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Miguel de Ávila Duarte

Se perdendo neste mundo que é o Brasil:


leite criôlo e a rede modernista nacional.

Monografia apresentada ao Departamento de História da


Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Federal de Minas Gerais como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel em História

Orientador: Profª Drª Eliana Regina de Freitas Dutra

Belo Horizonte

2008

1
Monografia apresentada à banca examinadora constituída pelas professoras

__________________________________________________________

Profª Drª Eliana Regina de Freitas Dutra – UFMG

Orientadora

__________________________________________________________

Profª Drª Vera Chacham – UFMG

2
dedico este trabalho à Paulinha, minha
estrutura óssea;

a Myriam e Rodrigo, meus pais,


interlocutores e companheiros de
cafezinho;

ao Affonso, meu
avô e sábio verdadeiro;

e (in memoriam) à Laís, que foi


minha avó e minha amiga.

3
AGRADECIMENTOS

À minha orientadora Profª Drª Eliana Regina de Freitas Dutra – grande professora e
pesquisadora com a qual aprendi muito e que sempre acreditou nesta pesquisa – e, por
meio desta, ao Projeto Brasiliana, um dos ambientes mais estimulantes imagináveis para
um aprendiz de historiador como eu.

Aos programas de bolsas de Iniciação Científica do CNPq e da FAPEMIG, por


haverem facilitado os primeiros passos na aprendizagem deste nosso ofício.

Ao Prof. Luciano Cortez e Silva do Departamento de Letras da PUC-MG, que


orientou um primeiro projeto de pesquisa sobre leite criôlo naquela instituição e me
guiou nas minhas primeiras investidas no universo do Modernismo brasileiro dos anos
1920.

À senhora Eunice Vivacqua (in memoriam) e à Profª Constância Lima Duarte, ligada
ao Acervo de Escritores Mineiros (AEM) da UFMG, que me franquearam, em
diferentes momentos, o acesso ao arquivo pessoal de Achilles Vivacqua, assim como à
colega bolsista de iniciação científica Juliana Cristina de Carvalho, que me ajudou na
consulta propriamente dita.

Ao escritor Affonso Ávila, que me auxiliou com informações e com empréstimos de


parte do material consultado.

Ao Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte e ao Núcleo de Estudos Interdisciplinares da


Alteridade (NEIA) da Faculdade de Letras/UFMG, pelo interesse que demonstraram na
presente pesquisa, me possibilitando apresentar por diversas vezes os resultados parciais
da minha pesquisa e ter o prazer de discuti-los com este grupo sério e dedicado de
pesquisadores. Dentre eles devo destacar o doutorando Adélcio de Sousa Cruz, a quem
devo uma das conexões mais interessantes do presente trabalho (ver P. 103).

Ao Prof. Dr. Eduardo Jardim de Moraes que não apenas teve a gentileza de me enviar
uma cópia de seu fundamental livro – infelizmente esgotado – sobre a brasilidade
modernista, como também me proporcionou a honra de uma troca de idéias sobre os
assuntos aqui tratados.

Aos colegas e amigos que tiveram a paciência de discutir comigo o presente trabalho
nas suas diversas fases, em especial Igor Daniel Borges e Valdeci Cunha.

4
Resumo

Esta monografia tem por objetivo analisar a inserção da publicação modernista leite
criôlo e do grupo de escritores responsável por ela no que denominamos de rede
modernista nacional. Nela focamos as conexões do núcleo responsável pela publicação
com outros núcleos modernistas espalhados pelo país; as tomadas de posição que se
expressam no âmbito dos gêneros textuais e dos temas presentes nas suas página; e a
posição de leite criôlo na construção da memória da geração modernista.

5
Conteúdo

1. SE PERDENDO NESTE MUNDO QUE É O BRASIL: leite criôlo e a rede


modernista nacional.......................................................................................................... 7
2. CAVANDO UM LUGAR DE MODERNISTA: a trajetória do grupo de leite criôlo e
de sua publicação no âmbito da rede modernista nacional............................................. 29
O consórcio do velho lirismo com a poesia moderna................................................. 31
A revista que só tem estomago ................................................................................... 46
O grande atentado às boas letras................................................................................. 56
3. NÃO TÃO SOMENTE PELA POESIA: gêneros e temas em leite criôlo. ............... 72
Com a figura da mãe preta na cabeça...................................................................... 74
No Amazonas da poesia ............................................................................................. 84
A prosa salvadora ....................................................................................................... 92
O processo de desnatar ............................................................................................... 95
O “criolismo” em exemplos ..................................................................................... 102
4. TOTALIZANDO NOSSA MANEIRA: conclusão.................................................. 106

6
1. Se perdendo neste mundo que é o Brasil: leite criôlo e a
rede modernista nacional.

Guilhermino é, entre os verdes de Cataguases, o de


coração mais suave. (...) Teria Guilhermino Cesar
mudado feitio como se muda de alfaiate? Parece que o
poeta esta se buscando, inquieto neste mundo que é o
Brasil. Esta se buscando ou se perdendo.

- Enquete com escritores mineiros, Diario de Minas,


7/4/1929.

7
O presente trabalho tem por foco a inserção de uma publicação modernista

relativamente esquecida1 de Belo Horizonte – leite criôlo de 1929 – naquilo que pode

ser definido como a rede modernista brasileira2. Investigação restrita e específica que,

no entanto, pretende contribuir para a compreensão propriamente histórica do

movimento modernista brasileiro. Para tanto é necessário definir minimamente como o

presente fragmento se coloca no conjunto das possibilidades (perspectivas) de

entendimento de um objeto de pesquisa mais amplo, cuja definição é, em grande

medida, resultado da perspectiva adotada em cada caso.

Talvez a maneira mais tradicional de conceber o modernismo seja pensá-lo como

um período ou fase dentro da história literária ou intelectual no Brasil, esta concebida

como uma alternância de fases, movimentos e/ou estilos. Existem, de fato, várias

periodizações conflitantes para o modernismo sob tal perspectiva: Antonio Candido

propõe uma subdivisão em duas fases 1922-1930 (ruptura) e 1930-1945 (construção);

para Nelson Werneck Sodré as datas chave seriam 1922-1930; para José Guilherme

Merquior de 1922 a meados dos anos 19503. Francisco Iglesias já havia atentado para a

relatividade destas datações: “Em sentido estrito [o modernismo], vai de 22 a 30;

dando-lhe mais extensão, pode-se falar de 22 a 45; com mais amplitude ainda, de 22 a

nossos dias”4. À variedade das datações corresponde a variedade das definições do

modernismo. Assim, se a característica fundamental do período for identificada na

pesquisa formal e na influência das vanguardas européias, a periodização tende a ser

1922 a 1930. Características como o nacionalismo literário e político – “criação de uma

cultura verdadeiramente nacional” – tendem a expandir o período até 1945. Por fim, o

caráter fundacional do modernismo – expresso na constituição de um conceito de Brasil

1
O que significa, também, relativamente rememorada e comemorada. Sobre este ponto nos
concentraremos posteriormente.
2
A definição do que compreendemos como “rede modernista nacional” virá logo adiante.
3
Apud. SANT’ANNA, 2005. P. 16.
4
IGLÉSIAS, 1972. P. 13

8
e dos brasileiros que continua a ser evocado de diversas maneiras pela quase totalidade

dos intelectuais brasileiros e, talvez, difundido para outras camadas sociais através da

indústria cultural e das instituições de ensino – estende a duração até os nossos dias5.

O que a concepção de modernismo como período, independente das disputas de

datação, tem de invariável é o peso das análises internas, ou seja, das obras e das idéias

em relação às relações sociais envolvidas na gênese – formação escolar, intelectual,

literária e política; referências implícitas positivas (influências) e negativas às tomadas

de posição anteriores no campo da produção intelectual – e na circulação – publicação,

edição, fortuna crítica, apadrinhamentos e exclusões literários e políticos – destas

mesmas obras e idéias. É necessário frisar que a evocação do “contexto” do movimento,

entendido como um pano de fundo político, econômico e social das obras e das idéias,

não resolve a questão: pensados em termos de analogias com seu “contexto” definido

em termos excessivamente vagos e gerais, os autores e as obras se justapõem a ele como

o “indivíduo” à “sociedade”. Tal dualismo acaba por destruir o caráter social do objeto

de pesquisa através das articulações de sociedade com coação e de indivíduo com

liberdade. Quando se concebe os agentes como “marionetes” das estruturas sociais ou

“criadores incriados” de si mesmos e das suas próprias obras, a lógica específica das

ações destes se torna incompreensível. 6

Outro problema de conceber o modernismo enquanto período consiste em ignorar

toda a produção literária e intelectual daqueles que se opuseram ao movimento. A

estratégia dos modernistas de qualificar como insignificante a produção intelectual e

literária dos que se opuseram a eles, assim como aquela imediatamente anterior ao

movimento, acaba por ser reduplicada por análises que tomam por objeto o modernismo

sem levar em conta aquilo em relação ao que o movimento se posiciona. É fundamental

5
É sintomático que a produção cultural erudita brasileira hoje seja concebida, em parte, como pós-
moderna, mas dificilmente se distancie da herança do Modernismo.
6
Cf. ELIAS, 1994

9
ter em mente que nunca houve um “movimento passadista” e que, sem compreender a

especificidade das múltiplas oposições ao modernismo, não é possível nem mesmo

compreender a vitória que o modernismo lhes impôs em termos de canonização. Pelo

mesmo motivo não adotamos a concepção expandida de modernismo que propõe

Mônica Pimenta Velloso7. Se, como essa autora e também Flora Sussekind

demonstram8, a relação entre a intelectualidade brasileira e a sua produção cultural com

a modernidade técnica e social antecede em muito o movimento modernista estrito

senso, a extensão da denominação “modernista” a grupos que não se definiam desta

maneira não ajuda na compreensão das relações daqueles que nos anos 1920 assim se

definiam – em oposição à denominação considerada pejorativa de “futuristas” – e

chamavam pejorativamente seus adversários de “passadistas”.

Tais considerações nos obrigam a compreender que estudar o Modernismo

Brasileiro implica estudar o monumento que seus participantes e os herdeiros

intelectuais destes erigiram para tal movimento. A porta de entrada para esse estudo é,

no mais das vezes, o cânone artístico e literário, os grandes nomes que surgiram com o

movimento. Ao estudar os futuros notáveis nas suas primeiras investidas no universo da

cultura, mesmo os trabalhos mais sérios tendem a reforçar implicitamente a magia do

momento da origem, da fundação mesma de um universo cultural que, apesar de tudo,

ainda é o nosso. Michel Foucault chama tal jogo de afirmação de precedências de

“pesquisa de origem”, o que segundo ele constituiria mesmo uma das atribuições mais

tradicionais da história: a afirmação da grandeza dos princípios (no duplo sentido

metafísico de fundamentos e de primeiros momentos), ou seja, dos momentos de

fundação. Pode-se dizer que tal exaltação do início como momento forte da história –

afirmada com todas as letras na tradição ocidental durante os muitos séculos nos quais o

7
VELLOSO, 2003. P. 353-360.
8
SUSSEKIND, 1987.

10
caráter monumental da história foi considerado auto-evidente e positivo – permanece

latente, assombrando as ciências históricas e sociais, agora que estas se encontram

obrigadas ao tratamento crítico e autocrítico dos seus objetos.

Assim podemos tomar a terceira das datações do modernismo de que fala Iglesias,

de 1922 aos nossos dias, como ponto de partida para uma outra perspectiva de

compreensão do modernismo, o modernismo como monumento, como memória da

fundação. Tal concepção implica na inclusão do processo pelo qual os produtos

culturais se tornam canônicos ou caem no esquecimento no âmbito do estudo destes

mesmos produtos. Ou seja, para compreender o modernismo é necessário compreender

porque e como o modernismo se tornou um tópico cultural e histórico importante.

Das múltiplas camadas de trabalho acumulado no sentido da canonização do

modernismo, a primeira talvez seja a mais importante: os próprios protagonistas –

através da contínua participação no campo intelectual brasileiro que caracterizou a

maioria deles – constituíram nas décadas que se seguiram ao “período propriamente

modernista” a imagem e a memória da geração modernista. Estabeleceram, por

exemplo, como marcos da sua história pessoal e da história brasileira eventos hoje

notórios, como a Semana de Arte Moderna de 1922 e a visita dos modernistas de São

Paulo a Minas Gerais em 1924. Momento de fundação para a intelectualidade brasileira

e marco na carreira de intelectuais cuja atuação se estendeu por décadas, pode-se

afirmar que a memória do modernismo se caracteriza por reapropriações e atualizações

constantes. Estas, por sua vez, não podem ser ignoradas nas tentativas de compreender

historicamente o movimento, sob o risco de legitimar como características intrínsecas o

que foi sobre ele projetado por suas múltiplas releituras.

Ao esboçar o que consideramos o trabalho necessário para a compreensão história

do modernismo nas suas diferentes facetas – produção e circulação artística e

11
intelectual, “geração” que se produz como geração através da construção de uma

memória coletiva, monumento de um marco fundacional – traçamos apenas um quadro

geral em relação ao qual se situa o pequeno fragmento que representa a presente

pesquisa. Não trataremos aqui da longa construção do modernismo como artefato da

memória, mas sim do funcionamento de um segmento do que chamamos rede

modernista em um momento, final dos anos 1920, considerado “propriamente

modernista” por todas as periodizações citadas. Permanece, no entanto, a consciência de

que reconstruir tal objeto implica em uma vigilância redobrada em relação aos perigos

clássicos da pesquisa histórica, anacronismos e teleologia.

Por rede modernista entendemos o conjunto de relações estabelecidas entre

escritores e aspirantes a escritores de todo o país – e, em alguns casos, do exterior – em

torno da idéia da adesão ao modernismo. Trata-se de compreender o modernismo dos

anos 1920 como uma configuração social, em relação à qual se realiza a produção

cultural de diversos indivíduos e grupos espalhados pelo país. Integrada nacionalmente

por uma intensa troca de correspondências e publicações – cuja dramatização textual

eram os periódicos modernistas, reunindo contribuições de diversas origens – e

localmente em círculos de sociabilidade, tal configuração não se caracteriza por um

conjunto homogêneo de ideais artísticos, intelectuais e/ou políticos ou a adesão a um

programa explícito. Pelo contrário, durante todo o período a rede modernista esteve

cindida em grupos e facções cuja oposição e concorrência variavam da discordância

respeitosa à ruptura total, sendo que o fracionamento e a intensidade das disputas se


9
tornam mais intensos no final da década de 1920, culminando na segunda “dentição”

da Revista de Antropofagia. A afinidade eletiva que reunia os modernistas brasileiros –

luta contra o “passadismo”, ou seja, a cultura “velha”, acadêmica e estabelecida – era

9
A publicação modernista paulista Revista de Antropofagia denominou suas fases de dentições, em
alusão à metáfora do canibalismo presente desde o seu título.

12
vaga o bastante para abrigar as diversas tendências. Na verdade, o que caracteriza a rede

é que todas as publicações, todas as obras, tinham como interlocutor implícito a própria

rede. Positivamente tal interlocução se dava na forma de influência e “inspiração”,

assim como na de público leitor privilegiado, capaz de compreender as “intenções do

autor” do que era visto pelos leitores em geral como absurdo, ultrajante e

incompreensível, constituía também a única instância de reconhecimento considerada

pelos modernistas como verdadeiramente legítima. A interlocução se realizava também

negativamente, por exemplo, através das polêmicas que permitiam aos modernistas

demarcar suas posições dentro do movimento. A noção de rede nos parece interessante

na medida em que descreve um espaço intermediário entre o conceito abrangente de

campo literário – tal como definido por Pierre Bourdieu10, ou seja, conjunto de todos os

produtores de literatura que compõem a “República das Letras”, lugar das disputas

sobre a legitimidade em matéria de literatura, na medida em que ali produzam efeitos –

e o conceito mais palpável, porém mais restrito, de grupos de sociabilidade.

Tal definição da rede modernista padece, porém, de um defeito de ordem

lingüística. As formas verbais que necessariamente devem ser utilizadas criam a

impressão de uma estrutura estática com regras predeterminadas, quando na verdade se

trata de, através da pesquisa, compreender o funcionamento dinâmico e, para os agentes,

imprevisível, de uma configuração altamente instável de curta duração. Entre o primeiro

momento de expansão do modernismo a partir de São Paulo e Rio de Janeiro em

meados dos anos 1920 e a transformação da rede modernista e do próprio modernismo

na virada da década se passam apenas alguns poucos anos. Depois deste período, cujo

marco final coincide com a Revolução de 1930, muitas das características da difusão

original do movimento se alteram, um exemplo entre muitos seria que o gênero literário

10
BOURDIEU, 2005. P. 243-311

13
de preferência do modernismo dos anos 1920, a poesia, perde espaço para os “ensaios

sobre os problemas brasileiros” e para o romance – em especial, e não por coincidência,

o romance de “caráter social”. Outro exemplo seria que neste momento parte

fundamental dos antigos modernistas ingressa na alta esfera do funcionalismo público

ou então em ativa militância dentro de partidos políticos, o que acaba por eliminar o

caráter relativamente descompromissado dos engajamentos intelectuais da década

anterior.

A expansão nacional da rede modernista a partir do eixo Rio–São Paulo – que, na

ausência de uma referência melhor para seu início, poderia ser datada do encontro do

grupo modernista paulista com suas futuras contrapartes mineiras em 1924 – é

contemporânea do processo pelo qual, segundo Eduardo Jardim de Moraes11, ocorre a

adoção por parte do modernismo de um ideário nacionalista. Como mostram este autor

e também Angela de Castro Gomes12, o modernismo não “inventou” o nacionalismo

brasileiro daquele momento. Mas, partindo das tradições disponíveis, o modernismo

transformou e incorporou a discussão do nacionalismo cultural a ponto de se tornar

referência obrigatória para tal questão aos olhos das gerações intelectuais posteriores.

Temos por hipótese que o nacionalismo literário, que se tornou então um dos

pontos fundamentais de movimento que inicialmente havia se definido em torno da

questão da introdução dos procedimentos estéticos das vanguardas européias no país,

era um dos principais atrativos de toda uma nova geração de conversos ao modernismo,

cuja emergência na rede modernista nacional se dará em torno dos anos de 1925-1928.

Ao cabo deste processo, em 1929, a rede modernista abarcava núcleos em quase todos

os estados da federação e servia de aglutinador de toda uma parcela da juventude de

elite – muitos do quais trocavam naquele momento suas bases nas cidades do interior

11
MORAES, 1978.
12
GOMES, 1999.

14
por uma temporada de estudos secundários e superiores nas capitais de seus respectivos

estados.

O grupo de modernistas de Belo Horizonte que iremos analisar aqui, responsável

pela publicação em 1929 de leite criôlo, constitui um destes núcleos de novos adeptos.

Dirigido por João Dornas Filho, Guilhermino César e Achilles Vivacqua, leite criôlo só

pode ser descrito como uma “revista” na mesma medida em que a segunda “dentição”

da Revista de Antropofagia: ambas as publicações eram seções semanais de jornais

diários de perfil comercial, Estado de Minas no caso da publicação mineira e Diário de

São Paulo no caso da publicação paulista. Apesar de, por um lado, leite criôlo ter tido a

sua primeira edição em forma de um tablóide, lançado em 13 de maio de 1929, não

muito diferente nas suas características editoriais de outras revistas modernistas – como

Verde, publicada pelo núcleo modernista de Cataguases de 1927 a 1929, e a primeira

“dentição” da Revista de Antropofagia, publicada pelos modernistas paulistas entre

meados de 1928 e começo de 1929 – por outro lado, a publicação belorizontina é

marcada pelo desejo, ainda que contraditório, de se comunicar com um público mais

amplo que o da rede modernista, de ir além da literatura estrito senso em nome dos

ideais nacionalistas, impulso expresso não apenas pela sua presença em um jornal de

grande circulação, mas também pela distribuição gratuita da única edição avulsa em

praça pública.

Tal interesse por uma aproximação do universo público, que antecipa a postura de

muitos membros da geração modernista a partir dos anos 1930, não deixa de ser, como

já dissemos, contraditória considerando-se que o conteúdo publicado em leite criôlo se

vinculava necessariamente às questões e às tomadas de posição colocadas no âmbito da

rede modernista nacional e, em especial, pelas várias revistas modernistas, que eram a

15
principal forma de manifestação do movimento, dado que muito pouco daquela

produção literária chegava ao formato de livro.

No Brasil, a publicação de revistas literárias remonta ao século XIX13. No

contexto, porém, da aparição das revistas literárias modernistas nos anos 1920, a

literatura era principalmente veiculada em revistas ilustradas e de variedades,

disputando espaço com caricaturas, fotografias, textos humorísticos etc. O paradigma

deste tipo de publicação é a longeva revista carioca Fon-fon, fundada em 1907 e ainda

em circulação na década de 1920, à qual se somam inúmeras revistas na então capital do

Brasil como Careta, Don Quixote, Paratodos e várias outras14. Também em outros

locais foram publicadas revistas nos mesmos moldes e no próximo capítulo trataremos

de duas delas, publicadas em Belo Horizonte nos anos 1920 e em estreita conexão com

a trajetória do grupo que publicou leite criôlo.

Símbolos da relativa profissionalização dos literatos nas trincheiras da imprensa

que caracterizou as três primeiras décadas republicanas, as revistas de variedade, na

medida em que implicavam uma relativa submissão da produção literária ao gosto de

um público mais amplo, não satisfaziam o desejo dos escritores de produzir “literatura

pura” nos padrões vigentes então no campo literário francês, referência hegemônica em

termos de produção cultural naquele momento. Desta forma, no mesmo período foram

publicadas várias revistas focadas principalmente em questões literárias, do conjunto

das quais se destaca o ciclo das revistas simbolistas na década de 190015. O problema

básico do ponto de vista editorial destas revistas – e a principal razão pela qual

deixavam, via de regra, de circular rapidamente – era o fato de não se sustentarem

economicamente: não conseguiam cativar o relativamente restrito público leitor de

então da forma que as revistas de variedades, o que significava, além de vendas baixas,

13
Cf. DOYLE, 1976.
14
Cf. VELLOSO, 2003. P. 360.
15
Cf. DE LUCA, 1999. P. 58.

16
pouco interesse dos anunciantes. Segundo Tania de Luca, a primeira revista

comercialmente bem sucedida a romper com o modelo das “variedades” naquele

contexto foi a Revista do Brasil, publicada em São Paulo a partir de 1916, que poderia

ser definida como uma revista de cultura, e na qual a literatura estrito senso ocupava

uma posição relativamente secundária16.

Pode-se afirmar que neste quadro as publicações modernistas foram

empreendimentos quase sempre deficitários, posto que circulavam em uma conjuntura

na qual o “futurismo” era, para o público leitor mais amplo, sinônimo de absurdo e

ultraje. Assim, tais revistas, feitas muito mais de crença na literatura do que de tino

comercial, recorriam muitas vezes ao mecenato (é o caso da primeira “dentição” da

Revista de Antropofagia, e provavelmente da maior parte das publicações do

modernismo paulista), à cotização entre os escritores (é caso da revista Festa do Rio de

Janeiro17), ou mesmo a publicação enquanto suplemento no interior de um jornal de

circulação garantida (o caso de leite criôlo e da segunda “dentição” da Revista de

Antropofagia), o que implicava no beneplácito das pessoas responsáveis por tal órgão

de imprensa.

A citada renúncia a atender as demandas da ampla maioria do público leitor

disponível é expressa na idéia corrente no período de que não existe público para a

literatura no Brasil, ou seja, não existe um público “à altura” da produção de vanguarda

veiculada pelos modernistas. Se o público tal como ele se apresenta deseja o formato

das revistas de variedade, a literatura “para mulheres” de Julio Dantas18 ou mesmo a

poesia parnasiana, ele deve ser ignorado até que se forme um novo público “à altura” da

16
Idem. P. 56-59
17
GOMES, 1999.
18
Em leite criôlo foi publicado um texto ridicularizando este escritor português, autor de títulos como “O
Eterno Feminino”, “O que morreu de amor” e “O primeiro beijo”, que é descrito no texto como um
produtor de literatura “açucarada” para o público feminino. (“ Julio Dantas, o Brumel” de Oswaldo Abrita
em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929)

17
produção modernista. É neste sentido que a rede nacional modernista é a referência de

público, o universo do leitor modelo, que se manifesta implicitamente nas publicações

modernistas. As próprias publicações encenam a rede, seus fios, seus nós: quem publica

o que onde, o que diz a resenha de fulano da obra de sicrano na revista X etc. Revistas

se resenham umas às outras, definem suas posições, suas afinidades, diferenças e

divergências. No terreno volátil da vanguarda literária é ali que se define, no calor da

hora, publicação a publicação, número a número, o quem-é-quem da província rebelde

da “República das Letras” brasileira. Concretamente, as revistas são distribuídas

nacionalmente através de redes de correspondência19 e seus exemplares ou recortes

deles20 são colecionados por membros dos múltiplos núcleos modernistas espalhados

pelo país.

A expansão máxima da rede modernista se dá até 1929 e tem por símbolo maior a

primeira “dentição” da Revista de Antropofagia que circulou entre meados de 1928 e

início de 1929. As desavenças que puseram fim à primeira fase da revista paulista e

presidiram o surgimento da sua segunda “dentição”, processo que será analisado em

detalhes no próximo capítulo, marcam o começo da fragmentação e das transformações

da rede, que se recomporia sobre bases bastante diferentes na década seguinte.

19
Como comprovação podemos citar trechos da carta de Antônio de Alcântara Machado a Tristão de
Athayde, na qual ele diz que a função de Raul Bopp como secretário da primeira “dentição” da Revista de
Antropofagia “se limitava a enviar pelo correio 70% da tiragem” (Apud SANTIAGO, 2003. P. 107); da
carta de Carlos Drummond de Andrade a Oswald de Andrade de maio de 1929 a respeito da segunda
“dentição” da Revista de Antropofagia – “estou ciente da revista, que leio sempre no ‘Diário de São
Paulo’ (a propósito: obrigado pela remessa do jornal, que só posso atribuir a V.)” (Apud DORNAS
FILHO, 1959. P. 88.); e da carta de Ascenso Ferreira a Achilles Vivacqua, datada de 5 de dezembro de
1929, na qual aquele reclama com este que não tem recebido “o Estado de Minas, nem Leite Crioulo, nem
Montanha [revista modernista de Ubá], nem nada” e atribui tal fato à desorganização dos Correios – na
verdade, leite criôlo havia publicado sua última edição em 29 de setembro daquele ano (Carta de Ascenso
Ferreira a Achilles Vivacqua (5/12/1929). Série correspondência. Caixa 1 [Classificação provisória].
Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG). A remessa de publicações como a
segunda “dentição” da Revista de Antropofagia e leite criôlo, publicados em jornais comerciais de
circulação local, para integrantes da rede modernista nacional de outros estados demonstra a relativa
continuidade das formas de circulação em relação às revistas modernistas avulsas, nestes casos somada à
circulação normal daqueles diários.
20
Os arquivos pessoais de escritores modernistas, como aquele de Achilles Vivacqua depositado
atualmente no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, muitas vezes incluem este tipo de material nos
seus acervos.

