre a prática) dependem de
religião (convicções e compromissos) ou da teologia (discussão crítica sobre essas
convicções e compromissos).

Poucas pessoas, religiosas ou não, negariam uma dependência histórica. Os


grandes mestres éticos tendem a ser profetas ou fundadores de alguma religião.
Podemos lembrar alguns fundadores de congregações religiosas, como por exemplo,
Inácio de Loyola, João Bosco, Francisco de Assis, que exerceram e exercem grande
influência através de uma vivência fundada na ética, além é claro de trazerem uma
contribuição muito evidente na área da educação, da assistência social, da cultura e
de uma vivência religiosa e espiritual edificantes. Você, acadêmico, deve conhecer
outras personagens com essa envergadura. O contraponto dessa realidade vem
com grandes pensadores, principalmente da filosofia que querem diminuir essa
dependência, encorajando a própria ética para evitar suposições religiosas ou
teológicas. Podemos citar Kant e Hegel como representantes dessa corrente, que
conduz para um endeusamento das ideias por si só.

FIGURA 28 – ENDEUSANDO KANT E HEGEL

FONTE: Disponível em: <https://philoforchange.files.wordpress.com/2014/08/


kant1-1.jpg>. Acesso em: 29 abr. 2016.

Para encerrar esse estudo, vamos destacar algumas características desta


ética fundada na Bíblia, tendo presente o que vimos até aqui:

97
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

• A ética bíblica é de aliança ou comunhão. Ela existe para o povo de Deus.


Embora todas as pessoas são moralmente responsáveis perante Deus, a Bíblia
ensina que a vida ética retratada nas Escrituras é destinada especialmente para
aqueles que estão em relação de aliança com Deus. O Sermão da Montanha,
por exemplo, revela isto (Mt 5, 1-2). Da mesma forma, a ética do amor, a pedra
angular do ensinamento moral do Novo Testamento, é colocada sobre os
ombros dos crentes (Jo 13, 34-35; 1 Ped. 4, 8; Heb. 13,1).
• A ética bíblica é motivada na graça. "Nós amamos porque Ele nos amou
primeiro" (1 Jo 4,19). O que Deus tem feito por nós, supremamente manifestada
em Cristo, é a base para o que, em seguida, devemos fazer por Deus. A aceitação
de Deus de nós como seus filhos resulta em uma vida ética. Em toda a Bíblia,
estar na posição vertical em relação a Deus não reside essencialmente no esforço
de vontade dos crentes, mas na transformação espiritual e moral provocada
neles pelo evangelho (1 Cor 6, 9-11; cf. Rom. 1, 16-17.) E o trabalho em curso do
Espírito em suas vidas (Rm 5, 5; 2 Cor 5,14; Gal 2,14; 3: 3).
• A ética bíblica é transformadora. A vida ética descrita na Bíblia é aquela que é
energizada por algo mais profundo do que a mera conformidade de comportamento.
Pelo contrário, a ética bíblica deriva da vida interior, que a Bíblia chama o coração.
É uma ética gerada por uma lei escrita no coração (Jer 31, 31-33). E os impulsos
que animam a habitação e Espírito santificador (Rm. 5, 5; Gal 5, 22-25.). Este é
fundamentalmente impulso que vem de dentro (Mt 5, 27-28; 6: 1; 15, 18-20). Ele vai
além da mera conformidade com um código escrito (Mt 23, 25-28; 2 Cor 3: 6).
• A ética da Bíblia é contracultural. É "contra a corrente". Considerando que a cultura
em torno conduz a sua vida em grande parte de forma que resulta da queda,
aqueles que estão em uma relação de aliança com Deus são chamados a conduzir
suas vidas de acordo com a nova identidade que flui do gracioso relacionamento
(Ex. 19: 5; 1 Pedro 2: 9-12.). Isso não significa rejeição dos valores culturais, mas
a avaliação radical e, se necessário existentes, a substituição desses valores, à luz
do reino em que os crentes têm sido atraídos pela graça de Deus (Rom. 12: 1-2).
Jesus demonstra esse princípio em seu ensinamento sobre amar os inimigos (Mt 5,
43-44), no materialismo (Mt 6, 19-24) e sobre a não retaliação (Mt. 5, 38-42). Paulo
também segue este princípio contracultural em seu ensinamento sobre a pureza
sexual (1 Cor 6 12-20; Col 3: 5-6.), sobre a igualdade das pessoas diante de Deus
(Gal 3: 28-29; Cl 3: 11), e a preocupação com os outros (Filipenses 2: 1-3.).
• A ética bíblica tem um caráter integrativo. Atingindo em todos os cantos da vida
humana, o sistema de ética ensinada na Bíblia toca crença e conduta (Rom. 12: 1;
Ef. 4: 17-24), o comportamento privado e moralidade pública (Tg 1:27), pessoal,
piedade e justiça comunitária (Jer 7, 1-11). Esta característica é devido ao quadro de
economia em que os crentes vivem agora.
• O caráter escatológico da ética bíblica. Biblicamente, a ética busca fundamento
naquilo que Deus fez em Cristo e o que ele promete fazer no futuro.

98
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

• A nova era almejada no Antigo Testamento raiou em Jesus, mas ainda não foi
levada a termo completo. Ética bíblica, então, é realmente uma ética atemporal: é
para aqueles que vivem entre os tempos (Tito 2, 11-14; 2 Ped. 3, 13-14). Seguidores
de Cristo buscam a santidade, olhando para trás e vendo à frente. Olharmos para
o que Deus fez, enviando seu Filho, nos unindo a Cristo, e colocando seu Espírito
dentro de nós. E estamos ansiosos para o que Deus vai fazer, como vai executar a
justiça e, finalmente, resgatar seu povo de todo pecado e sofrimento.

LEITURA COMPLEMENTAR

A MORAL E A ÉTICA CRISTÃ


Juberto Santos

O que são valores? Valor é um conjunto de qualidades que determina o
mérito e a importância de um ser referente ao binômio BEM e MAL. Por exemplo:
Caráter, Honra, Fidelidade, Idoneidade. Ex.: Se quero fazer um contrato, procuro
uma pessoa honesta. Se quero casar, procuro uma pessoa que seja fiel, que
tenha caráter. Nós nascemos com valores, com razão, independentes do credo,
religião, porque todos nós nascemos com uma lei eterna que sempre diz: “Faça
o bem e evite o mal” – este é o princípio da ética. E nós sabemos quando agimos
corretamente porque essa lei está dentro de cada um de nós, na faculdade que se
chama CONSCIÊNCIA.

Se a Ética representa o costume ou conjunto de atos que uma comunidade


ou uma pessoa realizam porque os consideram válidos, então a Ética Cristã
responderá pelos costumes ou conjunto de atos praticados pelos cristãos. E se
alguém se preocupa com os bons costumes, os cristãos deverão encontrar-se na
primeira linha de ataque. Ataque àquilo que é mau e contrário aos costumes dos
cristãos mais antigos. A palavra “ethos” aparece 12 vezes no Novo Testamento
(Lucas 1:9; 2:42; 22:39; João 19:40; Atos 6:14; 15:1; 16:21; 21:21; 25:16: 26:3; 28:17;
Hebreus 10:25) e significa estilo de vida, conduta, costume ou práticas. O plural
“ethe” aparece em I Coríntios 15,33 quando se diz que “as más conversações
corrompem os bons costumes”.

O cristão não vive de tradições! Apoia-se na Bíblia, que é a sua regra de


fé, busca a direção de Deus para a sua vida através da oração e comunhão com o
Criador. A Bíblia é o Livro do Deus vivo e, consequentemente, um Livro vivo. Os
seus textos, aparentemente conservadores, encerram mensagens vivas e atuais para
a nossa vida. Há, porém, um aspecto que não se deve perder de vista: a maneira
simples e piedosa de aceitação do Evangelho, o modo de proceder em cada situação
e outras qualidades que foram transitando através dos tempos entre os filhos de
Deus. São esses costumes que constituem a Ética Cristã. Se há costumes respeitados
pelos cristãos que vêm desde épocas distantes, não há razão para serem postos de
lado agora. Sim, se os cristãos do passado eram abençoados procedendo de certa
maneira, devemos continuar com esses bons costumes nos dias de hoje.

99
UNIDADE 2 | TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

Não podemos ser “pescadores de aquário”, como diz o bispo de Friburgo


Dom Rafael Cifuentes. Eu preciso ser exemplo (“Sal da terra e luz do mundo”)
perante minha família, meu ministério, minha Igreja sempre, em todo o lugar
e a toda a hora!!! O que adianta eu ser uma pessoa na igreja, nos encontros e
eventos, e outra totalmente diferente com a minha namorada, com meus amigos?
Mascarado não dá mais para viver!

Temos que fazer nossas escolhas, sair de cima dos muros da indecisão
(Ap 3, 15-16). Deus não quer homens e mulheres conformados com este mundo
(Rm 12, 2); é preciso ir além e não tomar a forma dada por uma vida paganizada.
Antes devemos, convertendo-nos para o Senhor, deixar renovar a nossa mente.
Essa é a única maneira de discernir a vontade de Deus. Todo aquele que assume
a fé em Jesus, deve assumi-la incondicionalmente: “Aquele que vive e crê em mim
jamais morrerá” (Jo 11, 26). Se somos cristãos, devemos seguir o exemplo de Jesus.
“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou.” (1Jo 2, 6) Não
podemos apresentar um Jesus deformado, quando não aceitamos a renovação da
nossa vida. Lembre-se sempre: O ouvido mais próximo de suas palavras não é o
do irmão, é o seu. “Meu justo viverá pela fé, mas se voltar atrás não contará com a
minha estima” (Hb 10, 38). Não podemos criar um novo catecismo, viver e pregar
o nosso próprio Evangelho, anunciar um Cristo light. A oração deve orientar a
nossa vida e devemos aproveitar dos nossos momentos de intimidade com Deus
para pedir as diretrizes que nos vão conduzir. Quem reza e não ouve a Deus é
como um cego diante de um imenso horizonte, só faz ideia por aquilo que lhe
dizem e não pelo que de fato experimentou.

Assim, a Ética Cristã não exclui a razão, mas aplica-se à obediência a Cristo.
Na sua essência é normativa, enquanto a Ética secular é descritiva. A Ética Cristã
é também ensino, mandamento, diretriz, enquanto os costumes são variáveis e
flexíveis. Os Dez Mandamentos constituem o primeiro tratado de ética dado pelo
Senhor com o propósito de regular o comportamento humano no cumprimento dos
seus deveres para com Deus, para com o próximo e para consigo próprio. A Ética
Cristã é normativa, porque se baseia em normas estabelecidas pelo Criador.

Há costumes dos povos que se desatualizam: as modas passam, e até


outros aspectos que caem em desuso devido à sua pouca expressividade. Porém,
as nossas reações, a maneira de proceder, o comportamento, a apresentação e
muitos outros valores próprios de quem vai viver com Jesus por toda a eternidade
não devem passar de moda. Os cristãos ficam abismados e indignados ao ver
que essa sociedade de padrões morais supostamente flexíveis, a qual se recusa a
aceitar parâmetros de certo e errado, tende a condenar veementemente os cristãos
que desafiam as suas ideias. “O Deus de vocês só sabe condenar”, anunciou-me
uma amiga minha – sem perceber ou talvez sem se importar com o aspecto de que
ela mesma estava julgando o nosso amado Deus.

100
TÓPICO 3 | A ÉTICA CRISTÃ

Um cristão deverá ser diferente dos não cristãos? Sim. Refiro-me a ser
diferente para melhor. Não a chamar a atenção imediata por vestir algo muito
antigo ou extravagante, mas pela sua postura. O cristão deverá deixar uma boa
impressão, o bom cheiro de Cristo, como a Bíblia refere. Não basta ser cristão; é
preciso parecer também que o é. Não é suficiente ter uma boa moral; é necessário
não deixar dúvidas a esse respeito. Como deverá ser a atitude de um católico face
à guerra? E quanto à responsabilidade social? E o sexo? A homossexualidade?
Como deverá ser visto o controle de natalidade? Qual a posição de um cristão
quanto à eutanásia, suicídio, pena capital e aborto? Ecologicamente, como
estamos? Como procedemos? Atendemos às normas sociais e às condutas
bíblicas? E os reais valores?

Pela ginástica do raciocínio comum hoje, os escritores dizem que não podemos
mais retomar aqueles valores ingênuos, pois os problemas da sociedade atual são
por demais complexos e esmagadores. E quais são esses problemas? Gravidez na
adolescência, disparada do número de divórcios, doenças sexualmente transmissíveis,
pais ausentes, famílias criadas só pelo pai ou só pela mãe, vulgarização e exploração
do sexo na mídia, conflitos raciais, violência nos meios de comunicação, violência
das gangues, crianças que matam sem remorso... A lista assustadora parece não ter
fim. Isso deixa os cristãos decepcionados e desconcertados, pois são exatamente os
problemas que poderiam ser resolvidos – ou pelo menos atenuados – por meio do
comprometimento com a moral bíblica. São problemas que se exacerbaram justamente
quando a sociedade abandonou os valores cristãos. A coincidência é grande demais
para não ser levada em consideração.

Para compreender o fervor moral dos cristãos, os não cristãos precisam


entender que a nossa moral começa não por uma lista de mandamentos, mas pelo
relacionamento com Deus. Em consequência de ter fé em Cristo e de conhecê-
lo, é claro que tentamos segui-lo em nossos atos. As suas leis ajudam a segui-
lo com maior fidelidade e de maneira mais inteligente. Elas dão uma referência
objetiva quando somos assaltados por dúvidas ou desviados pelos desejos. Como
nem sempre queremos obedecer a Deus, as suas leis morais evitam que vivamos
segundo os caprichos dos sentimentos.

Em todos esses estágios da sociedade há pessoas cuja religião é sincera


e viva e cuja moral não é apenas uma máscara, mas procede do coração. Um
ensinamento vital tanto da fé judaica quanto da religião cristã é que Deus conserva
um “remanescente” de fiéis, testemunhando a sua santidade e a sua misericórdia.
A partir do testemunho e das orações desse remanescente, pela misericórdia de
Deus, vem novamente a renovação espiritual. As pessoas se voltam para Deus.
A conduta delas muda, pois são transformadas no íntimo pelo Espírito Santo.
A moral é incorporada, e a sociedade se renova porque as pessoas se renovam.
Esse é o “reavivamento” que os cristãos esperam e pedem em oração – primeiro
espiritual, depois inevitavelmente moral. Não podemos brincar se ser Igreja!

FONTE: Disponível em: <http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/juberto/28.htm>. Acesso


em: 3 maio 2016.

101
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico vimos:

• Um breve panorama da ética na linha da história bíblica; a importância da ética


é ainda mais realçada pelo elevado valor que Deus coloca na vida ética.

• Algumas referências éticas, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e


também como a Bíblia e a Teologia da Libertação foram utilizadas no período
de colonização da América.

• O apóstolo Paulo escreveu muitas cartas para diferentes públicos, mas mesmo
assim ele estabelece um abrangente princípio unificador central.

• Algumas características desta ética fundada na Bíblia.

102
AUTOATIVIDADE

Para aprofundar ainda mais esses estudos, indicamos a pesquisa dos


seguintes temas com relação à ética:

1 A ética e a ciência.

2 Ética e psicologia.

