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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Introdução ..................................................................................................................................... 3
Fontes do Direito das Obrigações ............................................................................................... 3
Sistematização Legal em 2 títulos ............................................................................................... 5
Direito Comparado das Obrigações ............................................................................................ 5
Princípios Gerais dos Direitos Obrigações................................................................................... 6
Conceito de Obrigação ................................................................................................................. 10
Distingue-se de outras situações ............................................................................................. 10
O Direito de Crédito................................................................................................................. 10
Características e Elementos das Obrigações ........................................................................... 11
Requisitos sobre o devido na prestação .................................................................................. 13
Modalidades ............................................................................................................................ 14
Fontes das Obrigações ............................................................................................................. 18
CONTRATOS ................................................................................................................................. 20
Noção, fontes normativas e fundamentos da sua eficácia ...................................................... 20
Modalidades dos Contratos: .................................................................................................... 21
Culpa na formação dos contratos (culpa in contrahendo) ...................................................... 23
Contratos de Adesão ............................................................................................................... 25
Contratos Preliminares ............................................................................................................ 28
CONTRATO-PROMESSA ........................................................................................................ 28
PACTO DE PREFERÊNCIA....................................................................................................... 32
Pacto de Opção .................................................................................................................... 34
Contratos a Favor de Terceiro ................................................................................................. 34
1. Contratos a Favor de Terceiro stricto sensu ..................................................................... 34
2. Contrato em Favor de Pessoa a Nomear .......................................................................... 36
3. Contrato com Eficácia de Proteção de Terceiros .............................................................. 36
RESPONSABILIDADE CIVIL............................................................................................................. 37
1. Facto Voluntário .................................................................................................................. 38
2. Ilicitude do facto .................................................................................................................. 39
3. Culpa .................................................................................................................................... 40
4. Dano .................................................................................................................................... 42
5. Nexo de Causalidade ........................................................................................................... 43
Responsabilidade Civil Objetiva/pelo Risco............................................................................... 44
Responsabilidade do Comitente – art. 500º ........................................................................ 44
Responsabilidade do Estado e outras pessoas coletivas públicas – art. 501º...................... 45
Responsabilidade por Danos causados por Animais – art. 502º .......................................... 45
Responsabilidade por Acidentes causados por Veículos – art. 503º ................................... 45

Regência: DÁRIO MOURA VICENTE


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Responsabilidade por danos na condução de instalação de energia ou gás– art. 509º ...... 47
Responsabilidade do Produtor ............................................................................................ 47
Responsabilidade pelo Sacrifício/Factos Lícitos ........................................................................ 48
Obrigação de Indemnizar ......................................................................................................... 48
Concurso de Matéria Contratual e Extracontratual .................................................................. 50

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Introdução
Direito das Obrigações assumiu-se como um eco jurídico do sistema de ordenação, produção e distribuição
dos bens na sociedade económica de mercado

Obrigações – ramo1 do direito civil2 de acordo com a divisão germânica.


➢ Prende-se com os atos jurídicos voluntários, constituição de empresas, compensação
dos danos, gestão de negócios e etc.
o Muito relacionado com o tráfego de bens numa economia de mercado
➢ Há sistemas jurídicos sem “Obrigações” – EUA e Reino Unido – não agregam numa
disciplina só uma “teoria geral das obrigações” (isso só acontece na família romano-
germânica)
➢ Conceito unificador é a OBRIGAÇÃO3 – art. 397º – vínculo jurídico por virtude do qual
uma pessoa fica adstrita para com a outra à realização de uma prestação
o Permitiu que se desenvolvesse jusculturalmente um conjunto de situações com
a mesma estrutura que são disciplinadas pelas mesmas regras – racionalização
do Direito
o Estrutura típica em que alguém está adstrito a algo no interesse de outrem
▪ ≠ Direitos Reais: aí alguém tem domínio de um bem; é estruturalmente
diferente
▪ ≠ Direito da Família e Sucessões: aí agrupam-se situações em função de
um critério institucional e não estrutural
▪ Geram-se sobreposições e normalmente prevalece o critério
institucional
➢ Doutrina alemã desenvolveu o conceito e tornou-o mais amplo: a relação obrigacional
é complexa e não tem só obrigações stricto sensu – em que alguém tem o direito de
crédito e outro o dever de prestar algo; há uma série de deveres jurídicos acessórios
que têm de acompanhar e integrar a relação (ex: boa fé)

Fontes do Direito das Obrigações


1. Fontes Internas – mais importantes em número e relevância
• Código Civil – fonte legal – livro segundo do art. 397º a 1250º; em que parte do regime
está no livro primeiro (artigos do negócio jurídico) que o completa
• + Legislação avulsa – fonte legal – no final do CC
o Revela-se uma tendência para codificação e uma tendência para a
descodificação – devido às diretrizes europeias que faz surgir documentos
extravagantes que complementam o direito codificado
▪ Dário: descodificação não é positiva pois retira a unidade – o legislador
tem que ter o cuidado de incorporar no CC as matérias reguladas fora

1
Lima Pinheiro: Ramo do Direito é um subsistema normativo formado por normas, princípios e nexos
intrassistemáticos sendo delimitado e ordenado.
2
Direito Civil = direito privado comum; regula as relações entre as pessoas ou das pessoas com outras
entidades, mas estas sem poder de autoridade
3
Conceito milenar com origem no Direito Romano, surgindo nas Institutiones de Justiniano como: vínculo
jurídico pela força do qual estamos obrigados a pagar algo a outrem de acordo com as leis da cidade
• Romanos eram mais restritos; CC é mais amplo e rigoroso

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dele 4(Alemanha em 2002, França em 2016) – codificação é um valor


em si mesmo e deve ser preservado, pois facilita o acesso ao Direito e
assegura coerência nos regimes jurídicos
• Jurisprudência – sendo que a nossa jurisprudência é problemática por ser díspar
o AUJ (Acordão de Uniformização de Jurisprudência): STJ pretende definir uma
jurisprudência uniforme
o Jurisprudência constante que se consolida e se torna fonte

• Princípios Jurídicos – não estão nas normas, mas inferem-se delas e tornam-se muito
importantes no entendimento das normas legais e no preenchimento de lacunas5. Para
resolver um caso não se subsume uma norma apenas.

2. Fontes Internacionais
• Convenções internacionais – que o Estado Português ratifica – ex: contratos,
responsabilidade civil, convenção de Montreal (1999) sobre transportes, compra e
venda de mercadorias (ONU, 1980)

3. Fontes Europeias
• Diretivas – ato jurídico da UE que não é diretamente aplicável e tem de ser adaptado e
integrado na ordem jurídica interna portuguesa por Lei ou Decreto-Lei; fazem surgir as
leis avulsas
o Tribunal aplica a fonte mais próxima (interna) mas a diretiva tem papel
importante na interpretação da transposição

o Não há visão de conjunto europeia e muitas vezes há contradições


▪ Ideia de CC, ou de código de contratos, europeu teve aval do
parlamento europeu, fizeram-se trabalhos preparatórios (entre 1985 e
2003), em 2005 surgiu um projeto análogo para a responsabilidade civil
e em 2008 surgiu o “quadro comum de referência” – mas o projeto
fracassou
➢ Dário: parece inviável um CC europeu pois há países (de
common law) sem o conceito de obrigação; subsistem grandes
diferenças entre os países; não seria muito útil pois até agora
não foi

Há europeização das fontes, manifestada pela transposição de diretivas, mas


fundamentalmente as fontes continuam a ser de fonte interna.

4
Nosso código do consumo não está codificado sendo um exemplo negativo desta descodificação
5
Art. 9º + 10º (em que o espírito do sistema são os princípios); princípios como a boa fé, autonomia
privada e etc.

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Sistematização Legal em 2 títulos


1. Obrigações em Geral (8 capítulos)
• Legislador decidiu fazer biografia normativa da obrigação: do nascimento, até que se
extingue e com as vicissitudes pelo meio – matérias fundamentais das obrigações em
geral
o Obedece à lógica da TGDC em que 1º estão as normas comuns à matéria das
obrigações em geral e depois tudo o que é específico/especial
▪ Parte-se do geral para o particular sendo que ao ver um caso tem que
se fazer ao contrário e vir da norma especial até à geral
▪ Assegura-se uma maior uniformidade
2. Contratos em Especial (Direito dos Contratos)

Direito Comparado das Obrigações


Não há regime europeu uniforme para as obrigações apesar das tentativas.
➢ O Direito das Obrigações contende com realidades mais vastas a nível económico,
político e etc. que se altera de país para país.

As perspetivas são muito diferentes acerca de como as partes devem agir.


Distinguem-se 2 grandes conceções:
• Família Romano-Germânica – generalidade da Europa continental; fonte principal é a
lei
o Visão de solidariedade e justiça nas relações interpessoais
• Famílias de Common Law – realidade anglo-americana; fonte principal é o precedente
em tribunal
o Visão utilitarista e liberal da liberdade e da não existência de limitações

A comparação jurídica vai evidenciar uma enorme diferença em figuras-chave do Direito dos
Obrigações.

1. Contrato
Romano-Germânica:
a) É necessário acordo de vontades, troca de consentimentos (mútuo consentimento)
tendo um objeto (à luz do art. 280º) – é todo o negócio bilateral: muito vasto e com
matérias de várias naturezas
b) Não gera apenas obrigações, há também deveres jurídicos acessórios de conduta – o
conteúdo obrigacional é mais vasto
c) Exige-se uma certa equivalência das prestações para que o contrato vincule – nível de
justiça comutativa, ex: proibição do negócio usurário, alteração de circunstâncias
Common Law:
a) Realidade com alcance mais restrito e de visão utilitarista – não basta só o acordo de
vontades, tem que haver a consideração (contrapartida negociada da prestação a que
uma pessoa se vincula): não há contratos gratuitos
b) Não aceitam a boa fé como princípio geral das Obrigações pelo que não há deveres
acessórios; sujeição apenas à obrigação e ao estipulado
c) Os contratos são “sacro-santos” e nada pode fazer rever os contratos originais
(influência do liberalismo)

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2. Responsabilidade Civil
França: muito ampla – qualquer dano causado por falta deve ser indemnizado (1804). Uma
aplicação sem limitações seria catastrófica, ex: concorrência, desvio de clientela causa falta, mas
não pode gerar responsabilidade civil
Common Law: princípio da tipicidade – só os “torts” ilícitos é que dão origem a responsabilidade
civil; estão elencados nos precedentes dos tribunais. Hipóteses restritas da jurisprudência.
Alemanha: não tem uma cláusula geral mas também não tem tipicidade – há 3 cláusulas com os
bens jurídicos indemnizáveis ao serem afetados por atos danosos.
Portugal: art. 483º - cláusula geral mas que indica os caracteres da ilicitude para que seja
indemnizável.
“direito de outrem” – direitos absolutos de tutela erga omnes
“normas de proteção de interesses” – normas de concorrência desleal
+ casos de exercício abusivo do direito (art. 334º)

3. Responsabilidade Pré-Contratual
Portugal: art. 227º
Common Law: não aceitam a boa fé; a Câmara dos Lordes julgou o caso Walford vs. Miles em
que diz que não responsabilidade pré-contratual

Princípios Gerais dos Direitos Obrigações


Princípios – proposições jurídicas com elevado grau de indeterminação que, exprimindo diretamente um
fim ou valor da ordem jurídica, constitui diretriz de solução

1. Autonomia Privada
Instituto Jurídico6 que é uma faculdade dos particulares, dentro dos limites da lei e limitado
pelos outros princípios.
• Espaço de liberdade reconhecido a cada pessoa para agir como entende –
"Permissão genérica de atuação jurígena". Possibilidade de alguém estabelecer os
efeitos jurídicos que se irão repercutir na sua esfera jurídica.
o Permite encontros de vontade
o Manifestações ao nível da decisão – “fazemos a nossa própria lei”
• Num sentido estrito, a autonomia privada é a área na qual as pessoas podem
desenvolver as atividades jurídicas que entenderem. Na ocorrência de factos
voluntários – originários da vontade7. É limitada pela lei, ordem pública, moral e bons
costumes.
o Liberdade de Celebração: permite fazer determinados atos – liberdade de
dizer sim ou não a atos jurídicos.
o Liberdade de Estipulação: permite estabelecer os efeitos desse acordo – que
cláusulas é que fazem o contrato ser realizado com o conteúdo que
queremos.

6
Instrumento técnico-jurídico que sintetiza um conjunto de normas de caráter juscultural e
compreensivo, fornecendo quadros gerais para orientação geral
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Contemplação do princípio constitucional do art. 26º/1 do livre desenvolvimento da personalidade (que
projeta a dignidade da pessoa humana)

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o Decide-se dentro do Direito o que se pode ou não fazer e o regime jurídico


que passa a vigorar – sem tipicidade em que se pode acrescentar cláusulas
o Art.º 405 – Autonomia privada subjacente a este artigo de liberdade
contratual.
• Tem como limite a autonomia privada das outras pessoas – é restringida também pela
proteção da parte mais fraca
Com a liberdade vem a responsabilidade (a estipulação estabelece um regime que temos de
cumprir) – só se pode imputar responsabilidade a quem é verdadeiramente livre.

2. Equivalência das Prestações e Proporcionalidade


CC assenta na ideia que numa relação contratual deverá haver equilíbrio nas prestações das
partes – tem-se também em conta a alteração de circunstâncias que pode por em perigo esse
equilíbrio das partes.
Há exigência de proporcionalidade nas sanções contratuais que uma parte pode exigir à outra
– a cláusula penal em que o art. 812º atende à equidade; nas CCG é o art. 19º

3. Proteção da parte mais fraca na relação jurídica


Ideia de justiça distributiva.
Ordem jurídica dá maior tutela à parte que seja mais fraca – ex: situações de arrendamento,
mediação financeira, trabalho e etc.
Limita a autonomia privada num “favor debitoris” em que se favorece o devedor – ex: devedor
pode pagar a prestação no seu domicílio (sem custos deslocação); art. 684º em que o credor não
pode tomar como sua a coisa hipotecada (proíbe pacto comissório)

4. Boa fé
No vínculo obrigacional há regras de comportamento que, adequadamente respeitada,
proporcionarão a satisfação do direito de crédito mediante prestação do devedor, sem que
resultem danos para as partes.
Abrange toda a vida da obrigação e postula uma conduta leal, honesta e atenta à outra parte
– donde decorrem deveres acessórios de conduta.
Conceito indeterminado mas que sustenta as decisões e as normas – cerne de vários regimes
jurídicos em que a resolução das questões é com um sentido de ética e de regras de atuação.
• Objetiva: Apela a uma regra exterior e que as pessoas devem observar – modos de
atuação (conforme os valores dominantes da ordem jurídica). Quando diz como se tem
que comportar. Tem várias projeções (responsabilidade pré-contratual, art. 227º; integração
de negócios, art. 239º; abuso do direito, art. 334º; alteração de circunstâncias, art. 437º;
complexidade das obrigações, art. 762º/2)

Tutela da Confiança: confiança das pessoas nas relações que se estabelecem


interpessoalmente. Não equivale a crença! Devem ser definidos os pressupostos para
se tutelar o princípio da confiança
➢ Tem que ser criada a relação – a outra pessoa tem que agir em boa fé subjetiva
no sentido ético.
➢ Tem de ser justificada – elementos objetivos capazes de provocarem uma
crença plausível: elementos razoáveis, suscetíveis de provocar a adesão de uma
pessoa normal através de um ato de outrem ou facto.

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➢ Investimento na confiança – desenvolvimento de uma atuação (escolha de


opções) baseada nessa confiança e agindo em conformidade.
➢ Imputação da confiança – existência de um autor em quem confiar. Não pode
haver frustração da confiança

Primazia da Materialidade Subjacente: as atuações jurídicas são atinentes à substância


e não à aparência. Tutela-se o valor da essência – o que verdadeiramente está por trás.
São avaliados materialmente de acordo com as efetivas consequências que acarretam.
Ex: A pede a B que se faça passar por ele para comprar uma casa, na aparência B é que
comprou mas na realidade foi A
• Subjetiva: estado do sujeito – como se devia comportar. Direito valoriza o estado de
conhecimento, ignorância ou consciência de determinados factos.
o Sentido Psicológico: está de boa-fé quem pura e simplesmente desconhecesse
ou estivesse convencido de certo facto ou estado de coisas, por muito óbvio que
fosse. O que está na nossa cabeça – se sabe ou não. É irrelevante a necessidade
de saber ou não.
o Sentido Ético: está de boa-fé quem se encontra num estado de
desconhecimento não culposo, ou seja, está de má-fé quem desconhece aquilo
que deveria conhecer. Postula os deveres de cuidado e indagação – exige o
mínimo de diligência à pessoa que esta convencida (porque não investigou, o
que é exigido). O dever de saber é relevante. Ex: A queria construir casa em zona
protegida, mas não sabe que é uma zona protegida, mas também não quis saber
– agiu de má-fé.

5. Retribuição por enriquecimento sem causa


Art. 473º/1 – enriquece à custa alheia e sem causa é inadmissível e gera obrigação (de restituir
o empobrecimento)
• Pode-se sempre questionar se o enriquecimento é injustificado, dado que estamos
numa economia de mercado

6. Indemnização dos danos por atos ilícitos culposos


Encarado com cautela pois na vida em sociedade é inevitável causarmos danos a outrem e se
não houver dolo, por via da regra, não é indemnizável.
• Transferência do dano do lesado para outrem opera-se mediante constituição de
obrigação de indemnização, através da qual se deve reconstituir a situação que existiria
se não tivesse ocorrido o evento lesivo (art. 562º) - ocorre imputação de danos quando a
lei considera existir, não apenas um dano injusto para o lesado, mas também uma razão
de justiça que justifica que esse dano seja transferido para outrem (imputação do dano).
o Imputação de danos por culpa: baseia-se numa conduta ilícita e censurável do
agente (função reparatória e sancionatória);
o Imputação de danos pelo risco: conceção de uma justiça distributiva;
o Imputação de danos pelo sacrifício: lei permite que, por valor superior, se
sacrifique um bem ou um direito, havendo depois uma compensação.