18
Paradoxalmente, é neste momento que as articulações da rede quase chegam a ser

nomeadas enquanto tal por seus próprios integrantes: na segunda “dentição” da Revista

de Antropofagia, os núcleos modernistas espalhados pelo país que se correspondem

com a publicação paulista são denominados “clubes de antropofagia” e são descritos em

artigos apropriadamente denominados “Expansão Antropofágica”21 e “desde o Rio

Grande até o Pará”22. Nestes textos não se trata da geografia da rede modernista, mas da

geografia de uma facção desta, dado o conflito que a segunda encarnação da publicação

antropofágica estabelece com a maior parte dos escritores e tendências estabelecidos do

modernismo de então. Mas, como veremos em maior minúcia no próximo capítulo, tal

facção não possui a solidez de que se arroga: o grupo de leite criôlo, descrito na

publicação paulista como “clube de antropofagia de Minas Gerais”, não pode ser

compreendido como uma filial da antropofagia, ele constitui, na verdade, mais um

núcleo relativamente independente no interior da rede modernista, chegando em

determinado ponto a romper com a publicação paulista.

É nesse sentido que o rompimento de leite criôlo com a Revista de Antropofagia

se faz presente no primeiro ciclo de literatura secundária sobre a publicação de Belo

Horizonte: textos dos próprios protagonistas do suplemento rememorando por motivos

diversos suas experiências décadas depois dos eventos. É o caso das notas

freqüentemente citadas e republicadas do João Dornas a respeito do movimento.

Publicado originalmente no jornal Diário de Minas de 19/10/1952 e em seguida

republicado na Revista da Academia Mineira de Letras, Vol. XXI, de 1959 como parte

das suas Notas para a história da literatura mineira, o texto originalmente intitulado

Para a história do modernismo brasileiro transcreve a famosa carta de Carlos

Drummond de Andrade a Oswald de Andrade na qual o poeta mineiro rompe com a

21
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 10, 12 de junho de 1929.
22
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 13, 4 de julho de 1929.

19
antropofagia e seu diretor. No final da carta Drummond afirma que João Dornas Filho

fundaria o “crioulismo”, deixando implícita a adesão do escritor itaunense à

antropofagia. O comentário de Dornas que se segue à transcrição da carta merece ser

citado na íntegra:

Quero explicar que o “crioulismo” a que se refere Drummond foi um


sarampo romântico de 1928 , que Guilhermino César, Acchiles Vivacqua e
eu contraímos no ambiente carregado de indianismo paulista. Seria a vacina
africana contra a antropofagia que ameaçava comer (e comeu) os próprios
pagés que a criaram...
Fundamos então um jornal – o “Leite Crioulo” [sic], que saiu
intencionalmente a 13 de maio e por ele pretendíamos combater o
romantismo paulista com o romantismo Bantu...
Do que se que o romantismo afro-brasileiro é anterior de dez anos [sic] à
Casa Grande e Senzala... 23

Vemos aí referências de leite criôlo como antípoda da Antropofagia, mas o que

realmente interessa é que aí se encontra implícito que o “crioulismo” acabou por

devorar também seus próprios pagés, com o agravante deles nunca terem se disposto a

serem devorados. A mal sucedida empreitada literária cristalizada na publicação mineira

talvez tenha levado a uma relativa retirada dos seus diretores do campo literário

propriamente dito: Dornas se tornou historiador, Guilhermino é lembrado hoje como

estudioso da literatura gaúcha e membro do grupo Verde de Cataguases, Vivacqua é um

nome desconhecido, apesar do zelo para com a sua memória por parte de sua irmã

Eunice.

A produção acadêmica posterior sobre o modernismo mineiro seguiu, em certo

sentido, a memória coletiva produzida pela própria geração modernista: uma das razões

pelo desinteresse em relação a leite criôlo é a percepção do modernismo a partir de uma

concepção de cânone literário. A idéia de história da literatura presume uma seqüência

de autores importantes e suas respectivas obras, sendo de certa forma uma história de

heróis. Tendo sido o suplemento uma espécie de flerte com a literatura para a maior

parte de seus colaboradores, a escassez de sua fortuna crítica é, dentro desse quadro,
23
DORNAS FILHO, 1959. P. 89

20
previsível. Tal perspectiva, natural na avaliação das realizações estéticas do movimento

modernista, aparece como uma espécie de sombra mesmo nos trabalhos que pretendem

entender o modernismo mineiro a partir de perspectivas mais especificamente históricas

e/ou sociais. Assim, o conjunto da produção sobre leite criôlo e o grupo responsável

pela sua publicação é bastante escasso, se comparado ao número de trabalhos que tem

por foco principal o periódico A Revista e seu grupo, que incluía aquele é hoje

considerado um dos principais expoentes da poesia brasileira de todos os tempos, Carlos

Drummond de Andrade.

Um primeiro trabalho de cunho acadêmico que tem em leite criôlo um dos seus

objetos de análise é O Movimento Modernista em Minas, de Fernando Corrêa Dias, que

continua sendo o texto fundamental para a interpretação histórica e social do

modernismo mineiro e pioneiro no Brasil do que atualmente se denomina sociologia dos

intelectuais. Baseado em ampla documentação primária, o autor tenta compreender os

denominadores sociais comuns da primeira geração de modernistas mineiros: jovens da

mesma geração que vão à capital para estudar, trabalhando como jornalistas e

funcionários públicos, freqüentando os mesmos bares e livrarias. O estudo privilegia o

grupo mais antigo de modernistas mineiros que publicava A Revista (Drummond, João

Alphonsus, Abgar Renault e outros), mas cita também o grupo de leite criôlo. Apesar de

todo seu interesse, a análise peca por sua benevolência anacrônica para com os autores

analisados, atribuindo um caráter progressista (no sentido dos anos 60, a tese data de

1968) aos protagonistas que não resiste a um confronto com as fontes. Ser moderno na

década de 1920 tem um sentido substancialmente diferente de ser moderno na década de

1960.

Na década de 1980 foram publicados dois livros nos quais leite criôlo constitui um

foco de interesse: O modernismo em Belo Horizonte: Década de vinte de Antônio

21
Sérgio Bueno e Poesia negra no modernismo brasileiro de Benedita Gouveia

Damasceno, datadas respectivamente de 1982 e 1988. O trabalho de Bueno permanece

como o estudo mais aprofundado de leite criôlo que se encontra em forma de livro, o de

Damasceno apenas menciona a publicação, baseando-se na análise de Bueno, mas

invertendo as conclusões. O que é comum a ambos é o interesse pela temática negra e

pelo pensamento racial presentes em leite criôlo.

O livro de Antônio Sergio Bueno constitui até hoje o único estudo que tentou

compreender mais a fundo a lógica do suplemento. O autor foi o primeiro a levantar a

importantíssima questão do discurso racial de leite criôlo, a ambigüidade racista do seu

discurso a respeito da “salvação” do negro, que havia passado em branco para Dias

Corrêa e outros comentaristas anteriores (o ano deste trabalho é 1982 e já se sentem

reflexos da militância do movimento negro). Apesar de romper o esquecimento ao qual

foi relegado leite criôlo e reconhecer sua importância24, Bueno se deixa levar por certas

características pitorescas da publicação e acaba por exagerar nas tintas com as quais

pinta a retórica e a poética desta, em especial quando considera a contribuição dos

diversos colaboradores como um discurso único. Sem dúvida o racismo e o racialismo

presentes no tratamento da herança africana no Brasil é fundamental no suplemento e de

certa forma o distingue, mas é preciso lembrar que leite criôlo foi, em muitos sentidos,

um periódico modernista normal. Não é possível estabelecer uma oposição entre ele e o

resto do modernismo mineiro. Pode-se pensar mesmo que o que para nós hoje é

chocante constituía o discurso comum naqueles tempos, leite criôlo se destacando

simplesmente por falar, influenciado pela Revista de Antropofagia, em tom aberto e

escrachado. Não há por que pensar que quando A Revista fala, de acordo com o bom

24
“Surpreende-nos o esquecimento a que foi relegado o Leite Criôlo, porque creditamos a esses textos
uma importância singular para o Modernismo de Minas Gerais. Propomo-nos a iniciar a tarefa imediata
de reler e difundir esse material”. BUENO, 1982. Pg. 101

22
tom que prevalece nela, em “humanizar o Brasil” não possa estar dizendo o mesmo que

leite criôlo, com seu linguajar direto, chama de “higienizar o Brasil”.

Em perspectiva diametralmente oposta, para Benedida Gouveia Damasceno –

baseada apenas, como já dissemos, no livro de Bueno – a presença, constatada por

aquele pesquisador, de um discurso claramente racista em leite criôlo seria

desconcertante. Argumentando que a reprodução de “preconceitos e estereótipos era

decorrência da tradição cultura da época”, Damasceno afirma que o mesmo fenômeno

se verifica, por exemplo na produção literária do poeta e militante da imprensa negra

paulista Lino Guedes.25

Um dos estudos mais recentes a ter em leite criôlo um foco de análise é o livro

Guardiães da razão: Modernistas mineiros, de Helena Bomeny, no qual a autora parece

se basear também no estudo de Antônio Sérgio Bueno. Radicalizando a leitura de

Bueno, Helena coloca como pólos opostos leite criôlo e A Revista, vinculando o

primeiro ao lado rural e atrasado de Minas Gerais e a segunda ao lado urbano e

progressista. Segundo a autora:

O suplemento literário Leite Criôlo [sic] guarda a marca de uma


linguagem jornalística bastante informal, e de estilo paroquial. O periódico
padece de maior relevância intelectual, quer seja pelo cardápio de assuntos
de que dispõe, quer seja mesmo pelo tipo de argumentação que privilegia.
Há, todavia, um contraponto com A Revista, já analisado por Antônio
Sérgio Bueno, muito útil. 26

Como pretendemos demonstrar na nossa análise da inserção do suplemento na

rede modernista nacional, não conseguimos entrever o caráter paroquial que, para

Helena Bomeny, caracterizaria o suplemento. Na verdade, o caráter universalizante de A

Revista, percebido como cosmopolitismo pela autora, talvez caracterize mais certamente

25
DAMASCENO,1988, P. 57-58. Discutimos e rejeitamos tal hipótese na comunicação “Entre Sujeito e
Objeto: Representações do negro no suplemento modernista leite criôlo”, apresentada na SEVFALE 2006
, a partir de uma comparação entre leite criôlo e as publicações da imprensa negra paulista.
26
BOMENY , 1994.

23
uma concessão ao passadismo provinciano do momento do que uma visão modernista

mais ambiciosa, já que parte importante dos colaboradores locais são “passadistas”

convictos, o que se pode afirmar não apenas pela leitura dos textos, como pelo

testemunho de Pedro Nava27 e pela recomendação dada por Mário de Andrade em carta

a Carlos Drummond: “Façam uma revista como A Revista, botem o modernismo bonito

de vocês com o passadismo dos outros. Misturem o mais possível”.28 O parnasianismo,

inimigo preferencial eleito pelo modernismo brasileiro, sempre defendeu a Beleza como

um ideal transcendente e universal. Por outro lado, a temática local e regional, que

caracteriza muitos textos de leite criôlo, não nos parece um indício de um “isolamento

estético de província”, antes uma vinculação a uma das tendências do nacionalismo

modernista, tendência que, aliás, se torna dominante na década seguinte com o romance

social nordestino. Assim, vincular a publicação de João Dornas Filho ao lado rural e

“atrasado” de Minas Gerais e a de Carlos Drummond de Andrade ao urbano e

“progressista” é estabelecer uma analogia selvagem entre as temáticas literárias

predominantes nas duas publicações e a sua origem social, expressa nos termos

dualistas da sociologia de anteontem. Na verdade, quase todos os colaboradores de

ambas as revistas tinham sua origem nas famílias importantes das pequenas cidades

mineiras – por exemplo, Dornas vinha de Itaúna e Drummond, como se sabe, de Itabira

– transferindo-se para Belo Horizonte com o objetivo de estudar, ingressando também

na carreira burocrática e no jogo político estadual.

O presente trabalho tem por objeto não o que distingue leite criôlo – em que

medida o suplemento se diferencia de outras publicações modernistas –, mas sim a

27
“A Revista... fez questão de abrir suas colunas à colaboração conservadora de Magalhães Drummond,
Alberto Deodato, Iago Pimentel, Godofredo Rangel, Pereira da Silva, Wellington Brandão, Orozimbo
Nonato, Carlos Góis e Juscelino Barbosa” (Apud. BUENO, 1982. Pg. 36).
28
Apud BUENO, 1982. Pg. 35. Carlos Drummond de Andrade também comenta, em texto de 1952, que
“A conselho de Mário de Andrade, também porque impossível fazer de outro modo, insinuávamos nela
[em A Revista] a pimenta modernista no chôcho trivial da literatura acadêmica da época” (Apud. DIAS,
1968. P. 20).

24
forma como a publicação e o grupo responsável por ela se inserem na rede modernista

nacional. Tal opção se dá na medida em que sem a análise da interação entre o “órgão

oficial do criolismo” e os demais grupos e facções dentro modernismo não é possível

analisar as especifidades do grupo e da publicação. A dimensão do pensamento racial

em leite criôlo, por exemplo – uma das características mais peculiares e interessantes do

suplemento – continua ininteligível sem a referência a como tais questões eram

articuladas no contexto maior do modernismo e a como foram recebidas na época. Por

isso, no presente mapeamento várias das questões que leite criôlo suscita não serão

colocadas: tentamos aqui construir as condições de possibilidade destas formulações,

pois acreditamos que o tratamento isolado do suplemento tende a distorcer a

compreensão tanto das suas peculiaridades quanto das características que dividem com

inúmeras outras publicações.

Para analisarmos a inserção de leite criôlo na rede modernista nacional, utilizamos

como fontes primárias as principais publicações com as quais o grupo se vincula, além

de correspondência trocada no interior da rede. A principal série de documentos

investigada consiste na coleção, disponibilizada ao público pelo arquivo do jornal

Estado de Minas, dos suplementos publicados entre 2/6/1929 (número I) e 29/9/1929

(número XVI, 18o suplemento), com exceção do referente a 23/6/1929 (número IV) que

não consta do arquivo citado29, e o tablóide leite criôlo lançado em 13/5/1929,

comemorativo da abolição da escravatura, que se encontra na divisão de coleções

especiais da Biblioteca Central da UFMG, como parte integrante da coleção Linhares.

No jornal Estado de Minas, além do suplemento, foram focalizadas a cobertura à crise

da sucessão presidencial, que desencadeou o lançamento da Aliança Liberal, e a coluna

29
Como a coleção da Hemeroteca Estadual Assis Chateaubriand do jornal Estado de Minas se inicia em
1930, não foi possível localizar aquela edição.

25
de crítica literária do modernista João Alphonsus, que divergia da orientação de leite

criôlo.

Além do próprio suplemento e do jornal que o abrigava, foi realizada a leitura de

publicações relacionadas a leite criôlo: A Revista (3 edições: julho e agosto de 1925;

janeiro de 1926), Verde (6 edições de outubro de1927 a abril de 1929), Revista de

Antropofagia, 1a e 2a dentições (24 edições de maio de 1928 a julho de 1929), Semana

Ilustrada (14 edições No. 17, 20, 66, 82-87, 89-91 do período 1927 a 1929) e Cidade

Vergel (2 edições: maio e junho de 1927). A Revista foi analisada por ser a principal

publicação modernista de Belo Horizonte, antes de leite criôlo, realizada por um grupo

com o qual os editores do suplemento tinham, à época, divergências. Verde, revista de

Cataguases, apresenta grande continuidade com leite criôlo devido a Guilhermino

César, integrante do grupo Verde e editor do suplemento belorizontino. A Revista de

Antropofagia constitui a principal inspiração do suplemento e também apresenta

contribuições dos editores de leite criôlo e referências ao seu grupo. Semana Ilustrada e

Cidade Vergel representam o outro lado do grupo modernista: o compromisso

profissional nos cargos de redação exercidos por Achilles Vivacqua, João Dornas Filho

e Diterot Coelho Neto em revistas ilustradas mundanas, que os colocava quase sempre

em polêmica discreta com seus companheiros passadistas. Foram também consultados a

enquete do jornal Diário de Minas, disponível na Hemeroteca Estadual Assis

Chateaubriand, promovida a partir de 2/2/1929 por Carlos Drummond de Andrade com

escritores mineiros, incluídos os ligados a leite criôlo, e os recortes de Achilles

Vivacqua, depositados no fundo Achilles Vivacqua do Acervo de Escritores Mineiros

da UFMG, que incluem trechos referentes à repercussão tanto do lançamento de leite

criôlo na imprensa belorizontina, quanto da obra anterior deste.

26
A utilização das correspondências como fonte apresentou certas dificuldades, já

que não foi possível o acesso aos arquivos pessoais de um dos diretores de leite criôlo,

Guilhermino César, e de um provável correspondente importante do grupo, Oswald de

Andrade, depositados respectivamente em Porto Alegre e Campinas. Também a

consulta ao fundo João Dornas Filho do Arquivo Público Mineiro foi decepcionante,

pois ali não se encontra nenhuma correspondência relacionada com os temas aqui

abordados. Frutífero, quanto à pesquisa no âmbito das correspondências, foi apenas o

trabalho junto ao já mencionado fundo Achilles Vivacqua que contém documentação

extremamente relevante acerca da inserção deste na rede modernista nacional. A esta

coleção se somou apenas a correspondência reproduzida em literatura secundária sobre

o modernismo, usada no sentido de contextualizar a ação do grupo em foco.

O fato de não encontrarmos, nem mesmo no arquivo pessoal de Achilles

Vivacqua, a parte principal do volume de correspondência que a publicação de leite

criôlo necessariamente produziu – foram publicados dezenas de textos de colaboradores

de fora de Belo Horizonte, em um arco que vai de Curitiba até Belém, o que implicaria

em um número da mesma grandeza de cartas –, mesmo tendo leite criôlo utilizado a

casa de Achilles como endereço da redação do suplemento, reconduz à questão do

relativo esquecimento ao qual o suplemento foi relegado no quadro da produção da

memória da geração modernista.

Partindo da presente discussão e do material citado trataremos nos próximos

capítulos da inserção de leite criôlo na rede modernista nacional. No capítulo dois,

tentaremos reconstruir a trajetória do grupo da publicação e a sua interação com outros

grupos modernistas. No terceiro capítulo, o foco são os textos publicados no “órgão

oficial do criolismo”, pensados em termos tanto de temas quanto de gêneros literários,

27
na medida em que materializam tomadas de posição temáticas e formais em relação à

produção literária produzida no âmbito da rede modernista nacional.

28
2. Cavando um lugar de modernista: a trajetória do grupo de
leite criôlo e de sua publicação no âmbito da rede modernista
nacional.

Aderir:
erro perigoso

Eu nunca aderi:
sempre fui.

- “Versos do coletor estadoal de briquite’s”


de Fidelis Florencio, leite criôlo Nº 2,
Estado de Minas, 9/6/1929.

(...)

Bôa noite, Doutor... até a vista...


Vou “cavar” meu logar de “modernista”

- “Do Flirt, do Footing, da Semana”,


Semana Ilustrada, Nº 81. 2/3/1929.

29
Neste capítulo serão mapeadas as interações entre o grupo de escritores

responsável por leite criôlo e o que definimos como a rede modernista brasileira. A

dimensão das tomadas de posição literárias explícitas – aquilo que poderia ser

denominado como “política literária” ou, para usar a expressão de Fernando Correa

Dias, trajetória exterior30 – será aqui o foco principal: as tomadas de posição que se

materializam estilística e tematicamente nos próprios textos publicados no suplemento

serão tratadas de maneira mais pormenorizada no próximo capítulo. As epígrafes acima

– a primeira de um poema satírico modernista publicado em leite criôlo e a segunda de

uma crônica em versos publicada na revista de variedades Semana Ilustrada, analisada

mais adiante – servem de pontos de referência para as múltiplas tomadas de posição que

serão analisadas aqui. A fórmula “cavar um lugar”, no contexto do trecho citado se

referindo à proximidade de alguns modernistas mineiros com o governo estadual,

ressalta a dimensão do interesse presente nas tomadas de posição analisadas. Já a

expressão “aderir”, que no poema citado se refere à dignidade e à abertura que implica

assumir um novo ponto de vista no contexto da vida política, conota a dimensão da

crença, também fundamental para compreender a trajetória das tomadas de posição.

Associada a primeira à baixeza da mesquinhez e a segunda à elevação dos ideais, ambas

constituem implicitamente formas de julgar as tomadas de posição – acusar as crenças

do inimigo de serem nada mais que formas de mascarar seus interesses é uma das mais

clássicas estratégias discursivas presente em todas as formas de política, incluída aí a

luta política propriamente literária que se desenvolve no interior da “república das

letras”. Pretendemos, na presente análise, fugir à tentação dupla do eufemismo

idealizante e da denúncia reducionista, atentando à necessária e, por vezes, tensa

simbiose entre crenças e interesses.

30
DIAS, 1968. P. 93

30
Quanto à forma, nossa análise se estruturará em termos de narrativa, assinalando

que no decorrer da exposição, no entanto, a ordem estritamente cronológica da

documentação cede por vezes lugar à ordem lógica da argumentação. Tal opção pela

narrativa se dá em função da transitoriedade do objeto em questão: pensadas

sincronicamente determinadas tomadas de posição analisadas se tornam

incompreensíveis. Acreditamos ser este o caso da análise de Antônio Sérgio Bueno das

relações entre leite criôlo e a Revista de Antropofagia – posto que este autor, ao tentar

compreender como e porque as duas publicações modernistas são referidas

alternadamente como vinculadas ou como opostas, acaba por não encontrar uma solução

satisfatória devido ao caráter sincrônico da sua análise31. A seguir tentaremos propor

uma resposta à mesma indagação básica a partir da análise da trajetória das adesões e

rupturas do grupo de escritores de leite criôlo e de sua publicação no interior da rede

modernista nacional.

O CONSÓRCIO DO VELHO LIRISMO COM A POESIA MODERNA

A análise da trajetória das tomadas de posição de qualquer grupo literário dentro

do movimento modernista nos anos 1920 precisa partir da tomada de posição que

constitui a própria adesão ao movimento. Ao contrário de outras “escolas literárias”

constituídas retrospectivamente a partir do trabalho da crítica literária, a pertença ao

modernismo enquanto movimento na década de 20 envolvia uma declaração desta

pertença. Implicava também na vinculação à rede modernista nacional através da troca

de correspondência com figuras centrais do movimento e, em especial, da publicação de

textos ou resenhas de seus trabalhos nos periódicos modernistas de maior prestígio. A

publicação de um periódico próprio possibilitava aos grupos novatos publicar trabalhos

31
Cf. BUENO, 1982. P. 167-177

31
dos escritores modernistas mais estabelecidos, cimentando a mútua vinculação literária,

além de possibilitar a publicação dos próprios trabalhos e dos de outros aspirantes a

escritor. Outro ponto a ser considerado é que muitos dos que aderiam ao modernismo já

haviam se lançado como escritores, através de poemas estilisticamente assimiláveis ao

parnasianismo e ao simbolismo ou então de trabalhos em outros gêneros que seriam

igualmente classificados como “passadistas” dentro da lógica modernista. Nestas

situações tornar-se modernista significava uma verdadeira “conversão”, implicava

construir uma nova persona literária por oposição à anterior: foi o caso de Jorge de

Lima, que havia sido coroado “príncipe dos poetas” de Alagoas graças à fama de seu

soneto “Acendedor de lampiões” 32, e também de dois dos diretores de leite criôlo, cuja

trajetória será analisada em detalhes mais adiante.

Mas é preciso lembrar que a descrição genérica das estratégias objetivamente

utilizadas pelos novatos que se lançavam como escritores no âmbito do modernismo dos

anos 1920 é uma reconstrução a posteriori. O que a análise revela na dimensão objetiva

da estratégia é vivido no âmbito subjetivo da crença. Se lançar como escritor constituía

uma aposta na qual, especialmente no meio volátil da “vanguarda”, as variáveis eram na

maioria das vezes desconhecidas: como saber, por exemplo, a qual das “figuras centrais

do movimento” pertencia o futuro do modernismo? Talvez em 1924 o grupo de Graça

Aranha pudesse parecer mais central e promissor do que o grupo paulista que seria

considerado em décadas posteriores quase como um sinônimo do movimento. Como

veremos adiante, leite criôlo se defrontou em 1929 com a necessidade de optar entre as

lideranças conflitantes de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, questão que marcou

profundamente o surgimento, a existência e o desaparecimento da publicação mineira.

32
Como lembravam sempre os críticos “passadistas” ao rejeitar sua conversão ao modernismo Cf.
SANT´ANA, 1978. P. 32 e 53

32
Assim, cabe à descrição detalhada do caso em questão restituir a textura complexa do

real, necessariamente ausente das abstrações de caráter generalizante.

O grupo modernista vinculado a leite criôlo se caracteriza pela adesão

relativamente tardia ao movimento. Seus diretores, João Dornas Filho, Aquiles

Vivacqua e Guilhermino César, constituíam um segundo núcleo de escritores

modernistas em Belo Horizonte. O primeiro – composto por Carlos Drummond de

Andrade, João Alphonsus, Emílio Moura, Martins de Almeida, Pedro Nava, Abgard

Renaut e outros – havia sido responsável pela publicação das três edições de A revista

em 1925-1926 e já estava em contato com os modernistas paulistas desde a viagem

destes a Minas Gerais em 1924. Como mostra Maria Zilda Cury, alguns deles já se

interessavam por literatura moderna antes desta data33. O grupo de leite criôlo, por sua

vez, demoraria um pouco mais a aderir ao modernismo: tanto Vivacqua quanto João

Dornas publicaram escritos classificáveis como “passadistas” na imprensa mineira antes

da sua “conversão” definitiva. Para eles – assim como para o terceiro diretor de leite

criôlo, Guilhermino César, que era seis anos mais novo que Dornas e cuja estréia

literária já se deu no âmbito do modernismo34 – o ano chave para suas atuações como

“escritores modernos” parece ter sido, como mostraremos, 1927.

