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Desarrollo Rural

EXPLORACIONES 34
Estética, Agricultura e Gênero:
A visualidade nas mudanças do modelo agroalimentar
após a revolução verde

Diana Peña
Créditos
Brasil, 2016

Autora:
Diana Peña

Edición, diseño y diagramación


IPDRS

* Este texto es una versión editada sin la revisión de la autora.


Índice

Introdução 5

Discussão: Estética, Agricultura e Gênero 7

Abordagens metodológicas: A visualidade nas mudanças do modelo agroalimentar após a Revolução


Verde 12

O essencial é invisível aos olhos 19

Referências 20
Estética, Agricultura e Gênero:
A visualidade nas mudanças do modelo agroalimentar
após a revolução verde

“O essencial é invisível aos olhos.”


Antoine de Saint-Exúpery.

Introdução rrível – terra nullius–, que deve ser dominado pela ação
tecnocientífica (SHIVA, 1988, 1992; ESCOBAR, 2007;
As mulheres e as sementes teceram uma relação LEFEBVRE, 2013). As consequências deste processo
co-evolutiva desde os alvores da história humana, de ruptura ainda permeiam as sociedades contem-
quando a curiosidade e a resolução femininas, pro- porâneas, embora tenham sido camufladas em formas
piciaram a epifania da planta que germina no caroço pretensamente naturais através de discursos, represen-
dentro do fruto, sua diversificação pelo processo de tações e práticas espaciais que repercutem em todas
domesticação, e sua incorporação na identidade cultu- as dimensões e escalas do território, e que por tanto o
ral dos povos no calor do fogão. Conforme Shiva (1988, configuram, partindo do próprio corpo até chegar no
1992), esta relação se estende ao solo vivo e é sacraliza- globo terráqueo como um todo (idem).
da na maioria das culturas sob a figura da terra mater,
pacha mama, a qual entende que mulher, semente e Com este artigo propõe-se numa das múltiplas ares-
solo, contêm o milagre da regeneração: a capacidade tas dessa clivagem (homem/mulher, civilização/natu-
de gestar uma nova vida e canalizar os fluxos energéti- reza), a saber, a maneira em que os discursos e repre-
cos do ecossistema em favor dela, harmonizando estes sentações produzidos pela lógica moderna/patriarcal/
princípios femininos com os princípios masculinos do capitalista são reproduzidos na cotidianidade das prá-
sol, solis pater, taita inti. ticas agroalimentares numa região do sul global, a es-
Porém, a lógica da modernidade profanou o mito da tética[1] associada a essa ordem e sua relação com o
mãe terra construindo representações da natureza papel da mulher na divisão do trabalho agrícola.
como utopia negativa, como objeto inerte, alheio e te-

*1. Neste trabalho se entenderá a estética para além do campo das artes, aliás, se considerará unicamente sua conexão com outra forma do trabal-
ho humano: A agricultura; a partir de Lefebvre (1971), interpreta-se a estética como um dos “poderes que o homem criou para dominar a natureza
e a si mesmo (seus instintos naturais), a partir do desenvolvimento das forças produtivas” (p. 40), é portanto um resultado histórico, no sentido em
que “cada época, cada civilização (…), cada classe, cada povo e cada nação, em condições favoráveis a sua expressão artística, tem elaborado sua
própria ideia do que é belo” (p. 16). As obras humanas – enquanto fatos sociais–, “intervêm na vida social e política” (p. 18), e a estética regra essa
intervenção, configurando a sensibilidade, ou seja, mediando a relação entre as coisas e o observador, sob os “gostos, aspirações, emoções e ideias”
de cada classe (p. 21). A obra constitui então uma unidade forma-conteúdo, destacando-se o “conteúdo ideológico” (as ideias do tempo histórico e
a classe); salienta-se que os ideais estéticos sobre a agricultura e a alimentação denotam, nessa perspectiva, a ideologia de uma classe determinada.

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Nesse contexto, identifica-se a Revolução Verde como mensão ótica e estética na institucionalização de uma
um instrumento crucial na construção do discurso des- representação dicotômica da realidade agroalimentar
envolvimentista que erigiu a modernização tecnológi- nos países do denominado terceiro mundo, na qual
ca como paradigma da produção alimentar, desviando a agricultura camponesa e a alimentação tradicional
a atenção da dimensão política da questão agrária e são sinônimos de atraso e pobreza, enquanto as tec-
desconsiderando as particularidades sociais, culturais nologias da Revolução Verde se consagram como pro-
e ecossistêmicas. messa de prosperidade e progresso. Esta mudança na
percepção e na forma de se cultivar os alimentos teve
O prato e a colher contêm a ordem mundial toda, po- repercussões profundas, entre as quais se destacam a
rém, por causa da intimidade no ato de se alimentar, perda do histórico protagonismo da mulher na agricul-
é difícil enxergar as contradições que desabrocham tura e o empobrecimento da dieta pela homogenei-
em cada elo da cadeia, especialmente porque elas são zação das variedades comercializadas.
apagadas nas alocuções oficiais. Este fato traz desafios
metodológicos na abordagem crítica do assunto, entre Os ditos processos de homogeneização prescreveram
os quais a necessidade de se procurar além do texto uma estética da agricultura e da alimentação por meio
escrito, desconfiar das palavras, uma vez que a elas foi dos discursos da eficiência, da estandardização de for-
dada uma função específica na preservação do status mas e dimensões aceitáveis para frutas e verduras, das
quo – como linguagem histórica das classes eruditas/ regulamentações sanitárias e fitossanitárias, e demais
dominantes–, tendo, por esse motivo, a capacidade de disposições que configuraram o atual mercado alimen-
encobrir as relações de dominação subjacentes, em tar. Isto se relaciona com as construções culturais do
vez de designá-las para fazê-las evidentes (RIVERA CU- gênero [3], que se fundamentam numa imagem carac-
SICANQUI, 2010). terizada pela objetivação do corpo feminino sob pa-
drões estéticos que terminam sendo uma fonte decisi-
E ainda, reconhecendo que sempre há uma estética va de opressão patriarcal, relegando às mulheres ao rol
atrelada à ordem social, e que esta é ao mesmo tem- passivo da visualidade, inofensivas e fracas, privadas de
po um sintoma das práticas sociais vigentes e uma seu enorme potencial revolucionário (CHOW, 1992).
força para mudá-las num sentido específico (LEFEBVRE,
2013), quer se esmigalhar o código que regra o jeito Porém, este processo de homogeneização não é uni-
certo/errado de se trabalhar a terra e consumir seus forme, pelo contrário, há uma organização espacial
frutos, e como isto se manifesta na organização do concretizada na divisão social do trabalho em escala
espaço agrário (os cultivos e as variedades que se pro- planetária, que determina a participação de cada re-
movem, a matriz tecnológica utilizada, a divisão do tra- gião no mercado mundial, e inclusive de cada um dos
balho no bojo da produção, etc.). Lefebvre enfatiza no países que a compõem, fato que obedece às particula-
protagonismo do visual na constituição do pensamen- ridades locais e às próprias necessidades do capital. A
to moderno, que se abstrai dos cheiros, dos sabores e discussão se apresenta a partir de dois casos contras-
do toque (espaço absoluto), em virtude de um modelo, tantes: a produção mecanizada de grãos – soja e milho
de uma sociedade imaginária (espaço abstrato). – no Brasil e a floricultura na Colômbia, por conside-
rá-los expressivos da tese aqui defendida, embora não
Deste modo, propõe-se a abordagem do problema a sejam exaustivos.
partir da visualidade [2], devido à importância da di-

*2Mais do que a ação fisiológica de observar, a visualidade se refere à objetivação de outros sujeitos, sua relegação ao rol passivo de serem
contemplados por um observador, que dessa maneira impõe uma suposta superioridade sobre eles; nesse sentido, Chow (1992, p.
101), aponta que “the visual as such, as a kind of dominant discourse of modernity, reveals epistemological problems that are inhe-
rent in social relations and their reproduction. such problems inform the very ways social difference—be it in terms of class, gender, or
race—is constructed”. À luz dessa objetivação os sujeitos se transformam, tornam-se um espetáculo que perde um sentido além do rol
de subalternidade designado: “the site occupied by woman, by the lower classes, by the masses, is that of excess; in freud’s reading their
specularity—their status as the visual is what allows the clar ification of problems which lie outside them and which need them for their
objectification. beyond this specularity, what can be known about the fem inized “object”?”(CHOW, 1992, p. 110).
*3 Biologicamente há uma diferenciação entre machos e fêmeas, porém, isto se distingue de uma prática cultural caracterizada pelos “pro-
cessos mediante os quais a sociedade utiliza essa diferenciação para hierarquizar as atividades, e portanto os sexos, em suma, para criar
um sistema de gênero (IRATA, 2007, p.596).