Art. 483º - cláusula geral mas que indica os caracteres da ilicitude para que seja indemnizável.
• Nem todo o dano é indemnizável (não vigora o que se extrai do “memirem laedere”), só
quando a lei o manda (“causum sentit dominus”)

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7. Princípio da Responsabilidade Patrimonial


O credor, em caso de não cumprimento, pode executar o património do devedor para obter
a satisfação dos seus créditos.
• Art. 817º põe à disposição do credor a autoridade do Estado para que o devedor cumpra
o crédito sendo essa ação de cumprimento se a prestação for possível.
• Se não for possível em virtude de facto imputável ao devedor, só se pode exigir
indemnização (art. 798º, 808º e 801º) - sujeição à execução dos bens do devedor (art,
601º), só dos bens do devedor (art. 817º, exceção no 818º que remete para a fiança, art.
627º) e estando os credores em pé de igualdade (não hierarquização dos direitos de
crédito - art. 604º)

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Conceito de Obrigação
Essencialmente há um direito de uma das partes a que a outra lhe preste algo – é sempre em
relação
➢ Alguém pode exigir e alguém tem que prestar
➢ Há direito de crédito e outro tem dever de débito
➢ Direitos de crédito são direitos a uma prestação

OBRIGAÇÃO – art. 397º – vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para
com a outra à realização de uma prestação8
➢ Doutrina alemã desenvolveu o conceito e tornou-o mais amplo: a relação obrigacional
é complexa e não tem só obrigações stricto sensu – em que alguém tem o direito de
crédito e outro o dever de prestar algo; há uma série de deveres jurídicos acessórios
que têm de acompanhar e integrar a relação (ex: boa fé)

Distingue-se de outras situações


≠ Dever Jurídico: necessidade de alguém adotar certa conduta imposta pela lei.
Nas obrigações há deveres jurídicos de prestar, mas há mais deveres jurídicos na nossa ordem
jurídica – como o respeito pelos direitos absolutos.
➢ O dever de prestar é jurídico, mas específico perante uma ou mais pessoas
determinadas (ou determináveis) e não perante a generalidade das pessoas (é direito
relativo e não absoluto)

≠ Ónus: “dever” que proporciona vantagens, mas cujo cumprimento não pode ser exigido
(situação jurídica que quando o “dever” é violado não é ilícito)
➢ Situações absolutas – não estão numa relação jurídica.
➢ Para se ter uma vantagem tem que se sujeitar a uma desvantagem

➢ Ónus jurídicos – não há um dever (se houvesse, como nas obrigações, ao não ser
cumprido agir-se-ia ilicitamente e poderia haver sanções) mas ao se desincumbir de
cumprir, não há sanções, mas não há vantagens – assenta numa permissão. Ex: ónus da
prova, não é um dever provarem-se os factos, mas ao fazê-lo ganha-se o caso.
o Menezes Cordeiro: é um regime particular que se distingue dos deveres e das
obrigações e é reservado para o direito processual

≠ Estado de Sujeição: alguém pode ver a sua esfera jurídica alterada unilateralmente por outra
pessoa (sujeito ao direito potestativo de outrem – Lado passivo dos direitos potestativos).
➢ Não tem dever jurídico e não tem que fazer em prol da outra, apenas tem que se sujeitar
aos efeitos imediatos do direito potestativo alheio

O Direito de Crédito
Engloba:
➢ A prestação (conduta do devedor)
➢ O património (bens do devedor

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David Festas: Prestação é comportamento devido pelo devedor

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Debate e querela entre as teorias personalistas (crédito como direito sobre a pessoa do devedor;
crédito como direito à prestação do devedor) vs. teorias realistas (crédito como direito sobre os
bens do devedor; crédito como relação de patrimónios; crédito como direito à transmissão dos
bens do devedor; crédito como expetativa da prestação, acrescida dum direito real de garantia
sobre o património do devedor) vs. teorias mistas vs. teorias da complexidade do vínculo
obrigacional
➢ Menezes Leitão: obrigação não é direito incidente sobre os bens do devedor, é antes um
vínculo pessoal entre dois sujeitos, através do qual um deles pode exigir que o outro
adote determinado comportamento em seu benefício. Há o direito subjetivo à
prestação (pois o devedor estava vinculado ao seu cumprimento) - o Estado só intervém
pelo património do devedor para satisfazer o direito de crédito.
Distinguem-se dos:
• Direitos Reais – sobre coisas, absolutos (oponibilidade erga omnes - o direito real persegue a
coisa onde quer que ela se encontre e pode sempre ser exercido), imediatos, plenamente
hierarquizáveis, inerentes a uma coisa, dotados de sequela e hierarquizáveis entre si, na medida
que a constituição de um direito implica a perda de legitimidade para posteriormente constituir
outro.

Características e Elementos das Obrigações9


Obrigações caracterizam-se pela:
1. Patrimonialidade - suscetibilidade da obrigação ser avaliável em dinheiro, tendo
conteúdo económico.
• Art. 398º/2 afasta a necessidade de ter caráter pecuniário – devendo apenas
corresponder a um interesse do credor, digno de proteção legal (quando se
referem a situações jurídicas - e não quando dizem respeito a outras ordens
normativas - religião, moral, cortesia - a juridicidade é excluída).
• Existe uma patrimonialidade tendencial - geralmente têm natureza patrimonial e
por isso a obrigação corresponde a um passivo no património do devedor e o
crédito corresponde a um ativo no património do credor.
2. Mediação ou colaboração devida - exige-se a colaboração do credor para que o
devedor consiga realizar o seu crédito
3. Relatividade
• A) prisma estrutural: caráter estruturalmente relativo e não absoluto, pois há o
direito de exigir uma prestação a outrem - e só entre esses na relação jurídica;
• B) prisma de eficácia:
i. Cunha Gonçalves defendia a não eficácia externa das obrigações sendo
que os direitos de crédito só podiam ser violados pelo devedor, não tendo
terceiros responsabilidade pela sua frustração.
ii. Menezes Cordeiro e Galvão Telles entendem o dever geral de respeito
que todos têm de não lesar direitos alheios que abrangeria os direitos de
crédito e tinha tutela delitual (art. 483º),
iii. Menezes Leitão, Manuel de Andrade e Antunes Varela entendem posição
intermédia em que não existe um dever geral de respeito dos direitos de

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A autonomia deste tamo de direito não é uma característica pois é natural que surjam situações estruturalmente
obrigacionais noutros ramos do Direito, mas que não perdem a sua natureza de obrigações por lá estarem inseridas

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crédito mas admite alguma oponibilidade excecional dos créditos perante


terceiros, através do princípio do abuso de direito (art. 334º), quando têm
uma atuação lesiva do direito de crédito num exercício inadmissível de
liberdade de ação e autonomia privada. Só o devedor deve ser
responsabilizado mas isso não significa que em certos casos a obrigação
possa ter eficácia externa e um terceiro ser responsabilizado.
Os elementos da Obrigação são:
1. Sujeitos – pessoas entre as quais se constitui a obrigação;
• Credor (quem beneficia) + Devedor (quem presta) -> que o podem ser
mutuamente
• Pessoas singulares ou plurais (dependente se tem 1 ou mais pessoas)
• Cumprimento da obrigação só se estabelece entre pessoas determinadas ou
determináveis – devido à relatividade das obrigações e não ao direito absoluto
erga omnes
• Eficácia das Obrigações – regra geral temos uma eficácia interna (característica
da relatividade) em que o direito de A é perante B e em princípio A não pode pedir
indemnização a C por este ter aliciado a B incumprir (os terceiros não podem ser
chamados por uma lesão de um direito de crédito, devido à concorrência da economia
de mercado)
o Pode haver eficácia externa quando se ultrapassam limites da liberdade
contratual (sendo um deles o abuso de direito do art. 334º) – se C queria lesar
A, então podemos estar perante exercício abusivo da liberdade de C contratar
B, pelo que é ilícito e o art. 483º pode atribuir responsabilidade civil extra-
contratual
o Pela via indireta há formas de responsabilizar
o Pode também ser tutelado pela concorrência desleal no código da propriedade
industrial

2. Objeto
• Imediato – conteúdo da obrigação (direitos e deveres; crédito e débito)
o Não se cinge apenas aos deveres de prestação e engloba os outros
deveres da relação obrigacional mais complexa
➢ Dever de efetuar a prestação principal (elemento determinante
que lhes atribui individualidade própria) + deveres secundário
(com o fim de complementar a prestação principal, sujeitos a
ação de cumprimento. Ex: entrega de documentos relativos à
coisa, art. 882º/2) + deveres acessórios (através da boa fé,
permite que a execução corresponda à plena satisfação de
interesses)10
➢ Também pode acarretar sujeições, poderes ou faculdades (art.
777º/1, 813º, 539º, 543º) e exceções (art. 303º, 428º, 754º)

10
A violação da prestação principal leva à resolução do contrato e a violação da prestação acessória pode
levar a responsabilidade pelos danos causados (mas uma violação sistemática pode levar a perda de
confiança pelo que se pode resolver o contrato). Incumprimento – art. 1817º - pede-se ao tribunal que
obrigue a cumprir: título executivo que pode ser específico ou geral (por exemplo para o contrato-
promessa)

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o Art. 772º exige que na execução as partes ajam de acordo com a boa fé
– só assim se cumpre o contrato – boa fé diz como a prestação deve ser
efetuada.
• Mediato – a prestação em si
o Art. 398º: A prestação fixa-se pela autonomia privada

3. Facto Constitutivo – obrigações podem constituir-se de várias formas


• Pactos Voluntários: Contrato e Negócio Jurídico Unilateral
• Outros que não dependem da vontade: Gestão de Negócios; Enriquecimento
sem Causa; Responsabilidade Civil

4. Garantia – para que haja obrigação civil tem que estar dotada de garantia
• Geral: credor em caso de incumprimento pode atacar património do devedor –
garantia que existe por força da lei (ex: penhora)
• Especiais: existe por vontade das partes
o Pessoais: alguém assume cumprir a obrigação por outro e para tal afeta
o seu património (ex: fiança)
o Reais: há certos bens que são dados como garantia para que se o
devedor não cumprir, o credor satisfaça a prestação (ex: hipoteca)

Requisitos sobre o devido na prestação


1. Suscetível de Proteção Legal (art. 398º/2) – não se exige patrimonialidade
(convertibilidade em dinheiro) na prestação mas exige-se que o interesse do credor seja
digno de proteção legal. A prestação constitui o objeto da obrigação e as partes têm a
faculdade de determinar o seu conteúdo dentro dos limites da lei - articulação dos art.
280º, 400º e 401º
2. Determinado ou Determinável (art. 400º) – lei admite que no momento ainda não
se saiba exatamente e depois pode definir-se por uma das partes ou por terceiro; sem
estipulação contratual compete ao tribunal (nº2)
• Em caso de indeterminação aplica-se o art. 400º - sendo tal um ato jurídico simples.
• Se não der, o NJ é nulo por ser indeterminável e o 400º não o pode suprir.
3. Possível (art. 401º) – se não for possível a prestação não é vinculativa, ex: tentar
cobrar direitos de autor sobre um livro em domínio público
• Para que uma impossibilidade conduza à nulidade do negócio jurídico é
necessário que ela constitua uma impossibilidade originária (art. 401º/1)
i. Art. 401º/2 admite casos em que a prestação é originariamente
impossível mas o NJ é celebrado com a eventualidade de se tornar
possível (ex: prestação de coisa futura, art. 399º em que devedor fica
obrigado a diligências para entregar a coisa, art. 880º).
ii. Impossibilidade deve ser absoluta e objetiva (art. 401º/3) e não subjetiva
(pois obrigações podem ser realizadas por qualquer pessoa, art. 767º/1,
devendo o devedor fazer-se substituir)
• Se for superveniente o NJ não é nulo mas a prestação extingue-se pelo art. 790º
4. Lícito – conformidade à lei e ao Direito, não contrariando deveres jurídicos: normas de
caráter injuntivo como limite à autonomia privada (art. 280º e 281º). É um vício que

13
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

atinge originariamente o contrato, sendo nulo (ou parcialmente válido dependendo do


caso).
5. Não contrariedade à ordem pública e aos bons costumes

Modalidades
Em função do TIPO DE PRESTAÇÃO:
1. Prestações de Coisas – objeto é a entrega de uma coisa. Sendo possível distinguir
entre a prestação do devedor e a coisa a prestar, o direito de crédito só incide sobre a
prestação do devedor (não tem direito sobre a coisa, isso só nos Direitos Reais, mas o
direito a uma prestação que consiste na entrega de uma coisa)
• Divide-se em: de dare, praestare ou restituere
• Prestação principal + Prestação secundária (complementa a prestação principal)
Ex: contrato para criar um site (prestação principal), fornece ao empregado um
computador (prestação secundária).
2. Prestações de Factos – objeto é a realização de uma conduta (o seu interesse não
corresponde a nenhuma realidade independente dessa prestação). Pode ser uma
prestação de facto material ou de facto jurídico.
• Divide-se em: de facere, non facere ou de pati
• Pode ser de facto positivo (obrigação de fazer), de facto negativo (obrigação de
não fazer) ou de suportação

3. Prestação Fungível – prestação que pode ser realizada por outrem que não o devedor,
que se pode fazer substituir no cumprimento (art. 767º/1).
• Regra geral que pode admitir execução específica (art. 827º, 828º, 829º, 830º)
4. Prestação Infungível – só o devedor pode realizar a prestação (art. 767º/2 -
infungibilidade natural ou infungibilidade convencional).
• Pode admitir sanção pecuniária compulsória mas pode acarretar a extinção (art.
791º)

5. Prestação Instantânea – execução ocorre num único momento.


• Podem ser fracionadas (fixação prévia mas dividida em frações. Decurso do
tempo não interessa. Ex: pagar em prestações)
6. Prestação Duradoura – execução prolonga-se no tempo (realização global depende
do decurso de um período temporal).
• Periódicas/Repetidas: verifica-se obrigações distintas em função do decurso do
tempo. Ex: pagar a renda, é em função do tempo da locação que se paga
• Continuadas: onde a boa fé tem um papel mais importante. Ex: por inquilino
pagar a renda, o que arrenda tem de garantir por mais um mês o usufruto.

7. Prestação de Resultados – devedor vincula-se a obter determinado resultado,


respondendo por incumprimento se tal não fosse alcançado. Ex: encomenda que não
chega a tempo
8. Prestação de Meios – devedor apenas estaria obrigado a atuar com diligência para
obter um resultado. Ex: médico a tratar doente
• Crítica de Gomes da Silva e Menezes Leitão: não há espaço no nosso direito para
esta distinção

14
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

9. Prestação Determinada –completamente determinada no momento da constituição.


10. Prestação Indeterminada – determináveis, o que ocorre no momento do
cumprimento. (Art. 400º)

Em relação aos SUJEITOS


1. Sujeito Indeterminado – art. 511º - credor pode não ficar logo determinado, mas o
devedor deve sê-lo.

2. Obrigações Plurais – pluralidade das partes na relação obrigacional.


• Vinculação de várias pessoas para com outra (pluralidade passiva)
• Vinculação de uma pessoa para com outras (pluralidade ativa)
• Vinculação de várias pessoas para com outras (pluralidade mista)

3. Obrigações Conjuntas (ou parciárias) – cada um dos devedores só está vinculado a


prestar ao credor ou credores a sua parte na prestação e cada credor só pode exigir a
cada devedor essa mesma parte.
• Regra geral – prestação é realizada por partes e cada devedor presta a parte a
que se vinculou.
4. Obrigações Solidárias – art. 512º e ss. – caracterizadas pela identidade da prestação
em relação a todos os sujeitos da obrigação, a extensão integral do dever de prestar ou
direito à prestação em relação respetivamente a todos os devedores ou credores, e o
efeito extintivo comum da obrigação caso se verifique a realização do cumprimento por
um ou a apenas um deles.
• Art. 513º - solidariedade só existe quando resulta da lei ou da vontade das
partes

• Solidariedade Passiva: qualquer um dos devedores está obrigado perante o


credor a realizar a prestação integral
o Relações Externas – maior eficácia do direito do credor, que se pode
exercer integralmente contra qualquer um dos devedores (art. 512º/1
e 519º/1), não podendo estes invocar a divisão (art. 518º). Credor pode
optar por demandar conjuntamente os devedores renunciando à
solidariedade (art. 517º). Admite-se que o credor renuncie à
solidariedade perante um devedor, conservando o direito à prestação
por inteiro sobre os restantes (art. 527º)
o Relações Internas – não é extensível; o devedor que satisfazer a
prestação acima da parte que lhe competir adquire um direito de
regresso11 sobre os outros devedores, pela parte que a estes compete
(art. 524º)
• Solidariedade Ativa: qualquer um dos credores pode exigir do devedor a
realização da prestação integral
o Relações Externas – um dos credores pode exigir a realização integral
da prestação ao devedor (art. 512º/1). Devedor pode escolher a que

11
Meios de defesa: compensação e direito de regresso. Podem ser meios de defesa comum (qualquer
condevedor pode invocar – ex: obrigação nula) ou meios de devesa pessoal (apenas 1 pode invocar de
forma interna e externa podendo até prejudicar outros). A prescrição só vale face ao credor e não afeta
os condevedores.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

credor satisfaz a prestação (art. 528º/1) que se não aceita incorre em


mora (art. 813º). Realização exonera o devedor (art. 532º)
o Relações Internas – o credor cujo direito foi satisfeito além da parte que
lhe competia na relação tem a obrigação de satisfazer aos outros a
parte que lhes cabe no crédito comum (art. 533º) - direito de regresso
ativo dos outros credores sobre o credor que recebeu a prestação. Lei
presume igualdade das partes (art. 516º) mas pode não o ser.
• Solidariedade Mista: qualquer um dos credores pode exigir a qualquer um dos
devedores a prestação devida por todos os devedores e credores.