Como vários outros estudantes da Faculdade de Direito provenientes das famílias

importantes do interior, os diretores de leite criôlo complementavam sua renda

trabalhando no serviço público e na imprensa. Mas enquanto Drummond havia sido

colaborador, redator e, por fim, redator-chefe do jornal Diário de Minas, órgão

noticioso oficial do Partido Republicano Mineiro de publicação diária35, Vivacqua foi

redator das revistas de variedades Cidade Vergel em 1927 e Semana Ilustrada de 1927 a

33
Cf. CURY, 1998. P. 74-84
34
Dornas nasceu em 1902 na cidade de Itaúna, tinha, portanto, a mesma idade que Drummond, já
Guilhermino havia nascido em Cataguases no ano de 1908. Cf. DIAS, 1968. P. 12
35
WERNECK, 1992. P. 13-30

33
1929. Dornas também colaborou com a segunda publicação, tornando-se um dos

redatores a partir de 1929. Em ambas as revistas, caricaturas, fotos, crônicas e artigos de

todos os tipos refletiam a esfera de sociabilidade das famílias importantes e dos

estudantes universitários – naqueles tempos vindo estritamente das camadas mais altas

da sociedade. Uma das seções de Semana Ilustrada, por exemplo, encenava o famoso

“footing” da Praça da Liberdade na crônica em versos semanal “Do Flirt, do Footing, da

Semana”.

Na gama das “variedades” de Cidade Vergel e de Semana Ilustrada havia sempre

espaço para a literatura. Os próprios subtítulos destas publicações – “revista de artes e

letras” e “revista noticiosa, artística e literária”, respectivamente – talvez demonstrem a

importância da literatura e da arte como temas de conversação mundana no âmbito da

“boa sociedade” belorizontina de então. Mais certo é que a presença da literatura nessas

revistas se vinculava também às pretensões literárias dos homens de imprensa

responsáveis por sua publicação. O proprietário e diretor Delorizano de Morais e o

redator-chefe Romeu Avelar (pseudônimo de Luís de Araújo Morais, irmão de

Delorizano)36 de Semana Ilustrada, por exemplo, já haviam trabalhado junto em uma

revista de feição mais estritamente literária de curta duração, Proteu, em 192037.

De Cidade Vergel, revista que se propunha mensal, só conseguimos localizar as

edições de maio e de junho de 1927. Dentre os textos propriamente literários se

encontram vários poemas do grupo modernista de A Revista, incluindo Emílio Moura e

João Alphonsus. Semana Ilustrada parece ter sido um empreendimento mais viável

comercialmente38 e a linha literária dos textos ali publicados era, com raras exceções,

36
Cf. Idem P. 44 e VIVACQUA, 1997. P. 38
37
LINHARES, 1995. P. 203
38
Os exemplares de Semana Ilustrada são salpicados de anúncios, além disto, na página de expediente
estão relacionados os preços dos variados formatos de propaganda disponíveis aos anunciantes da revista.
Tais fatos talvez corroborem a hipótese de que a publicação possuía um grau de organização do ponto de
vista comercial incomum em face do amadorismo da imprensa belorizontina de então.

34
mais estritamente “passadista”. Surgida em 1927, alcançou em maio de 1929 sua edição

de número 91. Sua periodicidade semanal foi observada com uma regularidade que o

colecionador e memorialista da imprensa belorizontina Joaquim Nabuco Linhares

considerou digna de nota para uma publicação do seu gênero na BH de então39.

No que interessa à questão da adesão ao modernismo, o importante é que, ainda

em 1927, João Dornas Filho publica um soneto, intitulado “A creação”, nas páginas da

Semana Ilustrada40. Publicar um soneto, forma fixa símbolo do parnasianismo,

significava, para os círculos modernistas de então, uma confissão inapelável de

“passadismo”. No entanto, na edição de junho do mesmo ano da revista Cidade Vergel

aparece um poema moderno de Dornas, sem rimas e de métrica livre, chamado “O moço

que andava nos cavalinhos de pau”. Logo apareceria também nas páginas da edição de

janeiro do ano seguinte da revista modernista Verde de Cataguases outro poema

moderno seu. Intitulado “Meus oito annos”, o poema em verso livre justapunha a

temática da infância na cidadezinha do interior a trechos de cantigas e brincadeiras de

roda transcritos através de ortografia fonética (“ – tatú tá no munho?”), trabalhando

assim temáticas e procedimentos poéticos bastante em voga entre os modernistas de

então. Temáticas e procedimentos que também farão sua aparição em leite criôlo, como

veremos no próximo capítulo.

Durante os anos de 1928 e 1929, João Dornas Filho continua a publicar textos

propriamente literários em meio às variedades de Semana Ilustrada. Trata-se, no

entanto, de contos sem maiores ousadias formais, cuja temática às vezes pode ser

indistintamente qualificada de regional ou de modernista-nacionalista. No âmbito da

prosa não havia neste momento uma contraposição tão rigorosa entre “passadismo” e

39
Idem. P. 248.
40
Recorte da Semana Ilustrada datado a caneta “Ano 1 Nº 32 Janeiro de 1928”. Série fortuna crítica.
Caixa2 (Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG

35
modernismo quanto na poesia. Mas, se em Semana Ilustrada nada se publicou da

produção poética mais caracteristicamente moderna de Dornas41, sua conversão ao

modernismo não passou despercebida nas páginas da revista. A crônica semanal em

versos “Do Flirt, do Footing, da Semana” de 2 de março de 1929 tinha por um dos

temas o modernismo, o que poderia ser um indício do grau em que o movimento se

tornou tópico de conversação mundana. A parte referente ao modernismo e a João

Dornas é a seguinte:

(...)
E o João Dornas, rapaz intelligente
Abraçar essa asneira [o modernismo] de repente...

Preguiça de estudar e de saber


A syntaxe do nosso verbo Haver

O “Diário de Minas” é a parteira


Desse tal “movimento” de ... besteira

Um jornal do Governo-futurista!
De fato não ha mesmo quem resista

Agora vejo que o João tem razão:


Está chegando o tempo de eleição...

Bôa noite, Doutor... até a vista...


Vou “cavar” meu logar de “modernista”42

A sátira mobiliza, além de chavões anti-modernistas (“preguiça de estudar” etc.), o

aparente contra-senso de a publicação comprometida com a literatura moderna – ou,

como diriam, com o “futurismo” – em Belo Horizonte ser o jornal do PRM, eterno

partido do governo estadual no contexto da chamada “república velha”. Para a presente

análise, o importante é que o grupo de Carlos Drummond de Andrade, responsável pela

presença do modernismo no Diário de Minas, é considerado a “parteira” do movimento

41
A revista Semana Ilustrada chegou a publicar alguns poemas modernos. Na edição de Nº 34 de 21 de
janeiro de 1928, por exemplo, apareceram sob a rubrica “Modernistas” os poemas “Os meus versos
impressionistas...” de Odilon Negrão e “O bailado da lua” de Evagrio Rodrigues. Mas ambos poderiam
ser definidos como “modernistas” apenas na medida em que não apresentam métrica fixa e rimas, aliás,
parcialmente presentes no segundo. Aspectos estilísticos do modernismo de então como, por exemplo, a
coloquialidade, a ortografia fonética, a justaposição de imagens e a temática nacional não aparecem
nestes poemas e talvez tal fato seja um indício de que a produção poética mais ostensivamente modernista
não encontraria lugar na revista.
42
SEMANA ILUSTRADA, Nº 81. 2/3/1929

36
no estado e a adesão de Dornas é considerada uma conversão repentina. A partir de tais

elementos é que a crônica argumenta, a título de piada, que a adesão de Dornas é um ato

político interesseiro, uma demonstração de fidelidade ao governo conveniente em

tempos de eleição, a ser jocosamente imitado pelo eu-lírico da sátira: uma brincadeira

na qual sobressai uma ponta de ressentimento da parte dos escritores “passadistas” que

dividiam a redação de Semana Ilustrada com Dornas e Vivacqua quanto à posição

alcançada pelo jovem “futurista” Drummond43.

Em suma, pelo que podemos constatar a trajetória do escritor de Itaúna em direção

à “asneira” modernista pode ser qualificada como repentina. Da publicação do soneto

na Semana Ilustrada em 1927 até a menção de seu nome como líder da “parte boa” do

modernismo mineiro na segunda dentição da Revista de Antropofagia e da aparição de

leite criôlo – a publicação mais radicalmente modernista publicada na Belo Horizonte

dos anos 1920 – em 1929 se passaram aproximadamente dois anos. Tal fato não

passaria despercebido pela imprensa mineira no momento em que veio à luz a

publicação dirigida por Dornas, Aquiles Vivacqua e Guilhermino César. Uma crítica

publicada no jornal Folha da Noite de 11 de maio de 1929 mencionava o escritor de

Itaúna como “o João Dornas Filho, dos contos passadistas, longos como os versos

kilometricos de Murilo Araújo”, estranhando que ele e os outros dois diretores estivem

envolvidos em uma publicação “á maneira do desenfreado movimento anthropophagico

de S. Paulo” e concluía: “Tem sido um pá-rá-pá-pá do dos demônios. Até parece

carnaval” 44.

No mesmo artigo Vivacqua aparecia como

o auctor de “Serenidade”, que o Totó Alcantara [Antônio de Alcântara Machado,


modernista paulista, diretor da primeira dentição da Revista de Antropofagia], o
mercador ambulante de “laranjas da china” literárias [referência ao livro de contos

43
A postura política oportunista ou “adesista” será também alvo de sátiras publicadas em leite criôlo,
como veremos no próximo capítulo.
44
FOLHA DA NOITE, 11/5/1929

37
de Alcântara, Laranja da China], não gostou por que era “o livro de um
principiante”.

Serenidade era o nome da plaqueta com seis poemas que Aquiles publicou,

provavelmente no começo do ano de 1928. Foi possível – através de cartas acusando o

recebimento da obra e resenhas guardadas pelo próprio autor – acompanhar a recepção

do livro pela rede modernista nacional e por outros setores da crítica. As vinte e quatro

cartas agradecendo e/ou comentando o envio deste livro, encontradas no arquivo pessoal

de Achilles, demonstram a vontade do autor de se fazer presente através desta obra na

“república das letras” de então. Entre os destinatários encontram-se figuras expressivas

de várias vertentes do modernismo de então (Antônio de Alcântara Machado, Paulo

Prado, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira e outros), incluindo estrangeiros (Blaise

Cendrars, da França; Idelfonso Pereira Valdes, do Uruguai), assim como “passadistas”

(Plínio Motta, da Academia Mineira de Letras; Renato Travassos e Carlos Lomba que

se declaram avessos ao modernismo nas suas cartas). É interessante notar que, antes da

publicação de Serenidade, Vivacqua publicou, em ambas as revistas de variedades às

quais nos temos referido e também em outros veículos, vários contos e crônicas

passadistas dos quais são exemplos a prosa simbolista de “O Lindo Poema” 45 e o conto

“Dôr”, este último assinado com o pseudônimo Roberto Theodoro46. Com o mesmo

pseudônimo assinou resenhas na seção “Bibliografia” de Cidade Vergel e também

nestes textos de crítica literária não transparecem maiores sinais de adesão modernista.

A única menção ao movimento se dá de maneira ambígua – como complemento na

descrição da “desvantagem intelectual do nosso meio artístico – onde se tem agitado a

45
CIDADE VERGEL, Nº 2. Junho 1927
46
SEMANA ILUSTRADA, Nº 29. 17/12/1927

38
corrente moderna que tanta preocupa a nova geração” – em uma resenha elogiosa de um

livro de poemas marcadamente “passadista” 47.

Neste contexto não é de se estranhar que Cyro dos Anjos, cuja adesão ao

modernismo também foi relativamente tardia48, tenha escrito em uma resenha do livro

publicada em Semana Ilustrada que “o autor de Serenidade devia (...) ser advertido que

seu espirito não se molda, muito bem, á nova escola [literária] em o que está, aliás, de

parabéns”. No entanto, o futuro autor de Amanuense Belmiro registra a “influencia

modernista da forma [versos livres]” no livro. Mais interessante é menção de que

“Achilles Vivacqua ha tempos se entrincheirou na phalange dos modernos e se permite,

de quando em quando, as exquisitices de seus companheiros de credo esthetico, umas


49
imagens arriscadas e outros atrevimentos de linguagem” .

Talvez esta última citação faça referência à convivência de Aquiles Vivacqua com

elementos do grupo modernista de A Revista no espaço de sociabilidade que veio a ser


50
denominado por alguns memorialistas como “Salão Vivacqua” . Ao contrário de

outros estudantes universitários na Belo Horizonte de então, Vivacqua morava com seus

pais, irmãos e irmãs: todos se mudaram de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo,

para a recente capital mineira esperando que os “afamados ares” desta cidade

melhorassem o quadro de tuberculose de Aquiles, quando este era ainda adolescente. A

residência familiar tornou-se então ponto de encontro dos amigos de Vivacqua –

estudantes, jornalistas e aspirantes a escritor – que compareciam aos saraus e

47
CIDADE VERGEL, Nº 2. Junho 1927. O livro
48
Cf. WERNECK, 1992. P. 79-80 Cyro dos Anjos publicaria depois textos modernistas em leite criôlo.
49
SEMANA ILUSTRADA, Nº 37. 11/2/1928
50
Pelo que podemos levantar não se tratava propriamente de um salão literário, como o que era mantido
por Olívia Penteado no mesmo período em São Paulo, mas um espaço no qual era realizados saraus e
“assustados” (festas dançantes mais ou menos improvisadas) que foi apelidado de salão por seus
freqüentadores. Pode-se talvez arriscar que o salão artístico propriamente dito (organizado pela dona da
casa e tendo por convidados artistas de certo renome) está para tais saraus literários (organizado e
freqüentado por amigos do filho da casa) da mesma forma que a família Penteado (alta burguesia cafeeira
paulistana) está para a família Vivacqua (proprietários de armazém de secos e molhados de classe média
alta de origem capixaba residindo em BH). Cf. VIVACQUA, 1997. P. 42-43.

39
“assustados” nos quais se faziam presentes também as mais velhas dentre as irmãs do

escritor, momentos de sociabilidade que contrastavam em certa medida com os bares e

cafés que costumam ser invocados quando se fala dos estudantes-jornalistas-escritores

modernistas de Belo Horizonte51. Segundo a memorialista Eunice Vivacqua os

encontros eram freqüentados tanto por modernistas do grupo de A Revista (Carlos

Drummond de Andrade, Abgar Renault, Pedro Nava, Milton Campos) quanto pelo

círculo “passadista” ligado a Semana Ilustrada (além dos irmãos responsáveis pela

publicação, Evagrio Rodrigues e Baptista Santiago), contavam também com a presença

dos outros futuros co-diretores de leite criôlo, João Dornas e Guilhermino César52. A se

confiar na datação apresentada nas memórias da irmã de Aquiles, 1922-26, isto

implicaria que Vivacqua mantinha relações pessoais com a primeira geração de

modernistas mineiros já há algum tempo quando da conversão definitiva da sua persona

literária ao movimento53.

Mas se na sua própria casa Vivacqua conciliava modernismo e “passadismo” –

assim como nos versos de Serenidade conciliava, aparentemente, ambos os estilos

literários – as reações por parte da crítica ao seu livro variaram consideravelmente entre

os adeptos de tais “escolas literárias”. Os comentários produzidos pelos destinatários da

plaqueta qualificáveis como “passadistas” seguiam, em linhas gerais, o tom elogioso do

texto de Cyro dos Anjos ao qual já nos referimos54. Mas, como já prevenia uma resenha

publicada no jornal uruguaio El Heraldo de Goes, “‘Serenidade’ (...) es una tentativa de

consorcio del viejo lirismo con la poesia moderna, que tal vez no agrade a los

51
Cf, por exemplo, DIAS, 1968. P. 67-71 e WERNECK, 1992. P. 35-38
52
VIVACQUA, 1997. P. 30-42
53
Idem. P. 36. O principal problema desta datação – proposta não pela autora, mas pela filha de Baptista
Santiago em carta citada no livro – é remontar os encontros a um período anterior ao estabelecimento da
primeira leva de modernistas de Belo Horizonte, que data de não muito antes de 1924. Para nós, uma
datação mais verossímil seria algo como 1925-1927, o que, no entanto, não invalida nosso argumento
apresentado no corpo do texto.
54
Carta de Renato Travassos a Achilles Vivacqua (2/4/1928), Carta de Carlos Lomba a Achilles
Vivacqua (26/5/1928), Cartão de Plínio Motta a Achilles Vivacqua (sem data). Série correspondência.
Caixa 1 (Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG

40
modernistas denámicos, auto-parlante aeroplánicos”55 . E, de fato, figuras mais centrais

do modernismo brasileiro – que há muito já haviam abandonado a temática auto-falante-

aeroplânica, demasiado associada à pecha de “futurismo”, por um tratamento

“primitivista” e coloquial da temática nacionalista56 – parecem não ter se impressionado

com o livro de Vivacqua. Blaise Cendras, Paulo Prado e Manuel Bandeira enviaram

para Vivacqua notas lacônicas agradecendo o envio do livro, no caso dos dois últimos

escritas sobre pequenos cartões de visita57. Não encontramos a crítica aparentemente

demolidora de Antônio de Alcântara Machado mencionada na resenha de leite criôlo

aparecida no jornal Folha da Noite, já citada anteriormente, mas, em carta para Achilles

datada de 8 de fevereiro de 1928, o escritor paulista descreve Serenidade como a

“tossidela que o orador dá antes de iniciar o discurso” e complementa:

Você tossiu Serenidade. Ficou assim liberto de algumas tantas antigualhas que
lhe enfeiavam [sic] a poesia. Estou certo disso. E estou porque conheço o seu
excelente [poema] Samba. Para você cantar Samba foi preciso primeiro pôr fora
Serenidade. (...) Tenho fé no poeta do [sic] Samba.”58

A recepção não muito favorável do livro nos meios mais estritamente modernistas

pode ser acompanhada também através da resenha razoavelmente simpática ao poeta

publicada na revista Verde de Cataguases pelo escritor Rosário Fusco. Vale a pena

transcrever na integra:

Os versos são do principio da vida literária do poeta e quasi que a gente já conhecia
todos.
Um punhado de críticos (?) [sic] escreveram sobre uma tal [sic] de influências
flagrantes de que se resente encharcado (dizem êles) o livrinho Serenidade. Graças a
Deus não entendo de crítica, nem críticos – e não dou valor nenhum mesmo pra
alguns deles. Porisso [sic] é quêu [sic] acho que falar em influencias é bobagem.
Esplicar [sic] porquê seria cansar.
Achilles Vivacqua (Roberto Theodoro) é o mesmíssimo que escreveu aqueles
bonitissimos versos de Samba que esta revistinha de vocês publicou no seu numero

55
Recorte do jornal El Heraldo de Goes, “Montevideo, Abril 27 de 1929”, colado no Álbum de Achilles
Vivacqua, P. 62. Série Álbum de Achilles Vivacqua. Caixa 1 (Classificação provisória). Fundo Achilles
Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG.
56
Cf. MORAES, 1978. P. 49-105
57
Carta de Blaise Cendras a Achilles Vivacqua (25/2/1928), Cartão de Manuel Bandeira a Achilles
Vivacqua (1928), Cartão de Paulo Prado a Achilles Vivacqua (sem data). Série correspondência. Caixa 1
(Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG.
58
Carta de Antônio Alcântara Machado a Achilles Vivacqua (8/2/1928). Série correspondência. Caixa 1
(Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG.

41
de estréa. Pra mim este poeminho só marcou bem Achilles Vivacqua enchendo a
gente de confiança bastante pras suas coisas futuras.
Por emquanto já se pode falar que Serenidade é um livro de POETA. Mais, [sic]
59
acho que o Achilles não deseja não .

O texto, que utiliza os procedimentos estilísticos mais ousados em voga entre os

modernistas de então, começa justificando o livro por conter versos do “princípio da

vida literária”, implicando certo descrédito pela produção anterior de Vivacqua. Segue

um desmentido da pouca originalidade do livro que não afirma em nenhum momento,

porém, que o mesmo seja efetivamente original. O próximo parágrafo elogia um poema

– o mesmo citado na carta de Alcântara Machado – que não se encontra em Serenidade

e que justifica as esperanças depositadas no autor, deixando implícito que os versos

incluídos no livro talvez não as justificassem. Do trecho final, extremamente ambíguo,

poderia ser proposta talvez a seguinte interpretação: dado que a expressão “é um

POETA” constitui um clichê dos elogios da crítica “passadista”, Fusco poderia estar

sugerindo que, para o próprio Vivacqua, mais valeria uma resenha esquiva e ambígua

partindo dos próprios modernistas do que elogios rasgados vindos do “inimigo”.

É preciso lembrar que a resenha de Rosário Fusco deve ser considerada simpática

ao poeta, em especial vindo do enfant terrible do modernismo de Cataguases, capaz de

escrever, por vezes, críticas extremamente cáusticas sobre figuras bastante centrais da

rede modernista nacional60. A razão da relativa brandura de Fusco talvez resida na

amizade de Vivaqua com o terceiro dos diretores de leite criôlo, Guilhermino César.

Nascido em Cataguases e tendo participado desde o princípio do grupo de estudantes

interessados em literatura moderna que viria a publicar a revista Verde, Guilhermino

havia se mudado, em 1926, para Belo Horizonte com o fim de ingressar na Faculdade

59
VERDE Nº 5 Abril de 1928. P.9
60
Cf., por exemplo, os reparos enfáticos que Fusco, então um estudante de 17 anos de idade, põe nas suas
resenhas de modernistas importantes daquele momento como Sérgio Milliet (VERDE Nº 2 Outubro de
1927 P. 26) e Cassiano Ricardo (VERDE Nº 5 Abril de 1928. P.9).

42
de Direito61. É provável que naquele momento ele e Ascânio Lopes, que residia na

capital desde 192562, servissem de ponte entre o grupo da revista Verde e os

modernistas belorizontinos, tanto aqueles que haviam sido responsáveis pela publicação

de A Revista quanto aqueles recém-convertidos ao modernismo nos quais temos focado

nossa análise, Aquiles Vivacqua e João Dornas Filho. O fato é que o primeiro poema de

Vivacqua publicado em Verde – “Samba”, mencionado na resenha de Fusco e na carta

de Antônio de Alcântara Machado – saiu já na primeira edição da revista moderna de

Cataguases, que contou basicamente com colaborações dos modernistas daquela

pequena cidade da Zona da Mata e dos seus contrapartes da capital do estado. A

inesperada repercussão da publicação nos principais meios literários modernos acabou

por introduzir os estreantes de Verde, assim como os futuros diretores de leite criôlo,

naquilo que denominamos rede modernista nacional e, a partir do segundo número, a

revista pôde contar com a colaboração de alguns dos principais nomes do movimento,

àquela altura, sediados no Rio de Janeiro e em São Paulo. E “Samba”, publicado sob o

pseudônimo Roberto Theodoro que Aquiles também usava para a sua produção

passadista, era um poema que não ficava a dever nada em termos de “modernidade” à

produção ali veiculada: os versos ousadamente aliterativos e assonantes, centrados em

palavras de origem africana, se encontravam recortados irregularmente sobre o branco

da página e tinham por temática o tipo de cultura original e “primitiva”, no caso a dança

dos “corpos pretos” da senzala, característico de certa vertente do nacionalismo

modernista63. Vivacqua publicaria mais três pequenos “Poemas de Belo Horizonte” na

edição seguinte de Verde64, série depois continuada em leite criôlo.

61
CESAR, 1978. P. s/n
62
Idem
63
O poema foi publicado novamente nas páginas de leite criôlo e será retomado nas análises do próximo
capítulo. Cf. VERDE Nº 1 Setembro de 1927. P. 26
64
VERDE Nº 2 Outobro de 1927. P.14

43
Dos futuros diretores de leite criôlo, Guilhermino César foi o que mais publicou

nas seis edições da publicação de Cataguases. Foram ao todo quatro poemas, duas

resenhas e um pequeno conto65. Além disso, sua assinatura consta no manifesto da

revista: mesmo morando em Belo Horizonte ele fazia parte do grupo modernista de

Cataguases. Ao que tudo indica sua estréia literária já se fez em águas modernistas e –

quando publicou seu primeiro livro de poemas, Meia-Pataca, em conjunto com

Francisco Inácio Peixoto, no ano de 1928 – Guilhermino tinha apenas 20 anos de idade.

Em suma, aplicar-se-ia também a ele a desarticulada frase telegráfica com que se auto-

qualificou seu parceiro de livro, “nacido [sic] e criado dentro modernismo” 66.

No extremo oposto da trajetória de Guilhermino encontra-se o caso do colaborador

de leite criôlo Wellington Brandão. Não sendo um dos diretores, Brandão era, no

entanto, uma das suas vozes mais distintivas da publicação e só ficava a dever a eles no

número de textos publicados no suplemento, assinando em todos eles como Fidelis

Florêncio. Nascido em 1894, era 12 anos mais velho que Guilhermino e é descrito na

enquête literária realizada pelo Diario de Minas nos primeiros meses de 1929 – enquête

que será mais à frente analisada com maior detalhamento – como um advogado e

industrial que residindo na cidade de Passos, “fez mais pelo modernismo do que muitos

vanguardistas das capitaes”67. Em 1927, ela já havia publicado quatro livros, sendo dois

de poemas parnasianos e simbolistas, um de “pensamentos e emoções” e um de

contos68. Este último, datado de 1926, chegou a ser resenhado em Verde por Ascânio

Lopes e, descontado o estilo mais sóbrio de Ascânio, o julgamento emitido era bastante

semelhante ao de Rosário Fusco em relação a Serenidade: Bonecos de Pano de

65
Poemas: “Noturno” (VERDE Nº1, 9/1927), “Crônica Quase Policial da Barroca” (VERDE
Nº4,12/1927), “Balada do Arco-Íris da Gente”, “Tio Santana”, (VERDE Nº5, 1/1928-4/1928). Resenhas:
“Baianinha e Outras Mulheres”, “Arraiada Mineira” (Nº 5, 1-4/1928). Conto: “Santinha da Encarnação”
(VERDE Nº1, 9/1927)
66
VERDE Nº 4 Dezembro de 1927. P. 13
67
DIARIO DE MINAS, 14 de fevereiro de 1929.
68
Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Usu%C3%A1rio:Lucasbrandaoarouca. Acesso 2 de abril de 2008.

44
Wellington Brandão não era um livro inteiramente desprovido de qualidades, no

entanto, as qualidades de seu autor deveriam ser avaliadas, assim como as de Vivacqua

na resenha de Fusco, por sua produção mais recente, em especial pelo “ingenuo

primitivismo dos ‘Cantos Municipais’” 69.

