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EXCELENTÍSSIMO SENHOR PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

“Só o poder limita o poder”

Montesquieu

FRANCISCO TADEU BARBOSA DE ALENCAR, brasileiro,


casado, Deputado Federal, portador da Cédula de Identidade nº
11.498-OAB-PE e do CPF nº 352.844.204-20, com endereço
profissional na Câmara dos Deputados, Anexo IV, Gabinete 820
- Brasília – DF, CEP 70160-900, e

LÍDICE DA MATA E SOUZA, brasileira, divorciada, Deputada


Federal, portadora da Cédula de Identidade nº 01.083.952-60 –
SSP/BA e do CPF nº 146.720.495-15, com endereço profissional
na Câmara dos Deputados, Anexo IV, Gabinete 913 - Brasília –
DF, CEP 70160-900, vêm respeitosamente à presença de Vossa
Excelência apresentar, com fulcro no art. 5º, inciso XXXIV,
alínea “a”, da Constituição Federal, no art. 27 do Código de
Processo Penal, e na Lei n. 1079, de 1950.

REPRESENTAÇÃO PELA PRÁTICA DE CRIME DE RESPONSABILIDADE


em desfavor de

AUGUSTO HELENO RIBEIRO PEREIRA, brasileiro, casado,


Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança
Institucional, inscrito no CPF sob o no 178.246.307-06, com
domicílio legal no Palácio do Planalto – 4º andar - Sala 406 -
Praça dos Três Poderes - Brasília - DF, CEP 70150-900, pelos
fatos e fundamentos que passa a expor.

I – DOS FATOS

No dia 22 de maio de 2020, o Sr. Augusto Heleno Ribeiro Pereira


publicou em rede social uma “Nota à Nação Brasileira”, de caráter institucional,
do próprio gabinete da Presidência da República, em que anuncia
“consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”, caso se efetive
determinação de busca e apreensão do telefone celular do Presidente da
República, pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos de notícias-crime
apresentadas por partidos políticos que requereram tal providência, tendo o

1
Relator, Ministro Celso de Mello, determinado a manifestação do Ministério
Público Federal sobre tal requerimento.

A nota consiste em intempestiva reação do Ministro Chefe do


Gabinete de Segurança Institucional à mera possibilidade de que seja adotado
instrumento processual legítimo e hábil a produzir prova em procedimento que
se propõe a investigar, entre outros fatos, a possível interferência do Presidente
Jair Bolsonaro nas prerrogativas institucionais da Polícia Federal, o que segundo
o Ministro de Estado Augusto Heleno, implicaria “afronta à autoridade máxima
do Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro Poder, na
privacidade do Presidente da República e na segurança institucional do
País.”

Não é despiciendo enfatizar que foi esse mesmo Órgão


Ministerial, no exercício da sua atribuição de titular da ação penal, cometida
constitucionalmente, que requereu e lhe foi deferida, a abertura de Inquérito no
Supremo Tribunal Federal para apurar as denúncias feitas pelo ex-ministro
Sérgio Moro e que, potencialmente, podem vir a reconhecer a prática de vários
crimes praticados pelo Presidente da República.

Como é bem de ver, o Presidente da República pode até ter a


sua inocência reconhecida ao final de regular investigação, mas jamais poderá
se furtar a colaborar com a instrução do processo, como, aliás, o fez ao entregar
a fita em que foi gravada a reunião ministerial onde, inclusive, poderiam ter sido
praticadas as condutas tipificadas na lei penal mas que, em tese, podem
igualmente servir de prova de que não o foram, favorecer a defesa do
Presidente.

Dessarte, a reação do Ministro Augusto Heleno não só é


rematadamente desproporcional, porque atropela princípios processuais dos
mais elementares, mas, a toda evidência, de conteúdo cristalinamente
antidemocrático, porque parte da premissa autoritária de que o chefe do Poder
Executivo não está submetido a controle de qualquer outro Poder, prerrogativa
plenipotenciária não albergada pela Carta Política, que repugna, vivamente, com
o máximo de energia institucional, qualquer tentativa de pessoas ou estamentos,
de se presumirem, monarquicamente, acima do controle da lei e da Suprema
Corte que é o seu mais devotado e fiel depositário.