5. Obrigações Plurais Indivisíveis Conjuntas – art. 535º – prestação tem que ser
exigida de todos os devedores simultaneamente. Se se extinguir obrigação a um dos
devedores, a parte desse devedor onerado será redistribuída pelos restantes devedores
(art. 536º)

6. Outras obrigações plurais - obrigações correais (pluralidade mas crédito uno),


disjuntas (pluralidade mas apenas um escolhido como sujeito na relação) e em mão
comum (pluralidade por ser património de mão comum sendo um vínculo coletivo

Em relação ao OBJETO
1. Obrigações Naturais – art. 402º e ss. – característica da não exigência judicial da
prestação12, resumindo a tutela jurídica à possibilidade do credor conservar a prestação
espontaneamente realizada (soluti retentio). Exclui-se a repetição do indevido (são
exceção ao art. 476º)
• Situações de obrigações proscritas (art. 304º/2)
• Jogo e aposta (art. 1245º)
• Pagamento ao filho de uma compensação por obter bens para os pais (art.
1895º/2)
i. Guilherme Moreira: defende como relações de facto
ii. Galvão Telles + Antunes Varela: constitui um dever oriundo de outras
ordens normativas, cujo cumprimento a lei atribuiria efeitos jurídicos
iii. Manuel de Andrade + Almeida e Costa + Vaz Serra + Menezes Cordeiro:
obrigações jurídicas imperfeitas, sendo o regime diferente dos outros
porque não permite a execução
iv. Menezes Leitão: não constitui verdadeira obrigação jurídica na medida
que não há vínculo jurídico. É a lei que recusa o credor natural a tutela
jurídica desse direito ao negar-lhe a faculdade de exigir judicialmente o
cumprimento. Não existe um direito primário à prestação, como direito
de crédito. O cumprimento da obrigação natural é juridicamente não
devido. A lei limita-se a reconhecer causa jurídica à prestação realizada
espontaneamente, tutelando a aquisição pelo credor.

12
Cumprimento é um dever ético e de justiça não sendo assistidas pela garantia geral e em juízo não se
pode exigir a realização coativa – à partida sujeitas ao mesmo regime que as outras e se cumprir
espontaneamente tem que atender à boa fé; o devedor depois de prestar não pode exigir que a prestação
lhe seja devolvida

16
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

v. Dário Moura Vicente: o credor tem alguma tutela portanto pode dizer-
se que em aceção muito ampla estamos perante obrigação, se bem que
não no sentido do CC

2. Obrigações Genéricas – art. 539º e ss. – objeto da prestação apenas se encontra


determinado quanto ao género
• Tem que sofrer Concentração: processo de individualização do espécime dentro
do género. Passagem de genérica a específica. Escolha do devedor (regra geral
do art. 539º, exceções no art. 542º) dentro dos ditames da boa fé na integração
do NJ - como indica o art. 400º ao falar da determinação
• Indeterminação inical coloca o problema de saber em que momento se
transfere a propriedade, que interessa para o regime do risco (art. 796º). Só se
pode dar com o conhecimento de ambas as partes (art. 408º/2). Transferência
da propriedade ocorre no momento da concentração da obrigação, não se
exigindo que essa concentração seja conhecida de ambas as partes. Que é
quando?
i. Teoria da escolha – Thöl: ocorre quando o devedor procede à
separação dentro do género das coisas que pretende usar para cumprir
a obrigação. Risco correria depois para o credor.
ii. Teoria do envio – Puntschart: simples separação não basta, o devedor
tem que proceder ao envio para o credor das coisas com que pretende
cumprir a obrigação. Risco era pelo credor a partir do momento do
transporte.
iii. Teoria da entrega – Jhering: só com o cumprimento da obrigação. Risco
era do devedor antes da entrega.
o Solução da lei no art. 540º (que consagra irrelevância da
escolha ou envio, devedor continua a ter que entregar coisas do
mesmo género pelo que ainda não se concentrou) com exceções
no art. 541º (1ª - contrato modificativo da obrigação que se
substitui uma genérica por uma específica; 2ª - ocorre por facto
de natureza; 3ª - mora do credor não impede realização de nova
escolha)
o Quando a escolha é do credor ou de terceiros a lei adota no art.
542º a teoria da escolha

3. Obrigações Específicas – tanto o género como os espécimes da prestação estão


determinados

4. Obrigações Alternativas – art. 543º e ss. – convenciona-se 2 prestações, ou entrega-


se uma ou outra e escolhe-se pelo interesse ou pelo estipulado pelo contrato; uma é
concretizável através de uma escolha (que geralmente pertence ao devedor). Não se
consideram alternativas as obrigações condicionais (em que se realiza uma em caso de
se verificar a condição e outra caso não se verifique)
• Impossibilidade Casual – art. 545º - ocorre fenómeno de redução da obrigação
alternativa à prestação que ainda seja possível.
• Impossibilidade Imputável a uma das partes com escolha de terceiro
i. Antunes Varela: terceiro escolha se indemnização ou a outra prestação;

17
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

ii. Menezes Cordeiro e Menezes Leitão: terceiro perde faculdade de


realizar a escolha (só pode fazê-lo entre duas prestações possíveis e não
entre prestação e indemnização)

5. Obrigações com faculdade alternativa – convenciona-se que se pode substituir a


prestação através de outra prestação que não a convencionada; prestação determinada
mas devedor tem a faculdade de substituir o objeto da prestação por outro

6. Obrigações Pecuniárias – têm por objeto dinheiro e visam proporcionar ao credor o


valor dele
• Obrigações de quantidade - têm por objeto quantidade de moeda com curso
legal no país.
i. Art. 550º - princípio do curso legal (só em espécies de moedas a que o
Estado reconheça função liberatória genérica)
ii. Princípio do nominalismo monetário13 (consideração é o valor nominal
da moeda independentemente de qual seja o seu valor de troca no
momento do cumprimento)
• Obrigações em moeda específica - art. 552º com duas modalidades - obrigações
em certa espécie monetária e obrigações em valor de certa espécie monetária
• Obrigações em moeda estrangeira - Obrigações Valutárias Próprias
(cumprimento só pode ser realizado em moeda estrangeira – proteção do
credor), Obrigações Valutárias Impróprias (moeda estrangeira funciona apenas
para através do câmbio saber a quantidade de moeda nacional devida),
Obrigações Valutárias Mistas (faculdade alternativa de o devedor escolher)

7. Obrigações de Juro/ Obrigação de Capital – correspondem à remuneração da


cedência ou do diferimento da entrega de coisas fungíveis (capital). Os juros podem ser
remuneratórios, compensatórios, moratórios e indemnizatórios.
• Lei prevê a possibilidade de pagar em juros e fixa taxa de juro legal, proibindo o
que exceda muito de tal e os juros sobre juros (anastocismo) – art. 559º, art.
559º-A, art. 560º

Fontes das Obrigações


Menezes Leitão: as obrigações podem resultar de diversos fenómenos jurídicos.
➢ É fonte de obrigações o facto jurídico de onde emerge a relação obrigacional (situações
muito heterogéneas)
➢ Art. 405º e ss. apresenta enumeração: contratos, negócios unilaterais, gestão de
negócios, enriquecimento sem causa, responsabilidade civil

1) Fontes de obrigações que resultam da autonomia privada: contratos, negócios unilaterais -


negócios jurídicos

13
Não há correção monetária nos pagamentos acordados (podia propiciar o aumento da inflação)

18
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

2)Fontes de obrigações que não resultam da autonomia privada: obrigação de indemnização


(responsabilidade delitual, obrigacional, pelo risco e por factos lícitos ou sacrifícios), gestão de
negócios, enriquecimento sem causa - resultam da lei, que atribui a certos pressupostos o efeito
jurídico da constituição de uma obrigação.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

CONTRATOS
Noção, fontes normativas e fundamentos da sua eficácia
Contrato é modalidade essencial do negócio jurídico – definido no art. 405º: princípio orientador
do negócio está definido na parte das obrigações, mas devia de estar na parte geral pois há
contratos não obrigacionais (ex: Casamento).

Negócios Unilaterais e Contratos


Critério da quantidade de partes no negócio.
Unilateral – negócio só tem uma parte (art. 457º) ex: testamento, confirmação
Bilateral – se o negócio tem 2 partes – pode ser também Multilateral – Contrato

O que é uma parte?


Parte é diferente de pessoa (podem estar mais que uma pessoa do mesmo lado do negócio) e
diferente de declaração negocial (podem haver várias declarações negociais no mesmo sentido).
➔ Parte delimita-se pela ideia de titular de um interesse (de Jhering) – há tantas partes
num negócio jurídico quantos interesses14 individualizáveis hajam; a cada interesse
corresponde uma parte15

Noção de Contrato é muito importante para todos os ramos de direito.


• Significado ideológico – manifestação da autonomia privada numa demonstração de
liberdade
• Significado económico – relevância enquanto instrumento essencial para
funcionamento económico (contratação)

Há uma convergência/encontro de vontades (art. 232º).


➔ Contrato é manifestação da vontade, mas esta não basta: é necessário uma vontade de
vinculação e a manifestação da vontade (princípio do consensualismo não impõe forma,
art. 219º)

Precisam de uma causa: função económica-social da celebração do contrato (o porquê do NJ)


➔ Generalidade dos contratos exige-o, exceto os negócios abstratos em que a sua validade
não depende da causa
o Há fronteiras discutíveis sobre a exigência da causa, que tem de ser lícita

Dário: Contrato = acordo de vontades no sentido de atribuição de efeitos jurídicos + vontade


de vinculação + licitude

O contrato está regulado no CC e noutras leis e regimes normativos, baseando-se em vários


princípios:
• Princípio da Liberdade Contratual – autonomia privada: art. 405º (balizado pelos art.
280º, 281º

14
Interesse – tenho interesse num bem quando tenho necessidades que esse bem está apto a satisfazer
15
Menezes Cordeiro: parte = efeitos do negócio
➢ Menezes Leitão discorda e o ênfase é no modo de formação - contrato assume-se como resultado
de duas ou mais declarações negociais contrapostas, mas integralmente concordantes entre si,
de onde resulta uma unitária estipulação de efeitos jurídicos.

20
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Princípio da boa fé – desde o princípio da tutela da confiança ao da materialidade


subjacente, concretizam a boa fé16
• Princípio da equivalência das prestações
• Princípio pacta sunt servanda
• Princípio eficácia relativa dos contratos: art. 406º/2 – vem em torno da discussão da
eficácia externa (exceção à regra da eficácia inter partes)17
• Princípio do consensualimo: art. 219º - geralmente há uma desnecessidade de qualquer
forma especial para a celebração do contrato.

Modalidades dos Contratos:


Multiplicidade de Negócios Jurídicos (categoria magna que sintetiza a autonomia privada) com
critérios diferentes e, por isso, sobreponíveis.

Estas modalidades são as mais comuns, embora possam haver outras.


➢ São sobreponíveis (são vários os critérios que as distinguem)
➢ Algumas têm subclassificações
➢ Classificações têm consequências jurídicas ao nível do regime

Bilateral ou Unilateral
Sendo que também se chamam (Dário):
Contratos Sinalagmáticos e Não-Sinalagmáticos
Sinalagma liga as prestações e as contraprestações que, no mesmo negócio, são a causa
jurídica e o fundamento um do outro – sem uma não se pode exigir a outra.
o Sinalagmáticos – nexo de reciprocidade entre as obrigações dos contraentes:
partes assumem obrigações recíprocas em que uma está na interdependência
da outra. Situações de “só se… se” – simultaneamente credor e devedor.
▪ Com o contrato cria-se um nexo entre as prestações (sinalagma genético)
que se mantém no sentido de que uma prestação não pode ser executada
sem a outra (sinalagma funcional)
o Não-Sinalagmáticos – posição/deveres das partes não são correspectivos: não
dependem uma da outra e uma parte tem situação passiva e outra ativa. Ex:
doação de uma casa, mas ao doar dou o encargo de lá ficar com a avozinha –
apenas uma das partes assume uma obrigação e a contraparte não tem deveres,
apenas o encargo

Direito privado ou Direito público

Obrigacionais, reais, familiares e sucessórios


Origem na técnica de divisão do CC – relacionado com os efeitos que o negócio produz numa
figura multiusos plástica e adaptável.
Podem produzir mais que um destes efeitos: extinguem, modificam, transferem ou fazem surgir
uma situação jurídica no âmbito de cada um
Ex: penhor, hipoteca

16
Que acompanha toda a contratação
17
Várias posições da doutrina

21
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Contratos reais quod constitutionem vs. reais quod efectum


Quanto ao modo de formação.

Obrigacionais e Reais
Quanto aos efeitos - eficácia jurídica que pode ser constitutiva, transmissiva, modificativa ou extintiva.
Geralmente, em coisa determinada, a propriedade transfere-se no momento do acordo de ambas as partes
- exceção nas obrigações genéricas em que a propriedade só se transfere no momento da concentração da obrigação,
art. 540º
➢ Transferência da propriedade é sempre por efeito do contrato - tornou-se comum para maior
proteção a celebração de uma cláusula de reserva de propriedade (art. 409º) em que o alienante
reserva para si a propriedade da coisa até ao cumprimento total ou parcial das obrigações da outra
parte. Protege o vendedor dos credores do comprador e ainda pode resolver o contrato pelo art.
801º/1. O risco é dividido de acordo com o proveito que cada um tirava da situação jurídica de que
era titular.

Comutativos e Aleatórios
Ambas as atribuições patrimoniais são certas vs. pelo menos uma das atribuições patrimoniais
é incerta (quanto existência ou conteúdo)

Onerosos e Gratuitos
Atribuições patrimoniais para ambas as partes vs. atribuições patrimoniais para uma só parte

Nominados e Inomidados
Nominados – aqueles que a lei designa por um nomen iuris
Inominados – a lei não designa e são sempre atípicos

Típicos e Atípicos
Critério de estar ou não regulado.
Típicos – aqueles previstos na lei, com o regime regulado:
Atípicos – não previstos na lei, mas que as partes podem estabelecer segundo a sua
autonomia privada

Cada vez vão surgindo mais contratos atípicos – há novos contratos que são úteis ao consumidor
e a lei não os contempla; muitos surgem pelos usos
Ex: leasing (alocação financeira); crédito documentário; concessionário financeiro; garantias
bancárias autónomas

Podem ser Mistos – têm características de vários contratos típicos da lei


Que regras se lhes aplicam?
• Teoria da Combinação/Conjugação – Hoeninger: aplicação combinado dos dois regimes,
art. 1028º/1
• Teoria da Absorção – Lotmar: aplica-se um único regime contratual, o tipo predominante
(que nem sempre existe), art. 1028º/3
• Teoria da Analogia – Screiber: não se aplica nenhum deles e reconhece-se a autonomia
do contrato misto como atípico
• Teoria da Integração: como está omisso na lei, integra-se por analogia e atendendo ao
sistema

22
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

o Dário: há casos sem elemento preponderante, outros com e outros que não se
pode reconduzir a um só

União de Contratos
Celebração conjunta de vários contratos, unidos entre si (possibilita a individualização face
ao conjunto embora com um nexo que os une)
• União externa - sem qualquer laço de dependência e apenas celebrados ao mesmo
tempo. Ex: ir a café e pedir bolo, café e cigarros.
• União interna - relação de dependência em que só se aceita um em função do outro. Ex:
só compro este pc se venderem também impressora
• União alternativa - partes pretendem um ou outro contrato ocorrendo ou não certa
condição. Ex: arrendo casa em Lisboa e Porto mas só vigora o arrendamento quando
souber onde fui colocado

Contraentes celebram contratos diferentes e autónomos mas com a mesma finalidade. Ex:
project finance (com celebração de muitos contratos)
Menezes Cordeiro: dois ou mais negócios são colocados numa situação de
interdependência originando diversos efeitos jurídicos.

Culpa na formação dos contratos (culpa in contrahendo)


Figura que vem desde o CC italiano de 1942 (embora com anterior influência alemã; na
Alemanha só se positivou em 2002). CC português foi dos primeiros a regulamentar (Vaz Serra
estava muito atento ao estrangeiro) embora fosse pouco aplicado e apenas houve uma explosão
da sua aplicação nos anos 90.

É fonte de obrigações pois dos deveres jurídicos na fase preliminar pode surgir a obrigação de
indemnizar.
Jhering: na formação e cumprimento do contrato, as partes devem de agir de forma leal.
Categoria de interesses tutelados: os injustamente prejudicados pela não realização do
contrato, expectativa protegida.