A menção ao “primitivismo” era especialmente importante neste contexto, dado

que desde a publicação do artigo “Tendências” de Tristão de Athayde (pseudônimo de

Alceu Amoroso Lima), a facção paulista do modernismo liderada por Mário de Andrade

e Oswald de Andrade vinha sendo denominada de “primitivista”. Uma outra tendência

que seria nomeada em artigo posterior, também de Tristão de Athaide, era a

“espiritualista”. Essa denominação se referia ao grupo carioca reunido em torno da

revista Festa, que cultivava um nacionalismo distinto daquele do grupo paulista, era

menos dado à iconoclastia e que mantinha certa proximidade com o movimento de

renovação católica liderado por Jackson de Figueiredo.70 Wellington Brandão, que antes

havia publicado um texto “passadista” em prosa simbolista nas páginas de A Revista71,

estava publicando àquela altura na revista carioca, pela qual os “verdes” não possuíam

grande apreço72, uma novela intitulada “Cabeça de Comarca”, distribuída ao longo de

cinco números, além de outros textos menores73. Ao se referir ao primitivismo dos

“Cantos Municipais” – série de poemas curtos de estilo irônico e humorístico de forte

influência oswaldiana que continuaria a ser publicada em leite criôlo74 – Ascânio opta

por elogiar apenas a faceta do escritor mais próxima da orientação do grupo de Verde,

69
VERDE Nº 3 Novembro de 1927. P. 25
70
Cf, GOMES, 1999. P. 69-70.
71
“O Poema Maior” em A REVISTA Nº 2 Agosto de 1925. P. 34-35. Como já se mencionou, A Revista é
uma publicação na qual eram publicados também textos de escritores “passadistas”. Quando
mencionamos aqui o grupo desta revista nos referimos aos modernistas já citados responsáveis pela sua
publicação. Sobre “passadismo” e modernismo em A Revista cf. DIAS, 1968. P. 18-20 e BUENO, 1982.
P. 35-73.
72
Cf. a resenha do lançamento do terceiro número de Festa em VERDE Nº 4 Dezembro de 1927. P. 13
73
Apud DOYLE, 1977. P. 103-109.
74
Na mesma edição em que aparece a resenha de Ascânio, foram publicados cinco poemas dos “Cantos
Municipais”. Cf. VERDE Nº 3 Novembro de 1927. P. 13

45
faceta que se tornaria uma verdadeira persona literária ao se vincular, nas publicações

posteriores, com o pseudônimo Fidélis Florêncio.

A REVISTA QUE SÓ TEM ESTOMAGO

Temos por estabelecido, então, que as figuras chaves de leite criôlo haviam todos

chegado a um estilo de escrita modernista próxima dos “primitivos” paulistas e,

também, se inserido definitivamente na rede modernista nacional, através da publicação

de seus trabalhos, no período de 1927/1928. O próximo passo da análise da inserção dos

diretores de leite criôlo e da própria publicação na rede modernista nacional passa pela

publicação da chamada “primeira dentição” (primeira fase) da Revista de Antropofagia,

da qual foram publicadas dez edições entre maio de 1928 e fevereiro de 1929. Foi esta a

terceira revista literária do modernismo sediada em São Paulo: fora antecedida por

Klaxon (nove números entre maio de 1922 e janeiro de 1923) e Terra Rocha e outras

terras (sete números de janeiro a setembro 1926). Aparentemente o nome da publicação

e sua viabilidade financeira se deveram a Oswald de Andrade – que publicou no

primeiro número da revista seu “Manifesto Antropófago”, mantendo a forma lacônica e


75
fragmentada do seu polêmico manifesto “Pau Brasil” e radicalizando suas

proposições – a direção e a gerência, porém, ficaram a cargo de Antônio de Alcântara

Machado e Raul Bopp, respectivamente76. Na “primeira dentição” da revista a

“antropofagia” não era a ainda o ideário radical e razoavelmente bem definido que

talvez o manifesto já propusesse, mas que só ganharia sua feição característica na

75
Para as polêmicas envolvendo o primeiro manifesto de Oswald ver MORAES, 1978. P. 83-103
76
Informações extraídas de uma carta de Antônio de Alcântara Machado a Alceu Amoroso Lima (Tristão
de Athayde), apud SANTIAGO, 2003 P. 105-109. Segundo a carta, Oswald viajou para a Europa logo
que após o aparecimento da primeira edição da Revista de Antropofagia. Esta seria, segundo Alcântara,
“intelectualmente (...) o produto do meu esforço e só do meu esforço”. E completava: “A função do Bopp
se limitava a enviar pelo correio 70% da tiragem”. Idem, P. 107

46
“segunda dentição”, a cargo do próprio Oswald e de seus colaboradores mais próximos,

incluindo Bopp. Na fase dirigida por Alcântara Machado, a “antropofagia” era

principalmente uma metáfora recorrente à disposição das mais variadas intenções dos

colaboradores. Um exemplo é a “Nota insistente” do próprio Alcântara Machado que

fecha a primeira edição, na qual a metáfora do canibalismo se refere justamente às

pretensões “ecumênicas” da publicação e nega que o manifesto de Oswald seja o

manifesto da publicação:

Neste rabinho do seu primeiro numero a “Revista de Antropofagia” faz


questão de repetir o que ficou dito lá no principio:
- Ella está acima de quaesquer grupos ou tendencias;
- Ella acceita todos os manifestos mas não bota manifesto;
- Ella acceita todas as criticas mas não faz critica;
- Ella é antropofaga como o avestruz é comilão;
- Ella nada tem que ver com os pontos de vista de que ver com os pontos de
vista de que por acaso seja vehiculo.
A “Revista de Antropologia” não tem orientação ou pensamento de especie
alguma: só tem estomago.77

E, de fato, a Revista de Antropofagia abrigou neste momento contribuições dos

colaboradores dos mais variados. Tirando o diretor e o gerente, não se pode falar

propriamente de um grupo específico da mesma maneira que nos referimos ao grupo de

Verde ou de A Revista. Publicaram ali modernistas de primeira hora e adesões tardias,

tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro – incluídos o “verde-amarelo”78 Plínio

Salgado e o “espiritualista” Augusto Frederico Schimidt, dois dos alvos prediletos da

“segunda dentição” –, somados a elementos dos grupos mineiros de A Revista e de

Verde, além de um influxo considerável de modernistas nordestinos e de vozes esparsas

de núcleos modernistas do país inteiro.

Nesta publicação, que pode ser descrita como o auge da rede nacional modernista,

os futuros diretores de leite criôlo também publicaram seus poemas. De Aquiles

77
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 1, Maio de 1928. P. 8
78
O “verde-amarelismo” era uma das correntes modernistas do momento. Pregava um nacionalismo um
pouco distinto da proposto por Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Cf. MORAES, 1978 P. 113-135.

47
Vivacqua saíram os poemas “Indifferença”, dedicado a Oswald de Andrade e

transparecendo a sua influência tanto estilística (versos curtos justapostos, articulados

graficamente e sem pontuação) quanto temática (contrapondo as grandes cidades da

modernidade à autenticidade da natureza brasileira) 79, e “Dança do Caboclo”, bastante

parecido com o poema “Samba” que Vivacqua publicara na revista Verde e já

comentado acima80. Guilhermino César aparece também duas vezes na primeira


81
dentição da revista. São publicados ali seu poema “Deslumbramento” – dedicado a

Mario de Andrade, o poema em forma de cantiga tematiza a volúpia de uma “morena” –

e também uma resenha sobre seu livro conjunto com Francisco Inácio Peixoto, Meia-

Pataca, da autoria de Alcântara Machado. Nessa resenha o crítico literário paulista –

que como já vimos, parece ter sido bastante impiedoso com o livro de estréia de

Vivacqua – se manifesta bastante favorável à produção de Guilhermino, lhe fazendo

somente umas poucas e brandas ressalvas82. João Dornas Filho, por sua vez, se fez

presente na publicação paulista com apenas um poema: “Retrato do Brasil” que –

através da menção implícita ao livro homônimo de Paulo Prado e da afirmação de um

nacionalismo crítico à “preguiçosa confiança” ufanista nas grandezas nacionais –

antecipa alguns dos principais temas e referências que se farão presentes em leite

criôlo83.

Grande parte dos futuros colaboradores de leite criôlo de fora de Belo Horizonte

também publicaram na primeira dentição da Revista de Antropofagia: Wellington

Brandão da cidade mineira de Passos, sob o pseudônimo Fidelis Florêncio; Jorge

Fernandes e Luis da Câmara Cascudo de Natal, do Rio Grande do Norte; Marques

Rebello, Alberto Dezon e Walter Benevides do Rio de Janeiro, Franklin Nascimento de

79
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 3, Julho de 1928. P. 2
80
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 10, Fevereiro de 1928. P. 5
81
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 5, Setembro de 1928. P. 2
82
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 10, Fevereiro de 1928. P. 4
83
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 10, Fevereiro de 1929. P. 2

48
Fortaleza, Ceará; além de vários integrantes do grupo dos Verdes de Cataguases84. O

gerente da primeira dentição da publicação paulista, Raul Bopp, também contribuiria

depois em leite criôlo com poemas da série “Ai, seu Mé”, iniciada na Revista de

Antropofagia, sempre sob o pseudônimo Jacob Pim-Pim.

Para além do conjunto de colaboradores, a marca da “primeira dentição” da

Revista de Antropofagia também se faz presente em leite criôlo em termos temáticos e

procedimentos estilísticos. O exemplo mais claro de tal conexão se dá no caso da seção

“Brasiliana” da publicação paulista, cujo eco no suplemento belorizontino se intitulava

“raça”. Publicada em todas as edições dirigidas por Alcântara Machado da Revista de

Antropofagia, a seção “Brasiliana” era constituída por trechos citados, em geral a partir

da grande imprensa, contendo normalmente o que poderiam ser consideradas aporias ou

incoerências da vida brasileira. Aos trechos eram acrescentados títulos irônicos, em um

procedimento já utilizado por Oswald de Andrade em seu livro Pau Brasil em relação a

seleções de textos de crônicas coloniais, mas agora deslocado para o cotidiano e o

contemporâneo. A seção “raça” de leite criôlo era igualmente um pequeno noticiário

satírico composto de “pérolas” da incoerência nacional, embora o matiz ideológico e a

origem das citações fosse um pouco diferente daquele da publicação paulista, como

veremos no próximo capítulo. A questão é que, incidentalmente, o primeiro fragmento

de “Brasiliana” no primeiro número da publicação antropófaga era intitulado “Raça”.

Outro momento da primeira dentição da Revista de Antropofagia que dificilmente

passaria em branco para o futuro grupo de leite criôlo seria a resenha de Antonio de

Alcântara Machado do livro Poemas e Essa negra Fulô do poeta alagoano Jorge de

Lima. Nela o poema “Essa negra fulô”, de grande repercussão nos meios modernistas

no ano de 1928, era entusiasticamente elogiado, algo extremamente incomum no âmbito

84
Alguns dos nomes citados já estavam em contanto epistolar com Achilles Vivacqua antes do
aparecimento de leite criôlo, como Marques Rebello e Franklin Nascimento, que haviam ambos recebido
cópias de “Serenidade”.

49
das resenhas de Alcântara Machado, em especial em se tratando de autor recém estreado

no modernismo e distante dos eixos principais do mesmo85. Talvez o reconhecimento

alcançado pelo poema de temática “negra” – no qual apareceriam temas depois

retomados em leite criôlo, como a escravidão, a sensualidade da negra e a punição física

através do açoite – tenha inspirado o grupo mineiro a conceber a temática “negra” como

uma resposta viável à temática indianista da Revista de Antropofagia. Como já vimos,

Aquiles Vivacqua já havia trabalhado com uma temática deste tipo em “Samba”.

Também Guilhermino César produzia poemas nessa linha, do que são exemplos os

poemas “Tio Santâna”, retratando um ex-escravo que “espantava a fraqueza / lembrando

direito / a fála do antigo feitor”, publicado na revista Verde86 e o já mencionado

“Deslumbramento”, publicado na própria Revista de Antropofagia. Por fim, na sua

resposta à já mencionada enquête literária realizada pelo Diario de Minas em 1929, João

Dornas Filho sintetiza o pano de fundo sobre o qual se dará opção pela temática “negra”

em leite criôlo. Para ele,

A formula – tupy or not tupy that’s the question [trecho do Manifesto


Antropófago de Oswald de Andrade] – exprime nada ou quase nada.
Porque não com o indianismo só, ou sem elle, que chegaremos a
totalizar nossa maneira. É com muita coisa mais.87

No mesmo texto ao enumerar as figuras que, na sua opinião, mais haviam feito no

âmbito do modernismo brasileiro, o nome de Jorge de Lima aparece logo em seguida ao

de algumas das figuras mais antigas e estabelecidas do movimento: Mário e Oswald,

Ribeiro Couto e Guilherme de Almeida. A estes se soma apenas o nome do poeta

Ascenso Ferreira que, como Jorge de Lima, era um poeta nordestino, no caso

pernambucano, que em 1928 havia publicado um poema e uma carta aberta na Revista

85
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 1, Maio de 1928. P. 4
86
VERDE Nº5, 1/1928-4/1928
87
DIARIO DE MINAS, 3 de fevereiro de 1929

50
de Antropofagia88. Dornas deixa claro, porém, que os escritores citados “fizeram muito

mas não fizeram tudo”.

No entanto, o momento no qual Dornas antevê a possibilidade de “totalizar a

nossa maneira” e, implicitamente, a possibilidade de uma participação maior das

produções dele e de seus amigos na rede modernista é também o momento no qual as

tensões internas do movimento atingem seu ponto máximo. Em algum momento

anterior ao lançamento da segunda dentição da Revista de Antropofagia, em março de

1929, ocorre o rompimento definitivo entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Evento controverso e obscuro para o qual podem ter concorrido divergências tanto

estéticas e ideológicas (Eduardo Jardim de Moraes menciona as diferenças quanto à

maneira de conceber a nacionalidade que haviam levado Mário a rejeitar ainda em 1924

o “Manifesto Pau-Brasil” de Oswald, cujas concepções são radicalizadas no “Manifesto


89
Antropofágico” ), como político-partidárias (Sérgio Miceli destaca as vinculações de

Oswald com o Partido Republicano Paulista e de Mário ao Partido Democrático, no


90
contexto da campanha eleitoral mais disputada da chamada “república velha” ),

somadas possivelmente a alguma desavença de caráter pessoal, dificilmente

documentável e irrelevante para a presente análise. Ainda na primeira dentição da

publicação paulista surgem indícios de algum desentendimento entre os dois escritores –

na primeira página da edição de número sete foi publicado em letras garrafais o seguinte

recado de Oswald, assinado com o nome do personagem principal de seu romance

Memórias sentimentais de João Miramar e intitulado “Saibam quantos”:

Certifico a pedido verbal de pessoa interessada que o meu parente


Mario de Andrade è o peor critico do mundo mas o melhor poeta dos
Estados Desunidos do Brasil. De que dou esperança.91

88
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 4, Agosto de 1928, P. 1 (“A sucessão de São Pedro”) e Nº 6,
Outubro de 1928, P. 5 (“Carta a Órris Barbosa”).
89
MORAES, 1978. P. 91-92.
90
MICELI, 2001. P. 254.
91
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 7, Novembro de 1928, P. 1

51
Mensagem cifrada que fora do seu contexto original parecer evocar desde uma

tentativa de retratação até uma intenção provocadora. Mas certamente indica algum

abalo na relação entre os dois “Andrades” do modernismo. Mário, por sua vez,

publicaria no último número da “primeira dentição” da publicação paulista um texto

intitulado “Antropofagia?”. Nele descreve um momento em suas pesquisas folclórico-

etnográficas no qual seus informantes lhe insinuaram um caso real e contemporâneo de

canibalismo mágico-ritual92. Talvez o texto possa ser compreendido como uma resposta

à concepção oswaldiana de brasilidade “primitivista” – implicando que o “primitivo”

real, concreto e contemporâneo poderia ser o lugar do cruel e do desumano,

possibilidade não contemplada nos ideais estetizantes, metafóricos e utópicos do

“Manifesto Antropofago”. Aqui estariam, assim, contrapostas as concepções de

brasilidade que Eduardo Jardim de Moraes descreve como demolidora e intuitiva, no

caso de Oswald, e construtiva e erudita, no de Mário de Andrade93.

O fato é que, depois daquela última edição da primeira fase datada de fevereiro de

1929, ressurgiria nas páginas do Diário de São Paulo, em 17 de março do mesmo ano,

uma Revista de Antropofagia muito diferente da que fora publicada até então. Em carta

ao crítico Alceu Amoroso de Lima – figura central do modernismo sob a alcunha de

Tristão de Athayde –, Antônio de Alcântara Machado, depois de dizer que antes dos

acontecimentos citados já se convencera que Oswald de Andrade “tinha tudo menos

caráter”, dá a sua versão para a transição entre as “dentições” da publicação modernista:

Bem. Em fevereiro deste ano [1929] segui para aí [Rio de Janeiro]


deixando dois números [da Revista de Antropofagia] prontos sendo que
um deles já na tipografia: o número de fevereiro que saiu. O de março
ficou a cargo (revisão) unicamente de um auxiliar do meu escritório que
para tanto se entenderia com [Raul] Bopp. Em março o Rubem do
Amaral procurou o Bopp para ambos irem ao meu escritório pois o
Rubens queria me propor a publicação da revista no Diário de São
Paulo. Eu me encontrava no Rio. Que faz Bopp? Entende-se com o
Oswald [de Andrade] e telefona para aí propondo que eu acabasse com

92
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 10, Fevereiro de 1929, P. 5
93
MORAES, 1978. P. 91-94

52
o Antropófago. Na Agência Brasileira, na presença do Sérgio [Buarque
de Holanda] e do [Américo] Facó, eu concordei. No dia seguinte o Bopp
comunica ao Rubens que eu me desinteressava da revista mas que ele,
Oswald de Andrade e Osvaldo Costa se incumbiriam de sua publicação
no jornal.
Quando aí no Rio tive conhecimento da nova fase da [sic] Antropófago
fiquei surpreso mas pouco me incomodei. Percebi logo que era uma
safadeza e calei-me. O Rubens me conta a história que o Mário [de
Andrade], o Couto de Barros e o Paulo Prado confirmaram. Aos três
últimos o Oswald havia declarado que eu autorizei a publicação da
revista no Diário e concordara com a minha saída e a indicação de um
novo diretor, o irresponsável mulato Geraldo Ferraz. 94

O ponto de vista de Oswald sobre os eventos descritos pode ser acompanhado

através de uma carta deste enviada a Carlos Drummond de Andrade, datada, segundo

Plínio Doyle, de “fins de março de 1929”

(...) não houve transformação e sim ortodoxia. o Alcântara [Machado]


não entendeu o sentido do movimento. pensou que era troça e publicou
durante meses inutilidades amenas. evidentemente errei em tê-lo
convidado para dirigir a Revista.
agora a coisa é outra. estão à frente Bopp e Osvaldo Costa,
cunhambebes autênticos e leais95

O gosto expresso na carta pela “ortodoxia antropofágica” também faria sua

aparição na página antropófaga do Diário de São Paulo. A maior parte da publicação

era constituída de um conjunto de pequenos textos baseados em citações e aforismos

que explicitariam a nova filosofia antropofágica, desenvolvendo temas já presentes no

“Manifesto Antropofágico”, e relegando a publicação de poemas, tão característica da

primeira dentição, para o segundo plano. Dela constaria uma seção intitulada

“Moquem” – nome da grelha de origem indígena, aqui concebida em termos de

canibalismo – cuja função era provocar, criticar e ridicularizar figuras do modernismo

não afinadas com o ideal antropofágico. Função também cumprida por inúmeras notas

94
Apud SANTIAGO, 2003. P. 107. No livro citado, a carta vem datada de 15 de maio de 1930, o que
parece erro, posto que no texto a referências de acontecimentos de 1929, como sendo “deste ano” (“Em
fevereiro deste ano segui para aí deixando dois números prontos sendo que um deles já na tipografia: o
número de fevereiro que saiu”). Em todo caso, a data publicada não invalida nossa linha de
argumentação.
95
Apud DOYLE, 1976. P. 140.

53
menores, nas quais o incomparável talento de Oswald para o trocadilho era utilizado

contra seus aliados modernistas de antevéspera.

Tal tomada de posição – possivelmente inspirada no tipo de ação grupal no campo

artístico levado a cabo inicialmente pelos dadaístas e, posteriormente, pelos surrealistas

– levou, nas palavras de Aracy Amaral, a uma “torrente de rompimentos”: alguns dos

amigos e colaboradores mais próximos de Oswald romperam relações com ele. Além

dos já citados Mário de Andrade e Antônio de Alcântara Machado, foi o caso de Yan de

Almeida Prado e de Paulo Prado96. As relações com os outros grupos modernistas,

como o “espiritualista” da revista Festa e os verde-amarelistas, evoluiriam, então,

rapidamente de uma discordância cordial para uma animosidade declarada.

Das múltiplas reações à radicalização de Oswald de Andrade e de seus

companheiros de ideário antropofágico nos interessa aqui especialmente a de Alcântara

Machado, expressa no fim da carta já citada a Alceu Amoroso de Lima:

Ai está – meu querido Alceu – a razão pela qual é imprescindível uma


conjuração do silêncio em torno da nova fase oswaldiana. Cabotino o
que ele quer é ruído à sua volta, já está isolado. Não convém tirá-lo da
solidão.97

O citado isolamento de Oswald e da nova dentição da Revista de Antropofagia, ao

qual Alcântara Machado propõe adicionar uma “conjuração do silêncio”, implica que na

segunda dentição do periódico paulista a contribuição dos modernistas de primeira hora

está descartada e a dos modernistas menos ilustres é muito bem vinda. Além das

próprias contribuições publicadas na revista – muitas das quais de autoria de

modernistas nordestinos que são, com poucas exceções (como Jorge de Lima), nomes

pouco relevantes da rede modernista naquele momento –, são sintomáticos os esforços

do grupo antropófago para conseguir a adesão daqueles que eram então considerados

96
Cf. AMARAL, 1975. P. 264-268.
97
Apud SANTIAGO, 2003. P. 108

54
líderes do movimento moderno em Belo Horizonte, Carlos Drummond de Andrade e

João Alphonsus. A carta já citada de Oswald a Drummond pede a este que “mande

coisas” para a Revista de Antropofagia e também que “diga aos [escritores do grupo da
98
revista Verde de] Cataguases que com eles contamos” . Em decorrência da negativa

deste, outro “antropófago”, o escritor Clóvis Gusmão sediado no Rio de Janeiro, escreve

para Drummond e João Alphonsus carta datada de 23 de abril de 1929. Citando a

adesão do amigo comum de remetente e destinatários, Aníbal Machado, Gusmão

convoca os dois a abrir uma “seção mineira da antropofagia”:

Vocês fundem aí – com o auxílio do Aquiles Vivacqua e do João


Dornas Filho, o Clube de Antropofagia de Minas Gerais. Mas não se
esqueçam os dois rapazes que são meus amigos particulares. Já escrevi a
ambos dizendo-lhes que procurassem vocês.99

Em carta a Oswald de Andrade datada de maio de 1929, Carlos Drummond de

Andrade – que esta altura já se correspondia com Mário de Andrade há anos e o

considerava um amigo pessoal – define de uma vez por todas sua rejeição à

antropofagia invocando, para além da fidelidade ao amigo, também razões literárias

para tanto.

A antropofagia não é mais um movimento decente. Nem é uma blague.


Sinto muito, mas não posso aderir.
Num dos últimos números da Revista V. escreve que “os meninos de
Minas precisam de decidir, literatura será questão de amizade?” etc. etc.
Para mim toda a literatura do mundo não vale uma boa amizade. Mas
aqui não se trata de amizade, é pura literatura. Quando apareceu a
primeira dentição da Revista eu já implicara com o título e lembro-me
de ter escrito a respeito a alguém daí. E só me senti à vontade para
colaborar nela quando verifiquei que o título não tinha nada com a
direção liberal que davam à Revista
(...)
Quanto aos outros “meninos” de Minas, cada um decidirá por si. O João
Alfonsus concorda comigo e o João Dornas fundou o criolismo, cujo
órgão oficial sairá dia 13 deste.100

A partir destas últimas duas cartas podemos perceber como o aparecimento de

leite criôlo se vincula às tensões na rede modernista por ocasião do surgimento da

98
Apud DOYLE, 1976. P. 140.
99
Apud DOYLE, 1976. P. 142.
100
Apud DORNAS FILHO, 1959. P. 88.

55
segunda dentição da Revista de Antropofagia. Cabe agora analisar como tais tensões se

apresentaram no período no qual a publicação mineira circulou.

O GRANDE ATENTADO ÀS BOAS LETRAS

A existência de leite criôlo enquanto periódico foi relativamente curta, o que não

distingue, aliás, essa publicação da maioria dos periódicos modernistas. Foram ao todo

18 edições semanais, aos domingos, no Estado de Minas101, no período entre 2 de junho

e 29 de setembro de 1929, e um tablóide no dia 13 de maio (comemorativo da abolição

da escravatura) do mesmo ano. Para termos de comparação pode-se citar que de A

Revista foram publicadas 3 edições (julho e agosto de 1925; janeiro de 1926) e que da

segunda dentição da Revista de Antropofagia – que tinha em comum com leite criôlo o

fato de consistir em uma página dentro de um jornal diário comercial, em oposição ao

formato avulso e mais estendido de A Revista – saíram 16 números entre 17/3/1929 e

1/8/1929.

Quando ao grau da sua inserção na rede modernista nacional cabe mencionar que a

publicação dirigida por Dornas, Vivacqua e Guilhermino César contou ao todo com 53

colaboradores, incluindo além de escritores mineiros contribuições de Rio, São Paulo,

Fortaleza, Januária, Curitiba, Vitória, Natal, Pará, Paraíba e Alagoas. Dentre os

escritores mineiros é maciça a presença do grupo da revista Verde, de Cataguases,

incluindo um dos editores, Guilhermino César, além de Rosário Fusco, Francisco Inácio

Peixoto, Oswaldo Abrita, Ascânio Lopes (publicações póstumas) e Fonte Bôa. Existe

entre essa revista e o suplemento certa continuidade: textos publicados na Verde são

101
Não conseguimos encontrar nenhuma informação que ajude a compreender porque o jornal Estado de
Minas publicou em suas páginas o suplemento modernista leite criôlo. O jornal havia sido fundado no ano
anterior e seria comprado pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand treze dias depois da
publicação da primeira edição do suplemento. A única conjuntura que nos foi possível é que existe uma
grande probabilidade de algum ou talvez todos os diretores de leite criôlo trabalhassem no jornal. Cf.
MENDONÇA, 1987. P. 62-64.

56
republicados em leite criôlo102, séries de poemas que começaram a ser publicadas na

revista tem a sua continuação no suplemento103, as homenagens ao poeta do grupo de

cataguases Ascânio Lopes, morto no início de 1929, são constantes na publicação de

Belo Horizonte. Em comparação com A revista, nota-se a expansão do movimento

modernista entre 1925-26 e 1929: a publicação dirigida por Carlos Drummond de

Andrade que contou com contribuições de 27 autores, sendo todos eles mineiros, com

exceção da contribuição extensa de Mario de Andrade; da participação, com um poema

cada, de Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho; e da tradução

de um texto de Freud. É interessante notar a variedade de grupos modernistas

espalhados pelo país que estavam em contato com leite criôlo, em oposição à

vinculação única de A Revista com o eixo Rio-São Paulo, através do apadrinhamento de

Mário de Andrade. E, por outro lado, a ausência de figuras centrais do movimento

modernista na publicação de 1929, com a exceção de Raul Bopp – que, no entanto,

publicou apenas sob o pseudônimo Jacob Pim-Pim – e dos mineiros Drummond e João

Alphonsus, cujas relações complexas com o grupo de leite criôlo analisaremos a seguir.

