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GR.: BEN.: BENF.: AUG.: RESP.: LOJ.: SIMB.: RENASCENÇA


MARANHENSE N.º 621

ROGÉRIO HENRIQUE CASTRO ROCHA (A.:M.:)

A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO E O RITO DE INICIAÇÃO


MAÇÔNICA NO GRAU DE APRENDIZ: UM ESTUDO COMPARATIVO

SÃO LUÍS

2012
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1 INTRODUÇÃO

O presente estudo tem por objetivo geral analisar os fundamentos


simbólicos e filosóficos presentes no rito de iniciação do aprendiz maçônico,
abordando, reflexivamente, aspectos doutrinários envolvendo a figura do
iniciado em seus primeiros passos dentro da vivência efetiva da Instituição
Maçônica, especialmente no que diz respeito aos regramentos dispostos no R.:
E.: A.: A.:

Propõe-se ainda a empreender breve análise comparativa entre a


Alegoria da Caverna de Platão, constante de sua obra “A República” (Livro VII)
e a cerimônia de entrada do neófito no 1º grau da maçonaria.

2 O neófito e sua entrada no mundo maçônico

Inicialmente, é importante ter em vista o contexto encontrado no


início da jornada do aprendiz na caminhada progressiva e ascensional de
nossa Emérita Ordem.

O aprendiz maçom – é importante frisar – até bem pouco tempo,


antes de travar o seu primeiro contato com a Arte Real, era um completo
profano. Ainda assim, mesmo imerso nos afazeres da vida mundana, tal
indivíduo trazia consigo, dentre outras tantas virtudes em potencial, duas, sem
as quais não poderia aspirar sequer à condição de candidato: ser livre e de
bons costumes.

É por ser portador destes imprescindíveis requisitos que candidata-


se, preenche sua proposta de admissão, passa pelo crivo do exame de seus
futuros pares (sobretudo em face dos requisitos legais e morais que lhes são
exigidos), submete-se ao ritual iniciático da Cerimônia de Sagração ou
Consagração (onde é investido na dignidade do grau) e, após passar por uma
série de provas em cerimonial, realiza, por fim, as ‘três viagens’ de purificação
simbólica para passar da condição de homem profano à de homem maçom.

Como se sabe, porém, o aprendiz é um neófito, um iniciante,


inexperiente ainda, seja num ofício, seja numa arte ou saber. É alguém que
ignora os conhecimentos mais profundos, os detalhes mais complexos, os
ditames mais elevados a respeito de determinada técnica, assunto ou saber.
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Para Jaime Pusch, citado pelo Irm.: Paulo Thomson de Lacerda, o


Grau de Apr.: M.: é

a fase purgativa e ativa da Iniciação. Neste Grau o M.: se


dedica ao aprendizado dos mistérios simbólicos básicos, leis,
usos, costumes e história geral da Maç.:. Trabalha na P.: B.:.
Deve evoluir de homem bruto, amorfo, profano, o homem
polido, burilado, M.:. (A Trolha, Londrina, nº 308, p. 34, jun.
2012)

É, pois, este homem – recém-chegado das lides profanas e recém-


nascido maçom, agora inserido no ambiente cerimonioso e solene de uma Loja
ou Oficina – a quem se denomina aprendiz.

Mas, afinal, em termos simbólicos, o que representa a Iniciação


Maçônica? E qual relação existe entre esta e a alegoria do filósofo grego?

3 A alegoria da caverna em Platão: a transição humana da ignorância ao


saber

Analogicamente, o melhor exemplo para se compreender a trajetória


maçônica do aprendiz em relação ao simbolismo do ritual de iniciação
encontra-se na famosa alegoria da caverna, descrita pelo filósofo grego Platão
(séc. V a.C.).

Trata-se de texto que se desenrola em forma de diálogo filosófico e


que possui extraordinária riqueza hermenêutica, dele se podendo extrair várias
perspectivas de leitura ou sentidos (pedagógico, ético, epistemológico, político,
metafísico).