Vale dizer: o Sr. Augusto Heleno Ribeiro Pereira atribui


equivocada e ilegalmente ao Presidente da República “garantias” de não
responsabilização e consequente impunidade por eventuais atos praticados no
exercício de suas funções – contra a ação de controle de qualquer dos outros
Poderes e, mais grave, entende que essa imunidade é preventiva, isto é,
alcançando até mesmo – suspeitamente - as providências preparatórias que
poderiam amparar a inocência do Presidente da República, acaso representado
injustamente.

Ora, ‘data venia’, é exatamente o sistema de freios e


contrapesos – Checks and Balances System – que assegura o equilíbrio entre
os poderes e evita o abuso de poder, que desfigura o pacto sobre o qual está

2
sedimentada a Democracia, distribuindo as prerrogativas antes cometidas
apenas ao Soberano, exatamente tal como cristalizado na Constituição Federal
que tanto o Presidente da República, quanto o seu Ministro juraram cumprir e
defender.

Desta forma, o tom de frontal ameaça ao livre funcionamento das


instituições – “ consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional ” -
adotado pelo Sr. Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança
Institucional da Presidência da República deve ser repelido de maneira vigorosa
pela sociedade brasileira e, principalmente, pelos seus representantes do Poder
Legislativo, cuja principal atribuição é precisamente a de fiscal do poder.

Não se cuida de um exagero retórico, de uma frase mal


interpretada, de um arroubo panfletário, em caráter particular, na varanda de
casa. Não é também o discurso de um militante político embriagado pela paixão
de uma causa ou de uma seita, não é sequer o delírio de um inimputável.

Trata-se de manifestação oficial, em papel timbrado da


Presidência da República, feita por um General-de-Exército, ainda que da
reserva, em pleno domínio de suas faculdades mentais e de sua lucidez volitiva,
vocacionada, “in casu”, a tutelar, intimidar, ameaçar e constranger a jurisdição
do Supremo Tribunal Federal, e, por consequência, o próprio exercício das
atribuições do Ministério Público Federal, uma vez que tal ameaça, em forma de
censurável alerta, deu-se antes que pudesse V. Exa. se posicionar como
Procurador Geral da República, acerca do pedido de busca e apreensão, sabe-
se lá com que inconfessáveis propósitos.

Curial, portanto, constituir-se a manifestação do Ministro


Augusto Heleno, em ameaça direta e frontal ao Poder Judiciário e, logo, abusiva
e intolerável ao adequado funcionamento da Suprema Corte brasileira,
configurando igualmente um ataque ao próprio Estado Democrático de Direito,
que tem nos Poderes Constitucionais, harmônicos e independentes, um sólido
pilar para o regular funcionamento da República.

Os fatos apresentados são gravíssimos, mesmo que tais


manifestações já não sejam fatos isolados nas condutas de membros
qualificados do Governo, Ministros de Estado, como se deu em fatídica reunião
de primeiro escalão, de que teve ciência o País, em prova requisitada pelo
Ministro Celso de Mello para apuração das tentativas de aparelhamento da
polícia federal, em inquérito em curso no STF, decorrente de representação feita
por V. Exa.

E é ainda mais grave tal ameaça, quando concertada com a


conduta do próprio Presidente da República que atenta perigosa e
desabridamente – ao participar de manifestações com esse claro e lídimo
objetivo – contra o regular funcionamento do Poder Legislativo, do Supremo
Tribunal Federal e da imprensa livre.

Não por acaso e com chocante simbologia, uma dessas


participações desastrosas e ilegais do Presidente da República, deu-se à frente

3
do Quartel General do Exército, em Brasília, e não é por outra razão, essas e
outras, abundantes razões que pendem de apreciação mais de 30 pedidos de
impeachment do Chefe do Poder Executivo.

