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IX SEMANA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS UFMS 2014.

INDÚSTRIA DA CONFECÇÃO DE VESTUÁRIO E A EXPLORAÇÃO DA


MÃO-DE-OBRA DE COSTUREIRAS FACCIONISTAS EM CAMPO GRANDE
ENTRE OS ANOS DE 1980 E 2010.

Ivani Marques da Costa Grance

A entrada da mulher no mercado de trabalho como vendedora de


sua mão-de-obra ocorreu nos primórdios da Revolução Industrial inglesa,
apesar de há muito trabalhar ao lado do homem, seja como escrava ou como
serva, na lavoura, nas manufaturas ou mesmo nas lidas domésticas, no
sistema pré-capitalista.

Ao longo da história notamos que a exploração da mão-de-obra feminina


na indústria têxtil passou por muitas mudanças, seja nos direitos trabalhistas,
na mecanização do chão de fábrica, seja na automação do setor têxtil,
permitindo à mulher depreender menos força física na execução do seu
serviço. No entanto todas essas mudanças não trouxeram grandes alterações
na exploração dessa mão-de-obra.

Na década de 1980 as fábricas de confecções existentes em Campo


Grande eram de pequeno e médio porte, com fins a atender o mercado local.
Eram fábricas de uniformes escolares, militares e de algumas boutiques. As
costureiras geralmente dominavam toda a produção, da modelagem ao
acabamento final, sendo remunerada com salário base em carteira mais
produtividade, nesta função era possível receber até quatro (quatro) salários
mínimos. Neste período era possível entrar como ajudante e aprender todo o
ofício de costureira na empresa, pois a rotatividade era muito pequena,
possibilitando ao funcionário permanecer na mesma por em média 10 (dez)
anos.

Nos últimos vinte anos a indústria têxtil em Campo Grande passou por
transformações significativas. Inicialmente as empresas do setor do vestuário
eram de médio porte e atuavam na confecção de uniformes escolares e
militares, empregavam poucos funcionários, sendo que estes dominavam toda
a produção desde a modelagem até o acabamento final das peças, tendo como
remuneração o salário mínimo em carteira mais porcentagem por
produtividade.

Na década de 1990, devido á política econômica praticada nos governos


de Fernando Collor e subsequentemente Fernando Henrique Cardoso as
indústrias sofreram sérios problemas, sobretudo a indústria têxtil e de
confecção, como observa Isabella Jinkings e Elaine R. A. Amorim1:

A indústria têxtil foi um dos setores da economia nacional que mais


sofreram com a abertura econômica e a sobrevalorização cambial
ocorrida principalmente a partir da implantação do Plano Real em
julho de 1994. Segundo dados do BNDES, houve uma queda de 53%
no nível de emprego na indústria têxtil nacional, entre 1989 e 1994.
Os técnicos do BNDES afirmam que a introdução de novas
tecnologias no período foi a maior responsável por essa retração do
emprego.”(pag.339-340)

Nesta mesma década, com as mudanças nos incentivos fiscais ora


oferecidos, muitas indústrias de grande porte deixaram a cidade em busca de
melhores condições de produção e as que permaneceram mudaram seus
procedimentos com vistas á manter sua produtividade, diminuindo custos com
pessoal.

As últimas transformações desse mercado trouxeram outro fenômeno na


categoria “costureiro”. As indústrias passaram a procurar um profissional mais
“completo”, ou seja, proativo ao modo toyotista, que possa operar qualquer
maquinário podendo ser aproveitado em qualquer função, porém recebendo a
mesma remuneração.

Com vistas a ter esse profissional preparado o Senai/FIEMS, em


parceria com o município, e o Terceiro setor passou a oferecer cursos
específicos como o Costureiro Eclético, em que o candidato é capacitado a
operar pelo menos três tipos de máquina, e montar até cinco tipos de peças do
vestuário e um acessório (camiseta, calcinha, bermuda, camisete, bolsa
ecobag), podendo ser encaminhados para o mercado de trabalho após sua
certificação.

Todas essas mudanças trouxeram um quadro de agravamento da


precarização do trabalho feminino na indústria têxtil como um todo, sobretudo
em Campo Grande, em que a indústria têxtil não tem tradição.