103
104
UNIDADE 3

TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender as origens teológicas e políticas da Teologia da Libertação;

• identificar e distinguir entre os pontos de vista de figuras que contribuíram


para o desenvolvimento e propagação da Teologia da Libertação;

• compreender a origem e o desenvolvimento e a influência da Teologia da


Libertação na sociedade;

• identificar os temas centrais da teologia latino-americana com argumentos


de textos a partir de uma variedade de perspectivas;

• conhecer a contribuição de alguns pensadores da Teologia da Libertação


para o desenvolvimento social do continente latino-americano.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dos estudos
você encontrará atividades que o(a) ajudarão a fixar os conteúdos estudados.

TÓPICO 1 – TEOLOGIA QUE LIBERTA

TÓPICO 2 – DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

TÓPICO 3 – A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

105
106
UNIDADE 3
TÓPICO 1

TEOLOGIA QUE LIBERTA

1 INTRODUÇÃO
Quando as pessoas se lançam a estudar teologia, são muitas vezes
sobrecarregadas pela grande abrangência de temas nesse campo. É comum
pensar a teologia como abrangendo uma longa lista de assuntos. Ao longo dos
dois milênios da fé cristã, uma série de temas têm vindo a ocupar aqueles que
concentram muita atenção na teologia. A lista de temas difere de um ramo de
igrejas para outro, mas há semelhanças suficientes que nos permitem citar uma
série de grandes categorias teológicas.

A busca da teologia normalmente inclui alguns tópicos relativamente


práticos, como missões, evangelização, a apologética (a defesa da fé), adoração,
ministérios de misericórdia, aconselhamento, ritos, homilética e tradição. Também
inclui uma vasta gama de assuntos mais teóricos ou abstratos: soteriologia
– a doutrina da salvação, a eclesiologia – a doutrina da igreja, a antropologia
– a doutrina da humanidade, pneumatologia – a doutrina do Espírito Santo,
cristologia – a doutrina de Cristo, teologia bíblica, teologia sistemática, teologia
moral etc.

Neste ponto, vamos dar uma atenção especial à Teologia da Libertação,


que se notabilizou como forte representação da teologia latino-americana.

Veja que a Teologia da Libertação não é o sistema de uma única pessoa, um


Rahner ou Tillich, um De Chardin ou Barth; um Gutierrez, um Boff. A Teologia
da Libertação é, antes, um esforço cooperativo de muitos. Pelo menos como um
símbolo, a Teologia da Libertação representa bem o cristianismo, pois é o esforço
conjunto de homens e mulheres de todas as cores, de todas as crenças em todo o
mundo em um projeto comum que visa à construção de uma sociedade de justiça
e amor. Ao invés de concorrência, busca-se a partilha de ideias.

Os teólogos da libertação conhecem um ao outro, respeitam uns aos


outros, e promovem as suas ideias. Isso não é comum, pelo menos em algumas
partes da América Latina, onde a misantropia é conhecida a correr alta. Teologia,
assim vista, é um esforço comum, enfrentando uma catástrofe comum.

107
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Muitos estudiosos concordam que a América Latina tem uma situação


única que distingue a teologia que é feita aqui da teologia que é feita em outros
lugares. Na verdade, no início do desenvolvimento da Teologia da Libertação
latino-americana, havia um livro do teólogo protestante José Míguez Bonino,
traduzido em inglês, que dizia, entre outras afirmações, que fazer teologia é uma
situação revolucionária. É um livro maravilhoso que foi publicado antes de outro
grande teólogo, que já mencionamos na Unidade 2, Gustavo Gutiérrez.

Bonino foi envolvido no movimento de direitos humanos na Argentina.


Ele ressaltou que o que estava acontecendo lá e que precisava acontecer na
América Latina, incluindo os tipos de perguntas que tinham que ser abordadas,
eram fundamentalmente diferentes das perguntas da teologia europeia, mesmo
entre a teologia política de figuras como Moltmann, Metz e Soelle.

O que queremos aqui é mostrar que a Teologia da Libertação vai se


desenvolver como fruto da opção pelos pobres e, neste seu desenvolvimento,
vai necessitando de novos aprofundamentos diante das novas exigências do
momento histórico atual, buscando dar respostas para as questões relacionadas
com as culturas, a bioética, a sexualidade, a ecologia e outros tantos temas
urgentes e que precisam de um olhar atento da teologia. Dessa forma, a teologia
não é simplesmente o trabalho imediato, uma reflexão livre, direta, espontânea e
inequívoca sobre dados revelados. Não. Toda teologia é uma obra mediada.

2 CONTEXTO LATINO-AMERICANO
O que caracteriza ou diferencia a teologia latino-americana das outras
teologias? É a sua capacidade e seu esforço para falar de Deus a partir da
perspectiva dos pobres e sofrimento do mundo e reforçando aqueles temas que
são fundamentais para a vida cristã: Deus, Jesus Cristo, a Igreja, o pecado, a graça,
a salvação, discipulado. Com esses fundamentos, a teologia latino-americana está
robusta para poder denunciar o sofrimento humano causado pelas estruturas
socioeconômicas injustas que se opõem ao reinado de Deus, e resultando daí o
pecado social. Esta teologia latino-americana questiona da seguinte forma: como
Deus se manifesta na experiência de pessoas que conhecem a pobreza e opressão?
Ela reconhece os pobres membros privilegiados do reinado de Deus. Os pobres,
dada a sua condição da pobreza, são submetidos à vida ao contrário do que Deus
quer para eles.

Para chegar a entender a teologia no contexto latino-americano, vamos


brevemente desenvolver aqui quatro fatores principais que têm desempenhado
um papel importante na formulação da Teologia da Libertação latino-americana.
Em primeiro lugar, é um movimento teológico pós-iluminista. Os principais
representantes, como Gustavo Gutierrez, Juan Segundo, José Miranda, são sensíveis
às perspectivas epistemológicas e sociais de Kant, Hegel e Marx, autores estes que
vimos brevemente na primeira e na segunda unidade desse caderno de estudos.

108
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Em segundo lugar, a Teologia da Libertação tem sido grandemente


influenciada pela teologia política europeia. Podemos destacar, como
representantes dessa teologia europeia, J. B. Metz e Jürgen Moltmann e Harvey
Cox, este último que tem criticado fortemente a natureza histórica e individualista
da teologia existencial.

Em terceiro lugar e em sua maior parte, temos o movimento teológico


católico romano. Com notáveis exceções, como José Miguez Bonino, já citado
anteriormente e também Ruben Alves, ambos também desenvolveram uma
Teologia da libertação com forte identificação com a teologia desenvolvida pelos
teólogos da igreja Católica Romana. Depois do Vaticano II (1965) e da Conferência
do Episcopado Latino-americano (Celam II), em Medellín, Colômbia (1968), um
número significativo de líderes latino-americanos, dentro da Igreja Católica
Romana, transformou a Teologia da Libertação na voz teológica para a Igreja
na América Latina. O papel dominante da Igreja Católica Romana na América
Latina tornou a teologia uma ferramenta importante para a libertação em todo o
continente sul-americano.

Em quarto lugar, temos o movimento teológico específica e exclusivamente


situado no contexto latino-americano. Os teólogos, que vão desenvolver esta
teologia, alegam que seu continente foi vitimado pelo colonialismo, pelo
imperialismo, por um desenvolvimentismo unilateral e por corporações
multinacionais, e por isso a teologia precisa se ocupar dessa situação sendo um
contraponto, um referencial de contestação a tudo isso.

A situação latino-americana pode ser vista da seguinte forma: o que


aqui se tem é um "desenvolvimentismo" que tem colocado nações do Terceiro
Mundo subdesenvolvidas, assim chamadas em uma situação de dependência,
isso resultando em economias locais da América Latina a terem seus destinos
controlados por decisões tomadas em Nova York, China ou Londres. A fim
de perpetuar esta exploração econômica, países capitalistas desenvolvidos,
chamados também de países de primeiro mundo, especialmente os Estados
Unidos, dão apoio militar e econômico para garantir que certos regimes políticos
que apoiam mantenham o status quo econômico a favor deles, é claro. A ilustração
que segue demonstra de forma alegórica essa situação de dominação econômica
através de figuras que podem parecer ingênuas, divertidas, simplórias, mas que
trazem toda essa carga de dominação e dependência.

109
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

FIGURA 29 – “AJUDA” NORTE-AMERICANA

FONTE: Disponível em: <http://profdiney.blogspot.com.br/p/charges-sociologia.html>. Acesso


em: 28 abr. 2016.

É nesta realidade que a teologia se desenvolve e é para esta realidade que


ela precisa dar respostas claras, fortes e evidentes de que algo está errado e é
preciso mudar.

O caráter distintivo da teologia na América Latina é a hegemonia do


catolicismo. Esta constatação já vimos nas unidades anteriores, com a chegada da
colonização espanhola e portuguesa.

Até muito recentemente, o catolicismo da América Latina poderia ser


caracterizado como pré-tridentino, ou seja, o tipo de catolicismo que tinha
características da Baixa Idade Média, antes do Concílio de Trento. Você,
acadêmico, pode relembrar sobre este período quando estudou a disciplina de
História da Igreja Antiga à Contemporânea.

O Concílio de Trento, em parte em resposta à Reforma Protestante, em


parte devido às chamadas católicas internas de reforma, procurou reorganizar
o catolicismo, trazendo o controle para as mãos do bispo, regularizando
sacramentos, insistindo na forma adequada de fornecer os sacramentos.

110
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

O catolicismo do povo também tinha pouco a ver com o catolicismo


vivido na igreja. É centrado em torno de eventos como dias de festa, em que
todas as populações das cidades participam de eventos desenvolvidos pela e
para devoção popular. Sacerdotes cobriam vastos territórios, às vezes, com áreas
do tamanho de estados e, por isso, poucas vezes visitavam as comunidades, e
quando se faziam presentes era uma festa, literalmente, e também os sacramentos
precisavam ser ministrados.

Outra característica importante foi a exploração econômica por cerca


de 500 anos, primeiramente, por Espanha e Portugal, e também a exploração
britânica em lugares como a Argentina. Houve monopólio estrangeiro de
indústrias inteiras e setores que foram mediados por uma pequena classe, dentro
da América Latina, de pessoas muito poderosas.

Havia enormes fazendas, minas e regimes militares que defendiam a


manutenção dessa situação de dominação. A Igreja, via de regra, era aliada às
classes ricas e poderosas, com algumas exceções heroicas (por exemplo, Bartolomé
de las Casas).

Apesar dos ensinamentos sociais da Igreja Católica já no final do século


XIX e do século XX, que eram, em muitos aspectos, bastante progressistas, porém
sem ainda ter uma eficácia de mudança nesse panorama. Assim, os movimentos
progressistas vão tendo significado e importância, como sindicatos e movimentos
universitários. Havia alguns grupos cristãos estudantis que se aliaram, às vezes,
ao chamado e bem conhecido "marxismo", mas numa versão mais – digamos -
light, sem muita conexão com a realidade.

Efetivamente, temos a figura de Simón Bolívar, que tentou unir a América


Latina. A Revolução Mexicana, no início do século XX, era um movimento
secular anticlerical, anti-igreja, porque a Igreja foi totalmente aliada dos grupos
proprietários de terra, os nossos conhecidos latifundiários.

Nos anos 50 e 60, havia uma história de crescimento (iniciada na década


de 20) da intervenção dos Estados Unidos na América Latina. Vamos a alguns
exemplos desse intervencionismo:

• Nicarágua: 17 operações militares dos EUA.


• Sob Eisenhower, o governo eleito da Guatemala foi derrubado porque era
"socialista".
• Os militares tinham base em Cuba, na Argentina e no Brasil, já é fato a influência
dos Estados Unidos em 1964.

111
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

A intervenção dos Estados Unidos, muito atuante sob o governo de JFK,


evoluiu para a formação do Estado de segurança nacional com a derrubada de
regimes populistas na Argentina (Eva Perón), Brasil, Bolívia e Chile. Tudo isso
foi fortemente orquestrado pelos EUA em colaboração com generais de toda a
América Latina e resultou em extrema opressão. Em todos os casos, a partir dos
anos 60, chegando até os anos 80, governos opressores foram apoiados seja aberta
ou dissimuladamente pelos EUA. Eles tinham seus planos globais para se impor
como nação dominante.

FIGURA 30 –DIVISÃO DO MUNDO SOB A ÓTICA NORTE-AMERICANA

O MUNDO, SEGUNDO OS EUA

GELO

PUXA-SACOS BÊBADOS DERROTADOS


VINHO
PERFUME
ESTADO ESPAGUETTI...
52 PETRÓLEO FÁBRICA FÁBRICA
E DA
NIKE DA
GUERRA MICROSOFT
La ÁREA
tin
os RADIOATIVA

NÃO VENHAM
ÁREA AQUI
CAFÉ VAZIA
SEXO
DROGAS DIAMANTES

ILHA GRANDE
(HAWAII??)

GELO
Fonte: brasildefato
FONTE: Disponível em: <http://ericksilveira.blogspot.com.br/2015/09/os-estados-unidos-sao-o-
obstaculo-para.html>. Acesso em: 28 abr. 2016.

A ecologia foi vista inicialmente com muita suspeita, porque foi considerada
como uma preocupação da burguesia americana. Pensava-se assim: "Eles querem
nossas florestas para lhes dar oxigênio". No entanto, as pessoas começaram a perceber,
pela primeira vez no Brasil, e, posteriormente, em outros lugares, que o destino da
terra e o destino de todos estão interligados. Para essa discussão, temos

Em muitos desses casos, a Igreja estava do lado do opressor. Óbvio


que, junto dessa dominação militar, vinha a dominação econômica, ideológica,
cultural, e essa condição foi muito acentuada na América Latina.

Um dos terremotos iniciais para o catolicismo latino-americano foi o


segundo Concílio do Vaticano II. Este concílio define a Igreja como sendo o lugar
por excelência do leigo, não mais da hierarquia, o que era um afastamento radical
do Vaticano I e do Concílio de Trento. Houve uma ênfase direcionada à Bíblia e
seu uso evidenciado na catequese.

112
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Os bispos receberam o imperativo de evangelização das pessoas por meio


da Bíblia e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que eles estavam perdendo
as massas urbanas aos movimentos seculares e marxistas e ao aumento do
protestantismo pentecostal.

Um certo número de teólogos nesta fase, que tinha realizado seus estudos
na Europa, estavam agora se voltando para a Bíblia e também para a realidade.
Teólogos que tinham se formado em seminários católicos nos anos 40 e 50 nunca
tinham sido obrigados a ler a Bíblia. De repente, com o Concílio Vaticano II, houve
um reconhecimento de que se não começasse essa aproximação, a situação para
eles iria ficar complicada. Assim, houve uma nova ênfase sobre a Bíblia e autores
que vão se debruçar e escrever sobre ela e desenvolver estudos das correntes
contemporâneas da filosofia europeia que já tinham um olhar sobre a Bíblia.

Quando olhamos para a Revolução Cubana, percebemos a presença da


ideologia marxista, que dispensa a influência dos EUA e os proprietários de
terras, oferecendo assim uma espécie de faísca e de esperança de libertação do
jugo norte-americano para o resto da América Latina.

