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As eleições na Colômbia

Maria Elena Rodriguez1

Com uma votação expressiva que reflete o fervor com que os colombianos foram às
urnas e contrariando as históricas cifras de abstenção, Ivan Duque, candidato da
coalizão de direita, é o novo presidente da Colômbia. Os mais de 10 milhões de votos,
equivalentes ao 53,96% do total da votação, representam a mais alta votação que
jamais tinha alcançado um aspirante à presidência em toda a historia da Colômbia. De
fato, no discurso de comemoração, Duque enfatizou este ponto para mostrar que terá
governabilidade e diminuir a importância de sua falta de experiência de gestão. A vice
de Duque será ademais Marta Lucía Ramírez, primeira mulher a ocupar esse posto no
país.

Com um discurso que embora tentou nos últimos dias incorporar agendas do centro
em assuntos tão centrais como a pauta anticorrupção e a modernidade na politica,
Duque se mostrou firme em suas discordâncias sobre o acordo com as FARC,
especialmente no que diz respeito à justiça transicional e lei de restituição de terras,
bem como seu compromisso com o aprofundamento da agenda neoliberal. Este
resultado demonstra também o acerto de seu padrinho e grande vencedor destas
eleições, o ex-presidente Álvaro Uribe, em lança-lo como sucessor em uma mistura de
uribismo do futuro com um de perfil mais tradicional. O uribismo se consolida como a
maior força política do país desde 2002, tendo em conta que Uribe e seus candidatos
têm vencido todas as eleições presidenciais – com exceção do segundo turno em 2014.

O certo é que a Colômbia continua sendo um país em que predomina a direita.


Enquanto esse setor conseguiu se perfilar atrás de Duque, que deu garantias aos
partidos tradicionais de aprofundar a agenda já em curso, a esquerda não conseguiu se
unificar em torno a Gustavo Petro. O candidato de centro, Sergio Fajardo, ex-prefeito
de Medellín e ex-governador do estado de Antioquia, que obteve mais de 4,5 milhões
de votos no primeiro turno, optou por defender o voto em branco. Demonstrou assim
discordância com o projeto dos dois candidatos.

Os desafios que enfrentará Ivan Duque, que será um dos presidentes mais jovens de
toda a história do continente, não são poucos. O primeiro e talvez mais importante é
reconhecer também o grande triunfo do candidato de esquerda Gustavo Petro, com
uma votação de mais de 8 milhões de votos. Petro, ex-prefeito de Bogotá, onde
ganhou amplamente, baseou sua candidatura em um programa de universalização das
politicas sociais e uma agenda pós-extravista. É a primeira vez que um candidato não
identificado com os setores tradicionais logra um resultado tão significativo nas urnas.
Ultrapassou inclusive a votação histórica de 2,6 milhões de votos em 2006, quando a
esquerda se unificou eleitoralmente. Esse número de votos deve ser interpretado
como uma expressão da indignação, contra a corrupção, a discriminação, a
desigualdade, o clientelismo, como uma expressão da força multitudinária e diversa de
mudança.
Força para o futuro, eleições regionais e locais do próximo ano

1
Professora IRI-PUC-RJ
O grande perdedor foi o atual presidente, Juan Manoel Santos, cujo vice e
candidato a sucessão, Vargas Lleras, não chegou nem ao segundo turno.
Essas eleições significam uma mudança substantiva do cenário político,
realizadas sem violência e sem a assombração da guerra. Nada mais eloquente que a
foto de Timochenko, o principal dirigente das FARC, votando como qualquer cidadão.
Votos em vez de balas, graças a um acordo que, embora imperfeito, salvou milhares de
vidas.
Houve ademais um aumento da participação votaram 19,5 milhões de pessoas,
com a abstenção de 47,02% a mais baixa na historia em uma segunda volta. Vê-se o
retorno dos jovens à política, mostrando nas campanhas, em especial da esquerda,
uma força, um misticismo democrático, como não se via há tempos, abraçando a
modernização da política e questões tão atuais como meio ambiente, paz e
antiextrativismo, contra os aparelhos políticos, o clientelismo e a corrupção.
Assiste-se a uma mudança histórica, o voto de opinião prevalece, recuam nas
regiões mais tradicionais o clientelismo e a compra de votos. Embora os medos de
cada lado do espectro político não tenham desaparecido e foram o centro das
narrativas dos discursos de campanha. O medo do castro-chavismo supostamente
corporificado por Petro e medo da guerra, de Uribe, representado em Duque. Fato que
se reflete na maneira como o país votou nos diferentes estados e regiões. Por
exemplo, se somarmos as enormes diferenças entre Duque e Petro em Antioquia e
Norte de Santander, verificamos que 54% dos mais de dois milhões de votos que
deram a vitória a Duque os obteve nesses dois estados (1.884. 027 [73%] e 486.004
[77,89%], respectivamente), o que é visto como um fenômeno, porque em nenhuma
outra parte do país foram evidenciados os imensos contrastes na votação. Dois
explicações plausíveis nos mostram a força por um lado do uribismo consolidado em
Antioquia, casa do expresidente Alvaro Uribe e a demonização de Petro na fronteira
venezuelana como Castrochavista mais a predominância de interesses paramilitares
seriam, em princípio, algumas das razões para essas diferenças abismais.
A polarização entre esquerda e direita que nunca chegara ao segundo turno
continuou intacta, talvez podemos dizer que nenhum dos dois concorrentes ganhou o
centro, mesmo que os dois tenham moderado seus discursos para ganhar novos
eleitores e os 6,4 milhões de votos em disputa, foram divididos entre os dois partidos
sendo mais fácil para Duque perfilar a centro-direita.
A estratégia de Duque foi capturar os temas fortes de seu adversário: a luta
contra a corrupção, a busca da sustentabilidade ambiental e compromisso com a
educação. Por sua vez o Petro lançou os “12 mandamentos” de sua campanha, para
dar segurança aos eleitores, reiterando o compromisso de não expropriar, não
convocar uma Assembleia Constituinte, a promoção da iniciativa privada e do
empreendedorismo e a garantir a democracia pluralista e a respeitar o Estado Social
de Direito.