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natureza-passividade-corporeidade-rusticidade-im-
Discussão: Estética, Agricultura e previsibilidade se consideram características femininas
Gênero e de inferior qualidade (SHIVA, 1992; LEFEBVRE; 2013).
Esta concepção busca legitimar a dominação patriarcal
Vandana Shiva (1992, p. 154) não duvida em afirmar da mulher e da natureza a partir de instituições preten-
que “todas as culturas sustentáveis, na sua diversida- samente neutrais e naturais (embora sejam uma cons-
de, têm enxergado à terra como uma mãe”, terra mater, trução cultural). Por isto, a cotidianidade das pessoas
poética analogia que guarda um conhecimento pro- está permeada por discursos que permitem reproduzir
fundo sobre as dinâmicas da vida ao entender que o as ditas instituições e justificar a submissão a um único
ecossistema tem a capacidade de criar condições para modelo de se representar o mundo e quem o habita.
a regeneração de todos os elementos que o compõem
e, assim, “a semente e a terra criam as condições para Cada dinâmica discursiva e cada sistema de represen-
a mutua regeneração e renovação” (1992, p. 156), da tações da realidade social tem o poder de criar uma
mesma maneira em que o ventre materno se regenera: ordem determinada, capaz de definir os modos per-
com o ciclo menstrual o endométrio se renova quando mitidos e proibidos de ser, estar e agir, de visibilizar
não há fecundação. No caso da gravidez, o corpo todo ou apagar maneiras de se pensar e se expressar e, em
se adapta para suprir as necessidades do feto em cada suma, de traçar o rumo das vidas das pessoas e dos
etapa de sua formação. Assim concebida, a Terra é a diversos ecossistemas planetários (LEFEBVRE, 2013;
fonte da fertilidade, e o propósito da agricultura seria ESCOBAR, 2007). E ainda, uma vez que esta racionalida-
apenas propiciar a reciclagem dos nutrientes do solo, de se pretende neutral e universalmente aplicável, há
a través da interação dos elementos do agro-ecossis- violência pela imposição dos elementos que a consti-
tema: as culturas humanas, a semente, o solo, o sol, a tuem: uma lógica geométrica (do espaço euclidiano–
água, o clima, os minerais, os microrganismos, os inse- lógico–matemático, compreensível para poucos), fálica
tos, os animais domésticos etc. (patriarcal e da propriedade privada), e visual, na qual
se favorece a ótica sobre os outros sentidos – o tato,
A mulher cumpre um papel central neste sistema como o paladar, o olfato e até o ouvido–, ao considerá-los
precursora da seleção e adaptação das sementes e, por mais sensuais, corpóreos, terrenais, concebidos, como
tanto, criadora da agricultura em grande medida. Não foi mencionado, como parte de uma natureza inferior
obstante, com a preeminência do patriarcado, “todas (LEFEBVRE, 2013; SHIVA, 1992).
as sociedades históricas diminuíram a importância das
mulheres e limitaram a influência da feminidade”, res- Estes três elementos (geométricos-fálicos-visuais) es-
tringindo sua participação em todas as esferas sociais, tão estreitamente relacionados; assim, a lógica geomé-
incluída a agricultura (LEFEBVRE, 2013); nas sociedades trica substitui no espaço mental “a natureza pela abs-
ocidentais, a través do paradigma da Revolução Verde, tração fria, pela ausência de prazer” criando modelos
esta restrição é ainda maior atingindo o próprio princí- que reduzem a complexidade da realidade para fazê-la
pio de regeneração, já que, em razão da conceição do mensurável, previsível, chegando incluso a considerar
solo como substrato estéril, terra nullius, se substitui o que as representações do mundo (os modelos) são
ciclo de nutrientes do ecossistema pelo uso de insu- mais adequadas que o mundo em si (LEFEBVRE, 2013;
mos externos comercializados no mercado, como ferti- ESCOBAR, 2007). Neste marco, supõe-se a supremacia
lizantes químicos, sementes homogeneizadas (incluso do saber científico sobre qualquer outro sistema de
transgênicas) e tratores mecanizados. Tecnologias pen- conhecimento, discurso propício à dominação colo-
sadas para serem operadas por homens (SHIVA, 1992; nialista das sociedades não ocidentais, problematizan-
ROSSINI, 2002; BRUMER, 2004). do suas lógicas, suas culturas, suas tecnologias e seus
modos de produção como inferiores ou ineficientes (e
Esta discriminação da mulher, da terra como ser vivo e, após a segunda guerra mundial, como subdesenvolvi-
em geral, de todo princípio feminino, surge com o pen- das), em consequência, construindo uma plataforma
samento moderno, que possui uma visão dicotômica de intervenção controlada pelas próprias sociedades
da realidade, na qual se concebe a civilização-ação-in- modernas, conclamadas a levar o progresso a todos os
telectualidade-artificialidade-previsibilidade como cantos do planeta (SHIVA, 1992 ; ESCOBAR, 2007).
características tipicamente masculinas, enquanto a

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Nesse processo, a denominada lógica da visualização
foi uma ferramenta primordial para se alcançar a Por isto, a mulher tem sido um dos principais focos neste
simplificação das rugosidades das formas naturais processo, no qual se cria uma imagem de feminidade
na geometria euclidiana e, de maneira análoga, a que se caracteriza pela objetivação do corpo feminino
simplificação de diversos e complexos sistemas culturais sob padrões estéticos que terminam sendo uma fonte
sob os rótulos da ineficiência e o subdesenvolvimento, decisiva de opressão patriarcal, relegando-as ao rol
para este fim foi necessário o distanciamento entre passivo da visualidade, inofensivas, privando-as de
o sujeito que observa e o objeto que é observado, seu enorme potencial revolucionário (CHOW, 1992).
reduzindo assim o outro a uma imagem, algo estático Acredita-se que esta mesma racionalidade objetivante
e fragmentado que substitui a própria existência desse e padronizadora guia as ações pela homogeneização
ser, seja uma pessoa, um grupo de pessoas, uma cultura, da agricultura e da alimentação, visando facilitar os
uma região geográfica, um dos elementos ou relações processos de produção e troca no mercado capitalista
de um ecossistema, e mesmo o planeta em seu conjunto para benefício de um punhado de monopólios
(LEFEBVRE, 2013; CHOW, 1992; ESCOBAR, 2007). agroalimentares (SHIVA, 1988, 1992; ESCOBAR, 2007;
BRAVERMAN, 1998).
Esta lógica está tão incorporada na cotidianidade
das sociedades modernas que ela acaba mediando Há conexões entre a primeira relação – a construção
os aspectos menos suspeitos das relações sociais, de uma imagem da mulher socialmente aceitável–, e a
conformando assim verdadeiros regimes de segunda – a construção de uma imagem dos cultivos
visualidade: a conservação de sistemas de privilégios permitidos no mercado–, as quais parecem apontar
– de gênero, classe e raça–, pela espetacularização a uma fonte comum: o intuito de homogeneização a
e hierarquização consequente de pessoas e culturas partir de cânones estéticos da sociedade moderna/
(CHOW, 1992). Paradoxalmente, ditos regimes têm patriarcal/capitalista. A estética se erige então como
um intuito homogeneizante em todas as esferas da uma força normatizadora a partir da qual se reproduz
realidade: o pensamento, a cultura, a estética, a política, a ordem capitalista – a representação do espaço
a sexualidade, os agro-ecossistemas. Eles destacam a e sua consequente incorporação nos circuitos de
diferença, mas não para celebrá-la, senão para puni-la acumulação– (LEFEBVRE, 2013).
e normatizá-la, como consequência da mencionada
presunção de universalidade do pensamento moderno A fábrica se erige como modelo da vida social. As
(LEFEBVRE, 2013; ESCOBAR, 2007; SHIVA, 1988, 1992). pessoas e os ecossistemas passam a ser considerados
só como mão de obra e recurso produtivo; os processos
Aliás, conforme Lefebvre (2013), a modernidade industriais buscam tornar-se lineais os ritmos e
concebe a vida social como um conjunto de “coisas- os ciclos naturais através das linhas de produção,
signos” (espaço abstrato) que em sua essência nega as comprometendo o bem-estar social e ecossistêmico
diferenças que provêm da natureza, de seus ritmos e (LEFEBVRE, 2013; SHIVA, 2008). A industrialização da
do próprio corpo, entrando, portanto, em contradição produção alimentar foi “(...) a base indispensável do
com as formações prévias à revolução neolítica e à tipo de vida urbana que estava sendo criada”, a qual
apropriação privada do solo. Sociedades conciliadas visava, no começo do século vinte [4] , a proletarização
com o feminino, com o maternal e o imediato, unidas da força de trabalho e a conformação de uma demanda
por laços de consanguinidade para a reprodução da de produtos – como manteiga, pão, biscoitos, sopas,
vida, o reconhecimento do mundo (suas formas, cores, carnes– que geralmente eram produzidos pelas
sabores, texturas e odores), o encontro com “o prazer e famílias para o próprio consumo, mas que puderam ser
a dor, a terra” amplamente comercializadas a partir de tecnologias

*4 A partir da entrada em vigor dos preceitos neoliberais, a proletarização não é tão promovida quanto o chamado empreendedorismo, sob
a lógica da redução de custos laborais, terceirização, etc. Como aponta Rossini (2002, p. 2): “a modernização tecnológica em andamento,
poupadora de trabalho, cria as bases para reestruturar a produção de bens e serviços, os processos e a organização do trabalho. Suas
repercussões na composição orgânica do capital pela tecnificação leva, em maior escala, à exclusão de mulheres, de pessoas idosas,
prematuramente idosas e de jovens que deveriam estar entrando no mercado de trabalho. O emprego paulatinamente está sendo
substituído pela ocupação. Desta forma o emprego formal começa a ser raro. A tônica passa a ser o mercado informal de trabalho e a
terceirização”.