Responsabilidade pré-contratual: tutela face ao efeito das declarações negociais antes do


negócio ser feito mas com vista a que o negócio se faça.
Partes não são inteiramente livres e estão sujeitas a deveres éticos de boa fé – cada uma
das partes quando negoceia para concluir o negócio tem que também ter em atenção
os interesses da outra parte

Art. 227º18 - são os ditames da boa fé19 que vinculam as partes na relação jurídica pré-
contratual (em que não há deveres primários de prestação, há apenas deveres acessórios de
conduta
Sanções: apenas indemnização, não há execução específica pois isso limitaria muito a
liberdade contratual (oposição princípio da liberdade contratual vs. tutela da confiança)
nº2: exige que o afetado aja rapidamente e não protele

18
Embora esta figura surja em outros regimes jurídicos: LCCG (art. 5º e 6º) com obrigações de informação
e etc.; defesa do consumidor; contratação à distância; contratação eletrónica
19
Avaliada casuisticamente pelo intérprete

23
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Jurisprudência Portuguesa dá-nos os pressupostos para haver obrigação de indemnizar:


1. Ilicitude – violação de dever jurídico quando se cria expetativa digna de tutela jurídica.
Que deveres:
i. Informação: as partes devem, na formação, prestar as informações
relevantes que condicionam a formação da vontade negocial. Dever geral
de esclarecimento de questões relevantes para o homem-médio – não é
igual em todas as situações.
➢ Temperado com Dolus Bonus (art. 253º/2) – conceções dominantes
dos usos e costumes do comércio; artifícios normais dos negócios
jurídicos. Ex: se vendo a casa com humidade, aponto para as lindas
portas que a casa tem
o Tem que haver, também, um mínimo de diligência da
contraparte.
o Dever de informar é limitado pelo ónus da contraparte
ii. Lealdade: e correção. As partes não podem prestar informações erróneas
nem criar expectativas infundadas na outra parte. Atendem à boa-fé.
o Menezes Cordeiro: Partes não podem adotar
comportamentos que se desviem da procura do contrato
nem assumir atitudes que induzam em erro ou provoquem
danos injustificados. Também é de modo progressivo.
iii. Segurança e Proteção (Menezes Cordeiro): condições reunidas para se fazer o
negócio. Dever de ressarcir danos a pessoas e bens. Quando se está num ambiente
contratual, a parte deve proteger a outra para que se realize a posterior
contratação.
➢ Palma Ramalho = PPV: muitas vezes estão desligados do negócio jurídico e
não são tutelados dando indemnização por responsabilidade
extracontratual. Para que se considere responsabilidade pré-contratual o
ambiente contratual tem que estar muito bem definido e fixado para tal se
poder apurar.

2. Diligência da contraparte (de bonus pater famílias – art. 487º/2)


3. Dano – indemnização pela redução de uma vantagem, pode ser patrimonial ou não
patrimonial, emergente (supressão de certa utilidade – releva interesse contratual
negativo) ou lucro cessante (não obtenção de uma vantagem que seria obtida – releva
interesse contratual positivo)
4. Nexo de causalidade – do ilícito é que surge o dano (doutrina da causalidade adequada)

Qual a natureza da culpa in contrahendo?


Dário: figura de fronteira entre a Responsabilidade Extracontratual e a Responsabilidade
Contratual – zona de fronteira que explica o regime ter normas dos dois tipos de
responsabilidade (regime conjugado e misto)

24
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Contratos de Adesão
Contratos com Cláusulas Contratuais Gerais
Contratação através de modelos uniformes e de larga escala. Conjunto de condições
contratuais previstas de antemão e que não estão abertas à discussão pela contraparte (não
é possível a negociação individual dos contratos)
Predisponente estabelece um conjunto de cláusulas a que o Aderente aceita ou não –
destinatário indeterminado que aceita ou não (liberdade de celebração e não de estipulação).
➢ Menezes Cordeiro: Proposições impessoais, pré-elaboradas, que os contratantes
podem adotar, para efeitos de conclusão de um negócio20.

Fenómeno ligado à massificação dos contratos e muitas vezes dizem respeito a uma agilização
das necessidades básicas.

Características frequentes:
1. Desnível na informação de uma das partes – as partes não têm o mesmo poder
económico e uma delas pode não ter capacidade para avaliar plenamente.
Superioridade económica e/ou científica em relação ao aderente
2. Apresentação formulária – dispostas usualmente em formulários pré-formatados
3. Complexidade do clausulado – cláusulas muito complexas que preveem a maior parte
das situações. São cobertos, com minúcia, todos os aspetos contratuais; alarga-se a um
grande número de pontos.

Decreto-Lei 446/85, de 25 de Outubro21


Dário: 2 categorias de interesses (predisponente vs. aderente) que leva a conjugar-se 2 valores:
liberdade contratual e confiança.
Apesar de não haver liberdade de estipulação, tem que haver uma adesão e os tribunais
em muitos casos podem intervir – deve manter-se a conceção de contrato

Ingredientes do âmbito de aplicação – art. 1º/1


• Cláusulas de pré-elaboração: já existem antes da sua inclusão num contrato
• Rígidas (não permitem alteração): limitam-se a acolhê-las sem negociações para
modificação do seu teor
• Dirigidas a destinatários indeterminados: utilizáveis na conclusão de uma
multiplicidade de contratos
• Destinatários limitam-se a aceitar

Art. 1º/2 – estende as CCG a contratos cujo conteúdo seja previamente estabelecido sem
discussão. Não só àqueles que têm as características e ingredientes de CCG mas também aos
Contratos de Adesão.
➢ CCG ficam abrangidas independentemente da forma da sua comunicação ao público, da
extensão que assumam, do conteúdo que regulam, elaboradas pelo proponente,
destinatário ou por terceiros.

Art. 3º Exceções - limita o âmbito de aplicação

20
Somos livres de negociar todos os pontos mas tal não é viável e desde a maternidade com CCG
hospitalares, até à cova com CCG funerárias, toda a vida humana está imersa nas cláusulas.
21
Revisto em 95 e 99

25
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Medida da vinculação do aderente à luz de deveres de informação


Art. 4º, 5º, 6º - as CCG podem ser inseridas em contratos singulares22 mas estão sujeitas a
deveres de comunicação e informação – a contraparte deve estar esclarecida numa
concretização da lealdade do art. 227º
➢ Não valem cláusulas contratuais gerais em letra ilegível, noutra língua, etc.
➢ A outra parte tem ainda o direito de ser esclarecida relativamente ao conteúdo de
cláusulas que não seja claro – comunicação na íntegra e adequada, devendo ser
entendidas pela contraparte

Art. 7º Cláusulas Prevalentes - cláusulas negociadas prevalecem sobre as CCG: vontade das
partes manifestou-se ao acordar lateralmente cláusulas específicas – devem ser invocadas e
provadas para quem delas se queira prevalecer.

Incumpridas regras de comunicação, qual a sanção?


Cláusulas Excluídas – não foram devidamente comunicadas ou informadas (ninguém pode dar
consentimento em algo que não conheça ou não entenda)
Art. 8º/a - cláusulas que não respeitarem estes deveres de comunicação e de informação
consideram-se excluídas dos contratos singulares;
Art. 8º/c – cláusulas surpresa, passam despercebidas ao contraente
➢ Art. 9º - os contratos subsistem sem as devidas cláusulas, a não ser que sejam
essenciais e que sem elas o contrato não subsista

Art. 10º - estabelece as regras gerais para a interpretação das CCG (remetendo para o art. 236º
e 239º CC)
➢ Subsistindo dúvidas aplica-se o art. 11º
o Art. 11º/2: in dúbio contra stipulatione

O predisponente tem que atender à boa fé (art. 15º)


Distingue-se de cláusulas absolutamente proibidas e de outras relativamente proibidas,
conforme o interesse subjacente (art. 18º e 19º)23 – aplicáveis aos consumidores pelo art. 20º
➢ Conjugando, é proibido: cláusulas que excluam responsabilidades, estabeleçam
obrigações perpétuas, que estabeleçam sanções pecuniárias desproporcionadas, que
minimizam responsabilidade e etc.
➢ Também há proibições absolutas e relativas com consumidores (art. 21º e 22º)

Consequências: cláusulas nulas para efeitos do contrato singular (art. 12º) – embora o contrato
possa manter-se por vontade do aderente (art. 13º que remete para o art. 292º CC)
A nulidade (art. 24º) pode ser insuficiente – mecanismo a posteriori

22
A inclusão em contratos singulares tem os encargos de efetiva comunicação (art. 5º), efetiva informação
(art. 6º), inexistência de cláusulas prevalentes (art. 7º)
Contrato individual feito com CCG – há milhares de contratos singulares com as mesmas CCG (ex: todos
os clientes MEO)
23
Proibições absolutas: art. 18º - a) b) c) d), nulidade das cláusulas de exclusão ou da limitação da responsabilidade
(autonomia para empresários mas com responsabilidades); e), visa evitar que se consiga por via interpretativa aquilo
que as partes não podem diretamente alcançar; f) g) h) i), institutos da exceção do não cumprimento do contrato; j),
visa evitar obrigações perpétuas; l), evitar que esquemas de transmissão do contrato limitem a responsabilidade.
Proibições relativas, art. 19º - relações entre empresários e apenas é um juízo de valor, feito dentro da lógica de cada
tipo negocial em jogo permitindo restabelecer a justiça dentro do contrato.

26
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➢ Pode propor-se ação inibitória (art. 25º) – erradica as CCG para o futuro, as cláusulas
desaparecerão do formulário e já não constam no futuro – mecanismo ex-ante
o Feito por instituições como sindicatos, Ministério Público, associações de defesa
do consumidor e etc. autorizados pelo art. 26º

27
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Contratos Preliminares
Aqueles cuja execução pressupõe a celebração de outros contratos.
Relevantes: o contrato-promessa (art. 410º e ss.) e o pacto de preferência (art. 414º).

Menezes Cordeiro: contratação mitigada – quando as partes assumem certos


compromissos durante a fase das negociações embora sem uma efetiva vinculação a
uma obrigação – cartas de intenção, acordo de negociação, acordo de base, acordo-
quadro e protocolo complementar. Em caso de incumprimento apenas se pode alegar o
art. 227º.

CONTRATO-PROMESSA
Art. 410º/1: convenção pela qual alguém se obriga a celebrar novo contrato (definitivo). O seu
objeto é a obrigação de contratar (relativa a qualquer contrato). Promitentes vinculam-se a uma
prestação de facto jurídico.24
Normalmente tem eficácia obrigacional mesmo que o contrato prometido tenha eficácia
real.

Art. 410º/1: Princípio da Equiparação – extensão do regime do contrato definitivo ao contrato-


promessa, sujeitando-o, em princípio, às mesmas regras que o contrato definitivo.
Exceções: relativamente à forma – não é necessariamente a mesma forma, pode ter uma
menos solene (exceção no art. 410º/225); disposições que pela razão de ser não devam
considerar-se extensivas ao contrato-promessa – afastamento das características que
não se harmonizem com o contrato-promessa. Ex: a propriedade da coisa não se
transmite no contrato-promessa (à luz do art. 879º); no caso da venda de bens alheios,
que é nula no contrato definitivo quando o vendedor não tenha legitimidade para tal
(art. 892º), no contrato promessa tal já é válido pois o que está em causa é mera
obrigação de contratar

Pode ter modalidade:


Unilateral – em que se pode considerar o Preço de Imobilização (outra parte assume obrigação
de pagar ao promitente determinada quantia como contrapartida pelo facto de se manter
durante certo tempo vinculado à celebração de um contrato)26. Pode haver prazo nessa
vinculação de contrato-promessa unilateral (art. 411º).
Bilateral – à promitente vendedor e comprador. E se faltar uma assinatura?

24
Contrato preliminar com força vinculativa plena. A prestação é um facto jurídico. As partes obrigam-se
a celebrar um negocio jurídico. Porque não fazem logo contrato final? Motivo financeiro, vendedor não
tem a coisa e etc.
Entre as datas muita coisa pode acontecer e pode-se prometer bens alheios com vista a que sejam
adquiridos. O art. 892º, pela razão de ser, não deve ser extensível ao contrato-promessa.
25
Já o art. 410º/3 não diz respeito à forma mas sim a formalidades. Exige que contrato-promessa
de transmissão de direito real sobre edifício ou fração autónoma seja acompanhado por
reconhecimento presencial de assunaturas e certificação da licença de utilização ou construção.
Formalidades para a validade plena do negócio – necessidade de controlo notarial.
Não cumpridos dão origem à invalidade do contrato-promessa. Invalidade mista.

26
Remuneração pela promessa de venda

28
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A. Tese da Transmutação Automática desse contrato em Promessa Unilateral – STJ entre


1972 e 1977
B. Tese da Nulidade Total do Contrato – STJ a partir de 1977, assinatura é essencial para a
natureza sinalagmática do contrato (mostra inequivocamente a vontade)
C. Tese da Conversão – Antunes Varela, Galvão Telles – quando falta uma assinatura há uma
invalidade total e por isso utiliza-se o mecanismo da conversão para aproveitar o
negócio jurídico (art. 293º)27
a. Não salvaguarda a manutenção do sinal caso já tenha sido constituído
D. Tese da Redução – Almeida Costa, Menezes Leitão – nulidade é parcial pelo que se deve
aplicar o regime da redução (art. 292º) pois este melhor tutela os interesses da parte
que pretende aproveitamento do negócio jurídico (cabe ao interessado na nulidade
provar que o contrato não se teria concluído sem a parte viciada)
E. Tese Intermédia – Menezes Cordeiro – situação nunca poderia ser de invalidade parcial
mas sim de invalidade total, no entanto, admite que a redução pode salvaguardar
melhor os interesses do contraente vinculado; visão conjunta que remete para o art.
239º

Art. 412º: não reconhece ao contrato-promessa um cariz intuitu personae e nada impede que,
mesmo por morte de uma das partes, o cumprimento da obrigação respetiva seja exigido ou
requerido dos herdeiros. Isto só não acontece caso tenham celebrado o contrato
especificamente tendo em consideração a pessoa do outro contraente (art. 2025º).

Se uma parte incumpre? Execução Específica (art. 830º)


A parte fiel pode obter a satisfação do seu direito por via judicial – tribunal emite sentença que
produz os mesmos efeitos jurídicos da declaração negocial que não foi realizada, operando-se
assim a constituição do contrato definitivo – art. 830º/1
“não cumprimento” em sentido amplo, basta a simples mora do credor

Deixa de ser possível quando se verificar impossibilidade definitiva de cumprimento.

Além disto, a execução específica não é permitida quando:


• Existe convenção em contrário – art. 830º/2, não é regime imperativo pelo que as partes
podem derrogá-lo (presume-se que o fazem quando constituem sinal ou estipulem
penalização pelo incumprimento – partes pretendem indemnização e não execução
específica; esta presunção é ilidível, art. 350º/2) mas não pode ser afastado nos casos do
art. 410º/3 (há sempre execução espcífica);
• É incompatível com a natureza da obrigação – devido à índole específica do contrato
prometido ou da sua natureza pessoal (nos contratos reais quod constitutionem –
penhor, mútuo, comodado, depósito – exige-se a tradição da coisa para se operar o
contrato definitivo e o tribunal não pode substituir tal; contratos de trabalho)

Para que receba o contrato definitivo o tribunal impõe que o autor consigne em depósito toda
a sua prestação (art. 830º/5)

27
Vontade conjetural positiva (tem que demonstrar que as partes queriam conteúdo diverso)

29
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Articulação com o regime do sinal


Sinal – cláusula acessória dos contratos onerosos, mediante a qual uma das partes entrega à
outra, por ocasião da celebração do contrato, uma coisa fungível (normalmente dinheiro).
Fixa as consequências do incumprimento, uma vez que se a parte que constitui o sinal
deixar de cumprir a sua obrigação, a outra parte tem o direito de fazer sua a coisa
entregue. Se não cumprimento parte de quem recebeu o sinal, tem de o devolver em
dobro (art. 442º/2/1ª parte).
Verificando-se o cumprimento do contrato, a coisa entregue será imputada à prestação
devida, valendo como princípio de pagamento, ou restituída caso essa imputação não
seja possível (art. 442º/1)
Só se constitui com a tradição da coisa que é seu objeto (caso típico datio rei
que se transmite a propriedade com função confirmatória-penal).

Art. 440º: se as partes quiserem que tenha o caráter de sinal devem atribuir-lhe especificamente
essa natureza.
No contrato de promessa é diferente – presume-se sempre o caráter de sinal (art.
441º); presunção ilidível (art. 350º/2) mas de prova difícil de efetuar (caso se prove, a
quantia deve ser imputada como antecipação do cumprimento da obrigação)

Lei estabelece distinção no regime do Sinal caso ele seja aplicado genericamente a todos os
contratos ou especificamente ao contrato-promessa
• Art. 442º/1 – contratos genéricos
• Art. 442º/2/1ª parte – regime geral explica funcionamento em caso de incumprimento28
• Art. 442º/2/2ª parte – funcionamento do sinal em específico no contrato-promessa (se
houver tradição da coisa a que se refere o contrato prometido, o adquirente pode optar,
em lugar da restituição do sinal em dobro, por receber o valor atual da coisa, ao tempo
do incumprimento (direito à valorização da coisa), com dedução do preço
convencionado, acrescido do sinal e da parte do preço que tenha sido paga).
• Art. 442º/3/1ª parte – o contraente não faltoso pode requerer execução específica.
o Execução específica é possível, haja ou não haja tradição da coisa a que se refere
o contrato-prometido.
• Art. 442º/3/2ª parte - a atribuição do aumento do valor da coisa ou do direito destina-
se a evitar que o promitente faltoso venha a obter um enriquecimento injustificado, em
virtude do facto ilícito que é o incumprimento da obrigação de contratar.
o Gerou discussão na doutrina de se saber se uma posterior oferta de
comprimento paralisa o direito ao aumento do valor da coisa.
▪ Menezes Leitão: é norma específica do contrato-promessa donde não
se extrai conclusões sobre o funcionamento do sinal. No regime geral a
lei exige o cumprimento definitivo e não o atraso. Em especial para os
contratos-promessa transforma-se a mora em incumprimento
definitivo por objetiva perda de interesse na prestação ou pela fixação
de prazo suplementar de cumprimento (art. 808º) – mas só em caso de
incumprimento definitivo. A opção pelo aumento do valor da coisa
pode ocorrer antes, em simples mora, valendo esta como a renúncia do

28
E se for imputável a ambas as partes, as obrigações extinguem-se por compensação (art. 847º)

30
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promitente comprador a desencadear o mecanismo do sinal, uma vez


verificado o incumprimento definitivo.
o Opção pelo aumento do valor da coisa não tem função compulsória.
• Art. 442º/4 – o sinal funciona como indemnização antecipada pelo que a parte não
poderá reclamar outras indemnizações; mas admite-se estipulação em contrário. No
entanto, se o contraente faltoso não cumprir a obrigação de restituição do sinal em
dobro, poderá naturalmente exigir-lhe indemnização pela mora ou incumprimento
definitivo.