Em 1968, os bispos latino-americanos se reuniram em uma conferência


em Medellín. Seu objetivo era descobrir como implementar o Vaticano II na
América Latina, onde eles ainda não tinham sido influenciados pelas reformas de
Trento. Eles precisavam treinar agentes pastorais para trabalhar entre os povos
indígenas, junto com trabalhadores, junto das universidades etc. Uma das coisas
que provocou isso foi que não havia pessoas que "conheciam" a Bíblia através de
formação no seminário, mas eles tiveram que começar a falar sobre isso e então
eles leram a Bíblia "ingenuamente". No Brasil, o trabalho de Paulo Freire, que
iniciou uma educação com veio populista e forte influência marxista, se tornou
um modelo para a formação dos trabalhadores leigos que iriam se formar nas
comunidades, usando a Bíblia e métodos pedagógicos de Freire.

A primeira fase da Teologia da Libertação na América Latina apropriou-se


dos ensinamentos sociais da Igreja Católica, que foi essencialmente o evangelho
voltado para o âmbito social, sem a contaminação do marxismo. No entanto, eles
acrescentaram suas próprias maneiras de usar o marxismo, em primeiro lugar como
uma forma de criticar a economia do "desenvolvimento". Este desenvolvimento, na
realidade, significava o desvio de recursos da América Latina a partir da periferia
para o centro (neste período, para os EUA e Grã-Bretanha).

Vamos avançando.

113
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

A parte norte do Brasil, região que foi influenciada mais fortemente pelo
trabalho de Paulo Freire, já estava recebendo bom grupo de representantes do
pentecostalismo protestante. Os bispos, que só viajavam para as partes remotas do
Brasil uma vez por ano, descobrem que as comunidades estavam enfraquecidas
e que eles estavam perdendo a sua influência. Portanto, eles reconheceram
que precisavam criar comunidades locais que se reunissem sem sacerdotes, ou
quaisquer outros membros da hierarquia, mas que se motivassem e se envolvessem
a partir da reflexão bíblica. Esta centralidade da Bíblia vai alimentar a reflexão
sobre a realidade social em que se encontravam. Dessa situação, percebe-se então
que há uma aproximação entre a Bíblia e Paulo Freire, que é o que o povo tem de
mais real, que faz parte do cotidiano.

Toda essa realidade vivida no Norte e Nordeste do Brasil e que depois se


espalha faz parte da primeira fase da Teologia da Libertação, que vai crescendo
a partir deste movimento que se congrega a partir do estudo da Bíblia com um
olhar sobre a realidade e vai se espalhando pela América Latina. Teólogos, como
Gutiérrez e Sobrino, estavam se movendo em toda a América Latina, participando
de conferências em cada país e região, enquanto trabalhavam na formação de
leigos, principalmente envolvidos em alguma pastoral coordenada pela Igreja.

A partir dessa primeira fase até a próxima, podemos destacar como referência,
como grande evento, a conferência de bispos que foi a Conferência de Puebla, em
1979, que marcou essa nova fase. A Igreja Católica tem um novo papa, João Paulo II, e
uma resposta altamente negativa no Vaticano às influências marxistas no movimento,
e à politização no movimento de libertação, com alguns padres, mesmo tornando-se
líderes políticos. Na Conferência de Puebla, o Vaticano estava tentando colocar alguns
limites no movimento. Ao mesmo tempo, próximo de Puebla, cerca de 40 teólogos da
libertação se reúnem. Cada vez que uma declaração que sai de Puebla, os teólogos
da libertação, aqueles reunidos fora da conferência, apresentavam uma declaração
que era essencialmente uma negação de que os bispos se opunham à Teologia da
Libertação. Assim, desde o início, um dos temas distintos em Teologia da Libertação
latino-americana é a tentativa de ser "mais católico" do que o Vaticano.

Neste ponto, a Teologia da Libertação entra para o que poderia ser


chamado de uma segunda fase. Eles começaram a perceber que haviam enfatizado
questões econômicas e políticas (por exemplo, o Estado de segurança nacional
e do neoliberalismo) à custa de uma série de outras questões de importância
crescente. Estes incluíram as necessidades das populações indígenas, que eram
a minoria em alguns lugares, mas eram a maioria em lugares como o Brasil.
Esses grupos, muitas vezes, não eram ainda de língua espanhola. Então, eles
começaram a prestar atenção à espiritualidade indígena do povo e trouxe-a
para o meio da Teologia da Libertação. Eles também prestaram atenção aos
movimentos pentecostais protestantes (que muitas vezes eram populares entre os
pobres urbanos), que tinham inicialmente denunciado, e tentaram trazê-los para
o movimento de libertação, encontrando elementos que eram potencialmente
progressivos. Eles tentaram formar alianças ao invés de manifestar a instintiva
reação marxista típica ao pentecostalismo.

114
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Veja, caro acadêmico, que todo esse desenvolvimento da Teologia da


Libertação não é exclusividade do catolicismo, mas também grupos do mundo
protestante desenvolveram com muito esmero a Teologia da Libertação, até em
momentos de parceria com o catolicismo.

Apesar de que existem divergências significativas entre os teólogos


da libertação, na maioria de seus escritos encontramos repetidos os
temas fundamentais que constituem uma saída radical da doutrina
tradicional e estabelecida das Igrejas Católica e Protestante:
- Uma implacável acusação moral e social contra o capitalismo como
sistema injusto e iníquo, como forma de pecado estrutural.
- O uso do instrumento marxista para compreender as causas da
pobreza, as contradições do capitalismo e as formas da luta de classes.
- A opção preferencial a favor dos pobres e a solidariedade com sua luta
de emancipação social. ­O desenvolvimento de comunidades cristãs de
base entre os pobres como a nova forma da Igreja e como alternativa
ao modo de vida individualista imposto pelo sistema capitalista.
- A luta contra a idolatria (não o ateísmo) como inimigo principal
da religião, isto é, contra os novos ídolos da morte, adorados
pelos novos faraós, pelos novos Césares e pelos novos Herodes:
O consumismo, a riqueza, o poder, a segurança nacional, o Estado,
os exércitos; em poucas palavras, “a civilização cristã ocidental”.
FONTE: Disponível em: <http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.
asp?cod=35648&lang=PT>. Acesso em: 25 maio 2016.

Uma característica que começa a aparecer a partir dos anos 80 é que


os autores pararam de escrever livros com ‘libertação’ no título (embora eles
ainda estavam sendo traduzidos para o inglês com esses títulos). Vão sendo
recuperados temas como a espiritualidade voltada para o meio ambiente, para a
preservação, para a ecologia. Outro tema importante foi uma mudança no pensar
sobre questões de ecologia.

A ecologia está a exigir um repensamento da teologia da criação.


Há um processo crescente de aprofundamento da compreensão da
ecologia que vai desde um simples cuidado para evitar destruir o meio
ambiente até uma responsabilidade ética pelo planeta a partir de uma
consciência de comunhão profunda com o cosmos. Pode-se falar que
emerge novo paradigma da “era ecológica”. A TdL é chamada a fazer
a ponte entre essa preocupação ecológica com a realidade dos pobres.
A vida de ambos está ameaçada. Há relação profunda entre essas duas
dominações como de suas respectivas libertações. Procura-se articular
o grito da terra com o grito dos pobres.
A teologia tem se preocupado em dialogar com as ciências da natureza,
com a antropologia para ter uma base para suas reflexões sobre a real
condição religiosa do ser humano.
FONTE: Disponível em: <http://servicioskoinonia.org/relat/229.
htm#a252>. Acesso em: 25 maio 2016.

115
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Para você aprofundar seus conhecimentos


sobre a ecologia e a urgência desse tema
para a humanidade sob o olhar de um
teólogo, leia esta obra.

Leonardo Boff, elaborou vários materiais nessa temática.

Assim, a Teologia da Libertação latino-americana passou por uma série


de fases e continua a produzir muito material, porém sem aquela interação ou
aplicabilidade na realidade, no cotidiano das pessoas. E você, acadêmico, deve
se perguntar o motivo disso. Seria a secularização? Os avanços tecnológicos que
contribuem para uma individualização das pessoas e aí não formam mais tantos
grupos como existiam na região, reunidos em torno de ideologias ou por influência
de diferentes religiões, principalmente pela Igreja Católica? Os novos movimentos
que estão voltados preferencialmente para a prosperidade de forma individual?

3 AVANÇOS E RECUOS
Se existe uma espécie de "instinto religioso" na humanidade ou se a
religião é um tipo de reação ao sofrimento, parece que a experiência religiosa é
algo que está aqui e vai permanecer no futuro.

No olhar da Teologia da Libertação, constata-se que as autoridades


políticas, muitas vezes, apoiadas pelos EUA, implacavelmente reprimiam os que
a contestavam, como vimos nos temas anteriores. Esta preocupação da teologia
persiste até hoje, seus teólogos e principais líderes ainda estão trabalhando, e ainda
há comunidades de base em operação, no entanto, deixou de ser um fator central
na luta política na América Latina e se tornou um fenômeno muito mais marginal.

Podemos salientar que a repressão, de diversas formas, principalmente


no catolicismo, é a culpa para o declínio da Teologia da Libertação. Temos vários
exemplos emblemáticos para demonstrar essa situação. Para aqueles que pensam que
o cristianismo está apático em relação às demandas sociais, a Teologia da Libertação
permanece como uma clara demonstração em contrário.

116
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Ao mesmo tempo, porém, a oposição extrema da Teologia da Libertação


para todos os poderes estabelecidos indistintamente, às vezes de forma cega,
provavelmente provocou uma repressão inevitável, especialmente tendo em
conta as realidades da Guerra Fria, quando qualquer movimento de protesto
populista foi tratado como uma conspiração comunista pelos EUA e pelos países
em que havia essa dominação estabelecida, que foi e continua sendo a maior
potência militar da história da humanidade.

A ideia de que os EUA iriam permitir que um regime com a ideologia


da Teologia da Libertação tomaria o poder em seu quintal nunca foi realmente
possível, como atesta a experiência de Jean-Bertrand Aristide, o padre católico
deposto da Presidência do Haiti. Veja então que, mesmo com a presença da
Teologia da Libertação, não foi suficiente para ter um resultado aceitável do ponto
de vista do próprio movimento, dada a sua crítica radical de todos os arranjos
políticos e econômicos existentes. Parece que faltou um equilíbrio.

Portanto, em geral, enquanto uns tendem a rejeitar o argumento de que


a Teologia da Libertação ‘nunca pegou’, alegar que então o pentecostalismo fala
mais diretamente às necessidades das pessoas parece muito mais plausível do
que ficar apenas na ideia de opressão ao movimento.

O pentecostalismo, em geral, teve mais ‘entrada’ nessas novas missões –


países, – congregando com muito menos oposição das autoridades, mesmo que
os obstáculos que tem enfrentado foram também dos mais variados, tais como
restrições gerais sobre a liberdade religiosa não se limitando a pentecostais, e isso
é provavelmente porque o pentecostalismo não tornou sua missão apenas uma
oposição a todas as autoridades.

Veja que o pentecostalismo coloca como missão restaurar o mesmo


acesso direto ao poder de Deus que os apóstolos experimentaram no dia
de Pentecostes – quando acontecem transformações milagrosas da vida das
pessoas, superação milagrosa de fronteiras raciais e étnicas que não podem
ser restringidas a uma realidade do passado, mas algo que toda pessoa tem
possibilidade real, direta, aqui e agora.

A partir dessas constatações, e desta contextualização do pentecostalismo,


com características muito próximas do catolicismo, ambos da mesma bandeira cristã,
temos então pregadores que são autenticados não através da formação e aprovação
institucional, mas pela evidência de Deus, trabalhando através deles. Igrejas são
fundadas não através de uma cadeia de tradição, mas em caso de necessidade.

Sabemos que, historicamente, o cristianismo tradicional tem insistido na


continuidade institucional e sobre a centralidade dos sacramentos. Por sua vez,
a Teologia da Libertação apresenta uma visão da herança bíblica que revela um
Deus que está sempre do lado dos pobres e oprimidos, possibilitando sempre a
opção pela liberdade de escolher qual caminho seguir.

117
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Embora seus teólogos sempre tentaram manter a paz com as igrejas


institucionais, eles apresentaram as suas ideias de grupos de conscientização ou
‘comunidades de base’ como a expressão mais autêntica da comunidade cristã, e
a luta política pela justiça como a mais significativa experiência religiosa.

O que torna esses dois movimentos, o catolicismo e o pentecostalismo,


que partem tanto da corrente principal do cristianismo, tão obviamente cristãos?
Ambos, claro, fazem de Cristo e da Bíblia os pontos indispensáveis e indiscutíveis
de referência de toda sua missão.

O cristianismo evoluiu a partir de uma comunidade de judeus e gentios


em uma religião essencialmente gentil, quando ficou claro que o judaísmo estava
tomando um caminho diferente. Ele deixou de ser um culto de perseguidos que
rejeitavam a adoração do império para ser a religião que uniu e definiu o império.
Passou de serva do poder instituído para ser o governante de fato da Europa
Ocidental durante a Idade Média, e quando a nova estrutura de poder do Estado-
nação começara a evoluir, ele encontra um novo papel de apoio a esses regimes
e mostrou notável flexibilidade na adaptação às novas realidades do capitalismo
emergente. Ufa. Um parágrafo para resumir o nascimento de uma religião e seu
desenvolvimento em 2000 anos.

Mesmo o cristianismo convencional, indiscutivelmente, transformou-se,


a fim de ultrapassar as fronteiras da nação-estado com o cristianismo liberal, que
abraça a linguagem dos direitos humanos que estão acima das leis de qualquer
nação e do cristianismo conservador, que luta para preservar a vida humana
através do seu regulamento da vida familiar e da sexualidade, mais uma vez
concebida como uma lei natural que excede qualquer estado-nação. O teólogo, de
modo muito especial, deve participar das discussões sobre os direitos humanos,
de maneira muito especial e colaborativa, no sentido de resgatar o indivíduo de
tantas descaracterizações por que passa na atualidade.

No próximo tópico vamos estudar mais de forma distinta essas duas


forças da teologia: a católica e a evangélica.

4 PENSANDO A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO


Atrás de uma ideia há um pensador. Para entender melhor a importância
de um grande teólogo nessa compreensão da Teologia da Libertação no contexto
latino-americano, temos vários pensadores que nos servem como guias para
encontrarmos os caminhos que nos levam aos grandes pilares da Teologia da
Libertação. Podemos citar Austin Cline Ralph Della Clava e tantos outros que
você, acadêmico, pode também lembrar. Um dos pontos que eles têm em comum
é apontar Gustavo Gutiérrez como o principal arquiteto da Teologia da Libertação
no contexto latino-americano.

118
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Gutiérrez foi padre católico que cresceu em extrema pobreza no Peru.


Gutiérrez empregou muitas críticas ao capitalismo e também ao marxismo. Essas
críticas devem ser entendidas como parte de sua análise teológica de como o
cristianismo deve ser usado para tornar a vida das pessoas melhor, aqui e agora,
em vez de simplesmente oferecer-lhes esperança de recompensas no céu.

FIGURA 31 – GUSTAVO GUTIERREZ

FONTE: Disponível em: <http://www.brandeis.edu/now/2014/september/gittler-gutierrez.


html>. Acesso em: 29 abr. 2016.