Dentro da linha de análise da trajetória das tomadas de posição no interior da

“república das letras”, pode-se observar que leite criôlo tem por interlocutores e pontos

de referência, por um lado, os principais escritores do grupo de A Revista que

continuavam em Belo Horizonte – os já citados Drummond e João Alphonsus – e, por

outro, o grupo da Revista de Antropofagia. Curiosamente os posicionamentos do grupo

102
O poema “Samba” de Achilles Vivacqua foi publicado sob o pseudônimo Roberto Theodoro em Verde
N˚ 1, de Set/1927, e republicado com o nome do autor em leite criôlo III, de 16/6/1929. O texto de Yan
de Almeida Prado “Arte e Artifício” foi publicado em Verde N˚ 2, de Out/1927, e republicado em leite
criôlo XIII [15˚ suplemento], de 8/9/1929. De Ascânio Lopes foram republicados postumamente dois
artigos: “A hora presente”, Verde N˚ 2 (Out/1927) e leite criôlo X [11˚ supl.] (11/8/1929); e “Paulo
Prado, Paulística e Várias Coisas”, Verde N˚ 4 (Dez/1927) e leite criôlo XIII [14˚ supl.] (1/9/1929).
103
As séries são “Poemas de Belo Horizonte” de Achilles Vivacqua , iniciada sob o pseudônimo Roberto
Theodoro em Verde N˚ 2 (Out/1927) e continuada com o nome do autor em leite criôlo VIII (21/7/1929),
e “Cantos Municipais” de Welligton Brandão, iniciada em Verde N˚ 3 (Nov/1927) e continuada, agora
com o pseudônimo Fidelis Florêncio, em leite criôlo I (2/6/1929), II (9/6/1929), V(30/6/1929) e X
(11/8/1929).

57
de leite criôlo em relação a ambos os outros grupos não se fazem presentes na sua

própria publicação: o palco da interação explícita com o outro grupo mineiro seria a

imprensa belorizontina e, com o grupo paulista, a página que esse publicava no Diário

de São Paulo. Tentaremos demonstrar que esta tentativa de neutralizar o próprio

suplemento em relação à política literária modernista se dá no sentido de aderir à

antropofagia oswaldiana sem romper as relações com outros grupos modernistas. Além

disso, percebemos a intenção de evitar que leite criôlo se torne o que os “antropófagos”

paulistas gostariam que ela fosse, ou seja, uma subsidiária local da Revista de

Antropofagia.

Um primeiro foco da complexa relação entre Carlos Drummond de Andrade e

João Alphonsus e o grupo “criolista” é a já citada enquête com escritores mineiros,

realizada nos primeiros meses de 1929 no jornal Diario de Minas, cujo redator-chefe

naquele momento era o próprio Drummond104. Na apresentação da referida enquête, a

iniciativa é filiada à tradição das enquêtes literárias e delimitada às letras mineiras,


105
incluindo tanto os “novos escritores” como dos “antigos valores” . Incidentalmente,

nas questões propostas a discussão sobre o significado do movimento modernista, então

em seu momento de tensão máxima, era quase onipresente:

I. Que pensa do estado atual da literatura no Brasil? II. Que pensa do


estado atual da literatura em Minas? III. Sua opinião sobre o
modernismo. IV. Qual a posição dos antigos valores no quadro literário
atual? V. Progredimos? Estacionamos? Regredimos?106

As respostas dos escritores que pouco tempo depois lançariam leite criôlo deixam

transparecer um entusiasmo modernista e nacionalista que contrasta fortemente com as

declarações reticentes e desiludidas de João Alphonsus na mesma enquête. A distância

104
A enquête já foi analisada por Fernando Correia Dias, mas em um sentido diferente do proposto aqui.
Interessava ao sociólogo mineiro a questão da dispersão do grupo modernista de Belo Horizonte que
publicou A Revista, grupo às vezes denominado a partir dos seus pontos de encontro, a Confeitaria Estrela
e a Livraria Alves. Cf. DIAS, 1968. P. 31-37.
105
DIARIO DE MINAS, 3 de fevereiro de 1929.
106
Apud DIAS, 1968. P. 31

58
entre o grupo mais estabelecido de modernistas mineiros, tendo a frente Alphonsus e

Drummond, e o grupo que viria alguns meses depois constituir o “criolismo” já

começava a se delinear. Se na introdução à resposta de João Dornas Filho o texto – que,

em última instância, era responsabilidade de Drummond, redator-chefe do jornal –

apresenta o escritor de Itaúna como um companheiro de viagem, nas introduções às

respostas de Acchiles Vivacqua e Guilhermino Cesar, são feitas ressalvas à posição dos

dois:

O senhor Achiles é bem moço ainda. Si por um lado, isso lhe permite
affirmar com convicção coisas que mais tarde não lhe pareçam
absolutamente certas, por outro lado lhe confere autoridade o bastante
para dizer outras tantas coisas que só os moços comprehendem e que só
elles sabem e podem dizer107
Guilhermino é, entre os verdes de Cataguases, o de coração mais suave.
(...) Teria Guilhermino Cesar mudado feitio como se muda de alfaiate?
Parece que o poeta esta se buscando, inquieto neste mundo que é o
Brasil. Esta se buscando ou se perdendo.108

Em relação à Revista de Antropofagia, a primeira interação publicada com o

grupo que logo publicaria leite criôlo seria um texto de Achilles Vivacqua intitulado “a

propósito do homem antropófago”. Publicado no sétimo número da segunda dentição da

publicação paulista, no dia primeiro de maio de 1929, o texto retrabalha alguns temas

do “Manifesto Antropofágico” de Oswald, porém em uma chave de interpretação menos

surrealista e mais ostensivamente nacionalista. O índio é mencionado como a raça forte

que se juntou com duas raças decaídas, os negros e os portugueses, para a problemática

formação da nacionalidade brasileira, antecipando temas e idéias que se farão presentes

em leite criôlo109.

107
DIARIO DE MINAS, 14 de fevereiro de 1929. Encontramos dois anos distintos como sendo da data
de nascimento de Vivacqua: 1900, presente nas memórias da sua irmã (VIVACQUA, 1997. P. 135), tão
zelosa da sua lembrança, e 1905, citado por Fernando Correa Dias (1968. P. 12), que parece ter se
equivocado. De todo jeito, a invocação no trecho citado da juventude de Vivacqua para desautorizá-lo é
quase tão incisava caso ele seja três anos mais novo que Drummond – ou seja, nascido em 1905 – quanto
se a datação de 1900 estiver correta e ele for dois anos mais velho que o poeta de Itabira.
108
DIARIO DE MINAS, 7 de abril de 1929.
109
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 7, 1º de maio de 1929.

59
Dois números antes, aparecia na publicação paulista um texto intitulado “Os tres

sargentos”, assinado com o pseudônimo trocadilhesco Cabo Machado, no qual eram

atacados Antônio de Alcântara Machado, ao qual o referido pseudônimo aludia; Yan de

Almeida Prado, que havia publicado capítulos de sua obra “Os tres sargentos” na

primeira dentição da Revista de Antropofagia; e Mário de Andrade. O texto também

exigia uma definição por parte dos modernistas mineiros – “(...) os meninos de Minas

precisam se decidir. Literatura será questão de amizade?”. No mesmo texto Carlos

Drummond de Andrade é citado nominalmente como destinatário de uma carta em que

o rompimento com Alcântara Machado era justificado, provavelmente a carta de

Oswald citada acima. A resposta foi a também já citada carta de Drummond na qual já

se fala em “criolismo” e na publicação de seu “órgão oficial”. A geometria das tensões

que perpassariam a trajetória de leite criôlo estava então colocada.

Em 13 de maio de 1929, comemoração dos quarenta anos da abolição da

escravatura, seria publicado leite criôlo, um tablóide de oito páginas a ser distribuído

gratuitamente nas ruas de Belo Horizonte. Apesar de constar no cabeçalho como

“numero I” e “ano I”, nada no tablóide indicava que haveria periodicidade definida ou

mesmo seqüência à sua publicação110 e uma matéria publicada pelo Diario de Minas em

maio de 1929 anunciando o seu futuro aparecimento já anuncia a sua “publicação

irregular (tanto quanto possivel irregularissimo[sic])”111. Outro artigo não deixou passar

em branco certa opção de escrita presente no tablóide, se referindo ao fato de leite criôlo

se apresentar “as primeiras letras l e c minusculos – o que elles [os diretores] acham

110
Nos outros periódicos modernistas consultados é comum a referência ao que seria publicado nos
próximos números e também a oferta de assinaturas, apesar de serem, via de regra, empreendimentos
editoriais amadores, de periodicidade irregular e tendência a gerar prejuízos financeiros.
111
Recorte de jornal, anotado à mão “Diario de Minas, maio 929”. Série Fortuna Crítica. Caixa 1
(Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG.

60
112
uma cousa muito interessante” , solução gráfica inspirada provavelmente na segunda

dentição da Revista de Antropofagia. Dentre os textos predominavam os artigos (oito) –

em especial relativos ao ideário “criolista”, do qual trataremos no próximo capítulo –

seguido pelos poemas (sete) e trechos de prosa (três). Nesta primeira aparição de leite

criôlo a proporção de textos que mencionavam questões raciais, ligados assim mais

diretamente ao programa da publicação, foi expressivamente mais alto (61,9%) quando

comparado à totalidade dos textos da publicação modernista, que foi de 24,35%.

Com exceção daqueles publicados na Revista de Antropofagia, todos os artigos

que encontramos sobre o aparecimento do “órgão oficial do criolismo” expressam

reservas em relação à publicação. Os próprios companheiros de redação de Achilles

Vivacqua e João Dornas Filho na Semana Ilustrada escrevem em uma nota sobre leite

criôlo que “os espiritos modernos, não sabemos se pela inquietação ou pela incultura,

têm uma tendencia para o fútil e para a blague”113. Mas pode-se especular que tais

críticas de caráter explicitamente passadista não incomodassem muito e até mesmo

divertissem os diretores da publicação modernista. Outro exemplo desta linha de

rejeição a leite criôlo, publicado no mesmo jornal que dali a dezoito dias estamparia a

publicação como suplemento literário, chega a ser um complemento perfeito à blague

modernista de Vivacqua, Dornas e Guilhermino:

Consumou-se o grande atentado ás boas letras – a policia, numa atitude


criminosa, cruzou os braços, e a cidade foi inundada pelo “leite criôlo”.
Ao que nos consta, são oito páginas em bom papel, repletas de cousas
absurdas, sem nexo, sem sentido, inverossimeis.
(...)
Ainda bem que elles avisam nos prospectos de propaganda – não leiam
“leite criôlo”.
Sigamos este alvitre.
Formemos uma cruzada santa pela moralidade das nossas letras.114

112
Recorte de revista com artigo de Jairo Leão, anotado à mão “Vida Capixaba – Vitória, E. Santo”.
Série Fortuna Crítica. Caixa 1 (Classificação provisória). Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores
Mineiros, UFMG.
113
SEMANA ILUSTRADA, Nº 91. 13/5/1929
114
ESTADO DE MINAS. 12 de maio de 1929. Nota-se que o artigo saiu um dia antes do “grande
atentado às boas letras” efetivamente “inundar as ruas”.

61
Assinada por um certo Juvencio Bôaventura, nome que não encontramos em

nenhum outro ponto da nossa pesquisa, e publicado no Estado de Minas – que, assim,

após invocar uma “cruzada santa”, acaba por publicar leite criôlo – não seria impossível

que o artigo tivesse saído das próprias linhas “criolistas”, como parte do espetáculo de

lançamento do tablóide.

Outros artigos publicados na ocasião, no entanto, se ajustavam menos à idéia de

succès de scandale vanguardista. Como já vimos, o artigo publicado no jornal Folha da

Noite focava as fracas credenciais modernistas do grupo “criolista” e estranhava que

João Dornas Filho, “dos contos passadistas”, e Achilles Vivacqua, “o auctor de

‘Serenidade’, que o Totó Alcantara (...) não gostou”, estivessem envolvidos em um

movimento “á maneira do desenfreiado [sic] movimento antropophagico de S.

Paulo”115.

Mas, sem dúvida, os ataques mais importantes sofridos pelo grupo de leite criôlo

vinham dos modernistas sediados no Diário de Minas, tão ou mesmo mais versados na

blague vanguardista que seus contrapartes que haviam produzido o tablóide. Um dos

artigos publicados no jornal do PRM. se refere a leite criôlo como um jornal

comemorativo de datas nacionais – o artigo propõe sua publicação nos dias “21 de abril,

13 de maio, 15 de novembro ou qualquer outra data” –, comparando-o a uma banda de

música de cidade do interior. Além disso, menciona o movimento antropofágico como

sendo uma “revolta (...) contra escritores paulistas de mais fama” 116. Em outro artigo, a

crítica a leite criôlo vai além da blague polêmica, atacando os pontos fracos do

programa “criolista”:

Um dos collaboradores [refere-se a Newton Braga] chega aconselhar o


negro a ‘deixar suas dansas barbaras, seus cantos de captiveiros, de
saudade, de melancolia’. Ora, precisamente, o que o negro nunca deve

115
FOLHA DA NOITE, 11/5/1929
116
DIARIO DE MINAS, 12/5/1929

62
deixar, porque teria de adoptar, como aliás já acontece, outras danças e
outros cantos deploráveis, porque sem sinceridade.
Querem também acabar com as crendices, como si isso fosse herança do
negro captivo deixada no Brasil e o branco europeu, sem “criolismo”,
não tenha as suas supertições117

E de fato os “criolistas” não conseguiram realizar uma síntese consistente da sua

posição primitivista e nativista – que significava, por exemplo, que muitos poemas

baseados em material folclórico considerado “tipicamente negro” fossem publicados no

seu “órgão oficial” – e suas concepções sobre a “formação racial” brasileira e o

significado do “negro” na mesma, estas muito próximas das formulações do Retrato do

Brasil de Paulo Prado e, até mesmo, das discussões, estudadas por Tania Regina de

Luca, presentes vários anos antes nas páginas da Revista do Brasil118, questão que

analisaremos no próximo capítulo.

No entanto, a postura do grupo de leite criôlo frente ao grupo que havia

participado de A Revista era de conciliação: em entrevista ao jornal Correio Mineiro,

João Dornas afirma que

o Carlos Drummond e o João Alphonsus divergem de muita coisa que


pensamos. E estão aí firmes conosco, prestigiando o nosso jornal com
colaboração de primeiríssima. Deus nos livre se não estivessem.119

Da parte dos escritores citados – que contribuíram com um texto cada no tablóide

de 13 de maio, sendo que Drummond também publicou ali um poema sob pseudônimo e

publicaria um outro sob seu próprio nome na segunda edição de leite criôlo como

suplemento do jornal Estado de Minas – havia a percepção, expressa em um dos artigos

do Diário de Minas já citados, de que “os rapazes mineiros apparecem com intenção de

não brigar”120.

117
DIARIO DE MINAS, 14/5/1929
118
Cf. DE LUCA, 1999. P. 131-156
119
Apud. BUENO, 1982. P. 104.
120
DIARIO DE MINAS, 12/5/1929

63
Como já foi dito, dezoito dias depois do lançamento do tablóide, no dia 2 de junho

leite criôlo faria a sua segunda aparição, desta vez como suplemento literário do jornal

Estado de Minas. No novo formato, o “órgão oficial do criolismo” ocupava

normalmente um espaço que variava entre meia página e um quarto de página, nas

edições de domingo do jornal mineiro. Ele não esgotava o espaço do periódico

destinado à literatura: uma quantidade considerável de textos literários, em geral

passadistas, também era publicada no jornal. A idéia de estampar o título da publicação

modernista em minúsculas foi mantida e expandida para muitos dos títulos dos textos ali

publicados. A ênfase quanto ao material publicado se afastou gradativamente das

concepções mais programáticas do “criolismo”, em favor da publicação de textos

estritamente literários, poemas em especial. A orientação do suplemento, no geral,

estava mais próxima, apesar das diferenças de formato, do ecumenismo modernista de

publicações como Verde e da primeira dentição da Revista de Antropofagia, do que da

estridência da segunda dentição desta última.

No entanto, os “antropófagos paulistas” logo colocariam o grupo de leite criôlo na

desconfortável posição de antípodas do grupo de modernistas mineiros fiel à orientação

de Mário de Andrade, posição que, como vimos, eles tentavam evitar. No décimo

número da segunda dentição da Revista de Antropofagia, sob a rubrica “Expansão

Antropofágica”, foi publicada uma nota intitulada “clube de antropofagia de minas

geraes” no qual aparecia um trecho de João Dornas Filho explicando o programa de

leite criôlo, seguido de um comentário da publicação

Pura antropofagia! Isso é a prova que Minas não é só Cataguases [sede


da revista Verde e do grupo a ela associado]. E em Belo Horizonte
ninguem olha com simpatia os transbordamentos liricos de Mario de
Andrade pela meninada serelépe121

121
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 10, 12 de junho de 1929.

64
Assim, a recusa em bloco do grupo de Verde em aderir à antropofagia era

contraposta à posição de leite criôlo, ignorando que Guilhermino César fazia parte deste

grupo, que contribuía com bastante freqüência na publicação de Belo Horizonte. A nota

ignorava também que sem dúvida Mário de Andrade continuava figura central pelo

menos do cânone pessoal de João Dornas, como demonstra a sua resposta à enquête já

citada122. As próprias diferenças entre os ideários da “matriz” paulista e sua suposta

“filial” mineira – o fato de que à iconoclastia estetizada dos paulistas corresponde o

antibacharelismo “pé-no-chão” do grupo mineiro – não seriam acusadas em nenhum

momento pela Revista de Antropofagia.

Não se pode, no entanto, considerar o grupo “criolista” como uma “vítima

inocente” do expansionismo antropofágico, a política ambígua de leite criôlo trazia

algumas vantagens para o grupo mineiro. Dentro de uma situação na qual a contribuição

dos modernistas de primeira hora na Revista de Antropofagia está descartada, se abre

uma possibilidade para os três diretores de leite criôlo aumentarem seu peso enquanto

escritores nacionalmente. No décimo primeiro número da publicação paulista, saíram,

lado a lado, a nota intitulada “Cartas na mesa: os andrades se dividem”, que transcrevia

a carta já citada na qual Drummond rompe em definitivo com a antropofagia, e a longa

entrevista com João Dornas, intitulada “a propósito do movimento criôlo”. Nela o

escritor afirma que na luta contra o bacharelismo, a ignorância e o pernosticismo – aos

quais denomina coletivamente “criolismo” – a “antropofagia, com o seu sentido de

brasilidade, vae á frente com o tacape e com os dentes, desbravando o caminho perigoso

que tem nos desorientado até aqui”. E continua afirmando a identidade entre os projetos

das publicações mineira e paulista:

Conosco pensam todos os novos de responsabilidade nas letras mineiras


de quem já recebemos as mais significativas adesões.
(...)

122
DIARIO DE MINAS, 3 de fevereiro de 1929

65
Concluindo. A finalidade do criolismo é mais ou menos a mesma da
antropofagia. É a mesma de todos os movimentos nacionalizadores.
Talvez o caminho é que tenha umas pequenas variantes, que
absolutamente não nos desviarão do fim desejado, porque estamos
bussolados de muita vontade de acertar123

Como já afirmamos, esta espécie de afirmações não aparece nas páginas do

suplemento mineiro. A única menção que a esta altura se fazia à antropofagia se dá em

um artigo, na edição número VI de leite criôlo, do colaborador Newton Braga.

Intitulado “devore-se”, o artigo do conterrâneo de Achilles Vivacqua – Newton Braga

também era um natural de Cachoeiro do Itapemirim vivendo em Belo Horizonte –

vincula a publicação mineira à rede nacional de publicações modernistas, incluindo a

“antropofagia”, descrita como o batalhão de formigas que devorarão as “reliquias,

medalhões e antiguidades” do bacharelismo brasileiro124. Uma matéria parecida, com

um panorama nacional dos vários “clubes de antropofagia”, havia sido publicada quase

que simultaneamente na Revista de Antropofagia. Nela leite criôlo é citado como “a

parte boa do modernismo mineiro” 125.

João Alphonsus começa então a pressionar o grupo “criolista” para que se defina

como contrário à antropofagia. O escritor mineiro se fazia presente nas páginas do

Estado de Minas ao mesmo tempo em que o suplemento, publicando ali sua “Chronica

Literaria”, seção iniciada no dia 16 de junho do ano em questão. Tratava-se basicamente

de uma seção de resenhas, mas que eram escritas de maneira solta, permitindo ao autor

abordar o assunto que desejasse. No dia 28 de julho, incrustado na sua resenha do livro

Estudos (2ª série) de Tristão de Athayde, aparece um recado para o grupo de leite criôlo

no qual a trajetória da Revista de Antropofagia é narrada na perspectiva de Alphonsus,

com ênfase em certas conexões políticas que analisaremos em seguida:

123
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 11, 19 de junho de 1929.
124
LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929.
125
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº13, 4 de julho de 1929.

66
1927. Tão longe. Depois delle aconteceram uma porção de coisas
deploraveis e o homem moderno do Brasil continua procurando.
Procurando o que? Sinto uma certa nausea em falar em coisas
deploraveis, do mesmo passo que sinto necessidade de esclarecer essas
coisas, não para mim, mas para os meus camaradas “leite-criolistas” por
exemplo, rapazes estimaveis mas que andaram mettidos por querer no
meio do “movimento antropophagico”.
(...)
Sob a direcção de Alcantara Machado, fundou-se em S. Paulo a revista
de antropophagia. Havia enthusiasmo, camaradagem. Mas o sujeito
endinheirado [Oswald de Andrade] não podia estar satisfeito com a
rabada (...). Apesar do ilustre presidente Washington Luis achar uma
graça damnada nelle, passear de braço dado com elle. (...) Rodeou-se de
rapazes que [ilegível] carecendo de um [ilegível], ainda que de pau
torto. Um incidente de coisinha de revista serviu para o rompimento.
Hoje os antropophagos atacam rijamente os srs. Alcantara Machado,
Mario de Andrade e Tristão de Athayde, com mesquinharias.
Convencidos de que podem destruir alguma coisa. Nos intervallos
manifestam sua incondicional adhesão á candidatura Julio Prestes.126

A menção a dois políticos importantes do período – o então presidente da

república, Washington Luís, e o presidente do estado de São Paulo e candidato do

Catete para a próxima eleição presidencial, Júlio Prestes – não é de maneira alguma

gratuita. Após tensões de diversas origens, o então presidente do estado de Minas

Gerais, Antônio Carlos, e o situacionismo mineiro, representado pelo Comitê Central do

PRM, se encontravam em conflito com o governo federal e com o situacionismo

paulista, vinculado ao Partido Republicano Paulista (PRP), no período que, como

mostra Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, era o mais intenso dos processos sucessórios da

chamada “República Velha”: as negociações pré-eleitorais com vistas a definir o(s)

candidato(s) à presidência. Minas, desde o início de 1929, manifestava a sua recusava a

aceitar a candidatura de Júlio Prestes, proposta defendida pelo Catete, e ameaçava

lançar uma chapa oposicionista, o que acabou ocorrendo com o lançamento da Aliança

Liberal127, anunciada pelo Estado de Minas no dia 4 de agosto de 1929.

No aspecto que nos interessa aqui, o importante é que o governo Antônio Carlos,

embora baseado no tradicional esquema de poder do PRM, havia conquistado a simpatia

126
ESTADO DE MINAS, 28 de julho de 1929.
127
Cf. VISCARDI, 2001. P. 330-349.

67
de parte da opinião pública urbana com medidas consideradas modernizadoras como a

fundação da universidade (UMG, que se tornaria posteriormente a UFMG) e a

instituição no estado do voto secreto. Se, por um lado, os jovem intelectuais que

orbitavam em torno da Faculdade de Direito dependiam das redes clientelistas do

situacionismo para conseguir seus cargos no serviço público e na imprensa, por outro,

tal fato não determinava a espécie de adesão entusiasmada que podemos observar tanto

no grupo de leite criôlo, quanto no grupo modernista que se opunha ao suplemento.

Drummond declarou, em carta pessoal destinada a Mário de Andrade datada de 9 de


128
agosto, ser “soldado vibrante da aliança liberal” . Por sua vez, leite criôlo publica,

uma semana depois do lançamento da Aliança Liberal, um manifesto de apoio ao

presidente Antônio Carlos da autoria de João Dornas Filho escrito em linguagem

coloquial-modernista, destacando a afinidade entre os ideais do suplemento e aqueles

encarnados na candidatura oposicionista

Por isso é que “leite criôlo” bate tropicalmente as palmas aplaudindo a


atitude do Sr. Antonio Carlos. E sem compromisso nenhum porque
nenhum de nós, isoladamente, deve nada ao presidente de Minas. E nem
em conjunto. O caboclo é porque é macho mesmo e Minas em peso está
com quem não deixe minas fazer feio.
(...)
Ninguem estranhe “leite criôlo” entrar nessa dansa. Nos somos antes de
tudo e sobretudo brasileiros, a quem interessa desde modo de assoar o
nariz até o modo de governar a nação. Não é só movimento literário
não. É tambem político e social.129

Nota-se que a vinculação de Oswald de Andrade ao PRP – apontada na já citada

crônica literária de João Alphonsus em um contexto já conflituoso, porém anterior ao

lançamento Aliança Liberal – pode ter incitado Dornas a declarar que não se devia

estranhar a tomada de posição de leite criôlo. A partir daquele número o suplemento

não publica mais artigos sobre o “criolismo” e perde, assim, o pouco de referência à

128
Apud SANTIAGO, 2002. P. 354.
129
LEITE CRIÔLO Nº X (11º), 11 de agosto de 1929. A numeração do suplemento encontra-se, ao final
da publicação de leite criôlo, dois números defasada devido à repetição errônea do cabeçalho nos
exemplares IX (28/7 e 4/8) e XIII (1/9 e 8/9).

68
programática da segunda dentição da Revista de Antropofagia que havia na publicação.

Na, por assim dizer, política interna da “república das letras” os acontecimentos da

política nacional fortaleciam a posição de Drummond e João Alphonsus, dado que

várias das figuras com quem Oswald rompera eram ligadas ao Partido Democrático. Era

o caso de Paulo Prado, Antonio de Alcântara Machado e Mário de Andrade130.

Segundo Sergio Miceli, o partido representava uma aliança de frações dissidentes da

oligarquia perrepista com as demandas modernizadoras de segmentos urbanos como

profissionais liberais, intelectuais etc.131, o que talvez representasse uma vantagem, sob

o ponto de vista dos modernistas mineiros, em relação à estrutura mais conservadora do

PRP, ao qual Oswald de Andrade – apesar das suas posições radicais no campo literário

– continuava vinculado.