Funções do Sinal
A. Galvão Telles – não tem natureza penitencial, mas sim confirmatória-penal – sanção
para ato ilícito (do incumprimento da obrigação)
B. António Pinto Monteiro – natureza penitencial
C. Menezes Cordeiro – tem natureza confirmatório-penal na medida em que dá
consistência ao contrato e funciona como indemnização (quando coexiste com a
execução específica) e natureza penitencial quando funcione como preço de
arrependimento, permitindo resolver o contrato mediante o pagamento que resulte do
próprio sinal (quando há convenção contrária à execução específica)
D. Menezes Leitão – só pode ser exigido em caso de incumprimento definitivo da
obrigação pela outra parte, funcionando como pré-determinação das consequências
desse arrependimento – natureza confirmatório-penal.

Direito de Retenção do promitente que obteve a tradição da coisa


Quando o contrato prometido é de Direito Real (art. 755º/f), pelo crédito resultante do não
cumprimento imputável à outra parte.29
Não tem só um direito de crédito à celebração do contrato prometido, mas sim um
direito real de garantia, oponível erga omnes, que justifica conservar a posse da coisa
até ver satisfeito o seu crédito.
Interpretação restrita “nos termos do art. 442º”: créditos referidos são apenas a
restituição do sinal em dobro e direito ao aumento do valor da coisa, e não a
indemnização geral por incumprimento, prevista no art. 798º.
Pressupõe, além da tradição da coisa, a estipulação de sinal.

Eficácia real do contrato-promessa


A lei permite atribuição de eficácia real ao contrato-promessa no caso de a promessa respeitar
bens imóveis ou móveis sujeitos a registo, e as partes declararem expressamente a atribuição de
eficácia real e procederem ao seu registo (art. 413º/1).
➢ Sujeito a forma solene (art. 413º/2)

Ao adquirir eficácia real, o direito à celebração do contrato prevalecerá sobre todos os direitos
reais que não tenham registo anterior ao registo da promessa com eficácia real.
A. Menezes Cordeiro, Oliveira Ascensão: verdadeiro direito real de aquisição
B. Antunes Varela, Almeida Costa: direito de crédito sujeito a regime especial de
oponibilidade a terceiros

29
Garantia no quadro dos direitos reais é forte e pode servir para garantir o crédito. A partir da satisfação
do crédito deixa de haver direito de retenção

31
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Contrato estabelece comportamento das partes.


Pode ser incumprido por:
1. Incumprimento defeituoso: má realização da prestação – viola deveres de conduta, viola o que
foi estabelecido, não vai ao encontro dos interesses do credor
a. Acaba em Mora ou Incumprimento Definitivo
2. Incumprimento definitivo: às vezes não há mora e torna-se logo isto devido à prestação ser
impossível; credor deixa de ter interesse (art. 1202º)
3. Mora: maior parte das obrigações acaba em mora.
Mora do devedor: ex re – quanto aos prazos; credor ainda tem interesse e ainda há cenário de
cumprimento e indemnização; tipicamente quer que se sane a mora

O que acontece no caso do contrato-promessa é que a pessoa costuma querer sanar a mora e tem
interesse na mora.
Já só se quer a indemnização e não se prevê a execução específica (é característica de mora do devedor e
sinal é questão de incumprimento definitivo – art. 442º)
Art. 804º/1 por danos moratórios e execução específica
Sempre que há sinal recorre-se à presunção do art. 830º/2

PACTO DE PREFERÊNCIA
É o contrato preliminar em que o obrigado à preferência, se decidir contratar, tem que
comunicar ao beneficiário da preferência as mesmas condições da contratação com terceiro –
definido pelo art. 414º mas com entendimento mais amplo, extensível a todos os contratos
onerosos sem cariz intuitu personae

Forma – sujeito ao mesmo regime do contrato-promessa sem forma especial mas com as
mesmas exceções (art. 410º/2).
Não se aplica o art. 410º/3. Tem que estar apenas assinado pelo obrigado à preferência.

Se nada se disser tem eficácia obrigacional e o incumprimento só gera obrigação de indemnizar


(pelo art. 798º)
Pode-se dar eficácia real aplicando o art. 421º - tem que ser registado e configura-se direito de
aquisição
➢ Pode atribuir-se-lhe eficácia real, sendo que os bens imóveis e os móveis sujeitos a
registo têm que o fazer por escritura pública, documento particular autenticado ou
quando não exigida essa forma, documento particular com assinatura e identificação.

➢ A lei concede a certos titulares de direitos reais a preferência na venda ou dação da


coisa objeto desse direito – comproprietário (art. 1409º), arrendatário (art. 1091º),
proprietário de solo (art. 1535º) – preferências legais. O direito convencional de
preferência não prevalece contra os direitos reais de preferência (art. 422º)

Obrigação de preferência – art. 416º a 418º


O obrigado à preferência tem que notificar o beneficiário que terceiro quer comprar –
liberdade de forma para o fazer salvo estipulado em contrato (o mais comum é carta registada
com aviso de receção)
• Notificação quando houver projeto de venda – tem que referir a clausulas negociadas
de um contrato preferível com terceiro (não podendo tal ser um convite a contratar)

32
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

oAntes do contrato definitivo com o terceiro (porque senão já se teria incumprido


a obrigação de preferência)
• Tem que se comunicar todas as estipulações relevantes para o exercício da
preferência.
o Nome do terceiro é relevante?
A. OA: NÃO, a lei não o exige.
B. Galvão Telles e Menezes Cordeiro: sim sempre, por obrigação da boa fé.
C. PL/AV + Carlos Lacerda Barata: sim quando ficassem a existir relações
jurídicas entre o terceiro e beneficiário da preferência (a boa fé impõe-
no) (ex: comproprietário)
D. Menezes Leitão: sim sempre que indeterminado.
Prazo supletivo de 8 dias – salvo estipulação de outro prazo
Com a comunicação e o exercício da preferência as partes formulam um contrato e
respetiva aceitação. Pode significar promessa de contratar. Sujeitos ao art. 227º.

Não há incumprimento se o obrigado celebrar um contrato de natureza diferente do contrato


preferível, mesmo que esse contrato implique a não celebração em definitivo do contrato
preferível. (ex: compromete a dar preferência no arrendamento, posteriormente decide vendê-
la a 3º)
➢ Só se mantém a preferência:
o União de contratos – art. 417º, na externa nada impede o titular de exercer a
preferência pelo preço que foi atribuído proporcionalmente à coisa; na interna
permite-se o obrigado exigir que a preferência se faça em relação a todas as
coisas vendidas.
▪ E quando se quer vender tudo de uma coleção, mas um terceiro tem
preferência sobre uma das partes da coleção?
▪ Art. 417º - titular pode exercer preferência sobre uma das partes se o
preço for proporcional, mas, pode opor-se se houver prejuízo.
▪ A Jurisprudência (relação de Lisboa) tem entendido que seria possível a
não celebração do negócio.
o Contrato Misto – art. 418º, em relação aos contratos complementares em que
se acrescenta prestação acessória típica de outro contrato permite a
preferência (se for avaliável em dinheiro)

Quando é incumprido (obrigado à preferência celebra com terceiro) o titular da preferência


tem direito a uma indemnização pelo art. 798º30

Caso em que têm eficácia real – beneficiário possui direito de crédito à preferência e direito real
de aquisição, oponível erga omnes mesmo a posteriores adquirentes da propriedade (art. 1410º
extensível a qualquer direito real de preferência)
Menezes Leitão e Antunes Varela: obrigado à preferência tem que ser demandado para
a ação de preferência, existindo litisconsórcio necessário passivo entre ele o terceiro
adquirente

30
Não há execução específica

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Simulação
• Preço declarado é superior – titular da preferência deve exercê-la pelo preço real
(negócio simulado é nulo, art. 240º e vale o dissimulado, art. 241º) preferência exercida
pelo negócio válido;
• Preço declarado é inferior – Antunes Varela e Castro Mendes: a lei veda aos simuladores
exigir que a preferência seja exigida com base no base no preço real (Menezes Leitão: o
titular da preferência pode exercê-la pelo preço simulado), Menezes Cordeiro e Mota
Pinto: tal equivaleria a autorizar enriquecimento ilícito

Natureza da obrigação de preferência


A. Galvão Telles – corresponde a verdadeira obrigação de contratar, sujeita a uma
condição potestativa na parte debitoris (devedor toma decisão de contratar) e na parte
creditoris (credor queira exercer a preferência).
B. Carlos Lacerda Barata, Menezes Leitão – obrigação de preferência é de conteúdo
negativo, o de não celebrar com mais ninguém o contrato a que se deu preferência.
Só quando o beneficiário renuncia à preferência
C. Antunes Varela, Menezes Cordeiro – não existiria na obrigação de preferência uma
obrigação de contratar nem um negócio condicional, sendo de conteúdo positivo
escolhe-se o titular da preferência como contraparte caso se decida contratar
D. Henrique Mesquita, Agostinho Cardoso Guedes – corresponde a sujeição, adquirindo o
titular da preferência, caso o obrigado decida contratar com outrem, o direito
potestativo de ele celebrar o contrato consigo

Pacto de Opção
Convenção em que uma das partes emite a favor de outra uma declaração negocial, sendo
uma proposta negocial que faz surgir direitos potestativos na esfera jurídica da contraparte.

Já está fixado o conteúdo do contrato e a única coisa que não está decidia é se a outra parte o
aceita ou não – tendo o direito potestativo de aceitar ou não.

Como se difere dos outros contratos preliminares?


• Contrato-promessa: há obrigação de facto jurídico e de declaração negocial que celebre
o contrato definitivo
• Pacto de Adesão: não há obrigação. Tendo a hipótese, ao dizer “sim” o contrato fica logo
celebrado
• Pacto de Preferência: há uma indeterminação que na sequência do exercício da
preferência se vai definindo (preço e etc.)

Contratos a Favor de Terceiro


Na ordem jurídica portuguesa vigora o Princípio da Relatividade – art. 406º/2
➢ Contrato só vincula interpartes e só se engloba um terceiro nos casos que a lei estipula

1. Contratos a Favor de Terceiro stricto sensu


Art. 443º e ss.

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Art. 443º/1 – noção – desvio do princípio da relatividade: Uma das partes (promitente)
compromete-se perante outra (promissário) a efetuar atribuição patrimonial em
beneficio de outrem, estranho ao negócio (beneficiário)

O promitente obriga-se a prestar perante o promissário para o beneficiário – promissário tem


de ter em relação a essa prestação um interesse digno de proteção legal.

Natureza triangular em que há relação de cobertura/de provisão (entre promitente e


promissário – direitos e obrigações entre as partes; define-se posição jurídica do promitente em
face do promissário); relação de atribuição/de valuta (entre promissário e beneficiário –
prestação do promitente a terceiro é atribuição patrimonial indireta do promissário em relação
a terceiro); relação de execução (entre promitente e terceiro – promitente executa a
determinação do promissário)

Nasce automaticamente um direito para o terceiro – constitui-se independentemente da


aceitação (art. 444º/1) legitimando-o a exigir o cumprimento da promessa;
• Exceção ao regime do art. 406º/2.
• Admite-se que o terceiro possa rejeitar a promessa, mediante declaração ao
promitente que a comunica ao promissário (art. 447º/1) extinguindo-se o direito.
• Terceiro ainda pode aderir, não equivale à aquisição do direito e serve para impedir a
revogação da promessa, o que pode ser efetuado antes da manifestação da adesão (art.
448º/1)
o Pode ser revogada no caso se só se cumprir após a morte do promissário (art.
448º/1) ou no caso das liberalidades por ingratidão (art. 450º/2 e 970º)

Também o promissário pode exigir do promitente o cumprimento da obrigação (art. 444º/2)


pois possui interesse na realização dessa prestação que ele acordou.
Legitimidade difusa para a exigência da prestação (art. 445º + art. 446º/1) nos casos em
que há promessas em benefício de pessoas indeterminadas ou no interesse público.
Têm mero direito a reclamar a prestação do promitente para o fim estabelecido.

Art. 444º/3 – Falso Contrato a Favor de Terceiro: promitente apenas se obriga a conseguir obter
a liberação da dívida do promissário (para com terceiro) – só o beneficiário tem interesse
portanto só o promissário pode exigir do promitente o cumprimento da promessa (não é
verdadeiro contrato)

Exceção ao art. 444º/1: promessa a cumprir depois da morte do promissário. Terceiro não pode
exigir a prestação antes da verificação da morte do promissário.
➢ O direito de terceiro apenas se constitui após a morte do promissário (até lá o terceiro
beneficia apenas de expetativa jurídica) e não pode transmitir aos herdeiros (pois não
era titular de direito). OU. O direito de crédito é logo atribuído ao terceiro e só cessa
quando este morre (aí os seus herdeiros sucedem no seu direito sobre o promitente)
o Solução da Lei: o terceiro só adquire o direito depois da morte do promissário
(art. 451º/1), mas, se aquele falecer antes deste, os seus herdeiros são
chamados no lugar dele à titularidade da promessa (art. 451º/2).
▪ Resulta do próprio contrato a favor de terceiro (promissário designa
subsidiariamente como beneficiários os herdeiros do terceiro) –
presunções ilidíveis e afastáveis através de estipulação.

35
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Promessa sempre revogável quando o promissário for vivo, independentemente da aceitação


de terceiro (art. 448º/1) – revogação expressa ou tácita e pode ser a designação ao promitente
de outro beneficiário da promessa (ex: alteração do beneficiário do seguro de vida)

2. Contrato em Favor de Pessoa a Nomear


Art. 452º e ss.
Art. 452º/1 – noção – não é desvio ao princípio da relatividade mas há alguém que entra
no contrato por nomeação: dissociação subjetiva entre a pessoa que celebra o contrato
e aquela onde se vão repercutir os respetivos efeitos jurídicos – designada a pessoa
dá-se um fenómeno de substituição de contraentes e os efeitos do contrato
repercutem-se diretamente na esfera do nomeado.
Produz efeitos retroativos (art. 455º) e tudo se passa como se o nomeado fosse
parte no contrato desde o seu início.

Feito sem ser nos trâmites legais, o contrato pode produzir efeitos em relação ao contraente
originário (art. 455º/2) mas as partes podem estipular que tal nunca aconteça (e aí a má
nomeação acarreta ineficácia do contrato).

Requisitos da nomeação – art. 453º (atribuição de poderes representativos por parte do


nomeado por forma a garantir a sua vinculação ao contrato) + art. 454º

Natureza destes contratos: questão controvertida na doutrina – fenómeno de representação


anónima vs. contrato a favor de terceiro.
ML: é simultaneamente um contrato celebrado em nome próprio e alheio, cuja
celebração em nome próprio está sujeita a uma condição resolutiva, e em nome alheio
sujeita a uma condição suspensiva (eficaz nomeação de terceiro)

Não expresso na lei, mas considerado pela doutrina (origem Alemã)


3. Contrato com Eficácia de Proteção de Terceiros
Contrato entre duas pessoas com um terceiro na proximidade – contraentes podem ficar
vinculados a esse terceiro pela boa fé
Art. 762º/2
Nascem deveres de proteção
Ex1: contrato de arrendamento; não abrange só inquilino e senhorio mas os familiares
que vivam com o inquilino (se cai o teto e eles ficam feridos, senhorio é responsável)
Ex2: A pede empréstimo a Banco. B exige relatório de auditoria a A. A solicita-o a C. C
entrega e A também. B empresta. A faliu e na auditoria já se sabia, C mentiu. B pede
responsabilidade a C.
Ex3: acidentes na AE – não é só uma relação condutor e concessionário. Se chocarem
com um animal. Também os passageiros podem demandar uma das partes do contrato.
Porque não recorrem à responsabilidade extra-contratual? Art. 483º - ónus da prova caberia à
vítima e na dúvida decidir-se ia contra ela. Este artigo também só tem em vista 2 situações:
violações de direitos absolutos ou de normas de proteção de interesses -> não se incluiria
situação 2 nestes exemplos e seria muito difícil provar nos casos 1 e 3
Na esfera de proteção do contrato, incluem-se estas situações que de outro modo não tinham
tutela jurídica.

36
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

RESPONSABILIDADE CIVIL
Conjunto de factos que dão origem à obrigação de indemnizar os danos sofridos por outrem.
Fonte de obrigações baseada no princípio de ressarcimento dos danos.