Tudo isso dá conta do estágio de primitivismo e arrogância


autoritária, sem qualquer cerimônia, provocativamente, que agride e atenta
reiterada e calculadamente contra as instituições, como um método de trabalho,
que todos os dias testa os limites da sociedade, limites que o Presidente da
República e o seu Governo parecem desconhecer, o que está a exigir
providências urgentes, dessa Douta Procuradoria-Geral da República, conforme
os fundamentos de direito a seguir apresentados e, no caso, objetivamente
voltados a contrastar e responsabilizar o Ministro Augusto Heleno Ribeiro Pereira
pela ameaça ilegal que fez através de sua Nota Oficial.

II – DO DIREITO

Inicialmente, vale reiterar o repetido apego a condutas


antidemocráticas e autoritárias do Governo do Presidente Jair Bolsonaro, como
pano de fundo da ameaça aqui referida, perpetrada pelo titular do Gabinete de
Segurança Institucional. Num retrospecto recente é possível observar uma série
de manifestações que, isoladamente, possuem o condão de desestabilizar a
relação entre as instituições democráticas.

A exemplo disso, as declarações do próprio Presidente da


República contra a decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre
de Moraes, no Mandado de Segurança nº 37.097, que suspendeu a nomeação
e posse do Sr. Alexandre Ramagem Rodrigues para o cargo de Diretor-Geral da
Polícia Federal. Repleta de ofensas pessoais descabidas e inapropriadas a um
Chefe de Estado, as declarações consideraram a decisão do Ministro como uma
mera “canetada política”, desqualificando a argumentação técnica do julgador no
exercício das suas judiciosas funções constitucionais.1

A publicação em rede social, no último domingo, 22 de maio, em


que o Presidente da República sugeriu de forma insidiosa uma acusação de
prática de abuso de autoridade, pelo Ministro do STF Celso de Mello, em razão
da divulgação de vídeo da reunião ministerial realizada em 22 de abril de 20202.
No mesmo dia, veio a público o vídeo da mencionada reunião ministerial. Na
ocasião, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que se dependesse
dele, colocaria os vagabundos de Brasília “todos na cadeia", a começar pelo
STF. Isso sem qualquer contrariedade ou mesmo a mais leve repreensão por
parte do Presidente da República.

1
Cf. disponibilizado em 1º de maio de 2020, em:
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/01/interna_politica,850318/stf-
sai-em-defesa-de-alexandre-de-moraes-apos-ataque-de-bolsonaro.shtml
2
Cf. disponibilizado em 24 de maio de 2020, em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/apos-
divulgacao-de-video-bolsonaro-publica-trecho-de-lei-de-abuso-de-
autoridade,d198ddb2d01e3d3633040e9a4d31b521u71rvsv8.html

4
Outros tantos exemplos, de conhecimento público e notório,
poderiam ser mencionados, mas somente os aqui relatados já seriam suficientes
para demonstrar que não há qualquer constrangimento ou pudor de boa parte
das autoridades públicas que integram o alto escalão do Governo Federal em
promover ataques aos demais poderes, o que vem inflando, paulatinamente, as
vozes do autoritarismo no seio da nossa Democracia.

Nesse contexto de reiteradas condutas do Presidente da


República e de integrantes do seu Governo contra os Poderes da República,
inclusive o Poder Legislativo, constituir-se-ia em grave omissão desprezar a
manifestação do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI),
Augusto Heleno, que tem o seguinte teor:

“O pedido de apreensão do celular do Presidente da República


é inconcebível e, até certo ponto, inacreditável.

Caso se efetivasse, seria uma afronta à autoridade máxima do


Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro
Poder, na privacidade do presidente da República e na
segurança institucional do País.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da


República alerta as autoridades constituídas que tal atitude é
uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os
poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a
estabilidade nacional.”3

Releva acentuar que o próprio Presidente da República não só


não desautorizou a manifestação como replicou em seu próprio tuitter,
demonstrando com isso que não é atitude isolada de um Ministro seu, que já
seria muito grave.