Na já citada carta de Antônio de Alcântara Machado a Alceu Amoroso Lima,

ainda em maio de 1929, o escritor paulista estranha a presença de Oswald de Andrade e

de sua Revista de Antropofagia nas páginas do Diário de São Paulo, filiado à rede dos

Diários Associados de Assis Chateaubriand, simpatizante do Partido Democrático132

Em tudo isso o que há de estranho é a atitude do Diário de S. Paulo e


em conseqüência de O jornal. Ignora talvez o [Assis] Chateaubriand
que (...) o [Oswald de] Andrade vem servido das salas para bajulações
semanais ao benemérito Governo Paulista? E o resto? Se ignora não
devia ignorar.133

Seja por tais injunções, seja por outras, a Revista de Antropofagia deixa de

circular, após um último número datado de primeiro de agosto. O suposto “clube de

antropofagia de Minas Gerais” continuaria publicando seu “órgão oficial”, embora,

como já foi dito, um pouco descaracterizado. Um mês e meio depois, no entanto, o

número XIV de leite criôlo seria apenas uma pequena coluna com um trecho de prosa e

130
Cf. AMARAL, 1975. P. 265 e MICELI, 2001. P. 254
131
Idem. P. 91-92.
132
Cf. VISCARDI, 2001. P 343.
133
Apud SANTIAGO, 2003. P. 108.

69
dois poemas curtos. Na mesma página aparece a seção “Chronica literaria”, de João

Alphonsus, com um texto intitulado “De Negra Fulô a Freud” no qual o escritor mineiro

se refere mais uma vez à antropofagia, agora como um fato passado, em uma resenha

cujo centro é o já mencionado poema “Negra Fulô” de Jorge de Lima:

A obrigatoriedade dos themas brasileiros na poesia nacional creou,


como era de esperar, uma falsa brasilidade de rethorica poetica, a que
poucos ou nenhum conseguiram [sic] escapar. (...) alguns delles deram
para antropophagos, e ficaram exasperados, porque ninguem não notou
que elles haviam mudado de rotulo, rapazinhos imberbes ao lado de
sujeitos maduros e beiçudos , num farrancho divertido pelo menos.
Porém, como de todas as cousas más tem que resultar alguma coisa boa
(...) a verdade é que nem tudo está morto, e ha poetas já treinados e
outros incipientes, com os quaes é preciso contar toda a vida, já porque
tiveram o bom humor para desertar do farrancho antropophagicamente
piqueniquesco, já porque de qualquer modo elles estão conduzindo a
nossa poesia a com caminho, apesar das vicissitudes actuaes.
(...)
Pois bem só se lembraram elles do indio como alegoria para quadros
vivos construidos demais, e dos negros, para distillar tristezas ou fazer
cafuné [sic]. E só o Sr. Jorge de Lima, de Alagoas, que tinha sido antes
um emerito cultivador de sonetos, foi capaz de vir a publico uma
legitima e espontânea “Negra Fulô”, que vale por si só mais que os
longos poemas em que modernistas anteriores versejaram
episodicamente a história do Brasil134

O artigo em tom triunfante enterra simbolicamente leite criôlo, evocando contra as

tentativas literárias do suplemento o poeta e o poema que, como foi visto, era uma

bastante provável inspiração das propostas estéticas do grupo “criolista”. A lição foi

entendida: o próximo número do suplemento marcaria a ruptura deste com a

antropofagia, neste momento isolada e sem publicação própria. A segunda menção

explícita da antropofagia nas páginas de leite criôlo consiste em um artigo do

modernista alagoano Valdemar Cavalcante intitulado “Anthropophagia” – que já havia

sido publicado no Jornal de Alagoas de 9 de maio de 1929135 – no qual Oswald é

atacado devido “ao seu plano de botar Jesus Christo para fora do territorio brasileiro” e

desviar o modernismo de sua verdadeira batalha contra o bacharelismo. No texto

também aparece, incidentalmente a figura de Jorge de Lima, ao qual se refere ter sido

134
ESTADO DE MINAS, 15 de setembro de 1929.
135
Cf. SANT´ANA, 1978. P. 123.

70
nomeado, apesar das suas “convicções catholicas, agente de antropophagia aqui em

Alagoas”. 136

Aparece também neste suplemento um poema, intitulado “poema a um galo

conhecido meu”, de João Dornas Filho, no qual se parece aludir ao comportamento

mulherengo de Oswald – que naquele momento se separara da sua esposa Tarsila do

Amaral, para ficar com a poetisa Pagu, que então tinha apenas 18 anos137 – concluindo

que o “galo” por não possuir culpa não pode se queixar “da faca e da panela” 138.

Após este rompimento com a antropofagia haveria apenas mais um número, aliás,

pequeno e atípico, de leite criôlo: terminara a aventura da publicação e de seu grupo na

rede modernista nacional – rede que, aliás, já não era mais a mesma e que funcionaria

de maneira bastante diversa a partir de 1930. Talvez seja válido citar aqui um poema,

chamado “Vai-vem da ladeira sem flores”, de Guilhermino César – único texto assinado

por um dos diretores de leite criôlo a sair no último número do suplemento – para

demonstrar o contraste do fim melancólico da publicação com o entusiasmo nacionalista

e modernista que levou à sua publicação:

Tudo sem vida


me levando a vida,
monotona

Caricia da descida.
Os anjos máus que me abraçaram
os anjos máus...
Monotona
Caricia da descida.139

136
LEITE CRIÔLO Nº XV (17a) de 22 de setembro de 1929.
137
Cf. AMARAL, 1975. P. 284-295.
138
LEITE CRIÔLO Nº XV (17a) de 22 de setembro de 1929.
139
LEITE CRIÔLO Nº XVI (18a) de 29 de setembro de 1929.

71
3. Não tão somente pela poesia: gêneros e temas em leite
criôlo.

Está assim aberta a todas as oposições a REVISTA DE


ANTROPOFAGIA. E conta com sua colaboração
frequente. Uma única restrição: cousa curta.

- Carta circular da Revista de Antropofagia, anunciando o


seu aparecimento, assinada por Raul Bopp e Antônio de
Alcântara Machado, para Achilles Vivacqua (Sem data,
anterior a 10 de maio de 1928). Série correspondência.
Caixa 1 (Classificação provisória). Fundo Achilles
Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG.

A REVISTA DE ANTROPOFAGIA já tem para publicar


em seus próximos números nada mais nada menos do que
37 poesias: não possue um único trechinho de prosa.
Ela dirige aos novos do Brasil este radiograma
desesperado:
S.O.S. SOCORRO. ESTAMOS NAUFRAGANDO NO
AMAZONAS DA POESIA. MANDEM PROSA
SALVADORA

- “S.O.S.” de Antônio de Alcântara Machado e Raul Bopp


Revista de Antropofagia, Nº 2. Junho de 1928.

Estamos numa phase em que todo o espirito da nova e


velha intellectualidade, abandonando a prosa, volta-se
para a poesia. Atingimos o ultimo momento da
insinseridade. O traço principal da psychologia do nosso
povo, formado da influencia de tres elementos ethnicos,
não cria, como característica da nossa psyché, uma
individualidade literária marcada somente pela poesia.

- “Poetas” de Achilles Vivacqua, Semana Illustrada, Nº


85. 30/3/1929.

72
Depois de analisada a trajetória do grupo de leite criôlo e da própria publicação no

interior da rede modernista, pretendemos no presente capítulo analisar os textos ali

publicados com o intuito de compreender a lógica do seu projeto literário e intelectual.

Os diversos temas presentes no tablóide e nos suplementos serão enfocados a partir do

recorte dos gêneros literários ali presentes. Tal opção metodológica se dá com o

objetivo de aproximar a análise da lógica de produção literária: é preciso lembrar –

contra a tentação de buscar na publicação a espécie de discurso claro, coerente e

homogêneo que se poderia esperar de um texto teórico – que os diretores e

colaboradores de leite criôlo se pensam como literatos e concebem as pequenas

contribuições ad hoc que compõe o mosaico que é o “órgão oficial do criolismo” como

textos literários. O risco que se pretende evitar é o de conceber leite criôlo como uma

entidade dotada de uma retórica e de uma ideologia unitárias, limitação esta que se fez

presente na análise de Antônio Sérgio Bueno.

As epígrafes citadas acima remetem a concepções relativas a gêneros literários

expressas no âmbito da rede modernista contemporânea a leite criôlo, exemplificando

como tais concepções se fazem presentes naquele momento. A primeira delas se refere à

limitação básica dos textos que aparecem em publicações como leite criôlo e a Revista

de Antropofagia, o tamanho. Invoca também o procedimento pelo qual se recruta

colaboradores para publicações que, ao que parece, não pagavam pelos textos

publicados, ou seja, a ativação dos contatos no âmbito da rede modernista nacional. As

epígrafes seguintes se referem à posição da poesia como gênero literário predominante

no âmbito do modernismo de então e expressam também uma reação a este quadro. Mas

enquanto a citação da primeira dentição da Revista de Antropofagia apenas pretende

restaurar o equilíbrio numérico entre poesia e prosa no interior daquela publicação –

dirigida naquele momento por um prosador convicto, Antônio de Alcântara Machado –,

73
a citação do futuro diretor de leite criôlo, invocando a hegemonia do gênero poético

como sintoma da insinceridade da intelectualidade de então para com a “psychologia do

nosso povo, formado da influencia de tres elementos ethnicos”, levanta em torno de

uma questão literária indagações sobre a cultura e a nacionalidade que transcendem a

literatura estrito senso. Parece assim sugerir o formato da segunda dentição da Revista

de Antropofagia, na qual os poemas cedem lugar a textos programáticos e citações

formando uma espécie de manifesto contínuo. No entanto, o gênero poético permanece

hegemônico no corpus publicado de leite criôlo, mesmo que tensionado pela existência

de um eixo temático para a publicação.

No intuito de mimetizar a tensão presente na publicação entre o conteúdo

programático, mais próximo à lógica do manifesto, e o aspecto relativamente mais

fragmentário e tematicamente disperso da produção literária que se dá no interior de

gêneros mais estabelecidos, a análise do corpus pelo recorte dos gêneros será antecedida

por uma breve discussão do referencial temático que leite criôlo propõe desde o seu

título: a presença negra no Brasil, pensada a partir do “tipo” da “mãe preta”.

COM A FIGURA DA MÃE PRETA NA CABEÇA


Apesar de trabalhado pontualmente de forma bastante satisfatória, o processo de

transformação pelo qual passa o pensamento racial brasileiro a partir do final dos anos

1910 até a década de 1940, tendo possivelmente como pontos críticos as décadas de

1920 e 1930, comumente descrito como sendo o do aparecimento das noções de

“democracia racial” e “nação mestiça”, ainda permanece em muitos pontos obscuro e

mal compreendido.

Uma primeira distinção necessária é reiterar que o foco da presente análise é o

pensamento racial, posto que existe uma certa tendência a ignorar a importante

diferenciação entre racismo e racialismo proposta por Tzvetan Todorov em seu texto

74
clássico sobre o assunto . O autor búlgaro distingue o racismo enquanto comportamento,

ou seja, enquanto prática social, do racialismo enquanto ideologia, no sentido de

doutrina referente às supostas “raças” humanas. Segundo ele o “racista comum não é

um teórico, não é capaz de justificar seu comportamento por argumentos

‘científicos”140. Portanto para o estudo da cultura da prática racista no Brasil, as infames

“piadas de preto” que infelizmente a maior parte dos brasileiros ouviu em um ou outro

momento de sua vida são mais importantes que os textos de Gobineau, por mais que

estes textos tenham tido ampla aceitação nos círculos da elite brasileira da segunda

metade do séc. XIX ao começo do XX. É óbvio que o racialismo pode legitimar e

realimentar o racismo, mas a deslegitimação das concepções raciais não implica

automaticamente na eliminação, nem mesmo no combate às práticas racistas.

A definição proposta por Todorov também é importante na medida em que o

momento do surgimento e da consolidação do ideário da “democracia racial” é também

comumente considerado o momento no qual se abandona em definitivo, no Brasil, as

concepções racialistas. A publicação de Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre em

1933 costuma ser definida como o ponto no qual o pensamento social brasileiro sairia

da análise racial para a análise cultural, não mais se pensaria em termos de raças, mas

em termos de culturas. Mas não existem rupturas absolutas em história. Muitos estudos

atuais vêm nuançando a radicalidade de tal afirmação. Maria Lúcia Garcia Palhares-

Burke141 demonstra em sua biografia intelectual do sociólogo pernambucano que, não

apenas Freyre não havia ainda chegado às idéias mais características de Casa Grande &

Senzala até a segunda metade dos anos 1920, como se encontrava fascinado com várias

das teorias eugênicas e racialistas em voga nos Estados Unidos, mesmo depois de

freqüentar o célebre curso de Franz Boas na Columbia University. Ricardo Benzaquen

140
TODOROV, 1993. P. 107-112.
141
PALHARES-BURKE, 2005. P. 21-25; 261-327.

75
de Araujo142, no seu clássico livro sobre o pensamento de Freyre, mostra que o autor

trabalha com a idéia de que existiam raças, mas que elas eram mutáveis pelo meio e

pela cultura, ou seja, uma concepção neo-larckista de raça. Já Anadelia Romo143,

analisando os trabalhos apresentados ao 1º Congresso Afro-Brasileiro, organizado por

Gilberto Freyre em 1934, mostra que esse e outros participantes do evento, se já

começavam a utilizar o conceito de raça separado do de cultura, ainda concebem a

presença negra no Brasil muitas vezes de modo biologizante e/ou monolítico. Mais

importante é a demonstração de que, abolida a hierarquia das raças, permanece a

hierarquia das culturas: Freyre, por exemplo, considera os africanos islamizados mais

evoluídos culturalmente que os Bantus, o que sugere implicitamente a inferioridade de

ambos em relação aos europeus144.

Quando não concebemos as idéias da geração modernista como uma fundação

ahistórica e sim como vinculadas a um determinado momento e a um determinado

espaço social, tais permanências não são nem um pouco surpreendentes, também não

retiram o caráter de novidade do ideário da formação racial surgido nas décadas de

1920-1930. Convém lembrar que o racialismo supostamente “científico” que alimentou

por décadas a imaginação das elites brasileiras, a ponto de inspirar uma política de

imigração fundamentada na esperança de “branquear” a população do país, não

desapareceria, sem deixar rastros, com algum passe de mágica.

Muito menos com um passe de ciência: não é possível concluir que o sucesso

editorial de Casa Grande & Senzala145, que acabou por simbolizar a mudança de

paradigma aqui analisada, seja conseqüência apenas de sua base científica

extraordinariamente atualizada e aprofundada para uma publicação brasileira da época.

142
ARAÚJO, 1994. P. 31-41.
143
ROMO, 2007.
144
Idem. P. 41-42
145
O livro foi originalmente publicado por uma pequena editora pouco estruturada, a Editora Schmidt, e
teve três edições entre 1933 e 1938.

76
No prefácio à segunda edição (datado de 1934, publicado em 1936), o autor insiste em

“observar que este ensaio pretende ser menos obra convencionalmente literária que

esforço de pesquisa e tentativa de interpretação nova de determinado grupo de fatos da

formação social brasileira” 146. Tal afirmação se torna compreensível se lembrarmos que

no momento posterior à primeira investida cultural da geração modernista e anterior ao

estabelecimento das universidades, reina entre os jovens intelectuais a desconfiança em

relação à produção institucional do conhecimento e da ciência como um todo,

expressões de um “anti-bacharelismo” e de um “anti-positivismo” de múltiplas faces

que caracterizam a produção da geração modernista nos anos 1920-30. No começo da

década de trinta a moda dos “ensaios sobre o momento” ou “sobre os problemas

brasileiros” – gênero no qual a Editora Schmidt se especializa – não interrompe a

avaliação da produção intelectual em termos predominantemente literários: o livro A

desordem de Virgínio Santa Rosa, por exemplo, cujo subtítulo é “Ensaio de

Interpretação do Momento”, é anunciado na lombada de outro livro como “vibrante

ensaio político que virá revelar um escriptor dos mais vigorosos”. A ausência de

especialização do conhecimento, produto de um meio no qual os cursos superiores de

Direito e Medicina reinavam absolutos, resulta que os praticantes do gênero que hoje é

chamado de “pensamento social” poderiam se conceber e ser recebidos pelos seus

leitores como literatos e não como cientistas sociais. Na realidade muitos dos ensaístas

dos anos 1930 haviam estreado nos anos 1920 como poetas e/ou críticos literários,

mudando de gênero literário apenas depois que fatores como a vitória da revolução de

1930 impõe a discussão do futuro político e social do Brasil como foco da produção

intelectual.

146
FREYRE, 1958. v.1 P. LXV.

77
Tais constatações nos permitem voltar à questão inicial: a relação entre o

suplemento modernista leite criôlo e a emergência do paradigma da “democracia

racial”. Nossa hipótese é que a publicação é parte de um grande arco de interesse pela

compreensão da nação e de seus problemas, implicando em uma reavaliação da

formação racial da população brasileira e, em especial, do significado da presença negra

na formação da nacionalidade.

É nesse sentido que devemos compreender a presença dos principais símbolos que

articulam o eixo temático de leite criôlo: a “mãe preta”, implícita no título da

publicação, e a abolição da escravatura, sublinhada pela data do lançamento da primeira

edição da revista mineira – o tablóide de 13 de maio –, ambos os símbolos presentes

também em vários textos publicados ao longo das 19 edições do “órgão oficial do

criolismo”. No capítulo anterior mencionamos a presença da temática “negra” no

âmbito da rede modernista nacional, ao que devemos acrescentar que a discussão sobre

o negro e a nacionalidade se dava naquele momento das mais diversas formas e através

dos mais diversos espaços, desde o debate erudito – num arco que vai das discussões

presentes na Revista do Brasil no final da década de 1910 e começo da década de

1920147 até a Primeira Conferência Eugênica Brasileira de 1929148 – até o teatro de

revista e outras formas de cultura de massa urbanas149.

Neste contexto, o “tipo” da “mãe preta” – personagem-emblema representando a


ama-de-leite negra do período escravista ou mesmo posterior, típico de um momento no
qual se espera que literatura “fixe” os traços de personagens-modelo socialmente
relevantes, do qual seria exemplo também o Jeca-Tatu de Monteiro Lobato – é uma das
peças simbólicas mais importantes da discussão. O exemplo mais expressivo seria a
campanha pela construção de um monumento à Mãe Preta, lançada no Rio de Janeiro
em 1926 por Cândido de Campos, proprietário do jornal A Notícia, mas logo

147
Cf. DE LUCA, 1999. P. 131-177
148
Cf. TELLES, 2003. P. 49
149
Cf. ,por exemplo, GOMES, 2001. P. 53-83.

78
encampada, por exemplo, pela Companhia Negra de Revistas e pela imprensa negra
militante de São Paulo, que lança para esta cidade uma campanha semelhante150. A
presença da Mãe Preta no repertório simbólico das entidades negras pode causar
espanto, pois nas palavras de Tiago de Melo Gomes
Hoje em dia, tal símbolo remete diretamente a Gilberto Freyre, portanto
à idéia de uma ideologia branca. Mas, no contexto da década de 1920,
esta figura assume outra conotação: tanto no Rio de Janeiro como em
São Paulo, grupos negros lutavam para conseguir erigir monumentos
em homenagem à Mãe Preta. 151

A própria virada ideológica, ou seja, a passagem de uma orientação editorial do tipo


mundana – veículo para notícias sociais das entidades de negros que organizavam bailes
e outros eventos – para uma de militância e protesto, ocorrida no jornal Clarim
D`Alvorada é descrita por seu idealizador José Correia Leite como sendo um número
especial propondo 28 de setembro (data da Lei do Ventre Livre) como dia da Mãe Preta
e apoiando a construção do monumento. A utilização desta simbologia conciliatória
pode ser compreendida como estratégica num momento em que toda a ordem simbólica
era impregnada por uma forte inércia racista. No entender retrospectivo de Correia
Leite,
na realidade, o monumento seria em homenagem à raça negra simbolizada na figura da
Mãe Preta. A imagem dela ficaria no pedestal e em volta vinham figuras do processo de
luta e trabalho do negro na formação do Brasil.152

A campanha pelo monumento à Mãe Preta repercute neste momento até mesmo

no âmbito relativamente ensimesmado da rede modernista nacional. Um editorial

intitulado “Concurso de lactantes” da autoria de Antônio de Alcântara Machado

estampado na primeira pagina da Revista de Antropofagia de novembro de 1928 trata o

tema da seguinte forma:

Estão tratando de erguer não sei onde (mas sempre aqui no Brasil) um monumento á
mãe preta. Os denodados que para isso trabalham querem confessadamente prestar
homenagem de gratidão ás amas molhadas e sêcas mas sobretudo molhadas da linda côr
do urubu. E atravez delas á raça escrava.
Eu acho isso muito bonito e comovente porêm perigoso. Marmorizada ou bronzeada a
preta, as mulatas e as brancas protestarão na certa. E será preciso erguer outros
monumentos. Um para cada côr. Depois um para cada nacionalidade. A homenagem
provocará uma competição de raças, de origens, até de tipos de leite. Por fim os

150
GOMES, 2001. P. 73.
151
Idem.
152
LEITE & CUTI, 1992. P.

79
fabricantes de leite condensado tambêm reclamarão a sua estátua e com toda a justiça. E
haverá o diabo quando o governo holandês exigir uma para as vacas suas súbditas.
Eu não estou ofendendo. Eu estou prevenindo.153

Mesmo investindo com sarcasmo contra o suposto perigo separatista de uma

medida tão inócua e compatível com uma interpretação paternalista da questão racial

como o monumento à Mãe Preta – denúncia de separatismo que parece ser uma

constante da intelectualidade brasileira quando confrontada com movimentos negros e

suas mais diversas demandas – o texto de Alcântara Machado demonstra que a figura da

“mãe preta” e as diversas e contraditórias questões que tal símbolo evocava estavam no

ar naquele momento. Assim, quando o colaborador capixaba de leite criôlo Garcia de

Resende abria um texto publicado no “órgão oficial do criolismo”, ao qual retornaremos

a seguir, afirmando que tinha passado “todo o dia de hontem com a figura da Mãe Preta

na cabeça”, ele se referia a um símbolo de fato muito presente naquele contexto154.

O citado editorial da primeira dentição da Revista de Antropofagia – da autoria do

mesmo Alcântara Machado que, como vimos no capítulo anterior, elogiara

vigorosamente o poema “Essa negra fulô” de Jorge de Lima, qualificado pelo crítico
155
paulista de “canção e história da escravidão sem querer ser” – serve também de

exemplo de como a presença da temática “negra” na produção e no debate cultural

naquele momento se dá de maneira complexa, carregada de ambigüidades e

contradições, e que a polissemia inerente a símbolos como a “mãe preta” e abolição da

escravatura se distende ao máximo em significações por vezes totalmente opostas.

Uma comparação entre os usos da figura da “mãe preta” em leite criôlo e na

chamada imprensa negra paulista sua contemporânea ilustra bem a variação dos

153
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 7, Novembro de 1928. P. 1
154
LEITE CRIÔLO Nº X (11º), 11 de agosto de 1929.
155
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Nº 1, Maio de 1928. P. 4

80
significados dos símbolos que focamos aqui. No texto MãePreta do jornal Progresso156

editado pelo poeta e militante paulista Lino Guedes, o tema da Mãe Preta é enfocado em

termos de usurpação e opressão branca: “Mães abandonando seus filhos, pelos dos

senhores, [que] quando grandes, pagavam esta dedicação, a chicote. Desgraçadas,

victimas, do deshumano servilismo!”

A mesma temática recebe um tratamento bem diferente nas páginas modernistas

de leite criôlo. No artigo já citado nota ligeira, Garcia de Resende, colaborador do

Espírito Santo, evoca a memória da Mãe Preta, mais especificamente da sua mãe preta –

“chamava-se ‘Chicó’”, escreve ele –, mas antes fala da fazenda de seu avô. Metade do

texto consiste na descrição nostálgica daquela propriedade, metade na evocação

genérica da influência da Mãe Preta na nossa “formação sentimental”. Em certo ponto

aparece a interrogação retórica: “Quem não se lembra da sua Mãe Preta?” (grifo

nosso)157 Por certo não os filhos de mães negras. É interessante notar o uso do pronome

possessivo, seguido da justaposição entre a descrição da propriedade rural e das

características da Mãe Preta, que só se particulariza pelo nome próprio.

No artigo intitulado leite criôlo estampado na primeira página do tablóide de 13 de

maio, Guilhermino Cesar, um dos três diretores, iniciava com uma afirmativa que serve

de resposta antecipada àquela falsa questão: “Nós todos mamamos naquêles peitos

fartos de vida e estragados de sensibilidade”. E expõe o que na sua opinião deve ser

feito com o leite da Mãe Preta, metáfora para a herança africana na formação nacional.

Arranjemos um processo de desnatar. A manteiga gostosa é a fala dêles que nós


queremos bem. Queremos bem como se fosse o presente meio forçado do seu trabalho.
Mas nem todo desptismo [sic] de presente se bota na sala pra goso das visitas. Alguns
vão pro fundo da mala.
Bemquerer a todos tem sido a enorme falta nossa. (grifo nosso)158

156
PROGRESSO, 19 de Agosto de 1928. Apud LEITE & CUTI, 1992. P.
157
LEITE CRIÔLO Nº X (11º), 11 de agosto de 1929.
158
LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de julho de 1929

81
Nesta fala se nota a relação mais do que ambígua de leite criôlo com a dimensão afro-

descendente da nação brasileira. O eufemismo irônico “meio forçado” que adjetiva o

suposto presente que seria o trabalho do negro introduz uma das facetas de leite criôlo,

uma espécie de sadismo que permeia as referências à escravidão. Muitos dos textos

enfatizam a brutalidade da escravidão, não no registro da indignação ou mesmo da

piedade, mas com certa malícia. No poema “mãe preta” de Fidelis Florêncio,

pseudônimo do colaborador assíduo Wellington Brandão, o eu lírico é um sinhozinho

mimado que ordena que sua “mãe preta” faça isto e aquilo, entre as ordens surgem

referências nostálgicas, sado-eróticas ao tronco terminando em uma exaltação

condescendente e irônica da Mãe Preta:

(...)
Mãe Preta, caiu um cisco no meu leite,
E porque não há mais tronco,
Si houvesse, Mãe Preta,
era hora de você ver
(...)
Nada de cantigas de congado.
Conte-me a historia daquelle sinhô
que te cortou de rabo de tatu.
- Chega sinhô!
- Não chega não, negra atôa!
e lépo e lépo e lépo!
E tu pelada no tronco
como um morcego de maminha.
Mãe Preta: como se chamava
Esse sinhô tão bravo?
Eta, mãe preta.
Serafina do Congo e Jesuis,
159
Ninguém póde com você!