O capitalismo subsiste a partir da extração da mais valia, e os avanços


tecnológicos na indústria têxtil têm permitido não só a manutenção desse
sistema econômico, como o aumento da mais-valia feminina. Conforme
observou Saffioti (1976):

A máquina, ao tornar inútil, ou pelo menos muito pouco necessária, a força


muscular, permite empregar a força de trabalho de indivíduos que, ou
dispõem de reduzida força física ou não completaram o desenvolvimento de
seu organismo, mas cujos membros possuem grande flexibilidade. Em outros
termos a maquinaria parecia, pois propiciar enormemente o trabalho da
mulher e da criança. Realmente, os inícios do capitalismo industrial
registraram o assalariamento, nas funções fabris, de tão grandes contingentes
femininos e infantis que Marx não pôde deixar de notar que <<o trabalho da
mulher e da criança foi o primeiro brado da aplicação capitalista da
maquinaria>>. (pag. 37)

Desta forma se deu a incorporação do trabalho da mulher na indústria


têxtil, com vistas a aumentar os lucros e em contrapartida minimizar os gastos
com funcionários, considerando que “a tradição de submissão da mulher a
tornou um ser fraco do ponto de vista das reivindicações sociais e, portanto,
mais passível de exploração” Saffioti (1976).

A mão-de-obra predominantemente feminina foi fragmentada em linhas


de montagem ao modo “fordista”, cada funcionário passou a executar apenas
uma função específica dentro do processo de confecção, tendo assim o ofício
de costureiro fragmentado em sub-funções (overloquista, retista, fechador,
galoneirista, etc.) causando com isso a redução da remuneração á apenas o
salário mínimo em carteira.
Com a mecanização e automação das fábricas foi possível aumentar a
produção com menos mão-de-obra, no entanto na confecção, apesar de todo
avanço tecnológico, ainda se faz necessária o emprego direto de mão-de-obra,
sobretudo feminina. No ambiente de confecção toda a produção depende da
presença constante da costureira, em todos os processos a dinâmica é a
mesma, se a profissional se ausenta por qualquer motivo a produtividade cai e
a manutenção de seu emprego na fábrica fica ameaçada.

Em Campo Grande não foi diferente, não só a diminuição de


vagas, como a dispensa de um contingente considerável, deixando de ser
funcionários para serem autônomos, prestadores de serviço, faccionistas,
terceiristas. As fábricas, tanto as de médio como as de grande porte, não
sofreram queda em sua produtividade por utilizarem esses profissionais
autônomos, sendo necessário pagar apenas pela costura, um preço muito
baixo e economizando assim com os encargos financeiros que a manutenção
de um funcionário contratado demanda.

Fazer parte deste mercado em Campo Grande é desafiador do ponto de


vista da própria costureira. Ao buscar entrar neste tipo de indústria, a mulher
encontra muitos desafios, á começar pelos cursos disponíveis à capacitação
nesta modalidade de trabalho. Os cursos geralmente são oferecidos pela
própria indústria ou pelo SENAI, seja em parceria com a prefeitura
(FUNSAT/FUNTRAB), com organizações comunitárias ou ONG’s, as
características são as mesmas.

Não são disponibilizados cursos completos em que o indivíduo receba o


conhecimento integral da profissão, em geral são cursos de curta duração, que
oferecem conhecimentos limitados a uma função apenas (costureiro eclético,
modelista ou corte industrial), ou seja, o interesse da indústria é formar um
exercito de reserva que esteja qualificado á uma determinada função, para que
possa servir na substituição daqueles que são dispensados por baixa
produtividade, problemas de saúde entre outros, demonstrando assim a alta
rotatividade de contratação/demissão neste setor.
As profissionais formalizadas contam com a proteção da Convenção
Coletiva de Trabalho1, que é atualizado a partir de todo 1º de janeiro de cada
ano, com os direitos trabalhistas constantes na CLT e INSS.

Em contrapartida o profissional autônomo fica responsável por toda a


despesa com INSS (grande maioria desses profissionais não recolhe o
benefício), luz, água, maquinário, manutenção e aviamentos exigidos pelo
cliente. Como vantagem tem a flexibilidade de seu horário, poder trabalhar em
casa (geralmente a casa se torna uma fabriqueta), vantagem que é usada para
produzir mais, trabalhando até 18hs por dia á depender da demanda. Como
podemos observar no conceito de autonomia descrito no artigo jurídico abaixo:

Conceito: Trabalhador Autônomo é todo aquele que exerce sua


atividade profissional sem vínculo empregatício, por conta própria e
com assunção de seus próprios riscos. A prestação de serviços é de
forma eventual e não habitual.

De acordo com o pensamento de Paulo Emílio Ribeiro de Vilhena,


autônomo é o trabalhador que desenvolve sua atividade com
organização própria, iniciativa e discricionariedade, além da escolha
do lugar, do modo, do tempo e da forma de execução.

A principal característica da atividade do autônomo é sua


independência, pois a sua atuação não possui subordinação a um
empregador.