Enquanto ainda no início de sua carreira como um padre, Gutiérrez


começou a desenhar seus pensamentos a partir de filósofos e teólogos da tradição
europeia para desenvolver suas próprias crenças. Os princípios básicos que
permaneceram com ele através das mudanças em sua ideologia foram: amor
(como um compromisso para com o próximo), a espiritualidade (com foco em
uma vida ativa no mundo), este mundanismo em oposição a outro mundo, a
igreja como uma serva da humanidade, bem como a capacidade de Deus para
transformar a sociedade através das obras dos seres humanos.

O que distingue Gutiérrez de outros pensadores é que ele foi muito


comedido em referenciar a teologia utilizando-se de Marx. Ele incorporou ideias
sobre luta de classes, a propriedade privada dos meios de produção, e críticas
ao capitalismo, mas ele rejeitou as ideias de Marx sobre o materialismo, o
determinismo econômico e, claro, o ateísmo.

A teologia de Gutiérrez é aquela que coloca a ação em primeiro lugar


e a reflexão em segundo, uma grande mudança de como a teologia tem sido
tradicionalmente feita. Em “A força do pobre na história” (1979), ele escreve:

119
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Desde o início, a Teologia da Libertação postulou que o primeiro ato é


o envolvimento no processo de libertação, e que a teologia vem depois,
como um segundo ato. O momento teológico é um dos primeiros
movimentos a desenvolver uma reflexão crítica a partir de dentro, e a
refletir sobre a práxis históricas concretas, em confronto com o mundo
do Senhor, como viveu e acolhida na fé. (GUTIÉRREZ, 1979, p. 59).

Muitos desconsideram de forma contundente que a Teologia da


Libertação se baseia em tradições da doutrina social da Igreja. Gutiérrez não só
foi influenciado por esses ensinamentos, mas seus escritos influenciaram o que
foi ensinado nas academias de teologia.

Muitos documentos oficiais da Igreja buscaram inspiração em Gutiérrez


para apontar como temas importantes da doutrina da Igreja as grandes disparidades
de riqueza entre ricos e pobres, e argumentam que os ricos devem fazer mais de um
esforço para ajudar os pobres do mundo.

Dentro do sistema teológico de Gutiérrez, libertação e salvação se tornam


a mesma coisa. O primeiro passo para a salvação é a transformação da sociedade:
os pobres devem ser libertados da opressão econômica, política e social. Isto irá
envolver tanto luta e conflito. Tal disposição para tolerar atos violentos é uma
das razões pelas quais as ideias de Gutiérrez nem sempre foram calorosamente
recebidas pelos líderes católicos no Vaticano.

Na América Latina, segundo Maduro, “a produção teológica se realiza


no meio de uma situação de dominação e de conflito”. O conflito atinge
“também os esquemas de interpretação da realidade”, inclusive da
revelação de Deus. Essa característica aparece também em outros lugares
e momentos? Para Enrique Domingo Dussel (nasc. 1934), a igreja na
América Latina colonial, “a nova cristandade das Índias”, foi “a única
cristandade [...] colonial ou dependente”. Sua característica específica
eram a dependência, a dominação, o conflito. As outras duas cristandades,
a bizantina e a latina, não eram dependentes. Será que Dussel e Maduro
as considerariam como não conflitivas? Creio que não. Sua análise está
visivelmente influenciada, se não inspirada, pelo marxismo. O marxismo
vê toda a história como conflitiva. O famoso Manifesto do Partido
Comunista, de 1848, afirma: “A história [transmitida por escrito] de toda
a sociedade até hoje é a história de lutas de classes”. Consequentemente,
todos os contextos históricos eram conflitivos. Teologia, pois, sempre
seria produzida em situações de conflito.
FONTE: Disponível em: <http://www3.est.edu.br/publicacoes/
estudos_teologicos/vol4801_2008/et2008-1e_jfischer.pdf>. Acesso
em: 25 maio 2016.

Esta é uma questão importante na América Latina após o colapso do


socialismo real no Leste Europeu, no final do regime sandinista na Nicarágua e na
transição para um Pré-Vaticano de muito conservadorismo II na Igreja Católica.

120
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

Gutiérrez (1979) oferece evidências da aceitação do seu trabalho por


muitos bispos e a relação entre seu pensamento e o envolvimento prático de
muitas pessoas e comunidades, de modo especial na vida da Igreja Católica. Ele
reconhece as críticas que recebeu por seu uso de análise social e da necessidade
"para aperfeiçoar novas ferramentas analíticas”. Ele passa a descrever a nova
situação mundial com as demandas urgentes de compreensão para que "tanto
a própria perspectiva científica e a concepção cristã do mundo exigem um
discernimento rigoroso de dados científicos – discernimento, mas não medo da
contribuição das ciências sociais". (GUTIÉRREZ, 1979, p. 121).

A abordagem à história latinoamericana, conhecida como "teoria da


dependência", era muito influente no início de teologias da libertação. Ora, numa
maneira muito explícita, Gutiérrez (1979, p. 121) admite:

a teoria da dependência que foi tão amplamente utilizada nos


primeiros anos do nosso encontro com o mundo latino-americano,
porém agora tornou-se uma inadequada ferramenta, porque não tem
suficientemente em conta a dinâmica do mercado interno de cada país
ou das vastas dimensões do mundo dos pobres.

Outro passo para a salvação é a transformação de si: temos de começar


a existir como agentes ativos ao invés de aceitar passivamente as condições
de opressão e exploração que nos cercam. Para concluir essa reflexão, um
último passo é a transformação da nossa relação com Deus – especificamente,
a libertação do pecado.

As ideias de Gutiérrez podem dever tanto para a doutrina social católica


tradicional como também para o marxismo, mas tiveram maiores problemas para
encontrar eco entre a hierarquia católica, no Vaticano. O catolicismo hoje está
muito preocupado com a persistência da pobreza em um mundo de abundância,
mas não compartilha a caracterização da teologia de Gutiérrez como um meio
para ajudar os pobres e não para explicar o dogma da Igreja.

Vamos adiante. O Papa João Paulo II, já falecido, no período do seu


pontificado, expressou forte oposição aos "sacerdotes políticos" que se tornavam
mais envolvidos com a realização da justiça social do que ministrar aos seus
rebanhos – uma crítica curiosa, dada a quantidade de apoio que forneceu aos
dissidentes políticos na Polônia, enquanto os comunistas ainda lá governavam.
Com o tempo, porém, a sua posição suavizou um pouco, possivelmente por causa
da implosão da União Soviética e o desaparecimento da ameaça comunista.

121
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Para concluir essa discussão, podemos perceber que durante os anos 1970
e 1980 o panorama teológico na América Latina foi dominado pelo discurso de
teologias da libertação. Por uma questão de precisão, é importante usar o plural
porque não há apenas uma abordagem teológica que poderia ser rotulada de
"teologia da libertação". Depois de 20 anos, é evidente que algumas das formas
mais radicais desta teologia, que eram forjadas, principalmente dentro do mundo
acadêmico com nenhuma relação com a vida da igreja, estão em processo de
extinção. Há sim, no entanto, uma linha da Teologia da Libertação, que tem
se esforçado para manter ligação com a vida das igrejas, com a sua pastoral e
com sua missão de evangelização. Essa tem sido a linha exemplificada pela de
Gustavo Gutierrez, que evidentemente vai durar mesmo que tome novas formas.
Para onde a Teologia da Libertação está indo nesta década?

Para um maior aprofundamento, caro acadêmico, seguem alguns eventos,


figuras importantes, literatura da área, para você buscar maiores informações
sobre essa temática.

Figuras que merecem destaque:

- Hélder Câmara;
- Paulo Evaristo Arns.

Eventos:

- O congresso de El Escorial, Espanha, em julho de 1972, sobre o tema da "Fé


cristã e a transformação da sociedade na América Latina".
- O primeiro congresso dos teólogos latino-americanos, realizado na Cidade do
México em agosto de 1975.
- Os primeiros contatos formais entre os teólogos da libertação e defensores de
liberação dos negros nos EUA e outros movimentos feministas de libertação,
ameríndios e similares.
- A criação da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo.

Materiais impressos:

- Concilium
- Revista Eclesiástica Brasileira (REB)
- Grande Sinal
- Estúdios Centroamericanos (ECA)
- Revista Latino-americana de Teologia

122
TÓPICO 1 | TEOLOGIA QUE LIBERTA

LEITURA COMPLEMENTAR

A TEOLOGIA NO BRASIL NOS ÚLTIMOS 30 ANOS

Pe. José Carlos Veloso Júnior

A “nova maneira” de fazer teologia na América Latina foi marcada por


um novo método teológico. Este método foi realizado pela chamada “teologia
da libertação”.

Houve diversas tentativas de estabelecer as fases da Teologia da Libertação.


Dentro do contexto epistemológico brasileiro, esta “nova maneira” de fazer teologia
teve sua inspiração no método  ver-julgar-agir, sua gênese nas publicações de H.
Assmann e Leonardo Boff, seu desenvolvimento com a Teologia do Político de
Clodovis Boff e sua discussão nos anos 80. Nos últimos anos, a Teologia da Libertação
tem acolhido no seu seio os novos paradigmas feitos pelo processo de globalização e
pela necessidade de uma evolução no seu próprio quadro epistemológico.

Pode-se dizer que a história da teologia no Brasil se identifica com a teologia


da libertação. Seu método se inspirou no modelo comunitário-pastoral realizado
pela Ação Católica e pelas Conferências Episcopais e indicado pelo Magistério do
Papa João XXIII e Paulo VI, nos anos 60. Mas somente a partir dos anos 70 é que o
mesmo foi elaborado teologicamente por diversos teólogos, dos quais se recordam
os fundadores desta nova corrente, G. Gutiérrez, H. Assmann e J. Sobrino.

A gênese da Teologia da Libertação tem suas raízes mais antigas na obra de


H. Assmann e na contribuição extensa e orgânica de Leonardo Boff. No entanto, o
seu desenvolvimento foi realizado por Clodovis Boff, por transformar o método
pastoral ver-julgar-agir em método teológico construído em cima das práxis, por
meio da mediação socioanalítica (MSA) e da mediação hermenêutica (MH). Com
estes autores se incorpora anteriormente à temática teológica a realidade social
e suas ciências. Com isso, há diversas mudanças epistemológicas a respeito do
ponto de partida da teologia e ocorrem muitas consequências na articulação
entre o transcendente e o imanente da teologia e nas suas relações com a prática
teológica. Assim, o ponto de partida da Teologia da Libertação muda o foco da
revelação da Palavra de Deus e sua comunicação com a humanidade para a práxis
histórica, na qual está presente a imagem imanente de Cristo e do seu Reino que
incentiva a ação concreta dos cristãos na busca pela libertação humana. Esta
mudança exige o uso das ciências sociais e a escolha de um instrumental teórico
anterior à elaboração teológica. Assim, há uma alteração do princípio do método
teológico tradicional, provocando uma variedade de críticas no âmbito eclesial
e despertando interesses na sociedade civil, com exageros e oposição entre um
lado e o outro, acontecendo um conflito na Igreja. Estas atitudes, por sua vez,
incentivaram um debate sobre as influências da realidade socioeconômico-político-
cultural no contexto teológico e, por outro lado, a definição da especificidade da
teologia como razão da fé, com uma perspectiva epistemológica, preocupando-se

123
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

com sua relação com as demais ciências e com a influência dos movimentos e
correntes filosóficas contemporâneas no seu campo específico. Estas duas atitudes
são sintetizadas nas obras de Paulo Fernando Carneiro de Andrade sobre o uso
da sociologia na Teologia da Libertação e de Paulo Sérgio Lopes Gonçalves com o
projeto sistemático da Teologia da Libertação.

Portanto, a questão principal da teologia no Brasil foi o método e a elaboração


de um novo princípio hermenêutico, que acolhe a realidade socioeconômico-
político-cultural, ao interno da teologia. Porém, este texto procura limitar-se ao
problema epistemológico, evitando uma abordagem pastoral e bíblica, apesar
destas duas dimensões estarem presentes ao longo da história da teologia nestes
últimos 30 anos. Quer também contribuir para uma elaboração epistemológica da
teologia no Brasil, às portas da V Conferência do Episcopado Latino-americano,
indicando o perigo de abandono da sistemática metodológica realizada no
continente e da colocação no seu lugar de uma metodologia “pós-moderna”
holística baseada no sentimento e numa dimensão espiritualista de característica
“carismática”, que ainda não foi suficientemente criticada e abordada.

FONTE: Disponível em: <http://www.cienciaefe.org.br/online/producao/pe_jose_carlos_veloso/


teologia_no_brasil_a.htm>. Acesso em: 4 maio 2016.

124
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico vimos:

• Que uma das características da teologia na América Latina foi a hegemonia do


catolicismo.

• Que a centralidade da Bíblia vai alimentar a reflexão sobre a realidade social em


que se encontra a população mais empobrecida.

• Que houve uma aproximação entre a Bíblia e Paulo Freire, que é o que o povo
tem de mais real, que faz parte do cotidiano.

• Que o cristianismo tradicional tem insistido na continuidade institucional e na


centralidade dos sacramentos.

• Que a Teologia da Libertação apresenta uma visão da herança bíblica que revela
um Deus que está sempre do lado dos pobres e oprimidos, possibilitando
sempre a opção pela liberdade de escolher qual caminho seguir.

• Que muitos documentos oficiais da Igreja buscaram inspiração em Gutiérrez


para apontar, como temas importantes da doutrina cristã, as grandes
disparidades de riqueza ente ricos e pobres e a argumentação de que os ricos
devem fazer mais de um esforço para ajudar os pobres do mundo.

• Que durante os anos 1970 e 1980 o panorama teológico na América Latina foi
dominado pelo discurso de teologias da libertação.

125
AUTOATIVIDADE

Levando em consideração a importância do ENADE para você,


acadêmico, e para a instituição, vamos reproduzir aqui algumas questões
aplicadas no ENADE em 2015, para que possa se familiarizar com a dinâmica
utilizada na prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão concluir o
curso no ano do ENADE terão que realizar.

1 Veja esta questão aplicada no ENADE de 2015 para o curso de Bacharelado


em Teologia, que faz uma reflexão a partir de um texto de Gutiérrez sobre a
Teologia da Libertação.

A Teologia da Libertação nos propõe, talvez, não tanto um novo tema para a
reflexão quanto uma nova maneira de fazer teologia. A teologia como reflexão
crítica da práxis histórica é, assim, uma teologia libertadora, uma teologia da
transformação libertadora da história da humanidade e, portanto, libertadora,
também, da porção dela – reunida em ecclesia – que confessa abertamente Cristo
como uma teologia que não se limita a pensar o mundo, mas procura situar-se
como um momento do processo por meio do qual o mundo é transformado,
abrindo-se – no protesto ante a dignidade humana pisoteada, na luta contra a
espoliação da imensa maioria da humanidade, no amor que liberta, na construção
de nova sociedade, justa e fraterna – ao dom do reino de Deus.
FONTE: GUTIÉRREZ, G. Teologia da libertação: perspectivas. São Paulo: Loyola,
2000. Trad. 6ª ed. 1996 (adaptado).