Ao quase-sadismo malicioso se associa um tom impositivo, um contínuo chamado

à ordem. No texto já citado de Guilhermino César chama atenção a afirmativa

“bemquerer a todos tem sido a enorme falta nossa”. A publicação modernista mineira A

Revista, dirigida por Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida – cujo grupo

se encontrava em 1929, como vimos no capítulo anterior, oposto ao dos diretores de

leite criôlo, mas que possui grandes afinidades com este – afirma no seu primeiro

159
LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929.

82
editorial que “no Brasil ninguém quer obedecer. Há mil pastores para uma só

ovelha”.160 É nesta chave que se pode compreender que o tradicional paternalismo no

tratamento das questões raciais no Brasil constitui exceção em leite criôlo, a regra é um

tratamento ríspido, de choque. O porque deste método está explícito em um trecho da

resposta de João Dornas Filho à enquête do Diario de Minas, já analisada sob outros

aspectos no capítulo anterior:

Eu lembro que quando era garoto, mamava em bicos de borracha.


Na vespera de entrar pra escola a velha me obrigou a deixal-o. Foi o maior bagaço que
fiz na vida. Quebrei espelhos, louça, vaso de folhagens, o diabo. Por causa do habito,
que só se arrefeceu com uma tremenda surra de chinelos.
E assim todos nós. E pra tudo que precisamos reformar. O prefeito Passos e o sábio
Oswaldo Cruz que lhes contem em sessão espírita.161

A mesma clivagem se dá no tratamento do outro símbolo comum a leite criôlo e à

militância negra sua contemporânea, a abolição da escravatura. Como no caso da “mãe

preta” é preciso ressaltar que – se, a partir dos anos 1970, a simbologia da luta anti-

racista sofre grandes transformações no contexto do surgimento de uma nova leva de

movimentos negros, levando a instituição de 20 de novembro (data da morte de Zumbi

dos Palmares) como Dia da Consciência Negra – no período aqui enfocado todas as

entidades de militância negra, incluindo as de imprensa, comemoravam o 13 de maio,

data da abolição. Mas a figura emblemática desta comemoração não era a Princesa

Isabel, como observa Andrews, “no final da década de 1920, as comemorações [de 13

de maio] na capital do estado incluíam um desfile dos representantes de várias

organizações negras, do centro da cidade até o túmulo do abolicionista negro Luís

Gama” 162. A abolição era, pois, percebida como um processo na qual os negros ou, pelo

menos, alguns “grandes patrícios” – para emular a linguagem daqueles jornais – seriam

sujeitos históricos fundamentais.

160
A REVISTA No. 1, 1925. P. 12-13
161
DIARIO DE MINAS, 3 de fevereiro de 1929.
162
ANDREWS, 1998. P. 332-333

83
Já na abordagem de leite criôlo da abolição da escravatura a população negra não

é tornada objeto do processo apenas no sentido tradicional, ou seja, através do culto

paternalista à bondade da Princesa Isabel, mas também em um sentido mais perverso:

sua liberdade se torna um dos problemas do Brasil. Não é que faltem as representações

do primeiro tipo. Em “13 de maio”163, poema de Francisco L. Martins Filho, a descrição

de uma moça branca que brinca com “o pretinho” no colo da “preta gorda” sentada ao

seu lado em banco de praça é associada implicitamente à Princesa Isabel. Mas o texto

mais impressionante é “Defeza da Alegria” de Achiles Vivacqua164 cujo tema principal

é uma eugenia meio metafórica, meio concreta do povo brasileiro. A ausência de

referências aos abolicionistas negros não é nada incomum, mas a referência à luta

abolicionista como um todo nos seguintes termos é algo surpreendente:

Reivindicação de direitos ao preto. Não nego que foi justo. Porem fora do tempo.
Faltava-lhe educação. Não conhecia necessidades. Para vida livre. Mas cahio no
mangue assim mesmo. Queria gosar. Fuzarca. E com toda autonomia. Sem policia de
costumes. E poz em nossos dias todas as paixões licenciosas.

Para encerrar podemos comparar esta interpretação da abolição e de suas

conseqüências com uma outra publicada naquele mesmo 13 de maio de 1929, esta agora

da autoria de José Correia Leite do jornal Clarim D’Alvorada, ligado àquela

reivindicação de direitos aos negros para a qual a abolição foi apenas o começo.

[Os remanescentes dos escravos] Ficaram libertos, porém, sem pão e sem lar,
embrutecidos pelos martírios do maldito regime. Tiveram também de enfrentar as
correntes imigratórias que sempre foram bem remuneradas e amparadas por todas as leis
do nosso país. Do negro ninguém cuidou, ele que fora a verdadeira máquina de trabalho
para a construção dos alicerces do progresso que hoje assistimos (...). 165

NO AMAZONAS DA POESIA
Como já afirmamos, no conjunto do corpus de leite criôlo se mantém a hegemonia

dos versos característica das publicações modernistas dos anos 1920, sendo que o

163
LEITE CRIÔLO Tablóide, 13 de Maio de 1929
164
“Defeza da Alegria” de Achiles Vivacqua em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P. 7
165
Apud LEITE & CUTI, 1992. P. 226

84
volume das águas do “Amazonas da poesia” – para usarmos a metáfora de Antônio de

Alcântara Machado no trecho da Revista de Antropofagia que nos serve de epígrafe

neste capítulo – só não supera os outros gêneros textuais presentes na publicação no

tablóide de 13 de maio, na primeira edição a sair no jornal Estado de Minas em 2 de

junho, na nona edição de 28 de julho e na décima primeira edição de 11 de agosto

(numerada erroneamente X devido à repetição do clichê da edição IX no cabeçalho do

suplemento publicado em 4 de agosto). Nos dois primeiros casos, o tablóide e a edição

de estréia no Estado de Minas, os artigos programáticos – no caso expondo a visão de

mundo “criolista” – característicos das edições de lançamento de periódicos tomam a

frente e a edição de 11 de agosto é incidentalmente a edição no qual é publicado o

manifesto de apoio ao lançamento da Aliança Liberal, já anteriormente citado. Nota-se,

portanto, que em apenas uma das edições cotidianas de leite criôlo outro gênero textual

supera a presença hegemônica do verso no suplemento.

Dentre os poemas publicados é possível perceber a associação constante entre

temas afeitos ao nacionalismo primitivista e as técnicas literárias características do

modernismo de então (verso livre, vocabulário coloquial, ausência de pontuação,

justaposições de toda espécie etc), apesar da considerável variedade temática presente

no corpus poético analisado. A modernidade técnica e/ou social enquanto temática, tão

característica do modernismo paulista do começo dos anos 1920, se faz presente em

apenas um poema – “Metropole” de A. Albuquerque, de Ubá (possivelmente

pertencente ao grupo da revista Montanha daquela cidade mineira) – e mesmo neste

poema a afirmação nacionalista se faz presente no verso final, “Estamos no Brasil!”166.

A variedade de temáticas, a grande maioria integradas nos eixos do nacionalismo e do

primitivismo, não se reflete na diversidade dos poemas individuais: diversos autores

166
LEITE CRIÔLO Nº IX (10º), 4 de agosto de 1929.

85
repetem temas e/ou procedimentos literários de outros poemas publicados no próprio

leite criôlo, gerando séries relativamente coesas dentre o mosaico das contribuições. É

interessante ressaltar que tal redundância – que facilita, aliás, em muito a presente

análise – serviu na época de argumento para críticas, como aquelas de João Alphonsus

que analisamos no capítulo anterior.

Algumas destas séries de poemas se vinculam à temática geral de leite criôlo. O

poema “Samba” de Achilles Vivacqua, que já havia saído no primeiro número da revista

Verde e no Diario de Minas167, tem por ecos “Poesia criôla” de Fonte Boa, do grupo

modernista de Cataguases, e “Dança de Salomé mulambo” de José Guimarães Alves:

todos eles encenam danças dos “corpos pretos” de “criôlas”, “morenas” e “negras”,

através de procedimentos formais que incluiem a presença de vocábulos vinculados à

herança cultural africana no Brasil (“cabinda”, “iaiá”, “berimbau” etc). Também fazem

sua aparição diversos tipos de trabalho textual de matriz sonora e/ou visual como as

aliterações e assonâncias reforçadas pelo recorte irregular dos versos em “Samba”, as

rimas acompanhadas de ortografia fonética (“aruê, aruá/ pra seu dia festejá”) que

evocam as cantigas folclóricas em “Poesia criôla”, as repetições e refrões em “Dança de

Salomé mulambo”. Estes são alguns dos poemas publicados em leite criôlo que mais

chamam a atenção para si no aspecto formal, trazendo como substrato temático o tipo da

mulata sensual, cuja proximidade com o tema da luxúria como perdição está explícita na

menção a Salomé – encarnação bíblica da sensualidade maliciosa e dominadora de

ampla circulação na literatura ocidental a partir do séc. XIX168 – no título do poema de

José Guimarães Alves.169

167
DIARIO DE MINAS, 1/2/1929.
168
Cf. DOTTIN, 1997. P. 805-811
169
“Samba” de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929; “Poesia criôla” de
Fonte Boa em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929; “Dança de Salomé mulambo” de José
Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº VII, 4 de agosto de 1929. “Samba” e “Dança de Salomé

86
A temática “negra” também aparece nas páginas da publicação mineira em

poemas de cunho mais narrativo, muitas vezes ambientados em um cenário rural

escravista ou pós-escravista. Da mesma vertente sado-erótica do já citado “mãe preta”

de Fidelis Florêncio (Wellington Brandão), participa o poema “milú" de Jacob Pim-pim,

pseudônimo do “antropófago” paulista Raul Bopp, que narra o estupro da “escrava mais

nova” pelo feitor, tendo por cenário o “fundo da lavoura grande” de uma fazenda dos

tempos da escravidão. Já em “bichinha de casa...” de Jorge Fernandes, colaborador de

Natal, aparecem ecos da trama do poema “Nega Fulô” de Jorge de Lima, já comentado

no capítulo anterior: o escritor do Rio Grande do Norte descreve em seu poema uma

“negrinha asseiada [sic]” concluindo que a fala dela “até se parece / com a fala da dona /

da casa...”, insinuando a substituição, talvez apenas sexual, da Sinhá pela “bichinha de

casa”, substituição que aparece explicitamente nos famosos versos do modernista

alagoano. A erotização de “morenas dengosas” através do recurso à insinuação também

se faz presente em “cromo” de Achilles Vivacqua. Neste poema soldados “cobiçando os

frutos cheirosos / fazem sentinela” devido à presença das tais “morenas” em uma venda

localizada em frente ao quartel170.

Além do viés erotizado, comum aos poemas mencionados até aqui, a temática

negra também faz sua aparição sobre outras formas em leite criôlo. Na seção anterior

mencionamos o poema “13 de maio” de Francisco L. Martins Filho, no qual se alude à

abolição da escravidão, entendida como dádiva da Princesa Isabel. Sobre outro ponto

de vista e em claro diálogo com a discussão sobre o “criolismo”, da qual nos

ocuparemos a seguir, é construído o poema “a correição” de Ary Gonçalves,

colaborador de Ubá e possivelmente integrante do grupo da revista modernista

mulambo” já foram analisados e parcialmente transcritos por Antônio Sergio Bueno, cf. BUENO, 1982.
P. 144.
170
“milú” de Jacob Pim-Pim em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929; “bichinha de casa...” em
LEITE CRIÔLO Nº XIII (14°), 1° de setembro de 1929; “cromo” de Achilles Vivacqua em LEITE
CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929.

87
Montanha, publicada naquela cidade mineira. Ali o autor funde a imagem de uma

correição de formigas carregando um grilo morto com um cortejo de “negro congado”

carregando a imagem de Cristo, fechando o poema da seguinte maneira: “Deve ser

procissão, / ou polícia procurando criminosos, / a ‘correição” 171.

Mas a temática “negra” é apenas um dentre os afluentes do “Amazonas da poesia”

e, apesar da sua importância para a publicação, é numericamente pouco relevante dentro

dela – oito poemas de um total de sessenta e nove. É necessário compreender estes

poemas dentro da lógica mais ampla das temáticas do nacionalismo primitivista. O foco

no catolicismo popular e tradicional, presente no citado “a correição”, também se faz

presente, de forma muito mais positiva, intimista e caseira, nos poemas “Mez de Maria”

de Fidelis Florêncio (Wellington Brandão) – “Nossa Senhora / ficou mais bonita / na

voz de Ninita” –; “Balada da ternura” de Oswaldo Abrita, ligado à revista Verde – “As

estrelas se abaixaram, meu Deus, / pra espiar a minha dor”, e “armarinho” de

Guilhermino Cesar – “Tristeza moleirona dos sentidos / deixou lugar pra Deus Nosso

Senhor”. Estes poemas, os últimos dois remetendo mesmo à forma da prece religiosa,

exemplificam, aliás, a ausência do ardente anticlericalismo da segunda dentição da

Revista de Antropofagia nas páginas de leite criôlo172.

Também as referências à música folclórica e popular não se esgotam nos poemas

de tema “negro”. Em “A canção do meu sapo” de Francisco L. Martins Filho e “Pedra

Menina” de Fonte Bôa173 versos livres modernos servem de moldura para cantigas

transcritas em ortografia fonética, numa repetição clara do procedimento já utilizado,

171
LEITE CRIÔLO Nº XI (12°), 18 de agosto de 1929.
172
“Mez de Maria” de Fidelis Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929; “Balada da
ternura” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 25 de agosto de 1929; “armarinho” de
Guilhermino Cesar em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929.
173
“A canção do meu sapo” de Francisco L. Martins Filho em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929;
“Pedra Menina” de Fonte Bôa em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929.

88
entre outros, por João Dornas Filho em poema seu publicado na revista Verde, como

vimos no capítulo anterior.

Ainda nas vastas águas do primitivismo nacionalista, em leite criôlo foram

publicados desde representações poéticas da bandeira brasileira – “bandeira nacional”

de Achilles Vivacqua e “bandeira” de Eneida, escritora paraense – até poemas de

temática regional nordestina – “Os ‘Baianos" de Fidelis Florêncio e “Batalha” de

Franklin Nascimento, colaborador de Fortaleza –, antecipando alguns motivos da voga

do romance nordestino da década seguinte, como a seca e a saga dos retirantes174.

Vários poemas trabalham com a descrição de paisagens interioranas – enfatizando ora

os aspectos naturais, ora os aspectos agro-pastoris de tais cenários –, levando às vezes o

poema em direção à fabula (“Nocturno” de Rogerio Picanço) ou do registro numérico

pseudo-geográfico (“ca paraó” de Valle Ferreira)175. Uma curiosa variação desta

categoria poderia ser denominada – tomando de empréstimo o título da série de poemas

de Achilles Vivacqua que começou a ser publicada na revista Verde e teve sua

continuação em leite criôlo – de poemas de Belo Horizonte. Neles a paisagem urbana da

capital mineira de então é descrita não no diapasão da metrópole moderna do progresso

e da técnica – o imaginário urbano que entusiasmara o modernismo paulista nos seus

primeiros momentos – mas na feição interiorana do seu ambiente, descrito em termos de

clima, de natureza e de hábitos tradicionais. Nos poemas da série citada de Vivacqua,

“paisagem n. 4” e “paisagem n. 5”, a “paisagem não tem graça” apesar do “morro

coberto de arvores bonitas” no primeiro, no segundo “no largo da egreja / o filho do

174
“bandeira nacional” de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929;
“bandeira” de Eneida em LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 7 de julho de 1929; “Os ‘Baianos" de Fidelis
Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929; “Batalha” de Franklin Nascimento em LEITE
CRIÔLO Nº VII, 7 de julho de 1929.
175
“ca paraó” de Valle Ferreira em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929; “bucolica" de Odorico
Costa, de Uberaba, em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929; “Minas” de Rosário Fusco, ligado
à revista Verde, em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929; “Bois de Carro” e “A Catita” de Fidelis
Florencio em LEITE CRIÔLO Nº X(11º), 11 de agosto de 1929; “Paraná” de Francisco L. Martins Filho
em LEITE CRIÔLO Nº XIII(14°), 1° de setembro de 1929.

89
JUIZ-DE-PAZ / apascenta sete cabras magras...”. A mesma leitura da cidade, à qual

ainda era referida constantemente em termos de “cidade-jardim”, se faz presente nos

poemas “vistas de Bello Horizonte: Estrada de Ferro” de Valle Ferreira, que se refere à

“Estação sem prática da vida”, e “o sol na prosa” de Fonte Bôa, que tem por temática o

clima da capital176.

A vertente mais humorística e satírica do modernismo se faz presente em poemas

como “Neurastenia Clerical”, “Reclame para o Grande Hotel”, “Versos do Coletor

Estadoal de Briquites” e “Orador de Mitingue” assinados por Fidelis Florêncio – sátiras

religiosa, de costumes e políticas, respectivamente – e “o papagaio do palácio” de Jacob

Pim-pim, também de vertente política177. Alguns poemas trabalham a própria temática

sentimental com pitadas de coloquialidade e certa malícia. Em “Artistas Bonitas de

Cinema” de Carlos Drummond de Andrade e “lundu de Coolen Moore” de Luis da

Camara Cascudo a interlocutora do eu-lírico é comparada a atrizes do cinema

internacional e, no fim, exaltada por ser “brasileirinha até debaixo d’água”, no primeiro,

e no segundo porque seus olhos não são “olhos de americana”. No poema de Camara

Cascudo aparece um refrão – a interpelação “Meu bem” – também utilizado nos poemas

“Offerecimento” de Francisco L. Martins, no qual a interlocução amorosa se dá com

uma tuberculosa, e “pra você...” de João Dornas Filho, no qual é ressaltado o “sabor

brasileiro” do “cangote cheiroso, moreno, gostoso” da interlocutora. O refrão “Meu

bem” é tem por equivalente “Mulher” no poema “Desejo Lyrico” de João Alphonsus,

com resultados bastante parecidos. Neste poema o eu-lírico antecipa a resposta da sua

interlocutora nos seguintes termos: “Tu então dirás: tá bão”, em mais um exemplo da

176
“paisagem n. 4” e “paisagem n. 5” de Achilles Vivacqua em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de
1929; “vistas de Bello Horizonte: Estrada de Ferro” de Valle Ferreira em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de
julho de 1929; “o sol na prosa” de Fonte Bôa em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929.
177
“Neurastenia Clerical”, “Reclame para o Grande Hotel”, “Versos do Coletor Estadoal de Briquites” de
Fidelis Florêncio em LEITE CRIÔLO Nº II, 9 de junho de 1929; “o papagaio do palácio” de Jacob Pim-
pim em LEITE CRIÔLO Nº IX, 21 de julho de 1929.

90
preocupação de integrar o tema sentimental e amoroso com as formas coloquiais e as

alusões nativistas do modernismo178.

Também aparecem no suplemento poemas nos quais a temática amorosa-

sentimental, das mais tradicionais para a feitura de versos, é tratada de maneira mais

convencional, em alguns deles são inclusive rimados de maneira não muito distante da

ortodoxa179. São através de poemas deste tipo – secundário no corpus da publicação

mineira – que se dá a colaboração de duas das quatro mulheres cuja produção aparece

em leite criôlo: Carmem Corrêa de Mello e Mieta Santiago. A última delas, que chegou

a publicar dois poemas no suplemento, era também uma conhecida sufragete mineira,

sendo a primeira aluna da Faculdade de Direito e a primeira eleitora registrada do estado

de Minas Gerais, e publicava com certa regularidade na imprensa de Belo Horizonte

poemas de um modernismo mais discreto do que o que prevalecia na rede nacional

modernista de então. Tais presenças femininas provam a contrário a esmagadora

presença de escritores homens, não apenas em leite criôlo, mas no modernismo

brasileiro como um todo naquele momento180.

Para encerrar este mapeamento dos afluentes principais do “Amazonas da poesia”

de leite criôlo, cabe lembrar que a articulação da diversidade dos poemas aqui

analisados – a qual se deve somar a diversidade daqueles vários que não integram as

séries que discutimos – não se dá fundamentalmente em torno do programa “criolista” e

178
“Artistas Bonitas de Cinema” de Carlos Drummond de Andrade em LEITE CRIÔLO Nº II, 9 de junho
de 1929; “lundu de Coolen Moore” de Luis da Camara Cascudo em LEITE CRIÔLO Nº XI (12º), 28 de
julho de 1929; “Offerecimento” de Francisco L. Martins em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929;
“pra você...” de João Dornas Filho em LEITE CRIÔLO Nº IX(10º), 4 de junho de 1929; “Desejo Lyrico”
de João Alphonsus em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de julho de 1929.
179
“Canção do Só” de José Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929; “Sonata de
noite e de dia” de José Guimarães Alves em LEITE CRIÔLO Nº XIII (15º), 8 de setembro de 1929;
“inquietação” de Rogerio Picanço em LEITE CRIÔLO Nº XIV(16º), 15 de setembro de 1929.
180
“cae a chuva” de Mieta Santiago em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7de julho de 1929; “caricia de roce que
és tu...” de Mieta Santiago em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929; “você já vinha comigo” de
Carmem Corrêa de Mello em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929. As outras escritoras são
Eneida, autora do já citado poema “bandeira”, e Thereza Marchetti, que publicou no suplemento um
poema de influência simbolista intitulado “Helio” (LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 25 de agosto de 1929).

91
sim das tendências e ressonâncias da rede modernista nacional no âmbito da produção

de versos. No entanto, o relativo isolamento da produção em versos das temáticas

centrais da publicação – símbolo do ecletismo modernista que leite criôlo herda da

revista Verde e da primeira dentição da Revista de Antropofagia – não se repete nos

outros gêneros literários. Nestes o ideário “criolista” se faz presente de maneira mais

intensa e, em alguns momentos, tenciona os limites entre a prosa de ficção e o artigo

opinativo.

A PROSA SALVADORA
Ilhada entre o mosaico dos poemas e o conteúdo programático dos artigos, a

prosa de ficção ocupa um lugar incerto na publicação mineira. No contexto de leite

criôlo, tal gênero de escrita dificilmente poderia ser qualificada de salvadora no sentido

da epígrafe de Alcântara Machado: em termos de volume de textos a prosa de ficção

está longe de fazer frente ao “Amazonas da poesia” (foram publicados vinte e quatro

trechos de prosa contra um total de sessenta e nove poemas). Mas a prosa de ficção mais

característica da publicação pode ser qualificada de “salvadora” em outro sentido, posto

que se vincula de maneira muito explícita com os ideais de regeneração nacional

presentes nos textos programáticos do “orgão oficial do criolismo”.

Como traço geral, a prosa de ficção presente em leite criôlo tende a ser mais curta

e sintética do que o formato tradicional do conto181. Talvez seja melhor descrever a

forma textual de prosa predominante na publicação como anedota, no sentido

dicionarizado de “relato sucinto de um fato jocoso ou curioso” 182.

São deste tipo vários textos publicados em leite criôlo que, através de enredos

emblemáticos, fazem o curto circuito entre o bacharelesco pedante e a ignorância

181
Poucos são os textos inequivocamente qualificáveis como contos. Nominalmente, “O chapéo” de Ary
Gonçalves, modernista de Ubá, em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929; e “Tragedia” de
Marques Rebello, modernista do Rio de Janeiro em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929.
182
FERREIRA, 1986. P. 118.

92
popular, tratados igualmente nos textos programáticos do suplemento como criolismo e

concebidos a partir da idéia de soberba, de pretensão excessiva. Em “apologó” de João

Dornas Filho conta-se a história de um flautista que fez fama tocando uma flauta de

taquara, decide, porém, trocá-la por uma de prata, acaba por não conseguir tocá-la e se

vê obrigado a se sujeitar a tocar bumbo na banda. Dornas sintetiza ao final do seu texto

a lição: “Conheço um povo que se sujeitasse a tocar flauta de tacoára, podia ao menos

ser considerado o maior flautista de tacoára do mundo”. A mesma idéia básica se

articula com o pensamento racial em “A propósito de uma aparição” de Oswaldo Abrita.

Neste texto um “nêgo” invade um salão passadista provocando escândalo, mas devido a

sua ignorância não pode ser ouvido. O texto finaliza com um arremate paternalista: “o

caso é que alguém já olhava ele com simpatia. Porém talvez ele inda não fale

amanhã.”183

A articulação entre pretensão desmedida e ignorância incapacitante se faz presente

também na pequena estória intitulada “O poeta obscuro ou o poema do amor

desiludido” de Diderot Coelho Junior, na qual um “rapaz pobre” escreve um poema a

partir de alguns “pensamentos bonitos” que teve e se revolta por não o publicarem em

um jornal sem alterações, sendo repelido pela exclamação do responsável pela

publicação, “você já viu negro escrever coisa que preste?”. Acontece que o poema

continha erros crassos de português. 184 Este texto encena uma versão ficcional da figura

de Olavo Augusto Maia, “servente da Secretaria de Finanças e rouxinol nas horas

vagas”, adotado ironicamente pelo grupo de leite criôlo, que publicava seus poemas na

seção irônica “Raça” da qual trataremos em seguida.

É interessante notar que, se o imaginário implícito nestes textos possui um certo

grau de coerência, mantém-se na publicação uma margem importante de ambigüidade.

183
“apologó” de João Dornas Filho, LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929, “A propósito de uma
aparição” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929.
184
LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929

93
Uma questão interessante é o fato de que o tipo de linguagem marcada por incorreções

de ortografia e construção sintáticas estranhas que serve de motivo de escárnio em

relação às pretensões dos “ignorantes” é utilizado também como recurso erudito e

consciente para a feitura de poemas na vertente modernista do nacionalismo

primitivista.

Também é digna de nota a variação de atitude em relação a uma das referências

implícitas mais significativas de leite criôlo, o livro Retrato do Brasil de Paulo Prado.

No alto da terceira página do tablóide de 13 de maio a frase de abertura daquele livro –

“N’uma terra radiosa vive um povo triste” – se encontra reproduzida. Logo abaixo se

encontra o texto “Caldo de Galinha” de João Guimarães, no qual a história, passada em

Palmares, de uma negra que provocava abortos sucessivos para não dar à luz filhos da

sua cor e que acaba morrendo no parto quando consegue, enfim, engravidar de um

português é pontuada pela alusão às supostas “heranças da raça negra” no caráter

brasileiro – a luxúria, a tristeza e a preguiça, seguindo o esquema do livro de Paulo

Prado. Incrustada no texto vem a moral da história: “Pobre raça brasileira! Ainda não

foi agora que começou a apparecer o branco nascido debaixo das suas arvores”.185

Por outro lado, na última página do mesmo tablóide aparece um texto de Cyro dos

Anjos, intitulado “Zé Prequeté andando atôa...”, na qual a parteira, por ocasião do

nascimento do protagonista, lhe dá para beber uma mistura de “papaconha e cachaça”

para

evacuar a tristeza africana, que móra nas tripas e os doutores chamam de


ankylostomiase, a preguiça indigena, que móra no baço e a sensualidade braba, que
móra no Retrato do Brasil e é conversa fiada.186

Este trecho mostra como também em leite criôlo se dá a tensão entre um discurso

estritamente racialista e uma concepção médica dos problemas nacionais, de matriz


185
“Caldo de Galinha” de Cyro dos Anjos em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P. 3
186
“Zé Prequeté andando atôa...” de Cyro dos Anjos em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929.
P. 8. É importante lembrar que este autor era mais próximo naquele momento do grupo modernista de
Carlos Drummond de Andrade e João Alphonsus do que do responsável pela publicação de leite criôlo.