Nele Platão expõe, de forma sistemática, o que seria para si o


modelo de estado ideal, bem assim toda a estrutura societária, moral e
pedagógica que ajudariam a formar o rei-filósofo (governante da República) e
os demais membros de cada classe social. A República, portanto, encontra-se
fundada na crença permanente em que ninguém merece progredir dentro de
sua sociedade senão como resultado de seus talentos, habilidades e, mais
importante de tudo, seu caráter. E para isso, o processo de educação é basilar.

Presente no livro VII da obra “A República”, a alegoria da caverna


nos descreve a cena em que homens, nascidos e acorrentados no interior de
uma caverna, sem poder mudar de posição e, portanto, sendo forçados a olhar
somente para o fundo da caverna. Nessa parede veem, projetadas pelo sol que
adentra uma fresta de entrada, por detrás de um muro pequeno, as sombras e
silhuetas de seres e objetos que transitam no mundo exterior.
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Na visão dos prisioneiros, acostumados à cegueira do ambiente


cavernoso, tudo o que conseguiam admirar nas sombras lançadas sobre a
parede à sua frente constituía-se em realidade (o mundo verdadeiro). Do lado
de fora, onde transitam pessoas carregando objetos de diversos tipos, o sol
brilha com intensidade.

Atrás dos cativos, no interior das trevas e abaixo do sol que invade a
entrada superior da caverna, uma fogueira que arde, também projetando
sombras ao interior do recinto.

Do mundo externo, ao qual ignoram por completo, também lhes vêm


os ecos de vozes, ruídos e sons de toda ordem.

Familiarizados com a escuridão daquele mundo interior, acreditam


piamente que tudo o que veem, ouvem e sentem trata-se da mais fiel e única
realidade.

Supondo, entretanto, que um dos cativos quebrasse seus grilhões e


enfim se voltasse para trás, transpondo o muro e alcançando a saída para o
mundo exterior, qual não seria sua surpresa ao deparar-se com o forte clarão
da luz do sol, a qual ofuscaria sua visão, tendo de acostumar-se primeiro, para
só depois, e gradualmente, divisar uma nova realidade que se descortinava a
sua frente.

Tal homem, recém-saído da caverna, alcançaria a luz e descobriria


que o que pensava ser real não o era. A realidade verdadeira estava no mundo
externo, clareado pela fulgurante luz solar.

Por fim, entenderia o ex-cativo ter vivido em um mundo de ilusões,


um mundo de aparências, mero simulacro do real. E que doravante, com a
ação que tomara, afastar-se-ia da ignorância e do erro para trilhar as sendas
da verdade, do saber e do conhecimento inteligível.

Como se pode depreender, a alegoria platônica, em seus múltiplos


contextos interpretativos, opera constantemente com a presença de dualismos
ou dicotomias (sabedoria e ignorância, aparência e realidade, trevas e luz,
mundo superior e mundo inferior, etc.). Elementos estes que, como veremos a
seguir, também se refletem nas práticas e simbolismos da iniciação maçônica.

4 Das sombras à luz: o itinerário do aprendiz na iniciação maçônica

A Iniciação Maçônica representa, em breves palavras, a Morte e a


Ressurreição. A morte das trevas, do obscurantismo em que se encontrava o
neófito, e sua renascença para a Luz da Verdade.
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A luz, tanto no mito platônico quanto na filosofia e simbolismo


maçônicos, adquire vários significados, dentre eles o de esclarecimento,
evolução, conhecimento, ingresso no universo da interioridade da busca
intelectual. Não se pode esquecer, num paralelo com a caverna, que um dos
prisioneiros ascende à luz, ou seja, sai da gruta, desvencilhando-se de suas
cadeias e curando-se de sua ignorância.

Ao “receber a luz”, quando lhe são desvendados os olhos, o iniciado


tem-lhe revelados os mistérios do primeiro passo dado na seara do misticismo.
Como bem nos lembra Rizzardo da Camino (Breviário maçônico. 6.ed.
Madras: São Paulo, 2012, p. 326), “o maçom e todos nós, estamos na
escuridão e ansiamos pela Luz”.