Regimes de Responsabilidade são diferentes31:


• Contratual – resulta do incumprimento de obrigações (art. 798º)
• Extracontratual (= delitual) – está em causa a violação de deveres genéricos
➢ Contratual presume-se culpa (art. 799º/1).
Extracontratual prova-se a culpa (art. 487º/1).
➢ Contratual prescreve em 20 anos (art. 309º).
Extracontratual prescreve em 3 anos (art. 498º).
➢ Contratual responde pelos atos dos auxiliares (solidariedade art. 497º).
Extracontratual cada um responde pelos seus atos.
➢ Regem-se por regras de conflitos diferentes.
• Terceira via da responsabilidade civil – onde se enquadram institutos como a
responsabilidade pré-contratual, culpa post pactum finitum (responsabilização das partes
após extinção do contrato em que se violou deveres acessórios postulados pela boa fé,
que se podem manter após extinção do vínculo obrigacional), contrato com eficácia de
proteção para terceiros (Dário: abuso do direito), relação corrente de negócios (partes
habitualmente ligadas por vínculos contratuais têm disponibilidade permanente para
celebração de negócios - ex: bancos e clientes; desenvolve confiança cuja lesão pode
gerar obrigação de indemnizar)

Responsabilidade extracontratual gera deveres primários de prestação, consistindo em fonte


de obrigações, pois surge uma relação obrigacional legal.
• ML: a contratual também deve ser assim entendida
• Regime de indemnização (art. 562º)

Surge como a consequência da violação de direitos absolutos, que aparecem assim desligados
de qualquer relação intersubjetiva previamente existente entre lesante e lesado.
• A obrigacional pressupõe a existência duma relação intersubjetiva que atribuía ao
lesado um direito à prestação, surgindo como consequência da violação de um dever
dessa relação específica.

Responsabilidade Civil Extracontratual


2 categorias de interesses em jogo:
• Segurança jurídica – imputação de danos no sentido de evitar que os 3º os causem
• Liberdade individual – quanto mais fácil for imputar danos, menos liberdade se tem
o Categorias em oposição e que se articulam de forma diferente e variam de país
para país

i. Valorização da liberdade – Inglaterra – Sistema da Tipicidade: identificam-se os “torts”


e só eles dão origem a indemnização, estando elencados nos precedentes judiciais.

31
Há uma terceira via de responsabilidade civil em que se incluem situações da violação dos deveres de boa fé,
geradores da responsabilidades civil pré-contratual e pós-contratual.

37
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

ii. Valorização da segurança jurídica e bens da vítima – França – Sistema de Cláusula Geral:
qualquer dano pode ser indemnizado32, dando um grande poder de discricionariedade
ao juiz
iii. Valorização de ambos – Alemanha – Sistema Intermédio sem cláusula geral nem
tipicidade: adota 3 pequenas cláusulas (dano pela vida e integridade, dano por violação
de norma de proteção legal e dano por atentado aos bons costumes), identificando de
forma mais precisa os bens jurídicos a proteger

Portugal – sem tipicidade nem cláusula geral, mas em que se identifica os caracteres da
ilicitude que geram obrigação de indemnização33.
➢ Dário: nítida preocupação com os interesses em jogo e norma tecnicamente superior à
de outros ordenamentos jurídicos.

Art. 483º – 5 pressupostos:


1. Facto Voluntário
2. Ilicitude desse facto
3. Culpa
4. Dano / Lesão bem jurídico
5. Causalidade entre facto e dano

1. Facto Voluntário
Tem que existir comportamento dominável pela vontade do lesante – basta que exista uma
conduta que lhe possa ser imputada por estar sob controlo da sua vontade.
➢ Não é imputável sempre que falte consciência ao agente.
➢ Exclui factos da natureza

Reveste-se de duas formas:


• Ação
• Omissão – em que existe a oneração com um dever específico de praticar o ato omitido;
só dão lugar a indemnização quando a lei o disser (art. 486º) ou o Negócio Jurídico.

Doutrina e jurisprudência têm desenvolvido a “teoria dos deveres de segurança no tráfego” o


que permitiu alargar bastante a responsabilidade delitual por omissão, para além dos casos legalmente
típicos (art. 491º a 493º)
• Sempre que alguém possui coisas ou exerce uma atividade que se apresente como
potencialmente suscetíveis de causar danos a outrem, tem igualmente o dever de tomar
as providências adequadas para evitar a ocorrência de danos podendo responder por
omissão se não o fizer.
o Encontram-se no controlo do sujeito, delimitando campo específico de
imputação, onde a ocorrência de danos o sujeita à responsabilidade por
omissão.
o Expressamente reconhecido por exemplo em: Ac. STJ 8/7/2003 (Afonso Correia) em
CJ-ASTJ11 (2013)

32
Havendo “faute” ou “dano injusto” (no dizer da doutrina italiana)
33
Nem todo o dano é indemnizável (não vigora o que se extrai do “memirem laedere”), só quando a lei o
manda (“causum sentit dominus”)

38
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Dário: jurisprudência já decidiu por deveres que não estão previstos, concebendo uma
cláusula geral para as omissões – o que é má ideia (embora se conceba com anologia e
interpretação extensiva) porque não se pode extravasar o que diz no artigo,
desequilibrando os interesses em jogo.

2. Ilicitude do facto
Juízo de desvalor atribuído pela ordem jurídica, face ao comportamento do agente (teoria do
desvalor do facto – avalia-se a ilicitude através da prossecução de um fim não permitido pelo
Direito), e não face ao próprio resultado (teoria do desvalor do resultado – ex: suicida na linha
do comboio morto por maquinista invalida).

Duas modalidades da ilicitude:


A. Violação direito de outrem;
B. Violação de disposição legal que protege interesses alheios.
C. Modalidade: vinda da interpretação sistemática – Abuso do Direito (art. 334º)

A. Ilicitude por violação de direitos subjetivos


Limita-se à indemnização da frustração das utilidades proporcionadas por esse direito, não se
tutelando danos puramente patrimoniais.
➢ Direitos absolutos que a Ordem Jurídica prevê e que são oponíveis erga omnes (ex:
direitos personalidade, pessoas de gozo, reais, intelectuais, de propriedade industrial e
etc.)
➢ Direitos de crédito são abrangidos?
o ML: não são abrangidos.
o Dário: Cruzamento com responsabilidade contratual remetendo para a eficácia
externa das obrigações – exercem-se pela modalidade do Abuso de Direito e
não pelo art. 483º pois restringia a liberdade das pessoas, que não vão contratar
com receio de lesar e ter de indemnizar (incompatível com Economia de
mercado)

B. Normas de Interesses alheios


Situações em que há lesão devido a comportamento contrário a norma (que protege a
concorrência, a segurança rodoviária e etc.), sendo que o objeto lesado tem de se incluir no
círculo de interesses que a norma visa proteger34. Ex: pessoa anda à pendura numa mota a 200
km/h e fica constipada, norma do excesso de velocidade não protege esse interesse.
Exigência de indemnização com fundamento na violação de uma norma destina à
proteção de outrem.

C. Abuso do Direito (art. 334º)


Quando se atua “ilegitimamente”35 no seu Direito. Apesar de não ter relação jurídica com uma
das partes, atua ostensivamente com o propósito de a lesar.
➢ Assume caráter de ilicitude quando se excede os limites do próprio direito impostos pela
boa fé, pelos bons costumes ou pelo fim social e económico desse direito.
➢ Dário: aqui é que se incluem os Direitos de Crédito e não no art. 483º

34
ML: não pode ser dirigida a proteger o interesse público e só reflexamente atingir particular.
35
Dário: leia-se “ilicitamente”

39
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Outros tipos delituais específicos (Menezes Leitão)


Ofensa ao crédito ou ao bom nome
Art. 484º - difamação;
➢ Dário: desnecessário porque se chegaria ao mesmo resultado aplicando o art. 483º uma
vez que este é um direito de personalidade
Se o difamado for com base em factos verdadeiros e assentar num interesse (público) legítimo36,
já se questiona se se trata dum ilícito ou de uma colisão de direitos (art. 335º)

Colisão de Direitos (art. 335º)


Quem não cede o direito inferior perante titular de direito superior – preenche-se o requisito da ilicitude para
efeitos da responsabilidade civil.

Responsabilidade por conselhos, recomendações e informações (art. 485º)


Só há responsabilidade em 3 situações específicas:
1. quando se haja assumido a responsabilidade pelos danos;
2. quando exista dever jurídico de dar o conselho e se tenha procedido com negligência ou
intenção de prejudicar (ex: deveres acessórios impostos pela boa fé);
3. quando o procedimento do agente constitua facto punível.

E se só haver dolo? MC e ML: qualquer atuação dolosa envolve necessariamente


responsabilidade por parte do agente.

Causas de Exclusão da Ilicitude


Art. 335º a 340º
Possibilidade de violação de direitos subjetivos ocorrer licitamente - casos em que a ilicitude é
excluída em virtude de o agente se encontrar no âmbito de uma situação específica que
produz a justificação do facto.

3. Culpa
Juízo de censura normativo37 acerca da conduta ativa ou omissiva de alguém.
Desvalor atribuído pela ordem jurídica ao facto voluntário do agente, que é visto como
axiologicamente reprovável.

2 modalidades:
• Dolo – ato voluntário dirigido à provocação dum dano
o Direto: tem um objetivo lesivo e age em conformidade
o Necessário: não quer o resultado, mas sabe que é consequência da sua atuação
o Eventual: não quer o resultado, não tem como consequência da sua atuação,
mas não quer
• Negligência – não se queria provocar dano, mas não se acautela o seu não
acontecimento, num padrão do homem médio – agente omitiu a diligência a que estava
legalmente obrigado
o Consciente: não toma cuidados mas sabe que pode ocorrer algo

36
Se não, a exceptio veritas é irrelevante
37
Só quando a lei o previr é que se pode dispensar a culpa na apuração de responsabilidade civil.

40
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

o Inconsciente: não toma cuidados mas não sabe que pode ocorrer algo

Imputabilidade do Agente
Pessoa tem que ser capaz de decidir e avaliar a sua conduta para ser responsabilizada (art.
488º)38 – tem de conhecer, ou poder conhecer, o desvalor do seu comportamento – pressuposto
da culpa é a imputabilidade
➢ Há inimputabilidade quando o agente não tem a necessária capacidade para entender
a valorização negativa do seu comportamento ou lhe falte a possibilidade de o
determinar livremente
➢ Apenas pode ser chamada a responder subsidiariamente à responsabilidade dos
vigilantes e por motivos de equidade (art. 489º)

Apreciação da Culpa
Art. 487º/2 – critério geral de apreciação da culpa em abstrato segundo diligência do homem
médio, mas, mesmo assim não se deixa de exigir a análise das circunstâncias do caso concreto e
do tipo de atividade em causa.
➢ Importante para perceber a graduação da culpa
o Graduação da culpa releva para casos de pluralidade de responsáveis (art.
490º), obrigação de indemnização solidária (art. 497º), concurso com a culpa do
lesado (art. 570º).
o Ex: cometendo um crime, licenciado terá mais culpa que analfabeto.
Distingue-se culpa grave (negligência grosseira de alguém muito irresponsável pois a maioria das pessoas
não agiria assim) e culpa leve (conduta não seria suscetível de ser praticada por homem médio havendo
uma omissão de diligência do bonus pater familias)

Prova da culpa
Ónus da prova da culpa cabe à vítima (art. 487º/1)
Há casos em que a leu estabelece Presunções de Culpa39 – correspondem a situações em que
se verifica uma fonte específica de perigo, cuja custódia se encontra atribuída a determinado
sujeito, tendo ele deveres de segurança no tráfego jurídico.
• Art. 491º - danos causados por incapazes: responsabilização pode ser por lei ou por
negócio jurídico. Se o vigiado for considerado imputável continua a haver
responsabilidade do vigilante, respondendo solidariamente (art. 497º).
• Art. 492º - danos causados por edifícios ou outras obras: é o responsável pela
construção ou conservação que deve genericamente demonstrar que não foi por culpa
sua que ocorreu a ruína - é responsabilidade subjetiva fundada na violação de deveres
de segurança no tráfego.
• Art. 493º - danos causados por coisas ou animais; danos resultantes de atividades
perigosas (não se dispensa a prova do nexo de causalidade)

Causas de Exclusão da Culpa


A. Erro desculpável - atuação do agente resulta de falsa representação da realidade, que
não lhe possa, em face das circunstâncias, ser censurada. (art. 338º)
B. Medo invencível - como no art. 337º/2

38
Se for inimputável, pode ser chamado a responder quem tinha dever de vigilância.
39
Aí o lesado não tem o ónus de provar a culpa pois presume-se

41
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

C. Desculpabilidade - quando uma atuação do agente seria normalmente censurável, mas


por motivos do caso concreto, não o é naquele em específico.

Concurso da culpa do lesado


Art. 570º - cabe ao tribunal apreciar se e em que medida a concorrência da culpa do lesado com
a do lesante deve relevar para efeitos da atribuição de indemnização. A atuação do lesado tem
que ser subjetivamente censurável em termos de culpa, aferida em relação à situação causal.
Não corresponde a ato ilícito, mas desrespeito a um ónus jurídico de evitar ocorrência de danos para si
próprio.

4. Dano
Conceito fáctico e normativo com um mecanismo de imputação - frustração de uma utilidade
(alheia) de que era objeto de tutela jurídica.
Tem muitas modalidades:
• Sentido real: avaliação em abstrato das utilidades que eram objeto de tutela jurídica em
que implica indemnização através da reparação do objeto lesado,
• Sentido patrimonial: avaliação concreta dos efeitos da lesão no âmbito do património
do lesado, compensação da diminuição verificada no património 40
Ex: acidente de carro - real é automóvel com estragos, patrimonial é consequências
desses estragos no património

• Perda in natura – lesão de bem jurídico no âmbito da integridade vítima


• Puro patrimonial – não há lesão à integridade do lesado e sim só ao seu património –
art. 483º parece indicar que a simples perda monetária não dá origem a
responsabilidade civil extracontratual, sendo que esse dano seria excecional

• Danos emergentes: alguém em consequência da lesão vê frustrada uma utilidade que


já tinha adquirido
• Lucros cessantes: a lesão vem frustrar uma utilidade que o lesado iria adquirir se não
fosse a lesão - só aqueles que no momento da lesão o lesado tinha uma expetativa
jurídica de os adquirir (não basta mera hipótese e sim uma probabilidade quase em
termos de certeza)
o Art. 564º/1 ambos abrangidos pelo dever de indemnizar. Mas há casos que só
nos danos emergentes (art. 899º e 909º)

• Danos patrimoniais: frustração de utilidades suscetíveis de avaliação pecuniária


• Danos não patrimoniais: não suscetíveis de avaliação pecuniária - art. 496º -
admissibilidade genérica do ressarcimento dos danos não patrimoniais, aplicável a toda
a responsabilidade civil e fixada equitativamente tendo em conta extensão dos danos41
e grau de culpabilidade do agente e etc.
o Podem coexistir nas lesões

40
Pela teoria da diferença (entre condição em que estava e em que ficou – art. 562º
41
É a gravidade dos danos que determina se há tutela ou não.

42
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Dano Morte – art. 496º/2 e ss.42 – ML: perda da vida é dano autónomo, cujo direito à
indemnização se transmite aos herdeiros da vítima com fundamento no 2024º; Dário:
não concorda com o dano morte, mas, a jurisprudência tem dito que sim
o Art. 496º/2 e 3 referem-se a danos não patrimoniais sofridos por outras pessoas
em consequência da morte de alguém; n°4 refere-se à atribuição da
indemnização por danos não patrimoniais ocorridos antes da morte

5. Nexo de Causalidade
Várias teorias na doutrina: equivalência das condições, última condição, condição eficiente,
causalidade adequada, fim da norma violada.
• Teoria da equivalência das condições - o que caracteriza o conceito de causa é a
imprescindibilidade de uma condição para a sua verificação (sem a qual não, sine qua
non). Relevariam todas as condições para o processo causal.
• Teoria da causalidade adequada - para que exista nexo de causalidade não basta que
o facto tenha sido em concreto causa do dano e é também necessário que, em abstrato,
seja também adequado a produzi-lo segundo o curso normal das coisas. Remete para
uma questão de imputação subjetiva. Subjacente ao art. 563º em que não está em causa
apenas a imprescindibilidade da condição mas também se exige que essa condição, de
acordo com juízo de probabilidade, seja idónea a produzir um dano.43
o Verificada condição sine qua non, faz-se juízos de prognose póstuma se o agente
via como provável que tal condição acontecesse – reconhece-se que o agente
podia ter conhecimentos especiais.

Caso prático
1. Facto Voluntário Ação // Omissão (art. 486º) -> Casos do art. 491º a 493º
Violação do direito de outrem // Violação de disposição legal
2. Ilicitude
// Abuso do direito // Outras
Causa de Exclusão da
Art. 335º a 340º
Ilicitude
Dolo (direto, necessário, Ónus do lesado (art. 487º/1)
3. Culpa eventual) // Negligência Presunções de culpa (art.
(consciente, inconsciente) 291º a 493º)
Erro desculpável // Medo
Causa de Exclusão da
invencível // Culpa do lesado (art. 570º)
Culpa
Desculpabilidade
Imputável Art. 488º e 489º
Danos emergentes / Lucros cessantes // Patrimoniais / Não
4. Dano
patrimoniais // Outros
5. Nexo de Causalidade Teoria da causalidade adequada

Responsabilidade Subjetiva (art. 483º) vs. Responsabilidade Objetiva (art. 500º e ss.)

