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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

DISCIPLINA: Políticas Sociais DEPTO: Ciências Humanas


CENTRO: CCHS CURSO: Ciências Sociais
PROFESSOR: Daniel Miranda
ACADÊMICA: Ivani Grance DATA: 10/06/2015

1 – Analise o processo de formação e reestruturação da chamada “cidadania


regulada” no Brasil.

Antes de tratar do assunto da “cidadania regulada” se faz necessário passar por T. H.


Marshall e entender quem era considerado cidadão no final do século XIX e início do
século XX. Marshall desenvolve o conceito de cidadania segundo o desenvolvimento da
sociedade inglesa moderna em três elementos:

Civil: relacionado com os tribunais de justiça que buscavam assegurar os direitos


individuais, fundamentado na noção de igualdade. O direito civil no setor da economia
estava relacionado com o direito ao trabalho livre, mudando as relações de trabalho
servil.
Político: os direitos políticos vieram após consolidados os direitos civis firmados no
indivíduo com o status de “liberdade”. Conforme Marshall diferentemente dos direitos
civis que foram criados, os direitos políticos foram estendidos de um pequeno estrato
privilegiado para os novos estratos que foram incorporados posteriormente, entretanto
para ele os direitos políticos se mostravam deficientes para os padrões da cidadania
democrática. A distribuição dos direitos políticos estendeu-se conforme dissiparam os
privilégios obtidos por uma determinada classe econômica, sendo assim os direitos
políticos não eram considerados direitos universais.

Social: os direitos sociais se consolidaram no século XX a partir do desenvolvimento do


capitalismo e ideia de liberdade individual e a economia competitiva. Diferentemente
dos direitos civis que estavam ligados ao status, os direitos sociais visavam os

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indigentes que eram desprovidos dos direitos civis e políticos e portanto não eram
considerados cidadãos.
Conforme José Murilo de Carvalho o conceito de cidadania no Brasil foi formado
diferentemente do conceito que Marshall desenvolveu a partir da Inglaterra. Enquanto a
cidadania já estava se desenvolvendo na Inglaterra e na França, o Brasil ainda sofria
com as marcas relevantes deixadas pela colonização portuguesa. Segundo ele mesmo
após a declaração de independência em 1822 o país ainda não possuía pátria e nem
brasileiros.
“...os portugueses tinham construído um enorme país dotado de unidade
territorial, lingüística, cultural e religiosa. Mas tinham também deixado uma
população analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia
monocultora e latifundiária, um Estado absolutista. À época da
independência, não havia cidadãos brasileiros, nem pátria brasileira.”
(CARVALHO, 2002, p. 18)

O conceito de direitos civis segundo Carvalho são os direitos fundamentais à vida, à


liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei, os direitos políticos tratam-se de
acesso ao voto e sua essência é a ideia de autogoverno, já os direitos sociais garantem a
participação na riqueza coletiva, como o direito à educação, saúde, salário justo,
trabalho e aposentadoria, ou seja, a ideia central é a justiça social.
Carvalho observou em relação ao conceito de cidadão francês e o inglês, o conceito
brasileiro de cidadania divide-se em três tipos distintos:
- Cidadão pleno: este participa e acessa os três níveis de direitos e combina liberdade,
participação e igualdade a todos.
- Cidadãos incompletos: são os que participam de apenas um dos direitos.
- Não cidadão: não participa de nenhum dos direitos.

A cidadania regulada surgiu pós a República Velha, substituindo o laissez-faire


repressivo que caracterizou o período republicano no Brasil, tendo seu conceito
formulado de forma diferenciada do anterior. Na cidadania regulada segundo observada
por Santos são cidadãos os que estão empregados em qualquer ocupação reconhecida e
definida em leis pelo Estado, em um processo de estratificação ocupacional que é
definido como forma legal.

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A cidadania está embutida na profissão e, os direitos do cidadão, restringe-se aos
direitos do lugar que ocupa no processo produtivo. Os parâmetros que a definem são:
- Regulamentação das profissões pelo Estado;
- Carteira profissional, instituição das leis trabalhistas, a CTPS funcionava como um
documento jurídico que comprovava o contrato entre o Estado e a cidadania regulada;
- Sindicato público.
A partir de 1930, quando o Estado intervém com vistas a reestruturar os problemas
econômicos do país, momento que o governo passa da acumulação para a “cidadania
regulada”.
Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes
encontram-se, não em códigos de valores políticos, mas em um sistema de
estratificação ocupacional, e que, ademais, tal sistema de estratificação
ocupacional é definido por norma legal (SANTOS, 1987, p. 68).

Fagnani traça um paralelo dos três modelos de governo pelos quais o Brasil foi
submetido e suas características em relação aos direitos e à cidadania.

- República: direitos civis x sociais, sob a ideologia liberal;


- Era Vargas: direitos sociais x civis e políticos, sob a ideologia corporativista e o
surgimento da “cidadania regulada”;
- República de 1946: tinha como característica o hibridismo, sendo que os direitos civis
e políticos estavam sob a ideologia liberal de livre organização x direitos sociais com
vinculação ao Estado.

A Era Vargas finda com o corporativismo mantendo o liberalismo (com limites), o


Regime Militar vai pela mesma via, de acabar com o corporativismo pela lógica Liberal,
sendo que esta é eliminada paulatinamente.
O RM tem como prioridade o crescimento econômico com a seguinte estratégia:
- Concentrar Renda;
- Formar classe média consumidora;
- Formar base para a indústria de bens de consumo (duráveis).
A distribuição de renda no RM era feita através do sistema Tributário, do sistema
Agrário e reformas urbanas (infraestrutura). O grande problema dessa proposta era a

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alteração do poder de propriedade. Se na “cidadania regulada” havia a estratificação por
profissão sob o ideal Liberal (livre mercado), no RM a estratificação era feira pela renda
sob o ideal Autoritário em que o Estado regula o mercado através de um conjunto de
políticas planejadas deliberadamente.

Referências

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: O longo Caminho. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, pp7-13, 110-126.

SANTOS, Wanderley G. dos. Cidadania e justiça: a política social na ordem brasileira.


2ª ed., Rio de Janeiro: Campus, 1987, cap. 4 “Do laissez-faire recessivo à cidadania em
recesso”.

FAGNANI, E. “Política social e pactos conservadores no Brasil: 1964/92”. Economia e


Sociedade, Campinas, (8): pp. 183-238. jun. 1997.

MARSHALL, T. H. (1967) Cidadania, Classe Social e Status, Rio de Janeiro ZAHAR,


Cap III.