Então, a partir dessa análise, podemos, desde já, perceber os


estreitos liames que enredam a trama tanto do iniciado maçônico – em seu
trajeto de passagem das celas, das masmorras, da prisão simbólica, da qual
emerge ao final de sua sagração – quanto a do cativo da caverna platônica.

Assim como o prisioneiro da caverna, o candidato a maçom adentra


o templo sem nada ver nem conhecer. Ingressa às escuras, olhos vendados,
não conhece ninguém, não sabe o que lhe aguarda, para onde será levado, o
que irá acontecer daquele momento em diante. Simbolicamente, entra-se em
outro mundo. Nos damos conta do quanto era vã a nossa existência, o quão
pouco sabíamos das coisas, dos outros e de nós mesmos.

Por horas a fio o iniciado permanece envolto em mistérios, sozinho,


consigo mesmo e com seus pensamentos. A angústia e o temor lhe invadem.
Dúvidas e inquietações lhe passam à mente. Impressões e sensações a todo
instante lhe assombram. Sons próximos e ruídos distantes, vozes, um arrastar
de pés ou cadeiras, conversas, palavras ditas por pessoas que não sabe ao
certo quem são e com que propósito o cercam.

Nesse instante, uma jornada de interiorização se inicia. O


candidato, ainda ‘imerso nas sombras’, à espera do momento do início da
cerimônia, volta-se para dentro de si mesmo, para sua caverna, nas ‘entranhas
da terra’ onde ora habita, ‘prisioneiro’ de sua própria ignorância, ‘acorrentado’
aos seus vícios e paixões mundanas. Assim como o cativo da obra platônica,
vive a ilusão de que a realidade é tal como se lhe parece.

Na Câmara de Reflexões, por breve período, a escuridão do ver lhe


é amenizada. Em seu lugar surge, por sua vez, a gravidade das questões que
lhes são lançadas, novamente a confrontá-lo com seus próprios pensamentos,
a inquirir seus princípios, suas ideias, seus medos, sua existência e sua
fortaleza espiritual.
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Como nos ensina a própria letra do rito do 1º grau, “o estado de


cegueira, em que vos achais, é o símbolo do mortal que não conhece a estrada
da Luz, que ides principiar a trilhar.” (Grande Oriente do Brasil. Ritual do 1º
Grau: rito escocês antigo e aceito. São Paulo, 2009, p. 106).

Ademais, a analogia que aqui se tenta demonstrar também é notada,


ainda no rito de iniciação, quando se faz menção à ligação existente entre o
simbolismo da 1ª prova, a da Terra, e a caverna onde estivera recolhido o
candidato, ao fazer suas disposições. (Idem, Ibidem, p. 108)

Ao final dessa jornada, consolidando a ideia aqui apresentada de


paralelismo entre elementos do mito da caverna em relação a determinadas
passagens dentro do ritual de iniciação maçônica, tem-se o momento áureo da
cerimônia de sagração: o “Fiat Lux” (faça-se a luz ou que se lhe dê a luz).

A passagem das trevas à luz é uma alusão ao difícil trabalho de


construção e reconstrução que se fará da pedra bruta à pedra polida.

É o encerramento da travessia, o nascimento do novo homem.

No mito platônico corresponderia ao instante em que se passa do


mundo sensível ao supra-sensível. Ou seja, trata-se da caminhada
ascendente entre o interior escuro da gruta e o seu exterior iluminado. Ou
como bem assevera o filósofo grego, em importante passagem da obra em
comento, que teríamos, em verdade, “a reorientação de uma mente de uma
espécie de crepúsculo para a verdadeira luz do dia – e esta orientação é uma
ascensão da realidade, ou em outras palavras – verdadeira filosofia.” (PLATÃO.
A República, 1997).

Representaria, portanto, a passagem da visão da sombra à visão do


sol. Do mundo cavernoso dos sentidos e falsas percepções à vida na pura
luz, na dimensão do espírito; como que um libertar-se de grilhões. Verdadeira
conversão que se contempla e se completa na verdade racional que se
manifesta à realidade.