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como o enlatado e a refrigeração, que facilitaram o cada região – e inclusive de cada um dos países que a
processamento, armazenamento e distribuição dos compõem– no mercado mundial.
alimentos (BRAVERMAN,1998, p. 182).
Para trazer a discussão ao subcontinente latino-
Esta dinâmica requereu a incorporação do modelo fabril americano, propõe-se a comparação de dois casos,
nos agro-ecossistemas. Por isto, a partir da década dos os quais ilustram a lógica por trás da divisão global
anos cinquenta do século passado, deu-se um programa do trabalho agrícola, embora não sejam exaustivos
de transferência de tecnologia agropecuária para os para toda a região; de um lado a Colômbia, produtor
países do denominado terceiro mundo, programa este de espécies e variedades tropicais, do outro o Brasil,
que, sob o discurso da produtividade agrícola, impôs considerado o “celeiro do mundo”, duas caras da mesma
o uso de variedades estandardizadas de sementes, moeda. Para esclarecer essa afirmação se apelará um
defensivos químicos, sistemas de irrigação e maquinaria pouco à história, lembrando as definições do Acordo
agrícola. Este pacote tecnológico, conhecido como sobre a Agricultura (AOA, por suas siglas em inglês),
Revolução Verde, ignora as particularidades sociais, pactuadas quando da conformação da Organização
culturais e ecossistêmicas dos lugares onde é adotado, Mundial do Comercio (OMC) no marco das negociações
conduzindo à simplificação do agro-ecossistema pela da Rodada Uruguai, as quais conduziram à liberalização
prática da monocultura, à alteração dos controles do mercado agrícola e uma divisão internacional do
biológicos, à poluição e salinização de águas e solos trabalho correspondente (SUÁREZ; 2008).
devido ao uso de defensivos tóxicos e adubos que
desequilibram seus nutrientes e à erosão genética, No AOA se desenha uma geopolítica dos alimentos
associada não só a perda de raças e variedades utilizadas favorável aos países do norte global, cujos subsídios
por milhares de anos, mas também ao menosprezo dos no setor agropecuário geram distorções nos preços
conhecimentos tradicionais em favor do conhecimento mundiais, possibilitando-os, portanto, a se especializar
científico (TOLEDO & BARRERA, 2009). na produção dos denominados cultivos transitórios e
de clima temperado, que correspondem aos principais
À vista disso, não resulta estranho que os rumos da gêneros alimentares do ponto de vista da dieta ocidental
modernização da agricultura na América Latina [5] contemporânea. Ao mesmo tempo, isso induz o resto
tenham tido como norte esse modelo tecnológico, o do mundo para produção de culturas “tropicais” como
qual continua justificando uma teleologia no mercado café, frutas e flores, além das plantações para produção
mundial de alimentos, que determina padrões rígidos de agrocombustíveis, as quais se articulam com a
para as normas e disposições sanitárias e fitossanitárias, indústria e o mercado internacional de valores, sendo,
técnicas, produtivas e organizativas que regram a em consequência, altamente vulneráveis à volatilidade
produção agropecuária no planeta inteiro. Contudo, das bolsas de valores. A Colômbia pertence claramente
devido às particularidades locais e às próprias ao segundo grupo (MONCAYO, 2008; SUÁREZ, 2008).
necessidades do capital, este processo homogeneizante
não é homogêneo, ao contrário, há uma organização Há, contudo, tons de cinza nesta hierarquização. Um
espacial concretizada na divisão social do trabalho [6], exemplo disso é o Brasil que, por questões físicas e
em escala planetária, que determina a participação de históricas, cuja explicação ultrapassa a presente

*5 Com a notável exceção de Cuba.


*6 De acordo com Marx (1998): “se puede denominar división del trabajo en general al desdoblamiento de la producción social en sus gran-
des géneros, como agricultura, industria, etc., división del trabajo en particular, al desglosamiento de esos géneros de la producción en
especies y subespecies; y división del trabajo en singular, a la que se opera dentro de un mismo taller”, ou mais recentemente – no bojo da
produção capitalista–, dentro da fábrica, onde há uma divisão de tarefas que se alicerça na apropriação privada dos meios de produção
por parte do capitalista, tendo os trabalhadores como único recurso sua força de trabalho. Na escala planetária há uma divisão do trabalho
decorrente do desdobramento básico terra-trabalho-capital, que sustenta o sistema de privilégios adquiridos quando da colonização de
América, África e outras regiões, inclusive das elites que habitam as áreas colonizadas e que administram o sistema de instituições que
mantêm a máquina do capitalismo andando. Já por divisão sexual do trabalho se entende a “forma de divisão do trabalho social decorren-
te das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa
forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva, das mulheres
à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado (políticos, religiosos,
militares etc.)” (IRATA, 2007, p. 599).

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Ao homem cabe geralmente a exclusividade
dissertação[7] , a partir da inserção nesse modelo de desenvolver serviços que requerem maior
posicionou-se como um dos principais produtores força física, tais como lavrar, cortar lenha, fazer
agropecuários do mundo, especializando sua oferta curvas de nível, derrubar árvores e fazer cerca.
exportadora na produção de cana de açúcar, café, Também cabe ao homem o uso de maquinário
carnes em sistemas de confinamento e monoculturas agrícola mais sofisticado, tal como o trator. À
de grãos, em complexos homogêneos e dependentes mulher, de um modo geral, compete executar
de insumos sintéticos[8] tanto as atividades mais rotineiras, ligadas à
casa ou ao serviço agrícola, como as de caráter
Isso ocasionou a modificação das paisagens agrárias mais leve. Entre as tarefas em geral executadas
de ambos. Trata-se de um processo tão complexo que pelas mulheres estão praticamente todas as
requer uma recalibragem da lente de análise para um atividades domésticas, o trato dos animais,
novo entendimento. O que se propõe aqui é um olhar principalmente os menores (galinhas, porcos e
sobre a floricultura colombiana e a comoditização da animais domésticos), a ordenha das vacas e o
produção de grãos no Brasil, por considerá-los indícios cuidado do quintal, que inclui a horta, o pomar
da tese defendida. A posição de cada um destes países e o jardim (BRUMER, 2004, p. 211).
na divisão do trabalho agrícola do AOA se reflete na
composição orgânica do capital [9] sendo mais intensiva Assim, ao não participar na produção dos cultivos
em capital nas lavouras mecanizadas de milho e soja das comerciais, o trabalho feminino não se remunera,
planícies brasileiras, e em mão de obra nas estufas das sendo confinado e invisibilizado no espaço doméstico.
plantações de flores nos Andes colombianos (ROSSINI, No outro extremo desta correlação, considerando
2002; CASTRO, 2008; GONZÁLEZ, 2014). Essa diferença as condições históricas em que o capitalismo tem se
diametral nos permite enxergar melhor a dominação desenvolvido no território colombiano[10], pode se
patriarcal da agricultura, a mulher e todo princípio redimensionar a afirmação de Rossini, uma vez que na
feminino. moderna floricultura colombiana o grosso da mão de
obra é feminina, que trabalha em estado de alarmante
Nesses arranjos o trabalho feminino é submetido precarização (CASTRO, 2008; GONZÁLEZ, 2014). Mais
ou formalmente banido. A composição orgânica do adiante se retomará a questão da divisão sexual
capital se correlaciona positivamente com o grau de do trabalho na agricultura, pois agora é necessário
intensidade nessa determinação. Rossini (2002, p. 12) salientar outro elemento eloquente na relação Estética/
é contundente a esse respeito ao referir-se à produção Agricultura/Gênero, uma vez que a composição
nas plantações canavieiras: “(...) a modernidade orgânica do capital se correlaciona da mesma maneira
tecnológica na agricultura, nesta fase, só tem acelerado com a diversificação de espécies e variedades nas duas
as masculinidades: o trabalho no campo capitalista agroindústrias.
é masculino”; esta posição é também ratificada
por Brumer (2004) no caso das unidades familiares O modelo mais intensivo em capital não só é mais
vinculadas à agroindústria como a da soja, onde se masculinizado, como também é mais homogêneo. No
identifica uma divisão do trabalho estabelecida a partir caso que tomamos como exemplo no Brasil, produz-
do sexo: se somente milho e soja; no caso da floricultura