42
Não é o dano que resulta em morte do art. 495º (danos imediatamente antes da morte)
43
Questão doutrinária dos processos causais virtuais – ML: relevância negativa da causalidade virtual em que o autor
da causa virtual não seria responsabilizado pelo dano, nos mesmos termos que o autor da causa real. A lei só dá
relevância em situações específicas (art. 491º, 492º, 493º/1, 616º/2, 807º/2) como causa complementar da exclusão
da responsabilidade, que concede em situações restritas de responsabilidade agravada.

43
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Responsabilidade Civil Objetiva/pelo Risco


Art. 499º a 510º CC

Na responsabilidade civil objetiva, o fundamento da imputação é o RISCO.


➢ Baseia-se na delimitação de uma certa esfera de riscos pela qual deve responder outrem
que não o lesado.
➢ Pessoa responsável deve ressarcir danos a outrem mesmo sem culpa (ao contrário da
subjetiva)
Menezes Cordeiro: ideia de justiça distributiva – tendo as vantagens de certos atos ou
atividades, também deve de ter as desvantagens;44 Muitas vezes esta está protegida por seguro
(viação, acidentes de trabalho e etc.)
Menezes Leitão: Pessoa deve responder pelos danos resultantes das atividades que
tira proveito ou que tem sob o seu controlo.

Art. 483º/2 – tipicidade da responsabilidade objetiva – só nos casos previstos na lei.

Responsabilidade do Comitente – art. 500º


Pressupostos:
• Relação de comissão – sentido amplo de realização de tarefa no interesse e por conta
de outrem (pode ser ato isolado ou duradouro; ato material ou jurídico) e não apenas
num sentido técnico-comercial do art. 266º Código Comercial; a função praticada pelo
comissário tem de ser imputada ao comitente, pois os atos nela praticados são segundo
o seu interesse e por conta sua (suportando ele as despesas e os ganhos dessa atividade)
o É necessário nexo de subordinação entre comissário e comitente? Não. Apenas
nos casos paradigmáticos do contrato de trabalho e no mandato; não há na
empreitada, por exemplo.
• Prática de factos/atos danosos pelo comissário no exercício da função – delimitação
da zona de riscos a cargo do comitente. Basta nexo etiológico entre a função e os danos,
no sentido de que seja no seu exercício que os danos sejam originados. Tirando o
comitente proveito da função exercida pelo comissário, é justo que responda por todos
os danos que o comissário cause a outrem enquanto exerce essa função. Ex: aqui inclui-
se operário que deixa cair telha ferindo transeunte, como aquele que, fumando enquanto
trabalha, deixa cair uma ponta de cigarro provocando incêndio.
o ML e MC: abrange-se também os atos intencionais do comissário ou praticados
a despeito das instruções.
• Responsabilidade do próprio comissário – para o comitente responder, comissário
também tem de responder. Comissário tem culpa, mas não se exige demonstração
efetiva da culpa do comissário, bastando o art. 500º/1 com uma culpa presumida (indicada
pelo “também” do art. 500º/3)
o Lesado terá 2 pessoas a quem pedir o ressarcimento (garantia para 3º de que
pode mais facilmente ressarcir danos).
o Entre o comitente e comissário pode haver direito de regresso – comitente
respondeu diretamente ao lesado e se não tiver culpa tem direito de regresso
sobre o comissário (art. 500º/3)

44
ideia de ilicitude imperfeita (não há ilicitude mas há incentivo a que não se adote condutas que possam
causar responsabilidade civil objetiva)

44
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Essa responsabilidade é apenas na relação externa com o lesado, na relação interna comissário-
comitente, o comitente tem direito a exigir restituição de tudo quanto pagou ao lesado, salvo
se ele próprio tiver culpa – aí há pluralidade de responsáveis pelo dano (art. 500º/3)
Função de garantia do pagamento de indemnização ao lesado.

Responsabilidade do Estado e outras pessoas coletivas públicas – art. 501º


Regime remissivo para o art. 500º.
Pode haver uma questão de dualidade entre gestão pública e gestão privada – aqui limita-se aos
atos de gestão privada (entidades públicas sem ius imperii), pois a gestão pública tem regime de
responsabilidade próprio.

Responsabilidade por Danos causados por Animais – art. 502º


Animal é um conceito entendido estritamente.
Os danos causados por animais são suportados na esfera jurídica de quem tira vantagem deles
para utilidade própria.
• Assenta num controlo da própria coisa e pode recair sobre o possuidor ou pelo
proprietário.
Requisitos:
• Utilização para proveito próprio – proprietário e possuidor (se bem que se for um
aluguer, o locatário também utiliza o animal em benefício próprio sendo que ambos
respondem)
• Danos resultam do perigo especial que envolve utilização do animal – não se exclui
casos de força maior (cavalo que derruba alguém a fugi de incêndio) nem os factos de
terceiro (instigam o cavalo e ele dá coice) embora aqui possa haver culpa do lesado.
Exclui-se os danos que são exteriores aos perigos da sua utilização (alguém cai porque
ouve ladrar cão preso e assusta-se)

Articula-se com o art. 493º - que já é uma questão de responsabilidade subjetiva e culpa
presumida – é sobre quem vigia, não sobre quem tira vantagens.
• Nada impede a cumulação das responsabilidades dos art. 493º/1 e 502º, caso em que
ambos responderão solidariamente perante o lesado

Responsabilidade por Acidentes causados por Veículos – art. 503º


Apenas para veículos de circulação terrestre, abrangendo também os não motorizados45 - não
só rodoviário, mas também ferroviário (art. 508º/3) e sem motor, quer esteja em circulação quer
esteja imobilizado.
Responsabilidade objetiva do utilizador de veículos, limitada aos riscos próprios do veículo.
Essa responsabilidade é, por lei, obrigatoriamente garantida por seguro face a veículos com
motor.

Pressupostos:
• Direção efetiva (poder de facto de controlo)
o Exige-se a imputabilidade do agente pois os inimputáveis não estão em
condições de exercer poderes de facto sobre os veículos (art. 503º/2).

45
Os outros têm legislação especial.

45
Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Utilização no próprio interesse, ainda que por intermediário de comissário


o Exclui-se da responsabilidade objetiva do art. 503º/1 aqueles que conduzem o
veículo por conta de outrem (comissários), sendo que essa responsabilidade
objetiva cai sobre o comitente.
▪ Art. 503º/3 – não se trata de responsabilidade civil objetiva, mas sim
subjetiva por culpa presumida. Só há responsabilidade objetiva quando
os danos não são no exercício das funções.

Art. 504º - responsabilidade pelo risco abrange tanto os que estavam fora do veículo como os
que estavam dentro dele.
➢ Transporte em caso de contrato abrange os danos que atinjam a própria pessoa e as
coisas por ela transportada (art. 504º/3).

Exclusão da Responsabilidade Objetiva (art. 505º)


• Quando se puder imputar o acidente ao lesado – a sua conduta é a única causa do dano
pois deixa de ser risco próprio do veículo e passa a ser exclusivamente devido a outros
fatores (não significa que se exija a culpa do lesado)
• Quando se imputar terceiro do acidente – nestes casos, se houver também culpa do
condutor, ambos respondem solidariamente para com o lesado (art. 497º)
• Quando resultar de causa de força maior – estranha ao funcionamento do veículo e
imprevisível (cujas consequências não poderiam ser evitadas). Tem é mesmo de ser
circunstâncias exteriores ao funcionamento do veículo.

Limitações dos danos indemnizáveis – art. 508º em que se deve consultar regime da
responsabilidade civil obrigatória

Questão da Culpa
Previsão de responsabilidade pelo risco não dispensa a necessidade de averiguar se existe ou não
culpa do condutor do veículo e aí a sua responsabilidade rege-se pelas regras gerais (art. 483º)
pelo que não está sujeita a limite máximo.
• Essa culpa tem é de ser provada pelo lesado (art. 487º)

Na lei encontra-se consagrado um caso de responsabilidade por culpa presumida no domínio


da condução de veículos – condução de veículo por conta de outrem (art. 503º/3) – estabelece
presunção de culpa do comissário pelos danos causados e se o comissário não ilidir essa
presunção, o comitente pode exercer contra ele o direito de regresso pela indemnização que tiver
pago ao lesado com fundamento na responsabilidade pelo risco.
• Só é responsável objetivamente se conduzir o veículo fora das suas funções de
comissário, uma vez que só nessa condição se preenche o requisito da utilização do
veículo no próprio interesse.
Lei faz recair sobre o comissário, em vez de responsabilidade pelo risco, uma presunção de culpa
– respondendo assim por todos os danos causados sem qualquer limite, a menos que prove não
ter atuado culposamente.
• Exige-se que os condutores por conta de outrem (que são profissionais) tenham uma
perícia especial no exercício da condução, podendo com facilidade elidir a presunção de
culpa.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Colisão de Veículos
Lei resolve conflito de imputações com base no risco (pois cada condutor podia ser imputado
pelo acidente – art. 503º/1).
• Se apenas um condutor tiver culpa no acidente – responde exclusivamente pelos danos
causados.
• Se nenhum tiver culpa – responsabilidade pelo risco é repartida na proporção em que
o risco de cada um dos veículos tiver contribuído para os danos (verifica-se também se
um dos veículos causou mais danos que o outro).
o Regra geral é a ideia de repartição igualitária dos danos no art. 506º/2.
• Se independentemente da apreciação da culpa dos condutores um dos veículos causou
danos, a responsabilidade pelo risco só surge em relação ao causador de danos.

Presunção de culpa do art. 503º/3 faz sentido quando se trata de dispensar o lesado de provar
a culpa do comissário, mas, faz pouco sentido quando se trata de discutir os critérios de
repartição da responsabilidade entre dois condutores causadores de danos. No entanto, a
maioria da doutrina e a jurisprudência do STJ entende que se na colisão de veículos um conduzir
o veículo por conta de outrem, então não se aplica a solução do art. 506º/2 e presume-se culpa
do comissário no âmbito do art. 503º/3.
➢ Se ambos forem comissários há concorrência de presunção de culpa e pode ser culpa
em igual medida.

Pluralidade de responsáveis pelo dano


O art. 507º estabelece a solidariedade dos vários responsáveis pelo dano – podendo haver
direito de regresso entre eles à luz do art. 497º/2
➢ Embora se haja culpa de um só, esse é que tem de pagar a indemnização.

Responsabilidade por danos na condução de instalação de energia ou gás– art. 509º


Art. 509º/1 – atribui responsabilidade a quem tiver direção efetiva de uma instalação
destinada à condução de energia elétrica ou gás.
➢ Menezes Leitão: restringe-se à condução de energia e não à produção.
Ilicitude imperfeita, pois se se demonstrar que se respeitou as regras técnicas e deveres de
conservação da instalação então deixa de estar sujeito à responsabilidade.
Mesmos limites que os acidentes por veículos terrestes (por força da remissão do art. 510º para
o 508º) – mas esses limites apenas funcionam em relação a cada lesado

Responsabilidade do Produtor
Pelos danos causados por produtos defeituosos.
Seria muito complicado para o consumidor preencher todos os requisitos para haver
responsabilidade civil extracontratual.
➢ As soluções vindas da common law decidiam que, verificado o dano, caberia ao produtor
demonstrar não ter agido com culpa.
➢ Tendência moderna admite uma responsabilidade objetiva do produtor, independente
da demonstração da culpa pelo lesante.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Na Europa fizeram-se diretivas comunitárias para o apurar da responsabilidade do produtor. Em


Portugal surgiu o DL 383/89, que consagra no art. 1º a responsabilidade objetiva, aplicando-se
este diploma à regulação da responsabilidade do produtor.

Responsabilidade pelo Sacrifício/Factos Lícitos


Situações de natureza dispersa que caem nos casos independentes de culpa e que deve ser
apreciado caso a caso. Eixo central é a atuação do agente com permissão normativa (de realizar
factos lícitos) mas que, mesmo assim, pode ser chamado a responder.46
➢ Sempre que a lei preveja o direito à indemnização a quem viu os seus direitos
sacrificados em resultado de uma atuação lícita destinada a fazer prevalecer um direito
ou interesse de valor superior
➢ Pode acontecer no domínio obrigacional ou no extra-obrigacional (cujo paradigma é o
estado de necessidade do art. 339º)

Quanto à responsabilidade do Estado, há diploma que regula os factos lícitos e o sacrifício. Ex:
expropriações.

Caso art. 81º/2 – situações de responsabilidade obrigacional por factos lícitos – direito geral de
personalidade tem valor superior ao direito de crédito, o que torna lícito o sacrifício deste
último, que deve ser compensado com indemnização sob pena de por em causa a eficácia
vinculativa desses negócios.

Obrigação de Indemnizar
Responsabilidade civil traduz-se numa Obrigação de Indemnizar.
Tipo de obrigação que o CC regula especificamente – art. 562º - aplicando-se não só à
responsabilidade civil extracontratual como também à contratual e pré-contratual.
➢ Constitui modalidade das obrigações em virtude de possuir fonte específica (imputação
de danos a outrem), ter conteúdo próprio (prestação de equivalente ao dano sofrido) e
um particular interesse do credor (eliminação do dano que sofreu).
Se não houver especificação da lei, a obrigação de indemnizar é a destes artigos.
Legislador regula, em termos gerais, aquilo que é aplicável a várias situações.

Princípio geral do art. 562º é a restauração natural – deve repor-se o statuos quo anterior ao
dano.
• Lesante deveria repor a situação (o status quo) que existia antes – pois é o que melhor
defende a vítima, pois uma indemnização em dinheiro pode não fazer face ao valor
venal, já que pode não repor a situação que existia. Ex: carro velho.

Quando a restauração natural não for possível, ou seja excessivamente gravosa para o agente,
pode haver compensação em dinheiro (art. 566º)

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Há permissão de atuação mas mesmo assim pode ter que indemnizar – pode é não ser ele
exclusivamente e pode ter que ser o que contribuiu para ele agir

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Em que no art. 566º/2 se consagra a teoria da diferença – comparação entre a situação


atual efetiva do lesado e a sua situação patrimonial atual hipotética se não existissem
danos. (ex: antes valia 10, agora vale 2, indemnização é de 8)
o Limitada aos danos patrimoniais presentes, não abrangendo os danos não
patrimoniais nem os danos futuros. Não se aplica quando tribunal fixar
indemnização inferior aos danos causados (art. 494º e 570º) atendendo a outros
fatores que não a simples avaliação patrimonial do lesado. Também não se
aplica se forem danos de natureza continuada – aí aplica-se art. 567º, o que
permite colmatar a perda continuada do lesado.

O art. 563º exige nexo de causalidade.

Cálculo da Indemnização
Podem ser indemnizáveis os danos emergentes e os lucros cessantes.
Podem também ser indemnizáveis os danos futuros (que têm de ser previsíveis na altura da
indemnização) – art. 564º
Muitas vezes, a vítima quando interpõe a ação não sabe ainda a quantidade exata de danos –
art. 569º permite haver um pedido genérico.

Pode também indemnizar-se os danos não patrimoniais (art. 496/1). Ex: férias estragadas.
Se a prestação cumprida defeituosamente for para situações pessoais não patrimoniais, então
também há tutela desses danos não patrimoniais.
Difícil de avaliar pecuniariamente – art. 496º remete para a equidade

Deve ter-se em conta o lucro do lesante face à violação dum direito e que gerou
responsabilidade civil? No cômputo da indemnização deve ter-se em conta a propriedade
industrial e o direito de autor – mas, noutros casos, é dano e obrigação de indemnizar, mas sim
enriquecimento sem causa (Dário)
ML: Lesante pode deduzir à indemnização os lucros que a lesão proporcionou ao lesado,
mas tem de verificar um nexo de causalidade entre a obtenção de lucro pelo lesado e o
facto que lhe causou o prejuízo.

Prescrição da Obrigação de Indemnizar


Tem de se exercer o direito à indemnização em certo lapso de tempo para garantir a segurança
jurídica.
Art. 498º e esse regime é genericamente aplicável a toda a responsabilidade civil, com exceção
da responsabilidade obrigacional.
• Prazo de 3 anos a contar do momento em que tem conhecimento do direito que lhe
compete – a partir do momento em que sabe que está lesado – mesmo não conhecendo
o responsável ou a extensão integral dos danos.
o Se deixar passar os prazos, o lesante pode opor-lhe eficazmente a prescrição do
seu direito (art. 304º/1).
o Se ainda não se conhecer o lesante, sem culpa do lesado, prescrição suspende-
se nos últimos 3 meses do prazo (art. 321º).
• Prazo de 3 anos não impede o lesado de reclamar indemnização por qualquer novo dano
que só tenha tido conhecimento posterior, desde que ainda não tenha decorrido o prazo
de prescrição ordinária do facto danoso (20 anos – art. 309º)

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Lei não pode ir além do tempo estabelecido porque a durabilidade da prova é menor (assenta
na memória do lesado e etc.) do que na responsabilidade contratual, onde a durabilidade da
prova é superior (socorre-se a documentos e etc.).

Concurso de Matéria Contratual e Extracontratual


Casos em que um dos contraentes viola contrato, mas essa violação também cabe no art. 483º.
Ex: contrato de transporte em que condutor tem acidente e estraga mercadorias mas também
viola um direito de propriedade.