94
higienista, como o que Tania de Luca analisou a partir das páginas da Revista do

Brasil.187

Além da prosa de ficção mais alinhada com as temáticas centrais do “órgão oficial

do criolismo”, aparecem no corpus da publicação vários outros trechos de prosa, em

geral também na linha que definimos como anedota. Alguns deles se comunicam com

séries de poemas, como os que trabalham com situações do cotidiano rural188 e

urbano189.

Também foi publicada uma série de poemas em prosa de Guilhermino Cesar, de teor

fortemente simbolista190, aproximando-se por vezes dos textos, mencionados no

capítulo anterior, que Achilles Vivacqua publicava nas revistas de variedade antes da

sua conversão definitiva ao modernismo primitivista. A publicação desta série

concentrada nas penúltimas edições de leite criôlo, quando caí drasticamente o número

de textos ligados ao eixo temático da publicação, pode significar uma tentativa de

trabalhar com formas literárias alheias ao primitivismo nacionalista, em um contexto no

qual os “brasileirismos” começavam a ser criticados, por exemplo, por João Alphonsus,

como já foi visto no capítulo anterior.

O PROCESSO DE DESNATAR
Se nos gêneros propriamente literários as formulações do que leite criôlo

considera serem os males nacionais e também o que deveria ser feito para saná-los

aparecem como sombras – como moral da história, às vezes assinalada nos próprios

textos como tal – nos artigos programáticos tais questões se colocam de maneira mais

187
Cf.. DE LUCA, 1999. P 136-177.
188
“ jóca estourado” de Diterot Coelho Junior em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de 1929
189
“História do homem que me queria pra irmão” de Guilhermino Cesar em LEITE CRIÔLO Nº II, 9 de
junho de 1929.
190
“capitulo z”, “capitulo y” e “capitulo x” em LEITE CRIÔLO Nº XII (13°), 25 de agosto de 1929, Nº
XIII (14°), 1° de setembro de 1929, e Nº XIV (16º), 28 de setembro de 1929, respectivamente.

95
direta, ainda que conservando uma margem importante de ambigüidade., deriva

inclusive da utilização intensa de recursos literários como a metáfora. Como Antônio

Sérgio Bueno já assinalou e discutiu, o centro do programa da publicação é o

“criolismo”, designação que se refere simultaneamente ao próprio leite criôlo e ao que o

grupo responsável pela sua publicação considerava os grandes males nacionais. Na

entrevista de João Dornas Filho publicada na segunda “dentição” da Revista de

Antropofagia, explicita os dois sentidos de “criolismo” e também como “criolismo”,

enquanto movimento, pretende combater o “criolismo”, enquanto mácula do caráter

nacional.

Antes de mais nada é necessário contar o que seja “criôlismo”, no nosso ponto de
vista. É o divórcio do homem com a terra. É a preguiça. É o optimismo exagerado e sem
rumo. É o pernosticismo. É a desorganização culminada no bacharel.
(...)
O criôlismo – como a antropofagia – é um movimento literário, filosófico e religioso,
mas sem estrangeirice.
(...)
Nelle combatermos pela lampeana e pelo ridículo, tudo o que representa macaqueação e
burrice, entravando o Brasil a caminhar. Tudo o que representa saudosismo, fanatismo e
preguiça. Tudo o que tem infelicitado o paiz.191

Encontram-se aí condensados alguns dos pontos recorrentes do eixo programático

de leite criôlo: o nacionalismo exaltado, porém anti-ufanista; a identificação, na esteira

do Retrato do Brasil de Paulo Prado, das máculas do caráter nacional supostamente

derivadas da “herança africana”, a tristeza, a preguiça e o saudosismo, aos quais deve-se

acrescentar a luxúria; o horror à burrice e à ignorância que se articulam, através da

crítica à pretensão e ao pernosticismo, com o anti-bacharelismo e a repulsa ao “lado

doutor” da nacionalidade; a opção pelo ridículo e pela sátira como estratégias

discursivas.

Nos textos programáticos publicados em leite criôlo, esses pontos serão

retomados e trabalhados de diversas maneiras. Artigos deste tipo se fizeram presente em

191
REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 11, 19 de junho de 1929.

96
especial no tablóide de 13 de maio, onde foram publicados seis artigos dedicados à

interpretação do “criolismo”, alguns dois quais são quase manifestos da publicação.

Além do já citado artigo “leite criôlo” de Guilhermino Cesar, que propõe desnatar

(depurar) o “leite criôlo” (a mácula da herança africana na formação racial brasileira),

aparecem na primeira página do tablóide os textos “Fóra o malandro” de João Dornas

Filho e “Convite” de Achilles Vivacqua. No texto de Dornas a “preguiça secular” que

caracteriza o “criolismo” é a comparada ao pássaro vira-bosta, que engana o tico-tico

que é levado a criar “a filhotada preta” daquela ave como se fosse a sua própria. O

artigo termina com um “fóra o malandro!”, personagem-tipo que condensa a atitude

simbolizada pelo vira-bosta. No texto de Vivacqua, o repúdio à “herança danada do

preto sudoso [sic] da pátria”, descrita como “erro de uma aberração”, e ao português,

culpado por tal mácula, se justapõe a uma descrição sintética do processo histórico

brasileiro, bastante parecida com as que Oswald de Andrade incluía às vezes em seus

manifestos e também nos textos da segunda “dentição” da Revista de Antropofagia. O

encerramento dramático do texto consiste, neste texto, em um convite “a mudar de

marca”, de superar o “estigma que perdura no caracter da nacionalidade”.192

Ecos deste texto estão presentes em outros textos publicados no tablóide: “Banzo”

de Diderô Coelho Junior, que também encena uma síntese histórica da formação da

nacionalidade, e em “Negro vamos dar um jeito nisso!” de Newton Braga, que também

interpela o leitor – único texto que pressupõe explicitamente um negro como

interlocutor em toda a série documental de leite criôlo – no qual o negro é convidado a

largar da preguiça, estudar e trabalhar193. Um segundo texto de Vivacqua publicado ali é

o já citado “Defeza da alegria”, que menciona Galton e as idéia eugênicas e propõe uma

192
“leite criôlo” de Guilhermino Cesar, “Fóra o malandro” de João Dornas Filho e “Convite” de Achilles
Vivacqua em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P.1
193
“Banzo” de Diderô Coelho Junior e “Negro vamos dar um jeito nisso!” de Newton Braga em LEITE
CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P. 2 e 4, respectivamente.

97
eugenia meio concreta meio metafórica do povo brasileiro, enraizada na crença do

branqueamento:

Eugenia para a alma brasileira. Eugenizar. Não o negro. Este, por si mesmo, se anula
pela mestiçagem. Todo o Brasil, sim. Fazel-o feliz. Obter, selectivamente, typos que
melhore [sic] a nossa raça.194

Quando da publicação de leite criôlo enquanto suplemento do jornal Estado de

Minas, apenas dois artigos trataram especificamente de “criolismo”, ambos na primeira

edição da página semanal. Se um deles, “Cromo” de Achilles Vivacqua, retoma os

temas do “criolismo” tal qual aparecem no tablóide, no outro, “mexerica se conhece

pelo cheiro” de Guilhermino Cesar, se esboça uma forma diferente de colocação da

problemática “criolista”. Neste texto Guilhermino rebate críticas à ausência de um

programa explícito e claramente definido para leite criôlo, afirmando que isto implicaria

em uma atitude publicitária e pretensiosa, o que iria contra os ideais do grupo195. A

partir daí o grupo se concentraria mais no “processo de desnatar” do que na definição do

“criolismo”, tanto enquanto movimento quanto mácula do caráter nacional. Mas se a

densa rede de metáforas que caracteriza o tablóide vai sendo aos poucos abandonada, o

eixo programático da publicação permanece latente, como a mexerica que se conhece

pelo cheiro, em artigos que tratam das mais diversas questões.

Em “o que nós precisamos” de Carlos da Matta Machado, a crítica ao “otimismo

exagerado” dos brasileiros e ao ufanismo é expressa através da figura de um “garoto no

grupo escolar” ao qual deveriam ser ensinadas não as dimensões extraordinárias da

pátria ou o patriotismo ufanista do hino nacional, mas as duras realidades do “tiquinho

de gente” que vive ali, tem “bichinhos na barriga” e “sangue ruim” proveniente de uma

“mistura de portuguez, negro e indio que não tem dado nada que preste”. Ao “garoto”

194
“Defeza da Alegria” de Achiles Vivacqua em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P. 7
195
“Cromo” de Achilles Vivacqua e “mexerica se conhece pelo cheiro” de Guilhermino Cesar em LEITE
CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929.

98
deve se ensinar, por fim, que sem seu trabalho e empenho a nação acabaria “obrigada a

entregar isto [seu território, sua soberania] para os outros que estão trabalhando e tem

dinheiro...”. A mesma preocupação quanto à relação entre a educação e a nacionalidade

reaparece de forma mais concreta no artigo “Livros Didacticos” de João Dornas Filho,

no qual o autor elogia a iniciativa do governo do estado de promover um concurso

premiando novos livros didáticos, mas reprova a obrigatoriedade de que os livros sejam

escritos por professores, o que traria, segundo Dornas, o perigo da reprodução do

bacharelismo e do pedantismo das obras já existentes. O autor também defende que

sejam estudados nas escolas primárias biografias dos “grandes homens do passado”

nacional, desde que escritas “sem optimismo exagerado e admiração embasbacada”.196

O apreço de Dornas pela biografia parece ter permanecido com ele depois do fim de

leite criôlo, posto que na década de trinta escreveu uma obra deste gênero sobre Silva

Jardim, publicada como parte da prestigiosa coleção Brasiliana da Cia. Editora

Nacional.

Também vinculada com o combate ao criolismo é a crítica à “feição criôla” da

“sociabilidade em excesso” característica dos brasileiros, no artigo “o brasileiro e o

homem que comprou o bonde da laite” também da autoria de Dornas. A dita

“sociabilidade doentia” atrapalharia o brasileiro de se dedicar a atividades úteis e

também reforçaria sua credulidade. Artigos publicados no suplemento também se

voltam contra a imitação dos usos e costumes estrangeiros197; denunciam a cegueira dos

políticos para a realidade nacional198; professam sua fé no Brasil e no nacionalismo199.

196
“o que nós precisamos” de Carlos da Matta Machado em LEITE CRIÔLO Nº VII, 14 de julho de
1929; “Livros Didacticos” de João Dornas Filho em LEITE CRIÔLO Nº I, 2 de junho de 1929.
197
“façamos nossa a nossa casa” de Americo R. Netto em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929; “si
isto é leite criôlo, eu sou leite criôlo” de Odorico Costa em LEITE CRIÔLO Nº IX (10º), 4 de agosto de
1929.
198
“o caso do burro e a carapuça” de Fonte Bôa, modernista de Cataguases, em LEITE CRIÔLO Nº VIII,
21 de julho de 1929.
199
“A hora presente” de Ascânio Lopes, modernista de Cataguases falecido no início de 1929, em LEITE
CRIÔLO Nº X (11°), 11 de agosto de 1929.

99
Passando do “criolismo” enquanto ideário para o “criolismo” enquanto

movimento, podemos observar as múltiplas interações do grupo com a rede modernista

nacional através de artigos publicados no suplemento. São exemplos disso o artigo de

Newton Braga intitulado “devore-se”, citado no capítulo anterior, que desenha um mapa

das publicações modernistas publicados àquela altura em vários pontos do país; o texto

“movimento criôlo” de Edison Magalhães, colaborador de Januária, que descreve a

publicação mineira como “obra meritória e de redenção” através de uma linguagem

marcadamente passadista e ilustra como em diferentes pontos do país a mensagem

modernista foi apropriada de maneiras e em ritmos muito variados; e a nota não

assinada publicada com o título “jornalsinho critico, humoristico e noticioso”, na qual se

trata com ironia o ingresso dos modernistas paulistas Guilherme de Almeida, Menotti

Del Picchia e Cassiano Ricardo, pertencentes ao grupo do verde-amarelismo, na

Academia Paulista de Letras, considerado uma traição aos ideais modernistas200. Este

último texto é também o mais próximo que o suplemento chegou da prática da segunda

“dentição” da Revista de Antropofagia de publicar textos atacando e satirizando

escritores de outras tendências dentro do modernismo, excetuada a própria ruptura com

a antropofagia, analisada no capítulo anterior.

No entanto, a principal forma de interação de leite criôlo com a rede modernista

nacional se dá sob a forma de resenhas, com destaque para as que tratam de outras

revistas modernistas. Nesta categoria se enquadram artigos sobre as revistas Arco &

Flecha e Samba da Bahia; Verde, de Cataguases e Montanha, de Ubá, estas duas

últimas consideradas revistas irmãs de leite criôlo em uma das resenhas201. Também são

200
“devore-se” de Newton Braga em LEITE CRIÔLO Nº VI, 7 de julho de 1929; “movimento criôlo” de
Edison Magalhães em LEITE CRIÔLO Nº XI, 28 de julho de 1929; “jornalsinho critico, humoristico e
noticioso” em LEITE CRIÔLO Nº XII(13º), 25 de julhoagosto de 1929.
201
“Paizagem” de Gulhermino (Cesar) em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929; “pipia:
Samba” de A. (Achilles Vivaqua) em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929; “Verde”, não
assinado, em LEITE CRIÔLO Nº III, 16 de junho de 1929; “Montanha” de A. V. (Achilles Vivaqua) em

100
resenhados no suplemento livros de poemas como os de Martins Mendes, do grupo da

revista Verde, e Carvalho Filho, ligado à revista Arco & Flecha202. No geral estas

resenhas se caracterizam pelo tom sóbrio e pela simpatia para com os seus objetos,

expressão da política conciliadora do grupo de leite criôlo em relação aos outros

núcleos modernistas.

Em maior ou menor medida, todos os artigos veiculados no “órgão oficial do

criolismo” utilizam recursos lingüísticos próximos da escrita literária estrito senso, mas

na série “mixed pickles brasileiros” de Albano de Moraes as fronteiras de gênero

literário se encontram totalmente borradas. Composta de pequenas anedotas irônicas

sobre a vida e a história brasileiras, a seção comporta textos que se colocam a meio

caminho entre a nota jornalística e o tipo de poesia praticado naquele momento por

Oswald de Andrade203.

A ironia também é a marca de dois artigos estreitamente vinculados à seção

“raça”, da qual falaremos em seguida. “Os proveitos de um concurso de beleza...” de

Oswaldo Abrita é o único texto assinado por um colaborador de leite criôlo a aparecer

na seção citada. Trata-se de uma sátira aos concursos de miss, então em evidência em

todos os jornais. Já “Do pequeno escriptor Olavo Augusto Maia ao poeta Alberto

Agostini”, também de Oswaldo Abrita, não foi publicada naquela seção. Falava, no

LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de 1929; “novidades literárias: Montanha” de Oswaldo Abrita em


LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929.
202
“Um livro de poemas moderna [sic]” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº V, 30 de junho de
1929; “mais um 1 de Cataguases” de J.D.F. (João Dornas Filho) em LEITE CRIÔLO Nº X (11º), 11 de
agosto de 1929; “voses nóivas [sic] da Baia” de Guilhermino Cesar em LEITE CRIÔLO Nº X (11º), 11
de agosto de 1929.
203
“mixed pickles brasileiros”, “misced [sic] pickles brasileiros” e “misced [sic] picklees [sic] brasileiros”
em LEITE CRIÔLO Nº IX, 28 de julho de 1929, Nº XI (12º), 18 de agosto de 1929 e Nº XII (13°), 25 de
agosto de 1929, respectivamente.

101
entanto, dos principais autores nela publicados, os pretensos poetas Olavo Augusto

Maia e Alberto Agostini204.

O “CRIOLISMO” EM EXEMPLOS
Como já foi mencionado no capítulo anterior, a seção intitulada “raça”,

constante tanto do tablóide como de nove das dezoito edições do suplemento, era

derivada da seção intitulada “Brasiliana” constante da primeira “dentição” da Revista de

Antropofagia. Em ambas eram dispostos textos ou trechos de textos de terceiros (não-

modernistas) a título de gozação. Como já havia observado Antonio Sérgio Bueno, estas

seções eram constituídas por “seleções do desvalioso”, como vitrines do ridículo205. Os

enfoques, porém, variavam: enquanto na publicação paulista eram focalizados mais os

pedantismos dos “passadistas” e na presença “desagregadora” dos imigrantes em São

Paulo, em geral com textos originários da grande imprensa, na mineira os textos

tendiam a ser, além de expressões do passadismo bacharelesco, demonstrações de

“ignorância”, com a ênfase sendo posta em erros de português, concordância em

especial, em poemas de autores relacionáveis às discussões sobre o “criolismo” que

caracterizam essa publicação. Incidentalmente, o primeiro fragmento de “Brasiliana” no

primeiro número da primeira edição da publicação antropófaga era intitulado

ironicamente “Raça”. Trata-se da notícia de um batizado em São Paulo na qual os

nomes de todos os envolvidos evidenciam sua origem “turca”, menos o do padre, cujo

nome trai sua origem italiana. A mesma temática anti-imigração aparece em leite criôlo

na figura de Alberto Agostini, sapateiro de Cataguases de origem italiana, que “luta com

a dificuldade maior de desconhecer quasi por completo a lingua portugueza” para

escrever seus poemas passadistas, prontamente zombados pelos escritores do

204
“Os proveitos de um concurso de beleza...” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº XVI (18º), 29
de setembro de 1929; “Do pequeno escriptor Olavo Augusto Maia ao poeta Alberto Agostini” de
Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº XII (13º), 11 de agosto de 1929
205
BUENO, 1982. p. 158-163

102
suplemento. No já citado artigo “Do pequeno escriptor Olavo Augusto Maia ao poeta

Alberto Agostini” à figura do sapateiro é justaposta a figura do “servente da Secretaria

de Finanças e rouxinol nas horas vagas” Olavo Augusto Maia. Negro, pretenso escritor

de ortografia e concordância irregulares, subalterno hierárquico dos membros do grupo

modernista (todos eles possuem cargos intermediários no funcionalismo público), ele

representa a própria imagem do povinho pretensioso — flautista de taquara tentando

tocar flauta de prata — e condizentemente será um dos alvos de escárnio prediletos de

leite criôlo. Além deste artigo, são publicados três poemas de Olavo Augusto Maia e a

pequena estória já citada que encena sua condição, “O poeta obscuro ou o poema do

amor desiludido”. Em todas estas alusões os inúmeros erros de português do “pequeno

escritor” são a “evidência” que permite ao grupo mineiro formular todo o seu

preconceito racista e classista nos termos da exigência de uma competência lingüística.

Talvez a maior crueldade do grupo para com seu “amigo” seja a publicação do texto que

se segue — creditado ao “pequeno escriptor Olavo Augusto Malha — servente da

Secretaria das Finanças”, sendo a alteração do nome do autor, segundo o artigo já

citado, uma hipercorreção dele próprio — no tablóide comemorativo da abolição da

escravatura, enfatizando seus erros pela falta absoluta de revisão textual:

Poema

É a hora chegada
Dum grande universitário
Que gramou a liberdade
Da monarquia chamada.

A, quem deve de agradecer


E a princeza Alizabett
Que com o seu bom coração
livrou da escravidão

Que sairam os seus monarka


Todos danado da vida,
de perder os braços negro
Que sustentava nos degredo.

Treze de maio chamado


Pelas bouca dos fazendeiro
Viva a liberdade querida

103
Que nunca mais nos escraviza;

Cento e nove annos decorrido,


Que o plêcto acham livre
Desta peste emflorida
Que ninguém mais faz cair na lida.

Corra tempo malvado


Corra tempo emsaguentado
Biancos das mãos desgraçadas
Que muitos pobres matarão marrados.206

Porém, as ambigüidades e contradições da leitura “criolista” das máculas

nacionais se faz presente também neste caso. Se aqui os autores se consideram longe do

“saboroso” material folclórico a partir do qual compõe seus poemas, a justaposição da

terceira, quarta e da última estrofes do poema de Olavo Augusto Maia com os seguintes

trechos de cantos de congado, recolhidos por Edimilson Pereira no ritual dos Arturos,

permite compreender que — onde os modernistas de leite criôlo viram apenas

ignorância — pode se encontrar sedimentada uma experiência cultural alternativa, que

pela pena constrangida e desajeitada do “pequeno escritor”, pôde ser registrada sem o

procedimento folclorizante dos intermediários eruditos:

Tava dormino
Sá Rainha me chamo
— Acorda, nego
O cativeiro acabo

No dia 13 de maio
Fazendero todo chorô
Chorô, chorô
Cativeiro de nego acabo207

Por fim, vimos neste capítulo que todo o corpus de leite criôlo é perpassado por

tensões como as que caracterizam a seção “raça”: tensões entre gêneros textuais; entre

concepções da nacionalidade; entre a temática negra e o pensamento racial; entre a

forma literária e conteúdo programático etc. Assim, podemos dizer que – se, como

vimos no capítulo anterior, a publicação circulou em um momento no qual o movimento

206
“Poema” de Olavo Augusto Malha [sic] em LEITE CRIÔLO (Tablóide), 13 de maio de 1929. P. 4
207
PEREIRA, 2000. P. 64.

104
modernista brasileiro se encontrava em uma encruzilhada – na própria publicação esta

encruzilhada também se fazia sentir.

105
4. Totalizando nossa maneira: conclusão.

A formula – tupy or not tupy that’s the question [trecho


do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade] –
exprime nada ou quase nada. Porque não é com o
indianismo só, ou sem elle, que chegaremos a totalizar
nossa maneira. É com muita coisa mais.

- João Dornas Filho, enquete com escritores mineiros,


Diario de Minas, 3/2/1929.

106
Na presente monografia tivemos por objetivo analisar a inserção da publicação

modernista leite criôlo e do grupo de escritores responsável por ela no que

denominamos de rede modernista nacional. No primeiro capítulo, discutimos as

principais perspectivas de compreensão do modernismo, a vinculação da geração

modernista com a construção de uma memória para o movimento e definimos o que

entendemos como rede modernista nacional, defendendo a validade desta noção para a

compreensão propriamente histórica do modernismo na década de 1920 como figuração

social. Apresentamos nesse primeiro capítulo também as nossas hipóteses gerais sobre a

relação entre a expansão da rede modernista e a adoção de um programa nacionalista

pelo movimento, a forma como as publicações modernistas encenam os fios e os nós da

rede modernista, além de discutir as principais obras que têm em leite criôlo um dos

seus focos de análise e apresentar as fontes a partir das quais o presente trabalho foi

construído.

O segundo capítulo trata da trajetória do grupo que publicaria o “órgão oficial do

criolismo”, acompanha a conversão relativamente tardia deles ao modernismo, sua

vinculação a círculos de sociabilidade e a revistas de variedade m Belo Horizonte, sua

gradual inserção na rede modernista nacional, o auge da rede durante a publicação da

primeira “dentição” da Revista de Antropofagia, as desavenças que presidiram o

surgimento da segunda “dentição” da publicação paulista e, por fim, o delicado

equilíbrio que o grupo tentou manter durante o período da publicação de leite criôlo

entre suas principais referências: o grupo paulista ligado à antropofagia e o núcleo mais

estabelecido de modernistas mineiros, que acabou com o rompimento da publicação

mineira com sua contraparte paulista.

107
A forma como a rede modernista nacional é encenada no mosaico das

colaborações que compõem o corpus do tablóide e do suplemento é o foco do terceiro

capítulo, que trata dos temas e gêneros textuais. Ali discutimos a tensão entre o

conteúdo programático e a dispersão temática; a forma como leite criôlo se apropria de

símbolos correntes da herança africana no Brasil – a “mãe preta” e a abolição da

escravatura –; a predominância do gênero poético e a associação constante entre formas

modernistas e temas nacionalistas; a posição incerta da prosa de ficção e o caráter de

história exemplar da parte desta produção que se vincula com o eixo programático da

publicação; a relação dos artigos com a dupla acepção de “criolismo” e com os nós da

rede modernista; a forma como a seção de citações irônicas denominada “raça” se

vincula ao ideário “criolista” e como, mesmo no máximo de afirmação dos seus valores,

leite criôlo se vê as voltas com as contradições e ambigüidades que marcam sua

interpretação do Brasil.

Esperamos ter demonstrado ao longo deste trabalho que as interpretações que

enxergam no “órgão oficial do criolismo” uma publicação de “estilo paroquial” e sem

maior “relevância intelectual” nada fazem senão repetir o discurso triunfal da geração

modernista. Obliterando as disputas e as derrotas no interior do movimento, medindo

apenas pela régua do presente a relevância dos grupos, reproduzindo o mito de um

modernismo maniqueisticamente dividido em “bandidos” e “mocinhos”, tal discurso

não possibilita a compreensão de um objeto, como leite criôlo, que chega a ser em

alguns aspectos constrangedor para o leitor atual, mas, como esperamos ter

demonstrado através da análise da inserção da publicação na rede modernista nacional,

não parecia especialmente ofensivo para seus interlocutores de então: nem mesmo os

modernistas que se opunham ao grupo de leite criôlo concentraram seus ataques à

publicação nos pontos que hoje nos chamam mais atenção.

108
Partindo do presente mapeamento das relações entre este o grupo e a totalidade da

figuração que denominamos rede modernista, acreditamos que o estudo, apenas

esboçado no presente estudo, das matrizes, tensões e nuances do pensamento racial

presente em leite criôlo poderia contribuir para a compreensão do processo lento e

complexo ao cabo do qual se instaura um novo paradigma no entendimento da

“formação racial” e da relação entre as “raças” no Brasil, ligado à valoração positiva da

mestiçagem e à suposta ausência de preconceitos raciais no país.

Pensamos que também em outras dimensões o nosso objeto merece

aprofundamento. A relação do grupo com a cidade de Belo Horizonte – seus espaço de

sociabilidade, as instâncias do poder publico, o meio jornalístico etc – e a sua trajetória

posterior no meio intelectual brasileiro – que implica em investigar se e como as

relações estabelecidas no interior da rede modernista se mantém depois das

transformações do modernismo na virada da década de 1930 – são apenas duas das

muitas questões que o presente trabalho deixa em aberto para futuras pesquisas.

109
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