*7 Ver, por exemplo, DELGADO, G.C. Capital financeiro e agricultura no Brasil 1965-1985. São Paul: Editora Ícone, 1985. Capítulos e BELIK, W.
Agroindústria Processadora e Política Económica. Campinas: Unicamp, 1992 (Tese de doutorado).
*8 Lembre-se que, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE, o Brasil é o principal consumidor de agrotóxicos
do mundo. Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2015. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94254_.
pdf, acessado o 17 de dezembro de 2015.
*9 Vale lembrar o significado desse conceito central: o capital parte de uma relação social, materializada na circulação da forma Dinhei-
ro-Mercadoria-Dihneiro (valorizado). Ou seja: la “conversión de dinero en mercancía y reconversión de mercancía en dinero, comprar
para vender. El dinero que en su movimiento se ajusta a ese último tipo de circulación, se transforma en capital, deviene capital y es ya,
conforme a su determinación, capital” (MARX, 1998, p. 180), entendendo que a lei máxima do capital – sua essência– é o lucro, o qual
depende do mais valor (o trabalho não pago ao trabalhador, a taxa de exploração); isto se relaciona ainda com outro conceito: a compo-
sição orgânica do capital, que é a relação entre o acervo dos meios de produção e a mão de obra, a qual será maior nas indústrias mais
tecnificadas.
*10 Ver, por exemplo, OCAMPO, J. Colombia y la Economía Mundial: 1830-1910. Bogotá: Siglo Veintiuno, 1984.

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Colombiana, que é intensiva em mão de obra, É importante ressaltar o protagonismo da mulher neste
principalmente feminina, tende-se à diversificação, processo de ampliação da riqueza genética, não só por
apresentando mais de cinquenta espécies e inúmeras ser considerada responsável pela domesticação dos
variedades cultivadas e exportadas (CASTRO, 2008; oito principais cereais utilizados para a alimentação
GONZÁLEZ, 2014). No entanto, o que opera por trás humana – trigo, arroz, milho, cevada, aveia, sorgo, milho
de ambos os casos é a mesma lógica homogeneizante, miúdo e centeio –, mas também porque as agriculturas
por isso o mercado celebra a variabilidade de alguns não patriarcais, que incorporam os princípios feminino
atributos, como as flores (que, aliás, são um bem e masculino da vida, se caracterizam por uma
suntuário), em detrimento das culturas alimentares concepção mais integral do agro-ecossistema, capaz de
causando, assim, mais vulnerabilidade socioambiental entender os ciclos naturais, a reciclagem dos nutrientes
não só em países como a Colômbia, mas também no do solo e demais fluxos energéticos, como condição
Brasil. necessária para tecer equilíbrios ecossistêmicos sob a
égide do dinamismo, da diversidade, das inter-relações
Frente essa onda homogeneizadora cabe relembrar e co-dependência, da sacralidade da vida e todos os
que a diversidade é uma das características essenciais elementos que a compõem (SHIVA, 1988, 1992).
do planeta Terra, uma estratégia para ampliar as
formas e qualidades dos elementos que conformam Porém, como vem sendo mencionado, a razão
os ecossistemas, com o propósito de enriquecer e moderna, da qual é subsidiária a sociedade capitalista
organizar suas relações, e de reorganizá-los após uma contemporânea, concebe as coisas de uma maneira
perturbação. Por isto, considera-se que a diversidade radicalmente diferente, a partir de uma visão
aumenta a capacidade de resiliência (TOLEDO & fragmentada do mundo, que cinde o ser humano da
BARRERA, 2009; SHIVA, 1988, 1992). Nesse sentido, a natureza, então entendida como objeto ou simples
diversificação é crucial para todos os processos da vida, cenário (meio ambiente) inferior, mecânica, um dado
uma vez que: isolado, apreensível por meio de modelos reducionistas,
pronta para ser dominada e explorada pelo homem
A história da Terra tem sido, em (SHIVA, 1988). A industrialização foi a materialização
geral, uma muito longa história de do sonho moderno de dominação da natureza,
diversificação, e este processo tem se transformando a matéria bruta em mercadorias de
produzido em diferentes escalas, ritmos todos os tipos. A economia se erigiu como o eixo da
e períodos de tempo. Por isto, desde sociedade impondo ritmos artificiais que rompem com
uma perspectiva de longo prazo (escala os ciclos da natureza, com a reciclagem de nutrientes,
geológica do tempo), a diversificação e desqualificam outras culturas e sistemas produtivos
é sinônimo de evolução (TOLEDO & sob o rótulo da ineficiência, da in-civilização e do atraso
BARRERA, 2009, p. 16). (ESCOBAR, 2007; TOLEDO & BARRERA, 2009).

De acordo com Toledo e Barrera (2009), os principais Os paradoxos desta ruptura com os ciclos naturais
tipos de diversidade que podem ser reconhecidos na podem ser percebidos nas estantes dos supermercados,
atualidade são a diversidade biológica e a cultural, onde se aglomera toda sorte de frutas e verduras, sejam
a partir de cuja conjugação se derivam mais duas: a ou não de temporada, vindas ou não do mercado local,
agrobiodiversidade e a diversidade paisagística. A criando uma diversidade ilusória que não concorda
construção de novas paisagens e ecossistemas agrários com a realidade, já que é possível demonstrar o quando
pela ação humana foi possível graças à adoção e se contrasta esta falsa opulência com os dados de perda
refinamento do mecanismo evolutivo da adaptação de agrobiodiversidade: das 50.000 espécies catalogadas
biológica, mediante a seleção artificial e a domesticação como de interesse alimentar para a humanidade , tão só
de organismos a diferentes condições edafo-climáticas 200 são realmente aproveitadas, destas unicamente 100
até constituir novas variedades vegetais e novas raças são comercializadas no mercado mundial, no entanto, a
animais aumentando, assim, o acervo genético e a dieta de 80% da população mundial se alicerça em 20
capacidade de resiliência dos ecossistemas planetários. culturas e, ainda, duas terceiras partes desses alimentos
são produzidas com base em 10 espécies,

QUINUA 11
IPDRS
entre as quais o arroz, o trigo, o milho e a soja [11]. tudo, reconheçam e se enraízem nas particularidades e
sabedoria de cada lugar, enriquecendo a trama da vida
Não por acaso estas espécies são as principais culturas pela diversidade dos elementos que a compõem evi-
agrícolas do Brasil que, com essa escolha, simplificou os tando, assim, qualquer pretensão universalista.
agroecossistemas do país. O mais alarmante é que esta
tendência persiste inclusive na recente conjuntura de Salienta-se que no centro desse debate deve estar o
más colheitas e de crise da demanda mundial por milho reconhecimento das contribuições das mulheres na
e soja. Na Colômbia a situação é ainda pior. As políti- agricultura, e isto deve ir muito além de propostas –
cas comerciais do AOA levaram o país à importação de necessárias, mas não suficientes – como o desenho de
alimentos [12] e a uma consequente queda na agricul- políticas públicas com enfoque de gênero ou a conta-
tura local, especialmente na produção de cereais como bilização do trabalho reprodutivo no PIB, posto que o
trigo, aveia, arroz e cevada, que são essenciais para a âmago da questão é o menosprezo do princípio femi-
alimentação humana (SUÁREZ; 2008). Essa vulnerabi- nino e a construção de uma imagem da feminidade
lidade climática, econômica e alimentar é perceptível nociva à mulher, e consequentemente, à agrobiodiver-
nas paisagens agrárias destes países: os vastos campos sidade e a vida mesma. Na seguinte seção propõe-se
brasileiros se vestem com o verde uniforme das mono- resgatar algumas contribuições conceituais e metodo-
culturas e o colorido artificial das flores nos planaltos lógicas que poderiam orientar processos de pesquisa
andinos se cobrem com as lonas das estufas. participativa e emancipadoras nessa sintonia.