No texto, o autor propõe que a Teologia da Libertação seja:

(A) Uma teologia mais vertical, que leve a massa de homens e mulheres
massacrados a reatar sua relação com Deus em um processo de libertação.
(B) Uma nova maneira de fazer teologia, que leva a maioria da população a
superar a condição de dependência e aumentar seus recursos materiais e
financeiros.
(C) Uma teologia crítica, que leve em conta o drama espiritual de tantas
pessoas ainda presas ao pecado, que será superado por meio da cura e da
libertação.
(D) Um novo modo de fazer teologia na América Latina, que rompa com
dogmas e conceitos elaborados em outras épocas e pensados fora do
continente latino-americano.
(E) Uma nova maneira de fazer teologia, que reflita a práxis histórica a partir
das multidões excluídas, em vista da construção da nova sociedade, aberta
ao dom do reino de Deus.

126
2 ENADE 2015 – QUESTÃO 21

O meio ambiente, os direitos humanos e a ética são problemas urgentes


do mundo contemporâneo. Eles deram origem a uma série de reflexões
que procuram seu lugar na academia por meio dos temas da ecologia, dos
direitos humanos e da bioética, sem que se devam constituir em disciplinas
do conhecimento, mas, mantendo sua dimensão problemática, permitam ser
abordados de maneira interdisciplinar. Hoje, a fundamentação argumentativa
dos direitos humanos não pode, nem deve dar passagem à nova racionalidade
ideológica e socioeconômica que centra sua absolutez no mercado e não
na vida, às custas dos fracos argumentos políticos, das fracas democracias
contemporâneas, pois o mercado parece estar tirando-lhes espaço. Para esta
nova lógica da oferta e da procura, o valor se enraíza na intercambialidade,
na possibilidade de atribuir um valor, que não radica na essência, nem em sua
finalidade ou uso. Esta contingência da realidade exige, pelos direitos humanos,
uma volta ao sujeito. A pretensão de propor uma fundamentação teológica dos
direitos humanos não é uma intromissão no mundo jurídico nem no mundo
da política internacional. Os direitos humanos reclamam por si mesmos a
compreensão do horizonte teológico, não porque eles tenham de teologizar-se
ou converter-se em categorias teológicas, mas porque se convertem em locus
teológico, ou seja, lugar de onde podem ser compreendidos perante o sujeito
que está em constante busca de concretizar a proposta do reino de Deus.
FONTE: CORREDOR, D. E. Fundamentação teológica dos direitos humanos. Cadernos
de Teologia Pública. Ano 2. N. 15. 2005. (adaptado).

Com base no texto, no que diz respeito à inserção do teólogo em espaços


públicos e privados de discussão interdisciplinar, assinale a opção correta:

(A) O teólogo, cujo discurso se pauta no sobrenatural, não deve extrapolar o


horizonte do seu discurso em discussão sobre direitos humanos.
(B) O fato de não ser veiculado nos meios de telecomunicação, em razão dos
altos custos de transmissão, leva o discurso teológico dos direitos humanos
a ser desconsiderado.
(C) A participação do teólogo em discussões sobre direitos humanos, entre
outras que são fundamentais, atualmente, não pode ser vista como uma
ingerência, devendo, ao contrário, ser considerada colaboração.
(D) A grande maioria da população é controlada pelo que dizem os meios de
comunicação de massa, razão pela qual a teologia e os direitos humanos
perdem cada vez mais espaço na sociedade atual.
(E) O fato de não ser possível comprovar os argumentos teológicos torna um
contrassenso considerar a participação de teólogos em discussões sobre
direitos humanos.

127
128
UNIDADE 3
TÓPICO 2

DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

1 INTRODUÇÃO
A Teologia da Libertação sempre se propôs a reexaminar todo o conteúdo
básico da revelação e da tradição, e com isso ela deixa evidentes e transparentes
as dimensões sociais e libertadoras implícitas em ambas as fontes – a tradição
e a revelação. Novamente, isto não é uma questão de reduzir a totalidade do
mistério para esta dimensão, mas de sublinhar os aspectos de uma verdade maior
particularmente relevante para nosso contexto de opressão e libertação vivido
aqui na América Latina.

Tal formalização também corresponde às exigências pastorais. Os


últimos anos têm visto um grande número de situações em que a Igreja tem se
envolvido com os oprimidos, com um número muito grande de agentes pastorais
envolvidos. Muitos movimentos surgiram sob a tutela, em grande medida, da
Teologia da Libertação; estes, por sua vez, colocaram novos desafios à Teologia
da Libertação. Quando lançamos o olhar especificamente sobre o Brasil, existem
movimentos ou centros de união e conscientização, de direitos humanos, de
defesa dos moradores de favelas, de sem-teto, das mulheres marginalizadas, dos
indígenas, do agricultor familiar rural e tantos outros.

Queremos acreditar que a teologia, no seu viés libertador, é um


movimento que tenta interpretar a Escritura através do sofrimento dos pobres.
Os verdadeiros seguidores de Jesus, de acordo com esta teologia, devem trabalhar
em direção a uma sociedade justa, que visa trazer a mudança social e política, e
um alinhamento com a classe trabalhadora. Jesus, que era pobre mesmo, aponta
explicitamente seu foco nos pobres e oprimidos, e qualquer igreja legítima dará
preferência aos que têm sido historicamente marginalizados ou privados de seus
direitos. Por isso a doutrina da igreja deve crescer a partir da perspectiva dos
pobres. A defesa dos direitos dos pobres aqui será vista como o aspecto central
das Escrituras.

De acordo com a Teologia da Libertação, Maria é a expressão, a alegria que


Deus utilizou para libertar os materialmente pobres e alimentar aqueles com fome
e trazer para a realidade aqueles que se julgam materialmente ricos. Ele é um Deus,
em outras palavras, que favorece os destituídos sobre aqueles com riqueza.

129
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

A teologia que vamos estudar, ou as teologias, sempre, em todo momento,


vão buscar seu embasamento nas Escrituras, seja ela a teologia evangélica, seja a
católica. Claro que, aqui, vamos dar destaque para o cristianismo, porque esse é o foco
preferencial do caderno: falar da teologia cristã.

Atualmente, os cristãos constituem um terço da humanidade,


aproximadamente dois bilhões de pessoas. Em termos absolutos, o cristianismo
continua a aumentar em número, mas em números relativos está diminuindo.
Há um século, o cristianismo estava convencido de que um esforço missionário
renovado levaria à conversão de praticamente todo o planeta a Cristo dentro de
três ou quatro décadas. Quando chegamos no século passado, essa realidade
mostrou-se inviável. Entramos no século XXI e o que temos? Você pode constatar
números que demonstram uma nova realidade que está diante de nós.

Um fator importante que se mostra como desafio é a crise da missão e isso


se constata em muitas denominações além do catolicismo, das igrejas tradicionais
e até de algumas denominações pentecostais.

Somente números não bastam. Mas demonstram uma porção da


realidade que precisa ser analisada. Enquanto o catolicismo, na Europa, diminui
assustadoramente, em outras regiões do mundo ele cresce, principalmente na
África e em algumas regiões da América. A figura que segue nos dá algumas
informações em números sobre a evolução das principais denominações religiosas
no mundo em três períodos: 1900, 2015 e 2050.

QUADRO 1 – RELIGÕES EM NÚMEROS

1900 2015 (ESTIMADA) 2050 (PROJEÇÃO)

População mundial 1.619.625.000 7.324.782.000 9.550.945.000


Cidades com mais de 1 milhão de pessoas 20 501 880
Cristãos (todas as linhas) 558.131.000 2.419.221.000 3.437.236.000
Mulçumanos 199.818.000 21.703.146.000 2.678.227.000
Hindus 202.973.000 984.532.000 1.183.629.000
Budistas 126.956.000 520.002.000 575.769.000
Judeus 12.292.000 14.532.000 15.500.000
Ateus 226.000 136.444.000 125.723.000
NÚMEROS RELATIVOS A IGREJA
Mártires cristãos (média anula) 34.400 90.000 100.000
Denominações 1.600 45.000 70.000
Templos 4000.000 4.309.000 9.000.000
Bíblias impressas por ano 5.452.600 82.600.000 135.000.000
Pessoas não evangelizadas 880.122.000 2.124.216.000 2.608.900.000

FONTE: Disponível em: <https://noticias.gospelprime.com.br/cristianismo-maior-religiao-mundo/>.


Acesso em: 12 mar. 2016.

130
TÓPICO 2 | DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

2 TEOLOGIA EVANGÉLICA
Para falar da teologia evangélica é fundamental entender, antes de tudo,
que tem havido uma mudança significativa na forma como os cristãos latino-
americanos percebem a pessoa de Jesus Cristo. As imagens clássicas do Menino
Jesus e o sofrimento de Cristo das cenas da paixão, habilmente descritos e
analisados por vários estudiosos, foram substituídos por uma imagem de Jesus
mais voltado na busca da justiça, da paz, aquele Jesus do Novo Testamento.
A contribuição específica da teologia evangélica a esta mudança tem sido, nos
últimos anos, a busca por um novo modelo para a missão espelhado no modelo
de Jesus nos Evangelhos, em um paradigma cristológico da ética social e em
um momento de mudança por todo o continente. Esta nova dimensão teológica
se manteve muito próxima das preocupações e das convicções das crescentes
comunidades evangélicas que continuam a crescer na América Latina em todas
as suas vertentes, principalmente as neopentecostais.

A teologia evangélica desenvolve o estudo da revelação de Deus a partir


de uma perspectiva evangélica. O Evangelicalismo é um movimento popular
dentro do protestantismo que enfatiza o ‘nascer de novo’ e ter um relacionamento
pessoal com Jesus Cristo. A palavra evangélico vem do grego, traduzida como
"evangelho" ou "boa notícia". A teologia evangélica pretende descrever toda
abordagem teológica para os evangélicos a partir de sua fé cristã.

Para entender melhor essa dinâmica, vamos elencar alguns princípios


básicos considerados pela teologia evangélica. Em um primeiro momento, a
teologia evangélica está comprometida com uma visão muito forte das Escrituras.
Isto está de acordo com o princípio da Reforma, a ‘sola scriptura’, ou seja, a Bíblia é
a única autoridade de fé e da prática na vida do cristão (2 Tm 3,16). Este biblicismo
evangélico ignora qualquer autoridade tradicional ou oral que pode existir em
algumas igrejas e mantém apenas no comando a Sagrada Escritura. Além disso,
a hermenêutica evangélica geralmente se baseia em uma interpretação literal
da Bíblia. Isso quer dizer que os evangélicos acreditam que a Bíblia deve ser
interpretada literal, histórica, gramatical e contextualmente.

O segundo princípio aponta que a teologia evangélica é amplamente


baseada em uma abordagem individual para a fé cristã. Os evangélicos dão
grande ênfase à conversão individual e à responsabilidade na fé. De acordo com
a teologia evangélica, cada pessoa é responsável por fazer a sua própria decisão
de se submeter ao Senhor Jesus Cristo. A conversão ocorre quando uma pessoa
nasce de novo como uma nova criação sob o poder do evangelho para a sua
salvação (Jo 1,12 3; Rm 1,16). O novo nascimento ocorre individualmente, em vez
de comunitariamente. Em outras palavras, pertencer a uma igreja evangélica não
salva uma pessoa; cada pessoa deve exercer sua fé pessoal em Jesus.

131
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

O terceiro princípio é a forte ênfase no trabalho missionário. Fiel ao


seu nome, os evangélicos promovem o evangelho e têm sido responsáveis
por muitos missionários indo ao redor do mundo para compartilhar as boas
novas de Jesus. Os evangélicos também procurar influenciar a cultura e a lei,
levando a sério o mandamento de Jesus para ser sal e luz do mundo (Mt 5,
13-16). E o quarto princípio direciona o foco sobre a essência do evangelho:
a morte e ressurreição de Jesus (1 Cor 15, 3-7). Que o pecado do mundo foi
pregado na cruz com Jesus é de extrema importância na teologia evangélica.
Como resultado, os cristãos evangélicos tendem a estabelecer altos padrões
morais e éticos para sua vivência cristã.

Em suma, a teologia evangélica incide sobre o evangelho, as boas novas


de Deus para o mundo em Jesus Cristo. Os evangélicos acreditam que a Bíblia
é o suficiente, por ser a Palavra inspirada oficial de Deus e que a mensagem
fundamental da Palavra é graciosa provisão de salvação de Deus através de Seu
Filho unigênito.

3 TEOLOGIA CATÓLICA
Já houve um tempo em que cada cristão se identificava com a Igreja
Católica. Vejamos o porquê. Na sequência de Pentecostes, o evangelho se espalhou
rapidamente. Apesar de momentos de grandes, intensas e violentas perseguições,
grupos de crentes iam surgindo em todo o Império Romano. Estes primeiros
cristãos desfrutavam de uma fé comum dada por Deus. O ensinamento de Paulo
mostrando uma igreja como um corpo formado por todos os verdadeiros crentes
fornecia uma compreensão teológica deste novo relacionamento (1 Cor 12, 12-31).

Os primeiros cristãos usaram o termo católico, vindo do grego que


significava palavra relativa ao todo, para descrever esta natureza mundial da
igreja. O mais antigo documento que contém o termo é uma carta de Inácio do
início do século segundo. Nos três primeiros séculos, "a Igreja Católica" se referia
a todos os crentes que estão ligados à mesma fé em todo o mundo.

Já vimos anteriormente, mas vale aqui reforçar que o que marca e distingue
o católico em torno de uma só igreja é a submissão ao Papa, o Bispo de Roma,
como representante de Cristo na Terra. No entanto, a Igreja raramente se refere a
si mesma como a Igreja Católica Romana. Ele prefere chamar-se a Igreja Católica,
de modo a não limitar de forma alguma a reivindicação de jurisdição universal
como una, santa, católica e apostólica.

Visto isso, a teologia católica, na atualidade, renovou-se a partir do Concílio


Vaticano II, que procurou abrir a igreja para os anseios do mundo contemporâneo
e todas suas novas demandas, sejam elas temporais, espirituais, religiosas etc.

132
TÓPICO 2 | DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

O que se espera é uma igreja aberta ao mundo. O que pedia o Concílio


Vaticano II: à ciência, à tecnologia, de modo preferencial aos que necessitam. Já
temos identificados os mais pobres dos pobres. Se biblicamente temos os órfãos,
as viúvas e os estrangeiros, hoje são os refugiados que são os mais pobres entre
os pobres e são para eles que devem se voltar os olhos, as mãos, todo o empenho
da igreja e da sociedade.

Estamos em pleno Antropoceno, a era em que o ser humano – e não


um meteorito, nem um cataclismo natural qualquer de dimensões
colossais – tornou-se a maior ameaça contra a vida. Edward Wilson
calculou que estamos perdendo a cada ano de 20 mil a 100 mil espécies
vivas. É realmente a sexta extinção em massa e também poderia afetar
uma boa parte da humanidade, especialmente a pobre e sofredora.
Nesse caso, caberá aos sobreviventes reorganizar o planeta em novas
bases. Mikhail Gorbachev, o coordenador das atividades da Carta da
Terra, compara a situação da Terra e da humanidade à de um avião
sobre a pista de decolagem: chega um momento crítico em que o avião
deve decolar, se não quiser colidir com o fim da pista. E, na opinião
dele, já ultrapassamos o ponto crítico, e nós levantamos voo. Mas os
seres humanos são surpreendentes e capazes de mudança. A evolução
não é linear, procede por saltos, e é possível que a humanidade
adquira consciência e dê o salto necessário, abraçando uma nova visão
que tenha no centro toda a comunidade de vida, até mesmo as plantas
e os animais que são nossos companheiros na casa comum. Afinal, o
ser humano tem em si energias divinas, daquele Deus que é soberano
e amante da vida, e que não vai permitir que a vida desapareça.
FONTE: Disponível em: <http://fraternitasmovimento.blogspot.com.
br/2015/10/hoje-dentro-da-opcao-pelos-pobres-e.html>. Acesso em: 25
maio 2016.