Cresce de importância em razão das reverberações que


geraram em setores reconhecidamente incomodados com o funcionamento livre
dos poderes e das instituições republicanas, como a tempestiva adesão de um
grupo de noventa oficiais da reserva do Exército que, em nota de apoio à nota
do Ministro e General Augusto Heleno, registrou o seguinte:

"Faltam a ministros, não todos, do stf ( sic ), nobreza, decência,


dignidade, honra, patriotismo e senso de justiça. Assim, trazem ao
País insegurança e instabilidade, com grave risco de crise
institucional com desfecho imprevisível, quiçá, na pior hipótese,
guerra civil."4

3
Cf. https://twitter.com/gen_heleno/status/1263896941349535746
4
Cf. íntegra da nota disponibilizada em 24 de maio de 2020, em:
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/24/interna_politica,857901/em-
nota-oficiais-da-reserva-apoiam-heleno-e-falam-em-guerra-civil.shtml

5
E no atual contexto, em que uma crise sem precedentes
acomete o país, em que as soluções para enfrentá-la ainda são claramente
insuficientes, mostra-se demasiadamente preocupante que quem deveria
oferecê-las – e que recebeu delegação democrática do povo para enfrentar os
problemas - mas que, ao revés, não o faz, limitando-se a ignorar
responsabilidades e delas se desonerar como se com elas nada tivesse a ver,
atribuindo ao demais poderes a responsabilidade pelas suas falhas e
dificuldades, pode parecer simples escolher o caminho obscuro, que nega a
institucionalidade, que pretende um diálogo direto com o povo, sem as
mediações ínsitas ao papel precípuo do Estado e de seus instrumentos, “o
caminho maldito”, que Ulisses Guimarães afirmou conhecer quando outorgou a
sua, nossa, Constituição cidadã.

Por isso, não há mais como permanecermos silentes,


acovardados diante de tamanha agressão às instituições e à Constituição
Federal, enquanto o vírus autoritário se dissemina e tem potencial de se
multiplicar em velocidade estrondosa, não raro, apoiada na mais sofisticada rede
de fakenews que esgarça petulantemente o tecido da nossa jovem Democracia.

Temos que resistir e a mais eficaz forma de fazê-lo é movimentar


o próprio aparato constitucional para frear tantos desatinos, tantas afrontas,
tantos deliberados ataques às franquias democráticas e, em especial, ao Poder
Judiciário, e ao garantidor da cidadania, que é o órgão que V. Exa. tem o
privilégio de comandar como Procurador Geral da República, ambos, Supremo
Tribunal Federal e Procuradoria Geral da República, destinatários diretos,
embora não exclusivos, desse petardo desferido pelo Ministro Augusto Heleno,
expondo-se às consequências da sua ilícita e grave conduta e até, de certa
maneira, desejando-as, ao estimular o confronto e o caos no País, embora diga
querer evitá-los com seu repugnante alerta.

Não há coragem inerte e, por isso, move-nos o nosso dever de


detentores da confiança popular para, representando a V. Exa., reclamar em
nome do povo brasileiro, com judiciosa razão, de que tão irrefletida atitude do
Ministro Augusto Heleno não pode ficar sem contundente resposta, tal como
aconteceu quando o mesmo Ministro defendeu a instituição de um novo AI-5,
sofrendo a reprimenda do Presidente Rodrigo Maia, da Câmara dos Deputados,
reação, todavia, insuficiente para afeiçoar o eminente Ministro de Estado ao
diapasão da ordem democrática.

Na ocasião, em 04 de novembro de 2019, criticando as palavras


do Ministro Augusto Heleno, afirmou o deputado Rodrigo Maia:

“Acho que a frase dele foi grave. Além disso, ainda fez críticas
ao Parlamento, como se o Parlamento fosse um problema para
o Brasil. É uma cabeça ideológica. Infelizmente, o general
Heleno virou um auxiliar do radicalismo do Olavo. É uma pena

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que um general da qualidade dele tenha caminhado nessa
linha”5.