Além da perda da soberania alimentar e da resiliên-


cia climática num contexto de aquecimento global, o Abordagens metodológicas: A
desincentivo da agricultura local lesa as redes sociais e visualidade nas mudanças do modelo
os conhecimentos tradicionais a ela associada (TOLEDO agroalimentar após a Revolução Verde
& BARRERA, 2009). Outros questionamentos em relação
com a padronização dos modelos agro-alimentares “O verbo jamais salvou e não pode salvar o
têm a ver, em primeiro lugar, com a geração de dejetos mundo”
pela ruptura dos processos de reciclagem de nutrientes Henri Lefebvre
próprios da natureza, decorrente da adoção das linhas
de montagem como paradigma da produção (SHIVA, Com a adoção do pacote da Revolução Verde, o Brasil
1988), em segundo lugar, ressaltam-se os custos ener- e a Colômbia aderiram a padrões alimentares definidos
géticos de um modelo alimentar baseado no comércio no denominado primeiro mundo, adotando uma repre-
internacional, com enormes pegadas hídrica e de car- sentação dicotômica e alheia da realidade agroalimen-
bono, devido ao transporte transatlântico e ao uso de tar, na qual a agricultura camponesa e a alimentação
insumos derivados do petróleo. tradicional são sinônimo de atraso e pobreza, promo-
vendo assim a modernização tecnológica como para-
Assim, afirma-se que a homogeneização, tanto dos digma de prosperidade, amparado em discursos desen-
agroecossistemas quanto das culturas humanas, volvimentistas que foram o roteiro da intervenção dos
ameaça a vida mesma, já que ela elimina a flexibilidade organismos internacionais nos países latino-america-
do sistema, alterando a capacidade de se reorganizar nos até a década dos anos noventa (ESCOBAR, 2007).
após perturbações (TOLEDO & BARRERA, 2009). Daí a Tais medidas, longe de melhorar a vida das pessoas na
importância do resgate dos múltiplos modelos agroa- região, provocam a vulnerabilidade de seu direito à uma
limentares já existentes, que não privilegiam algumas alimentação adequada, inclusive em termos de acesso
dimensões – a econômica e a tecnológica – mas que se à alimentos, uma vez que o problema agrário na Amé-
fundamentam em todas elas: o político, o social, o cul- rica Latina não é tecnológico e sim político, de acesso à
tural, o espiritual, etc. Modelos complexos que, sobre- terra e aos meios de produção.

*11 Os dados sobre erosão fitogenética podem ser encontrados em: Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO,
1996, Op. cit.
*12 Até o ano 1989 a produção agropecuária na Colômbia abastecia 92% do mercado interno, cifra que teve uma queda chegando a 50% das
proteínas e calorias produzidas internamente após a liberalização do comercio, o resto é importado (SUÁREZ; 2008)

12 Desarrollo rural exploraciones


Lefebvre (2013, p. 335) se refere à maneira na qual este palpado, examinado por las manos, no sirve
tipo de representações dominantes – ou melhor, da sino de «analogon» del objeto percibido por
classe dominante –, repercutem nas práticas sociais sa- la vista. La Armonía, nacida por y para la escu-
lientando que a visualidade tem sido uma ferramenta cha, se transfiere al ámbito visual con la prio-
essencial na constituição do pensamento abstrato (es- ridad casi absoluta acordada a las artes de la
paço mental) que justifica e encobre esse jogo: imagen, el cine y la pintura. [LEFEBVRE, 2013,
p. 322-323].
Para un «sentido común», lo visual que re-
duce los objetos a la abstracción especular y No código da harmonia da Revolução Verde, o ideal do
espectacular se confunde con la abstracción sítio camponês, diversificado e sustentado no trabalho
científica y sus procedimientos analíticos, esto familiar, deu passo à plantação mecanizada, os mosai-
es, reductores. La reducción- extrapolación cos de coloridas culturas às fileiras perfeitas e monóto-
opera sobre la pizarra como sobre el tablero nas, a praça de mercado como lugar de troca e socia-
de dibujo, con el folio en blanco como con los lização às franquias de supermercados, as compras a
esquemas, con la escritura como con la abs- granel aos produtos enlatados e empacotados, o rosário
tracción sin contenido. Es una operación que de cheiros, sabores e texturas, à psicodelia de etiquetas
tiene efectos tanto más graves cuanto que el e publicidade disfarçando a pobreza de seu conteúdo.
espacio de los matemáticos, como toda abs- Nessa passagem foi preciso instalar no imaginário co-
tracción, constituye un potente medio de ac- letivo a superioridade da civilização ocidental, e para
ción: de dominación sobre la materia. En con- isso foi funcional exibir a precariedade nas condições
secuencia, un medio de destrucción. Mientras de vida das pessoas no sul global – a favela torta e suja,
que lo visual, tomado aparte, se contenta con os campos sedentos –, mas não como denúncia das ex-
sublimar y disolver el cuerpo y la energía na- clusões do capitalismo, pois o foco da discussão não era
tural como tales. Su combinación les confiere político, mas tecnocrático. Dessa feita propôs-se plata-
una capacidad inquietante, que compensa la formas de intervenção frente a problemas criados pelo
impotencia de la mirada pura mediante la po- próprio modelo civilizatório, por isto poderia se dizer
tencia de los operadores técnicos y de la abs- que a estética da comida que hoje regra os mercados se
tracción científica. constitui a partir de uma estética da fome [13] (CHOW,
1992; ESCOBAR, 2007).
Este artefato teria como propósito a construção de
um fosso entre a ideia (a prática teórica) e a realidade Esses cânones estão tão ancorados na sociedade que
(a prática social) para ofuscar a transformação dessa úl- as palavras são insuficientes para descrever os jogos
tima. Assim erige-se uma norma que regula as pautas de poder que se tecem a partir deles, e incluso podem
da “harmonia”, cuidadosamente guardada pelos tecno- atrapalhar sua compreensão, uma vez que, como men-
cratas e consagrada na palavra escrita que baliza o jeito cionado anteriormente, a linguagem escrita não é neu-
certo e errado de perceber, conceber e viver o mundo: tral e historicamente foi usada pelas elites para legiti-
mar a ordem estabelecida, daí o interesse crescente na
Una parte del objeto y de lo que ofrece se linguagem visual como ferramenta de análise (RIVERA
toma así por el todo: este abuso normal (nor- CUSICANQUI, 2010; LEFEBVRE, 2013). Conforme Lefeb-
malizado) se justifica en virtud de la importan- vre (2013), essa cumplicidade da palavra escrita frente
cia social de la palabra escrita Por asimilación, o status quo tem a ver com sua capacidade de solidifi-
por simulación, todo en la vida deviene des- car (fixar, congelar) abstrações impedindo a mudança,
ciframiento de un mensaje mediante los ojos, a mutabilidade tão inerente à vida. Dessa maneira a
lectura de un texto; una impresión diferente palavra consegue “dar vida aos signos e conceitos usa-
a la óptica, por ejemplo la impresión táctil o dos como moeda” (p. 190), “inventando, suscitando, tra-
muscular (ritmos), no es más que algo sim- duzindo e ocultando” normas que justificam hierarquias
bólico y transitorio hacia lo visual. Un objeto e sistemas de privilégios.

*13 Essa referência à proposta do cinema novo brasileiro [ROCHA, G. Uma Estética Da Fome. Tese Apresentada na Resenha do Cinema Lati-
no-americano, em Gênova, 1965], foi trazida pelo próprio Escobar (2007).

QUINUA 13
IPDRS
Este autor se refere a duas ilusões do pensamento mo- texto, su forma significante y su contenido
derno, que se contêm e nutrem mutuamente e que simbólico escapan al inconsciente naïve (es
levam à naturalização da realidade social (ou seja, ao preciso observar que esas ilusiones aportan a
encobrimento do fato de que o espaço é um produto los «naifs» placeres cuyo conocimiento se disi-
social). Por um lado, a ilusão da transparência, que pre- pa junto con las ilusiones. La ciencia reempla-
tende simplificar a complexidade e imprevisibilidade za los goces inocentes de la naturalidad, real
das práticas sociais, reduzindo-as a modelos perfeita- o ficticia, por placeres refinados, sofisticados,
mente legíveis, discursos do pensamento puro onde sin garantía alguna de que estos sean más de-
não cabe o caótico (ou aquilo que não se encaixe na liciosos [LEFEBVRE, 2013, p. 89].
lógica intrínseca ao modelo). A palavra escrita tem sido
a principal ferramenta nessa abstração: Assim, não por acaso, nas últimas décadas houve uma
proliferação de estudos com uma perspectiva crítica
Esta ideología, enredada en la cultura occi- frente a linguagem escrita. Resgata-se aqui, em primei-
dental, enfatiza la palabra y realza lo escrito, a ro lugar, o enfoque da sociologia da imagem propos-
despecho de la práctica social que ella oculta. to por Sílvia Rivera Cusicanqui (2010), quem analisa a
El fetichismo del hablar, o la ideología de la pa- iconografia colonial para evidenciar a maneira em que
labra, viene a reforzarse por el fetichismo y la os cronistas da Conquista criaram uma imagem não-hu-
ideología de la escritura. Para unos, de forma mana das sociedades indígenas, sobre-dimensionando
explícita o implícita, el discurso se despliega traços de exotismo e barbárie, que justificaram a in-
con toda claridad de comunicación, desaloja vasão europeia de seus territórios e que ainda perma-
todo lo que pretende ocultarse, obligándo- necem no inconsciente coletivo. Esta autora aponta que
lo a mostrarse o colmándolo de anatemas. há um vácuo entre a imagem e a palavra, que deve ser
Otros estiman que la palabra no es suficiente preenchida quando da análise da realidade:
y que son necesarias la prueba y la operación
suplementaria de la escritura, generadora de Los discursos públicos se convirtieron en for-
maldiciones y santificaciones. Más allá de sus mas de no decir. Y este universo de significa-
efectos inmediatos, el acto de escribir implica- dos y nociones no-dichas, de creencias en la
ría una disciplina capaz de aferrar el «objeto» jerarquía racial y en la desigualdad inherente
por y para el «sujeto» que escribe y habla. En de los seres humanos, van incubándose en el
ambos casos, la palabra y la escritura se toman sentido común, y estallan de vez en cuando,
para la práctica (social); se asume que lo ab- de modo catártico e irracional […]. Desde una
surdo y la oscuridad, tratados como aspectos perspectiva histórica, las imágenes me han
de una misma cosa, se disipan sin que el «ob- permitido descubrir sentidos no censurados
jeto» llegue a desvanecerse. [LEFEBVRE, 2013, por la lengua oficial [RIVERA CUSICANQUI,
p. 88]. 2010, p. 20].