Tanto a teologia, quanto a própria Igreja percebem uma perda daquele vigor
dos primórdios. E, com essa constatação, reforça-se o pensamento e também já o
movimento de “retorno” às fontes, tanto à fonte bíblica quanto à fonte teológica.
Com esse retorno às fontes, o vigor retoma novas forças e, a partir daí,

poderá se colocar a serviço de humanidade, e concentrar suas


preocupações na defesa apaixonada do outro:
- denunciando todas as formas de exclusão: por razão de tipo, de
cultura, de etnia, de religião, de classe social;
- propondo caminhos eficazes para ‘incluir no bem comum da
humanidade os emigrantes, os marginalizados, os pobres, os países
subdesenvolvidos, os grupos excluídos, etc.
O grande pecado de hoje é a tendência da sociedade para gerar formas
de exclusão. A grande proposta ética da teologia moral católica tem de
ser de articular um ‘ethos’ da inclusão’ baseado na dignidade humana
compartilhada igualmente por todas as pessoas. (COMPÊNDIO DA
DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, 2005, p. 310).

Com o olhar atento ao desemprego estrutural, à corrupção que está


se tornando estrutural e institucional, a Igreja deve reforçar e justificar a sua
preocupação e seu empenho legitimado por uma teologia que vem para libertar,
para evangelizar.

133
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

O primeiro olhar deve ser com os olhos do Evangelho, e não com olhar
que segue uma metodologia do ver, julgar e agir. Os olhos de um discípulo, que
vão ao encontro do outro, não vão de mãos abanando. Ele tem à sua disposição
a mediação de todas as ciências humanas e sociais. Aqui podemos elencar a
história, a cultura, a religião, a política, a economia. Claro que é preciso filtrar essas
mediações para não reproduzir ou apenas imitar o que tantas outras instituições
já fazem. Purificá-las de seus vícios, sejam antropológicos, sejam sociais. Como se
vê o homem, como se vê a sociedade, como se vê a história. Assim, para o cristão, o
olhar deve se voltar sempre ao Evangelho. Este Evangelho é o concreto na relação
entre o humano e o sagrado – Deus. Dessa forma, percebemos o quão finito é o ser
humano e, mesmo assim, mantém a esperança e o sentido de viver.

Não precisa criar nada novo. A novidade é chegar, é enxergar.

LEITURA COMPLEMENTAR

DIÁLOGO ENTRE EVANGÉLICOS E CATÓLICOS

Bertil Ekstrom
diretor executivo
da Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial

Durante os últimos dez anos tem havido uma aproximação entre evangélicos
e católicos em nível internacional. A Aliança Evangélica Mundial (AEM), através
de sua liderança e suas comissões de teologia e de liberdade religiosa, tem mantido
um contínuo diálogo com o Vaticano concernente a assuntos que se referem à
perseguição aos cristãos em diversas partes do mundo, à situação dos refugiados
e migração internacional, além de temas que historicamente têm gerado conflito
entre católicos e evangélicos. Este diálogo em nenhum momento significa uma
aproximação teológica ou doutrinária, mas busca minimizar hostilidades e buscar
áreas em comum onde pode haver cooperação, como, por exemplo, em questões
éticas, sociais e educacionais. 

Um documento denominado “Testemunho Cristão num Mundo


Multirreligioso” foi endossado pelo Vaticano através do Conselho Pontifício para
a Promoção da Unidade dos Cristãos, pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela
Aliança Evangélica Mundial. O texto é fruto de um trabalho de um grupo de
estudo com representantes das três entidades, trazendo recomendações de boa
conduta na evangelização e no trabalho missionário.

Recentemente um documento foi elaborado pela Comissão de Teologia da


AEM e pelo mesmo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos,
que apresenta as divergências e as convergências entre a fé evangélica e a fé católica
com vistas às comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante em 2017.

134
TÓPICO 2 | DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

O conflito histórico entre católicos e protestantes/evangélicos em nosso


país faz com que tenhamos muitas vezes dificuldade em entender o valor deste
diálogo. No entanto, tem sido de grande importância para os cristãos perseguidos
em muitos países, sendo que o esforço unido da AEM e do Vaticano tem feito
com que governos tenham tomado providências positivas. Em outras situações
de conflito, como, por exemplo, a situação dos palestinos, também tem havido
uma ação conjunta. Em certas questões éticas, evangélicos e católicos estão muito
próximos, como nos assuntos de aborto, eutanásia, manipulação genética e
combate à corrupção e às causas de pobreza e opressão.

Outro exemplo positivo desta colaboração nestes últimos anos tem


sido a aceitação de evangélicos em conselhos para assuntos religiosos em
países onde, em vários casos, a Igreja Romana tem sido a única representante
dos cristãos. Recentemente, representantes da Aliança Evangélica de Sri Lanka
foram convidados a fazer parte dos diálogos religiosos do governo devido a uma
recomendação do Papa Francisco junto aos líderes católicos daquele país.

FONTE: Disponível em: <http://www.ultimato.com.br/conteudo/o-dialogo-entre-evangelicos-e-


catolicos>. Acesso em: 2 abr. 2016.

135
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico vimos:

• Que a teologia ou as teologias, sempre, em todo momento, vão buscar seu


embasamento nas Escrituras, seja ela a teologia evangélica, seja a católica.

• Que a teologia evangélica incide sobre o evangelho, sobre as boas novas de


Deus para o mundo em Jesus Cristo.

• Que os evangélicos acreditam que a Bíblia é o suficiente, por ser a Palavra


inspirada oficial de Deus.

• Que a teologia católica, na atualidade, renovou-se a partir do Concílio Vaticano II.

• Que a Igreja Católica procurou se abrir para os anseios do mundo contemporâneo


e todas suas novas demandas, sejam elas temporais, espirituais, religiosas etc.

136
AUTOATIVIDADE

Levando em consideração a importância do ENADE para você,


acadêmico, e para a instituição, estamos reproduzindo algumas questões
aplicadas no ENADE em 2015, para que você possa se familiarizar com a
dinâmica utilizada na prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão
concluir o curso no ano do ENADE terão que realizar.

1 Questão 21 – ENADE 2015 – TEOLOGIA


As fontes da religião, por um lado, são problemas da vida como anseios religiosos
e, por outro, revelações de um poder transcendente. A religião baseia-se em
necessidades. O homem indaga pelo “para quê” de sua existência passageira e
de tudo que faz e sofre. Não encontra sentido nas coisas transitórias. Em geral,
não se satisfaz com categorias como acaso, risco ou destino para interpretar
experiências mais importantes. Alimenta a esperança no sentido transcendente
para sua vida cotidiana.
ZILLES, U. Situação atual da filosofia da religião. Teocomunicação. V. 36, n.
151, 2006 (adaptado).

De acordo com o exposto, a religião relaciona-se com a ideia de dar sentido à


vida. Nessa perspectiva, a relação do ser humano com o Sagrado ou o Absoluto
é importante porque as pessoas

(A) somente encontram sentido na vida ao se tornarem membros de uma


religião e seguirem rigorosamente suas doutrinas sobre a fé.
(B) vivem individualmente seus dramas e sofrimentos e sua relação com o
Sagrado lhes dá um sentido, suprindo a necessidade de uma vida exterior
ou coletiva.
(C) descobrem o sentido dos acasos e sofrimentos da vida concreta, conseguindo
resolver as questões referentes à sua finitude e às suas necessidades por
meio da sacralização interior.
(D) passam a ignorar os problemas da vida cotidiana por saberem-se seres
transitórios, buscando apenas uma vida contemplativa e aguardando as
revelações do poder transcendente.
(E) tomam consciência de uma realidade que transcende a elas e a tudo que é
finito, considerando que até a vida cotidiana faz parte de um todo ao qual
se submetem pelo sentido que encontram no infinito.

137
2 QUESTÃO 23 – ENADE 2015 –TEOLOGIA
Em decorrência da decretação de estado de calamidade pública por conta das
chuvas, várias pessoas da sociedade se mobilizam para prestar socorro e ajuda
às pessoas atingidas pelas cheias. Uma comunidade religiosa foi convidada a
unir esforços com outras comunidades nessa mobilização. Entretanto, resiste a
colaborar, pois não se sente à vontade para trabalhar em conjunto com pessoas
de outras crenças. A comunidade solicita que seu líder religioso se pronuncie
contra ou a favor da união de esforços com outras comunidades no socorro e
na ajuda às pessoas atingidas pelas cheias.

Considerando essa situação hipotética e os princípios teológicos que evidenciam
a relevância social da religião, avalie os seguintes argumentos que poderão ser
utilizados pelo líder religioso.

I. a comunidade deve trabalhar em conjunto com pessoas de outras crenças


religiosas, porque o mandamento do amor está acima dos costumes e
normas internas da comunidade.
II. a comunidade deve trabalhar em conjunto com pessoas de outras crenças
religiosas; por causa desse gesto, Deus abençoará a comunidade.
III. a comunidade deve trabalhar em conjunto com pessoas de outras crenças
religiosas, porque os fiéis são protegidos por Deus; nenhuma maldade os
atingirá.
IV. a comunidade deve trabalhar em conjunto com pessoas de outras crenças
religiosas, porque a promoção da vida humana é um princípio religioso
fundamental.

Os argumentos teológicos que evidenciam a relevância da religião são:

(A) I e II apenas.
(B) I e IV apenas.
(C) II e III apenas.
(D) III e IV, apenas.
(E) I, II, III e IV.

138
UNIDADE 3
TÓPICO 3

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico queremos explorar a contribuição da teologia e, por
conseguinte, alguns de seus pensadores que escolhemos de forma a contemplar a
linha de pensamento expressa na nossa ementa e, por conseguinte, neste caderno
de estudos.

Queremos aqui argumentar, e você pode estabelecer os seus próprios


parâmetros e também argumentar que, no contexto latino-americano, tem
havido uma redescoberta de uma relação fluida e por vezes contraditória entre
a prática da religião e a prática da política. Como o nosso ponto geográfico é a
América Latina, os cristãos foram forçados a responder às crises na política, e
na qual suas próprias crenças, práticas e modo de vida foram levados ao limite
por violações dos direitos humanos e formas absolutistas de governo. Façamos
um resgate histórico das crises de governos, muitos tomados por militares que
tivemos em nossa região: Chile, Argentina, Brasil. Qual foi a resposta cristã desse
confronto contra o Estado, ou um silêncio obsequioso? As relações históricas
entre a Igreja e o Estado têm sido bem documentadas, mas com o advento de
governos democráticos e ao colapso dos regimes socialistas na Europa Oriental,
a essas narrativas foi dada menos atenção por teólogos e cristãos ao redor do
globo. No entanto, as relações básicas entre religião e política delineadas pelo
grande pensador Gustavo Gutiérrez se tornaram o manifesto cristão para ações
cristãs relacionadas com mais problemas contemporâneos da América Latina e do
Terceiro Mundo: problemas contemporâneos de propriedade da terra, a conquista
econômica neoliberal do Terceiro Mundo, a opressão das mulheres, a destruição
das florestas tropicais, o aquecimento global, a corrupção e os direitos indígenas.
A fim de compreender o que se tornou um manifesto cristão e a influência que
os pioneiros da Teologia da Libertação tiveram na ação cristã até os dias atuais.

139
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

2 DESAFIOS
O desafio constante para a Teologia da Libertação é descobrir como se
manter interligado na vida concreta das pessoas, de modo preferencial aos mais
pobres. Por exemplo, grande parte da Teologia da Libertação latino-americana
ainda não leva os insights da teologia feminista a sério na sua análise econômica,
embora a maioria das pessoas pobres na América Latina sejam mulheres. A
concretude da pobreza na América Latina não se permite desafiar a mentalidade
patriarcal que ainda domina tanto a Teologia da Libertação latino-americana.

Também como grande desafio para a Teologia da Libertação é responder


às críticas, principalmente da sua base empírica, e aí é possível abrir o leque
também para os filósofos que muito contribuem para o seu avanço e também
para a clareza nas ideias. Leia atentamente esse texto de João Batista Libâneo,
intitulado “Panorama da Teologia latino-americana nos últimos anos”. Você pode
ver este texto na íntegra, pois aqui vamos apresentar somente a parte que levanta
as críticas para a Teologia da Libertação.

Da parte de teólogos e filósofos, surgem críticas à fragilidade da base


empírica da TdL e à deficiência do embasamento filosófico. A base empírica
simplifica uma leitura da realidade cada dia mais difícil de ser realizada
com um instrumental monocolor. As análises da teoria da dependência
e marxistas não dão conta de interpretar o neocapitalismo avançado das
sociedades superindustrializadas, nem a rede complexa de interligações entre
as economias. A opção revolução por parte da TdL não termina sendo ineficaz
em vista de maior justiça social? A busca de libertação nacional não paga um
preço inevitável e alto? A TdL não silencia por demais as alienações do mundo
socialista, hoje tão claramente expostas, mas já desde muito tempo percebidas?

O próprio fracasso do socialismo real mostrou a sua insuficiência teórica


e os seus erros programáticos. A TdL, segundo esses críticos, pagou e ainda paga
um tributo excessivo a tal análise. A categoria filosófica de práxis, apesar de
central na TdL, não tem sido trabalhada com rigor conceptual que permita uma
estruturação mais consistente e sistemática da TdL. Encerra muita ambiguidade.

Outra área de críticas toca a pretensão utópica e messiânica da TdL.


Todo movimento e sua correspondente teoria que pretende ser portador de
uma revolução messiânica e utópica carrega em si o germe do autoritarismo,
do despotismo, e termina sendo fonte e foco de violência. Beira o fanatismo e
a intransigência. Além disso, a TdL incorre na ilusão maniqueísta de dissociar
cristianismo e história, ao criticar as alianças entre o cristianismo e o Ocidente
dominador, o cristianismo e as classes dominantes e querer libertá-lo de tais
grilhões seculares e assim "restituí-lo à pureza de sua essência e desprendê-
lo da cultura ocidental possuída pelo demônio de um projeto de dominação
que encontra, no capitalismo avançado dos nossos dias, sua última e mais
monstruosa realização".

140
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

Na posição dicotômica da TdL, em que se opõem frontalmente capitalismo


e socialismo, reflete-se pouco, observam críticos, sobre a troca de ideologias.
Olha-se a realidade na ótica marxista e esquece-se que o dogmatismo marxista é
também uma prisão opressora para a leitura da realidade e da Palavra de Deus.

A TdL, na crítica de alguns autores, não escapa de certo "imanentismo


historicista" por deixar-se embalar pelo pensamento utópico de corte marxista.
Estes aspectos utópicos a colocam em choque com a teologia da história, que
assume como eixo central da história o mistério da encarnação. Nessa leitura
utópica da história, esta é movida por uma implacável luta de classes, entre o
bem e o mal, a caminho duma sociedade sem classes, vitória do bem sobre o
mal, na esteira do mito marxista.