O profissional autônomo é aquele que possui determinadas


habilidades técnicas, manuais ou intelectuais e decide trabalhar por
conta própria, sem vínculo empregatício.

Os autônomos têm a vantagem de negociar mais livremente as


relações de trabalho, como horários mais flexíveis e salários.

A autonomia da prestação de serviços confere-lhe uma posição de


empregador em potencial, pois, explora em proveito próprio a
própria força de trabalho.

O trabalho autônomo, à medida que é realizado, por conta própria,


rende benefícios diretos ao trabalhador, que em troca, também
deve suportar os riscos desta atividade.

Dentre as várias espécies de trabalhadores, o autônomo, como o


próprio nome já declara, é o que desenvolve sua atividade com mais
liberdade e independência. É ele quem escolhe os tomadores de seu
serviço, assim como decide como e quando prestará, tendo
liberdade, inclusive, para formar seus preços de acordo com as
regras do mercado e a legislação vigente.
(Stelamaris Ost. Bacharel em direito pela Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Santa Rosa. Doutoranda
em Direito do Trabalho pela Universidade de León – Espanha.)

Porém na prática, para que a costureira receba encomendas, se


faz necessária a intermediação de uma terceira pessoa, que faz o intercâmbio
das peças com ela. Note-se que esse intercâmbio é entre a costureira e o
serviço á ser prestado e não com o contratante direto. Sem acesso ao cliente
final, o intermediário é a única possibilidade que a costureira tem de conseguir
as encomendas, trazendo á tona a Superexploração da mão de obra que
aconteceu com as primeiras costureiras da história da Revolução Industrial,
salvo algumas diferenças que agravam sua condição.

Nos primórdios a Superexploração era praticada pelo dono dos


meios de produção, que comprava a mão-de-obra feminina á um custo muito
menor que a masculina, motivo pelo qual eram preferidas pelos grandes
industriais. O intermediário é um personagem que surgiu junto com a
reestruturação das indústrias, sobretudo das têxteis e de confecção que
ocorreram no Brasil ao início da década de 2000. Ele não é o proprietário dos
meios de produção, é parceiro deste. Para o cliente ele age como um dono de
confecção terceirizada, mesmo não possuindo maquinário algum, cobra um
valor determinado e de posse do serviço, redistribui entre as costureiras de sua
confiança. Já para as costureiras ele paga uma porcentagem mínima por peça,
fazendo com que esta tenha que produzir um grande número de peças, para
alcançar uma remuneração melhor.
CONCLUSÃO

Em suma a costureira é hípersuperexplorada. Esta extrema precarização


do trabalho da costureira permite a extração de mais valia duas vezes ou mais,
chegando a receber bem menos que 10% de 100% do valor por peça
confeccionada, podendo ser menor que 2% em peças encomendadas por
grifes famosas. Toda esta dinâmica ocorre no submundo da confecção, pois
somente os profissionais formalizados têm acesso á sindicalização e
regulamentação de seu trabalho. Não existe regulamentação que proteja a
costureira autônoma, deste tipo de exploração.

Diante do exposto, observamos que esse mercado de trabalho em


Campo Grande ainda está longe de ser uma opção viável para o ingresso da
mulher no âmbito profissional, no entanto acaba sendo a escolha de muitas,
que diante de tantas dificuldades para se inserir no mundo do trabalho
remunerado, acabam por vender sua mão-de-obra á custos baixíssimos tanto
formal quanto informalmente.

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BIBLIOGRAFIA

http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=4755

http://www.fiems.com.br/senai/noticias-ler/Senai-e-Sindivest-vao-qualificar-60-
trabalhadores-para-4-industrias-da-Capital-/17552

http://www3.mte.gov.br/sistemas/mediado/

Saffioti, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e


realidade; prefácio [de] Antônio Cândido de Mello e Souza. Petrópolis, Vozes,
1976.

Jinkings, Isabella. Parte da dissertação de mestrado intitulada Reestruturação


produtiva e emprego na indústria têxtil catarinense, CFH/UFSC,2002, sob
orientação do Prof. Dr. Fernando Ponte de Souza com bolsa do CNPq.

Amorim, Elaine Regina Aguiar. Dissertação de mestrado intitulada No limite da


precarização? Terceirização e trabalho feminino na indústria de confecção,
IFCH/Unicamp, 2003, sob a orientação da Profa. Dra. Angela Maria Carneiro
Araújo, com bolsa da Fapesp.

Antunes, Ricardo, 1953 – Adeus ao Trabalho?:ensaio sobre as metamorfoses


e a centralidade do mundo do trabalho / Ricardo L. Antunes. – São Paulo:
Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1995.1