Por outro lado, a ilusão realista, que implica a equipa- Desse modo, ela consegue situar seu locus de enun-
ração entre o objeto (e incluso o sujeito) e a palavra que ciação na cosmogonia aimara, com um olhar verdadei-
o denomina, esquecendo as construções culturais que ramente indígena, fugindo das armadilhas dos discur-
mediam essa relação: sos do politicamente correto, que mascaram ou incluso
apagam os conflitos não resolvidos nas sociedades e
[Nessa perspectiva] la lengua se asemeja a un continuam reproduzindo uma lógica eurocentrista, pa-
«saco de palabras» del cual la perspectiva naï- triarcal, economicista, etc.
ve cree posible extraer la que conviene a cada
cosa, a cada «objeto», de acuerdo con una co- Em segundo lugar, destaca-se o conceito de regime de
rrespondencia elemental. En el curso de toda visualidade, de Rey Chow (1982), pioneira na análise do
lectura, lo imaginario y lo simbólico, el paisaje, visual na construção das hierarquias sociais, em espe-
el horizonte que bordea el trayecto del lector, cial da visualidade como fonte de opressão contra as
se toman ilusoriamente por lo «real», en la mulheres e as minorias étnicas. Esta autora resgata, por
medida en que los caracteres verdaderos del sua vez, a metodologia da etnografia institucional

14 Desarrollo rural exploraciones


desenvolvida pela socióloga feminista Dorothy Smith, ração de máquinas pesadas; essa imagem também é in-
a qual evidencia a força das instituições na construção vocada na Colômbia, desta vez como fundamento para
das sociedades a partir das “determinações não locais a contratação majoritária de mão de obra feminina:
da ordem localmente histórica ou vivida” (ESCOBAR,
2007, p. 188), explicitando discursos e práticas que or- [O grêmio dos floricultores] argumenta que
denam a cotidianidade das pessoas. Nesse enfoque a dicha preferencia está relacionada con deter-
análise das situações locais permite entender melhor as minadas cualidades consideradas femeninas
forças institucionais e discursivas, assim como a manei- como el cuidado, la delicadeza, la destreza o
ra em que elas se relacionam com aspectos socioeconô- la paciencia, que permiten un trabajo mejor
micos e políticos mais amplos. realizado [...]

Estas propostas metodológicas buscam dilucidar a ma- Por trás da demagogia na apelação ao dito atributo –
neira em que as instituições constroem categorias para que, vale lembrar, tem sido culturalmente magnificado
nomear e analisar o mundo e suas dinâmicas; categorias – está o fato gritante da precarização do mercado labo-
que se reproduzem sob a presunção da neutralidade ral em geral, e para as mulheres em particular:
cultural e objetividade tecnocrática e científica, embora
estejam atravessadas por relações de poder que me- [….] existe una mayor dependencia por par-
diam as práticas cotidianas. No intuito de se avançar na te de las mujeres de esta fuente de trabajo: la
compreensão dos mecanismos que configuraram uma mayoría de las operarias son madres cabeza
estética dos alimentos aceitável no mercado mundial, de familia –el 69% de las mujeres contratadas
de qual a imagem de agricultura que tem sido institu- (Garzón Hernández y Pedraza, 2013)– sin cua-
cionalizada no sul global, e de quais as funções permiti- lificación y admiten altos grados de explota-
das às mulheres nesse modelo, propõe-se a abordagem ción laboral para sostener con el salario a sus
através da linguagem visual, embora ela também seja hijos e hijas porque es muy difícil encontrar
opressora: otro empleo [GONZÁLEZ, 2014, p. 17].

Os olhos têm sido usados para significar uma Destarte, nos últimos anos evidencia-se um aumento
capacidade perversa – levada até a perfeição na contratação de mão de obra masculina, principal-
na história da ciência, e ligada ao militarismo, mente nas regiões mais afetadas pela liberalização do
o capitalismo e a supremacia do masculino mercado agroalimentar, onde a força laboral está mais
patriarcal– para distanciar o sujeito que con- vulnerada:
hece de todo e de todos, em defesa do poder
inquestionável [ESCOBAR, 2007, p.266]. [… ] se destaca la progresiva masculinización
del sector, debida al aumento en el número
No item anterior mencionou-se que no Brasil o discurso de varones disponibles para la vinculación,
da modernização – base da produção mecanizada de por la subida global del desempleo en estas
soja e milho– tem levado à masculinização [14] e ho- zonas, estrechamente relacionado con la crisis
mogeneização da agricultura, nesse caso, a justificativa agropecuaria
é a delicadeza da mulher como obstáculo para a ope-

*14 Nesse modelo geral há um elemento curioso, que – embora apareça como uma exceção à regra, não é mais que sua confirmação; existe
um grupo denominado o Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), que reúne mensalmente a 23 mulheres, em palavras da jornalista que
decidiu fazer uma matéria ao respeito (ONDEI, 2012), se salienta que o encontro delas “tem hora marcada para conversar. Elas se encon-
tram no 16º andar do prédio da Sociedade Rural Brasileira (SBR), no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, mas não falam de filhos, grifes de
roupas ou sapatos, muito menos sobre shopping centers ou o rumo da novela das oito”, resulta interessante como no discurso da perio-
dista se reforça a visualidade patriarcal, desta vez no centro mesmo do poder latifundiário do Brasil, pois ela enuncia como um fato natural
que estas mulheres: “Donas de sobrenomes poderosos da pecuária, (ocupem) posições-chave no comando de fazendas em Estados como
São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Maranhão e Rondônia”, fica claro assim
que a posição subalterna das mulheres nas lavouras passa também por uma questão de classe, consequentemente, se ressalta a linagem
hegemônica das implicadas: “preferem dedicar o tempo à troca de informações sobre a gestão das propriedades que administram. No
grupo, a disciplina é uma virtude coletiva. Chegam sem atraso à vetusta sede da SBR, repleta de sofás forrados de couro e móveis cente-
nários, pontualmente às 14 horas e tomam lugar em uma grande mesa de mogno. (...) Para fazer parte do (NFA) (…) é preciso ter o nome
aprovado por unanimidade, além de a candidata passar por uma sabatina”.