Um outro desafio é entender que se trata de governar todos os colombianos, não


apenas para o grupo que o elegeu e, portanto, um esforço deve ser feito para construir
consenso com os outros setores, diferente do seu. Não distorcer as propostas que o
candidato vencedor teve, mas sim tentar incorporar as ideias de outros setores, ou
alcançar consenso em torno de políticas estratégicas. Por isso o Presidente eleito não
terá caminho fácil para fazer mudanças aos acordos com as Farc, ou diminuir os
impostos para as empresas e aumentar a pressão internacional contra o governo de
Nicolás Maduro na Venezuela, não. Ele tem uma responsabilidade histórica que diz
respeito a salvaguardar essa enorme conquista para a sociedade colombiano como foi
o acordo de paz com as Farc.
Por isso no seu discurso ontem à noite, priorizou o convite para todos os setores,
independentemente de terem apoiado ou não nas pesquisas, para construir um
consenso, "virar a página".

Mais de 8’000.000 de eleitores farão parte de um bloco, uma frente de Oposição


pacifica, democrática, uma coalizão pela paz, atenta contra os retrocessos e a
entronização da guerra como opção.

O candidato derrotado, Petro afirmou que estará no Senado para liderar um pais que
deve se manter ativo e mobilizado. As novas regras do jogo político introduzidas com o
Estatuto da Oposição, afirmam que o candidato presidencial derrotado no segundo
turno deve assumir como senador e chefe da oposição e o candidato à vice-presidência
assume um assento na Câmara dos Deputados; O chefe da oposição tem, entre outros,
o direito de responder diante das intervenções do presidente pela mídia. O
fundamental aqui é a necessidade de consolidar uma oposição responsável, ativa,
permitindo o debate a partir da diferença, mas necessário para uma democracia
pluralista e moderna.
Espero que seja o começo de superar demonizações e polarizações inócuas e que que
seja o momento de construir controvérsias sérias, mas respeitosas sobre políticas
públicas centrais, bem como um consenso em torno de questões de interesse nacional.
Talvez a implementação dos Acordos entre o Governo e as FARC deva ser o primeiro
campo de análise e debate que permita alcançar o consenso necessário para sua
adequada implementação. Não devemos esquecer que o que está relacionado com a
paz territorial é algo que irá beneficiar os territórios onde o conflito armado foi mais
intenso, que são os de maiores desequilíbrios em termos de desenvolvimento.

Espero que este seja o momento de superar demonizações e polarizações inócuas e o


começo de construir controvérsias sérias, mas respeitosas sobre políticas públicas
centrais, bem como consensos em torno de questões de interesse nacional. Talvez a
implementação dos Acordos entre o Governo e as FARC deva ser o primeiro campo de
análise e debate que permita alcançar o consenso necessário para sua adequada
implementação. Não devemos esquecer que o que está relacionado com a paz
territorial é algo que irá beneficiar os territórios onde o conflito armado foi mais
intenso, que são os de maiores desigualdades e desequilíbrios em termos de
desenvolvimento.

O peso do conservadorismo segue grande. Mas um ar fresco envolve a política


colombiana, novas maiorias se constituem, um processo de mediação entre o modelo
republicano de governo e as reivindicações de dignidade nacional e justiça social está
em curso.
e Petro cresceu 17% (3.183.640).
O importante voto de Gustavo Petro, a abstenção e os votos em branco devem ser um
alerta para todo o estabelecimento dos poderes na Colômbia
Se a implementação dos acordos de paz (e do PEC) continuar ao longo deste caminho
de anarquia e desordem, com brechas desavergonhadas de parte e parte, novas
explosões violentas serão inevitáveis.
Es claro. Si el gobierno de Duque sigue por la senda de dilaciones, indolencia social,
despilfarro de recursos y burocratismos del gobierno que se va, apretando con crueles
reformas tributarias a la gente, dentro de cuatro años Gustavo Petro tendrá grandes
posibilidades de ganar la presidencia. Si la implementación de los acuerdos de paz (y la
JEP) sigue por esta ruta de anarquía y desorden, con incumplimientos desvergonzados
de parte y parte, los nuevos estallidos violentos serán inevitables. Petro interpretó a
gruesas capas de la población, desesperadas con la desigualdad y la corrupción. Que a
nadie le quepa duda.
conseguiu una candidatura que apeló al sentimiento de cansancio e indignación que ha
crecido entre los colombianos a la pa