Isso demonstra que o Ministro Augusto Heleno vem aumentando


o tom e agora o faz de maneira tão despudorada que não deixa margem a que
sua conduta seja interpretada de maneira construtiva e que nos permita não agir,
consoante nos impõe o nosso dever funcional e político.

O nosso dever, como parlamentar, de representar a essa douta


Procuradoria Geral da República, já que, segundo entendimento jurisprudencial
recente do STF, a legitimidade para pedidos de impeachment de Ministros de
Estado incumbe ao Procurador Geral da República, não o podendo fazê-lo
diretamente como de fato desejaríamos e, igualmente o dever de V. Exa., de
contornos bem definidos na Constituição e nas leis brasileiras, constituindo-se,
“data máxima vênia”, em atividade vinculada e indeclinável, diante de tão sobejas
razões, de fato e de direito, atentatórias ao STF, a um de seus mais eminentes
Ministros, mas também a todos, e o vilipêndio que dita ameaça pretendeu impor
também ao próprio Ministério Público Federal, de caráter marcadamente
intimidatório e, por isso mesmo, inaceitável, antes que o MPF opinasse pelo
deferimento ou não, da requestada busca e apreensão do telefone celular de
Sua Excelência, o Senhor Presidente da República.

Sim, porque não se pode olvidar que se a Constituição Federal


assegura o direito à intimidade e à privacidade, a apuração de condutas
eventualmente criminosas, como a que V. Exa. mesmo entendeu ser importante
apurar no bojo do Inquérito nº 4.831-DF, não pode sofrer embaraços sob o
argumento da privacidade e da intimidade, que, na função pública deve ceder ao
imperativo da transparência, do decoro da magistratura presidencial, do respeito
aos poderes, aos princípios constitucionais que regem a administração pública,
como o da moralidade, o da impessoalidade, da legalidade, da vedação ao
aparelhamento das instituições de Estado e tantos outros bens jurídicos que em
cotejo com a intimidade e a privacidade, devem evidentemente sofrer as
adequadas ponderações.

Pensar diferentemente seria admitir que alguém invocasse a


intimidade e privacidade constitucionalmente asseguradas, para acobertar a
eventual prática de crimes, o que seria uma absoluta subversão dos valores em
conflito.

Por outro lado, outro motivo também alegado pelo Ministro


Augusto Heleno para repudiar o mero pedido de ‘opino’ do MPF, quanto à
indigitada busca e apreensão, foi alegadamente a segurança institucional que
sofreria, assim como a privacidade, ‘interferência inadmissível de outro poder’ e
esta, bem vista, é – verdadeiramente – o funcionamento livre, independente e
harmônico entre os poderes e não o contrário, a recusa injustificável, ou com
falsos motivos, um verdadeiro manto protetor, para o descumprimento, isso se
deferida a providência, da ordem judicial, que sequer chegou a ser expedida,
porquanto aguarda ainda a manifestação ministerial.
5
Cf. disponibilizado em 04 de novembro de 2019, em: https://www.camara.leg.br/noticias/608771-
maia-critica-declaracao-de-general-heleno-sobre-possibilidade-de-novo-ai-5/

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A nota-ameaça oficial do Ministro Augusto Heleno, sendo um
manifesto ataque ao Estado Constitucional, é que é uma interferência indevida
em outro Poder. Ainda mais grave, irrecusável reconhecê-lo, pelo fato de ser de
um integrante das Forças Armadas, pois ardilosamente sugere que há respaldo
dessa Instituição de Estado à concepção de um ideário autoritário e
antidemocrático, quando sob o aspecto constitucional lhe compete justamente o
contrário - a defesa das instituições democráticas, enquanto garantia dos
poderes constitucionais que emanam do povo. Felizmente as Forças Armadas,
desde a redemocratização, como instituição, vêm dando robustas
demonstrações de harmonia com esse papel constitucionalmente definido que
vêm cumprindo com rigor.