QUINUA 15
IPDRS
[….] también como respuesta de los empre- truir uma reciprocidade entre o concebido, o percebido
sarios a los costos que representan las licen- e o vivido. Por isso, não é preciso encontrar um método
cias de maternidad, permisos de lactancia y para destruir os códigos sustentados pela ideologia da
otros temas relacionados con la salud de los Revolução Verde. Essa destruição já acontece cotidia-
niños(as) [CASTRO, 2008, p. 11]. namente nas idas e voltas da dinâmica social: nos calos
das mãos dignificando o trabalho cooperativo com o
A partir daí pode-se derivar muitas e interessantes aná- solo, na teimosia por cultivar as variedades mais sabo-
lises, a propósito da relação entre composição orgânica rosas sem se importar com sua eficiência.
do capital, divisão sexual do trabalho e agrobiodiversi-
dade. Porém, o foco agora será o da escala da prática so- O processo de modernização da agricultura na Améri-
cial mesma, mais especificamente na cotidianidade dos ca Latina não foi homogênea, nem linear, nem produto
indivíduos e grupos sociais que, propositalmente ou mecânico da evolução de fatos precedentes, ele tem
não, desafiam a ordem do modelo – as representações sido uma tentativa por manter um sistema de privilé-
do espaço –, produzindo e reproduzindo o prazer pela gios rascunhando ordens que ofusquem e dissociem os
mutabilidade e a diferença – espaços diferenciais/de re- elementos contraditórios ao status quo; nesse sentido,
presentação –. cabe ressaltar que as culturas locais sempre opõem al-
gum grau de resistência frente as mudanças impostas
Lefebvre (2013), em sua tese central sobre a natureza desde fora, seja por um enfrentamento frontal ou pela
do espaço como produto e produtor das práticas so- simples inércia dos costumes e tradições. Por isto sem-
ciais, aponta que essa relação vem sendo tecida desde pre haverá movimentos na contramão dos processos
o começo das sociedades organizadas, quando da de- homogeneizantes e opressores:
marcação das rotas dos caçadores e coletores, que re-
correram à modificação do espaço pela realocação de Por lo que concierne a la lucha de clases, su
pedras e outras balizas, “uma vez que as marcas naturais papel en la producción del espacio es funda-
(árvores, arbustos) já não foram suficientes” (p. 193). Em mental, pues clases, fracciones y grupos de
decorrência da evolução dessa prática, há no espaço clases conforman los agentes de la produc-
social uma série de códigos e codificações, “uma lingua- ción espacial. La lucha de clases puede leer-
gem comum à prática e à teoria” (p. 121), a qual registra, se en el espacio actualmente más que nunca.
como pegadas, a passagem dos grupos humanos, po- A decir verdad, sólo ella impide la extensión
dendo ser lida, decodificada, mas também, e sobretudo, planetaria del espacio abstracto disimulando
sobre-escrita. todas las diferencias. Sólo la lucha de clases
tiene capacidad diferencial, capacidad para
Assim, por meio da visualidade almeja-se a leitura e res- establecer y generar diferencias no intrínsecas
tituição dos códigos levantados no espaço produzido al crecimiento económico considerado como
pela Revolução Verde, como expressão mais acabada estrategia, «lógica» o «sistema» (es decir, dife-
do capital na agricultura, para “recobrar a unidade dos rencias inducidas o toleradas). Las formas de
elementos dissociados, rompendo as barreiras entre o esta lucha son mucho más variadas que anti-
privado e o público, e identificando as confluências e guamente. Desde luego, las acciones políticas
as diferenças que até agora são indiscerníveis” (p. 121). de las minorías forman parte de esta lucha
Nesse exercício se reconhecem “os termos dispersos [LEFEBVRE, 2013, p. 113].
pela prática espacial existente e as ideologias que a jus-
tificam” (p. 122), reunindo-os para nomear (fazer explí- A adaptação das culturas agroalimentares frente a
citas), as oposições essenciais (elementos paradigmáti- Revolução Verde tem sido possível pela resistência e
cos) que têm permanecido ocultas, e para distinguir os resiliência das comunidades rurais tradicionais (cam-
vínculos “(...) recuperados dos termos confundidos pela ponesas, indígenas e quilombolas), cuja “capacidade
homogeneização do espaço politicamente controlado” diferencial” (“a capacidade para estabelecer e gerar di-
(idem). ferenças não intrínsecas à lógica do crescimento econô-
No entanto, o autor salienta que essa recuperação dos mico”) põe freios à assepsia total. Por isso, na leitura e
códigos não deve confundir-se com a prática emanci- decodificação do espaço agrário da Revolução Verde
patória em si, da qual não pode separar-se para cons- deve considerar-se que o espaço social não é uma

16 Desarrollo rural exploraciones


página em branco, na qual possa se escrever uma men- QUI, 2010; ESCOBAR, 2007; CHOW, 1982), mas também
sagem unívoca, nele há uma sedimentação de contra- porque isto incentiva a participação em grupos hete-
dições, “tudo aí é rascunho e confusão. Mais que signos rogêneos (pelas formas e habilidades para entender e
o que há são consignas, prescrições múltiplas e inter- descrever o mundo, as faixas etárias, o nível de esco-
ferentes. Se existe texto, traço, escrita, é num contexto laridade, etc.), já que a observação de imagens gera
de convenções, de intenções, de ordens, no sentido da sensações que alimentam o raciocínio, a concepção
desordem e da ordem social” (LEFEBVRE, 2013, p. 193). das coisas, mas que também se conectam, de maneira
mediada e imediata, com emoções (a percepção) e lem-
As práticas emancipatórias não precisam ser descritas, branças (a vivência).
muito menos decifradas, para que aconteçam. Porém,
considera-se pertinente traçar-se um croqui das re- Esquema 1: Elementos para a decodificação participa-
lações que elas tecem com as correntes uniformizantes, tiva do espaço
não só porque a partir daí se configura a organização
do espaço agrário no capitalismo contemporâneo, mas
também porque é importante visibilizá-las. Há três ele-
mentos interdependentes que possibilitam este diá-
logo entre a prática espacial e sua decodificação: em
primeiro lugar, o reconhecimento dos elementos que
interagem no espaço agrário; em segundo lugar, qual a
organização desses elementos, como se dispõem para
formar unidades maiores; finalmente, a estética asso-
ciada, “as prescrições estilísticas, concernindo às pro-
porções, às “ordens”, aos efeitos a produzir” (LEFEBVRE, No caso do debate aqui proposto, o alvo é analisar
2013, p. 308). a maneira em que as visualidades têm contribuído
na construção de discursos que possibilitaram a
Uma proposta de pesquisa transformadora junto a co- adoção do modelo produtivo da Revolução Verde
munidades rurais tradicionais, exige que o facilitador ou na Colômbia e no Brasil, como isto tem repercuti-
facilitadora oriente a discussão sem direcioná-la, equilí- do na organização do espaço agrário e, em espe-
brio delicado ao qual se quer contribuir pela apresen- cial, qual a imagem das mulheres na divisão social
tação de alguns componentes desejáveis (porém não do trabalho a ele associada. Para facilitar a leitura
exaustivos, é claro) nessa prática. Apelando à tolerância desse espaço, propõe-se:
ao dissonante, se apresenta o esquema 1, que é uma
ferramenta um tanto irônica, senão contraditória, mas  Elementos decodificadores (lentes):
que consegue resumir estes componentes: o círculo
maior (1) representa o objetivo da pesquisa (quais práti- - A) Elementos presentes: Famílias camponesas e suas
cas e que espaço determinado estão na mira?). dinâmicas internas, além de práticas de adaptação fren-
te a ordens alheias; o capital e o sistema de instituições
A leitura desse alvo se dá à luz dos três elementos des- que preservam o status quo concretizado na Revolução
tacados por Lefebvre (2013) – círculos A, B e C–, que Verde;
nesse sentido são como lentes oftálmicas; a calibração - B) Organização desses elementos: As unidades de pro-
das lentes depende da abordagem metodológica e dos dução familiar, as aldeias camponesas e suas relações
materiais escolhidos – retângulo de traço descontínuo espaciais com o agronegócio – plantações de soja, mi-
(2)–, mas o sentido e relevância dos trechos a serem li- lho e flores–;
dos só se deriva das perguntas formuladas na área cin- - C) Estética que regra a organização: As representações
za, porque elas podem ou não estimular o diálogo num dicotômicas do mundo rural e o discurso visual a elas
exercício decodificador participativo. associado, promovido pelos programas de governo,
pelas instituições de extensão agrícola, campanhas pu-
É sensato que nessa leitura dos códigos espaciais se pri- blicitárias, etc., e ressignificados pelas famílias campo-
vilegie a linguagem visual sobre a escrita, não só pelas nesas.
razões já expostas (LEFEBVRE, 2013; RIVERA CUSICAN-