A teologia é, no fundo, uma reflexão entre o agir interpelante e


salvífico de Deus ao homem na história. A sua inteligência e sistematização
implicam necessariamente uma compreensão do homem. No pressuposto de
toda teologia está uma antropologia. A TdL fala continuamente da sociedade
nova, do homem novo. Mas falta-lhe a elaboração de uma antropologia que
responda à sua leitura da revelação. Está mais implícita que tematizada. E
a concepção implícita antropológica de certa TdL, segundo alguns filósofos,
parece incompatível com a fé, devido à sua visão prometeica do homem.

Além destas críticas teóricas, constata-se que a TdL não tem conseguido
responder aos problemas da "intelligentsia" sobretudo técnica e tecnológica da
sociedade moderna, ao restringir-se quase exclusivamente ou às classes populares
ou à problemática estritamente social. A classe média liberal, fundamental para uma
verdadeira transformação social, não tem recebido a devida atenção. Assim, as elites
dirigentes tornam-se cada dia mais alheias não só à fé cristã, mas até mesmo aos
verdadeiros interesses populares. E a desejada libertação dos pobres fica ainda mais
distante. Questão que vem sendo levantada pelos próprios teólogos da libertação.

Todo balanço crítico é um esforço sintético que se molda dentro de


esquemas anteriores. Este longo périplo tentou mostrar uma teologia viva e
em tensão. O polo escolhido foi a TdL. Pese tanta objeção e crítica, ela continua
renovando-se, buscando novos temas, cobrindo tarefa importante no seio da
Igreja. A seu lado estão outras correntes que buscam maior espaço teórico,
posto já terem ocupado maior relevo institucional. Talvez seja um dos traços
mais importantes da conjuntura eclesial da América Latina, certo descompasso
entre a reflexão teológica e certos novos arranjos administrativos.

Contudo, em meio à incerteza cada vez maior para os pobres, a


preocupação por eles continua sendo uma exigência para todos. E esta opção
da Igreja é-lhes ainda uma réstia de esperança. Ser esperança para os pobres é
a maior responsabilidade social e histórica da Igreja. Ser apelo de conversão a
todos é sua vocação missionária. Ser reflexão séria, coerente e regrada é tarefa
intelectual de qualquer teologia latino-americana. Estar aberta a sempre novas
reformulações, autocríticas, aperfeiçoamentos é sua possibilidade de futuro.

141
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

No Encontro Internacional de El Escorial (1992), tentou-se, ao final de


um balanço da TdL nas últimas décadas, traçar-lhe as perspectivas de futuro.
Talvez a maior parte da TdL ainda esteja por ser escrita, já que seu período de
existência, em termos de movimento histórico e correntes teológicas, é muito
restrito. O futuro da TdL interliga-se profundamente ao destino de vida dos
pobres no processo histórico vigente. Em outras palavras, a TdL só tem futuro
se, no tempo novo que se abre, a perspectiva a partir do reverso da história e a
força histórica dos pobres ainda têm sentido e são pensáveis.

FONTE: Disponível em: <http://servicioskoinonia.org/relat/229.htm>. Acesso em: 25 maio 2016.

A Teologia da Libertação terá de abordar mais intencionalmente e


criticamente as maneiras em que o capitalismo continua a funcionar como a
inquestionável ideologia do mundo globalizado e como a economia dominante
no Ocidente. Algumas organizações internacionais, como o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), salvaguardam
uma cada vez maior margem de lucro para as partes interessadas, neste caso, os
ricos à custa das nações economicamente mais pobres e indigentes. Estes dois
organismos institucionalizaram uma ideologia de mercado neoliberal.

No nosso cada vez mais globalizado mundo econômico, os países têm-se


muito mais em dívida com os interesses do mercado e longe da responsabilidade
perante os seus cidadãos.

FIGURA 32 – CAPITALISMO SEM FREIOS

MESTRE, DESISTO, DEVOLVA MEU FARDO,


ELE É MUITO MAIS SUAVE QUE O SEU!!!

FONTE: Disponível em: <http://tribunadainternet.com.br/noel-o-bom-velhinho-


em-especial-para-o-mundo-dos-negocios/>. Acesso em: 20 abr. 2016.

142
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

Ao lançarmos nosso olhar para a América Latina, podemos constatar, via


de regra, o seguinte:

A América Latina continuará mantendo um ritmo acelerado de


aumento de população e de concentração nas cidades grandes. Tornar-
se-ão mais agudos os problemas que afetam os serviços públicos. A
população vai ser majoritariamente jovem e terá dificuldade crescente
em encontrar locar de trabalho.
Por outro lado, a sociedade do futuro apresenta-se mais aberta e
pluralista, por outro, é submetida ao influxo cada vez maior dos
ditames dos meios de comunicação, que irão programando cada vez
mais a vida do homem e da sociedade. (PUEBLA, p. 115.)

Em termos de desafios, objetivos e aspirações, a Teologia da Libertação


certamente mostra-se como uma expressão de preocupação cristã pela pobreza e
opressão, do compromisso cristão e de solidariedade com os pobres e os oprimidos.

Ela é construída a partir de uma concepção dinâmica da salvação, uma


teologia em que o homem em relação a seu fim último é visto em sua totalidade e
não apenas em termos de sua alma. Dentro de tal perspectiva, a libertação social
é vista como parte integrante da libertação escatológica.

A distinção entre a vida natural e sobrenatural não implica uma separação


das duas realidades; ela expressa a vida como uma realidade experimentada em dois
níveis diferentes. Ambos devem ser vistos como tendo uma relevância para o outro.
Pela encarnação de Jesus, a vida natural tornou-se orientada para o sobrenatural, tal
que não pode ser devidamente considerada fora da esfera do sobrenatural.

Você, acadêmico, deve aprofundar-se nestas questões, pois aqui não


teremos condições de desenvolver todo pensamento acerca de encarnação de
Jesus, natural, sobrenatural. Busque mais bibliografias que tratem a respeito.

A pessoa humana torna-se assim o centro da unidade natural e


sobrenatural. Podemos, portanto, falar apenas de uma vida experimentada pelo
indivíduo em dois planos diferentes, o natural e o sobrenatural, que compõem a
totalidade da vida propriamente dita. A vida natural não pode ser tratada como
um objeto ou avaliada apenas em termos do seu valor de utilização. Não pode
também ser considerada meramente como um meio para um fim.

A vida natural exprime a finitude do homem; ela aponta para as pessoas


como mestres de seu próprio destino e expressa um valor positivo na realidade
criada. A vida natural é também um meio para a vida sobrenatural; que encontra a
sua realização em Deus que se autocomunica para o homem (graça) e se abre para
que a realização final dê (a vida eterna) a própria vida. Por Meio de Jesus, Deus
se comunica com os homens, mesmo que esse homem, na sua finitude, por vezes
não O reconhece ou tira sua relevância na sua vida. E sobre esse afastamento,
temos vários exemplos para ilustrar isso.

143
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Quando vemos comemorações religiosas transformadas em comércio,


fica evidente essa secularização que vivemos e a marquetização de um evento
religioso utilizado para vender, para lucrar, para girar o mercado.

FIGURA 33 – MARKETING EM CAUSA PRÓPRIA

FONTE: Disponível em: <https://umpdejp.files.wordpress.com/2011/04/charge-jesusxcoelho.jpg>.


Acesso em: 20/04/2016.

Esta vida natural, portanto, incluindo a nossa corporeidade e tudo o


que nos circunda, inclusive esses desafios de resgate do sagrado, torna-se um
componente essencial da única realidade que nos torna divinos/humanos.

A vida não tem significado, a menos que vivida livremente em todas as


esferas disponíveis para nós através da criação. Uma dessas esferas é o social,
é o instinto gregário na pessoa humana e é um dos mais fortes, de modo que
homens/mulheres são por sua natureza seres sociais. A plena realização das suas
vidas envolve, portanto, a realização de sua identidade como seres sociais.

A teologia pode não dizer nada diretamente da vida sobrenatural; no


entanto, faz uma contribuição teológica significativa na sua afirmação da vida
sobre o contexto social – plano natural –, por isso pertence e aponta de forma
essencial para o sobrenatural.

Já a Teologia da Libertação tem a ver com a vida e a realização da mesma


na esfera socioeconômica. Libertação significa libertar a pessoa humana a partir
de estruturas socioeconômicas injustas para uma vida plenamente desenvolvida.
144
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

Esta teologia inculturada afirma e expressa a vida como ela deve ser vivida
dentro do contexto cultural. Vida vivida fora do contexto cultural adequado é
artificial; e a vida não estará plenamente realizada.

Obviamente, o trabalho dos teólogos não pode deixar de trazer à discussão


a presença feminina na teologia latino-americana. São uma exceção, mas suas
contribuições ainda não são parte integrante do trabalho da esmagadora maioria
dos teólogos americanos. Em sua maior parte, esses teólogos ainda são cegos para
seu próprio viés androcêntrico. A Teologia da Libertação, nas próximas décadas,
terá que abordar estes e outros desafios se for para permanecer fiel à sua visão
inovadora.

O maior desafio nestes estudos feitos até aqui, na busca de compreender


melhor a teologia no continente latino-americano, é o papel, a utilidade, a
necessidade da teologia na contemporaneidade.

3 A TEOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE
A teologia contemporânea é geralmente definida como um estudo da
teologia e teológicas tendências da I Guerra Mundial até o presente. Cobre do
século XX aos dias de hoje. As principais categorias tipicamente abrangidas
pela teologia contemporânea incluem o fundamentalismo, a neo-ortodoxia, o
pentecostalismo, o evangelicalismo, neoliberalismo, pós-Vaticano II catolicismo,
a teologia ortodoxa oriental do século XX, e o movimento carismático.

Além dessas categorias maiores, a teologia contemporânea também lida


com áreas especializadas, tais como a teologia da libertação, teologia feminista,
e várias teologias étnicas. Com a grande variedade de credos envolvidos, alguns
estudiosos afirmam servir como "especialistas" em teologia contemporânea.
Pelo contrário, a tendência é se especializar em uma ou mais áreas de pesquisa
teológica contemporânea.

Um ramo mais recente da teologia contemporânea é o estudo do diálogo


inter-religioso. Já tivemos, na unidade anterior, essa discussão da importância do
diálogo entre as religiões. Neste diálogo, a teologia cristã histórica se coloca em
comparação com as visões de mundo, de sistemas de crenças não cristãs, como
base para o diálogo entre as diferentes religiões.

Quanto mais avançamos cronologicamente, mais o diálogo se torna


fundamental para a teologia entender as urgências do mundo. Quando lançamos
o olhar sobre o Brasil. Leia atentamente a reflexão muito real feita por Carlos
Eduardo B. Calvani sobre o panorama dessa dimensão para o Brasil.

145
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

A partir dos anos sessenta começou a se desenvolver no Brasil o


movimento ecumênico de modo mais intenso. Diversos organismos e institutos
ecumênicos foram criados nos bons tempos em que ainda havia muitas verbas
para tanto. Apesar de alguns percalços, o movimento ecumênico só trouxe
benefícios para a teologia no Brasil. A ASTE é um desses frutos, bem como
organismos aqui já citados, como o CESEP e CEBI, além do CLAI, CEBEP,
CONIC, o antigo CEDI, agora Koinonia e o Instituto Ecumênico de Pós-
graduação em Ciências da Religião de São Bernardo do Campo, que, embora
hospedado numa instituição confessional (Universidade Metodista), trabalha
com bastante autonomia e liberdade. Fazendo um retrospecto dos últimos
vinte ou trinta anos de produção teológica no Brasil, observo que tudo o
que houve de novidade, de acréscimo, tudo o que não era mera repetição,
surgiu nesses ambientes ecumênicos mais arejados. O método popular de
leitura da Bíblia, as articulações pastorais, a renovação litúrgica (ainda não
encampada pelas Igrejas), a nova hinologia latino-americana, em geral foram
produzidas por pessoas e grupos envolvidos no movimento ecumênico e
não por iniciativas confessionais isoladas. Apesar de as igrejas protestantes
tradicionais atualmente darem pouca atenção ao movimento ecumênico, esse
é um dos poucos espaços onde vislumbro humanamente alguma esperança
concreta para a renovação da teologia no Brasil. Se há algum conselho que eu
possa dar aos meus alunos de teologia é esse: invistam seu tempo de férias, seus
fins de semana livres, feriados, etc, na participação de encontros ecumênicos
que estão sempre acontecendo pelo Brasil. Muita gente diz que não participa
porque não são divulgados. Isso é preguiça de buscar informações. Procurem
na internet os endereços de sites ecumênicos no Brasil (geralmente todos têm
algum boletim informativo ou, pelo menos, o número do telefone).

FONTE: Disponível em: <http://www.faculdadeunida.com.br/site/servicos/servicos-artigos/53-


desafios-para-o-ensino-da-teologia-latino-americana>. Acesso em: 25 maio 2016.

A realidade está aí. É preciso buscar informações, e hoje, com tantos


recursos tecnológicos, não podemos dizer que não sabíamos da existência de
grupos tão distintos que estão nessa perspectiva de ir ao encontro do outro
através do diálogo.

A teologia contemporânea é essencialmente um campo de estudos


acadêmicos. Como tal, aborda os desafios intelectuais enfrentados, incluindo
a ciência, as questões sociais e práticas religiosas. Enquanto muitos teólogos
contemporâneos partilham uma herança cristã, nem todos a colocam em prática
ou não a reconhecem. Na verdade, muitos estudiosos agnósticos ou mesmo ateus
entraram em campo e estão ensinando aos seus pontos de vista a respeito da fé e
da crença na sociedade contemporânea.

146
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

Para o cristão que crê na Bíblia, a teologia contemporânea é importante,


pois ela traça o desenvolvimento de crenças na história recente. No entanto, é
fundamental perceber que a teologia contemporânea muitas vezes afasta da
teologia cristã tradicional quando se avalia a fé no contexto de vários movimentos
sociais ou em comparação com outros sistemas de crença. Apenas aderindo a
uma cosmovisão bíblica geralmente não é o objetivo e não é suficiente.

Aqueles que querem entender o que a Palavra de Deus ensina sobre temas
importantes da atualidade podem encontrar informações úteis em uma ampla
variedade de materiais teológicos contemporâneos. No entanto, a própria Bíblia não
muda. É o padrão da verdade para o crente, agora e para sempre (1 Timóteo 3: 16-17).

4 CONTRIBUIÇÕES DA TEOLOGIA LATINO-AMERICANA


PARA O MUNDO
Concluindo essa nossa caminhada na busca de uma melhor compreensão
da teologia latino-americana, sua história, suas realizações, passando pelas
correntes, sua espiritualidade, pela Teologia da Libertação, vamos então indicar,
com muita simplicidade, algumas propostas que a teologia latino-americana
apresenta para o mundo hoje.

Para isso, precisamos levar em conta os recentes acontecimentos na


Europa Oriental e China, que nos têm mostrado como o mundo está precisando
de um embasamento na fé, no resgate dos valores fundamentais para poder sair
de tantas realidades de desigualdade espalhadas pelo mundo. Estas questões de
desigualdade, corrupção, o racismo e todos os tipos de abusos contra direitos
humanos não desapareceram na América Latina. Podemos constatar de fato que
eles se tornaram piores em alguns países.

Veja o gráfico a seguir que indica o Índice de Desenvolvimento Humano


do ano de 2011 levantado pela ONU sobre o Brasil e alguns países do mundo para
servir como referência para países da América Latina e mais especificamente para
nós, brasileiros, os índices do Brasil.