Após tomar consciência de suas falsas noções da realidade, o


cativo/neófito nunca mais voltará a conduzir sua vida do mesmo modo. Ele foi
iluminado. Como sustenta o Ir.: Stephen Michalak, essa é a base de toda
iniciação. Mais ainda, pois consiste num processo que não acontece, como
pode por vezes parecer, apenas e tão-só em uma noite. Tal processo perdura
por todo o restante dos nossos dias.

A profunda riqueza do mito nos deixa entrever, pois, sem sombra de


dúvidas, elementos da caminhada maçônica. Em sua vertente especulativa,
vê-se a exigência de uma busca pelo conhecimento e o combate incessante a
toda forma de obscurantismo. Em sua vertente operativa, a necessidade de
que o saber seja aplicado na transformação do homem e do mundo.
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Conclusão

Pretendeu-se, com o presente estudo, traçar uma breve análise


comparativa entre a filosofia e o simbolismo presentes no mito ou alegoria da
caverna, do filósofo grego Platão, e o ritual iniciático do grau de aprendiz
maçom do R.: E.: A.: A.:. Para tanto, teve-se por referencial teórico nessa
pesquisa a doutrina de grandes expoentes da literatura e filosofia maçônicas
bem como a exegese da filosofia platônica, a partir da interpretação dos
significados encontrados no mito platônico, apresentado mais especificamente
no livro VII da sua obra “A República”.

Do que se pôde concluir, após a exposição dos argumentos que


serviram de base à referida análise, dentre outras coisas, vê-se que é grande a
influência da filosofia platônica nos círculos especulativos e operativos da
Maçonaria.

De igual modo, pode-se também afirmar que tal influência precede


mesmo, na história, a fundação da ordem em sua configuração mais recente,
como produto da modernidade franco-maçônica, visto que remonta à época da
longínqua antiguidade, bem como ao período medieval, onde o pensamento de
Platão foi novamente estudado.

Outrossim, infere-se da leitura interpretativa do texto filosófico de “A


República”, para além da mera alusão à passagem aqui citada de sua
conhecida alegoria, presente no Livro VII, inúmeras outras referências
(simbólicas, práticas e epistemológicas), perfeitamente alinhadas aos preceitos
ainda hoje constantes dos ritos e ofícios da Maçonaria.

Logo, não nos parece equívoco afirmar a existência de uma conexão


lógica, ou seja, de uma correlação de sentidos entre a filosofia platônica e os
ritos, simbolismos e a filosofia maçônicas. Ambas as concepções mostram-se
voltadas, por seu fim, ao desenvolvimento de um autogoverno humano, capaz
de permiti-lo, através da reflexão filosófica e da busca de si mesmo, libertar-se
das amarras da ignorância para, enfim, galgar novas escalas no seu
aprimoramento pessoal, moral e social, transformando-se e ajudando a
transformar para melhor a realidade que o cerca.
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Referências

ABRÃO, Bernardete Siqueira. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural,


2004.

AS RAÍZES PLATÓNICAS DO PENSAMENTO MAÇÓNICO. Disponível em:


http://www.maconariaportugal.com/pranchas/prancha-7 Acesso em 07/12/2012.

CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico. 6. ed. São Paulo: Madras, 2012.

CASTELANI, José. Dicionário de termos maçônicos. 3. Ed. Londrina: A


Trolha, 2007.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. 15.


ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002.

D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria: 100 instruções de aprendiz. São


Paulo: Madras, 2012.

GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do 1º grau: rito escocês antigo e


aceito. São Paulo, 2009, p. 106.

LACERDA, Paulo E. Thomson de. Ser aprendiz. A Trolha, Londrina, n.º 308, p.
34-35, jun. 2012.

LIMA, Walter Celso de. Ensaios sobre filosofia e cultura maçônica. São
Paulo: Madras, 2012.

MICHALAK, Stephen. A influência de “A República” de Platão sobre a


maçonaria e o ritual maçônico. Disponível em: <http://
http://bibliot3ca.wordpress.com/platao-e-o-ritual-maconico/ Acesso em
07/12/2012.

PLATÃO. A República. trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga.


Trad. Ivo Stormiolo. São Paulo: Paulus, 2003.

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