Regimes diferentes em aspetos fundamentais – quando ao ónus da prova da culpa, prescrição e etc.
As categorias diferem (porque versam sobre situações jurídicas diferentes) e a lei dá 3 soluções:
1. Teoria da consunção – Almeida e Costa – regras de responsabilidade contratual
consomem as da extracontratual
a. 2005, Relação de Lisboa – mamografia mal feita e ano depois tem cancro –
responsabilidade do comitente, pluralidade de responsáveis e decidiu-se pela
contratual
b. 2006, Relação de Coimbra – cliente estaciona no hotel, há inundação e estraga
carro – aplicou art. 799º/1
c. 2011, STJ – foi tirar dente do ciso e saiu com maxilar estragado
2. Teoria da opção – ao lesado assiste o direito de opção sobre que regime aplicar
a. 1998, STJ – criança em infantário, vigilante afasta-se, há curto circuito que gera
incêndio, criança sofre queimaduras graves – pais pediam também por danos
não patrimoniais (extracontratual) embora havia contrato com infantário;
deixou os pais escolherem aquele regime que lhes fosse mais favorável
3. Teoria do cúmulo/concurso real – lesado pode conjugar e escolher o regime em função
de cada questão concreta
a. 2009, Relação de Lisboa – lições de mota em sítio com areia e más condições,
pessoa cai e pede indemnização à escola de condução – decidiu aplicar art. 503º
e imputou escola de condução

Jurisprudência não é unívoca e há acordos que consagram as 3 soluções


Dário: possibilidade de ação pode ser fundada nos 2 regimes – defende teoria do concurso real
– pois há situações de facto que preenchem simultaneamente normas dos dois regimes sendo
todas potencialmente aplicadas. Lesado escolho caso a caso ou em bloco. A teoria da consunção
não tem qualquer fundamento.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Gestão de Negócios
Situação em que alguém assume um negócio alheio, no interesse e por conta desse
outrem, no entanto, sem estar autorizado para tal.

Instituto com origem no Direito Romano e a consagração no CC obedece a um princípio de


altruísmo e solidariedade humana – prevê-se um instituto jurídico destinado à colaboração não
solicitada entre sujeitos privados, sem descurar a proteção da esfera jurídica do titular contra
intervenções prejudiciais.
Pode ser entendido amplamente como o simples tomar a seu cargo a gestão dos
interesses de outras pessoas. Ex: alguém pagar uma dívida alheia, alguém fornece bens,
alguém salva outra e transporta ao hospital

Conflito entre:
• Interesses sociais em jogo – intromissão não autorizada na esfera jurídica alheia e na
medida que gerem danos podem ser ressarcidos, solidariedade, atos socialmente úteis
e no plano da moral também
• Interesses individuais do gestor – reembolso ou remuneração; dano no negócio (que
deve ressarcir no caso do lesado)

O gestor tem direito a ser reembolsado (das despesas que fez no âmbito da gestão)?
Tem direito a remuneração?
O que foi gerido pode ser ressarcido?

Portugal: art. 464º a 472º


Art. 464º
Assunção da direção de negócio alheio: pode abranger não apenas negócios jurídicos e chegar
a simples atos jurídicos. Não é necessário que os atos abrangidos tenham natureza patrimonial.
Exclui-se da gestão atos contrários à lei, à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes.

Requisitos para estar em Gestão de Negócios


1. Está em causa um negócio alheio (sentido amplo e não técnico-jurídico; ex: alguém
colhe frutos maduros do vizinho)
a. Negócios objetivamente alheios – gestão de negócios implica uma ingerência na
esfera jurídica do dominus
b. Negócios subjetivamente alheios – gestor não interfere na esfera jurídica alheia,
mas, é possível visualizar, a partir da sua intenção, que pretende atuar para
outrem. Ex: num leilão, compro algo para um amigo; só se sabe que é para o
amigo quando o gestor refere a sua intenção
i. Menezes Leitão – discorda destas posições dualistas e estamos perante
Gestão de Negócios, para efeitos do art. 464º, sempre que se verifique
da parte do gestor a intenção de atribuir a outrem o resultado da sua
atividade.
2. Não são negócios estritamente pessoais (mas podem ser negócios sem interesse
material) ex: não se pode casar em gestão de negócios
3. Age no interesse e por conta do dono do negócio (é altruísta e não se considera gestão
de negócios quando se gere negócio alheio com intuito de ter lucros pessoais)
a. Exigência de que a gestão se faça no interesse do dominus: implicando não só
a intenção da gestão, mas também a utilidade da gestão.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

b. O animus do gestor deve ser entendido como a atribuição dos resultados da sua
atuação ao dono do negócio.
c. A determinação da utilidade da gestão é pressuposto inicial da gestão (nos
termos do art. 340º/2 que só considera lícitas as intervenções que se dão no
interesse do lesado e de acordo com a sua vontade presumível)
4. Tem que haver ausência de relação jurídica própria
a. Há uma falta de autorização – não se aplica o instituto sempre que exista uma
relação específica entre o dominus e o gestor, que legitime tal intervenção.
b. Gestor não pode recorrer à gestão de negócios se estiver autorizado ou
vinculado por negócio jurídico ou a lei especificar o exercer dessa gestão

5. Não advém da lei essa incumbência de gerir (ex: não é gestão no caso de pais para
filhos; casados para ausente)
6. Não se exige que gestão seja útil ou necessária

Art. 465º: deveres do gestor para com o dominus

Art. 466º: quando se constitui o gestor em responsabilidade para com o dono do negócio

Nasce uma discussão doutrinária de saber se a partir do momento em que se inicia a gestão,
se o gestor tem ou não obrigação de dar continuidade à gestão desse negócio.
➢ Vaz Serra e Menezes Cordeiro: não (gestor é livre de abandonar o negócio quando
entender, não podendo, com tal, causar dano ao dominus);
➢ Antunes Varela: sim (devem continuar a gerir até que o negócio chegue a bom termo
ou até que o dominus possa prover por si mesmo)
➢ Menezes Leitão: não. A lei apenas consagra a responsabilidade do gestor pelos danos
causados pela interrupção injustificada da gestão
➢ Dário: dever de continuidade pois pode-se ter criado no dono a expetativa que o Gestor
iria continuar a assegurar o negócio

Art. 467º: casos em que na gestão houve 2 ou mais gestores; responsabilidade solidária

Art. 468º/1 – retira-se que a Gestão de Negócios é fonte de obrigações que não pressupõe a
aprovação da gestão.
Art. 469º - com a aprovação renuncia-se a qualquer indemnização por danos devidos a culpa do
gestor, valendo como reconhecimento dos direitos que lhe competem.
➢ Galvão Telles – reconhecimento que a gestão foi regular e, por isso, insuscetível de
constituir o gestor em responsabilidade

Deveres do dono do negócio:


• Gestão regular (de acordo com vontade e interesse do dono) – gestor tem direito a ser
reembolsado de todas as despesas suportadas e indemnizado pelos prejuízos que haja
sofrido (art. 468º/1).
o O gestor tinha que considerar despesas indispensáveis.
o No entanto, não se atribui remuneração pela sua atuação, a menos que
corresponda à sua atividade profissional (art. 470º), pois impede que a atuação
do gestor seja uma atuação interessada, desvirtuando o espírito do instituto

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

• Gestão irregular (sem o respeito pelo art. 465º/a) – dominus responde apenas de
acordo com as regras do enriquecimento sem causa (art. 468º/2)47

O gestor deve ficar sempre sujeito à diligência do bom pai de família, prevista no art. 487º/2. O
exercício da gestão é a realização de uma prestação ao dominus daí que se exige a diligência do
regime geral das obrigações.

Todas as pessoas estão sujeitas a esta intromissão, havendo um estímulo da ordem jurídica a
que as pessoas sejam solidárias.

Regime fortemente protetor do gestor, embora ele esteja sujeito a deveres (art. 465º)
➢ 3 fundamentos: fidelidade, informação e entrega/distribuição
➢ O princípio da boa fé acrescenta mais 2 fundamentos: proteção (para não causar danos
alheios), custódia (gestor assume negócio e bens do dono ficam a seu cuidado)
o Critério fundamental é interesse do dono do negócio ser protegido

Qual o dever de diligência: homem médio ou gestor dos próprios negócios?


Dário: gestor é particularmente apto, e se aplicar diligência superior nos seus (e não nos
outros), tem que também aplicar aos outros, pois foi voluntariamente que ele quis gerir
esses negócios.

A quem incumbe ónus da prova no ressarcimento?


Regras gerais da prova do art. 341º e ss.
Se gestão aprovada basta que gestor demonstre a aprovação.
Dono do negócio tem de demonstrar que gestão não foi regular nem conforme
os seus interesses.
Ónus da prova para indemnização é art. 342º/1

Art. 470º: atividade profissional. Ex: advogados, solicitadores, contabilistas

Art. 472º: gestão de negócios alheios julgados próprios – apenas se aplica o regime se houver
aprovação da gestão. Se não, aplicam-se as regras do enriquecimento sem causa.
➢ Resulta que a intenção da gestão é um dos elementos essenciais para a gestão de
negócios – há ingerência na esfera jurídica alheia, mas, o gestor desconhece essa
alienidade objetiva, portanto atua por conta própria, faltando o requisito da intenção
de gestão, o que determina a exclusão do regime da gestão de negócios.
➢ Só se sujeita ao regime da gestão de negócios se se proceder à aprovação da gestão.

Atribuição de poderes representativos


Só pode ocorrer a posteriori, com eficácia retroativa, por virtude de ratificação (art. 268º) – o
dono do negócio apropria-se dos efeitos jurídicos do negócio celebrado pelo gestor em nome
do dominus.
➢ Casa não seja ratificado, não produz efeitos jurídicos em relação ao dominus.
o Se houve prestação, aplica-se enriquecimento sem causa por realização de uma
prestação em vista de um efeito que não se verificou (art. 473º/2)

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há restituição do dono ao gestor, para não haver enriquecimento sem causa do dono.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Aprovação ≠ Ratificação
• Aprovação – relação interna; juízo global sobre toda a atuação do gestor destinando-se
a reconhecer os direitos ao reembolso
• Ratificação – relação externa (com 3º); torna eficaz, em relação ao dominus, os negócios
celebrados com o gestor
o São atos diferentes e sujeitos a formas diferentes.

Pode também haver gestão de negócios não representativa em que o gestor atua em nome
próprio (art. 471º manda aplicar o mandato sem representação, art. 1180º e ss.).
➢ Cabe depois ao dominus entregar as quantias necessárias para a satisfação do assumido
pelo gestor.

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

Enriquecimento sem Causa


Vem de um dos princípios basilares do Direito das Obrigações e em que surge uma fonte genérica
de obrigações segundo a qual o enriquecido fica obrigado a restituir o empobrecido o benefício
que injustamente obteve à custa dele.
Princípio de que ninguém se deve enriquecer injustamente à custa alheia.

Art. 473º - Cláusula geral de enriquecimento sem causa e não tipificada


➢ 3 requisitos: enriquecimento, à custa de outrem, sem causa justificativa
➢ Pressupostos muito amplos e no art. 474º esclarece-se a subsidariedade do instituto.
Embora isso não seja absoluto e pode concorrer com a responsabilidade civil para dar a
proteção necessária.
o Enriquecido tem que repor junto do empobrecido – ir-se-ia aplicar a muitas
situações e subvertia o regime da responsabilidade civil extracontratual. Tem
limite de ser subsidiário (se houver outro meio deve ser tentado primeiro). Rede
de segurança no ordenamento jurídico

Enriquecimento sem causa tem vindo a ser questão controvertida na doutrina e há várias
teorias:
• Teoria unitária da deslocação patrimonial: enriquecimento sem causa é quando o
património desloca-se, sem causa, do empobrecido para o enriquecido. Aquilo que
produz o enriquecimento de um, teria que pertencer ao património do outro. Não se
poderia criar uma tipologia de pretensões de enriquecimento
• Teoria da ilicitude: enriquecimento sem causa é quando há uma ação contrária ao
direito, em relação ao princípio de que ninguém deveria obter um ganho através da
intervenção ilícita num direito alheio. Aproxima este instituto à responsabilidade civil
• Doutrina (alemã) da divisão do instituto: divide-se o instituto com base em prestações
do empobrecido e outra com base em enriquecimento sem ser por prestação.
o Menezes Leitão: defende a doutrina da divisão do instituto e distinguem-se
conforme várias situações (enriquecimento por prestação, por intervenção, por
despesas realizadas em benefício doutrem, por desconsideração dum
património intermédio)

Modalidades do Enriquecimento sem Causa


Por Prestação
Alguém faz uma prestação a outrem, mas há ausência de causa jurídica para que possa ocorrer
a receção dessa prestação.
É necessário uma atribuição patrimonial, elemento cognitivo e volitivo e ser
finalisticamente orientado.

Art. 473º/2 tem 3 casos especiais do Enriquecimento sem Causa:


• Recebimento de algo que não era devido – alguém cumpre obrigação inexistente, por
equívoco (art. 476º quanto à repetição do indevido; repetir = restituir, desfazer
pagamento que foi realizado); cumprimento de obrigações alheias (art. 477º e 478º),
ex: pago dívida de outro pensando que era minha
o Repetição do Indevido – pressupostos de 1) intenção de realização de prestação
(art. 476º/1), 2a) sem que exista obrigação subjacente a essa prestação
(indevido objetivo, art. 476º/2), 2b) não diga respeito a essas pessoas (indevido
subjetivo - prestação é realizada por terceiros e não pelo verdadeiro devedor;

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

art. 476º, 477º e 478º) ou 2c) não deva ser realizada naquele momento (art.
476º/3)
• Recebimento de prestação por algo que já deixou de existir – causa de pagamento
deixou de existir; art. 473º/2, art. 442º/1, art. 788º, art. 795º/1
• Recebimento tendo em vista efeito que não se verificou (art. 475º exclui em 2
situações) – art. 473º/2; prestação visa determinado resultado que corresponde a uma
contraprestação cuja realização se esperava quando se verificou a prestação;
contraprestação é negócio jurídico; esse resultado não se verifica

Enriquecimento sem Causa não se refere a uma única prestação e comporta várias relações de
atribuição - atribuições patrimoniais indiretas que ocorrem em contratos a favor de terceiro

Por Intervenção
Ingerência ilícita em bens jurídicos alheios (ex: disfruta da casa de outro, publica obra de outro);
➢ Interferem em direitos absolutos mas em que propriamente não há dano indemnizável
pelo art. 483º

Enriquecimento por ingerência não autorizada em património alheio. Acontece nas


intervenções em direitos absolutos (reais, de personalidade, de propriedade intelectual e etc.)
bem como em posições jurídicas de outra natureza, como a posse, proteção da concorrência
desleal, direito à empresa e oferta de prestações contra retribuição.
• Teoria do conteúdo da destinação - qualquer direito subjetivo absoluto atribui ao seu
titular a exclusividade do gozo e fruição económica do bem, mas, a restituição do
enriquecimento por intervenção não pressupõe que apenas tenha ocorrido a
apropriação de utilidades inseridas num bem alheio e exige a demonstração que essa
apropriação é indevida, pois tratava-se de uma utilidade destinada em exclusivo ao
titular do direito.

Por despesas efetuadas por outrem


• Incremento do valor de coisas alheias - alguém efetua despesas para beneficiar outrem
(caso de frutos, benfeitorias e etc.)
• Pagamento de dívidas alheias - terceiro que cumpre a obrigação pode intentar a ação
de enriquecimento contra o devedor (e não contra o credor).

Levanta-se a questão de que se pode haver Enriquecimento sem Causa quando o enriquecimento
se opera sem o curso da vontade do enriquecido - o art. 1214º/2 e 3 afirma que a vontade do
enriquecido é relevante.
Sujeitar o enriquecido a uma obrigação de restituição contra a sua vontade, em virtude
de um comportamento do empobrecido, implica reconhecer a possibilidade de
alguém constituir obrigações noutra esfera jurídica, contra a vontade do seu titular, o
que é contraditório com a autonomia privada.

Pressupostos do Enriquecimento sem Causa


Art. 473º/1
1. Obtenção de enriquecimento: vantagem de caráter patrimonial-individual ou
valorização económica do património global do recetor.
a. Menezes Leitão - vantagem patrimonial concreta (aquisição de direitos
subjetivos primariamente)

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Sebenta Obrigações I – 2016/2017 DNB

2. À custa de outrem: não tem significado unitário e configura-se nas várias categorias das
modalidades do Enriquecimento sem Causa

3. Sem causa justificativa: conceito mais indeterminado destes pressupostos. Não tem
causa justificativa quando, de acordo com os princípios legais, não haja razão de ser
desse enriquecimento e, de acordo com o sistema jurídico, deve pertencer a outrem e
não ao efetivo enriquecido.
a. Fácil de discernir no enriquecimento por prestação, nas outras modalidades
recorre-se à teoria do conteúdo da destinação.

Obrigação de restituição (art. 479º e 480º)


Tudo o que tenha sido obtido à custa do empobrecido, em princípio.

Regime benéfico para o enriquecido pois este geralmente desconhece a inexistência de causa
do seu enriquecimento.

A. Enriquecimento por prestação: restitui-se a própria coisa prestada. Não podendo haver
restituição em espécie, deve restituir-se o valor correspondente a preço comum de
mercado.

B. Enriquecimento por intervenção: só se restitui o valor da exploração do bem (Menezes


Leitão) ou deve restituir-se todo o ganho que se obteve em virtude dessa intervenção.
a. Não cabe restituir os lucros que o empobrecido poderia ter (não há lucros
cessantes)
b. E se o infrator tiver lucros muito superiores? Difícil responder. Pode levar a um
enriquecimento sem causa do empobrecido. E se pessoa publica obra e depois
tem lucro.

C. Enriquecimento por despesas: não apenas o objeto ou direito primariamente adquirido


sem causa, mas também todo o commodum ex re, o qual abrange os frutos da coisa ou
outras vantagens obtidas com ela.

Obrigação de restituir não pode exceder o valor do bem – limite da aplicação do Enriquecimento
sem Causa é o Enriquecimento por Prestação.

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