147
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

FIGURA 34 – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

O Brasil e o índice de desenvolvimento humano em outros países

Grupo de desenvolvimento: Muito alto Alto Médio Baixo

Expectativa Média de anos PIB per Taxa de


Ranking País IDH de vida de estudo capita (US$) fertilidade

1 Noruega 0,943 81,1 12,6 47.557 2,0


4 EUA 0,910 78,5 12,4 43.017 2,1
45 Argentina 0,797 75,9 9,3 14.527 2,2
48 Uruguai 0.783 77,0 8,5 13.242 2,0
51 Cuba 0,776 79,1 9,9 5.416 1,5
57 México 0,770 77,0 8,5 13.245 2,2
84 Brasil 0,718 73,5 7,2 10.162 1,8
101 China 0,687 73,5 7,5 7.476 1,6
187 Rep. Dem. do Congo 0,286 48,4 3,5 280 5,5

Fonte: ONU Infográfico: estadão.com.br

FONTE: Disponível em: <http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-melhora-indice-de-


desenvolvimento-humano-mas-ritmo-de-evolucao-diminui,793677>. Acesso em: 20 abr. 2016.

A partir deste contexto, desta visão que nos coloca em situações por
vezes desumanas, é que trazemos para discussão, neste tempo que vivemos, as
questões teológicas e éticas relacionadas com a vida e testemunho dos teólogos
e das igrejas que continuam a desafiar essa realidade na América Latina, Ásia e
África, bem como entre os pobres na América do Norte e Europa.

O fim da esperança marxista e tudo o que prometiam outros sistemas que


não o capitalista, predominante nessas regiões, ainda não foi adequadamente
avaliado por teólogos da libertação em relação à sua teologia. Teólogos evangélicos
que não compartilham essa esperança vão continuar a trabalhar em sua própria
agenda no afã de relacionar a sua esperança no Senhorio de Cristo e da sua vitória
final para a luta de um número crescente de pessoas pobres para a sobrevivência.

Esta tarefa é ainda mais urgente porque há evidência factual abundante


agora que, enquanto teólogos da libertação tomaram a "opção preferencial pelos
pobres", na América Latina, os pobres têm, evidentemente, preferido se juntar
às crescentes igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, que trazem
respostas mais eficazes que a teologia católica.

148
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

FIGURA 35 – DIÁLOGO NA DIFERENÇA

FONTE: Disponível em: <http://colunas.gospelmais.com.br/files/2014/02/igrejas_evang%C3%A9l


icas.jpg>. Acesso em: 17 mar. 2016.

Vamos então destacar algumas formas em que a teologia pode fazer uma
contribuição para todo o corpus da teologia cristã, aqui não distinguindo entre
católicos, evangélicos e outras denominações. Vamos aqui reforçar o que vimos
no ponto anterior quando falamos de inculturação, revelação, cultura e tantos
outros valores.

Uma primeira contribuição vem de novas abordagens para questões


antigas. Trazendo para o presente questões antigas com uma visão cultural e
religiosa atual, da América, não mais da Europa, é parte da função de inculturação
latino-americana da teologia. Este casamento entre uma nova antropologia cristã
com uma inculturação fundamentada no Evangelho.

A antropologia cristã anima e sustém a obra pastoral de inculturação


da fé, dedicada a renovar desde dentro, com a força do Evangelho, os
critérios de juízo, os valores determinantes, as linhas de pensamento
e os modelos de vida do homem contemporâneo. Com a inculturação,
torna-se um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e
um instrumento mais apto para a missão. O mundo contemporâneo
está marcado por uma ruptura entre Evangelho e cultura; uma visão
secularizada da salvação tende a reduzir também o cristianismo a uma
sabedoria meramente humana, como se fosse a ciência do bom viver.
(Compêndio da doutrina social da Igreja, p. 294).

149
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Através de tal questionamento, novas formas de colocar a questão podem


ser reveladas ou alguma luz pode ser lançada sobre novas abordagens para a
questão. Além disso, as respostas para velhas perguntas são obrigadas a fornecer
uma compreensão mais ampla da questão envolvida, aqui, no caso, de uma
inculturação verdadeira, fundada no Evangelho.

Outro ponto importante é o sentido de comunidade, sentido de pertença,


muito determinante e fundamental na nossa cultura, preferencialmente cristã.
Por isso o indivíduo define a si mesmo não em termos egoístas, mas em termos
de a comunidade à qual ele/ela pertence. Para ele/ela, o pensamento cartesiano
cogito ergo sum se torna cognatus ergo sum. Busca-se uma revalorização do sentido
religioso, de uma religiosidade que

Apesar de seus desvios e ambiguidades, exprime a identidade religiosa


do povo. Ao purificar-se de eventuais deformações, ela oferece um
lugar privilegiado à evangelização. As grandes devoções e celebrações
populares têm sido um distintivo, conservando valores evangélicos
e são sinal de pertença à Igreja. (DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA,
2005, p. 111).

Aqui se coloca uma nova perspectiva sobre a família e a sociedade, e sua
abordagem à vida é menos mecânica e mais humana e pessoal. O sentido de Deus
e do espiritual é ainda muito forte dentro da cultura, mesmo que não seja tão
forte como era há muitos anos. Vai-se fazendo uma teologia orientada para a
criação. Eles abrigam uma perspectiva que assume um embasamento em Deus na
criação, na ordem da natureza, e na ordem social. Cultiva-se uma visão integrada
da realidade em que até mesmo o profano é visto como capaz de ser incorporado
dentro do sobrenatural. Tudo isso deve ser uma contribuição complementar à
secularização ocidental da teologia, não negando, é claro, o viés individualista.

A teologia deve sempre procurar problemas humanos e dar respostas


correspondentes quando e onde eles existem. E porque muito se comenta e já se
visualiza uma proposta de igreja mundial, e isso também significa uma era de
uma teologia universal, isto é, uma era de teologia cuja visão não será limitada às
perspectivas de uma cultura particular. É uma visão de que tudo tem a ver com
tudo. Não há como negar essa realidade.

Que tudo tem a ver com tudo, em todos os momentos e em todas


as circunstâncias: tudo está em relação, como reconheceu o próprio
papa na encíclica [Laudato si']. A matéria não existe, é apenas
energia altamente condensada, e todos temos o mesmo caminho e o
mesmo destino. E, apesar de todas as crises, todas as dificuldades,
todas as devastações, o universo sempre vai se auto-organizando e
se autocriando rumo a uma complexidade cada vez maior. Teilhard
de Chardin foi profético: existem muitas contradições, passa-se por
tanta devastação e, às vezes, parece que o mal prevalece, mas a vida
nunca foi destruída. Como destacou Edward Wilson, a vida não é nem
material, nem espiritual: a vida é eterna e está imersa no processo da
evolução. E é isso que o cristianismo afirma: que tudo está relacionado
e que existe um fim bom para a humanidade e para o universo. Em
outras palavras, não iremos ao encontro da morte térmica, mas a

150
TÓPICO 3 | A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE

formas cada vez mais complexas e mais altas. FONTE: Disponível em:
<http://fraternitasmovimento.blogspot.com.br/2015/10/hoje-dentro-
da-opcao-pelos-pobres-e.html>. Acesso em: 25 maio 2016.

O surgimento de teologias baseadas em diferentes perspectivas culturais


deve ser visto como um primeiro passo para uma nova era; para o quadro da
teologia mundial genuíno que deve ser desenvolvido a partir dessas teologias
decorrentes de diferentes origens culturais. Por esta razão, essas teologias devem
primeiro se permitir cumprir seu curso completo de desenvolvimento, para não
ficarem à margem de uma contribuição verdadeira e não apenas reproduzir o que
as outras já desenvolvem.

Em suma, é de se esperar que o fortalecimento dessas teologias vai


conduzir à recuperação da verdadeira natureza da teologia como logos, refletido
em Jo 1,14: “e o verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos sua glória, como a
glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.

151
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico vimos:

• Que o grande desafio constante para a Teologia da Libertação é descobrir como


se manter interligado na vida concreta das pessoas, de modo preferencial aos
mais pobres.

• Que a distinção entre a vida natural e sobrenatural não implica uma separação
das duas realidades; ela expressa a vida como uma realidade experimentada
em dois níveis diferentes.

• Que a teologia contemporânea é essencialmente um campo de estudos


acadêmicos.

• Que o surgimento de teologias baseadas em diferentes perspectivas culturais


deve ser visto como um primeiro passo para uma nova era; para o quadro da
teologia mundial genuíno, que deve ser desenvolvido a partir dessas teologias
decorrentes de diferentes origens culturais.

152
AUTOATIVIDADE

Levando em consideração a importância do ENADE para você,


acadêmico, e para a instituição, estamos reproduzindo algumas questões
aplicadas no ENADE em 2015, para que você possa se familiarizar com a
dinâmica utilizada na prova que, obrigatoriamente, os acadêmicos que irão
concluir o curso no ano do ENADE terão que realizar.

1 QUESTÃO 32 – ENADE 2015 – TEOLOGIA


No fundamento da Teologia da Libertação se encontra uma mística: o encontro
com o Senhor no pobre, que hoje é toda uma classe de marginalizados e explorados
de nossa sociedade caracterizada por um capitalismo dependente, associado e
excludente. Uma teologia – qualquer que seja – que não possua, em sua base, uma
experiência espiritual é sem fôlego e tagarelice religiosa. Parte-se da realidade
miserável como a descreveram os bispos de Puebla: “como o mais devastador e
humilhante flagelo que é a situação de desumana pobreza em que vivem milhões
de latino-americanos, vítimas de salários de fome, de desemprego e subemprego,
da desnutrição, da mortalidade infantil, da falta de moradia adequada, dos
problemas de saúde e da instabilidade no trabalho”. Quem não se apercebe dessa
realidade escandalosa não pode entender o discurso da Teologia da Libertação.
Essa experiência-raiz pode ser trabalhada em dois níveis: um, sensível, assim
como se mostra à primeira vista aos nossos olhos; outro analítico, como se revela
em seus mecanismos estruturais postos à vista mediante a análise científica.
BOFF, L. BOFF. Da libertação: o teológico das libertações sócio-históricas.
Petrópolis: Vozes, 1982 (adaptado).

A partir do texto, avalie as afirmações a seguir.


I. É tarefa da teologia perceber a enorme miséria na qual incontável número
de pessoas vive na América Latina, e tal percepção deve levar à indignação
ética e religiosa de forma a mover a ação pastoral em favor das pessoas
atingidas pela miséria.
II. É tarefa da teologia analisar os mecanismos que causam o estado de miséria
de milhos de latino-americanos e de pessoas de outros continentes, articular
críticas e mediar ações que levem a mudanças amplas e radicais da realidade.
III. É tarefa da teologia chamar a atenção de simpatizantes dos princípios
teológicos para que vejam a miséria reinante e se empenhem para amenizá-
la onde seja possível, pois é ilusão pensar que se possa alcançar mudanças
amplas na sociedade.
IV. Na perspectiva da Teologia da Libertação, é urgente uma transformação do
sistema capitalista reinante na sociedade, que beneficia uma minoria em
detrimento da grande maioria, e para alcançar esse objetivo é preciso abrir
mão da espiritualidade e da experiência religiosa ou mística.
V. Os principais expoentes da Teologia da Libertação perceberam que os
bispos em Puebla exageraram na forma como descreveram a realidade de
milhões de latino-americanos, por isso a maioria dos teólogos da libertação
nunca aderiu ao discurso dos bispos.

153
É correto apenas o que se afirma em:

(A) I e II.
(B) II e IV.
(C) III, IV e V.
(D) I, II, III e V.
(E) I, III, IV e V.

2 QUESTÃO 33 – ENADE 2015 – TEOLOGIA

A globalização provoca o fenômeno do sincretismo, do relativismo e do


nivelamento religioso, com sérias consequências teológicas. A globalização,
como definimos, não é simplesmente o fluxo da cultura dominante e
massificante, mas também o circular de todo exotismo cultural possível. E as
diferentes religiões lançam no circuito da internet suas expressões religiosas,
frequentemente como unidades soltas, descoladas do sistema religioso maior.
Cada um capta-as como quer.
LIBANIO, J. B. Globalização e o impacto sobre a fé.
Disponível em: <www.celam.org>. Acesso em: 4 ago. 2105 (adaptado).

Considerando as consequências da globalização para as tradições religiosas,


conforme apresentadas no texto, avalie as afirmações a seguir.

I. A globalização permite que se pense a fé como unidade de crenças; por meio


da internet a religião alcança um maior número de crentes, o que favorece
uma vinculação eclesial única e nivelada, com dimensões objetivas.
II. A presença simultânea de muitas tradições religiosas na internet implica
a relativização das verdades de fé, e, sendo todas as expressões religiosas
igualmente verdadeiras em si, cabe a cada um escolher a que melhor
responde às suas indagações.
III. A fé cristã é contrária às consequências negativas da globalização que
permitem aos novos sincretismos religiosos ameaçar as tradições.
IV. No contexto atual da globalização, as religiões disponibilizam na internet
fragmentos de sua doutrina, o que favorece uma apropriação pessoal, que
pode ser caracterizada como sincretismo.

É CORRETO apenas o que se afirma em:

(A) I e III.
(B) II e IV.
(C) III e IV.
(D) I, II e III.
(E) I, II e IV.

154
QUESTÃO 10 – ENADE 2015 – TEOLOGIA
Não é possível pensar o processo de construção cultural como ausente de
encontros conflituosos. O homem, ser dinâmico e mutável, significa e ressignifica
a realidade dialeticamente, dando-lhe sentido. Uma consequência gerada pela
secularização foi o pluralismo religioso, conforme denominou Berger (1995).
Ou seja, as religiões não possuem mais o monopólio sobre a sociedade e suas
esferas; dessa forma, surge o pluralismo, que possibilita às pessoas transitar
pelas mais variadas formas de expressão religiosa. Assim, crescem o mercado
e a oferta religiosa, o que se pode perceber nitidamente, em nossas cidades,
pelo número de igrejas que abrem e fecham todos os dias, na esteira dos
novos movimentos religiosos (NMRs). O processo de secularização não afeta
simplesmente o espaço das tradições religiosas, mas também a cultura vigente
e, mais, a dimensão subjetiva da pessoa. Os NMRs, extremamente diversos,
tornaram-se visíveis a partir da Segunda Guerra Mundial, e como religiosos,
oferecem não apenas um posicionamento teológico sobre a existência e sobre
as coisas sobrenaturais, mas se propõem a responder, no mínimo, a algumas
questões últimas que, tradicionalmente, têm sido endereçadas às grandes
religiões.
GUERREIRO, S. Novos movimentos religiosos. O quadro brasileiro. São
Paulo: Paulinas, 2006. (Adaptado).

A partir desse texto, assinale a opção CORRETA:

(A) O processo de secularização favoreceu o predomínio das religiões sobre as


sociedades.
(B) A secularização contribuiu para o surgimento de novas expressões
religiosas.
(C) As consequências da secularização uniformizaram as religiões tradicionais.
(D) Os NMRs representam uma realidade que atinge uma cultura específica.
(E) Os NMRs negam-se a responder questões tradicionais das grandes
religiões.

155
UNIDADE 3 | TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

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