QUINUA 17
IPDRS
Materiais e métodos (calibrador): borais das pessoas ali empregadas? Perguntas em tor-
no à especialização em cultivos tropicais – muitos deles
- Identificação e crítica destas práticas discursivas por não alimentares– e quais as implicações na Soberania
meio da visualidade (fotografias publicitárias e ilustra- Alimentar, de que maneira tem se afetado a economia
tivas, disposições e regulamentações sanitárias e fitos- camponesa com a liberalização do mercado, como isto
sanitárias, prescrições técnicas de extensionistas, etc.). repercute no bojo dos sítios familiares (divisão do tra-
- Elaboração de linhas de tempo, fluxos dos agentes balho, participação da agricultura na renda, diversifi-
e instituições envolvidas, diagramas, matrizes, etc., que cação dos cultivos, etc.).
permitam visualizar as mudanças reconhecidas nos
sistemas de produção, as variedades de sementes que No intuito de visibilizar as resistências e estratégias
deixaram de ser cultivadas, as práticas e tecnologias tra- adaptativas das famílias camponesas frente a espacia-
dicionais esquecidas e as que permaneceram, os câm- lização do capital em seus territórios, e mais, para ser
bios nos padrões alimentares e na divisão do trabalho partícipe no processo, convida-se à decodificação do
ao interior da família, etc. espaço e das práticas que o produzem, “o ponto de
partida é a realidade atual: o salto adiante das forças
Para a exploração sobre os imaginários agroalimentares produtivas, a capacidade técnica e científica de trans-
reproduzidos na América Latina, tal como o modo em formar radicalmente o espaço natural, chegando a ser
que os cultivos são concebidos, percebidos, produzidos uma ameaça para a própria natureza” (LEFEBVRE, 2013,
e consumidos na região, é necessária atenta às expe- p. 122). Por isso propôs-se começar pelo modelo agroa-
riências cotidianas das pessoas. O propósito das per- limentar da Revolução Verde, seu afã homogeneizante
guntas problematizadoras deve ser nortear o diálogo e produtivista, as consequências socioambientais da
entre as partes envolvidas, cuidando o sentindo sem li- simplificação dos agroecossistemas e o uso de adubos
mitá-lo. Nos dois casos propostos, algumas das pergun- e defensivos sintéticos.
tas desencadeadoras poderiam ser:
Uma vez que o objetivo vai além da descrição dessas
Para a comoditização de grãos no Brasil: dinâmicas, defende-se que este tipo de exercícios gera
uma retroalimentação positiva, entendendo que “a pro-
Por que se promovem as culturas de soja e milho em dução do espaço, elevada ao conceito e a linguagem,
detrimento do arroz e o feijão, embora as últimas sejam reage no passado, revela aspectos e momentos até
a base da dieta brasileira? Por que se considera que o então desconhecidos. O passado se ilumina de um jei-
óleo vegetal é mais sadio que a tradicional banha de to diferente e, consequentemente, o processo que vai
porco, a pesar de ser produzido com variedades trans- desse passado ao presente se expõe de outro modo”
gênicas? Por que as mulheres jovens são o grupo etário (LEFEBVRE, 2013, p. 122-123). A partir daí, promove-se
mais atingindo pelo êxodo rural sob este modelo? o resgate das memórias locais, das agriculturas tradicio-
Trata-se, em geral, de perguntas que tendem a visibi- nais e as culinárias ancestrais, as diversas formas, cores,
lizar como os discursos desenvolvimentistas se mate- sabores e odores que enriqueceram as mesas das avós
rializam na mesa, qual o papel dos padrões estéticos e que constituem a identidade e o patrimônio cultural
associados, e como eles mediam a relação das pessoas das gerações presentes, que merecem reapropriar-se
com a agricultura e a comida, quais os preconceitos que delas em função da importância política, ambiental e
continuam sendo reproduzidos com relação à alimen- social da alimentação.
tação boa e sadia, e quais alimentos são estigmatizados,
seja por questões econômicas, tecnológicas ou de pro- Num sentido, estas reflexões são um mapa de pesqui-
cedência. sa, sendo os parágrafos precedentes os preparativos
da jornada: já se escolheram os trechos e se calibraram
Para as plantações de flores na Colômbia: as lentes, porém, para que a leitura aconteça – não da
palavra sólida, fixa, mumificada, senão do movimento
Por que as importações de produtos tradicionalmente vivo – deve haver abertura, o reconhecimento de que
cultivados no país continuam aumentando? Quando há elementos incapturáveis. A análise crítica deve sa-
começaram a localizar-se as estufas da floricultura? ber-se aproximativa, “certa e incerta ao mesmo tempo,
Quem trabalha nelas, por que? Quais as condições la- anunciando sua própria relatividade em cada passo,

18 Desarrollo rural exploraciones


tendendo (ou tentando tender) à autocrítica sem dis- iluminam alguns aspectos da realidade sócio-ambiental
solver-se na apologia do não-saber, da espontaneidade e encobrem outros, deformando ambos os elementos
absoluta ou da violência pura” (LEFEBVRE, 2013, p. 122). no intuito de blindar o atual sistema de privilégios de
Estende-se o convite aos múltiplos e diversos grupos, classe, gênero e raça (CHOW, 1992). A estética como
plataformas e agremiações que trabalham pela de- artefato histórico para o domínio da natureza, tanto
fesa da Soberania Alimentar e a vida digna no campo da paisagem externa quantos dos instintos básicos do
latino-americano para que se apropriem, modifiquem ser humano, produz e reproduz uma imagem do belo,
e aprimorem tudo o que puderem resgatar nas pistas do feio e do harmonioso, e intervém, portanto, na vida
metodológicas aqui consignadas. social e política pela mediação entre as coisas e o ob-
servador. No caso específico da agricultura ela constitui,
como toda obra social, uma unidade forma-conteúdo.
O essencial é invisível aos olhos Sob essa perspectiva salienta-se que os ideais estéticos
sobre a agricultura e a alimentação sempre denotam a
Na crise permanente do capitalismo a incorporação de ideologia de uma classe determinada (LEFEBVRE, 1971).
novos espaços nos circuitos de acumulação tem sido
uma solução privilegiada. A atual arremetida contra o Tanto as fileiras infinitas de variedades transgênicas e
espaço rural se dá no meio do delírio pelo estouro de pouquíssimas espécies nas planícies brasileiras, onde
bolhas especulativas e as perspectivas do peak oil (o a mão de obra – especialmente a feminina – escasseia,
esgotamento do petróleo de fácil extração). Nesse pa- quanto as lonas das estufas que cobrem a diversidade
norama, Shiva (2008) se refere à convergência de três artificial da produção de flores, explorando o trabalho
crises globais e inter-relacionadas: climática, energética das mulheres e arrasando a diversidade natural dos an-
e alimentar, que demandam da criatividade humana des colombianos, são a concreção do ideal capitalista
para reescrever os horizontes político, econômico e cul- de produção agropecuária possibilitado pelas tecnolo-
tural da sociedade. Aliás, pode-se dizer que o âmago da gias da Revolução Verde. O patriarcado se desenha pelo
prática social é a reestruturação frente a adversidades – ideal da linha reta – uma pouco sútil alegoria ao fálico–,
natural ou antrópica–, e uma prova disso é a agricultura que rompe com os ciclos naturais, ao invés de incorpo-
como um exercício milenário de domesticação e adap- rá-los de maneira dinâmica: quando a linha se flexibili-
tação às condições edafoclimáticas, do qual se deriva za pode-se transformar num círculo, a celebração dos
a habilidade das comunidades rurais tradicionais para princípios feminino e masculino como síntese da vida
tecer estratégias adaptativas quando da intromissão de mesma, que contém o milagre da regeneração e reno-
forças alheias – como o capital – nos seus territórios. vação frente às perturbações.

A dinâmica co-evolutiva da agricultura, centrada na Desse modo, a masculinização e homogeneização da


diversificação de atributos para fortalecer o agroecos- agricultura ameaçam à Terra e quem a habitam, de um
sistema, foi transformando as paisagens ao longo dos lado, pelo desconhecimento da fertilidade inerente
séculos (TOLEDO & BARRERA, 2009). Contudo, a maior ao solo, e do outro, da resiliência e resistência que res-
herança neste processo não pode ser enxergada, enfia- guardam as sementes crioulas e nativas; o capital tem
da como está no escuro colo da terra. A ação de bacté- enxergado essa ameaça, mas não num exercício de au-
rias, nematoides, fungos e demais organismos micros- tocrítica, senão vislumbrando novas oportunidades de
cópicos, sustenta a fertilidade do solo, sendo então a negócio, há, portanto, uma apropriação capitalista dos
base da trofobiose ou a complexa rede da troca ener- discursos contra hegemônicos (ESCOBAR, 2007). Nesse
gética que contem a vida. Porém, no modelo produtivo cenário é importante distinguir entre o corporativismo
da Revolução Verde se desconsidera por completo este “verde” e o reconhecimento real do papel das comuni-
princípio, não surpreende que tenha sido uma mulher, dades rurais tradicionais para o bem-estar planetário
Ana Primavesi, quem alertara sobre a essencialidade em tempos de risco climático.
dessa microfauna, pois o papel histórico das precurso-
ras e guardiãs da agrobiodiversidade também tem sido Os processos de pesquisa participativa e emancipadora
sistematicamente invisibilizado. não precisam “(...) destruir códigos por uma teoria crí-
tica, mas explicar sua destruição, constatar os efeitos e
As visualidades criam assim um jogo de claro-escuros, (talvez) construir um novo código através do

QUINUA 19
IPDRS
sobrecódigo teórico”, lembrando que é a prática (OMAL). Bilbao: Marra Servicios Publicitarios, 2014.
social a que muda o mundo (LEFEBVRE, 2013, p. 85);
LEFEBVRE, H. La producción del espacio.
mais que traçar novos horizontes agroalimentares
Madri: Capitán Swing Libros, 2013.
deve-se resgatar as múltiplas propostas já existentes,
fundamentadas numa visão ética e estética que _______. Contribuición a la estética.
promove a diversidade e restabelece a relação Buenos Aires: La Pléyade, 1971.
entre a subjetividade, a sociedade e o ecossistema,
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por cultivar as variedades mais saborosas sem se
RIVERA CUSICANQUI, S. Ch’ixinakax utxiwa:
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Una reflexión sobre prácticas y discursos
colorida rede da vida continua fortalecendo seus fios.
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