Suas declarações, do Ministro Augusto Heleno, ferem o regime


democrático, na medida que buscam subjugar o Poder Judiciário à autoridade
do Presidente da República, à base de ameaças sobre as “consequências
imprevisíveis para a estabilidade nacional.”

Para quem viveu a ditadura – como o próprio Ministro Augusto


Heleno Ribeiro Pereira -, e o profundo sofrimento que causou ao Brasil, não
precisaria expressão mais clara e indicativa das retaliações impostas, por aquele
regime, a quem ousou dele discordar.

É grave, Senhor Procurador Geral, é gravíssimo! Não podemos


amesquinhar o Estado de Direito adoçando a boca dos áulicos de todos os
regimes de força, se não opusermos às suas violações, simuladas ou
descaradas como essa, os remédios constitucionais e legais que dão coesão
democrática à sociedade brasileira, e que devem ser utilizados com toda a
parcimônia, com refletida responsabilidade, exatamente para que eles sejam
usados sem titubeios, com firme serenidade, quando tais violações sejam graves
e inequívocas e assim os exigirem.

Apesar do Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança


Institucional da Presidência da República buscar impor uma imunidade penal
irrestrita do Chefe do Poder Executivo - é disso que se trata - vale ressaltar que
o modelo constitucional vigente prevê justamente o inverso - a responsabilização
política e criminal do Presidente da República por atos praticados no exercício
de suas funções. E compete ao Poder Judiciário, através de sua máxima
instância em razão da prerrogativa de foro constante no art. 102, I, alínea b da
Constituição Federal, processar e julgar o Presidente da República pela suposta
prática de infração penal comum.

O Poder Judiciário vem exercendo regularmente suas


atribuições e, por mais imprevisível e por mais qualificada que seja a hierarquia
da autoridade cuja conduta se apura, nenhum abalo institucional ocorre quando
há lealdade e respeito às funções institucionais.

A eventual responsabilização criminal do Presidente da


República, fato grave, mas perfeitamente possível, jamais poderia justificar a
ameaça de um Ministro de Estado a um Poder da República, justamente porque

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o processo de responsabilização se insere no conjunto de instrumentos
constitucionais que dão corpo à Teoria Constitucional da Separação dos
Poderes.

Apesar de amplamente reconhecido, não é demais reforçar,


diante dos recorrentes discursos de retorno ao obscurantismo, que a nossa
Constituição Federal consagrou, em seu art. 2º, a Separação dos Poderes como
princípio fundamental da República, elementar para a organização do Estado
Democrático. Consagrado na teoria de Montesquieu, o sistema de freios e
contrapesos, adrede referido, tem na distribuição de poder o estabelecimento de
controle mútuo entre os que o exercem – uma verdadeira arma contra governos
absolutistas e que busca evitar o abuso de poder e garantir a liberdade dos
cidadãos.

Impedir, ou mesmo ameaçar, o livre funcionamento do Poder


Judiciário desequilibra e enfraquece todo esse complexo sistema, ferindo de
morte a autonomia e os limites necessários para o adequado funcionamento da
própria República – cenário perfeito para a instalação de um regime autoritário.

Neste sentido, não temos dúvidas de que com sua conduta, o


Ministro Augusto Heleno Ribeiro Pereira incorreu, de forma inequívoca,
dolosamente, em crimes de responsabilidade. Ao que se verifica da Lei n. 1.079,
de 1950, são crimes de responsabilidade, ainda que simplesmente tentados,
quando praticados por Ministro de Estado, conforme dispõe o art. 13 do
mencionado Diploma Legal:

Art. 13. São crimes de responsabilidade dos Ministros de Estado;


1 - os atos definidos nesta lei, quando por eles praticados ou
ordenados;
[...]

Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da


República que atentarem contra a Constituição Federal, e,
especialmente, contra:
[...]
II - O livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e
dos poderes constitucionais dos Estados;

Art. 6º São crimes de responsabilidade contra o livre exercício


dos poderes legislativo e judiciário e dos poderes constitucionais
dos Estados:
[...]
5 - opor-se diretamente e por fatos ao livre exercício do Poder
Judiciário, ou obstar, por meios violentos, ao efeito dos seus
atos, mandados ou sentenças;
6 - usar de violência ou ameaça, para constranger juiz, ou jurado,
a proferir ou deixar de proferir despacho, sentença ou voto, ou a
fazer ou deixar de fazer ato do seu ofício;

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Art. 12. São crimes contra o cumprimento das decisões
judiciárias:
1 - Impedir, por qualquer meio, o efeito dos atos, mandados ou
decisões do Poder Judiciário;

A jurisprudência do STF é reiterada no sentido de conferir aos


crimes de responsabilidade praticados de forma autônoma pelos Ministros de
Estado – sem conexão com os crimes de responsabilidade praticados pelo
Presidente da República - a natureza estritamente jurisdicional, entendimento
que remete, “in casu”, à competência dessa Corte para processar e julgar os
fatos narrados na presente Representação:

“Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente,


a guarda da Constituição, cabendo-lhe:
I - processar e julgar, originariamente:
[...]
c) nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade,
os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército
e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art. 52, I, os membros
dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os
chefes de missão diplomática de caráter permanente;
[...]”

A instituição de um “Estado Democrático, destinado a assegurar


o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-
estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma
sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social”,
a teor do que dispõe o Preâmbulo da Constituição Federal, é o objetivo da nossa
República e todos os poderes devem convergir para a sua consecução. Não é
dado a qualquer autoridade pública frustrar, deliberadamente, esse propósito
social, ainda mais, impunemente.

Em razão disso, a simples leitura da nota oficial do Ministro de


Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, AUGUSTO HELENO
RIBEIRO PEREIRA, enquadra-se com perfeição à definição dos crimes de
responsabilidade, no que diz respeito a atentar contra a Constituição e o livre
exercício do Poder Judiciário e do Ministério Público como poder estatal, uma
vez que, deliberadamente, opõe a referida autoridade federal, diretamente e
também por fatos, ao livre exercício do poder judicial e em razão de
expressamente constranger magistrado da Suprema Corte a proferir ou deixar
de proferir decisão ou a fazer ou deixar de fazer ato do seu ofício.

Entre os instrumentos para impedir uma nova ruptura do Estado


Democrático de Direito, o caput do art. 127 da Constituição Federal de 1988
conferiu a importante função institucional ao Ministério Público, de defesa do
regime democrático. Por essa razão, e com respaldo nas decisões recentes
firmadas na jurisprudência do Eg. STF, que atribui a essa Procuradoria-Geral a
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titularidade da ação nos casos de crimes autônomos de responsabilidade
praticados por Ministros de Estado, requeremos sejam adotadas todas as
providências necessárias para que seja assegurada a manutenção da ordem
democrática, extirpando do poder, após o devido processo legal, qualquer
autoridade que ameace corrompê-la.

Se há juízes em Berlim, neste pobre e sofrido Brasil, em meio a


uma grave pandemia, com 25.000 mortos, tudo o que não se deveria estar
tentando dera constranger e tutelar a jurisdição do Supremo Tribunal Federal e
as atribuições, jamais permeáveis a qualquer intimidação, do Ministério Público
Federal.

Ninguém está acima da lei.

Em tempos de tamanha ousadia nos ataques à Democracia e


aos seus símbolos, de intolerância e aviltamento à imprensa livre, de desafio à
ciência, à cultura e ao meio-ambiente é preciso assegurar o primado da
Constituição, remédio testado e aprovado, sem contraindicações.

III - DOS PEDIDOS

Nesse sentido, solicitamos a Vossa Excelência que, na


qualidade de chefe do Ministério Público Federal, requisite a instauração de
inquérito para apurar a licitude do comportamento do Sr. AUGUSTO HELENO
RIBEIRO PEREIRA, Ministro de Estado, em relação aos fatos narrados na
presente representação.

Termos em que pedem deferimento.

Brasília, 28 de maio de 2020.

LÍDICE DA MATA E SOUZA


DEPUTADA FEDERAL

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